RAEM, 25 anos | Heitor Romana revela planos para evacuar portugueses Andreia Sofia Silva - 25 Set 2024 Heitor Romana foi durante nove anos assessor do Governador Rocha Vieira. Numa palestra no Centro Científico e Cultural de Macau recordou os tempos da transição e a preparação de planos para evacuar portugueses em caso de turbulência política na China e na região Antes da assinatura da Declaração Conjunta, em 1987, Heitor Barras Romana, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, foi para Macau a trabalhar numa unidade definidora de estratégias em matéria de segurança para o território, ainda durante o Governo de Carlos Melancia. Nessa fase chegaram a ser preparados planos para a retirada dos nacionais portugueses a residir em Macau caso se verificasse, na China e na região, um cenário de turbulência política. A confissão foi feita no âmbito da conferência “Contributos para uma análise estratégica do processo de transição de Macau”, proferida no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), no passado dia 19 de Setembro, nas semanais “Conversas Sábias”. As autoridades portuguesas pretendiam “sair a bem” do território e chegaram a ser elaborados “planos de contingência em relação a cenários em que se tivesse de retirar os portugueses de Macau”. Incluíam-se, assim, os portugueses e seus descendentes bem como os detentores de nacionalidade portuguesa cujo local de nascimento tivesse sido Macau até 1981. Tal iria ocorrer face a “um cenário de convulsão interna na China, em que se alterasse a ordem de equilíbrios e relações diplomáticas com Portugal”. “Era essa a perspectiva que se tinha e que não tinha nada de estratégico, mas situacional. Era essa a abordagem que se fazia de Macau. Ainda estava bem presente a memória do ‘1,2,3’, e se houvesse uma convulsão regional teriam de se antecipar cenários, de forma a retirar em segurança os portugueses que estivessem no território”, descreveu. Segundo Heitor Romana, estava em causa os últimos acontecimentos políticos na China, com o episódio de Tiananmen, em 1989, e a queda da URSS. “As atenções estavam viradas para aquilo que veio a acontecer em 1989, com o desmembramento da URSS e todo o sistema. Do ponto de vista geopolítico, a China não entrava no jogo das preocupações que Portugal tinha obrigação de acompanhar em determinados sectores. No essencial, Macau não era tido no jogo dos interesses geoestratégicos de Portugal, mas havia a vontade de uma boa resolução quando tivesse de ocorrer a saída de Portugal de Macau e o fim da sua administração.” A China vinha, desde 1978, vivendo o período de Reforma e Abertura, mas pensava-se que “o desmembramento da URSS poderia contaminar a realidade do sistema político e ideológico da China”. “Essa era uma das teses defendida não apenas em Portugal, mas por parte de analistas americanos e ingleses. Pensava-se que o fim da URSS iria contaminar o regime político chinês e levar à queda da República Popular da China”, lembrou, algo que não aconteceu, como a história veio a mostrar. O trabalho de análise em matéria de segurança do académico foi realizado quando tinha cerca de 30 anos, e foi por iniciativa de Carlos Melancia que se criou a “unidade de análise geoestratégica sobre Macau e China que também envolvia a ‘questão de Macau’, e já era uma questão política e diplomática”. Nesse sentido, frisou, “era importante perceber o que podia acontecer na China que pudesse afectar ou acelerar a saída [dos portugueses de Macau]”. “O trauma” do Império Heitor Romana recordou também que o desejo de “sair bem” de Macau, por parte das autoridades portuguesas, acarretava consigo o fantasma da descolonização em 1975, no rescaldo da Guerra Colonial. “Veio-se a perceber mais tarde, no quadro das relações bilaterais, e mais alargado ao multilateralismo e política internacional no seu todo, que ‘sair bem’ tinha como pano de fundo o trauma da descolonização, em relação à forma apressada como Portugal tinha saído dos territórios ultramarinos em 1975”, apontou. O responsável descreveu “o medo” que existia em relação “àquilo que ainda faltava ‘descolonizar’, nomeadamente Macau”, sem esquecer os episódios da perda da Índia portuguesa, em 1961, ou de Timor. “Havia na memória colectiva a ideia de que a saída de Portugal dos seus territórios não tinha corrido bem por variadas razões. A percepção era de que, em Macau, não havia razões para que corresse bem. A visão era muito pessimista.” Em 1989, após os acontecimentos de Tiananmen, Carlos Melancia vai a Pequim reunir com as autoridades chinesas, tendo sido “o primeiro representante de um país europeu a ir a Pequim depois desse episódio”. Segundo o académico, nos anos 90 a China vivia “um processo de ajustamento político e ideológico que teve repercussões não no processo de transição [de Macau], mas sim na natureza desse processo”, pois no seio do partido havia uma “luta surda entre sectores mais reformistas e ortodoxos”. O conceito “Um País, Dois Sistemas” tinha sido recentemente anunciado a pensar em Taiwan, e o primeiro-ministro chinês que assinou a Declaração Conjunta, Zhao Ziyang, acabou por “cair em desgraça três anos mais tarde”, pois, na visão de Heitor Romana, tinha sido secretário-geral do partido em Cantão e era “visto com desconfiança”. Isto porque “historicamente Cantão tinha tido relações privilegiadas com ocidentais, diga-se Portugal e Reino Unido, e essa relação próxima, comercial, política e de miscigenação gerava dúvidas quanto à lealdade desses dirigentes face aos princípios basilares do partido. O problema de Zhao Ziyang residia nesse facto”, afirmou. Melancia queixa-se Ainda relativamente ao período de governação de Carlos Melancia, falecido em Outubro de 2022, Heitor Romana lembrou uma reunião em que este lhe disse existirem “forças” que o queriam prejudicar. “Carlos Melancia disse-me que havia [essas] forças, mas não vou dizer nomes. Fiquei espantado com a franqueza dele, pois disse-me que o problema que tinha não era com a China, mas sim com Portugal e com aqueles que colaboravam consigo no gabinete.” Heitor Romana considera que a transição de Macau estava então envolvida numa teia difícil de jogos e tramas políticos. “Aí percebi que Portugal e os portugueses, Macau e a sua governação, estavam envolvidos numa trama muito complicada que poderia levar a resultados muito negativos para os interesses estratégicos de Portugal, incluindo as relações bilaterais e interesses da salvaguarda daquilo que, mais tarde, veio a ser identificado como a identidade de Macau e a sua singularidade.” Rocha Vieira, o último Entre 1990 e 1999 Heitor Romana foi assessor de Rocha Vieira, homem escolhido para ser “o último Governador de Macau” no sentido de assegurar a estabilidade necessária ao território. “Mário Soares [à época Presidente da República] tinha uma preocupação muito grande de que o próximo Governador fosse o último e que garantisse estabilidade. Já não era só a questão de irmos embora a bem, mas havia o possível efeito sistémico dos problemas gerados à volta de Macau”, e que se centravam em “jogos político-partidários que estavam muito acesos”. Havia, no fundo “questões ideológicas que também envolviam o aspecto político-partidário, pois o Governo [em Portugal, liderado por Cavaco Silva] era diferente da matriz ideológica do Presidente da República”, estando criadas “todas as condições para que não corresse bem” a transição de Macau. Vasco Rocha Vieira chegou a Macau numa fase de “vulnerabilidade e fragilidade política”, tendo gerado “uma enorme expectativa” para que “pudesse pôr ordem no território”. O novo Governador acabou por assumir, segundo o orador, “uma postura imune a todos esses processos, o que na altura suscitou muitas críticas, mas que foi eficaz”. Rocha Vieira ganhou “um espaço próprio, ajudando a definir muito bem o processo de transição até 1999 e depois”. “As autoridades chinesas perceberam que ele tinha uma personalidade muito própria e não podiam deixar de ser sensíveis nessa situação de liderança. Viam no Governador de Macau esse interlocutor desejado para que o processo [de transição] corresse bem”, disse ainda. Heitor Romana lembrou que, no processo de transição, procurou definir-se ainda a ideia de identidade própria de Macau. “Na fase final da presença portuguesa em Macau foi visível que o Governador tinha a missão da defesa e salvaguarda dos interesses de Portugal, e isso passava muito pela defesa da identidade de Macau. Era esse o elemento diferenciador, comparando com Hong Kong ou Taiwan.” Assim, a Lei Básica de Macau foi “obrigada a incorporar, de certa forma, esta visão da especificidade de Macau”. “Há uma estratégia para Macau, de Portugal, definida pelo Governador e a sua equipa, de que era importante ter uma identidade própria. O mito refundador de Macau está presente no papel do macaense, sendo um activo estratégico histórico que vai ser o eixo daquilo que é a natureza específica de Macau”, rematou.
Sotheby’s | Colar de diamantes único do século XVIII à venda Hoje Macau - 25 Set 2024 A casa de leilões Sotheby’s anunciou na segunda-feira a venda de um impressionante colar composto por 500 diamantes datado do século XVIII, uma peça de domínio técnico inigualável para a época e com origens misteriosas. Proveniente de uma colecção privada asiática, esta joia estará à venda em 11 de Novembro, em Genebra. Os leilões ‘online’ serão abertos no dia 25 de Outubro no ‘site’ da leiloeira. Composto por três fiadas de diamantes terminando numa borla de diamantes em cada extremidade, este colar, que será apresentado ao público pela primeira vez em 50 anos, está avaliado entre 1,8 e 2,8 milhões de dólares (entre 1, 6 e 2,5 milhões de euros, à taxa de câmbio actual). “É uma descoberta maravilhosa, porque normalmente as joias do século XVIII eram partidas para serem reutilizadas (…) Portanto, é absolutamente fabuloso ter uma peça intacta desta importância da era georgiana”, sublinhou à agência France-Presse (AFP) Andrés White Correal, responsável da secção de joalharia da Sotheby’s. “A joia passou de família em família. Podemos recuar até ao início do século XX, quando fazia parte da coleção do Marquês de Anglesey”, adiantou ainda. Diz-se que esta família de aristocratas usou a joia duas vezes. Uma vez durante a coroação do Rei Jorge VI (1937) e a segunda durante a coroação da Rainha Isabel II (1953), filha mais velha de Jorge VI.
Shenzhen | Pequim pede a Tóquio reacção calma ao homicídio de rapaz japonês Hoje Macau - 25 Set 2024 O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, disse ontem ao homólogo japonês esperar que Tóquio reaja “calma e racionalmente” ao homicídio de um rapaz japonês de 10 anos em Shenzhen. Depois do ataque da semana passada na cidade do sul da China, o primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, exigiu uma explicação e pediu a Pequim a garantir a segurança dos cidadãos japoneses. Numa reunião com a ministra dos Negócios Estrangeiros japonesa, Yoko Kamikawa, em Nova Iorque, Wang afirmou que Pequim vai investigar e tratar o caso “de acordo com a lei”. “O Japão deve considerar esta questão de forma calma e racional e evitar politizar ou agravar o problema”, afirmou Wang, citado num comunicado difundido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Pequim “vai, como sempre, garantir a segurança de todos os cidadãos estrangeiros na China”, acrescentou. O rapaz de 10 anos foi esfaqueado a caminho de uma escola japonesa. Embora o motivo ainda não tenha sido confirmado, o ataque ocorreu num dia altamente simbólico, o 93.º aniversário do “Incidente de Moukden”, um ataque japonês a uma linha de caminho-de-ferro que serviu de pretexto para a invasão da Manchúria pelo Japão, em 1931, e foi um prelúdio para a longa guerra sino-japonesa. O dia 18 de Setembro é conhecido como o “Dia da Humilhação” na República Popular da China. O Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês declarou que Kamikawa “exigiu firmemente” que a China esclarecesse o caso, incluindo o motivo do homicídio, e punisse severamente o autor do crime. Kamikawa pediu ainda que Pequim tome medidas contra “mensagens maliciosas e antijaponesas nas redes sociais, incluindo as mensagens sobre escolas japonesas, sem qualquer base factual”.
