A Nutrição na Filosofia Chinesa

A nutrição é um dos princípios mais importantes da filosofia chinesa, cruzando a área teórica de encontro à prática científica e à Medicina Tradicional Chinesa. No Clássico da Via e da Virtude (《道德经》), Laozi (老子, 280-233 a.C?) chama a atenção para a necessidade de se encherem as barrigas e esvaziarem as mentes logo no terceiro dos oitenta e um capítulos que compõem a obra, quando declara:

O sábio governa esvaziando os corações, enchendo as barrigas,
fortalece os ossos, enfraquece as ambições.
(是以圣人之治/虚其心/实其腹/弱其志/强其骨/)
(Graça de Abreu, 2013: III).

No entanto, é preciso perceber que esta nutrição, apesar de ser multifacetada, deve ser frugal, porque a frugalidade é, como sabemos, um dos três tesouros que acompanham o sábio ou a pessoa verdadeira taoista (真人 zhen rén). Além disso, no que respeita à alimentação nada como aquela que é fornecida directamente pela Mãe Natureza, em estreita ligação com o Tao (道 Dào), a Mãe do Universo: o sol, a água, o vento, os frutos, as sementes, mas também as paisagens naturais, que elevam o espírito, como a contemplação de um pôr do sol, de um luar, do céu estrelado, do mar numa bela manhã de Primavera ou de Verão, tal como nos é dito pelo filósofo no capítulo vinte num registo confessional:

Sou diferente dos demais,
alimento-me da Mãe do Universo.
(我独异于人/而贵食母)
(Graça de Abreu, 2013: XX)

Na verdade, a nutrição a que o filósofo se refere, na base da concreta e real é muito refinada.
Seguindo esta ordem de ideias, compreendemos bem o que Zhuangzi (庄子, 396- 286 a.C.), o segundo maior filósofo taoista nos pretende transmitir na fábula “A Coruja e a Fénix”, do capítulo dezassete da obra homónima, quando relata o encontro com Huizi (惠子), primeiro-ministro de Liang (梁国 Liáng Guó), depois deste o ter mandado prender, sem sucesso, por temer que ele desejasse roubar-lhe o posto. Ao invés, o próprio filósofo vai ter com ele, contando-lhe a seguinte fábula:

“Conheces um pássaro do Sul de nome fénix? Partiu do Mar do Sul e voou em direcção ao Mar do Norte. Apenas pousou nas árvores sagradas, só comeu rebentos de bambu, bebendo unicamente doce água das fontes celestes. Ao sobrevoar uma coruja que mastigava um rato já decomposto, esta piou de susto ‘Huuu!’: Assim, vós não estareis consternado, piando contra mim por causa do vosso cargo no Reino de Liang? ”
(南方有一种鸟,名叫鵷鶵, 您知道吗?那鵷鶵,从南海出发,向北海飞翔,不是梧桐树它不休息,不是竹子的果实它不吃,不是甜美的泉水它不饮。在这个时候,一只猫头鹰得到一只腐烂了的老鼠,鵷鶵从那里飞过,猫头鹰抬起头望着鵷鶵空了一声:嚇!如今您想用您的梁国的宰相禄位来吓我一声吗?)
(Zhuangzi, XVII. 12).

Para o ponto de vista que desejo defender, a saber, que a nutrição é um princípio fundamental da filosofia chinesa, julgo que é importante considerar a fábula de um modo tão literal quanto possível. Percebe-se que ao nível figurativo, o rato em decomposição representa o cargo do primeiro-ministro e a coruja o próprio Huizi, ao passo que Zhuangzi se identifca com a fénix. No entanto, para o argumento em jogo, não é por acaso que um come rebentos de bambu e o outro um rato já em estado de degradação avançada. Na filosofia chinesa, os nutrientes por que optamos, vão definir não apenas a nossa saúde física como ainda abrir ou fechar as nossas possibilidades mentais. A nutrição não é, portanto, um conceito exclusivamente físico, tem grande importância em termos espirituais, podendo aproximar ou afastar da verdadeira realidade. Assim, há uma permuta constante entre os alimentos espirituais e físicos. A filosofia come-se, um pouco à semelhança do que no outro lado do globo num pequeno país à beira-mar, muitos séculos volvidos, Natália Correia viria a defender mutatis mutandis num verso célebre “Ó Subalimentados do sonho!/ a poesia é para comer”, mas para que seja da melhor, da mais rara, da mais refinada, há que começar pelo corpo e ao nível dos nutrientes mais elementares, com paciência, simplicidade e perícia. Cada um terá que estudar para o seu caso e seu estilo próprios quais os elementos a misturar e em que doses, para obter o efeito filosófico fundamental de misturar os seus elementos primordiais feminino Yin (阴) e masculino Yang (阳) , de modo a equilibrá-los, a fim de entrar em harmonia consigo mesmo e daí com o mundo que o rodeia, inclusive mais além, em ressonância com todo o cosmos. A nutrição, física e espiritual são essenciais para o bem-estar psicossomático das pessoas.
Não têm conta as obras no âmbito da Medicina Tradicional Chinesa dedicadas ao estudo das propriedades constitutivas dos alimentos e seus benefícios para os seres humanos. A título de exemplo, aconselho a leitura de The Art of Long Life. Chinese Foods for Longevity de Henry C. Lu (1996). Uma boa alimentação não deverá ser rica, nem pobre, mas equilibrada, já que cada alimento ingerido poderá danificar ou beneficiar os nossos órgãos, tecidos, fluídos, orifícios, enfim, todo o corpo e mente. Portanto, há que ter em conta os sabores, ao nível micrcósmico, mas também as condições climatéricas e as estações do ano, em termos macrocósmicos. Como nos recordam Cecília Jorge e Beltrão Coelho em Medicina Chinesa, Em Busca do Equilíbrio Perdido (1988) “Particularmente a saúde e a alimentação estão profundamente ligadas, de um modo muito mais íntimo do que em qualquer outra civilização”. (Jorge, Coelho, 1988: 25). Tal implicará uma atenção filosófica voltada para a busca do equilíbrio através da nutrição.
O quinto dos sessenta e quatro hexagramas do Clássico das Mutações, o primeiro de todos os tratados filosóficos chineses, é dedicado à Nutrição (需 xū), como não podia deixar de ser ou a tese aqui defendida não teria fundamento. Este hexagrama também conhecido pelo sugestivo nome de Espera recorda-nos o facto de a nutrição não ter apenas consequências imediatas, mas sim progressivas, que implicam a assimilação e digestão dos nutrientes. No entanto, com a postura certa, quer dizer, sincera perseverante e calma é possível obter boa sorte, seja qual for a aventura em que desejemos embarcar. Quais são os trigramas constituintes da nutrição? Na base encontramos o Céu Criativo (乾 Qián), no topo a Água Abismal (坎 kǎn). Pelo que a imagem do hexagrama nos diz:

“Erguem-se nuvens no Céu:
A imagem da espera
Assim a pessoa superior come e bebe
mantendo-se alegre e de boa disposição”
《象曰: 云上于天,需;君子饮食宴乐。》
Zhang, 84:36

Recordo que quando me debrucei sobre este hexagrama, do ponto de vista literário, escrevi o seguinte poema em Visitações:

Nuvens no Céu
Indicam a chuva e o alimento,
Aguarda-se a Água e o sucesso,
Haverá perigo mas a aventura
é melhor do que o exílio.
A espera atenta e persistente
É a única garantia da futura alegria,
Há ainda a surpresa pelo meio
De poder abraçar o infortúnio.
(Alves, 2022: 134)

Na verdade, o Céu concede a força que permite, com a atitude correcta, ou seja, numa interpretação aconselhada a ser o mais literal possível, que se coma e se beba, o mesmo é dizer, se aguarde pacientemente e com abertura de espírito para que sejam criadas as condições, favorecidas no cultivo da força interior necessária à conversão das nuvens em água benfazeja, nutritiva, diluente dos obstáculos físicos e psíquicos conducentes à realização da obra intelectual, mas também do empreendimento físico, requerido na sua realização.
Só com uma boa e progressiva nutrição, realizada pelos alimentos no tempo e medida certos, poderemos construir a longevidade e até imortalidade, sustentados pela força do poder criativo que transforma o perigo em oportuna fertilidade para a qual as circunstâncias exteriores e alheias à vontade de cada um também contribuem. Resumindo, será preciso confiar em mais do que nós mesmos, quando o princípio da nutrição se torna um valor fundamental de uma filosofia. Há que cultivar a abertura que nos vem da natureza e seus múltiplos nutrientes. Estes começam no pão, arroz, vinho ou chá que levamos à boca, progredindo daí para a luz que nos entra e sai da mente-coração (心xīn) no contacto com os outros e com a natureza. Neste panorama mental, é caso para dizer que consoante os alimentos ingeridos e digeridos assim receberemos as filosofias.

Bibliografia
Alves, Ana Cristina. 2022. Visitações. Fafe: Labirinto.
Correia, Natália. 2006-2022. “A Defesa do Poeta”. Poema e Poesia de Natália Correia. Portal da Literatura. Disponível em: https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=1291, acedido a 20 de novembro de 2022.
Graça de Abreu, António. 2013 (trad.). Laozi. Tao Te Ching. 《道德经》. O Livro da Via e da Virtude. Edição Bilingue. Lisboa: Vega.
Jorge, Cecília, Beltrão Coelho. 1988. Medicina Chinesa, Em Busca do Equilíbrio Perdido. Macau: Instituto Cultural de Macu, Círculo dos Leitores.
Lu, C. Henry. 1996. The Art of Long Life. Chinese Foods for Longevity. Pelanduk Publications.
Merton, Thomas. 1999. A Via de Chuang Tzu. Petrópolis: Editora Vozes.
Wilhelm, Richard (Trad.). 1989. I Ching or the book of changes. London: Arkana, Penguin Books.
張中鐸(編) (Zhang Zhongduo)《易经提要白話解》台南市:大孚,民84.
Zhuangzi (《庄子》). 1999. Vol. I e II Trad para Inglês de Wang Rongpei e para Chinês moderno de Qin Xuqing e Sun Yongchang. Hunan, Beijing: Hunan People’s Publishing House, Foreign Language Press.

Sonho do Pavilhão Vermelho – Capítulo 27

Autores: Cao Xueqin & Gao E
Tradução Nuno Peres

Baochai persegue borboletas até à Pavilhão de Esmeralda Gotejante
Daiyu chora por pétalas caídas ao lado do Túmulo das Flores

