Entre residentes e TNR, deputados exigem medidas de estabilidade laboral

A situação do emprego em Macau voltou a dominar o debate em torno do relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para a área da Economia e Finanças, com os deputados a demonstrarem diferentes posições quanto ao binómio residentes / trabalhadores não residentes (TNR).

Se a grande maioria pede medidas para que os locais tenham maior acesso ao emprego, o deputado Ip Sio Kai lembrou que há empresas desfalcadas neste âmbito, enquanto Chui Sai Peng pediu medidas para os que não querem trabalhar. “Algumas pequenas e médias empresas (PME) dizem que as quotas para TNR não são renovadas pelo Governo, e quando isso acontece não conseguem contratar locais a tempo. Como podemos dar prioridade aos locais, mas também ter em conta os interesses das PME?”, questionou.

Ip Sio Kai falou na importância de “proteger os postos de trabalho” dos residentes, as PME “têm de saber quantas vagas de trabalho conseguem ter para os seus negócios, e há que haver uma situação ‘win-win’”. Já Chui Sai Peng, questionou o tipo de medidas “para quem não está interessado em trabalhar, para estimular essas pessoas”, além de ter defendido acções de formação não apenas para trabalhadores, mas também para empresas.

“Deve-se exigir que as empresas tenham oportunidade de formação, organizando-se cursos para reforçar a sua capacidade de negócio. Chui Sai Peng pede também “prioridade aos residentes” no emprego tendo em conta os futuros investimentos e os concursos públicos a realizar.

Da parte do secretário, ficou a garantia de reavaliação do panorama de contratação pública de locais para postos de limpeza e segurança. “Estamos a recolher opiniões e a fazer o levantamento da situação dos trabalhos adjudicados pelos serviços públicos nessas duas áreas. Estamos a ver se há possibilidade de aumentar o número de trabalhadores locais”, frisou.

Desemprego baixo

Por entre críticas e opiniões, a deputada Song Pek Kei defendeu que o Executivo “está a manter a estabilidade de emprego”, citando dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) que apontam para uma taxa de desemprego de 1,8 por cento no terceiro trimestre, o valor mais baixo desde Fevereiro.

“O nível de desemprego é relativamente baixo. Uma empresa que quiser investir [em Macau] tem de ter recursos humanos, e qual é o ponto de situação para estas quatro indústrias? Até ao terceiro trimestre deste ano a população activa de Macau era 382 mil pessoas, existindo 284,2 mil residentes empregados, e 6.800 pessoas desempregadas. Será que podemos transferir essas pessoas para as quatro novas indústrias e dar-lhes emprego? Se for assim, poderíamos resolver o problema do desemprego”, salientou.

Outro tópico abordado no debate de ontem, tem a ver com a alegada pouca eficácia dos cursos de formação promovidos pelo Governo para a área laboral. “Após concluírem as acções de formação, muitas pessoas não conseguem aplicar os conhecimentos no trabalho. Não sei se é possível reforçar o regime de credenciação, e para que seja possível convencer as pessoas [empresas] a contratar. Assim é possível garantir que as pessoas, depois das formações, conseguem aplicar os conhecimentos”, disse o deputado Lam Lon Wai.

Também Leong Sun Iok referiu que “há várias situações em que as pessoas não conseguem emprego”, já que “as empresas não contratam locais ou os locais não têm capacidade para ingressar em determinadas empresas”. “Não sei se o Governo pode ponderar a existência de quotas, para que haja um rácio a fim de as empresas poderem ter locais e também dar formação”, acrescentou.

Casinos-satélite | Secretário diz que três mil trabalhadores serão afectados

No debate sobre o relatório das Linhas de Acção Governativa para a área da Economia e Finanças, o secretário Tai Kin Ip garantiu que haverá cerca de três mil funcionários dos casinos-satélite afectados pelo seu encerramento, mas que será garantido emprego para todos

O Governo prometeu ontem que irá tentar garantir o emprego dos cerca de três mil funcionários dos quatro ‘casinos-satélite’ que ainda vão encerrar até ao final do ano. O secretário para a Economia e Finanças, Anton Tai Kin Ip, confirmou que, após o encerramento de seis ‘casinos-satélite’, 1.300 trabalhadores já foram reintegrados nos quadros das concessionárias de jogo. Além disso, 29 trabalhadores terão pedido apoio na busca por emprego, foi referido no hemiciclo.

