LAG | Governo restringe uso de aparelhos “ocidentais” por representarem um “risco” Hoje Macau - 24 Nov 2025 O Governo está a apostar em dispositivos electrónicos chineses, para evitar riscos associados a equipamentos vindos de países com “postura hostil” em relação à China. Wong Sio Chak revelou que todos os funcionários públicos, incluindo portugueses, vão prestar juramento de lealdade à China e RAEM até ao fim do ano O Governo revelou na sexta-feira que a Administração Pública está a dar prioridade a dispositivos electrónicos chineses, porque aqueles vindos de países ocidentais “com uma postura hostil em relação à China” representam “um risco”. “Foram já emitidas instruções pela DSAFP [Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública], sobretudo para as infra-estruturas críticas”, disse o secretário para a Administração e Justiça de Macau. “Ponderámos, prioritariamente, o recurso aos aparelhos do nosso país” nos serviços e departamentos governamentais da RAM, sublinhou Wong Sio Chak. O dirigente admitiu na Assembleia Legislativa que “existe um risco” no fornecimento de dispositivos electrónicos de telecomunicações. “É uma questão muito sensível e em que também se verifica uma fragilidade”, referiu Wong, apontando o dedo aos “países do Ocidente, sobretudo alguns com uma postura hostil em relação à China”. No entanto, o secretário sublinhou, durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2026 na área da Administração e Justiça, que as limitações apenas se aplicam à administração pública de Macau. “Temos um mercado aberto e não iremos restringir o sector privado para utilizar os dispositivos estrangeiros. As entidades e o privado têm a liberdade de escolher esses aparelhos”, explicou Wong. Em 19 de Outubro, o Governo Central acusou os Estados Unidos de realizarem um ciber-ataque contra o Centro Nacional de Serviço de Horário (NTSC, na sigla em inglês), responsável por manter a precisão da hora oficial do país. O Ministério da Segurança do Estado chinês disse que o ataque “sistemático e planeado há muito tempo” começou em 2022, através de uma vulnerabilidade no serviço de SMS (mensagens curtas) de uma “marca estrangeira” de telemóveis. A vulnerabilidade permitiu “atacar secretamente e obter o controlo dos telemóveis de vários funcionários do NTSC e roubar dados confidenciais armazenados nos mesmos”, referiu o ministério. Fiéis e leais Outro dos pontos de destaque da apresentação de Wong Sio Chak prendeu-se com o juramento de lealdade à China e à RAEM que todos os funcionários públicos, incluindo os de nacionalidade portuguesa, terão de prestar até ao fim do ano. O juramento faz parte de uma revisão dos estatutos do pessoal de direcção e chefia e dos trabalhadores da Administração Pública, que entrou em vigor a 1 de Novembro. As duas leis revistas determinam que os trabalhadores já em funções têm 90 dias para fazer o juramento, sendo que a recusa implica automaticamente a anulação da nomeação para o cargo ou a demissão. Mas o secretário para a Administração e Justiça disse acreditar que o processo esteja concluído mais cedo e que “todos os trabalhadores dos serviços públicos prestem juramento até ao final do corrente ano”. Wong Sio Chak, que tomou posse em 16 de Outubro, defendeu durante a apresentação das Linhas de Açcão Governativa para 2026 que a revisão “aperfeiçoou a gestão e o regime de responsabilização do pessoal de direcção e chefia”. Logo em 1 de Novembro, 264 dirigentes de entidades e serviços públicos prestaram juramento numa cerimónia, declarando que “se dedicarão com toda a lealdade à Região Administrativa Especial de Macau [RAEM] da República Popular da China”. Num discurso proferido durante a cerimónia, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, pediu aos dirigentes da função pública que “salvaguardem com firmeza o poder pleno de governação do Governo Central” chinês. Em Dezembro de 2024, a Assembleia Legislativa aprovou, por unanimidade e sem qualquer debate, a lei que prevê que os funcionários públicos de Macau podem ser demitidos caso pratiquem “actos contrários” ao juramento. Um mês antes, ao apresentar a proposta, o então porta-voz do Conselho Executivo, André Cheong, alertou que os funcionários públicos podem ser despedidos devido a conversas privadas ou comentários publicados em redes sociais. O juramento será obrigatório para todos os funcionários públicos, incluindo os portugueses, mas poderá ser feito em português, uma das duas línguas oficiais de Macau, juntamente com o chinês. De acordo com o mais recente Relatório de Recursos Humanos da Administração Pública, em 2023 a região tinha 34.311 funcionários públicos. O documento não refere quantos têm nacionalidade portuguesa, mencionando apenas que 257 nasceram em Portugal. As duas propostas obrigam ainda os funcionários públicos a prestar o juramento de forma “sincera e solene”. A sinceridade do juramento será avaliada pelo superior hierárquico e qualquer demissão poderá ser alvo de recurso para os tribunais. Cada cabeça O Governo quer lançar, já no início de 2026, negociações com Portugal sobre um acordo para o reconhecimento recíproco de sentenças civis e comerciais. O secretário para a Administração e Justiça de Macau, Wong Sio Chak, disse que pretende “fortalecer a cooperação judiciária com o exterior e alargar ainda mais o intercâmbio jurídico”. De acordo com o relatório das LAG, Macau quer, a partir do primeiro trimestre de 2026, começar a negociar um “acordo sobre a confirmação e execução recíprocas de decisões judiciais em matéria civil e comercial” com Portugal. No entanto, o documento não refere qualquer data para a conclusão das negociações e a eventual assinatura de um acordo final. Macau e Portugal assinaram em 2019 um acordo relativo à entrega de infractores em fuga, cuja legalidade penal foi posta em causa pela Ordem dos Advogados portuguesa. O protocolo não está em vigor, uma vez que não foi a votos na Assembleia da República. O relatório das LAG de Macau revela também planos para a celebração, até ao final de 2026, de três acordos com Angola para transferência de pessoas condenadas, entrega de infractores em fuga e auxílio judiciário mútuo em casos criminais. Estes três acordos com Angola têm sido mencionados nas LAG de Macau desde Novembro de 2023, e esse relatório apontava como meta para a conclusão das negociações o final de 2024. Angola e a China continental assinaram em 2006 um tratado de extradição, que só foi aprovado pelo Parlamento angolano em 2011, tendo sido ratificado pelo Governo de Luanda dois anos mais tarde. Durante a discussão no Parlamento angolano, o então vice-ministro angolano da Justiça, João Monteiro, defendeu a importância do acordo devido ao grande movimento migratório entre os dois países. Na altura, as autoridades estimavam que perto de 50 mil chineses viviam em Angola, trabalhando sobretudo na construção civil, em projectos de reconstrução financiados em grande parte por empréstimos concedidos pela China. João Monteiro garantiu que os dois Estados concordaram que os pedidos de extradição não podem incluir crimes de natureza política ou militar. Macau Simplex Wong Sio Chak reiterou perante os deputados uma promessa antiga da pasta da Administração e Justiça: a simplificação administrativa. A prioridade governativa terá como meta acelerar os processos e licenças, por exemplo, para estabelecimentos comerciais. Em resposta a uma questão do deputado Si Ka Lon, o secretário para a Administração e Justiça referiu que, “desde que não haja obras de grande envergadura”, um estabelecimento de comidas e bebidas pode obter licença para operar em dois dias, mediante a apresentação de todos os documentos exigidos. O governante vincou que por trás da flexibilização da máquina administração estão os conceitos de “simplificar, descentralizar e optimizar”. Mãos à obra O secretário para a Administração e Justiça afirmou na Assembleia Legislativa que o Governo vai continuar os esforços para implementar o sistema de quotas para os trabalhadores da Função Pública e reorganizar algumas carreiras, eliminando as que estão desactualizadas e promovendo a mobilidade. Wong Sio Chak salientou que desde o lançamento do sistema de gestão de quotas na Administração, em 2020, o número de funcionários públicos aumentou, e que antes de alterar as regras de progressão ou acesso entre carreiras da máquina administrativa o Governo irá ouvir os trabalhadores.