Daiyu chorava desconsolada. Nisto, o portão range e ao abrir saem Baochai, acompanhada por Baoyu, Xinren e as outras criadas.
Daiyu tenta aproximar-se de Baoyu para o interpelar, mas acaba por recuar com receio de o embaraçar em frente a tantas pessoas. Então, afasta-se até Baochai sair. Apenas depois de Baoyu e o restante grupo entrarem no pátio e fecharem o portão é que ela decide regressar.
Derrama algumas lágrimas enquanto os seus olhos fitam o portão fechado. De imediato, apercebe-se da futilidade do seu comportamento e regressa ao seu quarto preparando-se apaticamente para dormir.
Zijuan e Xueyan conheciam bem a têmpera de Daiyu: Ela costumava ficar sentada melancolicamente, franzindo a testa ou suspirando por tudo e por nada; ou simplesmente derramava lágrimas sem nenhuma razão aparente.
A princípio, elas haviam tentado confortá-la, julgando que ela tinha saudades dos pais ou de casa, ou que talvez tivesse sido maltratada por alguém.
No entanto, com o passar do tempo, ela continuava a comportar-se assim. Então, habituaram-se e passaram a não lhe prestar mais atenção. Por este motivo, nessa noite, foram-se deitar, deixando-a só na sua melancolia.
Daiyu encostou-se ao balaústre da sua cama e apertou os joelhos nos seus braços. Com os olhos carregados de lágrimas ficou imóvel como uma estátua de madeira ou de argila e não se deitou antes de serem dois geng.
O próximo dia seria o vigésimo sexto do quarto mês do calendário chinês, o Festival de Grão na Espiga. Era costume desde tempos antigos oferecerem-se diversos tipos de presentes e fazer-se uma despedida ao Deus das Flores.
Diziam que o Festival de Grão na Espiga marcava o início do verão, quando murchavam todas as flores e o Deus das Flores deveria abdicar do seu trono e ser deposto.
Como o costume era mais popular entre as mulheres, todas as internas do Jardim da Grande Visão levantaram-se cedo naquele dia.
As raparigas utilizaram flores e vimes para tecer cadeirinhas e cavalos de palha, fizeram galhardetes e bandeiras de seda e gaze. A seguir, amarraram os enfeites que fizeram em todas as árvores e ataram as flores com fitas coloridas, tornando todo o jardim numa chama de cores. Além disso, enfeitaram-se de forma tão graciosa que fizeram corar os pessegueiros e as amendoeiras, inveja às andorinhas e acanhar os rouxinóis.
Mas o tempo impede-nos de descrever aquela esplêndida cena com mais detalhe.
Agora Baochai, Yingchun, Tanchun, Xichun, Li Wan e Xifeng divertiam-se no jardim com a filha de Xifeng, Xiangling e as outras criadas. A única pessoa que não aparecia era Daiyu.
– Porque é que a prima Lin não está aqui? – perguntou Yingchun. – Que rapariga indolente! Ainda estará a dormir?
– Esperem aqui. Vou acordá-la. – disse Baochai quando deixou as suas companheiras e se dirigiu para o Pavilhão de Bambu.
A caminho do Pavilhão, encontrou doze raparigas entre as quais Wenguan. Elas cumprimentaram-na e conversaram durante algum tempo. Apontando para a multidão, Baochai disse:
– Elas estão todas ali. Vocês podem-se juntar a elas. Vou chamar a Menina Lin e já volto. Então, dirigiu-se para o quarto de Daiyu seguindo por um caminho sinuoso.
Quando se aproximou do Pavilhão, viu Baoyu entrar no pátio, o que a fez deter-se. De cabeça baixa, pensou:
Baoyu e Daiyu cresceram juntos desde a infância e não se importam de escarnecer mutuamente ou de mostrar os seus sentimentos um ao outro.
Além disso, Daiyu é bastante ciumenta e mesquinha. Se eu entrar no quarto agora, Baoyu pode sentir-se constrangido e Daiyu pode ficar com ciúmes. É melhor que eu saia.
Voltou a procurar as outras raparigas quando um par de borboletas, cor-de-jade e do tamanho de um leque apareceram à sua frente. As borboletas flutuavam para cima e para baixo, enfeitiçadamente na brisa, o que era muito interessante.
Baochai sentiu vontade de capturá-las. Então, tirou o leque da manga para acertar nas borboletas e seguiu-as até a um ervaçal. Voando para cima e para baixo, às vezes avançando, às vezes recuando, as duas borboletas levaram Baochai a atravessar as flores e os salgueiros até à beira do lago.
Quando se aproximava do Pavilhão da Esmeralda Gotejante, ofegante e suada, Baochai decide desistir e regressar. Só então sente que havia pessoas que conversavam dentro do Pavilhão.
O Pavilhão, no meio do lago, cercado dos quatro lados por corredores cobertos de balaustradas, estava ligado às margens por pontes em zigue-zague.
Baochai deteve-se à entrada do Pavilhão e tentou ouvir o que se dizia.
– Veja este lenço. Se for aquele que você perdeu, guarde-o. Se não for, devolvo-o ao Mestre Yun.”
– É mesmo o meu! Dê-mo.
– Como é que pensa agradecer-me? Você não esperava que fizesse isso em troca de nada, pois não?
– Não se preocupe. Já lhe prometi uma recompensa, não a enganarei.
– Trouxe-lhe o lenço, é natural que você me recompense; mas como é que vai agradecer à pessoa que encontrou o lenço?
– Não diga isso. Ele é um cavalheiro. É natural que devolva as coisas que encontra. Porque terei eu de o recompensar?
– Se não o recompensar, como lhe vou responder? Ele disse-me repetidas vezes que eu não lhe poderia dar o lenço a menos que você lhe oferecesse alguma recompensa.
Houve um curto silêncio e depois uma voz respondeu:
– Está bem. Dê-lhe este objeto meu como recompensa. E se você disser a outros? Tem que fazer um juramento.
– Se eu revelar algo do que se passou a outra pessoa, então que me apareça um furúnculo e morra na miséria.
– Ah! Temo-nos ocupado a conversar. E se alguém nos está a escutar lá fora do Pavilhão? É melhor abrirmos as janelas. Se alguém nos vir, pensará apenas que estamos a cavaquear. Se alguém se aproximar, podemos vê-la e mudar de tema.
Ao ouvir estas palavras, Baochai, pensou surpreendida:
– Não é de admirar o que se diz das pessoas más e desonestas, que são sempre astutas. Quando abrirem as janelas e me virem, decerto ficarão envergonhadas. Além disso, uma das vozes é bastante parecida com a de Honger que trabalha para Baoyu. Ela é presunçosa e uma das criaturas mais estranhas e astutas que conheço. ‘O desespero leva as pessoas a rebelar-se e os cães a saltar um muro.’ Se ela souber que eu descobri o seu segredo, pode-me causar problemas e causar-me algum embaraço. É tarde demais para me esconder. Tenho de pensar numa maneira para evitar que suspeitem de mim, como uma cigarra que se desfaz da sua exúvia.
Ainda não tinha acabado de pensar quando ouviu o ruído de janelas a abrir. Começou imediatamente a correr fazendo os seus passos os mais pesados possíveis.
– Daiyu, onde está escondida? – disse com um sorriso quando se apressou para a frente, de propósito.
Hongyu e Zuier, que tinham acabado de abrir a janela, ficaram pasmadas quando viram Baochai.
Mas Baochai pergunta-lhes alegremente:
– Onde é que vocês esconderam a Menina Lin?
– Menina Lin? Não a vimos. – respondeu Zhuier.
– Vi-a agora mesmo desde o outro lado do lago. Ela estava aqui agachada, a brincar com a água. Tinha pensado em pregar-lhe um susto, mas ela viu-me antes de eu me conseguir aproximar. Correu para o lado leste e desapareceu. Talvez ela esteja escondida dentro do Pavilhão? – disse Baochai quando entrou propositadamente no Pavilhão à procura de Daiyu.
A seguir, saiu do Pavilhão e afastou-se delas, mas antes disse:
– Com certeza que ela está escondida numa gruta entre as rochas. Se uma cobra a morder, ela bem o merece.
Saiu e pensou satisfeita:
Consegui livrar-me desta maçada. Não sei o que elas irão pensar.
Hongyu, de facto, acreditou nas suas palavras. Quando Baochai já estava bastante longe, pegou em Zhuier pelo braço e murmurou:
– Que horror! Se a Menina Lin estivesse aqui, com certeza que tinha ouvido a nossa conversa!
Zhuier ficou silenciosa e nada disse.
– O que devemos fazer? – perguntou Hongyu.
– Mesmo que ela tivesse ouvido alguma coisa, isso não é da conta dela. – respondeu Zhuier. – Cada uma cuida dos seus próprios assuntos.
– Se estivéssemos a falar da Menina Xue, a situação não seria assim tão má. – disse Hongyu. – Mas a Senhorita Lin é mesquinha e gosta de dizer mal das pessoas. Se ela tivesse ouvido a nossa conversa e denunciasse o nosso segredo, o que seria de nós?
A conversa delas acabou por causa da chegada de Wenguan, Xiangling, Siqi e Daishu. Então, começaram a conversar entre elas como se nada tivesse acontecido.
Hongyu viu que Xifeng a chamava desde a encosta. Então, despediu-se das outras raparigas e correu para Xifeng.
– O que posso fazer pela Senhora? – perguntou Hongyu com um sorriso doce.
Xifeng examinou-a minuciosamente e ficou contente pela sua boa aparência e pela sua maneira cordial e agradável de falar.
– Hoje a minha criada não me acompanha. – disse Xifeng com um sorriso. – Mas lembrei-me agora de uma coisa e tenho de mandar alguém fazê-la. Acha que pode transmitir um recado meu de forma correta?
Hongyu sorriu e disse:
– A Senhora pode dizer-me o seu recado. Se eu não conseguir transmitir de forma correta e comprometer esta tarefa a Senhora pode punir-me como desejar.
– Para qual das meninas é que você trabalha? – perguntou Xifeng com um sorriso. Se ela a procurar, poderei explicar-lhe por si.
– Trabalho para o Mestre Bao. – respondeu Hongyu.
Xifeng riu e disse:
– Ah! Trabalha para Baoyu! Então é fácil de explicar. Deixe lá, se ele perguntar, explico-lhe por si. Agora vá à minha casa e diga à sua irmã Ping que ela pode encontrar um pacote com cento e sessenta taéis de prata debaixo da prateleira do prato de porcelana ju que está na mesa da sala exterior. É o pagamento dos bordadores. Quando a esposa de Zhangcai chegar, ela tem que pesar a prata na sua frente antes de você lha dar. Também quero que você faça uma outra coisa. Traga-me a bolsa que está debaixo da almofada na cama do quarto interior.
Despois de receber as ordens, Hongyu dirige-se para a casa de Xifeng. Quando regressa, Xifeng já não estava naquela encosta. Mas viu que Siqi saia de uma caverna e que parou para apertar o seu vestido. Então, Hongyu aproxima-se dela e pergunta:
– Sabe aonde foi a nossa Segunda Senhora?
– Não faço ideia. – respondeu Siqi.
Hongyu olhou em volta e reparou que Tanchun e Baochai estavam à beira do lago a observar os peixes. Então foi lhes perguntar:
– As Meninas sabem aonde foi a nossa Segunda Senhora?”
– Vá procurar no pátio da sua Primeira Senhora. – disse Tanchun.
Então, Hongyu dirigiu-se para o Pátio do Arroz Fragrante. A meio do caminho encontra Qingwen, Qixian, Bihen, Zixiao, Sheyue, Daishu, Juhua e Yinger.
Ao ver Hongyu, Qingwen ralha-lhe:
– Continue a deambular! Não regou as flores do nosso pátio, nem alimentou os pássaros ou acedeu a caldeira do chá. Só sabe deambular e divertir-se por aí fora!
– O nosso Mestre Bao disse ontem que não é preciso regar as flores hoje. Basta regá-las de dois em dois dias. – replicou Hongyu. – Alimentei os pássaros quando a irmã ainda estava a dormir.
“E a caldeira do chá? – perguntou Bihen.
– Hoje não é a minha vez. Então, não perguntem se há chá ou não. – respondeu Hongyu.
– Ouçam o que ela está a dizer! – mofou Yixian. – É melhor que não digamos mais nada e a deixemos continuar a deambular.
– Quem é que disse que eu estou a deambular? A Segunda Senhora mandou-me transmitir um recado e buscar uma bolsa. – replicou Hongyu, quando lhes mostrou a bolsa.
Então, as raparigas deixaram de a repreender e afastaram-se.
– Não é de admirar! – escarneceu Qingwen. – Ela subiu ao ramo mais alto da árvore e agora já não nos dá atenção. A nossa Segunda Senhora apenas lhe dirigiu uma ou duas palavras, não sabia sequer o seu nome e ela já ficou toda cheia de altivez! Olhem a vaidade dela! Transmitir um recado não tem nenhuma importância. Vamos esperar para ver o que vai sair dali! Se ela for assim tão esperta, é melhor que saia deste pátio e fique para sempre naquele ramo alto.
Hongyu não conseguiu encontrar uma maneira adequada para lhe responder. Engolindo o ressentimento, ela continuou a procurar Xifeng. Quando chegou ao quarto de Li Wan, viu que Xifeng e Li Wan estavam a conversar. Hongyu deu um passo em frente e relatou a Xifeng:
– A irmã Ping disse que ela recolheu a prata logo que a Senhora saiu. Quando a esposa de Zhangcai lha foi pedir, ela pesou a prata à sua frente e entregou-lha.- Entregou a bolsa a Xifeng e continuou – A irmã Ping pediu-me para dizer à Senhora que Lai Wang foi há pouco à sua casa pedir as suas instruções antes de partir para a mansão para onde a Senhora o mandou. Ela deu-lhe as instruções conforme as intenções da Senhora.
– Como é que ela transmitiu as minhas intenções? – riu Xifeng.
Hongyu respondeu:
– A irmã Ping disse: A nossa Senhora apresenta os seus melhores cumprimentos à vossa Senhora. O nosso Segundo Mestre não está em casa, por isso, a vossa Senhora não precisa de se preocupar com a demora de alguns dias. Quando a Quinta Senhora melhorar, a nossa Senhora vai visitar a vossa Senhora juntamente com ela. A Quinta Senhora mandou um recado à nossa Senhora, dizendo que a cunhada da nossa Senhora lhe enviou uma carta em que ela apresenta os seus melhores cumprimentos à vossa Senhora e manifestou o seu desejo de pedir duas pílulas de longevidade à cunhada da vossa Senhora. Se a sua cunhada tiver dessas pílulas, a vossa Senhora pode mandá-las para a nossa Senhora. Se alguém for à mansão da cunhada da nossa Senhora, trar-lhas-á.
– Poupe-me! – Li Wan cortou o discurso de Hongyu. – Estou confusa com tantos Senhores e Senhoras.
Xifeng riu e disse:
– É normal que você fique confusa. Existem cinco famílias envolvidas.
Voltou-se para Hongyu e disse:
– Você fez um bom trabalho e transmitiu todas as mensagens de forma correta e clara, não como as outras pessoas que zumbem como mosquitos.
Virou-se para Li Wan e continuou:
– Você sabe, tenho medo de falar com a maioria das criadas, exceto as poucas que ficam sempre ao meu lado. Elas vão prolongar uma frase e cortá-la aos pedaços. Vão falar devagar, balbuciar até e não conseguem transmitir claramente as informações, o que me deixa ansiosa. Antigamente, a minha Pinger também se costumava comportar assim. Perguntei-lhe: Para ser uma beldade, é necessário zumbir como um mosquito? Melhorou o seu comportamento depois de eu ralhar com ela algumas vezes.
Li Wan riu e disse:
– Nem todas as pessoas são mordazes como você.
– Mas gosto desta rapariga. – disse Xifeng. – Embora não tenha falado muito, transmitiu bem as mensagens. – Sorriu para Hongyu e continuou: – Vai começar a trabalhar para mim a partir de amanhã. Vou reconhecê-la como minha filha adotiva. Você vai fazer bons progressos sob a minha orientação.
Ao ouvir as palavras de Xifeng, Hongyu soltou uma gargalhada.
-Porque está a rir? – perguntou Xifeng. – Pensa que não sou muitos anos mais velha do que você e que ainda sou tão jovem que não possa ser sua mãe? Se pensa assim, é porque está muito iludida! Pergunte às outras criadas. Há muitas pessoas cuja idade é muito maior do que a sua que desejam chamar-me de mãe e não as reconheço. Estou a dar-lhe essa honra!
– Não estou a rir por causa disso. – respondeu Hongyu sorrindo. – Estou a rir porque a Senhora se enganou na minha procedência. A minha mãe é sua filha adotiva e agora a Senhora também me pretende reconhecer-me como sua filha adotiva.
– Quem é a sua mãe? – perguntou Xifeng.
– Não sabe quem é esta rapariga? – disse Li Wan com um sorriso. – Ela é a filha de Lin Zhixiao.
– Ah! É a filha dela! – Xifeng ficou bastante surpreendida, então sorriu e continuou: – Não se consegue fazer com que Lin Zhixiao e a sua esposa abram a boca mesmo que os espetem com uma agulha. Tenho dito que eles formam o casal perfeito. Um é surdo e o outro mudo é. Quem imaginaria que iriam criar uma filha tão esperta! Quantos anos tem?
– Dezassete. – respondeu Hongyu.
A seguir, Xifeng perguntou o nome dela.
– Inicialmente, eu chamava-me Hongyu. – respondeu ela. – Agora chamam-me Honger porque o nome do Mestre Bao também tem o caráter ‘yu’ de jade.
Xifeng franziu a testa e abanou cabeça:
– Que desagradável! Todas as pessoas agora querem chamar-se ‘yu’ como se pudessem colher benefícios desse carácter.
Xifeng disse a Li Wan:
– Agora ela pode ficar comigo. Você sabe? Já disse uma vez à sua mãe que a esposa de Lai Da está muito ocupada e não conhece bem as criadas desta mansão. Pedi-lhe que escolhesse um par de raparigas capazes para mim. Ela não escolheu a sua própria filha para ficar comigo e enviou-a para um outro lugar. Será que ela pensou que a rapariga iria sofrer muito se trabalhasse para mim?
– Você é demasiado desconfiada! – Li Wan riu e disse. – Ela já estava a trabalhar aqui quando você lhe fez esse pedido. Como é que pode culpar a mãe dela?
Xifeng disse:
– Amanhã vou falar com Baoyu e pedir que ele procure uma outra criada e que me mande esta rapariga. Não sei se ela mesma quererá trabalhar para mim ou não.
– Não podemos dizer se queremos ou não. – disse Hongyu com um sorriso. – Mas se for trabalhar para a Senhora, posso aprender mais sobre etiqueta e adquirir mais experiência.
Foi naquele momento que uma criada da Senhora Wang veio chamar Xifeng. Então, despediu-se de Li Wan e saiu. E Hongyu regressou ao Pátio do Vermelho Radiante.
Voltamos a Daiyu, que se levantou tarde nesse dia por causa da insónia sofrida na noite passada. Quando ouviu que todas as outras raparigas estavam no jardim a despedir-se do Deus das Flores, apressou-se a lavar-se e pentear-se e saiu do quarto, com receio de ser ridicularizada por causa da sua preguiça. Mal saiu do quarto, viu que Baoyu entrou pelo portão.
– Querida prima, denunciou-me ontem? – perguntou ele com um sorriso. – O meu coração ficou em suspenso durante toda a noite.
Daiyu voltou-se para Zijuan e ordenou:
– Limpe o quarto e depois feche as cortinas de gaze. Se alguma andorinha grande tentar entrar, baixe as cortinas e prenda-as com os leões. E não se esqueça de cobrir o incensório depois de acender o incenso. – disse enquanto ia saindo.
Baoyu pensou que a sua atitude fria se devia às palavras usadas ontem ao meio-dia. Sem saber o que tinha acontecido na noite anterior, ele curvou-se e apertou as duas mãos junto ao peito para manifestar o seu arrependimento. Ainda assim, Daiyu não olhou sequer para ele. Saiu do pátio e foi procurar as outras raparigas.
Baoyu ficou perplexo:
De certeza que não é por causa do que aconteceu ontem. Mas regressei tarde ontem à noite e não a encontrei. Por isso, não há mais nada com que eu a pudesse ter ofendido. – pensava para si enquanto a seguia.
Baochai e Tanchun estavam a apreciar a dança das cegonhas. Quando viram Daiyu, começaram a conversar com ela.
Ao ver Baoyu, Tanchun disse com um sorriso:
– Está tudo bem consigo, irmão Bao? Já não o vejo há três dias.
– Está tudo bem, irmã. – respondeu Baoyu com sorriso. – Perguntei anteontem à nossa cunhada mais velha por si.
– Irmão Bao, venha cá. – disse Tanchun. – Quero conversar consigo.
Baoyu despediu-se de Baichai e Daiyu e acompanhou Tanchun até ao pé de uma romãzeira.
– O nosso pai chamou-o nestes últimos dias? – perguntou Tanchun.
– Não, ele não me tem chamado. – respondeu Baoyu com um sorriso.
– Alguém me disse ontem que ele o chamou.
– Essa pessoa deve ter ouvido mal. Ele não me chamou.
Tanchun sorriu e continuou:
– Consegui poupar uma dúzia de cordões de moedas nestes últimos meses. Quero que os aceite e me compre algumas boas peças de caligrafia e pinturas ou alguns objetos interessantes que conseguir descobrir na próxima vez que sair da mansão.
– Não tenho encontrado nada de interessante nem de refinado durante os meus passeios pela cidade e pelos mercados dos templos. – disse Baoyu. – Nada mais tenho visto do que antiqualhas de ouro, prata, bronze e porcelana, ou coisas como sedas e cetins, guloseimas ou vestimentas.
– Não quero nada dessas coisas! – disse Tanchun. – O que eu quero são coisas como pequenas cestas de vime, ou caixas de incenso de bambu esculpido ou os pequenos fornos de argila que você me comprou na última vez. Adoro esse tipo de coisas delicadas, mas as outras raparigas também gostam muito. Atiram-se a essas coisas como se fossem tesouros.
– Você quer essas coisas. – gargalhou Baoyu. – São baratas. Dê aí umas quinhentas moedas aos criados que eles lhe enchem duas carruagens com esse tipo de coisas.
– Os criados não têm gosto para apreciar essas coisas. – respondeu Tanchun. – Você compre-me coisas simples, mas que não sejam banais, originais, mas que não sejam grosseiras. Vou fazer-lhe um outro par de sapatos. Vou fazê-los com mais primor do que da última vez. Pode ser?
Baoyu riu e disse:
– Por falar em sapatos, lembro-me de que encontrei o nosso pai enquanto usava os sapatos que você me fez. Ele perguntou desgostoso quem os tinha feito. Tive medo de dizer que tinha sido você. Então, disse-lhe que foram um presente da Tia Wang pelo meu aniversário. Ao ouvir isso, ele não pôde fazer mais comentários. Mas depois de um silêncio, ele disse: “Não valia a pena! Que desperdício de tempo, energia e seda!” Quando regressei ao quarto, falei com a Xiren e ela disse-me: “Isso não é nada. Mas a concubina Zhao tem-se queixado irritada: O próprio irmão mais velho dela usa sapatos e meias furadas e ela nem quer saber. Mas faz sapatos para o Baoyu.”
Tanchun ficou arreliada e disse:
– Que absurda que ela é! Ela acha que o meu trabalho é fazer sapatos? Huan não tem roupas, sapatos e meias que cheguem? Além disso, ele também tem muitas criadas que lhe podem fazer sapatos. Do que é que ela se pode queixar? A quem é que ela se tem queixado? Se eu fizer um par de sapatos no meu tempo livre, posso dá-los a quem quiser. Ninguém tem o direito de interferir nas minhas escolhas! Ela irritou-se por isso? É louca!
Baoyu acenou com a cabeça e disse com um sorriso:
– Você não sabe já? É natural que ela pense de uma maneira diferente.
Ao ouvir isso, Tanchun ficou ainda mais abespinhada. Virou de repente a cabeça e disse:
– Você ficou louco também? Decerto que ela pensa nas coisas de uma maneira diferente, de uma maneira dissimulada e insidiosa. Ela pode continuar a pensar dessa forma que eu não me importo. Só ouço as palavras do nosso pai e da sua esposa e não me preocupo com o que os outros dizem sobre mim. Se os irmãos e as irmãs me tratarem bem, vou tratá-los bem sem pensar se ele ou ela é filho de uma esposa ou de uma concubina. Na verdade, eu não devia estar com esta conversa, mas ela é demasiado absurda! Vou contar-lhe uma outra história ridícula. Dois dias depois de eu lhe dar o dinheiro para que você me comprasse coisas para me distrair, fui cumprimentá-la e ela queixou-se da sua falta de dinheiro e das suas dificuldades. Não lhe prestei atenção. No entanto, quando todas as criadas saíram do quarto, ela começou a criticar-me e perguntou-me porque é que lhe dei o dinheiro que eu tinha poupado em vez de o dar a Huan. Ao ouvir isso, não sabia se havia de rir ou de chorar. Então, despedi-me dela e fui até ao quarto da nossa Senhora.
Tanchun ainda estava a falar quando Baochai a interrompeu de longe com as suas palavras sorridentes:
– Ainda não acabaram a vossa conversa? Venham cá. Vê-se mesmo que vocês são irmãos. Deixaram os outros e foram falar sobre os vossos assuntos privados. Não conseguimos ouvir nem perceber uma única palavra da vossa conversa!
Tanchun e Baoyu sorriram e foram-se juntar a ela.
Daiyu tinha saído e Baoyu soube que ela se estava a esconder dele. Ele decidiu esperar alguns dias e aproximar-se dela depois de a sua disposição ter melhorado. Quando baixou a cabeça, viu que o chão estava coberto de flores caídas incluindo pétalas de beijo-de-frade e de flores de romãzeira.
– Ela está tão zangada que nem sequer recolhe as flores caídas no chão. – suspirou Baoyu. – Vou trazer estas flores comigo e tentar falar com ela amanhã.
Baochai convida-os para darem um passeio.
– Vou-me juntar a vocês depois. – disse Baoyu.
Quando Baochai e Tanchun se afastaram, ele recolheu as flores nas suas vestes. Atravessou uma pequena colina, depois um riacho, passou por entre árvores e flores e dirigiu-se para o sítio onde havia enterrado com Daiyu as flores de pessegueiro caídas. Quando chegou ao túmulo das flores e antes de cortar rumo à colina, ouviu o som de soluços que vinham do outro lado da encosta. Era alguém que se lamentava e soluçava, como se tivesse o coração despedaçado.
Deve ser alguma criada que foi maltratada e veio para aqui chorar. – pensou Baoyu. Para quem é que ela trabalhará?
Parou para ouvir a rapariga que murmurejava em gemidos:

Caindo e voando, as flores enchem o céu,
Quem lamentará as cores que desbotam e o perfume que se esvai?
Suavemente, teias de aranha flutuam entre pavilhões primaveris,
Gentis penugens de salgueiro colam-se às cortinas bordejadas.

Suspira a rapariga na sua câmara pelo fim da primavera,
A melancolia enche-lhe o coração.
Sai da alcova de enxada na mão,
Contendo-se em pisar as flores caídas no chão.

Salgueiros e olmos viçosos, verdejantes
Ignoram se são flores de ameixeira ou de pessegueiro que o vento carrega.
As ameixeiras e os pessegueiros voltarão a florescer,
Mas quem restará no quarto na próxima primavera?

No terceiro mês tecem-se ninhos perfumados,
Mas as andorinhas no telhado são cruéis.
Na próxima florescência, voltarão a bicar pétalas,
Os ninhos cairão do telhado e o quarto estará vazio.

Trezentos e sessenta dias por ano,
Ameaçada sem clemência por sabres de vento e adagas de gelo.
Quanto tempo se manterá esta flor fresca e bela?
Soprada pelo vento, irá tombar e desmanchar-se sem encontrar o seu destino.

Caídas, as flores mais viçosas são difíceis de encontrar,
Tristonha, a coveira das flores de pé junto aos degraus.
Sozinha, de enxada na mão, disfarça as suas lágrimas,
Que resvalam pelos galhos vazios como um orvalho de sangue.

Cucos em silêncio ao anoitecer.
Regressa com a enxada e cerra as portas.
Uma candeia a óleo alumia a parede, ainda mal adormeceu,
A chuva fria começa a bater na janela, o cobertor está ainda frio.

O que causou esta minha dupla angústia?
O amor e o despeito à primavera
Porque num repente vem e de repente se vai,
Chega sem aviso e parte sem rumor.

Ontem à noite, do pátio surgia uma canção triste,
Foi o espírito das flores, ou o espírito dos pássaros?
Difícil é conter o espírito das flores ou dos pássaros,
Porque os pássaros não falam e as flores acanham-se.

Anseio por ter asas e flutuar
Com as flores até ao fim do mundo.
Mas mesmo no fim do mundo,
Encontrarei eu uma encosta para sepultar as flores perfumadas?

Melhor será recolher as formosas pétalas numa bolsa de seda,
E enterrar a sua beleza com terra limpa.
Vieste pura e pura partirás,
Sem cair em valas ou suja de lama.

Agora finadas, irei enterrá-las,
Não se sabe o dia em que partirei.
Riem da minha loucura por enterrar flores caídas,
Mas quem me irá sepultar quando morrer?

Vejam, a primavera que finda com as flores que caem,
A beleza que desbota e se desvanece.
Quando a primavera acaba e a beleza murcha,
Quem saberá das flores caídas e da rapariga morta?

Ao ouvir o lamento triste da rapariga, Baoyu desaba numa enorme comoção.
Se o nosso leitor quiser saber mais pormenores sobre esta estória, leia por favor o próximo capítulo.

Charles Michel vai a Pequim encontrar-se com Xi Jinping

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O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, vai deslocar-se a Pequim no dia 1 de Dezembro para um encontro com o Presidente chinês, Xi Jinping, disse uma autoridade europeia à Agência France Presse (AFP). Esta reunião ocorre num contexto de intensas discussões entre os europeus sobre como se devem posicionar em relação à China, além das crescentes tensões entre Washington e Pequim.

Charles Michel tem de lidar, por um lado, com um país como a Alemanha, que tem importantes interesses económicos na China, e outros Estados-Membros como a Lituânia, que atraiu a ira de Pequim ao estabelecer ligações com Taiwan, considerado pela China como parte integrante do seu território.

A 12 de Novembro, em Phnom Penh, poucos dias antes da cimeira do G20, durante a qual Xi Jinping se encontrou com o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, Charles Michel pediu a Pequim que convencesse a Rússia a respeitar o direito internacional na Ucrânia.

“Encorajamos as autoridades chinesas a usar todos os meios à sua disposição para convencer a Rússia a respeitar as fronteiras internacionalmente reconhecidas, a respeitar a soberania da Ucrânia”, disse o líder, em declarações à AFP.

Intervenção preventiva

Também neste mês, num incidente que ilustra as tensões entre Bruxelas e Pequim, a transmissão de um discurso de Charles Michel, agendado para a inauguração de uma feira em Xangai, foi cancelado. Um diplomata especificou que as autoridades chinesas queriam evitar no discurso todas as referências à guerra na Ucrânia. Um assunto delicado na China, que quer ser oficialmente neutra, mas continua a ser um aliado estratégico de peso da Rússia.

A União Europeia considera a China um “parceiro, concorrente económico e rival sistémico”, segundo a formulação adoptada em 2019. Os laços comerciais continuam fortes entre os dois. Um dos exemplos é a Alemanha, cujo chanceler Olaf Scholz foi o primeiro líder do G7 a visitar a China – no final de Outubro – desde o início da pandemia.

Correr em círculos

Segundo informação disponibilizada online, o recorde mundial dos 1000 metros é de 2 minutos e 11,96 segundos. Os estudantes do secundário, em média, percorrem esta distância em 4 minutos e 30 segundos e um homem normal precisa de 3 a 5 minutos para completar a prova. Os 1000 metros são uma corrida de média distância, que pode ser efectuada em pista ou em campo aberto e que não apresenta dificuldades de maior.

No entanto, se a pista onde se realiza a competição for circular, sem demarcação da meta, e o atleta estiver a fazer o mesmo percurso há 3 anos consecutivos, acredito que ficará numa situação intolerável, apesar de toda a assistência que possa receber e do descanso de que possa desfrutar.

Ao ser atingida pela pandemia de Covid-19, Macau aderiu de alma e coração à política da “meta dinâmica de infecção zero” para permanecer com sucesso como uma região de baixo risco. Mas, lamentavelmente, o verso da medalha da bem-sucedida prevenção da epidemia é o declínio económico que a cidade está a sofrer.

A economia de Macau está virada para o exterior, sendo os turistas o seu principal impulso, particularmente jogadores vindos de fora, o que contribuiu em grande medida para alimentar as receitas do Governo de Macau provenientes da taxação sobre o jogo.

Contudo, a queda abrupta do número de turistas que visitam Macau, motivada pela pandemia, associada à revisão da legislação criminal chinesa, fizeram com que o negócio das salas VIP das concessionárias de jogo e dos promotores de jogo licenciados ao exercício da actividade de promoção de jogos de fortuna ou azar em casino tenha decaído significativamente.

Será um milagre se receita bruta dos jogos de fortuna ou azar de 2022 vier a atingir os 50 mil milhões de patacas no final do ano. Não fora a reserva financeira deixada pelos dois últimos mandatos do Governo de Macau, e a cidade viveria hoje um período caótico. Mesmo assim, a sociedade de Macau está cheia de ressentimentos e invadida por maus presságios.

Mas não é impossível Macau sair desta enfadonha corrida da pista circular dos 1000 metros. O segredo é encontrar alguém que pense na maneira de sair da pista. O Relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2023 contém apenas 115 páginas, o que representa cerca de metade do seu homónimo de 2022 (242 páginas).

O tema do Relatório das LAG para o Ano Financeiro de 2023 é “Conjugação de esforços, Avanço com estabilidade” ao passo que o de 2022 era “Congregação de vontades e esforços e co-criação de um novo cenário”, que ilustra plenamente a abordagem pragmática adoptada pelo actual Governo da RAE em relação a 2023.

No entanto, o trabalho árduo nem sempre resulta em sucesso, e se for usada a abordagem errada, os efeitos desejados não serão atingidos. Sem pessoal executivo competente, sem mecanismos de discussão de ideias e sem o exercício da sabedoria colectiva, o fracasso está destinado a acontecer mais cedo ou mais tarde.

Para sair da pista circular dos 1000 metros, é preciso em primeiro lugar optar pelo pensamento criativo. Existe um texto famoso escrito durate a Dinastia Song intitulado “Ai Lian Shuo” (Ode à Flor de Lótus), que ilustra a libertação do pensamento convencional através da faísca da novidade.

O autor tece grandes elogios à flor de lótus por ser capaz de crescer na lama, sem se deixar manchar pela sujidade e mantendo a sua pureza e a sua fragância. Durante muito tempo, as pessoas elogiavam a flor de lótus pela sua elegância e pela sua beleza, ignorando o lodo que fornece nutrientes para que cresça e desabroche. Ninguém pensou se a flor de lótus continuaria a crescer se o lodo fosse substituído por areia.

O autor pode ter usado a flor de lótus para ilustrar a sua admiração pelos homens de letras que não se deixavam influenciar pelo mundo secular nem se deixavam sujar pelo lodo. No entanto, as pessoas que não exercem o pensamento crítico acabam por ficar presas no padrão do “pensamento a preto e branco”.

É previsível que o recentemente apresentado Relatório das Linhas de Acção Governativa para 2023 e o subsequente debate das linhas de acção sectoriais, não tragam surpresas à Assembleia Legislativa nem à sociedade regida pelo princípio “Macau governado por patriotas”. Por detrás do pano de fundo de harmonia colectiva, os problemas sociais ocultos só se podem agravar com o tempo.

É só uma questão de tempo até conseguirmos sair da fastidiosa corrida à volta da pista circular, mas ainda não sabemos o preço que teremos de pagar.

CCCM | Oficina “Histórias Chinesas com Pensamento” destinada a jovens

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O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, promove, nos dias 20 e 21 de Dezembro, uma oficina destinada a crianças e jovens dos oito aos 16 anos, intitulada “Histórias Chinesas com Pensamento”. As sessões abordam temáticas como “mitos cosmológicos chineses – Pangu, Nuwa e a tradição da corte celeste”, “As três tradições filosóficas através dos textos de quatro amigos-guias – Mêncio, Zhuangzi, Huainanzi, Hanfeizi e a estrutura do mundo” ou “Filosofia proverbial chinesa”, entre outros.

Com esta iniciativa, o CCCM pretende promover “a descoberta da tradição cultural chinesa através dos mitos e seus ideogramas”, “proporcionando um primeiro contacto com filosofias chinesas para crianças e jovens, centrando na narrativa de fábulas, parábolas e pequenas histórias que os filósofos chineses têm contado aos jovens ao longo da sua tradição filosófica, ilustradas por material audiovisual”.

Desta forma, “as teorias são apresentadas de uma forma acessível e espontânea, com uma forte componente prática e criativa, dando a conhecer as histórias através da caligrafia chinesa, que os participantes serão convidados a executar, absorvendo-as por meio da comparação de mitos chineses com os da sua própria tradição cultural”.

A oficina será ministrada por Ana Cristina Alves, doutora em Filosofia da História, Cultura e Religião pela Universidade de Lisboa desde 2005, com especialização na China, e coordenadora do sector educativo e da área de tradução chinês-português do CCCM.

Colabora ainda neste projecto Lisa Spinelli, bolseira de doutoramento na área da antropologia, sendo a sua área de especialização a diversidade da espiritualidade e cultura popular chinesa, expressas através de mitos, contos e formas artísticas, com maior enfoque nos grupos étnicos chineses.

Religião | Lançada versão portuguesa de “Evangelho Diário para Jovens 2023”

Será hoje apresentado, no Centro Diocesano Juvenil, a versão portuguesa do “Evangelho Diário para Jovens 2023”, coordenada pelo padre Daniel Ribeiro. A obra nasce da iniciativa da Congregação dos Padres Claritianos e já existe em chinês e inglês. Daniel Ribeiro afirma que a versão em português dá resposta a uma comunidade religiosa cada vez mais reduzida

 

Chama-se “Evangelho Diário para Jovens 2023” e é a versão portuguesa de um livro já editado pela Congregação dos Padres Claritianos, em inglês e chinês, e que é lançado hoje, às 18h45 no Centro Diocesano Juvenil. A obra, elaborada por quatro leigos e coordenada pelo padre Daniel Ribeiro, pretende transmitir aos mais jovens, numa linguagem simples, os evangelhos da Bíblia.

