A reparação cósmica

A ideia de que Deus cria o mundo lendo um livro é da tradição judaica e encontramo-la no Jardim das Delícias, do Bosch, onde, a uma esquina do Terceiro Dia da Criação, se figura um velhito com um livro na mão, pondo em movimento essa gestação do mundo que lhe inspira a leitura da Torá.
Primeiro aspecto simpático: Jeronimus Bosch não ardeu na fogueira por ter representado Deus na sua senilidade, um sinal de tolerância.

E se nos reportarmos aos dias de hoje, às teorias da conspiração e à vileza desse balofo Capitão Gancho de cabelo encardidamente laranja, pode ocorrer-nos a ideia estremecedora de que o livro que Deus lê nesse cantinho de Bosch possa não ser a Torá mas o American Psicho, do Bret Easton Ellis, um retrato da insânia. O que tornaria o legado de Deus uma coisa intolerável.

Contudo, nesta semana, outra notícia me contundiu sobremaneira. Falhos de imaginação os que achavam que Marx, Nietszche e Freud tinham marcado o homem com feridas narcísicas (mesmo que Marx tenha voltado em farsa, na superstição populista de que também os socialistas comem crianças ao pequeno-almoço).

Aquilo que descobri esta semana, põe tudo isto de pantanas. Passo a citar: «O espaço sempre suscitou curiosidade e mistério (…) Os cientistas respondem agora que podem existir 300 milhões planetas potencialmente habitáveis na nossa Via Láctea. E estes mundos não estão assim tão distantes quanto se possa pensar, alguns estão a 30 anos luz.»

Trinta anos luz, é já aqui; trezentos milhões? Uau! A notícia deixa-nos em carne viva, escorchados, a escorrer sangue. Sabíamos que a modernidade começa com uma fogueira, aquela em que arde o corpo de Giordano Bruno, em 1600, mas não supunhamos que a multiplicidade dos mundos que ele defendeu no livro que o perdeu fosse de tal monta.

Esta multiplicidade é fascinante mas reabre o sulco da responsabilidade, sob risco de nos pulverizar a irrelevância. Bom, isto não é tanto um problema para mim como para as cabecinhas que temem a centrifugação simbólica, para quem os profetas têm de ser obrigatoriamente autoritários e mágicos, e para quem Deus escolhe os humanos como cobaias principais, ou é o dealer que fornece as 72 virgens.

Trezentos milhões, mesmo para um Deus não dá folga. A possibilidade de encontrar os dados do jogo esquecidos por um instante na mesa do universo – talvez no encarniçamento da discussão com Einstein, que lhe recriminava a ligeireza de brincar com o aleatório e o incerto – são ínfimas; aumentaram de tal modo as anfractuosidades do mundo que alguma coisa que ficou fora do foco da atenção um milionésimo de segundo pode estar perdido para a eternidade. Por outro lado, as hipóteses para que Deus encontre um mensageiro confiável e eficaz neste labirinto de vozes ilimitadas são reduzidíssimas, e mesmo a Deus, revejo-o agora como a esse velhito do Bosch mas vestido de polícia-sinaleiro numa encruzilhada entre galáxias e praticamente já sem trânsito.

E eis que igualmente o meu querido Shakespeare passa a ter o relevo de uma poda (que ninguém completou) numa videira, em vinha que entretanto secou.

Ah, mas Deus é ubíquo, objectarão alguns. Pois é, mas nós não, e somos nós quem têm de lhe captar a atenção, tal como uma das funções do espelho é apresentar-nos ao infinito.

Para Nietzsche, não nos libertamos de Deus se não nos libertamos da gramática. Em trezentos milhões e mundos habitados essa harmonia pré-determinada será uma mesma ou irradia em sucedâneos agramaticais que fundam diversas regras, milhões? Fica a dúvida, porém, só esta, inibe a simples ideia de usarmos uma sua gramática (qual?) ou de nos afincarmos na sua devida apropriação.

O que nos projecta para o território de uma escolha vital. Encaminhamo-nos para a radicalidade inabarcável do múltiplo, numa liberdade inerente a si e em contínua exterioridade à sua moldura, num fluxo que rompe categorias e delimites, e adquirimos a serenidade no meio dessa insegurança? O que é para raros e obriga a uma vigilância permanente. Ou desenvolvemos uma cegueira redutora, o que acontece a muitos, e queremos decalcar na laminada pele do universo a ilusão das tradições? Trata-se de escolher entre a intranquilidade do incognoscível e a tirania decapitadora.