Independência | Ramos-Horta: É “graças ao Xanana” que Timor-Leste está aqui Hoje Macau - 23 Nov 2025 O Presidente timorense, José Ramos-Horta, destacou, em entrevista à Lusa, o percurso do atual primeiro-ministro e antigo líder da residência, salientando que é “graças ao Xanana [Gusmão]” que hoje Timor-Leste está aqui. “Xanana sobreviveu e com uma força de vontade impressionante, que poucos seres humanos conseguem ter, reorganiza a resistência, novas investidas contra os indonésios”, disse Ramos-Horta, em entrevista à Lusa a propósito dos 50 anos da declaração da independência, em 28 de novembro de 1975, lembrando os ataques de que o primeiro-ministro foi alvo. O líder timorense perdeu homens e sofreu reveses, mas organizou a rede clandestina e a resistência das cidades ocupadas. Xanana Gusmão foi eleito líder da resistência e comandante-chefe das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste (FALINTL) em 1981, tendo lançado a Política de Unidade Nacional, desenvolvido a Frente Clandestina e instituído o Conselho Nacional de Resistência Maubere, mais tarde nomeado Conselho Nacional de Resistência Timorense. “Chegamos a 1999 ao referendo graças ao Xanana, não graças a mais ninguém, obviamente, a igreja envolveu-se, porque o Xanana teve a lucidez de falar com D. Martinho da Costa Lopes, abandonar o marxismo-leninismo. Graças ao Xanana que hoje nós estamos aqui”, afirmou o chefe de Estado. Martinho da Costa Lopes foi uma das figuras mais importantes da Igreja Católica em Timor-Leste durante a ocupação indonésia e desempenhou um papel central na defesa dos direitos humanos dos timorenses. José Ramos-Horta lamentou também que agora digam que Xanana Gusmão já não é o grande homem que foi durante a luta. “Eu digo: senhores agora também foi ele que ganhou para nós a fronteira marítima. Não sei quem é que ganharia”, disse, referindo-se à negociação das fronteiras marítimas com a Austrália, concluídas em 2018 e lideradas pelo atual primeiro-ministro. O Presidente salientou também que Xanana Gusmão é que tomou a decisão histórica de diversificar do Fundo Petrolífero em 2009, o que “trouxe para Timor já 11 mil milhões de dólares de retorno” e fez a reconciliação, sem perseguições e sem julgamentos de ninguém. José Ramos-Horta destacou igualmente que é Xanana Gusmão que “continua a ter competência técnica” para discutir as fronteiras marítimas com a Indonésia, cujo processo de negociações se iniciou este ano, bem como para resolver a questão do Greater Sunrise, esperando-se que o acordo seja assinado no início do próximo ano. “Ele quer resolver todas essas questões antes de deixar o poder. Ele não quer deixar para a nova geração esses dossiers muitos complexos”, acrescentou o Presidente. Ideias e defesas José Ramos-Horta afirmou que não foi a favor da declaração unilateral da independência, em 28 de novembro de 1975, considerando que foi feita “apressadamente” perante a iminência da ocupação pela Indonésia. “Eu não era a favor da declaração unilateral da independência, eu era, mas não era no dia 28 de novembro. Era preciso mais tempo de preparação, porque quando se faz uma declaração unilateral da independência sem quaisquer preparativos, o resultado foi o que foi. Não havia ninguém. Ninguém reagiu”, disse Ramos-Horta, em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos da efeméride. Do dia 28 de novembro de 1975, o atual chefe de Estado recorda uma cerimónia sem a presença de uma “única personalidade mundial” e uma noite escura. “A declaração unilateral da independência foi feita apressadamente por razões determinadas pelas circunstâncias da altura. A queda de Atabae [município de Bobonaro]”, disse o Ramos-Horta. “A base caiu com uma investida grande já de forças regulares da Indonésia, já muito no interior de Timor-Leste. Primeiro caiu Batugadé, isso foi em outubro, caiu Balibó e Maliana, em outubro e Atabai, cai em vinte e poucos de novembro. Logo a seguir a Fretilin declara a independência unilateral”, explicou o Presidente. A ocupação pela Indonésia concretiza-se em 7 de dezembro de 1975. “As forças indonésias já estavam no território nacional antes de 7 de dezembro e a decisão em Jacarta tinha sido feita em 1974 ou Timor-Leste integra na Indonésia pacificamente através de algum ato pseudodemocrático, ou Timor-Leste passaria para dominação Indonésia sob a via da força”, disse o chefe de Estado timorense. A invasão é apoiada pelos Estados Unidos, Austrália e alguns países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). “Obviamente, naquele quadro de 1975, os Estados Unidos não iriam apoiar Portugal na questão de Timor-Leste. Na questão de Timor-Leste a Indonésia é que pesava mais, sobretudo, no quadro pós-guerra do Vietname, em que os Estados Unidos saíram desacreditados e a fugir. Para os Estados Unidos e para os países da região a ameaça comunista era real e Timor-Leste foi votado ao isolamento, abandonado”, salientou o também prémio Nobel da Paz. A libertação de Timor-Leste acontece em 30 de agosto de 1999, quando se realiza o referendo pela autodeterminação, que dá a vitória à independência, que acabaria por acontecer em 20 de maio de 2002, depois de uma administração transitória das Nações Unidas. “Vinte e quatro anos depois o país é liberto contra todos os profetas da derrota, todos os que apregoavam para nós, para mim, o realismo, alguns diziam irrealismo atroz, outros diziam causa perdida, ouvimos muito, incluindo em Portugal”, acrescentou Ramos-Horta, salientando que Timor-Leste conseguiu prevalecer. Defesa da emenda constitucional José Ramos-Horta defendeu, na mesma entrevista, uma emenda constitucional para adoção do sistema presidencialista no país, porque é preciso uma “autoridade clara” e “sem dualidade” e afastou uma recandidatura ao cargo. “Eu acredito que devemos fazer uma emenda constitucional e passar para o sistema presidencialista. O Presidente é o executivo, acabou-se isso do dito semipresidencialismo”, disse José Ramos-Horta, em entrevista à Lusa no âmbito dos 50 anos de declaração unilateral da independência, em 28 de novembro de 1975. Atualmente, Timor-Leste tem um sistema semipresidencialista de pendor parlamentar, com o Governo a emanar do parlamento. Segundo o chefe de Estado, o sistema escolhido na Constituição, elaborada em 2001 e 2002, “não tem sido mau de todo”, mas já se viu que em “vez de ser um fator de equilíbrio”, pode ser um “fator de instabilidade”. Ramos-Horta exemplificou com o que aconteceu no oitavo Governo, após a coligação liderada por Xanana Gusmão ter vencido as eleições legislativas com maioria absoluta. “Xanana é convidado para formar Governo, apresentaram a lista de governantes e o Presidente Lu Olo decide vetar, não quis dar posse a nove membros”, disse o também prémio Nobel da Paz. “É preciso uma autoridade clara e sem esta dualidade, dividir o poder com o Presidente. Não funciona. Funciona bem em Portugal”, salientou Ramos-Horta. Para o Presidente timorense, “não há razão nenhuma” para Timor-Leste ter adotado aquele modelo, porque para o “equilíbrio está o parlamento, está o poder judicial”. “Estes três órgãos são a constituição do Estado. Creio que toda a gente vai concordar”, disse. José Ramos-Horta considerou que “é altura”, após cerca de 25 anos da atual Constituição, para fazer “algumas emendas” e passar para o sistema presidencialista. “Para mim, o Xanana Gusmão deveria continuar. Chegamos a 2027, termino o meu mandato, novas eleições em 2028. Entre o período de 2027, em que eu saio, e 2028 trabalharmos ativamente numa emenda constitucional para que a eleição de 2028 já seja com base na nova Constituição, isso é que eu defendo”, explicou. Questionado pela Lusa sobre se não pretende candidatar-se a um novo mandato, o Presidente afirmou não estar “minimamente motivado”. “Eu, em 2027, vou à cerimónia de transição da pasta para o novo Presidente à meia-noite de 19 de maio de 2027 e nem assisto à cerimónia no dia 20. Já estou na AeroDili a caminho de Singapura”, afirmou. Problemas da nova geração Na mesma conversa, José Ramos-Horta destacou também alguns problemas actuais do país, nomeadamente quanto ao facto de a geração posterior a 1975 ainda não ter conseguido um líder com afirmação nacional. Este salientou que desde 2002 que membros dessa geração ocupam lugares no Governo e no parlamento. “Nova geração está lá desde 2002. O problema é que a nova geração não conseguiu ainda uma única pessoa que se afirme como líder nacional. Não apareceu ainda. Esse é o problema. Estão no Governo, nos tribunais, no parlamento tudo nova geração”, disse o Presidente em entrevista à Lusa por ocasião do 50.º aniversário da declaração unilateral da independência. José Ramos-Horta questionou também sobre quem é o líder da nova geração que “tem dimensão nacional”. “Não há, nem um, porque em democracia tu tens de ganhar o eleitorado”, disse, salientando que se cria um partido e esse partido concorre às eleições. O chefe de Estado destacou, no entanto, que hoje Timor-Leste já tem 210 doutorados e 1.700 mestres, formados em “boas universidades” e “há gente que sabe”. A sociedade civil timorense tem acusado a atual liderança timorense, que continua concentrada em figuras da era da resistência, de criar obstáculos para o surgimento de novos líderes com capacidades de responder aos desafios contemporâneos. Questionado sobre se, após 50 anos da declaração unilateral da independência, os timorenses estão reconciliados, Ramos-Horta afirmou que entre as “fações de [19]75 mais do que reconciliados”. “Alguns até já morreram, a maioria morreu. Não há problema nenhum. Quando eu vejo algum ser brilhante a dizer ‘ainda são as divisões de 75’, o senhor não sabe que a maioria já morreu, só se forem as almas no cemitério”, disse José Ramos-Horta. Segundo o Presidente, as divisões resultam da luta democrática. “Acho ridículo, interessante, às vezes frustrante quando oiço que os timorenses estão divididos”, disse o Presidente. “Muito bem, vamos todos unir como se faz na Coreia do Norte, ou melhor, partido único, candidato único, já se sabe quem ganha as eleições na Coreia do Norte, portanto, não há muita dor de cabeça tudo simples, 97% vota pelo Kim Jong-un, depois fazem a recontagem e afinal não foi 97%, mas foi 101%. É uma opção, aí estamos todos unidos”, ironizou Ramos-Horta. Mas, acrescentou, os timorenses optaram pela democracia. “Uma democracia que hoje é elogiada e sobrevive à onda retrocessos da democracia na Ásia, na América Latina, na África e na Europa. Estamos muito bem com a democracia”, concluiu.
