Abandonar os indesejáveis (2)

Na semana passada, falámos sobre uma clínica privada no Condado de Yinan, Província de Shandong, na China continental, que declarou numa publicação que iria concentrar os seus recursos nos pacientes que podem pagar os tratamentos. Esta publicação chamou de imediato a atenção dos departamentos governamentais. Depois de investigarem, declararam que o conteúdo da publicação infringe a ética médica e foi ordenado que a clínica o corrigisse. Também mencionámos o livro de medicina a “Sinceridade do Bom Médico”, de Sun Simiao, um famoso especialista da Dinastia Tang, que enumera os princípios a que um bom médico tem de obedecer, sendo o mais importante “ter um coração benevolente e mãos habilidosas”. Hoje, vamos tentar compreender mais profundamente o significado da expressão “coração benevolente e mãos habilidosas”.

Sun sublinhou que a primeira condição para tratar os doentes é cultivar a compaixão e fazer voto de dedicação a todos os seres conscientes. Durante o tratamento, o médico não pode preocupar-se consigo próprio, nem ter qualquer vaidade; quando vê a dor e o sofrimento do paciente, deve sentir empatia — isto é benevolência.

Como é que Sun demonstrou benevolência na sua prática médica? Registos online comprovam que certa vez, Sun encontrou um tigre com olhos fulminantes nas montanhas e ficou aterrorizado. No entanto, o tigre não o atacou, em vez disso abriu muito a boca e lançou um enorme lamento. Sun aproximou-se corajosamente e descobriu um osso preso na boca do tigre, que o impedia de comer. Sun queria salvar o tigre, mas aproximar-se da sua boca era muito perigoso. De repente, reparou num aro de cobre preso num poste e teve uma inspiração súbita. Tirou-o e colocou-o na boca do tigre, impedindo assim que ele a fechasse. Então avançou e retirou o osso, salvando o animal. Mais tarde, os discípulos de Sun passaram a ter com eles aros de cobre com objectos afiados pendurados que tilintavam quando eles andavam, identificando-se desta forma como seus aprendizes. Depois da morte de Sun, todas as lojas de medicina chinesa passaram a venerá-lo como “O Rei da Medicina”. Posteriormente, quando os discípulos de Sun passavam por uma destas lojas, era-lhes pedido para não fazer qualquer som com os aros de cobre, em sinal de respeito pelo Mestre.

Outra história que comprova a benevolência de Sun envolve o Imperador Taizong da Dinastia Tang, na antiga China. O Imperador Taizong sofria de aperto no peito que lhe provocava dor e chamou todos os médicos imperiais, mas nenhum o aliviou. Então os seus ministros recomendaram-lhe Sun. Depois de examinar a pulsação do Imperador, Sun propôs-lhe que entregasse as vestes imperiais, as concubinas e o trono depois de Sun o ter curado com sucesso. Na China antiga, estas condições equivaliam a usurpar o trono. Os ministros ficaram sem fala. O Imperador ficou tão zangado que vomitou sangue e desmaiou. Nesse momento, Sun disse:

“A doença já está meio curada.”

Depois Sun pegou nas agulhas douradas e tratou o Imperador com acupunctura e, depois de ele acordar, Sun disse-lhe que sofria de congestão toráxica, local onde a medicação não conseguia chegar e onde a acupuntura era ineficaz. Só invertendo o fluxo sanguíneo se podia ultrapassar a congestão e ele poderia ser aliviado. A única forma de o conseguir era através da raiva, especificamente da fúria. Por isso, Sun disse o que disse para provocar o Imperador Taizong.

Salvar o tigre foi um acto de benevolência, porque Sun acreditava que todos os seres possuem um espírito, e mesmo os animais mais humildes devem ser tratados com o máximo cuidado, pois a vida é insubstituível. Sun não pensou se o Imperador poderia matar toda a sua família e provocou-o com o objectivo de o salvar. Salvar os outros em detrimento da nossa própria segurança é precisamente a expressão de benevolência.

Na próxima semana, analisaremos o significado da expressão mãos benevolentes e habilidosas e discutiremos a forma de as clínicas e os pacientes resolverem a questão do pagamento dos tratamentos.

27 Jan 2026

Há campeão no final da segunda volta

Não, não vou escrever sobre o que irá acontecer no final da segunda volta do nosso campeonato nacional de futebol. Nesse campo, teríamos muito para explanar, já que o Futebol Clube do Porto, o Sporting e o Benfica, mais uma vez, são os três clubes que, de entre eles, um festejará no Marquês de Pombal ou nos Aliados. Está a ser uma segunda volta muito disputada, com um F C Porto fortíssimo e bem treinado, com um Sporting ainda com esperança de conquistar o tri, apesar das inúmeras baixas e de um bom treinador ter andado a cozinhar omeletas sem ovos e um Benfica com um treinador mundialmente famoso com jogadores que custaram milhões e que não dão uma para a caixa. No final da segunda volta tudo se irá saber se os festejos serão com milhares de cachecóis azuis, verdes ou vermelhos.

Uma outra segunda volta está a decorrer. Ui, que segunda volta e que “campeonato” disputado a duas mãos: António José Seguro e André Ventura. Foram os dois candidatos a Presidente da República que receberam do povo mais votos. E agora, terá de se realizar uma segunda volta de eleições presidenciais a fim de um dos candidatos ser eleito por maioria absoluta. A Irlanda e a Islândia resolvem logo a eleição à primeira volta, com uma maioria simples. Não estão virados para, passado uns dias, voltarem ao “trabalho” de se deslocarem às urnas.

Seguro e Ventura, de qualquer modo, surpreenderam muita gente. No início da campanha ouvimos várias pessoas a dizer que nem um nem outro teriam qualquer hipótese de ficarem nos dois primeiros lugares. Uma parte do país estava convencida que Gouveia e Melo iria à segunda volta pelo bom desempenho que teve durante a pandemia Covid19. Mas não, o povo não esteve virado para colocar um militar na Presidência da República. Outra parte do país, especialmente no Norte, dava Marques Mendes como indiscutível candidato presente na segunda volta. Tinha tido o apoio na campanha de Luís Montenegro e tudo indicava que a AD, Montenegro e o Governo não viessem a ter uma derrota estrondosa.

Ainda tivemos outra surpresa: Cotrim Figueiredo partiu quase dos oito por cento da Iniciativa Liberal, foi conquistando apoios através de uma boa máquina nas redes sociais e chegou a estar em empate técnico com os candidatos Seguro e Ventura. No entanto, Cotrim nunca esperou que na última semana de campanha viesse uma senhora assessora no Governo, acusá-lo de assédio sexual. Pronto, a bronca estava nas bocas do mundo e o culpado ou inocente Cotrim veria a sua prestação desmoronar para o precipício e, no final, ficar muito longe de uma eventual segunda volta.

António José Seguro, que iniciou esta caminhada presidencial sozinho, a mostrar-se um homem moderado, com mais experiência e com um contacto directo com a juventude ao exercer o professorado universitário durante praticamente 10 anos, viu que as suas hipóteses de ir a uma segunda volta aumentavam de semana a semana, especialmente depois de os “tubarões” do Partido Socialista manifestarem o apoio à sua candidatura. De tal forma, que venceu as eleições com uma vantagem indiscutível. A maioria dos portugueses diz que Seguro será o campeão nesta segunda volta. Aconselhamos essa maioria a ter muita calma, e lembrar-se do que aconteceu com Fernando Medina na edilidade lisboeta – “Ah, está ganho, nem vale a pena ir votar!” – e pensar que o adversário se chama André Ventura, o astuto, inteligente, rude, racista e xenófobo político que apregoa aos quatro ventos que tudo tem de mudar, que o país tem sido governado por uma cambada de corruptos, que os imigrantes têm de voltar para a sua terra, que os apoios sociais devem ir primeiramente para os portugueses, que os salários e as pensões não podem ser miseráveis, em resumo, pega no megafone e grita tudo aquilo que os descontentes, os neofascistas ou os antigos milhares de bufos da PIDE, gostam de ouvir. E ainda existe uma particularidade incompreensível de termos os nossos emigrantes, que escutam o discurso de que os imigrantes devem voltar para a sua terra e que não pensam duas vezes se ouvissem o mesmo discurso nos países onde trabalham como a França, Suíça, Alemanha, EUA ou Austrália, e que mesmo assim, decidem votar em Ventura.

Atenção, aos apoiantes de Seguro. Nada está ganho, e por um voto se ganha e por um voto se perde. Se os apoiantes de Seguro pensarem que o campeão desta segunda volta está encontrado, podem vir a ter um grande dissabor se não forem em massa votar, e não só. Todos os democratas ficariam de rastos ao ver pela primeira vez, em mais de 50 anos de democracia, um neonazi no Palácio de Belém.

26 Jan 2026

Por detrás das notícias

No final de 2025, um certo jornal lançou um concurso para “As dez maiores histórias de 2025”. O que faz com que uma notícia seja significativa? Cada um de nós terá o seu critério. Para mim, o seu impacto é o que verdadeiramente importa.

A prosperidade e a estabilidade de uma sociedade são inseparáveis da sua economia e da sua prática política. Uma governação competente conduz naturalmente à prosperidade económica. Para que as políticas governamentais estejam alinhadas com o desenvolvimento social e respondam às aspirações dos cidadãos, a supervisão pública é tão importante como a capacidade dos vários gabinetes do Governo. Quem detém o poder tem frequentemente dificuldade em ver para lá da sua própria posição, e a altura dessa posição pode facilmente determinar a amplitude do seu pensamento. O ditado “quem está envolvido confunde-se facilmente, mas quem está de fora vê claramente” indica que quem está envolvido nas situações não tem objectividade suficiente para as avaliar. Se assumirmos que “quem detém o poder” é sinónimo de “autoridades competentes”, a sua implicação torna-se ainda mais profunda.

Por exemplo, o encerramento dos “casinos- satélite”, com apenas um de dez a sobreviver, trouxe um impacto negativo nos distritos comerciais circundantes muito evidente, especialmente nas lojas do Porto Interior que estavam originalmente ligadas ao Casino Ponte 16. Embora a intenção de restringir a operação das actividades do jogo a locais licenciados possa não ser um problema por si só, o encerramento dos “casinos-satélite” abalou a estrutura fundamental e perturbou a relação simbiótica entre eles e o comércio circundante. Para os grandes operadores de jogo, a receita dos “casinos-satélite” é insignificante, mas para os operadores e os trabalhadores dos pequenos casinos essas receitas garantiam a sua sobrevivência.

Quando todas as receitas se concentram nos grandes operadores do jogo assistimos à monopolização do sector e os casinos-satélite tendem a desaparecer.A Bíblia lembra aos agricultores para não apanharem todos os grãos durante a colheita e deixarem alguns para aqueles que precisam e o objectivo é manter o sustento dos mais vulneráveis. À medida que o fosso económico se alarga e a luta dos mais pobres para se manterem à tona se intensifica, como é que será possível manter a paz na sociedade? Deveria ter havido planos de contingência para lidar com o impacto negativo sofrido pelos comerciantes dos arredores dos “casinos satélite” que iam ser encerrados. Será tarde demais para tomar medidas?

Os poderes executivo e legislativo são os dois pilares que sustentam a estabilidade social. Nas eleições de 2025 para a Assembleia Legislativa, o número de votantes bateu um novo recorde,mas houve 5.987 votos em branco e 7.053 votos nulos nas eleições por sufrágio directo, os números mais altos em todas as eleições desde o regresso de Macau à soberania chinesa. A grande remodelação dos principais membros do Governo da RAEMe a nomeação comoVIII Presidente da Assembleia Legislativa do antigo Secretário para a Administração e Justiça, Cheong Weng Chon, demonstram a determinação do Governo local em escolher“patriotas para governar Macau”e a“predominância do poder executivo”.

As histórias acima citadas são certamente notícias importantes. No entanto, dada a recente volatilidade dos contextos nacionais e internacionais, se as lideranças não tiverem supervisão nem orientação, apenas escutam elogios e críticas positivas e deixam de ver os perigos potenciais, apenas vislumbram luzes verdes nos seus percursos, pelo que correm o risco de vir a sofrer de “daltonismo político”. Estas preocupações merecem ponderação. A última peça escolhida pelo jornal como candidata às “As dez maiores histórias de 2025” foca-se “na prisão de um homem chamado Ao pela Polícia Judiciária, suspeito de ter um conluio de longa data com forças estrangeiras hostis, que fornecia informações falsas e instigadoras incitando ao ódio ao Governo Central e ao Governo de Macau. Depois do interrogatório, Ao foi detido, marcando a primeira acusação ao abrigo da Lei relativa à Defesa da Segurança do Estado da Região Administrativa Especial de Macau”. Acredito que esta história possa vir a ser uma das seleccionadas para “As dez maiores histórias de 2025” e notícias sobre o caso de Ao terão também uma alta probabilidade de serem escolhidas para “As dez maiores histórias de 2026”.

25 Jan 2026

O Irão na Tempestade Perfeita

“History moves in waves, but regimes fall in moments.”

Anne Applebaum

 

A República Islâmica do Irão encontra-se, desde o início da década de 2020, no centro de uma confluência de factores internos e externos que configuram um dos períodos mais críticos da sua história contemporânea. A acumulação de tensões políticas, económicas, sociais e geoestratégicas produziu uma verdadeira “tempestade perfeita”, na qual dinâmicas estruturais de longa duração se articulam com choques recentes, expondo fragilidades profundas do regime teocrático e revelando novas formas de contestação e de reconfiguração regional.

O sistema político iraniano assenta num modelo híbrido, onde instituições republicanas coexistem com estruturas teocráticas dotadas de poder de veto. O Líder Supremo, figura central do regime, detém autoridade superior a qualquer órgão eleito, controlando as Forças Armadas, sistema judicial, serviços de segurança e os principais meios de comunicação. O Conselho dos Guardiães, responsável pela filtragem de candidaturas, impede a emergência de competição política genuína, assegurando a continuidade ideológica do regime.

Este arranjo institucional, concebido para preservar os princípios da revolução islâmica, evoluiu para uma autocracia consolidada, sustentada por uma elite clerical estreitamente articulada com a Guarda Revolucionária (IRGC). Inicialmente criada para proteger a revolução, a IRGC transformou-se num actor multifacetado com influência transversal. Para além do seu papel militar, controla sectores estratégicos como energia, construção civil, telecomunicações e redes financeiras paralelas, constituindo um complexo militareconómico que limita reformas e reforça a interdependência entre poder religioso e poder coercivo. Esta fusão aproxima o Irão de modelos de “autoritarismo militarizado”, embora com especificidades derivadas da sua natureza teocrática.

A morte de Mahsa Amini, em 2022, desencadeou a mobilização social mais significativa desde 1979. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” ultrapassou rapidamente a questão do véu obrigatório, transformando-se numa contestação estrutural ao regime. A amplitude sociológica dos protestos envolvendo mulheres, jovens urbanos, estudantes, trabalhadores e minorias étnicas evidenciou a profundidade do descontentamento acumulado.

A resposta estatal, marcada por repressão sistemática, detenções em massa e relatos de tortura e julgamentos sumários, não eliminou a contestação; apenas a deslocou para formas mais difusas, digitais e subterrâneas. Entre 2025 e o início de 2026, o país viveu a fase mais violenta desde 1979, com milhares de mortos e dezenas de milhares de detenções. Organizações de direitos humanos estimam mais de 3300 mortos e 24000 detidos, números possivelmente superiores devido ao apagão da internet. O próprio regime admitiu “vários milhares” de mortos algo sem precedentes.

A classificação de manifestantes como mohareb (“guerra contra Deus”), crime punível com pena de morte, reforçou a percepção de que o Estado opera num regime de “emergência permanente”. A presença reforçada da IRGC e das milícias Basij transformou várias cidades em espaços de controlo militar de facto.

O regime não se encontra à beira de colapso imediato, mas entrou numa fase de fragilidade estrutural acelerada. A economia deteriorase mais rapidamente do que a capacidade repressiva consegue compensar, e a legitimidade interna atingiu o ponto mais baixo em décadas. A revolta de Janeiro de 2026 é frequentemente descrita como a mais abrangente e socialmente inclusiva desde 1979, marcando uma ruptura irreversível na relação entre sociedade e Estado.

As periferias étnicas como curda, balúchi, árabe e azeri assumem um papel central na contestação. A repressão militarizada reflecte o receio do regime de que reivindicações identitárias evoluam para movimentos separatistas, fenómeno observado noutros Estados multiétnicos sob regimes autoritários.

