Mais vale ser do que parecer

Todos os anos, a época de exames decorre entre Maio e Julho. Quer seja no ensino privado quer seja no público, trata-se do período em que os estudantes têm oportunidade de demonstrar os seus conhecimentos. Devido às diferenças de aptidões, capacidade de trabalho e antecedentes familiares dos alunos, os resultados que cada um obtém variam entre si. Independentemente disso, as notas têm um peso determinante nesta fase da vida de um estudante.

Se um aluno tiver notas excelentes, pode continuar os estudos sem qualquer problema e o mercado de trabalho dá-lhe prioridade; Alunos com alto desempenho têm uma vantagem inicial. Os alunos com notas baixas precisam de decidir se repetem o ano ou abandonam a escola para procurar trabalho e seguir outro caminho. Qualquer destas possibilidades é válida.

No entanto, o futuro dos estudantes que obtêm boas notas fazendo “batota” é uma questão completamente diferente.

Quando navegamos na internet, não é difícil perceber que, com o crescimento da inteligência artificial (IA) nos últimos anos, as ferramentas que permitem defraudar os exames estão a tornar-se cada vez mais sofisticadas. Os smartglasses e os smartwatches tornaram-se uma das ferramentas mais comuns para este fim. Com os smartglasses, os alunos, se baixarem a cabeça, passam as perguntas para a IA que lhes responde de imediato, permitindo-lhes copiar facilmente as respostas para as folhas de exame e conseguir notas elevadas. Defraudar com os smartwatches funciona basicamente da mesma forma. Um outro método de “batota” mais tradicional é as cábulas. As informações mais importantes são escritas em pedaços de papel que os alunos escondem nos bolsos e depois são consultados e os conteúdos são copiados quando necessário. Comparadas com os smartglasses e os smartwatches, as cábulas ficam muito mais baratas.

Embora os professores apanhem alguns alunos a copiar, na verdade enfrentam várias limitações para manter a seriedade e a justiça nos exames. Uma das maiores dificuldades é a recolha de provas. Quando usam estes dispositivos, os alunos costumam ligar o ecrã, mas um simples toque de botão bloqueia-o instantaneamente, tornando-o preto. Devido a preocupações de privacidade, os professores não podem obrigar os alunos a voltar a ligar os ecrãs. Sem poder aceder-lhes, os professores não têm provas suficientes de que o aluno tenha copiado durante o exame. Embora a maioria das regras estipule que não se pode trazer dispositivos electrónicos para a sala de exame, a medida tem uma eficácia limitada. Isto porque levar um dispositivo electrónico para a sala de exame não é o mesmo que usá-lo. Os alunos podem argumentar que foi involuntário, que se esqueceram de o deixar lá fora e que por isso o trouxeram para a sala de exame. Se não o usarem, não há fraude.

A situação das cábulas é ainda mais complicada. Se um professor perceber que um estudante está a usar uma cábula e não lha conseguir tirar de imediato, o faltoso pode pô-la na boca e engoli-la, eliminando assim a prova do delito. A única coisa que o professor pode fazer é lançar um suspiro de desespero.

As escolas não são tribunais. Ao lidar com estas questões, os professores muitas vezes têm de passar muito tempo a explicar as regras aos alunos. Como as regras lhes são desfavoráveis, têm dificuldades em aceitá-las. Se os pais apoiarem os filhos e considerarem que as regras da escola são irrazoáveis, a regra que proíbe dispositivos electrónicos na sala de exame dificilmente funcionará como pretendido.

“Batoteiro” é um estudante que usa meios ilegais para obter melhores notas. Na essência, este método ilegal demonstra uma vontade de não olhar a meios para alcançar bons resultados, reflectindo a falta de carácter do batoteiro; e as consequências são graves. Se adoecesse, pediria a um médico que fez batota no exame para o tratar? Se precisasse de um advogado para o defender em tribunal, contrataria alguém que copiou nos exames? As respostas são evidentes.

Os estudantes que copiam nos exames são pouco íntegros e tendem a desenvolver uma mentalidade oportunista, o que prejudica a sua conduta pessoal a longo prazo. Devem parar imediatamente estes comportamentos e arrepender-se completamente. Talvez as suas notas não sejam hoje as ideais, mas com os valores certos, podem certamente encontrar uum outro caminho. Bao Zheng (包拯), o famoso juiz da China antiga, não foi um erudito de topo, mas graças aos seus próprios esforços tornou-se um juiz de renome (包青天). Han Yu (韓愈), um dos Oito Grandes Mestres das Dinastias Tang e Song (唐宋八大家), não era um grande estudioso, mas o seu talento literário era reconhecido em todo o país. Pu Songling (蒲松齡), um escritor da Dinastia Qing (清代), reprovou várias vezes nos exames imperiais, mas graças aos seus próprios esforços, escreveu com sucesso o romance clássico e intemporal “Contos Estranhos de um Estúdio Chinês” (聊齋誌異). Estes indivíduos, embora não fossem estudiosos de grande gabarito, alcançaram vidas plenas e fama generalizada ao traçarem os seus próprios caminhos.

A sociedade valoriza muito as notas, a competição feroz pelo ensino superior e um padrão único de avaliação agravam a necessidade de os alunos copiarem nos exames. Estes factores não podem ser resolvidos apenas pelas escolas. Além disso, inúmeras lacunas na monitorização dos exames levam alguns estudantes a subestimar as consequências da fraude e a ignorar as questões morais subjacentes. Estes problemas exigem o esforço conjunto da sociedade, dos pais, das escolas e dos alunos para serem resolvidos.

A sociedade actual é muito mais complexa do que as sociedades antigas, oferecendo aos estudantes mais opções. Em vez de se focarem nas notas dos exames, os alunos devem explorar várias vias. Antes de decidirem um caminho, os estudantes devem experimentar coisas diferentes e não deixar que um único exame determine o seu sucesso. Com os valores certos, há sempre caminhos para trilhar, e cada aluno acabará por encontrar o seu. Esta é a via ideal, muito preferível a tirar boas notas porque se fez batota nos exames e também tornará a vida mais gratificante.

14 Jul 2026

ai, portugal, portugal

O nosso país pretende ser uma cidade, mas é uma aldeia. Pretende ser do primeiro, mas é do terceiro mundo. Com uma agravante: é um país ao Deus dará.

Os incêndios voltaram mais uma vez, mal chegou o calor. Com gravidade. Fogos que se iniciaram às três horas da madrugada. Obviamente pela mão de pirómanos que o tribunal se encarrega de enviar em liberdade. Com bombeiros feridos. Com casas queimadas. Com moradores sem dormir vários dias. Com o rendimento de uma horta, de um rebanho ou de uma vindima que desaparece de um dia para o outro. E ao Deus dará porque o primeiro-ministro ao mesmo tempo que o país estava em tragédia governava a partir de uma qualquer bancada de um estádio de futebol norte-americano.

Na Costa da Caparica os habitantes já desesperam há anos com a falta de água. A Câmara Municipal de Almada socialista está debaixo dos maiores protestos e revolta da população. As pessoas não têm água para beber, para tomar banho, para cozinhar. Os restaurantes fecham os WC e as portas devido à falta de água. As escolas e infantários encerram porque não há água. O centro de Saúde suspendeu as consultas e tratamentos médicos por falta de água. E isto, não é terceiro mundo? Para a presidente da Câmara de Almada parece que nada se passa no Concelho. Nem responde às várias associações de moradores, nem a certas perguntas pertinentes dos jornalistas. Sem dúvida, uma Câmara ao Deus dará. Pela falta de água a política já está em guerra. Para a edil almadense a culpa é do Governo. Para o Governo a culpa total é da presidente da Câmara de Almada. Esta discussão dá vómitos porque a solução do problema não existe de nenhuma das partes.

Em Viana do Castelo a decisão camarária brada aos céus. A edilidade decidiu que nas freguesias a luz eléctrica pública fosse desligada entre as 3:00 e as 5:00 horas. Aldeias totalmente às escuras. Os moradores estão revoltadíssimos. O perigo de assaltos é constante e a possibilidade de violência contra quem regressa do trabalho por turnos é uma possibilidade que amedronta quantos vivem essa situação. Ao estilo de terceiro mundo, a edilidade justifica esta medida absurda como a poupança de energia. Então, para que serviu a poluição das montanhas com os monstruosos geradores eólicos justificados que resultaria em energia “á farta” para todo o país. Geradores eólicos que daqui a 20 anos ficarão abandonados pela paisagem como lixo ao Deus dará. Não lembrava nem ao diabo cortar a electricidade pública a milhares de pessoas. Não é um fenómeno do Entroncamento… mas sim de Viana do Castelo.

Outro fenómeno triste, é o que se passa na Carris Metropolitana, uma marca que unifica os transportes públicos rodoviários da Área Metropolitana de Lisboa. Gerida pela empresa Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) que abrange 18 municípios. Esta TML também parece andar ao Deus dará quando coloca uma “miúda” de 28 anos sem qualquer experiência a conduzir um autocarro cheio com cerca de 30 vidas e que troca os pedais. Bem, os pedais de uma viatura automática. Apenas tem dois pedais. Um, para acelerar e outro para travar. E a motorista acelerou em vez de travar e foi matar duas pessoas e ferir cerca de 20, inocentes que estavam na paragem do autocarro a aguardar a ida para o trabalho. Se um veículo automático é conduzido desta forma, imaginamos o que serão estes tipos de motoristas a conduzir um carro manual com três pedais, embraiagem, travão e acelerador…

Mas a TML está a ser criticada por colocar na zona de Sintra, nas estradas estreitas de Colares, Praia Grande, Praia das Maças, Azenhas do Mar, Fontanelas e outras terras, autocarros enormes de 40 passageiros quando nunca transportaram mais de 10 utentes e que podiam colocar ao serviço apenas autocarros de dimensão menor. Esses autocarros da Carris Metropolitana rolam a velocidade excessiva, em estradas que em alguns locais não cabem dois carros ligeiros. Esses autocarros têm motoristas irresponsáveis e desumanos. Crianças que se encontrem na paragem e que fazem sinal para parar, os funcionários da TML limitam-se a não parar para poderem cumprir o horário. Vergonhoso e desumano, foi o que se passou numa paragem entre Colares e a Praia das Maças. Uma criança de 12 anos foi na sua pequena bicicleta para uma explicação escolar. No regresso a casa, um pneu da bicla furou. A criança foi para a paragem do autocarro da Carris Metropolitana e pediu ao motorista que a deixasse entrar com a sua bicla que furou um pneu, já que a sua casa era apenas em duas paragens à frente. O “simpático” motorista respondeu à criança: “Vai a pé!”.

Na Educação é que o país está mesmo ao Deus dará. O atraso nas correções dos exames tem promovido protestos por todo o lado de professores, alunos e seus pais. Pedem a demissão do ministro e os manifestantes afirmam que “a incompetência nesta área é total”.

Ao Deus dará continua a área da Saúde. Um cidadão dirigiu-se para o hospital de Portalegre e queixou-se de fortes dores no peito. A triagem entregou-lhe a pulseira verde (a de menos importância) e o homem passado um pouco de tempo morreu.

Tudo isto, revolta cada vez mais as populações.

O país tem mesmo que estar ao Deus dará, porque muitos portugueses que ficaram sem nada nas tempestades de Janeiro, em Leiria e Marinha Grande, ainda não receberam as indemnizações prometidas…

13 Jul 2026

Uma cidade dilacerada e uma cidade de harmonia

O filósofo francês René Descartes disse certa vez: “cogito, ergo sum (Penso, logo existo)”. Na sociedade actual, para viver uma vida plena e com significado, a reflexão e a aprendizagem constantes são absolutamente essenciais e os livros podem ser considerados a minha segunda escola. Recentemente, deparei-me com um livro publicado pela Chung Hwa Book (Hong Kong) Co. Ltd., intitulado “Uma Cidade Dilacerada: Mistérios e Pensamentos do Movimento de Hong Kong《撕裂之城:香港運動的謎與思》”, que achei uma referência valiosa.

O livro compila artigos de opinião do autor Ren Yi (conhecido pelo pseudónimo online de Chairman Rabbit) sobre a movimentação política em Hong Kong em 2019, analisando e explorando, a partir da sua própria perspectiva, as causas mais profundas do caos. O autor acredita que a revolta foi espoletada pelo Projecto de Alteração à Lei da Extradição de 2019, mas o Governo da RAE de Hong Kong, carecendo de sensibilidade política, consciência e competência, não percebeu, não deu respostas nem apaziguou a desconfiança e o mal-estar do público ao longo do processo de implementação do Projecto de Lei (de Alteração), permitindo que as oposições o usassem como oportunidade para avançar com os seus ideais políticos.

Em relação à ordem pública, o autor analisa as razões que levaram a intensas e prolongadas operações policiais ao longo da agitação social que durou vários meses, argumentando que a causa reside no próprio Governo da RAE de Hong Kong. Questiona se os incidentes de “21 de Julho de 2019” e “31 de Agosto de 2019” teriam ocorrido se os problemas tivessem sido resolvidos mais cedo. Acredita que a promulgação e implementação da Lei de Segurança Nacional de Hong Kong (Lei da República Popular da China sobre a Salvaguarda da Segurança Nacional na RAE de Hong Kong) foi visionária e bem ponderada, demonstrando a determinação do Governo central, bem como a sua atitude responsável perante a história e o seu povo. No entanto, também salienta que “a Lei de Segurança Nacional pode resolver conflitos e salvaguardar os fundamentos de “Um País”, mas não pode ajudar o povo de Hong Kong a tornar-se mais patriótico, o que seria outra questão”.

O livro, publicado em Julho de 2020, não aborda a situação em Hong Kong após a promulgação da Lei de Segurança Nacional e a promulgação da versão local desta legislação (Decreto de Salvaguarda da Segurança Nacional) que proíbe actos que ponham em perigo a segurança nacional, conforme estipulado no Artigo 23 da Lei Básica de Hong Kong. Não consigo encontrar nenhuma obra posterior do autor nas livrarias. Como consertar uma sociedade dilacerada e torná-la harmoniosa, é uma preocupação e uma aspiração partilhada por todos. E a China continental oferece algumas orientações valiosas para construir uma sociedade harmoniosa.

Em Outubro de 2006, a Sexta Sessão Plenária do 16.º Comité Central do PCC adoptou a “Resolução sobre Questões Principais Relativas à Construção de uma Sociedade Socialista Harmoniosa”. Uma sociedade socialista harmoniosa deve ser democrática e governada pela lei, justa e equitativa, confiável e fraterna, cheia de vitalidade, estável e ordenada, e mantendo a harmonia entre o homem e a natureza. Estas características fundamentais de uma sociedade socialista harmoniosa estão interligadas, reforçam-se mutuamente e precisam de ser plenamente compreendidas e reflectidas no processo de construção de uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos.