Descolonização em Timor-Leste deixou traumas profundos nos militares portugueses, defende investigadora Hoje Macau - 23 Nov 2025 A investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova Zélia Pereira afirmou que o processo de descolonização em Timor-Leste deixou traumas profundos nos militares portugueses, levando muitos ao silêncio durante o período da ocupação indonésia. “O processo de descolonização em Timor, para além do trauma da invasão indonésia para os próprios timorenses, deixou traumas profundos para os militares portugueses, traumas pessoais, psicológicos, consequências nas carreiras profissionais, a generalidade deles acabou por abandonar a vida militar, porque foram preteridos sucessivamente em promoções”, disse à Lusa a investigadora. “Lemos Pires, quando foi promovido a general, teve uma campanha interna contra ele”, disse. O general Mário Lemos Pires foi o último governador do Timor português (entre 8 de novembro de 1974 e 27 de novembro de 1975). Zélia Pereira está a coordenar, em conjunto com Pedro Aires de Oliveira, professor de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, a reedição do relatório elaborado pela comissão para a análise e esclarecimento do processo de descolonização de Timor-Leste, criada pelo antigo Presidente Ramalho Eanes, que vai incluir testemunhos desclassificados de militares e civis ouvidos em 1975 e 1976. O projeto está a ser financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, com o apoio da comissão para a celebração do 50.º aniversário do 25 de Abril, no âmbito de um concurso para projetos exploratórios. “É um trauma muito grande de tal maneira que durante todo o período de ocupação indonésia, tirando Lemos Pires, nenhum outro militar quis falar. Depois do referendo, começaram a ser publicadas algumas memórias e só agora mais recentemente é que começaram a aceder fazer algumas entrevistas”, explicou a investigadora. Segundo Zélia Pereira, os testemunhos dados em 1976, com a “memória muito fresca” e com o “trauma muito vívido” vai permitir acesso a um conjunto de informações muito “pormenorizado, muito interessante”. A investigadora espera também que aqueles testemunhos ajudem os timorenses a “compreender melhor um período que para eles é muito traumático”. “É preciso compreender o seguinte, ainda hoje se continuam a publicar livros, artigos que replicam todas as acusações feitas em 1975. Em teses de doutoramento, de mestrado, porque vão beber aos livros publicados nos 70, 80, 2000, até ao presente e que partem ainda hoje de ideias e pressupostos, que nem todos estão 100% errados, mas que precisam de ter outras interpretações”, salientou. A história, disse Zélia Pereira, é colocar vários contextos em análise em simultâneo, porque ninguém é dono da verdade. “O que queremos é que isto venha abrir outras perspetivas, outras perspetivas de investigação, e sarar mágoas, reconciliar as pessoas com o seu passado, independentemente de terem tomado decisões que não se revelaram as mais acertadas”, acrescentou. Timor-Leste tornou-se independente de Portugal em 28 de novembro de 1975, mas nove dias depois, em 07 de dezembro, foi ocupado pela Indonésia.
PLP e China querem plataforma de arbitragem internacional Hoje Macau - 21 Nov 202521 Nov 2025 A Federação dos Advogados de Língua Portuguesa assinou um protocolo na zona económica especial de Hengqin, vizinha de Macau, para a cooperação em arbitragem entre a China e a lusofonia, disse ontem à Lusa o presidente da instituição. “Em Portugal, os conflitos nos tribunais arrastam-se por vários anos e, obviamente, sabemos que a arbitragem é um meio expedito de obter justiça e, por isso, daí toda a conveniência de termos a arbitragem a funcionar, a arbitragem de língua portuguesa, em que as partes possam, no fundo, dirimir os seus litígios na língua que nos une”, explicou Pedro Pais de Almeida. O responsável, que está em Macau para participar no Congresso da FALP, notou que o acordo foi assinado na quarta-feira com a Associação dos Advogados de Macau, “várias ordens de advogados” de países de língua portuguesa e a comissão executiva de Gestão da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau, em Hengqin. A Zona de Cooperação Aprofundada é uma área económica especial, com cerca de 106 quilómetros quadrados, criada em 2021 com vista à diversificação económica e integração regional de Macau no resto do país. De acordo com o protocolo, que Pedro Pais de Almeida forneceu à Lusa, a iniciativa, do Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola (CECPS) – criado pelo Governo de Macau e pela comissão executiva da Zona de Cooperação Aprofundada – visa a “promoção da cooperação em arbitragem transfronteiriça entre a China e os países de língua portuguesa”. “Em resposta à urgente necessidade das empresas de resolver litígios comerciais e de investimento transfronteiriços, o CECPS planeia mobilizar recursos humanos e materiais, em colaboração com os parceiros sectoriais dos países de língua portuguesa e espanhola, com vista ao estabelecimento de uma plataforma de arbitragem internacional que se destina ao serviço da cooperação económica, comercial e de investimento entre a China e os respectivos países”, lê-se no documento. Tudo em aberto Para impulsionar a criação da plataforma, propõe-se, entre outras iniciativas, estudar a forma de “integrar as particularidades dos regimes jurídicos, práticas comerciais e procedimentos de arbitragem e mediação” da China e dos países lusófonos, além de estabelecer uma plataforma de diálogo regular para o aprofundamento da cooperação profissional nos domínios de arbitragem e mediação. Refere-se ainda que a iniciativa se mantém “aberta à participação futura”, podendo, por exemplo, associações ou escritórios de advogados, árbitros, peritos e académicos participar de forma voluntária. Na quarta-feira, o chefe do executivo de Macau, Sam Hou Fai, disse que o CECPS já está desde “o início do corrente ano” a dar às empresas estrangeiras serviços “a nível jurídico e contabilístico”. A China estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003. Mais de duas décadas depois, Macau vem alargar o foco aos países que falam castelhano. A cooperação deve incidir, como indicou o Governo na apresentação geral das Linhas de Acção Governativa para 2025, entre outros sectores, nas áreas das finanças, cultura, turismo e comércio eletrónico transfronteiriço. O congresso da FALP arrancou na quarta-feira, com uma visita a Hengqin, e termina hoje, com um jantar de gala e uma homenagem a dois advogados a exercer há várias décadas em Macau, Jorge Neto Valente e Rui Cunha.
Japão reitera preocupação com flutuações “rápidas” e “unilaterais” Hoje Macau - 21 Nov 2025 O Governo japonês reiterou ontem a preocupação com as flutuações cambiais “rápidas” e “unilaterais” do iene, quando a moeda japonesa atinge mínimos de dez meses em relação ao dólar e perante expectativas do aumento da despesa orçamental. O Japão está a monitorizar a moeda “com um elevado sentido de urgência”, afirmou o porta-voz do Executivo japonês, Minoru Kihara, ontem durante a conferência de imprensa diária, em declarações recolhidas pela agência de notícias japonesa Kyodo. A Bolsa de Tóquio negociou ontem moeda japonesa a cerca de 157 ienes por dólar, ao nível mais baixo desde Janeiro. Já na quarta-feira, a ministra das Finanças japonesa, Satsuki Katayama, admitiu a preocupação do governo com a fraqueza do iene, que atingiu na véspera um mínimo em relação ao euro, gerando expectativas de uma possível intervenção das autoridades para travar movimentos bruscos. O iene chegou a cair para 180 unidades por euro durante as negociações na bolsa de Nova Iorque na segunda-feira, o nível mais baixo em relação à moeda comunitária desde a sua introdução em 1999, e oscilou na faixa alta das 179 unidades durante a sessão em Tóquio. Katayama afirmou que é importante que as moedas se movam de forma estável, reflectindo os fundamentos económicos, sendo que comentários semelhantes foram feitos no passado, antes de as autoridades financeiras japonesas intervirem no mercado cambial para travar movimentos bruscos do iene. Os comentários de Katayama na quarta-feira surgiram um dia após a publicação dos dados do produto interno bruto (PIB) japonês, que mostrou uma contração de 0,4 por cento entre Julho e Setembro, a primeira redução em seis trimestres, o que levou a ministra justificar existirem “razões suficientes para implementar medidas de estímulo e orçamentais”, em defesa da posição do Governo da conservadora Sanae Takaichi, que assumiu o poder em Outubro. As operações de venda da moeda nipónica têm-se intensificado num contexto de preocupação com a saúde orçamental do Japão e do impacto do mega pacote de estímulo em finalização pelo Executivo de Takaichi. Ao mesmo tempo, os esperados aumentos das taxas do Banco do Japão (BoJ) continuam em pausa, enquanto o banco central analisa o impacto das tarifas norte-americanas e a política económica do novo Executivo japonês, o que contribui também para a fraqueza do iene. Em busca de equilíbrio Uma das economistas pertencentes ao conselho de política do BoJ, Junko Koeda, insistiu ontem, porém, na necessidade do banco central prosseguir com os aumentos planeados da taxa de juros de referência, que continua em 0,5 por cento, que permitam à quarta maior economia do mundo retornar a um “estado de equilíbrio”, avançou a Kyodo. A ministra das Finanças manteve uma reunião na quarta-feira com o governador do BoJ, Kazuo Ueda, embora, de acordo com a publicação Nikkei, que cita fontes próximas, os responsáveis não tenham discutido em detalhe a situação do iene, o que contribuiu para a venda da moeda. O banco central tem-se mostrado favorável ao aumento dos custos do endividamento como parte dos esforços para normalizar a política monetária, se a economia e os preços evoluírem de acordo com as metas estabelecidas, mas Ueda alertou que o impacto real das tarifas na economia japonesa ainda não se materializou completamente, pelo que o BoJ adotou uma postura cautelosa. A este factor juntou-se a chegada ao poder de Takaichi, conhecida pela postura orçamental moderada e defensora de uma política monetária expansionista, que se mostrou crítica em relação ao caminho de subidas das taxas que o BoJ iniciou em março de 2024. O banco central japonês aumentou as taxas de juro pela última vez em Janeiro último, mas o ciclo de “normalização” foi interrompido após o regresso de Donald Trump à Casa Branca e a política tarifária agressiva que Washington tem vindo a exercer desde então.
