Perspectivas VozesChina 77 anos: O futuro em construção Jorge Rodrigues Simão - 30 Set 2026 “Study the past if you would define the future.” Confucius, The Analects O dia 1 de Outubro de 2026 marca o 77.º aniversário da fundação da República Popular da China, proclamada por Mao Zedong em Pequim a 1 de Outubro de 1949, num acontecimento que alterou profundamente o rumo da história chinesa e teve repercussões globais que continuam a fazer-se sentir nos nossos dias. A cerimónia realizada na Praça Tiananmen simbolizou o nascimento de um novo Estado e o início de um projecto nacional que, ao longo de pouco mais de sete décadas, transformou um país devastado por conflitos internos, ocupações estrangeiras e profundas dificuldades económicas numa das maiores potências do mundo. Assinalar esta data não significa apenas recordar um momento histórico. Significa compreender a extraordinária trajectória de uma civilização com mais de cinco mil anos que soube adaptar-se às exigências de diferentes épocas, preservando simultaneamente a sua identidade cultural e a sua visão estratégica de longo prazo. Como observou o historiador Jonathan D. Spence em “The Search for Modern China”, a história moderna chinesa é marcada por sucessivos processos de reinvenção nacional, frequentemente conduzidos em resposta a desafios internos e externos. A China contemporânea constitui talvez o mais impressionante exemplo dessa capacidade de adaptação. Em 1949, a esperança média de vida era reduzida, a pobreza era generalizada e grande parte da população vivia em áreas rurais com baixos níveis de desenvolvimento. Poucos observadores internacionais poderiam imaginar que, menos de um século depois, o país se encontraria na vanguarda da inovação tecnológica, da investigação científica, da indústria transformadora e da economia digital. O percurso não foi linear. Houve períodos difíceis, erros estratégicos, crises e ajustamentos. No entanto, a história das últimas décadas demonstra uma notável capacidade de aprendizagem institucional e de mobilização colectiva. A transformação acelerou significativamente após as reformas lançadas por Deng Xiaoping no final da década de 1970. O académico Ezra Vogel, na sua obra “Deng Xiaoping and the Transformation of China”, descreve esse período como uma das maiores revoluções económicas pacíficas da história moderna. A abertura ao investimento estrangeiro, a criação de zonas económicas especiais, a aposta na educação e a gradual integração nos mercados internacionais permitiram criar as bases da ascensão económica chinesa. Hoje, falar da China é falar da segunda maior economia mundial, de cidades futuristas ligadas por milhares de quilómetros de comboios de alta velocidade, de universidades que competem com as melhores instituições internacionais e de empresas tecnológicas que influenciam mercados em todos os continentes. Em sectores como os veículos eléctricos, as energias renováveis, a inteligência artificial, as telecomunicações e o comércio electrónico, a presença chinesa tornou-se incontornável. No entanto, seria um erro reduzir a actualidade chinesa apenas aos indicadores económicos. O país procura igualmente afirmar uma visão própria da modernidade. O conceito de modernização chinesa tem sido apresentado como uma estratégia de desenvolvimento assente na prosperidade comum, no progresso científico, no equilíbrio ambiental e na valorização da estabilidade social. A ideia procura demonstrar que não existe apenas um modelo possível para alcançar o desenvolvimento e que cada nação deve encontrar caminhos compatíveis com a sua história, cultura e circunstâncias. A tecnologia ocupará inevitavelmente um papel central na próxima etapa da evolução chinesa. A inteligência artificial, a computação quântica, a biotecnologia, a automação industrial e a exploração espacial serão áreas determinantes ao longo da próxima década. O investimento contínuo na investigação científica constitui um dos pilares da estratégia nacional e deverá continuar a moldar o posicionamento internacional da China. A presença chinesa no espaço é um exemplo particularmente ilustrativo dessa ambição. O país já desenvolveu capacidades autónomas de lançamento, mantém uma estação espacial própria e prossegue programas de exploração lunar que testemunham uma visão de longo prazo raramente observada na política internacional contemporânea. Mais do que objectivos científicos, estes projectos representam uma afirmação de capacidade tecnológica e de confiança nacional. Ao mesmo tempo, a China enfrenta desafios complexos. O envelhecimento da população, a necessidade de manter elevados níveis de produtividade, a adaptação a novas dinâmicas económicas e a gestão das mudanças climáticas exigirão respostas inovadoras. O crescimento quantitativo dará progressivamente lugar à procura de crescimento qualitativo. A este respeito, os ensinamentos do sociólogo Fei Xiaotong permanecem actuais. Em “From the Soil”, o autor recorda que a estabilidade e o progresso de uma sociedade dependem da capacidade de harmonizar tradição e modernidade. A China parece consciente dessa necessidade. O objectivo não consiste apenas em crescer, mas em construir uma sociedade mais equilibrada, sustentável e tecnologicamente avançada. A questão ambiental merece igualmente destaque. Durante décadas, o desenvolvimento acelerado trouxe consigo custos ecológicos significativos. Contudo, a realidade dos últimos anos demonstra uma aposta crescente nas energias limpas, na mobilidade eléctrica