É preciso saber governar

No dia em que a ministra da Administração Interna tomou posse falámos com um comandante da Guarda Nacional Republicana (GNR) que nos disse “Ai, meu caro, esta ministra Maria Lúcia Amaral vai ser um desastre… a senhora é muito boa jurista, mas não tem a mínima habilidade para lidar com homens de barba rija, nem faz a mínima ideia do que são as forças de segurança e o que é preciso mudar num panorama tão perturbado e obscuro”. O comandante tinha razão. A ministra foi uma página negra do actual Governo e acabou por se demitir em tempo de calamidade. Tinha forçosamente de se demitir. Já era “bobo da corte” no seio da PSP, GNR e Proteção Civil.

A senhora deixou o país atónito quando só passados três dias da tempestade Kristin atingir Leiria e Marinha Grande é que veio a público dizer… nada! Vários políticos e comentadores de televisão há muito que se tinham pronunciado no sentido de o primeiro-ministro substituir a ministra da Administração Interna. Luís Montenegro fez ouvidos de mercador e o resultado foi igual à catástrofe que tem atingido o território nacional. Montenegro olhou ao redor para os seus amigos e não encontrou no imediato um novo ministro para uma pasta tão importante. Montenegro não tem uma visão da realidade. Por sinal, Portugal tem uma personalidade que devia ser logo convidada, caso estivesse disposta, a ocupar o cargo de ministro da Administração Interna. Saber coordenar Forças Armadas com GNR, PSP, Bombeiros e Proteção Civil somente o almirante Gouveia e Melo. E viu-se na pandemia da Covid-19.

Não votámos no candidato presidencial Gouveia e Melo, mas reconhecemos a sua postura de organizador, coordenador e com seriedade para ocupar o lugar de ministro da Administração Interna em tempos difíceis para o país, que se encontra de Norte a Sul numa situação de tragédia. Na semana passada até o inimaginável aconteceu. Nunca ninguém, muito menos um governante de infraestruturas, pensou que a principal autoestrada do país, a A1 que liga Lisboa ao Porto, pudesse colapsar devido à ruptura de um dique no rio Mondego. Na zona de Coimbra os automobilistas irão estar durante meses privados de usar a autoestrada. Voltamos sempre ao mesmo: é preciso saber governar. E o Governo no início das tempestades que têm assolado o país não esteve à altura dos trágicos acontecimentos. Nem sequer inseriu no planeamento de um novo apagão ou outro tipo de catástrofe, o armazenamento de uma substancial existência de geradores. Seria o mínimo. Ainda estão mais de 20 mil portugueses sem electricidade, passadas duas semanas da primeira tempestade que derrubou postes de energia e inundou postos de abastecimento.

A verdade, é que milhares de portugueses têm sido desalojados das suas casas, de lares e evacuados de aldeias cercadas por água. Na zona de Coimbra os fuzileiros navais não param um dia de transportar pessoas, alimentos e outros bens nos seus carros anfíbios.

Há pessoas que ficaram sem nada. Uma vida para construir uma casa e de um dia para o outro viram-se completamente sem o que reuniram durante anos. As terras em diversos locais do país estão saturadas de água e nos próximos tempos, segundo os especialistas, essas terras vão-se abater e as moradias que estiverem no seu caminho serão destruídas. Até em Porto Brandão, ao lado da Trafaria, e na Costa de Caparica as derrocadas das arribas provocaram centenas de desalojados. E a Câmara Municipal de Almada durante anos não previu que a tragédia pudesse acontecer? Temos muitos e competentes autarcas em Portugal, mas também temos incompetentes e corruptos que só se preocupam com a construção de rotundas e de outras obras megalómanas para espanhol ver.

A reconstrução desta calamidade que atingiu Portugal vai demorar anos e uma das obras mais importantes, a instalação das linhas eléctricas subterrâneas já teve o veredicto “solidário” da União Europeia: não concede apoios para tal. E é assim que os portugueses vão assistindo a um país inundado, com a agricultura destruída, com casas e fábricas que desapareceram e com uma fila infindável de camiões que transportam muito do que alimenta a população, devido a um viaduto de autoestrada que colapsou, e sabe-se lá de que forma teria sido construído… apenas esperamos que no futuro saibam governar com o objectivo de proporcionarem aos portugueses uma vida melhor e mais pacífica.

16 Fev 2026

Camões, el maricón

Era cristão, batizado António e natural da ilha de Java, daí o gentílico Jau, que dá nome a uma rua de Lisboa, no encontro da dos Lusíadas. Luís Vaz teria conhecido este seu novo amigo na sequência dum naufrágio no Cambodja – talvez quando passou pela terra dos “Malaios namorados, Jaus valentes” (X.44.4,7) vindo de Macau, onde nunca esteve. Ou enquanto esperava por uma nau que o levasse a Cochim e depois a Goa, cerca de 1565. Ou conheceu-o mesmo em Goa, a Sodoma do Oriente. A partir desse momento, António não mais o ia largar até à morte de Luís. Expirou nos braços do seu escravo. Isto é o mito, claro.

As únicas fontes históricas de que dispomos são os primeiros biógrafos camonianos, Pedro Mariz, Severim de Faria e Manuel de Faria e Sousa, que escassamente se lhe referem. Os mais atentos (e também os que estão por dentro do assunto) percebem que era uma relação amorosa o que havia entre Luís e António. Não uma relação amorosa como nós a entenderíamos hoje, mas uma ligação com hierarquias, talvez lugares fixos. Camões era bastante mais velho, um homem acabado aos quarenta e tantos anos; o Jau era um jovem recém-cristão racializado em Lisboa. Certamente que lhe estava vedado andar por onde quisesse. Na rua, devia ir às compras e pouco mais, ou pedir por ele nas ruas de Lisboa, como alguns dizem. Em casa, fazia as vezes de enfermeiro, talvez criado, talvez amante.

Na literatura camonista, ou que recuperou este tema, o Jau desempenha várias funções: amigo fiel, canino, alter ego de Camões, confidente, alma gémea ou mesmo subliminarmente um namorado, o que chega a aflorar em alguns textos menos ingénuos, mais sabidos. Afinal, os mais espertos percebem aquilo que foi cifrado para não ser entendido. Nas biografias e na literatura produzida sobre este tema (que encantou até o romantismo português, alemão e francês: temos telas, peças de teatro, poemas – até óperas, sobre o tema!), ele costuma acompanhar o Poeta na ambiguidade da amizade até ao fim da vida. Mas um amigo escravo. A tradição passou, contudo, a identificá-lo como escravo apenas depois de um dito de Manuel de Faria e Sousa. Um comentador a quem chamam fantasioso, mas que talvez soubesse o que estava a fazer. Afinal, não é a escravidão uma metáfora para o amor, que o próprio Camões usa? Quem diz Bárbara, diz jau. É uma óbvia metáfora literária sobre as cadeias do afeto, um código partilhado entre os seus amigos mais chegados e alguns vindouros que entenderam as alusões, provavelmente um círculo homossocial humanista e seus descendentes.

Já se aventou que o Jau teria sido comprado e resgatado em Goa pelo Poeta, que se teria endividado por causa do servo; que este mesmo Jau, que seria um intérprete, naufragou com o seu amo na foz do Mecong e seguiu com ele para Moçambique e de lá para Lisboa. Lendas comoventes, mas pouco prováveis, diz Storck. Na verdade, António morreu antes do poeta, e este não lhe conseguiu sobreviver senão alguns meses. São estas as poucas informações que temos. Como lembra o biógrafo alemão, de todos os escravos pagava-se frete para vir ao Reino e depois, em Portugal, direitos de entrada, devidos a El-Rei. Quem os pagaria, senão o pobre Luís? Tal mostra que não era escravo nenhum. Camões não tinha cabedais para mandar cantar um cego, quanto mais para possuir um escravo. De novo Storck: um escravo Jau que falasse correntemente três línguas (o seu javanês, mais o chinês e o português) não seria certamente barato. Escravos jaus havia-os mesmo em Lisboa. Não precisava Luís de trazer um de tão longe. João de Barros comprou um, ao que parece chinês. Mas o historiador era de bolsa larga, e o Poeta nem por isso.

Ora, vem esta lembrança também a propósito do filme recente El cautivo (2025), de Amenábar, que relata como Miguel de Cervantes foi capturado por corsários e encerrado durante cinco anos numa prisão de Argel. Houve certa polémica, ao sugerir o filme uma possível homossexualidade do autor nacional. Esta questão não é nova, havendo na crítica espanhola disputas sobre a sua sexualidade. Foi ou não acusado de sodomia? Ao menos aqui existe uma discussão, enquanto que em Portugal as sugestões acerca do mesmo em Camões são leves, distantes, voadoras. Fernando Arrabal, autor de Un esclavo llamado Cervantes, explicou que a sua biografia, publicada em 1995, parte de um documento, datado de 1569, segundo o qual Miguel de Cervantes foi acusado de homossexualidade quando tinha 21 anos e condenado pelo rei de Espanha à amputação da mão direita e ao degredo. Foi por isso que Cervantes não tinha uso do braço?

E há cervantistas que de facto falam não só da sua homossexualidade mas também lhe reconhecem origem judaica. Esta última também se colocou para o nosso Luís, pela pena de Fiama. São metáforas umas das outras, se virmos bem. Coisas vistas como outras, proibidas, que se devem manter em segredo, e de que apenas grupos pequenos e fechados detém a chave hermenêutica. Mas afinal são coisas que estão dentro de tantos. São ainda metáforas umas das outras: ser-se judeu é uma metáfora para homossexual, e vice-versa. Além de serem, ou terem sido, possibilidades concretas de vida, são também signos para alguma vida que está por detrás do signo, do verbo ou da imagem, e que não logramos.

Amenábar toma partido, claro, e faz bem, num belo filme que transforma Miguel numa Xerazade que, junto ao seu amante, o Bei de Argel, vai protelando a sua morte com histórias. Acho um filme excelente, como entretenimento, ainda que demasiado focado em Cervantes como contador construtor de histórias, quando Cervantes está longe de ser só isso. Já os nossos irmãos espanhóis até acharam o filme brando, pouco sexualizado. Em Portugal seria talvez um escândalo se fizessem algo do género para Camões. Muitos iriam achar que se queria enlamear o vate. Bom filme seria o que desse rosto ao seu abandono, em que apenas com o Jau encontrou refrigério. Mário Cláudio, Eugénio de Andrade e Alfredo Margarido foram dos poucos que ousaram ir por aí. O ponto a que quero chegar é o seguinte: não seria tanto apresentar um Camões gay, mas antes mostrar como a sua vida e obra abrem para outras paisagens, também sexuais, como diz Frederico Lourenço no verbete sobre o Amor do Dicionário de Camões, de Aguiar e Silva. Fica para o próximo centenário.

13 Fev 2026

A Disputa pela Gronelândia (II)

“Nations do not compete for land; they compete for the power that land unlocks.”

Halford J. Mackinder

A posição da União Europeia (UE) face à crescente atenção dos Estados Unidos à Gronelândia, intensificada durante a presidência de Donald Trump, gerou inquietação e reflexão estratégica. Embora a Gronelândia não faça parte da UE desde 1985, a ilha permanece integrada no Reino da Dinamarca, EstadoMembro da União, o que confere ao tema uma dimensão política e institucional incontornável. A posição europeia resulta, assim, da necessidade de proteger a integridade territorial de um dos seus membros, de salvaguardar interesses estratégicos no Árctico e de preservar a estabilidade das relações transatlânticas.

A UE encara a Gronelândia como parte do espaço político europeu alargado, não pela sua pertença formal, mas pela ligação constitucional à Dinamarca. Qualquer tentativa externa de adquirir ou exercer controlo sobre o território é interpretada como uma interferência directa na soberania de um EstadoMembro. A proposta americana de compra da ilha foi recebida em Bruxelas como um gesto diplomático disruptivo, que ultrapassou os limites tradicionais da cooperação entre aliados. A defesa da soberania dinamarquesa constitui o primeiro pilar da posição europeia. A UE tem reiterado que a integridade territorial dos seus EstadosMembros não é negociável e que qualquer alteração ao estatuto de um território europeu exige consentimento pleno e voluntário das autoridades nacionais e locais. A ideia de uma transacção territorial, evocativa de práticas do século XIX, contraria os princípios contemporâneos do direito internacional e da governação europeia.

A UE reconhece o Árctico como uma região de importância crescente, tanto pela sua relevância ambiental como pelo seu valor geopolítico. O degelo acelerado, a abertura de novas rotas marítimas e o acesso a recursos minerais estratégicos transformaram a região num espaço de competição entre grandes potências. A UE, que se define como “actor global”, procura garantir que o Árctico permaneça uma zona de cooperação pacífica, governada por normas multilaterais e por mecanismos de gestão partilhada. O interesse americano pela Gronelândia é interpretado em Bruxelas como parte de uma estratégia mais ampla de afirmação militar e económica no Árctico. Embora os Estados Unidos sejam aliados fundamentais no quadro da NATO, a UE mantém reservas quanto a iniciativas unilaterais que possam alterar o equilíbrio regional. A militarização excessiva da Gronelândia, nomeadamente através da eventual instalação de armamento nuclear, seria vista como um factor de instabilidade, com impacto directo na segurança europeia.

A Gronelândia possui vastas reservas de minerais críticos, incluindo terras raras, essenciais para a transição energética e para a indústria tecnológica europeia. A UE tem procurado reduzir a dependência de fornecedores externos, sobretudo da China, e vê na cooperação com a Gronelândia uma oportunidade para reforçar a sua autonomia estratégica. O interesse americano em controlar esses recursos suscita preocupações em Bruxelas, que receia uma concentração excessiva de poder sobre cadeias de abastecimento vitais. A UE defende que a exploração mineira na Gronelândia deve ser realizada de forma sustentável, transparente e em parceria com actores europeus, garantindo benefícios para a população local e evitando práticas de exploração predatória.

A UE valoriza profundamente a relação transatlântica, mas considera que alianças sólidas exigem respeito mútuo e previsibilidade. A proposta americana de adquirir a Gronelândia foi interpretada como um gesto que desconsiderou a sensibilidade política europeia e que colocou em causa a confiança entre parceiros. Bruxelas procurou, contudo, evitar uma escalada diplomática. A resposta europeia combinou firmeza na defesa da soberania dinamarquesa com moderação discursiva, de modo a preservar a cooperação estratégica com Washington em áreas como a defesa, comércio e segurança internacional. A UE sublinhou que o diálogo sobre o Árctico deve ocorrer em fóruns multilaterais e no quadro da NATO, e não através de iniciativas unilaterais.

As declarações de Trump no Fórum de Davos de 2026 intensificaram ainda mais estas tensões. Perante líderes globais, Trump afirmou que os Estados Unidos “não usarão força” para adquirir a Gronelândia, embora tenha sublinhado que o país seria “francamente imparável” caso decidisse fazêlo. Acrescentou que “nenhuma outra nação pode defender a Gronelândia” e que Washington pretendia iniciar “negociações imediatas” para assumir controlo do território. Numa das passagens mais polémicas, declarou: “Queremos um pedaço de gelo para a protecção do mundo, e eles não o dão. Podem dizer sim e ficaremos muito agradecidos, ou podem dizer não e nós lembraremos.”

Trump reforçou ainda a narrativa histórica segundo a qual os Estados Unisos “salvaram a Gronelândia” durante a II Guerra Mundial e insinuou que devolver o território à Dinamarca teria sido um erro. Repetiu críticas à NATO, acusando os aliados europeus de contribuírem pouco para a segurança comum, e ameaçou impor tarifas de 10% a vários países europeus aumentando para 25% caso a venda da Gronelândia não avançasse. As reacções europeias foram imediatas e firmes. O ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, considerou “positivo” que Trump tivesse retirado a opção militar da mesa, mas sublinhou que “a ambição do presidente permanece intacta” e que a pressão americana continuava a ser inaceitável.

