Querido Mio

[dropcap]8[/dropcap]4. Já não sei o que aconteceu para que daquela tarde não tivesse nascido um texto. Não sei em que ano foi, mas sei que aconteceu numa sexta-feira, uma sexta-feira à tarde, de muito calor. As usual. A ideia era ir e ali ficar uma hora. Lembro-me que essa hora levedou para quatro.

Lembro-me de entrar e de pensar na invulgaridade da situação: não são muitos os entrevistados que abrem as portas de casa, sobretudo quando não nos percebemos. Erro, essa coisa do entendimento ou da falta dele. Perceberia depois.

Naquele momento, o momento inicial, ele queria falar-me dele, mas antes queria que visse as outras paredes da casa, aquelas que eram feitas pela companheira de uma longa travessia. Ele sabia que me faltava esse contexto e carregou-me de livros, fez-me olhar para as outras cores.

E depois veio a vida, a vida toda de um homem único. O homem que pintou e destruiu muito daquilo que pintou só para poder continuar a sobreviver. A infância, a adolescência. O pai, a Xangai dele, a partida da Xangai dele. A vida a transformar-se porque o país onde nasceu não o deixou ser quem queria ser. Os livros de fora que contemplava às escondidas. Os desenhos que fez às escondidas. A arte como um crime, a arte como libertação, a arte que o manteve em pé, em linha recta.

Eu sentada numa ponta do sofá. Ele na outra. Eu a falar numa língua. Ele a responder noutra. Um tradutor pelo meio, um miúdo simpático, a olhar para o relógio e a ver o dia a passar. E eu a perceber o sentido das coisas apesar de me afogar facilmente num idioma que me continua a ser estranho. Eu a pensar que, apesar dos milhares de quilómetros de distância, entre aquele homem e o meu pai só os separava o orientalismo e mais umas quantas coisas de pormenor. Tinham idades aproximadas, a mesma forma de cruzar a perna e a mesma forma pausada de falar. E um passado de amarguras engolidas para salvar a pele. Eu a pensar que as pessoas podem ser todas muito o mesmo, apesar de serem todas inacreditavelmente diferentes.

Ele já não pintava grandes telas. Mas continuava a pintar grandes quadros. E continuava a emocionar-se quando se recordava do quanto chorou quando finalmente aterrou em Paris e viu, numa parede, o que durante muitos anos decalcou às escondidas. Para aprender das artes dos outros.

No ano em que eu nasci, ele, do outro lado do mundo, percebeu que a espera tinha sido em vão. Pouco depois, pegou nas malas e saiu. Macau era, nos planos originais, um stop over, mas acabou por ser mais, houve quem tivesse tropeçado nele, neles, naquele casal de pintores, naquele homem que reinventou a arte porque a pintou por dentro. Dizem que é o pai do neo-orientalismo.

O tradutor, o miúdo simpático, já se havia impacientado e não esperou pela boleia de regresso, despediu-se e apanhou um autocarro. Ele disse-me para ficar mais um pouco. Bebi um chá e ouvi-o falar. Saí dali atordoada e na rua fazia calor, tanto calor. Uma hora que foram quatro e há momentos em que certas páginas são para ficar em branco, por ser impossível escrevê-las. Às tantas foi por isso que não escrevi.
Desculpe, querido Mio, devo-lhe um texto. Querido Mio.

Maria João Vaz, actriz e artista plástica: “Sinto-me mais feliz do que nunca”

Maria João Vaz, actriz e artista plástica, nasceu num corpo de homem com o qual nunca se identificou. Manteve o seu lado feminino em segredo durante a maior parte da sua vida, mas aos 56 anos de idade teve a coragem de se assumir finalmente como mulher

 

[dropcap]C[/dropcap]om que idade começou a sentir que era uma mulher num corpo de homem?

Olhando retrospectivamente para a minha vida, o primeiro sinal de alguma coisa fora do comum, foi aos 5 anos. Sei exactamente a idade porque frequentava a pré-primária. Eu gostava imenso de trocar de sapatos com as minhas colegas de aula… era uma sensação indescritível… um prazer enorme e desconhecido. Aquela escola era péssima, havia vários castigos, levar reguadas na mão, ficar virada para um canto, e havia um castigo para os meninos, em particular, quando se portavam mal: vestiam-lhes um bibe de menina cor de rosa que formava uma saia com um laço atrás e uma fita no cabelo, e faziam-nos subir para cima da mesa. Era suposto ser a suprema humilhação, mas para mim não era, para mim era muito prazeroso. Nos verões com um amigo, fazíamos espectáculos para os nossos pais e irmãos, vestidos com roupas da minha mãe, com brincos de mola, malinhas e maquilhagem…, nós gostávamos imenso. Depois, não me lembro – se calhar é um recalcamento qualquer…

Deixou de fazer isso?

Sim, a partir de uma certa altura deixei de fazer isso em público e passei a fazer em privado. Com roupas das empregadas lá de casa, com as roupas da minha mãe, sentia-me muito bem, mas não havia qualquer consequência. A questão é que naquele tempo – estamos a falar do início dos anos 70 – não havia informação nenhuma, não se ouvia falar de homossexualidade nem de outras sexualidades. O meu pai era uma pessoa um bocadinho machista e o meu irmão mais velho, que era o meu “role model”, era um cowboy, um conquistador, o rei dos skates, do surf e o meu protetor, mas apesar de eu o amar muito, ele tinha uma atitude agressiva para tudo o que era relativo a homossexualidade, que eu – apesar de não me identificar – sentia-me magoada. Para mim era claro que o que eu fazia secretamente não era normal e era condenável, e pronto…toda a vida mantive uma vida paralela em que me assumia como mulher em privado. Levava coisas para a casa de banho às escondidas da família, ou vestia-me dentro da cama – eu dormia com mais 2 irmãos no quarto – e vestia-me dentro da cama e assim ninguém sabia. Agora, eu conscientemente, não sabia o que aquilo significava. Achava que era uma pessoa estranha, uma pessoa esquisita e que mais ninguém era assim, por isso nunca me abri com ninguém e fui sempre uma pessoa muito frágil e sensível, nunca gostei de confrontos … como o dinossauro do Toystory (filme da disney) “i don’t like confrontations”. Quando fiz o meu “coming out” as pessoas disseram “nunca imaginámos, nunca houve qualquer indício”, isso significa que fiz um bom trabalho para me proteger e manter tudo secreto.

Namoradas?

A minha primeira namorada, é a mãe das minhas filhas. Mas apesar de ter sido namorado dela e de termos casado nunca deixei, por um momento, a minha prática de Cross-dressing e desejar não ter o que tinha entre as pernas, apesar de ter 3 filhas. Estive sempre muito presente na vida delas, os biberões, as fraldas, os banhos, o adormecer, o acordar, o vestir e despir, na grande maioria das vezes era eu que tratava disso. Gostava muito de ter sido mãe. Percebi cedo que havia uma grande incompatibilidade emocional com a minha parceira, mas tinha 3 filhas que dependiam emocionalmente de mim, e a coisa foi-se arrastando. Nunca imaginei ser uma pessoa que se divorciasse ou que alguma vez me fosse assumir como mulher transgénero.

Também não havia muita informação.

Pois. Com o aparecimento da internet comecei a ver coisas, a informar-me. Ainda casada, a disforia era tanta, que mesmo com pouca informação comecei a medicar-me, mas depois tive medo pela minha saúde e parei. Comprava todo o tipo de coisas na net que me tornassem mais feminina. Foi um processo muito lento. Às vezes, preparava-me, pegava no carro e ia meter gasolina ou comprar qualquer coisa, e falava com as pessoas que me recebiam e atendiam como mulher. Uma vez fui de carro até Madrid fazer um workshop com a directora de casting Sara Bilbatua. Completamente “en femme”, pus gasolina, fiz check in no hotel… eu sentia-me no paraíso. Só que depois havia sempre um complexo de culpa, uma negação. Sempre. Deitava tudo fora. Depois voltava a comprar. E voltava o complexo de culpa. Nunca percebi efectivamente o que tudo aquilo queria dizer, o que de facto significava. A frustração, o desespero colocavam-me num beco sem saída, tive inclusive uma série de ataques de pânico, tendo um deles acabado no hospital. Percebi que não podia continuar em casa, tinha de sair e mudar as coisas.

E saiu?

Saí.

E quando se assumiu como mulher Trans?

A minha epifania deu-se entre 2017 e 2018, consultei aliás psicólogas especializadas que confirmaram o que subitamente se tornou claro. O meu “coming out” para as filhas foi na Primavera de 2019 e para o resto da família no fim do Verão de 2019. Para o mundo, foi dia 3 de Agosto deste ano, depois de um ano de tratamento hormonal e de um confinamento que veio em boa hora para me dar tempo de adaptação e desenvolver a minha auto-confiança.

É muito recente.

Sim, e o confinamento deu-me imenso jeito porque o meu corpo foi-se modificando sem olhares indiscretos.

Como é que a sua família reagiu?

As minhas filhas reagiram bem… se é o que eu quero e me faz feliz. Elas apoiam-me e querem o melhor para mim, são as minhas melhores amigas.

Há uma grande falta de informação sobre as pessoas transgénero e é muito comum pensar-se – no seu caso – que são pessoas homossexuais que gostam de se vestir de mulher. A identidade de género é erradamente confundida com a orientação sexual.

Exactamente. A identidade de género é o sexo com que uma pessoa se identifica, no meu caso é o feminino. A orientação sexual diz respeito ao sexo que nos atrai emocionalmente e fisicamente. Se eu me sentir atraída por mulheres transgénero ou cisgénero, serei lésbica, se for por homens trans ou cis serei heterossexual, se gostar de homens e mulheres trans ou cis ou não binárias, ou intersexo, serei pan-sexual, há muitas definições.

Já encontrou alguma dificuldade no seu dia a dia como mulher?

Não. Até estou muito bem impressionada com as pessoas. Tive algum receio de me cruzar com os vizinhos e algumas pessoas do bairro mais radicais, o que me causava alguma apreensão, mas as minhas filhas respondiam a esse receio com “oh pai, isso pode acontecer nas primeiras semanas, mas depois vão habituar-se e já não vão ligar nenhuma”, e tinham razão. Já ouvi umas bocas, como qualquer mulher ouve, de grupos de homens que passam de carro, mas sem drama. Claro que a violência acontece, e em países como o Brasil e os Estados Unidos, dezenas de mulheres trans são assassinadas por ano, especialmente afro descendentes.

Há uma resistência nas pessoas em geral em aceitar e compreender a igualdade de género e ainda mais as escolhas de identidade de género.

Infelizmente isso é verdade que existe, no entanto felizmente ainda o não senti na pele. No microcosmos que é o meu prédio, onde vivem pessoas de origem social e profissional completamente diferentes, houve uma recepção calorosa e encorajadora. Talvez eu tenha uma vantagem porque as pessoas sempre me viram na televisão, nas séries ou nas telenovelas, habituaram-se a ver-me transformada, cabelos, bigodes, barbas se calhar acham que é mais uma personagem … não sei. Eu já lhes disse…”agora é assim, e chamo-me Maria João”. E recebo muita simpatia. Sempre nos demos bem e continua assim.

Como olha para o seu passado como homem?

Está morto, essa pessoa já não existe. Não gosto de contemplar a minha imagem, o meu invólucro antigo, causa-me desconforto e não me reconheço. É muito estranho porque olho para uma fotografia e parece uma pessoa muito mais velha do que eu…é passado sim, mas é uma pessoa mais velha. Porque eu sinto que fui transportada para 20 ou 30 anos para trás… há quem diga que as hormonas produzem uma segunda puberdade, talvez seja isso, sinto-me renascida.

Quais as diferenças entre antes e depois? Se é que há diferenças?

Houve uma transformação física e também psicológica, as hormonas têm certamente alguma coisa a ver, se eu era sensível, agora estou ainda mais. A percepção do mundo é diferente, o toque, os cheiros, o gosto pessoal das artes em geral sofreu também alterações, na música, no cinema, etc. Por outro lado sentindo-me liberta, muitas facetas que estavam encerradas em mim, podem agora expressar-se livremente, as outras pessoas notam-no mais do que eu, no fundo sou como sempre fui mas assumidamente, não há nada a esconder. Sinto-me feliz como nunca. Houve um momento marcante para mim, o momento em que me encontrei cara a cara com outra mulher trans, foi um dos dias mais felizes da minha vida, uma sensação indescritível de identificação e pertença, porque tudo o que tu dizes a outra pessoa e ela te diz a ti é instantaneamente compreendido como por mais ninguém. Há uma ligação fortíssima.

Assusta-a o crescimento dos discursos de ódio dos partidos populistas de extrema direita?

Em Portugal, no “país dos brandos costumes”…  as pessoas são pouco interventivas socialmente, mas são dissimuladas e violentas nas redes sociais. Há pouca iniciativa cívica de lutar pelos direitos humanos. E agora temos este novo deputado que apareceu (André Ventura) que diz à boca aberta o que muita gente diz à boca fechada. Foram fenómenos destes que levaram ao poder o Trump e o Bolsonaro, e a comunicação social tem alguma responsabilidade porque lhes dá cobertura, é vendável. Esse deputado aproveita a ignorância e o medo, e recorrendo a um discurso demagógico tenta ganhar dividendos dessa massa anónima e aparentemente descontente para levar a cabo a sua estratégia de perverter o sistema, afirmando coisas como “os imigrantes e os refugiados vêm tirar-nos o emprego”; “os gays e as lésbicas vão estragar as nossas famílias”.

A teoria do medo.

Sim, houve uma crise recente e as pessoas arranjam bodes expiatórios e esses partidos aproveitam-se do descontentamento da população e é nessas áreas problemáticas, entre aspas, que vão buscar os votos porque é a teoria do medo, exactamente. Manter o povo ignorante, manter as pessoas assustadas e depois aparecem como protectores. As pessoas dedicam cada vez menos tempo aos filhos, as crianças são educadas com Ipads e telemóveis …é a cultura do espectáculo, a teoria do medo e a teoria do desconhecido, porque a percentagem de pessoas no mundo e em particular em Portugal que conhece alguém transgénero é diminuta, porque nós somos poucas, somos menos de 1 por cento da população.

Acredita que chegará a altura em que ser mulher ou homem não passará pela genitália mas apenas pela sua identidade? Em que os direitos humanos são respeitados independentemente da opção de cada um?

Vamos acreditar nisso. Eu quero acreditar nisso.

ENTREVISTA Teresa Sobral
FOTOS Inês Oliveira

Plano Director V – Da Morfologia Urbana / O espaço canal

[dropcap]E[/dropcap]m morfologia urbana importa tanto o que se concretiza, com as características e os atributos do que se concretiza.

A tipologia urbana de espaço canal é caracterizada por um território rasgado por artérias onde os humanos circulam socialmente nas suas diversas formas de locomoção e de interacção urbana.

A fronteira desses espaços constitui o limiar entre o público e o privado, e o mesmo significa territorialidade, segurança e privacidade.

Naturalmente as configurações que disso podem resultar são diversas e as variações constituem manifestação cultural.