Timor-Leste | Presidente contra sede da ONU em Nova Iorque Hoje Macau - 21 Nov 2025 Numa visita a Itália, onde recebeu um doutoramento ‘honoris causa’ em Ciências Política, o Nobel da paz defendeu a reforma urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e expressou a sua angústia e indignação pela situação que se vive em Gaza O Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, afirmou quarta-feira, em Messina, Itália, que a sede das Nações Unidas não deve permanecer numa cidade de uma superpotência, como acontece com Nova Iorque, nos Estados Unidos. “Ao longo das últimas décadas, aprendemos lições importantes”, afirmou Ramos-Horta, num discurso proferido na Universidade de Messina, em Itália, onde se encontra em visita de trabalho, salientando que uma delas é a de que a sede das Nações Unidas não deve permanecer na cidade de uma “superpotência ou de um membro permanente do Conselho de Segurança”, ou seja, Nova Iorque, nos Estados Unidos. No discurso, proferido por ocasião da cerimónia de atribuição do título doutor ‘honoris causa’ em Ciências Políticas, o chefe de Estado destacou que outra lição aprendida é a necessidade urgente de reformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Ampliar a sua composição para 31 Estados, eliminar a categoria de membros permanentes e substituir o veto por uma maioria qualificada de dois terços, a ser confirmada no mesmo dia pela Assembleia Geral”, disse o também prémio Nobel da Paz, explicando que as regiões asiática e africana estão sub-representadas e que o grupo ocidental está “excessivamente representado”. Na sua intervenção, José Ramos-Horta propôs também que a escolha do secretário-geral da ONU seja feita com base em “candidaturas abertas a qualquer cidadão qualificado de um Estado-membro”. “Com experiência internacional comprovada, fortes competências linguísticas, sensibilidade intercultural e responsabilidade demonstrada em liderança e governação. As candidaturas poderiam ser apresentadas por universidades, parlamentos ou governos, preferencialmente através de coligações inter-regionais”, disse. Abismos morais No seu discurso, o Presidente timorense abordou também a situação no Médio Oriente. “É impossível estar neste púlpito sem expressar a angústia e a indignação provocadas pelo sofrimento extremo do povo palestiniano. O que está a acontecer em Gaza e na Cisjordânia constitui um abismo moral e político no qual caímos. A cumplicidade silenciosa de parte da comunidade internacional, a retórica ambígua e a continuação da exportação de armas são incompatíveis com os valores que afirmamos defender”, declarou. O chefe de Estado afirmou que admira o povo judeu, mas que aquela admiração não o pode impedir de ver “claramente a injustiça histórica infligida ao povo palestiniano desde 1984”. “Expulsões em massa, expropriações, colonatos ilegais, detenções arbitrárias, tortura e assassinatos sistemáticos. Hoje, as consequências acumuladas de 80 anos de sofrimento tornaram-se insuportáveis, e as perdas humanas atingiram níveis que a nossa consciência não pode ignorar”, afirmou Ramos-Horta. O chefe de Estado timorense recordou também uma conversa com o Papa Francisco durante a qual falou da sua frustração e desilusão com a comunidade internacional devido à indiferença e dualidade de critérios. “Sua Santidade, com a serenidade que o caracteriza, respondeu simplesmente: mas devemos continuar a luta pela paz”, acrescentou. No âmbito da sua visita, o Presidente timorense será recebido hoje, em audiência privada, pelo Papa Leão XIV, tendo depois um encontro com o arcebispo Paul Richard Gallagher, secretário para as Relações com os Estados e Organizações Internacionais da Santa Sé.
MNE do Japão garante que vai resolver divergência com China pelo diálogo Hoje Macau - 21 Nov 2025 O chefe da diplomacia japonês garantiu que vai tentar resolver as divergências com a China através do diálogo, depois de declarações da primeira-ministra do Japão sobre uma possível intervenção em Taiwan terem irritado a China. “A comunicação a vários níveis será essencial. Ainda não foi decidido a que níveis serão realizadas as conversas, mas, ao realizá-las em diferentes fóruns, reduziremos as preocupações e os problemas e aumentaremos o entendimento e a cooperação”, avançou Toshimitsu Motegi. As declarações do ministro foram feitas numa comissão parlamentar sobre a reunião de terça-feira, em Pequim, entre o responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês para os Assuntos da Ásia e Oceânia e o homólogo chinês. A reunião terminou sem avanços significativos e gerou controvérsia nas redes sociais depois de terem sido divulgados nas redes sociais vídeos que pareciam mostrar o enviado japonês a agir de forma subserviente e o enviado chinês a ser desrespeitoso. “Essa não foi, de todo, a situação em que a reunião ocorreu”, assegurou o chefe da diplomacia japonesa. Segundo Motegi, durante a reunião, o representante japonês refutou as alegações das autoridades chinesas sobre o agravamento da situação de segurança no arquipélago, usadas como justificação para desaconselhar os cidadãos chineses a visitarem a ilha, e a posição de Tóquio em relação a Taipé. Alta tensão O Japão e a China estão a viver um período de grande tensão diplomática causada por declarações depois de a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que assumiu o cargo há um mês, ter dito no parlamento nacional que um ataque chinês a Taiwan poderia justificar uma intervenção das Forças de Autodefesa do Japão. O Governo chinês criticou Takaichi e instou o Japão a “retirar as declarações erradas, a parar de criar problemas e a tomar medidas concretas para salvaguardar a base política das relações bilaterais”. A China avisou ainda que continuará a tomar medidas duras se Tóquio não se retratar dos comentários sobre Taiwan, depois de ter anunciado a suspensão da importação de marisco japonês.
Imobiliário | Governo planeia novas medidas contra crise Hoje Macau - 21 Nov 2025 As autoridades chinesas deverão ter em mãos um novo plano de ataque à crise que afecta o mercado imobiliário há mais de dois anos. Apoio às hipotecas e incentivos fiscais são algumas das medidas previstas por analistas O Governo da China está a ponderar aprovar um novo pacote de medidas para revitalizar o mercado imobiliário, afectado por uma crise prolongada, por temer a destabilização do sistema financeiro, revelou ontem a Bloomberg. De acordo com fontes que pediram o anonimato, citadas pela agência de notícias financeiras, Pequim poderá apoiar as hipotecas, reduzir os custos associados e aumentar os incentivos fiscais às transações de imóveis. Um eventual apoio às hipotecas – uma medida sem precedentes na China – poderia atrair mais compradores para o mercado imobiliário, cujos preços estão em queda há 29 meses consecutivos, quase dois anos e meio. Um primeiro pacote de medidas, aprovado em 2024, teve um efeito positivo no sector, mas o impulso acabou por perder força. Desde o início do ano, as vendas medidas pela área do terreno caíram 6,8 por cento em termos homólogos, e o investimento em desenvolvimento imobiliário diminuiu 14,7 por cento. A crise imobiliária, que começou no início da década, afectou a riqueza das famílias, o consumo e o emprego, resultando numa menor capacidade de pagamento de hipotecas e, por conseguinte, segundo a agência de notação financeira Fitch, num maior risco de incumprimento para os bancos. No final de Setembro, a banca chinesa detinha um valor recorde de 492 mil milhões de dólares em empréstimos mal-parados e continuava a enfrentar uma forte pressão sobre as margens de juro. A Bloomberg sublinha ainda que os preços — tanto de imóveis novos como usados — sofreram em Outubro as maiores quedas no espaço de um ano. Isto apesar do Governo chinês ter removido restrições à compra de mais de uma casa — introduzidas para tentar arrefecer o mercado durante os anos de expansão — e implementado medidas de apoio, mesmo em metrópoles como Pequim e Xangai. Para quando? Face à incerteza económica e à desvalorização dos imóveis, os consumidores chineses têm optado por reduzir as dívidas. O saldo em dívida das hipotecas caiu 3,9 por cento desde o pico histórico, atingido no início de 2023. A Bloomberg garante que Pequim está a discutir o novo pacote de medidas desde o terceiro trimestre de 2025, mas admitiu não saber se já existe um consenso sobre as políticas específicas a implementar ou quando serão anunciadas. A situação financeira das empresas imobiliárias chinesas agravou-se depois da China ter, em Agosto de 2020, restringido o crédito bancário para promotores que tinham acumulado elevados níveis de dívida, principalmente a Evergrande, com passivos de quase 330 mil milhões de dólares. Nos últimos anos, as autoridades chinesas lançaram sucessivas medidas para conter o colapso do setor imobiliário. Os bancos estatais abriram linhas de financiamento multimilionárias, dando prioridade à conclusão de projectos cujos apartamentos já tinham sido vendidos. A crise no sector é apontada como uma das principais causas do abrandamento económico da China, com o peso do imobiliário no Produto Interno Bruto (PIB), incluindo os efeitos indirectos, estimado em cerca de 30 por cento, segundo analistas.