Em Bruxelas, as declarações foram interpretadas como uma escalada retórica que colocava em causa a confiança entre aliados e que procurava transformar a Gronelândia num instrumento de chantagem económica e estratégica. Diplomatas europeus classificaram o discurso como “belicoso” e “desalinhado com o espírito de cooperação” esperado no Fórum de Davos, notando que a ameaça de tarifas sobre EstadosMembros da UE constituía uma forma de coerção incompatível com relações transatlânticas estáveis. A Dinamarca, embora responsável pela política externa e de defesa da Gronelândia, enfrenta desafios específicos na gestão do território. A autonomia crescente da ilha, combinada com o interesse de potências externas, coloca Copenhaga numa posição delicada. A UE tem procurado apoiar a Dinamarca, reforçando a sua capacidade de negociação e oferecendo instrumentos de cooperação económica e científica com a Gronelândia. Bruxelas entende que a estabilidade da região depende de uma articulação equilibrada entre os interesses da Dinamarca, as aspirações da população gronelandesa e a necessidade de evitar ingerências externas que possam comprometer a segurança europeia.

Assim, a posição da UE face ao interesse americano pela Gronelândia assenta em três princípios fundamentais; a defesa intransigente da soberania de um EstadoMembro; a preservação da estabilidade e da cooperação no Árctico; e a protecção dos interesses estratégicos europeus em recursos críticos e segurança regional.

As declarações de Trump em Davos reforçaram a percepção europeia de que o tema ultrapassa a mera disputa territorial, revelando uma estratégia americana assertiva que combina pressão económica, narrativa histórica e ambição geopolítica. Embora reconheça a importância da parceria transatlântica, a UE rejeita abordagens unilaterais que possam fragilizar o equilíbrio político europeu ou transformar o Árctico num palco de confrontação entre grandes potências.

A Gronelândia, situada entre continentes e entre lógicas de poder, tornouse um teste à capacidade da UE de afirmar a sua autonomia estratégica e de proteger os seus membros num contexto internacional cada vez mais competitivo.

12 Fev 2026

O príncipe da Dinamarca

Tempo imprevisível e estranho este nosso, mas encontra-se ainda ao nível da comédia com laivos escarlates de narrativa. Muito discursivo, inenarrável em seu afã de se querer justificar. Digamos que não sentimos confiança alguma nas ficcionadas interpretações que doutamente muitos e cada um desejam transmitir, nada que narre o género que teimam interpretar num abuso de poder para uma realidade não ficcionada. Existe sem dúvida uma paranoia de ficção na Europa que a torna agente de qualquer coisa que tende não só a correr mal, como a dilui-la, um enxaguar de nervosismo num secreto enlouquecimento reinante. Mas que fazem os mais indescritíveis? Jogam narrativamente como um gato de barriga cheia brinca com um rato: atormentando, e por fim deixando-o ir numa luta inglória.

Hamlet surge na nossa linha do horizonte justamente para parar narrativas e mergulharmos na tragédia, géneros diferentes a que não se deve capitular em busca de novas reverberações, que eslavos e escandinavos parecem mais agrestes, mas suas lendas têm por vezes uma grande majestade poética. Hoje talvez disséssemos que poema é género inibidor face ao complexo esquema linguístico da inutilidade praguejante, mas é muito mais que isso, e dele se arqueiam ainda um rei de Tule, um mago Merlim, e um estranho rei Artur, saxão…celta. Que cessem portanto narradores e narrativas, que o género literário mudou. Do topo da Europa nasce agora uma possível ruptura, fatal, onde os deslumbrados destas sociedades mais a sul ficam narrando coisas sem nexo, e se todos estamos de acordo que nada disto tem sentido, rapidamente o inimigo mais temido se dissipa e o amigo mais querido passa a sobressalto.

Numa certa perspectiva andamos todos fazendo de Polônios “adeus mísero tolo, intruso e temerário!” um sistema que se abastece de intenções sem capacidade alguma para vingar a morte de um pai.” L´oncle d´amerique” constrange nas reservas que tínhamos como alinhadas, e numa artificial manutenção fazemos coisas que só as famílias imaginam, matarem-se umas às outras, que dentro de cada uma se inutilizam barbaramente. A peça invernal vem testemunhar a existência de um fantasma, assassinado com veneno num ouvido, orelha, e seu filho o Príncipe Hamlet que reconhece nele o pai, e como todos os fantasmas são brancos talvez até fosse na Gronelândia, que o assassino era ainda irmão da vítima, o príncipe Cláudio. Uma bárbara assinatura que subsiste nas lendas e também no fraco imaginário que hoje é a Europa na senda narrativa do político e estratégico que começa a envenenar a acústica reinante.

Ora, Hamlet segue as diretrizes de um fantasma, mas o destino revela-se bem mais fantasmagórico em suas definições, e se os pinguins estão distantes destas zonas brancas, há quem os veja para aquém do seu habitat – esses seres ternos como pombas e de lealdade incomum- e numa imensa e irreconhecível má narrativa encontramos agora a alma de Cláudio, o tio que nenhuma família deseja encontrar. O teatro da vida num áspero instante onde o louco diálogo não chega a ser sequer enumerado como farsa, será agora para qualquer ser falante um desafio. Ofélia também chora a morte do pai, é abandonada pelo primo amante, e toda a sua vida um drama tecido por homens, uma estranha condescendência impossível que faz destes seres condutores de desastres um frio de Inverno. Não é a sereia de Copenhaga, mas o Príncipe da Dinamarca pode ser ou não ser, a nossa mais próxima “narrativa”. Que o façam com respeito. Há quem diga que há mistérios ainda não decifrados nas calotes geladas.

HAMLET

Um assassino! Um infame! Um escravo que não vale a vigésima parte

Dum décimo do vosso primeiro esposo! Um rei de comédia num papel vicioso!

O ladrão do trono que foi a uma prateleira

Roubar o diadema e o meteu no bolso

Hamlet responde assim a sua mãe que casara com o assassino de seu pai.

Donald, Bovino, não são nomes de príncipes.

11 Fev 2026

Cintos de segurança (I)

Hong Kong implementou a Emenda “Tráfego Rodoviário (Equipamentos de Segurança ao Regulamento 2025” no passado dia 25 de Janeiro, que obriga todos os passageiros de autocarros a usar cintos de segurança. Os infractores podem pagar multas até 55.000 dólares de Hong Kong e ser condenados a uma pena de prisão até três meses.

A 30 de Janeiro, apenas seis dias depois de a lei entrar em vigor, o Governo de Hong Kong anunciou a sua suspensão. A emenda irá ser rescrita antes de ser submetida ao Conselho Legislativo para revisão.

Porque é que a lei foi subitamente suspensa seis dias após a sua entrada em vigor? A suspensão deveu-se à ocorrência de três incidentes que originaram alguma reflexão sobre o assunto.

O primeiro envolveu um passageiro que não conseguiu desapertar o cinto de segurança e ficou preso durante cerca de 16 minutos. Foram enviados vinte bombeiros do Departamento de Incêndios para o socorrer. Depois de realizar uma inspecção, a Citybus Co. Ltd. descobriu que tinha sido colocada folha de alumínio dentro da fivela do cinto, um presumível acto de vandalismo, e comunicou o incidente à polícia. Este caso demonstrou o risco potencial do uso obrigatório do cinto de segurança durante evacuações de emergência e levantou questões sobre a possibilidade de os passageiros puderem cortar os cintos para escapar em situações de perigo.

Quando se revê ou analisa uma lei, é crucial que exista “discernimento claro e ponderação cuidadosa.” Se um passageiro precisar de fugir na sequência de um acidente e não conseguir desapertar o cinto de segurança, tem o direito de o cortar para escapar? Por outras palavras, poderá a lei dar às pessoas o direito de danificar a propriedade alheia para fugir? Ao abrigo da lei de Hong Kong, danificar a propriedade alheia é crime. Para condenar um suspeito, a acusação terá de provar que o réu teve intenção de danificar os bens de outrem e demonstrar a sua actuação. Se o propósito é fugir durante uma emergência, mesmo que parta o cinto, não existe intenção maliciosa de danificar a propriedade alheia, e a pessoa não pode ser condenada ao abrigo do direito penal.

No entanto, a situação é diferente no que concerne ao direito cível. O direito cível estabelece menores requisitos do que o direito penal para o conceito de “intenção”, e em certas circunstâncias, pode aceitar o acto de danificar a propriedade alheia para fugir ao perigo como um acto para “Evitar uma emergência.”

Porque a lei não indica explicitamente se os passageiros podem cortar os cintos nestes casos, surge a questão de saber se os passageiros têm o direito de o fazer para fugir e se devem posteriormente indemnizar a empresa de transportes pelas perdas. Além disso, se o passageiro não indemnizar a transportadora, a companhia de seguros é responsável? Actualmente, a lei não regula esta questão; para evitar controvérsia, talvez futuras revisões à lei possam vir a fazê-lo. Sem uma resposta clara, de futuro, qualquer legislação do Governo de Hong Kong será provavelmente alvo de escrutínio.

O segundo incidente ocorreu a 27 de Janeiro último. Um passageiro numa cadeira de rodas, de apelido Zheng, apanhou o autocarro na paragem de Tin Ma Court em Wong Tai Sin, Kowloon. Devido aos problemas de mobilidade, pediu ajuda ao motorista para apertar o cinto. Durante este processo, Zheng demonstrou-se preocupado pela forma como o cinto o segurava, e pediu explicações ao motorista o que provocou um atraso na partida. Um outro passageiro chamado Li, que tinha pressa de chegar ao trabalho, discutiu com Zheng. Quando Zheng pegou no telemóvel para filmar a altercação, Li arrancou-lhe subitamente o aparelho das mãos e agrediu-o repetidas vezes na cabeça com o telefone.

Acredita-se que este tenha sido o primeiro caso a envolver uma pessoa com necessidades especiais numa discussão a propósito do uso de cintos de segurança num autocarro e serviu para tirar importantes ilações. Demonstra que é necessário ter um especial cuidado com as pessoas que têm necessidades especiais quando se coloca o cinto de segurança. Para resolver o problema, em primeiro lugar o motorista deve prestar ajuda e os outros passageiros terão de ser pacientes. Guardar o silêncio nos transportes públicos pode evitar conflitos desnecessários. Em última análise, prestar assistência às pessoas com necessidades especiais no uso do cinto e garantir a sua segurança durante a viagem é um acto de cuidado e compaixão, semelhante à disponibilização de lugares prioritários.

Talvez o Governo de Hong Kong possa considerar vir a incluir uma cláusula na legislação no sentido de impedir interferências maliciosas de terceiros quando o motorista está a ajudar um passageiro a pôr o cinto. Esta regulamentação asseguraria que pessoas com necessidades especiais podem aceder aos serviços públicos, o que é certamente consensual. Só garantindo que quem precisa recebe assistência rápida e quando for possível o autocarro segue viagem é que o problema pode ser resolvido. Esta regulamentação beneficiaria todos.

Para além de rever a lei, as empresas de transportes poderiam dar formação aos motoristas relacionada com o uso obrigatório do cinto de segurança, para aprenderem a lidar melhor com estas situações. Poderiam ainda colocar informação dentro dos autocarros sobre as disposições tomadas em relação ao transporte de pessoas com necessidades especiais, assegurando que todos os passageiros tomavam conhecimento. Isto também beneficiaria a imagem das transportadoras por fornecerem serviços de maior qualidade, bem como os residentes de Hong Kong e a sociedade como um todo.

Na próxima semana celebra-se o Ano Novo chinês. Desejo aqui a todos os meus leitores um Feliz Ano Novo, muita saúde e a continuação de sucesso para o jornal Hoje Macau. Voltamos a encontrar-nos a 24 de Fevereiro e nessa altura continuaremos a nossa discussão sobre o uso de cintos de segurança nos autocarros.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

10 Fev 2026

Calamidade

“Não vou votar nem que me prendam”

Fomos até Portalegre ajudar alguns amigos que estavam desesperados com a destruição das suas casas, à semelhança de milhares de portugueses de Norte a Sul. Kristin, Leonardo e no passado sábado a Marta, tempestades que já provocaram 15 mortos. Três tempestades de muita chuva e vento que deixaram Portugal em estado de calamidade. Vendo bem, foram umas chuvadas idênticas a tantas que acontecem em Inglaterra e que não deixam milhares de pessoas no desespero e sem tudo o que conseguiram amealhar ao longo de uma vida de trabalho. Com uma diferença, é que em Portugal as autoridades governamentais nunca souberam o que é o planeamento.

Planear o que fazer em caso de catástrofe, em caso de inundações, em caso de terramoto, em caso de cair um avião em Lisboa, em caso de adquirir e armazenar um lote de geradores se se registar um apagão energético. Planeamento é palavra desconhecida de quem governa. Preocupam-se com o dia a dia e com o anúncio de um aeroporto em Alcochete, que deverá estar a funcionar lá para o ano de 2045 e com um TGV de Lisboa a Badajoz.

Neste último caso do TGV, mais valia que o Governo se tivesse decidido por um TGV entre Beja e Lisboa e já estivesse o aeroporto de Beja a funcionar como o aeroporto internacional de Lisboa. Mas voltemos a Portalegre e onde vários alentejanos nos disseram, como acto de revolta e desespero, à semelhança de Leiria, Marinha Grande, Alcácer do Sal, Ourém, Coimbra ou Régua, que “Não vou votar nem que me prendam”. Na verdade, a segunda volta das eleições presidenciais teve lugar ontem na maior parte do território nacional, apesar de alguns municípios terem decidido o seu adiamento por falta de condições mínimas para abrir mesas de voto.

A calamidade que se instalou em Portugal, há quem refira sem precedentes, tem sido algo horrível. Aldeias isoladas, campos agrícolas que desapareceram, casas que voaram, centenas de telhados que desapareceram, fábricas onde tudo ficou destruído e os trabalhadores no desemprego para muitos meses, milhares de árvores caídas, centenas de carros destruídos, caudais de água que invadiram casas, hotéis e restaurantes – alguns até ao tecto, lares desalojados, bombeiros exaustos, uma senhora a cozinhar num cubículo para 300 famílias de um agregado habitacional, barcos dos fuzileiros navais sem parar a transportar pessoas que já tinham a casa inundada, animais que ficaram sem estábulos ou casotas, alimentos que não chegavam a certas populações.

Ainda há milhares de portugueses sem energia, água e telecomunicações. Uma tragédia que atingiu um povo que nunca imaginou ser possível tal dimensão de catástrofe. No entanto, há que salientar um aspecto muito importante: a solidariedade. Recordamos, por exemplo, a atitude do povo transmontano, particularmente em Mirandela, onde as Juntas de Freguesia se juntaram e adquiriram toneladas de telhas que foram levadas para a Marinha Grande num camião de 16 rodas facilitado pela proprietária do mesmo. A solidariedade de uns para os outros tem sido infindável e tem constituído a grande montra de humanismo escarrapachada na cara dos governantes que se limitam a visitar as desgraças vividas pelas populações e que amanhã já estão a planear as férias de Verão no Algarve ou em Punta Cana.

A primeira tempestade Kristin registou-se há quase duas semanas, mas possivelmente os apoios estatais a quantos ficaram sem nada, talvez só cheguem esta semana. As seguradoras começam a “patinar” no que concerne a colocar o preto no branco quanto ao pagamento dos prejuízos que cada cidadão sofreu com as intempéries. As seguradoras deviam ser alvo de coimas avultadas quando não cumprem com o estipulado a favor dos prejudicados. Só pensam no lucro anual…

E agora? Perguntam os especialistas sobre o futuro, no caso de continuarem a aparecer novos Leonardos ou Martas? O Governo tem de dar uma resposta rápida sobre o futuro e o que pensa reformar para que algo mude com decisões de positivismo. E a começar pela instituição ‘Proteção Civil’, a qual não tem a humildade de assumir que o seu sistema está cheio de insuficiências.