GP | Charles Leong vai às Finais Mundiais da Lamborghini Sérgio Fonseca - 25 Set 2024 Charles Leong Hon Chio já decidiu. No fim de semana de 18 e 19 de Novembro, aquando da 71.ª edição do Grande Prémio de Macau, o vencedor do Grande Prémio de Macau de Fórmula 4 de 2020 e 2021 vai estar em Jerez de la Frontera nas Finais Mundiais da Lamborghini. O piloto da RAEM confirmou ao HM que vai participar nas Finais Mundiais da prestigiada marca italiana de automóveis de luxo no Circuito de Jerez, participando também na derradeira prova da temporada do Lamborghini Super Trofeo Asia no Lamborghini Huracán Super Trofeo Evo 2 da equipa SJM Iron Lynx Theodore Racing, partilhando o volante com a sua habitual companheira de equipa, a japonesa Miki Koyama. Com o título da categoria PRO em jogo, devido à coincidência de datas, o jovem piloto do território viu-se obrigado a escolher entre rumar ao sul de Espanha e uma possível sétima participação consecutiva no Grande Prémio de Macau. “Infelizmente, existe esta coincidência de datas da Lamborghini com o Grande Prémio, e nós estamos a fazer a temporada completa. Portanto, não posso perder a participação no campeonato”, disse ao HM, Charles Leong, reconhecendo um pouco de tristeza, porque se trata do Grande Prémio, aquela prova especial para todos os pilotos do território. Com apenas duas corridas para disputar, a dupla sino-nipónica encontra-se na segunda posição da categoria PRO, mas com menos dez pontos, o equivalente a um terceiro lugar, que o líder, o piloto britânico de Hong Kong, Dan Wells, e mais seis pontos que os terceiros classificados, Gavin Huang / Jonathan Cecotto. A decisão do título da classe PRO acontecerá no ex-circuito de Fórmula 1 nos dois dias que antecedem as Finais Mundiais da Lamborghini na pista espanhola. A última prova, em Xangai, não correu de feição para o duo da SJM Iron Lynx Theodore Racing, apesar de Leong ter liderado as corridas nas duas vezes que esteve ao volante. Para o que falta da competição, Leong deixou claro que “nós vamos continuar a lutar juntos e vamos lutar para vencer o campeonato.” A pensar no futuro Graças à boa temporada que está a fazer na competição monomarca organizada pela Lamborghini Squadra Corse, a divisão de competição da Automobili Lamborghini elegeu Leong como um dos 28 pilotos que fazem parte do “Programa de Pilotos Júnior” para jovens pilotos que competem em um dos três campeonatos regionais Lamborghini Super Trofeo (Europa, América do Norte e Ásia). O piloto de 23 anos, que está a fazer a sua primeira temporada completa em carros de GT, foi um dos três seleccionados da região asiática. Na pista a sul de Sevilha, após uma cuidada avaliação, Leong e os restantes pilotos seleccionados pela Lamborghini Squadra Corse vão participar num “shootout”. O vencedor receberá apoio financeiro do departamento de competição da marca italiana para a temporada de 2025. Mesmo que não seja seleccionado, esta foi a primeira vez que um piloto de Macau fez parte de um programa de jovens pilotos de um construtor automóvel europeu. O campeão asiático de Fórmula Renault e campeão chinês de Fórmula 4 tem sido uma presença regular no Circuito da Guia desde 2018. Depois de ter participado na prova de Fórmula 3 em 2018 e 2019, Leong alinhou na corrida de Fórmula 4 nos últimos quatro anos, tendo vencido por duas ocasiões e terminado no segundo lugar no ano passado quando a prova contou para o campeonato do sudeste asiático.
A gueixa e a erotização da mulher asiática Tânia dos Santos - 25 Set 2024 O fetiche pelas mulheres asiáticas tem raízes profundas na história e continua a manifestar-se na sociedade moderna através de estereótipos culturais, representações mediáticas e dinâmicas de poder. Muitas vezes, as mulheres asiáticas são retratadas como submissas, exóticas ou sexualizadas, sendo vistas através de uma lente distorcida moldada por fantasias ocidentais. A cultura pop, através de filmes, literatura e, mais tarde, a internet, reforçou essas representações erróneas, perpetuando a visão da mulher asiática como uma figura “dócil” e “obediente”. Um dos símbolos centrais dessa erotização é a figura da gueixa — um ícone cultural no Japão que tem sido mal interpretado. Durante a dita “expansão” colonial, as mulheres asiáticas foram colocadas em estereótipos de submissão, quietude e hiper-sexualidade. Recentemente, nas plataformas de encontros online nota-se o agravamento deste problema. Estudos mostram como as mulheres asiáticas são interpeladas com comentários racialmente carregados e vindos de fetiches, como “Sempre quis estar com uma asiática”. Há quem chame a esta tendência o yellow fever. Das muitas causas para a criação do estereótipo da mulher asiática como submissa e sexualizada, trago a figura da gueixa. As gueixas, cujas origens remontam ao século XVII, são artistas e anfitriãs treinadas em diversas formas de arte tradicional japonesa. São conhecidas pelo seu domínio da música, dança, cerimónia do chá e a capacidade de manter conversas sofisticadas, muitas vezes em jantares ou eventos importantes. Ser gueixa é sinónimo de disciplina e respeito pela preservação de tradições culturais seculares. Para se tornar uma gueixa, uma mulher passa por anos de treino nas artes performativas, aprendendo a vestir elaborados quimonos, aplicar a icónica maquilhagem branca e dominar a interação social. Em vez de reconhecerem as gueixas como figuras culturais, a imaginação ocidental transformou-as em símbolos de disponibilidade sexual e submissão. A gueixa não é, e nunca foi, uma trabalhadora do sexo, como muitas vezes se assume. Esta redução das gueixas a meros objetos de desejo sexual alimentou o crescente estereótipo das mulheres asiáticas como exóticas e submissas. Não quer dizer que as suas práticas performativas não sejam dotas de sensualidade, mas estão carregadas de tradição e respeito também. Alguns exemplos de incompreensão: um pub irlandês perto da base americana de Okinawa decorou a sua entrada com duas meninas japonesas de kimono, a descobrir as suas pernas e decote. Filmes como Memórias de uma Gueixa apresentam uma versão ocidentalizada e sexualizada do papel das gueixas. Até a Kim Kardashian quis dar o nome de “Kimono” à sua marca de roupa interior, que provocou consternação no Japão. O kimono é uma peça de roupa sofisticada que as Gueixas usam em para eventos sociais – não é uma peça de roupa interior. Não é por acaso que os turistas estão agora proibidos de visitar o bairro de Gueixas em Kyoto. Talvez seja um salto astronómico, mas estes retratos sociais mal compreendidos contribuem para o universo colectivo do fetiche racial. E a par da representação popular da Gueixa poderia numerar muitas outras, como a representação da mulher vietnamita durante a guerra do Vietname, e a representação de inocência das mulheres à frente de grupos de K-Pop e J-Pop. Combater o estereótipo da mulher asiática submissa exige uma reflexão crítica sobre como a cultura e a história asiática têm sido apropriadas e deturpadas em outras partes do mundo; de como as histórias que contamos sobre a história precisam de ser reanalisadas com sensibilidade e respeito. Implica, acima de tudo, rejeitar as narrativas que reduzem as mulheres a objetos de fantasia e reafirmar a sua complexidade.
CURB | Exposição de fotografia inaugurada no sábado Hoje Macau - 25 Set 2024 A exposição de fotografia com imagens vencedoras da última edição do concurso “Tesouros da Grande Baía – Arquitectura Vernacular na zona da Grande Baía” será inaugurada no sábado. Ji Xiang venceu o primeiro prémio, seguindo-se David Perez Casamayor e Lai Tsz Kwan, todos na secção “Área da Grande Baía – Categoria Aberta”. Segue-se, em “Grupo de Macau – Categoria Aberta” as distinções a Eduardo Leal, que captou um edifício antigo na zona do Patane, Chon Ka Hou, em segundo lugar, e Hong Keng Sio. Na categoria dedicada a jovens estudantes Jingyi Xu sagrou-se vencedor. Para este concurso foram seleccionadas 377 fotografias apresentadas por 157 participantes. O júri escolheu estes trabalhos “considerando a sua qualidade artística e técnica e originalidade de visão”. O concurso e a exposição são organizados pelo CURB – Centro de Arquitectura e Urbanismo, tendo como foco a arquitectura vernacular que se faz nas nove cidades que compõem o projecto político da Grande Baía, incluindo Macau e Hong Kong. A ideia foi “captar os edifícios e espaços que tornam únicas as suas onze cidades”, descreve-se numa nota. A exposição pode ser vista na galeria Ponte 9, sede do CURB, na zona do Porto Interior.