Coloane | “Connections Music.Movement.Nature” este fim-de-semana na Urban Farm João Luz - 21 Nov 2025 Depois de ter sido adiado devido ao super tufão Ragasa, o festival “Connections – Music.Movement.Nature” realiza-se este fim-de-semana na vila de Coloane. Música ao vivo, artesanato, workshops, dança e vários tipos de actividades para famílias vão marcar dois dias de comunhão no espaço Urban Farm O “Connections – Music.Movement.Nature” é o resultado de um impulso comunitário de pertença e partilha de uma família maior que sangue e genes, nascido nas antípodas de uma cidade mergulhada em materialismo e mercantilismo dos concertos dos vários tipos de pop regionais que marcam parte da agenda cultural da cidade. Depois de duas edições em 2018 e 2019, e do adiamento devido ao super tufão Ragasa, o festival está de volta este fim-de-semana, desta vez no espaço Urban Farm na vila de Coloane. Construído pela comunidade, para a comunidade, o “Connections” deste ano tem um cartaz recheado com 30 workshops das mais variadas áreas, 20 actuações de djs e actuações de Beto Ritchie, Lobo e Náv, uma zona para comidas, bebidas e artesanato por criadores locais e múltiplas actividades para famílias. “Os responsáveis, que se assumem como ‘uma criação colectiva que alia um modo de vida consciente com experiências únicas’, pretendem através desta iniciativa proporcionar ‘Actividades em Família, Palestras e Workshops, Exploração do Bem-Estar e Expressão Artística’”, indica a organização em comunicado. Depois dos eventos realizados em 2018 e 2019 na zona da Barragem de Ká-Hó, este ano a festa muda-se para um novo espaço de maior dimensão, que irá permitir que possam decorrer diversas actividades espalhadas por sete zonas distintas: o “Village”, uma pitoresca área que se assemelha a uma aldeia tradicional chinesa, com casas de madeira num jardim oriental, será a zona de refeições e bebidas e de venda de artesanato. Larry’s Place, Concept H, Lotus Cocktails, Cakes By Rose & Muse, Juk e Happy Stand são os responsáveis pelos comes e bebes. Na “Village” vão estar montados 10 stands de venda de artesanato de criadores locais (Dreama, Cordelia Handmade, Zarja’s Selections, CeraGigi, Dollfie, Wickd Candle Studio, White Lodge Dreamland, Love and Light Handmade Studio, Gems Awakening, Free Spirit Home e o stand Rui Carreiro Barbeiro. Inspirar, expirar Ao lado, o “Gypsy Camp”, uma zona com almofadas e lugares de descanso, irá permitir a exploração musical com instrumentos musicais como o asalato, participar num círculo de tambores, num workshop de canto, ou assistir a um concerto de handpan com o duo Nàv, que faz a curadoria da área. Nas imediações, numa tenda mongol (yurte) será realizada uma palestra sobre temas espirituais e sessões individuais de tarot e leitura da alma. As actividades para famílias irão ter lugar na “Family Tent”, oferecendo sessões de Meditação para Famílias, Mandala Dot Painting, Crochet, Pintura de Círculos da Vida e Construção de Máscaras de Animais em cartolina. Na “tenda familiar” a Associação Sílaba irá proporcionar momentos de leitura interactiva, o lançamento da “CaixaPiz” e actividades para os mais pequenos. Tirando os pés do chão, a área “Treetop”, uma mezannine construída na copa de uma árvore, foi escolhida para todas as actividades de exploração corporal e momentos mais serenos, de meditação e relaxamento. Com actividades a decorrer da manhã ao entardecer, o “Treetop” vai albergar também sessões de Danças Brasileiras e Dança Consciente, assim como de Yoga, Gyrokinesis e CoreNature, uma fusão de Pilates e Animal Flow. Estão igualmente previstas sessões de Sound Bath e meditações ao pôr do sol e de ligação à natureza. Bosque encantado Ao fundo da propriedade do Urban Farm, na zona “Concrete”, estão agendadas sessões de graffiti e arte urbana com o colectivo de artistas locais Outloud International Street Art Festival. Por último, no “Woods”, numa clareira de um pequeno bosque, situa-se o espaço de música electrónica e de dança ao ar livre, que contará com prestações de diversos djs locais e da região. A oferta musical irá também marcar presença na zona do “Village”, com uma selecção mais orgânica, lounge, e focada em músicas do mundo, e também a actuação ao vivo de Beto Ritchie amanhã às 15h e Lobo no domingo às 18h. É aconselhado aos participantes levarem roupa quente, repelente para insectos, chapéus, protector solar, toalha, lanterna, cinzeiro portátil. A organização do evento anunciou nas redes sociais que os donativos de entrada ainda à venda, custam entre as 180 e 280 patacas para entradas de um ou dos dois dias do evento, sendo que à porta serão entre as 200 e 300 patacas.
Workshop de maquilhagem antecipa espectáculo na Casa Garden João Luz - 21 Nov 2025 No domingo, a partir das 15h, a artista de maquilhagem local Mandy Cheuk irá ministrar na Casa Garden um workshop que é uma extensão do projecto Surrealist Chinoiserie: “Golden City of Seres”, que resultou na apresentação de uma performance do universo da Art For All Society (AFA). “Como maquilhadora experiente, a especialização de Mandy Cheuk abrange pintura corporal, efeitos especiais para cinema e televisão, performances teatrais e direcção artística. O seu talento é reconhecido internacionalmente”, descreve a AFA. O workshop, que tem um preço de 300 patacas por pessoa, ou 500 patacas por duas pessoas, nasce do último espectáculo “Surrealistic Chinoiserie”—Golden City of Seres”, que foi apresentado na cidade belga de Antuérpia no passado mês de Junho. A performance “made in Macau”, que começou em Antuérpia, vai regressar a Macau no dia 6 de Dezembro, às 18h30, na Casa Garden. A entrada é livre. “Reunindo uma equipa de artistas de elite de Pequim e Macau, o espectáculo tece um mundo fantástico através do vocabulário físico da dança contemporânea, maquilhagem artística exclusiva, música electrónica meticulosamente arranjada e arte visual repleta de fantasia dos imaginários orientais e ocidentais”, descreve a organização. Todos os elementos A tensão visual criada pela perfusão complexa de elementos ganha vida com a coregrafia inspirada em danças clássicas e tradicionais chinesas e formas de expressão típicas do ballet contemporâneo. A performance nasce da visão artística de Leong Chi Mou, e é dirigida e interpretada pelos bailarinos Jay Zheng e Tina Kan, “decorada” pela maquilhagem, pintura corporal e criação estilística de Mandy Cheuk e a banda sonora ao vivo a cargo de Faye Choi, da banda local de música electrónica EVADE. O projecto, que conta com o “apoio académico” de Alice Kuok, tenta através de várias “perspectivas contemporâneas, desconstruir e remodelar o conceito estético consagrado pelo tempo, escavando as transformações e extensões da histórica ‘Rota da Seda’ no contexto contemporâneo e interrogando os desejos latentes no seu cerne”.
Legionella | Homem em estado grave Hoje Macau - 21 Nov 2025 As autoridades de saúde anunciaram o registo do quinto caso de Legionella desde o início do ano, num residente que se encontra em estado crítico e ligado ao ventilador. A infecção, também conhecida como Doença dos Legionários, foi diagnosticada num residente de Macau, com 69 anos, e antecedentes de doenças crónicas. “No dia 12 de Novembro, o doente recorreu ao serviço de urgência do Hospital Conde de São Januário, queixando-se de falta de ar. Os exames complementares revelaram um derrame pleural à direita e uma pneumonia aspirativa, tendo o doente sido imediatamente internado para tratamento”, foi revelado. “No dia 19 de Novembro, o exame da amostra de expectoração deu positivo para doença dos legionários, tendo o doente sido diagnosticado com legionela”, foi acrescentado. Os serviços de saúde indicaram que o homem está em estado crítico e ligado a um ventilador.
Ponte 16 | Afastada compra, casino fecha portas a 28 de Novembro João Luz - 21 Nov 2025 A SJM anunciou ontem a compra da empresa detentora do L’Arc Hotel por 1,75 mil milhões de patacas. Porém, a concessionária voltou atrás na intenção de comprar a propriedade do Casino Ponte 16, que irá encerrar portas no fim do dia 28 de Novembro, após “avaliação minuciosa do plano empresarial a longo prazo” De todos os casinos-satélite que operavam em Macau, apenas o casino do L’Arc Hotel irá sobreviver à legislação que obriga à compra das propriedades pela concessionária responsável pela licença sobre a qual o jogo é explorado. A SJM anunciou ontem que vai comprar a empresa detentora da propriedade do L’Arc Hotel, por 1,75 mil milhões de patacas, mas que abdica do Casino Ponte 16, ao contrário do que havia indicado. A decisão para não comprar a propriedade foi tomada após uma “avaliação minuciosa do planeamento empresarial a longo prazo, considerações comerciais e priorização de recursos em todo o portfólio do grupo” empresarial. Assim sendo, o Casino Ponte 16 “vai encerrar oficialmente as suas operações às 23h59 de sexta-feira, 28 de Novembro de 2025. Todas as mesas e máquinas de jogo actualmente em funcionamento no local serão transferidas para outros casinos da empresa, a fim de garantir a continuidade do serviço aos clientes”, indicou ontem a SJM em comunicado. O grupo empresarial reiterou que “dá grande importância à protecção do emprego local” e que “dos funcionários que trabalham no Casino Ponte 16, todos os funcionários locais empregados pela SJM Resorts manterão os seus empregos e serão transferidos para outros casinos da empresa para desempenhar funções relacionadas com jogos, de acordo com as necessidades operacionais”. Em relação aos trabalhadores que tinham vínculo laboral com a empresa que ainda explora o espaço, mas que têm estatuto de residente da RAEM “serão convidados a candidatar-se a vagas dentro do grupo, com prioridade na contratação em circunstâncias iguais, e serão fornecidas medidas de apoio, conforme apropriado, para garantir uma transição suave”. Acompanhar de parte Como tem acontecido sempre que é anunciado o encerramento de um casino-satélite, a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) garantiu que “irá supervisionar rigorosamente os procedimentos de encerramento do referido casino e da respectiva sala de máquinas de jogo, de forma a assegurar que decorram de forma estável e ordenada e que todos os procedimentos legais estejam a ser devidamente cumpridos”. Em relação aos 1.025 trabalhadores do Casino Ponte 16, a DICJ indicou que irá “manter uma estreita comunicação” com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais, para assegurar o cumprimento dos compromissos assumidos pela concessionária em relação à recolocação dos trabalhadores, assim como à manutenção de remuneração, regalias e condições de trabalho. O que resta Sobre a compra e exploração do Casino L’Arc Macau, a DICJ indicou que “irá proceder ao acompanhamento dos casinos-satélite em estrito cumprimento da lei do jogo”, e que o Governo irá apreciar, “de acordo com os termos legais”, o pedido da SJM para exploração de casino, sob a forma de gestão e exploração directa. A directora executivo do grupo, Daisy Ho, afirmou que o “Hotel L’Arc tem uma localização central dentro de um aglomerado activo de jogo, hotelaria e tráfego de turistas na Península de Macau que, combinado com as atracções turísticas das redondezas, cria oportunidades que poucos lugares conseguem igualar”. A líder do grupo apontou também o potencial da coordenação entre propriedades da SJM, abrindo oportunidades, sinergias de promoção integrada e eficiência operacional.