O primeiro a encerrar foi o Grandview, no final de Julho, seguido do Grand Dragon, em 22 de Setembro. O Emperor Palace e o Waldo fecharam no final de Outubro, enquanto o Legend Palace encerrou em 12 de Novembro e o Casal Real na terça-feira passada. “Restam ainda quatro ‘casinos-satélites’ que vão encerrar, com cerca de três mil trabalhadores envolvidos”, disse Anton Tai, na Assembleia Legislativa (AL), durante o debate das Linhas de Acção Governativa (LAG) na área da Economia e Finanças para 2026.

O Ponte 16, com 1.025 funcionários vai encerrar na sexta-feira, depois da concessionária SJM Resorts ter desistido da compra da propriedade onde se situa o ‘casino-satélite’. Outro ‘casino-satélite’, o Fortuna, encerra a 10 de Dezembro, de acordo com uma nota interna da dona da propriedade, a empresa Kou Seng Holdings, citada ontem pelo portal de notícias de jogo GGRAsia (ver página 7).

Também devem fechar portas até ao final do ano mais dois ‘casinos-satélite’, Landmark e Kam Pek Paradise, ambos sob a tutela da SJM, fundada pelo magnata do jogo Stanley Ho Hung Sun (1921-2020). A 9 de Junho, o Governo anunciou que as concessionárias de jogo tinham comunicado o fim da exploração de todos os 11 ‘casinos-satélite’, onde trabalhavam cerca de 5.600 residentes.

Linha de contacto

“Ao longo dos anos, temos uma linha aberta para apoiar os trabalhadores dos casinos. Até agora, recebemos 29 casos de pedidos de ajuda” de funcionários de ‘casinos-satélite'”, revelou Anton Tai. “Vamos continuar a trabalhar, passo a passo, para uma transição suave dos trabalhadores dos ‘casinos-satélite'”, acrescentou o secretário.

Em Junho, o então secretário para a Administração e Justiça, André Cheong Weng Chon, exigiu às operadoras a garantia de um emprego para os trabalhadores locais afectados. O único dos 11 ‘casinos-satélite’ que deverá permanecer aberto é o Royal Arc. Em 20 de Novembro, a SJM confirmou a aquisição da empresa que detém o Royal Arc por 1,75 mil milhões de dólares de Hong Kong.

A empresa tinha inicialmente revelado planos para adquirir os hotéis onde se situam o Ponte 16 e o Royal Arc e pedir às autoridades para assumir a gestão direta dos espaços de jogo.

Luís Bernardino, académico: “Precisamos definir uma estratégia de cooperação-defesa” para a CPLP

O livro “25 Anos de Cooperação de Defesa na CPLP” foi lançado em 2023 em formato digital e, dois anos depois, chegou à versão impressa. Luís Bernardino, co-autor ligado à Universidade Autónoma de Lisboa, realça evoluções positivas desde a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, não obstante inacções e polémicas com a Guiné Equatorial

“25 Anos de Cooperação de Defesa na CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]” foi lançado em e-book e agora chega à versão impressa. Porquê editar este livro?

Este livro fala sobre os 25 anos de cooperação na área da defesa da CPLP e é da minha autoria, juntamente com uma colega do Brasil, Camila Rizzi. Resulta de um projecto de investigação desenvolvido no Centro de Análises Estratégicas da CPLP, sediado em Moçambique. Tem a componente de defesa da CPLP e faz reflexão estratégica sobre esse tema. Pelo facto de terem passado 25 anos de cooperação nessa área quisemos fazer uma avaliação e o livro para que ficasse para a história da organização. Em 2023, não houve condições financeiras para editar o livro em papel como queríamos, e foi agora lançado a 18 de Novembro, em Maputo.

Há críticas quanto à efectiva acção da CPLP. Considera que este organismo tem crescido de forma sustentável?

A avaliação que faço é na área da defesa. Quando a CPLP foi criada, a cooperação na área da defesa não constava nas seis áreas iniciais. Essa área só surgiu em 1998. A CPLP nasceu com seis áreas principais – cultura, língua, concentração político-diplomática – e tem actualmente 26 áreas de cooperação, o que é a prova de que cresceu de forma sustentada. Obviamente que com altos e baixos, situações mais fáceis ao longo destes quase 30 anos. Mas o que se salienta neste livro, na área da defesa, é que houve um crescimento bastante consolidado e participado. Nestes 25 anos fez-se muita coisa interessante e a avaliação é positiva.