“É um texto para crianças para que haja uma maior proximidade com a Bíblia. Todos os dias a Igreja tem um evangelho diferente que é lido na missa, então o objectivo era pegar nisso e traduzir os textos do evangelho numa linguagem simples, acrescentando uma simples explicação e algumas perguntas para ajudar a reflexão. Há ainda uma tarefa e uma reza para a pessoa fazer. Há um texto diferente para cada dia do ano.”

Na visão do padre Daniel Ribeiro, esta edição acontece numa altura particularmente especial para a comunidade portuguesa. “Existe um número grande de estrangeiros que deixou Macau, com maior destaque para os portugueses. Temos brasileiros e portugueses, então a comunidade portuguesa é cada vez mais estrangeira, isto desde 1999. Agora diminuiu mais ainda. A comunidade precisa de se organizar mais e ser mais sólida, caso contrário vamos ter dificuldades em continuar os trabalhos que vínhamos fazendo. Este texto tem como objectivo fortalecer os católicos de língua portuguesa que estão em Macau e ajudar a desenvolver a sua identidade como católicos e cristãos.”

Menos na catequese

As mudanças que a comunidade portuguesa enfrenta notam-se desde logo na catequese. Actualmente, há dois serviços de catequese em língua portuguesa, na Sé Catedral, com 75 crianças, e na Igreja da Nossa Senhora do Carmo, com 60 crianças. No caso da Sé, houve uma redução de cerca de dez por cento no número de crianças portuguesas.

No entanto, a tendência é de que mais crianças chinesas frequentem este serviço religioso para aprenderem o português. “Temos alguns chineses colocados pelos pais na catequese que desejam que eles aprendam português. A língua portuguesa está estabilizada e não vejo uma tendência de mudança. Na Escola Portuguesa de Macau acontece o mesmo, já cerca de metade dos alunos não são portugueses. Há muitos locais que querem aprender a língua. O português é como uma mais-valia, e a catequese é muito procurada por causa disso.”

Com este cenário, Daniel Ribeiro não tem dúvidas de que um dos maiores desafios no trabalho religioso é a ausência de portugueses no trabalho do dia-a-dia, além das celebrações habituais como o Natal ou Páscoa.
Há ainda “um número considerável de portugueses, de África, Brasil e Portugal, que deixaram Macau”, sendo necessários mais portugueses para fazerem “actividades pastorais, como o serviço de catequese ou visitas aos hospitais”.

Foxconn | Fábrica palco de protestos oferece 1.340 euros aos operários

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A maior fábrica de iPhone do mundo, situada no centro da China, ofereceu ontem 10.000 yuans aos funcionários recém-contratados que optem por deixar as instalações, após protestos que resultaram em confrontos violentos com a polícia.

A administração do grupo Foxconn, que monta produtos electrónicos para muitas marcas internacionais, incluindo a norte-americana Apple, propôs o plano de pagamento aos operários, pedindo-lhes que voltem para os dormitórios, de acordo com o jornal britânico Financial Times.

A medida visa pôr fim aos protestos que culminaram em confrontos violentos com agentes de segurança. Os trabalhadores arremessaram barras de metal contra agentes da polícia e envolveram-se em cenas de pancadaria, depois de a empresa ter imposto um regime de trabalho em ‘circuito fechado’, proibindo-os de abandonar as instalações, e revisto as condições salariais.

O pagamento visa compensar os trabalhadores recém-contratados pela despesa com a deslocação até à fábrica e as horas trabalhadas. Aqueles que aceitarem o acordo vão receber 8.000 yuans após apresentarem demissão. Os restantes 2.000 yuans vão ser pagos após partirem nos autocarros para casa.

A Foxconn ofereceu salários mais altos para atrair trabalhadores, depois de um êxodo de operários, no último do mês, provocado pelo bloqueio das instalações, na sequência de um surto de covid-19. Os funcionários, que viajaram longas distâncias para trabalhar na fábrica, reclamaram que a empresa mudou posteriormente os termos de pagamento.

O anúncio original prometia 25.000 yuans por dois meses de trabalho, mas, após chegarem à empresa, os funcionários foram informados que teriam que trabalhar dois meses extras com salários mais baixos para receber aquele montante. A Foxconn pediu desculpas pela “falta de comunicação”, prometendo que vai honrar os seus compromissos.

China | Anunciadas linhas de crédito de milhares de milhões para construtoras

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Vários bancos estatais chineses anunciaram ontem acordos para oferecer linhas de crédito a algumas das maiores construtoras do país, num montante de pelo menos 220.000 milhões de yuans, informou a imprensa local. Os anúncios surgem poucos dias depois de o Governo chinês ter divulgado um plano com 16 medidas de apoio ao fragilizado sector imobiliário e de o banco central e o regulador bancário da China terem reunido com as principais entidades do país para discutir mecanismos de financiamento para as construtoras em dificuldade.

O Banco de Comunicações (Bocom) anunciou uma linha de crédito no valor de 100.000 milhões de yuans, para o segundo maior grupo de imobiliário da China, a Vanke, e outra de 20.000 milhões de yuans para a Midea Real Estate.

A Vanke assinou ainda um acordo com o Banco da China, que também lhe concederá 100.000 milhões de yuans.
O Banco Agrícola da China (ABC) anunciou outro acordo de cooperação com várias construtoras (China Overseas, China Resources Land, Longfor Group, Gemdale e, novamente, Vanke), embora não tenha especificado os montantes que vai disponibilizar.

Segundo a agência noticiosa Bloomberg, o maior banco do país, o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), vai disponibilizar um plano de crédito de “dezenas de milhares de milhões”, antes do fim de semana, para os grupos Country Garden e Longfor.

A mesma fonte informou que o último dos cinco grandes bancos estatais chineses, o Banco de Construção da China (CCB), ainda não anunciou qualquer acordo, mas já em Setembro criou um fundo de 30 mil milhões de yuans, para comprar propriedades às construtoras.

Muda de rumo

Devido à falta de liquidez, alguns grupos suspenderam os trabalhos de construção de milhares de condomínios em todo o país. Em protesto, um número crescente de proprietários que adquiriu os imóveis em regime pré-venda recusou pagar as prestações mensais, ameaçando agravar a crise de liquidez.

As medidas divulgadas por Pequim “garantem” a conclusão dos imóveis e direccionam os bancos a conceder “empréstimos especiais” para atingir esse fim, segundo a directiva. Essa decisão reflecte uma “viragem” na postura das autoridades, desde que em 2020 decidiram restringir o acesso das construtoras ao crédito.

China| Número recorde de casos e mais confinamentos decretados

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O número de casos diários de covid-19 atingiu ontem um novo recorde na China, informaram as autoridades, numa altura em que voltam a impor rígidas medidas de prevenção, no âmbito da estratégia ‘zero casos’.
A China registou 31.444 novos casos entre terça e quarta-feira, entre os quais 27.517 são assintomáticos, informou o Ministério da Saúde.

Estes números são maiores do que as 29.317 infecções registadas em meados de Abril, quando Xangai – a terceira cidade mais populosa do mundo – impôs um confinamento. Esta semana, as autoridades relataram também as primeiras mortes por covid-19 na China em seis meses, elevando o total para 5.232.

A estratégia de ‘zero casos’ inclui o confinamento de cidades inteiras, obrigatoriedade de apresentar um teste negativo para o novo coronavírus para aceder a espaços públicos e o isolamento de todos os casos positivos e respectivos contactos directos em instalações designadas. A China mantém, também, as fronteiras praticamente encerradas desde Março de 2020.

Restrição máxima

Pequim enfrenta o pior surto desde o início da pandemia. Dezenas de edifícios residenciais foram confinados, as escolas encerradas e as empresas pediram aos funcionários que trabalhem a partir de casa. A capital chinesa anunciou cerca de 1.500 novos casos positivos (a grande maioria assintomática), entre os seus 22 milhões de habitantes. A cidade abriu, esta semana, um hospital improvisado, num centro de exposições, e suspendeu o acesso à Universidade de Estudos Internacionais de Pequim, depois de ter detectado um caso no ‘campus’.

Na cidade de Zhengzhou, província de Henan, um total de 6,6 milhões de residentes foram instruídos a ficar em casa nos próximos cinco dias, podendo sair apenas para comprar comida ou receber tratamento médico. Testes diários em massa foram ordenados, como parte do que o governo da cidade designou de “guerra de aniquilação” do vírus.

Empresas e comunidades residenciais em Cantão, um importante centro industrial situado na província de Guangdong, foram também colocadas sob várias formas de bloqueio, medidas que afectam particularmente os trabalhadores migrantes. Em muitos casos, os moradores dizem que as restrições vão além do permitido pelas directrizes nacionais.

Cantão suspendeu na segunda-feira o acesso ao distrito de Baiyun, de 3,7 milhões de habitantes, enquanto residentes de algumas áreas de Shijiazhuang, uma cidade com 11 milhões de pessoas a sudoeste de Pequim, foram instruídos a ficar em casa enquanto são realizados testes em massa.

Covid-19 | Testagem a toda a população descartada

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Todos os testes realizados nas zonas por onde passou uma turista infectada no fim-de-semana passado deram negativo. Ao longo de cinco dias e quatro recolhas de amostras, foram realizados cerca de 400.000 testes, informou ontem o Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus.

As autoridades indicaram ontem que na quarta-feira foram recolhidas “98.141 amostras de pessoas nas zonas-alvo e nos postos regulares de testes de ácido nucleico, tendo todos os resultados sido negativos”, no dia que fechou o ciclo de “4 testes em 5 dias”. Recorde-se que a medida foi implementada em zonas da cidade por onde passou uma turista do Interior da China, com 60 anos de idade, que testou positivo no sábado passado.

O centro de coordenação de contingência sublinhou que os indivíduos alvo que não fizeram os quatro testes de ácido nucleico durante os cinco dias que terminaram na quarta-feira vão ficar com o código de saúde amarelo. A falta pode resultar na recusa “de entrada em estabelecimentos públicos, a utilização de transportes públicos, bem como a saída da RAEM”.

Entretanto, ontem realizou-se uma testagem em massa a toda a população e trabalhadores da zona de cooperação aprofundada em Hengqin. As amostras foram recolhidas entre as 11h e as 18h, em 20 postos de recolha, e tiveram como alvos os residentes permanentes e visitantes que trabalham na Ilha da Montanha.

Covid-19 | Medidas de circulação na fronteira mais apertadas

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O Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus apela aos residentes para que evitem deslocar-se às cidades de Zhuhai e Zhongshan devido aos surtos de covid-19. Testes rápidos passam a ser obrigatórios para quem atravessa diariamente a fronteira

 

Face aos diversos surtos activos de covid-19 nas cidades de Zhuhai, Zhongshan e Cantão, o Governo passou a desaconselhar deslocações, a não ser quando estritamente necessárias. As novas recomendações foram publicadas ontem pelo Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus.

“Tendo em consideração a evolução epidemiológica mais actualizada na Cidade de Zhuhai e na Cidade de Zhongshan da Província de Cantão”, o centro passou a pedir aos residentes que quando não for necessário “não se desloquem às regiões onde ocorre a epidemia”, de acordo com o comunicado de ontem.

No entanto, para os que se deslocam “entre Macau e Zhuhai com frequência” é pedido que utilizem sempre máscaras KN95 ou com padrões equivalentes, principalmente “quando apanham de autocarros públicos ou realizam actividades em locais com aglomerações de pessoas”.

Além disso, as autoridades pedem que as pessoas nunca deixem de utilizar as máscaras no outro lado da fronteira e tapem sempre o nariz com a máscara, para evitarem contágios.

Em relação ao consumo de tabaco, o comunicado especifica que “os fumadores devem fumar em locais isolados” e não devem fumar “ao caminhar”.

Foi ainda pedido que as pessoas realizem apenas deslocações entre o local de trabalho e a residência, num movimento que o comunicado do centro, num português incompreensível, define como “dar um ponto a ponto na deslocação”.

Testes rápidos

Também desde ontem, “as escolas do ensino não superior e instituições de ensino superior devem exigir que os alunos que vivem em Zhuhai e Zhongshan sejam submetidos a um teste rápido de antigénio”. O teste tem de ser feito diariamente, antes de os alunos saírem de casa e os resultados devem ser carregados na plataforma online.

Embora Macau não tenha jurisdição em Zhuhai nem em Zhongshan, o centro afirma que os alunos no Interior “só podem sair da residência desde que o resultado seja negativo”.

A distribuição dos kits com os testes rápidos vai ser feita pela Direcção de Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEJ), e é gratuita para os alunos do ensino não superior. Aqueles que frequentem o ensino superior têm de pagar.