Efectivamente, no espaço mediterrânico, o limiar desses canais era tendencialmente murado, e ainda é, independentemente de a edificação privada se estender, ou não, até esse limite.

Disso resultava resguardo da luz, da territorialidade e da privacidade, senão mesmo contenção da ostentação privada que não era bem vista, sendo isso o que ainda persiste nas culturas a sul e a este do Mediterrâneo.
Assim, as construções tinham poucas portas e janelas que dessem directamente para o espaço público, e tinham cortinas necessariamente.

Aí, o espaço público era estritamente o necessário, porque não era de fácil manutenção, e nem sempre claro se o mesmo era de todos, ou antes, se era de ninguém.

Foi também essa uma tradição que emergiu de densidades populacionais mais altas, i.e. onde a vida humana estava organizada em regimes de grande concentração e proximidade, numa cidade que representa o território em torno, e que se dedica a actividades predominantemente de entreposto comercial.

Se nos distanciarmos desta realidade urbana ocidental, que sequer é estranha à oriental, e se progredirmos na direcção das tradições do norte europeu, que são as mesmas que proliferaram do outro lado do Atlântico, ao norte do continente americano, aí as ruas não são muradas sempre que a construção não se estende até ao limiar da rua, o espaço público abunda em climas onde é mais fácil manter estruturas de verde ambiental, e facilmente gera paisagem natural. É também uma tradição que emergiu de densidades populacionais mais baixas, onde poucas são as ruas que têm actividades comerciais.

Aí, as construções já precisam de captar luz, as janelas são maiores e não se correm cortinas.
Nos países de religião predominantemente protestante, correr cortinas é antes visto como encobrimento de algo que não é socialmente aceitável.

Em verdade, circular à noite nas ruas de uma cidade holandesa, onde abundam edifícios com habitação no rés-do-chão, a tentação de um estrangeiro é mesmo olhar para os interiores das casas.

E de tudo isso chegam ainda manifestações dispersas aos nossos dias, tais como, quando alguém responde a um anúncio de uma propriedade em Portugal, a primeira pergunta que faz é se está murada. Ou a avó que visita a casa dos netos na Holanda e vê as cortinas corridas, a primeira coisa que faz é abri-las, por causa do que os vizinhos possam pensar.

Em verdade, as dispersões das semelhanças destas tradições foram no passado mais em torno de um mar, de um rio, ou de um canal.

Resulta por isso curioso que, no passado, os humanos já estiveram mais próximo de poderem ser nacionais de meios hídricos, nas margens dos quais se fixaram, do que dos territórios continentais que a partir dessas margens se estendiam.

E tudo teve a ver com os caminhos que se percorriam, dos quais o caminho pelo meio hídrico já foi o mais fácil e o mais público.

As tradições urbanísticas ocidentais do sul e do norte, muito embora norteadas pelo mesmo modelo clássico de urbanização, resultaram de diferentes densidades demográficas, onde numa, a escassez era mais a edificação, e noutra, a escassez era mais o espaço público.

Foi a revolução industrial que veio homogeneizar essas diferentes demografias urbanas do mundo ocidental e, no final do séc. XIX, a ocupação dessas cidades já se caracterizava na generalidade pelo aproveitamento do solo com construção até aos limites do espaço privado.

Assim, o espaço canal, formado principalmente por ruas (os segmentos), mas também por praças (os nós), definidos pelos seus planos marginais (o alinhamento das fachadas dos edifícios), passou a ser a modalidade mais generalizada de definição do espaço urbano.

Em verdade, o território urbano onde a construção esporadicamente se elevava, passou a ser toda igualmente elevada, apenas esporadicamente perfurada no miolo do domínio privado por pátios ou saguões, para ventilação e entradas de luz, e rasgada no domínio público por fundos canais onde toda a vida social se concentrava e acontecia, fosse nas rotinas diárias, como nas ocasionais, fosse para ligações distantes ou próximas.

As ruas passaram a ser o suporte mais elementar de toda a organização social e económica urbanas, às quais os residentes da cidade pertenciam como a uma nação, da mesma forma como já tinham pertencido no passado a um mar, um rio ou um canal.
Continua…

A multiplicidade da História

[dropcap]D[/dropcap]epois de anos de trabalho árduo, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) concluiu os trabalhos de publicação de um conjunto de 12 volumes da versão piloto dos materiais didácticos de “História”, do ensino secundário de Macau, compilados pelo Instituto de Curricula e Manuais Escolares da Imprensa para a Educação do Povo da China. Segundo os dirigentes da DSEJ, mais de 90 por cento das escolas de Macau usam estes materiais didácticos. A Imprensa para a Educação do Povo vai trabalhar em conjunto com a DSEJ para completar a tradução para inglês e publicar as versões em inglês e português dos materiais didácticos de “História”. Espera-se que estejam disponíveis para as escolas em 2021.

Não existem quaisquer dúvidas sobre as capacidades da Imprensa para a Educação do Povo da China. A DSEJ também criou a Comissão de Apreciação para emitir pareceres sobre a versão piloto dos materiais didácticos de “História”, compilados pela Imprensa para a Educação do Povo, por isso estes manuais não deverão conter qualquer tipo de erros ou sofrer qualquer género de omissões. No entanto, a edição, publicação e distribuição ficam inteiramente a cargo da Imprensa para a Educação do Povo, estando obviamente a cargo dos seus funcionários o trabalho de compilação dos materiais. Com base na sua formação académica, irão inevitavelmente adoptar uma abordagem materialista da História, o que é naturalmente compreensível. Mas os estudantes e os professores devem ter consciência de que os manuais de História não são a própria História, sendo apenas um dos meios que nos permite compreendê-la. Desta forma, será mais adequado encarar a versão piloto dos materiais didácticos de “História” como uma das muitas opções a que as escolas têm acesso para o estudo desta disciplina. Na medida em que 90 por cento das escolas de Macau adoptaram a versão piloto dos materiais didácticos de “História”, podemos depreender que estas instituições em geral apoiam de forma entusiástica a DSEJ.

Um dos objectivos do estudo da História é a procura da verdade. Autores com diferentes perspectivas da História podem ter interpretações diferentes dos factos e é difícil decidir qual é a melhor. Tal e qual como o pato à Pequim e o pato à Cantão, cada um com o seu sabor particular e cada um com os seus apreciadores.

Como tal, é difícil assinalar quais os prós e contras da versão piloto dos materiais didácticos de “História”, compilados pela Imprensa para a Educação do Povo. Mas, enquanto cidadão que vive em Macau, numa região onde vigora o princípio “Um País, Dois Sistemas”, permito-me dar a minha opinião sobre os conteúdos da versão piloto dos materiais didácticos de “História”.

Por exemplo, na versão piloto dos materiais didácticos de “História” para o 3o ano de ensino secundário geral, dedicado à “História Mundial”, a legenda da foto do Muro de Berlim diz o seguinte, “Em 1961, a Alemanha de Leste criou um bloqueio militar em torno de Berlim Ocidental para impedir a saída dos cidadãos nacionais e impedir a invasão dos valores do Ocidente. Este bloqueio veio a dar origem ao “Muro de Berlim”, que se veio a tornar o símbolo da divisão da Alemanha”. A frase “saída dos cidadãos nacionais”, tem uma conotação diferente da habitualmente usada, “deserção dos cidadãos nacionais”. Ao usar a palavra “saída”, é difícil de compreender porque é que quase duzentos alemães de leste perderam a vida enquanto tentavam escalar o Muro. “Muro de Berlim” em chinês, grafa-se“柏林圍牆” (Muro de Berlim serve para encerrar/ separar), o termo usado na versão piloto dos materiais didácticos de “História” é “柏林牆” (Muro de Berlim), omitindo o“圍”(serve para encerrar/separar), despindo o muro do seu propósito, que era precisamente encerrar e separar, tornando-o num muro vulgar pintado com toda a espécie de graffitis.

Na parte electiva da versão piloto dos materiais didácticos de “História”, o volume que diz respeito às “Relações Internacionais, Globalização e Cooperação Regional”, apresentam-se questões mais complexas. O editor adopta o ponto de vista do académico americano John King Fairbank, usndo o “sistema tributário” como modelo básico para análise da ordem internacional no Extremo Oriente e para a ordem mundial da China, e conclui que a ordem internacional para o Extremo Oriente, tradicionalmente centrada na China, foi estabelecida no tempo da Dinastia Qin. Esta tese de John King Fairbank deu lugar a grande discussão nos meios académicos. Depois do estado de Qin ter unificado os outros seis estados, o seu Imperador enviou 300.000 soldados para a região Norte e construiu a Grande Muralha para impedir as invasões estrangeiras e enviou mais 500.000 soldados para estabilizar a situação no Sul. Nestas acções, onde é que podemos encontrar o tal “sistema tributário”? Na alvorada da Dinastia Han, o Imperador ainda era obrigado a casar com uma princesa originária de uma das tribos estrangeiras e proceder à oferta de grandes quantidades de bens e mantimentos, para garantir a paz nas fronteiras. Durante o período da Dinastia Han Oriental, o vizinho Japão era ainda uma sociedade tribal. Nessa época, os tributos prestados pelas dezenas de auto-proclamados Reis do Japão, ao Imperador Han, reduziam-se a alguns punhados de escravos, mas em contrapartida os presentes do Imperador Han aos Reis japoneses eram abundantes. Na Dinastia Ming, as sete viagens empreendidas por Zheng He, como parte do esforço diplomático do Imperador, resultaram em perdas substanciais. É na verdade desadequado aplicar a expressão “sistema tributário” para explicar a ordem internacional no Extremo Oriente.

Os materiais didácticos de “História” são invariavelmente manuais orientados para uma formação validada por um exame final. Os Governos ao longo dos tempos vão ajustando os conteúdos dos manuais escolares. Por isso, para conhecer a História, é melhor começar por procurar a verdade.

O ditador desejável

[dropcap]A[/dropcap] ideia que fazemos normalmente de um ditador é a de um tipo autoritário exercendo o seu poder de forma absoluta, ou quase. Mas isso é apenas a fase final da evolução da criatura. Um ditador não começa nunca com poder (a não ser nos pouco regimes onde ainda é o berço a determinar o trono) mas com vontade de poder. E essa é uma das características fundamentais de um ditador: querer sempre mais do domínio que exerce sobre os outros.

O ditador não é um sujeito tão incomum como pensamos. Na verdade, ele existe um pouco por toda a parte; nas repartições públicas, na hierarquia das empresas, nas salas de aulas e até nas estruturas aparentemente menos atreitas a organizar-se verticalmente por níveis de autoridade. Sucede apenas existirem muito menos lugares de poder do que criaturas com vontade de os ocupar, pelo que os menos impiedosos ou talentosos ficam pelo caminho e, frustrados na sua vocação, acabam por engrossar as fileiras dos alcoólicos, dos perpetradores de violência doméstica ou dos vizinhos que contestam todas as decisões das assembleias de condóminos.

O ditador é, na verdade, a resultante de uma peculiar disposição do humano. Além da indispensável sede de poder, o ditador precisa de ser guiado por uma ideia não raras vezes em confronto com a realidade. Há no ditador um peculiar sentido de justiça. Esta não visa corrigir os males do mundo operando no âmbito da moral vigente; a moral vigente é, para o ditador, uma consequência do decadentismo da sociedade que pretende refundar. O ditador, aquele de amplo espectro de concretizações, aquele que toma as rédeas de um país e congrega em seu redor a maioria da população, está normalmente a braços com uma batalha.

Qualquer batalha serve. Pode ser com o sistema judicial do seu país, com a oposição – onde quer que esta ainda exista – ou contra um grupo étnico ou social. Mas um ditador precisa de inimigos, pois a sua promessa de mudança carece de obstáculos para os quais ele possa surgir como providencial figura de resolução.

Quando não existem obstáculos ou inimigos, inventam-se uns e outros. Como o ditador tem o controlo praticamente absoluto das estruturas de poder que normalmente fiscalizam e admoestam o governo – porque dele são independentes – não lhe é difícil inventar espantalhos que mobilizem a fúria popular e assim consolidem o seu domínio.

Paradoxalmente, o pior que pode acontecer a um ditador é conseguir que a realidade finalmente coincida com a ideia faz da realidade desejável. Deixa de conseguir justificar as medidas excepcionais a que teria de recorrer acaso a discrepância cujo diagnóstico justifica a sua existência existisse. Imaginemos uma Alemanha nazi sem judeus, sem tratado de Versalhes, uma URRS sem kulaks, um Napoleão cuja Europa já lhe pertencesse. Se a vontade de poder é o combustível do ditador, a ideia é o seu motor. E essa ideia pode ser tudo, desde que seja o contrário absoluto de um estado de coisas diagnosticado.

É claro que nada disto funciona sem o apoio popular generalizado – pelo menos numa primeira fase. O «povo» é que de facto faz andar a máquina. O povo, na sua eterna propensão para confiar nos homens providenciais e a eles entregar o seu destino, faz de rodas. É ele que leva ditador e ditadura na direcção de uma sociedade sem ou de uma sociedade com (preencher a gosto). E, para enorme fortuna do ditador, o povo tem memória de peixe de aquário. Bastam duas gerações volvidas sobre um tremendo erro para, de repente, a mesma fórmula bafienta parecer de novo tremendamente atractiva. E do nada – aparentemente – lá surge um homem que parece estar tão fora da história como o divino para meter nos eixos um país prestes a descarrilar.

Sigam-me para mais receitas.

Um sentimento

É a morte. A morte é o inimigo.
É contra ti que eu me lanço, invencível e inflexível, ó Morte!
Virgina Woolf, The waves.

 

[dropcap]U[/dropcap]m sentimento nasce e cresce. Mas morrerá? Há sentimentos que saem do horizonte, desaparecem da presença, mas talvez não morram. Pelo menos quando nos nascem, acontecem a seres humanos existentes. Um sentimento é uma personagem, talvez. Temos a sua percepção ao longe, é de sentir que falamos quando sentimos a sua aproximação e vinda. E toca-nos. Há sentimentos isolados daqueles enormes que temos por Deus, quando nos confrontamos com o seu mistério e o seu milagre, talvez. Há sentimentos que vemos nascer por alguém, único, singular, que muda toda a nossa vida. Há sentimentos bons. Há também sentimentos maus e há-os que são frequentes, que nos vibram a vida toda. Cada objecto tem o seu sentimento. Cada pessoa é um sentimento. De manhã à noite temos tantos sentimentos quantos os segundos que passam, os momentos que atravessamos, mesmo sem dar conta disso. Um sentimento não é nada que haja só dentro da minha cabeça nem só na cabeça dos outros. Há sentimentos colectivos e privados, daqueles que não contamos a ninguém e daqueles que não queremos calar em nenhuma circunstância.