Foram duas semanas de horror, pânico, sofrimento e prejuízo. Houve mulheres e homens que estiveram mais de quatro dias sem dormir uma hora. Olhar à sua volta e apenas ver água a subir e a destruir-lhe o frigorífico, a máquina de lavar roupa, o fogão, as alcatifas e todos os valores materiais que decoram uma casa foi algo de muito triste. As televisões mostraram as lágrimas de homens e mulheres que ficaram absolutamente sem nada. O país não pode continuar assim, porque o país não é pobre, o que existe são ladrões a mais.

9 Fev 2026

Predominância do poder executivo

No início de 2026, Xia Baolong, o director do Gabinete de Trabalho de Hong Kong e Macau do Comité Central do Partido Comunista da China e do Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau junto do Conselho de Estado, falou num seminário sobre o tema “persistir e aperfeiçoar a predominância do poder executivo para impulsionar a boa governação das Regiões Administrativas Especiais”. Na audiência encontravam-se os Chefes dos Executivos de Hong Kong e de Macau, bem como membros dos plenários das duas regiões.

De acordo com as “Leis Básicas” de ambas as regiões, o Chefe do Executivo responde perante o Governo Popular Central e perante a sua Região Administrativa Especial. No seu discurso, Xia Baolong realçou que “o Chefe do Executivo desempenha um papel crucial e assume responsabilidades significativas. Deve exercer eficazmente os poderes conferidos por lei, assumir por completo a responsabilidade de liderar a Região Administrativa Especial e gerir bem a sua ‘casa’… esforçando-se por construir um governo eficiente e competente”. Quanto mais alto o cargo, maior é a responsabilidade.

O Chefe do Executivo tem de assumir a total responsabilidade pela Região Administrativa Especial e precisa de formar um Governo eficiente e bem-preparado; a responsabilidade é significativa e a tarefa árdua. Como tirar o máximo partido das vantagens da predominância do poder executivo será sem dúvida o maior teste dos Chefes dos Executivos de ambas as regiões.

O Governo existe para “servir o povo”, e o grau de satisfação e felicidade das pessoas é o critério que avalia se o desempenho corresponde às aspirações. Se os membros do Governo (funcionários públicos) não conseguirem a aprovação do povo, a sua substituição é uma opção razoável. Muitos membros do Governo Central foram exonerados ou detidos por corrupção e negligência do dever, demonstrando que ninguém está acima da lei. Desde o regresso de Hong Kong e de Macau à soberania chinesa, as duas regiões desenvolveram-se e progrediram, mas também existem limitações. A boa governação não assenta em discursos vãos. O que está manifestamente expresso no discurso de Xia é a esperança na melhoria e no reforço da capacidade de governação.

Lembremos o terrível incêndio em Tai Po, Hong Kong, ocorrido nos finais do ano passado, que ainda está a ser investigado por um comité independente. Não sabemos quantos membros do Governo serão responsabilizados pelo incidente. Além disso, a recente medida que obriga os passageiros a usar cinto de segurança nos transportes públicos passou por imensos contratempos até ser implementada. Por exemplo, como obrigar uma grávida em fim de tempo a usar cinto de segurança? Como lidar com os idosos que preferem ir de pé para não usarem cinto?

Em Macau, com a promulgação e implementação de Lei n.º 5/2025 “Lei da Actividade das Agências de Viagens e da Profissão de Guia Turístico”, as agências de viagem não têm autorização para fornecer serviços de autocarros vaivém aos habitantes dos grandes bairros residenciais, o que torna as deslocações problemáticas, especialmente para as empregadas domésticas e para as crianças.

Com mais de 40 milhões de turistas a visitarem Macau em 2025, a capacidade dos transportes públicos foi sistematicamente testada. Embora o Governo da cidade não tenha implementado regulamentos contra a sobrelotação destes veículos, os passageiros continuam a entrar nos autocarros nas paragens designadas apenas como saída. A paciência e a tolerância dos residentes de Macau são extraordinárias, mas confrontadas com a popularidade das compras online e na China continental as lojas estão a ficar vazias por toda a cidade. Mesmo depois de renovadas, quando voltam a abrir, os proprietários não sabem bem por quanto tempo os seus negócios irão durar. A iniciativa do “2026 Carnaval de Consumo na Zona Norte” demonstra que o Governo da RAE de Macau ainda precisa de trabalhar para alcançar uma boa governação.

O ano passado, quando o Chefe do Executivo Sam Hou Fai, convidou responsáveis dos órgãos de comunicação social de línguas portuguesa e inglesa para a refeição anual, elogiou-lhes largamente o profissionalismo, a preocupação com o bem-estar social e a supervisão do desempenho do Governo. No mesmo encontro de 2026, o Chefe do Executivo Sam Hou Fai manifestou a esperança de que continuassem a prestar atenção e a apoiar o desempenho do Governo da RAEM nos seus vários aspectos, a reflectir as condições de vida da população e a oferecer as suas válidas sugestões.

No contexto da predominância do poder executivo em 2026, a comunicação social não se deve limitar a ser um instrumento de propaganda ou uma plataforma de elogios, mas sim a desempenhar um papel de conselheiro, supervisor e de parceiro para ajudar o Governo da RAEM a atingir uma boa governação.

6 Fev 2026

A pequena idade do gelo e as suas implicações sociais

A preocupação sobre a sustentabilidade do nosso planeta não é recente. Segundo o Professor José Pinto Peixoto1 (1922-1996), no seu livro “Influência do Homem no Clima e no Ambiente”2, mencionando um extrato do Livro de Isaías3, “A Terra está desolada e murcha; o Céu e a Terra esmorecem. A Terra está profanada pelos seus habitantes, porque transgridem a lei e violam o direito…”.

Na realidade, a ação nefasta que a espécie Homo sapiens exerce sobre a natureza intensificou-se desde há cerca de 10 000 anos, altura em que a revolução agrícola sofreu grande incremento, quando o homem deixou, em grande parte, as suas atividades como caçador-recoletor. Com esta citação, o Professor JPP pretendeu ilustrar que na antiguidade já havia quem se preocupasse sobre o que o homem poderia causar ao nosso planeta. Por definição, profeta é o que serve de intermediário entre o divino e o povo, e esse texto pode-se interpretar como sendo um aviso sobre a intensificação das agressões que a nossa espécie viria a praticar, e que levaram à crise ecológica e climática atual.

A vida no nosso planeta só é possível devido a uma série de circunstâncias, entre as quais a Terra estar a uma distância do Sol propícia à existência de água no estado líquido, uma atmosfera respirável e um campo magnético que serve de protetor em relação às partículas carregadas eletricamente emitidas pelo Sol (vento solar), o que evita que a superfície seja atingida por parte da radiação que é prejudicial à vida.

Desde que se formou a atmosfera terrestre, sempre houve evolução das suas características, relativamente à composição e parâmetros meteorológicos e climáticos. As alterações do clima influenciaram grandemente a história da humanidade, modelando o comportamento do Homo sapiens.

Têm sido uma das principais causas das grandes migrações e, consequentemente, do aparecimento de diferentes civilizações. Investigação na área da paleoclimatologia permite-nos concluir que, durante milhões de anos, o clima foi caracterizado por períodos glaciários e interglaciários. Durante a glaciação mais recente, o gelo invadiu grandes áreas da Europa e da Ásia, provocando a migração de populações para latitudes mais baixas. Há cerca de 6 000 anos, a seca prolongada que causou a desertificação da região onde se localiza o Saara, causou a debandada de povos para o vale do rio Nilo, onde floresceu uma civilização cujos testemunhos ainda hoje são motivo de admiração e de estudo.

No último milhão de anos houve aproximadamente seis períodos glaciários. Apesar de estarmos atualmente num período interglaciário, têm decorrido períodos mais curtos caracterizados por temperaturas relativamente baixas, como o que se convencionou designar por “pequena idade do gelo”, entre os séculos XIV e XIX. Não há unanimidade sobre o início, e alguns historiadores consideram que começou mais tarde, no século XVI. Há, no entanto, consenso de que este período foi caracterizado por invernos rigorosos e verões curtos. Ainda hoje se discute qual a causa deste arrefecimento, que poderá ter sido consequência de vários fatores naturais, como a diminuição da atividade solar e o aumento da concentração de partículas na atmosfera resultantes de atividade vulcânica e consequente redução da radiação que atinge a superfície.

Segundo alguns historiadores, a “pequena idade do gelo” pode ter sido uma das causas de convulsões sociais.

Assim, nos Estados Unidos da América, em 1692, ocorreu um fenómeno social que consistiu na histeria coletiva por parte da população de Salem, povoação do Estado de Massachusetts, que teve como consequência uma série de julgamentos, na sua maioria de mulheres acusadas de bruxaria. Uma sucessão de anos com maus resultados agrícolas e consequente escassez de alimentos terão contribuído para a perceção de insegurança nas populações da região de Nova Inglaterra. Perante esta situação, o clima psicológico coletivo terá contribuído para que centenas de mulheres fossem tratadas como bodes expiatórios, algumas das quais foram executadas por enforcamento. Este assunto tem sido estudado por vários historiadores e servido de tema de peças de teatro, obras literárias e filmes. A obra mais emblemática consistiu na peça de teatro de Arthur Miller (“The Crucible” – 1953), em que o autor explorou esse fenómeno social como metáfora do macartismo, período da história dos EUA entre o final da década de 1940 e meados da década de 1950, caracterizado pela perseguição de supostos comunistas, inspirada pelo senador Joseph McCarthy. O próprio autor foi vítima dessa perseguição. Várias foram as obras literárias sobre o mesmo assunto, sendo, talvez, a mais marcante, a obra de não-ficção “The Witches: Salem, 1692” da escritora americana Stacy Schiff. A peça de Arthur Miller foi adaptada pelo próprio para o cinema, em 1996, tendo o filme sido distribuído em Portugal com o título “As bruxas de Salem”.

Foi também durante a pequena idade do gelo que ocorreu grande instabilidade social que precedeu o despoletar da revolução francesa. A insatisfação popular causada pela fome generalizada devido a sucessivos desastres naturais, como uma forte seca em 1788 interrompida por intensa precipitação de granizo e saraiva que causaram a perda de grande parte das culturas que haviam resistido. Para agravar a situação, o inverno de 1788/1789 foi extremamente rigoroso.

A fusão de espessas camadas de neve e de gelo causaram enxurradas e inundações na primavera seguinte, em grande parte da França, provocando grave destruição de infraestruturas e a quase totalidade das poucas culturas que restavam. Na sequência destes desastres meteorológicos surgiu um surto de peste que dizimou muitos dos animais que se haviam salvado. A fome adveio a estes eventos e o caos instalou-se nos grandes centros urbanos. O verão de 1789 foi extremamente seco, o que contribuiu para o agravamento da situação. Toda esta sequência de acontecimentos, juntamente com a ineficácia do governo de Luis XVI, contribuiu para o mal-estar social, o que poderá ter constituído uma espécie de rastilho para despoletar a revolução francesa, que teve como um dos episódios mais notáveis, a Tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789.

Pode-se concluir que fenómenos meteorológicos que, no seu conjunto, caracterizam o clima de uma região, contribuem grandemente para o agravamento de crises sociais. Por exemplo, a tempestade recente que assolou Portugal em 27 de janeiro de 2026 (a depressão Kristin, resultante de ciclogénese explosiva) gerou, por parte da população afetada uma sensação de mal-estar em relação ao poder político. Outro exemplo foi a seca que atingiu o seu auge em 2017, que causou graves prejuízos à agricultura, pecuária, recursos hídricos e forte impacto ambiental no que se refere a incêndios florestais que causaram dezenas de vítimas mortais.

Em ambos os casos o poder político foi acusado, por parte da população afetada, de não ter tomado as medidas necessárias para minimizar as graves consequências que advieram desses desastres naturais. Independentemente dos governos, os desastres naturais causam em geral, com ou sem razão, a sensação, por parte da população, de que as suas consequências poderiam ser minimizadas se se tivessem tomado medidas preventivas mais eficientes, como, por exemplo, melhoria do ordenamento florestal, reforço de infraestruturas e avisos meteorológicos precoces mais rigorosos.

Meteorologista

Referências:
José Pinto Peixoto – Académico português. Foi um dos mais ilustres cientistas à escala global nas áreas da Meteorologia e da Climatologia. Era carinhosamente apelidado de JPP pelos seus estudantes e colegas.

Publicado, em 1987, pela Secretaria de Estado do Ambiente e dos Recursos Naturais.

O Profeta Isaías, um dos redatores do Antigo Testamento, viveu entre os séculos VIII e VII a.C.

5 Fev 2026

A disputa pela Gronelândia

(Continuação do artigo publicado em 29 de Janeiro)

A dimensão performativa da política externa desempenha aqui um papel central. A possibilidade de retirar território a um aliado, ainda que por via negocial, projectaria uma imagem de força e imprevisibilidade. Para a Casa Branca, essa imprevisibilidade funcionaria como instrumento de dissuasão perante adversários estratégicos, nomeadamente a Rússia e a China. A ideia de que os Estados Unidos estariam dispostos a considerar acções ousadas em cenários improváveis reforçaria a credibilidade das suas ameaças e promessas no sistema internacional.

A “captura de Maduro” é um elemento que teria tornado mais plausível a utilização da força em contextos inesperados. Independentemente da factualidade deste episódio, ilustra a lógica interna da administração Trump com actuações de alto impacto, mesmo que controversas, serviriam para demonstrar determinação e capacidade de acção, criando um ambiente favorável para pressionar parceiros e adversários. Neste quadro, a Gronelândia surgiria como o passo seguinte numa estratégia de choque destinada a desbloquear negociações com Copenhaga.

Embora as motivações de Trump apresentem características próprias, existe um ponto de convergência entre a sua visão e os interesses estruturais do Estado americano que é a possibilidade de reforçar a presença militar na Gronelândia através da instalação de um arsenal nuclear. Esta hipótese, inserese na lógica de dissuasão estratégica que tem orientado a política de defesa dos Estados Unidos desde o pósguerra.

A proximidade geográfica da Gronelândia ao espaço euro-asiático tornaria o território um local privilegiado para posicionar armamento capaz de responder rapidamente a ameaças provenientes da Rússia ou da China. A modernização das forças nucleares, num contexto de deterioração dos tratados de controlo de armamentos, aumenta a probabilidade de que Washington procure novos locais para reforçar a sua postura estratégica. A Gronelândia, pela sua localização e pelo enquadramento jurídico existente, oferece condições particularmente favoráveis.

A convergência entre a ambição simbólica da presidência e os interesses militares do Estado cria, assim, um terreno comum que pode explicar a insistência americana em aumentar a sua influência sobre a ilha. Mesmo que a aquisição territorial não seja necessária para atingir estes objectivos, a possibilidade de reforçar a presença militar pode ter contribuído para legitimar, internamente, a iniciativa presidencial.

A posição da Dinamarca constitui outro elemento essencial para compreender a dinâmica em torno da Gronelândia. Embora formalmente soberana sobre a ilha, Copenhaga enfrenta limitações estruturais que condicionam a sua capacidade de resistir a pressões americanas. A dependência económica e militar em relação aos Estados Unidos, aliada à importância da NATO para a segurança europeia, reduz a margem de manobra dinamarquesa.

A Gronelândia possui autonomia interna significativa, mas continua integrada no Reino da Dinamarca. A sua população, embora pequena, tem reivindicado maior controlo sobre os recursos naturais e sobre as decisões estratégicas que afectam o território. A proposta de compra americana colocou Copenhaga numa posição delicada de que rejeitar a oferta significava contrariar um aliado fundamental e aceitála implicaria abdicar de um território que, apesar de remoto, possui valor simbólico e estratégico crescente.