Macau e Hong Kong são ambas Regiões Administrativas Especiais, e as suas Leis Básicas são em grande parte semelhantes. O artigo 25 do Capítulo 3 da Lei Básica de Macau, relativo aos Direitos e Deveres Fundamentais dos Residentes, é mais detalhado do que o de Hong Kong, e estipula: “Os residentes de Macau são iguais perante a lei, sem discriminação com base na nacionalidade, ascendência, raça, sexo, língua, religião, crenças políticas ou ideológicas, educação e situação económica ou condição social”.

Embora já em 2009 Macau tenha promulgado a sua própria legislação para proibir actos possam pôr em risco a segurança nacional e não tenha experienciado um movimento social semelhante ao de Hong Kong de 2019, foi ainda assim afectada pelos movimentos que ocorreram naquela cidade, o que resultou na desqualificação de candidatos às eleições para a Assembleia Legislativa em 2021 e 2025. Quanto ao primeiro caso de detenção em Macau por motivos de segurança nacional, está actualmente pendente de julgamento sem actualizações devido ao princípio do segredo de justiça. Acredito que todos ficariam satisfeitos por ver Hong Kong e Macau a incorporar o conceito de “Cidades da Harmonia”, e o que mais espero é comprar nas livrarias outra obra de Ren Yi, cujo título gostaria que fosse “A Cidade da Harmonia: Testemunha do Avanço de Hong Kong da Estabilidade para a Prosperidade”.

12 Jul 2026

O umbral da desordem mundial (II)

“Great empires are not maintained by timidity.” Tacitus.

Fala‑se muito da “defesa em mosaico”, que, ao descentralizar os comandos, permite ao Pasdaran, Basiji e militares das Forças Armadas regulares (Artesh) manterem‑se operacionais apesar da sucessão de assassinatos na liderança político‑militar. Menos divulgado, mas igualmente importante, é o aspecto económico‑industrial dessa estratégia. Nas primeiras fases da guerra, o presidente Masoud Pezeshkian delegou autoridade às províncias e simplificou os procedimentos administrativos, facilitando, entre outras coisas, a importação de mercadorias que favoreceu o comércio terrestre, compensando parcialmente o semi‑encerramento de Hormuz. O Irão importa, através desse estreito, parte do trigo, óleo vegetal e arroz que consome, além de quase toda a soja. O abastecimento provinha sobretudo de portos do Golfo, que foram alvo de represálias iranianas. Entre as rotas alternativas figuram ligações ferroviárias com a China a norte e portos secundários como Chabahar, no sul, embora com capacidade limitada.

Apesar disso, os alimentos incluindo os frescos permaneceram abundantes e, ao contrário dos meses anteriores, relativamente estáveis nos preços, graças ao isolamento do rial. O racionamento do petróleo evitou a escassez após os ataques aos centros de armazenamento que escureceram o céu da capital. O Estado, principal empregador do país, continuou a pagar salários. A República Islâmica mostrou‑se economicamente preparada para a guerra, embora pagando um preço elevadíssimo. Tal como aconteceu com a Rússia após a invasão da Ucrânia, confundiram‑se as dimensões modestas da economia com a sua tenacidade, que lhe permite sustentar uma guerra de desgaste. A situação é diferente para a economia mundial que é um mecanismo muito maior, mas também mais complexo e, por isso, frágil.

Os países árabes do Golfo são nós cruciais na produção global de fertilizantes azotados, essenciais para a agricultura industrial. Quando a cadeia do azoto se interrompe, os efeitos acumulam‑se nos solos e influenciam durante meses as decisões de plantação. As previsões de rendimento das colheitas de milho estão a ser revistas em baixa, dado que muitos agricultores optarão pela soja, que exige menos azoto. A este cenário soma‑se a guerra na Ucrânia. A Rússia e Ucrânia produzem cerca de um quarto do trigo mundial, e quase quinhentas mil pessoas, sobretudo em África e no Médio Oriente, sofrem choques alimentares devido a esse conflito. Com o agravamento climático, o Corno de África encontra‑se há muito à beira da fome.

Os principais importadores de cereais, como o Egipto, têm reservas para apenas alguns meses. Aumentos de 30-40% nos preços dos alimentos básicos estão historicamente associados ao crescimento da instabilidade política nos 6 a 18 meses seguintes, como ocorreu amplamente durante as chamadas primaveras árabes.

Há ainda consequências de médio e longo prazo. É cedo para avaliar o impacto da guerra contra o Irão sobre o poder económico‑financeiro dos Estados Unidos, mas alguns efeitos estruturais delineiam-se. Dois, em particular. Primeiro, embora a evidência imediata possa sugerir o contrário, a desdolarização tende a continuar, se não a intensificar‑se. A valorização do dólar nas primeiras semanas de guerra ecoa a sua função tradicional de refúgio. Mas muitos vêem nesta corrida ao dólar não tanto como uma busca de segurança, mas como uma postura de neutralidade. Depois de terem investido massivamente em ouro, em detrimento do dólar, os agentes económicos regressam parcialmente a um activo líquido e abundante, para retomarem distância assim que possível de uma moeda e de um país não vistos como totalmente fiáveis.

Segundo, a China, aconteça o que acontecer, saiu vencedora. Uma guerra longa e dispendiosa que deixe o Médio Oriente ainda mais inseguro corrói a capacidade de dissuasão dos Estados Unidos isto é, a confiança dos aliados na protecção de Washington e o receio dos adversários em desafiá‑la. Tal implica, entre outras coisas, uma corrida generalizada ao armamento e à diversificação energética. Esta última não é apenas um esforço ecológico, mas sobretudo um instrumento de redução de risco, seguindo o modelo chinês das últimas três décadas, que levou o país a gerar hoje um terço da electricidade mundial proveniente de fontes renováveis.

Tudo isto exige matérias‑primas críticas, o que significa sobretudo aço e electrónica, portanto terras e metais raros, mas também gás e outros precursores necessários à produção de chips. A China controla actualmente mais de 70% da capacidade manufactureira associada a estes sectores como o solar, eólico, baterias e componentes químicos. Com cerca de 1,3 mil milhões de barris de petróleo acumulados em reservas estratégicas, é também o único país capaz, no curto e médio prazo, de estabilizar o mercado petrolífero, além de ser exportador líquido de refinados e o segundo maior exportador mundial de fertilizantes. Possui ainda vastas reservas de enxofre, essencial para fertilizantes e metalurgia, e reduziu a dependência do Golfo em relação ao hélio, crucial para semicondutores, graças a descobertas recentes de jazidas internas.

Para muitos outros países, especialmente os europeus, prevê‑se um aumento das dependências de bens críticos, bem como uma inflação persistente no sector energético e nas matérias‑primas em geral, com inevitáveis repercussões na indústria e nas limitadas margens fiscais dos seus orçamentos endividados. No Golfo trava‑se hoje uma guerra assimétrica. Assimétrica porque opõe o Irão que é um Estado organizado e detentor do monopólio da violência a uma América errática e sem estratégia, que visa exclusivamente destruir. E servir Israel, ou melhor, os seus impulsos autodestrutivos. O Estado iraniano longe de poder ser reduzido ao regime geriu com relativo sucesso as tentativas israelo‑americanas de decapitação, reorganizando rapidamente a cadeia de comando graças a planos preparados há décadas, mas aperfeiçoados recentemente através do estudo das tácticas usadas por Washington e Telavive contra os seus aliados regionais.

Apesar da amputação do seu corredor estratégico, agora reduzido ao eixo Bagdade‑Teerão‑Herat com a extensão libanesa do Hezbollah demasiado cedo dada como destruída, o Irão permanece nas mãos dos Pasdaran. Pior ainda, das suas facções mais radicais. Os Estados Unidos e Israel estão, de facto, a impor uma mudança interna do regime. À liderança contrária ao confronto total, eliminada pelos assassinatos cirúrgicos, sucede uma constelação em recomposição, convencida de lutar pela vida ou morte. Com todos os meios ao seu dispor. Se o Estado não for destruído e se as negociações com os Estados Unidos não lhe oferecerem garantias absolutas (e como confiar, depois de tudo?), qualquer futura liderança iraniana acelerará a corrida à Bomba. Com esta guerra, Washington está a fazer a si aquilo que pretendia fazer a Teerão. E está a revelar‑se aquilo que acreditava ser o Irão; um “tigre de papel” (Trump), absolutamente “incapaz de raciocinar” (Rubio). Assim, na Casa Branca resta confiar nas orações. Da exportação da democracia à importação da teocracia?

A operação Epic Fury configura‑se como a hegeliana “fúria do desaparecer” de um mau infinito de violência sem síntese, que expõe a profundidade da crise estrutural americana. Uma crise enrolada em três factores de fragilidade, encadeados e orientados para a rápida dissipação de uma potência que não é super. O primeiro é estritamente militar. Desde 28 de Fevereiro, os americanos têm esvaziado os seus arsenais a um ritmo paroxístico. Análises informadas sugerem que, em breve, poderão ficar sem mísseis balísticos de precisão e sem sistemas capazes de interceptar projécteis iranianos. No primeiro mês de combates, a Marinha dos Estados Unidos terá lançado mais de 850 mísseis Tomahawk, quase um quarto das reservas disponíveis. Sistemas como o Patriot, caríssimos e impossíveis de substituir de imediato, foram usados para interceptar drones iranianos baratos e facilmente reproduzíveis em massa. Sinal de uma guerra insustentável, mal concebida e pior executada como notaram soldados ucranianos enviados para a região como conselheiros militares (como o mundo muda), os americanos estão “a disparar sem pensar”. Exactamente como os iranianos desejavam.

O segundo factor de fragilidade é a ausência de estratégia. Este défice resulta de dois elementos. Primeiro, os poderes americanos estão divididos, parcialmente privatizados, mais empenhados em combater‑se entre si do que em elaborar uma teoria da vitória. A potência substitui a estratégia, tornando a guerra interminável e, por fim, esgota‑se por autocombustão. Tudo muito americano com a diferença de que, desta vez, Washington enfrenta um inimigo cuja paciência estratégica é um mantra, enquanto se alia a um actor, o Estado israelita, que alimenta a dissipação da potência americana.

A falta de estratégia impede derrotar o inimigo e também controlar o aliado. Em geopolítica, como na vida, se não sabes o que queres, acabas por fazer o que os outros querem. Sejam inimigos ou supostos amigos, pouco importa. Assim, os Estados Unidos invertem o princípio hegemónico de longe de fazerem os outros agir em seu benefício, fazem o que serve os outros, prejudicando‑se. Sem alcançar qualquer objectivo que não seja, nas palavras de Baudrillard, o “delírio de uma vitória vazia, a exaltação de uma proeza estéril”.

9 Jul 2026

O umbral da desordem mundial (III)

“The supreme folly is to believe that power is its own justification.”

Hannah Arendt, The Origins of Totalitarianism (1951)

 

A abordagem americana de “fazemos como queremos” assenta num pressuposto errado. No Pentágono acreditam (ou fingem acreditar) que a exibição de força militar assustará a China. O Presidente Trump dispara para intimidar o Presidente Xi e levá-lo a renunciar às suas ambições no IndoPacífico, preservando o status quo. Revolução permanente para perpetuar o existente. Washington está, de facto, a reduzir as suas hipóteses de conter Pequim, que observa satisfeita o desperdício dos arsenais americanos destinados ao IndoPacífico. Os estrategas chineses regozijam-se ao consultar a tabela periódica pois cada míssil, drone ou avião perdido pelos Estados Unidos exige, para ser reconstruído, terras e metais raros dos quais a China detém um quase monopólio. A guerra contra o Irão expõe assim os americanos na única frente que realmente importa e torna Washington dependente de Pequim para reconstruir o arsenal necessário à disputa no Pacífico. Se os chineses fossem (estes) americanos, diriam jogo, set e partida. Em vez disso, esperam porque a guerra, terceiro factor de impotência, acelera a crise americana.

Um inquérito recente realizado nos círculos da administração Trump mostra que apenas 32% dos funcionários se dizem satisfeitos e empenhados, enquanto 58% se declaram menos envolvidos do que em 2024. Os valores mais baixos surgem no Departamento de Estado, onde a satisfação mal ultrapassa os 20%. No Pentágono, situa-se nos 48%. Os funcionários federais não gostam de trabalhar para esta América, também porque poderes privados descomunais estão a canibalizar o Estado. Como sugerem os iranianos com ironia fria (bem diferente da Epic Fury), os Estados Unidos ainda precisam de “negociar consigo próprios”. Só depois poderão procurar um compromisso sério com a República Islâmica e mesmo assim em condições piores do que antes de 28 de Fevereiro. A menos que se lancem em aventuras militares que, a longo prazo, corroeriam ainda mais a sua reputação.

O balanço provisório da terceira guerra do Golfo indica que a América pós-hegemónica e em défice de estatalidade nem sequer é a superpotência militar que sempre acreditou ser. Crise do Estado, fim da hegemonia e impossibilidade do domínio. O que mais esperar de uma monarquia anárquica? Há um elemento esotérico na disputa em torno do Irão. Encoberto pela névoa da guerra, começa apenas agora a delinear-se, como aqueles medalhões que, no centro dos tapetes persas, se estendem subtilmente para o exterior através de nós simétricos, também chamados turcos ou gordianos. Ao desvanecerem, assumem formas difíceis de decifrar, deixando o observador na dúvida sobre a figura oculta no tapete tal como os exegetas de Henry James continuam a experimentar. O segredo que se torna cada dia mais evidente, mas nunca totalmente revelado, é a questão turca.

Quando os analistas do futuro reconstruírem a história da agressão israelita ao que resta do antigo império persa, concluirão que o seu alvo indirecto, mas central, era a Turquia. Potência em ascensão, hoje capaz de ampla projecção, enquanto a Pérsia se encontra em declínio, recolhida em si mesma para não morrer prisioneira de um regime que ofende a sua civilização. Mais do que impedir a bomba iraniana, Jerusalém quer impedir que Ancara a obtenha e assim consolide a sua primazia no Médio Oriente. Não vale a pena procurar noutro lado pois o hegemon regional, uma vez afastadas as potências ocidentais, será um entre Israel, Irão e Turquia. Talvez inscrito na esfera de influência chinesa, da qual o Médio Oriente é o elo que liga Ásia, Europa e África. A menos que, cego pela obsessão exclusivista, Israel arraste os rivais para o vórtice da última guerra preventiva que é nuclear. Ou que os dois rivais cedam a essa tentação. Pode acontecer quando se aprende a não temer e a amar a Bomba.

Ironia das ironias pois durante cerca de vinte anos, entre as décadas de 1950 e 1970, os três actores estiveram associados numa “aliança da periferia” anti-árabe. Para lá das considerações estratégicas, essa aliança informal assentava no desprezo comum pelos árabes. Judeus, persas e turcos nunca consideraram as tribos de onde emergiu o verbo de Maomé como iguais. Era assim quando os unia o objectivo de liquidar o panarabismo egípcio, sírio ou iraquiano. E é ainda mais assim hoje, na competição triangular a leste do Suez, entre o Corno de África e o Mar Arábico. Quanto às petromonarquias do Golfo, vistas a partir deste triângulo, são patrimónios familiares sustentados por rendas energéticas precárias, destinados a desaparecer. Manipuláveis, incapazes de hegemonia, eternamente à procura de um protector que inevitavelmente as desiludirá em que o último foi os Estados Unidos. A guerra de 28 de Fevereiro confirmou ao mundo e a elas próprias a sua fragilidade irremediável.