Chega-me pela primeira vez a impressão de ceder à visão conspiradora dos agnósticos: o Mau Demiurgo faz o universo conspirar contra nós.

Não obstante, julgo que a irrelevância a que estamos submetidos não deve afundar-se ainda mais na estultícia de concedermos relevância a Trump. O político – o direito a pegar na pá e soterrar Trump – ganha aqui o sabor de uma reparação cósmica.

E quem se abstrai disso – chega-me a certeza indubitável – vai para o Inferno ou já vive nele. Como os setenta milhões que votaram em Trump.

A confirmar esta hipótese, astrónomos conseguiram finalmente decifrar um misterioso sinal de rádio repetido no espaço, rastreado há dez anos. E de acordo com a revista científica “Nature”, a suposta origem do sinal chega-nos de mais perto, estranhamente de Tebe, o quarto satélite natural, em termos de distância, de Júpiter, que se assemelha a uma orelha. Este foi descoberto pela Voyager 1 em 5 de março de 1979, e foi baptizado com o nome da ninfa Tebe que na mitologia grega era filha do deus Asop. Há, contudo, quem diga que a mensagem afinal vem do planeta Niburu, que surge sempre por detrás de Júpiter, esse planeta cujos habitantes nos visitam a cada 3.600 anos para, segundo os sumérios, fazer experiências transmitir ensinamentos e fornicar as militantes trumpistas. De qualquer dos modos, diz a estranha mensagem: “…apesar de gostarmos mais da Kamala que do velhote, damos os parabéns a Biden pela vitória nas eleições americanas. O Trump que vá para o Inferno…”

Feminismo? A mim parece-me uma mega reparação cósmica.

11 Nov 2020

Confissões de uma Femininista

Interessante ver como o feminismo continua a ser intensamente discutido, escrutinado e contestado. Nem sequer há um consenso na esquerda. Ser-se feminista nos dias que correm é entendido como um radicalismo – um radicalismo de género. Perceber se isto é verdade ou não, não vai ser amplamente discutido aqui – porque há muitos feminismos, e há muitas formas de perceber as injustiças deste mundo. Vamos partir do princípio que existem formas mais reaccionárias do que outras para tratar deste assunto.

Li um artigo de opinião do New York Times em que discutia a possibilidade de nós, mulheres, podermos odiar os homens – à luz de tudo o que tem acontecido e que tem posto o dedo na ferida da desigualdade de género. Esta desigualdade que é amplamente reconhecida no mundo dito em desenvolvimento, mas que ainda está a ser discutido se será um problema ainda por resolver no mundo ocidental. Será legítimo odiar a condição masculina? Será que nos é dada a possibilidade de odiar o violador, o abusador, a pessoa que carrega os valores do patriarcado para todas as acções da sua vida e odiar também, a ideia de homem em geral, o homem que por nascer com um pénis tem asseguradas as vantagens de uma sociedade que valoriza sobejamente os princípios masculinos?

Tenho visto as vozes mais críticas preocupadas com o ódio. Estas imaginam que o futuro pelo qual as feministas lutam é um futuro exclusivamente feminino, sem espaço para a masculinidade. Onde as mulheres governam o mundo e põe todos os homens num campo de concentração onde seriam todos exterminados. Primeiro: diria que a maioria das feministas não têm esse objectivo, segundo: se de facto for verdade, acho que qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que o ódio pode escalar para coisas como já vimos acontecer na nossa história. Olhem com o que aconteceu com os Judeus e de como uma narrativa de vitimização tem perpetuado o conflito Israelo-Palestiniano. Ou como a Hungria, um país que durante centenas de anos sofreu ocupações violentas e que contou com o apoio humanitário internacional e agora criminaliza quem ajudar os refugiados que chegam ao país. As vítimas podem tornar-se abusadores. O ódio que as mulheres poderão sentir relativamente à condição masculina, pode ser problemática, confesso.

Mas será que a solução é ‘higienizar’ as posições mais reivindicativas? Será que podemos censurar o ódio ou a raiva que se pode sentir? Não acredito que seja assim tão simples. Em Espanha, um grupo de 5 homens violou uma rapariga e oram postos em liberdade mediante o pagamento da módica quantia de 6 mil euros. 6 mil euros não é muito. Como esta ideia enraivece-nos, milhares de pessoas (maioritariamente mulheres) saíram à rua em Espanha para mostrar a sua zanga, a sua consternação. Será que a mostrar ódio também?