e na inovação ambiental. A liderança mundial na produção de painéis solares, baterias e veículos eléctricos evidencia a importância estratégica atribuída à transição energética. O futuro económico da China estará inevitavelmente ligado à capacidade de liderar também a revolução verde do século XXI. No plano internacional, o papel da China continuará a expandir-se. O país é hoje um parceiro económico fundamental para dezenas de Estados e um dos principais motores do comércio global. A sua participação em iniciativas internacionais, em grandes projectos de infra-estruturas e em organismos multilaterais demonstra uma presença internacional cada vez mais abrangente. Henry Kissinger escreveu em “On China” que a política chinesa é frequentemente orientada por horizontes temporais mais longos do que aqueles que predominam em muitas democracias ocidentais. Essa observação continua particularmente relevante. Ao analisar os objectivos definidos por Pequim para as próximas décadas, percebe-se uma estratégia que ultrapassa ciclos políticos imediatos e procura posicionar o país para horizontes de médio e longo prazo. É neste contexto que Macau assume uma relevância especial. A Região Administrativa Especial de Macau ocupa um lugar singular dentro da realidade chinesa. A sua história, profundamente marcada pelo encontro entre as culturas chinesa e portuguesa, transformou o território numa das mais bem-sucedidas experiências de intercâmbio cultural do mundo. Poucos lugares conseguiram preservar, ao longo de tantos séculos, uma convivência tão rica entre diferentes tradições, línguas e visões do mundo. Desde o retorno à pátria em 1999, Macau conheceu um extraordinário desenvolvimento económico e consolidou a sua importância estratégica. Actualmente, a cidade é muito mais do que um destino turístico internacional. É uma plataforma de serviços, um centro de intercâmbio económico e um ponto privilegiado de ligação entre a China e os países de língua portuguesa. Esta vocação internacional poderá tornar-se ainda mais relevante nos próximos anos. Num cenário global caracterizado por transformações geopolíticas rápidas, a capacidade de construir pontes entre diferentes espaços económicos e culturais adquire um valor crescente. Macau possui precisamente essa vantagem competitiva. A integração na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau constitui uma das mais importantes oportunidades da sua história recente. Esta região reúne Macau, Hong Kong e nove cidades da província de Guangdong num dos maiores e mais dinâmicos espaços económicos do planeta. A estratégia pretende reforçar a inovação, a conectividade, a cooperação empresarial e o desenvolvimento de sectores avançados. Para Macau, esta realidade abre perspectivas extraordinárias. A cidade poderá desempenhar um papel cada vez mais relevante em áreas como a investigação científica, as finanças modernas, a medicina tradicional chinesa, a economia digital, a educação superior e os serviços profissionais internacionais. Simultaneamente, continuará a afirmar-se como ponte privilegiada entre a China e as comunidades lusófonas espalhadas pela Europa, América do Sul, África e Ásia. Mas talvez o maior activo de Macau não seja económico. Talvez seja cultural. Num mundo frequentemente marcado pela polarização, Macau representa um exemplo concreto de convivência entre civilizações. As suas ruas, os seus edifícios históricos, a sua gastronomia, as suas tradições e a sua diversidade linguística recordam diariamente que o diálogo entre culturas não é apenas possível; é enriquecedor. Ao celebrar o Dia Nacional da República Popular da China em 2026, Macau participa simultaneamente em duas histórias complementares. Participa na história milenar da nação chinesa e na sua própria história de abertura ao mundo. É precisamente essa dupla identidade que lhe confere uma relevância ímpar. O futuro apresenta desafios, mas também possibilidades extraordinárias. A China continuará a procurar inovação, prosperidade e modernização. Macau continuará a afirmar-se como uma ponte de entendimento e cooperação internacional. Juntas, estas duas trajectórias ilustram uma ideia fundamental de que o progresso mais sólido é aquele que respeita a memória sem recear a mudança. Passados 77 anos sobre a fundação da República Popular da China, a dimensão da transformação alcançada é inegável. O país que procurava reconstruir-se em 1949 tornou-se uma referência global em múltiplos domínios. O caminho não termina aqui. Pelo contrário, talvez esteja apenas a entrar numa nova fase. Se o século XX foi marcado pelo renascimento da China, o século XXI poderá ficar na história como o período da sua afirmação plena enquanto potência científica, tecnológica, económica e cultural. E nesse percurso, Macau continuará a desempenhar um papel especial como cidade de encontro, de diálogo e de futuro. Num tempo em que tantas nações procuram respostas para as incertezas do mundo contemporâneo, a experiência chinesa demonstra que visão estratégica, investimento no conhecimento, confiança nas capacidades nacionais e abertura à inovação podem transformar profundamente o destino de um povo. É essa mensagem que o 1 de Outubro de 2026 simboliza. Mais do que a celebração de um aniversário, representa o festejo de uma caminhada histórica que continua a projectar-se para o futuro, envolvendo não apenas a China continental, mas também Macau, cuja contribuição para a história e para o futuro da nação permanece única e indispensável.