No plano externo, o Irão reforçou a sua política regional assertiva como mecanismo de sobrevivência estratégica. Através de alianças com grupos armados no Líbano, Iraque, Palestina e Iémen, Teerão procura projectar poder, criar zonas de influência e dissuadir adversários. Esta estratégia híbrida simultaneamente ideológica e pragmática permite ao regime compensar o isolamento diplomático e manter relevância geopolítica, mas intensifica tensões com os Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo. A retórica entre Washington e Teerão atingiu níveis particularmente elevados após 2025, com declarações americanas classificando um eventual ataque ao Líder Supremo como “guerra total”. Este ambiente contribui para uma volatilidade regional persistente.

O programa nuclear iraniano permanece um dos elementos mais sensíveis da política internacional. A retirada dos Estados Unidos do JCPOA, em 2018, desencadeou uma aceleração do enriquecimento de urânio, aproximando o país de níveis compatíveis com capacidade militar. A opacidade das actividades nucleares alimenta suspeitas e aumenta o risco de confrontos directos ou indirectos. Uma eventual capacidade nuclear militar teria implicações profundas para o equilíbrio de poder no Médio Oriente.

A economia iraniana enfrenta uma crise estrutural marcada por sanções internacionais, má gestão interna e corrupção sistémica. A desvalorização da moeda, a inflação persistente e o elevado desemprego juvenil alimentam o descontentamento social. A dependência do petróleo limita a diversificação económica, enquanto o controlo da IRGC sobre sectores lucrativos bloqueia a concorrência e a inovação. O resultado é um ciclo de instabilidade que se autoreforça.

Apesar da repressão, o regime recuperou algum controlo operacional no início de 2026, com a reabertura parcial de escolas e universidades e o reforço da vigilância digital. Contudo, esta estabilidade é frágil e assenta em mecanismos coercivos cada vez mais sofisticados. Até 2030, o autoritarismo iraniano tende a evoluir para um modelo híbrido que combina repressão física com controlo algorítmico avançado como reconhecimento facial, monitorização preditiva de redes sociais e restrições personalizadas de acesso à internet. Este “autoritarismo digital” reduz custos de repressão e aumenta a eficiência do controlo social.

Paralelamente, a sociedade iraniana continuará a transformar-se. A juventude, conectada ao mundo digital e exposta a valores globais, tende a radicalizar a recusa da legitimidade do regime. A diáspora, em expansão, poderá consolidar-se como pólo de oposição transnacional. A resistência cultural como cinema, literatura, moda, redes feministas clandestinas deverá intensificar-se, aprofundando o fosso entre sociedade e Estado.

Até 2030, três cenários principais podem ser considerados sendo o primeiro de autoritarismo tecnológico consolidado como o mais provável, com manutenção do poder através de vigilância digital, controlo económico e alianças externas. O segundo com transição gradual desencadeada por crise económica extrema, disputa sucessória ou pressão internacional coordenada e a terceira de ruptura abrupta provocada por colapso económico, cisões internas na IRGC ou protestos massivos incontroláveis.

Assim, o Irão encontra-se num ponto de inflexão histórico. A estabilização aparente do início de 2026 não resolve as contradições profundas entre sociedade e regime, nem elimina os riscos geopolíticos que envolvem o país. Até 2030, o Irão poderá consolidar um autoritarismo digital sofisticado, afirmar-se como pivô geopolítico euroasiático ou entrar num processo de transição. Independentemente do cenário, continuará a desempenhar um papel central no equilíbrio político e securitário do Médio Oriente.

22 Jan 2026

Vidas Passadas – nem todo o amor é para ser vivido

Trago à discussão o filme que teve duas nomeações aos Óscares em 2024, Vidas Passadas (Past Lives), da realizadora e argumentista Celine Song. O título remete para a narrativa romântica, de vidas e encontros predestinados, e o filme trabalha de uma forma extremamente delicada isso mesmo: o encontro e o desencontro.

A história do filme é seguinte: Nora Moonemigra da Coreia do Sul com a sua família aos 12 anos e deixa para trás um amor de escola, que volta a reencontrar duas vezes ao longo do tempo. A primeira vez de forma digital, 12 anos depois, e a segunda, presencialmente, 12 anos depois disso. O filme baseia-se essencialmente no conceito coreano de in-yeon, um conceito budista de que existem ligações acumuladas ao longo das vidas, uma ideia de “destino” ou de “fado”. Há vários ângulos que poderão ser discutidos a propósito do filme (sem querer partilhar muitos spoilers), mas gostaria de trazer dois em particular. Um deles é o da sensualidade do silêncio, e o outro, a importância dos amores não vividos.

O filme tem uma cinematografia que nos oferece silêncios e olhares de grande profundidade. Nota-se que há desejos sem beijos, sem carícias, sem nudez. Os espectadores são transportados para momentos de ambiguidade que exigem maturidade emocional. Um mergulho nesses domínios não-verbais onde as palavras deixam de ser suficientes. O que não é dito, os pequenos frames que nos deixam suspensos no tempo e no pensamento, intensificam a sensualidade porque deixam parte à imaginação. Apesar de o filme, num primeiro momento, sugerir um triângulo romântico – isto porque Nora Moon já estaria casada quando se encontra presencialmente com a sua paixão de escola – conseguiu não cair em nenhum cliché, nem em nenhuma fórmula conhecida. Deixa-nos a pensar sobre muita coisa: sobre vidas, expectativas, amor, imigração, desejos, sonhos. E a sensualidade não se perde, sustenta-se na delicadeza das expressões faciais, e dos pequenos detalhes do cenário. Dentro da incerteza abrem-se espaços de possibilidade, oferecidos ao espectador, para que fizesse parte da história, como se uma co-criação fosse possível. Não há sensualidade bruta, mas uma compreensão sobre ela. Trazer esse exercício para o grande ecrã parece-me necessário, neste mundo que tenta puxar pelas certezas e por contrastes definidos e inflexíveis.

E depois, claro, toda esta atmosfera traz-nos ainda outra realidade: que o amor e o erotismo vivem tanto de grandes planos divinos como de escolhas. A forma como as vidas não-vividas são elaboradas, quase como fazendo o luto por elas, é o tema central do filme. As vidas escolhidas assumem a morte de outras, e estes amores defuntos ainda existem no pano de fundo, alimentando desejos e amores que permanecem ativos. Estas perdas são também atravessadas pela experiência da imigração: pelas línguas que se perdem e se ganham, e pelas versões do eu que ficam ancoradas a um lugar que já não existe. O luto das nossas múltiplas versões, ou das relações que não se tiveram, não deixam de ser terreno fértil. Não precisamos de olhar para eles como uma perda inconsolável, mas uma perda que faz parte da experiência, acolhida e cuidada, geradora de significado e de pertença a outros universos. A maturidade afectiva que o filme elabora pode não ser muito sexy no grande ecrã, mas é essencial à vida, e às versões maturadas da mesma. O filme mostra-nos que o real – o vivido – pode ser romântico. Sem grandes personagens, sem grandes heroínas ou vilões, só pessoas a darem sentido ao mundo que as rodeia.

Diz-nos a tradição coreana, evocada no filme, que os encontros verdadeiramente significativos resultam de inúmeras ligações acumuladas ao longo do tempo, por vezes pensadas como atravessando várias vidas. No folclore chinês, japonês e coreano, de base budista, fala-se de um fio vermelho atado a cada bebé que nasce, ligando-o às pessoas que irá encontrar ao longo da vida. Entre destino e possibilidade, há uma beleza indiscutível no momento em que cada pessoa se encontra: nas pessoas com quem se cruza, e também naquelas que deixa para trás. Vidas Passadas lembra-nos que o amor não vive apenas dos grandes triunfos ou dos gestos extraordinários, mas das escolhas que fazemos — e das perdas que aprendemos a integrar. Nem todo o amor é para ser vivido; alguns existem para nos ensinar a viver.

21 Jan 2026

Abrir mão dos indesejáveis (I)

Num artigo que circulou recentemente online pode ler-se que uma clínica privada no Yinan County, Província de Shandong, China continental, fez uma publicação com o título “Abrir Mão dos Pacientes de Baixo Nível”, da qual seguem os seguintes excertos:

“Os pacientes de mais baixo nível querem pagar um dólar por atendimento médico que custa dez, exames que custam cem e por serviços que custam milhares! Depois tornam-se exigentes, tentam extorquir-nos e se não satisfizermos as suas exigências evocam a ética médica para nos chantagear.”

“Os pacientes de nível superior são muito diferentes! Desde que tenhamos capacidade para resolver os seus problemas, nunca se queixam. Mesmo que o preço seja razoável ou mesmo um pouco alto, estão dispostos a pagar!”

“Quando se abre uma clínica, nunca se pode salvar toda a gente. Algumas pessoas têm a alma doente, não o corpo. A compaixão excessiva é o maior inimigo de uma clínica! Praticar medicina implica ter competências e gerir um negócio implica saber seleccionar.”

O que sente o leitor depois de ver estes excertos?

A comunicação social revelou que Wang, o responsável pela clínica citada, viu estes conteúdos online, considerou-os razoáveis e publicou algumas afirmações para “se proteger”. Afirmou que alguns pacientes se queixam do custo elevado dos tratamentos e outros tentam deliberadamente dificultar a vida aos médicos. Admitiu que o conteúdo da publicação podia deixar alguns pacientes desconfortáveis mas sublinhava que o funcionamento da clínica implica despesas, acrescentando, “Quando gerimos uma clínica, não esperamos salvar toda a gente; a compaixão excessiva não é aceitável.”

Posteriormente, o Gabinete de Saúde e Bem-Estar do Condado de Yinan criou uma equipa para investigar o incidente. As autoridades declararam que os conteúdos desta publicação violavam a ética médica e que a clínica também transgrediu a moral da classe, ordenando que rectificasse de imediato a situação. A publicação não foi retirada.

No livro de medicina “A Sinceridade do Bom Médico” escrito por Sun Simiao, um famoso especialista em medicina tradicional chinesa que viveu na Dinastia Tang, na antiga China, o autor declara que os melhores médicos devem ser calmos, resolutos, altruístas, concentrados e que não devem ambicionar fortuna ou fama quando tratam os seus pacientes. Além disso, devem ser compassivos e fazer um voto de salvar todos aqueles que precisam.

Quando os doentes procuram ser tratados, não importa saber quem são, qual o seu estatuto, a nacionalidade, a conta bancária, a idade, a aparência, a moralidade, se são aliados ou adversários, inteligentes ou tolos; devem todos ser tratados como membros da família, com a mesma compaixão.

Durante o tratamento, não devemos hesitar, nem ter em consideração a nossa sorte ou o nosso infortúnio, não valorizar a nossa própria vida; depois de vermos o sofrimento e a aflição do doente, é preciso senti-los como se fossem nossos. Não devemos evitar dificuldades e perigos durante o tratamento; quer seja de dia ou de noite, faça um calor abrasador ou um frio glaciar, mesmo quando temos fome, sede, ou estamos exaustos, é preciso tratar os doentes com total dedicação, sem procurar créditos ou glória.

Um bom médico que salva vidas age desta forma; por outro lado, quem não age assim é como uma grande praga que prejudica o povo.

Estas passagens sublinham as condições necessárias para se ser um médico altamente qualificado. Traduzido para a actualidade, diríamos que é preciso “um coração benevolente e mãos habilidosas.”

Na próxima semana, continuaremos a analisar o tema da vocação médica, do significado de “coração benevolente e mãos habilidosas” e de como resolver conflitos entre clínicas e pacientes.

20 Jan 2026

Este país não é para grávidas

As jovens em Portugal vivem num dilema. As que estudam e acabam um curso superior. As que trabalham nas mais diversas profissões, nomeadamente na limpeza das ruas das cidades, como cuidadoras informais, empregadas de restaurantes, em fábricas, coordenadoras de plataformas digitais, enfermeiras, advogadas, motoristas da Uber, funcionárias de lojas, médicas, arquitectas e tantas, tantas profissões que podemos imaginar. E o dilema é o seu futuro. Ao terminarem um curso ou começar a trabalhar, grande número de jovens com 25, 30 e até 35 anos continuam a viver nas casas dos pais porque o rendimento mensal não lhes é suficiente para comprar ou arrendar uma casa. Outras, ao conseguirem a sua independência e ao comprometerem-se com um namoro ou casamento, depois deparam-se com a realidade. O sonho de ter filhos.
O facto de engravidar e ter um filho parece, à primeira vista, algo de normal. Mas não é. Nos dias de hoje em Portugal sabemos que a natalidade tem diminuído muito e que o país já possui um número maior de velhos do que jovens. Quanto à natalidade, vários factores contribuem para que as jovens e até já mulheres com 40 anos, mesmo as comprometidas com um companheiro ou marido, deparam-se com casas cada vez mais caras, com um salário que não lhes permite sequer arrendar uma casa, se concretamente viverem em Lisboa, Porto, Coimbra ou Évora. As jovens começam a fazer contas à vida e pensam logo como é que será possível engravidar se continuam nas casas dos pais, algumas com o companheiro, então, como é possível arrendar uma casa para poder ter um filho se o salário mínimo nacional é um dos mais baixos da Europa, como é que podem comprar uma casa a prestações se nem os pais se disponibilizam para ser fiadores, como é que vão engravidar se depois passam meses em consultas hospitalares com uma espera de horas e horas e faltando ao trabalho, como é que podem engravidar se começam em pânico ao ouvir as notícias de que uma grávida teve o parto em casa sem apoio médico, numa ambulância, no carro particular do marido ou mesmo no chão da rua, como é que podem pensar em ter filhos se essas mesmas notícias que ouvem transmitem a sensação de dor e amargura porque ficam a saber que a maioria das urgências de Pediatria e Ginecologia – Obstetricia encontram-se encerradas e que as grávidas chegam a ser transportadas de ambulância numa distância de 200 e 300 quilómetros andando de hospital em hospital para encontrar uma urgência aberta. Alguns dirão que o Governo melhorou o serviço de atendimento do INEM e que as grávidas podem saber qual a urgência que está disponível. Pois, disponível a mais de 100 quilómetros. E não falemos em INEM. Se formos por aí, nem existem ambulâncias e respectivas macas que cheguem para socorrer a população. Ainda recentemente assistimos à morte de três portugueses por falta de socorro do INEM. De tal forma, o facto foi de extrema gravidade que os bombeiros voluntários decidiram colocar as suas ambulâncias ao dispor do INEM. Uma medida a merecer os melhores encómios a este acordo entre os bombeiros e o INEM, que salvou de imediato a vida de vários pacientes. Mas, claro, tinha de aparecer o “demónio”. Acto contínuo, uma Protecção Civil, que tem servido para disponibilizar “tachos” aos amigos dos governantes, veio logo a público deixar-nos de boca aberta. A Protecção Civil teve o desplante de manter uma posição contrária ao acordo entre os bombeiros voluntários e o INEM. Obviamente que os bombeiros mandaram a Protecção Civil cavar batatas e dar uma volta até às Berlengas…
Num panorama assim, como é que uma jovem pode pensar em engravidar sem receio, sem pânico, sem ansiedade? Não pode e, assim, chegamos ao ponto fulcral: a natalidade em Portugal tem de diminuir e cada vez mais se regista um número menor de mulheres grávidas. Conclusão: este país não é para grávidas.

19 Jan 2026

Depois da casa roubada, trancas à porta

Existe um velho ditado chinês que diz, “Não é tarde de demais para arranjar a cerca depois das ovelhas terem fugido”, que tem o mesmo sentido do nosso provérbio “Depois da casa roubada, trancas à porta”. Só depois de termos ficado sem os nossos bens, é que percebemos que temos de tomar medidas que possam impedir prejuízos futuros, mas que não permitem recuperar o que se perdeu.