Nós só conseguimos transformar a nossa negatividade se formos capazes de enfrentá-la. Isto é um princípio básico na psicoterapia – não podemos simplesmente evitar e censurar as nossas emoções, temos que compreendê-las e reconhecê-las para poder transformá-las. O que não quero dizer com isto que as mulheres e os seus ‘radicalismos’ são um problema – não. Estou simplesmente a justificar que sentir ódio, raiva ou o que quer que seja pode não culminar no genocídio masculino, a importância do ódio vem na necessidade de validar muitas injustiças aos quais as mulheres estiveram sujeitas.

A verdade é que ultimamente tenho medo de me intitular como feminista. Já recebi reacções muito fortes, como se o meu feminismo fosse da mesma qualidade do racismo ou de outra forma de discriminação. Às vezes ouço as queixas com paciência, outras vezes não. Neste caso em particular, sobre o ódio que pode ser sentido (e alastrado) a preocupação é legítima, e percebo que a qualidade de ‘vítima de um mundo de injustiças’ não dá o direito a ninguém a fazerem o que lhes apetece. O ódio pode simplesmente fazer parte do processo, e não o fim em si mesmo. Não concordará o leitor que o feminismo existe porque ainda é necessário, mesmo que na Arábia Saudita as mulheres já possam conduzir? Ando continuamente a surpreender-me com o tom de desaprovação com que muita gente anda a comentar o valor do feminismo. Não acham gritante que o género feminino componha 50 por cento da população mundial, mas é continuamente caracterizado (e tratado) como uma minoria?

4 Jul 2018

A Luta e as Derrotas

A 14 de Março de 2018, no Rio de Janeiro, Marielle Franco foi morta/assassinada/ executada por ser quem era. Perdão, não foi só por ser quem era, mas por lutar por aquilo em que acreditava. Não foi um simples crime de ódio, e isto digo-o com alguma certeza: foi um crime político.

Silenciou-se a voz de uma mulher, negra, feminista e defensora dos direitos humanos. Ao longo de tantos séculos de humanidade e civilização quantas vozes já foram silenciadas? Muitas, demasiadas. Mas desta vez bateu-me forte. Esta era uma voz contemporânea, uma voz com a qual poderia ter-me identificado. Muitas ideias que já partilhei aqui, neste espaço de escrita, vezes sem conta, cairiam no mesmo espectro ideológico. Aquele em que acredita que é precisa a emancipação plena das sexualidades, das raças, e das condições de vida humanas. A luta, que deveria ser de todos, é somente para aqueles que a julgam absolutamente necessária.

Mulheres de todo o mundo, uni-vos! Da China ao Brasil, mostrem a palavra, as vossas ideias de igualdade e a vossa militância pelo fim da injustiça. Na criatividade contínua ou pontual descobrem-se novas formas de irreverência, novas formas de dar visibilidade à dor de muitos. Dar voz aos oprimidos e injustiçados não é somente mostrar como a vida é filha da mãe. Dá-se visibilidade e põe-se em causa as estruturas, permitem-se mudanças – tem-se esperança que a voz de uns possa um dia dar a voz a muitos mais.

Perseverança, resiliência e teimosia são as características obrigatórias para quem quiser alistar-se a este exército. Há a resistência verbal e física, há resistência em forma de balas e de tortura. Não consigo não admirar as muitas pessoas, e muitas mulheres, que deram o corpo e espírito ao manifesto, à causa, qualquer que seja.

Haverão lutas mais dignas que outras? Mais necessárias que outras? Isso já são preciosismos que me ultrapassam. Atrevo-me a celebrar a neta que quis dar voz à avó que era prostituta (obrigada Zhang Lijia), ao J-Bo que antes era a Joana (obrigada por seres o primeiro transexual masculino em Macau) e a todxs xs outrxs que marcam, continuamente, a esfera pública e o nosso imaginário colectivo. Grandes, médios e pequenos gestos que vão semeando mudança. As sementes caiem por entre as pedras calcárias do passeio e, contra todas as expectativas, as plantinhas crescem na adversidade. Nós nem sabemos bem como, mas crescem.

A 14 de Março de 2014, em Beijing, Cao Shunli morreu por ser quem era. Perdão, por lutar por aquilo em que acreditava. Quatro anos e 17310 km que separam duas mortes de mulheres que atreveram mostrar a sua voz. Que raio de coincidência infeliz.

Estas são as derrotas, o que querem que vos diga? Gostava que não acontecessem. Ainda assim vivo iludida de que ‘perder’, não nos desanima nem nos enfraquece. Quanto muito a derrota fortalece ou enraivece, cria massa crítica para mais confronto.