Quando estamos tristes, não é só o nosso cérebro que está triste, nem a parte da alma onde dói, nem quem ou o quê de onde irradia tristeza. É tudo. Quando se sente a tristeza está-se triste. Pode não haver diferença entre sentir a tristeza e estar triste. Quando sinto tristeza sem estar triste, é uma outra tristeza. Quando estou tão triste que não sou de outra maneira, o sentimento é avassalador. O sentimento tem olhos e vê, não é cego e jamais existe sem olhar. Por vezes, sentimos a sua presença ao longe como um inimigo de atalaia, para nos emboscar e atacar.

Outras vezes, suspeitamos da presença de um sentimento bom. Não lhe vemos os olhos nem o rosto, pressentimos só a sua presença, excitante. Vem do futuro, do tempo da promessa. A alegria também não é percebida por nenhuma cognição, nem quando estamos tristes. Mas também pode ser assim percebida. Há alegrias que testemunhamos assim como ninguém quer a coisa. O acto cognitivo que percebe a alegria deixa-a a sangrar, não a deixa viver como ela nasceu e cresce tanto. Nem a nós nos deixa que ela nos atinja. Mas também, tristes, nos podemos lembrar da alegria, tingimo-la com a nossa tristeza. Não é uma mistura de tristeza e de alegria. É a tristeza com que vem até nós uma alegria passada ou meramente possível, no futuro, talvez. Mas a alegria do sentimento que nasce e cresce, o sentimento que faz nascer e crescer a alegria e se confunde com ela é outra coisa. Não podemos dizer verdadeiramente que estamos alegres, quase que deveríamos dizer: somos alegres ou melhor somos com a própria alegria.

Há sentimentos que vêm, como pessoas por quem esperamos, prometidas. E assomam o horizonte. Aproximam-se cheias de possibilidade. Sem estar presentes ainda, esperamos já por essas pessoas. Vivemos já a acolher a sua presença futura sem que ainda existam ou então sem se terem convertido em realidade. O sentimento de esperança resulta da lance retroactivo da possibilidade que nos olha já no presente, mas acena do futuro como promessa. Não dá nada a não ser esperança, porque no presente é tudo igual como tem sido, mas já animado agora com a simples possibilidade de que tudo venha a ser diferente, possa vir a ser melhor.

Um sentimento nasce e cresce. O sentimento da proximidade da traz consigo a angústia. É do futuro que tudo chega: promessa, esperança, e o desespero ameaçador. Mas a morte é esperada do lado de cá da vida. É todo futuro, quando, já não estarei cá, quando já nunca mais verei nada nem ninguém. E nem a mim me encontrarei. O sentimento da morte diz-me que tudo será sempre assim como tem sido, mas sem mim cá. O sentimento da morte vem já a fazer sombra sobre a vida em mim e assim sobre o mundo e os outros todos. A raiz da morte é o tempo e por isso é de lá que nasce o poder de alastrar a tudo o que existe, do mais pequeno e ínfimo até ao vasto e extenso universo. Mas o sentimento da morte aproximar-se ainda não a traz, ainda não está aí. Se ela tivesse chegado, não diria nada. A morte é sempre vista do lado de cá da vida.

Desse sentimento ameaçador não vem só impossibilidade. A sua raiz é a possibilidade. Do impossível nasce o possível, do nada que também é, nasce o possibilitante. Não é como se tudo fosse tudo possível. É sóbria a possibilidade que vem com a morte. Um sentimento de morte nasce e cresce não apenas agora a meio da vida nem mais tarde quando for próximo do fim. Vem de antes de termos nascido. Com o princípio vem já o fim. O futuro mais longínquo existe desde sempre. Desde sempre a morte vem como possibilidade: a possibilidade de nada mais ser já possível. É essa a raiz de todos os sentimentos.

É contra a morte que o cavaleiro avança a galope, com a lança em riste.

Exposição | Edifício do Fórum Macau acolhe mostra de Alexandre Marreiros 

Na próxima quinta-feira, dia 19, é inaugurada, no edifício do Fórum Macau, a exposição “Whispering Rooms”, da autoria do arquitecto Alexandre Marreiros. O autor destaca o facto de se ter baseado nas ideias de “registar, conceitualidade e tempo” para realizar trabalhos que revelam uma Macau vazia em tempos de pandemia

 

[dropcap]O[/dropcap] arquitecto e artista Alexandre Marreiros está de regresso às exposições individuais com “Whispering Rooms”, uma mostra que será inaugurada na próxima quinta-feira, dia 19, às 18h no edifício do Fórum Macau. A exposição, que tem portas abertas até ao dia 6 de Dezembro, insere-se na 12ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, organizada pelo Secretariado Permanente do Fórum de Macau.

“Whispering Rooms” tem produção executiva da Galeria 57 e curadoria do próprio Alexandre Marreiros e aborda a ideia de uma Macau vazia e silenciosa, uma realidade vivida nos primeiros tempos da pandemia da covid-19.

O arquitecto destaca o facto de a mostra ir “de encontro a esta tríplice que considero fundamental: registar, conceitualidade e tempo”. “O conjunto de trabalhos que apresento será uma possível representação da ideia fragilizada, isolada, permeável e visível aos nossos olhos dos espaços inocupados. Um registo temporal da cidade que habito e que como muitas outras se encontrou desabitada, assombrada pelo silêncio e pelo vazio durante o presente ano de 2020”, descreve Alexandre Marreiros.

Macau é, assim, representada como se fosse um “laboratório”, “vazia do que lhe faz dar sentido: as pessoas”. O autor aponta que “foi importante perceber esta transmutação em que nos encontramos obrigados a viver”.

Registo e observação

A maior parte dos trabalhos que integram “Whispering Rooms” foram feitos recorrendo à técnica mista sobre papel. Permanece “uma total ausência de figuras no espaço”, sendo esta “uma das linhas condutoras a que esta obra se propõe: registar o que fui observando durante o presente ano em Macau”. Alexandre Marreiros quis também, com este trabalho, “construir um território interrogativo do que representam estes espaços vazios”.

O público poderá visitar esta exposição com o acompanhamento de Alexandre Marreiros. As visitas guiadas estão agendadas para o dia 28 de Novembro, entre as 11h e as 14h, e o dia 5 de Dezembro, entre as 14h e as 19h. À mostra junta-se um catálogo ilustrado com todas as obras expostas, com direcção de arte de Victor Marreiros, uma edição do Secretariado Permanente do Fórum Macau.

Alexandre Marreiros estreia-se no edifício do Fórum Macau, mas já expôs em locais como o Museu de Arte de Macau, o espaço Creative Macau ou o espaço Art Garden, da AFA – Art for All Society. Em Portugal, expôs também na Casa da Cultura da Comporta.

O arquitecto participou também no festival literário Rota das Letras onde apresentou a exposição “Ocupar o Imaginário”.

Jogo | Analistas defendem adiamento do concurso para novas licenças 

David Green e Pedro Cortés defenderam que o concurso público para a atribuição de novas licenças de jogo deve ser adiado, tendo em conta a enorme crise que o sector do jogo atravessa devido à pandemia da covid-19

 

[dropcap]A[/dropcap]nalistas defenderam à Lusa o adiamento do concurso público para as novas licenças do jogo devido à pandemia da covid-19 que afecta, sem precedentes, a economia da capital mundial dos casinos e os seus operadores.

A poucos dias do Chefe do Executivo apresentar as Linhas de Acção Governativa (LAG) para o ano financeiro de 2021, as incertezas no território ainda são muitas, com as operadoras de jogo no território a apresentarem grandes prejuízos no terceiro trimestre do corrente ano. No próximo ano o Governo deveria apresentar o caderno de encargos para as concessionárias se prepararem para o concurso público agendado para 2022.

“Não creio que a renovação da concessão deva ir em frente em 2022”, afirmou à Lusa analista David Green. O fundador da consultora especializada em regulação de jogos em Macau Newpage Consulting defendeu ainda que o Governo devia esperar pela recuperação da receita bruta do jogo.

Nos primeiros 10 meses do ano, as perdas dos casinos foram de 81,4 por cento em relação ao igual período do ano anterior, em resultado do impacto da pandemia de covid-19 e das fortes restrições nas fronteiras. Só no final de Setembro passado, as autoridades chinesas retomaram a emissão de vistos em todo o país para Macau.

O anúncio feito em Agosto, relativamente à criação de uma `lista negra’ de destinos turísticos de jogo em casinos por perturbarem a “ordem comercial do mercado de turismo no estrangeiro da China”, devia fazer também o Governo de Macau esperar pelas possíveis repercussões que esta medida de Pequim terá no território.

Em Setembro, o Governo chinês estimou que a fuga de capitais do país, através de jogos de azar, ascenda a pelo menos um bilião de yuan, agravando os riscos de uma crise financeira.

Por estas duas razões, frisou David Green, avançar com o concurso público é “convidar alguns descontos substanciais de investimento” por parte dos operadores de jogo.

Muitas dúvidas

O advogado Pedro Cortés, sócio da Rato, Ling, Lei & Cortés – Advogados, escritório que presta consultoria na área do jogo, também afirmou à Lusa ter muitas dúvidas que o caminho a ser seguido seja o do concurso público em 2022.

“Nesta altura, o véu já deveria ter sido mais levantado, não obstante todos os constrangimentos que a situação pandémica tem colocado ao executivo”, disse. Apesar disso, Pedro Cortés diz que os sinais de que tanto as declarações do Chefe do Executivo e do secretário para a Economia e Finanças “têm ido no sentido do concurso”.

DICJ | Adriano Ho não afastou possibilidade de jogo online em Macau

O director da DICJ alerta para riscos dos jogos interactivos online, como o branqueamento de capitais, mas indica que o tema está a ser estudado. Além disso, em resposta a uma interpelação de Pereira Coutinho, referiu que as queixas relacionadas com sites de jogo ilegal têm diminuído

 

[dropcap]E[/dropcap]m Setembro, o deputado Pereira Coutinho submeteu uma interpelação escrita a apelar ao Governo que definisse padrões oficiais e condições para o desenvolvimento de jogos interactivos online, para aumentar as receitas fiscais. Em resposta, o director da Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), deixou alertas, mas não excluiu o cenário.

“Os jogos interactivos podem aumentar as receitas do jogo, mas existem certos riscos, incluindo problemas sociais, como o branqueamento de capitais e o vício do jogo. Por isso, antes da sua introdução, o Governo deve proceder a estudos prudentes”, indicou Adriano Ho, acrescentando que as respectivas análises estão em curso.

Os jogos interactivos abrangem, por exemplo, os que se jogam no telemóvel ou com acesso pela internet, e em que se concorda fazer pagamentos em dinheiro ou outro valor. A prática de jogos de fortuna ou azar através de telecomunicações ou da internet é actualmente proibida em Macau.

Pereira Coutinho defendeu que o desenvolvimento de produtos com terminais móveis e da internet reduz as exigências para negócios online, mas que “devido à desactualização da legislação é difícil, licitamente, atrair mais pessoas a aderir aos jogos interactivos”.

Além disso, o deputado considera que face ao impacto da covid-19 e medidas do Interior da China com vista à restrição da saída de fundos, as receitas do jogo físico e presencial “dificilmente” vão regressar a valores anteriores. Pereira Coutinho apelou também a que se tome o Reino Unido como referência e um aumento do grau de fiscalização, evitando os jogos interactivos ilegais que já existem em Macau.

Trabalho anti-burla

Adriano Ho disse que o Governo vai reforçar a fiscalização e intensificar a competitividade da indústria do jogo em termos internacionais.

“Relativamente ao recente aparecimento na internet de ‘websites’ de apostas ilegais explorados em nome dos casinos de Macau, a DICJ, depois de ter detectado ou recebido as respectivas denúncias, irá remetê-las à Polícia Judiciária”, disse o responsável. A DICJ contacta também os principais operadores de motores de busca para ajudar a bloquear os resultados de pesquisa de jogos ilegais e a remover as suas promoções.

Por outro lado, referiu que as queixas relacionadas com as páginas electrónicas de jogo ilegal e aplicações móveis têm diminuído. Algo que atribui ao trabalho de combate e sensibilização educativa para as pessoas estarem atentas a essas plataformas.

De acordo com a resposta, o Governo vai ouvir “seriamente” e “proceder a uma análise prudente” das sugestões sobre o desenvolvimento do sector, como a permissão da exploração de jogos interactivos por parte das concessionárias.

Fundação Macau | Dois pilotos pediram subsídios para correr e faltaram a provas

O caso envolve subsídios da Fundação Macau atribuídos em 2012 e entre os acusados de fraude está um polícia. Apesar de receberem apoios para correrem no Interior, os pilotos ficavam em Macau

 

[dropcap]D[/dropcap]ois pilotos, com os apelidos Lio e Io, estão a ser acusados de ter pedido subsídios à Fundação Macau para correrem em provas de automobilismo no Interior a que não compareceram. O caso, que envolve um polícia, está a ser julgado no Tribunal Judicial de Base (TJB) e, segundo o jornal Ou Mun, os arguidos negaram a prática de crimes na primeira sessão de julgamento.

O caso remonta a 2012 e 2013, quando os dois homens pediram apoios à Fundação Macau com a justificação que pretendia competir em provas de automobilismo no Interior. Os pedidos acabaram por ser aprovados e a acusação acredita que foram praticados crimes de burla e de falsificação de documento.

Os pilotos nunca chegaram a marcar presença nas corridas, tendo apresentado à Fundação Macau, como comprovativos da participação, a lista de inscrição e os resultados dos colegas de equipa.

O primeiro arguido a ser ouvido foi o subchefe do Corpo de Polícia de Segurança Pública, com o apelido Lio. De acordo com a história contada em tribunal, o homem admitiu ter pedido o apoio, cujo valor não foi revelado pelo jornal, mas negou ter havido crime.

Segundo a acusação, Lio utilizou o mesmo esquema em duas ocasiões, a primeira em 2012 e a segunda no ano seguinte. Nos dois casos foi bem-sucedido. Em tribunal, o arguido justificou a primeira falta com o estado de saúde, e apesar de admitir não ter participado, argumentou que não houve tentativa de fraude, mas antes negligência na forma como tratou as burocracias.

Problemas mecânicos

Também Io, segundo o jornal Ou Mun, confessou em tribunal ter recebido dinheiro sem ter participado numa única prova. No entanto, o vendedor de carros justificou a ausência com uma comunicação por parte da equipa a informá-lo que havia problemas mecânicos e o mais certo era não serem capazes de colocar a viatura em pista. Circunstância que afirmou ter mencionado na altura de submeter a documentação necessária para o processo. Porém, a resposta que terá recebido das autoridades, nomeadamente da Fundação Macau, era que primeiro tinha de apresentar todos os documentos exigidos, incluindo os resultados da equipa. Como tal, o arguido indicou que se limitou a seguir as instruções que lhe foram dadas.

Por sua vez, o representante da Fundação Macau atirou a responsabilidade para os organizadores do Grande Prémio, que supostamente verificavam toda a informação fornecida pelas equipas. Já o representante do GP, terá dito que os pilotos eram informados que tinham de participar nos eventos e que o cheque era passado em nome individual. Por esse motivo, disse a testemunha, os resultados da equipa não deviam ser tidos como prova de participação.