Casa do Mandarim | Mostra exibe legado de Zheng Guanying Hoje Macau - 25 Set 2024 Será inaugurada na sexta-feira a “Exposição do Legado de Zheng Guanying”, pensador chinês que viveu entre 1842 e 1921. A mostra, organizada pelo Instituto Cultural, estará patente no Museu Memorial de Zheng Guanying, na Casa do Mandarim, dando a conhecer mais sobre a vida e o legado da figura histórica O Instituto Cultural (IC) promove, a partir de sexta-feira, a “Exposição do Legado de Zheng Guanying”, que estará patente no Museu Memorial de Zheng Guanying, na Casa do Mandarim, em memória desta personalidade intelectual chinesa que viveu entre os anos de 1842 e 1921. Segundo um comunicado do IC, a exposição “centra-se em vários temas, como as ideias de Zheng sobre reformismo, o Movimento de Auto-fortalecimento, literatura aplicada, a linhagem ancestral, iniciativas de beneficência da família de Zheng e um século de mudança na Casa de Mandarim”. Para isso são apresentados ao público mais de 100 itens, onde se incluem diversos escritos, documentos, cartas, fotografias, placas e dísticos, que revelam “a influência significativa das ideias reformistas de Zheng nos finais da dinastia Qing, as quais inspiraram o Imperador Guangxu, Sun Yat-sen, Mao Zedong e outras figuras históricas”. A família Zheng acabou por criar raízes em Macau, onde desenvolveu várias acções de beneficência. Destaque ainda para a conexão desta exposição com as infra-estruturas multimédia já existentes no museu, ficando a promessa de fornecer “uma experiência divertida aos visitantes” graças a projecções, um simulador telegráfico e a tecnologia de realidade virtual. Assim, o público poderá “aprender sobre as experiências de vida de Zheng na promoção do desenvolvimento de empresas empreendedoras na China moderna, como o Departamento Telegráfico de Xangai e a China Merchants Steam Navigation Company Limited, e compreender o impacto da sua obra ‘Advertências em Tempos de Prosperidade’ nas gerações posteriores”. Destaque ainda para a exibição de documentários e desenhos animados que irão transmitir de forma dinâmica as ideias de Zheng Guanying sobre reformismo e o Movimento de Auto-fortalecimento. Ópera na abertura Na sexta-feira a cerimónia de inauguração da exposição irá contar com um espectáculo protagonizado pela Associação de Ópera Cantonense de Marionetas de Zhongshan, que irá apresentar a nova ópera cantonense de marionetas “Zheng Guanying”, um trabalho produzido unicamente para ser apresentado nesta inauguração. Além disso, a mesma associação organiza ainda dois workshops sobre “Espectáculos de Marionetas para a Família” no museu, que se realizam no próximo sábado. Estas actividades destinam-se a “dar a conhecer os espectáculos de marionetas de Sanxiang, um item do património cultural intangível municipal de Zhongshan”. Os instrutores do workshop vão dar explicações sobre marionetas e fazer demonstrações, proporcionando uma experiência prática das técnicas de fabrico e manipulação das marionetas. As inscrições podem ser feitas na plataforma da Conta Única de Macau. Zheng Guanying era natural de Xiangshan, actual cidade vizinha de Zhongshan, na província de Guangdong. Tendo como nome original Zhangying, e um outro nome, Guanying, foi-lhe atribuído o nome Zhengxiang. Zheng foi um intelectual esclarecido, aberto ao liberalismo democrático e à ciência na China contemporânea. Foi também um industrialista, educador, literato, benfeitor e patriota entusiástico, descreve o IC. A obra “Advertências em Tempos de Prosperidade”, escrita por Zheng na sua residência de Macau, que actualmente é conhecida como Casa do Mandarim, pode ser considerada como a mais influente na sociedade chinesa da época moderna.
Pequim promete apoiar Venezuela independentemente das circunstâncias internacionais Hoje Macau - 25 Set 2024 O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, assegurou ontem que a China vai continuar a apoiar a Venezuela na defesa da sua “soberania e dignidade nacional”, independentemente das mudanças no cenário internacional. “A China e a Venezuela são bons amigos e parceiros e, independentemente da mudança das circunstâncias internacionais, a China continuará a apoiar a Venezuela na defesa da sua soberania e dignidade nacional, bem como no desenvolvimento económico e social do país”, disse Wang durante uma reunião, em Nova Iorque, com o seu homólogo venezuelano, Yván Gil, de acordo com um comunicado do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Wang transmitiu as saudações do chefe de Estado chinês, Xi Jinping, e felicitou Nicolás Maduro pela sua reeleição como Presidente, uma posição que contrasta com a da União Europeia (UE), que reiterou ontem que não reconhece a legitimidade do Presidente venezuelano, segundo o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell. As declarações reafirmam a posição diplomática da UE depois de o Parlamento Europeu ter aprovado esta semana uma resolução não vinculativa que reconhece Edmundo González como o legítimo vencedor das eleições venezuelanas de 28 de Julho. “O povo venezuelano vai unir-se e ultrapassar os desafios, alcançando novos êxitos no desenvolvimento do país”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês. Amizade duradoura Gil sublinhou que, no ano passado, os Presidentes da Venezuela e da China elevaram as suas relações a uma “parceria estratégica infalível” e que este ano celebram o 50.º aniversário das suas relações diplomáticas, marcando um “momento-chave” na sua história bilateral. De acordo com o ministro venezuelano, a Venezuela é “o parceiro mais fiável da China”, empenhada em reforçar ainda mais a cooperação para benefício mútuo dos dois povos. A visita de Wang aos Estados Unidos faz parte da sua participação na 79.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, onde representará a China e procurará obter o apoio do Sul Global numa altura de fricção com o Ocidente. O ministro, que estará em Nova Iorque até 28 de Setembro na qualidade de enviado especial de Xi, assistirá também ao debate de alto nível do Conselho de Segurança e manterá reuniões com os seus homólogos do Grupo dos Vinte países mais desenvolvidos e emergentes (G20) e dos BRICS.
Líbano | Pequim denuncia “ataques indiscriminados” contra civis Hoje Macau - 25 Set 2024 O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, denunciou ontem os “ataques indiscriminados” contra civis, incluindo a vaga de explosões de equipamentos de comunicação no Líbano, num encontro com o seu homólogo libanês, Abdallah Bou Habib. “Estamos atentos à evolução da situação regional, nomeadamente às recentes explosões de equipamentos de comunicação no Líbano, e opomo-nos firmemente aos ataques indiscriminados contra civis”, declarou Wang Yi, durante uma reunião bilateral em Nova Iorque, acrescentando que Pequim “estará sempre ao lado do Líbano”, segundo um comunicado divulgado pela diplomacia chinesa. Wang Yi reafirmou o apoio da China à “soberania, segurança e dignidade nacional” do Líbano face aos recentes ataques israelitas. Condenou igualmente os recentes bombardeamentos israelitas que causaram centenas de vítimas, qualificando estas acções como uma “violação dos princípios fundamentais das relações internacionais”. O ministro dos Negócios Estrangeiros assegurou ainda que Pequim “estará sempre do lado da justiça e apoiará os seus irmãos árabes, incluindo o Líbano”, sublinhando a sua preocupação com o recente ataque a equipamentos de comunicação no país. Bou Habib congratulou-se com o apoio contínuo da China em fóruns internacionais como a ONU, sublinhando que Pequim “sempre defendeu a justiça e os direitos dos países em desenvolvimento”. O ministro libanês sublinhou que “o Líbano está a enfrentar tempos difíceis”, com mais de 300 pessoas mortas nos atentados bombistas, e espera que a China continue a promover a paz e o diálogo na região. Promover a paz A visita de Wang aos Estados Unidos insere-se no âmbito da sua participação na 79.ª Assembleia Geral da ONU, onde representará a China e procurará obter o apoio do Sul Global numa altura de fricção com o Ocidente. O ministro, que estará em Nova Iorque até 28 de Setembro na qualidade de enviado especial do Presidente chinês, Xi Jinping, assistirá também ao debate de alto nível do Conselho de Segurança e manterá reuniões com os seus homólogos dos BRICS e do G20. Wang deverá apelar novamente a um cessar-fogo em Gaza e à contenção para evitar nova escalada, no meio de uma campanha de bombardeamento israelita contra o sul do Líbano, exacerbada pelas tensões entre Israel e o grupo xiita Hezbollah. Wang já apoiou o pleno reconhecimento da Palestina na ONU e a solução de dois Estados para garantir a “coexistência pacífica” entre israelitas e palestinianos.
O nome poético de Macau em Português Ana Cristina Alves - 25 Set 2024 Ana Cristina Alves, Coordenadora do Serviço Educativo do CCCM O nome poético de Macau encontra-se ligado a grandes poetas que estiveram em Macau, como Luís Vaz de Camões (1524?-1580), com toda a certeza poética que o amor por uma Dinamene confere e confirmam os biógrafos como Eduardo Ribeiro; ou a Manuel Maria du Bocage (1765-1805), ou a Camilo Pessanha (1867-1926),ou a Manuel da Silva Mendes (1867-1931), entre outros mais recentes como António Graça de Abreu (1947-) e Carlos Morais José (1963 -). Neste espaço, gostaria de destacar os contributos para os nomes e relação com a Península de Macau de Maria Anna Acciaioli Tamagnini (1900-1933); Beatriz Basto da Silva (1944-), Manuel do Couto Viana (1923-2010); José Augusto Seabra (1937-2004); Rui Rocha (1948 -), Cecília Jorge e António Mil-Homens (1949-). Maria Anna de Magalhães Acciaioli Tamagnini, a linda princesinha da poesia escolhida para consorte de Artur Tamagnini Barbosa, deixou-nos além de obra benemérita e socialmente empenhada, uma coletânea poética intitulada Lin Tchi Fá – Flor de Lótus, publicada em 1925, cujo tema principal são as flores, humanas e naturais e, entre estas, a rainha de Macau, a flor de lótus, lin tchi fá, que na sua perspetiva simboliza esteticamente a cidade como nos revela na segunda quadra do poema “Folhas de Lótus” Sobre folhas de lótus desenhei O mais risonho trecho da cidade; E esse leve desenho que tracei Dir-se-ia uma paisagem feita em jade (Tamagnini, 1991, 15) Maria AnnaTamagnini cruza-se no tempo de vida com António Manuel Couto Viana, que nasceu em Viana do Castelo em 1923, vindo a falecer, já no século XXI em 2010. Homem multifacetado foi poeta, dramaturgo, ensaísta, memoralista e ainda se dedicou à escrita de contos para crianças. Foi também ator, encenador e empresário teatral, dirigindo a companhia especializada em espetáculos infantis, Gerifalto, bem como a Companhia Nacional de Teatro. Viveu em Macau entre 1986 e 1988, tendo exercido funções no Instituto Cultural. Entre as suas obras poéticas, gostaria de destacar Até ao Longínquo China Navegou (1991), sobretudo pelo primeiro capítulo, intitulado “Nome de Deus Deusa no Nome”, dedicado a Macau, incidindo os restantes sobre a China, a Formosa, o Sião (Tailândia) e o Reino da Malásia. Com ele, se acompanha “Um Sabor a Saudade”, que a terra lhe deixou, bem como a dedicatória ao nome central da literatura macaense, Henrique de Senna Fernandes, através do poema “A-Li a Tancareira”, que recorda as raízes piscatórias de Macau e dos seus habitantes, muitos deles, da etnia Tanga (蛋家Dànjiā), vivendo em pequenas embarcações, os tancares, oriundos das zonas ribeirinhas de Cantão, Fujian e Guangxi. O autor apresenta a tancareira “Como a descer sem pressa/ Ao túmulo impassível do passado” (Viana, 1991,21). Num outro poema, dedicado a João Sales e à Cidade, confessa-se totalmente identificado, sobretudo com a história da terra, “Na Pousada de Mong Há”, cuja derradeira quadra é deveras tocante: Memorial de mim em cada muro Grava os versos do fim em que me vês: - Aqui viveu enquanto foi futuro, O último poeta português! (Viana, 1991, 23) Após um outro poema à Festividade da Lua, intitulado “Na Lua do ‘Bate-Pau’” em homenagem ao Padre Benjamim Videira Pires,S.J.