E o futuro?

Precisamos de definir uma estratégia de cooperação-defesa e aquilo que queremos para a CPLP nesta área nos próximos 25 anos. É esse o desafio que temos pela frente, de uma maior actividade e iniciativa, para que a cooperação e defesa possam ser estratégicas naquilo que é a cooperação dentro dos Estados. Para que possa ser algo mais visível e permitir, de forma efectiva, um crescimento, participação e desenvolvimento, ou até maior empenho, em contextos regionais.

Mas olhando para passado, presente e futuro, como tem sido a dinâmica na área da defesa?

O livro mostra uma certa dinâmica de crescimento constitucional substancial numa primeira fase. Depois houve desenvolvimentos muito interessantes, com alguns protocolos e cooperação ao nível das Forças Armadas, mas há ainda muita coisa a fazer, nomeadamente olhar para a área da cooperação-defesa como uma área estratégica.

O sistema geopolítico mundial parece estar a mudar muito rapidamente, seguindo um caminho multipolar. A CPLP deveria ter outro papel neste contexto, com actores como a China, Rússia ou Estados Unidos?

A CPLP não é um instrumento multilateral, não é uma organização desse nível. Temos de colocar a CPLP ao nível da Commonwealth, por exemplo, de organizações de nível cultural, linguístico, de parceria entre países, de preocupação com o desenvolvimento. O que costumo dizer é que a CPLP é um bom instrumento diplomático de comunicação, um soft power relativamente a áreas relacionadas com a gestão e prevenção de conflitos. Não estejamos à espera que haja forças armadas, ou um exército, da CPLP. Este organismo é de diálogo e cooperação. O que fazemos, em termos de defesa, é isso mesmo, criar parcerias para que haja mecanismos de resposta a catástrofes, para dar capacidade de treino às forças armadas. Há até quem faça a pergunta: porque é a CPLP não interveio em Cabo Delgado, em Moçambique, na questão do terrorismo?

E porquê?

Porque a CPLP não é esse mecanismo de hard power, não tem capacidade, nem doutrina, logística, mandato ou viabilidade para ser empregue em operações de combate. E os Estados-membros da CPLP estão muito conscientes de que somos um mecanismo muito bom de cooperação, parceria e desenvolvimento, com contributos para a cultura e língua. Portanto, a CPLP não vai intervir no conflito entre a Rússia e Ucrânia, porque não é essa a sua área, nem tem mecanismos para essa dinâmica.

Justifica-se a existência da CPLP?

Acho que sim, obviamente, porque, como disse, a CPLP é um instrumento muito bom em termos de cooperação, da divulgação da língua portuguesa, da história. O facto é que temos cerca de 350 milhões de pessoas que falam português. Temos 30 países que são observadores associados, como a Ucrânia, o Chile, e a cultura portuguesa está representada nesta organização. Cada país tem o que quer da CPLP e dá-lhe a importância que acha que deve dar, e isso depende da política externa de cada Estado. Mas acho que a CPLP faz muito sentido no mundo em que vivemos, e fá-lo como representante multilateral da língua, da cultura, da cooperação entre os estados que falam português, e aqueles que de fim ao cabo têm alguma afinidade [com o mundo lusófono]. A questão de Macau é muito específica nesta organização.

Macau tem o papel de plataforma comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, e a China tem uma agenda para a lusofonia.

Antes de 1999 Macau tinha um estatuto próprio na CPLP, por ter administração portuguesa. Havia uma Declaração Conjunta que permitia que Macau, não sendo um Estado-membro, tivesse, de certa forma, um protocolo [com a CPLP]. Quando passou a ser RAEM, as coisas mudaram e perdeu esse estatuto de ligação, e Macau não é membro da CPLP, e obviamente não pode ser. A China também não, e não pode ser. Portanto, há aqui um estatuto de observador associado que surge para os países, organizações internacionais e regionais, e ainda as entidades territoriais dotadas de administração própria, que também não é bem o caso de Macau. O território está num limbo, entre ter uma história muito forte ligada à Lusofonia, e ter uma administração muito ligada à China, o que lhe dá, na minha perspectiva, duas dinâmicas.

Em que sentido?