Ensino | Star World recebeu ontem concurso de patriotismo para alunos

O Hotel Star World foi ontem palco da fase final da 12ª edição da Competição Juvenil de Conhecimento Nacional. Depois de eliminados perto de 12 mil estudantes, sobraram 62 que responderam a questões sobre temas como a segurança nacional, Mar do Sul da China, resposta de Macau e da China à pandemia, entre outros

 

[dropcap]A[/dropcap] sala de banquetes do 8º andar do Hotel Star World transformou-se ontem no que pareceu ser um estúdio de concurso televisivo. A ocasião foi a 12.ª edição da Competição Juvenil de Conhecimento Nacional, a fase final de um concurso que testa alunos do ensino secundário e superior na sabedoria sobre temas como a segurança nacional, a política de saúde chinesa, o Mar do Sul da China, a resposta de Macau e da China à pandemia, entre outros.

Na fase final de ontem competiram 62 estudantes, perante 150 pessoas, entre professores, directores, alunos de 24 escolas de Macau e convidados ilustres. Os vencedores vieram da Escola Pui Tou, Escola Kao Yip e Universidade da Cidade de Macau.

A competição de ontem foi o culminar de várias etapas, iniciadas em Setembro com uma eliminatória preliminar onde concorreram 12 mil estudantes, a maior participação de sempre com o aumento de 30 por cento em relação ao ano passado. Desde 2009, quando competição começou (sempre patrocinada pela Galaxy), mais de 90 mil alunos mediram conhecimentos numa actividade que se tornou famosa no meio estudantil, de acordo com a organizadora, a Associação para Educação das Condições Nacionais (traduzido do inglês).

Nesta eliminatória, o tema principal foi a política nacional de saúde, mas foram feitas perguntas noutras categorias. Por exemplo, sobre o Mar do Sul da China, foi perguntado como os alunos entendem a situação e o reflexo que tem na segurança nacional. Uma aluna da Escola Keang Peng respondeu que as ilhas e territórios disputados internacionalmente “são zonas da China, consolidadas historicamente, por isso não existem problemas territoriais”.

Na categoria de Segurança Nacional, um aluno do Colégio Yuet Wah (que pertence à Diocese de Macau) respondeu sobre a composição do Comité de Salvaguarda da Segurança Nacional citando a lei em vigor em Hong Kong.

Convidados especiais

O prémio é uma viagem de cinco de dias a locais da Grande Baía. As equipas vencedoras, acompanhadas por representantes das escolas, vão visitar instituições governamentais e empresas do ramo da saúde. O objectivo é que os estudantes tomem conhecimento directo das condições de saúde do interior da China e alargam os seus horizontes.

Na iniciativa marcaram presença a deputada Chan Hong, que preside à Associação da Educação de Macau, Wong Kin Mou da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Chan Iok Wai da Direcção dos Serviços do Ensino Superior. Entre os convidados estiveram também representantes do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM, do Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Estado-Maior da Guarnição em Macau do Exército de Libertação do Povo Chinês.

Orçamento | Deputados pedem explicações sobre estimativas de receitas do jogo

De Fevereiro até Outubro, a receita média mensal dos casinos foi de 2,6 mil milhões de patacas. No entanto, o Governo aponta que a média vai subir para 10,8 mil milhões já no próximo ano. Os deputados querem saber quais os fundamentos para tal previsão

 

[dropcap]O[/dropcap]s deputados têm dúvidas sobre os métodos utilizados pelo Executivo para estimar que as receitas brutas do jogo vão ser de 130 mil milhões de patacas no próximo ano. Este foi um dos assuntos que estiveram a ser debatidos pela Primeira Comissão da Assembleia Legislativa, que segundo o deputado Ho Ion Sang está numa corrida contra o tempo para analisar o orçamento, que entra em vigor no próximo ano.

Segundo as estimativas do Executivo, as receitas do jogo vão ser de 130 mil milhões em 2021, o que representa uma média mensal de 10,8 mil milhões. No entanto, desde Fevereiro, altura em que se começaram a sentir os efeitos da pandemia da covid-19 em Macau, a média mensal das receitas foi de 2,6 mil milhões de patacas. No melhor mês, Outubro, o valor não foi além de cerca de 7,3 mil milhões.

“As receitas brutas do jogo estão estimadas em 130 mil milhões de patacas na proposta do orçamento. Mas, o Governo tem de explicar como chegou a este valor. Esperamos obter este esclarecimento [nas reuniões com os representantes do Executivo]”, afirmou Ho Ion Sang, deputado que preside à primeira comissão.

Segundo a proposta do Governo, com receitas de 69,5 mil milhões e despesas de 95,2 mil milhões, o orçamento apresenta um défice de cerca de 25,5 mil milhões de patacas. Por este motivo, é necessário ir buscar à reserva financeira 26,5 mil milhões de patacas. Também esta transferência está a preocupar os membros da comissão.

Para perceberem o défice os legisladores esperam questionar o Executivo sobre a redução de 24 por cento das receitas com o imposto complementar e ainda sobre o orçamento de 110 milhões de patacas para a Direcção de Serviços de Educação e Juventude (DSEJ), que deixa de existir a partir em Fevereiro, quando é fundida com a Direcção de Serviços do Ensino Superior.

Limites da Lei Básica

Outro tema que levanta dúvidas é a contratação de cerca de 640 funcionários públicos para a Polícia Judiciária, o Corpo de Polícia de Segurança Pública, Serviços Correccionais, Serviços de Saúde, Protecção Ambiental e Universidade de Macau. A comissão quer perceber como vai haver este aumento de pessoal, ao mesmo tempo que é apresentado um corte de mil milhões de patacas na educação.

“Vai haver uma redução significativa com a despesa na educação, de mil milhões de patacas para o próximo ano. Mas, o Governo comprometeu-se a reduzir as despesas sem fazer cortes no que diz respeito ao bem-estar da população. Vamos perguntar que aspectos é que estes cortes vão afectar”, explicou Ho Ion Sang.

Face à apresentação de um orçamento deficitário, houve deputados que recordaram que o artigo 105 da Lei Básica exige que se siga o princípio de “manter as despesas dentro dos limites das receitas”, de forma a encontrar um equilíbrio e evitar défices.

Apesar de este ano já terem sido aprovadas duas alterações ao orçamento em vigor, que se tornou deficitário, a questão só agora foi levantada. No entanto, Ho Ion Sang encarou com normalidade o facto de a dúvida apenas ser levantada agora: “Na altura [em 2019] em que o primeiro orçamento foi apresentado não era deficitário… Ninguém esperava a pandemia”, afirmou.

AL | Alterações a leis sobre segurança devem entrar em vigor em simultâneo

[dropcap]O[/dropcap] Governo pretende que a alteração à Lei dos Serviços de Polícia Unitários (SPU) entre em vigor ao mesmo tempo que as mudanças à Lei de Bases da Segurança Interna, por ambas se relacionarem. Foi o que explicou ontem Ho Ion Sang, presidente da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa. “Como é simples e contém apenas dois artigos, (…) as questões colocadas pela Comissão já foram respondidas pelo Governo”, apontou. Na discussão de especialidade seguem-se agora reuniões técnicas para o Executivo apresentar depois uma nova versão de trabalho.

Segundo Ho Ion Sang, há uma “relação muito íntima” entre a proposta em discussão, o regime de Protecção Civil e a Lei de Bases de Segurança Interna, que “também visam actualizar o comando de gestão” das actividades desenvolvidas no âmbito da protecção civil. Na proposta sobre os SPU, determina-se que o comandante geral coadjuva o Comandante de Acção Conjunta nas suas acções.

A proposta prevê ainda a interconexão de dados, tendo o presidente da Comissão esclarecido que não foram aditadas novas competências, e que o regime jurídico de proteção civil já define as exigências neste contexto. Além disso, as informações estão sujeitas ao regime de protecção de dados pessoais.

Por outro lado, o deputado foi questionado sobre o afastamento de deputados em Hong Kong e a demissão em bloco do campo pró-democracia. Ho Ion Sang respondeu que o caso acontecera no dia anterior e “não sabia bem da situação”, pelo que não considerou adequado comentar.

Burla informática | Vítimas desfalcadas em milhares esperam esclarecimento da PJ

A Polícia Judiciária continua a investigar o caso que levou à detenção de 31 residentes de Macau envolvidos numa rede criminosa dedicada ao roubo de dados de cartões de crédito. Vítimas ouvidas pelo HM perderam milhares de patacas e garantem fazer uma utilização cuidada dos cartões. Entre Janeiro e Outubro de 2020, a PJ registou 207 casos de burla informática em Macau

 

[dropcap]N[/dropcap]o dia 29 de Outubro a Polícia Judiciária (PJ) anunciou a detenção de 31 residentes de Macau por envolvimento numa rede criminosa, alegadamente dedicada ao roubo de dados de cartões de crédito, que eram usados para comprar créditos em jogos online através de contas de Apple ID, para serem posteriormente comercializadas.

Além de os detidos serem maioritariamente estudantes, o caso impressionou, não só pela quantidade de locais envolvidos, mas também pelo modo rebuscado como os dados dos cartões de crédito terão sido furtados e utilizados, continuando a não ser claro como é que as vítimas terão sido apanhadas na armadilha.

Recorde-se que, no total, segundo a PJ terão sido roubados dados de mais de 500 cartões de crédito, dos quais 145 foram emitidos por bancos de Macau.

Contactada pelo HM, a PJ aponta “suspeitar preliminarmente que os membros da associação criminosa roubaram informações dos cartões de crédito via email, mensagens de phishing e invasão de websites dedicados a compras online, mas ainda é necessário fazer uma investigação mais aprofundada”.

No entanto, o modo de obtenção dos dados não parece bater certo com os relatos das vítimas ouvidas pelo HM, que asseguram fazer uma utilização cuidada, no que toca a providenciar os dados dos seus cartões para fazer compras.

“A PJ diz que foi usado phishing para recolher os dados dos cartões de crédito de contas obtidas através das redes ou plataformas sociais mas, no meu caso, isso não faz sentido nenhum. Ou alguém clonou o cartão na rua, que é possível porque os cartões são todos contactless, ou foi nos sítios onde usei o cartão fisicamente, que são fáceis de descobrir porque não o usei muitas vezes. Por princípio não pago nada com cartão de crédito precisamente por causa disso. Só uso quando não tenho alternativa”, começou por contar uma vítima que pediu para não ser identificada.

No dia 18 de Outubro, conta, em apenas 11 minutos, perdeu cerca de 1.050 dólares americanos (USD), tendo-se apercebido do caso após ter recebido no seu telemóvel, 15 mensagens sequenciais emitidas pelo BNU [Banco Nacional Ultramarino] a reportar montantes extraídos da conta à qual estava associado o seu cartão de crédito.

“Entre as 8h00 e as 8h11 da manhã recebi 15 mensagens do BNU. Em 11 minutos foram feitos 14 pagamentos de 74.99 USD e a 15ª mensagem foi já o banco a reportar que o cartão tinha sido cancelado”, partilhou.

De seguida, a vítima ligou para a instituição bancária que, desde logo, confirmou o cancelamento do cartão e a utilização dos seus dados numa conta Apple através da qual foram feitas compras na loja iTunes. A vítima contactou ainda a Apple para tentar obter mais informações, que esclareceu apenas, sem revelar em que aplicação foram feitas as compras, que, de facto, foram detectados pagamentos suspeitos numa conta Apple, entretanto cancelada, com os dados do seu cartão.

Nos dias que antecederam o desfalque, a vítima aponta que apenas utilizou presencialmente o cartão, por duas vezes. Tirando isso, afirma só efectuar compras em websites que tenham a certificação PCI (Payment Card Industry – Data Security Standard), ou seja, que cumpram todos os padrões de segurança definidos internacionalmente.

“Nunca me deparei com actividades suspeitas em plataformas, redes sociais ou sites. Foi tudo normal e ninguém interagiu comigo. Nunca usei o meu cartão de crédito em websites suspeitos. É a primeira vez que sofro uma burla deste género. Normalmente até uso cartões de crédito virtuais quando é preciso”, acrescenta.

Vira o disco

Também a 18 de Outubro, outra vítima que pediu para não ser identificada, relatou ter recebido duas mensagens de aprovações de transações provenientes do BNU. Apesar de inicialmente não ter dado importância ao caso por ter programadas algumas operações automáticas, mais tarde, veio a aperceber-se que os dados do seu cartão de crédito tinham sido usados para fazer compras sem o seu conhecimento. No total, em poucos minutos, perdeu mais de 9.000 patacas.

“Recebi duas mensagens de utilização do cartão de crédito, mas nem prestei grande atenção (…) porque pensei que seriam as mensagens dos pagamentos programados. Dois dias depois fui ver o extracto do cartão de crédito e estavam lá duas compras que eu não tinha feito. O dinheiro foi tirado em duas vezes. Na primeira, foram cerca de 1.000 patacas e na segunda perto de 8.000”, contou ao HM.

Também neste caso a vítima garantiu “não fazer compras em websites duvidosos”, nem “introduzir dados em plataformas que não estejam devidamente certificadas”.

Além destes dois casos, o HM teve conhecimento de uma outra situação de burla informática aparentemente relacionada com o mesmo caso e que terá envolvido um desfalque entre 60 e 70 mil patacas.

Segurança garantida

Contactado pelo HM, o presidente do BNU, Carlos Álvares recusou-se a comentar concretamente sobre o caso, apelando que, mal as vítimas se apercebam que os dados do seu cartão foram roubados, “liguem para a nossa linha telefónica a dizer que isso está a acontecer ou dirijam-se à agência do banco”, para que o cartão seja cancelado e substituído.

O presidente do BNU garante ainda que a apresentação deste tipo situações por parte dos clientes “não é recorrente” e que “a segurança do banco está permanentemente a ser auditada”, quer internamente, quer por auditores externos ou ainda, pela Autoridade Monetária de Macau (AMCM).

Além disso, Carlos Álvares assegura que nestes casos “o cliente é sempre ressarcido”.
“O que o banco faz é obter a reversão dos movimentos junto do operador porque o banco também não é culpado numa situação destas. O cliente é sempre ressarcido, mas o banco pode ou não assumir o custo”, explicou o responsável.

Das vítimas contactadas pelo HM, uma confirmou já ter recuperado o montante perdido, ao passo que outra continua a aguardar pela compensação do desfalque.

Sobre as medidas de prevenção que os residentes devem adoptar para evitar que os seus dados sejam roubados, a PJ aponta que “devem ser salvaguardadas todas as informações dos cartões de crédito, especialmente o código de segurança CVV”.

“Quando consumirem online através do cartão crédito, os residentes devem fazer compras em websites que assegurem o cumprimento de todas as medidas de segurança”, referiu a PJ numa resposta enviada ao HM.

Se as compras forem feitas em loja, a PJ aconselha que “os clientes assegurem a utilização do cartão de crédito dentro do seu campo de visão”, para evitar eventuais furtos de informação.