A recusa dinamarquesa, amplamente divulgada, não eliminou a pressão americana. Pelo contrário, evidenciou a fragilidade da posição europeia no Árctico e a dificuldade de conciliar interesses nacionais com a realidade de um sistema internacional marcado pela competição entre grandes potências.

A controvérsia em torno da Gronelândia não pode ser analisada isoladamente pois reflecte transformações mais amplas na ordem internacional, incluindo a militarização crescente do Árctico, competição por recursos estratégicos, redefinição das alianças tradicionais, emergência de lideranças políticas que privilegiam gestos simbólicos de grande impacto e a erosão de normas diplomáticas que, durante décadas, regularam as relações entre aliados.

A proposta de compra da Gronelândia, embora improvável de concretizar, tornou visível a forma como o território se tornou peça central num jogo de poder global. A ilha, outrora periférica, é hoje um espaço onde se cruzam interesses económicos, militares e simbólicos de grande magnitude.

Assim, a análise do interesse americano pela Gronelândia revela uma combinação complexa de factores estruturais e conjunturais. Por um lado, Washington procura assegurar o controlo de um território essencial para a sua estratégia militar e para o acesso a recursos críticos. Por outro, a presidência de Donald Trump introduziu uma dimensão simbólica e política que ultrapassa os cálculos tradicionais da política externa. A tentativa de adquirir a Gronelândia não deve ser interpretada apenas como excentricidade presidencial, mas como expressão de uma visão de poder que combina ambição histórica, nacionalismo e uma estratégia de imprevisibilidade calculada. A convergência parcial entre esta visão e os interesses do Estado americano explica a persistência do tema e a sua relevância no debate internacional.

A Gronelândia, situada entre continentes e entre lógicas de poder, tornouse um espelho das tensões que moldam o século XXI. A disputa pelo seu futuro continuará a reflectir não apenas a competição entre Estados, mas também a forma como estes procuram redefinir o seu lugar num mundo em transformação acelerada.

5 Fev 2026

Hotel Timor

Hotel Timor (2025) é o último romance do escritor timorense Luís Cardoso de Noronha (n. 1958), há muitos anos residente em Portugal. A consistência da escrita de Cardoso, publicada em editoras portugueses, está mais do que confirmada. O que há aqui de novo é que este seu oitavo romance, fim anunciado de um ciclo dedicado a Timor, retoma muito do seu primeiro livro, do qual é, num certo sentido, uma reescrita: Crónica de uma travessia (1997), saído a lume quando o seu autor era representante da resistência maubere. Ficamos de facto com a sensação de encerramento de um ciclo de escrita em torno da questão nacional. É Timor, com seu imaginário, seus povos, línguas, passado e esperanças, que fica no primeiro plano dos seus romances.

Cardoso tem habituado os seus leitores a uma escrita estruturada, com muitas camadas, densa de referências. Fortemente autobiográfica, tem a coragem de incluir neste romance sucessos bastante duros da vida do autor, como o assassinato dum irmão seu, que terá desaparecido em pogroms entre partidos políticos rivais, formados após a retirada dos portugueses do território. É então a pulsão para o relato, o chamado récit de vie, entre a memorialização e a denúncia, que vinha logo desde o seu primeiro livro, que mobiliza internamente este Hotel Timor, metáfora da nação ainda em (re)construção, de hotel colonial a espaço em ruínas até voltar a ser renovado albergue. É justamente aqui que se veem hospedar o escritor e seu duplo, e um dos eixos do romance é precisamente essa questão do duplo. Nesta história há, aliás, vários. O timorense é também, ele próprio, alguém que continuamente se desdobra: um “original”, de feitura pré-colonial, e um outro que foi moldado pelas mãos do colonizador: “A relação fiel e verdadeira de um timorense é com os mate-bian [os mortos]. Depois Deus, Pátria e família, por esta mesma ordem, como era na época do Estado Novo e do Velho Império”. (p. 23) Aqui se nota a característica ironia do escritor.

O principal par de duplos é, porém, constituído pelo primeiro protagonista, que partilha muitas características com o autor empírico, mas não é ele. São dois regressos paralelos ao Timor de hoje: o de um escritor famoso que vem ser condecorado e outro de um modesto cantor de cruzeiros que vem à procura de uma amada perdida. É este último que começa por falar na primeira pessoa no romance, e é-nos dito que é ele quem tem escrito os romances do autor; este, o que não existe, ou que existe menos do que o outro. Ou seja, o real divide-se entre o que veio ao ser e o que ficou potencial, e é pelo que está na sombra que vêm a escrita e as demais coisas reais, o que implica uma conceção estética particular. Implica ainda um jogo de ocultamentos: diz-se uma coisa para esconder outra; esconde-se uma coisa para trazer outra à luz. Quem fala neste romance é, então, pura potencialidade, fantasma. É uma possibilidade de vida do escritor empírico que nunca se concretizou, pelo que sabemos: cantor romântico em cruzeiros. A realidade (escrita ou não) seria uma espécie de quiasmo entre esses dois planos. Se é, então, o duplo do escritor quem, na verdade, escreve os romances do autor que aceita ser medalhado, é porque ele é que é o escritor e, simultaneamente, um enviado dos antepassados. O autor é apenas um figurão a quem se podem atirar medalhas e apertar a mão em cerimónias. Os mortos e os fantasmas pertencem ambos ao mesmo mundo latente. Outra forma de dizer que não adianta medalharem o escritor, porque quem escreve os seus romances é a (sua) sombra, é o inconsciente, a deriva — que é outra forma de pôr as coisas para quem tais coisas não fazem sentido.

Ora, o mundo dos espíritos, das sombras, enfim, o mundo remoto das tradições animistas timorenses, bem presente em inúmeras referências em tétum e na própria lógica estruturante do livro, não é um folclore pitoresco que o envolve, mas uma coisa presente, atuante. Não esmoreceu no longo exílio de Cardoso: informa os seus livros, onde os mortos veem falar, como dizia Raul Brandão sobre os dele. Os mortos moldam a sua literatura a partir do outro lado, e ela serve de comunicação com eles. O mundo dos espíritos e o mundo dos vivos são como que dois braços comunicantes de uma ampulheta, ligados pela areia da voz.

Este é, penso eu, o aspeto mais rico e dinâmico do livro. Outro, de não menor relevo, é o facto de as páginas do romance operarem uma inflação da memória num país espoliado de seu passado e memória, não só por ser nação recente, como pelos pesados danos do colonialismo e da invasão pelo seu vizinho. Numa terra onde escasseiam bibliotecas, o livro pretende construir uma espécie de biblioteca mínima de Timor através de citações e de referências, que reproduz a oratura dos seus povos. Pretende criar memória, processo muito necessário. É, assim, natural que seja também uma acumulação e uma revisão da própria biblioteca romanesca composta pelo autor, abundando as referências a toda a sua obra anterior, e que veem alimentar o jogo romanesco, como quando se refere à Pensão Buganvília, “a mesma onde se hospedou Catarina, a personagem fundamental do livro Requiem para um navegador solitário (…). Não tendo encontrado nenhuma pousada com esse nome, fez a reserva no Hotel Timor” (p. 19). A biblioteca serve igualmente para pôr a nu as fontes de que Hotel Timor parte e fazer das suas leituras vertente explícita da escrita.

Trata-se de um livro construído com base em falas curtas, pedaços de diálogo que funcionam como mote para inúmeras divagações, já que a narrativa em si é parca, apenas um esboço: duplos voltam a Timor ao mesmo tempo e com o mesmo passaporte, hospedados no mesmo hotel. Um deles é um cantor romântico que finalmente volta para tentar encontrar a sua amada; o outro é o escritor famoso. Esta história quase burlesca permite um mínimo de personagens e de cenas que espoletam recordações, falas internas e externas. O diálogo é, assim, modo de lançar um mote para uma deriva informe, ao modo loboantuniano, que enche todo o romance.

Parece, assim, haver vários narradores, também ao modo do autor de As Naus: o duplo do escritor, o seu irmão fuzilado, talvez ainda outros, que vão segregando recordações, episódios e fragmentos relativos às suas vidas, mas sempre em função de Timor. É Timor quem está por trás disto tudo e quem liga todas as vozes dispersas, e é assim que se percebe que o que é constante neste livro, sem nunca afetar a profundidade do seu entrelaçamento de várias tradições (timorense, portuguesa, lusófona, europeia) e de referências inúmeras da literatura e da música (Kadaré, Piaf, Dylan Thomas, Mia Couto), é a crítica irónica, mas bem-humorada, aos destinos de um Timor pós-colonial assolado pelo nepotismo.

A escrita é não só uma crítica de costumes, mas uma pequena grande vingança: pelos prémios que quase recebeu, pelas vidas outras que ele e a sua família poderiam ter vivido caso a história do seu país não tivesse sido o calvário que foi. Apesar de tudo, um Timorense escrever em português e ganhar prémios por isso (foi o que aconteceu com o autor, que recebeu o Oceanos em 2021), sobretudo tendo em conta que o português não é a sua língua materna, é obra. É, de certo modo, uma merecida vingança por Manufahi, talvez a única possível, pois é batalha ganha no terreno “espiritual” do colonizador, a sua língua. Sabemos que o escritor é descendente direto de liurais que participaram nessa última sangrenta sublevação contra Portugal, e que saíram a perder, a que se deu em 1912 na província de Manufahi. Mas a lança de seu neto cravou-se fundo no escudo que o Português tem usado para se defender pelo mundo: a língua.

Assim, por este domínio da língua e mestria narrativa, Cardoso tem já merecido reconhecimento. E não estranhemos que quem já publicou em grandes grupos editoriais, esteja agora em editoras independentes, certas vezes mais acolhedoras. O seu Plantador de abóboras havia saído na Abysmo, de João Paulo Cotrim, e sai agora este numa editora de nome anglófono, mas que publica sobretudo em língua portuguesa, a Poets and Dragons Society. É bom haver um escritor desta grandeza em editoras independentes, mas o livro, pejado de gralhas (até em nomes timorenses), merecia ter tido uma revisão, que visivelmente não aconteceu, e vai já em segunda edição.

4 Fev 2026

Abandonar os indesejáveis (3)

Há duas semanas, começámos a analisar a publicação de uma clínica privada do Condado de Yinan, na Província de Shandong, China continental, que declarava ir concentrar os seus recursos nos pacientes que possam pagar os tratamentos. Estas afirmações desencadearam discussões acesas. Os departamentos competentes da China continental investigaram a situação e consideraram que o conteúdo da publicação não é ético, ordenando que a clínica o corrigisse de imediato. A propósito desta notícia, e recorrendo às reflexões expressas no livro de medicina “A Sinceridade do Bom Médico”, do especialista de renome Sun Simiao, que viveu na antiga China no tempo da Dinastia Tang, explorámos os conceitos de dedicação e benevolência. Hoje, vamos debater o significado de “mãos benevolentes e habilidosas” e como clínicas e pacientes devem lidar com a questão do pagamento dos tratamentos.

Como é que Sun Simiao demonstrou ter mãos benevolentes e habilidosas na sua prática clínica?

O que é a habilidade médica benevolente? O Imperador Taizong solicitou os serviços de Sun porque a sua esposa estava a ter um parto difícil. Na antiga sociedade feudal, a noção de estatuto social estava profundamente enraizada e os homens e as mulheres estavam estritamente proibidos de estabeleceram qualquer contacto físico. Sun era apenas um plebeu, e não um médico imperial, e não podia examinar directamente o pulso da Imperatriz. Primeiro, procurou inteirar-se do seu estado através da criada, depois analisou o plano de tratamento prescrito pelo médico da corte. Finalmente, pediu à criada que atasse uma ponta de um fio vermelho ao pulso direito da sua Senhora, enquanto ele segurava na outra extremidade, podendo assim sentir as vibrações do pulso da Imperatriz. Acabou por conseguir que ela desse à luz em segurança. O leitor alguma vez considerou esta possibilidade para sentir a pulsação de outra pessoa? Este método inovador e a observação meticulosa caracterizam um médico altamente dotado. Isto é medicina benevolente.

Por conseguinte, ter um “coração benevolente e mãos habilidosas” é tratar os doentes com amor incondicional combinado com grande habilidade e competência.

Depois de analisarmos os critérios indispensáveis a um médico altamente dotado, voltemos ao comunicado. Os “pacientes indesejáveis” são os que não podem pagar os tratamentos. Segundo o comunicado, estes pacientes não só não podem pagar tratamentos caros, como estão sempre à espera de descontos, e pretendem obter a troco de um dólar consultas que custam dez, e serviços médicos que custam centenas e milhares. Por outro lado, os pacientes com categoria, podem pagar os tratamentos.

Julgar o paciente apenas pelo seu estatuto social e pela sua capacidade financeira, é um padrão tendencioso e falso, especialmente se considerarmos a importância da compaixão e da competência. Perante a doença, existe diferença entre os ricos e os pobres? Não, porque cada um de nós tem apenas uma vida e todos devem receber tratamento adequado. É aqui que o coração compassivo de um médico deve revelar-se — com cuidados desinteressados e ilimitados para cada paciente.

Administrar uma clínica implica custos que os médicos têm de pagar. Além disso, como também são seres humanos têm as suas despesas pessoais e familiares; não podem deixar de ganhar dinheiro. Acresce ainda, que por vezes são confrontados com exigências descabidas por parte dos doentes. Estes são os problemas com que têm de lidar e aos quais não podem fugir; apenas podem dar o seu melhor para salvar os doentes, com compaixão dentro destas limitações; o que não é o mesmo que amor e compaixão incondicionais.

A solução, claro está, é os pacientes pagarem um pouco mais e os médicos cobrarem um pouco menos. E haverá outros meios de tratar quem não tem dinheiro? Por exemplo, através da segurança social, de subsídios do Governo, de seguros de saúde. As clínicas podem tratar estes doentes se se candidatarem a estes apoios, que podem cobrir algumas despesas, garantindo ao mesmo tempo o mínimo rendimento da clínica.

Por outro lado, as clínicas podem reduzir despesas operacionais. Por exemplo, duas ou três pequenas clínicas poderiam fundir-se, operar em conjunto e partilhar o mesmo espaço, reduzindo o pessoal médico. As clínicas podem também procurar outras fontes de receita para responder aos custos operacionais. Por exemplo, apostar na mais na prevenção do que no tratamento das doenças. Fazer todo o tipo de exames médicos pode ao mesmo tempo ajudar a detectar o problema precocemente e ainda aumentar as receitas. As clínicas poderiam também ter serviço de tele-consultas com horários flexíveis, poupando aos pacientes o tempo da deslocação e gerando assim rendimentos fora do horário comercial.

Mas acima de tudo, estaríamos a apostar no entendimento mútuo. Hoje, os médicos prestam serviços grátis; amanhã, os pacientes virão retribuir a bondade dos médicos. Este cenário não é um acordo pré-combinado, mas uma manifestação concreta de compreensão mútua.

Vemos frequentemente placas onde se encontra escrito “Coração Benevolente e Mãos Habilidosas” entregues aos médicos por pacientes que curaram, um testemunho da sua profunda gratidão.

As clínicas podem considerar dar o primeiro passo e deixar os pacientes darem o segundo, ultrapassando assim em conjunto este problema.

3 Fev 2026

Mudanças climáticas para inglês ver

O planeta Terra está a ser alvo das mais graves mudanças climáticas jamais registadas. São tempestades inesperadas como aconteceu a semana passada em Portugal provocando a morte a cinco cidadãos, destruindo habitações, provocando a queda de árvores de grande porte e com muitos anos de existência, telhados inteiros voaram, coberturas de fábricas, armazéns e até do estádio de futebol de Leiria partiram-se e caíram nas vias públicas torres de iluminação e postes de electricidade, que destruíram imensas viaturas, destruição de hangares militares que danificaram aviões F-16, inundações nunca vistas em algumas localidades que deixaram animais abandonados, barragens que se construíram sem existir qualquer plano sobre o que poderá acontecer em prejuízo das populações, quando se efectuam descargas de água, bombeiros sem mãos a medir para acudir nos mais diversos locais, mais de 300 mil portugueses continuavam anteontem ainda sem luz e água, enfim, uma tragédia para a qual ficou provado que as estruturas governamentais não estavam preparadas e nem sequer realizaram um planeamento adequado para acudir às populações em perigo, depois de já terem sucedido situações semelhantes com menos gravidade. E por quê? Simplesmente porque alguns povos e governos, incluindo o português, ainda não se convenceram que tinham de andar dez anos à frente no que respeita à prevenção e à defesa do meio ambiente.