Macau é um elemento fundamental na ligação entre os países da CPLP e a China. Por todos os motivos, mas pela questão da língua, história, e da sua representatividade, é um actor fundamental nesta cooperação. Macau deve ser visto, efectivamente, como um parceiro e como uma porta de entrada da China para os países da lusofonia. É isso que, de certa forma, já está a acontecer, e é a isso que a CPLP vai estar atenta, nesta relação em que Macau tem um estatuto especial. Quer queiramos, quer não, isso tem impacto. Macau é um factor de atractividade de facilitação de relações entre a China e Angola, Portugal ou o Brasil.

A permanência da Guiné Equatorial na CPLP levanta questões de credibilidade?

Concordo consigo. Terá sido, nestes 30 anos, um dos principais momentos difíceis na criação de consensos. Recordo que a Guiné Equatorial foi admitida em 2014, mas já havia um processo em fase de análise anterior. Havia sempre um prolongamento, ano após ano, e foi difícil chegar a um consenso no quadro dos países da CPLP. Em 2014, houve uma cimeira em Timor-Leste e, por acção do Brasil e Angola, houve, de certa forma, uma pressão muito grande para a entrada da Guiné Equatorial. Mas há dois princípios, para o bem e para o mal, que justificam a presença da Guiné Equatorial na CPLP.

Que são…

O primeiro argumento é que, de facto, a Guiné Equatorial tem o português como língua oficial na sua Constituição, apesar de nós sabermos que a língua portuguesa, por exemplo, abrange quatro ou cinco por cento da sociedade num todo, e já estou a ser bastante generoso. Mas há um compromisso das autoridades da Guiné Equatorial para desenvolver o português como língua de trabalho e há uma ligação histórica à cultura portuguesa e à lusofonia. Outro critério é a promessa de que, numa próxima revisão constitucional, firmar o compromisso da abolição da pena de morte. Quanto ao português, é uma coisa que leva gerações, não se faz de um ano para o outro. Nem nos próximos 10 ou 15 anos nós teremos o português perfeitamente implementado. Há alguma timidez, um compromisso, de certa forma. Quanto à pena de morte, o que é facto é que se conseguiu, parece, alguma alteração. Nunca mais houve uma acção de pena de morte [desde a adesão]. E há a esperança que, numa próxima revisão constitucional, este facto seja abolido da Constituição e que possa, efectivamente, deixar de existir. Na qualidade de membro da CPLP, estas mudanças serão mais fáceis e mais visíveis e, no futuro, a Guiné Equatorial pode, efectivamente, assumir o estatuto da CPLP tendo em conta estas premissas. Não sei se vai acontecer, deixo aqui uma reticência, e este é um momento de desafio para a própria CPLP. Há que fazer um trabalho a partir de dentro, para que a Guiné Equatorial possa estar ao nível dos outros países, principalmente nestas duas áreas.

O que é certo é que permanece uma certa falta de transparência em relação ao que se passa no país.

Temos consciência de que a Guiné Equatorial tem grandes problemas com questões da legitimidade democrática, das eleições. Há uma série de situações que reconhecemos que não são perfeitamente adequadas face ao estatuto dos países da CPLP. Acho que há uma esperança de que as coisas possam mudar, a tentativa de criar espaço para que o português possa crescer dentro da Guiné Equatorial, e ainda o compromisso para uma maior abertura e participação. O que é facto é que a Guiné Equatorial tem participado nas reuniões da CPLP, e eu tenho participado em algumas. Nas situações internacionais temos de ser pragmáticos, e temos esperança de que, só porque a Guiné Equatorial está na CPLP, isso possa dar o contributo para que a própria Guiné possa desenvolver alguns gestos mecânicos.

Mulheres timorenses vítimas de violência sexual da guerra exigem fim da discriminação

Reportagem de Domingos Freitas, da agência Lusa

A associação Pirilampo, que representa mulheres vítimas de violência sexual entre 1974 e 1999, exige que o Estado timorense as apoie, depois de anos de discriminação por parte da sociedade e das suas famílias.

“Continuamos a lutar sozinhas porque fomos vítimas no passado, não por vontade própria. Sofremos as consequências da política deste país desde 1974, por querermos a autodeterminação. Por causa dessas decisões políticas, nós, mulheres, fomos alvo de muitas violações sexuais”, disse à Lusa Maria Isabel da Silva, presidente da Pirilampo, no âmbito dos 50 anos da declaração unilateral da independência e da ocupação indonésia.