(não consigo deixar de me interrogar sobre o que saberia da biografia do Padre), segue-se um soneto em honra da festividade do Ano Novo Chinês, intitulado “Kong Hei Fat Choi” (saudação à prosperidade) soprado pelos ventos de mais uma primavera. O último terceto encerra num desabafo tocante, onde se patenteia e entrelaça o seu sentir pessoal com o do inconsciente coletivo de muitos portugueses e macaenses da sua geração: Foi-se-me o tempo e a arte. O que me resta? Teu coração, Macau, pra fim de festa, No ano que começa e me acabou. (Viana, 2010,27) Para muitos dos nossos compatriotas mais antigos, Macau tem ainda um sabor imperial de conclusão de ciclo, a par de Timor. Porém, Macau é um caso único. A Cidade do Nome de Deus, que haverá de se transformar-se na Região Administrativa Especial da China, foi entregue aos chineses de um modo exemplar, sem sobressaltos nem guerras; simultaneamente marca o fim de uma era europeia, a partir da qual já não são admissíveis colónias. Desta forma, encerra um período histórico, feliz para os que se identificavam com imaginação de que Portugal ia de Lisboa a Timor, sendo igualmente reconfortante para o eu poético que tanto se identificou com o lugar a ponto de lhe sentir o bater do “coração” em período de desfecho, por osmose. Beatriz Basto da Silva (1944 -), casada com um macaense, historiadora, professora, poetisa portuguesa, nesta última qualidade o que diz sobre o tema da transição de Macau para a China em Silêncios (1996), no poema “Macau 99”? Tenho os olhos rasos de angústias futuras por isso me parece tudo paisagem de nocturno e final canto… infiel é o Sol que deixou de vir em cada dia aquecer-me como dantes fazia. (Silva, 1996, 59) Ensombra este poema datado de 1991 um grande pessimismo, impregnado de sentimento desagradável frio e de fim de história, pelo menos imperial, porque, entretanto, Macau continuou o seu caminho e hoje, mesmo os mais pessimistas reconhecem que sobreviveu de novo aos imprevistos da história. Passou de mãos, mas está vivo, próspero e sempre em transformação. É mesmo um caso exemplar de encerramento feliz, ainda que deixando um travo nostálgico em muitas pessoas que na última década do século XX não podiam prever o que as esperava. Foi um mistério até deixar de o ser. Perdeu-se o império, ficou o sagrado colado ao nome de Macau, como bem notou o professor, ensaísta e poeta José Augusto Seabra (1937- 2004), nascido em Vilarouco, São João da Pesqueira. Licenciado em Direito, conheceu o exílio em França, doutorando-se em letras na Sorbonne. Regressado a Portugal em 1974, faz o seu caminho no ensino até chegar a professor catedrático na Faculdade de Letras do Porto e diretor literário da revista portuense Nova Renascença. Também sentiu e ressentiu o passado histórico, o sonho de grandeza e a perda traumática do império, bem psicanalisada por Eduardo Lourenço em Labirinto da Saudade (1972). Poemas do Nome de Deus (《神的名字》) é uma obra bilingue de 1990, onde se lê em jeito de breve e incisiva introdução/inscrição pela boca do autor que vamos entrar na leitura de “um livro de Amor, Terceira Pessoa da Trindade. Amor com todas as letras, elevado ao infinito, em rigor indizível” (1990,13). Desta forma, tudo o é dito na obra surge filtrado por este sentir, mesmo a saudade, o sentimento de perda e todos os outros parceiros negativos que costumam acompanhar estes dois. No poema da abertura “Do Nome” vislumbramos o movimento dos nautas pelos mares reais e imaginados até alcançar o horizonte do afeto pleno pela cidade: De vir chegando, ao longo de ficar mais perto do partir, atravessando o lugar infinito de não estar na presença a fugir do onde ou quando que é só pura memória de chegar, eis quase no horizonte o sinal pando a tremular ao sol de nau em nau: o teu nome sem nome, Ó Deus, Macau. (Seabra, 1990, 15) Aventureiros do ideal, como é dito no poema sugestivamente intitulado “Dos Nautas”, são “(…) os nautas perdidos/ dando três vezes a volta às margens do vago,/imaginando (…) (Seabra, 1990, 75). Ainda assim, para a história mundial fica uma certeza científica no meio de tanta paisagem onírica, apresentada em “Da Rota”. Esta é com todo o estudo e merecimento “a glória de sabermos/ a rota da viagem” (Seabra, 1990, 77). A relação amorosa do eu poético com a cidade é totalmente justificada no mistério do nome de Deus, afeto proporcionado não apenas pela terra como ainda pela palavra sagrada da pátria, em “Da Lealdade”: Ó pátria da palavra dada: pátria amada que da pátria resguarda a palavra sagrada. (Seabra, 1990, 33) 真實 嘔,語詞的國度 被賦予的稱呼:可愛的國度 從這個國度 保護神聖的詞匯 (Tradução de Lu Ping Yi 吕平義) Que belo elogio à “Cidade do Nome de Deus, não há outra mais leal”. O amor verdadeiro surge assim do mistério, aliado ao reconhecimento da virtude da lealdade, pois se foram os portugueses os primeiros a chegar a Macau, era justo que nenhuma outra bandeira fosse hasteada a não ser a portuguesa, mesmo quando “se mudam os tempos e as vontades”, bem como as alianças que provocam alterações no panorama político com consequências dinásticas. Retém José Augusto Seabra os momentos mais belos e significativos da história de Macau, sem, no entanto, esquecer o papel humano dos portugueses, vagabundando num panorama onírico em que por vezes conseguiam concretizar os seus sonhos, sobretudo quando recorriam à perícia tecnológica e ao pensamento científico. Já em pleno século XXI, transição concluída da Cidade do Nome de Deus para a Região Administrativa Especial de Macau, serão os sentires poéticos talvez outros, a par dos novos tempos, tornando-se mais concretos e laicos? Rui Manuel de Sousa Rocha (1948 -) nasceu em Lisboa, de ascendência portuguesa e macaense. Foi habitante de Macau por três décadas, onde desempenhou o cargo de diretor do Instituto Português do Oriente, convivendo de perto e em harmonia com as culturas e poesias chinesa e japonesa, oriundas do Budismo Chan (Zen). Na obra poética A Oriente do Silêncio (2012) enquadra lucidamente Macau numa “China antiga”, imperial, na qual o governante se ligava diretamente às forças celestiais através do “mandato do céu” (Rocha, 2012, 11) até ao momento da despedida, num poema cujo título é substituído por uma data “Macau, 20 de dezembro de 1999”, em que sobressai o desejo de partir, acompanhado pelo movimento de diáspora. Aqui fica a primeira estrofe: para que o tempo não fuja como uma pérola na ponta de um fio para que o amor não naufrague nas noites escuras dos mares da china colarei o meu corpo a um qualquer mapa dos lugares por onde andares e elevarei o meu coração sobre os céus desses lugares. (Rocha, 2012, 101) Ficar e acompanhar os novos tempos, pautados por uma nova administração, ou partir, encetando um outro caminho de vida, mais uma aventura? Tomar qualquer das opções implica coragem e muita energia, mas se as decisões forem realizadas em nome do amor, isso ajuda. Fique-se ou parta-se por sentimento, porque depois, haja o que o houver, que seja em nome da melhor das causas, “para que o amor não naufrague”. Cecília Jorge, macaense, de famílias antigas da terra, foi jornalista e investigadora muito ativa na cultura de Macau, tendo partilhado com Rogério Beltrão Coelho, português com quem é casada, uma editora, a dos Livros do Oriente. Tem várias obras consagradas ao encontro de culturas, ponto essencial da identidade cultural macaense, concentrando-se em muitas delas na apresentação da matriz chinesa de Macau. De regresso a Portugal, trouxe na bagagem entre os diversos títulos publicados, um livro de poesia dedicado a Macau, Poemas para Macau (2020), no qual vai descrevendo em verso o encontro de culturas como o mais típico da identidade macaense, tantas vezes unida nos corpos e dividida nas mentes de quem transporta muitas matrizes diferentes, sendo duas mais evidentes, a portuguesa e a asiática. São muitas as interrogações de quem se sente puxado por diversos lados, como nos explica em “Mestiçagem”, de que aqui se registam alguns versos, datados de 1991: Quem sou? Donde venho? De que lado do mundo? E para onde vou? Quanto sangue se misturou até me chegar às veias confuso? (…) Corsário reinol…aventureiro antepassado e pai foste e num abraço me geraste no ventre de mãe asiática (Jorge, 2021, 31) Há então um momento em que chega a hora da partida, justificado pela desidentificação com a cidade contemporânea, onde o eu poético, apesar das suas raízes asiáticas não consegue encontrar o conforto de um espaço idêntico ao das suas memórias de infância e de adolescência, como se lê no poema “Macau” Poema que (mal) escrevo lápis e papel virtual em cada noite de insónia memórias que se perdem no despertar desta urbe travestida que se arrasta que grita (Jorge, 2021,36) É o sinal da partida, com a consciência de que no caminho seguirá consigo “a humana partilha/solidariedade/e amizade” (Ibidem), perto ou longe, será transportada até Macau pelo afeto macaense em torno de uma chávena de chá, pelo que afirma em “Lembra-te da cor do ‘mar’”, poema datado de 1991 Macaenses nossa gente Ainda que em volta de uma só taça de chá. (Jorge, 2021, 47) Se em Maria Anna Tamagnini é-se conduzido até Macau belíssimo espaço de jardim, já com António Manuel Couto Viana se sente vibrar na sua obra a dimensão histórico-poética, não apenas do eu poético, mas do povo português, sendo este domínio aprofundado por José Augusto Seabra, que lhe confere uma aura amorosa sagrada e consagrada pela palavra, da terra e dos seus virtuosos habitantes, empenhados na sua lealdade. A complementar a zona onírica, surgem os depoimentos poéticos muito reais e saudosos de Beatriz Basto da Silva e Rui Rocha. Este último, com Cecília Jorge, acentua o momento histórico da viragem de macaenses que optaram pela diáspora. Em Cecília Jorge a partida será realizada sem nunca perder de vista a dimensão comunitária da partilha de raízes em torno dos momentos festivos, sempre acompanhados pela gastronomia, hoje património cultural da humanidade, culminando numa simples chávena de chá. Macau espaço de convívio físico, mas também espiritual, será cantado ainda em Poemografia de Macau (2019), na obra trilingue mais recente de António Duarte Mil-Homens (1949-), com prefácio do atual embaixador Vítor Sereno, à época cônsul de Macau. Este poeta é profissional de fotografia desde 1984, cuja atividade iniciou em 1974, tendo vivido por longo tempo no território, onde exerceu a profissão e a par desta começou a desenvolver a faceta poética. Regressado de Macau, trouxe consigo a sua Poemografia da terra, na qual perpassa o sentir de muitos portugueses que fizerem deste porto abrigo temporário. Para o eu poético nos primeiros versos de “Macau é seio” a terra é a mãe dadivosa, que o alimentou e lhe permitiu a existência, em tempo de migração a que poderia sucumbir: Macau é seio Macau é ventre Macau é mudança, (Mil-Homens, 2019,26) Ao longo da Poemografia, percebe-se