André Namora Ai Portugal VozesA fraude das fraudes Portugal passou a ser um terreno fértil para que os burlões internacionais se instalassem e ganhassem milhões de euros. Os inocentes, os incautos, os desconhecedores do avanço na tecnologia informática e, especialmente, os pais que adoram os filhos tinham-se deixado cair na burla conhecida como “Olá pai, olá mãe”. Os burlões através da Inteligência Artificial conseguiam obter a voz idêntica à de uma filha ou filho e ligavam para um dos pais dizendo que tinham perdido o telemóvel, que estavam a ligar de um aparelho de um amigo e que lhe transferisse, para um número de conta que indicavam, determinada quantia para comprar um novo telemóvel. Centenas ou milhares de pais que caíram na burla e que só vinham a descobrir a mentira depois de estarem pessoalmente com os filhos e estes informarem que não fizeram qualquer telefonema para a mãe ou pai. Os burlões ganhavam centenas de milhares de euros e a maior parte já fugiu. As fraudes sucedem-se de todo o género. Na semana passada, o país ficou pasmado quando tomou conhecimento que um esquema de carrossel lesou o Estado em mais de 155 milhões de euros, ao longo dos últimos três anos, com os impostos dos telemóveis. Ou seja, foi uma das maiores operações conjuntas da Polícia Judiciária (PJ), Autoridade Tributária e GNR de que há memória. Mais de 1100 operacionais e cerca de 250 buscas e 40 detenções em todo o país, para desmantelar um esquema de fraude fiscal que terá lesado o Estado em quase 200 milhões de euros, com o chamado “carrossel do IVA”, na compra e venda de telemóveis. Então, como era o esquema? Mais de uma centena de empresas serviram de fachada para a circulação do dinheiro da fraude. Um inspector da PJ explicou ao Hoje Macau que “esta actividade criminosa se centrava num esquema de fraude fiscal denominado carrossel que procurava utilizar as fragilidades naturais decorrentes do regime de tributação em sede do IVA quando nos encontramos perante transacções intracomunitárias de bens”. O esquema terá permitido ao grupo lucrar de duas formas. Após um negócio livre de impostos entre empresas da União Europeia, pedia o reembolso do IVA através de negócios simulados com diversas firmas de fachada. E o que é o ‘carrossel do IVA’? Explico: as mercadorias são postas a circular rapidamente entre empresas de fachada de vários países da UE, beneficiando da isenção do IVA intracomunitária. Ao longo deste carrossel, uma empresa, a “missing trader” ou “empresa não declarante”, cobra o IVA, mas não o entrega. Uma das empresas seguintes vende o produto e depois pede o reembolso do IVA que diz ter pago à anterior. O Estado devolve o valor que não recebeu e nunca irá receber porque, entretanto, a empresa “missing trader”, que era de fachada, desapareceu, sem pagar um cêntimo. A UE perde milhões com esta fraude. Em 2023, foi estimada uma quantia de 128 mil milhões de euros de IVA por cobrar, onde também se incluíam insolvências e erros. Além das fraudes. A Procuradoria Europeia, só para terem uma ideia, tem activas 981 investigações sobre IVA que representam perdas de receitas na ordem de 45 mil milhões de euros. A fraude era um maná. O grupo agora apanhado pela PJ usava a Amazon para escoar smartphones do “carrossel do IVA”. O tribunal de Lisboa já condenou a prisão efectiva vários líderes da rede que causou um prejuízo de 2,9 mil milhões de euros. Os telemóveis e outros acessórios eram vendidos em sites e depois ficavam com o dinheiro do IVA. O mesmo inspector da PJ adiantou-nos que “Atizas A., um cidadão paquistanês de 30 anos a residir em Almada, era conhecido como o ‘Boss’. Sozinho terá constituído uma teia com 25 empresas de fachada, que eram as ferramentas para o esquema milionário do carrossel do IVA e que foram arrestados 80 carros de luxo, 26 casas, bens de luxo e diversas contas bancárias. A megaoperação da semana passada, foi uma consequência das detenções que tinham sido feitas em Itália e Espanha, onde foram apreendidos imóveis, carros de luxo, dinheiro e moedas de ouro, no valor até nove milhões de euros. A operação policial em Portugal levou ainda à apreensão de bens e activos até ao montante de 310 milhões de euros. 40 detidos foram levados para Lisboa, a fim de serem presentes ao tribunal por crimes de associação criminosa, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Mas, que fraude! Isto, não foi uma fraude, foi uma megafraude no âmbito, quanto a nós, da incompetência generalizado no seio dos governos europeus. Portugal continua a ser um palácio para o crime organizado.
Paul Chan Wai Chi Um Grito no Deserto VozesRevelações A Internet é um mundo virtual onde muitas vezes é difícil distinguir a verdade da mentira, no entanto está repleta de revelações. Uma história, em particular, conta-nos como o bilionário americano John D. Rockefeller evitou perdas na bolsa de valores. Segundo esse relato, um certo rapazinho estava a engraxar os sapatos de Rockefeller, e disse-lhe muito entusiasmado, “Se eu tivesse dinheiro, aplicava-o todo em acções”. Rockefeller olhou para as longas filas de pessoas em frente ao banco desejosas de as comprar. Voltou à empresa e deu de imediato ordens aos empregados para venderem todas as suas acções. Tomou esta decisão porque pensou que se até um pequeno engraxador pensava que se podia fazer fortuna especulando na Bolsa, o colapso do mercado bolsista não estaria longe”. Um sentimento semelhante surgiu recentemente em Macau. Uma noite, quando conduzia para casa depois do jantar, sintonizei o rádio para ouvir um programa de música. Inesperadamente, o apresentador começou a falar sobre sofrimento emocional, ensinando aos ouvintes a forma de lidar com este problema, como se fosse um psicólogo. Quando o apresentador de um vulgar programa de rádio começa a preocupar-se com a gestão emocional dos residentes, é sinal de que Macau precisa definitivamente de mais pessoas que exponham os problemas. O Governo da RAEM deixou de publicar os números dos casos de suicídio desde o segundo trimestre de 2025. Pela imprensa, ficámos a saber que os incidentes relacionados com pessoas que caíram ao mar ou de sítios altos foram classificados como “descoberta de cadáver” pelas autoridades competentes do Governo da RAEM. À primeira vista, Macau aparenta ser uma cidade sem suicídios, mas se repararmos, verificamos que só no passado mês de Setembro se registaram seis “descobertas de cadáveres” e este mês já se registou mais um. Até à data, qual foi a eficácia do Governo RAEM na criação de mecanismos para “prevenção conjunta de quatro níveis, ligados intimamente aos tetracíclicos” na área da saúde mental? E que resultados é que o “guardião da vida” obteve? O Governo da RAEM precisa de dar uma explicação ao público, já que os conteúdos das interpelações escritas e das interpelações orais feitas pelos deputados da VIII Legislatura nunca tocaram neste assunto. Se os leitores encontrarem alguma actualização, por favor, avisem-me. Macau realizou uma série de actividades a 6 de Setembro para assinalar o “Dia Mundial de Prevenção do Suicídio”. É certamente positivo enfrentar o problema, mas mais importante ainda é resolvê-lo. Uma antiga deputada, cuja candidatura à eleições para a VIII Legislatura foi desqualificada, tinha insistido vivamente, durante a sessão de “Intervenções Antes da Ordem do Dia”, a 19 de Maio, de 2025, para que “As autoridades abandonassem a actual estratégia da avestruz e passassem a desenvolver activamente um mecanismo profissional e objectivo que atempadamente informasse a comunicação social sobre os casos de suicídio e continuassem a fornecer dados não tratados aos jornalistas de forma a que os membros da sociedade e dos sectores relacionados pudessem compreender e cuidar da saúde mental dos residentes e ficar a conhecer a tendência de suicídios em Macau”. A voz desta deputada não se ouviu mais na Assembleia Legislativa. Afinal, qual foi a resposta do Governo e que acções foram tomadas? A intenção do Governo da RAEM de transmitir aos residentes de Macau um sentimento de felicidade e de segurança é boa, mas a questão é como consegui-lo verdadeiramente e como cultivar uma atmosfera social “empática e atenciosa”. Espera-se que depois de obter os resultados do “Inquérito à Saúde de Macau 2026”, o Governo da RAEM possa fornecer serviços e apoio aos residentes necessitados. Ser capaz de esconder números não significa ser capaz de esconder problemas e resolver problemas que acabam por ser revelados não significa resolver todos os problemas. Em vez de despender um grande esforço para contar “histórias bonitas” sobre Macau, é melhor lutar para criar uma atmosfera harmoniosa, fomentar relações de proximidade entre as pessoas, e focarmo-nos menos em slogans e mais nos cuidados que garantem o sustento dos residentes. O “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias” é só uma medida temporária; mas Macau precisa de mudanças duradouras.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesQuando a paz tem cheiro a petróleo “The great enemy of the truth is very often not the lie, deliberate, contrived and dishonest, but the myth, persistent, persuasive and unrealistic.” John F. Kennedy, Yale University Commencement Address (11 June 1962). A História possui um sentido de humor particularmente cruel. Sempre que a humanidade proclama estar prestes a alcançar a paz, aparece uma factura. Desta vez, a factura poderá vir sob a forma de refinarias, campos petrolíferos e postos de combustível espalhados pelo mundo, pertencentes à gigante russa Lukoil. Porque, aparentemente, no século XXI, as pombas da paz já não transportam ramos de oliveira. Transportam contratos energéticos. Segundo uma investigação do New York Times, as negociações entre Washington e Moscovo para o fim da guerra na Ucrânia passaram a incluir discussões sobre um acordo multimilionário envolvendo activos internacionais da Lukoil. O negócio exigiria aprovação simultânea da administração americana e do Kremlin, demonstrando que, embora o capitalismo adore proclamar a sua independência, continua frequentemente a necessitar da bênção dos príncipes políticos. A situação tem algo de teatral. Durante décadas, políticos de ambos os lados do Atlântico repetiram que os valores democráticos, a soberania dos povos e o direito internacional constituem princípios inegociáveis. Entretanto, eis que as conversações sobre a paz surgem acompanhadas por uma oportunidade de negócio capaz de fazer sorrir qualquer administrador de fundos de investimento. O mais curioso não é que existam interesses económicos. Isso seria apenas a confirmação do óbvio. O verdadeiramente fascinante é a persistência com que o discurso público continua a fingir surpresa. Desde Tucídides até aos nossos dias, a política internacional raramente foi um concurso de virtudes. Foi quase sempre uma negociação entre interesses, recursos e poder. Henry Kissinger escreveu em “Diplomacy” (1994) que os Estados actuam principalmente segundo cálculos estratégicos e não por impulsos morais. A frase escandaliza apenas aqueles que ainda acreditam que as conferências internacionais são reuniões de poetas humanistas. Na realidade, são encontros onde cada participante chega acompanhado por uma calculadora. A eventual inclusão da Lukoil nas conversações sobre a Ucrânia parece confirmar essa tradição. De acordo com as informações divulgadas, o grupo empresarial em causa procura adquirir ou reestruturar activos internacionais da petrolífera russa, num processo que envolveria investidores ligados a círculos próximos de Steve Witkoff e Jared Kushner. É difícil evitar a ironia. Durante anos, as sanções económicas foram apresentadas como instrumento indispensável para pressionar Moscovo. O raciocínio era simples incluindo restringir receitas, enfraquecer capacidades e forçar concessões. Agora, discute-se a possibilidade de algumas dessas restrições serem aliviadas precisamente porque uma flexibilização poderá favorecer um acordo mais amplo. Numa época menos sofisticada, este fenómeno teria um nome muito directo que é pragmatismo. Hoje prefere-se utilizar expressões mais elegantes, como “criação de incentivos”, “construção de confiança” ou “arquitectura de estabilidade”. A terminologia mudou. A substância permanece notavelmente semelhante. A Lukoil não é uma empresa marginal. Trata-se da segunda maior produtora petrolífera da Rússia e de uma das maiores companhias energéticas mundiais, representando cerca de 2% da produção global de petróleo. Essa dimensão explica porque razão qualquer alteração ao seu estatuto jurídico ou sancionatório possui implicações que ultrapassam largamente as fronteiras russas. Num mercado internacional ainda sensível a choques energéticos, a mera expectativa de aumento da oferta pode influenciar preços. E os preços do petróleo continuam a ser um dos grandes reguladores silenciosos da economia mundial. Daniel Yergin, no clássico “The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power” (1991), demonstrou como o petróleo nunca foi apenas uma mercadoria. Foi uma alavanca geopolítica, uma arma estratégica e, em muitos momentos, um instrumento de política externa. Trinta e cinco anos depois da publicação da obra, a tese permanece desconfortavelmente actual. A guerra na Ucrânia transformou-se gradualmente numa demonstração prática dessa realidade. O conflito não é apenas territorial, militar ou ideológico. É igualmente energético. Enquanto os combates continuam a produzir destruição humana incalculável, o petróleo prossegue o seu percurso quase indiferente através de oleodutos, terminais marítimos e mercados financeiros. A energia não vota resoluções nas Nações Unidas. Limita-se a circular para onde encontra compradores. É aqui que surge uma das maiores contradições contemporâneas. Os governos falam frequentemente sobre princípios absolutos, mas os mercados operam segundo necessidades concretas. Uma refinaria não processa valores morais. Processa crude. Naturalmente, os defensores deste eventual acordo argumentarão que qualquer iniciativa susceptível de aproximar o fim da guerra merece consideração séria. E não lhes falta razão. A continuação do conflito representa um custo humano devastador. Milhares de mortos, milhões de deslocados, destruição de infra-estruturas e uma instabilidade prolongada que atinge toda a Europa. Perante este quadro, qualquer mecanismo que facilite negociações significativas deve ser analisado sem preconceitos ideológicos. Contudo, a questão não reside apenas nos benefícios potenciais. Reside também nas percepções. Se um acordo petrolífero passar a ser visto como parte essencial do processo de paz, surgirão inevitavelmente dúvidas sobre a natureza das negociações. Será a paz o objectivo principal ou apenas a consequência conveniente de um entendimento económico mais vasto? John Mearsheimer, em “The Tragedy of Great Power Politics” (2001), argumenta que as grandes potências tendem a actuar segundo os imperativos da sobrevivência estratégica. Sob essa perspectiva, o eventual envolvimento da Lukoil não constitui uma anomalia. Constitui precisamente o funcionamento normal da política internacional. Ainda assim, existe algo de perturbador na imagem. Enquanto soldados continuam a arriscar a vida nas linhas da frente, executivos discutem activos energéticos avaliados em milhares de milhões de dólares. Enquanto famílias ucranianas enfrentam incertezas diárias, mercados financeiros avaliam potenciais ganhos decorrentes de futuras alterações regulamentares. A distância entre a linguagem dos comunicados oficiais e a realidade concreta é frequentemente abissal. George Orwell observou, em “Politics and the English Language” (1946), que a linguagem política existe muitas vezes para fazer com que mentiras pareçam verdades e assassinatos pareçam respeitáveis. Talvez hoje fosse necessário acrescentar que a linguagem diplomática serve também para fazer parecer coincidentes interesses que apenas ocasionalmente caminham na mesma direcção. Vladimir Putin compreende perfeitamente o valor simbólico do negócio. Segundo as informações publicadas, o Presidente russo terá apresentado a proposta como uma demonstração de que russos e americanos continuam capazes de fazer negócios entre si. A mensagem é clara. Mais do que vender activos, trata-se de vender uma narrativa. A narrativa de que o isolamento pode terminar. A narrativa de que o regresso à normalidade é possível. A narrativa de que a cooperação económica continua a ser uma linguagem universal, mesmo quando a linguagem diplomática falha. Por seu lado, Washington enfrenta um dilema clássico. Se mantiver integralmente as sanções, preserva a coerência da pressão exercida sobre Moscovo. Se abrir espaço para excepções estratégicas, poderá facilitar entendimentos políticos mais amplos e aliviar tensões nos mercados energéticos. Nenhuma destas opções é particularmente confortável. E talvez seja precisamente esta a característica mais honesta da política internacional que raramente oferece escolhas moralmente perfeitas. Quase sempre apresenta alternativas imperfeitas, acompanhadas por consequências imprevisíveis. A Ucrânia observa este processo numa posição delicada. Qualquer acordo que contribua efectivamente para uma paz duradoura será naturalmente bem-vindo. Contudo, qualquer percepção de que interesses económicos externos passaram a dominar a agenda negocial poderá alimentar desconfianças legítimas. A experiência histórica aconselha prudência. Em “A Peace to End All Peace” (1989), David Fromkin mostrou como vários acordos celebrados após a I Guerra Mundial produziram efeitos profundamente distintos daqueles que os seus arquitectos imaginavam. A História está repleta de soluções brilhantes no papel e desastrosas na prática. Por isso, a pergunta essencial permanece sem resposta. Este potencial negócio representa uma ponte para a paz ou apenas uma oportunidade económica que surgiu no momento certo? Talvez seja ambas as coisas. O mundo contemporâneo raramente oferece explicações simples. A diplomacia mistura-se com finanças. A segurança cruza-se com energia. A moralidade disputa espaço com o interesse nacional. No final, o aspecto mais revelador desta história não é a participação da Lukoil, nem a presença de Jared Kushner ou Steve Witkoff, nem sequer o papel inevitável de Vladimir Putin. O aspecto mais revelador é a facilidade com que a geopolítica moderna transforma conflitos existenciais em negociações patrimoniais. Os cidadãos comuns escutam discursos sobre democracia, liberdade e segurança colectiva. Os mercados observam licenças, activos e fluxos de caixa. Uns falam de paz. Outros fazem contas. E, por vezes, ambos estão exactamente na mesma mesa.