Sabemos todos que o culpado disto tudo é o CO2. Certo, mas a emissão de CO2 acontece porque os humanos nada fazem para evitar que o CO2 acelere o aquecimento global, acidifique os oceanos e provoque eventos climáticos extremos, como tornados, furacões e ciclones. O dióxido de carbono retém calor, provocando o derretimento de calotas polares, contribui para aa elevação do nível do mar e riscos para a nossa saúde e para a segurança alimentar. O aumento do CO2 intensifica o efeito de estufa, causando aumento de temperatura da superfície terrestre. Isto, gera fenómenos meteorológicos extremos como secas, ondas de calor e inundações. Inundações que foram trágicas na semana passada em Portugal, com escolas encerradas, lojas completamente cheias de água, moradores impedidos de sair de casa, carros submersos às dezenas e rios com a água a subir a níveis nunca vistos, em alguns casos devido ao que atrás referimos inerente à descarga de barragens. A maioria das gentes não faz a mínima ideia da gravidade que se está a passar nos oceanos, por exemplo, e que tem consequências gravosas na nossa vida. A absorção de CO2 pelos oceanos forma ácido carbónico, reduzindo o pH da água, prejudicando a vida marítima, especialmente organismos que dependem de carbonato de cálcio (como corais e moluscos) e ameaça a pesca. Mas, quem é que se preocupa com o facto horrível de quem enfia as beatas dos cigarros nas areias das praias que depois vão para o mar e que os filtros podem demorar 100 anos a desfazerem-se? Quem é que se importa de ver milhões de beatas pelas ruas das cidades?

A tempestade Kristin que atingiu Portugal está ligada às mudanças climáticas que temos referido, no entanto, o povinho continua de boca aberta de admiração indagando porque é isto possível? É uma realidade porque nunca ninguém lhes disse que estes novos fenómenos estão associados à falta constante de defender o meio ambiente. Nunca lhes disseram que o aquecimento global causa o derretimento dos gelos polares, resultando na subida do nível do mar com a consequente ameaça das zonas costeiras e em muitas dessas zonas existe agricultura. Tudo está ligado. Com uma agricultura sem qualidade o impacto na saúde humana é imenso, provocando doenças cardiovasculares, respiratórias, asma e bronquite, segundo um médico amigo nos transmitiu.

Todos temos de olhar para o futuro, especialmente os jovens, e algo tem de mudar radicalmente no comportamento quotidiano dos humanos, sejam fumadores, proprietários de fábricas de produtos tóxicos ou engenheiros que planeiam a construção de uma barragem. A defesa do meio ambiente não é uma balela, mas para muitos, parece. Com a agravante de já estar anunciado para esta semana a vinda de mais duas tempestades a atingir Portugal Alguns, chegam mesmo a dizer “que se lixe, vou morrer dentro de pouco tempo, os que ficam cá que aguentem!”. Está errado. É um pensamento egocêntrico e de um egoísmo atroz em prejuízo da humanidade. Pensemos no que sucedeu a semana passada em Portugal e tentemos mudar o nosso comportamento diário em defesa do meio ambiente, o que significa em nossa defesa, dos filhos e dos netos.

2 Fev 2026

O noivo perfeito não é humano?

A Geração Z acredita que pode desenvolver relacionamentos profundos com a Inteligência Artificial (IA) e mostra-se muito favorável ao casamento com IA. Estes foram os resultados de um estudo realizado por uma companhia de chatbots onde é possível criar uma namorada à medida. Um resultado conveniente à sua amostra: utilizadores que vêem na IA uma presença que não provoca desgostos. E apesar de não existir um regime jurídico que aprove o casamento com sistemas de IA relacional, desde chatbots a avatares, estes já acontecem como actos performativos. Estão a ser realizadas cerimónias para que todos vejam: o parceiro perfeito não precisa de ser de carne e osso. E há várias reflexões que podem ser feitas relativamente a esta tendência. Trarei aqui algumas ideias.
Muito se pode dizer sobre estas relações com um risco emocional mínimo – sem alteridade, sem um outro verdadeiramente autónomo. A IA é passível de ser moldada à nossa medida, o algoritmo desenvolvido para agradar e validar. Este é o sonho de muita gente, criar parceiros e parceiras perfeitas, com as interacções e com a disponibilidade emocional perfeitas. Olhamos para estes processos com julgamentos fáceis de que as pessoas só estão à procura de uma solução fácil sem sofrimento; como se lhes faltasse a coragem de fazer diferente. Contudo, encontrar amizade e amor na IA revela algo de muito particular sobre o campo relacional contemporâneo. Um campo onde o cansaço é grande, onde a desilusão é uma constante da relação interpessoal. O contacto humano tem-se deteriorado de tal forma, e vivemos tempos de tanta incompreensão, que a IA torna-se numa miragem, uma bolha de oxigénio que pode ser relevante para a nossa sobrevivência sócio-emotiva. É apenas uma pequena bengala, com os seus riscos.
Outra dimensão importante a ser discutida é a da sexualidade. A IA não tem um corpo. No Japão, no mais recente casamento com uma figura criada pela IA, o noivo foi trazido pela tecnologia de realidade aumentada. Como é que se vive a sexualidade sem o toque, sem a pele? Claro que o sexo pode viver de fantasias, de estímulos como a voz e o texto; não é o veículo que traz problemas, mas a substituição do corpo pela sua ausência permanente. A impossibilidade de viver o sexo com a temperatura dos corpos, a sensibilidade da pele e a exploração dos sentidos limita profundamente a experiência erótica. Não fazer gozo desta capacidade de nos relacionarmos com tamanha intensidade, é impossibilitar experiências que são especiais e humanas.
Mas não posso descurar a capacidade ensaística da IA. Como se se tratasse de um laboratório de exploração relacional. Pode funcionar como preâmbulo, mas dificilmente substituirá a narrativa rica, fantástica e trágica que são as histórias de amor e de sexo humanos. Por isso tenho curiosidade sobre estes casamentos, o quanto irão durar, e os níveis de satisfação ao longo do tempo. Poderão surpreender-me, mas acredito que irão chegar a pontos insuportáveis de aborrecimento e estagnação.
A desilusão, ou o desencontro, são parte do processo de relação. O terapeuta familiar, Terry Real, discute bastante esta questão. A desilusão não é um problema, é só um começo. O romance está no campo da projeção e fantasia, mas a relação só começa quando a projeção cai e o outro se torna real. O outro que não vem encaixar perfeitamente nas nossas necessidades ensina-nos que uma relação vive de negociações, de responsabilidade relacional, e de reconhecimento de limites. Para este terapeuta, a intimidade não vem de uma fantasia de encaixe perfeito, vem da realidade pós-desilusão. Isto é o que a IA nunca nos pode oferecer. A IA só nos espelha, e molda-se aos nossos desejos e necessidades.
As relações com IA levantam muitas questões éticas, afectivas e sociais — mas talvez sejam, acima de tudo, um sintoma. Um espelho de um tempo em que o contacto humano se tornou demasiado extenuante, imprevisível ou doloroso. Antes de perguntarmos se o noivo perfeito é humano, talvez devêssemos perguntar que mundo estamos a construir para que o humano, e as suas idiossincrasias, já não seja objecto de desejo.

1 Fev 2026

A Disputa pela Gronelândia (I)

“Whoever controls the Arctic controls the future.”

Mikhail Gorbachev

 

A crescente atenção dos Estados Unidos à Gronelândia, particularmente durante a presidência de Donald Trump, constitui um caso paradigmático da intersecção entre interesses estratégicos de longa duração e ambições políticas de natureza mais pessoal. A análise deste fenómeno exige distinguir, por um lado, os objectivos estruturais do Estado americano e, por outro, as motivações específicas associadas ao estilo político e às prioridades simbólicas da presidência de Trump. Esta distinção é fundamental para compreender a forma como a política externa dos Estados Unidos se reconfigura quando interesses institucionais e impulsos individuais convergem, ainda que parcialmente, em torno de um mesmo território.

A Gronelândia ocupa uma posição singular no tabuleiro geopolítico contemporâneo. Situada no extremo norte do Atlântico, a ilha constitui um ponto de observação privilegiado sobre o Árctico, região que, nas últimas décadas, se tornou palco de competição entre grandes potências. O degelo progressivo, associado às alterações climáticas, abriu novas rotas marítimas e tornou acessíveis recursos naturais antes inacessíveis, incluindo minerais estratégicos e reservas energéticas. Este novo cenário intensificou a presença e a vigilância militar de Estados como a Rússia e a China, que procuram garantir posições vantajosas num espaço que poderá redefinir fluxos comerciais e equilíbrios de poder.

Para Washington, a Gronelândia representa um activo geoestratégico de valor crescente. Desde a Guerra Fria, os Estados Unidos mantêm na ilha infra-estruturas militares essenciais, como a base aérea de Thule, integrada no sistema de alerta antecipado contra mísseis balísticos. A localização da base permite monitorizar actividades militares no Ártico e no espaço euro-asiático, constituindo um elemento central da arquitectura de defesa americana. A modernização e expansão destas capacidades, num contexto de rivalidade intensificada com Moscovo e Pequim, reforçam o interesse permanente dos Estados Unidos em assegurar controlo operacional sobre o território.

Além da dimensão militar, a Gronelândia possui vastos recursos minerais, incluindo terras raras, urânio e outros elementos críticos para a indústria tecnológica e de defesa. A crescente dependência global destes materiais, aliada à tentativa de reduzir a influência chinesa nas cadeias de abastecimento, torna a exploração mineira da ilha particularmente relevante. Existe tal como em relação à Venezuela a percepção americana de que o controlo de recursos estratégicos é um instrumento de poder no hemisfério ocidental, e que a Gronelândia pode desempenhar um papel complementar nesse esforço.

Importa notar que, do ponto de vista jurídico e diplomático, os Estados Unidos dispõem de mecanismos que lhes permitem operar militarmente na Gronelândia e negociar o acesso a recursos naturais. Os acordos de defesa celebrados com a Dinamarca em 1951, actualizados em 2004, garantem ampla liberdade de acção. Copenhaga, consciente da importância da aliança com Washington, tem historicamente demonstrado flexibilidade nas negociações, desde que a soberania formal sobre a ilha seja preservada. Assim, os interesses estratégicos americanos não exigem, em sentido estrito, a aquisição territorial da Gronelândia.

A tentativa de Donald Trump de adquirir a Gronelândia introduz uma camada adicional de interpretação, distinta dos objectivos tradicionais da política externa americana. A proposta de compra, amplamente divulgada e inicialmente recebida com perplexidade internacional, não pode ser dissociada da visão política e simbólica que caracterizou antes e agora a sua presidência.

Trump procurou antes e agora, ao longo do seu mandato, construir uma narrativa de liderança disruptiva, capaz de romper com convenções diplomáticas e de afirmar os Estados Unidos como potência incontestável. A aquisição da Gronelândia seria, nesse sentido, um gesto de magnitude histórica, evocando episódios de expansão territorial como a compra da Louisiana ou do Alasca. A ambição de ser recordado como o presidente que expandiu o território nacional após décadas de estabilidade fronteiriça revela uma preocupação com o legado político e com a inscrição simbólica da sua presidência na história americana.

Este impulso encontra eco entre sectores nacionalistas que vêem os Estados Unidos como uma “civilização da fronteira”, cuja identidade se constrói através da conquista e da expansão. A reabertura simbólica dessa fronteira no Ártico seria interpretada como um renascimento do espírito pioneiro, reforçando a narrativa de grandeza nacional que sustentou parte da base eleitoral de Trump.

29 Jan 2026

Abandonar os indesejáveis (2)

Na semana passada, falámos sobre uma clínica privada no Condado de Yinan, Província de Shandong, na China continental, que declarou numa publicação que iria concentrar os seus recursos nos pacientes que podem pagar os tratamentos. Esta publicação chamou de imediato a atenção dos departamentos governamentais. Depois de investigarem, declararam que o conteúdo da publicação infringe a ética médica e foi ordenado que a clínica o corrigisse. Também mencionámos o livro de medicina a “Sinceridade do Bom Médico”, de Sun Simiao, um famoso especialista da Dinastia Tang, que enumera os princípios a que um bom médico tem de obedecer, sendo o mais importante “ter um coração benevolente e mãos habilidosas”. Hoje, vamos tentar compreender mais profundamente o significado da expressão “coração benevolente e mãos habilidosas”.

Sun sublinhou que a primeira condição para tratar os doentes é cultivar a compaixão e fazer voto de dedicação a todos os seres conscientes. Durante o tratamento, o médico não pode preocupar-se consigo próprio, nem ter qualquer vaidade; quando vê a dor e o sofrimento do paciente, deve sentir empatia — isto é benevolência.

Como é que Sun demonstrou benevolência na sua prática médica? Registos online comprovam que certa vez, Sun encontrou um tigre com olhos fulminantes nas montanhas e ficou aterrorizado. No entanto, o tigre não o atacou, em vez disso abriu muito a boca e lançou um enorme lamento. Sun aproximou-se corajosamente e descobriu um osso preso na boca do tigre, que o impedia de comer. Sun queria salvar o tigre, mas aproximar-se da sua boca era muito perigoso. De repente, reparou num aro de cobre preso num poste e teve uma inspiração súbita. Tirou-o e colocou-o na boca do tigre, impedindo assim que ele a fechasse. Então avançou e retirou o osso, salvando o animal. Mais tarde, os discípulos de Sun passaram a ter com eles aros de cobre com objectos afiados pendurados que tilintavam quando eles andavam, identificando-se desta forma como seus aprendizes. Depois da morte de Sun, todas as lojas de medicina chinesa passaram a venerá-lo como “O Rei da Medicina”. Posteriormente, quando os discípulos de Sun passavam por uma destas lojas, era-lhes pedido para não fazer qualquer som com os aros de cobre, em sinal de respeito pelo Mestre.

Outra história que comprova a benevolência de Sun envolve o Imperador Taizong da Dinastia Tang, na antiga China. O Imperador Taizong sofria de aperto no peito que lhe provocava dor e chamou todos os médicos imperiais, mas nenhum o aliviou. Então os seus ministros recomendaram-lhe Sun. Depois de examinar a pulsação do Imperador, Sun propôs-lhe que entregasse as vestes imperiais, as concubinas e o trono depois de Sun o ter curado com sucesso. Na China antiga, estas condições equivaliam a usurpar o trono. Os ministros ficaram sem fala. O Imperador ficou tão zangado que vomitou sangue e desmaiou. Nesse momento, Sun disse:

“A doença já está meio curada.”

Depois Sun pegou nas agulhas douradas e tratou o Imperador com acupunctura e, depois de ele acordar, Sun disse-lhe que sofria de congestão toráxica, local onde a medicação não conseguia chegar e onde a acupuntura era ineficaz. Só invertendo o fluxo sanguíneo se podia ultrapassar a congestão e ele poderia ser aliviado. A única forma de o conseguir era através da raiva, especificamente da fúria. Por isso, Sun disse o que disse para provocar o Imperador Taizong.

Salvar o tigre foi um acto de benevolência, porque Sun acreditava que todos os seres possuem um espírito, e mesmo os animais mais humildes devem ser tratados com o máximo cuidado, pois a vida é insubstituível. Sun não pensou se o Imperador poderia matar toda a sua família e provocou-o com o objectivo de o salvar. Salvar os outros em detrimento da nossa própria segurança é precisamente a expressão de benevolência.