O incêndio no Wang Fuk Court, um grande complexo habitacional no distrito de Tai Po, em Hong Kong, destruiu muitas vidas e muitas casas. O Governo de Hong Kong prestou imediatamente ajuda às vítimas, mandou inspeccionar rapidamente as redes que cobrem os andaimes de todos os edifícios que estão em manutenção na cidade e criou um Comité Independente para investigar as causas do incêndio no Wang Fuk Court. A Comissão Independente contra a Corrupção (ICAC sigla em inglês) e a Polícia também agiram prontamente, prendendo e acusando os responsáveis pelo fogo. As medidas que foram tomadas depois do acidente demonstram a grande preocupação das autoridades pelo sucedido. No entanto, se os diversos problemas originados pelos trabalhos de manutenção tivessem sido detectados mais cedo, ter-se-ia podido evitar o fogo? Embora apagar os incêndios seja necessário, preveni-los é mais importante. Enquanto vizinha de Hong Kong, Macau, embora não tenha sofrido nenhum incêndio devastador em 2025, tem muitos aspectos que precisam de ser melhorados.

A estabilidade e o desenvolvimento de uma sociedade são inseparáveis dos seus sistemas políticos e económicos. Depois da mudança do Chefe do Executivo da RAEM em 2024, a eleição para a Assembleia Legislativa em 2025 testemunhou pela segunda vez a desqualificação de candidatos, juntamente com a remodelação de dirigentes-chave. De acordo com a emenda à Lei “Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau”, “da decisão da CAEAL de que um candidato não possui a capacidade para ser candidato……, não cabe reclamação nem recurso contencioso”, os candidatos desqualificados não ficaram a saber as razões para ser considerado que “não defendem a Lei Básica ou que não são fiéis à Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China”.

Além disso, o facto de Cheong Weng Chon ter passado de Secretário para a Administração e Justiça a Presidente da VIII Assembleia Legislativa, estabeleceu um precedente para esta Assembleia. Estas acções tomadas pelo Governo da RAEM estabeleceram um precedente absoluto da predominância do poder executivo estabelecida pela Lei Básica para os próximos anos. A ausência de vozes dissidentes e a coordenação estreita entre os ramos executivo e legislativo têm a vantagem de unificar o pensamento e a acção, o que conduz a uma implementação mais fluida e eficiente das políticas e medidas adoptadas. Contudo, é preocupante que quando surgem problemas durante o processo de implementação, não existam vozes de oposição. E a melhoria da eficiência não garante bons resultados. Não devemos esperar pelos problemas para os resolver, pelo contrário, devemos perceber as causas dos problemas antes que ocorram. Depois de ver o relatório sobre o fogo em Hong Kong, torna-se óbvio que a tragédia podia ter sido evitada.

Os desafios que a diversificação da economia de Macau enfrenta são mais complexos do que as dificuldades com que se deparou durante a transformação ocorrida nos primeiros tempos após o regresso à soberania chinesa. Se apenas olharmos par o escalar do número de turistas, para o RNB per capita situado em 572.614 patacas e o PIB per capita em 579.533 patacas, em 2024, pensaremos que a economia de Macau deve estar florescente, sem lojas encerradas, com os residentes a desfrutarem de altos rendimentos e os restaurantes a abarrotar de clientes. É mesmo este o caso? Os responsáveis pela economia sabem a verdade, e os cidadãos conseguem ver a realidade claramente. O encerramento dos casinos- satélite era previsível, ao passo que a criação de distritos comerciais e cafés ao ar livre são apenas acontecimentos recentes. Tendências de consumo como as compras do lado de lá da fronteira e as compras online estão a ganhar grande popularidade, embora o Governo tenha tomado medidas de emergência como o “Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias” e os “Descontos para comer nos estabelecimentos de restauração em celebração do Regresso de Macau à Pátria”. Mas o que vem a seguir? Quando o planeamento prévio fica muito aquém do curso dos acontecimentos, e quando todas as críticas são silenciadas, o que resta é um profundo arrependimento. Um bom pastor não permite que uma só ovelha se extravie e a chave para impedir que se percam tem-na o pastor.

17 Jan 2026

Portugal e o Cenário Presidencial de 2026

“When societies feel unheard, they do not fall silent – they change the way they speak.” – Zygmunt Bauman

A 18 de Janeiro, Portugal encontra-se perante um dos momentos mais significativos da sua história democrática recente. O ciclo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, iniciado em 2016 e concluído este ano, encerra-se com a impossibilidade constitucional de recandidatura, abrindo espaço a uma disputa plural e inédita. A eleição presidencial, marcada para 18 de Janeiro, com eventual segunda volta prevista para 8 de Fevereiro, não é apenas um exercício democrático rotineiro; é um teste à maturidade institucional do país, à capacidade de renovação das elites políticas e à resiliência da sociedade portuguesa perante os desafios globais. O sistema semipresidencialista português, consagrado na Constituição de 1976, atribui ao Presidente da República funções moderadoras, mas com poderes relevantes em momentos de crise, como a dissolução da Assembleia da República ou a nomeação do Primeiro-Ministro.

Desde a Revolução de 25 Abril de 1974, todos os presidentes cumpriram dois mandatos consecutivos, e a impossibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa se recandidatar abre espaço a uma competição original. A presidência portuguesa tem sido marcada por figuras que simbolizam diferentes fases da democracia com Ramalho Eanes como militar fundador da estabilidade pós-revolucionária, Mário Soares como europeísta e defensor da integração, Jorge Sampaio como moderador social, Cavaco Silva como economista liberal e Marcelo como comunicador empático. A sucessão de 2026 insere-se nesta linha histórica, mas com características próprias, como a ausência de incumbente, a fragmentação partidária e a emergência de novos actores políticos.

Entre os candidatos destacam-se figuras de diferentes quadrantes políticos e sociais. Luís Marques Mendes, pelo PSD, representa a continuidade institucional e a ligação ao centro-direita tradicional. António José Seguro, pelo PS, aposta na coesão social e na defesa dos valores de Abril. Henrique Gouveia e Melo, independente, surge como candidato com forte apelo popular e imagem de competência técnica, fruto da liderança na campanha de vacinação contra a COVID-19. André Ventura, pelo Chega, aposta num discurso securitário e nacionalista, procurando capitalizar o descontentamento social. João Cotrim de Figueiredo, pela Iniciativa Liberal, defende a redução do peso do Estado e a liberalização económica. Catarina Martins, pelo Bloco de Esquerda, centra-se na justiça social e nos direitos humanos.

Esta pluralidade reflecte uma sociedade mais diversificada, mas também mais polarizada. As sondagens sugerem que nenhum candidato deverá alcançar maioria absoluta na primeira volta, tornando provável uma segunda volta entre dois candidatos de blocos distintos. Portugal entra em 2026 com uma economia marcada pela recuperação pós-pandemia, mas também por desafios estruturais, como a baixa produtividade, o envelhecimento demográfico e a dependência energética. O turismo continua a ser o motor económico, mas enfrenta pressões de sustentabilidade e necessidade de diversificação. A transição digital e ecológica é imperativa, exigindo políticas públicas consistentes e investimento em inovação.

Socialmente, o país vive tensões entre a valorização dos serviços públicos e a pressão fiscal, entre a integração europeia e o ressurgimento de discursos nacionalistas. O envelhecimento da população coloca desafios à sustentabilidade da segurança social e à coesão intergeracional. A desigualdade social, embora mitigada por políticas redistributivas, continua a ser preocupação central. A presidência, embora não detenha competências executivas, pode desempenhar um papel simbólico e mobilizador, influenciando agendas e promovendo consensos. A cultura portuguesa, profundamente enraizada na memória histórica e na projecção lusófona, desempenha um papel central na afirmação internacional.

A presidência simboliza a continuidade de valores republicanos e democráticos, sendo o Presidente visto como garante da estabilidade e da unidade nacional. A pluralidade de candidatos reflecte diferentes visões sobre identidade nacional, desde a defesa de Abril à retórica securitária, da empatia social à tecnocracia institucional. A diversidade cultural portuguesa, marcada pela coexistência de tradições locais e pela abertura ao mundo, encontra na presidência um espaço de representação simbólica. A eleição de 2026 será também um momento de afirmação identitária, em que se debatem valores como solidariedade, liberdade e pertença europeia. Portugal mantém-se como membro activo da União Europeia, participando nos debates sobre integração económica, transição energética e defesa comum.

A presidência de 2026 será crucial para garantir estabilidade diplomática num contexto global de tensões geopolíticas. A escolha de um presidente com perfil conciliador ou mais interventivo poderá influenciar a percepção externa do país. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa continua a ser espaço privilegiado de afirmação internacional, reforçando laços históricos e culturais. A pertença à NATO garante segurança estratégica, mas também implica responsabilidades em contextos de tensão geopolítica. Portugal, pela sua posição atlântica e lusófona, desempenha papel de ponte entre continentes e culturas, e a presidência simboliza essa vocação internacional. O Presidente é visto como garante do equilíbrio e da unidade nacional, sobretudo em momentos de crise. Para além das competências formais, a presidência possui uma dimensão simbólica, representando valores e identidades colectivas.

A filosofia da presidência portuguesa assenta na ideia de que o Presidente deve ser árbitro e moderador, mas também inspirador e mobilizador. A eleição de 2026 coloca em debate diferentes concepções do cargo com uma presidência mais interventiva, centrada na autoridade moral, ou uma presidência mais discreta, focada na mediação institucional. Esta reflexão filosófica é essencial para compreender o significado da eleição. As sondagens disponíveis até 13 de Janeiro de 2026 continuam a mostrar uma corrida presidencial portuguesa extremamente competitiva e fragmentada, marcada pela ausência de um favorito claro e pela persistência de um elevado número de indecisos. O panorama mais recente revela uma recomposição significativa no grupo da frente em que António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo surgem agora como os candidatos com maior dinamismo, enquanto André Ventura e Henrique Gouveia e Melo registam ligeiras quebras e Luís Marques Mendes desce para o quinto lugar, com valores que oscilam entre cerca de 15% e 17%, afastandose da disputa imediata pela passagem à segunda volta.

António José Seguro beneficia de uma tendência de crescimento contínuo desde o final de 2025, apoiado por um perfil percebido como estável e institucional. João Cotrim de Figueiredo, por sua vez, consolidou uma trajectória ascendente que o aproximou do núcleo dos principais candidatos, reforçando o seu apelo entre eleitores jovens, urbanos e liberais. André Ventura mantém um núcleo duro de apoio expressivo, mas continua a enfrentar dificuldades em alargar a sua base eleitoral, surgindo sistematicamente fragilizado nos cenários de segunda volta. Henrique Gouveia e Melo preserva um capital relevante de confiança pública, embora tenha perdido algum fôlego nas últimas semanas, reflectindo um ambiente político mais volátil e competitivo. Luís Marques Mendes, que chegou a liderar intenções de voto no final de 2025, enfrenta agora uma quebra consistente que o coloca fora do grupo mais competitivo, ilustrando a sensibilidade do eleitorado a movimentos de última hora e a reposicionamentos estratégicos.

O quadro geral permanece marcado pela coexistência de perfis muito distintos com candidatos independentes com forte reputação pública, figuras com longa experiência partidária e protagonistas de discursos mais populistas e securitários. Esta diversidade reflecte um eleitorado dividido entre a procura de estabilidade institucional, a valorização da competência técnica e o desejo de renovação política. A presença continuada de Ventura no grupo da frente, mesmo com fracas hipóteses de vitória numa segunda volta, confirma a consolidação de um discurso contestatário que encontrou espaço na sociedade portuguesa. Em paralelo, o crescimento de Cotrim de Figueiredo evidencia a procura de alternativas liberais e reformistas, enquanto a recuperação parcial de Seguro demonstra a relevância de perfis moderados num contexto de incerteza.

As candidaturas com menor probabilidade de alcançar a segunda volta como Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto ou Manuel João Vieira continuam a desempenhar um papel importante na pluralidade do debate, representando agendas específicas e contribuindo para a vitalidade democrática do processo. No seu conjunto, as tendências até 13 de Janeiro de 2026 revelam um país em reflexão profunda sobre o tipo de liderança que deseja para a próxima década. Entre tradição e inovação, continuidade e mudança, integração europeia e afirmação nacional, o futuro Presidente será chamado a preservar os valores republicanos e democráticos, interpretar as expectativas de uma sociedade em transformação e oferecer uma visão capaz de unir diferentes sensibilidades num contexto global cada vez mais exigente. Estas sondagens colocam André Ventura num intervalo aproximado entre 19,5% e 20% das intenções de voto na primeira volta das eleições presidenciais.

A partir destes valores, é possível projectar o número de votos que poderá alcançar em diferentes cenários de participação eleitoral. Se a afluência às urnas for semelhante à das últimas presidenciais, com cerca de 4,2 milhões de votantes, Ventura deverá situarse entre aproximadamente 820 mil e 840 mil votos, permanecendo abaixo da fasquia simbólica de um milhão de votos neste cenário de participação mais reduzida. Caso a participação se aproxime da registada nas legislativas de 2024, em torno de 6,5 milhões de votantes, o mesmo intervalo percentual traduzirseia num total entre cerca de 1,26 milhões e 1,30 milhões de votos, valor ainda assim inferior ao patamar alcançado pela AD nas legislativas. Nos cenários de segunda volta, as sondagens colocam Ventura num intervalo entre 25% e 29%. Aplicando estes valores a uma participação semelhante à das presidenciais, o candidato poderá obter entre cerca de 1,05 milhões e 1,22 milhões de votos.

Se a afluência for comparável à das legislativas, o intervalo projectado sobe para valores entre aproximadamente 1,62 milhões e 1,88 milhões de votos. Uma votação tão expressiva num candidato com este perfil é frequentemente entendida como o reflexo de tensões sociais acumuladas ao longo do tempo. Revela um sentimento de insatisfação com o funcionamento das instituições, a percepção de desigualdades persistentes e a ideia de que questões como segurança, justiça, custo de vida, imigração ou a qualidade dos serviços públicos não têm recebido respostas eficazes. Ao mesmo tempo, o crescimento de discursos mais directos e confrontacionais mostra que uma parte significativa do eleitorado procura linguagem simples, posições firmes e uma atitude de desafio perante o sistema político tradicional, mesmo que isso acentue divisões.

Este fenómeno também evidencia a fragmentação do sistema partidário, com menos fidelidade aos partidos tradicionais e maior abertura a alternativas que rompem com o padrão habitual. Tal dinâmica altera equilíbrios, estratégias e até a forma como as campanhas são conduzidas. Contudo, mesmo com uma votação elevada, subsistem limites claros à capacidade de transformar notoriedade em maioria, o que indica resistência noutros sectores da sociedade e contribui para um ambiente político mais polarizado, mas não necessariamente dominado por um único bloco. Para o sistema político, um resultado deste tipo funciona como um aviso. Mostra que há grupos que se sentem excluídos, políticas que não estão a corresponder às expectativas e percepções de injustiça ou insegurança que permanecem sem resposta convincente.

Este sinal obriga os partidos tradicionais a repensar prioridades, a ajustar a forma como comunicam e a reforçar a proximidade com diferentes segmentos da população. Por fim, este movimento inserese numa tendência mais ampla observada em vários países europeus, onde candidatos com discursos semelhantes têm ganho espaço. Muitos analistas interpretam este fenómeno como consequência de transformações culturais, económicas e tecnológicas que estão a alterar profundamente a relação das pessoas com a política e com as instituições democráticas.

15 Jan 2026

Mia Soave!…

Poemas há que precisamos deles de forma total. Quem não sabe lembrar nenhum em tempos especiais e adaptá-lo à sua situação padece de um recurso que não é passível de ser substituído por nenhuma outra competência. Sem poema aprendido estamos despojados de humanidade perante os bravios golpes do destino, a nossa composição neuronal não tem ligações e tudo se desalinha de forma imprecisa. Nós estamos no estertor olhando a morte daqueles que vimos nascer, a nossa dor imensa não necessita de psicólogos, padres, mentores, gurus, só necessitamos de algo que venha em nossa direção e que possamos agradecer aos céus por termos tido dela conhecimento. O poema.

Na madrugada agonizante um poema se solta como ave bem-dita na despedida:« – Mia Suave..- Ave?! … Almeia?!… Mariposa Azul… Transe!… » e assim dissemos adeus na fronteira entre morte e vida onde o som do poema ressoava na noite telepática «Não dói por Ti Meu Peito…/ Mia Soave…- Ave! – Almeia!…» E a alma lustral ainda em ferida foi capaz de soletrar canções dos velhos anjos, e suavizar passagens, contornar o asfalto da falta grave de um amado ser. É um poema de Ângelo de Lima que o dedicou a seus amigos do Orpheu introduzindo uma tal eloquência que somente em situações sagradas o lembramos, mas são as coisas que nos lembram e se cruzam no efeito certo dos propósitos, e grande é o poeta que nos abençoa e encaminha em momentos tão derradeiros.