Grupo Sa Sa | Menos vendas mas maiores lucros Hoje Macau - 21 Nov 2025 Entre Abril e Junho, o grupo Sa Sa apresentou uma redução anual de 1,4 por cento nas vendas a retalho e de 3,6 por cento na venda de medicamentos e cosméticos em Macau. Os números constam dos resultados dos primeiros seis meses do ano, que foram divulgados ontem pela cadeia de lojas de Hong Kong. Apesar das menores vendas em Macau, a situação em Hong Kong, no Interior e em outros países, como Singapura, Malásia ou nas Filipinas, apresentou melhorias que contribuíram para um lucro de 50,2 milhões de dólares de Hong Kong, um aumento anual de 54,8 por cento. Na apresentação dos resultados, o grupo reconhece que os novos vistos para turistas do Interior visitarem Macau e Hong Kong estão a beneficiar os dois mercados. No entanto, as deslocações dos residentes de Macau e Hong Kong para o Interior são vistas como um desafio, dado que levam a uma diminuição do consumo. Os dados de Hong Kong mostram deslocações recorde para o Interior. Em Macau, as deslocações também estão a aumentar, mas o grupo indica que o Governo não revela os dados. Ao mesmo tempo, em relação ao aumento do turismo do Interior, o relatório reconhece que os novos turistas estão cada vez mais interessados em “vivenciar novas experiências”, em vez de estarem tão focados nas compras, sendo indicado que estes novos padrões de consumo podem ter impacto nos resultados do grupo. Além disso, é pedido um maior acesso à mão-de-obra local: “O Grupo Sa Sa continua cautelosamente optimista em relação aos mercados de Hong Kong e Macau. No entanto, os governos das RAE de Hong Kong e Macau precisam resolver a escassez de mão-de-obra local para manter altos padrões de serviço e acomodar os clientes durante a noite”, foi alertado.
Crime | Burlada em 2,33 milhões de patacas por falsos polícias Hoje Macau - 21 Nov 2025 Uma residente de Macau perdeu 2,33 milhões de patacas na sequência de um esquema de burla em que os criminosos se fazem passar por agentes policiais. Segundo o jornal Ou Mun, a vítima recebeu uma chamada de burlões, que se identificaram como agentes da polícia de Wuhan, da província de Hubei, que afirmaram estar a investigar a vítima por suspeitas de envolvimento em apostas online no Interior da China. Para prosseguir as falsas investigações, a vítima foi solicitada a participar numa videochamada, onde lhe foi mostrado um suposto mandado de detenção onde constavam alguns dos seus dados pessoais. No passo seguinte, e depois de convencida a mulher, os burlões pediram para a vítima fazer partilha de ecrã e entrar na sua conta bancária, digitando a palavra-passe de acesso, para verificarem a existência de movimentos de conta suspeitos. De seguida, a mulher acedeu aos pedidos dos falsos agentes e foi ao banco para fazer uma transferência de 200 mil dólares de Hong Kong. Nessa altura, foi alertada pelo funcionário do banco que lhe disse que a conta bancária destinatária da transferência apresentava transacções suspeitas. Além disso, apercebeu-se que o dinheiro que tinha depositado havia desaparecido. Ao aperceber-se da burla de que havia sido alvo, denunciou o caso à Polícia Judiciária.
Bairros Comunitários | Pedidas melhorias nos serviços Nunu Wu - 21 Nov 2025 Henry Lei avisa o Governo que a economia dos bairros comunitários exige uma estratégia mais desenvolvida que não se limita a levar influenciadores a comer em restaurantes. O académico pede o desenvolvimento de um ecossistema de consumo, no qual os empresários têm de melhorar a qualidade dos serviços O relatório das Linhas de Acção Governativa aposta em convidar os influenciadores digitais para divulgarem os bairros comunitários de Macau e promover um maior consumo nessas áreas. No entanto, o vice-presidente da Associação Económica de Macau, Henry Lei Chun Kwok, defende que é necessário melhorar a qualidade dos serviços destes bairros. A posição foi tomada no programa matinal Fórum Macau do canal chinês da Rádio Macau, quando o também chefe associado do Departamento de Finanças e Economia Empresarial da Universidade de Macau abordou o futuro da comunitária do território. “Este método de promoção parece ser adaptado aos turistas do Interior da China, mas, a longo prazo, é necessário melhorar a qualidade dos serviços e da restauração nestes locais, para criar uma imagem turística forte. Só com estas características se pode atrair os turistas de forma sustentável”, defendeu Henry Lei. Uma vez que o Governo tem como objectivo atrair mais turistas internacionais, Henry Lei apontou que é necessário investir em estudos para entender os interesses dos turistas com diferentes origens. Neste sentido, o académico exemplificou que os turistas da Malásia e da Indonésia podem ter necessidades especiais de alimentação devido a religião. Para Lei, estas diferenças têm de ser tidas em conta. Incentivo ao consumo Outro destaque do relatório das LAG, foi a promessa de incentivos aos consumo nas restauração nos bairros comunitários. Sobre esta aposta, Henry Lei espera que a estratégia consiga algo mais do que apenas levar os turistas ao local para tirarem fotografias: “O incentivo ao consumo nos restaurantes não pode passar por apenas ter os turistas a frequentar um ou dois restaurantes, o mais importante é impulsionar os turistas a permanecerem mais tempo nos bairros comunitários, fazerem mais compras, é criar uma onda económica que promove o desenvolvimento comunitário”, justificou. Na sequência do encerramento dos casino-satélites, Henry Lei defendeu ainda que o Governo tem que estudar a fonte dos clientes na ZAPE e o seu modelo de consumo, e explicar como pretende transformar a economia daqueles locais.
Espaços comerciais | Proposta de lei apresentada Hoje Macau - 21 Nov 202521 Nov 2025 O Instituto de Habitação (IH) apresentou ao Conselho para os Assuntos de Habitação Pública e a associações a proposta de alteração do decreto-lei que regulamenta atribuição, arrendamento e cedência gratuita dos espaços adequados ao exercício de actividades comerciais que existam em edifícios destinados a habitação social. Os regulamentos relativos ao Fundo de Reparação Predial também foram discutidos. Segundo um comunicado divulgado ontem pela IH, “os participantes concordaram basicamente com as propostas de alteração legislativa”. O instituto comprometeu-se em definir os conteúdos concretos sobre as duas propostas de alteração legislativa, tendo em consideração as opiniões recolhidas. O IH recordou ainda que realizou recentemente uma reunião, com o Conselho para os Assuntos de Habitação Pública e três sessões de apresentação, com o objectivo de auscultar as opiniões dos membros e de mais de 20 associações sociais e profissionais, contando estas com a participação de mais de 80 pessoas.