Na próxima semana, analisaremos o significado da expressão mãos benevolentes e habilidosas e discutiremos a forma de as clínicas e os pacientes resolverem a questão do pagamento dos tratamentos.

27 Jan 2026

Há campeão no final da segunda volta

Não, não vou escrever sobre o que irá acontecer no final da segunda volta do nosso campeonato nacional de futebol. Nesse campo, teríamos muito para explanar, já que o Futebol Clube do Porto, o Sporting e o Benfica, mais uma vez, são os três clubes que, de entre eles, um festejará no Marquês de Pombal ou nos Aliados. Está a ser uma segunda volta muito disputada, com um F C Porto fortíssimo e bem treinado, com um Sporting ainda com esperança de conquistar o tri, apesar das inúmeras baixas e de um bom treinador ter andado a cozinhar omeletas sem ovos e um Benfica com um treinador mundialmente famoso com jogadores que custaram milhões e que não dão uma para a caixa. No final da segunda volta tudo se irá saber se os festejos serão com milhares de cachecóis azuis, verdes ou vermelhos.

Uma outra segunda volta está a decorrer. Ui, que segunda volta e que “campeonato” disputado a duas mãos: António José Seguro e André Ventura. Foram os dois candidatos a Presidente da República que receberam do povo mais votos. E agora, terá de se realizar uma segunda volta de eleições presidenciais a fim de um dos candidatos ser eleito por maioria absoluta. A Irlanda e a Islândia resolvem logo a eleição à primeira volta, com uma maioria simples. Não estão virados para, passado uns dias, voltarem ao “trabalho” de se deslocarem às urnas.

Seguro e Ventura, de qualquer modo, surpreenderam muita gente. No início da campanha ouvimos várias pessoas a dizer que nem um nem outro teriam qualquer hipótese de ficarem nos dois primeiros lugares. Uma parte do país estava convencida que Gouveia e Melo iria à segunda volta pelo bom desempenho que teve durante a pandemia Covid19. Mas não, o povo não esteve virado para colocar um militar na Presidência da República. Outra parte do país, especialmente no Norte, dava Marques Mendes como indiscutível candidato presente na segunda volta. Tinha tido o apoio na campanha de Luís Montenegro e tudo indicava que a AD, Montenegro e o Governo não viessem a ter uma derrota estrondosa.

Ainda tivemos outra surpresa: Cotrim Figueiredo partiu quase dos oito por cento da Iniciativa Liberal, foi conquistando apoios através de uma boa máquina nas redes sociais e chegou a estar em empate técnico com os candidatos Seguro e Ventura. No entanto, Cotrim nunca esperou que na última semana de campanha viesse uma senhora assessora no Governo, acusá-lo de assédio sexual. Pronto, a bronca estava nas bocas do mundo e o culpado ou inocente Cotrim veria a sua prestação desmoronar para o precipício e, no final, ficar muito longe de uma eventual segunda volta.

António José Seguro, que iniciou esta caminhada presidencial sozinho, a mostrar-se um homem moderado, com mais experiência e com um contacto directo com a juventude ao exercer o professorado universitário durante praticamente 10 anos, viu que as suas hipóteses de ir a uma segunda volta aumentavam de semana a semana, especialmente depois de os “tubarões” do Partido Socialista manifestarem o apoio à sua candidatura. De tal forma, que venceu as eleições com uma vantagem indiscutível. A maioria dos portugueses diz que Seguro será o campeão nesta segunda volta. Aconselhamos essa maioria a ter muita calma, e lembrar-se do que aconteceu com Fernando Medina na edilidade lisboeta – “Ah, está ganho, nem vale a pena ir votar!” – e pensar que o adversário se chama André Ventura, o astuto, inteligente, rude, racista e xenófobo político que apregoa aos quatro ventos que tudo tem de mudar, que o país tem sido governado por uma cambada de corruptos, que os imigrantes têm de voltar para a sua terra, que os apoios sociais devem ir primeiramente para os portugueses, que os salários e as pensões não podem ser miseráveis, em resumo, pega no megafone e grita tudo aquilo que os descontentes, os neofascistas ou os antigos milhares de bufos da PIDE, gostam de ouvir. E ainda existe uma particularidade incompreensível de termos os nossos emigrantes, que escutam o discurso de que os imigrantes devem voltar para a sua terra e que não pensam duas vezes se ouvissem o mesmo discurso nos países onde trabalham como a França, Suíça, Alemanha, EUA ou Austrália, e que mesmo assim, decidem votar em Ventura.

Atenção, aos apoiantes de Seguro. Nada está ganho, e por um voto se ganha e por um voto se perde. Se os apoiantes de Seguro pensarem que o campeão desta segunda volta está encontrado, podem vir a ter um grande dissabor se não forem em massa votar, e não só. Todos os democratas ficariam de rastos ao ver pela primeira vez, em mais de 50 anos de democracia, um neonazi no Palácio de Belém.

26 Jan 2026

Por detrás das notícias

No final de 2025, um certo jornal lançou um concurso para “As dez maiores histórias de 2025”. O que faz com que uma notícia seja significativa? Cada um de nós terá o seu critério. Para mim, o seu impacto é o que verdadeiramente importa.

A prosperidade e a estabilidade de uma sociedade são inseparáveis da sua economia e da sua prática política. Uma governação competente conduz naturalmente à prosperidade económica. Para que as políticas governamentais estejam alinhadas com o desenvolvimento social e respondam às aspirações dos cidadãos, a supervisão pública é tão importante como a capacidade dos vários gabinetes do Governo. Quem detém o poder tem frequentemente dificuldade em ver para lá da sua própria posição, e a altura dessa posição pode facilmente determinar a amplitude do seu pensamento. O ditado “quem está envolvido confunde-se facilmente, mas quem está de fora vê claramente” indica que quem está envolvido nas situações não tem objectividade suficiente para as avaliar. Se assumirmos que “quem detém o poder” é sinónimo de “autoridades competentes”, a sua implicação torna-se ainda mais profunda.

Por exemplo, o encerramento dos “casinos- satélite”, com apenas um de dez a sobreviver, trouxe um impacto negativo nos distritos comerciais circundantes muito evidente, especialmente nas lojas do Porto Interior que estavam originalmente ligadas ao Casino Ponte 16. Embora a intenção de restringir a operação das actividades do jogo a locais licenciados possa não ser um problema por si só, o encerramento dos “casinos-satélite” abalou a estrutura fundamental e perturbou a relação simbiótica entre eles e o comércio circundante. Para os grandes operadores de jogo, a receita dos “casinos-satélite” é insignificante, mas para os operadores e os trabalhadores dos pequenos casinos essas receitas garantiam a sua sobrevivência.

Quando todas as receitas se concentram nos grandes operadores do jogo assistimos à monopolização do sector e os casinos-satélite tendem a desaparecer.A Bíblia lembra aos agricultores para não apanharem todos os grãos durante a colheita e deixarem alguns para aqueles que precisam e o objectivo é manter o sustento dos mais vulneráveis. À medida que o fosso económico se alarga e a luta dos mais pobres para se manterem à tona se intensifica, como é que será possível manter a paz na sociedade? Deveria ter havido planos de contingência para lidar com o impacto negativo sofrido pelos comerciantes dos arredores dos “casinos satélite” que iam ser encerrados. Será tarde demais para tomar medidas?

Os poderes executivo e legislativo são os dois pilares que sustentam a estabilidade social. Nas eleições de 2025 para a Assembleia Legislativa, o número de votantes bateu um novo recorde,mas houve 5.987 votos em branco e 7.053 votos nulos nas eleições por sufrágio directo, os números mais altos em todas as eleições desde o regresso de Macau à soberania chinesa. A grande remodelação dos principais membros do Governo da RAEMe a nomeação comoVIII Presidente da Assembleia Legislativa do antigo Secretário para a Administração e Justiça, Cheong Weng Chon, demonstram a determinação do Governo local em escolher“patriotas para governar Macau”e a“predominância do poder executivo”.

As histórias acima citadas são certamente notícias importantes. No entanto, dada a recente volatilidade dos contextos nacionais e internacionais, se as lideranças não tiverem supervisão nem orientação, apenas escutam elogios e críticas positivas e deixam de ver os perigos potenciais, apenas vislumbram luzes verdes nos seus percursos, pelo que correm o risco de vir a sofrer de “daltonismo político”. Estas preocupações merecem ponderação. A última peça escolhida pelo jornal como candidata às “As dez maiores histórias de 2025” foca-se “na prisão de um homem chamado Ao pela Polícia Judiciária, suspeito de ter um conluio de longa data com forças estrangeiras hostis, que fornecia informações falsas e instigadoras incitando ao ódio ao Governo Central e ao Governo de Macau. Depois do interrogatório, Ao foi detido, marcando a primeira acusação ao abrigo da Lei relativa à Defesa da Segurança do Estado da Região Administrativa Especial de Macau”. Acredito que esta história possa vir a ser uma das seleccionadas para “As dez maiores histórias de 2025” e notícias sobre o caso de Ao terão também uma alta probabilidade de serem escolhidas para “As dez maiores histórias de 2026”.

25 Jan 2026

O Irão na Tempestade Perfeita

“History moves in waves, but regimes fall in moments.”

Anne Applebaum

 

A República Islâmica do Irão encontra-se, desde o início da década de 2020, no centro de uma confluência de factores internos e externos que configuram um dos períodos mais críticos da sua história contemporânea. A acumulação de tensões políticas, económicas, sociais e geoestratégicas produziu uma verdadeira “tempestade perfeita”, na qual dinâmicas estruturais de longa duração se articulam com choques recentes, expondo fragilidades profundas do regime teocrático e revelando novas formas de contestação e de reconfiguração regional.

O sistema político iraniano assenta num modelo híbrido, onde instituições republicanas coexistem com estruturas teocráticas dotadas de poder de veto. O Líder Supremo, figura central do regime, detém autoridade superior a qualquer órgão eleito, controlando as Forças Armadas, sistema judicial, serviços de segurança e os principais meios de comunicação. O Conselho dos Guardiães, responsável pela filtragem de candidaturas, impede a emergência de competição política genuína, assegurando a continuidade ideológica do regime.

Este arranjo institucional, concebido para preservar os princípios da revolução islâmica, evoluiu para uma autocracia consolidada, sustentada por uma elite clerical estreitamente articulada com a Guarda Revolucionária (IRGC). Inicialmente criada para proteger a revolução, a IRGC transformou-se num actor multifacetado com influência transversal. Para além do seu papel militar, controla sectores estratégicos como energia, construção civil, telecomunicações e redes financeiras paralelas, constituindo um complexo militareconómico que limita reformas e reforça a interdependência entre poder religioso e poder coercivo. Esta fusão aproxima o Irão de modelos de “autoritarismo militarizado”, embora com especificidades derivadas da sua natureza teocrática.

A morte de Mahsa Amini, em 2022, desencadeou a mobilização social mais significativa desde 1979. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” ultrapassou rapidamente a questão do véu obrigatório, transformando-se numa contestação estrutural ao regime. A amplitude sociológica dos protestos envolvendo mulheres, jovens urbanos, estudantes, trabalhadores e minorias étnicas evidenciou a profundidade do descontentamento acumulado.

A resposta estatal, marcada por repressão sistemática, detenções em massa e relatos de tortura e julgamentos sumários, não eliminou a contestação; apenas a deslocou para formas mais difusas, digitais e subterrâneas. Entre 2025 e o início de 2026, o país viveu a fase mais violenta desde 1979, com milhares de mortos e dezenas de milhares de detenções. Organizações de direitos humanos estimam mais de 3300 mortos e 24000 detidos, números possivelmente superiores devido ao apagão da internet. O próprio regime admitiu “vários milhares” de mortos algo sem precedentes.

A classificação de manifestantes como mohareb (“guerra contra Deus”), crime punível com pena de morte, reforçou a percepção de que o Estado opera num regime de “emergência permanente”. A presença reforçada da IRGC e das milícias Basij transformou várias cidades em espaços de controlo militar de facto.

O regime não se encontra à beira de colapso imediato, mas entrou numa fase de fragilidade estrutural acelerada. A economia deteriorase mais rapidamente do que a capacidade repressiva consegue compensar, e a legitimidade interna atingiu o ponto mais baixo em décadas. A revolta de Janeiro de 2026 é frequentemente descrita como a mais abrangente e socialmente inclusiva desde 1979, marcando uma ruptura irreversível na relação entre sociedade e Estado.

As periferias étnicas como curda, balúchi, árabe e azeri assumem um papel central na contestação. A repressão militarizada reflecte o receio do regime de que reivindicações identitárias evoluam para movimentos separatistas, fenómeno observado noutros Estados multiétnicos sob regimes autoritários.

No plano externo, o Irão reforçou a sua política regional assertiva como mecanismo de sobrevivência estratégica. Através de alianças com grupos armados no Líbano, Iraque, Palestina e Iémen, Teerão procura projectar poder, criar zonas de influência e dissuadir adversários. Esta estratégia híbrida simultaneamente ideológica e pragmática permite ao regime compensar o isolamento diplomático e manter relevância geopolítica, mas intensifica tensões com os Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo. A retórica entre Washington e Teerão atingiu níveis particularmente elevados após 2025, com declarações americanas classificando um eventual ataque ao Líder Supremo como “guerra total”. Este ambiente contribui para uma volatilidade regional persistente.

O programa nuclear iraniano permanece um dos elementos mais sensíveis da política internacional. A retirada dos Estados Unidos do JCPOA, em 2018, desencadeou uma aceleração do enriquecimento de urânio, aproximando o país de níveis compatíveis com capacidade militar. A opacidade das actividades nucleares alimenta suspeitas e aumenta o risco de confrontos directos ou indirectos. Uma eventual capacidade nuclear militar teria implicações profundas para o equilíbrio de poder no Médio Oriente.

A economia iraniana enfrenta uma crise estrutural marcada por sanções internacionais, má gestão interna e corrupção sistémica. A desvalorização da moeda, a inflação persistente e o elevado desemprego juvenil alimentam o descontentamento social. A dependência do petróleo limita a diversificação económica, enquanto o controlo da IRGC sobre sectores lucrativos bloqueia a concorrência e a inovação. O resultado é um ciclo de instabilidade que se autoreforça.

Apesar da repressão, o regime recuperou algum controlo operacional no início de 2026, com a reabertura parcial de escolas e universidades e o reforço da vigilância digital. Contudo, esta estabilidade é frágil e assenta em mecanismos coercivos cada vez mais sofisticados. Até 2030, o autoritarismo iraniano tende a evoluir para um modelo híbrido que combina repressão física com controlo algorítmico avançado como reconhecimento facial, monitorização preditiva de redes sociais e restrições personalizadas de acesso à internet. Este “autoritarismo digital” reduz custos de repressão e aumenta a eficiência do controlo social.

Paralelamente, a sociedade iraniana continuará a transformar-se. A juventude, conectada ao mundo digital e exposta a valores globais, tende a radicalizar a recusa da legitimidade do regime. A diáspora, em expansão, poderá consolidar-se como pólo de oposição transnacional. A resistência cultural como cinema, literatura, moda, redes feministas clandestinas deverá intensificar-se, aprofundando o fosso entre sociedade e Estado.

Até 2030, três cenários principais podem ser considerados sendo o primeiro de autoritarismo tecnológico consolidado como o mais provável, com manutenção do poder através de vigilância digital, controlo económico e alianças externas. O segundo com transição gradual desencadeada por crise económica extrema, disputa sucessória ou pressão internacional coordenada e a terceira de ruptura abrupta provocada por colapso económico, cisões internas na IRGC ou protestos massivos incontroláveis.