Já no que diz respeito às empresas, foram adoptadas recomendações semelhantes para os trabalhadores que atravessam diariamente a fronteira, mas os testes têm de ser adquiridos e pagos pelas empresas.

DSAT | Espera reduzida para inspecção de veículos

DR

A Direcção de Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) anunciou ter tomado medidas, com recursos a equipamentos electrónicos, para reduzir a espera nos centros de inspecção.

Segundo a DSAT, no Centro de Inspecções de Veículos, no Cotai, o tempo médio de espera por veículo foi reduzido de 51 minutos, registado entre Janeiro e Outubro do ano passado, para 21 minutos, entre Janeiro e Outubro deste ano.

Em relação ao Centro de Inspecção de Automóveis, em Macau, a espera média é agora de 19 minutos, quando no ano passado era de 21 minutos. No Centro de Inspecção de Automóveis, em Macau não houve qualquer veículo a ter de esperar mais de duas horas para ser inspeccionado, quando no ano passado tinha havido um.

O cenário mais preocupante acontece assim no Centro de Inspecções de Veículos no Cotai em que mais de 17 veículos aguardaram mais de duas horas. No ano passado, 1.707 veículos demoraram mais de duas horas até serem inspeccionados.

Crime | Detidos por posse de 60 gramas de canábis

DR

Dois residentes de Macau, com 23 anos, foram detidos numa operação da Polícia Judiciária em que foram apreendidas 60,3 gramas de erva (canábis). Segundo o jornal Ou Mun, os indivíduos eram suspeitos de traficar a droga do Interior da China para a RAEM há cerca de um mês e terão lucrado perto de 10 mil patacas. Durante o interrogatório, os suspeitos terão admitido vender e fumar canábis.

Alegadamente, a droga seria comprada no Interior por 100 yuans a grama e depois vendida em Macau a 700 patacas por grama.

Após receber uma denúncia, as autoridades policiais investigaram os suspeitos que alegadamente vendiam erva na Taipa. Um dos suspeitos tinha em sua posse dois pacotes com cerca de 12,2 gramas de erva quando foi detido, e em sua casa foram encontrados quatro pacotes com um total de 41,8 gramas. As autoridades encontraram também uma balança electrónica, mortalhas e um moedor. Os suspeitos foram transferidos para o Ministério Público e podem ser acusados de consumo e tráfico de estupefacientes.

Corrupção | CCAC revela caso de espionagem comercial

DR
Um ex-trabalhador de uma empresa vai ser acusado dos crimes de violação de segredo e obtenção, utilização ou disponibilização ilegítima de dados informáticos por ter espiado a ex-entidade patronal, e lançado um negócio concorrente

 

O Comissariado contra a Corrupção (CCAC) afirmou ter detectado um caso de espionagem comercial, de acordo com um comunicado emitido ontem. Os alegados crimes terão causado à empresa espiada, cuja identidade não foi revelada, prejuízos de cerca de um milhão de patacas.

Segundo as suspeitas, “um ex-quadro superior de uma empresa” e “um antigo subordinado” agiram em conluio “para obtenção de documentos sob segredo comercial” da empresa lesada. O objectivo passava por “facilitar a criação de uma nova empresa” concorrente, por parte do ex-quadro superior, que assim teria condições para prestar o mesmo tipo de serviços “a um preço mais baixo”.

A investigação do CCAC foi iniciada, depois de ter recebido um “caso encaminhado pelo Ministério Público”. Contudo, a entidade liderada por Chan Tsz King, afirma que “ao mesmo tempo”, recebeu uma denúncia para a alegada situação de corrupção no sector privado, sem especificar a data. Com esta conduta, a empresa de consultadoria em engenharia lesada queixa-se que terá “sofrido prejuízos superiores a um milhão de patacas”.

Caminho da reforma

De acordo com os pormenores indicados pelo CCAC, o principal suspeito, com o aproximar da altura da aposentação, terá começado a preparar-se para “criar secretamente uma empresa de consultadoria em engenharia […] que entraria em funcionamento no dia seguinte ao da sua saída da empresa”.

Com o propósito de apresentar no mercado uma companhia competitiva, começou também a tentar contratar trabalhadores da empresa para a qual ainda trabalhava.

Ainda segundo o CCAC, ao mesmo tempo que preparava a sua própria empresa, o suspeito começou a dizer “a terceiros” que estava disposto a aceitar preços mais baixos dos cobrados pela companhia em que anteriormente exercia funções. Com esta estratégia, as autoridades acreditam que o homem veio a “ficar com negócios e projectos de obras que pertenciam inicialmente” à empresa original.

Prejuízos de um milhão

A investigação das autoridades terá ainda apurado que “um secretário do ex-quadro superior” da empresa tinha conhecimento dos planos do superior e que “cooperou com o mesmo obedecendo às suas instruções, providenciando, várias vezes e através do correio electrónico da empresa em questão e de aplicações de telemóvel, diversos documentos e informações de segredo comercial”.

O ex-secretário, fora do horário de trabalho, terá também ajudado “na publicação de anúncios de recrutamento de pessoal para a nova empresa” e a concretizar os negócios, que para o CCAC resultaram na prática de “concorrência desleal”.

Os dois indivíduos são suspeitos de terem praticado, em co-autoria, o crime de violação de segredo previsto no Código Penal, que pode implicar pena máxima de um ano e quatro meses, e o crime de obtenção, utilização ou disponibilização ilegítima de dados informáticos, com uma pena máxima de um ano e quatro meses.

Wynn | Seminário empresarial e festa de cerveja em Dezembro

Um seminário para empresas da cidade chinesa de Qingdao, nordeste, de Macau e dos países lusófonos vai decorrer durante a “primeira semana Macau-Qingdao”, em 7 de Dezembro, anunciou ontem a organização. “Envolvemos empresas nos dois locais [Qingdao e Macau] para explorar oportunidades de produtos e parcerias comerciais em Qingdao e nos países de língua portuguesa, promovendo Macau como a plataforma de serviços para a cooperação económica e comercial entre a China” e o bloco lusófono, afirmou a directora executiva da Wynn Macau, Linda Chen, em conferência de imprensa. A iniciativa pretende também desenvolver o turismo cultural e o comércio entre as duas cidades, indicou.

Ao mesmo tempo, e até final de Dezembro, vai realizar-se a segunda festa da cerveja e da cultura Macau-Qingdao, com destaque para as cervejas Tsingtao e Macau Beer, e também com a presença das marcas portuguesas Sagres e Superbock.

A festa da cerveja e semana cultural, que contou com o apoio de cerca de 20 departamentos governamentais e mais de 20 empresas de Qingdao, decorre no Wynn Palace, e vai apresentar produtos agrícolas, iguarias culinárias, produtos criativos e culturais, indicou.

A Tsingtao é a segunda maior cervejeira da China, detendo 15 por cento da quota do mercado doméstico. Foi fundada em 1903 por colonos alemães em Qingdao, cidade no nordeste do país. A Macau Beer foi lançada em 1996 e expandiu-se agora para a China e mercados estrangeiros.

Retalho | Quebra de 30% no volume de negócios

DR

No terceiro trimestre deste ano o volume de negócios dos estabelecimentos de comércio a retalho cifrou-se em 11,13 mil milhões de patacas, uma quebra em termos anuais de 30,3 por cento. Os dados foram revelados pelos Serviços de Estatística e Censos que justificam a descida do volume de vendas com o “impacto gerado pela pandemia”.

Entre os principais tipos de comércio a retalho, os negócios de mercadorias de armazéns e quinquilharias (redução de 53,6 por cento) e de artigos de couro (redução de 43,8 por cento), desceram substancialmente face ao terceiro trimestre de 2021. Contudo, o volumesde negócios de automóveis (aumento de 8,4 por cento) e de supermercados (aumento de 5,1 por cento) registou um crescimento.

Quanto ao índice do volume de vendas, o de mercadorias de armazéns e quinquilharias (redução de 53,8 por cento), o de vestuário para adultos (redução de 40,6 por cento) e o de artigos de couro (redução de 40,2 por cento) registaram decréscimos significativos. Porém, os índices do volume de vendas de automóveis (aumento de 5,7 por cento) e de supermercados (aumento de 2,0 por cento) registaram subidas.

Quanto ao período entre Janeiro e Setembro, o volume de negócios dos estabelecimentos do comércio a retalho totalizou 42,83 mil milhões de patacas, ou seja, menos 22,8 por cento, face ao mesmo período de 2021 e o índice médio do volume de vendas desceu 22,2 por cento.

DST | Grande Prémio não aumentou número de turistas

DR
O Grande Prémio de Macau não mexeu na média de entradas no território, que durante o evento desportivo não ultrapassaram as 20.000 por dia. À margem da apresentação do Festival de Cerveja Macau-Qingdao, o subdirector da DST confessou que a quarentena de 5+3 não ajudou a atrair turistas

 

O Grande Prémio de Macau não teve qualquer impacto no número de entradas no território, confirmou ontem o sudirector dos Serviços de Turismo (DST), Hoi Io Meng, à margem da cerimónia de apresentação do 2.º Festival de Cerveja e Cultura de Macau e Qingdao.

Segundo o responsável, o número médio de visitantes durante os quatro dias de prova ficou abaixo dos 20 mil diários, à semelhança do que se verificou antes do evento.

“Durante os dias do Grande Prémio a média de visitantes foi pouco superior a 16 mil pessoas, com o pico a ocorrer na sexta-feira passada, quando entraram em Macau 21 mil visitantes. Um volume semelhante ao verificado em dias normais”, afirmou ontem Hoi Io Meng.

O responsável da DST pediu compreensão à população e aos sectores da sociedade que dependem do turismo pela fraca e não surpreendente afluência de visitantes, tendo em conta os múltiplos surtos na província vizinha, que têm levado a confinamentos de milhões de pessoas.

Além disso, Hoi Io Meng apontou que a taxa de ocupação hoteleira subiu 15 por cento durante o evento. “Observamos um bom sinal durante o Grande Prémio, que foi o aumento do tempo que os visitantes pernoitaram em Macau. Isso significa que durante o dia, os turistas vêem as corridas e depois vão aproveitar o que a cidade tem para oferecer, fomentando o crescimento das pequenas e médios empresas”, disse o responsável da DST.

Urso no bosque

Em relação à tese de que a quarentena “5+3” iria impulsionar o turismo, defendida por Liz Lam da DST e por outros membros do Governo, Hoi Io Meng confessou que “para já, não conseguiu atrair turistas estrangeiros”, mas que a DST está a preparar uma campanha de promoção de Macau nos mercados externos. Importa recordar que Macau é um dos poucos sítios do mundo que obriga estrangeiros a cumprir oito dias de quarentena à chegada.

De portas fechadas ao mundo, a única aposta continua a ser o Interior da China. Nesse aspecto, o subdirector revelou que se tem registado um aumento de turistas vindo de províncias não abrangidas pelo programa de excursões de “4 províncias e uma cidade” (Guangdong, Zhejiang, Jiangsu, Fujian e Xangai). “A Air Macau informou-nos da recuperação de voos e passageiros, com subidas na casa dos dois dígitos”, afirmou Hoi Io Meng.

Em relação às excursões, o responsável indicou que a DST está à espera da aprovação dos primeiros grupos pelas autoridades do Interior da China. Além disso, está em preparação uma operação de intercâmbio e promoção de Macau enquanto destino turístico, envolvendo empresas locais e empresas dos locais abrangidos pelo programa “4 províncias e uma cidade”.

Programa Espacial | Ngan Iek Hang questiona Governo

O deputado Ngan Iek Hang quer saber se o Executivo pode garantir que os jovens de Macau são enquadrados no programa espacial promovido pelo Governo Central. A pergunta faz parte de uma interpelação escrita, divulgada ontem pelo escritório do legislador, e surge na sequência das autoridades do Interior terem definido como meta integrar pelo menos um residente local como astronauta no programa espacial.

“Como podemos garantir que, no futuro, vamos contribuir para o modelo de desenvolvimento espacial nacional e cultivar quadros qualificados jovens na área aeroespacial?”, pergunta Ngan Iek Hang.

Por outro lado, o legislador perguntou como será possível criar um programa de recrutamento de jovens para o sector aeroespacial, à semelhança do que acontece em Hong Kong, mas com “características de Macau”.

Segundo Ngan Iek Hang, outra das áreas que deve ser desenvolvida no território é o “turismo espacial”. A sugestão ainda não foca as viagens ao espaço, mas antes várias exposições e locais que adoptem o Espaço como tema central. Por isso, quer saber o que está a ser feito para promover mais exposições e iniciativas que impressionem turistas e residentes.