9 Jul 2026

EL NIÑO OU SUPER EL-NIÑO? 

Desde há alguns meses que estão a ser detetados fortes indícios do surgimento das condições para que ocorraum episódio moderado aforte do El Niño, que poderá atingir o seu pico entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Para que este fenómeno possa atingir a categoria de “muito forte” (ou “Super El Niño”) as temperaturas da superfície da região central e oriental do Oceano Pacífico equatorial terão de atingir no mínimo 2,0 °C acima da média. Segundoa NOAA (“NationalOceanic and AtmosphericAdministration”) háa probabilidade de 63% de que tal aconteça. As observações “in loco” e as obtidas com recurso a satélites meteorológicos constatam que as temperaturas da água do mar nessa região do Pacífico já atingiram valores recorde para esta época do ano. Além da elevada temperatura da água, o enfraquecimento e a inversão dos ventos alísios sobre o Pacíficoequatorial sãoindicadoresfortes de que a atmosfera já está a reagir ao sobreaquecimento da superfície do mar.

O fenómeno oceano-atmosférico El Niño consiste no aumento da temperatura da água superficial na região equatorial do Oceano Pacífico Central e Oriental, nas vizinhanças do Peru. Contrariamente, La Niña consiste no arrefecimento anormal dessas mesmas águas. Enquanto o El Niñoprovoca temporariamente, em geral, aumento da temperatura média global, La Niña costuma causar uma diminuição temporária. Os episódios de ambos os fenómenos duram cerca de 9 a 12 meses, separados por períodos neutros, e ocorrem alternadamenteem ciclos irregulares de 2 a 7 anos.

Estes dois fenómenos oceano-atmosféricos inserem-se no que se convencionou designar por “variabilidade climática”, que consiste em flutuações naturais e temporárias dos valores médios dos parâmetros que caracterizam o clima. Por outro lado, quando se mencionam as “alterações climáticas”, está-se a referir a mudanças de longo prazo do estado médio do clima, impulsionadas principalmente por influência humana.A grande diferença entre os dois conceitos consiste na escala de tempo e nas suas causas. Assim, por exemplo, quando mencionamos que um determinado ano foi caracterizado por grande pluviosidade ou por uma sequência fora do normal de ondas de calor, estamos a referir-nos a variabilidade climática.Já quando nos referimos ao aumento lento, mas persistente, da temperatura média global do ar que tem ocorrido desde a revolução industrial, e às suas consequências, estamos a referir-nos a alterações climáticas. Não é fácil, porém, concluir se uma determinada sequência anormal de fenómenos meteorológicos extremos é, ou não, consequência de alterações climáticas. Assim, por exemplo, o facto de ter ocorrido, em 2025, uma sucessão anormal de ciclones tropicais na região em que a região de Macau está inserida, ou uma sequência de depressões extratropicais que causaram graves estragos em Portugal em janeiro/fevereiro de 2026, não nos permite concluir se tal foi resultado das alterações climáticas. No entanto,na realidade, verifica-se a tendência para que esses fenómenos sejam mais intensos e, em alguns casos, mais frequentes, conforme é testemunhado por instituições credíveis como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a NOAA, e os Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais de praticamente todo o mundo.

Há, no entanto, que distinguir entre as variações que o clima tem sofrido ao longo dos aproximadamente 4,6 mil milhões de anos de existência do nosso planeta e as alterações que estão a acontecer desde a revolução industrial. Os negacionistas das alterações climáticas argumentam que o clima sempre sofreu alterações, o que se prova pelas glaciações que, alternando com períodos interglaciários, ocorrem com certa periodicidade. Nesse aspeto têm razão, pois está comprovado, com recurso à paleoclimatologia e outras ciências complementares, que mudanças significativas no clima são uma realidade. Não acreditam (ou fingem não acreditar), porém, que tal aconteça desde a revolução industrial e muito menos que sejam causadas pelo uso dos combustíveis fósseis.

A grande diferença entre o que aconteceu no passado longínquo e as alterações que ocorrem na atualidade consiste no facto de as glaciações e os períodos interglaciários terem a duração de milhares de anos, enquanto o aquecimento global causado pelas atividades humanas e, consequentemente, as alterações climáticas, se tenham concretizado em apenas pouco mais de dois séculos. E isto é devido a uma característica dos gases de efeito de estufa (GEE), com especial ênfase no que se refere ao CO₂. À medida que a concentração destes gases aumenta, mais calor fica retido na atmosfera, o que implica subida de temperatura.

No entanto, apesar dos avisos das organizações que zelam pela sustentabilidade do nosso planeta, a concentração na atmosfera do GEE não deixa de aumentar. Mesmo durante a pandemia COVID19, apesar de ter havido uma queda nas emissões anuais, a concentração dos GEE na atmosfera não diminuiu. Assim, por exemplo, em 2020, devido às restrições nas atividades humanas, houve uma quebra de cerca de 5% das emissões globais de CO₂, mas a sua concentração não diminuiu. Desde 1750 até 2025, passou de 280 partes por milhão (ppm) para 427,35 ppm. Esta última concentração corresponde ao valor anual mais alto até hoje alcançado, segundo a “Statista”1.

Os fenómenos “El Niño” e “La Niña” são exemplos de eventos característicos da variabilidade climática. São também abrangidos pelo conceito designado por “teleconexões”, atendendo a que, tendo tido início numa determinada região, influenciam o tempo em regiões bem afastadas do local onde tiveram origem. Alterando a circulação atmosférica, o El Niño cria condições para a ocorrência de fenómenos extremos, tais como secas em algumas regiões e intensificação de ciclones tropicais noutras.

No caso de se concretizar que o próximo episódio atinja o grau de “Super El Niño”, poder-se-á perguntar: quais as consequências na região de Macau? De acordo com os modelos de previsão climática, é provável que a época dos tufões seja caraterizada por significativamente menos fenómenos deste tipo do que em 2025, mas mais intensos. Haverá, portanto, maior risco de que a RAEM possa ser afetada por tempestades que possam atingir a categoria de “supertufão”, cuja passagem poderá ser acompanhada por fortes inundações causadas por marés de tempestade, em especial se coincidirem com a praia-mar. Será também muito provável que ocorram situações de temperatura mais alta do que o normal e episódios mais frequentes de precipitação muito intensa. As autoridades de Macau de e de Hong Kong estão bem cientes sobre esta possibilidade, atendendo às advertências nesse sentido que têm sido feitas pelas autoridades meteorológicas de ambas as regiões administrativas especiais.

 

9 Jul 2026

Mulheres modernas na profissão mais antiga do mundo

Na crónica anterior falei das novas formas de monetizar a intimidade. Mas existe uma realidade muito mais antiga: vender sexo. Parte do trabalho sexual no mundo tem evoluído para formas mais independentes, que muito se distancia da visão clássica de um proxeneta que coloca mulheres nas ruas. Existem situações gravíssimas de exploração e tráfico humano, e os mecanismos existentes continuam longe de conseguir preveni-las – mas isso não invalida a experiência de muitas mulheres, principalmente em países da América do Norte e na Europa, que escolhem enveredar pelo trabalho sexual. E fazem-no com uso de uma narrativa rica e diferenciadora, que muito se afasta dos estereótipos que este universo incita.

Claro que a escolha nunca é livre de restrições, nomeadamente, da sociedade capitalista, que exige dinheiro para viver, enquanto se mercantiliza toda a experiência humana – mas não é sobre esta questão que me quero debruçar.

A reflexão sobre este tópico começou quando passei a acompanhar o trabalho de trabalhadoras do sexo no Instagram, que, apesar dos riscos de verem a sua conta suspensa, trazem as suas vozes e experiências para desmistificar o trabalho sexual que praticam. O que foi mais interessante ver foi a forma como se promovem. Elas têm as suas contas, sites e conteúdos onde explicam as suas preferências e formas de trabalho. Do que eu verifiquei, estamos a falar de 1000 euros por 2 horas de intimidade. Não são os valores praticados pela típica trabalhadora do sexo, mas para quem possui capital cultural, tempo e formas de investimento para um marketing mais cuidado.

Nas redes sociais estas mulheres partilham como o trabalho sexual foi uma escolha consciente. Mostram como são independentes nas suas escolhas e na forma como produzem riqueza. E a verdade é que agora vemos disponíveis ferramentas para que estas mulheres possam ter maior emancipação e independência criativa e financeira na forma como trabalham. Não só conseguem promover o seu trabalho em redes sociais – usando o método da influencer que partilha a sua vida – mas também em plataformas específicas, para quem quiser vender conteúdo mais explícito. Na OnlyFans, em especial, uma plataforma amplamente utilizada para conteúdos de entretenimento adulto, através de subscrições mensais, podem serdirectamente recompensadas pelo conteúdo que criam. Para quem fizer sentido, as mulheres podem usar esta plataforma como divulgação do trabalho, enquanto geram algum rendimento. Ou seja, enquanto no passado a vida de uma prostituta era inacessível e obscura, agora existem ferramentas para torná-la uma narrativa, muitas das vezes requintada e complexa.

As limitações a esta emancipação são, contudo, reais e contingentes às políticas de gestão online que podem criar alguma precariedade neste trabalho. A “independência” destas mulheres é condicional: não são donas dos meios de produção, apenas utilizadoras de plataformas que podem alterar políticas ou suspender contas sem aviso. Isto pode inverter a narrativa de emancipação — trocam um proxeneta por um algoritmo. Para além de que nem todas têm acesso aos recursos que tornam possível construir este tipo de narrativa – contribuindo para desigualdades acentuadas no mundo das acompanhantes.

O que fica claro é que apenas um nicho consegue transformar esta lógica de mercado em vantagem.É este nicho que vende um serviço muito específico construindo uma estética complexa e diferenciada. O cliente é atraído não só pelo físico, mas pela experiência que prometem com narrativas visuais muito distintas. Nada do que vi no Instagram sugeria uma indústria onde todas reproduzem o mesmo modelo – directórios de serviço de acompanhantes, por exemplo, mostram uma realidade mais repetitiva com visuais e corpos mais prototípicos.Do que vi nestas contas de Instagram, as suas personalidades eram alimentadas pelas wishlists de prendas que gostavam de receber (por exemplo, lingerie que custa um salário mínimo em Portugal), as flores de que gostam, ou como e onde gostam de jantar fora em várias cidades da Europa. E apesar de imaginarmos o trabalho sexual como algo impessoal, uma transação íntima sem qualquer contexto, a mulher moderna na profissão mais antiga do mundo enriquece a experiência com aquilo que ela é ou que gosta de representar. As técnicas de branding pessoal tornaram-se centrais neste novo modelo de trabalho. Ao dispensarem intermediários, muitas destas mulheres conseguem apresentar-se ao mercado como um produto complexo, onde a identidade faz parte da experiência que vendem.

Talvez a profissão mais antiga do mundo tenha mudado menos do que imaginamos. Ou talvez tenha mudado precisamente onde menos esperávamos: deixou de vender apenas sexo para vender uma narrativa e uma experiência cuidadosamente construída, apanhando a onda das redes sociais e das suas potencialidades. Estas formas de exposição e de liberdade criativa têm um potencial de democratização enorme, e é essa a experiência que este nicho de mulheres partilha — não sem custos e consequências para quem não domina estas técnicas de divulgação pessoal.

8 Jul 2026

Camilo Castelo Branco, um necrófilo contemplativo

Há quem diga que Camilo era necrófilo. O médico Egas Moniz, nobelizado criador da trepanação, consagrou-lhe uma peça de nosografia literária em 1925, A Necrofilia de Camilo Castelo Branco, numa altura em que os médicos se interessavam por estas coisas. E nosografias houve várias: de Camilo, de Eça, de Pessoa, seguindo a tradição do génio como forma de loucura. Há, de facto, contos sobre desenterramentos noturnos e caveiras guardadas em casa, que geraram um anedotário gótico em torno do autor de São Miguel de Seide. O conto Impressão Indelével foi publicado em 1842, quando Camilo tinha dezasseis ou dezassete anos e escrevia para o jornal Aurora do Lima, é uma carta a um amigo chamado Barbosa. O narrador conta que se apaixonou por uma rapariga tísica em Trás-os-Montes, a Maria do Adro. Foi para o Porto estudar, voltou, soube que ela morrera. O cunhado convida-o para uma exumação, por razões inexplicadas. O narrador foi, viu o cadáver, ficou doente. A história, como se vê, é quase nenhuma. O que há é a questão do que fica na mente depois de ver o que não se costuma ver e o modo como isso se transforma em escrita.

«Sem presente, e frio às comoções do provir aquém da campa, o meu ser, a faculdade única, o órgão único da minha vitalidade é a memória», diz o narrador. A necrofilia que aqui se pratica não é a de Fialho de Almeida, que no seu conto A Ruiva (1881) pinta o desvirginamento de uma jovem morta por um coveiro mais atrevido. Em Camilo, é a mente como câmara escura, chapa de daguerreótipo à espera da imagem, laboratório da escrita, que interessa. E a imagem só pode ser a da amada morta que é bela e incorrupta como um texto O recém-cadáver, desenterrado por um alter ego de Camilo, guarda as feições de uma imagem, como as fotografias de mortos vitorianos. O daguerreótipo, com efeito, tinha sido inventado pouco antes, e nos anos quarenta do século XIX já não era novidade. Camilo sabia-o e concebe a própria escrita como revelação fotográfica: há que primeiro limar, delir a crusta dos sentimentos para, a frio, deixar tresluzir a imagem. A escrita é, assim, o próprio processo de revelação. Por isso tem o corpo de estar incorrupto — a decomposição seria como uma chapa velha, uma impressão falhada, uma memória que o tempo já comeu.

Egas Moniz, em Camilo necrófilo, não percebeu que o autor estava a deixar passar uma teoria da literatura como prática necrófila. A necrofilia de Camilo é contemplativa, e é a única que a literatura admite: o amor pelo corpo imóvel, pela imagem fixada, pela impressão que o tempo não apagou. Quando abrimos um livro, começamos a afastar aquela areia solta dos cemitérios, escura e cheia de cacos e de restos de flores, que ainda não grudou bem à cara morta das nossas imagens. A literatura é o único ato necrófilo a que Camilo se permite — e que nos permite. Em tudo isto falarei mais e melhor no belo volume do Colóquio de Outono, sobre Camilo, que o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho se prepara para lançar, organizado por Sérgio Sousa, da UM, e Ana Ribeiro, da UMINHO.