Maria Isabel da Silva acusou o Estado timorense de não lhes ter concedido reconhecimento que possa ajudar a recuperar a sua coragem e dignidade.

“Criámos a Pirilampo porque sabemos que não somos sobreviventes de pouca importância. Somos sobreviventes de violência sexual ocorrida durante a guerra, entre 1974 e 1999. Queremos recuperar a dignidade, porque muitas enfrentam estigmas nas suas comunidades e até dentro das próprias famílias”, explicou Maria Isabel da Silva.

A presidente da Pirilampo explicou que a organização tem como missão apoiar mulheres sobreviventes de violência sexual através da assistência social, legal e económica para que se tornem cidadãos fortes e independentes. A associação defende também os direitos das vítimas e sobreviventes que continuam sem voz, para que possam obter reconhecimento e atenção do Estado ou do Governo.

Maria Isabel da Silva esclareceu que a visão da Pirilampo é contribuir para que a sociedade timorense nunca mais permita que ninguém seja vítima de graves violações dos direitos humanos, sobretudo de violência sexual, incluindo assédio, abuso, violação ou casamento forçado.

A presidente da Pirilampo lamentou também que os aspetos culturais discriminem mulheres que engravidaram ou tiveram filhos de homens não identificados. “Por vezes são consideradas prostitutas, restos dos militares indonésios. Estes são insultos que nos foram dirigidos durante muito tempo”, disse.

Com apoio da Associação Chega Ba Ita (ACBIT) e da Asia Justice and Rights (AJAR), várias vítimas participaram em atividades diversas e, em 22 de outubro de 2022, estas organizações ajudaram-nas a criar o Klibur Sobrevivente Feto Pirilampo 1974-1999, para aliviar o sofrimento e as dificuldades enfrentadas.

A Pirilampo já registou 455 mulheres sobreviventes de violência sexual, das quais 87 deram à luz crianças resultantes dessas violações. Até hoje aquelas crianças, muitas vezes apelidadas “crianças da guerra”, enfrentam uma vida muito difícil, devido à discriminação por parte da família, da sociedade e, sobretudo, na administração pública.

“Chamam-lhes filhos de pais desconhecidos, filhos de homens do mato, de milícia. Isso afeta muito a sua autoestima e muitos recusam ir à escola”, alertou a presidente. Maria Isabel Silva explica que muitos destes jovens também não conseguem obter documentos básicos, como certidões de batismo da Igreja ou documentos do Estado. Vivem em zonas remotas, dependem da agricultura e não têm acesso adequado à saúde e à educação.

A presidente apelou ao Governo para prestar atenção e reconhecer estas pessoas como qualquer outro cidadão, para que também os seus filhos possam viver em liberdade e igualdade. “Estamos vivas. Não pedimos nada, não pedimos dinheiro. O dinheiro do Estado não chega para pagar a nossa dignidade. Perdemos o corpo, carregamos dor e o trauma. Só queremos recuperar o nosso ser completo. Não pedimos dinheiro”, disse, emocionada, Maria Isabel Silva.

Ainda há discriminação

Fernanda Guterres e Maria Gusmão nasceram depois de as suas mães terem sido violadas por soldados indonésios, durante a ocupação de Timor-Leste, e até hoje continuam a enfrentar discriminação no seu país. As duas carregam o estigma de serem “crianças da guerra”, nome que é atribuído a pessoas que nasceram de mulheres violadas entre 1974 e 1999, durante o conflito entre várias fações timorenses e durante a ocupação indonésia.

“Eu não me sinto livre, porque continuo a enfrentar discriminação da sociedade. Os colegas dizem-me palavras que me magoam, e eu própria tenho receio de fazer amizades devido às palavras duras que me dizem”, afirmou à Lusa Fernanda Guterres, que trabalha na organização não-governamental ACBIT, que apoia, com a Asia Justice and Rights (AJAR), as “crianças da guerra” e as mulheres vítimas de violência sexual durante a ocupação a ultrapassarem as dificuldades e traumas que marcaram as suas vidas.

“Sinto um pouco de liberdade apenas quando participo em sessões de oratória ou em formações dadas pelas irmãs, que encorajam os jovens a enfrentar a realidade”, salientou. O relatório da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), divulgado há 20 anos, e que recolheu testemunhos de centenas de vítimas de violência sexual, refere que a maioria foi cometida pelas forças de ocupação da Indonésia.