Construção | Pedidas garantias de emprego dos residentes Hoje Macau - 21 Nov 2025 Leong Pou U, eleito pela via indirecta, mostra-se preocupado com as dificuldades dos trabalhadores locais da construção civil em encontrarem trabalho. Apesar de elogiar os esforços do Executivo a nível da redução da taxa de desemprego, pede mais medidas direccionadas para os empregos dos pedreiros O deputado Leong Pou U questionou o Governo sobre as medidas que vão ser adoptadas para garantir o acesso prioritário dos residentes aos empregos no sector da construção civil. A questão faz parte de uma interpelação escrita do deputado ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM). O legislador começa por indicar que as condições para os trabalhadores locais são cada vez mais difíceis: “Desde o início deste ano, afectados pela redução dos projectos de construção privados e obras públicas, os trabalhadores da construção civil têm, em geral, enfrentado horas de trabalho insuficientes, com salários estagnados há vários anos, o que pressiona os seus meios de subsistência”, defende. O deputado elogiou ainda a medida do Executivo de Sam Hou Fai de criar o Grupo de Trabalho para a Coordenação da Promoção do Emprego, por considerar que é eficaz a recolher informações sobre as vagas de emprego e as carências em vários sectores. No entanto, pede um maior aproveitamento deste trabalho: “Dada a crescente pressão de emprego enfrentada pelos trabalhadores da construção civil, é necessário que o Governo aproveite ainda mais o papel do Grupo de Trabalho para a Coordenação da Promoção do Emprego para introduzir medidas mais direccionadas para ajudá-los a garantir o emprego”, apontou. Neste sentido, o deputado quer saber se o Governo definiu “directrizes para a contratação prioritária de residentes locais em projectos de obras públicas subcontratadas” e se vai exigir que quando há obras públicas se defina uma proporção de residentes locais cada vez maior. Leong Pou U considera fundamental garantir que a população local se encontra numa situação de pleno emprego. Rol de elogios Apesar dos alertas para a situação de emprego na construção civil, a interpelação escrita de Leong Pou U dedica vários elogios ao Governo. Leong sublinha que entre Julho e Setembro, a taxa de desemprego é de 1,8 por cento, e que no caso do emprego dos residentes não vai além de 2,4 por cento. Valores positivos para o legislador, que destaca que “a situação do emprego continuou a melhorar com o declínio nas taxas de desemprego” apesar do “grande influxo de recém-formados no mercado de trabalho”, o que mostra “os esforços eficazes do Governo na promoção do emprego entre os residentes”.
Economia | Feriados podem ter impacto negativo Hoje Macau - 21 Nov 2025 A Associação Geral das Mulheres de Macau teme que os feriados de Dezembro tenham um impacto negativo no comércio local, devido à possibilidade de os residentes viajarem para fora e com o aproximar do fim do Grande Prémio do Consumo. O alerta foi deixado ontem através de um comunicado do coordenador do Gabinete de Estudo das políticas da associação, Ip Weng Hong. Na mensagem, alerta-se que o comércio local vai sofrer com os feriados da transferência de soberania e do Natal, porque os residentes podem optar por gozar as férias fora do território. Nesta perspectiva, um dos aspectos que pode mitigar os efeitos é o Grande Prémio do Consumo. No entanto, a iniciativa termina no final deste mês e ainda não há planos para prolongá-la. A Associação Geral das Mulheres de Macau apela assim ao Executivo que prolongue a iniciativa até ao final do ano para “aliviar o stress operativo dos comerciantes”. Além disso, Ip Weng Hong quer que o Governo continue a lançar actividades de subsídio ao consumo dos residentes nos bairros comunitários, com vista a apoiar a economia.
Respostas de Sam Hou Fai na AL satisfatórias para os deputados Nunu Wu - 21 Nov 2025 As respostas que o Chefe do Executivo deu às questões colocadas pelos deputados na quarta-feira, no âmbito da apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o próximo ano foram recebidas com satisfação pelo novo elenco de legisladores patriotas. O agrado foi demonstrado ao jornal Ou Mun, porém, registaram-se algumas preocupações. O deputado Leong Sun Iok mencionou publicações nas redes sociais que indicavam possíveis alterações do horário de trabalho e do regime de aposentação da Função Pública, que terão provocado preocupações entre funcionários públicos. O membro da bancada parlamentar dos Operários ficou satisfeito com a garantia de Sam Hou Fai de que os direitos laborais dos trabalhadores da Função Pública seriam assegurados. Ainda assim, indicou que a imposição de limites do número de trabalhadores pode levar à falta de recursos humanos, sobrecarga de tarefas e aumento do stress. Como tal, Leong Sun Iok espera que o Governo ouça as associações que representam os funcionários públicos, antes de serem tomadas decisões. O deputado da bancada da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau referiu queixas de trabalhadores que foram despedidos sem justa causa de empresas de jogo e afirmou que o Governo tem de cortar no número de trabalhadores não-residentes para dar prioridade aos locais. Já na terça-feira, Pereira Coutinho havia criticado a ausência de cartões de consumo e de actualizações dos salários da Função Pública nos planos do Executivo para o próximo ano. A toda a linha Já o deputado dos Moradores, Ngan Iek Hang, pediu atenção aos jovens recém-licenciados que enfrentam dificuldades para arrancar emprego. Por seu turno, o deputado Lee Koi Ian, ligado às forças políticas da comunidade de Jiangmen mostrou-se satisfeito com a LAG para 2026, afirmando que respondem a toda a linha aos pedidos da sociedade. O recém-eleito legislador defendeu ainda a entrada na RAEM de mais empresas estatais e empresas internacionais, para oferecerem mais oportunidades de emprego e contribuir para a diversificação económica.
Jogo | Governo estima subida de 3,5% nas receitas em 2026 Hoje Macau - 21 Nov 2025 O Executivo acredita que no próximo ano as receitas dos casinos vão subir para 236 mil milhões de patacas. Este é um aumento de 3,5 por cento face ao valor revisto para este ano, de 228 mil milhões de patacas O Governo prevê que as receitas dos casinos do território aumentem 3,5 por cento em 2026, atingindo 236 mil milhões de patacas, o valor mais elevado desde a pandemia. A previsão está inscrita na proposta de Orçamento da região para o próximo ano, que o executivo enviou para a Assembleia Legislativa. A meta fixada pelo Governo representa uma subida de 3,5 por cento em comparação com o orçamento revisto para 2025, aprovado pela AL em Julho, que reduziu a previsão das receitas do jogo para 228 mil milhões de patacas. Na nota justificativa que acompanha a proposta de Orçamento, o Executivo diz que, desde Maio, Macau tem tido um “crescimento robusto no número de visitantes” e as receitas dos casinos “mantiveram uma tendência estável de crescimento”. O número de turistas a visitar a região subiu 14,5 por cento até Setembro, enquanto as receitas de jogo aumentaram 8 por cento em termos homólogos nos primeiros dez meses de 2025, atingindo 205,4 mil milhões de patacas. Algo que, sublinhou o Governo, “contribuiu para o progresso sustentado da economia global de Macau”, altamente dependente dos sectores do turismo e casinos. A economia do território cresceu 8 por cento em termos homólogos no terceiro trimestre, mais 2,9 pontos percentuais do que no segundo trimestre, depois de entre Janeiro e Março ter registado a primeira queda em dois anos. Expansão esperada “Perspectivando o ano de 2026, prevê-se que a indústria turística de Macau possa continuar a trajectória de crescimento, sustentada por diversos factores favoráveis”, referiu o Executivo. Ainda assim, a subida de 3,5 por cento nas receitas dos casinos é muito inferior ao ritmo de crescimento (8 por cento) registado até agora este ano, algo que o Governo justifica com um “princípio de gestão financeira prudente”. Na terça-feira, após a apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2026, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, já tinha alertado para “a instabilidade da envolvente externa e da conjunta económica”. Numa conferência de imprensa, Sam defendeu que as relações entre a China e os Estados Unidos “estão a recuperar” dos episódios recentes de tensões comerciais, mas não afastou a possibilidade de uma “recessão económica” global. As seis operadoras de casinos da cidade pagam um imposto directo de 35 por cento sobre as receitas do jogo, 2,4 por cento destinado ao Fundo de Segurança Social de Macau e ao desenvolvimento urbano e turístico, e 1,6 por cento entregue à Fundação Macau para fins culturais, educacionais, científicos, académicos e filantrópicos. O imposto directo sobre as receitas dos casinos representou 83,3 por cento das receitas públicas da região nos primeiros dez meses de 2025: 77,5 mil milhões de patacas.
França | Macron defende que Europa não pode ser “vassalo tecnológico” dos EUA e China Hoje Macau - 20 Nov 2025 O Presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou terça-feira que a Europa não pode ser “vassalo” tecnológico dos Estados Unidos e da China e apelou a que os 27 aprovem uma “preferência europeia” para reforçar a soberania tecnológica. “A Europa não quer ser cliente dos grandes empresários ou das grandes soluções oferecidas, seja pelos Estados Unidos, seja pela China. Queremos claramente conceber as nossas próprias soluções”, disse Macron, em Berlim, durante uma cimeira franco-alemã dedicada à soberania digital europeia. Segundo Macron, trata-se “simplesmente de recusar ser um vassalo”, numa altura em que o continente perdeu terreno no sector tecnológico, sobretudo na corrida à inteligência artificial. “Há um custo a curto prazo em não sermos vassalos, porque é preciso reinvestir”, afirmou, considerando, porém, que estas despesas são essenciais e exigem que os europeus tomem “decisões muito arrojadas”. Entre essas decisões, a defesa de uma “preferência europeia”, nomeadamente nas compras públicas, deve ser “a prioridade” para permitir que os “campeões” tecnológicos europeus se desenvolvam, defendeu o chefe de Estado francês. “Os chineses aplicam uma exclusividade chinesa sempre que possível e os norte-americanos têm uma forte preferência norte-americana”, enquanto “somos os únicos a nunca termos uma preferência europeia, e até demonstramos, por vezes, uma certa fascinação por soluções não europeias”. Macron instou ainda a União Europeia (UE) a libertar-se das “dependências tecnológicas em todos os níveis da cadeia de valor, das infraestruturas críticas aos dados, ao ‘cloud’ e ao ‘software’”. “Não podem entregar a força da vossa economia aos Sete Magníficos, nem delegar todo o funcionamento da vossa democracia aos Sete Magníficos. É insuportável”, disse, referindo-se aos gigantes tecnológicos norte-americanos Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla.