o quão único é aquele pequeno espaço, com a China logo ali ao lado, mas separado, por uma ligeira fronteira, como explica em “Portas do Cerco”, o posto transfronteiriço sucessor do muro erguido pela primeira vez em 1573 a dividir Macau e a China em “A entrada noutro mundo/outra lei” (Mil-Homens, 2019,34). E, ainda hoje, depois da criação da Região Administrativa Especial de Macau, formalizada na transferência de poderes a 20 de dezembro de 1999, se verifica a existência de uma Lei Básica de Macau, que alinha em muitos pontos pelo direito português e garante um estilo de vida ocidental à população por cinquenta anos, ou seja, até dezembro de 2049. Porém, é no encontro dos sentidos com um espaço radicalmente outro que o fotógrafo/poeta se sente desperto na certeza de que este lhe faculta o acesso a um mundo diverso. Leiam-se as suas palavras em “Nesta Macau me endoido”: Nesta Macau me endoido, Neste retiro me mereço Neste covil me entesoiro E sem querer me esqueço. (Mil-Homens, 2019, 84) Porém, só por breves momentos se esquece da sua herança portuguesa, já que a memória imagética e fotográfica é constantemente avivada pela presença do património histórico e afetivo português, como se lê em “Molhada, esta calçada portuguesa” (Mil-Homens, 2019, 88). Sofre ainda fisicamente de um sintoma que o recorda da presença em terra não estranha, mas em transformação frenética, distante do seu sossegado país. Nela se mantém constantemente ativo, estimulado, vigilante, por causa “Desta Macau que me provoca/ Insónia prenhe, vontade pouca/ De desligar, de adormecer” (Mil-Homens, 2019, 92). Constata que em terra oriental chinesa e de Macau muito mais é o vivido imaginado do que o real, num mapa disperso, impressionista criado pelos sentidos no seu confronto com uma cultura distinta, que dá origem a uma esplendorosa geografia mental, como sugere “Nesta geografia/sem mapa” (Mil-Homens, 2019, 102). Assim, o seu sentir é confuso, regozijante, atento à procura de uma resposta existencial, como declara em “Exílio ou opção”: Mantido à tona Desta demanda Em comunhão? Aqui Macau, Além China, Almejo ainda salvação… (Mil-Homens, 2019, 105) Macau é durante parte do caminho a resposta existencial certa para o eu poético, pelo menos até ao momento da despedida: não física, mas mental. Porque se o sinal de partida foi dado e o poeta regressou Portugal: Não sei onde te encontrar, Procuro onde me rever, Em torno tudo a mudar, A velha Macau a morrer (Mil-Homens, 2019, 142) isso não significa que tenha de facto abandonado aquele espaço que lhe proporcionou a vida, ou melhor, a energia para continuar a viver, já que afirma em “Irei reinventar-te no regresso” a incapacidade de esquecer a terra que o viu nascer como pessoa e agora, longe, renascer: Da memória já renasces, Como se naufragado tivesses, Macau E, à vista do que recresce, Me condenes ao redito, Da água brotando do Lilau. (Mil-Homens, 2019,122) 澳門, 你從記憶裏重生, 就如曾遭遇海難。 而審視再次生成的東西, 你會逼我重新描述, 阿婆井流出的水。 (Tradução de Xu Caiyan 徐彩燕, 2019,124) E como se diz de quem bebeu da água dessa Fonte do Lilau nunca mais esquece Macau, também António Mil-Homens, à semelhança de todos os outros poetas e poetisas aqui trazidos, ficará para sempre ligado à misteriosa e sagrada Terra do Nome de Deus. Bibliografia Jorge, Cecília. 2021. Poemas para Macau. Prefácio de Vera Borges. Macau: Livros do Oriente. Mil-Homens, António Duarte. 2019. Poemografia de Macau. Macao Poemography. 《澳門詩像》.Macau: Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau. Rocha, Rui. 2012, A Oriente do Silêncio. Lisboa: Esfera do Caos Editores. Seabra, José Augusto. 1990. Poemas do Nome de Deus. 《神的名字》Macau: Instituto Cultural de Macau. Silva, Beatriz Basto. 1996. Silêncios. Macau: Edições Mar-Oceano. Tamagnini, Maria Anna Acciaioli. 1991. Lin Tchi Fá. Flor de Lótus. Macau: Instituto Cultural de Macau. Viana, António Manuel Couto. 1991. Até ao Longínquo China Navegou. Macau: Instituto Cultural de Macau.
DSAMA | Ex-subdirector condenado após absolvição Hoje Macau - 25 Set 2024 Vong Kam Fai, antigo subdirector dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) foi condenado a uma pena de um ano e meio de prisão pelo crime de corrupção passiva para acto ilícito, pelo Tribunal de Segunda Instância (TSI). A sentença foi revelada na segunda-feira através de um comunicado do Gabinete do Presidente do Tribunal de Última Instância, depois do recurso do Ministério Público ter sido aceite. No julgamento de 2021, Vong Kam Fai, Kuok Kong Wa, ex-chefe de departamento, e Kuok Wang Ngai, ex-funcionário da DSAMA, tinham sido absolvidos, mas o MP recorreu da decisão. Agora, Kuok Kong Wa vai cumprir uma pena de um ano e seis meses de prisão e Kuok Wang Ngai vai cumprir a pena de dois anos de prisão, por terem sido considerados culpados do crime de corrupção passiva para acto ilícito. Sem alterações, ficaram as condenações anteriores de Tong Vun Ieong, chefe de divisão DSAMA, e Lao Weng U, ex-chefe de divisão da DSAMA, a dois anos e seis meses de prisão efectiva, pela prática de um crime de corrupção passiva para acto ilícito. Em causa, está a renovação de um contrato de dragagem por ajuste directo à empresa China Overseas, junto à Central Térmica de Coloane, avaliado em cerca de 38 milhões de patacas e com a duração de seis meses. O caso não tem corruptores activos, apesar de ter sido dado como provado que houve funcionários da empresa estatal chinesa a entregar presentes, como malas de luxo, aos funcionários da DSAMA.
Semana Dourada | Mais de um terço dos hotéis de luxo esgotados João Luz - 25 Set 2024 No início da semana, mais de um terço dos hotéis de luxo de Macau já tinha lotação esgotada para a semana dourada de Outubro. Os preços dos quartos ainda disponíveis nos hotéis do Cotai rondam mais de 4.000 patacas por noite. Governo espera a entrada de 100 mil turistas por dia durante os feriados Na segunda-feira, mais de um terço dos hotéis de luxo de Macau já não tinha quartos (para um máximo de duas pessoas) disponíveis para os dias da Semana Dourada de Outubro, ou seja, o período de feriados no Interior da China que vai de 1 a 7 de Outubro. Segundo apurou o portal GGR Asia, na segunda-feira 13 das 33 unidades hoteleiras de luxo, a maioria localizadas nos resorts integrados do Cotai, tinham todas as setes noites dos feriados que se avizinham, para os quartos normais para duas pessoas. A mesma fonte cita entre os hotéis esgotados para as sete noites o Grand Lisboa, Wynn Macau, MGM Macau, M Tower do MGM Cotai, Galaxy Hotel, Banyan Tree Macau, Hotel Okura Macau, JW Marriott Hotel Macau, The Ritz-Carlton, o Raffles do Galaxy Macau, Londoner Court, Sheraton Grand Macao e The Grand Suites do Four Seasons. Entre as unidades hoteleiras que na segunda-feira já tinham, pelo menos, três noites esgotadas contam-se a Emerald Tower and Skylofts do MGM Cotai e o Wynn Palace. Apesar de ainda terem quartos disponíveis, mas a sinalizar lotação esgotada face à procura estavam os hotéis Nüwa no City of Dreams Macau e a Star Tower do Studio City, Andaz Macau, Venetian Macao, Parisian Macao, St Regis Macao, The Londoner Hotel, Conrad Macao e o Four Seasons Hotel Macao. Quem dá mais Para os quartos ainda disponíveis no Cotai durante as setes noites da Semana Dourado de Outubro, os preços são superiores a 4.000 patacas, sem contar com taxas e serviços adicionais. Porém, no dia mais procurado, a meio do período de feriados, os quartos disponíveis para duas pessoas ultrapassam as 5.000 patacas por noite. Recorde-se que o Governo estimou que Macau venha a registar uma média de 100 mil entradas de turistas por dia entre 1 e 7 de Outubro, números que a verificarem-se significam uma descida em relação à média diária de 116.000 turistas no mesmo período do ano passado. A estimativa da Direcção dos Serviços do Turismo pode ser conservadora, tendo que em Agosto entraram em Macau mais de 3,6 milhões de visitantes, o que representou uma média diária de quase 118.000 turistas.
Hong Kong | Taxistas querem câmaras iguais a Macau Hoje Macau - 25 Set 2024 A Associação de Concessionários e Proprietários de Táxis, de Hong Kong, considera que os taxistas da RAEHK concordam com a instalação de “um sistema inteligente” nas viaturas, como acontece em Macau. Este é um sistema que permite captar som e imagens dentro dos táxis, que depois podem ser utilizados em tribunal contra os taxistas ou clientes, no caso de haver suspeitas de crimes. O sistema também inclui um mecanismo de geo-localização, que permite visualizar o percurso realizado pelas viaturas. Num programa da Rádio Televisão Hong Kong, o presidente permanente da associação, Ng Kwan-shing, justificou o apoio com o novo sistema de pontos para controlar as infracções dos taxistas, que entrou em vigor no domingo. Ng indicou que existe medo entre os taxistas que os clientes abusem do sistema, pelo que encaram as gravações como uma protecção.
Prisão | Guardas queixam-se de horas de formação não pagas João Luz e Nunu Wu - 25 Set 2024 Depois do horário de trabalho, os guardas prisionais estão a receber formação a pensar na abertura do novo estabelecimento prisional. Segundo queixas recebidas pelo deputado Che Sai Wang, desde Junho cada funcionário participou em, pelo menos, três formações de duas horas e meia, sem qualquer remuneração A entrada em funcionamento do novo estabelecimento prisional está a afectar a vida dos guardas prisionais, segundo uma interpelação escrita divulgada ontem por Che Sai Wang. O deputado ligado à Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) denunciou a situação vivida por guardas prisionais que são obrigados a frequentar acções de formação fora do horário de trabalho, sem serem remunerados. O deputado indica que a formação começou em Junho e que cada funcionário foi a, pelo menos, três sessões com duas horas e meia cada. Os conhecimentos transmitidos aos guardas visam prepará-los para a entrada em funcionamento do novo estabelecimento prisional, que deverá abrir no fim do ano em Ká-Hó. Na sexta-feira, a Direcção dos Serviços Correccionais revelou ter concluído a primeira fase da “mudança das instalações de todas as subunidades administrativas” para as novas instalações. Aliás, o endereço postal da prisão já foi alterado. Quanto às acções de formação, o deputado sugere ao Governo que sejam ministradas durante o horário de trabalho ou que sejam pagas como horas extra. Che Sai Wang considera que a situação actual prejudica o tempo de descanso dos funcionários, assim como os seus direitos laborais, e pode ser contraproducente para a eficácia da própria formação. Sagrado descanso Além disso, o deputado refere que os sucessivos atrasos na entrada em funcionamento da nova prisão também devem ter contribuído para a situação e que recentemente os guardas prisionais foram impedidos de tirar férias para estarem disponíveis durante o período de preparação para a abertura do estabelecimento. “O moral dos guardas prisionais foi seriamente afectado, os planos de viagens ou visitas familiares tiveram de ser cancelados e, ainda por cima, são obrigados a trabalho extraordinário não remunerado”, conclui, acrescentando que estes factores contribuem para o cansaço físico e psicológico. Outra situação que merece reparo, é o que o deputado designa como horas extra invisíveis, referindo-se ao tempo que os funcionários dedicam do seu tempo livre a responder a emails e mensagens ou a participar em reuniões de trabalho online, mais uma vez sem compensação.