Hoje Macau VozesO Enigma de Nagoya e a Grande Baía 2038 Por Manuel Silvério Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional Antigo dirigente público A presença do Imperador Naruhito na cerimónia de abertura dos 20.º Jogos Asiáticos Aichi-Nagoya deu continuidade à tradição de elevado nível institucional que acompanha os Jogos Asiáticos. De Pequim a Busan e de Hangzhou a Aichi-Nagoya, os anfitriões têm tratado esta grande competição multidesportiva asiática ao mais alto nível, reflexo da posição e da importância que os Jogos construíram ao longo de décadas. Na noite da cerimónia de abertura, encontrava-me próximo da tribuna de honra à espera da passagem da delegação de Macau, China, mas uma alteração de percurso levou a delegação a sair antes de chegar à nossa zona. Foi apenas um pequeno episódio. Nos dias seguintes, porém, à medida que as competições avançavam, algumas questões de organização e logística acabaram por suscitar reflexões mais importantes. O preço de poupar Perante o aumento dos custos dos grandes eventos desportivos, Aichi-Nagoya procurou aproveitar infra-estruturas existentes e evitar os chamados “elefantes brancos”. A lógica é compreensível. Nesta edição não existe, porém, uma Aldeia dos Atletas nos moldes tradicionais. Cerca de 17 mil atletas e oficiais ficaram distribuídos por hotéis, instalações temporárias e um navio de cruzeiro. O número acabou por ultrapassar em cerca de dois mil a previsão inicial da organização, colocando pressão adicional sobre o alojamento, os transportes e outros serviços. Em 26 de Setembro, o secretário-geral da Comissão Organizadora, Satoshi Murate, pediu publicamente desculpa pelos problemas de alojamento e transporte, assumindo que, independentemente das causas, cabia à organização assegurar esses serviços. Quatro dias depois, a 30 de Setembro, o presidente da Câmara de Nagoya, Ichiro Hirosawa, que exerce interinamente as funções de presidente da Comissão Organizadora, voltou a pedir desculpa aos atletas e restantes envolvidos. Reconheceu que ocorreram situações que não deveriam ter acontecido e apontou, entre as causas, erros humanos e insuficiências de comunicação com as delegações. Questionado sobre uma eventual relação entre os problemas e a redução de custos, considerou não ser ainda possível estabelecer essa ligação de forma conclusiva. Ao mesmo tempo, afirmou entender que, no conjunto, os Jogos estavam a ser bem-sucedidos. Houve também episódios concretos que obrigaram a organização a rever procedimentos. Antes de um encontro de hóquei masculino foi tocado por engano o hino da Coreia do Norte em vez do da Coreia do Sul; registaram-se igualmente problemas no transporte de equipas, incluindo autocarros que não chegaram ou seguiram para locais errados. Nada disto significa que a ideia de sustentabilidade esteja errada. Significa apenas que reduzir custos não é o mesmo que reduzir capacidade operacional. É precisamente aí que se revela o valor das pessoas com experiência de organização e gestão. Os atletas não precisam de luxo. Precisam de dormir, alimentar-se, recuperar, deslocar-se e competir em boas condições. O verdadeiro desafio é encontrar formas mais racionais de manter a qualidade. Uma geografia em mudança Os Jogos Asiáticos reflectem também a transformação da própria Ásia. Doha voltará a receber os Jogos em 2030 e Riade será anfitriã em 2034. O Conselho Olímpico da Ásia começou igualmente a estudar possíveis alterações ao ciclo dos Jogos, incluindo uma eventual aproximação ao ano anterior aos Jogos Olímpicos, permitindo uma maior articulação entre competições asiáticas e processos de qualificação olímpica. A ideia tem lógica, mas a Ásia tem características próprias. É vasta, diversa e reúne sistemas desportivos, calendários competitivos e tradições culturais muito diferentes. A articulação com o movimento olímpico internacional é importante, mas os Jogos Asiáticos não devem ser concebidos apenas em função dos Jogos Olímpicos. Modalidades como o wushu, kabaddi ou sepak takraw fazem parte de uma identidade asiática própria. Do resultado ao sistema O desporto moderno de alto rendimento é profundamente internacional. Atletas treinam e competem no estrangeiro, enquanto selecções e equipas recorrem cada vez mais à circulação internacional de treinadores, conhecimentos e métodos de preparação. Durante estes Jogos surgiu na China continental uma reflexão que merece atenção: o basquetebol chinês não precisa de uma “narrativa do esforço”. O esforço é indispensável e merece respeito. No alto rendimento, porém, não constitui por si só um resultado. Da mesma forma, uma medalha isolada não demonstra a qualidade de todo um sistema desportivo. A pergunta mais importante é outra: o que fica depois do resultado? Macau voltou a demonstrar capacidade para competir a elevado nível asiático em modalidades como o wushu e o karaté. Mais importante do que uma posição momentânea no quadro de medalhas é perceber o que existe por detrás dos resultados: tradição técnica, desenvolvimento das modalidades, continuidade, preparação sistemática e intercâmbio externo. Esta reflexão, porém, não deve concentrar-se apenas em Macau. Guangdong, Hong Kong e Macau possuem recursos, experiências e capacidades diferentes. A questão é saber como transformar essas vantagens complementares numa plataforma regional de desenvolvimento desportivo mais forte. Grande Baía 2038 A corrida a 2038 já começou. Ahmedabad, na Índia, apresentou formalmente a sua candidatura. Não estou a defender hoje uma candidatura da Grande Baía aos Jogos Asiáticos de 2038. Estou a defender que vale a pena estudar seriamente essa possibilidade. A Grande Baía já possui muitas das condições que uma cidade anfitriã normalmente teria de construir ao longo de vários anos: instalações desportivas, hotéis, aeroportos, caminhos-de-ferro de alta velocidade, grandes redes de transporte e experiência na organização de eventos internacionais. Guangdong dispõe de escala e infra-estruturas. Hong Kong possui ligações internacionais. Macau dispõe de uma enorme capacidade hoteleira, experiência no turismo e nos grandes eventos e condições singulares de ligação entre diferentes culturas e mercados. A indústria do desporto contemporânea inclui também televisão, produção digital, tecnologia, dados, marketing, turismo, entretenimento e gestão. Pensar a Grande Baía como um todo permitiria explorar um novo modelo de organização de uma grande competição multidesportiva regional. Ahmedabad já avançou. Se a Grande Baía considerar que tem condições e ambição para acolher os Jogos, o momento para estudar essa possibilidade não será depois de 2038 estar decidido. Naturalmente, uma ideia desta dimensão exige estudos rigorosos sobre custos, governação, transportes, circulação transfronteiriça, instalações e divisão de responsabilidades. Estudar não significa candidatar-se. Significa perceber primeiro se faz sentido fazê-lo. Depois de modelos assentes em investimentos gigantescos e perante uma edição em Nagoya marcada por uma contenção de custos mais visível, talvez exista uma terceira via: procurar a excelência com racionalidade. Preservar o nível Enquanto escrevo estas linhas, os Jogos ainda decorrem. Seria, por isso, injusto fazer uma avaliação definitiva de Aichi-Nagoya. Aliás, o próprio Hirosawa, ao reconhecer os problemas em 30 de Setembro, considerou que os Jogos, no seu conjunto, estavam a ser bem-sucedidos. Esse equilíbrio também importa. Reconhecer falhas não significa negar tudo o que funciona, da mesma forma que valorizar uma opção de contenção financeira não obriga a ignorar as suas dificuldades. Mas, até este momento, Nagoya permite pelo menos duas reflexões: poupar não é necessariamente ser eficiente; esforçar-se não significa necessariamente progredir. A Ásia levou décadas a elevar o nível dos Jogos Asiáticos. O futuro não exige aumentar indefinidamente a despesa, nem competir para saber quem constrói mais. Sustentabilidade, racionalidade financeira e qualidade organizativa podem coexistir. Se um dia a Grande Baía entrar nesta discussão, talvez seja precisamente esse o equilíbrio a procurar: Jogos de elevada qualidade, financeiramente racionais, tecnologicamente avançados e verdadeiramente asiáticos. No futuro dos Jogos Asiáticos, a verdadeira medida continuará a ser a qualidade. 2038 ainda está longe. Mas talvez já não seja cedo demais para começar a estudar.
Olavo Rasquinho VozesAdvogados em causa própria: o direito de veto que bloqueia a ONU A Organização das Nações Unidas foi criada em 1945, na sequência da Segunda Guerra Mundial, após o insucesso da Liga das Nações em evitar o conflito. Os seus objetivos principais consistem em manter a paz e a segurança, desenvolver relações amigáveis entre as nações, promover a cooperação internacional e defender os direitos humanos. Não é perfeita e tem falhado em alguns aspetos, nomeadamente no que respeita aos conflitos armados, pelo que se têm levantado vozes a favor da sua reestruturação. O próprio Secretário-Geral, António Guterres, é dessa opinião e lançou recentemente a “Iniciativa UN80”, pelo octogésimo aniversário da Organização, que incide principalmente em cortes orçamentais, fusão de agências e melhoria de aspetos administrativos. Há ainda outra iniciativa, designada “Partners for Multilateralism”, promovida por António Costa (Presidente do Conselho Europeu), Lula da Silva (Presidente do Brasil), William Ruto (Presidente do Quénia) e Mark Carney (Primeiro-ministro do Canadá), cujo principal objetivo consiste em promover a reforma e a modernização da ONU e de outras organizações internacionais, de modo a que possam responder mais eficazmente aos desafios globais. Foi divulgada há alguns dias, durante a última Assembleia Geral, que decorreu em Nova Iorque em setembro de 2026. Além da União Europeia, Brasil, Canadá e Quénia, esta proposta já foi apoiada formalmente pela Austrália, Barbados e Índia. Um dos aspetos mais críticos do desempenho da ONU consiste na sua falta de eficácia na resolução de conflitos armados. O direito de veto das potências que ocupam os cinco lugares permanentes no Conselho de Segurança (China, França, Estados Unidos da América, Federação Russa e Reino Unido) é a principal causa deste problema. Note-se que a Federação Russa sucedeu nestas funções, de maneira controversa, à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Na realidade, foi a URSS a verdadeira potência vencedora, e não a Federação Russa. Pelo menos é este o ponto de vista do governo da Ucrânia, que considera um tanto nebuloso o processo de designação da Federação Russa como herdeira da URSS, tanto mais que ainda consta na Carta das Nações Unidas (Artigo 23) que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas é membro permanente. Na realidade, o colapso da URSS deu origem a 15 países soberanos, e não apenas à Federação Russa. A Ucrânia desempenhou um papel crucial na luta contra a invasão das tropas alemãs, o que se traduziu na integração de 6 a 7 milhões de ucranianos nas forças armadas da URSS, e centenas de milhares atuaram em brigadas de “partisans” e outros movimentos de resistência. Estima-se que a Ucrânia tenha perdido entre 8 e 10 milhões de pessoas, entre as quais cerca de 2,5 milhões de soldados e mais de 5,5 milhões de civis, incluindo cerca de 1,5 milhões de judeus. Das repúblicas socialistas soviéticas que compunham a URSS, foram, proporcionalmente, a Bielorrússia, seguida da Ucrânia, que tiveram mais perdas em vidas humanas. Então poder-se-á perguntar: por que razão foi a Federação Russa a herdar os direitos da URSS? Curiosamente, a República Socialista Soviética da Ucrânia, apesar de não ser um país independente em 1945, consta como membro fundador da ONU, em 1945, em pé de igualdade com a URSS e outros fundadores, devido ao reconhecimento internacional do seu papel na Segunda Guerra Mundial. No entanto, ainda se discute o papel de uma facção minoritária composta por nacionalistas ucranianos que inicialmente colaborou com os invasores nazis na esperança de conquistar a independência da URSS, então chefiada por Estaline, a quem atribuíam a culpa da grande fome que assolou a Ucrânia entre 1932 e 1933, designada por “holodomor” (“grande fome” ou “extermínio pela fome”, em ucraniano) e que levou à morte entre 3,5 e 5 milhões de ucranianos. São muitos os exemplos da inoperacionalidade da ONU no que se refere a conflitos armados. Veja-se, por exemplo, a invasão da Ucrânia pela Federação Russa. Trata-se de uma guerra não declarada, camuflada de “Operação Militar Especial”. No dia seguinte à invasão, usando o seu poder de veto, a Federação Russa impediu uma resolução para acabar com o conflito. A Assembleia Geral aprovou, no entanto, por larga maioria, várias resoluções condenando a agressão. Acontece, porém, que este órgão não tem poder executivo, o que implica que as suas resoluções caiam praticamente no vazio, funcionando apenas como recomendações. As potências ocidentais também não estão isentas de críticas quanto à transgressão das regras da Organização. Veja-se, por exemplo, a intervenção de 1956, quando a França, o Reino Unido e Israel invadiram o Egito na sequência da nacionalização do Canal do Suez. O Reino Unido e a França, ambos membros permanentes do Conselho de Segurança, vetaram resoluções que exigiam a retirada das forças invasoras. Outro exemplo do fracasso da ONU ocorreu em 1999. Apesar do veto da Federação Russa e da China à intervenção na então República Federal da Jugoslávia, a NATO, durante a crise do Kosovo, bombardeou instalações militares e outras consideradas estratégicas, alegando razões políticas e humanitárias. A Jugoslávia, então constituída pela Sérvia e Montenegro, era liderada por Slobodan Milošević. Este viria a ser acusado pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ), por 66 acusações de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Estava-se, então, em plena guerra do Kosovo, e temia-se que se repetisse a tragédia que ocorreu durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), em que a hesitação internacional contribuiu para o genocídio de Srebrenica. Em termos de direito internacional, esta intervenção foi ilegal, mas considerada legítima pelos países da NATO, considerando que havia o risco iminente de novos massacres. Em 2003, uma coligação internacional, liderada pelos EUA e o Reino Unido, invadiu o Iraque à revelia da ONU, sob o pretexto de que aquele país possuía armas de destruição maciça, o que se veio a provar ser falso. Mas poder-se-á perguntar: de quem é a culpa da ineficácia da ONU? Será do Secretário-Geral? É evidente que não. São de facto os membros permanentes do Conselho de Segurança que travam qualquer ação que não lhes agrade. Daí a necessidade de uma profunda reestruturação. Uma das regras na futura reestruturação deveria contemplar o impedimento do direito de veto dos membros permanentes do CS em causas que lhes dissessem diretamente respeito, evitando-se, assim, “ser-se advogado em causa própria”. Tal será, no entanto, pouco provável que aconteça, pois a própria Carta das Nações Unidas estipula que qualquer emenda ao seu conteúdo necessita da aprovação de pelo menos dois terços dos membros da AG e de ser ratificada por todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Claro está que nenhum destes vai concordar com a retirada desse direito. Trata-se de um verdadeiro paradoxo jurídico. Quatro dos membros permanentes do Conselho de Segurança foram escolhidos para essas funções porque foram as potências aliadas vencedoras da Segunda Guerra Mundial. A China, por insistência do presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, foi também escolhida para que houvesse estabilidade na Ásia. Até 1971, era membro do CS a designada República da China, que foi substituída a partir desse ano pela República Popular da China. Por outro lado, a situação atual é totalmente diferente e poder-se-á perguntar: onde está a representação de África? Por que não o Brasil e a Índia? No âmbito da celebração dos 80 anos da Organização, e cientes de que as soluções de 1945 não resolvem os problemas de 2026 e do futuro, António Guterres e outros líderes internacionais salientaram a necessidade de se proceder a uma reestruturação profunda. Além da inoperância do CS, há outras razões fortes para a reestruturação, nomeadamente a burocracia e a crise financeira, que se refletem no atraso do trabalho das agências especializadas e dos vários programas. Mas a ONU não atua apenas em assuntos relacionados com conflitos armados. Exerce atividades num vasto leque de áreas que nada têm a ver com a geopolítica, entre as quais se contam Desenvolvimento Sustentável e Economia, Saúde e Bem-estar, Educação, Ciência, Cultura e Direitos Humanos, Ambiente e Alterações Climáticas. No que se refere a esta última área, a ONU constitui a principal plataforma de negociação e proteção do clima e do ambiente, promovendo acordos envolvendo, além do clima, a conservação da biodiversidade e transição energética. Foi sob os seus auspícios que foram negociados e aprovados importantes acordos e protocolos, nomeadamente o Protocolo de Montreal (1987), a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (1992), Protocolo de Quioto (1997) e Acordo de Paris (2015). A ONU, a organização internacional mais abrangente à escala global, atravessa atualmente uma grave crise financeira devido ao boicote dos EUA a algumas das suas agências especializadas e programas. Apesar desta e de outras contrariedades, vai com certeza sobreviver durante muitos anos, desde que seja sujeita a uma reestruturação que respeite os princípios básicos por ela preconizados e resulte de um consenso o mais alargado possível. Olavo Rasquinho (Meteorologista) Outubro de 2026