Analisando o número de ocorrências de burlas informáticas relacionadas com o roubo de informação de cartões de crédito, é possível constatar que os casos registados têm vindo a aumentar, comparativamente ao ano passado. Isto porque, de acordo com dados da PJ, se durante o ano de 2019 foram registados 119 casos, entre Janeiro e Outubro de 2020, já ocorreram 207 casos, ou seja, mais 88, contabilizando apenas os 10 primeiros meses do ano.

Recorde-se que o caso que levou à detenção de 31 residentes de Macau, resultou de uma operação conjunta da PJ com as autoridades de Hong Kong e que o cabecilha do grupo continua a monte.

No decorrer da investigação da operação “Soaringstar”, a PJ revelou na altura que a rede lucrou 600 mil patacas com o esquema e que, dos 31 residentes detidos, três são estudantes com idades entre os 19 e 21 anos, da mesma universidade e considerados “membros-chave”. Dos restantes 28 membros detidos, 13 são estudantes universitários e dois são estudantes do ensino secundário.

De acordo com as autoridades, em troca de cada furto de dados dos cartões que eram depois introduzidos em contas Apple ID, os membros recebiam entre 20 e 25 patacas. Obtidas as informações, o dinheiro era usado para adquirir créditos em jogos online, sendo que após estarem “apetrechadas”, as contas eram posteriormente enviadas ao cabecilha do grupo para ser comercializadas.

No mesmo dia em que o caso foi tornado público, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) manifestou “grande preocupação” em relação ao caso, apelando para que os estudantes tenham cuidado.

“Ao mesmo tempo que desfrutamos das facilidades proporcionadas pela Internet e pelas diversas aplicações, devemos ter cuidado com a mistura de informações do mundo cibernético, com as suas armadilhas e evitar sermos seduzidos para a prática de actividades ilegais”, pode ler-se na nota.

Hengqin | Pereira Coutinho expõe queixas de compradores de fracções

[dropcap]A[/dropcap] Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) recebeu ontem queixas de proprietários que alegadamente compraram fracções habitacionais em Hengqin, mas que afinal se destinavam a uso comercial de escritórios. Cada fracção terá custado em média quatro a cinco milhões de yuans, e o contrato de compra e venda – que só foi assinado depois do pagamento integral dos montantes – tem cláusulas a impedir o recurso para tribunais. A situação foi exposta por Pereira Coutinho no Facebook.

Na publicação, o deputado indicou que os litígios devem ser resolvidos através do Centro de Arbitragem de Zhuhai, sem direito a recurso. Além disso, Coutinho descreve que as casas têm “defeitos graves”, como infiltrações de água, janelas mal construídas, soalhos ondulados e portas defeituosas.

“Como ultimamente tem havido muita promoção da Grande Baía e existe muito imobiliário, as pessoas são de alguma forma tentadas em adquirir fracções do outro lado da fronteira, na medida em que os preços são relativamente mais baixos do que os praticados em Macau e tendo também em consideração as áreas das próprias casas”, disse Pereira Coutinho ao HM.

Na ordem das centenas

O também presidente da ATFPM explicou que as fracções em causa são comerciais, não permitindo que aí se viva, mas foram construídas e dimensionadas à semelhança de uma habitação, nomeadamente com quartos e sala de estar. Sem ter um número exacto, indica que a situação afecta centenas de pessoas, podendo atingir 500 famílias. Os compradores que apresentaram ontem queixa na associação trabalham como “croupiers” numa concessionária de jogo.

Sobre os promotores, Pereira Coutinho diz que aparentam ser particulares que celebraram contratos “já com a intenção de enganar os promitentes compradores”, tendo em conta a cláusula do contrato de adesão a impedir recurso para tribunal. Questionado se alguns dos casos já seguiu para arbitragem, o deputado indicou que o processo ainda está no início. “As pessoas estão agora a receber as chaves, a tentar ver o que se pode fazer sobre essa questão”.

A cultura do lobo

“There’s no way United States.The US can crush us, the world needs Huawei because we are more advanced.”
Ren Zhengfei

 

[dropcap]H[/dropcap]á muito tempo, quando as pessoas tinham de pensar no futuro, referiam-se na sua maioria aos Estados Unidos. Hoje, a nossa atenção vai sem dúvida para o outro lado do mundo, para a China.

Pensemos apenas na indústria cultural pois até há pouco tempo, o cinema de ficção científica e a literatura imaginavam mundos mesmo muito distantes em que os americanos apareciam como salvadores do destino do nosso planeta, ou onde os extraterrestres ou a exploração de mundos distantes tiveram em qualquer caso a ver com os Estados Unidos. Nos últimos anos, o filme de ficção científica mais importante é “The Wandering Earth”, produzido pela China, com actores chineses e pessoas chinesas a salvar o mundo.

Lançado em todas as salas de cinema do mundo e também distribuído pela Netflix, com mais de setecentos milhões de dólares em receitas, é o segundo filme de maior sucesso económico na história do cinema de produção não americana depois de “Wolf Warrior 2”, lançado em 2017. Não apenas cinema, porque actualmente o escritor de ficção científica mais famoso do mundo chama-se Liu Cixin e é chinês. Sendo bem conhecido no seu país, também voou para o mercado internacional após uma cópia do seu livro mais famoso, “The Three Bodies Problem”, ter aparecido numa fotografia nas mãos do antigo presidente dos Estados Unidos Barack Obama. A indústria cultural indica tendências actuais e futuras no mundo económico. E a este respeito, dizer futuro significa mencionar 5G.

Todos os peritos concordam que o 5G irá mudar a nossa vida quotidiana e como a China é, juntamente com a Coreia do Sul o país mais avançado em experimentação e aquele que presumivelmente o comercializará primeiro, a influência que terá no resto do mundo será enorme. Para “Wired” o 5G será mais rápido que o 4G mas “menos rápido que o teletransporte”. Uma revolução com tons ainda mais brilhantes do que quando foi mudada para o 4G, porque será principalmente utilizada pela “Inteligência Artificial (IA)” e consequentemente não só pela governação, mas também pelo fabrico (pense na velocidade de processamento de artefactos informáticos muito potentes e muito rápidos e capazes de operar máquinas muito mais velozmente e eficientemente do que os trabalhadores), fazendo com que o 5G tenha um impacto significativo no PIB dos Estados.

Apenas existem dois problemas sendo o primeiro que está em curso, e tem a ver com um choque geopolítico silencioso entre a China e os Estados Unidos. Em jogo está a primazia de tornar o 5G útil para a vida quotidiana. E quem ganhar esta corrida desfrutará de todas as vantagens do caso. O segundo problema virá mais tarde, quando a velocidade de processamento de dados puder permitir aos governos nacionais um controlo social ainda maior do que o que está em curso. Os peritos esperam que o 5G tenha uma velocidade máxima de descarga de até 20 gigabits por segundo, suficientemente rápido para descarregar um filme hd completo em segundos. Terá menos latência e mais conectividade, o que significa menos tempo de espera no envio de dados e mais dispositivos capazes de se ligarem à rede ao mesmo tempo. Será necessário um melhoramento nestas áreas, diz-se, para inaugurar a IdC com carros que se conduzem sozinhos, sensores, cidades inteligentes, realidade virtual e mesmo cirurgia remota.

O primeiro país que irá distribuir e comercializar as redes móveis ultra-rápidas de 5G terá uma enorme vantagem económica, pois estima-se que orçamente mais de quinhentos mil milhões em termos de PIB e crie milhões de empregos (estimados em três milhões nos Estados Unidos, por exemplo). A China não tem falta de planeamento e o seu plano quinquenal visa um amplo lançamento comercial 5G até ao final de 2020 e todos os principais fornecedores de serviços sem fios (como a Huawei e a Zte) realizaram numerosos estudos 5G. A China será talvez o maior mercado para 5G até 2022. Tal é algo muito importante, considerando que a própria velocidade de propagação do 5G chinês está no centro de importantes parcelas geopolíticas.

As tarifas do presidente Trump não são mais do que uma tentativa de abrandar a corrida, bem como a vontade americana de colocar um obstáculo nas rodas da Huawei, a empresa líder em infra-estruturas de rede, e que não é mais do que um aspecto de uma batalha mais vasta. Considerando os benefícios da tecnologia 5G, de facto, a Europa está também a tentar pôr a “cobertura” a funcionar no final de 2020, não sem problemas. E no Velho Continente depois da Suíça, a Itália mau grado o devastador efeito da Covid-19, que em Março de 2019 tinha activado a experimentação em mais de duzentas cidades, parecia ser um dos países mais bem colocados. Depois da China (e da Coreia do Sul e provavelmente dos Estados Unidos), mas antes de muitos outros países europeus, considerando o impulso que o 5G poderia dar às economias nacionais, seria um bom resultado e com o 5G, de facto, acredita-se que os empregos irão aumentar. Mas que tipo de empregos e de trabalhos?

E os robôs que a 5G permitirá desempenharem funções humanas ainda mais rapidamente, não será um problema para milhões de trabalhadores? O futuro é cada vez mais uma transfiguração hipertecnológica de situações que vivemos e conhecemos, basta pensar na revolução industrial. Mas o futuro que o 5G nos pode trazer, para além das cidades inteligentes, prevê também dois novos actores sociais que são os trabalhadores que alimentam as máquinas e aqueles que se arriscam a não trabalhar mais por causa das máquinas. Em 2018, um dos cruzamentos mais famosos de Zhongguangcun, o Vale do Silício de Pequim, foi inundado devido às incessantes chuvas sobre a cidade. As ruas da área tornaram-se rios inundados; vídeos e fotos da área publicados online e nos meios de comunicação chineses mostraram um canto da cidade completamente afundado pela água. Dentro desta secção transversal metropolitana, a certa altura, na rede chinesa começou a aparecer uma fotografia que parecia a todos ser capaz de imortalizar as condições de vida dos muitos trabalhadores da área.

A imagem retratava um jovem, provavelmente um dos muitos trabalhadores pendulares a trabalhar nas entradas da área, ocupado a verificar o seu smartphone, sentado em cima de um caixote do lixo e estava provavelmente à procura de informação online para descobrir como sair desse impasse; ou talvez estivesse a verificar as suas mensagens no WeChat ou ainda estivesse a pedir ajuda a alguns dos seus amigos. Mas para a maioria dos trabalhadores chineses de alta tecnologia era claro quem era; um dos muitos empregados das empresas mais avançadas e mais empenhado no esforço de inovação exigido pelo governo central. Para os seus pares e colegas, era uma daquelas pessoas a quem se aplica o lema “sem sono, sem sexo e sem vida”.

De facto, de acordo com muitos relatos nos meios de comunicação chineses e internacionais, quase todos os envolvidos nos principais sectores da indústria de alta tecnologia da China dizem que apenas trabalham. O “lema” toma a sua deixa de outro episódio que se tornou bastante conhecido na rede chinesa. É uma entrevista dada por um jovem casal a um jornal nacional. O casal admitiu que não podiam ter um filho porque quando chegavam a casa do trabalho estavam demasiado cansados para terem relações sexuais. Como casal ou sozinhos, os novos trabalhadores chineses já não partilham como os seus avós e pais as dificuldades das minas ou fábricas onde costumavam produzir que tornou a China grande, mas estão sujeitos a stress e ritmos de trabalho igualmente cansativos, embora em frente das suas secretárias, e não no coração da terra ou numa linha de produção.

As suas condições de vida e de trabalho são certamente melhores, tal como o seu salário, mas o esforço que lhes é exigido é idêntico, pois têm de sacrificar a sua existência pela riqueza da nação chinesa. No entanto, em comparação com os seus pais, esta nova geração de trabalhadores chineses tem os meios para se expressar e exigir os seus direitos e muito mais. Além disso, o poder renovado da China acabou por influenciar também os estados ocidentais A velocidade com que China avança nos campos da robótica e da IA levou o resto do planeta a adoptar ritmos de trabalho semelhantes aos da China, levando os trabalhadores de todo o mundo que produzem as ferramentas tecnológicas com que enfrentamos os nossos dias a partilhar as mesmas tristezas e a mostrarem-se solidários uns com os outros.

Esta questão é central para o nosso futuro, porque mesmo desta vez o que aconteceu no passado podia acontecer dado que nos anos da “fábrica do mundo”, em vez de trazer direitos laborais à China, as multinacionais e empresas de todo o mundo decidiram tirar partido dos baixos salários e dos poucos direitos dos trabalhadores chineses para aumentar os seus lucros. Assim, operaram um dumping global, que levou ao encerramento de milhares de fábricas em todo o mundo; o que, por sua vez, teve um efeito político e social ainda mais prejudicial, levando a maioria das pessoas que sofreram a crise económica a votar em partidos com um perfil soberano, marcadamente identitário, quando não explicitamente racista. Afinal, em 2018, Mike Moritz, um capitalista de risco da Sequoia Capital (a empresa que financiou o porta-estandarte da indústria tecnológica americana como a Apple, Cisco, Paypal, YouTube), escreveu um editorial no “Financial Times” intitulado “Vale do Sílicio faria bem em seguir o exemplo da China?”, no qual argumentava que o Vale do Silício está obcecado com as discussões sobre desigualdade.

Uma questão que não parece ser de grande interesse para Moritz, uma vez que no seu discurso afirma explicitamente que na prática enquanto nos Estados Unidos há uma discussão sobre questões desnecessárias, a China, onde os empregados trabalham catorze horas, seis ou sete dias por semana, deve ser tomada como exemplo porque, à luz destas considerações, fazer negócios na China é mais fácil do que fazer negócios na Califórnia. Uma vez mais as “características chinesas” envolvem o mundo dos empresários ocidentais, atraídos pela dedicação e liberdade que a China concede aos empregadores. O eixo mundial deslocou-se agora cada vez mais para leste, como vimos com a ficção científica, até a produção digital que enxergou a sua primeira fase de vida ser dominada pelos Estados Unidos e pelo Ocidente, pensemos na mesma rede, a World Wide Web, nascida no âmbito de projectos de investigação geridos pelo exército americano, enquanto hoje é um campo dominado pela China.

Mas não só, pois o equilíbrio global tradicional do poder económico está também a mudar. Em 2050, de facto, quatro dos cinco países com os rendimentos mais elevados serão asiáticas. Em primeiro lugar está a China. Os Estados Unidos são o terceiro. A Europa, se a considerássemos como um único país, seria apenas o quinto. No entanto, quando se trata de trabalhar, o quadro parece permanecer o mesmo. O mundo mudou, mas não a exploração. Tal como diz o escritor chinês Liu Cixin, em que a significação da indústria digital global em cada época impõe cadeias invisíveis àqueles que a experimentaram. A única hipótese que nos resta é dançar entre as nossas correntes. Peng Simeng é uma jovem escritora de ficção científica que foi trabalhadora na Tencent, a empresa que criou o WeChat.

Em 2016 era uma das muitas gestoras de produtos da empresa e todos os dias o trabalho era muito pesado e durante as noites tinha de fazer horas extraordinárias, mas ao mesmo tempo, poderia ter um salário decente, uma boa posição social e, em suma, boas perspectivas para o futuro. Mas após um longo período durante o qual trabalhou quase como uma máquina, no que se poderia designar por “cultura do lobo”, ela começou a perceber algumas emoções no seu coração que não eram claras no início, mas que gradualmente cresceram.