Concessionárias | Leong Hong Sai quer mais eventos desportivos e culturais

DR
O deputado ligado aos Moradores está em linha com os objectivos do Governo, e pretende que as futuras concessionárias de jogo invistam e organizem mais eventos desportivos e culturais que impulsionem a economia

 

O deputado Leong Hong Sai considera que as concessionárias de jogo têm de organizar mais eventos culturais e desportivos no território, para atrair turistas e fomentar a economia local. A opinião foi publicada ontem no jornal Cheng Pou e o legislador apresentou-se como vice-presidente Centro da Política da Sabedoria Colectiva.

Segundo Leong, ao apostar na organização de eventos desportivos e actividades culturais, em cooperação com o Interior, o território vai criar mais elementos para atrair turistas.

Ao mesmo tempo, na perspectiva do deputado ligado à União Geral das Associações dos Moradores de Macau, com mais atracções o território pode finalmente conseguir atingir reputação internacional, virada para eventos culturais e não apenas para os casinos.

Como exemplo de eventos marcantes que já se realizam no território e que podem atrair mais visitantes internacionais, o deputado apontou o Grande Prémio de Macau, a Maratona Internacional de Macau, o Torneio de Ténis de Mesa e ainda o torneio da Grande Baía de 3×3 de Basquetebol. “São todos eventos muito populares em Macau, e os residentes e turistas participam neles de forma muito entusiástica”, apontou.

Por outro lado, Leong Hong Sai indicou que estes eventos promovem a economia local, porque através dos participantes e turistas contribuem para aumentar a procura nos restaurantes e as dormidas nos hotéis.

Microfone do Governo

As exigências do deputado Leong Hong Sai foram tornadas públicas, numa altura em que se sabe que o Governo pediu às futuras concessionárias para organizarem mais eventos desportivos e culturais. No âmbito das negociações para a atribuição das futuras concessões do jogo, como revelado pela TDM – Rádio Macau na quarta-feira, foi pedido às concessionárias que invistam no principal museu de arte do território, criem um plano anual de espectáculos e convenções, recintos para concertos, espectáculos e obras de arte ao ar livre.

Na parte cultural, o Governo pediu um plano e calendário para a criação do principal museu de arte, recintos para concertos e respectivos programas. Um dos objectivos do Executivo passa por garantir que no futuro são apresentados, pelo menos, dois espectáculos internacionais por semana.

Houve também quem tivesse apresentado planos para um recinto de patinagem no gelo ou um ringue para a prática de skate ou patins em linha. Por sua vez, a Melco terá garantido que vai trazer de volta o espectáculo The House of Dancing Water.

Maló de Abreu, deputado do PSD pelo círculo Fora da Europa: “Macau merece uma atenção redobrada”

HM
António Maló de Abreu já visitou muitas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, mas Macau continua a não constar do roteiro devido à imposição da quarentena. O deputado social-democrata pelo círculo Fora da Europa na Assembleia da República está, no entanto, muito atento ao ensino da língua portuguesa, à falta de apoios às associações e à pouca atenção das autoridades portuguesas face ao território

 

O seu objectivo é ir a Macau duas vezes por ano. Ainda não lhe foi possível. Neste momento não sabe ainda quando visitará o território.

Tenho visitado as maiores comunidades portuguesas ou aquelas onde há mais dificuldades, como é o caso dos EUA, África do Sul, Venezuela. Espero que o mais rapidamente possível a situação da pandemia permita que a quarentena não seja tão extensa. Tenho feito alguns contactos, esperando que a situação melhore.

As dificuldades de que fala prendem-se com as dificuldades no voto, no funcionamento dos consulados e embaixadas?

Há de tudo um pouco. Temos locais em que as nossas comunidades estão muito envelhecidas, com questões sociais graves. Falo de dois casos, pelo envelhecimento e da situação política que se vive, que é o da Venezuela e África do Sul. O Estado português tem de estar muito atento a estas comunidades, sobretudo pelas questões sociais. Tem havido grande fuga de portugueses dessas comunidades. Mas há outras que também são importantes, como a dos EUA, onde a situação é mais estável, ou a do Canadá. Também dou especial atenção às comunidades que estão nos países de língua portuguesa. Estive em Timor-Leste, mas quero ir a Macau para conhecer melhor a comunidade portuguesa.

Dos contactos que tem tido quais são as grandes problemáticas endereçadas à comunidade de Macau?

No geral há um grande enfraquecimento dos consulados, sobretudo devido à perda de recursos humanos, não podendo dar resposta da melhor forma às solicitações que são feitas pelas pessoas. Anuncia-se até uma greve dos funcionários da rede consular e é a primeira vez na história que isto acontece. Seria grave para Portugal e está em causa o prestígio da própria instituição [Ministério dos Negócios Estrangeiros]. Tanto mais que já houve reuniões do ministro com os sindicatos e pareceu-me que tudo estava a ser resolvido. Mas percebi, pelo Orçamento de Estado, que nada está a ser resolvido, porque não existem verbas para a actualização dos salários ou a contratação de novos funcionários. Os consulados são o braço armado de Portugal junto das comunidades portuguesas. Não podem ser muito burocratizados nem muito formais, devem ser verdadeiras casas de Portugal. Infelizmente, a nossa rede consular tem sido depauperada e abandonada, e está hoje numa situação muito grave. Há promessas de que se irão resolver estes assuntos, mas não vejo solução à vista com a política que tem sido seguida.

O que pensa do ensino do português no estrangeiro, sendo esta uma questão das comunidades que também tem sido muito abordada?

Também está muito abandonado. É preciso um reforço, porque a língua é algo que nos deve unir a todos. O ensino do português é fundamental no estrangeiro e Macau terá especificidades que preciso de conhecer in loco. Admito que haja em Macau dificuldades acrescidas e penso que deveríamos marcar muito bem a nossa posição em Macau para não chegarmos um dia destes, pacientemente, ao fim da nossa presença em Macau, que é o que eu, infelizmente, acho que vai acontecer, em função de uma falta de política de apoio à nossa língua, cultura, associações, instituições e até à nossa comunicação social. No geral, na diáspora, a comunicação social é muito importante para manter a ligação entre as pessoas, há um investimento que deveria ser feito e que não se tem realizado.

Temos a Escola Portuguesa de Macau (EPM) que é totalmente financiada pelas autoridades locais. Também tem sido um dossier esquecido pelo Ministério da Educação em Portugal?

Interpelei, durante a discussão sobre o Orçamento de Estado, o ministro da Educação, sobre isso. Há duas escolas, Macau e Bissau, estão a zeros no Orçamento de Estado. Isso é muito estranho, e revela, no fundo, um afastamento do Estado relativamente à necessidade de reforço da nossa presença nessa área específica. Em Luanda há um grande reforço de verbas, e muito bem. Temos de ter uma rede pública em sítios estratégicos, capitais dos países de língua portuguesa ou sítios onde haja uma grande comunidade portuguesa deve haver, pelo menos, uma rede de escolas públicas financiada pelo Estado português. Temos de investir fortemente em Macau para que se aprenda o português nas condições necessárias. Não basta a EPM, penso que deveria haver uma grande plataforma do ensino do português, e essa é uma das falhas que existe.

O Instituto Camões tem falhado?

Tem sido absolutamente insuficiente. Deveria ser criada uma grande plataforma para o ensino da língua, numa espécie de telescola em que havia aulas, cursos e um canal dedicado exclusivamente ao ensino do português. Seria um canal difundido internacionalmente com conteúdos disponíveis em qualquer lugar, 24 horas por dia.

As associações de matriz portuguesa que existem em Macau vivem hoje com mais dificuldades financeiras. O Estado português tem de dar mais atenção a este ponto?

O apoio ao associativismo é fundamental e deve ser fortalecido. Estas são casas onde se mantém a cultura portuguesa que, de outra forma, morrerá, como tem morrido onde não se tem feito investimentos. Macau merece uma atenção redobrada, ainda para mais se quisermos manter ou intensificar as nossas relações com a China, que é um parceiro com quem temos de estabelecer laços mais fortes. O nosso local de eleição para estabelecermos as nossas plataformas de movimentos é a partir de Macau. É com portugueses em Macau, sentindo-se bem, com um conjunto de garantias, como a escola ou as associações, é fundamental.

O papel de Macau como plataforma está muito presente no discurso político, mas há vozes que dizem que essa função não está ainda devidamente aproveitada. Os empresários portugueses continuam a não desfrutar dessa plataforma como deveriam?

O nosso passado histórico em Macau é tão forte e intenso que a nossa presença naquela zona do mundo deveria passar por uma plataforma “logística” com base em Macau. Seria a partir dali que os nossos interesses seriam defendidos, incluindo para Pequim. Desvalorizar Macau como tem sido desvalorizado… não direi ainda abandonado. Mas é um grave erro de estratégia política se mudarmos a nossa direcção para Pequim em vez de instalarmos o nosso porta-aviões em Macau.

A integração regional de Macau no país acontecerá, a seu ver, ainda antes de 2049?

Espero que se cumpra o prometido, mas é uma questão que se prende com a nossa presença. Se os portugueses que vivem em Macau forem lentamente deixando o território, diria que é natural que antes dessa data não tenhamos nada a ver com Macau, o que é absolutamente lamentável. É como hoje não termos já nada na Índia, quando temos fortes raízes em Goa, onde deveríamos ter um consulado forte. Ou reforçamos fortemente a nossa presença em Macau, ou então é natural que os portugueses se sintam desiludidos e abandonem progressivamente o território, o que terá custos.

Macau terá um novo cônsul em breve, Alexandre Leitão, embora a confirmação oficial ainda não tenha chegado. Que expectativas deposita neste nome?

Se se confirmar, julgo que Macau terá um excelente cônsul-geral, com quem tenho afinidades pessoais. Espero que ele possa ajudar, trabalhando com a comunidade e com as autoridades locais. Será um excelente representante de Portugal e terá de lutar para melhorar as funções do seu consulado, motivando os portugueses que lá permanecem a manterem a sua presença.

Apresentou uma proposta para a retirada do termo “cidadão nacional” do projecto do Governo português que dá apenas o complemento excepcional de pensão apenas aos reformados que vivem em Portugal.

Vamos defendê-la publicamente em plenário amanhã de manhã [esta entrevista realizou-se um dia antes da sessão plenária de apresentação]. É a nossa grande proposta sobre as comunidades portuguesas, pois entendemos que não há portuguesas de primeira e de segunda, todos são iguais nos seus deveres, mas também o devem ser nos seus direitos. Não faz sentido que haja um suplemento de apoio às famílias em Portugal que não seja estendido aos portugueses que estão lá fora. É uma questão de igualdade de tratamento e de direitos.

Uma outra proposta feita pelo PSD prende-se com a alteração da lei do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP). O que está a falhar neste campo?

Apresentaremos essa proposta até final deste mês. O CCP já ultrapassou largamente o seu prazo de eleição. Esperamos muitos meses pela proposta de alteração da parte do Partido Socialista, mas isso não aconteceu. Essa proposta tem muito a ver com as propostas já feitas pelos conselheiros, que estão no terreno e conhecem a realidade das comunidades portuguesas. Uma das ideias é alargar o Conselho, haver mais reuniões periódicas, fazer-se a experiência da eleição com o voto electrónico, serem mais ouvidos e ser obrigatório um parecer do CCP em algumas matérias. É também importante terem uma estrutura própria. Queremos que o CCP passe a ser escutado e tenha a dignidade que merece. Temos de acolher muitas das suas preocupações.

A ideia do projecto piloto do voto electrónico é para que depois se possa estender às restantes eleições.

Sou a favor do voto electrónico e acho que um dia destes todas as eleições decorrerão desse modo. É inevitável. Não vejo da parte do Governo vontade em trabalhar nesse sentido. Sabemos que a participação eleitoral da diáspora é lamentável, as cartas não chegam, há países onde os votos nem saem do correio. Também estamos muito disponíveis a alterar a lei eleitoral. Somos 1.500 milhões de portugueses na diáspora com direito de voto. Somos, no PSD, a uma maior representação de deputados no círculo da emigração, mas isso passa por uma maior participação dessas pessoas. Não temos de ter medo de encontrar as fórmulas necessárias para que haja uma maior participação nas eleições.