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesÉtica e responsabilidade parental (II) A semana passada, falámos sobre uma disputa familiar divulgada no programa “Scoop” (東張西望) da TVB de Hong que prendeu a atenção do público. O Sr. Kim, sul-coreano, e a sua esposa, Grace, residente de Hong Kong, tiveram um filho. Mais tarde, Grace envolveu-se numa relação extra-conjugal com o Sr. Law, um professor de Educação Física de Hong Kong e tiveram uma menina. O Sr. Kim acabou por descobrir o caso. A infidelidade e o encobrimento da paternidade da bebé causaram ao Sr. Kim imenso sofrimento emocional e psicológico, o que conduziu ao divórcio do casal. Grace, devido a um erro momentâneo, acabou por destruir o seu casamento e o Sr. Law, que tinha prometido ficar com ela, abandonou-a, pelo que ficou a perder em todos os sentidos. As mais afectadas em toda esta situação foram sem dúvidas as duas inocentes crianças. A questão da custódia das crianças é o assunto que deve ser equacionado com mais urgência neste caso. Independentemente de quem tem ou não razão nesta disputa entre adultos, o direito das crianças ao bem-estar é sempre uma prioridade e criar os filhos é uma responsabilidade moral a que os pais não podem fugir. O menino, filho do Sr. Kim e de Grace, deve naturalmente ser criado e sustentado pelos dois. O Sr. Kim, reside na Coreia do Sul e está separado do filho que vive em Hong Kong. Paga a pensão de alimentos do filho, mas está impossibilitado de o visitar o que lhe provoca mais sofrimento. As despesas da menina, filha de Grace e do Sr, Law deverão igualmente ser cobertas por ambos os pais. No entanto, o Sr. Law, temendo ser despedido, recusa-se a dar apoio financeiro à criança, um acto absolutamente inaceitável. As despesas diárias da criança, alimentação, habitação, educação e cuidados de saúde não podem ser adiadas. As necessidades básicas da menina não podem deixar de ser atendidas porque o pai pode ficar temporariamente desempregado. Desde ter uma filha de uma relação fora do casamento a ter feito promessas que não cumpriu, as acções do Sr. Law levantam algumas questões: Ele quer resolver o problema? Recusa-se a assumir a responsabilidade? Menciono-as aqui para os leitores analisarem. Ao longo deste conturbado drama familiar, a figura mais comovente é a mãe de Grace. Todo o incidente resultou de uma má escolha da Grace, mas a idosa senhora nunca se queixou, assumindo resolutamente o fardo de cuidar dos dois netos. Como o Sr. Law se recusou a assumir as suas obrigações, esta senhora tem muito pouco dinheiro para sustentar a família. Em Hong Kong, onde o custo de vida é elevado, as dificuldades que uma pessoa idosa enfrenta para criar sozinha duas crianças são inimagináveis. Ela suporta toda a pressão em silêncio, tentando corrigir os erros da filha e protegendo as crianças das dificuldades, demonstrando plenamente a grandeza e compaixão do amor materno e conquistando o nosso máximo respeito. Existe actualmente um quadro familiar a que nos podemos referir como “divorciados mas não separados”, em que casais divorciados continuam a viver na mesma casa para partilharem as responsabilidades parentais e para manterem a estabilidade dos filhos. Esta é sem dúvida uma opção benéfica para as crianças, mas o Sr. Kim e Grace só a poderão adoptar se ambos a desejarem. Também dependerá de como a situação se vier a desenrolar, da capacidade do Sr. Kim para superar o que aconteceu e até que ponto conseguirá perdoar a ex-mulher. As acções do Sr. Law causaram sofrimento emocional ao Sr. Kim, uma questão do domínio da moral. Se oferecer uma compensação e clarificar a sua futura relação com Grace irá beneficiar o relacionamento dos três e a responsabilidade partilhada que têm para com as duas crianças. A vida é imprevisível e as nossas acções determinam o nosso destino. Este caso lembra-nos que o casamento e a responsabilidade parental são coisas diferentes. As consequências de uma decisão momentânea de um adulto baseada em emoções recaem muitas vezes nas crianças. Em Macau, a ética familiar e o bem-estar das crianças são também questões importantes que preocupam a sociedade. Quer para manter uma relação ou para definir os papéis de cada um dos pais depois do divórcio, os interesses da criança devem ser sempre um princípio orientador. Esperamos que todas as pessoas envolvidas neste caso possam reconhecer os seus erros e resolver a situação amigavelmente, assegurando um futuro estável para as crianças. Queremos também prestar tributo ao altruísmo da avó dedicada—o amor materno é sempre a força mais calorosa e firme do mundo. (Aviso: A história deste artigo baseia-se no programa televisivo “Scoop”; Este artigo apenas comenta o acontecido e não visa atacar qualquer indivíduo, nem constitui qualquer difamação maliciosa.) Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo
Hoje Macau VozesMas… Por Nuno Gomes, psicólogo e docente O General manda, pensa e escreve. Os guerreiros executam. Mas… Há guerreiros que se distinguem tanto, que por um conjunto de astutas características físicas, mentais e emocionais, chegam a patamares únicos no campo da batalha. Neste patamar, muito elevado, fazem feitos inacreditáveis e tornam-se verdadeiras lendas. São reconhecidos e admirados em todo o lado. Mas… Até as lendas envelhecem e na guerra contra o tempo, inevitavelmente perdem algumas capacidades. Chega a uma fase em que há que ser muito brioso e auto-disciplinado para ainda subir ao campo de batalha. Só uma extraordinária fome de vencer, uma eterna fonte de competitividade interna mantêm o guerreiro em boa forma, de pé, firme e convicto de que, passados tantos formidáveis anos, esta próxima batalha também é para ganhar e pode-se ser importante na obtenção da vitória. Mas… É o General quem manda, pensa e escreve. E escolhe quais guerreiros avançam para o campo da batalha. Dos guerreiros espera-se o bater da continência e o executar, se se for chamado a. Se não se for chamado, espera-se um carácter emocionalmente controlado, obediente e receptivo ao detrimento. Também se espera que se fique de guarda, caso se seja chamado mais à frente. Mas… Também é legítimo entender que, para com aquele guerreiro que se elevou ao patamar de Lenda se espere um nível de comunicação fora do comum. Há muitíssimos belíssimos guerreiros, que ficam para a história. Mas depois há as Lendas. Contam-se globalmente em toda a História talvez apenas pelos dedos de uma mão. Não se consegue chegar ao estatuto de Lenda. Não se consegue, ponto. E depois, contra todas as probabilidades, há quem consiga. Ao lidar com um guerreiro dum nível deste calibre, é inevitavelmente esperado que a comunicação seja sempre pensada, clara, frontal, e acima de tudo consistente. A consistência forja carácter. Senão pense-se: O que faz de um homem um líder? Nesta definição surgem sempre palavras como a já mencionada consistência, depois visão, inteligência, resiliência. E também integridade e empatia. Empatia. Num cargo onde se lidera, há sempre a tentação de, em confrontação, puxar dos galhardetes e virar-se “Porque sim! Porque sou eu quem manda aqui.” – e assim perder-se a capacidade de explicar claramente os porquês e perder-se empatia. Mas… Nas batalhas, acontece tudo tão rápido e de forma tão intensa, que o General tem de tomar decisões muito difíceis e em contra-relógio. A empatia aqui perde prioridade para a execução, para a defesa do batalhão, para o foco estratégico no ataque. Chega a ser caótico, e no caos há que reagir. E fazer escolhas por vezes entre o mal menor. Difícil e exigente, esta função de General… Mas… Ainda assim, é também, e sempre, da Responsabilidade do General cumprir com a sua palavra durante a batalha. Este tem de saber que, além da batalha que decorre, há que gerir o coração dos seus guerreiros. Faz parte das suas funções. E no final da batalha, se algo tiver corrido fora dos planos, ter a capacidade de conseguir comunicar claramente com os guerreiros e de recuperar tudo o que se perdeu em consistência, clareza e em empatia, sem se virar para a guerra dos egos onde todos sabem que quem manda é o General. Em especial, com uma Lenda.
André Namora Ai Portugal VozesPolícia já agride bombeiros PORTUGAL, PORTUGAL, DE QUE É QUE ESTÁS À ESPERA? De que é que tu estás à espera? Tens um pé numa galera E outro no fundo do mar Ai, Portugal, Portugal Enquanto ficares à espera Ninguém te pode ajudar Tiveste gente de muita coragem E acreditaste na tua mensagem Foste ganhando terreno E foste perdendo a memória Já tinhas meio mundo na mão Quiseste impor a tua religião E acabaste por perder a liberdade A caminho da glória. A canção “Ai, Portugal, Portugal”, de Jorge Palma, faz uma análise directa e crítica sobre a identidade nacional portuguesa, confrontando o orgulho do passado com as consequências negativas desse mesmo legado. No verso “Tiveste gente de muita coragem / E acreditaste na tua mensagem / Foste ganhando terreno / E foste perdendo a memória”, Palma mostra como as conquistas históricas, embora motivo de orgulho, também trouxeram uma perda de autocrítica e de consciência sobre erros cometidos, especialmente ligados ao colonialismo e à imposição religiosa. O refrão repetido “Ai, Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera?” funciona como um apelo urgente para que o país reflicta e mude a sua postura diante do passado e do presente. Metáforas como “Tens um pé numa galera / E outro no fundo do mar” ilustram o sentimento de estar preso entre o passado glorioso das navegações e um presente de incerteza ou estagnação. Palma também aborda temas como a repressão social e a perda de liberdade, evidenciados em versos como “Quiseste impor a tua religião / E acabaste por perder a liberdade” e “Fizeste cegos de quem olhos tinha / Quiseste pôr toda a gente na linha”. Muitos dos leitores do meu blogue onde publico todas as crónicas do Hoje Macau, têm-me perguntado se o título que escolhi para estas crónicas teve algo a ver com a canção de Palma. Respondo que teve a ver totalmente. Quando Carlos Morais José, há cerca de cinco anos, me convidou, fiquei orgulhoso e a pensar no título para as crónicas e ao ouvir a canção, disse para comigo: já está! Seria ‘Ai, Portugal, Portugal’ porque este nosso país continua há muito tempo à espera de melhores dias. Haveria de descrever o que se vai passando neste rectângulo à beira-mar plantado. E o panorama não tem sido agradável. O país parece regredir. Parece que ficamos mais pobres. Parece que governar é pensar nas grandes empresas, nos grandes lóbis, nos grandes grupos económicos. Ainda na semana passada o Governo quis prejudicar os pobres inquilinos, obviamente com o apoio do Chega, dando a maior cobertura ao aumentando do número de despejos, alguns inquilinos com idade avançada. No âmbito da Saúde a governação estatal apenas tem estado virada para a destruição do Serviço Nacional de Saúde (SNS) com directrizes ligadas ao apoio dos hospitais privados e à promoção dos seguros de saúde, à boa maneira americana e que têm deixado milhares de cidadãos norte-americanos na miséria sem apoio na saúde. O actual Governo de Montenegro preocupa-se imenso com a construção de um aeroporto megalómano que deverá estar concluído lá para o ano de 2045. Preocupa-se com um TGV Lisboa-Porto, quando o importante será um comboio de alta velocidade a caminho de Espanha. Preocupa-se com mais uma ponte entre Lisboa e a Margem Sul. Preocupa-se com um Orçamento para 2027 que em nada beneficia os reformados que recebem 200, 300 ou 400 euros mensais. Preocupa-se em enviar recados para as autarquias que sejam estas a realizar progresso na habitação social. As autarquias respondem que precisam de mais dinheiro. O Governo sublinha que mais dinheiro não há. Então, como é que a vida dos munícipes pode melhorar? Preocupa-se em inaugurar umas centenas de habitação social, todos os projectos que vieram do governo de António Costa. Preocupa-se em enviar a polícia de choque para agredir uma manifestação pacífica dos bombeiros, que simplesmente protestavam contra o Governo que há mais de dois nem lhes responde às reivindicações de melhores condições de trabalho. Igualmente na semana passada o país ficou em estado de choque e de luto porque uma jovem bombeira de 24 anos morreu a combater de noite um fogo posto durante a noite. Pirómanos que vão a tribunal e são enviados em liberdade, os quais regressam ao terreno para continuar a atear fogo. Uma morte revoltante porque os bombeiros continuam a manifestar falta de meios suficientes para combater incêndios praticamente impossíveis de apagar. Muitas populações sofrem com o pânico de que os fogos destruam as suas habitações e aqueles que já ficaram sem nada esperam anos por serem ressarcidos. Ai, Portugal, Portugal de que estás à espera de baixar o preço inadmissível dos combustíveis e que assistimos a uma ministra a dizer aos condutores para que poupem combustível ou para pedirem boleia… absurdo! Portugal está melhor, diz Montenegro. Portugal está no caminho certo, adianta o primeiro-ministro. Tem razão. Está melhor para quem é ministro, secretário de Estado, assessor ministerial cujos pecúlios mensais rondam os cinco mil euros ou mais. Para esses, está muito melhor. Está melhor para os grandes grupos económicos, como os que são proprietários de hipermercados, que escandalosamente ainda recebem benesses governamentais e o que fazem é aumentar semanalmente os preços dos produtos essenciais para a alimentação dos portugueses. O custo de vida está insuportável e o número de cidadãos a viver ao nível da pobreza voltou a aumenta em 2025. No entanto, gastam-se milhares de milhões de euros na compra de fragatas do mais alto nível tecnológico. E sem prestar esclarecimentos sobre essa compra de navios de guerra no que toca a contratos, comissões e custos de manutenção futura. Portugal caminha a passos largos para uma vida melhor, sem dúvida, mas somente quando o povo acordar e pensar seriamente que não será uma nova ditadura que lhe resolve os problemas de sobrevivência. Povo, de que é que estás à espera? P.S. – Os portugueses ficaram triste com a atitude da Federação Portuguesa de Futebol em ter permitido que um dos melhores jogadores do futebol mundial, o CR7, tenha abandonado a selecção nacional, um acto que deixou a imagem de Portugal ao nível do Terceiro Mundo.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesChina 77 anos: O futuro em construção “Study the past if you would define the future.” Confucius, The Analects O dia 1 de Outubro de 2026 marca o 77.º aniversário da fundação da República Popular da China, proclamada por Mao Zedong em Pequim a 1 de Outubro de 1949, num acontecimento que alterou profundamente o rumo da história chinesa e teve repercussões globais que continuam a fazer-se sentir nos nossos dias. A cerimónia realizada na Praça Tiananmen simbolizou o nascimento de um novo Estado e o início de um projecto nacional que, ao longo de pouco mais de sete décadas, transformou um país devastado por conflitos internos, ocupações estrangeiras e profundas dificuldades económicas numa das maiores potências do mundo. Assinalar esta data não significa apenas recordar um momento histórico. Significa compreender a extraordinária trajectória de uma civilização com mais de cinco mil anos que soube adaptar-se às exigências de diferentes épocas, preservando simultaneamente a sua identidade cultural e a sua visão estratégica de longo prazo. Como observou o historiador Jonathan D. Spence em “The Search for Modern China”, a história moderna chinesa é marcada por sucessivos processos de reinvenção nacional, frequentemente conduzidos em resposta a desafios internos e externos. A China contemporânea constitui talvez o mais impressionante exemplo dessa capacidade de adaptação. Em 1949, a esperança média de vida era reduzida, a pobreza era generalizada e grande parte da população vivia em áreas rurais com baixos níveis de desenvolvimento. Poucos observadores internacionais poderiam imaginar que, menos de um século depois, o país se encontraria na vanguarda da inovação tecnológica, da investigação científica, da indústria transformadora e da economia digital. O percurso não foi linear. Houve períodos difíceis, erros estratégicos, crises e ajustamentos. No entanto, a história das últimas décadas demonstra uma notável capacidade de aprendizagem institucional e de mobilização colectiva. A transformação acelerou significativamente após as reformas lançadas por Deng Xiaoping no final da década de 1970. O académico Ezra Vogel, na sua obra “Deng Xiaoping and the Transformation of China”, descreve esse período como uma das maiores revoluções económicas pacíficas da história moderna. A abertura ao investimento estrangeiro, a criação de zonas económicas especiais, a aposta na educação e a gradual integração nos mercados internacionais permitiram criar as bases da ascensão económica chinesa. Hoje, falar da China é falar da segunda maior economia mundial, de cidades futuristas ligadas por milhares de quilómetros de comboios de alta velocidade, de universidades que competem com as melhores instituições internacionais e de empresas tecnológicas que influenciam mercados em todos os continentes. Em sectores como os veículos eléctricos, as energias renováveis, a inteligência artificial, as telecomunicações e o comércio electrónico, a presença chinesa tornou-se incontornável. No entanto, seria um erro reduzir a actualidade chinesa apenas aos indicadores económicos. O país procura igualmente afirmar uma visão própria da modernidade. O conceito de modernização chinesa tem sido apresentado como uma estratégia de desenvolvimento assente na prosperidade comum, no progresso científico, no equilíbrio ambiental e na valorização da estabilidade social. A ideia procura demonstrar que não existe apenas um modelo possível para alcançar o desenvolvimento e que cada nação deve encontrar caminhos compatíveis com a sua história, cultura e circunstâncias. A tecnologia ocupará inevitavelmente um papel central na próxima etapa da evolução chinesa. A inteligência artificial, a computação quântica, a