Poderemos dizer: que poema é este? É um poema. Parece um poema concreto feito de significados aleatórios que visam quebrar a monotonia das frases feitas do sentir, da sua métrica sequencial, do seu propósito canónico, e por isso estar distante e esquecido do terreiro das coisas dadas nesta matéria, que por outro lado é o mais belo poema da língua portuguesa do século vinte sem apelo nem anotação no marasmo das descrições de todo o género que não chegam a bálsamo nos instantes vitais.

É com um misto de surpresa e encantamento que uma coisa assim nos acontece, é uma iniciação. Ângelo de Lima foi barbaramente assassinado nos corredores das psicanálises e pareceres psiquiátricos de então, a sua obra nem chegou a ganhar fôlego nas correntes literárias, mas quando nos visita, tudo muda.

«– Do Ocaso pela Epopeia… Dorto… Stringe… O Corpo Elance… Vai À Campa… – Il C´or descanse…- Mia Soave… – Ave!… – Almeia!…»

Este poema está cheio de luz e de lágrimas, só quem o conhece é por ele visitado na hora grave de uma despedida. Ele canta mais do que soletra, ele é mais poema que coisa escrita, ele afaga, enobrece e enaltece, e quando tudo se turva de amor desfeito ele dá-nos ainda o bálsamo dos grandes mistérios.

Mia Soave, meu Amor « – Não dói Por Ti Meu Peito…/ Não Choro no Orar Ciclo…/ Em Profano…- Edd´ora…Eleito!…» A madrugada ia avançando, a lua alta estava, e um poema visitava a curva da despedida como um cântico de amor e morte, mas surpreendentemente numa esperança futura que não sabe ainda onde irá de novo nascer.

Um mantra assim pode levar-nos a pensar que o sopro que dali vem salva a nossa alma para sempre, dando àquela que parte uma dimensão até então desconhecida, e aos que ficam a certeza que só a grande, grande poesia, salva os seres e os distingue. E este é um grande poema. Transfigurador, milagroso, belíssimo. O que vem dizer sequencialmente é um desafio. Que nada diz coisa nenhuma se a palavra não tiver a dimensão que aqui nos traz.

14 Jan 2026

Como lidar com 5,8 milhões (II)

A semana passada, falámos sobre uma jovem canadiana de 20 anos que ganhou o jackpot da lotaria e foi confrontada com duas opções: o levantamento imediato da totalidade do prémio, no valor de um milhão de dólares canadianos, ou a possibilidade de receber semanalmente 1.000 dólares até ao fim da vida. A escolha que fez desencadeou acesos debates online. Se um dos meus leitores de Macau estivesse na mesma situação, qual seria a sua escolha?

Recolhemos e comparámos dados do Canadá e de Macau online. Percebemos que se escolher receber o milhão de uma vez, a rapariga pode comprar um apartamento de 65 metros quadrados, resolvendo assim o problema da habitação. Um milhão de dólares representa as poupanças de uma família canadiana e o seu objectivo de um fundo para a reforma. O rendimento da aplicação deste montante proporciona uma reforma segura no Canadá.

Se esta situação ocorresse em Macau, 5,8 milhões de patacas (assumindo que um dólar canadiano vale 5,8 patacas) seria o suficiente para comprar um típico apartamento de 65 metros quadrados. Se a poupança média por pessoa em Macau é de 1,4 milhões, uma família de quatro terá 5,6 milhões e com mais 5,8 milhões teria uma vida ainda mais estável. A estabilidade que os 5,8 milhões podem proporcionar varia consoante cada pessoa; no entanto, com um rendimento de 4 por cento, este montante gera 19.000 patacas mensais. Do ponto de vista do residente comum, é simplesmente um rendimento extra. Adicionado ao valor de 6.500 patacas mensais que os reformados recebem do Governo totaliza o montante de 26.000 patacas, proporcionando uma segurança considerável durante a reforma.

Se a jovem escolher receber 1000 dólares por semana, terá um rendimento de 52.000 dólares anuais. Embora este valor fique um pouco abaixo do salário médio no Canadá, representa apenas um valor adicional. Em Macau existe também a possibilidade de os vencedores da lotaria receberem o prémio em prestações mensais.

Os dados apresentados centram-se apenas em números. Quando se recebe um prémio com uma soma considerável, também devem ser considerados factores não quantitativos. Em primeiro lugar, quando temos bastante dinheiro, devemos investir. Só com investimentos correctos podemos obter retornos substanciais. Se não formos especialistas financeiros, devemos consultar profissionais, o que implica o pagamento de honorários. Em segundo lugar, um prémio elevado pode despertar o desejo de gastar sem controlo. A quantia que se pode desperdiçar depende de cada pessoa, e não pode ser generalizada, mas o risco é inegável. Em terceiro lugar, quando a notícia se espalha, o vencedor vê-se rodeado de amigos e familiares a pedirem-lhe empréstimos. É natural que vá gastar imenso tempo e dinheiro a lidar com esse problema; estes custos são incalculáveis. Em quarto lugar, quando investe o prémio, se surgir uma despesa elevada, vai ter de dividir o dinheiro em mais do que uma conta. Separando o valor do prémio, o retorno semanal diminui. Em quinto lugar, não se sabe se ao receber 1.000 dólares por semana a jovem terá acesso à totalidade do valor do prémio. Por exemplo, se morrer inesperadamente aos 30 anos, o montante que não lhe foi pago pode ser reclamado pelos seus herdeiros? A transferência do dinheiro para os familiares influencia os bens da próxima geração; a jovem deverá consultar a empresa que gere a lotaria antes de decidir se quer receber o dinheiro todo de uma vez, ou se opta pelos 1.000 dólares semanais.

Os leitores devem prestar atenção a um factor indispensável: a protagonista desta história tem apenas 20 anos. É natural que não tenha muita experiência de vida nem muita experiência financeira. Recebendo 1.000 dólares semanais garante uma protecção vitalícia. A taxa de retorno é:

(1.000 x 52 semanas / 1.000,000) x 100%

= 5.2%

mais alta que os 4%, o que vale a pena considerar.

Claro que o maior senão desta escolha é a inflação. O poder de compra de 1.000 dólares no Canadá será o mesmo do de hoje daqui a 10 ou 20 anos? A resposta é definitivamente não. Além disso, com base na esperança de vida das mulheres canadianas, se a jovem viver até aos 85 anos, receberá 1.000 dólares por semana durante 65 anos, portanto, até 2091. Qual será o poder de compra de 1.000 dólares nessa altura?

Chegados a este ponto, os leitores quererão saber qual foi a escolha da rapariga? Não vou revelar a resposta; vou deixar-vos pesquisar online. Antes de revelar o mistério pergunto-vos, a vossa escolha é a mesma da jovem? Consideraram os vários factores financeiros que foram mencionados?

Um prémio de um milhão de dólares canadianos é um ganho inesperado, ajudando o vencedor a concretizar os seus sonhos e a desfrutar do tempo em família. Embora o dinheiro traga muita satisfação, a maior felicidade é partilhá-lo com os outros. Não deveria a jovem considerar doar uma parte do prémio para instituições de solidariedade social, beneficiando mais pessoas?

Não seria melhor usar este lucro inesperado para fins sociais, permitindo que mais pessoas entrem felizes em 2026? Partilhar a felicidade é melhor do que gozá-la sozinho.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnicade Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

13 Jan 2026

Presidenciais a quanto obrigas

Há mais de 50 anos o 25 de Abril concedeu-nos a felicidade de termos liberdade e eleições livres. Mais uma vez, estamos perante a vontade do povo em escolher um novo Presidente da República. As eleições presidenciais, a realizar no próximo dia 18, terão mais candidatos quase que as mães. São 11 candidatos, mas incompetente e absurdamente os boletins de voto irão patentear mais três candidatos que foram rejeitados pelo Tribunal Constitucional (Joana Beatriz Amaral Dias, Luís Ricardo Sousa e José António Cardoso). O eleitor terá de ter muita atenção ao não votar num candidato que não está em eleição. Os candidatos são, por ordem do boletim: André Pestana, Jorge Pinto, Manuel João Vieira, Catarina Martins, João Cotrim de Figueiredo, Humberto Correia, António José Seguro, Luís Marques Mendes, André Ventura, António Filipe e Henrique Gouveia e Melo.

Este conjunto de candidatos participaram nos mais díspares e desinteressantes debates televisivos. Alguns dos debates mais pareceram discussões para eleições legislativas, quando os poderes de um Presidente da República são absolutamente diferentes e ínfimos relativamente aos temas que os candidatos debateram. Assistiu-se a debates de lavagem de roupa suja e de insultos. No último debate até o povinho ficou atónito ao ver e ouvir a discussão entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, dois candidatos suspeitos de intermediação de interesses (Marques Mendes) e de ajustes directos (Gouveia e Melo. Foi, na verdade, um espectáculo triste que em nada beneficiou os próprios candidatos e a dignidade que deve ser obrigada ao comportamento de um futuro chefe de Estado. Ai, presidenciais a quanto obrigas. Agora, os candidatos andam a gastar os últimos cartuxos pelo país fora. E vale tudo. Beijinhos, abraços, mercados, ofertas de brindes e visitas a feiras na caça ao voto mesmo que seja em zonas que lhes são hostis. Como tem sido o caso do candidato André Ventura, que por onde passa e existam comunidades ciganas, apenas ouve insulto, alguns bem merecidos porque este candidato tem levado a efeito uma política de agressividade a todos os ciganos, os quais vivem em Portugal há muito mais tempo do que a idade de Ventura.

A campanha de rua não tem tido grande sucesso. Umas dezenas de pessoas a aderir às marchas propagandistas pelas urbes. Alguns candidatos, como Marques Mendes, têm realizado comícios à porta fechada arrebanhando os militantes do partido a que pertencem. No caso concreto de Marques Mendes tivemos algo que caiu muito mal no seio do próprio PSD. O facto de Luís Montenegro ter ido a um desses comícios apelar ao voto em Marques Mendes. Ficou-lhe muito mal, porque esqueceu-se que a sua posição de primeiro-ministro devia levá-lo a uma contenção partidária em tempo de campanha eleitoral generalizada. Enfim, em campanha eleitoral vale mesmo tudo e os candidatos não perdem oportunidades para denegrirem os seus adversários sempre com linguagem imprópria para consumo. A grande surpresa da campanha eleitoral tem recaído nos candidatos Cotrim de Figueiredo, António José Seguro e Catarina Martins. Estes, têm apresentado uma linguagem de estadistas, de seriedade e de confiança no futuro em benefício da vida dos portugueses, manifestando sempre que se forem eleitos que a cooperação com o Executivo será uma realidade, mas de criticismo e de apresentação de propostas para uma melhor governação. Não foi por acaso que se assistiu à subida nas sondagens destes três candidatos.

Muitos democratas de esquerda indicam nas redes sociais que se António Filipe, Jorge Pinto e Catarina Martins desistissem a favor de Seguro, que a vitória do socialista seria garantida. No entanto, é preciso lembrar que se um cidadão resolveu candidatar-se ao cargo de chefe da Nação, foi porque entendeu que, assim, a sua consciência o decidira e não tem nada que desistir, mas sim, continuar até ao dia 17 deste mês a manifestar as suas convicções e propostas.

Estas eleições presidenciais apresentam um quadro previsível de empate técnico entre Seguro, Ventura, Melo, Figueiredo e Mendes. Tudo indica que haverá uma segunda volta de eleições em Fevereiro com o resultado dos dois primeiros a recair entre os cinco candidatos mencionados. No entanto, em cerca de 100 telefonemas e mensagens que enviámos a pessoas do nosso conhecimento, o resultado deu-nos em primeiro lugar Gouveia e Melo e António José Seguro em segundo. Assim, seriam estes dois candidatos que iriam disputar a segunda volta.

O importante é que Portugal continua em regime democrático e que estamos perante mais um acto eleitoral em liberdade, quando se têm ouvido vozes que promovem um regresso ao neofascismo. Daqui a uma semana já saberemos quem foi o vencedor das eleições e quem, em princípio, irá disputar a segunda volta. Votem bem!

12 Jan 2026

À espera da luz

Há quem diga que quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela. E se as duas ficarem fechadas? O que acontece a quem está lá dentro? Bem, ou morrem sufocados ou aborrecem-se de morte.

Nos últimos anos, as lojas em Macau estão a fechar umas atrás das outras. Quando todos esperavam que se abrisse uma janela para o negócio prosperar, o direito de abrir a janela foi entregue a certos empreiteiros. As empresas sociais não são entidades comerciais e o resultado de lhes conceder a exclusividade da gestão de actividades comerciais não é difícil de prever.

Se o planeamento fosse viável, a operação do Canídromo Yat Yuen em Macau e do Jockey Club na Taipa já deveria ter sido entregue a organizações comunitárias há muito tempo.

Recentemente, jantei num hotel que já teve um casino. Percebi que o parque de estacionamento do hotel estava ao abandono e vários andares deste edifício, que albergavam várias lojas, estão actualmente vazios. Depois de ter perguntado o que acontecera, fiquei a saber que, para além do encerramento do casino-satélite, também o restaurante chinês tinha fechado. Claro que este hotel não fica situado em nenhuma das seis zonas históricas definidas pelo Governo da RAE. Os empregados do casino-satélite receberam novas propostas de emprego, mas o que aconteceu ao pessoal do restaurante chinês, quem é que presta atenção ao seu futuro?

Preocupa-me que enquanto a “diversificação das indústrias 1+4” ainda não está amadurecida, as transformações drásticas no cerne da economia de Macau venham a ter impacto na estrutura económica. Embora a taxa de desemprego seja aparentemente baixa, a realidade da situação do emprego merece atenção. O Chefe do Executivo Sam Hou Fai incentivou os jovens a abandonarem a sua zona de conforto e aventurarem-se a ir para a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, no entanto, a Grande Baía enfrenta os seus próprios desafios. Os jovens de Macau que estudam fora da cidade escolhem lá ficar e cada um terá os seus motivos. O Governo da RAE afirma que deseja atrair estrangeiros talentosos para Macau, enquanto incentiva os nossos jovens a deixar a cidade, o que parece contraditório. O antigo deputado Lam U Tao chegou a demonstrar preocupação com o número de professores não residentes em Macau, propondo a criação de um mecanismo que levasse os mais de 100.000 trabalhadores não residentes a deixar a cidade e “devolvesse as vagas de emprego aos trabalhadores locais”. Infelizmente, embora Lam tenha passado na avaliação governamental nas eleições de 2021 para a Assembleia Legislativa, foi desclassificado para as eleições de 2025. Quando é que a “janela para a democracia” será aberta para que os residentes possam respirar ar fresco?

Olhar não mata a fome. Visitei recentemente o renovado Mercado da Taipa e verifiquei que as zonas de tráfego pedonal continuam a ser insuficientes. Os vendedores de vegetais, de carne e marisco estavam à espera de clientes, num contraste gritante com a agitação do Mercado Gongbei, em Zhuhai. As portas e as janelas do Mercado da Taipa estavam abertas, mas o ar (a clientela) era insuficiente. Os vendedores esforçaram-se bastante, mas os resultados continuam a ser decepcionantes. Porque é que isto acontece? É útil apagar as luzes à noite e acendê-las durante o dia?

Acredito que os principais responsáveis do Governo da RAE é que deveriam sair das suas zonas de conforto. Ao fim da tarde, deviam apanhar o transporte público e sair na paragem em frente do Edifício da Administração Pública da Rua do Campo e experienciar a sensação calorosa de partilhar a viagem com os outros passageiros. Também deviam tentar atravessar a fronteira a pé no Posto Fronteiriço das Portas do Cerco e no Posto Fronteiriço Qingmao, de manhã e ao fim da tarde, testemunhando o magnífico espectáculo da “integração na Grande Baía”. Com numerosos anúncios que dizem “excelente loja para alugar” em várias zonas de Macau, como é que as luzes podem estar acesas depois de terem sido apagadas?

O desenvolvimento de uma zona urbana e a formação de uma área comercial não podem ser alcançados simplesmente acendendo as luzes, necessitam de sabedoria colectiva.