Assim, o Irão encontra-se num ponto de inflexão histórico. A estabilização aparente do início de 2026 não resolve as contradições profundas entre sociedade e regime, nem elimina os riscos geopolíticos que envolvem o país. Até 2030, o Irão poderá consolidar um autoritarismo digital sofisticado, afirmar-se como pivô geopolítico euroasiático ou entrar num processo de transição. Independentemente do cenário, continuará a desempenhar um papel central no equilíbrio político e securitário do Médio Oriente.

22 Jan 2026

Vidas Passadas – nem todo o amor é para ser vivido

Trago à discussão o filme que teve duas nomeações aos Óscares em 2024, Vidas Passadas (Past Lives), da realizadora e argumentista Celine Song. O título remete para a narrativa romântica, de vidas e encontros predestinados, e o filme trabalha de uma forma extremamente delicada isso mesmo: o encontro e o desencontro.

A história do filme é seguinte: Nora Moonemigra da Coreia do Sul com a sua família aos 12 anos e deixa para trás um amor de escola, que volta a reencontrar duas vezes ao longo do tempo. A primeira vez de forma digital, 12 anos depois, e a segunda, presencialmente, 12 anos depois disso. O filme baseia-se essencialmente no conceito coreano de in-yeon, um conceito budista de que existem ligações acumuladas ao longo das vidas, uma ideia de “destino” ou de “fado”. Há vários ângulos que poderão ser discutidos a propósito do filme (sem querer partilhar muitos spoilers), mas gostaria de trazer dois em particular. Um deles é o da sensualidade do silêncio, e o outro, a importância dos amores não vividos.

O filme tem uma cinematografia que nos oferece silêncios e olhares de grande profundidade. Nota-se que há desejos sem beijos, sem carícias, sem nudez. Os espectadores são transportados para momentos de ambiguidade que exigem maturidade emocional. Um mergulho nesses domínios não-verbais onde as palavras deixam de ser suficientes. O que não é dito, os pequenos frames que nos deixam suspensos no tempo e no pensamento, intensificam a sensualidade porque deixam parte à imaginação. Apesar de o filme, num primeiro momento, sugerir um triângulo romântico – isto porque Nora Moon já estaria casada quando se encontra presencialmente com a sua paixão de escola – conseguiu não cair em nenhum cliché, nem em nenhuma fórmula conhecida. Deixa-nos a pensar sobre muita coisa: sobre vidas, expectativas, amor, imigração, desejos, sonhos. E a sensualidade não se perde, sustenta-se na delicadeza das expressões faciais, e dos pequenos detalhes do cenário. Dentro da incerteza abrem-se espaços de possibilidade, oferecidos ao espectador, para que fizesse parte da história, como se uma co-criação fosse possível. Não há sensualidade bruta, mas uma compreensão sobre ela. Trazer esse exercício para o grande ecrã parece-me necessário, neste mundo que tenta puxar pelas certezas e por contrastes definidos e inflexíveis.

E depois, claro, toda esta atmosfera traz-nos ainda outra realidade: que o amor e o erotismo vivem tanto de grandes planos divinos como de escolhas. A forma como as vidas não-vividas são elaboradas, quase como fazendo o luto por elas, é o tema central do filme. As vidas escolhidas assumem a morte de outras, e estes amores defuntos ainda existem no pano de fundo, alimentando desejos e amores que permanecem ativos. Estas perdas são também atravessadas pela experiência da imigração: pelas línguas que se perdem e se ganham, e pelas versões do eu que ficam ancoradas a um lugar que já não existe. O luto das nossas múltiplas versões, ou das relações que não se tiveram, não deixam de ser terreno fértil. Não precisamos de olhar para eles como uma perda inconsolável, mas uma perda que faz parte da experiência, acolhida e cuidada, geradora de significado e de pertença a outros universos. A maturidade afectiva que o filme elabora pode não ser muito sexy no grande ecrã, mas é essencial à vida, e às versões maturadas da mesma. O filme mostra-nos que o real – o vivido – pode ser romântico. Sem grandes personagens, sem grandes heroínas ou vilões, só pessoas a darem sentido ao mundo que as rodeia.

Diz-nos a tradição coreana, evocada no filme, que os encontros verdadeiramente significativos resultam de inúmeras ligações acumuladas ao longo do tempo, por vezes pensadas como atravessando várias vidas. No folclore chinês, japonês e coreano, de base budista, fala-se de um fio vermelho atado a cada bebé que nasce, ligando-o às pessoas que irá encontrar ao longo da vida. Entre destino e possibilidade, há uma beleza indiscutível no momento em que cada pessoa se encontra: nas pessoas com quem se cruza, e também naquelas que deixa para trás. Vidas Passadas lembra-nos que o amor não vive apenas dos grandes triunfos ou dos gestos extraordinários, mas das escolhas que fazemos — e das perdas que aprendemos a integrar. Nem todo o amor é para ser vivido; alguns existem para nos ensinar a viver.

21 Jan 2026

Abrir mão dos indesejáveis (I)

Num artigo que circulou recentemente online pode ler-se que uma clínica privada no Yinan County, Província de Shandong, China continental, fez uma publicação com o título “Abrir Mão dos Pacientes de Baixo Nível”, da qual seguem os seguintes excertos:

“Os pacientes de mais baixo nível querem pagar um dólar por atendimento médico que custa dez, exames que custam cem e por serviços que custam milhares! Depois tornam-se exigentes, tentam extorquir-nos e se não satisfizermos as suas exigências evocam a ética médica para nos chantagear.”

“Os pacientes de nível superior são muito diferentes! Desde que tenhamos capacidade para resolver os seus problemas, nunca se queixam. Mesmo que o preço seja razoável ou mesmo um pouco alto, estão dispostos a pagar!”

“Quando se abre uma clínica, nunca se pode salvar toda a gente. Algumas pessoas têm a alma doente, não o corpo. A compaixão excessiva é o maior inimigo de uma clínica! Praticar medicina implica ter competências e gerir um negócio implica saber seleccionar.”

O que sente o leitor depois de ver estes excertos?

A comunicação social revelou que Wang, o responsável pela clínica citada, viu estes conteúdos online, considerou-os razoáveis e publicou algumas afirmações para “se proteger”. Afirmou que alguns pacientes se queixam do custo elevado dos tratamentos e outros tentam deliberadamente dificultar a vida aos médicos. Admitiu que o conteúdo da publicação podia deixar alguns pacientes desconfortáveis mas sublinhava que o funcionamento da clínica implica despesas, acrescentando, “Quando gerimos uma clínica, não esperamos salvar toda a gente; a compaixão excessiva não é aceitável.”

Posteriormente, o Gabinete de Saúde e Bem-Estar do Condado de Yinan criou uma equipa para investigar o incidente. As autoridades declararam que os conteúdos desta publicação violavam a ética médica e que a clínica também transgrediu a moral da classe, ordenando que rectificasse de imediato a situação. A publicação não foi retirada.

No livro de medicina “A Sinceridade do Bom Médico” escrito por Sun Simiao, um famoso especialista em medicina tradicional chinesa que viveu na Dinastia Tang, na antiga China, o autor declara que os melhores médicos devem ser calmos, resolutos, altruístas, concentrados e que não devem ambicionar fortuna ou fama quando tratam os seus pacientes. Além disso, devem ser compassivos e fazer um voto de salvar todos aqueles que precisam.

Quando os doentes procuram ser tratados, não importa saber quem são, qual o seu estatuto, a nacionalidade, a conta bancária, a idade, a aparência, a moralidade, se são aliados ou adversários, inteligentes ou tolos; devem todos ser tratados como membros da família, com a mesma compaixão.

Durante o tratamento, não devemos hesitar, nem ter em consideração a nossa sorte ou o nosso infortúnio, não valorizar a nossa própria vida; depois de vermos o sofrimento e a aflição do doente, é preciso senti-los como se fossem nossos. Não devemos evitar dificuldades e perigos durante o tratamento; quer seja de dia ou de noite, faça um calor abrasador ou um frio glaciar, mesmo quando temos fome, sede, ou estamos exaustos, é preciso tratar os doentes com total dedicação, sem procurar créditos ou glória.

Um bom médico que salva vidas age desta forma; por outro lado, quem não age assim é como uma grande praga que prejudica o povo.

Estas passagens sublinham as condições necessárias para se ser um médico altamente qualificado. Traduzido para a actualidade, diríamos que é preciso “um coração benevolente e mãos habilidosas.”

Na próxima semana, continuaremos a analisar o tema da vocação médica, do significado de “coração benevolente e mãos habilidosas” e de como resolver conflitos entre clínicas e pacientes.

20 Jan 2026

Este país não é para grávidas

As jovens em Portugal vivem num dilema. As que estudam e acabam um curso superior. As que trabalham nas mais diversas profissões, nomeadamente na limpeza das ruas das cidades, como cuidadoras informais, empregadas de restaurantes, em fábricas, coordenadoras de plataformas digitais, enfermeiras, advogadas, motoristas da Uber, funcionárias de lojas, médicas, arquitectas e tantas, tantas profissões que podemos imaginar. E o dilema é o seu futuro. Ao terminarem um curso ou começar a trabalhar, grande número de jovens com 25, 30 e até 35 anos continuam a viver nas casas dos pais porque o rendimento mensal não lhes é suficiente para comprar ou arrendar uma casa. Outras, ao conseguirem a sua independência e ao comprometerem-se com um namoro ou casamento, depois deparam-se com a realidade. O sonho de ter filhos.
O facto de engravidar e ter um filho parece, à primeira vista, algo de normal. Mas não é. Nos dias de hoje em Portugal sabemos que a natalidade tem diminuído muito e que o país já possui um número maior de velhos do que jovens. Quanto à natalidade, vários factores contribuem para que as jovens e até já mulheres com 40 anos, mesmo as comprometidas com um companheiro ou marido, deparam-se com casas cada vez mais caras, com um salário que não lhes permite sequer arrendar uma casa, se concretamente viverem em Lisboa, Porto, Coimbra ou Évora. As jovens começam a fazer contas à vida e pensam logo como é que será possível engravidar se continuam nas casas dos pais, algumas com o companheiro, então, como é possível arrendar uma casa para poder ter um filho se o salário mínimo nacional é um dos mais baixos da Europa, como é que podem comprar uma casa a prestações se nem os pais se disponibilizam para ser fiadores, como é que vão engravidar se depois passam meses em consultas hospitalares com uma espera de horas e horas e faltando ao trabalho, como é que podem engravidar se começam em pânico ao ouvir as notícias de que uma grávida teve o parto em casa sem apoio médico, numa ambulância, no carro particular do marido ou mesmo no chão da rua, como é que podem pensar em ter filhos se essas mesmas notícias que ouvem transmitem a sensação de dor e amargura porque ficam a saber que a maioria das urgências de Pediatria e Ginecologia – Obstetricia encontram-se encerradas e que as grávidas chegam a ser transportadas de ambulância numa distância de 200 e 300 quilómetros andando de hospital em hospital para encontrar uma urgência aberta. Alguns dirão que o Governo melhorou o serviço de atendimento do INEM e que as grávidas podem saber qual a urgência que está disponível. Pois, disponível a mais de 100 quilómetros. E não falemos em INEM. Se formos por aí, nem existem ambulâncias e respectivas macas que cheguem para socorrer a população. Ainda recentemente assistimos à morte de três portugueses por falta de socorro do INEM. De tal forma, o facto foi de extrema gravidade que os bombeiros voluntários decidiram colocar as suas ambulâncias ao dispor do INEM. Uma medida a merecer os melhores encómios a este acordo entre os bombeiros e o INEM, que salvou de imediato a vida de vários pacientes. Mas, claro, tinha de aparecer o “demónio”. Acto contínuo, uma Protecção Civil, que tem servido para disponibilizar “tachos” aos amigos dos governantes, veio logo a público deixar-nos de boca aberta. A Protecção Civil teve o desplante de manter uma posição contrária ao acordo entre os bombeiros voluntários e o INEM. Obviamente que os bombeiros mandaram a Protecção Civil cavar batatas e dar uma volta até às Berlengas…
Num panorama assim, como é que uma jovem pode pensar em engravidar sem receio, sem pânico, sem ansiedade? Não pode e, assim, chegamos ao ponto fulcral: a natalidade em Portugal tem de diminuir e cada vez mais se regista um número menor de mulheres grávidas. Conclusão: este país não é para grávidas.

19 Jan 2026

Depois da casa roubada, trancas à porta

Existe um velho ditado chinês que diz, “Não é tarde de demais para arranjar a cerca depois das ovelhas terem fugido”, que tem o mesmo sentido do nosso provérbio “Depois da casa roubada, trancas à porta”. Só depois de termos ficado sem os nossos bens, é que percebemos que temos de tomar medidas que possam impedir prejuízos futuros, mas que não permitem recuperar o que se perdeu.

O incêndio no Wang Fuk Court, um grande complexo habitacional no distrito de Tai Po, em Hong Kong, destruiu muitas vidas e muitas casas. O Governo de Hong Kong prestou imediatamente ajuda às vítimas, mandou inspeccionar rapidamente as redes que cobrem os andaimes de todos os edifícios que estão em manutenção na cidade e criou um Comité Independente para investigar as causas do incêndio no Wang Fuk Court. A Comissão Independente contra a Corrupção (ICAC sigla em inglês) e a Polícia também agiram prontamente, prendendo e acusando os responsáveis pelo fogo. As medidas que foram tomadas depois do acidente demonstram a grande preocupação das autoridades pelo sucedido. No entanto, se os diversos problemas originados pelos trabalhos de manutenção tivessem sido detectados mais cedo, ter-se-ia podido evitar o fogo? Embora apagar os incêndios seja necessário, preveni-los é mais importante. Enquanto vizinha de Hong Kong, Macau, embora não tenha sofrido nenhum incêndio devastador em 2025, tem muitos aspectos que precisam de ser melhorados.

A estabilidade e o desenvolvimento de uma sociedade são inseparáveis dos seus sistemas políticos e económicos. Depois da mudança do Chefe do Executivo da RAEM em 2024, a eleição para a Assembleia Legislativa em 2025 testemunhou pela segunda vez a desqualificação de candidatos, juntamente com a remodelação de dirigentes-chave. De acordo com a emenda à Lei “Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau”, “da decisão da CAEAL de que um candidato não possui a capacidade para ser candidato……, não cabe reclamação nem recurso contencioso”, os candidatos desqualificados não ficaram a saber as razões para ser considerado que “não defendem a Lei Básica ou que não são fiéis à Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China”.

Além disso, o facto de Cheong Weng Chon ter passado de Secretário para a Administração e Justiça a Presidente da VIII Assembleia Legislativa, estabeleceu um precedente para esta Assembleia. Estas acções tomadas pelo Governo da RAEM estabeleceram um precedente absoluto da predominância do poder executivo estabelecida pela Lei Básica para os próximos anos. A ausência de vozes dissidentes e a coordenação estreita entre os ramos executivo e legislativo têm a vantagem de unificar o pensamento e a acção, o que conduz a uma implementação mais fluida e eficiente das políticas e medidas adoptadas. Contudo, é preocupante que quando surgem problemas durante o processo de implementação, não existam vozes de oposição. E a melhoria da eficiência não garante bons resultados. Não devemos esperar pelos problemas para os resolver, pelo contrário, devemos perceber as causas dos problemas antes que ocorram. Depois de ver o relatório sobre o fogo em Hong Kong, torna-se óbvio que a tragédia podia ter sido evitada.