biotecnologia, a automação industrial e a exploração espacial serão áreas determinantes ao longo da próxima década. O investimento contínuo na investigação científica constitui um dos pilares da estratégia nacional e deverá continuar a moldar o posicionamento internacional da China. A presença chinesa no espaço é um exemplo particularmente ilustrativo dessa ambição. O país já desenvolveu capacidades autónomas de lançamento, mantém uma estação espacial própria e prossegue programas de exploração lunar que testemunham uma visão de longo prazo raramente observada na política internacional contemporânea. Mais do que objectivos científicos, estes projectos representam uma afirmação de capacidade tecnológica e de confiança nacional. Ao mesmo tempo, a China enfrenta desafios complexos. O envelhecimento da população, a necessidade de manter elevados níveis de produtividade, a adaptação a novas dinâmicas económicas e a gestão das mudanças climáticas exigirão respostas inovadoras. O crescimento quantitativo dará progressivamente lugar à procura de crescimento qualitativo. A este respeito, os ensinamentos do sociólogo Fei Xiaotong permanecem actuais. Em “From the Soil”, o autor recorda que a estabilidade e o progresso de uma sociedade dependem da capacidade de harmonizar tradição e modernidade. A China parece consciente dessa necessidade. O objectivo não consiste apenas em crescer, mas em construir uma sociedade mais equilibrada, sustentável e tecnologicamente avançada. A questão ambiental merece igualmente destaque. Durante décadas, o desenvolvimento acelerado trouxe consigo custos ecológicos significativos. Contudo, a realidade dos últimos anos demonstra uma aposta crescente nas energias limpas, na mobilidade eléctrica e na inovação ambiental. A liderança mundial na produção de painéis solares, baterias e veículos eléctricos evidencia a importância estratégica atribuída à transição energética. O futuro económico da China estará inevitavelmente ligado à capacidade de liderar também a revolução verde do século XXI. No plano internacional, o papel da China continuará a expandir-se. O país é hoje um parceiro económico fundamental para dezenas de Estados e um dos principais motores do comércio global. A sua participação em iniciativas internacionais, em grandes projectos de infra-estruturas e em organismos multilaterais demonstra uma presença internacional cada vez mais abrangente. Henry Kissinger escreveu em “On China” que a política chinesa é frequentemente orientada por horizontes temporais mais longos do que aqueles que predominam em muitas democracias ocidentais. Essa observação continua particularmente relevante. Ao analisar os objectivos definidos por Pequim para as próximas décadas, percebe-se uma estratégia que ultrapassa ciclos políticos imediatos e procura posicionar o país para horizontes de médio e longo prazo. É neste contexto que Macau assume uma relevância especial. A Região Administrativa Especial de Macau ocupa um lugar singular dentro da realidade chinesa. A sua história, profundamente marcada pelo encontro entre as culturas chinesa e portuguesa, transformou o território numa das mais bem-sucedidas experiências de intercâmbio cultural do mundo. Poucos lugares conseguiram preservar, ao longo de tantos séculos, uma convivência tão rica entre diferentes tradições, línguas e visões do mundo. Desde o retorno à pátria em 1999, Macau conheceu um extraordinário desenvolvimento económico e consolidou a sua importância estratégica. Actualmente, a cidade é muito mais do que um destino turístico internacional. É uma plataforma de serviços, um centro de intercâmbio económico e um ponto privilegiado de ligação entre a China e os países de língua portuguesa. Esta vocação internacional poderá tornar-se ainda mais relevante nos próximos anos. Num cenário global caracterizado por transformações geopolíticas rápidas, a capacidade de construir pontes entre diferentes espaços económicos e culturais adquire um valor crescente. Macau possui precisamente essa vantagem competitiva. A integração na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau constitui uma das mais importantes oportunidades da sua história recente. Esta região reúne Macau, Hong Kong e nove cidades da província de Guangdong num dos maiores e mais dinâmicos espaços económicos do planeta. A estratégia pretende reforçar a inovação, a conectividade, a cooperação empresarial e o desenvolvimento de sectores avançados. Para Macau, esta realidade abre perspectivas extraordinárias. A cidade poderá desempenhar um papel cada vez mais relevante em áreas como a investigação científica, as finanças modernas, a medicina tradicional chinesa, a economia digital, a educação superior e os serviços profissionais internacionais. Simultaneamente, continuará a afirmar-se como ponte privilegiada entre a China e as comunidades lusófonas espalhadas pela Europa, América do Sul, África e Ásia. Mas talvez o maior activo de Macau não seja económico. Talvez seja cultural. Num mundo frequentemente marcado pela polarização, Macau representa um exemplo concreto de convivência entre civilizações. As suas ruas, os seus edifícios históricos, a sua gastronomia, as suas tradições e a sua diversidade linguística recordam diariamente que o diálogo entre culturas não é apenas possível; é enriquecedor. Ao celebrar o Dia Nacional da República Popular da China em 2026, Macau participa simultaneamente em duas histórias complementares. Participa na história milenar da nação chinesa e na sua própria história de abertura ao mundo. É precisamente essa dupla identidade que lhe confere uma relevância ímpar. O futuro apresenta desafios, mas também possibilidades extraordinárias. A China continuará a procurar inovação, prosperidade e modernização. Macau continuará a afirmar-se como uma ponte de entendimento e cooperação internacional. Juntas, estas duas trajectórias ilustram uma ideia fundamental de que o progresso mais sólido é aquele que respeita a memória sem recear a mudança. Passados 77 anos sobre a fundação da República Popular da China, a dimensão da transformação alcançada é inegável. O país que procurava reconstruir-se em 1949 tornou-se uma referência global em múltiplos domínios. O caminho não termina aqui. Pelo contrário, talvez esteja apenas a entrar numa nova fase. Se o século XX foi marcado pelo renascimento da China, o século XXI poderá ficar na história como o período da sua afirmação plena enquanto potência científica, tecnológica, económica e cultural. E nesse percurso, Macau continuará a desempenhar um papel especial como cidade de encontro, de diálogo e de futuro. Num tempo em que tantas nações procuram respostas para as incertezas do mundo contemporâneo, a experiência chinesa demonstra que visão estratégica, investimento no conhecimento, confiança nas capacidades nacionais e abertura à inovação podem transformar profundamente o destino de um povo. É essa mensagem que o 1 de Outubro de 2026 simboliza. Mais do que a celebração de um aniversário, representa o festejo de uma caminhada histórica que continua a projectar-se para o futuro, envolvendo não apenas a China continental, mas também Macau, cuja contribuição para a história e para o futuro da nação permanece única e indispensável.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesÉtica e responsabilidade parental (I) Uma reportagem que passou recentemente no programa da TVB de Hong Kong “Scoop” (東張西望) revelou uma disputa familiar que tem captado a atenção do público. O caso, com a sua trama complexa e detalhes provocadores, expõe uma série de problemas familiares e sociais decorrentes de falhas morais, turbulência emocional e escolhas precipitadas, merecendo uma reflexão social séria. Grace, a protagonista, uma mulher de Hong Kong, era casada com o Sr. Kim, um homem sul-coreano, com quem teve um filho. No entanto, Grace teve um caso extra-conjugal com o Sr. Law, um professor de educação física de Hong Kong e dessa relação nasceu uma menina. Grace viajava frequentemente para Hong Kong com os filhos e gravava o seu dia a dia para enviar ao marido. No entanto, as conversas carinhosas do Sr. Law com a menina foram ouvidas por diversas vezes nos vídeos, o que levantou as suspeitas do sr. Kim e o caso acabou por ser exposto bem como a identidade do verdadeiro pai da menina. Segundo detalhes revelados no programa, o sr. Law soube que a criança era sua durante a gravidez de Grace e enviou-lhe mensagens a prometer que se divorciaria da mulher e casaria com ela depois de a criança nascer. Grace acreditou nele e teve a bebé. No entanto, o sr. Law não cumpriu o prometido. Quando o Sr. Kim descobriu o caso, contactou a Srª. Law para expor a infidelidade do marido, e ela sugeriu que Grace ficasse na Coreia do Sul e nunca mais regressasse a Hong Kong. Destroçado, o sr. Kim divorciou-se de Grace. Actualmente, Grace vive em Hong Kong com a mãe e os filhos sob a protecção de uma avó idosa. Além disso, o sr. Law e Grace chegaram a um acordo em relação à pensão de alimentos da menina. O sr, Law comprometeu-se inicialmente a dar à mãe de Grace 13.000 HKD por mês para cobrir as despesas da filha. No entanto, nos documentos oficiais assinados por ambas as partes o valor mencionado era de apenas 8.000 HKD. Esta discrepância deveu-se ao facto de o sr. Law não querer que a mulher tivesse conhecimento do verdadeiro montante da pensão de alimentos, por isso no documento ficou registado um valor mais baixo e prometeu em privado juntar mais 5.000 HKD mensais. Inesperadamente, depois do caso ter sido exposto, o sr. Law, temendo vir a perder o emprego devido ao escândalo, deixou de pagar qualquer quantia e Grace confirmou que nunca recebeu nada dele. Tendo em conta todos os aspectos deste caso, verificamos que ambas as partes cometeram graves transgressões éticas. Os casos extra-conjugais violam o princípio básico da fidelidade conjugal e são normalmente considerados pela sociedade como imorais. Tanto Grace como o Sr. Law são culpados. Como professor, o Sr. Law tem a responsabilidade de educar e de cuidar dos alunos, e a sociedade sempre impôs aos educadores requisitos mais rigorosos e padrões de conduta moral mais elevados. Embora este caso não esteja relacionado com o trabalho do Sr. Law, a condenação pública e o seu receio de perder o emprego não são surpreendentes. A Sra. Law sugeriu ao Sr.Kim que Grace ficasse na Coreia do Sul com a filha e nunca mais regressasse a Hong Kong, o que era praticamente impossível. O rapazinho tem dois anos e a menina tem seis meses. Como é que uma mãe divorciada poderia cuidar sozinha de crianças tão pequenas? Deixar Grace sozinha na Coreia do Sul, só para impedir que o caso escalasse em Hong Kong, seria a solução apropriada? Enquanto esposa, Grace deveria ter defendido as fronteiras do seu casamento. Sabendo que é errado ter um caso extra-conjugal, persistiu no erro e deu à luz uma criança ilegítima, ignorando as responsabilidades conjugais e a ética familiar. Actualmente, com as tecnologias ao nosso dispor, os testes de paternidade, as comparações faciais e as análises de sangue, é fácil expor as mentiras. É insustentável esconder a paternidade biológica. A sua imprudência acabou por levar a uma situação irreparável. Na próxima semana, continuaremos a analisar esta situação e a explorar possibilidades para a resolver. (Aviso: A história deste artigo baseia-se no programa televisivo “Scoop.” Este artigo apenas comenta o acontecido e não visa atacar qualquer indivíduo, nem constitui qualquer difamação maliciosa.) Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo
André Namora Ai Portugal VozesPalmas para o Palma Só por existir Só por duvidar Tenho duas almas em guerra E sei que nenhuma vai ganhar Só por ter dois sóis Só por hesitar Fiz a cama na encruzilhada E chamei casa a esse lugar E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade Onde os pés não têm chão E as mãos perdem a razão Só por inventar Só por destruir Tenho as chaves do céu e do inferno E deixo o tempo decidir E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade Onde os pés não têm chão E as mãos perdem a razão Só por existir Só por duvidar Tenho duas almas em guerra E sei que nenhuma vai ganhar Eu sei que nenhuma vai ganhar Emigrei. Numa estação do Metro de Paris, vi um jovem só a tocar guitarra e a cantar. Só. A cara não me era estranha. Durante a recruta do serviço militar pareceu-me que tinha conhecido aquele despenteado, que cantava e tocava tão bem. Cantava o amor, o protesto, o sentimento alheio, a solidão, a pobreza, a prepotência, em suma um conjunto de melodias que cativavam porque todas tinham um poema que caía fundo nos corações de quem o ouvia. Quando fez um intervalo, meti conversa. Confirmei quem era e demos um abraço. Era o Jorge Palma, que tinha mandado a tropa e uma possível ida para o Ultramar às urtigas. Veio o golpe militar do 25 de Abril de 1974 e voltámos a ver-nos. O músico, compositor, poeta e cantor nunca mais parou. Até à passada segunda-feira quando resolveu deixar-nos com as suas muitas canções de sentimento peculiar e de rebeldia. Jorge Palma será eterno para os amantes da música portuguesa, e não só. Um dia, numa roda de cantores, cineastas e actores, o Jorge Palma recordou aos presentes o português que no Metro de Paris foi comprar uma pizza para o alimentar, depois de horas a cantar ali sentado no chão. Só. Muitos dos presentes ficaram muito meus amigos e quando fui residir para a Guarda, alguns foram lá visitar-me e um realizador de cinema até foi lá fazer umas filmagens. Conversámos horas sobre o Jorge Palma. O cineasta amigo salientou que a vida de Jorge Palma dava um filme fantástico. Que até a sua condecoração com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique faria parte do filme. Durante a conversa indagámos o êxito da carreira do Jorge. Pontos fulcrais: simplicidade, seriedade, liberdade, genialidade, independência e humildade. A conversa com o meu interlocutor foi mesmo demorada e participou-me que Palma apenas com oito anos realizou a sua primeira audição no Auditório do Conservatório Nacional; que aos 12 anos foi premiado em Palma de Maiorca com um segundo lugar, com atribuição de uma menção honrosa pelo júri do Festival das Juventudes Musicais; que durante a adolescência a par da sua formação erudita começou a interessar-se pelo rock’n’roll tendo dedicado-se à guitarra e tendo como as suas maiores influências Bob Dylan, Led Zeppelin e Lou Reed; que estudou Engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa ao mesmo tempo que integrou a banda ‘Sindicato’ como teclista e cantor; que na década de 1970 iniciou uma colaboração com Ary dos Santos que o ajudou a aperfeiçoar a escrita poética e a politizar-se; que em 1972 abandonou o curso de Engenharia e resolveu ir até aos Estados Unidos, Canadá e Caraíbas e que em setembro de 1973, o mesmo mês da sua morte, recusou cumprir o serviço militar obrigatório e partiu para a Dinamarca, onde lhe foi concedido asilo político e onde trabalhou como empregado de hotel. Com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, Palma regressou a Portugal e começou a participar nos mais diversos concertos, alguns com José Barata Moura, José Jorge Letria, Fausto Bordalo Dias, Vitorino Salomé e Sérgio Godinho. Nessa fase fez arranjos para fonogramas de Amália Rodrigues, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Tonicha e para as bandas Intróito e Maranata. Em 1975 gravou o primeiro LP, ‘Com uma Viagem na Palma da Mão’, com canções compostas durante o exílio em Copenhaga. Voltou a gravar outro trabalho discográfico, o ‘Té Já’ e o disco tinha significado. Era mesmo um até já porque partiu para o Brasil e regressou à Europa onde durante quatro anos percorreu as ruas de várias cidades espanholas, francesas, italianas e suíças, tendo como estabelecimento principal Paris. Sempre com a sua guitarra e com a sua voz invulgar, deixava os passeantes surpreendidos pela qualidade das suas melodias. Acontecia que os ouvintes de rua escutavam canções de Charles Aznavour, Léo Ferré, Jacques Brel, Bob Dylan, Leonard Cohen, Simon & Garfunkel, entre tantos outros. Jorge Palma era um génio, um talento para a poesia, composição, interpretação à guitarra ou ao piano. Em 1979, quando regressou novamente a Portugal começou a gravar discos com canções que ainda hoje estão nos ouvidos dos seus fãs. Existem canções icónicas, tais como ‘Só’, ‘Encosta-te a mim’, ‘Deixa-me rir’, ‘Bairro do Amor’, ‘Dá-me lume’, ’Estou Agarrado a Ti’ e tantas outras. Jorge Palma nunca ligou nenhuma aos muitos prémios e distinções que ia recebendo ao longo da carreira. E foram muitos. Foi comendador com a Ordem do Infante D. Henrique. A sua simplicidade traduzia-se fundamentalmente no convívio com os amigos, com muito humor pelo meio e muitos, muitos copos. Nunca ouvimos o Palma a falar mal de algum colega das canções, mesmo de alguns que em vez de cantar deviam dedicar-se à pesca. Os seus concertos e as canções que criou são inumeráveis. Mas, sempre o mesmo homem: pianista, guitarrista, cantor, compositor e poeta de excelência, simples, despenteado e amante de um bom carro descapotável. Jorge Palma deixou-nos na semana passada com uma paragem cardiorrespiratória tendo apenas 76 anos de idade. Não sabemos se teve alguma interferência mas o Jorge fumava muito, demasiado. Palma ainda arranjou tempo na sua carreira para ir duas vezes a Macau e deslocar-se a Timor-Leste na companhia de Fernando Tordo e onde actuaram para o povo timorense. Temos de salientar que Jorge Palma teve uma grande satisfação em receber em 2002 o Prémio José Afonso, distinção da Câmara Municipal da Amadora. A última actuação de Jorge Palma, a que assistimos, foi em 2024, espectáculo ‘3 Palmas na Mão’, acompanhado pelos seus dois filhos, Vicente e Francisco Palma. Fenomenal. Terminamos com a palavra saudade. Já temos saudades de Jorge Palma e resta-nos dispensar uma grande salva de palmas para o Palma.