9 Jan 2026

Venezuela e a Nova Geopolítica Mundial

“Power reshapes the world not only through action, but through the precedents it dares to create.” – Henry Kissinger

A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, em 3 de Janeiro de 2026, não pode ser compreendida apenas como um gesto de força num país debilitado mas deve ser lida como um acontecimento que expõe a tensão estrutural entre soberania, responsabilidade e poder num mundo em transição. A operação, executada com precisão quase cirúrgica, limitouse a extrair Nicolás Maduro e Cilia Flores de Caracas e a transportálos para Nova Iorque, onde enfrentam um processo judicial que rapidamente ultrapassou a esfera penal para se converter num fenómeno político, filosófico e jurídico de alcance global.

A ausência de ocupação territorial, de administração provisória ou de qualquer tentativa de reorganizar o Estado venezuelano por enquanto revela uma doutrina que rompe com o paradigma intervencionista do início do século XXI em que os Estados Unidos não procuram reconstruir países, apenas neutralizar focos de ameaça, deixando para trás o vazio político que inevitavelmente se forma quando um regime perde o seu centro de gravidade. Esse vazio foi preenchido por Delcy Rodríguez, cuja ascensão não resulta de qualquer mandato popular, mas da inércia de uma máquina estatal que, há muito, deixou de funcionar como instituição republicana e passou a operar como instrumento de sobrevivência de um projecto político esgotado. A sua legitimidade é puramente mecânica, derivada da linha de sucessão interna do chavismo, e não da vontade expressa nas urnas, que em 2024 conferiu a Edmundo González Urrutia um mandato que nunca chegou a exercer.

A extracção de Maduro não dissolveu as redes que sustentavam o regime; apenas retirou a figura que lhes dava rosto. Delcy herdou um Estado corroído, mas funcional o suficiente para manter a aparência de normalidade, enquanto as estruturas subterrâneas militares, económicas e criminais continuam a operar com a mesma lógica que transformou a Venezuela num Estado narco. O julgamento em Nova Iorque tornouse um laboratório jurídico que desafia categorias tradicionais do direito internacional. A invocação de jurisdição universal para crimes transnacionais cometidos por um chefe de Estado ainda que ilegítimo capturado por meios militares coloca em tensão princípios que, durante décadas, pareciam inquestionáveis. A imunidade soberana, concebida para proteger a estabilidade das relações internacionais, confrontase com a ideia de que certos crimes, pela sua natureza, não podem ser escudados por prerrogativas funcionais.

A defesa irá argumentar que a captura viola normas fundamentais, enquanto a acusação sustentará que a gravidade dos factos imputados justifica a excepção. O tribunal tornar-se-á palco de uma disputa que ultrapassa o destino individual dos acusados e toca no próprio equilíbrio entre soberania, responsabilidade e poder. A transmissão global do processo amplificará cada gesto e palavra, convertendo o julgamento num acontecimento político que redefine fronteiras conceptuais. A discussão jurídica remete inevitavelmente para precedentes históricos que moldaram a compreensão contemporânea da responsabilidade penal individual. O julgamento de Eichmann, capturado em Buenos Aires e levado a Jerusalém em 1961, é frequentemente citado como exemplo de que a captura extraterritorial, embora controversa, não invalida necessariamente a legitimidade do processo.

A doutrina que emergiu desse caso com a ideia de que certos crimes são tão graves que transcendem fronteiras ecoa no debate actual. Contudo, a comparação tem limites pois Eichmann era um fugitivo sem estatuto oficial, enquanto Maduro era chefe de Estado no momento da captura, o que reactiva a discussão sobre imunidades funcionais e pessoais. O caso Pinochet, julgado parcialmente no Reino Unido, introduziu outra fissura no edifício jurídico tradicional ao admitir que crimes de tortura não podem ser protegidos por imunidade soberana. A jurisprudência internacional evoluiu desde então, mas permanece fragmentada, oscilando entre a defesa da soberania e a afirmação de uma ordem jurídica internacional que responsabiliza indivíduos independentemente do cargo que ocupam. A Venezuela, entretanto, permanece suspensa entre dois tempos.

A oposição democrática, embora legitimada pelo voto, continua afastada do exercício do poder. Edmundo González Urrutia, exilado em Espanha, tornouse símbolo de uma legitimidade que existe no plano internacional, mas não no território que deveria governar. María Corina Machado, reaparecida após a queda de Maduro, recuperou protagonismo interno, mas enfrenta um obstáculo estrutural, de que o Estado formal é apenas a superfície visível de um sistema paralelo, onde redes criminais, interesses militares e alianças informais moldam a realidade política. A oposição possui legitimidade, mas não controla o território; tem apoio internacional, mas não dispõe dos instrumentos coercivos que definem o poder efectivo. A estrutura militar venezuelana, longe de ser desmantelada pela operação americana, permanece fragmentada e permeada por lealdades contraditórias.

A extracção de Maduro neutralizou apenas o círculo mais próximo, deixando intacta uma hierarquia corroída por décadas de politização, corrupção e envolvimento em economias ilícitas. Muitos oficiais superiores mantêm vínculos com redes que operam à margem da legalidade, enquanto sectores intermédios procuram reposicionarse para garantir a própria sobrevivência. A ausência de uma intervenção institucional mais ampla permitiu que o Estado narco continuasse a funcionar, agora sob a liderança de Delcy Rodríguez, que tenta reorganizar o chavismo sem o seu líder histórico, preservando os mecanismos informais que garantem a continuidade do poder. A economia venezuelana, devastada por anos de má gestão e hiperinflação, permanece num estado de colapso estrutural. A PDVSA, outrora símbolo de prosperidade, opera muito aquém da sua capacidade, e a queda global dos preços do petróleo reduz ainda mais a margem de manobra financeira. A extracção de Maduro não alterou esta realidade. Sem reformas profundas, transição política e confiança internacional, a economia continua paralisada.

A criminalização da economia política impede qualquer recuperação sustentável, uma vez que as redes ilícitas capturam receitas, distorcem incentivos e bloqueiam qualquer tentativa de reconstrução institucional. A Venezuela tornouse um caso extremo de Estado onde a economia formal é apenas um fragmento residual de um sistema dominado por circuitos paralelos. A comunidade portuguesa, uma das maiores diásporas lusófonas fora da Europa, vive num ambiente de incerteza permanente. A instabilidade política, a ausência de reformas e a continuidade das redes criminais criam riscos significativos, mas também oportunidades caso surja um mínimo de previsibilidade. Portugal pode desempenhar um papel relevante através de protecção consular reforçada e diplomacia económica, mas qualquer iniciativa dependerá da evolução interna do país. No plano internacional, a operação americana reforçou a tendência de substituição do multilateralismo por acções unilaterais cirúrgicas.

A ausência de coordenação com organismos internacionais fragilizou alianças tradicionais e intensificou rivalidades com potências emergentes, num contexto em que Rússia e China haviam respondido com demonstrações militares no Caribe e no Golfo Pérsico para sinalizar que contestam a projecção de poder dos Estados Unidos e pretendem preservar a sua influência num hemisfério historicamente sensível à intervenção externa. A Venezuela tornouse, assim, um microcosmo da nova ordem global; um espaço onde se cruzam disputas estratégicas, tensões jurídicas e conflitos de legitimidade. O futuro do país dependerá da interacção entre factores internos e externos, agora profundamente alterados pela cooperação de Delcy Rodríguez com Washington e pelo controlo crescente do sector petrolífero pelos americanos.

Entre 2026 e 2030, quatro trajectórias principais podem ser delineadas. A primeira é a consolidação tutelada de Delcy Rodríguez, que não representa apenas a continuidade do chavismo, mas sim a adaptação do regime a uma nova realidade geopolítica. A cooperação com os Estados Unidos transforma o chavismo num sistema parcialmente domesticado, onde o Estado narco continua a operar, mas dentro de limites impostos externamente. A estabilidade tornase dependente da tolerância americana, da disciplina relativa das Forças Armadas e da capacidade do regime de redistribuir rendas petrolíferas sob vigilância implícita. Não é uma estabilidade soberana, mas uma estabilidade sob tutela, em que Caracas governa enquanto Washington define o perímetro do possível.

A segunda trajectória é a transição pactuada, agora reconfigurada pela centralidade do petróleo. Já não se trata apenas de uma saída controlada em troca de garantias pessoais para sectores do chavismo, mas de uma negociação políticoenergética em que Washington aceita uma abertura gradual e uma recomposição institucional desde que mantenha influência decisiva sobre o sector petrolífero. Delcy tornase a ponte entre o sistema e a transição, oferecendo aos americanos previsibilidade energética e ao chavismo garantias de sobrevivência parcial. A mudança política seria limitada, mas real, e permitiria um pluralismo controlado sob supervisão internacional.

A terceira trajectória é a implosão do sistema, agora agravada pela própria cooperação petrolífera. A gestão partilhada do sector energético pode aprofundar fissuras internas, sobretudo entre militares, redes criminais e facções ideológicas que vêem a aproximação aos Estados Unidos como traição. A deterioração económica, a desigualdade na redistribuição das rendas e a competição por recursos sob tutela externa podem acelerar a fragmentação do Estado, criando enclaves de poder autónomo e multiplicando actores armados. Neste cenário, a tutela energética não impede a implosão; amplificaa, ao introduzir novos motivos de disputa e desconfiança.

A quarta trajectória é a possibilidade de uma segunda intervenção americana, agora mais plausível precisamente porque a cooperação petrolífera cria um critério de avaliação. Se, apesar do controlo energético, o chavismo reorganizado sob Delcy continuar a operar como Estado narco e não ocorrer transformação política substantiva, Washington poderá concluir que a extracção de Maduro foi insuficiente. A nova intervenção não implicaria necessariamente ocupação territorial, mas poderia assumir formas cirúrgicas como a neutralização de actores militares específicos, bloqueio de redes financeiras ilícitas, operações adicionais contra estruturas de segurança ou mesmo uma intervenção multinacional legitimada por colapso humanitário extremo. A mera existência desta hipótese fragiliza a primeira trajectória, pois a consolidação de Delcy só seria sustentável num ambiente internacional disposto a tolerar a continuidade do chavismo que se torna cada vez menos provável.

Assim, a Venezuela permanece num limbo político e institucional sem Maduro, mas com chavismo; com administração funcional, mas sem legitimidade; com cooperação petrolífera com os Estados Unidos, mas sem soberania plena. A extracção de Maduro e a cogestão do petróleo não encerraram o ciclo; apenas reformularam o campo de batalha. A reconstrução exigirá diálogo inclusivo, reforma profunda e compromisso internacional com a legalidade. Até lá, o país permanece suspenso entre o fim de um regime que não existe e a impossibilidade de um futuro que ainda não começou.

8 Jan 2026

O Homo Sapiens versus “Goldilocks Conditions”

Há cerca de 13,8 mil milhões anos deu-se o que se convencionou designar por “big bang”. Dessa grande explosão surgiu um universo em expansão, o qual é constituído essencialmente por energia escura, matéria escura, gases, poeiras, planetas e estrelas. Estas agruparam-se formando galáxias, numa das quais, a Via Láctea, se encontra o nosso planeta, felizmente bem longe, a cerca de 25 800 anos-luz, do buraco negro que ocupa a zona central.

Por um feliz acaso, durante a evolução do universo, o planeta Terra, que se formou há cera de 4,5 mil milhões de anos, ocupou uma posição ideal para que se criassem as condições para que surgisse vida. Os primeiros sinais de vida devem-se à existência de oxigénio na atmosfera e na hidrosfera, e à Terra orbitar em torno do Sol a uma distância que lhe permite receber radiação cuja intensidade não se pode considerar nem excessiva nem em falta. Surgiram, assim, as primeiras espécies de seres que evoluíram dando origem a centenas de milhares de outras espécies que se foram adaptando às variações do clima.

O sistema climático sofreu, entretanto, alterações devido a vários fatores, nomeadamente de origem cósmica e vulcânica. Entre os fatores cósmicos contam-se a variação da atividade solar e os ciclos de Milankovitch, que consistem em alterações da órbita em torno do Sol, relacionadas com a excentricidade, a obliquidade e a oscilação do eixo da Terra. Da ação destes e outros fatores resultaram mudanças do clima, entre as quais se contam as que provocaram as eras glaciares e interglaciares.

As condições favoráveis à existência de vida no nosso planeta são comumente designadas, nos meios relacionados com a astronomia e a astrobiologia, por “Goldilocks conditions”, que se poderá traduzir por “condições caracolinhos dourados”, assim designadas por analogia com a história infantil “Goldilocks and the three bears”, muito popular nos países anglófonos, de autoria de Robert Southey (1774-1843). Nesta história, uma menina de caracóis dourados escolhia sempre o meio-termo como a melhor opção entre as possibilidades que se lhe deparavam ao longo das suas traquinices. Por exemplo, entre três pratos de papa, um muito quente, outro muito frio e outro morno, escolhia o morno, ou entre três camas preferia a que não fosse nem muito dura nem muito mole, mas medianamente macia. Quando aplicada à astronomia, este conceito refere-se metaforicamente a uma zona habitável do universo.

Na realidade, mesmo podendo existir outros planetas com condições semelhantes às da Terra, não será possível, pelo menos nas décadas mais próximas, alcançá-los e aí criarmos as condições para que a nossa civilização possa sobreviver em caso de colapso das condições de vida no nosso planeta. Temos de zelar, portanto, pelo sistema climático da Terra. Caso contrário, poderão ocorrer extinções em massa de espécies. Tal já aconteceu por cinco vezes e há quem afirme que estamos perante a sexta extinção, devido às atividades humanas, com especial relevo para as alterações climáticas, poluição, destruição de habitats e exploração desenfreada de recursos naturais.

Atualmente não se deteta qualquer tendência significativa relativamente a fatores cósmicos que possam alterar as tais “Goldilocks conditions”. Porém, no que se refere ao comportamento humano, a realidade é que, se não refrearmos o uso indiscriminado dos combustíveis fósseis estamos a provocar o aumento significativo do aquecimento global. A humanidade não está a zelar para que as tais condições perdurem, atendendo a que o nosso planeta está a aquecer desde o início da era industrial, a um ritmo nunca observado anteriormente, o que provoca a degradação das várias componentes do sistema climático. E o futuro próximo não se apresenta risonho, pois o país que mais emite gases de efeito de estufa tem à sua frente um governo irresponsável que continua a ignorar os avisos de instituições encarregues de monitorizarem a evolução do clima e de zelarem pela sustentabilidade do nosso planeta. Pior do que isso, tem vindo a tomar medidas contrárias a essas recomendações como, por exemplo, a saída do Acordo de Paris, o despedimento de cientistas de organismos que lidam com a atmosfera e os oceanos, ou o corte de verbas a universidades onde se procede à investigação relacionada com a evolução do clima. Enfim, um rol de medidas que poderão contribuir para a deterioração do sistema climático, constituindo, assim, uma ameaça à vida no nosso planeta. O pior é que, como afirmou o ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, “não há planeta B”.

Mas, poder-se-á perguntar, «que é que tudo isto tem a ver com as tais “Goldilocks conditions”?». Na realidade, as mudanças que o clima sofreu e que se estima causaram, nos últimos quatrocentos e cinquenta milhões de anos, algumas das cinco extinções em massa de seres vivos, processaram-se durante milhares de anos. É comumente aceite pelos paleontologistas e paleoclimatologistas que a maior ou menor concentração de dióxido de carbono foi uma das causas das mudanças climáticas que estiveram na base na maioria das extinções em massa. Apenas uma das grandes extinções, a dos dinossauros e outras espécies da megafauna, não está diretamente relacionada com o clima, mas sim devido ao impacto de um asteroide com a Terra, há cerca de 66 milhões de anos.

A grande diferença entre as mudanças climáticas de há milhares de anos e as alterações de que atualmente o clima está a ser alvo, consiste no facto de aquelas terem ocorrido lentamente, durante milhares de anos, enquanto as atuais se estão a verificar apenas desde o início da revolução industrial, ou seja, desde há cerca de duas centenas e meia de anos.

De acordo com o cosmólogo Stephen Hawking (1942–2018), “Like Goldilocks, the development of intelligent life requires that planetary temperatures be ‘just right'”. Inspirados nesta afirmação de alguém que estudou a fundo a evolução do universo, resta-nos contribuir para que as tais “Goldilocks conditions” continuem a ser cumpridas.