O que é que isto tudo tem que ver com sexo? Tem tudo e nada. Face a estas e tantas outras derrotas – aliás, parece que vivemos num mundo triste, ultimamente – tenho criado o meu espaço de protesto, tenho dado forma à voz do sexo que no fundo poderia ser a voz de tudo o que nos preocupa. Esforço-me por exorcizar os meus demónios nesta tentativa débil de criação, e de resistência.

 

21 Mar 2018

Hong Wai, artista plástica: “Trago a mulher contemporânea em tinta-da-china”

Foi para Paris para fazer um mestrado em arte e não voltou. A artista local Hong Wai usa as técnicas mais tradicionais chinesas para representar a beleza da mulher emancipada e os seus trabalhos andam um pouco por todo o mundo

Como é que apareceu a criação artística?
Sempre gostei de desenhar. Do que me lembro, já desenhava muito quando andava no infantário. No ensino primário passava os meus tempos livres a pintar e os meus colegas começaram a pedir-me alguns trabalhos. Queriam que lhes pintasse os cães, que desenhasse bonecas. Mas as aulas de desenho não me atraiam, eram muito monótonas. Aos 14 anos experimentei ter uma aula de pintura tradicional chinesa e gostei muito. Neste tipo de pintura é preciso conjugar vários factores. Há a incerteza da tinta no papel e os próprios gestos que se fazem com o pincel demonstram a energia e as emoções do artista durante o processo de criação. É uma pintura muito especial. Também tive uma excelente orientação dada pelo professor Ieong Deang Sang. Foi quem me ensinou os princípios da pintura chinesa: a relação entre a tinta e a água, entre o espaço cheio e vazio, entre a parte da luz e da escuridão no desenho. São princípios também filosóficos e que têm que ver com o Livro das Mutações. Fui aprendendo e tive a minha primeira exposição individual em Macau, aos 17 anos. Fui a artista mais nova no território a ter uma exposição individual o que significou muito para mim e acabou por me levar a ganhar confiança no meu talento. Acabei por mudar de opção académica de biologia para arte. Saí do território depois do liceu quando fui para a Universidade Nacional de Taiwan e acabei por seguir os estudos com o mestrado em arte em Paris onde vivo até agora. No início da minha carreira tive algumas pequenas exposições. Em 2013 criei a série “Secret de Boudoir” que foi uma alavanca para o reconhecimento do meu trabalho e foram muitas as galerias interessadas. Foi com esta cooperação com as galerias que acabei por participar em várias feiras de arte internacionais como a “Arte Stage Singapore”, a “Art Taipei” e a “Art Central Hong Kong”. Os meus trabalhos têm também passado por Nova Iorque e por Miami. Depois de “Secret de Boudoir” criei “Feminine Landscape” e “Lumière Nocturne – La Foret”. Neste momento coopero também com várias galerias em Miami, Taiwan, Macao, Paris e posso dizer que sou artista a tempo inteiro.

Estudou arte tradicional e caligrafia. O seu trabalho é conhecido pela mistura que faz destas áreas com o que se pode chamar de arte contemporânea. O que é que vai buscar a cada género?
Na minha abordagem artística, o uso e a interpretação da tinta-da-china é uma jornada diária. Procuro criar novas fronteiras usando técnicas tradicionais antes reservadas aos letrados, à classe intelectual oficial (cuja teoria deriva da dinastia Song), com a minha forma pessoal, feminina e misteriosa. Através do uso de tinta e papel chineses, e de imagens que sugerem fortemente o mundo feminino, questiono o poder masculino. Tradicionalmente, a tinta-da-china era um campo exclusivamente de homens. Foi a classe letrada chinesa que decidiu os temas da pintura com montanhas, rios e paisagens, como representação filosófica da harmonia entre a natureza e o homem. Através da arte, pretendiam ilustrar o país imperial. Estas obras-primas da paisagem pertencem à Colecção Oficial de Arte da China Imperial das Cinco Dinastias e vai até os tempos modernos. Eu, em vez de representar a virtude através da arte ou da moda tradicional chinesa, prefiro expressar e ilustrar a feminilidade com imagens contemporâneas e não convencionais. As minhas paisagens com montanhas e rios transformam-se em lingerie entrelaçada. A ode ao céu e à terra torna-se uma ode ao “yin” sensual, oculto e incontornável.