7 Jul 2026

LÁ PASSARAM

A selecção nacional de futebol conseguiu passar para os oitavos de final do Mundial 2026. O Mundial está ao rubro e os milhões de portugueses amantes de futebol têm sofrido como nunca. Por uma simples razão. Não temos treinador. Os jogadores de nível superior internacionalmente jogam o que sabem e o que desenvolvem em campo, especialmente contra o Congo e Colômbia, é aquilo que praticam nas suas equipas famosas. O treinador não tem teorias, estratégias e táticas. Nem a noção que se põe Ronaldo em campo também tem de colocar ao seu lado o João Félix. Nós somos doentes pelo futebol, pelo Benfica, deslocamo-nos da Guarda a Lisboa quando há Benfica-Sporting. Sabemos bem o que é sofrer pelo raio da bola. E na sexta-feira, mais uma vez, nem soubemos como ganhámos à Croácia. Valeu que o jogo teve um bom VAR. Caso contrário, a Croácia teria ganho o jogo a brincar. O espanhol seleccionador/treinador continua a deixar Gonçalo Inácio no banco, um dos melhores defesas da Europa. Permite que João Cancelo ande por todo o lado, incluindo na extrema esquerda e depois o seu sector defensivo ficou vazio e os croatas entravam quando queriam e lhes apeteciam e sempre com perigo, ao ponto de Diogo Costa ser mais uma vez o homem do jogo. Realmente, o salvador da Pátria.

Esta madrugada em Macau vamos ver o que acontece contra a Espanha, uma equipa que não brinca em serviço nem comete erros como a equipa portuguesa.

O Mundial 2026 tem sido uma surpresa. Antes de mais, os EUA não mereciam as centenas de milhares de adeptos que se dirigiram para aquele país com o intuito de apoiar as selecções dos seus países, quando são presididos por um fascista que proíbe a entrada a muitos cidadãos estrangeiros. Que raio de liberdade passou a existir na América?

Na verdade, tem sido impressionante como todos os jogos do Mundial têm os estádios esgotados e ainda milhares de adeptos no exterior a ver pela televisão. É impressionante o preço dos bilhetes que tem sido praticado na candonga. No Portugal-Croácia houve “doentes” pelo Ronaldo que pagaram cinco mil dólares pela entrada no estádio.

Outra surpresa têm sido os resultados positivos e o comportamento futebolístico das equipas africanas. Como foi possível que os candidatos ao título Alemanha e Países Baixos tivessem ido à vida? Um aplauso para o Congo, Senegal, Costa do Marfim, Egipto, Marrocos e Cabo Verde. Os caboverdianos que são até agora os heróis do Mundial. Na sua primeira participação apenas foram eliminados aos 111 minutos pelo campeão do mundo Argentina, já depois de terem empatado contra o campeão europeu Espanha.

O futebol, realmente, movimenta multidões e milhões. Da Nova Zelândia a Portugal todos os povos vibram com o futebol e as crianças já brincam com a bola melhor que Ronaldo quando este jogava nas ruas do seu bairro madeirense. Um outro ponto a salientar: as arbitragens têm sido na generalidade muito boas e os VAR muito sérios. Por referirmos as arbitragens, é importante que saibam que em Portugal a arbitragem está pelas ruas da amargura. O director técnico da arbitragem e um dos melhores ex-árbitros portugueses, Duarte Gomes, demitiu-se e rebentou uma bomba. Alegadamente existem suspeitas de que no campeonato que terminou existiu muita corrupção no seio da arbitragem e até árbitros com nomeações combinadas com certos clubes. Isto, é um escândalo, uma vergonha, ignóbil para a imagem do futebol português na Europa. A discussão nos canais televisivos é diária sobre este assunto e a maioria dos comentadores desportivos salienta que a investigação tem de ir até ao fim, doa a quem doer. O mais curioso é que o FC Porto reagiu de imediato após se saber da vergonha. Seguiu-se o Benfica e o presidente do Sporting deu o seu parecer de viva voz. Será que todos querem agora sacudir a água do capote, quando vimos ao longo da época 2025/26 muitas arbitragens duvidosas e tendenciosas? Resumindo: o dinheiro continua a comprar todas as Taças… Agora, o mais importante é que esta madrugada para vós, Portugal possa ganhar à Espanha. Boa sorte, Portugal!

6 Jul 2026

O Labirinto do Licenciamento

Por Manuel Silvério

Analista independente do desporto e consultor em desenvolvimento regional
(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

 

Porque continua o futebol de Macau fora das competições asiáticas. Uma reflexão sobre os verdadeiros obstáculos ao regresso internacional dos clubes de Macau

 

Pelo terceiro ano consecutivo, os clubes da Liga de Elite de Macau ficaram afastados das competições oficiais da Confederação Asiática de Futebol (AFC). A recente confirmação de que nenhuma candidatura local foi aprovada para participar na AFC Challenge League voltou a suscitar desilusão entre dirigentes, atletas e adeptos.

A reacção pública é compreensível, mas continua frequentemente centrada na qualidade competitiva das equipas ou na escassez de recursos financeiros. A realidade é hoje bastante diferente. O principal obstáculo deixou de estar dentro das quatro linhas e passou a situar-se na capacidade institucional de cumprir um sistema internacional de licenciamento cada vez mais rigoroso.

Actualmente, o futebol asiático já não avalia apenas quem joga melhor. Avalia igualmente se os clubes possuem estruturas jurídicas sólidas, gestão profissional, transparência financeira, recursos humanos qualificados e capacidade administrativa compatíveis com os padrões internacionais de governação do futebol.

Ao longo dos últimos anos, a AFC consolidou o Club Licensing Administration System (CLAS), plataforma eletrónica através da qual cada clube deve demonstrar o cumprimento dos critérios desportivos, jurídicos, administrativos, financeiros e de infra-estruturas antes de poder participar nas competições continentais.

A margem de flexibilidade que anteriormente podia existir para associações de menor dimensão praticamente desapareceu. O cumprimento dos requisitos passou a ser verificado de forma sistemática, dentro de prazos rigorosos e com reduzida possibilidade de correção posterior. O licenciamento deixou, assim, de ser uma simples formalidade administrativa para se transformar numa verdadeira certificação internacional da qualidade institucional dos clubes.

As exigências abrangem cinco grandes áreas: critérios desportivos, infra-estruturas, organização administrativa, enquadramento jurídico e sustentabilidade financeira. Não basta apresentar contas simplificadas de uma associação desportiva. A AFC exige Annual Financial Statements auditadas, controlo do Reporting Perimeter, demonstrações financeiras consolidadas sempre que exista Significant Influence de um financiador relevante e o cumprimento do princípio do No Overdue Payables, que impede a participação de clubes com salários ou outras obrigações vencidas.

Ao mesmo tempo, exige uma estrutura administrativa permanente, com responsáveis claramente identificados para áreas como direção executiva, gestão financeira, assessoria jurídica, licenciamento, comunicação, segurança, medicina desportiva e desenvolvimento do futebol jovem. Em muitos casos, funções como Chief Executive Officer (CEO), Chief Financial Officer (CFO), Club Licensing Officer, Legal Adviser, Media Officer, Security Officer, Medical Officer e Youth Development Director deixam de constituir uma opção e passam a integrar um modelo moderno de governação. No plano desportivo, exige-se igualmente que o treinador principal possua a Licença AFC A ou AFC Pro, bem como uma estrutura permanente de formação de jovens.

Também as infra-estruturas são avaliadas segundo normas internacionais constantes dos AFC Stadium Regulations, incluindo requisitos relativos a salas VAR, Mixed Zone, Media Centre, áreas de transmissão televisiva, salas de controlo antidopagem e outros equipamentos indispensáveis para competições internacionais.
Nada disto constitui um obstáculo intransponível.

Mas exige organização, planeamento e uma cultura de gestão muito diferente daquela que caracterizou tradicionalmente muitos clubes de pequena dimensão. Macau possui dirigentes dedicados, voluntários empenhados e atletas com qualidade. O problema é que o modelo de funcionamento do futebol local continua assente, em grande medida, numa lógica associativa e de voluntariado, enquanto o sistema de licenciamento da AFC exige hoje estruturas profissionais, responsabilidades claramente definidas e mecanismos permanentes de controlo administrativo.

A dimensão territorial também não explica, por si só, esta situação. Existem exemplos que demonstram precisamente o contrário. Timor-Leste conseguiu colocar o Karketu Dili nas competições asiáticas após um processo de reorganização administrativa apoiado pelos programas de desenvolvimento da FIFA, adaptando a sua estrutura às exigências regulamentares da AFC.

Também o Butão, o Bangladesh, o Nepal e a Mongólia têm vindo, com ritmos diferentes, a reforçar os seus sistemas nacionais de licenciamento e a preparar os respetivos clubes para responder aos critérios internacionais. Nenhum destes países dispõe de recursos muito superiores aos de Macau. O factor diferenciador tem sido, sobretudo, a capacidade de adaptação institucional e a prioridade atribuída à modernização da governação do futebol.

Este é talvez o principal ensinamento para Macau. A solução dificilmente dependerá de uma única entidade.
Ao Instituto do Desporto compete continuar a assegurar condições para que as infra-estruturas públicas utilizadas nas competições internacionais acompanhem os requisitos técnicos actualmente exigidos pela AFC, bem como estudar mecanismos de apoio que facilitem a profissionalização administrativa dos clubes com potencial competitivo, incluindo a realização de auditorias independentes e a qualificação técnica dos recursos humanos.

À Associação de Futebol de Macau cabe um papel igualmente determinante. Mais do que acompanhar processos administrativos, importa criar uma estrutura técnica permanente que acompanhe os clubes durante todo o ano, prestando apoio nas áreas jurídica, financeira, contabilística e regulamentar, antecipando dificuldades muito antes dos prazos finais de submissão das candidaturas.

Os próprios clubes terão igualmente de continuar a evoluir. A crescente complexidade do futebol internacional exige uma gestão mais profissional, maior transparência financeira, melhor organização documental e uma aposta consistente na formação de jovens e na qualificação dos recursos humanos.
Importa igualmente esclarecer um equívoco que por vezes surge no debate público.

O apoio institucional do Governo ao desenvolvimento do futebol não colide, por si só, com o princípio da autonomia das associações desportivas consagrado pela AFC. O que os regulamentos internacionais proíbem é a interferência política nas decisões desportivas e nos órgãos de licenciamento. Diferente é o apoio à modernização administrativa, ao desenvolvimento das infra-estruturas ou à capacitação técnica, áreas em que existe amplo espaço para cooperação institucional.

Macau possui condições para regressar às competições asiáticas. Dispõe de estabilidade institucional, infra-estruturas desportivas de qualidade, capacidade financeira pública e uma comunidade desportiva que continua empenhada no desenvolvimento do futebol. O verdadeiro desafio consiste agora em transformar essas condições numa estratégia integrada de modernização institucional.

Ao fim de três anos consecutivos de exclusão, talvez tenha chegado o momento de alterar o foco da discussão. O problema deixou de ser saber se os nossos jogadores têm qualidade suficiente para competir na Ásia. A questão fundamental é saber se o nosso sistema administrativo está preparado para responder às exigências do futebol internacional contemporâneo.

Porque, no futebol moderno, o primeiro jogo começa muito antes do apito inicial. Começa no licenciamento. E é esse desafio institucional que Macau terá de vencer para voltar a representar, com regularidade, o seu nome nas competições asiáticas.

1 Jul 2026

“Meu querido robot (II)”

A semana passada, falámos sobre uma empresa de Hong Kong que colocou no mercado robots, em versão masculina e feminina, destinados a proporcionar “companhia emocional”. Além de serem muito atraentes, os robots também estão equipados com uma vasta gama de expressões faciais. A clientela alvo são idosos e jovens que vivem sozinhos.

Ainda não se sabe quanto irão custar, nem qual a capacidade que têm para efectuar tarefas domésticas; os pormenores serão divulgados mais tarde pelo fabricante. Até agora, foram feitas 3.000 encomendas tendo os clientes pago 3.000 Renminbis por cada reserva. Este tema não é difícil de entender, mas existem algumas questões que devem ser consideradas.

Em primeiro lugar, ainda não se sabe o preço dos robots. A estimativa do mercado aponta para valores na ordem dos 15.000 a 30.000 USD, cerca de 117,000 a 234,000 HKD. Em segundo lugar, está por esclarecer a que percentagem da base de clientes correspondem as 3.000 encomendas. Esta informação é fundamental quer para a empresa quer para o mercado.

Em terceiro lugar, muitos internautas estão preocupados com a capacidade dos robots para efectuarem tarefas domésticas, como a lavagem de roupa e loiça, o que reflecte uma certa procura do mercado nesse sentido. Se os robots puderem desempenhar estas tarefas além de fazerem companhia e proporcionarem conforto emocional, a procura por este produto aumentará significativamente.

Em quarto lugar, dar apoio emocional e escutar as pessoas implica uma certa complexidade; uma frase pode ter muitos sentidos. Poderá o sistema de inteligência artificial (IA) compreender e processar as questões emocionais dos humanos? Em quinto lugar, a autonomia da bateria destes robots é de apenas 2 a 4 horas, o que pode ser inconveniente se os clientes os quiserem usar durante períodos alargados.

Em sexto lugar, se os robots fossem usados a nível industrial, por exemplo para armazenarem produtos, passariam a ser uma “fonte de trabalho” estável e duradoura, e o seu valor poderia ser quantificado pelas horas de trabalho realizado e pela sua eficiência. No entanto, como os robots vão ser usados para “companhia” e “apoio emocional”, o seu valor é calculado a partir dos benefícios emocionais, o que o torna difícil de quantificar. Teremos de considerar a eficácia destes novos produtos.

O companheirismo e a atenção fornecidos pelos robots a idosos e jovens solitários podem levantar outras questões de ordem ética. Imaginemos o seguinte: depois da aquisição, o robot nunca abandona o seu proprietário, oferecendo “obediência” incondicional e “atenção” ilimitada. Estes comportamentos são unilaterais e virtuais.

Se o cliente estiver ciente de que o robot é apenas um companheiro virtual, tudo será normal. No entanto, se o cliente se tornar viciado no robot, podem surgir problemas graves. Por exemplo, uma pessoa idosa que vive sozinha pode usar um robot para substituir os filhos, passando a depender dele. O robot oferece apoio emocional e atenção interminável, o que é bom. Mas e se esta pessoa, no testamento, destinar parte do seu património, que deveria ser deixado aos filhos, a cuidados futuros ao robot? Como é que isto funcionaria?

Se um jovem solteiro trata um robot como se fosse uma namorada, poderá isso levar a uma relação duradoura entre o jovem e o robot? Isto representa progresso tecnológico ou uma regressão na humanidade? Além disso, se muitos homens e mulheres usarem robots como parceiros, como é que isso vai afectar as taxas de casamento e de natalidade?

Por trás de tudo isto, há outra questão que vale a pena considerar. Se os clientes se apegarem demasiado aos robots, e eles se estragarem e tiverem de ser deitados ao lixo, como é que reagirão as pessoas que vivem sozinhas? Quem será responsável por lidar com essas emoções? Além disso, os dados armazenados nos robots estão intimamente relacionados com os utilizadores. Como é que devem ser tratados?