Os desafios que a diversificação da economia de Macau enfrenta são mais complexos do que as dificuldades com que se deparou durante a transformação ocorrida nos primeiros tempos após o regresso à soberania chinesa. Se apenas olharmos par o escalar do número de turistas, para o RNB per capita situado em 572.614 patacas e o PIB per capita em 579.533 patacas, em 2024, pensaremos que a economia de Macau deve estar florescente, sem lojas encerradas, com os residentes a desfrutarem de altos rendimentos e os restaurantes a abarrotar de clientes. É mesmo este o caso? Os responsáveis pela economia sabem a verdade, e os cidadãos conseguem ver a realidade claramente. O encerramento dos casinos- satélite era previsível, ao passo que a criação de distritos comerciais e cafés ao ar livre são apenas acontecimentos recentes. Tendências de consumo como as compras do lado de lá da fronteira e as compras online estão a ganhar grande popularidade, embora o Governo tenha tomado medidas de emergência como o “Grande prémio para o consumo nas zonas comunitárias” e os “Descontos para comer nos estabelecimentos de restauração em celebração do Regresso de Macau à Pátria”. Mas o que vem a seguir? Quando o planeamento prévio fica muito aquém do curso dos acontecimentos, e quando todas as críticas são silenciadas, o que resta é um profundo arrependimento. Um bom pastor não permite que uma só ovelha se extravie e a chave para impedir que se percam tem-na o pastor.

17 Jan 2026

Portugal e o Cenário Presidencial de 2026

“When societies feel unheard, they do not fall silent – they change the way they speak.” – Zygmunt Bauman

A 18 de Janeiro, Portugal encontra-se perante um dos momentos mais significativos da sua história democrática recente. O ciclo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, iniciado em 2016 e concluído este ano, encerra-se com a impossibilidade constitucional de recandidatura, abrindo espaço a uma disputa plural e inédita. A eleição presidencial, marcada para 18 de Janeiro, com eventual segunda volta prevista para 8 de Fevereiro, não é apenas um exercício democrático rotineiro; é um teste à maturidade institucional do país, à capacidade de renovação das elites políticas e à resiliência da sociedade portuguesa perante os desafios globais. O sistema semipresidencialista português, consagrado na Constituição de 1976, atribui ao Presidente da República funções moderadoras, mas com poderes relevantes em momentos de crise, como a dissolução da Assembleia da República ou a nomeação do Primeiro-Ministro.

Desde a Revolução de 25 Abril de 1974, todos os presidentes cumpriram dois mandatos consecutivos, e a impossibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa se recandidatar abre espaço a uma competição original. A presidência portuguesa tem sido marcada por figuras que simbolizam diferentes fases da democracia com Ramalho Eanes como militar fundador da estabilidade pós-revolucionária, Mário Soares como europeísta e defensor da integração, Jorge Sampaio como moderador social, Cavaco Silva como economista liberal e Marcelo como comunicador empático. A sucessão de 2026 insere-se nesta linha histórica, mas com características próprias, como a ausência de incumbente, a fragmentação partidária e a emergência de novos actores políticos.

Entre os candidatos destacam-se figuras de diferentes quadrantes políticos e sociais. Luís Marques Mendes, pelo PSD, representa a continuidade institucional e a ligação ao centro-direita tradicional. António José Seguro, pelo PS, aposta na coesão social e na defesa dos valores de Abril. Henrique Gouveia e Melo, independente, surge como candidato com forte apelo popular e imagem de competência técnica, fruto da liderança na campanha de vacinação contra a COVID-19. André Ventura, pelo Chega, aposta num discurso securitário e nacionalista, procurando capitalizar o descontentamento social. João Cotrim de Figueiredo, pela Iniciativa Liberal, defende a redução do peso do Estado e a liberalização económica. Catarina Martins, pelo Bloco de Esquerda, centra-se na justiça social e nos direitos humanos.

Esta pluralidade reflecte uma sociedade mais diversificada, mas também mais polarizada. As sondagens sugerem que nenhum candidato deverá alcançar maioria absoluta na primeira volta, tornando provável uma segunda volta entre dois candidatos de blocos distintos. Portugal entra em 2026 com uma economia marcada pela recuperação pós-pandemia, mas também por desafios estruturais, como a baixa produtividade, o envelhecimento demográfico e a dependência energética. O turismo continua a ser o motor económico, mas enfrenta pressões de sustentabilidade e necessidade de diversificação. A transição digital e ecológica é imperativa, exigindo políticas públicas consistentes e investimento em inovação.

Socialmente, o país vive tensões entre a valorização dos serviços públicos e a pressão fiscal, entre a integração europeia e o ressurgimento de discursos nacionalistas. O envelhecimento da população coloca desafios à sustentabilidade da segurança social e à coesão intergeracional. A desigualdade social, embora mitigada por políticas redistributivas, continua a ser preocupação central. A presidência, embora não detenha competências executivas, pode desempenhar um papel simbólico e mobilizador, influenciando agendas e promovendo consensos. A cultura portuguesa, profundamente enraizada na memória histórica e na projecção lusófona, desempenha um papel central na afirmação internacional.

A presidência simboliza a continuidade de valores republicanos e democráticos, sendo o Presidente visto como garante da estabilidade e da unidade nacional. A pluralidade de candidatos reflecte diferentes visões sobre identidade nacional, desde a defesa de Abril à retórica securitária, da empatia social à tecnocracia institucional. A diversidade cultural portuguesa, marcada pela coexistência de tradições locais e pela abertura ao mundo, encontra na presidência um espaço de representação simbólica. A eleição de 2026 será também um momento de afirmação identitária, em que se debatem valores como solidariedade, liberdade e pertença europeia. Portugal mantém-se como membro activo da União Europeia, participando nos debates sobre integração económica, transição energética e defesa comum.

A presidência de 2026 será crucial para garantir estabilidade diplomática num contexto global de tensões geopolíticas. A escolha de um presidente com perfil conciliador ou mais interventivo poderá influenciar a percepção externa do país. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa continua a ser espaço privilegiado de afirmação internacional, reforçando laços históricos e culturais. A pertença à NATO garante segurança estratégica, mas também implica responsabilidades em contextos de tensão geopolítica. Portugal, pela sua posição atlântica e lusófona, desempenha papel de ponte entre continentes e culturas, e a presidência simboliza essa vocação internacional. O Presidente é visto como garante do equilíbrio e da unidade nacional, sobretudo em momentos de crise. Para além das competências formais, a presidência possui uma dimensão simbólica, representando valores e identidades colectivas.

A filosofia da presidência portuguesa assenta na ideia de que o Presidente deve ser árbitro e moderador, mas também inspirador e mobilizador. A eleição de 2026 coloca em debate diferentes concepções do cargo com uma presidência mais interventiva, centrada na autoridade moral, ou uma presidência mais discreta, focada na mediação institucional. Esta reflexão filosófica é essencial para compreender o significado da eleição. As sondagens disponíveis até 13 de Janeiro de 2026 continuam a mostrar uma corrida presidencial portuguesa extremamente competitiva e fragmentada, marcada pela ausência de um favorito claro e pela persistência de um elevado número de indecisos. O panorama mais recente revela uma recomposição significativa no grupo da frente em que António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo surgem agora como os candidatos com maior dinamismo, enquanto André Ventura e Henrique Gouveia e Melo registam ligeiras quebras e Luís Marques Mendes desce para o quinto lugar, com valores que oscilam entre cerca de 15% e 17%, afastandose da disputa imediata pela passagem à segunda volta.

António José Seguro beneficia de uma tendência de crescimento contínuo desde o final de 2025, apoiado por um perfil percebido como estável e institucional. João Cotrim de Figueiredo, por sua vez, consolidou uma trajectória ascendente que o aproximou do núcleo dos principais candidatos, reforçando o seu apelo entre eleitores jovens, urbanos e liberais. André Ventura mantém um núcleo duro de apoio expressivo, mas continua a enfrentar dificuldades em alargar a sua base eleitoral, surgindo sistematicamente fragilizado nos cenários de segunda volta. Henrique Gouveia e Melo preserva um capital relevante de confiança pública, embora tenha perdido algum fôlego nas últimas semanas, reflectindo um ambiente político mais volátil e competitivo. Luís Marques Mendes, que chegou a liderar intenções de voto no final de 2025, enfrenta agora uma quebra consistente que o coloca fora do grupo mais competitivo, ilustrando a sensibilidade do eleitorado a movimentos de última hora e a reposicionamentos estratégicos.

O quadro geral permanece marcado pela coexistência de perfis muito distintos com candidatos independentes com forte reputação pública, figuras com longa experiência partidária e protagonistas de discursos mais populistas e securitários. Esta diversidade reflecte um eleitorado dividido entre a procura de estabilidade institucional, a valorização da competência técnica e o desejo de renovação política. A presença continuada de Ventura no grupo da frente, mesmo com fracas hipóteses de vitória numa segunda volta, confirma a consolidação de um discurso contestatário que encontrou espaço na sociedade portuguesa. Em paralelo, o crescimento de Cotrim de Figueiredo evidencia a procura de alternativas liberais e reformistas, enquanto a recuperação parcial de Seguro demonstra a relevância de perfis moderados num contexto de incerteza.

As candidaturas com menor probabilidade de alcançar a segunda volta como Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto ou Manuel João Vieira continuam a desempenhar um papel importante na pluralidade do debate, representando agendas específicas e contribuindo para a vitalidade democrática do processo. No seu conjunto, as tendências até 13 de Janeiro de 2026 revelam um país em reflexão profunda sobre o tipo de liderança que deseja para a próxima década. Entre tradição e inovação, continuidade e mudança, integração europeia e afirmação nacional, o futuro Presidente será chamado a preservar os valores republicanos e democráticos, interpretar as expectativas de uma sociedade em transformação e oferecer uma visão capaz de unir diferentes sensibilidades num contexto global cada vez mais exigente. Estas sondagens colocam André Ventura num intervalo aproximado entre 19,5% e 20% das intenções de voto na primeira volta das eleições presidenciais.

A partir destes valores, é possível projectar o número de votos que poderá alcançar em diferentes cenários de participação eleitoral. Se a afluência às urnas for semelhante à das últimas presidenciais, com cerca de 4,2 milhões de votantes, Ventura deverá situarse entre aproximadamente 820 mil e 840 mil votos, permanecendo abaixo da fasquia simbólica de um milhão de votos neste cenário de participação mais reduzida. Caso a participação se aproxime da registada nas legislativas de 2024, em torno de 6,5 milhões de votantes, o mesmo intervalo percentual traduzirseia num total entre cerca de 1,26 milhões e 1,30 milhões de votos, valor ainda assim inferior ao patamar alcançado pela AD nas legislativas. Nos cenários de segunda volta, as sondagens colocam Ventura num intervalo entre 25% e 29%. Aplicando estes valores a uma participação semelhante à das presidenciais, o candidato poderá obter entre cerca de 1,05 milhões e 1,22 milhões de votos.

Se a afluência for comparável à das legislativas, o intervalo projectado sobe para valores entre aproximadamente 1,62 milhões e 1,88 milhões de votos. Uma votação tão expressiva num candidato com este perfil é frequentemente entendida como o reflexo de tensões sociais acumuladas ao longo do tempo. Revela um sentimento de insatisfação com o funcionamento das instituições, a percepção de desigualdades persistentes e a ideia de que questões como segurança, justiça, custo de vida, imigração ou a qualidade dos serviços públicos não têm recebido respostas eficazes. Ao mesmo tempo, o crescimento de discursos mais directos e confrontacionais mostra que uma parte significativa do eleitorado procura linguagem simples, posições firmes e uma atitude de desafio perante o sistema político tradicional, mesmo que isso acentue divisões.

Este fenómeno também evidencia a fragmentação do sistema partidário, com menos fidelidade aos partidos tradicionais e maior abertura a alternativas que rompem com o padrão habitual. Tal dinâmica altera equilíbrios, estratégias e até a forma como as campanhas são conduzidas. Contudo, mesmo com uma votação elevada, subsistem limites claros à capacidade de transformar notoriedade em maioria, o que indica resistência noutros sectores da sociedade e contribui para um ambiente político mais polarizado, mas não necessariamente dominado por um único bloco. Para o sistema político, um resultado deste tipo funciona como um aviso. Mostra que há grupos que se sentem excluídos, políticas que não estão a corresponder às expectativas e percepções de injustiça ou insegurança que permanecem sem resposta convincente.

Este sinal obriga os partidos tradicionais a repensar prioridades, a ajustar a forma como comunicam e a reforçar a proximidade com diferentes segmentos da população. Por fim, este movimento inserese numa tendência mais ampla observada em vários países europeus, onde candidatos com discursos semelhantes têm ganho espaço. Muitos analistas interpretam este fenómeno como consequência de transformações culturais, económicas e tecnológicas que estão a alterar profundamente a relação das pessoas com a política e com as instituições democráticas.

15 Jan 2026

Mia Soave!…

Poemas há que precisamos deles de forma total. Quem não sabe lembrar nenhum em tempos especiais e adaptá-lo à sua situação padece de um recurso que não é passível de ser substituído por nenhuma outra competência. Sem poema aprendido estamos despojados de humanidade perante os bravios golpes do destino, a nossa composição neuronal não tem ligações e tudo se desalinha de forma imprecisa. Nós estamos no estertor olhando a morte daqueles que vimos nascer, a nossa dor imensa não necessita de psicólogos, padres, mentores, gurus, só necessitamos de algo que venha em nossa direção e que possamos agradecer aos céus por termos tido dela conhecimento. O poema.

Na madrugada agonizante um poema se solta como ave bem-dita na despedida:« – Mia Suave..- Ave?! … Almeia?!… Mariposa Azul… Transe!… » e assim dissemos adeus na fronteira entre morte e vida onde o som do poema ressoava na noite telepática «Não dói por Ti Meu Peito…/ Mia Soave…- Ave! – Almeia!…» E a alma lustral ainda em ferida foi capaz de soletrar canções dos velhos anjos, e suavizar passagens, contornar o asfalto da falta grave de um amado ser. É um poema de Ângelo de Lima que o dedicou a seus amigos do Orpheu introduzindo uma tal eloquência que somente em situações sagradas o lembramos, mas são as coisas que nos lembram e se cruzam no efeito certo dos propósitos, e grande é o poeta que nos abençoa e encaminha em momentos tão derradeiros.

Poderemos dizer: que poema é este? É um poema. Parece um poema concreto feito de significados aleatórios que visam quebrar a monotonia das frases feitas do sentir, da sua métrica sequencial, do seu propósito canónico, e por isso estar distante e esquecido do terreiro das coisas dadas nesta matéria, que por outro lado é o mais belo poema da língua portuguesa do século vinte sem apelo nem anotação no marasmo das descrições de todo o género que não chegam a bálsamo nos instantes vitais.

É com um misto de surpresa e encantamento que uma coisa assim nos acontece, é uma iniciação. Ângelo de Lima foi barbaramente assassinado nos corredores das psicanálises e pareceres psiquiátricos de então, a sua obra nem chegou a ganhar fôlego nas correntes literárias, mas quando nos visita, tudo muda.

«– Do Ocaso pela Epopeia… Dorto… Stringe… O Corpo Elance… Vai À Campa… – Il C´or descanse…- Mia Soave… – Ave!… – Almeia!…»

Este poema está cheio de luz e de lágrimas, só quem o conhece é por ele visitado na hora grave de uma despedida. Ele canta mais do que soletra, ele é mais poema que coisa escrita, ele afaga, enobrece e enaltece, e quando tudo se turva de amor desfeito ele dá-nos ainda o bálsamo dos grandes mistérios.

Mia Soave, meu Amor « – Não dói Por Ti Meu Peito…/ Não Choro no Orar Ciclo…/ Em Profano…- Edd´ora…Eleito!…» A madrugada ia avançando, a lua alta estava, e um poema visitava a curva da despedida como um cântico de amor e morte, mas surpreendentemente numa esperança futura que não sabe ainda onde irá de novo nascer.

Um mantra assim pode levar-nos a pensar que o sopro que dali vem salva a nossa alma para sempre, dando àquela que parte uma dimensão até então desconhecida, e aos que ficam a certeza que só a grande, grande poesia, salva os seres e os distingue. E este é um grande poema. Transfigurador, milagroso, belíssimo. O que vem dizer sequencialmente é um desafio. Que nada diz coisa nenhuma se a palavra não tiver a dimensão que aqui nos traz.

14 Jan 2026