É tratada pela crítica como a “Fille Mysterieuse” que dá sentido, de alguma forma, ao Taoismo.
Na minha última criação “Feminine Landscapes” o corpo feminino é tratado como se fosse uma paisagem com as suas diferentes camadas. A crítica de arte Myriam Dao classificou este trabalho como “de mulher misteriosa” em que o Taoismo ganha uma forma contemporânea. Penso que Myriam Dao integrou o Taoismo no meu trabalho por causa das imagens femininas desta filosofia. A figura da deusa é uma das personagens principais em muitas histórias taoistas. A diferença mais óbvia entre um deus e uma figura comum está na imortalidade. Os deuses conseguem sempre manter a vida e a juventude. A beleza e juventude são, nos contos taoistas, a grande tentação. Tal como eu, os contos taoistas gastam muita tinta na descrição da beleza imortal das deusas.

É conhecida pela sua abordagem feminista. Como é que a descreve?
A minha perspectiva feminista está próxima do “Lipstick” no século XX.
O chamado feminismo do batom é uma variedade de feminismo de terceira geração que procura abraçar conceitos tradicionais de feminilidade, incluindo o poder sexual das mulheres. Ao contrário das primeiras campanhas feministas que se concentraram nos direitos fundamentais das mulheres, e que começaram pela exigência do direito ao voto, o feminismo do batom procura perceber se as mulheres podem ser feministas sem ignorar ou negar a sua feminilidade, nomeadamente no que respeita à sexualidade. Durante a segunda geração de feminismo, as activistas concentraram-se unicamente na igualdade jurídica e social das mulheres e recusaram-se a “abraçar” a sua sexualidade. Algumas mulheres abominavam a ideia da sua feminilidade e muitas vezes assumiam características físicas masculinas. Queriam distanciar-se da imagem da mulher tida como normal e acabaram por criar uma série de estereótipos associados à imagem do que seria uma feminista. O feminismo do batom, por outro lado, dá importância os conceitos de feminilidade, sexualidade feminina emitida pelo corpo de uma mulher e à necessidade de assumir o sexo. O feminismo do batom também procura recuperar algumas palavras depreciativas e transformá-las em ferramentas de poder feminino. É o caso da palavra “vagabunda” no movimento “SlutWalk”. Esta é uma ideia que se desenvolveu como resposta às ideologias mais radicais do feminismo de segunda geração que deram relevo à “feminista feia” ou “feminista anti-sexo”. No fundo esta terceira geração de feminismo veio adoptar o que a segunda tinha condenado.

O que é que as mulheres escondem, que a Hong Wai revela?
Tradicionalmente, a pintura com tinta da China era apenas reservado aos homens, como já disse. O que tento fazer é “dobrar” esta ideologia masculina neste tipo de pintura. Quero trazer a imagem estereotipada para uma nova fronteira, a mais feminina e escondida. Por exemplo, na pintura tradicional chinesa, “Maids of honour”, está representada a virtude. No meu trabalho “Secret de Boudoir”, não desenho sequer as mulheres não pretendo descrever as virtudes de uma mulher (que de si transporta já para a prestação de um serviço, normalmente a homens), o que faço é um retorno à própria mulher, à sua vida privada, aos seus bens. Faço isso com todo o detalhe, tanto na lingerie, como nos saltos altos, nos perfumes, etc. Trago a mulher contemporânea em tinta-da-china, uma técnica confinada durante séculos aos homens.

Considera-se provocadora?
Sim, e por isso que que o meu trabalho é divertido e tem significado.

O que acha da arte feita em Macau?
Temos bons artistas em Macau que têm de trabalhar muito para viverem das suas criações. Muitos deles estudaram na China Continental e trazem consigo muita energia e surpresa.

Na sua opinião, o que poderia ser feito em Macau para promover mais os artistas locais?
Os artistas precisam de duas coisas: um lugar para trabalhar onde possam criar e que seja acessível e estável e de galerias e colecionadores que promovam e vendam o trabalho feito. Para promover mais os artistas locais, primeiro há que ajudar os criadores a terem um local de trabalho em que não se tenham de preocupar com o aumento das rendas. Em França, por exemplo, há uma lei que protege o inquilino e o aluguer só pode aumentar até cinco por cento por ano durante o contrato. Depois há que promover mais galerias profissionais que tenham as suas redes de coleccionadores que comprem arte local.

Considera que o mundo ocidental está cada vez mais interessado no que é feito no oriente? Porquê?
Sim, sinto o mundo ocidental cada vez mais interessado em arte oriental e o contrário também acontece. Esta era, a da globalização, gera a interdependência das actividades económicas e culturais do mundo. O extremo oriente já não é tão longe, o mundo ocidental quer entender cada vez mais o que lá se passa e a melhor maneira é através da sua arte e cultura.

21 Ago 2017