Em sétimo lugar, as perguntas acima colocadas exigem respostas claras por parte da lei. Por exemplo, a legislação poderia obrigar os robots a estarem sempre ligados à informação do comprador; poderia estabelecer que os robots não são seres vivos e, como tal, não podem herdar propriedades ou beneficiar delas; e poderia também estipular que os dados dos utilizadores armazenados nos robots devem cumprir as leis de protecção de dados e ser completamente destruídos aquando da sua eliminação.

Actualmente, ainda não se sabe como as autoridades chinesas irão regular esta matéria. É certo que o grau de regulamentação afectará directamente as vendas do produto. Como encontrar um equilíbrio entre a viabilidade comercial e a ética social é um problema que as autoridades reguladoras devem considerar, e é também um problema que atrai a atenção global.

Robots que proporcionam companhia e atenção, concebidos para apoiar pessoas solitárias, representam um novo conceito tecnológico. Teremos de esperar para ver como é que a sociedade vai aceitar este novo produto. Tendo em mente os problemas sociais que podem gerar, os fabricantes devem reconsiderar vários aspectos. Quando os humanos começarem a responsabilizar os filhos, nos seus testamentos, pelo futuro “bem-estar” dos robots, e quando os jovens procurarem conforto emocional nos ecrãs e em objectos metálicos, talvez tenhamos de nos perguntar: o que é que precisa verdadeiramente de “aperfeiçoamento”, o algoritmo dos robots, ou a mentalidade que faz da solidão uma oportunidade de negócio na sociedade moderna?

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

30 Jun 2026

Dilema

Na região da Guarda, onde resido, existe há muito um dilema que se agudizou. Trata-se da luta pela sobrevivência dos lobos e das ovelhas. Por um lado, estão os pastores que defendem os seus rebanhos e que estão contra a existência de lobos no montado porque atacam e comem as suas ovelhas.

Alguns pastores já passaram a andar de caçadeira na mão com o intuito de abaterem qualquer lobo que se aproxime. Por outro, estão os defensores dos animais que adiantam ser imperioso defender a existência dos lobos. Afirmam que o lobo ibérico está em vias de extinção e que está protegido por lei. Um dilema, uma contradição difícil de solucionar. Os que defendem os lobos são criticados.

Os críticos afirmam que não são defensores de animais, porque morrem ovelhas quase todos os meses devido ao ataque dos lobos. E salientam que esses defensores de animais não comparam a importância de uma ovelha para a sociedade e a do lobo que se limita apenas a matar outros animais. A discussão não tem fim e estamos quase perante aquele dilema de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha…

O debate sobre esta matéria tem sido complexo e gira essencialmente em torno de quatro eixos principais: os ataques causam prejuízos severos aos criadores de gado, especialmente no norte e centro do país e no planalto mirandês. Além da perda de animais, há ferimentos que inutilizam o gado e o pânico provocado no rebanho afecta a produção. A repetição e proximidade dos ataques levam alguns criadores a reivindicar o fim do estatuto de protecção legal do lobo ibérico, que está em vigor desde 1988.

Para mitigar os ataques, várias entidades promovem activamente a coexistência através de boas práticas pecuniárias, tais como, o uso de cães de protecção, nomeadamente o Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela e Cão de Castro Laboreiro. Esta é uma das medidas mais eficazes para afastar os lobos.

Por outro lado, tem sido importante a utilização de vedações eléctricas e a recolha de gado em abrigos seguros durante a noite, que reduzem drasticamente a vulnerabilidade dos rebanhos. Um aspecto positivo tem sido a posição do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas que atribui indemnizações aos proprietários lesados pelos prejuízos causados pela perda de ovelhas ou cabritos.

Conversámos com um pastor que nos surpreendeu ao dizer-nos: “Sabe, já perdi dezenas de ovelhas mortas por lobos, mas agora pensei numa coisa que tenho posto em prática e que me tem resolvido o problema. Uma vez por semana mato uma ovelha e corto aos bocados. Meto-me na mota e vou lá acima à montanha onde sei que vivem lobos e distribuo a carne. Para já, tem sido um remédio santo, mas ando sempre em pulgas não venha aí um lobo e lá se vão duas ou três ovelhinhas”.

Na verdade, a vida de pastores no montado é algo de muito difícil e cada vez há menos jovens que se dediquem à criação e venda de gado ovino. A rapaziada nova prefere alistar-se na polícia, na GNR ou seguir a vida militar.

Todavia, o dilema prossegue e em certas zonas os ataques dos lobos continuam e não se vislumbra uma solução. Parece um assunto de pouca importância, mas não o é. Imaginem só, as centenas de talhos existentes no país e que estão sempre a pressionar os seus fornecedores de carne para que não falte aos muitos clientes que são todos os que gostam de um bom petisco de borrego ou de cabrito.

A natureza é assim mesmo. A sobrevivência de muitos animais é a lei dessa natureza. Temos o exemplo de quase todas as espécies carnívoras, como as leoas e as águias que matam outros animais para se alimentar e dar de comer aos filhos. Como lemos num livro, contra a natureza não há nada a fazer.

 

P. S. – Por referirmos os fenómenos da natureza, desejamos enviar as nossas sentidas condolências a todas as famílias das vítimas dos sismos registados na Venezuela.

29 Jun 2026

Que surpresa!

No passado dia 16, o Chefe do Executivo compareceu à sessão plenária da Assembleia Legislativa. De acordo com o website da Assembleia, a agenda do dia era a seguinte: perguntas e respostas sobre as Linhas de Acção Governativa e assuntos sociais com a presença do Chefe do Executivo”. Inicialmente, pensei que esta sessão seria semelhante às anteriores, nas quais existia uma troca dinâmica de dúvidas e esclarecimentos entre os deputados e o Chefe do Executivo.

No entanto, no início da sessão, o Presidente da Assembleia Legislativa anunciou um novo modelo: o Chefe do Executivo iria primeiro apresentar as Linhas de Acção Governativa e depois responderia às perguntas dos deputados. Além disso, as perguntas seriam agrupadas por categorias e os deputados seriam separados em vários grupos de acordo com a natureza das suas questões.

A sessão de perguntas e respostas prosseguiu com os deputados de cada grupo colocando as questões individualmente, a que se seguiu uma resposta geral do Chefe do Executivo dirigida a todo o grupo. Não foram permitidas mais perguntas após ter sido dada a resposta geral. Depois das questões colocadas pelos deputados de todos os grupos terem sido respondidas a sessão terminou.

A sessão abriu com o Chefe do Executivo a fazer uma apresentação de 40 minutos dos resultados das acções governativas do primeiro semestre de 2026 e das prioridades das acções governativas do segundo semestre. Seguidamente foram colocadas as perguntas do primeiro grupo de seis deputados relativas ao tema da “renovação urbana”.

A sessão prosseguiu desta forma, grupo após grupo, até estar concluída. Este novo modelo concebido pelo Chefe do Executivo e pelo Presidente da Assembleia Legislativa impressionou-me bastante.

No tempo em que participava nas sessões de perguntas e respostas da Assembleia Legislativa, os Serviços de Apoio à Assembleia Legislativa notificavam os deputados da data da sessão com antecedência. Cerca de duas semanas antes, os deputados apresentavam aos Serviços de Apoio à Assembleia Legislativa um máximo de três perguntas para serem respondidas pelo Chefe do Executivo. Devido ao intervalo de tempo entre a submissão das perguntas e a realização da sessão, alguns deputados poderiam modificar as suas questões e havia mesmo alturas em que colocavam perguntas de improviso sobre temas que não tinham sido submetidos aos Serviços de Apoio à Assembleia Legislativa.

Submeter as perguntas com antecedência tem a vantagem de permitir que o Chefe do Executivo tenha uma janela de tempo para se preparar, e a vantagem de poder fazer perguntas de improviso é trazer à liça com prontidão as preocupações públicas mais urgentes. As perguntas de improviso podem apanhar uma pessoa desprevenida, no entanto eu vi o antigo Chefe do Executivo, Chui Sai On, manter a compostura respondendo com grande nível às questões colocadas pelos deputados, o que criou um ambiente interactivo na Assembleia Legislativa.

Ao categorizar as perguntas colocadas pelos deputados, limita-se as suas questões a um único tópico, ou então as perguntas têm de ser negociadas e decididas entre eles. A resposta geral do Chefe do Executivo enquadra-se no critério “mais informação, mais rápida, de maior qualidade e mais económica”, o que melhora significativamente a eficácia. Mesmo as pastas com documentação em papel do Chefe do Executivo nesta sessão eram mais “magras” do que costumavam ser (porque ele precisa de se preparar com antecedência antes de responder às perguntas).

Este modelo da sessão de perguntas e respostas, que foi discutido e aprovado, introduziu um novo quadro de governação coordenada entre os ramos executivo, legislativo e judicial, que demonstra em pleno a predominância do poder executivo. É particularmente digno de nota que na véspera da ida do Chefe do Executivo a esta sessão, a nova Secretária para a Economia e Finanças tenha tomado posse, permitindo que todos os cinco Secretários tenham estado presentes na sessão plenária da Assembleia Legislativa.

Os tópicos debatidos na sessão incluíram o “15.º Plano Quinquenal do País”, o “3.º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconómico da RAEM”, a “Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”, a Zona de Cooperação Aprofundada Qianhai-Macau, as “quatro principais indústrias” e os “quatro grandes projectos”. Se estes planos e projectos irão ajudar a população de Macau, especialmente os mais jovens, será sem dúvida a questão que mais preocupa as pessoas em geral.

26 Jun 2026

O umbral da desordem mundial (I)

(Continuação do artigo publicado na edição de 18 de Junho)

Quando planeiam intervenções terrestres, os decisores de Washington parecem ignorar a geografia acidentada de um território maior do que vários países europeus reunidos, com quase cem milhões de habitantes jovens, dotados de forte identidade e elevada cultura, com destaque para os avanços técnico‑ científicos e para a formação das mulheres.

É compreensível que muitos iranianos estejam cansados de um regime opressivo e corrupto. O que não se compreende é como Trump pode pedir‑ -lhes que derrubem esse governo enquanto os bombardeia indiscriminadamente.

Por que razão, então, esta aventura que desestabiliza o planeta e ameaça comprometer a posição do presidente nas próximas eleições intercalares? Três respostas interligadas; por Israel, Trump e Netanyahu, e Deus. Por Israel, porque nesta disputa mortal os Estados Unidos seguem a linha estratégica do Estado hebraico. O general Udi Dekel, analista do Institute for National Security Studies de Telavive, explica que “Desde 7 de Outubro, Israel caiu na armadilha da ‘segurança absoluta’, uma concepção que conduz à guerra permanente. Se a segurança é definida como eliminação total de qualquer ameaça assim que surge, em vez de a reduzir ou estabilizar, então qualquer resultado que não seja a remoção completa será visto como insuficiente.”

Esta deriva, impulsionada por Netanyahu após o ataque do Hamas, transformou as Forças de Defesa de Israel em forças de ataque contínuo, esgotando-‑ as. O próprio chefe do Estado‑ Maior, Eyal Zamir, alertou: “Ergo dez bandeiras vermelhas antes que as forças colapsem.” Por Trump, hipnotizado por Netanyahu. Trata‑ se de mais uma prova da influência que Israel exerce sobre as elites americanas como fenómeno poderoso e insuficientemente estudado.

Como pode o presidente alinhar tão cegamente com um aliado? Porque, nos círculos políticos, mediáticos, económicos e financeiros dos Estados Unidos, muitos consideram Israel quase um parente próximo. As ligações bipartidárias são antigas. Há episódios históricos que revelam essa assimetria, como o ataque israelita ao navio USS Liberty de 8 de Junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, que matou dezenas de marinheiros americanos sem provocar qualquer reacção oficial.

A relação entre os actuais líderes dos dois países constitui o ponto máximo dessa ligação. Entre Trump e Netanyahu há uma espécie de devoção recíproca, com momentos de tensão e reconciliação, mas sempre com dependência mútua. Circulam teorias menos nobres sobre possíveis meios de pressão, mas o essencial é que Netanyahu construiu a sua carreira política nos Estados Unidos e mantém influência profunda no Partido Republicano e em sectores do Estado.

Hoje, a estratégia da guerra permanente serve-‑ lhe também para atrasar um processo judicial por corrupção. Trump, por sua vez, empenha-‑ se em obter para o aliado uma forma de imunidade, irritando-‑ se com a recusa do presidente israelita Isaac Herzog. O último elo da cadeia é religioso. O fio que une os dois países é o chamado sionismo cristão, muito popular entre conservadores americanos e bem recebido em Jerusalém, apesar de alguns dos seus defensores serem antissemitas convictos.

Trata-se de um literalismo bíblico segundo o qual Deus atribui ao povo eleito um território vasto e liga o seu destino ao regresso do Messias. Esta visão mística permite a Netanyahu e Trump afirmar que a guerra terminará apenas com a segunda vinda de Cristo.

Desde o início, esta guerra foi concebida como um exercício de resistência que, nas intenções israelo‑ -americanas, deveria desenrolar‑ -se sobretudo no plano militar. O cálculo era simples; pois tinha como objectivo degradar rapidamente a capacidade iraniana de resposta com mísseis e drones, antes que o arsenal americano se esgotasse. Se essa aposta falhou, foi porque a subestimação do Irão atingiu também o plano económico.

Em cerca de quarenta anos, a República Islâmica estruturou uma “economia de resistência” capaz de suportar guerras, sanções e choques comerciais. O país produz internamente grande parte do que não consegue importar, ainda que com qualidade variável, incluindo medicamentos, componentes automóveis e electrodomésticos. Para isso, dispõe de centenas de indústrias distribuídas pelo território, numa estratégia de descentralização desenvolvida após a guerra com o Iraque, que revelou a vulnerabilidade das cadeias produtivas concentradas. Quando as sanções apertam, Teerão recorre à troca directa de bens por bens (escambo), permutando petróleo por alimentos e maquinaria.

A estratégia de substituição de importações e de criação de rotas alternativas a Hormuz ganhou força durante a primeira administração Trump, cuja política de “pressão máxima” expôs fragilidades internas mas também acelerou a capacidade iraniana de adaptação.

Décadas de embargo, durante as quais Teerão foi impedida de se apoiar plenamente no rendimento energético, produziram, paradoxalmente, uma das economias mais diversificadas e industrializadas da região. O petróleo continua a ter grande peso e, durante este conflito, o Irão manteve as exportações sobretudo para a China a um ritmo de quase três milhões de barris por dia, gerando receitas que fluem em grande parte para os Pasdaran.

No entanto, cerca de dois mil milhões de dólares por mês provêm da exportação de metais, produtos químicos e alimentos. Trata-se de um sistema que, apesar das disfunções evidentes, preservou o impulso modernizador das décadas de 1960 e 1970, colocando a base industrial erguida pela monarquia Pahlavi ao serviço da revolução.