Luis Queirós (1) vai com certeza desculpar-me por utilizar os cálculos constantes no seu livro “A Humanidade e o Futuro” para evidenciar quão recente é o aparecimento do Homo sapiens, em relação ao surgimento dos primeiros indícios de vida, entre 3 mil milhões e 4 mil milhões de anos. Abandonando períodos numa escala geológica, difíceis de apreender, e recorrendo à correspondência de um valor intermédio, por exemplo 3,6 mil milhões de anos, a 40 horas, o Homo sapiens teria surgido apenas nos últimos quinze segundos. Permito-me acrescentar que, mantendo esta correspondência, os cerca de 250 anos desde a revolução industrial correspondem a 0,012 segundos. Esperemos que nas milésimas de segundo subsequentes o Homo sapiens refreie o uso dos combustíveis fósseis e leve a cabo uma efetiva transição energética, tomando medidas para travar e reverter o aquecimento global, fazendo com que as “Goldilocks conditions” nos continuem a proteger.

(Meteorologista)

(1) Luis Queirós – autor de “O Mundo em Transição” e “A Humanidade e o Futuro”. Fundador do Grupo Marktest, entidade pioneira dos estudos de mercado em Portugal. Instituiu a “Fundação Vox Populi” e criou o blogue “Transição”.

8 Jan 2026

O Natal não é sexy para toda a gente

Encontrei estudos interessantes sobre a forma como a líbido flutua entre as pessoas na época natalícia. Há quem reúna as condições para sentir muito desejo sexual e passar os feriados em momentos íntimos de paixão, e há quem – que acredito que seja a maioria – sinta uma desconexão total com a sua líbido. Os filmes de Natal que, graças às plataformas de streaming, proliferam às centenas todos os anos, sugerem que as pessoas deviam andar mais românticas e carinhosas, e o sexo deveria acompanhar essa tendência. A discrepância na líbido, que poderia apontar para diferenças inter-individuais, também sugere que o desejo responde ao contexto em que estamos inseridos.

Há um estudo que mostra que as festas correspondem a um pico de interesse em sexo, não só pela análise de discussões/pesquisas on-line, mas também pelo pico de nascimentos essencialmente 9 meses depois. A sexualidade de algum modo reage aos aspetos simbólicos que as festas carregam, pelo desejo de proximidade e contacto.

Contudo, esta não será a experiência universal. Também se reporta que, no mesmo contexto natalício, temos pessoas com o desejo sexual alto, e outras com desejo sexual baixo. Muito provavelmente a resposta para a discrepância está na forma como se encaram as festividades.

Por um lado, é um tempo de desaceleração, que aumenta o potencial erótico. A investigação em psicologia sexual mostra repetidamente que estados de menor stress estão associados a níveis mais elevados de excitação e satisfação sexual. Quando o sistema nervoso sai do modo de “sobrevivência”, o desejo tem espaço para reaparecer. Também é um período que ativa sensações de nostalgia, que podem aumentar sentimentos de ligação e de sentido vital — estados emocionais que facilitam a intimidade e o desejo.

Por outro lado, as festividades carregam também dinâmicas, através de lembranças e melancolias, que podem ser duras e pesadas. Conflitos familiares, solidão, ansiedade, expectativas não cumpridas: para muitas pessoas, o Natal não é um refúgio emocional, mas um campo minado relacional. E o desejo sexual é altamente sensível a estes estados internos. O stress psicológico e a fadiga emocional estão consistentemente associados a uma diminuição da libido e da responsividade sexual.

Também se pode fazer uma pequena menção ao álcool, esse modelador sexual, omnipresente nas festas. Uma ou duas bebidas podem reduzir inibições e aumentar a sensação subjetiva de desejo ou proximidade. Mas este efeito é frágil. Quantidades maiores prejudicam a excitação fisiológica, a resposta sexual. O resultado, para muitas pessoas, é um curto pico de vontade seguido de cansaço, desconexão ou frustração — uma dinâmica comum nas épocas festivas.

Tudo isto para dizer que o mesmo gatilho – o Natal e as suas festas – aproxima umas pessoas da sua líbido, e afasta das outras. O Natal, por isso, amplifica aquilo que já está em nós. Para quem associa esta época a segurança, descanso e ligação emocional, o corpo responde com mais abertura erótica. Para quem vive o Natal como stress, exposição ou regressão emocional, o desejo tende a retrair-se.

O problema não está na libido, mas nas expectativas. A ideia cultural de que o Natal deveria ser uma época sexy, romântica e intimista cria uma pressão que pouco ajuda. O desejo não responde bem a imperativos simbólicos nem a calendários emocionais. Responde a condições humanas: descanso, segurança, espaço ou ausência de obrigação.

Aceitar que o Natal pode ser excitante para uns e totalmente dessexualizante para outros, ou ambas as coisas em momentos diferentes, é uma forma mais honesta e saudável de olhar para a sexualidade humana. Nem toda a intimidade precisa de culminar em sexo. E se o Natal está desprovido de desejo, espera-se até Janeiro.

7 Jan 2026

Como lidar com 5,8 Milhões (I)

Uma jovem canadiana de 20 anos ganhou a lotaria e ficou perante duas opções: na primeira, recebia de uma vez um milhão de dólares canadianos, equivalente a 5,8 milhões de patacas. Na segunda, recebia 1.000 dólares todas as semanas, equivalente a 5,800 patacas, até morrer. A escolha da rapariga desencadeou acesas discussões online. Em última análise, quem não sonha em ganhar a lotaria? Quem é que não anseia por dinheiro caído do céu? Se o leitor ganhasse hoje o jackpot em Macau, o que escolheria?

Consideremos os seguintes dados antes de tomar uma decisão. Em primeiro lugar, vamos assumir que um dólar canadiano continua a valer 5,8 patacas. Em segundo lugar, todos os números são estimativas para facilitar o cálculo. Em terceiro lugar, projectos com retorno sobre o investimento inferior a 4% não são aceites. Além disso, os investimentos são afectados por muitos factores; um retorno de 4% é apenas um indicador teórico e não uma garantia de lucro.

Os dados publicados online mostram que o rendimento médio mensal no Canadá é de 5,600 dólares, equivalente a 32.000 patacas. Em 2024, o preço de um apartamento com 65 metros quadrados variava entre 300.000 e 1 milhão de dólares. Os activos médios das famílias eram de 1,03 milhões de dólares, equivalente a 6 milhões de patacas. Por regra, os canadianos têm como objectivo poupar 1 milhão como fundo para a reforma. Cada milhão pode gerar entre 5.000 a 6.000 dólares por mês, o que combinado com a pensão atribuída pelo Governo, garante segurança. A esperança de vida das mulheres canadianas é de 85 anos.

Em Macau, o rendimento mensal médio ronda as 20.000 patacas. O preço de um apartamento com 65 metros quadrados situa-se entre os 3 e os 8 milhões de patacas. Em Abril de 2024, a poupança média por residente de Macau era de 1,4 milhões de patacas. Não existem dados online que indiquem qual é o valor que os residentes da cidade ambicionam ter no fundo de reforma. Tendo em consideração o actual sistema de pensões de reforma de Macau, os pensionistas recebem mensalmente 3,900 patacas. O subsídio anual para residentes seniores é 10.000 patacas, mais 10,000 patacas em cash sharing e 7.000 patacas anuais do Fundo de Previdência Central não obrigatório. Cada residente de Macau recebe a partir dos 65 anos 6.500 patacas por mês. Este cálculo não inclui os vouchers médicos, os subsídios de transporte, os subsídios para a electricidade, etc, dados pelo Governo. A esperança de vida das mulheres residentes em Macau é de 88 anos.

Comparando os dois conjuntos de dados, podemos verificar que se a jovem optasse por receber o milhão de dólares de uma vez, poderia comprar um apartamento com 65 metros quadrados, resolvendo o problema da habitação. Um milhão representa as poupanças de uma família canadiana e o objectivo do fundo de reforma. O retorno deste montante proporcionaria uma reforma em segurança.

Em Macau, 5.8 milhões de patacas podem ajudar a comprar um típico apartamento de 65 metros quadrados. Se os bens de cada residente da cidade atingem 1milhão e 400 mil patacas, uma família de 4 pessoas terá no seu conjunto bens no valor 5,6 milhões de patacas. Com 5,8 milhões de patacas, a vida familiar estaria mais estável. 5,8 milhões de patacas podem proporcionar um fundo de reforma estável, no entanto isso depende de cada pessoa; de qualquer forma, com um retorno de 4%, rende 19.000 patacas por mês. Do ponto de vista do residente comum, é apenas um rendimento extra. Combinado com os valores mensais que recebe da segurança social de Macau, 6.500 patacas, o rendimento durante a reforma seria de 26.000 patacas por mês, valor que proporciona uma segurança considerável.
Se a jovem escolher receber 1.000 dólares por semana, receberá o equivalente a 52.000 patacas por ano. Embora este valor não atinja o rendimento mensal médio no Canadá, fica próximo da média. Uma situação semelhante ocorre em Macau, onde os vencedores da lotaria recebem um rendimento mensal, também próximo da média.

Na próxima semana, continuaremos a analisar as diferentes consequências de cada uma das opções.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnicade Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

6 Jan 2026

Um foi despedido por chegar cedo e outro por sair a horas

Funcionária de uma empresa de logística, uma jovem espanhola de 22 anos, deveria entrar no trabalho às 7:30. Nos últimos dois anos, chegava entre as 6.45 e as 7.00. A empresa avisou-a repetidas vezes para não chegar mais cedo, mas ela não acatou a ordem. Acabou por ser despedida por “má conduta agravada.”

A funcionária entrou com uma acção judicial no Tribunal Social de Alicante alegando ter sido despedida sem justa causa. A empresa argumentou que chegar mais cedo ao trabalho não implicava maior produtividade e que era somente um sinal de “insubordinação.” A jovem repetiu este comportamento 19 vezes após ter recebido diversos avisos verbais e escritos, chegando mesmo a registar a entrada ao serviço através da aplicação da empresa antes de entrar no escritório. Além disso, foi acusada de vender a bateria de um carro de serviço abusando da confiança da entidade patronal.

O tribunal acabou por decidir a favor da empresa, afirmando que as constantes entradas ao serviço antes da hora, apesar dos
múltiplos avisos em contrário, constituíam insubordinação deliberada. Ao abrigo do Artigo 54 da Lei Laboral espanhola, isto
constitui uma grave violação do dever. A secção 9 da Portaria do Emprego, Capítulo 57, da Lei de Hong Kong e o Artigo 11, N.º 1(4) da Lei das Relações de Trabalho de Macau contêm disposições semelhantes que exigem que os trabalhadores cumpram as instruções razoáveis da empresa.

Na generalidade dos contratos laborais, a impossibilidade de o funcionário chegar ao trabalho antes da hora é uma instrução
razoável, não um pedido irrazoável. Desobedecer a tais instruções viola a legislação laboral, levando ao despedimento. No entanto, esta regra pode afectar o entusiasmo e o sentido de pertença do trabalhador, aumentando a dificuldade da gestão da empresa.

Embora a notícia não adiantasse qualquer informação sobre a decisão do tribunal em relação ao roubo da bateria, não sabemos se esta questão não influenciou a decisão do juiz. Só podemos dizer que, desde que a empresa não tenha decidido em contrário,
as baterias usadas pertencem-lhe e o trabalhador não tem direito a dispor delas. Curiosamente, deparei-me com outra notícia mais antiga que aborda um tema semelhante.

Um internauta que trabalhava num escritório foi despedido após uma semana, alegadamente porque saía do trabalho a horas todos os dias, o que desagradou ao patrão. Este internauta afirmou: “A empresa alega que saio do trabalho muito cedo. Os novos funcionários devem esforçar-se mais para aprender e devem fazê-lo rápido. Se houver uma data limite, posso fazer horas extraordinárias, mas não tenho de o fazer todos os dias.”

Os empregados que chegam mais cedo são despedidos, e os que saem a horas também. O que é que se deve fazer? As empresas pagam salários para que as pessoas trabalhem para elas; a obediência às suas instruções é fundamental. Chegar mais cedo significa que o trabalhador não se quer atrasar, o que demonstra um entusiasmo positivo e uma atitude responsável. No entanto, se perturbar os horários da empresa, cria-se uma situação do tipo “de boas intenções está o inferno cheio,” o que deve ser evitado.

Por outro lado, as empresas não devem avaliar o desempenho dos funcionários apenas baseadas no critério de saírem do trabalho à hora certa. Devem considerar indicadores mais importantes como, se completa as tarefas a tempo, se as prioriza, se cumpre as suas responsabilidades e se faz um bom trabalho.

O caso de Alicante conduziu a um litígio judicial. Este litígio desencadeou a especulação do público, as pessoas queriam saber porque é que chegar mais cedo era motivo de despedimento. Os trabalhadores em geral também se interrogavam. Chegar mais cedo
é considerado um comportamento positivo e um sinal de pertença à empresa. Quando isto acontece e o funcionário é na mesma despedido, sentem-se confusos e não sabem como manter uma atitude positiva no trabalho.

Para reduzir a confusão do público e dos trabalhadores, a empresa deve explicar claramente que a funcionária foi despedida por insubordinação e porque é que não podia chegar mais cedo. O departamento de relações públicas da empresa deve explicar
que a funcionária perturbou repetidamente os horários de trabalho depois de várias tentativas para a persuadir em contrário
terem falhado. Perante a insubordinação, a empresa não teve outra escolha senão despedi-la. O objectivo desta explicação é
reconstruir uma imagem pública positiva e prevenir mal-entendidos.

O departamento de Recursos Humanos também deve indicar claramente aos empregados os horários de trabalho, os procedimentos e os padrões de avaliação de desempenho. O objectivo é clarificar os motivos que não lhes permitem chegar mais cedo e evitar mal-entendidos. Mas acima de tudo, trata-se de informar o funcionário de que a empresa é gerida com valores positivos e de onde reside o equilíbrio entre esses valores e os desafios das suas funções.

Para evitar que esta situação se repita, as empresas devem reforçar estas declarações para que os trabalhadores as compreendam
bem e, mais importante ainda, incluir esses requisitos no manual do funcionário para não deixar qualquer dúvida. As empresas
também podem melhorar os seus procedimentos neste aspecto estudando o exemplo de outras. Algumas organizações de grandes
dimensões pedem aos funcionários que cheguem 15 minutos mais cedo; estes 15 minutos destinam-se a preparação, não a
trabalho efectivo.

Por exemplo, a empresa estipula que os trabalhadores devem chegar entre as 8.30 e as 8.45, e que se preparem para o trabalho entre as 8.45 e as 8.59, mas neste período não atendem o público. Às 9.00 em ponto, começam a trabalhar. Devido às suas próprias necessidades, a empresa só abre as portas às 8.30 para que os trabalhadores possam entrar. Este método permite que os trabalhadores cheguem mais cedo sem perturbar os horários da empresa e garante que os funcionários estão adequadamente
preparados para atender o público—uma situação em que todos ficam a ganhar.

A empresa e os trabalhadores devem colaborar entre si. A empresa tem de deixar claro os seus requisitos e os trabalhadores devem respeitar as instruções. Só um bom ambiente de trabalho pode reter o maior bem intangível de uma empresa—os seus colaboradores—e ambas as partes podem beneficiar.

5 Jan 2026

Um 2026 melhor para Portugal

Antes de mais quero desejar a todos os leitores deste jornal excelente e a quantos o produzem um novo ano de 2026 repleto de prosperidade e sucesso. Temos de entender que nada se consegue de um momento para o outro, mas o Governo português tem mais de 350 dias para fazer com que os portugueses passem a ter uma qualidade de vida melhor. A mensagem de ano novo do primeiro-ministro, Luís Montenegro, deixou a ideia que os cidadãos (e não “cidadões” como pronunciou o chefe do Executivo) entenderam as suas palavras como promessas vãs e inacreditáveis quando, ao dirigir uma mensagem de Ano Novo ao povo em geral, aproveitou para fazer propaganda a um candidato presidencial. Logo no início de Janeiro, os reformados são contemplados com um aumento inadmissível. Um reformado que receba 300 euros por mês, terá um aumento de pouco mais de cinco euros.

Que aumento é este? Dá para comprar uma sandes e um café. Não é isto que os portugueses esperam de quem os governa. Gastam-se milhares de milhões de euros em excentricidades com a capa de progresso e desenvolvimento. No entanto, a habitação continua um caos relativamente aos jovens e aos pobres. Nunca mais se decide um programa envolvente de dimensão global que construa casas de arrendamento ou compra a preços acessíveis para os que vivem ao nível da pobreza. E são milhões de nossos compatriotas. Na educação temos crianças sem creches. Esperemos que em 2026 este problema seja solucionado e que se termine com as decisões que anulam no programa de ensino as disciplinas que falem de educação sexual.