AR | Proposta votada

Foi esta quarta-feira que o deputado António Maló de Abreu apresentou a proposta do Partido Social Democrata de alteração do decreto-lei sobre o apoio extraordinário concedido aos pensionistas, no sentido da inclusão dos reformados que não residem em Portugal. A apresentação foi feita no âmbito da discussão, na especialidade, do Orçamento de Estado para o próximo ano. Na sua intervenção, o deputado disse que o Partido Socialista, no poder, “fez publicar um decreto-lei que abrange apenas os pensionistas residentes em território nacional”, acabando “por excluir liminarmente os que se encontram emigrados, tratando-se de uma manifesta injustiça, desprezando os mais velhos da nossa diáspora”. Disse ainda Maló de Abreu: “não pode haver portugueses de primeira e de segunda”. A proposta foi votada ontem na Assembleia da República, já depois do fecho da edição, não tendo sido possível saber de antemão o resultado.

Mundial 2022 leva chineses a questionar se estão no mesmo planeta

Reuters

O Mundial de futebol do Catar, seguido por milhões de chineses, evidenciou o contraste entre a China, que mantém a estratégia ‘zero casos’, e o resto do mundo, com internautas a questionarem, sarcasticamente, se estarão a viver noutro planeta.

“O Mundial arrancou e Pequim está em silêncio absoluto”, descreveu Jessica, uma hospedeira de bordo chinesa a residir na capital da China, num comentário difundido na rede social WeChat, durante a cerimónia de abertura do Mundial. “Sinto-me como se estivesse no fundo de um poço, a contemplar um mundo maravilhoso, com o qual não posso interagir”, acrescentou. “Qual é então o propósito de viver?”, questionou.

Nas últimas semanas, surtos de covid-19 obrigaram à imposição de novos bloqueios restritivos em Pequim, Cantão e dezenas de outras cidades menores da China.

A estratégia de ‘zero casos’ de covid-19 da China inclui o bloqueio de cidades inteiras, a obrigatoriedade de apresentar um teste negativo para o novo coronavírus para aceder a espaços públicos e o isolamento de todos os casos positivos e respectivos contactos directos em instalações designadas. A China mantém, também, as fronteiras praticamente encerradas desde Março de 2020.

Isto coincide com a realização do Mundial. O evento desportivo, acompanhado por dezenas de milhões de chineses, evidenciou para muitos o contraste entre o país e o resto do mundo, dando origem ao tema #SeráQueEstamosNoMesmoPlaneta nas redes sociais chinesas.

Mundo Ideal

Muitos chineses revelaram-se perplexos com a ausência de regras de distanciamento social e adeptos sem máscaras.
Uma mensagem a questionar a estratégia de ‘zero casos’ de covid-19 da China foi, entretanto, removida ontem da Internet chinesa e o seu autor bloqueado, após se tornar viral.

A mensagem foi removida depois de ter recebido 100.000 visualizações, o número máximo revelado publicamente pela rede social WeChat. O autor, não identificado, levantou várias questões dirigidas à Comissão Nacional de Saúde do país, incluindo por que a China continua a impor restrições tão rígidas, quando no resto do mundo a vida retornou à normalidade.

“Observamos que o público no Mundial do Catar não usa máscaras ou é obrigado a apresentar testes com resultado negativo. Será que estas pessoas estão no mesmo planeta em que nós vivemos”, questionou a mensagem.

A mesma nota pediu às autoridades que tornem pública a taxa de mortalidade da variante Ómicron da covid-19, avaliem o custo de manter a estratégia actual ou expliquem claramente qual é a eficácia das vacinas chinesas.

A estratégia chinesa tem altos custos económicos e sociais e gera forte descontentamento social. Um surto do novo coronavírus pode resultar em bloqueios altamente restritivos, que por vezes se prolongam durante meses.
Segundo dados oficiais, desde o início da pandemia morreram 5.231 pessoas na China devido ao novo coronavírus.

João Pimenta, Lusa

Grande Baía | Macau vai criar dois centros tecnológicos para apoiar projectos lusófonos

DR

O Governo de Macau anunciou ontem a criação de dois centros sino-lusófonos para apoiar a fixação de “projectos de tecnologia avançada” da lusofonia na região chinesa da Grande Baía, com a atribuição de bolsas e colaborações com universidades e empresas.

O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, tinha anunciado, na semana passada, durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2023, o estabelecimento de um Centro de Ciência e Tecnologia Sino-Lusófono, mas ontem, durante o debate sectorial para a área da Economia e Finanças, o Governo esclareceu que, afinal, são dois espaços.

“Um centro na Zona de Cooperação Aprofundada e outro a ser criado em Macau”, notou o director dos Serviços de Economia, Anton Tai Kin Ip, referindo-se à área de cooperação entre a província de Guangdong e Macau, em Hengqin (ilha da Montanha).

Na sessão de perguntas dos deputados, o parlamentar Kou Kam Fai questionou os membros do Governo sobre o funcionamento e as perspectivas para esses centros, até porque, disse, “muitas vezes os resultados não mostram grande eficácia, mas são sempre grandes investimentos”.

Tai Kin Ip referiu que o objetcivo final é permitir que “projectos de tecnologia avançada dos PLP [países de língua portuguesa] possam entrar para o mercado da Grande Baía”. Além disso, acrescentou o responsável, serão concedidas “bolsas e [serão feitas] articulações entre universidades e também empresas”.

Novas metas

Ainda no âmbito da cooperação sino-lusófona, o secretário para a Economia e Finanças de Macau, Lei Wai Nong, sublinhou ontem que, em 2023, ano em que se celebra o 20.º aniversário do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), “o intercâmbio e a cooperação entre o Interior da China, Macau e os países de língua portuguesa, em termos de comércio, cultura, convenções e exposições, formação, entre outras áreas, serão elevados para um novo patamar”.

Para o ano, a administração de Macau espera também dar início aos trabalhos preparativos para a realização da 6.ª Conferência Ministerial do Fórum Macau, que não se realizou em 2019 devido à pandemia da covid-19.

Além do reforço das trocas económicas e comerciais entre a China e os parceiros lusófonos, Macau planeia “promover a construção da plataforma de prestação de serviços financeiros” entre os dois lados e de um “centro de regulação das transações em RMB [renminbi, moeda chinesa] para os países de língua portuguesa”, disse Lei Wai Fong.

Ainda segundo o secretário, a região administrativa especial chinesa quer “incentivar bancos de Macau a providenciarem incessantemente serviços de financiamento transfronteiriço aos países lusófonos, alargando as acções promocionais sobre os produtos e serviços denominados em RMB”.

Após um ano de “provações redobradas”, na sequência da pandemia de covid-19, Lei Wai Nong notou que “o eixo principal” da acção governativa para a pasta que lidera consiste em acelerar a recuperação económica e promover a “diversificação adequada” do território.

Da inveja e suas marionetas

DR

A inveja não é uma especificidade de Macau mas, seja lá como for, aqui inveja-se de forma extremamente específica. Nisso ao menos somos democratas: não se inveja este ou aquele, por ser rico ou formoso, invejam-se todos sem excepções nem motivos palpáveis. O pior é que nem sequer existe muita gente que valha a pena invejar. Isto é mais uma terra de Salieris deseperados à procura de um Mozart qualquer que lhes dê um sentido para a vida.

Sem exageros, de vez em quando até pode ter graça percebermos que somos invejados. Faz-nos sentir importantes despertar um sentimento noutro ser humano qualquer. Ainda que seja um sentimento baixo.

Só que o que é demais também chateia. Acaba por cheirar mal e tolher os movimentos. Em Macau a divisa parece ser: «quem inveja sempre alcança», na qual a palavra inveja pode ser substituída por outras muito próximas como «intriga», «difama», «escarnece» e outras que deixo à memória dos leitores.

Um dos derivados universais mais interessantes da inveja é o mau-olhado. Quem o garante não sou eu.
É o insuspeito filósofo Francis Bacon que cita a mais insuspeita ainda Bíblia: «parece estar incluído, no acto de inveja, uma ejaculação, ou irradiação do olho.» Se em Macau acreditássemos piamente nesta afirmação teríamos de estar sempre a dizer ao vizinho: «Olhe lá, desculpe, e se fosse ejacular para outro lado?!».

Normalmente, os que têm são invejados pelos que não têm. É a ordem natural das coisas e até se compreendem as razões dos invejosos. Sobretudo, quando deparamos com situações de flagrante injustiça social.

Às vezes, organizam-se e nasce a luta de classes. O que é estranho é que na comunidade portuguesa de Macau, onde todos têm mais ou menos o que querem (na maior parte dos casos, mais do que alguma vez tiveram), subsista tanta inveja. Na verdade, é uma praga parecida com a humidade: viscosa e irritante.

A pequenez da terra e das cabecinhas também ajuda a este estado de coisas. Mas a verdade é que aqui não há hipóteses: se fazes é porque fazes, se não fazes é porque não fazes, tudo ganha uma dimensão anormal.

Se dás de comer às pessoas és invejado, se não dás és invejado na mesma porque ficas com tudo para ti.
Invejam-te porque sais e invejam-te porque ficas em casa. Invejam-te o carro, a mulher e os sorrisos do chefe. E porque são fantasias e não têm nada para fazer, nem mais nada em que pensar, invejam sobretudo o que imaginam que tens. Livre-se alguém de não publicar nas jornais as suas actividades quotidianas: é imediatamente julgado por actos atrozes que todas as noites comete em segredo.

Não é que os chineses sejam melhores. Não são.

Simplesmente, têm as coisas organizadas de outra maneira. Vivem desde há muito num mundo onde as diferenças de estatuto são tão visivelmente marcadas que a inveja na vertical rapidamente se transforma em admiração. O valor do outro nem sequer é objecto de discussão, portanto a inveja está perfeitamente regulamentada. Trata-se de um controlo de sentimentos com milénios de cuidadosos aperfeiçoamentos. Nesta comunidade, a inveja existe muitíssimo mais na horizontal e aí cuidado que são ferozes.

Na verdade, os invejosos são infelizes. Vê-se pela sua cor verde. Têm insónias a pensar nos outros, na felicidade dos outros, no que os outros têm ou são, sem conseguirem parar para pensar em si próprios e terem a distinta humildade de reconhecer o valor alheio. Eu sei que é duro, na maior parte dos casos impossível. São anos e anos de ressabiamentos, de ódios engolidos a pensar nas patacas e numa vingança longínqua que se pressente inalcançável. É um atestado de mediocridade que ninguém gosta de passar a si próprio e que, lá num cantinho escondido, todos acabam por rubricar.

Como tudo na vida, a inveja não é má em si própria.

É como os ciúmes: não podem ser por tudo e por nada, nem levados a exageros persecutórios. São, no entanto, imprescindíveis numa relação bem-sucedida. De facto, controlado e bem utilizado, o impulso inicial de inveja pode, nos casos em que valha a pena, transformar-se em admiração e ser muito útil ao potencial invejoso. Afinal, a inveja também é uma forma arrevesada de amar.

Nota
Texto escrito em 1991. Ao que me diz quem frequenta esta sociedade, de uma actualidade surpreendente.

FRC | “Equinox Jam + Jazz Young Good Men” ao vivo no sábado

DR

A Fundação Rui Cunha (FRC) apresenta no sábado, a partir das 21h, a tradicional noite de jazz com a actuação dos Equinox Jam e Jazz Young Good Men. Em comunicado, a fundação indica que esta será a última sessão do ano da “Saturday Night Jazz” na Galeria da FRC.

Os Equinox Jam vão apresentar um repertório repleto de sonoridades que vão variar entre o blues e a música latina. A recém-formada banda é composta pelo saxofonista Ricardo Porto, o guitarrista Adonis K Lee, o pianista Joviz Lee, o baixista Mars Lei e o baterista Roy Tai.

Para fechar as noites de jazz de 2022 na FRC, o público será prendado com a actuação da banda Jazz Young Good Men, liderada por Ao Fai no trompete, com Chio Song Meng na guitarra, Joviz Lee no baixo e Meng Fai Che na bateria. A banda juntou-se recentemente ao jovem e talentoso pianista Thomas Catalão, com quem irá interpretar influências japonesas de bebop e músicas de Miles Davis.

A Associação de Promoção de Jazz de Macau (MJPA), co-organizadora do evento desde 2014, orienta e ensaia regularmente grupos formados por amantes do jazz, que exploram diversos estilos dentro deste género musical, no âmbito de projectos vocacionados para a juventude local e para o intercâmbio regional de talentos. A entrada é livre, mas sujeita às recomendações de saúde implementadas pelas autoridades locais.