Este modelo enfrenta agora a sua prova mais difícil. Desde 28 de Fevereiro, Israel e Estados Unidos atingiram uma infinidade de alvos em território iraniano, sobretudo infra-‑ estruturas civis com uso industrial.

Assim agravaram uma economia debilitada pelas sanções e por uma inflação de 40%, simultaneamente causa e efeito dos protestos do início de 2026. Apesar disso, a economia de resistência cumpriu o seu papel, pois o custo da guerra para o Irão é imenso, mas as autoridades têm como prioridade absoluta a sobrevivência do Estado, não a prosperidade salvo a sua própria. Ainda existe muita economia civil para ser sacrificada em benefício da máquina bélica.

25 Jun 2026

Meu querido robot (I)

Notícias recentes destacaram um fabricante chinês de robótica especializado em inteligência artificial (IA) e robots humanoides. Com sede em Shenzhen, na China, a empresa está cotada no quadro principal da Bolsa de Valores de Hong Kong. A 29 de Dezembro de 2023, era a primeira empresa do ramo na Bolsa de Valores de Hong Kong, com uma capitalização de mercado de aproximadamente 54,5 mil milhões de Hong Kong dólares.

A empresa acabou de lançar uma pré-venda global destes robots hiper humanoides de tamanho real em JD.com, a 2 de Junho. Os dois modelos actualmente disponíveis, em versão masculina e feminina, são loiros, altos, com rostos delicados e pele tão lisa como a de um humano. O robot masculino mede 1,83 m e pesa 42 kg. O robot feminino mede 1,68 m e pesa 35,2 kg. Ambos têm uma tecnologia que permite 88 graus de liberdade (ou seja, a soma dos servo-motores e articulações incluindo as articulações dos dedos) e expressões faciais mais ricas. A bateria incluída dura de 2 a 4 horas com uma única carga. Os novos produtos não terão mais desenvolvimentos.

A empresa sublinha que o a função destes robots é fornecer “companhia emocional”, direccionando-se a pessoas que carecem de ligações afectivas, como idosos solitários, jovens que vivem sozinhos e famílias que necessitam de companhia e cuidados parentais.

Após o anúncio, aproximadamente três mil clientes já fizeram a sua encomenda. A pré-venda do robot levantou várias questões. A empresa não especificou o preço, exigindo apenas que os clientes paguem 3.000 RMB ao fazerem a pré-encomenda. Muitos internautas também estão preocupados com a capacidade do robot para tratar das tarefas domésticas, como lavar roupa e loiça.

No entanto, as suas capacidades de IA do robot são um foco principal; as pessoas perguntam-se se consegue compreender as instruções do proprietário e concluir tarefas de forma rápida e eficaz. Além disso, ao ser usado para proporcionar conforto, apoio emocional ou participar numa conversa como faria um amigo próximo ou um parceiro, existirão assuntos “tabu” para o robot, como recusar executar certos comandos sensíveis? Estas questões aguardam esclarecimentos adicionais por parte da empresa; os detalhes são atualmente desconhecidos.

O tema desta notícia é de fácil compreensão, mas levanta muitas questões dignas de consideração:
Primeiro, o preço do robot ainda é uma incógnita. O mercado estima que custará entre 15.000 e 30.000 US dólares, o que equivale aproximadamente a um intervalo entre 117.000 e 234.000 de Hong Kong dólares. Este valor corresponde sensivelmente ao preço do robot Tesla Optimus, que será vendido nos EUA entre os 20.000 e os 30.000 dólares. No entanto, devido às diferenças nos padrões de vida e no rendimento nacional entre a China e os EUA, bem como às diferenças dos custos da cadeia de abastecimento e ainda à escala da produção em massa de motores auto-desenvolvidos, espera-se que o preço final difira das previsões de mercado.

Em segundo lugar, que percentagem do total de clientes já encomendou o robot? Isto é uma preocupação tanto para as empresas como para o mercado. Esta informação será uma referência importante para empresas e concorrentes na produção de robots semelhantes.

Em terceiro lugar, os comentários online indicam que muitos internautas estão preocupados com a capacidade do robot de lidar com tarefas domésticas, como lavar roupa e loiça. Isto reflecte uma certa procura do mercado por robots capazes de realizar tarefas domésticas. No entanto, a empresa está actualmente a apostar no robot enquanto companheiro que proporciona apoio emocional. Qual é o nível de procura deste produto no mercado? Esta é uma questão que só pode ser respondida depois de concluídas as vendas.

Em quarto lugar, relatos da comunicação social indicam que o robot Tesla Optimus tem aproximadamente 40 graus de liberdade, e o Unitree H1 tem apenas 20 graus. Este actualmente à venda tem 88 graus de liberdade e expressões mais sofisticadas, permitindo aos humanos expressar mais emoções e, assim, alcançar apoio afectivo. No entanto, o apoio emocional e a comunicação são questões complexas; uma única frase pode ter múltiplos significados. Será que o sistema de IA deste robot consegue compreender e processar melhor as questões emocionais humanas?

Em quinto lugar, a autonomia da bateria do robot é de apenas 2 a 4 horas, insuficiente para ser usado durante todo o dia. Isto significará que o robot passará mais tempo a carregar do que a ser usado? Esta situação pode comprometer o interesse dos potenciais clientes.

Continua na próxima semana.

 

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo

23 Jun 2026

O calor mata

Segundo os números oficiais, o calor extremo em Portugal continental, no ano passado, levou a um total de aproximadamente 530 mortes. Este ano, as previsões indicam que o número mortal poderá chegar aos mil. Neste mês de Junho têm-se verificado temperaturas anormais para esta altura do ano.

Ao longo da semana passada os serviços meteorológicos avisaram que em certas zonas do interior do país a temperatura pode chegar aos 50 graus. É assustador para os mais velhos e para quantos sofrem de hipertensão e vivem em casas sem climatização. Ora, aqui está o busílis deste assunto. São casas construídas há dezenas de anos e normalmente com três ou quatro pisos. Quem viva no último andar é um verdadeiro forno insuportável e que tem levado milhares de cidadãos para o hospital ou para a morgue.

Os sucessivos governos nunca se preocuparam em criar uma ajuda financeira às famílias mais vulneráveis para a obtenção de um aparelho de ar condicionado a instalar nas suas casas. Teria sido o mínimo que as “inteligências” governamentais podiam ter feito.

O calor em Portugal é seco, a humidade do ar cifra-se nesta altura do ano abaixo dos 50%. E esta característica ambiental é que leva muita gente ao sofrimento. Há dias, um amigo que veio de férias e que nasceu no Canadá disse-nos ter ficado estupefacto pela falta, quase generalizada, dos prédios sem climatização. E a compra de um aparelho de ar condicionado e respectiva instalação não é coisa barata e acessível à maioria das bolsas dos portugueses. Parece algo de simples e, em Macau, os residentes sabem bem da importância de se possuir ar condicionado em casa.

No entanto, em Portugal não há um governante, especialmente a ministra da Saúde, que se preocupe com tantos compatriotas que morrem todos os anos devido ao calor. É que 50 graus matam mesmo para quem está habituado a sentir, no máximo, 40 graus. O calor mata mesmo e não é uma falácia.

Muitas vezes, os que podem, procuram as praias marítimas ou fluviais para se refrescar e não levar com a onda de calor registada durante o dia. Acontece que em Junho, as praias ainda não têm vigilância e existem no mar os perigosos agueiros e nos rios as ramagens que caíram das árvores e que um mergulho do banhista pode ser fatal.

Nas duas últimas duas semanas já morreram afogados cerca de dez cidadãos no mar ou num rio. Obviamente que a inconsciência e a irresponsabilidade dos que frequentam essas praias e rios é indiscutível. No entanto, as autoridades deviam a partir de 1 de Junho iniciar a época balnear e todas as praias mais frequentadas estarem vigiadas.

A propósito de praias, com ou sem vigilância, temos assistido a uma discussão frenética nas praias com mais banhistas. Imaginem que a desordem já teve de incluir a ministra do Ambiente, a fim de declarar que as praias são um espaço público.

E porquê? Porque os concessionários de toldos e barracas têm dado uma grande “barraca” ao pretenderem proibir que em frente à concessão haja alguém que coloque na praia o seu chapéu do sol. Era o que faltava termos agora praias privadas para os senhores concessionários. Já não basta a vergonha do que se tem passado na Comporta de Tróia e na Arrábida, onde os milionários proibiram o uso das “suas” praias, imbróglio que já passou para a orla judicial, havendo tribunais que discordam com as decisões do Governo, o qual decidiu serem as praias um espaço público.

Portugal é um país de sol, de turismo, de boas praias, mas não pode ter o seu povo em casas sem climatização onde se sofre e morre de calor.

P. S. – Na Assembleia da República a proposta do Governo sobre reforma laboral foi chumbada. Uma grande vitória dos trabalhadores cuja proposta revertia ao século XIX os direitos dos trabalhadores.

22 Jun 2026

O umbral da desordem mundial (I)

“When a political community loses the courage to name reality, it also forfeits the capacity to shape it.”

Adrian Leclerc, European Letters on Power

Avançamos para Gibraltar como o último estreito ainda livre que nos liga ao grande oceano e que, pela sua centralidade geoestratégica, deveria converter à fé até o mais céptico. Observado a partir do centro do poder europeu, o assalto israeloamericano ao Irão assume a forma de um cerco progressivo, no qual a Europa corre o risco de se ver confinada a um mar interior crescentemente condicionado.

A antiga noção de “ponte oceânica” entre territórios e rotas globais dissolve-se à medida que, de leste a oeste, se fecha uma válvula após outra. Hormuz arde, Bāb alMandab encontrase sob fogo e o Suez é atingido pelas guerras de reacção desencadeadas após o 7 de Outubro. Sobre os estreitos turcos, fronteira entre o Mar Negro como palco da disputa russo-ucraniana e um Mediterrâneo oriental em convulsão com o epicentro em Chipre, reina igualmente um silêncio inquietante.

Nem o Estreito da Sicília oferece tranquilidade, dada a presença assertiva da Turquia na margem sul, a influência russa na Cirenaica e a pressão dos conflitos permanentes entre o Sahel e o Corno de África. Mais a oeste, a situação melhora apenas marginalmente, condicionada pelas reivindicações argelinas sobre zonas marítimas adjacentes, às quais se responde com prudência devido à dependência energética europeia.

É previsível, nos próximos meses, um movimento migratório de grande escala proveniente do sudeste em direcção ao continente europeu, evocando em alguns espíritos a travessia bíblica do Mar Vermelho. O caos aproxima-se. O colapso do império marítimo americano repercute-se directamente sobre nós.

A ofensiva desencadeada a 28 de Fevereiro por Trump, actuando como aliado subordinado de Israel contra o Irão, marca o crepúsculo da talassocracia americana. Um império em declínio perde a capacidade de controlar os pontos de estrangulamento estratégicos que constituíam o sistema nervoso da sua hegemonia, agora em dissolução.

A situação representa uma humilhação particular para a Marinha dos Estados Unidos, herdeira da antiga supremacia britânica. O motim a bordo do seu maior porta-aviões, o Gerald Ford, temporariamente imobilizado após danos provocados por marinheiros exaustos depois de quase um ano de missões contínuas, revela o estado de degradação da “Armada” na qual Trump confiava para esmagar a República Islâmica.

O caos alastra pelas instituições, estruturas administrativas, órgãos de decisão, burocracias e centros de influência de Washington e pelo próprio governo federal, onde o presidente, num estilo errático, acumula vantagens pessoais enquanto fomenta conflitos internos. Chega mesmo a ameaçar com a saída da NATO, que descreve como “tigre de papel”.

A comparação com Nero torna-se inevitável. Entre as frases apócrifas atribuídas a Mark Twain, uma parece ajustar-se ao auto-afundamento do líder americano ao afirmar que “Deus criou a guerra para que os americanos aprendessem geografia.” E, acrescentar-se-ia, história. Missão falhada. Apenas uma minoria dos cidadãos dos Estados Unidos consegue localizar o Irão num mapa; muitos pensam tratar-se de um país árabe e confundem-no com o Iraque; poucos o identificam como a antiga Pérsia.

(Continua)

18 Jun 2026

Quanto valem os teus pés?

Aconteceu algo na internet com o fetiche de pés: os pés são agora vistos como uma potencial fonte de rendimento na indústria do sexo online. Nos últimos anos o fetiche por pés ganhou mais visibilidade e por isso também cresceu uma visão mais mercantilista.

Se antes se julgava que era preciso revelar zonas do corpo mais íntimas para explorar a indústria sexual, hoje algo tão inócuo como uma fotografia de uns pés bem cuidados tem valor na indústria do sexo e do fetiche. Há quem venda fotografias de pés e há quem os esconda (e.g., colocando emojis ou desfocando fotografias), porque os pés não são grátis.

O resultado: a internet está agora cheia de vídeos informativos e de manuais explicativos de como te tornares numa modelo de pés, e como rentabilizar com isso. Tentei perceber se era assim simples: se vender fotos de pés é dinheiro fácil e garantido. E apesar do espaço digital insinuar que é um caminho para complementar as finanças, uma pesquisa mais aprofundada mostra outra realidade.

A maioria dos sites que se dizem dedicados à venda de conteúdo de pés parecem sites fantasma com muitas criadoras e poucos clientes. Curiosamente, estes sites exigem uma mensalidade para as criadoras de conteúdo de pés poderem publicar, com promessas de muita rentabilidade – e a maioria delas vê o seu investimento por um canudo. Os sites do costume de venda de material erótico são as plataformas onde a experiência de venda poderá ser melhor. Mas isso implica a criação de uma persona, e a contínua produção de conteúdos exclusivos, e até vídeos personalizados. Da mesma forma que um influencer ganha seguidores, é preciso envolver os pés numa narrativa. O contexto em que os pés são apresentados conta tanto quanto os próprios pés.

Uma das pessoas que deu que falar recentemente, foi Lily Allen, cantora pop que garante que faz mais dinheiro a vender fotografias dos seus pés do que com a sua música nas plataformas musicais. Sendo uma celebridade, existe já um investimento afectivo e fantasístico por parte do público que aumenta o valor desse conteúdo. Já existem há muitos anos sites que tentam apanhar fotografias de pés de celebridades, contando com um repositório bem recheado de actrizes e cantoras a andar de sandálias. O envolvimento proactivo de uma celebridade nesta mercantilização coloca o fenómeno noutra escala. Para se proteger da crítica feroz – porque tudo o que implica a indústria sexual tem esse senão – “não odeiem a jogadora, odeiem o jogo”, diz ela em entrevista para o People.

Mas as especialistas de venda de conteúdo sobre pés dizem que o mercado pode já estar saturado – já existem pés para todos os gostos. E talvez isso reflita a facilidade com que as pessoas se meteram no negócio. E apesar de elas não sentirem como tal – porque para elas os pés podem só ser partes inocentes do corpo – a venda de conteúdo com propósito sexual encaixa na categoria de trabalho sexual.