Nos transportes o povo português espera que os passes, ditos sociais, possam baixar de preço e que tenhamos um Metropolitano em Lisboa que não esteja sempre com os elevadores para deficientes, invisuais e idosos avariados e em muitas estações sem escadas rolantes impedindo obviamente o uso deste transporte importante. Será que em 2026 a Justiça irá mudar a sua estrutura a fim de terminar com uma justiça para ricos e outra para pobres? Mais de 100 mil pobres esperam que em 2026 o Governo volte a repor o subsídio de renda miserável de 200 euros mensais que suspendeu a esses beneficiários para usar os respectivos milhões de euros cativados para esse fim, em outras acções onde existia falta de tesouraria. Esperemos que o novo ano sirva para deixar de tratar os imigrantes de quem Portugal tão necessita para fazer frente ao trabalho na agricultura, nos hotéis, restaurantes, hospitais e no apoio domiciliário, especialmente aos idosos com doenças incuráveis.

Em 2026, Portugal tem de mudar radicalmente o estado da Saúde. As urgências hospitalares não podem continuar encerradas ou com os doentes a aguardar 17 horas por uma consulta. As mulheres grávidas não podem continuar em pânico sem saberem onde irão ter os filhos ou os partos acontecerem em ambulâncias, carros particulares e mesmo na rua. Os médicos e outro pessoal clínico têm de passar a ser muito melhor remunerados.

Os impostos que recaem sobre estes profissionais são escandalosos: um médico que trabalha de manhã à noite e que recebe 3.200 euros por mês leva para casa apenas 1.400 euros. A diferença vai-se em impostos que indignam qualquer profissional. E depois, não nos podemos admirar que os médicos e enfermeiros decidam emigrar ou mudarem-se para os hospitais privados. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é um dos melhores bens que foi concedido ao povo português e não podemos imaginar que os governantes estejam a planear um programa para privatizar totalmente a Saúde. Seria um crime, do mesmo tipo que Trump tem levado a efeito nos Estados Unidos da América.

Os funcionários públicos têm de reflectir neste novo ano que são os contribuintes que lhes pagam os salários e têm de mudar o paradigma de atender o público rude e insolentemente nos balcões dos serviços públicos a nem sequer atenderem os telefonemas dos contribuintes. O problema social tem de melhorar substancialmente e não podemos continuar a constatar que Montenegro tem-se aliado a neonazis para tomar posições como a tentativa de mudar as regras da nacionalidade ou mesmo a própria Constituição. Os autarcas eleitos pelas populações de cada localidade têm de se compenetrar que o seu lema é servir o povo e não pensar quanto ganharão de comissão num ajuste directo a um empresário da construção civil ou de outros empreendimentos. Existem milhares de casas abandonadas ou encerradas. Esta situação não pode continuar. A classe média está a empobrecer devido ao aumento do custo de vida e necessita urgentemente de uma habitação digna e de preço acessível. Os autarcas têm de executar um censo habitacional e obrigar a que os proprietários de imóveis encerrados os coloquem no mercado de arrendamento ou de venda.

Não festejamos a entrada de um ano novo apenas para ouvirmos desejos e promessas através de mensagens dos mandantes da governação. Queremos acção. Acção rápida, eficiente, séria e produtiva em benefício de um povo que continua na cauda dos países europeus. Aos amigos leitores que vivem em Macau deixo-vos um conselho: amealhem o maior pecúlio possível para no caso de regressarem a Portugal, poderem adquirir uma casa. Será um bem ultra necessário em face da situação que a maioria dos portugueses vai sobrevivendo. Esperemos que 2026 possa oferecer um Portugal melhor.

5 Jan 2026

Macau em 2025 e Lições para o Futuro

“Change is the law of life. Those who look only to the past or present are certain to miss the future.”
John F. Kennedy

Macau em 2025 encontrava-se num ponto de viragem, compelida a reconciliar a sua histórica dependência do jogo com a necessidade urgente de diversificação. A trajectória da cidade foi moldada pela turbulência económica global, concorrência regional e ritmo acelerado da transformação tecnológica. As reformas de governação procuraram modernizar as instituições, reforçar a transparência e alinhar Macau com a estratégia de desenvolvimento integrado da Grande Baía. A introdução de sistemas de licenciamento baseados em blockchain reduziu ineficiências burocráticas, enquanto plataformas de governo electrónico ampliadas facilitaram o acesso dos cidadãos a serviços que iam desde marcações de saúde até inscrições escolares.

Iniciativas anticorrupção, incluindo auditorias interdepartamentais e portais de transparência pública, fortaleceram a responsabilização e reforçaram a confiança dos investidores. Estas medidas reflectiram um reconhecimento mais amplo de que a agilidade institucional era indispensável para sustentar a legitimidade num ambiente em rápida evolução. Economicamente, a dependência de Macau das receitas do jogo permaneceu uma vulnerabilidade estrutural, mas 2025 testemunhou progressos tangíveis na diversificação.

A iniciativa “Macau Capital Cultural” que funciona como programa interno de valorização e dinamização cultural, podendo servir de base para sustentar a projecção internacional obtida com o título de “Culture City of East Asia 2025”. elevou as artes e o património lusófono, posicionando a cidade como um centro de intercâmbio intercultural. Sandboxes de fintech, desenvolvidos em parceria com Hong Kong e Shenzhen, permitiram a experiência em pagamentos digitais e finanças em blockchain, fomentando a inovação nos serviços financeiros. O ecoturismo e a hospitalidade baseada no património expandiram-se, aproveitando o centro histórico classificado pela UNESCO para atrair visitantes em busca de experiências sustentáveis.

Startups em legaltech, edtech e consultoria em sustentabilidade emergiram, apoiadas por incubadoras como o Centro de Inovação e Empreendedorismo da Universidade de Macau. Estes desenvolvimentos sinalizaram uma mudança gradual em direcção ao pluralismo económico, embora a predominância do jogo sublinhasse a necessidade de um compromisso contínuo com a diversificação. O sistema jurídico de Macau avançou em direcção à harmonização com padrões internacionais. Um quadro inspirado no Regulamento Geral de Protecção de Dados da União Europeia reforçou a protecção de dados, ampliando os direitos dos cidadãos e as obrigações das empresas.

A proposta em debate da redacção de uma Carta de Ética Digital, informada por contributos da academia e da sociedade civil, estabeleceu princípios para a inteligência artificial, transparência algorítmica e responsabilidade digital. Acordos bilaterais com países lusófonos facilitaram o reconhecimento mútuo de qualificações profissionais, reforçando o papel de Macau como ponte normativa entre modelos regulatórios chineses e tradições jurídicas lusófonas. Estas reformas posicionaram Macau como um laboratório de diplomacia jurídica, capaz de reconciliar quadros normativos divergentes e oferecer modelos de convergência.

No plano sociocultural, Macau reafirmou a sua identidade como enclave multicultural. Programas de educação bilingue expandiram-se, fortalecendo a diversidade linguística e a hibridez cultural. Projectos comunitários de restauração patrimonial revitalizaram sítios históricos, integrando a sustentabilidade nos esforços de preservação. Fóruns juvenis sobre sustentabilidade, ética e inovação fomentaram o envolvimento cívico e cultivaram uma nova geração de líderes. A diplomacia cultural ampliou o soft power de Macau, projectando a sua identidade como espaço de diálogo entre Oriente e Ocidente. A ênfase no intercâmbio intercultural sublinhou a importância da sustentabilidade cultural como fundamento para a resiliência a longo prazo.

Apesar das reformas, persistiram desafios. A concorrência regional ameaçou a predominância de Macau nas receitas do jogo, enquanto os recursos territoriais limitados restringiram a expansão urbana. As dificuldades na retenção de talentos, agravadas pela fuga de cérebros para cidades do interior da China, minaram a capacidade local. Pressões ambientais, incluindo riscos climáticos crescentes, exigiram estratégias de resiliência mais robustas. Estes desafios destacaram a necessidade de previsão e governação adaptativa.

Em 2025, Macau também enfrentou uma crise de consumo que testou tanto as instituições como a sociedade. O aumento do custo de vida, pressões inflacionistas e acesso desigual a bens criaram descontentamento entre os residentes. O afluxo de turistas pressionou as cadeias de abastecimento, enquanto os agregados familiares locais lutavam com a acessibilidade de habitação, alimentos e serviços essenciais. A confiança dos consumidores enfraqueceu, ameaçando a estabilidade social e a vitalidade económica.

Enfrentar esta crise exigiu uma resposta em múltiplas categorias. As autoridades introduziram mecanismos de monitorização de preços para prevenir a inflação especulativa, reforçaram leis de protecção do consumidor para garantir práticas justas e expandiram subsídios para agregados vulneráveis. Plataformas digitais foram utilizadas para aumentar a transparência nos preços e fornecer informação em tempo real sobre bens essenciais. Organizações da sociedade civil colaboraram com agências governamentais para promover literacia financeira e consciência do consumidor, capacitando os residentes a tomar decisões informadas. As soluções de longo prazo enfatizaram a diversificação das cadeias de abastecimento, o investimento na produção local e a integração da sustentabilidade nos padrões de consumo. Ao enfrentar a crise de consumo através de medidas regulatórias, sociais e tecnológicas, Macau reforçou a resiliência e restaurou a confiança pública.

Neste contexto, emergiu também a necessidade de rever as políticas sociais dirigidas aos idosos. As pensões mensais para idosos devem ser ajustadas ao montante do índice de mínimo de subsistência, garantindo que nenhum beneficiário viva abaixo do limiar mínimo de dignidade económica. O cheque pecuniário deve contemplar todos os idosos que recebam pensão de velhice, independentemente do local de residência, seja em Hong Kong, Portugal ou qualquer outro território. Esta medida reforça a justiça social e assegura que os cidadãos de Macau, mesmo vivendo fora da região, mantenham o vínculo institucional e o direito a uma protecção equitativa.

Da experiência de 2025 emergem várias lições. A governação deve integrar ferramentas digitais com mecanismos participativos, garantindo capacidade de resposta e legitimidade. A diversificação económica deve priorizar sectores que aproveitem os activos culturais e jurídicos de Macau, como o comércio lusófono, a consultoria ética e o turismo patrimonial. A diplomacia jurídica oferece uma via para Macau reconciliar normas chinesas e internacionais, posicionando a cidade como modelo de convergência. A sustentabilidade cultural exige envolvimento activo de jovens, educadores e artistas, garantindo que o património permaneça um recurso vivo. A previsão estratégica, através de planeamento de cenários e benchmarking, deve orientar o posicionamento de Macau na Grande Baía e em redes globais.

O ano de 2025 não foi apenas um marco cronológico, mas um ponto de inflexão estratégico. Através de reformas, diversificação, renovação cultural e gestão de crises, Macau demonstrou resiliência e criatividade. As lições extraídas deste período fornecem um plano para uma governação sustentável, desenvolvimento inclusivo e relevância internacional. O futuro de Macau dependerá da capacidade de cultivar agilidade, liderança ética e diálogo intercultural num mundo cada vez mais complexo. Olhando em frente, Macau deve abraçar a inovação enquanto protege a sua identidade cultural.

O investimento em capital humano é essencial, exigindo políticas que atraiam e retenham talentos, fomentem a criatividade e incentivem o empreendedorismo. O desenvolvimento de infra-estruturas deve equilibrar modernização com preservação patrimonial, garantindo que a expansão urbana não produza a erosão dos activos culturais. A resiliência ambiental deve ser priorizada, com estratégias para mitigar riscos climáticos e promover práticas sustentáveis. Internacionalmente, Macau deve aproveitar a sua posição única como ponte entre a China e o mundo lusófono, expandindo o comércio, o intercâmbio cultural e a cooperação jurídica.

Em última análise, a jornada de Macau em 2025 ilustra a interacção entre continuidade e mudança. A capacidade da cidade de honrar o seu património enquanto abraça a inovação determinará a sua aptidão para prosperar nas próximas décadas. As lições de 2025 sublinham a importância da agilidade institucional, pluralismo económico, diplomacia jurídica, sustentabilidade cultural, previsão estratégica, protecção do consumidor e justiça social para os idosos. Ao internalizar estas lições, Macau poderá traçar um caminho para um futuro definido pela resiliência, inclusão e relevância global.

2 Jan 2026

P’rá Ucrânia é que é bom

Não discuto o passado nem a personalidade de Vladimir Putin. Não discuto a política expansionista da Rússia. Discuto sobre a política de Portugal e da União Europeia. Em Portugal existem cerca de quatro milhões de cidadãos que vivem no limite da pobreza. Existem milhares de portugueses com reformas de miséria. Existem idosos a viver sozinhos sem qualquer apoio médico ou social. Existem lares que são caixotes de lixo humano. Não existem creches públicas suficientes para as crianças portuguesas. Existem centenas de bairros da lata. Existem sem-abrigo às centenas com frio e fome por todas as cidades.

Existem prédios da propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com mais de cinco andares, completamente abandonados e em ruínas num país onde não existe habitação social para jovens, idosos, deficientes e famílias que sobrevivem tendo de optar na compra de alimentos ou de medicamentos. Existem jovens que aos 40 anos de idade ainda vivem nas casas dos pais por não conseguirem arrendar ou comprar uma casa, muito menos viver em união de facto com uma companheira e terem filhos.

Existe um Ministério da Defesa que anuncia a futura compra de material bélico e aeronaves no valor de milhares de milhões de euros quando os hospitais públicos apresentam as urgências encerradas e as futuras mães a terem o parto em casa, em ambulâncias, nos carros particulares ou na rua. Existem invisuais e deficientes que não podem frequentar certas estações do Metropolitano de Lisboa por não existirem elevadores ou escadas rolantes. Existem estabelecimentos prisionais onde os reclusos são contemplados com um tipo de alimentação que até os cães rejeitam.

Existem estudantes que acabam o ensino secundário e vão trabalhar para um restaurante ou para a construção civil porque os pais não têm dinheiro para o pagamento de propinas e material universitário. Existem mendigos a pedir dinheiro diariamente em todas as cidades do país. Existem mais de 100 mil pobres a quem lhes foi suspenso um subsídio de renda mensal e miserável de 200 euros.

Existem pobres a roubar um chocolate ou um pão num supermercado e são levados logo para uma esquadra policial. Não existem institutos seguros que recolham mulheres vítimas de violência doméstica. Existem partidos políticos que advogam a expulsão de Portugal de imigrantes que trabalham e descontam para a Segurança Social. Existe um aumento anual aos reformados de três a cinco euros.

A política em Portugal, inegavelmente, despreza os pobres, com o argumento de que o Orçamento do Estado não dá para mais. E, afinal, o que se constata? Que o Governo português tem enviado milhares de milhões de euros para a Ucrânia. Para um país, cujo
Parlamento tem uma maioria de neonazis. Um país que tem ministros e chefe de Gabinete presidencial corruptos ao mais alto nível.

Um país onde o presidente Zelensky tem demitido ministros atrás de ministros pelo desvio de verbas milionárias oriundas da União Europeia e obviamente de Portugal. Um país onde o povo está dividido entre eleições gerais, mesmo em tempo de guerra. Um país que ainda há seis anos “exportava” para Portugal uma das maiores máfias que se dedicava ao tráfico humano, assaltos graves a carrinhas de valores, ao controlo de prostituição de mulheres ucranianas disfarçadas de empregadas domésticas, venda de drogas e lavagem de dinheiro.

Portugal continua a enviar milhões de euros para a Ucrânia, quando o seu povo vive em cenários de pobreza e de miséria.
Não é admissível uma política deste género, onde o povo já tem medo de se manifestar contra as decisões relacionadas com o apoio pecuniário à Ucrânia, porque podem correr o risco de serem acusadas de apoiantes do comunista Putin. Não é aceitável que a política de interesses norte-americana, comandada pelo seu presidente Donald Trump, que suporta as mais diversas organizações neonazis, incluindo as ucranianas, leve Portugal a enviar milhões de euros, sabe-se lá com que destino, e mantendo na miséria milhares dos seus filhos.