Paul Chan Wai Chi Um Grito no Deserto VozesComo se constrói o Estado de direito? Recentemente, o Chefe do Executivo de Hong Kong, Tung Chee-hwa, que esteve afastado dos olhares do público durante muito tempo, faleceu. Os muitos artigos e comentários que relataram a sua vida, foram unânimes num ponto; Tung Chee-hwa era um “homem genuinamente bom”. No início do seu mandato como Chefe do Executivo, propôs a “política das 85.000 unidades habitacionais” para amenizar as dificuldades que as pessoas enfrentavam para adquirir casa e também propôs a promulgação de leis para combater a traição, o separatismo, os motins e a subversão contra o Governo chinês, como estipula o Artigo 23 da Lei Básica de Hong Kong. Embora ambas as propostas tivessem boas intenções, a “política das 85.000 unidades habitacionais” foi severamente penalizada pela crise financeira asiática, causando o colapso do valor das propriedades, deixando muitos proprietários com o passivo a descoberto e acabou por ser abandonada. A tentativa de introduzir a legislação de defesa nacional ao abrigo do Artigo 23 da Lei Básica de Hong Kong, enfrentou uma enorme reacção pública, com cerca de 500.000 pessoas a saírem à rua em 2023 num protesto histórico, e a proposta de lei acabou por ser retirada. Se estas duas iniciativas tivessem sido bem-sucedidas durante o mandato de Tung Chee-hwa, Hong Kong seria provavelmente hoje em dia uma cidade melhor. Na China antiga, o filósofo Laozi disse uma vez que governar um grande país é como cozinhar um peixe pequeno: o lume tem de ser controlado e não se pode virá-lo muitas vezes senão desfaz-se. As políticas assentam na filosofia e depender apenas da letra da lei fará com que sejam ineficazes. Ancorar a política no espírito do Estado de direito é fundamental. Certa vez discuti a diferença entre “o espírito do estado de direito” e “legalismo” (um conceito que conheci através de um padre alemão) com um professor de direito. O tradutor do livro “A Apologia de Sócrates” ilustra a diferença citando as mortes de Jesus e de Sócrates, assinalando que ambos os julgamentos seguiram os procedimentos legais estabelecidos. Durante o julgamento de Jesus, o governador romano Pontius Pilatos deu à multidão a possibilidade de libertar Jesus ou um criminoso chamado Barrabás. Um júri ateniense considerou Sócrates culpado. A favor da pena de morte votaram 281 jurados e 220 votaram contra. No livro “Detalhes do Estado de Direito” da autoria de Luo Xiang, um proeminente jurista chinês, o autor acrescentou detalhes à história de Sócrates, que teriam ocorrido depois da sua morte: “Em 385 AC, catorze anos após o julgamento de Sócrates, a Assembleia de Atenas voltou a julgar o caso, anulando o veredicto e condenando à pena de morte Meletus, um dos homens que o tinha acusado, sendo que os outros foram banidos de Atenas”. Lamentavelmente, a exoneração imaginada pelo Professor Luo não conseguiu ressuscitar Sócrates. O professor também declarou que “a missão mais crucial do estado de direito é restringir o poder e evitar que se torne corrupto ou degenerado, ao passo que o primeiro propósito da lei é manter a ordem. No entanto, o poder que sustenta a ordem social deve ser limitado pela lei; caso contrário, torna-se uma força contra a ordem social”. Segundo um comunicado de imprensa do Gabinete de Comunicação Social de Macau, o Chefe do Executivo Sam Hou Fai, no seu discurso na Sessão Solene de Abertura do Ano Judiciário de 2025/2026, no dia 21 de Outubro de 2025, afirmou que o estado de Direito é a base fundamental do desenvolvimento estável de uma sociedade, e que um sistema judiciário justo e eficiente funciona como a última linha de defesa da imparcialidade e da justiça social, constituindo o núcleo da implementação do Estado de Direito, sendo crucial para reforçar a confiança pública e promover o consenso social…disse esperar que os magistrados não se esqueçam das aspirações originais, exerçam os poderes com cautela, mantenham a integridade e a autodisciplina, e tenham em mente o interesse público, respeitando a lei e cumprindo sempre os deveres com lealdade. Frisou que o valor do trabalho judiciário reside na aplicação precisa das disposições legais, e também na profunda consideração do bem-estar da população. Lembrou que, ao defender os princípios fundamentais do Estado de Direito, devem também resolver os conflitos sociais, tanto quanto possível, com justiça humanitária…, tendo em vista que a imparcialidade e a justiça constituem a base da prosperidade e estabilidade de Macau. Na sua obra “Detalhes do Estado de Direito”, o Professor Luo Xiang afirma emocionado que “as leis evoluem constantemente e os detalhes do estado de direito estão sempre a ser aprimorados. Esta evolução e aperfeiçoamento obtêm-se através dos esforços conjuntos de gerações de juristas e do público”. O mesmo se aplica a uma sociedade governada pelo estado de direito.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA anarco-monarquia das estrelas e riscas “Civilization is a movement and not a condition.” – Arnold J. Toynbee, A Study of History (1934-1961) Afirmar que os Estados Unidos se converteram numa anarcomonarquia é uma ousadia digna de um estudante de Filosofia que, depois de três cafés e duas discussões no bar da faculdade, decide reinventar a teoria do Estado. Mas, como escreveu Salvador Dalí, esse príncipe das excentricidades que pintava relógios derretidos como quem pinta ovos estrelados dizia que “a única diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco”. A frase, que parece saída de um manual de etiqueta para génios, aplicase com uma exactidão quase cirúrgica ao estado actual da república americana, onde o poder se concentra num presidente que se julga monarca e se dispersa, simultaneamente, por uma multidão de actores privados que governam sem mandato, sem pudor e, sobretudo, sem a menor sombra de responsabilidade. Para os teóricos da ciência política, esta coexistência de absolutismo presidencial e anarquia corporativa é uma contradição insanável. Para quem observa o mundo com os pés na terra e não com o nariz enfiado em gráficos, relatórios e outras quinquilharias estatísticas é apenas o resultado natural de uma revolução que perdeu o manual de instruções e decidiu improvisar, como quem tenta montar um armário sueco sem parafusos e paciência. A decomposição da antiga república imperial não cabe em nenhuma classificação escolar; é um fenómeno híbrido, caótico, digno de um Shakespeare redivivo, se este tivesse acesso ao Truth Social, ao mercado financeiro e à televisão por cabo. Imagino o bardo, de pena na mão, a tentar descrever esta tragicomédia moderna, interrompido a cada cinco minutos por notificações de “breaking news”. O presidente, que alguns comparariam ao Rei Sol se Luís XIV se tivesse nascido em Queens e apreciasse conferências de imprensa como quem gosta de touradas, governa por decreto, impulso e improviso. O efeito é semelhante ao de uma maionese mal batida onde os três poderes, Executivo, Legislativo e Judicial não são pilares, mas ingredientes que se misturam sem receita, ordem e chef. O resultado é uma emulsão instável que ora se solidifica em autoritarismo, ora se dissolve em anarquia, conforme o humor do dia ou o estado da conta no Truth Social. A mediatização em tempo real ou melhor, em tempo irreal transforma cada gesto presidencial numa performance global. O regime tornou-se marca registada da época, mas a história, essa velha senhora teimosa, insiste em contrariar ambições revolucionárias. As aventuras parabelicistas no Médio Oriente, as fantasias de intervenção na Venezuela e as ameaças de “armadas” digitais sofrem todas do mesmo mal que é a arrogância solipsista de quem acredita que o mundo é um palco privado, onde cada acto se representa para uma plateia imaginária que aplaude sempre, mesmo quando não percebe nada. Convém recordar que a Armada Invencível de Filipe II não era, de facto, invencível. A derrota de 1588 inaugurou o declínio do “siglo de oro” espanhol. Hoje, a nevrose belicista americana precipita o fim do seu próprio século, não por falta de força militar, mas por falta de sentido estratégico. Como escreveu Carl von Clausewitz em “Da Guerra” (1832), “a guerra é a continuação da política por outros meios”. O problema é que, quando não há política, a guerra torna-se continuação de nada, como uma peça de teatro sem enredo, actores e público, representada apenas para satisfazer o ego do encenador. Os elefantes não dançam tip-tap. E a América, esse elefante geopolítico, insiste em tentar. O resultado é uma revolução permanente, sem objectivo, doutrina ou destino que devora os seus próprios filhos, como no célebre quadro de Goya. No palco global, a competição tornou-se inconclusa e sem regras pois cada actor internacional da China à Rússia, passando por oportunistas regionais tenta ocupar o espaço deixado pelo colosso desorientado. É a subversão das classes dirigentes, conceito de Antonio Gramsci, aplicado à escala planetária de uma crise de hegemonia onde líderes não lideram, aliados não confiam e adversários não sabem com quem negociar. A pergunta que ecoa nos corredores diplomáticos é simples; quem manda em Washington? Se decisões e declarações se contradizem no espaço de horas, vale a pena ouvilas? Pode discutirse esferas de influência com conselheiros improvisados que traduzem mal o que julgam ter ouvido em capitais estrangeiras? A diplomacia, que outrora se fazia com paciência, chá e protocolos, fazse agora com impulsos, redes sociais e uma espécie de improvisação permanente que faria corar qualquer amador de teatro. Hoje, não se pode ser próamericano nem antiamericano. Não há “América”, mas fragmentos; filamentos poderosos, misturas de Estado, Big Tech e Big Finance, orbitando sem centro, regência e maestro. São electrões livres, cada um com agenda própria, capacidade de influenciar o mundo, mas sem possibilidade de o orientar. Boa sorte aos historiadores do século XXII que tentarão vestir esta revolução mundial com lógica. Não há lógica possível. Há apenas caos organizado ou desorganização com orçamento, que é ainda mais inquietante. Ao anarcomonarca reconhecese, contudo, um mérito involuntário pois expôs a hipocrisia da metalinguagem pública ocidental. Esse discurso, baseado em princípios de irrealidade, mandamentos vazios e slogans reciclados, multiplicados por media irreflexivos, foi finalmente desmascarado. Como escreveu Mark Carney em “Value(s)” (2021), “é preciso abandonar a agradável ficção e enfrentar a dura realidade”. A dura realidade é que o irrealismo e o elitismo fomentam nacionalistas, racistas e demagogos. E as democracias liberais, fragilizadas, tornamse alvo fácil, como casas de madeira num vendaval. Não surpreende que vários líderes autocráticos sejam hoje mais populares do que os seus equivalentes eleitos. A crise de confiança é global. O descarrilamento originado pelo desconforto do protagonista americano ameaça culminar numa conflagração planetária. A terceira guerra mundial se alguma vez existir poderá ser filha da não tão fria guerra civil americana, essa disputa doméstica que se tornou espectáculo internacional. Reconstruir um mínimo de convivência planetária implica limpar a mesa dos pseudoconceitos que velam os factos. O pudor intelectual semelhante à lenda que atribui à rainha Vitória o hábito de cobrir as pernas dos móveis para evitar pulsões indecorosas tornou-se obstáculo à compreensão. Mas a lenda fala sobretudo de nós e da nossa incapacidade de encarar o mundo como ele é; da nossa tendência para preferir a ficção confortável à realidade desconfortável e da nossa recusa em admitir que a América, outrora farol, se tornou labirinto. E nesse labirinto, o anarcomonarca reina não porque governe, mas porque desgoverna. E o mundo, perplexo, aguarda que o século XXI encontre finalmente o seu Shakespeare como alguém capaz de transformar este caos em literatura, esta desordem em tragédia, e esta perplexidade em compreensão.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesAcordos pré-nupciais: segundos casamentos e sensatez financeira (2) A semana passada, analisámos a aplicação dos acordos pré-nupciais em Portugal, na China continental e em Macau. Os três sistemas jurídicos reconhecem os estes acordos. Hoje, continuamos a nossa análise sobre a sua aplicabilidade ao abrigo da lei de Hong Kong. Hong Kong pratica o sistema do direito comum e, tradicionalmente, os tribunais têm a última palavra na distribuição dos bens matrimoniais, pelo que os acordos pré-nupciais não são reconhecidos. No entanto, em 2014, o Tribunal de Última Instância (香港終審法院) criou um marco histórico com o caso “SPH v SA”: decretando que, desde que ambas as partes ajam voluntariamente, listem a totalidade dos seus bens, obtenham aconselhamento jurídico independente e que o acordo seja justamente redigido, o tribunal deverá ter em especial consideração esse acordo quando decidir sobre a divisão dos bens do casal em caso de divórcio. Isto significa que os acordos pré-nupciais em Hong Kong passaram de ser “não-vinculativos” para “serem respeitados em príncipio” mas o tribunal ainda reserva a última palavra para manter a equidade — se o processo que conduziu ao contrato tiver envolvido coerção, ocultamento, ou o disposto seja manifestamente injusto, o tribunal recusa-se a tomá-lo em consideração. Além disso, os casais de Hong Kong também podem celebrar “acordos pós-nupciais”, que são sujeitos aos mesmo requisitos dos acordos pré-nupciais. A maior vantagem do acordo pré-nupcial consiste na clara protecção dada aos bens pessoais existentes antes do matrimónio. Elimina também qualquer responsabilidade sobre as dívidas contraídas antes do casamento pela outra parte. Ao mesmo tempo, encoraja ambos a serem honestos sobre as finanças pessoais antes do casamento, reduzindo disputas legais em caso de divórcio e poupando assim tempo e dinheiro. Para pessoas com bens consideráveis, os acordos pré-nupciais são cruciais na protecção à fortuna e aos negócios familiares. No entanto, os acordos pré-nupciais também têm limitações. Por regra, os casamentos têm uma duração de alguns anos e os termos inicialmente acordados—como o montante fixo da pensão de alimentos—podem ficar desactualizados devido à inflação, a doenças graves, ou porque uma das partes sacrificou a carreira em prol da família e, como tal, deixarem de ser justos. Além disso, os acordos pré-nupciais não podem estipular a custódia das crianças, porque esse assunto faz parte dos direitos do menor e os tribunais deliberam sempre no sentido do “melhor interesse da criança.” No que respeita à pensão de alimentos para os filhos, os tribunais podem ajustar o montante baseando-se nas verdadeiras necessidades do menor e na capacidade financeira dos pais e podem não aceitar uma quantia fixa. Os acordos pré-nupciais têm tanto vantagens como desvantagens, mas o seu valor fundamental reside em levar as pessoas a “planear com antecedência” e na abordagem prática e racional qua fazem ao casamento. Ao clarificar as questões financeiras, ambas as partes podem ingressar no casamento com maior confiança. Voltando ao “Incidente do Tio Ho” (何伯事件), se tivesse sido assinado um acordo pré-nupcial antes do segundo casamento para clarificar a distribuição dos bens entre o novo cônjuge e os cinco filhos do casamento anterior, os conflitos que destruíram laços familiares poderiam ter sido evitados. Para pessoas idosas e de meia-idade que se voltam a casar, o acordo pré-nupcial é sem dúvida um passo sensato—pode gerir adequadamente os bens da família original, proteger os direitos legais dos filhos e proporcionar uma base mais estável e harmoniosa para o estabelecimento da nova família. Antes de concluir o artigo de hoje, existe um ponto que gostaria de salientar. Os acordos pré-nupciais e os testamentos são documentos legais com conteúdos e naturezas muito diferentes. No entanto, relativamente à gestão dos bens matrimoniais, ambos devem ser consistentes e não contraditórios. Se forem contraditórios, o tribunal terá de determinar qual o documento a respeitar em relação à distribuição dos bens do falecido, o que poderá conduzir a um processo longo, complexo e dispendioso. Nesse caso, a protecção concedida pelo acordo pré-nupcial será anulada. Portanto, as pessoas idosas e de meia-idade devem planear cuidadosamente os acordos pré-nupciais e os testamentos quando pretendem voltar a casar. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo
Hoje Macau VozesDe Jiangxi para Macau: o que a história nos ensina sobre o futuro dos jovens Por Mak Soi Kun, ex-deputado Macau já foi uma cidade de nível mundial. Vale a pena recuperar essa ideia quando se discute o futuro dos jovens. A Colina da Ilha Verde era originalmente uma ilha isolada no meio do mar. Os nossos antepassados aterraram o mar e ali construíram uma das primeiras fábricas de cimento da China — a Fábrica de Cimento da Ilha Verde, fundada pelo empresário chinês Yu Ruiyun. Li Hongzhang, alto funcionário da Dinastia Qing, enviou Tang Tingshu a Macau para uma visita de inspecção; este levou a tecnologia de volta para o Interior da China, contribuindo para a fundação de uma das primeiras fábricas de cimento nacionais. Macau desempenhou, assim, um papel pioneiro na indústria cimenteira chinesa. A produção de incenso, panchões e fósforos floresceu nas décadas de 50 e 60 do século passado. Em 1930, a exportação de panchões e fósforos chegou a representar 31% do total das exportações de Macau, sustentando toda a cidade. As Ruínas de São Paulo, antigo Colégio de São Paulo fundado em 1594 pela Companhia de Jesus, albergaram a primeira universidade de estilo ocidental no Extremo Oriente, formando missionários que se espalharam pela China, Japão e Sudeste Asiático. Em 16 de Julho de 1948, ocorreu em Macau o primeiro sequestro de um avião comercial registado no mundo — o hidroavião «Miss Macau», que fazia a rota Macau-Hong Kong, foi desviado e caiu no mar. Um episódio que marcou a história da aviação internacional e que mostra que Macau já era um nó da aviação internacional há mais de setenta anos. As pessoas de Macau nunca foram provincianas. Ao longo da história, os macaenses sempre foram de nível mundial. De onde veio esta capacidade de abrir caminhos? Uma visita de estudo a Jiangxi, feita recentemente com um grupo de jovens com uma média de idades de cerca de trinta anos, oferece uma pista. Do Museu Comemorativo do Levantamento de Nanchang, a 1 de Agosto, a Jinggangshan, encontrámos outro tipo de «primeiro». Em 1927, em Nanchang, um levantamento armado marcou o início da luta do Partido Comunista Chinês contra o regime então dominante. As forças envolvidas não alcançaram os objectivos imediatos e retiraram-se para as montanhas de Jinggangshan, onde viria a ser estabelecida a primeira base revolucionária rural. As condições eram extremamente difíceis: faltavam alimentos, medicamentos e armas. Ainda assim, os que lá estavam conseguiram abrir um caminho que ninguém antes tinha percorrido. Jinggangshan ocupa um lugar muito especial na memória chinesa. Foi ali que se formou aquilo a que se chama o seu «espírito»: manter firme o ideal, buscar a verdade nos factos e abrir novos caminhos, enfrentar as dificuldades com perseverança. Para gerações de chineses, esta não é uma celebração do passado, mas uma referência moral — a ideia de que as dificuldades não são um destino, mas um ponto de partida. Na altura, a teoria dominante defendia «atacar as grandes cidades». Mas os que estavam em Jinggangshan reconheceram a realidade: a população rural da China era muito maior do que a urbana. Para vencer, era preciso o apoio da maioria. Começaram por estabelecer bases no campo, unindo a maioria dos camponeses, e só depois se expandiram gradualmente para as cidades. Mais do que os nomes ou os acontecimentos, o que importa reter é o espírito: partir da realidade, ousar abrir novos caminhos, não recuar perante as dificuldades e, depois de reconhecer a direcção certa, avançar com determinação. Os «primeiros» da história de Macau foram, provavelmente, criados com este mesmo espírito. Hoje, porém, muitos jovens de Macau sentem-se presos. Ao organizar as conversas com os membros do grupo depois da viagem, tornou-se claro que, sem dar por isso, tinham sido feitas muitas entrevistas. As histórias reflectem a situação real de muitos jovens: não encontram emprego depois de formados, não têm perspectivas de progressão na carreira, não sabem por onde começar para mudar de área, não têm coragem para constituir família. Estas histórias não são apenas «tristes» — são a realidade. Não é por falta de esforço, mas porque se sentem presos numa encruzilhada, sem saber como virar. Não se trata apenas de uma questão de emprego ou de rendimento. É também uma questão de direcção e de sentido. Macau hoje não carece de condições materiais; o que falta é, sobretudo, motivação espiritual. Quanto mais abundante é a vida material, mais se precisa de ideais, curiosidade e sentido de missão como sustento. Neste aspecto, Macau não parte do zero. A estratégia «1+4» do Governo da RAEM aponta para a diversificação — turismo como pilar principal, mais quatro indústrias. A Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin já concede apoio financeiro aos jovens de Macau que queiram criar negócios, e várias cidades da Grande Baía disponibilizam postos de estágio em áreas como tecnologia, finanças e saúde. Não são slogans, são oportunidades reais. A questão que se coloca é como cada um as aproveita. O Governo apresenta opções; cada pessoa decide se e como as utiliza. Como numa equipa de futebol, a estratégia pode estar definida, mas são os jogadores que têm de entrar em campo e decidir como jogar. O Governo não decide por ninguém; abre mais uma porta e mais um caminho, para que cada um possa desenvolver os seus talentos. Mas as oportunidades só se transformam em resultados quando alguém decide agir. O legado de Jinggangshan ensina a «buscar a verdade e ser pragmático»: reconhecer a realidade — do que precisam os jovens? Que espaço há na sociedade? Que políticas existem? Só depois de esclarecer isto se encontra a direcção certa. A lição de Nanchang é a perseverança: depois de escolher um rumo, aguentar a pressão e avançar passo a passo. Há três atitudes que a história de Jiangxi torna especialmente claras. A primeira é não deixar que o medo defina as escolhas — as dificuldades enfrentadas naquela época eram bem mais severas do que as que muitos jovens de Macau temem hoje. A segunda é reconhecer que a direcção já está indicada, mas o caminho só se faz caminhando. A terceira é transformar o descontentamento em movimento: queixar-se é compreensível, mas agir rende mais do que ficar apenas nas palavras. Quase um século depois, a direcção «1+4» está traçada, a Zona de Cooperação Aprofundada abriu portas e a Grande Baía está interligada. As oportunidades existem. O que a história de Jinggangshan e de Nanchang continua a lembrar é simples: reconhecer a realidade, escolher uma direcção e avançar com persistência. Os que nos precederam construíram o presente com determinação. Cabe agora aos jovens de Macau decidir que capítulo escrever a seguir. O amanhã será melhor se houver preparação, confiança e determinação.
André Namora Ai Portugal VozesEscândalo generalizado na arbitragem portuguesa Agora é outra fruta. Jorge Nuno Pinto da Costa já nos deixou. O apito dourado nos dias de hoje é prateado. A arbitragem no futebol português voltou à ribalta pelas piores razões. Bateu no fundo. Na semana passada a média não falou noutra coisa. Há muita gente ligada ao futebol sob investigação judicial. Árbitros, presidentes de clubes, dirigentes do Conselho de Arbitragem, empresários e os intermediários mafiosos. A movimentação de milhões de euros de carteiras para bolsos de intervenientes num jogo, parece que constitui o último escândalo no mundo sombrio do futebol português. Vieram à baila uma panóplia de suspeitas. Árbitros nomeados para determinados jogos com duas semanas de antecedência. Presidente de um clube, o Estrela da Amadora, que alegadamente teria gasto muito dinheiro para que o clube não baixasse de divisão na época passada. Corrupção coordenada por um cartel que só a Polícia Judiciária (PJ) nos poderá esclarecer. As investigações já começaram e foram ouvidas dezenas de pessoas ligadas ao futebol. O antigo e um dos melhores ex-árbitro, Duarte Gomes, demitiu-se das funções superiores que exercia e terá denunciado às autoridades policiais o que teve conhecimento de ilegal no exercício das suas funções. A PJ está a investigar mensagens e áudios que podem provar manipulações na arbitragem. A demissão de Duarte Gomes do cargo de Director Técnico de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) aconteceu no final de Junho e caiu como uma bomba no seio do futebol português. Ainda assim, talvez por ser Verão, talvez por estar a decorrer o Campeonato do Mundo, talvez por não terem existido mais consequências práticas evidentes, o caso desvaneceu. Até agora. O assunto veio a público com pormenores graves, como o áudio que demonstra o conhecimento que certos árbitros tinham das suas nomeações com muita antecedência para determinados jogos. Está em causa, além das nomeações combinadas de árbitros, um milhão de euros que teria sido prometido pelo presidente do Estrela da Amadora, Paulo Lopo, caso o clube não baixasse de divisão. A FPF limitou-se, quando teve conhecimento da demissão de Duarte Gomes, a emitir um comunicado no qual anunciava que iria encaminhar o caso para o Ministério Público. A procissão ainda vai no adro. E é curioso que os três maiores clubes, Benfica, Sporting e FC Porto têm-se queixado das arbitragens e dos VAR e que os clubes eventualmente prejudicados estejam caladinhos… Oh, os VAR! Essa é outra grande história. É estranho… é difícil de entender como um árbitro decide erradamente, mas mais difícil é entender por que o VAR não interfere num lance óbvio. Quando um árbitro está mal, o VAR deve ajudar e porque é que será que temos assistido a uma ajuda nula por parte do VAR em certos lances de vários jogos, especialmente penaltis? Neste sentido, também as investigações judiciais podem incluir árbitros VAR por suspeita de corrupção. Nesta altura, há um árbitro que está fundamentalmente na berlinda, Hélder Malheiro, o tal árbitro que soube duas semanas antes que iria arbitrar um jogo do Estrela da Amadora, sem ter conhecimento que encontro iria arbitrar no fim-de-semana mais próximo. E por incrível que possa parecer, este árbitro, que já devia estar suspenso da actividade, foi nomeado VAR para o jogo Sporting-Arouca, uma decisão que recebeu as maiores críticas nos jornais e nas televisões. Mas há outros árbitros que têm a cabeleira ou a careca a arder, como Fábio Veríssimo. Este árbitro terá sido informado de que iria arbitrar o Estrela da Amadora-Famalicão, da 33ª jornada da época passada 2025/26, imaginem, 20 dias antes da data do jogo. Esta é uma prova de que as suspeitas de agora são muito antigas e graves. Na investigação da PJ, nos telemóveis analisados, já terão sido encontrados indícios de quem pode ter oferecido prémios na ordem de mais de um milhão de euros a dirigentes da arbitragem a troco do benefício no resultado dos jogos de certos clubes. Adicionalmente, existem exemplos concretos de que terão existido condicionalismos. De acordo com as conversas que agora estão na posse da PJ, o FC Porto tentou evitar que Fábio Veríssimo fosse o árbitro nomeado para os quartos de final da Taça de Portugal, contra o Benfica, sendo que a estrutura da FPF estaria disponível para satisfazer a exigência, como se o FC Porto fosse o dono disto tudo… Na verdade, a PJ recebeu uma participação com suspeitas de corrupção e tráfico de influências na nomeação de árbitros para jogos da Primeira Liga por parte do Conselho de Arbitragem da FPF. As queixas incluem um documento com 20 páginas que reúne mensagens de WhatsApp, capturas de ecrã, chamadas telefónicas, áudios, vídeos e relatos de reuniões na Cidade do Futebol. Os acontecimentos retratados terão acontecido entre Abril e Junho, na recta final da temporada 2025/26. Ao longo das 20 páginas, o autor da queixa ainda sublinha várias vezes que não pretende substituir-se às autoridades, mas defende que o conjunto de elementos que recolheu justifica a abertura de uma investigação criminal. Ai, futebol, futebol, que tens andado por caminhos cheios de pedras, grutas e contas bancárias em offshores. É verdadeiramente escandaloso que existam suspeitas de resultados combinados, dinheiros por baixo da mesa, clubes prejudicados como foi o Tondela ao baixar de divisão em detrimento do Estrela da Amadora e que, essencialmente, não tenhamos árbitros sérios. A verdade desportiva tem sido alegadamente deturpada devido à ganância pelo dinheiro. Os adeptos dos clubes pagam para ver um espectáculo desportivo. Nunca lhes passa pela cabeça que vão assistir a uma mentira combinada…
Hoje Macau VozesUma transição e uma oportunidade para o desporto Por Manuel Silvério Não tinha intenção de comentar esta nomeação. Tratando-se de uma solução temporária, inserida num processo de reorganização já anunciado, pareceu-me inicialmente mais prudente aguardar pelo Regulamento Administrativo que irá definir a futura estrutura. Perante algumas das reacções que, entretanto, surgiram, porém, talvez seja útil recordar determinados elementos que podem ter passado despercebidos e que ajudam a compreender melhor o momento que estamos a atravessar. A fusão do Instituto Cultural, do Instituto do Desporto e do Fundo de Desenvolvimento da Cultura não surgiu agora. Foi anunciada pelo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, quando apresentou, em 18 de Novembro de 2025, as Linhas de Acção Governativa para 2026, no quadro de uma reforma mais ampla da Administração Pública destinada, segundo o Governo, a reforçar a coordenação e elevar a eficiência da governação. É, portanto, dentro desse processo já programado que deve ser entendida a decisão de designar a Arq.ª Leong Wai Man para exercer temporariamente, em regime de substituição e em acumulação com a presidência do Instituto Cultural, as funções de presidente do Instituto do Desporto, entre 20 de Setembro e 31 de Outubro. São 42 dias. E esta duração não parece ser um pormenor. Várias comissões de serviço de dirigentes e chefias do Instituto do Desporto terminam precisamente em 31 de Outubro, incluindo a vice-presidência, o Departamento de Desenvolvimento Desportivo e a Divisão de Apoio ao Associativismo Desportivo. A conjugação destas datas sugere um calendário administrativo articulado com a reorganização em curso. Estes 42 dias podem, assim, ser compreendidos como um período de preparação e transição para a nova estrutura, cuja configuração definitiva só conheceremos quando for publicado o respectivo Regulamento Administrativo. É também por isso que me parece excessivamente redutor centrar toda a discussão em saber se a pessoa escolhida “é ou não do desporto”. No caso de Macau, sobretudo, não considero que a proveniência do meio desportivo deva constituir o critério decisivo para dirigir a Administração do desporto. Conhecer o sector é importante; dispor de profissionais tecnicamente competentes dentro da estrutura é indispensável. Mas dirigir uma organização pública exige algo diferente e mais amplo: capacidade de gestão, liderança, coordenação, decisão e, cada vez mais, uma visão regional e internacional. Macau é uma cidade pequena, mas o seu desporto não pode pensar pequeno. Os grandes eventos, a formação de atletas e jovens, as relações com federações internacionais, a cooperação com o Interior da China e a Grande Baía, a utilização das instalações, o turismo desportivo, a captação de competições e o desenvolvimento das associações exigem hoje capacidade para trabalhar muito para além das fronteiras de um único sector. Um bom dirigente não precisa de substituir os especialistas. Precisa de saber ouvi-los, coordená-los e criar condições para que o conhecimento técnico se transforme em políticas, decisões e resultados. Neste contexto, também convém conhecer melhor o percurso da Arq.ª Leong Wai Man antes de reduzir a avaliação da sua nomeação à ausência de uma carreira no desporto. Entrou no Instituto Cultural em 2009 e desenvolveu grande parte do seu percurso na área do património cultural, onde exerceu funções de chefia, antes de assumir a vice-presidência e, posteriormente, em 2022, a presidência do Instituto Cultural. Ao longo destes anos, esteve envolvida numa estrutura responsável por matérias particularmente complexas: conservação e gestão do património, revitalização urbana, grandes manifestações culturais e cooperação regional e internacional. A Arq.