O que quero dizer com isto: precisam de se precaver legalmente nesse sentido. Confirmar que as criadoras são maiores de 18 anos e os seus consumidores também. Porque o que torna os pés rentáveis é a fantasia sexual que se constrói à sua volta. E a fantasia é co-construída, apesar de mediada pelo espaço digital. Cada vídeo personalizado implica um encontro com a fantasia sexual do cliente, num acto de intimidade.

Então, quanto valem os teus pés? Provavelmente menos do que a internet te promete. Mas a pergunta continua a ser reveladora. Porque mostra como uma parte banal do corpo se torna, simultaneamente, objecto de desejo, oportunidade de negócio e tema de discussão cultural. Num mundo onde tudo parece poder ser transformado em conteúdo, talvez os pés sejam apenas mais uma prova de que a imaginação humana — e os mercados — raramente conhecem limites.

17 Jun 2026

O pecado mora ao lado – análise do carácter de um juiz

Recentemente, a imprensa online noticiou que o juiz de um tribunal federal dos EUA manteve durante dois anos um caso extra-conjugal com uma oficial superior da polícia, em funções na sua jurisdição. O par tinha habitualmente relações sexuais no escritório do juiz e a escrivã do tribunal que ocupava o gabinete ao lado podia ouvi-los distintamente e, em certa ocasião, encontrou umas manchas suspeitas no sofá.

Esta funcionária, que aparentemente ficou muito traumatizada com a situação, temia que a divulgação do incidente “prejudicasse seriamente a confiança pública no sistema judiciário”. Inicialmente, o juiz “negou firmemente” as acusações, classificando-as como “absurdas e infundadas”, mas foi forçado a admiti-las depois de as provas se tornarem esmagadoras.

O relatório da investigação salientava que o departamento a que pertencia a agente da polícia tinha a seu cargo inúmeros processos criminais e cíveis dessa região. A investigação não apurou que o juiz tenha presidido a esses casos, mas também verificou que não tinha solicitado o seu afastamento.

Por outro lado, a esposa do juiz desconhecia completamente o caso. Se estes factos fossem divulgados, por exemplo, para lhe fornecer provas do adultério do marido, o magistrado federal pode ser acusado de “o risco de chantagem”.

Por fim, o juiz recebeu uma reprimenda em privado e foi obrigado a enviar cartas com pedidos de desculpa a seis funcionários do tribunal. Também assumiu o compromisso de não voltar a presidir ao Tribunal de Última Instância nem a participar em qualquer comissão judicial no futuro.

As palavras e o comportamento de um juiz reflectem o seu carácter e os seus valores morais. Um carácter recto não é uma questão meramente pessoal; implica que se é capaz de assegurar julgamentos justos e de manter o apoio e a confiança do público nos tribunais — elementos indispensáveis para a preservação do estado de direito. Por isso se costuma dizer que “nenhum caso é pequeno demais para um juiz”.

Os juízes federais dos EUA têm mandatos vitalícios e são supervisionados e investigados por comissões da Conferência Judicial. Se ocorrer má conduta, que não constitua crime grave e que não exija destituição ordenada pelo Congresso, a punição geralmente envolve uma repreensão privada ou pública. Neste caso, o envolvimento entre o juiz e a agente era uma questão privada e não um crime de “solicitação ou recebimento de benefícios mediante abuso de posição e poder”.

A nível global, existem inúmeros casos de juízes acusados de má conduta. No início dos anos 2000, um juiz júnior de Singapura foi demitido por aceitar o convite de um litigante para uma refeição. Esta situação ilustra claramente que se um juiz aceitar um suborno estamos perante um caso de corrupção judicial.

Em 2018, um juiz de um tribunal distrital em Berlim, foi demitido por assédio sexual a subordinadas. O Tribunal Constitucional Federal Alemão enfatizou que a autoridade de um juiz não deriva da sua toga, mas da sua integridade; qualquer acto que ponha em causa essa integridade constitui um atentado à lei.

Nos casos em que não há injustiça significativa no julgamento, é inadequado impor penalidades severas aos juízes. A carta de desculpas mencionada no relatório da investigação foi endereçada à escrivã do tribunal. Proibir a promoção de um juiz a Grande Juiz e a sua participação noutras comissões judiciais é uma medida importante para evitar perder a confiança do público. Acredita-se que os juízes, após receberem estas punições, serão mais cuidadosos e poderão evitar condutas inadequadas no futuro.

Do ponto de vista social, o mais importante é estabelecer um sistema adequado para prevenir e lidar com a má conduta judicial, incluindo a solicitação ou aceitação de benefícios mediante abuso de posição e poder, evitando assim julgamentos injustos. No que diz respeito à prevenção, a Lei dos Juízes da República Popular da China estipula claramente os padrões éticos profissionais.

Hong Kong e Macau possuem actualmente sistemas de declaração de bens que exigem que os juízes os dêem a conhecer para garantir sua integridade. As Leis Básicas de Hong Kong e Macau estipulam que os juízes podem ser destituídos se a sua conduta for considerada imprópria.

Em relação à ética privada, Hong Kong e Macau possuem directrizes para a conduta judicial, fornecendo aos juízes padrões de actuação que contribuem para manter a confiança do público no sistema judicial.

Voltando ao caso do juiz federal, as relações extra-conjugais são uma questão privada, mas, como ocorreram no escritório, a linha divisória entre assuntos públicos e privados é de facto ténue e difícil de definir em poucas palavras. No entanto, uma coisa é certa: o escritório é propriedade do governo federal, usado para fins de trabalho; manter relações sexuais nesse local constitui uso indevido de recursos públicos.

Este caso ocorreu nos Estados Unidos e deve ser tratado de acordo com a legislação americana. Os princípios para lidar com casos semelhantes poderiam ser incorporados nas normas de conduta judicial, fornecendo a todos os juízes orientações sobre como tratar de questões relacionadas.

Esta notícia serve como um espelho, lembrando a cada juiz que “a má conduta no exercício da função inevitavelmente levará ao desastre”. Somente quando os juízes respeitarem escrupulosamente a ética pessoal e contarem com sistemas eficazes para prevenir e lidar com julgamentos injustos, a equidade e a justiça social poderão ser verdadeiramente preservadas. Os juízes são a alma do sistema judiciário.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

16 Jun 2026

O Futebol é Q’Induca

Gostar de futebol é quase natural na maioria dos povos. Em Portugal, o futebol é fidelidade, amor e até doença pelo seu clube, seja o Benfica, FC Porto, Sporting, Chaves ou Farense. As mulheres têm aderido ao futebol progressivamente e os campeonatos femininos já arrastam muita gente aos estádios. Nos próximos tempos temos outra paixão: o Mundial com a presença da selecção nacional.

Quase todos os adeptos de futebol são treinadores de bancada ou de sofá. A escolha dos jogadores para a selecção tem dado água pela barba. É na televisão, na rádio, nos cafés e no seio familiar. “É pá, o espanhol não percebe nada de táctica!”; “Oh pá, tu já viste aquele tonto que não seleccionou o Palhinha e vai para o Mundial com quatro guarda-redes?”; “Não percebo este treinador, o Bernardo anda a fazer de Palhinha e ainda tem dúvidas se o Leão joga na extrema esquerda”; “Mas aquela espécie de treinador ainda não viu que o Gonçalo Inácio não está em forma?”; “O que eu sei é que assim que o Ronaldo sai a malta ganha!”; “Andam todos para aí a falar que ganhamos a taça, que vamos ser campeões e ainda não viram que as chances são muito poucas”. Enfim, as opiniões dos treinadores de bancada e sofá são infinitas. Na verdade, alguns “opinadores” até podem ter a sua razão, porque as experiências com o Chile e Nigéria não foram nada animadoras no que concerne a coordenação de estratégia futebolística em que possamos ter uma equipa a rolar sobre rodas, como se vê nas seleções da Alemanha, Espanha e Brasil.

Mas ainda há quem dê alento aos jogadores e equipa técnica. O Presidente da República deslocou-se à cidade do futebol e esteve com todos os membros da selecção nacional tendo palavras que caíram bem no seio dos jogadores. António José Seguro salientou que temos uma equipa de alto gabarito, com elementos de nível mundial e apelou que trouxessem o caneco para Portugal. Vamos ver como tudo começa contra o Congo, porque temos no nosso grupo um osso duro de roer que é a congénere da Colômbia.

No entanto, ao mesmo tempo que os amantes de futebol vão estar umas semanas agarrados ao televisor e aos boletins de apostas existe outro relvado onde a bola custa a girar. É o relvado plantado à beira-mar chamado Portugal, onde a economia definha, o aumento do custo de vida é mensal, onde há reformados a receber 300 euros mensais, famílias vítimas das tempestades de Janeiro que ainda não viram as suas casas reconstruídas, terrenos repletos de árvores derrubadas com a época dos incêndios à porta, aliás, que já começaram, e uma política governamental que teima em aprovar uma lei laboral que tem revoltado quem trabalha. A criminalidade está a passar das marcas.

A falta de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica é uma realidade incontornável e os salários são dos piores da Europa. Já temos quatro milhões de portugueses a viver ao nível da pobreza e a exploração na indústria hoteleira é um escândalo. Os hotéis, especialmente no Algarve, pagam mal e apenas dão trabalho durante três meses e os contratados a recibos verdes ainda têm de alugar um quarto.

Os hotéis chegam a pagar o salário mínimo a um jovem que durante quatro anos pagou um curso de gestão de hotelaria e que exerce a função de director-adjunto durante a noite sem que lhe sejam pagas a dobrar as horas nocturnas ou o trabalho aos feriados e domingos. Ninguém no Governo se preocupa com esta nódoa existente na tal indústria que se farta de apregoar que é o sustento do grande turismo existente no país do bom sol e boas praias.

Quando referimos a chegada dos incêndios é justo que se saliente as queixas apresentadas pelas corporações de bombeiros. Provam que os meios não são suficientes, que as ambulâncias não podem acudir a tudo e, muito menos, ficarem estacionadas horas e horas à porta das urgências hospitalares porque as macas ficam retidas com os doentes nos corredores. Isto, é outro futebol, onde o árbitro tem passado entre os pingos da chuva no caso grave da Spinumviva.

Vamos esperar por aquilo que vai prender o povinho durante umas semanas: o campeonato mundial de 2026 tendo como palco um país que não o merecia, onde um presidente autocrático proíbe cidadãos com bilhetes e hotéis pagos de entrar na América. De qualquer das formas, temos que também enviar um voto de confiança à equipa das quinas e como disse o Presidente Seguro, que tragam a taça para nosso orgulho. Contra os canhões, jogar! jogar!

15 Jun 2026

A Europa fortificada

(Continuação do artigo da edição anterior)

O discurso político que acompanha a reforma é um espectáculo à parte. Os líderes europeus celebram o pacto como vitória da razão sobre o caos, como se a migração fosse uma força natural indomável que só agora encontrou o seu mestre. A retórica da “ordem” e da “segurança” domina, enquanto a palavra “humanidade” aparece apenas em notas de rodapé. A Europa parece ter esquecido que a sua própria história é feita de migrações, exílios e deslocações, preferindo agora apresentar-se como bastião de estabilidade ameaçado por hordas imaginárias.

Mas é quando olhamos para Portugal que o pacto revela toda a sua ironia. O país que durante anos viveu numa espécie de “excepção mediterrânica” com fronteiras abertas, processos lentos, legalizações por acumulação e uma fé quase religiosa na Manifestação de Interesse vê agora o chão a fugir-lhe dos pés. O pacto europeu não só confirma como obriga Portugal a abandonar o seu antigo modelo.

A triagem obrigatória nas fronteiras torna impossível o velho sistema português de “entra, trabalha, espera e logo se vê”. O DecretoLei 37A/2024, que revogou a Manifestação de Interesse, não foi um capricho nacional mas o primeiro passo para alinhar com a nova ortodoxia europeia.

Portugal terá agora de criar centros de triagem rápida, recolher biometrias de todos os recémchegados e aplicar procedimentos acelerados para rejeitar pedidos considerados “manifestamente infundados”. O país que mal consegue gerir o balcão de atendimento da AIMA terá de gerir centros de triagem com prazos de 5 a 7 dias. A ironia é evidente pois a Europa exige eficiência a um Estado que ainda luta para emitir cartões de residência em menos de um ano.

O pacto também pressiona Portugal a aumentar deportações. Historicamente, Portugal deporta pouco e mal; agora terá de alinhar com a nova métrica europeia de sucesso e “decidir rápido, devolver depressa”. A cooperação com países de origem será reforçada, e a irregularidade deixará de ser tolerada como fenómeno quase folclórico.

As implicações para os migrantes em Portugal são profundas. Quem está no país com processos pendentes não será automaticamente afectado, mas enfrentará um ambiente mais rígido, com maior escrutínio e menor margem para regularizações por via administrativa. Quem ganha salário mínimo, a esmagadora maioria, verá renovação de títulos mais difícil, porque o pacto incentiva critérios económicos mais estritos. Quem entra sem visto adequado será automaticamente canalizado para triagem e, muito provavelmente, para recusa. O velho truque de entrar como turista e “tentar a sorte” morreu oficialmente em 2026.

Os beneficiários do Acordo CPLP, que durante algum tempo viveram numa espécie de paraíso documental, verão a porta estreitar-se. O pacto não revoga a CPLP, mas pressiona Portugal a aplicar critérios de rendimento, antecedentes e integração com maior rigor. A autorização automática transforma-se em autorização condicionada.

A irregularidade, antes tolerada como inevitabilidade administrativa, passa a ter consequências reais. A recolha biométrica obrigatória e a partilha de dados com o sistema europeu tornam mais difícil “desaparecer” no sistema. A Europa quer saber quem entra, quem sai e quem fica e Portugal terá de alinhar.

O pacto é, em última análise, reflexo de uma Europa que perdeu a confiança na sua própria narrativa moral. Durante décadas, a União apresentouse como farol de direitos humanos, modelo de integração e exemplo de solidariedade. Hoje, parece mais preocupada em proteger-se do mundo do que em transformá-lo. A reforma migratória é sintoma desta mudança com uma Europa defensiva, ansiosa e obcecada com controlo. Portugal, apanhado no turbilhão, abandona o seu modelo improvisado e adopta o casaco apertado da ortodoxia europeia.

Nada disto significa que a migração não exija regulação. Exige, e muita. Mas a questão é saber que tipo de regulação se pretende; será uma que reconheça a dignidade humana como princípio orientador ou uma que trate pessoas como variáveis de um problema logístico. O pacto inclina-se perigosamente para a segunda opção, reduzindo a complexidade humana a categorias administrativas.

A reforma migratória europeia é, assim, menos um avanço e mais um espelho. Um espelho que mostra uma Europa que não sabe muito bem quem é, mas sabe perfeitamente quem não quer deixar entrar. E Portugal, fiel ao seu hábito histórico de seguir a corrente, adapta-se, ajusta-se e resigna-se, enquanto tenta convencer-se de que tudo isto é modernização e não apenas uma mudança de humor continental.