É urgente e minimamente razoável que o governo português cesse de imediato o envio de milhões de euros e material bélico ou aeronaves para a Ucrânia, quando esse dinheiro faz tanta falta aos pobres residentes no país à beira mar plantado. A solidariedade humana não é isto. O povo ucraniano nada tem beneficiado com os milhões de Portugal e dos outros países da Europa. Chegámos ao ponto de ser enviado material bélico para a Ucrânia e muitos responsáveis do governo ucraniano venderem esse mesmo material para o Afeganistão e outros países que tal. Os leitores devem marcar uma posição, dentro das possibilidades de cada um, de sensibilizar as autoridades portuguesas que a situação aqui descrita não pode continuar. A bem da Nação.

29 Dez 2025

Políticas de captação de investimento, serviços de valorização e fiscalização do Parque de Ciências e Tecnologias

O Parque de Ciências e Tecnologias prende-se com o futuro de Macau

Deputados Lei Wun Kong e Wong Ka Lon

A economia de Macau depende excessivamente das receitas do jogo, mas, com o surgimento da inteligência artificial na indústria, os jovens deixam de estar entusiasmados com o jogo offline. Com o passar do tempo, as mudanças da conjuntura exterior e outros factores, as receitas do jogo podem ser instáveis e afectadas. Assim, o projecto do Parque de Ciências e Tecnologias é a chave da diversificação adequada da economia.

Questão: Criar e aperfeiçoar políticas de captação de investimento e os serviços pós-investimento e a fiscalização do referido Parque

Actualmente, os empresários são mais conservadores. Para promover com eficiência o projecto do Parque em causa, o Governo deve tomar a iniciativa de captar investimentos e prestar serviços de valorização. Apesar dos esforços envidados pelos serviços públicos, nomeadamente pela Secretaria para a Economia e Finanças e pelos seus serviços subordinados, é necessário criar e aperfeiçoar políticas de captação de investimento, os serviços pós-investimento e a fiscalização do referido Parque.

Modelo: Tomar como referência as experiências das cidades-modelo do Interior da China

Nos últimos anos, as cidades-modelo do Interior da China definiram cinco modelos para atrair investimentos. O primei-ro é através do capital, “fundos + indústrias”, o governo cria um fundo industrial para promover a implementação dos projectos, como a indústria de biotecnologia de Suzhou. O segundo é através de cluster “liderado pelas indústrias dominantes”, ou seja, criar um cluster industrial em torno das empresas dominantes, por exemplo, em Shenzhen é a Huawei que impulsiona as respectivas indústrias. O terceiro baseia-se no “fornecimento orientado pela procura”, isto é, explorar cenários de aplicação para atrair empresas tecnológicas, por exemplo, a empresa Hangzhou City Brain integroua Alibaba Cloud para desenvolver a aplicação da IA. O quarto assenta na “correspondência inteligente de dados” para captar investimentos digitais, ou seja, na criação de big-data para definir com precisão as empresas-alvo, como o sistema de “captação de investimento digital” em Cantão. O quinto baseia-se na “cooperação inter-regional”, ou seja, transcende-se a delimitação das regiões administrativas, como a zona de cooperação Shenzhen-Shantou, liderada por Shenzhen.

Estratégia: Elaborar políticas diferenciadas segundo a realidade de Macau

Macau, enquanto micro-economia, para além da falta de recursos humanos e de terrenos, não tem empresas dominantes, assim, é difícil criar um cluster industrial. Assim, temos de maximizar as nossas vantagens singulares (tais como, do princípio “um país, dois sistemas”, de porto franco, de zona aduaneira autónoma, do regime fiscal simples, de plataforma de ligação com os países de língua portuguesa e do sistema do direito europeu, e transformar tudo isto em pontos e serviços concretos e atractivos para a captação de investimentos), e transformar Macau numa plataforma de interligação entre as empresas científicas e tecnológicas da China e dos PLP.

Assim, podemos tomar as seguintes medidas:

1) com base no acordo de desempenho, promover a orientação industrial através de uma participação social estratégica do fundo industrial, por forma a conseguir o efeito de alavancagem do capital com o risco controlado;

2) promover a cooperação na captação de investimentos inter-regionais, definir claramente a divisão do trabalho com Henqin e assegurar a eficácia do investimento;

3) captar talentos locais e internacionais para atracção de investimentos, atribuindo aos candidatos qualificados o estatuto de residente não permanente;

4) criar um banco de grande dimensão para atracção de investimentos, etc.

Neste momento, é necessário que o Governo concretize as políticas de captação de investimento mediante incentivos jurídicos dirigidos a empresários que queiram entrar no parque. Devem ser clarificados o modelo de captação de investimento, a gestão operacional e as políticas preferenciais, entre outras etapas-chave. Deve-se assegurar a captação de investimentos de alto nível e detalhar o processo de gestão a posteriori, de modo a destacar a mudança do papel do Governo, de gestor para prestador de serviços, concretizando-se a articulação dessas medidas com o 15.º Plano Quinquenal do País e as necessidades e vantagens de Macau.

Garantia: Melhoria dos serviços de valor acrescentado e a supervisão quantitativa

Aquando da captação de investimentos, as cidades-estrela do Interior da China, para além de prestarem serviços de valor acrescentado às empresas para investimentos, devem facilitar o desenvolvimento dessas empresas, orientando-as para o seu crescimento contínuo. Concluído o processo de captação de investimentos, segue-se a fase de monitorização do valor de produção e da intensidade de investimento por acre de terra, que será usada como base para determinar o valor dos subsídios e benefícios concedidos pelos respectivos governos.

Embora seja difícil para Macau a adopção do modelo de quantificação por acre de terra, pode proceder-se a uma quantificação adequada, tendo em conta as suas próprias necessidades. Por exemplo, tomando como indicadores quantitativos a intensidade do emprego, a dimensão do investimento e a eventual entrada no mercado de capitais. Assim, com esses valores determina-se o apoio financeiro que é concedido, bem como os benefícios fiscais e outras medidas de incentivo. Paralelamente, como a área do parque científico e tecnológico e os recursos humanos são limitados, é preciso definir melhor a proporção de cada sector, mas deve evitar-se a procura cega de uma envergadura “grande e completa”. Além disso, as políticas devem orientar-se para a cooperação Hengqin-Macau, para a cooperação dentro e fora do parque, e para o efeito da indústria-academia-investigação.

Em suma, o Governo deve criar um sistema aperfeiçoado de serviços de valor acrescentado e de supervisão quantitativa para a captação de investimentos, por forma a conseguir avanços em várias dimensões, nomeadamente no “posicionamento industrial, nas excelentes políticas complementares, na sinergia profunda entre Macau e Hengqin, na ecosfera do processo de captação de investimento, e na gestão da confiança de negócios”.

20 Dez 2025

A narrativa erótica em áudio está a substituir o vídeo?

O erotismo está a ganhar uma nova voz — literalmente. Enquanto o vídeo dominou durante décadas o imaginário sexual mainstream, hoje a fantasia sexual narrativa em áudio está a viver um momento de grande popularidade: podcasts eróticos, apps que contam histórias sensuais e audiobooks capazes de provocar tesão. É uma forma de erotismo que apela à imaginação, à intimidade e à experiência pessoal de uma forma que a pornografia visual raramente consegue.

O formato áudio funciona de maneira radicalmente diferente do vídeo. Quando vemos vídeos, recebemos uma imagem pronta, um guião visual que dita aquilo que deveria excitar-nos. São corpos com características específicas, muitos deles com alterações cirúrgicas que seguem modas do que é suposto ser sensual ou excitante. O áudio, por outro lado, funciona como sugestão: somos nós que construímos o cenário, as personagens e a química. A narrativa entra em jogo como uma espécie de gatilho — um gatilho que permite à imaginação fazer aquilo que sabe melhor: criar a nossa própria fantasia erótica.

Quando ouvimos uma história erótica em áudio, os nossos cérebros não estão apenas a processar estímulos externos; estão a colaborar activamente com a narrativa, a preencher espaços, a gerar imagens e sensações únicas. Essa participação pode intensificar a resposta erótica de uma forma diferente da experiência mais passiva de observar um ecrã. Estas histórias em áudio conseguem centrar a experiência no ouvinte, muitas vezes colocando-o no papel principal da fantasia e criando uma sensação de conexão e intimidade difícil de replicar em vídeo.

A crescente popularidade do áudio erótico parece responder a necessidades emocionais e sexuais que muitas pessoas sentem não estar contempladas pelas formas tradicionais de pornografia. Com a narrativa, o ouvinte deixa de ser apenas consumidor e passa a estar envolvido num processo de co-criação do erótico. Apps como a Quinn ou a Dipsea produzem histórias narradas, muitas vezes focadas na perspectiva do ouvinte — com vozes, som ambiente e uma narrativa envolvente — em vez de imagens explícitas.

Não é apenas a natureza do erotismo que explica esta popularidade crescente, mas também o público para quem estas histórias são criadas. Muitas destas aplicações e podcasts são pensados por mulheres e para mulheres, ou para pessoas queer. A pornografia, historicamente associada ao olhar e ao desejo masculino (com algumas excepções), tende a deixar de fora outros imaginários igualmente relevantes. As narrativas eróticas em áudio têm explorado precisamente esses territórios tradicionalmente considerados mais “femininos”: o consentimento, a emoção, a vulnerabilidade e o prazer feminino. Aqui, o foco na história e na antecipação constrói uma forma de erotismo que privilegia a conexão — sem nunca abdicar da excitação.

O sucesso destas apps, podcasts e contos áudio sugere que muitas pessoas procuram histórias que as incluam e respeitem os seus ritmos e desejos, especialmente aquelas que nunca se reconheceram na erótica mainstream. O foco na conexão emocional, o simples facto de alguém sussurrar palavras sensuais directamente pelos headphones adentro, cria uma experiência íntima e quase confidencial. Esta raridade emocional — sentir-se ouvido, desejado e imaginado no universo erótico — torna o áudio simultaneamente excitante, libertador e seguro.

O regresso à voz pode, por isso, ser mais do que uma moda passageira. Pode ser um reflexo de como queremos experienciar o erotismo hoje: não como espectadores distantes, mas como participantes activos na nossa própria co-criação erótica.

19 Dez 2025

Lições de 2025 para a Década

(Continuação do artigo publicado em 11 de Dezembro)

No sector da segurança, o mundo enfrentará desafios complexos. O terrorismo poderá assumir novas formas, com utilização de tecnologias digitais e de inteligência artificial. A cibersegurança tornar-se-á prioridade, com ataques digitais a sistemas críticos a representar riscos significativos. Estima-se que até 2030 os custos globais de ciberataques possam ultrapassar 10 mil milhões de dólares anuais. No plano militar, tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China poderão intensificar-se. O Médio Oriente continuará a ser foco de instabilidade. Entre 2026 e 2030, os cenários sociais e culturais assumirão papel determinante na configuração do futuro global. A migração internacional continuará a ser um dos fenómenos mais marcantes, impulsionada por conflitos armados, desigualdades económicas e alterações climáticas.

Estima-se que centenas de milhões de pessoas possam estar em situação de mobilidade internacional ou interna, seja por procura de melhores condições de vida, seja por necessidade de sobrevivência. A Europa enfrentará pressões migratórias vindas de África e do Médio Oriente, com centenas de milhares de pessoas a procurar refúgio em países como Itália, Grécia, Espanha e Alemanha. Este fluxo exigirá políticas de integração mais robustas, mas também poderá gerar tensões sociais e políticas, alimentando discursos populistas e nacionalistas.

Nos Estados Unidos, a imigração continuará a ser tema central, com políticas restritivas a provocar tensões sociais e protestos, mas também com a necessidade de mão-de-obra em sectores como agricultura, construção e serviços. Na América Latina, migrações internas intensificar-se-ão devido a fenómenos climáticos extremos, como inundações e secas, obrigando milhões de pessoas a deslocar-se das zonas rurais para as cidades. Em África, a desertificação e os conflitos armados no Sahel poderão deslocar mais de 20 milhões de pessoas, criando crises humanitárias de grande escala.

A urbanização será outro fenómeno central. Até 2030, mais de 65% da população mundial viverá em áreas urbanas, com megacidades a crescerem de forma acelerada. Cidades como Lagos, Kinshasa, Mumbai, São Paulo e Jacarta poderão ultrapassar os 30 milhões de habitantes, enfrentando desafios de infra-estrutura, habitação, transporte e saneamento. A urbanização acelerada trará oportunidades de dinamismo económico e cultural, mas também riscos de desigualdade e exclusão social. As cidades terão de investir em soluções sustentáveis, como transportes públicos eficientes, habitação acessível e gestão de resíduos. A digitalização das cidades, com recurso a tecnologias inteligentes, poderá melhorar a qualidade de vida, mas exigirá políticas de inclusão para evitar que populações vulneráveis fiquem excluídas.

As transformações demográficas serão igualmente decisivas. O envelhecimento populacional na Europa, Japão e Coreia do Sul exigirá políticas de saúde e de cuidados de longa duração, com impacto nos sistemas de pensões e na sustentabilidade fiscal. Estima-se que, até 2030, mais de 25% da população da Europa tenha mais de 65 anos, criando desafios de produtividade e de financiamento dos sistemas sociais. Em contrapartida, África e partes da Ásia terão populações jovens em crescimento, com milhões de pessoas a entrar no mercado de trabalho. Este fenómeno poderá ser uma oportunidade de dinamismo económico, mas também um risco de instabilidade se não forem criados empregos suficientes. A Índia, por exemplo, terá mais de 1,5 mil milhões de habitantes em 2030, com uma população jovem que poderá impulsionar crescimento, mas que exigirá investimentos massivos em educação e formação. A China enfrentará o desafio de uma população envelhecida, com mais de 400 milhões de pessoas acima dos 60 anos em 2030, o que poderá limitar o dinamismo económico e aumentar pressões sobre sistemas de saúde e pensões.

Os cenários culturais também se transformarão. A globalização digital continuará a difundir valores e práticas culturais, mas também a gerar tensões entre tradições locais e influências externas. A música, o cinema e a literatura circularão de forma cada vez mais intensa, criando uma cultura global híbrida. Contudo, movimentos de afirmação identitária e de valorização de culturas locais ganharão força, procurando preservar tradições e resistir à homogeneização cultural. A diversidade cultural será simultaneamente uma riqueza e um desafio, exigindo políticas de inclusão e de respeito pela diferença.

As migrações, a urbanização e as transformações demográficas interagirão com fenómenos ambientais e tecnológicos. As cidades terão de se adaptar a fenómenos climáticos extremos, como inundações e ondas de calor, que afectarão milhões de pessoas. A migração climática tornar-se-á realidade, com populações inteiras a deslocar-se devido à subida do nível do mar e à desertificação. A urbanização acelerada exigirá soluções tecnológicas, como cidades inteligentes e infra-estruturas sustentáveis, mas também políticas sociais para garantir inclusão. As transformações demográficas criarão novos equilíbrios de poder, com África e Ásia a ganhar peso demográfico e económico, enquanto a Europa e Japão enfrentarão desafios de envelhecimento.

Em síntese, o período entre 2025 e 2030 pode ser descrito como uma fase de transição crítica, em que os acontecimentos de 2025 funcionaram como catalisadores de mudanças estruturais que se manifestaram em diferentes dimensões. A economia global entrou num ciclo de recuperação moderada, mas com riscos persistentes. A política internacional foi marcada por polarização e por tensões geopolíticas, com os Estados Unidos e a China a disputar a liderança tecnológica e industrial, e o Médio Oriente a permanecer como foco de instabilidade. O ambiente revelou a urgência da transição energética e da adaptação climática, com fenómenos extremos a afectarem milhões de pessoas. A tecnologia transformou economias e sociedades, criando oportunidades e riscos. A educação e a saúde exigiram políticas inclusivas e inovadoras. A segurança tornou-se prioridade, com ciberataques e terrorismo digital a representar riscos significativos. Os cenários sociais e culturais revelaram a importância da migração, da urbanização e das transformações demográficas.

O futuro dependerá da capacidade de articular interesses nacionais com responsabilidades colectivas, construindo um equilíbrio entre competitividade e solidariedade. Se os países conseguirem investir em inovação responsável, em educação inclusiva e em sustentabilidade energética, será possível construir um futuro mais justo, sustentável e inclusivo. Caso contrário, o risco de estagnação prolongada e de agravamento das desigualdades permanecerá elevado. O período entre 2025 e 2030 ficará, assim, como um momento decisivo, em que a humanidade foi chamada a escolher entre a cooperação e a fragmentação, entre a coragem de avançar e o risco de permanecer prisioneira das suas próprias contradições.

18 Dez 2025