A sua vida movia-se por caminhos cada vez mais básicos como comer, beber, e fazer compras. Nessa altura, decidiu sair desta vida e descobriu a existência de um concurso literário na Internet e participou, escolhendo a ficção científica como a sua área. Um novo mundo se abriu, no qual foi capaz de transfigurar a sua vida passada através da literatura.

Há bastantes escritores de ficção científica que vêm de uma formação científica e trabalharam durante muito tempo na nova xadrez chinês, um novo modelo de fábrica, aparentemente mais asséptico e menos cansativo.

Segundo os chineses, os ritmos de trabalho que são impostos nos muitos Vales do Silício espalhados pelo país nascem e formam-se dentro de uma cultura de trabalho que tem raízes antigas e está arraigada no desejo de servir a sua nação. Em 2019 a Netflix produziu um documentário intitulado “American Factory”, um projecto financiado pelo Obama. No filme, uma fábrica histórica da General Motors nos Estados Unidos, em Dayton, é adquirida por uma empresa chinesa que produz vidro para o sector automóvel. Uma das muitas chaves para compreender o documentário é o choque cultural produzido pelos protagonistas em relação aos seus ritmos de trabalho e dedicação aos seus negócios. De acordo com os chineses, na prática, os americanos não têm muita vontade de trabalhar.

Num diálogo surreal entre um trabalhador chinês e um supervisor americano, os chineses ficam impressionados quando aprendem que os americanos trabalham oito horas e têm dois dias de descanso semanal, enquanto um chinês tem um dia de descanso por mês e, como vive longe da sua cidade natal, só vê o filho no Ano Novo Chinês, quando tem uma semana de férias seguidas. O seu filho tem seis anos de idade, e só viu o pai seis vezes. Mas isso não é tudo, porque quando o chefe chinês se queixa aos seus compatriotas de não ter atingido os seus objectivos, lembra-se de que cada chinês não trabalha para si, mas para o país. E nesse caso os chineses trabalham para mostrar aos americanos que podem confiar nos chineses, que são capazes de lidar com situações complexas, e fazer com que os trabalhadores estrangeiros trabalhem mais, e basicamente que no trabalho são os melhores de todos.

É importante conhecer a cultura de trabalho que domina as grandes empresas chinesas; em primeiro lugar porque a China está em todo o lado, tem empresas em todo o mundo, muitas delas no Ocidente, e a atitude chinesa em relação ao trabalho influencia a vida de muitos ocidentais que trabalham para um executivo chinês ou por vezes mesmo directamente para o Estado. Em segundo lugar, porque essa abordagem ao trabalho não é apenas exigida nas fábricas, mas também no trabalho aparentemente imaterial. Mesmo na produção digital, esta atitude acabará por favorecer a China no futuro do ponto de vista da produtividade e da inovação. Há uma empresa chinesa que representa tudo isto muito bem e o seu nome é Huawei. Um líder mundial em infra-estruturas de rede e o segundo maior fabricante mundial de smartphones que só em 2019 ultrapassou a Apple e Abril de 2020 a Samsung.

A Huawei é também uma das empresas mais importantes do mundo em termos de 5G, pois apesar de ser privada, é suspeita de ser muito próxima do governo, tendo sido criada por um militar, e Donald Trump usou esta desculpa para iniciar uma guerra contra a Huawei com a intenção de, se não a destruir, pelo menos retardá-la no desenvolvimento do 5G. A Huawei interessa por outra razão. Foi o fundador da empresa, Ren Zhengfei, que primeiro aproximou o nome Huawei do conceito de “espírito do lobo”. Era o início dos anos de 1990 e, comparando as multinacionais da época com os elefantes, Ren Zhengfei disse que a Huawei deveria, antes, desenvolver “o espírito do lobo”, um grande sentido de olfacto, um instinto competitivo e um bafo de sacrifício e cooperação. Quase vinte anos mais tarde, em 2011, o mega complexo Huawei em Shenzhen, onde, só para compreender o peso nacional que a empresa tinha na altura, a saída da auto-estrada perto da sede é chamada de Huawei. Em 2011, na Europa, a opinião sobre Huawei, se soubesse da sua existência, era sobretudo negativa. E de facto, os seus smartphones tinham aspecto e eram de baixa qualidade.

Mas a Huawei estava simplesmente a estudar tanto os seus mercados como os seus produtos, bem como a sua cadeia de produção, que é tão ramificada sendo complicado até para Trump cortar o ângulo vital da sua força. Se o mercado das TI se desenvolver mudando a forma de conceber soluções e a relação com a tecnologia, há necessidade de actores completamente novos em comparação com o passado, e esse foi o pensamento da Huawei nesse tempo ao considerar-se como sendo “sangue novo”, referindo-se à vontade da empresa de se tornar um actor principal nesta nova fase. Entre outras, naqueles mesmos dias o então presidente da agência governamental norte-americana Us-Export-Import Bank, tinha acusado a Huawei de utilizar um crédito de trinta mil milhões de dólares fornecido directamente pelo banco chinês para o desenvolvimento, com uma vantagem não insignificante sobre os seus concorrentes, reiterando outra das acusações dos Estados Unidos contra empresas chinesas, a de serem financiadas por subsídios estatais. A Huawei é uma empresa sui generis, com rigorosa disciplina e organização hierárquica na qual, no entanto, a base accionista é gerida por milhares de empregados.

O fundador, Ren Zhengfei, detém apenas 1,42 por cento das acções. Vários gestores da empresa, incluindo os localizados em muitos escritórios internacionais confirmam a história da chamada “cultura do colchão”, segundo a qual nos escritórios da Huawei também havia colchões, em caso de horas extraordinárias excessivas. É um clássico nos escritórios chineses dormir a sesta após uma pausa para almoço, muitas vezes comido em frente ao monitor, onde predomina o arroz, legumes e carne de uma lancheira que muitas vezes não custa mais do que dez yuans. Depois do almoço, os chineses põem os braços e a cabeça em cima da mesa e fazem uma sesta completa de meia hora. Segundo os executivos da Huawei, o colchão debaixo da secretária facilita este hábito, tornando-o mais humano e agradável.

As trovas ficcionais do ciúme

[dropcap]N[/dropcap]o primeiro número da revista ‘Orpheu’, corria o ano de 1915, Almada Negreiros fez publicar a breve narrativa “O Echo”. Deixo aqui o texto com a ortografia original:

“Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!/ Talvez que fosse à caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta./ Era p’lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras./ Foi chamar ao cimo dos/ rochedos, e uma voz de mulher tambem chamou Adão./ Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem chamou Adão./Foi-se triste para a tenda./ Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma! E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe./ – Outra que não Ella chamára tambem por Elle”*.

O tema de fundo é o ciúme. A partir de um estigma solitário, constrói-se uma história inteira com personagens, paisagens, chamamentos, tudo composto numa narrativa em vária vias, permeável a metamorfoses tal como nos sonhos, mas, ao mesmo tempo, dotada de verossimilhança a fim de que a ficção se possa inserir na ordem das coisas plausíveis. Veja-se o que aconteceu a Semira, raptada por ciúmes de Zadig, um e outro conhecidos heróis de Voltaire.

Quando Adão e Eva são protagonistas, a alegoria e a economia dão facilmente corpo a todos estes aspectos. Não sendo esse o caso, o crédito ficcional torna-se fundamental para conquistar o público, embora, no caso do ciúme, o público seja apenas e tão-só o próprio ciumento solitário que, encerrado na sua redoma, aprende a vibrar e a excitar-se com as imagens do enredo que conjectura e imagina. Trata-se de uma trama em efabulação ininterrupta como se decorresse da interacção entre criador, encenador, actores e público, reunindo o ciumento, no seu sofrimento silencioso, todos esses papéis afinal irreais e virtuais.

O único momento em que o ciumento é capaz de comunicar parte do seu conjurado ‘plot’ é na frente da/o amada/o, embora a tradução que leve a cabo se baseie em instantâneos frenéticos e eufóricos ou em elementares pontos de fuga.  E isso acontece porque o ciumento centra a atenção num único objeto e congela aí a toda a sua capacidade de inferência, sendo incapaz de selecionar o que é essencial ou possível e o que é secundário ou inconcebível, perdendo-se assim na errância delirante dos detalhes.

De qualquer maneira, é nos detalhes que o ciúme admite a tragédia que visiona, do mesmo modo que terá sido a partir de um pormenor inicial que toda a marcha ficcional começou inapelavelmente a ser produzida.

Este caminhar paralelo à realidade faz adoecer os próprios sentidos do que se crê ser a realidade. O narrador de ‘O Vestido Cor de Fogo’ de José Régio foi claro a este respeito: “Tudo isto o fui vendo fechado no meu gabinete, quando, tendo-se-me revelado a torva disposição ao ciúme” (…) “naturalmente me recurvei sobre mim mesmo, a interrogar a minha própria personalidade e a minha própria vida”.*

Nos ‘Fragmentos de um discurso amoroso’, Barthes, na sua escrita elíptica e fugidia, cita a exclusividade de Freud (“quando amo sou exclusivista”), o que significa que opor-se ao ciúme seria quase transgredir uma lei.

No mesmo passo, o autor admite que o ciúme recusa a perfeição e que a perfeição implica sobretudo saber repartir (e os românticos deram corpo pleno a esse tormento: Mélita reparte e Hiperion sofre com isso, do mesmo modo que Carlota reparte e Werther sofre com isso).

Se a paixão nasce em boa parte de uma distorção óptica (a imagem da/o amada/o é sempre a figuração de um modelo ideal e único), a narrativa do ciúme associa causas e efeitos voláteis a conclusões aleatórias que se propagam e ampliam através de uma distorção do mesmo tipo. Tal como Rousseau referiu, descartando o ciúme – com alguma inocência – de um “estado de natureza”, terá sido nos labirintos da complexidade social moderna que o “furor impetuoso” e os “sacrifícios de sangue” rasgaram a expressão do que seria um “sentimento doce e original”.

Embora a mitologia esteja repleta de altercações sanguinárias que contrariam esta ingénua bonomia, não deixa de ser interessante que, na tradição literária medieval e renascentista, o ciumento tivesse surgido amiúde associado ao risível ou ao desprezível. Na poesia trovadoresca, por exemplo, o lamento é visto como um aceno nobre (quando a correspondência amorosa parece esvair-se) que evita, no entanto, atravessar a fronteira em direcção ao ciúme, pois isso seria entendido como primário, ridículo, coisa de vilão. O amante cortês jamais se isola no seu ciúme primário, pois isso rebaixá-lo-ia.

Regressando ao ‘Echo’ de Almada, os sinais da narrativa tornam-se evidentes em três patamares distintos: “a cáça era nenhuma!” / “Elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe” e “Outra que não Ella chamára tambem por Elle”. Por outras palavras: o corte ou a fuga à normalidade aparece como ponto de partida (a ausência de caça), a desordem toma depois o seu lugar (ameaça e fuga), dando, por fim, entrada na trama o chamamento (ou o emergir das vozes que se multiplicam no delírio da narrativa que se imagina).

O ciúme é, pois, um vórtice ficcional que navega a partir de uma situação pontual e sobretudo imponderável. Não é caso único na sua morfologia, não fosse ele um devanear dos humanos ao encontro da sua própria fragilidade. O processo – que no dizer poético de Cecília Meireles acontece ao “mundo que circula no vento” – associa os três patamares já referidos (momento do corte – desconcerto – imaginação em desvario) e é reconhecível, por exemplo, no ‘Génesis’ bíblico (deus cria o homem – maçã/babel – culpa/desconcerto), na pandemia que se descontrola (contágio – alteração – propagação) ou até na patologia das recentes eleições americanas (anúncio inusitado de vitória – complicação – geração do caos). Em última análise, estaremos perante uma metáfora da nossa própria vida sempre prestes a desencadear singularidades que rompem o plano corrente dos dias e que originam – dando outra vez a palavra a Rousseau – os conhecidos “devaneios do caminhante solitário”.

Negreiros, A. ‘Frizos (prosas)’ em ‘Revista Orpheu’, Lisboa, Ano I, 1915, N.º 1.
Régio, J. ‘O Vestido Cor de Fogo e outras histórias’. Lisboa: Editorial Verbo, s.d., p. 29.
Rousseau, ‘Discours sur l’origine et les fondements de l’inégalité parmi les hommes’ em ‘Oeuvres Complètes’, Vol. 2, Paris, Seuil, 1971, pp. 225-226.

A reparação cósmica

[dropcap]A[/dropcap] ideia de que Deus cria o mundo lendo um livro é da tradição judaica e encontramo-la no Jardim das Delícias, do Bosch, onde, a uma esquina do Terceiro Dia da Criação, se figura um velhito com um livro na mão, pondo em movimento essa gestação do mundo que lhe inspira a leitura da Torá.
Primeiro aspecto simpático: Jeronimus Bosch não ardeu na fogueira por ter representado Deus na sua senilidade, um sinal de tolerância.

E se nos reportarmos aos dias de hoje, às teorias da conspiração e à vileza desse balofo Capitão Gancho de cabelo encardidamente laranja, pode ocorrer-nos a ideia estremecedora de que o livro que Deus lê nesse cantinho de Bosch possa não ser a Torá mas o American Psicho, do Bret Easton Ellis, um retrato da insânia. O que tornaria o legado de Deus uma coisa intolerável.

Contudo, nesta semana, outra notícia me contundiu sobremaneira. Falhos de imaginação os que achavam que Marx, Nietszche e Freud tinham marcado o homem com feridas narcísicas (mesmo que Marx tenha voltado em farsa, na superstição populista de que também os socialistas comem crianças ao pequeno-almoço).

Aquilo que descobri esta semana, põe tudo isto de pantanas. Passo a citar: «O espaço sempre suscitou curiosidade e mistério (…) Os cientistas respondem agora que podem existir 300 milhões planetas potencialmente habitáveis na nossa Via Láctea. E estes mundos não estão assim tão distantes quanto se possa pensar, alguns estão a 30 anos luz.»

Trinta anos luz, é já aqui; trezentos milhões? Uau! A notícia deixa-nos em carne viva, escorchados, a escorrer sangue. Sabíamos que a modernidade começa com uma fogueira, aquela em que arde o corpo de Giordano Bruno, em 1600, mas não supunhamos que a multiplicidade dos mundos que ele defendeu no livro que o perdeu fosse de tal monta.

Esta multiplicidade é fascinante mas reabre o sulco da responsabilidade, sob risco de nos pulverizar a irrelevância. Bom, isto não é tanto um problema para mim como para as cabecinhas que temem a centrifugação simbólica, para quem os profetas têm de ser obrigatoriamente autoritários e mágicos, e para quem Deus escolhe os humanos como cobaias principais, ou é o dealer que fornece as 72 virgens.