Finanças | Assinado memorado com Hong Kong, Shenzhen e Cantão Hoje Macau - 25 Set 2024 Partilha de informação fiscal, disponibilização de serviços de pagamento de impostos conjuntos e formação de quadrados qualificados. Estes são três dos temas que constam de um memorando de entendimento sobre assuntos fiscais, assinado ontem entre Macau, Hong Kong, Shenzhen e a província de Cantão. Embora o conteúdo do documento não tenha sido tornado público, nem o impacto do mesmo explicado, a Direcção de Serviços de Finanças (DSF) afirma, através do comunicado emitido ontem, que se trata do “início de uma nova era em matéria de cooperação fiscal”. Além da partilha de informação, formas de pagamento conjuntas e quadrados qualificados, o memorando define também como via para o futuro a “intensificação da cooperação na área de administração fiscal”. As quatro partes acordaram também a criação de “um regime de ligação” e “realizar periodicamente reuniões conjuntas”, sobre assuntos tributários internacionais. “O memorando de cooperação constitui não apenas uma demonstração da cooperação entre as autoridades fiscais, mas igualmente um passo importante para a progressão do desenvolvimento económico regional”, foi considerado pela Direcção de Serviços de Finanças. A parte de Macau deixou ainda a esperança poder “de mãos dadas” ultrapassar os desafios no futuro. “À medida que as circunstâncias exijam mutações, seja por mudança do ambiente económico global, seja por evolução continuada das políticas fiscais, as autoridades fiscais das diversas regiões vão ter de ultrapassar, de mãos dadas, os desafios e impulsionar, em conjunto, o desenvolvimento sustentável da economia”, foi indicado.
Banca | Centeno defende reforço da cooperação internacional Hoje Macau - 25 Set 2024 O governador do Banco de Portugal (BdP) acredita que os bancos centrais podem beneficiar “ainda mais” do reforço da cooperação, numa altura de grandes tensões geopolíticas O governador do Banco de Portugal (BdP), Mário Centeno, defendeu que os bancos centrais dos países lusófonos podem “beneficiar ainda mais” da cooperação, que descreveu como vital numa altura de grandes tensões geopolíticas. “Podemos beneficiar ainda mais do trabalho em rede e do conhecimento diferenciado que reside em cada uma das nossas instituições”, disse Centeno, de acordo com o canal em português da televisão pública Teledifusão de Macau (TDM). Centeno falava durante a segunda Conferência dos Governadores dos Bancos Centrais e dos Quadros da Área Financeira entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que decorreu na segunda-feira em Macau. O economista sublinhou “a fluidez institucional” no quadro dos bancos centrais lusófonos, os benefícios de uma língua comum e “a multiplicidade de realidades” em que os vários países estão inseridos. Centeno disse que “foi exactamente a ligação profunda e histórica com países de língua oficial portuguesa que moldou a cooperação” do BdP, que já incluiu mais de 3.400 iniciativas desde 1991. Num espaço de mais de 30 anos, o governador destacou como “um dos casos mais emblemáticos (..) para a estabilidade macroeconómica e financeira” o Acordo de Cooperação Cambial entre Portugal e Cabo Verde, assinado em 1998. Tratado histórico O acordo levou ao estabelecimento de uma taxa de câmbio fixa entre o escudo de Cabo Verde e o escudo de Portugal, uma ligação que se manteve quando Portugal aderiu à moeda europeia, em 2002. Um estudo do BdP publicado em 2020 concluiu que o acordo permitiu a Cabo Verde dar credibilidade à sua política monetária e fazer convergir a inflação para níveis próximos aos da zona Euro. Centeno sublinhou como a cooperação internacional é “tão importante para reforçar a confiança mútua entre os povos”, sobretudo “num momento em que assistimos a significativas tensões” e “crescente fragmentação geopolítica”. “Sem cooperação, algumas respostas de políticas seriam impossíveis. Sem cooperação, os desequilíbrios transformam-se inevitavelmente em tensões regionais e com implicações geopolíticas”, alertou o governador. O economista recordou ainda “a dimensão supranacional dos desafios” que os reguladores enfrentam, dando como exemplo as alterações climáticas e a prevenção do financiamento do terrorismo ou do branqueamento de capitais. Durante o evento, a Autoridade Monetária de Macau assinou o primeiro acordo de partilha de informação com o Banco Central do Brasil e firmou novos acordos com o Banco de Moçambique e com o Banco de Cabo Verde. Também a Associação de Bancos de Macau assinou acordos de cooperação com a Associação Moçambicana de Bancos e a Associação Santomense de Bancos.
Lo Choi In defende melhores condições para os junkets face a competição regional João Santos Filipe - 25 Set 2024 Face à competição regional e às dificuldades dos promotores de jogo, Lo Choi In defende que é necessário alterar a lei da actividade de exploração de jogos de fortuna ou azar em casino. O diploma entrou em vigor em 2022, mas a deputada ligada à comunidade de Jiangmen espera que o Governo apresente uma proposta de alteração, devido à “evolução das condições da economia”. “Nos dias de hoje, em que a concorrência na indústria do jogo surge em todas as partes da Ásia, o Governo, para manter as vantagens da indústria, deve considerar tirar partido das vantagens dos promotores do jogo, criar condições mais favoráveis para estes desempenharem as suas funções e utilizá-los para expandir o número de clientes estrangeiros”, defende Lo Choi In, numa interpelação escrita. Como parte das alterações, Lo considera que o Governo deve autorizar os junkets a expandirem as suas fontes de rendimentos, além das comissões limitadas por lei, e sugere o pagamento pela exploração de slot machines. Com as novas receitas, a deputada acredita que os junkets poderiam ter outros meios para atrair mais estrangeiros a virem a Macau jogar. Penalizações elevadas Lo avisa igualmente que os promotores estão actualmente sujeitos ao pagamento de multas entre 100 mil patacas e 500 mil patacas, quando exercem funções sem o cartão de autorização da concessionária. A deputada pede uma revisão da penalização, por considerar que é demasiado elevada e que foi definida tendo em conta o contexto anterior a 2022, quando os junkets tinham rendimentos incomparáveis com os dias de hoje. Na mesma interpelação, Lo Choi In pergunta ainda ao Governo como estão os planos para que os sistemas de promoções das concessionárias possam ser utilizados fora dos casinos e hotéis. Quando os jogadores acumulam pontos, ao consumir nos casinos, obtêm descontos que podem ser utilizados e comida, compras ou alojamento. Dada a situação complicada no norte da cidade, devido ao aumento do consumo no Interior, com a maior integração económica, têm sido sugeridos planos para que os descontos das concessionárias sejam estendidos ao comércio local na cidade, para ajudar as PME.
Economia | Pedidas medidas ao Governo de apoio ao crédito João Santos Filipe - 25 Set 2024 O acumular do crédito malparado durante os últimos meses e o incumprimento no crédito à habitação, levou a deputada da Associação das Mulheres, Wong Kit Cheng, a pedir ao Governo para explicar as medidas de apoio disponíveis, numa situação em que o risco ameaça ser sistémico A deputada Wong Kit Cheng pretende que o Governo explique que medidas estão a ser equacionadas para apoiar as famílias, Pequenas e Médias Empresas (PME) e bancos devido ao aumento do incumprimento do pagamento do crédito. O alerta e pedido de implementação de medidas é deixado através de uma interpelação escrita, publicada no portal da Assembleia Legislativa. Na sequência da subida dos juros nos últimos anos e do aumento do incumprimento dos empréstimos, a deputada espera que o Governo assuma o controlo da situação, e permita a quem contraiu dívidas condições mais favoráveis no reembolso dos créditos. O pedido é feito depois de terem chegado ao fim as medidas favoráveis de reembolso dos créditos aprovados durante a pandemia, tanto para PME como para residentes no acesso ao crédito à habitação e outros. “Dado que alguns residentes, proprietários de imóveis e de PME atravessam dificuldades financeiras, face ao atraso na recuperação pós-pandemia, como é que o Governo vai apoiar os bancos, para estes prolongarem as medidas de suspensão de pagamento de juros sobre os créditos”, pergunta Wong Kit Cheng. A deputada defende também que o prolongamento do não pagamento de juros seria uma ajuda para os residentes ultrapassarem o que definiu como “tempos difíceis”. Wong justifica ainda o cenário actual com o que diz ser uma recuperação desigual da economia. “Macau tem vindo a recuperar de forma constante após a pandemia, mas a recuperação é desigual entre zonas e sectores, e muitos proprietários de empresas e residentes ainda atravessam uma situação em que têm rendimentos reduzidos”, apontou Wong. “Este facto, associado às subidas das taxas de juro dos últimos anos, levou a um aumento súbito da pressão sobre o reembolso dos créditos. E embora haja esperanças que o período do aumento das taxas de juro tenha terminado, vai ser preciso esperar pelas respectivas reduções para que a situação melhor”, justificou. “É difícil apagar um incêndio que está demasiado perto de casa”, vincou. Cenário alarmante De acordo com a legisladora, que cita os dados de Julho da Autoridade Monetária de Macau, o rácio do crédito malparado das PME no sector bancário de Macau atingiu a proporção de 4,7 por cento. Esta percentagem significa que 4,7 por cento do total do montante emprestado como crédito pelos bancos não está a ser pago. “O aumento do rácio do crédito malparado no sector bancário significa que há mais empresas que não conseguem pagar os seus empréstimos, o que mostra um certo grau económico”, alertou a deputada. Wong mostra-se ainda mais preocupada quando compara a situação com a realidade do Interior, onde o rácio do crédito malparado no sector bancário não foi além de 1,61 por cento em Julho, apesar das conhecidas dificuldades no sector imobiliário. Também em Hong Kong, o valor foi de 1,79 por cento, neste caso referente aos primeiros três meses do ano. A situação do crédito à habitação não é muito diferente, com a taxa de incumprimento a atingir 4,1 por cento em Julho, quando há cerca de um ano não ia além dos 0,5 por cento. Wong Kit Cheng alerta que o aumento do incumprimento coloca “certos riscos” para a banca. “Se olharmos para o aumento do rácio de crédito malparado, o aumento da taxa de incumprimento dos empréstimos hipotecários residenciais e dos empréstimos imobiliários, observamos que há certos riscos para o sector bancário. Como é que o Governo vai ajudar os bancos a enfrentarem este risco?”, questiona.