ª Leong Wai Man tem também presidido, em substituição, ao Conselho do Património Cultural, que acompanha matérias como o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico, trabalhos de restauro e património cultural intangível. A dimensão internacional tornou-se igualmente mais visível. Macau assumiu em 2025 o programa “Cidade de Cultura da Ásia Oriental”, plataforma de cooperação cultural entre China, Japão e República da Coreia, cuja preparação e execução envolveram coordenação local e intercâmbio regional. O Instituto Cultural organizou também fóruns internacionais, incluindo o Fórum Cultural Internacional sobre a Rota Marítima da Seda, com participação de instituições e especialistas de diferentes geografias. Nada disto significa que estes resultados devam ser atribuídos individualmente à presidente de um organismo que dispõe naturalmente de equipas próprias e trabalha sob tutela governamental. Significa que existe uma experiência acumulada de gestão de projectos, coordenação institucional, património, grandes actividades e relações externas que também deve ser considerada quando se procura compreender a opção feita para estes 42 dias. Importa, porém, distinguir duas questões. Uma é assegurar uma transição administrativa durante pouco mais de um mês. Outra será definir quem e como deverá conduzir, no novo organismo, o desenvolvimento do desporto de Macau nos próximos anos. É nessa segunda questão que deposito maior atenção. Espero sinceramente que esta reorganização possa abrir melhores perspectivas para o desporto de Macau — para os nossos jovens, para os atletas e associações e também para todos aqueles que, com experiência, contactos, ideias e vontade de trabalhar, procuram contribuir para o seu desenvolvimento. A capacidade de acolher e avaliar propostas desportivas de dimensão internacional merece também atenção nesta reorganização. Não basta haver boas ideias, parceiros interessados ou disponibilidade externa. É igualmente necessária, do lado de Macau, capacidade para receber uma proposta, avaliá-la, dialogar sobre ela e tomar uma decisão em tempo útil. Naturalmente, nem todas as iniciativas podem ou devem ser aceites. A Administração tem a obrigação de avaliar o interesse público, a viabilidade, os custos, os riscos e as condições de concretização de cada proposta. Mas entre aceitar e recusar existe algo fundamental: analisar, dialogar, explicar e responder. É também isso que espero da futura estrutura. Os procedimentos administrativos são necessários. O rigor também. O que importa evitar é que complexidades burocráticas desnecessárias, insuficiente coordenação ou capacidade técnica, falta de transparência, ausência de diálogo ou respostas que tardam — e por vezes simplesmente não chegam — acabem por afastar pessoas e projectos que poderiam contribuir para Macau. Quem apresenta uma proposta séria não adquire, por esse facto, o direito de a ver aprovada. Deve, porém, poder saber com quem falar, quais são as regras, que condições devem ser preenchidas, se a proposta é viável e, no final, receber uma resposta clara dentro de um prazo razoável. Isso também é boa Administração. Talvez seja precisamente aqui que reside uma das maiores oportunidades desta fusão: criar uma estrutura mais capaz de cruzar cultura, desporto, grandes eventos, juventude, turismo e relações externas, preservando simultaneamente o conhecimento técnico específico de cada área. A mudança deverá traduzir-se na forma de trabalhar e nos resultados que conseguir alcançar. Para o desporto, isso exigirá bons técnicos. Mas exigirá igualmente bons gestores, capacidade de decisão e uma visão que ultrapasse Macau e saiba olhar para a Grande Baía, para o País e para o mundo. Os 42 dias são apenas uma transição. O que verdadeiramente importa começa depois. Aguardemos o Regulamento Administrativo, com a esperança de que a nova etapa traga, pelo desporto, pelos jovens e por Macau, melhores condições para quem quer contribuir. Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional (Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA crise interna americana Every empire is a graveyard of its own illusions.” James Baldwin, No Name in the Street (1972) A guerra que hoje se espalha pelo mundo não nasce de desertos longínquos nem de rivalidades ancestrais. Nasce, sim, da crise interna dos Estados Unidos, esse colosso que, ao tropeçar nos próprios pés, espalha a sua turbulência para fora como quem despeja lixo pela janela e espera que o vento o leve para longe. A velha república, corroída por dentro, parece saída de uma parábola de Mark Twain que escreveu que “a história não se repete, mas rima”. Pois bem, a rima actual é amarga, dissonante e profundamente reveladora. A América vive uma espécie de dissociação imperial, uma esquizofrenia política e social que transforma frustração doméstica em agressividade externa. Não é novidade que impérios em declínio se tornam nervosos; o que surpreende é a velocidade com que este se fragmenta. Como escreveu Christopher Lasch em “The Culture of Narcissism” (1979), “uma sociedade que perde o sentido de comunidade perde também o sentido de futuro”. E é exactamente isso que acontece de uma nação que não acredita no seu próprio amanhã. Sete em cada dez cidadãos não acreditam no chamado “sonho americano”. Não é uma estatística poética; é um dado real, repetido em estudos como o da “Pew Research Center” (2023). A chamada “revolução trumpiana”, longe de ser causa, é sintoma de uma reacção desesperada à crise de identidade nacional. A promessa de “restaurar a saúde espiritual e cultural” do país soa, para muitos, a um anúncio de vitaminas vencidas. O multiculturalismo, outrora bandeira de inclusão, tornou-se bode expiatório. Fala-se em reconstruir um “núcleo cultural central”, limitar a imigração e recuperar a velha assimilação. Mas o problema é mais profundo pois a sociedade americana não assimila nem os seus próprios filhos, quanto mais os recém-chegados. O teólogo R. R. Reno, em “Return of the Strong Gods” (2019), descreve esta tendência como “imperativo de reconsolidar” uma tentativa de colar os cacos depois de décadas de libertação social e económica que, embora legítimas, acabaram por dissolver solidariedades. Reno propõe o “nacionalismo cristão” como antídoto. Não uma teocracia, diz ele, mas uma espécie de travão moral para evitar que o nacionalismo se transforme em fúria. A ideia é interessante, mas contém o seu veneno de como unir uma sociedade que se habituou ao “cada um por si” durante meio século? A perda de dignidade causada pela desindustrialização é conhecida. O que ainda não entrou totalmente no radar é a epidemia de solidão, termo usado pelo Surgeon General dos Estados Unidos em 2023. As pessoas não se encontram na igreja, no sindicato e nas reuniões municipais. A amizade tornou-se artigo de luxo, como se fosse um relógio suíço. Menos de metade das famílias são compostas por casais casados; 42% dos adultos são solteiros. A depressão e o stress atingem níveis recorde, alimentados por uma economia onde até a classe média-alta teme não conseguir pagar contas. O dinheiro tornou-se o único valor em ascensão, enquanto família, comunidade e patriotismo se afundam como pedras num lago. A geração Z é o espelho mais cruel desta crise. São jovens que saem menos, vivem mais irritados, deprimidos e isolados. Passam horas entre ecrãs, mas atribuem pouco valor ao que fazem. Muitos nunca abordaram alguém presencialmente para iniciar uma relação. As taxas de actividade sexual entre menores de 34 anos caíram drasticamente, segundo o General Social Survey (2022). Endividados até ao tutano por diplomas que valem menos do que promessas eleitorais, estes jovens sabem que dificilmente comprarão casa. Vivem numa guerra de sexos onde as mulheres são acusadas de ser demasiado liberais e os homens demasiado conservadores. E culpam as gerações anteriores por lhes terem deixado um país onde o futuro é uma palavra gasta. A política externa é outro campo de batalha. Israel, outrora aliado incontestável, tornou-se tema fracturante. A esquerda acusa-o de colonialismo; a direita questiona se votou em “America First” ou “Israel First”. Não se trata de antissemitismo mas de fadiga moral e estratégica. Peter Slezkine, analista respeitado, afirmou que “para muitos jovens, qualquer discurso sobre tiranos a abater soa simplesmente vazio”. E quando figuras como Lindsey Graham defendem mudanças de regime, são vistos como relíquias de uma era que não convence ninguém. O inimigo não é externo. É o vizinho que vota no outro partido. Nathan Pinkoski descreve isto como “guerra civil fria”, marcada pela ideia de que não é possível viver com quem pensa diferente. A confiança social evapora-se. E sem confiança, não há democracia funcional. As tecnologias digitais aceleram tudo. Isolam, viciam e fragmentam. A economia da atenção transforma cidadãos em consumidores de estímulos. A leitura ponderada desaparece; cada um segue os seus gurus no Substack. A tribalização cresce. A inteligência artificial ironicamente, ameaça empregos e dignidade, introduzida à pressa para não perder terreno para a China. Mary Harrington, em “Feminism Against Progress” (2023), alerta para o risco de um “regime algorítmico a enxame”. Para evitar isso, diz ela, seria preciso um líder carismático com ligação ao povo como “o retorno do rei”. Não sei se é de concordar, mas compreende-se o diagnóstico de quando a complexidade interna é insuportável, alguém tenta simplificar à força. Um país só é actor geopolítico se conseguir reduzir a sua complexidade interna. Democracias precisam de coesão. Sem ela, há duas vias a do Estado de segurança e de vigilância, que cresce desde o 11 de Setembro e ignorar a coesão, permitindo que poderes públicos e privados actuem por conta própria. Os Estados Unidos parecem seguir ambas. E é essa contradição que alimenta guerras externas pois quando não se consegue resolver o caos interno, exporta-se. A guerra contemporânea é, antes de tudo, um sintoma da crise interna americana. Não é ideologia, destino e moralidade. É desespero. Uma nação que não acredita em si mesma tenta reafirmar-se através do mundo, como quem grita para não ouvir o próprio silêncio. E enquanto não se escavar no corpo ferido de Columbia, continuaremos a interpretar o presente com mapas antigos, sem perceber que o epicentro do tremor está dentro da própria América.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesAcordos pré-nupciais: segundos casamentos e sensatez financeira (1) O recente ” Incidente do Tio Ho” (何伯事件) em Hong Kong desencadeou uma discussão acesa: um homem na casa dos 70 voltou a casar e passado pouco tempo morreu. Colocava-se a questão de quem iria herdar os seus bens, a esposa recente ou os cinco filhos do anterior casamento? Este assunto tem dado muito que falar em Hong Kong. O que começou por ser uma disputa familiar escalou para agitação social, reflectindo uma questão há muito escamoteada na sociedade chinesa: os acordos pré-nupciais. Nos actuais conceitos sobre matrimónio cada vez mais diversos e com a crescente incidência de segundos casamentos entre pessoas de meia-idade e entre idosos, qual é a real eficácia deste documento legal, que serve como “medida preventiva”. Será um assunto que todos os casais devem levar a sério? Um acordo pré-nupcial é um contrato assinado pelos noivos antes do casamento, que se destina a definir claramente a quem pertencem os bens maritais, a sua distribuição no caso de divórcio, a divisão das dívidas, a custódia dos filhos e outros assuntos. Não é sinal de desconfiança, mas uma forma bastante racional de clarificar com antecedência os limites financeiros, evitando futuros desentendimentos por causa da divisão do dinheiro. A legislação de Macau é originária de Portugal e reteve alguns dos seus aspectos através da Lei Básica (澳門特別行政區基本法). O Código Civil português (葡萄牙民法典) garante explicitamente aos parceiros o direito de escolherem o regime da propriedade marital; se não for feito nenhum acordo especial, o regime aplicado é o de “comunhão de bens adquiridos” (取得共同財產制). Ou seja: os bens que existiam antes do casamento permanecem apenas com o seu proprietário original, e só os bens adquiridos depois do casamento pertencem aos dois. Depois do divórcio, cada um fica com os bens que possuía antes do casamento. Depois de deduzidas as dívidas, os bens adquiridos depois do casamento são divididos em partes iguais pelos dois. O Artigo 1603 do Código Civil de Macau (澳門民法典) mantém este princípio e estipula explicitamente que cada esposo é o único proprietário dos bens que possuía antes do casamento e do rendimento de que através deles possa auferir. Os bens comuns são aqueles que foram adquiridos depois do casamento. Além disso, as heranças, dádivas, indemnizações, etc., são propriedade individual que não é sujeita a divisão. Macau tem requisitos rigorosos para acordos pré-nupciais: o Artigo 1574 do Código Civil estipula que o acordo pré-nupcial deve ser autenticado ou concluído da forma prescrita por lei, sujeito às restrições do Código do Registo Civil (民事登記法典), para ser válido. Um acordo apenas assinado por ambas as partes não tem efeito legal em Macau. A legislação da China continental também reconhece os acordos pré-nupciais. O Artigo 1065 do Código Civil da República Popular da China (中華人民共和國民法典) estipula que ambas as partes têm de concordar com a propriedade dos bens adquiridos durante o casamento e com a propriedade dos bens que existiam antes do casamento. Deve ficar decidido se são propriedade individual, conjunta ou parcialmente individual. Desde que o acordo esteja por escrito e não viole as disposições legais obrigatórias ou a ordem e a moral públicas, o tribunal aceita-o nos procedimentos do divórcio. Ao contrário de Macau, a China continental não requer que os acordos pré-nupciais sejam autenticados; as assinaturas são suficientes para o validar, mas a autenticação aumenta sem dúvida o seu valor de prova. Na próxima semana, continuaremos a nossa análise sobre a forma como os acordos pré-nupciais se aplicam aos segundos casamentos entre pessoas de meia-idade e entre idosos. Antes de concluirmos a presente análise, é importante salientar que em Macau os acordos pré-nupciais se podem aplicar a todos os casamentos, esta protecção não é um exclusivo dos casamentos entre pessoas mais velhas. Se um casal escolher o regime de bens adquiridos, os seus bens serão divididos de acordo com este regime em caso de divórcio, e esta protecção tem início na data em que o escolheram. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.ed
André Namora Ai Portugal Vozes25 anos é muito tempo Apresento ao público o meu blogue há muitos anos. Sei perfeitamente quanto é difícil manter diariamente notícias que interessem ao público leitor. A dificuldade na procura de informação credível e séria é uma luta que qualquer escrevinhador mantém consigo próprio. Possuir inspiração para titular, escrever e escolher fotografias resulta numa produção final que nunca pode agradar a gregos e troianos. Uma vez, aqui na Guarda, onde resido, recebi um convite para escrever artigos para uma nova revista que iria ser criada no Fundão. Torci o nariz. No Fundão? Terra onde existe um dos melhores e mais históricos jornais portugueses? Logo pensei que essa revista não iria ter muito tempo de vida. E acertei em cheio. Escrevi três artigos para que ficassem a aguardar publicação. O proprietário da futura revista iniciou uma laboração com um ou outro jornalista, um gráfico, uma revisora e uma senhora que devia atender as chamadas para a redacção e gerir a publicidade que fosse contratada com a administração da publicação. Bem, meus amigos, o que vos posso dizer é que na preparação do primeiro número, todos os que estavam empenhados na funcionalidade para produzir algo que informasse o público, começaram a ficar frustrados e impotentes por sentirem a dificuldade que seria apresentar um produto jornalístico apelativo. A revista nem teve o seu início… Vem isto a propósito, de ter ficado surpreendido com a história do diário Hoje Macau. Perguntei a mim mesmo como é que o Carlos Morais José e a sua equipa conseguiam manter diariamente um jornal com tanta diversidade de informação, com tanta divulgação da cultura chinesa, com tanta história da realidade que foi patenteada durante 500 anos em Macau, com a defesa de uma comunidade macaense que a administração portuguesa nunca soube acarinhar, com raríssimas contestações do que era publicado e com tanta qualidade gráfica, com notícias de grande interesse, com editoriais fulminantes, com colaboradores de um nível excelente, com páginas cheias de publicidade e com capas que estavam ao nível do meu jornal preferido, o Libération. Bendita a hora em que fui surpreendido. O director do Hoje Macau leu na net o que escrevia no meu blogue e convidou-me para colaborador do seu jornal. Que honra, que satisfação, que desafio, que responsabilidade por ir pertencer a uma equipa de excelência no mundo do jornalismo em terras do Oriente. Obviamente que há cerca de cinco anos aceitei de imediato. A referida responsabilidade que senti fez com que interiorizasse algo que nunca tinha pensado: estar atento ao que se passava semanalmente em Portugal e poder saber escrever para os leitores de um jornal tão prestigiado. Este mês, o Hoje Macau festejou os seus 25 anos de inserção no mundo do jornalismo com qualidade. 25 anos é muito tempo. Um quarto de século a apresentar novidades de Macau, da China, de Portugal e de todo o mundo. Que trabalho árduo de uma equipa que tem forçosamente de ser de enorme qualidade. Para essa equipa que produz o Hoje Macau sou obrigado, por consciência, a enviar-lhe os maiores encómios, especialmente ao Carlos Morais José, que decidiu encerrar um ciclo e passar a pasta da direcção do diário ao jornalista experiente e grande profissional, o João Luz. Pela minha parte, se o novo responsável pelo jornal assim o decidir, será com muita dedicação que continuarei a colaborar nestas páginas. Mas acima de tudo, desejo sincera e solidariamente muitas felicidades aos seus mentores e muitos votos de que o Hoje Macau prossiga por mais um quarto de século. Macau, os macaenses, os chineses e todo o público leitor de língua portuguesa merecem e, certamente, desejam que o Hoje Macau possa continuar na senda do êxito. Bem hajam. P. S. – Enviei ao director João Luz a fotografia que pudesse decorar esta crónica, porque foi a capa do jornal que mais me tocou e agradou. A manchete ‘Dá-me lume’ foi para mim ‘Dá-me força’, ‘Dá-me inspiração’, ‘Dá-me saúde’, ‘Dá-me amor pelos leitores de Macau’.