Trezentos milhões, mesmo para um Deus não dá folga. A possibilidade de encontrar os dados do jogo esquecidos por um instante na mesa do universo – talvez no encarniçamento da discussão com Einstein, que lhe recriminava a ligeireza de brincar com o aleatório e o incerto – são ínfimas; aumentaram de tal modo as anfractuosidades do mundo que alguma coisa que ficou fora do foco da atenção um milionésimo de segundo pode estar perdido para a eternidade. Por outro lado, as hipóteses para que Deus encontre um mensageiro confiável e eficaz neste labirinto de vozes ilimitadas são reduzidíssimas, e mesmo a Deus, revejo-o agora como a esse velhito do Bosch mas vestido de polícia-sinaleiro numa encruzilhada entre galáxias e praticamente já sem trânsito.

E eis que igualmente o meu querido Shakespeare passa a ter o relevo de uma poda (que ninguém completou) numa videira, em vinha que entretanto secou.

Ah, mas Deus é ubíquo, objectarão alguns. Pois é, mas nós não, e somos nós quem têm de lhe captar a atenção, tal como uma das funções do espelho é apresentar-nos ao infinito.

Para Nietzsche, não nos libertamos de Deus se não nos libertamos da gramática. Em trezentos milhões e mundos habitados essa harmonia pré-determinada será uma mesma ou irradia em sucedâneos agramaticais que fundam diversas regras, milhões? Fica a dúvida, porém, só esta, inibe a simples ideia de usarmos uma sua gramática (qual?) ou de nos afincarmos na sua devida apropriação.

O que nos projecta para o território de uma escolha vital. Encaminhamo-nos para a radicalidade inabarcável do múltiplo, numa liberdade inerente a si e em contínua exterioridade à sua moldura, num fluxo que rompe categorias e delimites, e adquirimos a serenidade no meio dessa insegurança? O que é para raros e obriga a uma vigilância permanente. Ou desenvolvemos uma cegueira redutora, o que acontece a muitos, e queremos decalcar na laminada pele do universo a ilusão das tradições? Trata-se de escolher entre a intranquilidade do incognoscível e a tirania decapitadora.

Chega-me pela primeira vez a impressão de ceder à visão conspiradora dos agnósticos: o Mau Demiurgo faz o universo conspirar contra nós.

Não obstante, julgo que a irrelevância a que estamos submetidos não deve afundar-se ainda mais na estultícia de concedermos relevância a Trump. O político – o direito a pegar na pá e soterrar Trump – ganha aqui o sabor de uma reparação cósmica.

E quem se abstrai disso – chega-me a certeza indubitável – vai para o Inferno ou já vive nele. Como os setenta milhões que votaram em Trump.

A confirmar esta hipótese, astrónomos conseguiram finalmente decifrar um misterioso sinal de rádio repetido no espaço, rastreado há dez anos. E de acordo com a revista científica “Nature”, a suposta origem do sinal chega-nos de mais perto, estranhamente de Tebe, o quarto satélite natural, em termos de distância, de Júpiter, que se assemelha a uma orelha. Este foi descoberto pela Voyager 1 em 5 de março de 1979, e foi baptizado com o nome da ninfa Tebe que na mitologia grega era filha do deus Asop. Há, contudo, quem diga que a mensagem afinal vem do planeta Niburu, que surge sempre por detrás de Júpiter, esse planeta cujos habitantes nos visitam a cada 3.600 anos para, segundo os sumérios, fazer experiências transmitir ensinamentos e fornicar as militantes trumpistas. De qualquer dos modos, diz a estranha mensagem: “…apesar de gostarmos mais da Kamala que do velhote, damos os parabéns a Biden pela vitória nas eleições americanas. O Trump que vá para o Inferno…”

Feminismo? A mim parece-me uma mega reparação cósmica.

A sociedade está a mudar de base. O que acontece diante dos nossos olhos não é senão uma mudança de civilização (2018) RAOUL VANEIGEM

No cruzamento de todos os lugares e de nenhum situa-se a encruzilhada do possível e do impossível

[dropcap]U[/dropcap]m caos planetário assombra hoje as ruas e as cabeças. Estamos a sofrer os efeitos de um terramoto cujo epicentro está em toda a parte e em lugar nenhum. Tanto assim é que neste reino absurdo onde continuamos a subscrever um pretenso contrato social, nenhuma base, nenhum valor seguro oferece a ajuda da sua estabilidade.

A mudança de civilização a que assistimos não se insere no círculo apocalíptico que fazia girar a peste, a fome, a sida, as guerras, as insurreições, a devastação atómica, a catástrofe ecológica. Resulta de uma evolução da história que, tendo atingido um impasse, revela a sua aberração original: o desvirtuamento de um devir humano, paralisado pelo surgimento de um sistema económico e social inadequado. O que surge em simultâneo é a superação que traça, como única saída, a fundação de uma civilização radicalmente diferente.

A consciência de uma verdadeira humanidade exige o abandono das utopias putrefactas a que a opinião dominante sempre deu crédito. O Estado de Bem-Estar, a sociedade de bem-estar consumista na qual continuamos a tropeçar não prova que aquilo a que chamam de realidade é a verdadeira utopia: um lugar que não está em lugar nenhum e um tempo onde, representados por toda a parte, estão exilados do vosso próprio corpo?

A rocha das velhas certezas despedaçou-se, não permitindo às evidências do passado senão uma rápida volta no frágil palco do espectáculo.

Atingidos de frente por um passado em colapso e um futuro ensombrado pelo vazio do pensamento, os costumes e as mentalidades dobram-se sobre si mesmos, recuam para o que não mais tem lugar, falhando em abrir-se para o que ainda não existe e que, no entanto, está para nascer.

O espectáculo da vida às avessas devora toda a esperança. Testemunhamos a renovação dos arcaísmos que fizeram a glória sangrenta do velho mundo. Embora cada retrocesso seja saudado pela fanfarra das novidades antigas, sabemos que nunca há volta atrás, que a cola estupidificante só produz efeito durante a colagem mediática, do furo, como dizem os jornalistas.

Ontem, a crise económica havia revelado que era, na realidade, uma crise da economia. Evidência que, hoje, esconde outra. O desmoronamento do sistema revela, aos olhos que se abrem, algo que não é senão uma mudança de civilização.

O desequilíbrio das sociedades resulta de um deslizamento das placas tectónicas, de uma total subversão das nossas condições de existência. Ainda não percebemos a infinidade de possibilidades que se abrem diante de nós. A exploração da vida é uma aventura que não tem comparação com a experiência labiríntica de sobrevivência, onde não temos nada mais a aprender, a não ser como escapar dela. A experiência da vida economizada foi um fracasso. Guiada pela consciência humana, a vida nada tem a demonstrar excepto a sua própria existência.

O regresso da consciência humana

A consciência proletária dotou de uma praxis – de uma prática inscrita nas condições particulares da história – essa consciência humana que o humanismo do Renascimento tinha revelado na sua forma intelectual, geradora, no entanto, de profundas convulsões psicológicas e sociais.

O projecto proletário de uma sociedade sem classes foi além da ideologia humanista, rapidamente assumida pelo capitalismo filantrópico. Baseava na realidade vivida sob exploração, na existência consternada de milhares de homens, mulheres e crianças – da qual dará conta Flora Tristan –, a luta pela emancipação liderada pelo proletário, a fim de se libertar e de libertar o mundo da proletarização.

A ascensão e o dinamismo do capitalismo produziram as condições históricas favoráveis ao nascimento de uma consciência proletária. A burocratização do movimento operário, a marginalização do sector produtivo e o tsunami consumista levaram a melhor.

Os ganhos de ter estão destinados a perder-se. O que o ser adquiriu persiste.

Embora o poder letárgico do capitalismo financeiro tenha confortado o sono do proletariado, o seu sonho permanece e é como se a consciência humana – de que a luta de classes se tinha, de certa forma, vestido historicamente – ressurgisse do fundo das trevas. Como se se preparasse para brilhar no quadro que a sociedade autogestionária lhe vai proporcionar.

A consciência de ser e de querer ser humano nunca desaparece, desperta sempre dos seus entorpecimentos. Ao perceber, por meio de turbulências e confusões, que um processo de mudança radical está em acção, a inteligência sensível redescobre a consciência humana de que a consciência proletária e o seu projecto de emancipação se haviam revestido de forma historicamente fugaz.

Tudo aquilo em que os homens acreditaram ruiu porque a sua credulidade levou-os sempre a confiar naquilo que os negou, sufocou e aniquilou. Eles têm essa qualidade extraordinária para se destruir, para odiar, para desprezar. Desconsideram aprofundar as alegrias que lhes competem em favor de um momento de amor, de felicidade, de criação.

Um movimento de autogestão que não se empenhe, desde o início, em fazer com que a vida tenha precedência sobre a economia, apenas administraria a miséria de estar sob o jugo do ter.

A robotização dos seres vivos não sobreviverá ao despertar da vontade de viver

A experimentação das condições de sobrevivência atingiu o seu auge com as consideráveis melhorias que as tecnologias avançadas, o consumismo, a democracia de mercado trouxeram para o conforto desses animais domesticados e com antolhos que são as mulheres e os homens obrigados ao trabalho.
Como não celebrar o progresso extraordinário das ciências médicas e farmacológicas? Temos os meios para prolongar a duração da existência muito para além do tempo fixado pelo passado. A desvantagem é que o beneficiário, tanto quanto esse pastor a quem Zeus concedeu o pedido de um desejo, escolhe ser imortal. Tendo-se esquecido de especificar que era permanecendo jovem que o queria, viu-se enrugado, murcho, quebrado sob o efeito da velhice eterna.

O que as novas terapias melhoram não é a vida mas a ansiedade prolongada, um desconforto que progride e seca, uma esterilização do viver que «vivifica» o mercado da saúde.

A farsa do transumanismo. Embora o homem não tenha ainda dado lugar ao ser humano, a máquina de descerebrar e de tornar a vida lucrativa oferece a sua concepção do futuro e a sua imaginação advogando um transumanismo. Desprovido dos pitorescos, muito questionáveis psicopatas que outrora nos matraquearam com o eugenismo, a teoria das raças, a inferioridade da mulher e outras verdades devidamente acreditadas pela ciência, defende-se o projecto de uma tecnologia enxertada nos vivos para eliminar doenças, para retardar o envelhecimento e a morte, em suma, para se sobreviver com a perfeição de um robô num universo regulado por uma máquina de lucro, que colocou Deus no desemprego abolindo a sua função de grande relojoeiro.

Os intelectuais que trabalham para aperfeiçoar a ordem das coisas tendem a esquecer que dentro de um tanque de guerra há um homem que, de repente, decide salvar a sua pele e os seus desejos. A pobreza do cinismo deles é terrível. Eles têm a arrogância do poder e a fraqueza do lacaio. É por estarmos de joelhos há tanto tempo que não conseguimos levantar-nos para lhes cuspir na cara?

Porque é ajoelhados que gritamos: «Basta!» É ainda ajoelhados que, elevando os nossos gestos de ameaça e de revolta para o céu vazio, estimulamos o sarcasmo dos exploradores e dos seus mercenários mediáticos.

O que podemos opor à tirania e aos seus ditames senão esta consciência humana que, baseando-se na vida e na liberdade dos seus desejos, se afirma, também ela, como um facto consumado?

A vida é algo indiscutível. Não tem de prestar contas a ninguém, e ainda menos a um sistema cujas engrenagens estripam os “cavalheiros” que se envaidecem de as fazer girar.

Às estratégias dos assentamentos desumanizantes, a autogestão generalizada opõe o surgimento das terras livres onde se concretiza, poeticamente, a nossa vontade de uma vida soberana. Esta é uma determinação que exclui qualquer debate, qualquer compromisso, qualquer diálogo com o «partido da morte».

tradução de:
VANEIGEM, Raoul, “La société change de base. Ce qui est en cours sous nos yeux n’est rien d’autre qu’une mutation de civilisation”, in Contribution à l’émergence de territoires libérés de l’emprise étatique et marchande – Réflexions sur l’autogestion de la vie quotidienne, Paris, Éditions Payot & Rivages, 2018, pp. 77-85.

TIMC | Pixels e ARI and The Party Animals trazem novidades este fim-de-semana 

Por um lado, os Pixels, banda de tributo aos Pixies, que trazem novas músicas. Por outro, ARI junta-se ao projecto The Party Animals que pretendem reunir num só palco a energia de músicos profissionais que já tocaram em bares de casinos e hotéis. Eis os espectáculos deste fim-de-semana do festival This is My City

 

[dropcap]I[/dropcap]ntegrados no cartaz deste ano do festival This is My City (TIMC), os Pixels e ARI and The Party Animals actuam esta sexta-feira e sábado, respectivamente, na discoteca D2. São duas noites que prometem ser, acima de tudo, diversas e divertidas, mas também repletas de novidades.

Os Pixels, banda de tributo aos Pixies, trazem músicas novas, enquanto ARI and The Party Animals resolveram introduzir um novo conceito junto do público de Macau, a fim de concretizarem novas experiências em palco.

Ao HM, Nuno Gomes, membro integrante dos Pixels, levantou a ponta do véu daquilo que os amantes da banda poderão ouvir amanhã. Recentemente os Pixels deram um concerto no Live Music Association (LMA) e o espectáculo no D2 será um pouco a extensão desse evento.

“Quando demos o concerto no LMA o público pediu mais duas músicas e ficamos com pena de não as podermos tocar. Decidimos aprender essas músicas”, contou.

Desta forma, “o público pode esperar músicas melodicamente bonitas, típicas do pop rock, e também uma ou outra música mais punk”. “Temos mais de 20 músicas preparadas e quem é fã de Pixies vai, de certeza, adorar o nosso concerto. Quem não conhece vai lá ter as músicas icónicas da banda, como o ‘Where’s My Mind?” Ou “Here Comes Your Man” e será surpreendido com uma parte dos Pixies mais visceral”, acrescentou Nuno Gomes.

Quem também actua no D2 amanhã é o músico Ryan Carroll, que já trabalhou com Nuno Gomes em outros projectos musicais. “Vai ser uma excelente noite pela diversidade musical. O Ryan Carroll já tocou comigo e outro músico numa banda que tivemos e é um músico de eleição em Macau.”

Para os Pixels, o concerto de amanhã no D2 será uma espécie de encerramento para um período de reflexão. “As pessoas adoram e temos tido uma boa adesão, mas como tocamos músicas dos Pixies receamos estar a ficar repetitivos. Estamos a pensar fazer uma paragem depois do TIMC, dar um grande espectáculo no D2 e descansar depois durante uns tempos e ver se há vontade de continuar. Não queremos saturar as pessoas, mas a intenção é continuar e aprender mais músicas”, adiantou Nuno Gomes. A noite encerra com o DJ Set dos Trainsportters.

Recordar o Bellini ou Lion’s

ARI, músico nascido em Macau e conhecido pelas suas sonoridades funk, decidiu juntar a sua banda, os ARICLAN, ao projecto The Party Animals, composto por vários músicos de Macau, de várias nacionalidades. O espectáculo acontece no sábado e promete ser uma experiência que poderá atingir novos rumos, contou ARI ao HM.