12 Jun 2026

A Europa fortificada

“The real problem of humanity is the following: we have paleolithic emotions, medieval institutions, and godlike technology.” – Edward O. Wilson

O recém-aprovado Pacto Europeu para a Migração e Asilo, celebrado entre 2024 e 2026 com a solenidade típica de quem acredita ter reinventado a roda, apresenta-se como a grande obra civilizatória da União Europeia no domínio migratório. A sua aprovação formal, concluída entre Abril e Maio de 2024 com o Parlamento Europeu a dar o primeiro sinal verde a 10 de Abril e o Conselho a fechar o processo a 14 de Maio foi anunciada como um triunfo histórico. A entrada em vigor, porém, segue o ritmo habitual da burocracia europeia sendo lenta, cerimoniosa e estrategicamente espaçada. O pacto só se tornará plenamente aplicável em 2026, após um período de adaptação que permite aos EstadosMembros fingirem que estão a preparar-se enquanto tentam perceber como vão cumprir regras que eles próprios aprovaram.

A narrativa oficial proclama que o pacto representa equilíbrio, solidariedade e modernização. Na prática, funciona como um manual de instruções para transformar fronteiras em filtros industriais, onde seres humanos entram como “fluxos” e saem como “decisões administrativas”. A Europa descobriu, enfim, que a melhor forma de lidar com a complexidade é simplificá-la até ao absurdo, convertendo dilemas humanitários em tabelas Excel e reduzindo a mobilidade humana a um problema de gestão logística.

A triagem obrigatória nas fronteiras externas apresentada como inovação brilhante consiste, basicamente, em transformar aeroportos e portos em salas de espera jurídicas onde se decide, em poucos dias, o destino de quem chega. O objectivo é separar rapidamente quem “merece” protecção de quem “não merece”, como se a vulnerabilidade humana pudesse ser avaliada com a mesma objectividade com que se avalia a maturação de um queijo. A promessa de rapidez é vendida como garantia de eficiência, mas o subtexto é evidente pois quanto mais depressa se decide, mais depressa se pode recusar.

A isto soma-se o mecanismo de “solidariedade obrigatória”, expressão que só a União Europeia conseguiria inventar sem corar. Os Estados Membros podem escolher entre acolher requerentes de asilo, financiar operações noutros países ou pagar para que outros façam o trabalho sujo. É a solidariedade convertida em menu de restaurante em que cada país escolhe o prato que lhe convém, desde que pague a conta. A ideia de que a responsabilidade comum se resolve com transferências financeiras é um triunfo da criatividade burocrática, mas também um retrato fiel de uma Europa que prefere cheques a compromissos.

O pacto reforça igualmente as parcerias com países terceiros, transformando vizinhos geográficos em porteiros terceirizados da fortaleza europeia. A lógica é simples; se a Europa não quer lidar com migrantes, que o façam países com menos escrúpulos e mais necessidade de financiamento. A externalização do controlo migratório é apresentada como cooperação internacional, mas na realidade aproximase mais de um outsourcing moral. A União paga, os outros contêm, e todos fingem que se trata de uma estratégia humanitária.

A reforma introduz ainda procedimentos fronteiriços obrigatórios para quem vem de países com baixas taxas de reconhecimento de asilo. A presunção de improcedência transforma-se, assim, em política pública. Em vez de avaliar cada caso, avalia-se a nacionalidade, como se a dignidade humana fosse uma estatística. A Europa, que tanto se orgulha do Estado de Direito, parece agora confortável com a ideia de que alguns direitos são mais direitos do que outros, dependendo do passaporte.

O pacto também promete acelerar deportações, porque nada diz “eficiência europeia” como um voo charter cheio de pessoas que não se enquadram nos critérios da nova engenharia migratória. A narrativa oficial insiste que se trata de garantir ordem e previsibilidade, mas o resultado é uma máquina administrativa que mede o sucesso pelo número de expulsões realizadas. A Europa, outrora defensora de valores universais, parece agora medir a sua virtude pela velocidade com que fecha portas.

A reforma é apresentada como resposta ao aumento dos fluxos migratórios, como se a mobilidade humana fosse uma anomalia recente e não uma constante histórica. A verdade é que a Europa continua presa à ilusão de que pode controlar o mundo com regulamentos, ignorando que as causas profundas da migração com conflitos, desigualdades e alterações climáticas não desaparecem por decreto. O pacto é, nesse sentido, uma tentativa de gerir sintomas enquanto se ignora a doença.

(Continua)

11 Jun 2026

Lai Ka-ying – a caminho das estrelas

Na vastidão do espaço e no âmbito da expansão do programa espacial nacional, um nome brilha intensamente: Lai Ka-ying, a primeira astronauta de Hong Kong.

Lai Ka-ying fez a licenciatura, o mestrado e o doutoramento na Universidade de Hong Kong. A sua tese de doutoramento focou-se no cibercrime e na informática forense. Depois de terminar os estudos universitários, Lai ingressou em 2012 na Unidade de Apoio Técnico (TSD sigla em inglês) do Gabinete de Informação Criminal da Polícia de Hong Kong na qualidade de técnica especializada tendo ascendido depois ao posto de superintendente.

A jornada espacial de Lai começou com a oportunidade histórica apresentada pela primeira selecção nacional de especialistas de Hong Kong e Macau em carga útil. Enfrentando critérios de selecção extremamente rigorosos, destacou-se entre centenas de candidatos excepcionais.

Este processo de selecção não analisava apenas os conhecimentos académicos, era também o derradeiro teste à adaptabilidade psicológica, à tolerância ao stress e à resistência física. Depois de várias rondas eliminatórias, que incluíram uma selecção preliminar, uma semi-final e uma selecção final, Lai, com o seu vasto conhecimento, resistência mental impecável, e físico excepcional, aprimorado depois de um treino intensivo, acabou por passar o rigoroso processo de selecção nacional e passou a fazer parte do quarto grupo de astronautas na reserva. Foi seleccionada para a missão espacial tripulada Shenzhou-23, tornando-se oficialmente a primeira astronauta de Hong Kong.

Até atingir este magnífico estrelato teve de percorrer um caminho cheio de escolhas e sacrifícios e o marido, Anson Ho, foi o seu maior apoio ao longo desta jornada. Anson, também ele com um excelente percurso profissional, é o pilar da família.

Quando soube que a mulher tinha sido seleccionada como astronauta e teria de se submeter a um treino à porta fechada, demorado e intensivo, em Pequim, não hesitou nem por um momento e tomou a decisão de desistir da sua carreira profissional em ascensão em Hong Kong. Para realizar o sonho da esposa de viajar pelo espaço, Anson tomou a responsabilidade de realojar a família em Pequim. Num ambiente completamente estranho, Anson organizou incansavelmente toda a logística complicada de instalar a família numa nova cidade, construindo um refúgio seguro para a mulher e os seus três filhos.

Esta não foi a primeira vez que Anson apoiou os sonhos de Lai. Ao longo do casamento, foi repetidas vezes o herói anónimo da jornada de Lai. No início do casamento, quando Lai escrevia até altas horas da noite a sua tese de doutoramento, Anson estava sempre presente, apoiando-a discretamente e partilhando todas as tarefas domésticas.

Desde essa altura, até aos dias de hoje, Anson esteve sempre presente para apoiar os seus sonhos. Em 2011, Lai manifestou publicamente o seu grande afecto pelo marido, durante a apresentação da tese de doutoramento, afirmando que ele “se dedicou totalmente e que a acompanhou no período mais difícil da sua vida,” acrescentando que “sem o meu marido, teria sido impossível terminar a tese.” Pode dizer-se que cada progressão na carreira de Lai, cada distinção que recebeu, são um testemunho dos incontáveis dias e noites de dedicação silenciosa do marido.

O sucesso de Lai assenta certamente nos seus extraordinários feitos académicos, nas suas capacidades excepcionais e na sua robustez física, mas o amor incondicional do marido e o seu apoio são-lhe indispensáveis. Em 2024, Lai foi oficialmente seleccionada como parte do grupo de astronautas da China, exigindo que fosse submetida a um treino intensivo em Pequim. Para permitir que a esposa embarcasse nesta aventura, Anson, no auge da sua carreira, demitiu-se da sua posição no Departamento de Autoestradas de Hong Kong.

Mudou-se para Pequim com os gémeos de 11 anos e a filha de 9, para cuidar da família. Este apoio transcende o amor romântico; é uma força poderosa, entrelaçada com profundo afecto e fortes laços familiares. É fácil imaginar as dificuldades que Anson enfrentou para cuidar de uma família numerosa ao mesmo tempo que apoiava a carreira espacial da mulher em Pequim. Um antigo provérbio chinês diz o seguinte,

“Os pais que amam os filhos planeiam o seu futuro; os casais que se amam criam um paraíso um para o outro.”

O poeta britânico Browning disse certa vez, “Ele subiu em direcção ao sol, e ela seguia-o de perto.”

Mas neste caso “Lai vai em direcção às estrelas, enquanto Anson guarda a família.” É o amor em estado puro que mantem a família unida, permitindo que as três crianças aprendam o que é a compreensão e a dedicação, ao mesmo tempo que aquece o coração de Lai mesmo quando ela tem de se confrontar com o tédio e as dificuldades dos treinos de adaptação às condições do espaço. Não admira que na entrevista que deu antes do lançamento da missão Shenzhou-23, Lai tenha agradecido ao marido pela sua dedicação e por desempenhar o papel de pai e de mãe, e por confortar a filha mais nova que lhe é chegada, quando lhe diz, “O Papá toma conta da nossa família, e a Mamã trabalha para o bem de todos.”

Em última análise, a família de Lai é uma pequena comunidade que prospera graças ao amor. Neste lar, o amor não se desgasta com a rotina diária. Pelo contrário, é temperado e fortalecido. Os laços familiares não enfraqueceram devido à distância geográfica; em vez disso, ainda se enraizaram mais. É precisamente por causa deste constante cuidado com o amor que esta família é saudável, feliz e resistente.

A jornada de Lai ao espaço é um “hino ao amor” composto pelo mais forte laço entre um casal e pela conjugação de esforços da família. A nação acolheu a primeira astronauta de Hong Kong, mas também acolheu esta família cheia de amor e carinho. A astronauta de Hong Kong e o seu marido encorajam-se e apoiam-se mutuamente, contribuindo para a felicidade da sua família. Por detrás desta grande astronauta está o lar mais caloroso e perfeito com que podemos sonhar.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

9 Jun 2026

Nem no fascismo

Senhor primeiro-ministro, Luís Montenegro: que polícia é esta, a sua? Eu tenho a resposta. Uma polícia pior que aquela que existia no fascismo, no tempo de Salazar/Caetano. Infelizmente, saboreámos as bastonadas na polícia de choque em 1969 quando nos atrevemos a participar numa pequena manifestação, quando não havia liberdade de reunião e de manifestação.

No entanto, poucos dias depois a polícia de choque recebeu indicações para se dirigir à cidade universitária de Lisboa e banir fortemente com um grupo de estudantes que estava num género de comício a falar mal da ditadura. O que vos posso dizer é que o comandante da polícia de choque mandou parar as viaturas policiais perto do hospital de Santa Maria e, como estava quase a anoitecer, não avançou mais e esperou que os jovens dispersassem. Não optou por violência, por bastonadas e por detenções. A Constituição que ainda temos é bem explícita em permitir a liberdade de reunião e manifestação. Mas, o que aconteceu em frente à Assembleia da República foi uma vergonha, apenas justificada para que Montenegro possa dizer em Bruxelas que tem uma polícia muito “eficiente” que prende quaisquer anarquistas.

A central sindical CGTP promoveu uma greve geral e em várias cidades do país realizaram-se manifestações de protesto contra o pacote laboral que o Governo pretende implementar contra todos os direitos existentes dos trabalhadores. No final da manifestação, os dirigentes da CGTP e a maioria dos manifestantes dispersou.

Na base da escadaria da Assembleia da República foram colocadas baias metálicas e tudo correu bem. A rua frontal à escadaria foi vedada ao trânsito. Tudo tinha corrido às mil maravilhas. Um grupo de jovens manteve-se a mais de cinquenta metros da escadaria e depois de cantar o Grândola, Vila Morena ficou na conversa bebendo umas cervejas.

A dado momento, abriram a rua ao trânsito e os jovens não gostaram com receio de serem atropelados e tentaram impedir a passagem dos carros. Acto contínuo, apareceram polícias que começaram à bastonada aos jovens e a atirá-los para o chão. Um dos jovens atirou uma garrafa de cerveja contra os polícias. A repórter da CMTV dizia que eram “várias” garrafas e que feriram um polícia… Chegou a polícia de choque, talvez para mostrarem o novo equipamento e uns capacetes especiais e começou a desancar bastonadas e agressões aos jovens. Um espectáculo degradante quando atiraram para o chão puxada pelos cabelos uma moça que ficou de pernas ao léu até às cuecas e foi algemada.

A polícia de choque continuou a intervir violentamente para retirar o grupo de jovens do local e começou um show policial nunca visto em democracia. Nem no tempo do fascismo. Pelas ruas circundantes os jovens eram perseguidos à bastonada.

No entretanto, os jovens queimaram dois caixotes de lixo e um comentador do canal NOW dizia que os “muitos” caixotes de lixo queimados era um acto de anarquistas que podiam invadir o edifício da Assembleia da República… e a polícia de choque continuava a perseguir pelas ruas os jovens. Numa rua com escadaria até uma jovem aparentando ser menor, com a sua mochila escolar, foi atirada ao chão e outra foi ferozmente agredida à bastonada. O tal comentador nem sabe o que são anarquistas, porque se o fossem, o caso seria muito sério porque anarquistas experientes estariam nos terraços dos prédios a atirar coquetéis Molotov para cima dos polícias que ficariam queimados. Os polícias tinham-se metido mesmo na boca do lobo…

A vergonhosa actuação da polícia de choque durou um tempo infindável escorraçando todos os jovens para muito longe do local onde tinha terminado a manifestação da CGTP.

Com cerca de quarenta carrinhas policiais para cerca de três dezenas de jovens, a polícia apresentou o seu troféu: seis jovens detidos e que foram presentes a um juiz. Tudo inqualificável. Uma acção policial sem senso, sem lógica e sem democracia. Será este o futuro que espera ao povo? Uma polícia que não controla assaltos a ourivesarias, a restaurantes a casas de jogadores de futebol, a postos de combustível, mas que está pronta no imediato para agredir uns miúdos que não estavam a prejudicar ninguém? Não, senhor primeiro-ministro.

O que aconteceu deve envergonhar o governo de um país dito democrático, apesar de haver gente que achou muito boa a intervenção policial. O nosso desprezo para essa gente. As imagens foram chocantes e repugnantes e o senhor Montenegro deve vê-las para refectir sobre o que se passou e que o show infeliz não se repita. Recorde-se, que eram cerca de 100 polícias para agredir 30 jovens. Uma realidade triste, que indignou qualquer democrata que se preze. Desta forma, já há quem acredite que a democracia pode ter os dias contados.

8 Jun 2026