Paul Chan Wai Chi Um Grito no Deserto VozesRevisões da Lei da Habitação Económica A 8 de Setembro, fracções da habitação económica, nos Lotes A1 a A4 e A12 da Zona A dos Novos Aterros, foram oficialmente postas à venda. De acordo com informações da imprensa, os compradores apalavrados, elegíveis à aquisição destas fracções, afirmaram que o processo correu bem, que tiveram assistência dos funcionários e que consideravam o preço das habitações económicas aceitável e satisfatório. A actual Lei da Habitação Económica estipula que as fracções de habitação económica se destinam a ocupação de longa duração pelo proprietário e que só podem ser vendidas ao Instituto de Habitação. O relatório reuniu opiniões dos compradores apalavrados que afirmam que o principal critério para a compra de casa é o ambiente da zona e não o potencial de valorização. O relato de imprensa diz que essa estipulação não afecta os residentes que vivem permanentemente em Macau, mas menciona que o sistema de apoio à população na Zona A requer ser melhorado, especialmente no que respeita aos transportes públicos de forma a facilitar o acesso à Zona A. Será vital ter futuramente uma linha do Metro Ligeiro que vá directamente para esta zona. No entanto, o relatório não mencionava se apareceram muitos possíveis compradores no primeiro dia deste período de vendas das fracções de habitação económica. Numa notícia publicada na semana anterior, assinalava-se que, “o regime de habitação económica tinha sido revisto sucessivas vezes desde que foi anunciado o plano de construção de dezanove mil fracções de habitação pública’. Agora, ao abrigo da estipulação que determina que as fracções de habitação económica não podem ser postas à venda no mercado privado, os proprietários destas fracções só as podem vender ao Governo, não deixando espaço para o potencial de valorização. Além disso, não existe possibilidade de troca destas habitações…O entusiasmo para as candidaturas à compra das fracções de habitação económica diminuiu… Em apenas quinze anos, a situação alterou-se drasticamente de ‘falta de casas’ para ‘excedente de oferta’. As duas notícias não se contradizem e ambas divulgam os factos. Por um lado, os residentes têm necessidades habitacionais e, por outro lado, os atractivos da habitação económica diminuíram quando comparados com o período anterior ao regresso de Macau à soberania chinesa. Actualmente, o Governo da RAEM suspendeu a construção das fracções de habitação pública em resposta a esta situação. O problema da habitação em Macau nunca esteve relacionado com a falta de terrenos, mas sim com políticas que não é certo irem ao encontro das necessidades do desenvolvimento social global e dos interesses dos residentes. Desde que a da Lei da Habitação Económica foi revista em 2011, tem recebido múltiplas emendas, desde a proibição de revenda durante 16 anos à actual política das “fracções de habitação económica para sempre pertencentes ao Governo”. A situação alterou-se de “grave falta de habitações” para “excedente de oferta”, ilustrando que as políticas habitacionais do Governo da RAEM têm espaço para muito mais melhoramentos. Durante a sua deslocação no mês passado a Singapura, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, visitou distritos locais com projectos de habitação pública bem-sucedidos e louvou as políticas que os permitiram, especialmente o esquema de “Casa antiga em troca de uma casa nova”, o que merece a consideração do Governo da RAE. Dada a situação actual de Macau, retomar o modelo anterior da Lei da Habitação Económica, mais centrado nas pessoas, irá enfrentar desafios e interferir com significativos interesses instalados. Se o Governo da RAE tiver uma intenção genuína de prosseguir com as reformas, só o poderá fazer se for gradualmente removendo os obstáculos impostos. Estabelecer o “regime de troca de (fracções) da habitação económica” poderá ser uma iniciativa piloto. Além disso, fazer uso do aprovado, mas não implementado “Regime Jurídico da Habitação Intermédia” e reactivar o “Plano de Arrendamento de Habitação para as Famílias de Recém-casados” proposto pelo antigo Chefe do Executivo Edmund Ho, proporcionando aos jovens casais um local para iniciar uma família, ajudaria sem dúvida a aumentar a taxa de natalidade de Macau. A experiência de Singapura pode servir de referência. Mas para que Macau se torne a cidade da felicidade, o Governo da RAE tem de agir e acima de tudo tem de ser “realista e pragmático”.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesA filosofia da auto-erosão empresarial: inovação e risco de mãos dadas Quando falamos de inovação empresarial, o desenvolvimento da Apple surge à cabeça da lista pois é um clássico repetidas vezes citado no mundo dos negócios. Ao contrário de experiências que pretendem ultrapassar limites, como é o caso do autocarro de sushi de que falámos a semana passada, as inovações da Apple passam muitas vezes por expandir os seus próprios produtos. Muitas pessoas interrogam-se: a Apple opera várias linhas de produtos, como o iPhone, o iPad e o Mac e lança novos produtos que muitas vezes invadem a quota de mercado dos mais antigos. Porque estaria a empresa disposta a lançar produtos que “lhe roubam o próprio negócio”? Em meados dos anos 2000, o iPod trouxe lucros substanciais à Apple. No entanto, o então CEO Steve Jobs foi suficientemente astuto para reconhecer que a integração da funcionalidade playback MP3 nos telemóveis iria inevitavelmente ameaçar a sobrevivência dos leitores de CDs. Em resposta a esta tendência, a Apple lançou o iPhone em 2007, que combinava ecrã multi-táctil, acesso à internet móvel e leitor de música. À medida que os smartphones se tornavam cada vez mais potentes, o iPhone acabou por tornar-se o produto de maior sucesso da Apple, gerando mais de metade das receitas da empresa, elevando-a de fabricante de computadores e leitores multimédia de média dimensão para um dos grupos tecnológicos mais valiosos do mundo. A mesma lógica de “auto-erosão” foi aplicada ao iPad e ao iPhone. Lançado em 2010, o iPad foi inicialmente promovido por Steve Jobs como um “terceiro dispositivo” entre o iPhone e o Mac (computador de secretária ou portátil): comparado com o iPhone com ecrã de 35 polegadas, o iPad com ecrã de 9,7 polegadas era mais adequado para ler e ver vídeos. No entanto, com o aparecimento de telemóveis com grandes ecrãs como o iPhone 6 Plus, chegando alguns a ter ecrãs de 6,7 polegadas, os consumidores perceberam que os telemóveis podiam satisfazer a maior parte das suas necessidades de entretenimento, afectando a procura do iPad básico. Confrontada com a competição interna entre os seus produtos, a Apple optou por não proteger o iPad’s original. Em vez disso apostou na sua transformação. Em 2015, a Apple lançou o iPad Pro e o Apple Pencil, metamorfoseando o iPad de dispositivo de entretenimento numa ferramenta utilizada para desenhar, tomar notas e planificar. Mais tarde, com a adição de um teclado externo, surgiram as ferramentas multi-tarefas os iPadOS e os chips série M. Nessa altura, a Apple lançou o slogan “O teu próximo computador não tem de ser um computador,” desafiando o mercado tradicional de portáteis. A Apple não teve medo que o iPhone canibalizasse a quota de mercado do iPod e do iPad, nem se preocupou com o impacto que o iPad teria na venda do Mac. A sua lógica orientadora é clara: independentemente do produto que os consumidores acabam por escolher, quem beneficia em última análise é a Apple, e os utilizadores permanecem dentro do seu ecossistema. Isto reflecte o famoso ditado empresarial: “Se não te canibalizares, alguém o irá fazer.” Em vez de esperar que a competição lance novos produtos e roube o mercado, a empresa assume o controlo, substituindo os antigos por novos produtos. No entanto, a auto-inovação não significa imprudência cega. A estrada para a inovação está pavimentada tanto por triunfos como por inúmeras tentativas falhadas. Antes de lançar um produto inovador, as empresas têm de avaliar cuidadosamente todos os riscos: Que perdas podem ocorrer se a nova ideia não conseguir a aceitação do mercado? Existem recursos financeiros suficientes? Existem planos de contingência alargados? O sucesso da Apple, além da coragem necessária para se recriar, foi inseparável da excepcional visão do seu líder e de uma sólida situação financeira. Voltando a Tóquio, ao autocarro de sushi que analisámos a semana passada, que proporciona uma experiência única em todo o mundo, ao mesmo tempo que representa inovação incremental ao abrir novas vias é bastante diferente da auto-invasão da Apple, mas partilha a mesma essência empresarial — a novidade e a fama inicial podem gerar um burburinho temporário, mas o desenvolvimento a longo prazo exige retorno do investimento, experiência e gestão de riscos. Quer seja na área tecnológica ou na área do turismo, para que a inovação empresarial tenha pernas para andar, a coragem e a cautela são igualmente indispensáveis. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesAs guerras mundiais não se planeiam For folly is more often than not a child of power.” Barbara W. Tuchman, The March of Folly: From Troy to Vietnam (1984) Existe uma crença infantil, embora amplamente partilhada entre adultos com diplomas, cargos ministeriais e acesso privilegiado a briefings confidenciais, segundo a qual as guerras mundiais começam quando alguém decide formalmente que chegou o momento de iniciar uma guerra mundial. A ideia é tão cómoda quanto errada. Pressupõe que a História obedece a calendários, que os governantes dominam os acontecimentos e que os conflitos surgem segundo guiões racionalmente elaborados. Infelizmente para os optimistas profissionais, a História é menos organizada do que os comunicados oficiais e muito mais sarcástica do que os discursos dos estadistas. As guerras mundiais não se planeiam. Tornam-se mundiais. Crescem por acumulação, por sobreposição de crises, por encadeamento de erros e por sucessivas tentativas de resolver um problema através da criação de problemas maiores. São o equivalente geopolítico de um incêndio iniciado por uma vela esquecida, agravado por uma instalação eléctrica defeituosa e concluído com alguém a decidir apagar as chamas utilizando gasolina. Barbara Tuchman, na obra clássica “The Guns of August” (1962), demonstrou como a I Guerra Mundial não resultou de uma conspiração cuidadosamente delineada para destruir a Europa. Resultou antes da conjugação de alianças rígidas, mobilizações automáticas, cálculos errados e convicções excessivamente optimistas. Cada potência acreditava controlar a situação. Nenhuma a controlava. O resultado foi uma catástrofe à escala continental que rapidamente se transformou numa tragédia global. Décadas mais tarde, Christopher Clark, em “The Sleepwalkers: How Europe Went to War in 1914” (2012), aprofundou essa interpretação ao descrever as lideranças europeias como sonâmbulos avançando para o abismo. Não estavam inconscientes. Pelo contrário, estavam plenamente despertas. O problema era outro; viam apenas fragmentos da realidade e confundiam frequentemente os seus desejos com os factos. A observação permanece inquietantemente actual. Os conflitos contemporâneos surgem quase sempre envoltos em promessas de rapidez, precisão cirúrgica e objectivos limitados. Os decisores políticos asseguram que tudo está calculado. Os estrategas garantem que os riscos foram avaliados. Os comentadores televisivos distribuem certezas com a prodigalidade de quem oferece amostras grátis num supermercado. Depois a realidade intervém. A chamada “Grande Guerra” do nosso tempo não nasceu de uma única decisão nem de um único teatro operacional. É a fusão de várias crises que se alimentam mutuamente. O conflito na Ucrânia, as operações militares israelitas desencadeadas após o massacre de 7 de Outubro, a crescente tensão envolvendo o Irão e a rivalidade entre grandes potências configuram partes distintas de um mesmo fenómeno que é a deterioração progressiva da ordem internacional construída após a II Guerra Mundial. Aquilo que inicialmente eram operações supostamente limitadas transformaram-se em conflitos de duração indeterminada, dotados de dinâmica própria. Uma vez iniciados, passaram a produzir justificações para a sua continuação. Carl von Clausewitz advertia em “Da Guerra” que a primeira tarefa de qualquer líder consiste em compreender a natureza do conflito que pretende travar. O conselho permanece famoso sobretudo porque continua a ser ignorado com admirável consistência. Ao longo da História, inúmeros governos iniciaram campanhas militares convencidos de que bastariam algumas semanas para atingir os seus objectivos. Poucos anteciparam os anos de desgaste, os custos financeiros exorbitantes, as consequências imprevistas ou as transformações políticas internas geradas pelas próprias guerras. A diferença actual reside na ausência de uma autoridade reconhecida capaz de arbitrar disputas entre grandes actores internacionais. Durante décadas, os Estados Unidos desempenharam esse papel, ora com legitimidade, ora sem ela, mas quase sempre com capacidade efectiva para influenciar decisivamente os acontecimentos globais. Essa posição encontra-se hoje fragilizada. Washington continua a ser a principal potência militar do planeta, mas a sua capacidade de definir unilateralmente as regras do sistema internacional diminuiu consideravelmente. Paul Kennedy, em “The Rise and Fall of the Great Powers” (1987), descreveu o fenómeno através do conceito de sobre-extensão imperial. As grandes potências tendem a acumular responsabilidades, compromissos e conflitos para além dos recursos necessários para os sustentar indefinidamente. Quando essa discrepância se torna visível, os concorrentes começam a testar os limites da potência dominante. É precisamente nesse momento que as rivalidades aceleram. O problema não consiste apenas no aparecimento de novos centros de poder. Consiste na percepção de que a autoridade antiga deixou de ser incontestável. Na política internacional, as percepções possuem frequentemente mais importância do que os factos. Um Estado pode continuar poderoso e, ainda assim, parecer vulnerável. E basta parecer vulnerável para incentivar apostas que anteriormente seriam consideradas suicidas. A situação torna-se particularmente perigosa quando diferentes actores passam a encarar os seus conflitos como questões existenciais. Quando tudo é existencial, nada pode ser negociado. Quando cada recuo é interpretado como ameaça à sobrevivência nacional, o compromisso passa a ser visto como traição. Quando a política se converte numa luta entre absolutos morais, a diplomacia perde espaço. E quando a diplomacia desaparece, a guerra adquire uma autonomia assustadora. A este respeito, Tucídides continua a ser um dos observadores mais lúcidos da condição humana. Na “História da Guerra do Peloponeso”, mostrou como medo, interesse e ambição constituem os motores fundamentais dos conflitos entre potências. Passaram mais de dois milénios e meio desde então. Mudaram os uniformes, os sistemas políticos e as tecnologias. Os impulsos essenciais permanecem notavelmente semelhantes. O Médio Oriente oferece actualmente um exemplo quase pedagógico dessa realidade. A região transformou-se numa complexa teia de confrontos directos e indirectos, rivalidades históricas, tensões religiosas, disputas energéticas e cálculos estratégicos contraditórios. Cada intervenção produz consequências inesperadas. Cada tentativa de estabilização gera novas fontes de instabilidade. A ironia é quase perfeita. As guerras são frequentemente apresentadas como instrumentos destinados a aumentar a segurança. Porém, após décadas de campanhas militares sucessivas, a insegurança parece crescer mais rapidamente do que a segurança prometida. George Orwell, no ensaio “Politics and the English Language” (1946), denunciava o uso da linguagem política para tornar aceitável o inaceitável. O seu diagnóstico mantém uma actualidade desconfortável. Já não existem apenas guerras; existem operações especiais, acções preventivas, respostas proporcionais, missões de estabilização e intervenções defensivas. A nomenclatura muda com impressionante criatividade. Os cemitérios permanecem teimosamente tradicionais. Enquanto isso, as repercussões económicas dos conflitos alastram muito para além dos campos de batalha. Rotas marítimas vitais enfrentam perturbações constantes. Mercados energéticos tornam-se mais instáveis. Cadeias globais de abastecimento revelam fragilidades anteriormente ignoradas. A globalização, que durante anos foi apresentada como garantia automática de paz e prosperidade, descobre subitamente que depende de condições políticas e estratégicas que não controla. A Europa encontra-se particularmente exposta a esta realidade. Acostumada durante décadas a considerar a guerra um fenómeno distante, o continente confronta-se agora com a possibilidade de viver num ambiente internacional marcado por competição estratégica permanente. Dependente de energia importada, fortemente integrada no comércio global e politicamente fragmentada, enfrenta desafios para os quais as suas lideranças nem sempre parecem adequadamente preparadas. Raymond Aron advertia em “Paix et Guerre entre les Nations” (1962) que a paz não constitui o estado natural das relações internacionais. É uma construção política delicada, sustentada por equilíbrios frequentemente precários. Quando esses equilíbrios se degradam simultaneamente, os riscos multiplicam-se. É precisamente essa degradação que observamos. Nenhum dos principais actores internacionais afirma desejar uma guerra mundial. Nenhum proclama ambições apocalípticas. Nenhum apresenta programas oficiais para destruir a ordem global. E é precisamente por isso que a situação merece ser observada com atenção. Também em 1914 poucos sonhavam com quatro anos de carnificina industrializada. A convicção mais perigosa em política internacional é a certeza de que os acontecimentos permanecerão sob controlo apenas porque sempre estiveram. A História possui um perverso sentido de humor. Costuma desmentir esse tipo de confiança com impressionante regularidade. As guerras mundiais não surgem porque alguém as planeia meticulosamente. Surgem quando demasiados conflitos se tornam simultaneamente inseparáveis. Quando demasiadas potências consideram os seus objectivos inegociáveis. Quando o prestígio substitui a prudência. Quando o medo supera a racionalidade. E quando já ninguém possui autoridade suficiente para impor travões. Nessa altura, os líderes continuam a discursar sobre estabilidade, os especialistas continuam a falar de gestão de crises e os cidadãos continuam a acreditar que o pior ainda pode ser evitado. Até ao dia em que descobrem que o pior já começou há bastante tempo.
João Luz Editorial VozesEditorial – Mudança de direcção Um homem muito mais sábio do que nós disse há muito tempo que aquilo que somos é a soma do que fazemos repetidamente. O que fazemos é, de certa forma, o que somos. Uma máxima cruelmente parafraseada que nos resume com precisão cirúrgica: um jornal diário de Macau, em português, que comemora 25 anos de resistência, tinta e palavra impressa. Nesta terra de contínuas metamorfoses, que acumula novas eras e fases a uma velocidade vertiginosa, iniciamos hoje uma nova direcção e plural edição. Há 25 anos, o fundador do Hoje Macau, Carlos Morais José, construiu com rigor e audácia as bases sólidas de um projecto que sempre se focou em testemunhar, registar e narrar a história quotidiana da Macau. Esta permanece a nossa missão inabalável e esperamos honrar sempre esta herança. O nosso propósito fundamental é manter viva a portugalidade, a matriz da nossa língua e o valioso legado histórico e cultural que confere a Macau as especificidades de uma cidade verdadeiramente única no mundo, sem nunca tirarmos os olhos da evolução constante e do pulsar desta China que nos abraça. Nada disto, porém, seria possível sem a equipa que move esta redacção dia após dia com enorme dedicação e que recusa o caminho mais fácil na hora de informar os nossos leitores. É com este espírito que assumimos o dever de ser um espaço de acolhimento que dá voz activa a todas as comunidades de Macau — das mais antigas às mais recentes, sem excepções ou preconceitos. Também não esquecemos a nossa missão de relatar o dia-a-dia de Macau para todas as comunidades. Guiados sempre pela bússola inflexível da independência, da imparcialidade e do posicionamento singular de Macau no mundo, renovamos hoje o compromisso solene com o nosso léxico jornalístico mais puro: manter um olhar mordaz, acutilante e humorístico, envelopado num design arrojado e original que nos caracteriza desde o primeiríssimo número, até esta bonita e simbólica data de um quarto de século. Venham mais 25 de uma assentada que eu escrevo já.