“Pensámos em apresentar ao público, nesta edição do TIMC, uma espécie de entretenimento. Algo diferente da parte de uma banda, pois vamos tocar canções, mas também temos elementos diferentes para interagir com o público. Chamemos-lhe uma experiência musical, pois queremos levar a música a um outro nível na sua relação com o público”, contou.

ARI, nascido em Macau, tem já uma vasta experiência como músico, que teve início ainda adolescente em Hong Kong. Depois da participação num concurso televisivo para músicos, fundou a sua banda, “What The Fuck”, que viria a mudar de nome para ARICLAN, em 2018.

Sobre a fusão com os The Party Animals, ARI não sabe ainda onde é que essa experiência o vai levar, mas diz querer recordar os tempos em que bares como o Bellini, no Venetian, e o Lion’s, no MGM, tinham as portas abertas com música ao vivo. Até porque grande parte dos músicos que compõe os The Party Animals tocaram lá.

“É como se pegássemos em todos os músicos que têm experiência em tocar vários tipos de canções e juntá-los num grupo só. É como juntar a energia de espaços como o Lion’s e o Bellini num só lugar”, exemplificou.
ARI espera, com os The Party Animals, dar um primeiro passo que os possa levar no futuro a crescer enquanto banda. “Será a primeira apresentação deste projecto. Se as pessoas ficarem interessadas podemos começar a tocar novamente em hotéis, por exemplo, e criar aqui uma série de espectáculos. O nosso primeiro passo é ter reconhecimento em Macau, mas temos de nos desenvolver um pouco mais enquanto banda. Os The Party Animals querem ir a muitos eventos agora, ter muita exposição, para ver o que podemos construir.”  A noite fica completa com um DJ Set de Lobo Ip.

As portas do D2 abrem às 22h30, tanto na sexta-feira como no sábado, e os espectáculos começam às 23h. Os bilhetes custam 180 patacas e dão direito a duas bebidas.

Violência | Marido bate em mulher após despedir empregada doméstica

De acordo com a Polícia Judiciária, a pressão económica e os cortes salariais causados pela pandemia terão estado na base do aumento das desavenças entre um casal que se viu obrigado a despedir a empregada doméstica. Uma discussão sobre quem devia levar o filho à escola terminou em agressão

 

[dropcap]U[/dropcap]m residente de Macau com nacionalidade filipina foi presente ontem ao Ministério Público (MP), após ter sido acusado do crime de ofensa simples à integridade física por ter agredido a mulher, com quem tem dois filhos.

De acordo com informações reveladas ontem pela Polícia Judiciária (PJ) em conferência de imprensa, as desavenças entre o casal terão começado a partir do momento em que, devido à crise provocada pela pandemia de covid-19, ambos viram os seus salários a ser reduzidos nos seus empregos. Com menos receitas a entrar ao final do mês, o casal decidiu despedir a empregada doméstica, que era quem habitualmente estava responsável por levar os filhos à escola.

A agressão aconteceu na manhã do dia 15 de Setembro. Depois de regressar a casa do serviço, onde trabalha como segurança, o homem de 31 anos preparava-se para descansar quando a esposa lhe pediu para ir levar o filho à escola. O pedido levou a uma discussão acesa, que acabaria com o homem a dar um murro à vítima, ferindo-a no rosto, junto a um dos olhos. Após a agressão, a mulher saiu de casa com um dos filhos e apresentou queixa na polícia.

Durante a tarde do mesmo dia, a PJ dirigiu-se à residência do casal localizada no centro de Macau, onde o suspeito admitiu a prática do crime. Após averiguar junto dos dois quais as razões que levaram ao desfecho violento, os agentes da PJ apuraram ainda que os conflitos entre o casal terão começado em Janeiro de 2020, embora não haja registo de agressões anteriores.

Ser ou não ser

O suspeito de 31 anos foi ontem presente ao MP pela prática do crime de ofensa simples à integridade física. A confirmar-se a acusação o homem pode vir a ser punido com uma pena de prisão até três anos ou com pena de multa.

O facto de o caso reportado não aparecer enquadrado no crime de violência doméstica coincide com uma preocupação que não é nova, em torno da tipificação do delito. Ou seja, apesar de a lei prever claramente que o crime de violência doméstica resulta de quaisquer “maus tratos físicos psíquicos ou sexuais” cometidos “no âmbito de uma relação familiar ou equiparada”, muitos casos semelhantes acabam por ser julgados como crimes de ofensa simples à integridade física.

Isto acontece porque, de acordo com o parecer emitido no final da análise na especialidade da proposta de “Lei de prevenção e combate à violência doméstica”, a prática do crime implica uma ocorrência que se repete ao longo do tempo, correspondendo ao conceito legal de maus tratos estatuídos no Código Penal.

Grande Prémio | 410 agentes mobilizados e atenção nas corridas ilegais

Com obra a decorrer na Taipa, a Comissão Organizadora antevê um trânsito ainda mais complicado do que nos anos anteriores e apela aos cidadãos para que saiam de casa mais cedo. Também o percurso de 48 autocarros vai ser afectado

 

[dropcap]O[/dropcap] Corpo de Polícia de Segurança Pública vai mobilizar 410 agentes no âmbito do Grande Prémio, dos quais 97 vão estar nas estradas de Macau, nos três dias da prova, que decorre entre 20 a 22 de Novembro. Na conferência de imprensa de ontem sobre os arranjos do trânsito, Leong Wa Chi, comissário do Departamento de Trânsito do Corpo de Polícia Segurança Pública, deixou mesmo o aviso de que não vai haver qualquer tolerância para corridas ilegais.

“Vamos ter 410 agentes na prova, entre os quais 97 agentes para acompanharem a situação do trânsito, nas estradas de Macau durante a prova. Vamos também fazer inspecções de veículos em circulação e estar atentos à realização de corridas ilegais nocturnas”, avisou Leong Wa Chi.

Com várias artérias a serem encerradas devido às provas, a organização está à espera de uma sexta-feira com um trânsito mais complicado do que nas edições anteriores, devido à realização de obras na Taipa. “As artérias Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, Ouvidor do Arriaga e Sidónio de Pais ficam sempre mais congestionadas durante o Grande Prémio. No entanto, como estão a decorrer obras na Taipa acreditamos que a situação pode ser pior do que nos anos anteriores”, reconheceu Lo Seng Chi, subdirector da Direcção de Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT). “Apelamos aos cidadãos que tomem as medidas necessárias e saiam com maior antecedência de casa. Aos patrões, pedimos que sejam flexíveis com o horário”, foi apelado.

O impacto do Grande Prémio de Macau vai ainda ser sentido pela população devido às alterações de 48 percursos de autocarros públicos, e à suspensão total da carreira H2, num impacto que afecta 56 por cento de toda a rede de autocarros.

Metade dos bilhetes vendida

Numa altura em que faltam oito dias para o início das corridas estão vendidos 50 por cento dos bilhetes da bancada da Curva do Hotel Lisboa, a mais popular do circuito. No entanto, Pun Weng Kun, coordenador da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau, acredita que o ritmo de venda vai acelerar nos próximos dias. “Temos confiança que até à prova mais turistas e residentes vão comprar bilhetes. Após anunciarmos o programa, a venda de bilhetes aumentou muito. Temos confiança quanto à venda de bilhetes […] Vão ser provas muito interessantes”, afirmou o coordenador.

Este ano a capacidade do circuito foi reduzida de 14 mil espectadores para 10 mil, devido às medidas sugeridas pelos Serviços de Saúde, de controlo da pandemia.

Em relação à pandemia, Pun Weng Kun reconheceu que esta edição do Grande Prémio foi uma das mais difíceis que teve de organizar desde 2016, altura em que assumiu a pasta. “A realização do evento este ano foi muito desafiante. No passado sabíamos bem as corridas que iam ser disputadas. Mas este ano devido à pandemia tivemos de pensar muito mais sobre as provas que era possível organizar, assim como em alternativas. Foi a experiência desta equipa que permitiu realizar o Grande Prémio de Macau este ano”, realçou.

Além disso, foram várias as medidas exigidas aos pilotos vindos de fora, e no caso dos vindos de Hong Kong ou do estrangeiro foi mesmo exigida uma quarentena. Todos os pilotos devem concluir a quarentena até 16 de Novembro e, segundo Pun, até ontem não tinha havido qualquer teste de ácido nucleico com um resultado positivo.

DSEJ | Política de Juventude com foco no patriotismo

Entre hoje e dia 11 de Dezembro decorre uma consulta pública sobre a Política de Juventude de Macau para os próximos dez anos. Um dos principais focos é a educação patriótica. Por outro lado, passa-se a considerar como jovens quem tiver idades compreendidas entre os 13 e os 35 anos

 

[dropcap]A[/dropcap]rranca hoje a consulta pública da Política de Juventude de Macau para os anos de 2021 a 2030. O conceito “herdar o amor à pátria e a Macau, reforçar o sentimento patriótico” é apontado como uma das cinco principais direcções da política. “O amor pela pátria e por Macau tem sido desde sempre o valor nuclear da sociedade de Macau”, descreveu ontem o subdirector da DSEJ em conferência de imprensa.

Questionado sobre a educação patriótica nas escolas, em termos curriculares, Kong Chi Meng disse não haver obrigatoriedade. “O currículo também tem alguns conteúdos relacionados, tais como apreciar a cultura chinesa (…). Só queremos os jovens a sentir a cultura do seu país para formarem um sentimento de pertença”, respondeu o sub-director.

As outras linhas orientadoras incluem a aposta na saúde física e mental dos alunos, na competitividade, na criação de uma sociedade inclusiva e melhorar a participação social. “Macau é uma sociedade mais inclusiva por isso não queremos dividir as etnias ou grupos de jovens”, disse o subdirector.

O documento de consulta apresenta como objectivo a eliminação de barreiras culturais e exclusão social, bem como a garantia de que jovens de diferentes classes e grupos “tenham oportunidades iguais de desenvolvimento, especialmente nas áreas de educação, emprego, e participação social, fornecendo serviços e apoios aos jovens mais necessitados”.

Na conferência de imprensa, Kong Chi Meng observou que alguns não participam nos trabalhos de associações juvenis e deixou um desejo: “queremos que mais jovens participem na vida em grupo e voluntariado”. Ao nível da Grande Baía, está previsto um plano de intercâmbio entre escolas geminadas.

Jovens até aos 35

A faixa etária dos 13 aos 29 anos abrangidos por esta política vai ser alargada até aos 35 anos. Esta opção teve em conta o aumento da esperança média de vida e de tempo de escolaridade, o começo mais tardio da carreira profissional, a proporção de jovens na população e a articulação com as políticas de juventude do país e da Grande Baía.

De acordo com o documento de consulta, até ao final de 2019 havia 219 mil pessoas na faixa etária definida. Há também uma iniciativa pensada para os que já são pais ou encarregados de educação. “Vamos ter um centro para educação parental. Pretendemos oferecer mais apoios aos pais, como por exemplo, formas de melhorar a relação entre pais e filhos”, disse ontem Kong Chi Meng, subdirector dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ).

De acordo com o responsável, o foco da educação parental é orientar os pais sobre formas como os filhos se podem proteger e como os devem educar na aprendizagem.

A data para a abertura do centro de educação parental vai ser definida depois do regulamento administrativo da fusão da DSEJ com a Direcção dos Serviços do Ensino Superior. Kong Chi Meng avançou que não serão orçamentadas despesas para a sua construção porque será utilizado um centro já existente da DSEJ, apesar de a localização ainda não ser certa. “Precisamos de ter também em conta as necessidades dos pais para definir a localização”, disse.

A primeira fase de implementação da Política de Juventude de Macau decorre entre 2021 e 2025. Prevê-se que em 2025 uma instituição académica ou especializada seja encarregue de fazer uma revisão intercalar. Além disso, a DSEJ vai apresentar um relatório anual sobre a implementação do plano, na reunião do Conselho de Juventude. A consulta pública decorre até 11 de Dezembro.

Quarentena | Isentos residentes de Hong Kong que venham de Macau e Guangdong

Os residentes de Hong Kong que pretendam regressar ao território a partir de Macau e Guangdong passam a estar isentos de quarentena a partir de 23 de Novembro. Um virologista acredita que a medida deixará de ser unidireccional apenas quando Hong Kong conseguir registar 14 dias seguidos sem novos casos de covid-19

 

[dropcap]A[/dropcap] partir do próximo dia 23 de Novembro, os residentes de Hong Kong que pretendam regressar ao território a partir de Macau e Guangdong passam a estar dispensados de realizar quarentena de 14 dias.

Segundo uma nota divulgada ontem pelo Centro de Coordenação de Contingência, a medida é unidirecional, ou seja, pessoas provenientes de Hong Kong com destino Macau, sejam ou não residentes, continuam a ser submetidas a 14 dias de observação médica.

Os residentes de Hong Kong que desejem regressar ao território vizinho a partir de Macau, devem efectuar uma marcação prévia no website do Governo de Hong Kong e apresentar e, após obtida a autorização de isenção, resultado negativo do teste de ácido nucleico realizado até três dias antes de cruzar as fronteiras.

“A região Administrativa Especial de Hong Kong aceita o comprovativo de resultados dos testes realizados nas quatro instituições autorizadas para realizar testes em Macau”, pode ler-se no comunicado, referindo-se aos postos do Fórum Macau, Pac On, Hospital Universitário da MUST e Hospital Kiang Wu.

Sobre a medida, o Centro de Coordenação de Contingência salienta ainda que os resultados dos testes realizados em Macau podem ser convertidos no Código de Saúde de Macau no dia seguinte após a despistagem e que apenas se aplica aos residentes de Hong Kong.

De acordo com a RTHK, estação pública do território vizinho, na semana passada, a Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, terá tentado convencer Han Zheng, membro do Politburo, vice-Primeiro-Ministro e líder do Grupo de Liderança Central dos Assuntos de Hong Kong e Macau, para que a medida fosse aplicada nos dois sentidos. Contudo, antes de actuar as actuais restrições, o responsável terá afirmado que Hong Kong precisa de melhora a situação de epidémica dentro de portas.

Dias melhores virão

Um virologista citado pela RTHK considera que, dado o ressurgimento esporádico de caso locais de covid-19 em Hong Kong, considera que o território terá de registar 14 dias seguidos sem registo de novos casos, para que as medidas de entrada em Macau e Hong Kong possam vir a ser relaxadas.

“Este não é um requisito que não tenhamos sido capazes de alcançar anteriormente. Em Maio e em parte do mês Junho deste ano já o conseguimos fazer”, referiu Leung Chi-chiu, especialista da Associação Médica de Hong Kong.

O mesmo especialista apontou ainda que, na actual fase, “os testes de ácido nucleico não podem substituir as quarentenas” porque existe sempre a possibilidade de o vírus estar em fase de incubação aquando da despistagem, podendo, mais tarde, vir a acusar positivo, após um primeiro resultado negativo.

Também ontem foi anunciado que a partir de 22 de Novembro será iniciada a bolha de viagem entre Hong Kong e Singapura. De acordo com o South China Morning Post, numa primeira fase, o número de pessoas isentas de fazer quarentena nas fronteiras entre os dois territórios, está limitado a 200 lugares.