Clima | Sugerida criminalização de ligações ilegais de esgotos Andreia Sofia Silva - 25 Set 2024 Um relatório recentemente divulgado pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos prevê que, até final deste século, Macau irá registar um aumento da precipitação e subida do nível do mar. O arquitecto Mário Duque propõe a criminalização de ligações ilegais de esgotos para tentar minimizar o impacto Segundo uma projecção apresentada recentemente pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), com base no sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), prevê-se não só a subida de precipitação em termos globais como da altura do nível do mar, isto entre o meio e o final deste século. Sendo assim, que respostas podem ser dadas em termos urbanísticos? O arquitecto Mário Duque tem-se debruçado sobre esta matéria em alguns artigos de opinião e, em resposta ao HM, sugere, por exemplo, a criminalização de todas as ligações ilegais de esgotos que, em época de tufões e subida do nível das águas, podem causar inúmeros estragos. Tendo em conta que “as circunstâncias que convergem para inundações na RAEM não são possíveis resolver em absoluto, ou definitivamente, importa medidas de adaptação para que os habitantes da cidade convivam com situações de inundação, mantendo-se funcionais e sem danos”. Assim, deve-se, no entender do arquitecto, “fiscalizar e penalizar como crimes contra o ambiente e a saúde pública todas as ligações privadas de esgotos domésticas feitas ilegalmente a redes pluviais”, devendo-se ainda “substituir todas as redes antigas de esgoto unitário”. Este tipo de esgoto, que existe no território, conjuga infra-estruturas de esgotos domésticos com pluviais, e, segundo Mário Duque, ainda funciona em muitas casas e fracções nas zonas mais baixas do território. Chuvas fortes Divulgado no passado dia 11 de Setembro pelos SMG, o relatório IPCC traça algumas conclusões preocupantes no que diz respeito ao futuro do território na sua relação com a água. “Estima-se que a temperatura global de Macau entre o meio e o fim do século XXI irá continuar a subir”, sendo que “os eventos climáticos de temperaturas elevadas tornar-se-ão mais frequentes”, e que “a precipitação global e a altura do nível do mar em Macau também vão sofrer alterações”. As autoridades estimam a ocorrência de crescentes cenários de “precipitação extrema”, e que “num cenário de emissões intermediárias, a precipitação anual e a precipitação máxima diária anual em Macau, em meados do século XXI, entre os anos de 2041 e 2060, irão aumentar cerca de 8,3 e 5,8 por cento, respectivamente”, em relação aos valores médios registados entre 1995 e 2014. Além disso, “num cenário de emissões muito elevadas, a precipitação máxima diária do ano no final do século XXI”, já para os anos de 2081 a 2100, “vai aumentar cerca de 30 por cento, reflectindo um aumento significativo da precipitação extrema”. O mesmo estudo acrescenta que “seja qual for o cenário do século XXI, a altura do nível do mar em Macau vai aumentar”, sendo traçadas várias previsões. “Num cenário de emissões intermediárias, em meados do século XXI (2041-2060), a altura do nível do mar em Macau vai aumentar cerca de 0,31 metros em relação aos valores médios de 1995 a 2014, e no final do século XXI (2081 a 2100), está projectado um aumento de cerca de 0,64 metros”, pode ler-se. Assim, indica o relatório, “é previsível que a subida do nível do mar venha a agravar o impacto das marés astronómicas e do ‘storm surge’ em Macau”. O documento destaca o lado universal destas mudanças, pois “à medida que o aquecimento global no século XXI se intensifica e a frequência de fenómenos meteorológicos extremos aumenta significativamente em todo o mundo, Macau vai enfrentar também problemas relacionados com as alterações climáticas, tais como temperaturas elevadas, aumento da precipitação extrema e subida do nível do mar”. Almeida Ribeiro é exemplo Perante estas previsões, os SMG defendem que cabe à população e sociedade adoptar uma série de medidas com base nos quatro pilares que norteiam os “Alertas antecipados para todos”, da Organização das Nações Unidas. São eles a “consciencialização e conhecimento sobre catástrofes e riscos”, a “observação e previsão”, “a preparação e capacidade de resposta” e também a “divulgação e comunicação de informações”. Tudo para que se possa “elevar a capacidade de resposta a desastres meteorológicos e enfrentar conjuntamente os desafios globais, tais como as alterações climáticas e os desastres naturais”. Os SMG sugerem, ainda o reforço do “intercâmbio e a cooperação com os serviços públicos e entidades privadas e promover a generalização da educação meteorológica”. Para Mário Duque, é também importante que “a forma urbana esteja vocacionada para admitir e canalizar ar através do espaço urbano, isto ao nível em que os habitantes das cidades o usam, ou seja, o espaço público ao nível do solo”. O arquitecto destaca o bom exemplo do planeamento da Avenida de Almeida Ribeiro. “É óbvio que a tipologia e a configuração urbana da Avenida de Almeida Ribeiro, planeada muito antes de se falar de alterações climáticas, é a solução mais adequada a muitas, senão todas, estas contingências actuais”, refere, apontando uma crítica à construção da Ponte Cais 16, onde se situa um hotel e casino. Esse empreendimento “não devia ter obstruído a abertura da avenida ao estuário”. “Em casos de alta densidade urbana, o espaço de canal, nomeadamente as ruas, desimpedido e em direcção à periferia será sempre a configuração urbana mais favorável”, pois quando chove “as praças mais interiores funcionam como superfícies de exaustão do ar quente da cidade”. No caso do aumento das chuvas nos próximos anos, Mário Duque refere a possibilidade de cobertura de percursos e locais de correspondência de transportes, “para conforto dos habitantes da cidade”. Para o responsável, “o acréscimo de temperaturas urbanas será sempre equilibrado com a repercussão em acréscimo de pluviosidade, se suportado por uma forma urbana favorável”. Mas coloca-se o caso das inundações, que ocorrem com frequência em Macau e quase sempre originadas pelos tufões. Neste contexto, “o acréscimo de inundações por redução do estuário, a elevação dos níveis de maré e o aumento de pluviosidade afigura-se uma batalha perdida, porque os desenvolvimentos de todos os factores não se atenuam entre si, antes contribuem para a mesma intensificação”. Dados do relatório da Organização Meteorológica Mundial referidos pelos SMG apontam que o ano passado “foi o mais quente de que há registos”, pois a temperatura média global próxima da superfície terrestre foi 1,45º, superior à média do período anterior à Revolução Industrial, entre os anos de 1850 e 1900. Neste contexto, “as principais concentrações de gases de efeito de estufa na atmosfera”, como é o caso do dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, “continuaram a aumentar”. “Ao mesmo tempo, o aquecimento oceânico, a acidificação oceânica, a subida do nível do mar, o manto de gelo nos oceanos antárticos e os icebergues voltaram a bater recordes. O nível médio global do mar também atingiu um novo máximo histórico, na última década, desde 2014 a 2023, pois subiu mais do dobro em relação ao valor do nível médio entre 1993 e 2002”, pode ler-se. No caso concreto de Macau, e desde a criação dos SMG, em 1952, até ao ano passado, “o aumento da temperatura média anual de Macau foi de 0,10 graus Celsius em cada 10 anos”, sendo que 2019 foi o ano mais quente, com uma temperatura média de 23,6 graus celsius. O segundo ano mais quente foi 2021, com uma temperatura média de 23,5 graus. Média semelhante foi registada no ano passado, com 23,4 graus celsius.
Negócio da aparência ou a aparência do negócio (I) David Chan - 24 Set 2024 O encerramento do Hong Kong Physical Fitness & Beauty Center (PFBC) desencadeou uma verdadeira tempestade em Hong Kong. Sendo uma empresa que controlava uma enorme cadeia de ginásios e institutos de beleza, e que chegou a ser propriedade do conhecido artista Aaron Kwok, a notícia do seu fim é triste. O PFBC não só tinha muitas filiais em Hong Kong, como também tinha expandido o negócio para a China continental e Macau. A filial de Macau, sediada no Centro comercial LandMark, já tinha fechado anteriormente. Informação que circula online refere que alguns clientes ainda não foram reembolsados das mensalidades que já pagas. As notícias apontam como principal motivo do encerramento do PFBC o atraso no pagamento dos alugueres das filiais. Mas antes de fechar, o PFBC continuou a vender assinaturas. Este método de cobrança antecipada afectou muitos clientes. Uma estimativa por alto aponta para um prejuízo de cerca de 130 milhões de dólares de Hong Kong. Notícias online indicam que algumas pessoas compraram assinaturas que expiravam em 2036 e em 2040. Outros clientes compraram assinaturas para as classes 1,914 fitness, que eram válidas até 2050, um prazo que excede o da Lei Básica de Hong Kong, que será revista a 30 de Junho de 2047. Por aqui se vê que os clientes tinham confiança no PFBC quando adquiriram as assinaturas. Os proprietários das lojas das filiais e os clientes continuam a queixar-se e, em resposta, o Governo de Hong Kong criou prontamente uma equipa inter-departamental que reúne os esforços da Alfândegas, da Polícia, do Conselho dos Consumidores, do Gabinete de Economia e de outros departamentos. O encerramento do PFBC voltou a levantar a questão do “pré-pagamento”, ou seja, o modelo de cobrança “paga hoje, desfruta dos serviços amanhã”. Quem gere negócios espera estabilizar o fluxo de caixa e a fidelização dos clientes através do “pré-pagamento”, para ter boas perspectivas comerciais. Por outro lado, os clientes são atraídos pelos descontos e não se importam de pagar com antecedência. Aparentemente, ambas as partes obtêm o que precisam. Do ponto de vista do cliente, se pagar com antecedência tem mais descontos e, desde que possua capacidade financeira, pode desfrutar por muito tempo de um serviço que lhe agrada. Por isso, porque não? Os clientes da nova geração valorizam o seu espaço e detestam ser incomodados por outras pessoas. No entanto, o PFBC adoptou o modelo comercial tradicional, o qual permite que durante um ou dois meses as pessoas acedam aos seus serviços de forma gratuita e depois convence-os a comprar assinaturas. Quanto mais alargado for o período da assinatura, maiores serão os descontos. Mas este modelo de vendas contraria as expectativas dos clientes, e esta pode ter sido uma das razões pelas quais o PFBC não foi capaz de atrair muitos clientes jovens. Em contrapartida, em 2018, existia uma grande cadeia de ginásios em Hong Kong. Os gerentes compreenderam que muitas pessoas tinham horários alargados e chegavam a fazer horas extraordinárias, o que impossibilitava frequentar o ginásio nos horários normais, por isso passaram a ter os espaços abertos 24 h por dia e substituíram o pré-pagamento por mensalidades fixas. Este modelo de negócio vai ao encontro das necessidades dos utilizadores e por isso floresce. Esta cadeia de ginásios estabeleceu-se com sucesso na China continental, em Hong Kong, Macau, Taiwan e Singapura. A ausência de inovação e a incapacidade de quebrar os modelos de negócio tradicionais podem ter sido outras razões que levaram o PFBC a ser confrontado com dificuldades. As empresas devem compreender a situação actual e escolher o modelo de negócio mais apropriado para se afirmarem no mercado. Lembremo-nos que o McDonald’s começou como uma cadeia de restaurantes à beira da auto-estrada. Os tempos mudaram, e actualmente o McDonald’s tornou-se uma cadeia global de fast-food. Os pequenos restaurantes à beira da estrada tornaram-se coisa do passado. Podemos constatar que o método de gestão evoluiu com os tempos o que permitiu à empresa tornar-se mais competitiva e conquistar o mercado. Há ainda a considerar a forma de vendas da empresa. As assinaturas expiravam em 2036, 2040 e em 2050, ou seja, tinham uma duração de 20 ou 30 anos. Isto faz-nos pensar como é que os clientes assinavam contratos tão prolongados? Será que teve a ver com técnicas de venda a que devemos prestar atenção? Tudo isto são assuntos que a sociedade de Hong Kong deve considerar. Na próxima semana analisaremos como a população de Hong Kong reagiu e lidou com o incidente do PFBC. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Escola de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau Blog: http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk
Jiangsu | Artistas de Macau em mostra colectiva no Museu de Arte de Nantong Hoje Macau - 24 Set 2024 Chama-se “Exposição Colectiva de Artistas Contemporâneos de Macau” e está patente, desde sexta-feira, no Museu de Arte de Nantong, em Jiangsu, China. Esta iniciativa apresenta trabalhos de 19 artistas, com nomes como Adalberto Tenreiro ou Giulio Acconci, e nasce do “Programa de Cooperação e Intercâmbio Cultural com o interior da China” Primeiro vieram a Macau artistas do interior da China, nomeadamente de Jiangsu. Agora é a vez de se realizar o percurso contrário, e mostrar o que de melhor se tem feito, em termos artísticos, nos últimos anos em Macau. A “Exposição Colectiva de Artistas Contemporâneos de Macau”, patente no Museu de Arte de Nantong, em Jiangsu, abriu ao público na última sexta-feira, dia 20. Assim, o público desta região da China continental poderá ver trabalhos de 19 artistas de Macau, nomeadamente de Adalberto Tenreiro, Alexandre Marreiros, Cai Guo Jei, Cindy Ng Sio Ieng, Denis Murrell, Eva Mok, Giulio Acconci, Ieong Man Pan, James Chu ou Kit Lei Ka Ieng. Esta exposição é organizada pelo CAC – Círculo dos Amigos da Cultura de Macau e nasce do “Programa de Cooperação e Intercâmbio Cultural com o Interior da China”. Pretende-se não só celebrar os 75 anos da implantação da República Popular da China como também, ao abrigo desse intercâmbio, “dar a conhecer os artistas de Macau ao público de diferentes cidades da China e, reciprocamente, convidar artistas contemporâneos do Interior da China a expor em Macau, para uma interação e intercâmbio saudável e enriquecedor”. Com esta mostra, o CAC pretende “apresentar a mais recente e diversificada criatividade dos artistas contemporâneos de Macau e também mostrar o cenário contemporâneo das artes visuais de Macau”, descreve um comunicado. Esta não é uma novidade em termos de iniciativas do CAC, que desde os anos 80 que tem vindo a organizar muitas exposições e palestras nas cidades mais importantes do Interior da China, nomeadamente Pequim, Xangai ou Guangzhou, a fim de conectar mais Macau com o país. Esta mostra apresenta 30 obras de arte “com uma variedade de temas e suportes”, com “diferentes abordagens, conceitos, idades e etnias”, reflectindo-se, assim, os “atributos dinâmicos e diversificados construídos sobre o ambiente cultural muito rico e pluralista de Macau”. Lam Kong Chuen, co-curador da exposição, afirma que a inauguração desta mostra em Nantong levou à construção de uma “ligação de intertextualidade e inter-pintura”, sendo que a conexão de artes das duas regiões “continuará a reverberar”. Ligações históricas Lam Kong Chuen descreve o legado histórico destas conexões artísticas entre Macau e a China, indicando que, ao longo dos tempos, “a arte contemporânea de Macau tem sido sempre uma componente única da arte mundial”. O território tornou-se, segundo o curador, “numa zona importante para o desenvolvimento e exploração da arte, altamente respeitada no domínio da arte contemporânea”, cuja mobilidade de pessoas constituiu “um estímulo constante para o desenvolvimento da arte local”, formando “um sistema artístico complexo e variado”. O curador recorda a chegada de Matteo Ricci, missionário jesuíta italiano a Macau em 1582, considerando-o “um marco na história do intercâmbio cultural entre a China e o Ocidente”, tendo sido esse o ponto de partida para a chegada ao Oriente da arte ocidental e das instituições de ensino. Esta mostra constitui, para Lam Kong Chuen, “um estudo com amostras sobre a evolução multigeracional, reunindo obras de um conjunto de artistas representativos de Macau dos últimos 40 anos”. Renova-se, assim, “as discussões em torno das identidades dos artistas” que fazem parte do CAC. Esta entidade foi criada em 1985, tendo como membros fundadores Carlos Marreiros, Mio Pang Fei, Kwok Woon, Un Chi Iam, Ung Vai Meng e Victor Marreiros.
Saúde | Subida significativa de casos de intoxicação alimentar em Agosto Hoje Macau - 24 Set 2024 No passado mês de Agosto foram registados 62 casos de intoxicação alimentar bacteriana, “uma subida significativa” face Agosto de 2023 (quando foram registados apenas três casos) e quase o quíntuplo em relação a Julho quando foram contabilizados 13 casos. A informação faz parte dos dados sobre doenças de declaração obrigatória do mês de Agosto, divulgados ontem pelos Serviços de Saúde (SS). Outra doença que tem registado este ano aumentos significativos, é a escarlatina. Em Agosto foram diagnosticados 28 doentes, quase seis vezes mais face aos cinco casos no mesmo mês do ano passado. Ainda assim, o registo de Agosto representou uma redução significativa face aos 88 casos de Julho. Também as infecções por Salmonela aumentaram 22,6 e 35,7 por cento, em termos anuais e mensal respectivamente, com 38 casos registados. Os dados revelam também que em Agosto os SS foram notificados de 463 casos de gripe, valor que representa uma descida anual de 57,4 por cento, e mensal de quase 45 por cento. A covid-19 também registou um declínio mensal de 10 por cento face a Agosto de 2023, mas um aumento face ao mês anterior para mais do quadruplo com 18 casos. Estes dados são recolhidos quando os médicos fazem primeiros diagnósticos, nos preenchimentos de certificados de óbito e por técnicos que fazem diagnóstico laboratorial.
TSI / IPIM | Recusada reclamação para anular acórdão João Santos Filipe - 24 Set 2024 Desde 2019 a correr nos tribunais, o TSI voltou a pronunciar-se sobre as condenações do caso que atingiu o Instituto para a Promoção do Comércio e Investimento de Macau. A decisão poderá abrir a porta para a redução da pena de 24 anos aplicada ao empresário Ng Kuok Sao O Tribunal de Segunda Instância (TSI) recusou na semana passada uma reclamação de Jackson Chang para considerar nulo o acórdão que resultou na condenação do antigo presidente do Instituto para a Promoção do Comércio e Investimento de Macau (IPIM) a uma pena de oito anos de prisão. A informação foi actualizada, na semana passada, no portal dos tribunais. Como parte da conferência realizada no TSI, foi igualmente a analisado um pedido de anulação do acórdão apresentado por Ng Kuok Sao, empresário da construção civil condenado a uma pena de prisão de 24 anos. O colectivo constituído pela juízas Chao Im Peng, Tam Hio Wa e o juiz Choi Mou Pan aceitou parte dos argumentos apresentados pela defesa do empresário que em 2022 foi entregue pelas autoridades do Interior a Macau, embora o impacto desta decisão, em termos de uma eventual redução da pena, ainda não seja conhecido. Este foi o mesmo colectivo de juízes que em Junho condenou os dois arguidos a oito anos de prisão e 24 anos de prisão, depois de ter considerado como justificado um recurso apresentado pelo Ministério Público. A longa marcha A investigação ao IPIM tornou-se conhecida em Julho de 2019, depois de uma investigação do Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) ter concluído que Jackson Chang tinha agido em conluio com um casal de comerciantes, Ng Kuok Sao e Wu Shu Hua, num esquema de simulação de projectos para obtenção de residências na RAEM. Na primeira decisão dos tribunais, de Outubro de 2020, Jackson Chang foi condenado a uma pena efectiva de prisão de dois anos, pelos crimes de violação de segredo e inexactidão na declaração de rendimentos. Ng Kuok Sao foi condenado a 18 anos de prisão, pelo crime de associação criminosa e 23 crimes de falsificação de documentos. A decisão foi alvo de recurso do Ministério Público (MP), e parte do julgamento foi repetida em 2022. Em Maio desse ano, o antigo presidente do IPIM viu a pena ser agravada para cinco anos de prisão, por ter sido dada como provada a prática de um crime de corrupção passiva, três crimes de branqueamento de capitais e outros três de abuso de poder. Ng Kuok Sao também teve a pena agravada, para 23 anos de prisão, por ter sido dado como culpado por mais um crime de corrupção activa e três de branqueamentos de capitais. Sempre a subir A decisão de 2022 foi alvo de recurso tanto de Ng Kuok Sao como de Jackson Chang e ainda do Ministério Público. Pelo meio, em 2023, recebeu também um pedido extraordinário de revisão de sentença apresentado por Ng. O caso de revisão da sentença do empresário foi concluído em 2023, com a pretensão do arguido a ser recusada. O recurso demorou mais tempo a ser decidido, mas a decisão foi tornada pública em Julho deste ano, com as penas do antigo presidente do IPIM e do empresário a serem agravadas. Como resultado a pena de Chang subiu para oito anos de prisão, pela prática de quatro crimes de corrupção passiva para acto ilícito, três crimes de branqueamento de capitais e três crimes de inexactidão dos elementos na declaração de rendimentos. Ng Kuok Sao foi condenado a 24 anos de prisão, pela prática de quatro crimes de corrupção activa, um crime de branqueamento de capitais em co-autoria e na forma continuada, dois crimes, em co-autoria, de branqueamento de capitais, um crime de associação criminosa e 23 crimes de falsificação de documento.
Turismo | Agosto bate recorde mensal com 3,6 milhões de visitantes Hoje Macau - 24 Set 2024 No mês passado, Macau foi visitado por 3.651.731 turistas, o que constituiu um novo recorde mensal com crescimentos de 13,3 em termos anuais e mais 0,8 por cento do que em Agosto de 2019. Em termos mensais, o registo de Agosto superou o mês anterior em 20,9 por cento. A Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) indicou também que no mês passado a maior subida se verificou nas entradas de excursionistas, que ultrapassaram os 2 milhões, crescendo 23,4 por cento face a Agosto de 2023. O número de turistas também subiu em termos anuais, mas de forma mais suave (2,7 por cento), para mais de 1,6 milhões. Face ao aumento dos excursionistas, o período médio de permanência de visitantes foi de 1,1 dias, menos 0,1 dias face a Agosto do ano passado. Dos mais de 3,6 milhões de visitantes, mais de 3,4 milhões vieram da China e de Hong Kong. Do Interior da China chegaram em Agosto a Macau 2,75 milhões de visitantes (+18,5 por cento, em termos anuais), destas entradas 1.466.190 eram de visitantes com visto individual (+9,3 por cento). Porém, das dez novas cidades do Interior da China integradas no “visto individual” apenas vieram cerca de 45,6 mil visitantes. O número de visitantes internacionais superou os 162 mil, subida de 25,5 por cento face a Agosto de 2023 e uma recuperação de 75,3 por cento do número registado em Agosto de 2019. Os dois países de origem que mais contribuíram para a indústria do turismo local foram as Filipinas e Coreia do Sul. De salientar que nos primeiros oitos meses deste ano, Macau recebeu quase 23,4 milhões de pessoas, total que representa uma subida de 32,7 por cento face ao mesmo período de 2023.