‘Chips’ | Países Baixos suspendem intervenção na Nexperia Hoje Macau - 20 Nov 2025 O Governo neerlandês suspendeu ontem a intervenção na Nexperia, que permitia bloquear decisões da empresa chinesa de semicondutores que ameaçassem a produção de ‘chips’ na Europa, para reduzir a tensão com a China após semanas de conflito político. Num breve comunicado, o ministro neerlandês dos Assuntos Económicos, Vincent Karremans, explicou que, dados os progressos entre a China e os Países Baixos, este é “o momento adequado para dar um passo construtivo, suspendendo” a ordem dada ao abrigo da Lei da Disponibilidade de Bens, uma norma de 1952 que foi invocada pela primeira vez em Setembro passado. A decisão de suspender a intervenção foi tomada “em estreita consulta com os parceiros europeus e internacionais” dos Países Baixos, disse o ministro interino. O Governo neerlandês interveio na empresa no final de Setembro, considerando que o director chinês da Nexperia, Zhang Xuezheng, poderia comprometer o abastecimento europeu. Um dia depois, o tribunal do comércio de Amesterdão ordenou a afastamento do executivo da empresa, com sede na cidade neerlandesa de Nimega, que foi adquirida pelo conglomerado chinês Wingtech em 2019. Pequim respondeu à intervenção holandesa com um bloqueio às exportações de ‘chips’ da principal fábrica da Nexperia na China, o que gerou incerteza no sector automóvel europeu, que passou semanas sem saber se haveria novas entregas. O ministro holandês explicou ontem que, nos últimos dias, houve reuniões “construtivas” com as autoridades chinesas e que vê “gestos de boa vontade” nas medidas tomadas por Pequim para garantir o fluxo de ‘chips’ para a Europa e outros mercados. “Continuaremos agora um diálogo construtivo com as autoridades chinesas”, acrescentou Karremans. A suspensão não anula a intervenção, uma vez que o Governo neerlandês mantém a opção de reactivar a medida a qualquer momento se voltar a detectar riscos para a produção europeia. Entretanto, uma delegação dos Países Baixos continua na China a negociar uma saída estável para o conflito.
AICEP defende que Portugal tem todo o interesse na colaboração permanente com a China Hoje Macau - 20 Nov 2025 Portugal tem “todo o interesse em ter uma colaboração permanente e estratégica com a China”, defendeu ontem a directora-adjunta África, Ásia e Oceânia da AICEP, Maria Manuel Branco, reiterando que é “um país prioritário nas relações internacionais”. “Sendo a China um país prioritário nas nossas relações internacionais, é muito importante não deixarmos para trás toda a colaboração possível e, por isso, é que o país onde temos mais delegações da AICEP no mundo é a China”, disse ontem Maria Manuel Branco, num seminário sobre cooperação China-Portugal promovido pela Embaixada da China em Portugal. Para a responsável, a “longa história que sempre uniu” ambos os países poderá “abrir um futuro bem-sucedido”, sendo que “Portugal tem todo o interesse em ter uma colaboração permanente e estratégica com a China”. Para continuar Maria Manuel Branco sinalizou ainda a intenção de “continuar a consolidar a relação económica e de investimento que tem vindo a crescer com parcerias estratégicas e comprometidas, em vários sectores”. Além disso, destacou que Portugal “tem capacidade, juntamente com a China, para ter áreas comuns estratégicas como energia renovável e verde, digitalização, mobilidade eléctrica, saúde e inovação tecnológica”. O deputado do PSD Hugo Carneiro, que é presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-China, também interveio neste seminário, onde defendeu que Portugal e China querem “continuar o relacionamento estratégico para o futuro”. Hugo Carneiro salientou que, no plano económico, a China atravessa um “período de dinamismo tecnológico”, em áreas onde Portugal “pode aprender e colaborar”, defendendo que o “investimento deve ser via de dois sentidos”. Além do investimento chinês em Portugal, o país também deve “incentivar empresas portuguesas a olhar para o mercado chinês como uma oportunidade”. O deputado social-democrata defendeu também que “Portugal possui uma vantagem estratégica com o Porto de Sines, pela localização atlântica”, sendo que este “pode ter um papel” mais forte, por exemplo na circulação de bens da China. “É um activo logístico que pode ser mais bem aproveitado”, defendeu. Carneiro salientou que Portugal e China “conhecem-se há muito tempo” e, hoje, esta relação “pode ser uma vantagem decisiva”. O presidente da AIMA, Pedro Portugal Gaspar, também marcou presença no seminário, onde sinalizou que a comunidade chinesa, que conta com cerca de 30 mil pessoas, é “histórica” e já está “enraizada em Portugal”. “Não é acabada de chegar, tem tradição em Portugal antiga o que permite capacidade de integração”, apontou o responsável.
O Despertar Estratégico da Alemanha (I) Jorge Rodrigues Simão - 20 Nov 2025 (Continuação do artigo publicado na edição de 13 de Novembro) Após anos de promessas não cumpridas, a Alemanha leva agora o assunto a sério. E, de repente, o rearmamento alemão, aos olhos dos mesmos aliados que durante tanto tempo exigiram a sua necessidade absoluta, parece pouco tranquilizador. Sorrisos e apertos de mão em público, preocupação nos bastidores, pois percebe-se em palavras fora de lugar, em decisões aparentemente injustificadas e até na expressão dos rostos. Caso contrário, seria difícil explicar por que razão, em Setembro de 2022, Varsóvia decidiu formalmente pedir a Berlim reparações pelas perdas humanas e materiais sofridas durante a ocupação nazi, estimadas em cerca de 1.300 mil milhões de euros. Preço de amigo, claro. Muito mais directo foi Trump durante o encontro com Merz na Casa Branca em Junho de 2025 ao afirmar que “Estão a gastar mais dinheiro na defesa, e isso é bom. Não tenho a certeza de que o general MacArthur pensasse o mesmo, … percebes o que quero dizer? Ele disse: ‘Nunca deixem que a Alemanha se rearme’. … Eu acho que é positivo, mas só até certo ponto. Vai chegar o momento em que vos direi ‘Por favor, parem de se armar, se não se importam’.” Seguiu-se uma palmada amigável na perna do chanceler alemão dizendo: “Vamos ficar atentos, eu trato disso.” O episódio terminou, para alívio de Merz, com uma risada forçada. O sentimento de incerteza não se sente apenas em Washington e Varsóvia, mas também nos círculos governamentais de Londres e Paris, onde certamente não foram esquecidos os avisos de Margaret Thatcher e François Mitterrand entre 1989 e 1991, aquando da queda do Muro e da reunificação alemã. Por exemplo, entre os responsáveis alemães é convicção generalizada que a proposta do presidente francês Emmanuel Macron de estender à Alemanha o arsenal nuclear francês é, na prática, uma manobra para controlar a sua trajectória, preservar o primado militar francês na União Europeia e, ao mesmo tempo, garantir os vastos recursos financeiros do outro lado do Reno. Não exactamente um gesto de solidariedade entre aliados. Surge então uma pergunta de por que razão o Ocidente incentivou durante anos o reforço das capacidades militares de Berlim, para depois, pelo menos em parte, arrepender-se? Esta incongruência obedece a alguma lógica? Para responder, ajuda a recordar um leitmotiv que circula em Washington há pelo menos uma década, sobretudo desde que Barack Obama apresentou o chamado “Pivot to Asia” (que foi uma estratégia de política externa lançada pelo presidente Barack Obama em 2011, que marcou uma mudança significativa do foco dos Estados Unidos do Médio Oriente e Europa para a Ásia-Pacífico. O objectivo era reforçar a presença diplomática, económica e militar dos Estados Unidos na região diante da ascensão da China) de que para os Estados Unidos, é imperativo transferir para terceiros os custos de contenção das ambições russas na Europa, pelo menos no plano convencional. E neste quadro, o contributo da República Federal, primeira economia do continente, parece inevitável. O problema é de quem pode garantir que Berlim, depois de desenvolver as suas capacidades bélicas como solicitado por Washington, as utilizará de forma coerente com os interesses americanos? É fácil controlar quem é frágil e indefeso, muito menos quem está armado até aos dentes. Em suma, as capacidades humanas e industriais da Alemanha são indispensáveis, mas deixá-las nas mãos dos alemães assusta e não pouco. Nada de novo no bloco ocidental pois estamos perante a mesma contradição que, no início da Guerra Fria, levou os Estados Unidos a construir o seu império informal na Europa. Uma arquitectura pensada, em boa parte, para manter os alemães “subjugados”, segundo a célebre fórmula do primeiro secretário-geral da NATO, Lord Ismay. Inimigos sentados à mesa dos amigos. Nenhum americano, na segunda metade dos anos de 1940, teria consentido na reintegração da Alemanha (ainda que dividida) na “família das nações ocidentais” se não a considerasse estritamente necessária. Aliás, antes do fim das hostilidades, o presidente Franklin Delano Roosevelt defendeu abertamente que os alemães deveriam enfrentar custos “tão impressionantes que hesitassem antes de iniciar uma nova guerra”. Aos seus olhos, a Alemanha seria “menos perigosa para a civilização se dividida em 107 províncias”. Também por isso, em Setembro de 1944, durante a conferência de Québec, Roosevelt aceitou ratificar com Winston Churchill um projecto que previa a transformação do inimigo num “país de carácter predominantemente agrícola e pastoril”. O plano, desenvolvido nos meses anteriores pelo então secretário do Tesouro Henry Morgenthau com o título evocativo de “Programa para Impedir que a Alemanha Inicie uma Terceira Guerra Mundial” previa, na sua essência, retirar aos alemães “todas as suas indústrias pesadas”.