“Somos Crianças da Guerra porque as nossas mães foram forçadas e engravidadas por outros homens durante a ocupação. Caso contrário, os invasores teriam matado toda a família. Para salvar a própria vida, muitas mulheres timorenses sofreram violência sexual”, explicou Fernanda Guterres. Como consequência dessa violação forçada, as “crianças da guerra” continuam a ser alvo de insultos e estigmas. “Não tens pai”, “és filho do inimigo” ou “filho de milícia”, são alguns dos insultos que aquelas mulheres continuam a ouvir.

Quando era pequena, a mãe de Fernanda Guterres dizia-lhe que o pai estava vivo, mas ela nunca o conheceu. Mais tarde, descobriu que ele não existia, mas a mãe nunca o admitiu explicitamente. “Perguntei muitas vezes pela minha mãe e pelo meu pai. A minha mãe dizia sempre ‘o teu pai está aí’, e dizia para não acreditar se alguém dissesse o contrário. Mas nunca o conheci. No fim, percebi que não tinha pai”, disse.

Fernanda Guterres recorda também, com mágoa, as tentativas de violência sexual de membros da comunidade, unicamente devido ao passado da sua mãe. “A família e também alguns vizinhos tentaram abusar de mim. Quando já era adulta, deixei de ficar calada e pedi à minha família para enfrentarmos quem tentasse fazer-me mal”, contou a jovem de 28 anos.

Hoje, Fernanda tem a sua própria família, com três filhos, e disse ter encontrado um companheiro que a apoia plenamente. “Conheci o meu marido graças ao plano de Deus. Ele soube do passado da minha mãe e toda a sua família soube também, mas nunca me discriminaram. Sempre me acolheram bem. O meu marido apoia-me, dá-me coragem. O passado ficou para trás. Agora olhamos para o futuro e para os nossos filhos. É isso que me dá força”, afirmou.

“Vivemos uma vida simples. Não temos empregos formais, mas mantemos sempre respeito e entendimento mútuo. Quando surge algum problema em casa, conversamos e procuramos solução juntos”, disse. Fernanda Guterres conseguiu obter documentos da Igreja ou do Estado, graças ao apoio de pessoas que a ajudaram a regularizar tudo.

Maria Gusmão também reconheceu que a sua mãe foi vítima de violência sexual por militares indonésios. “Quando era pequena, na escola primária e no pré-secundário, sofri discriminação devido ao conflito que a minha mãe enfrentou. Diziam que eu era filha de milícia, filha do inimigo. Ouvia isso com os meus próprios ouvidos”, afirmou a jovem de Covalima.

Recorda igualmente que alguns elementos da sua comunidade chegaram a proibir as crianças de brincar consigo. Mais tarde, na universidade e até dentro da família, continuou a enfrentar discriminação. Apesar disso, Maria Robinson apelou às outras jovens para não perderem a vontade de lutar, nem a esperança, mesmo perante a discriminação, salientando que o Estado deve dignificar as mulheres que foram vítimas de violência sexual e também os seus filhos.

Maria Robinson conseguiu obter documentos porque o seu padrasto aceitou colocar o seu nome nas certidões de nascimento. Questionada sobre o sentimento de liberdade, respondeu que apenas se sente “um pouco livre”, sublinhando que ainda hoje enfrenta discriminação, estigma e injustiça. “Desde a família, à sociedade, à comunidade e até ao nosso próprio Estado”, afirmou a jovem de 25 anos. Maria Robinson completou recentemente a licenciatura na Universidade da Paz (UNPAZ) e trabalha também na organização não-governamental ACBIT.

Timor-Leste assinala em 28 de novembro os 50 anos de declaração unilateral da independência e da ocupação indonésia, em 7 de dezembro de 1975. A restauração da independência aconteceu em 20 de maio de 2002, depois da realização de um referendo pela autodeterminação em 30 de agosto de 1999.

Timor-Leste / Independência – Mari Alkatiri: Proclamação foi antecipada pela presença militar indonésia

Entrevista de Isabel Marisa Serafim, da agência Lusa

O líder da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri, disse que a proclamação unilateral da independência estava prevista para 01 de dezembro de 1975, mas foi antecipada porque as tropas indonésias já se encontravam no território.

“Estava inicialmente marcada para 01 de dezembro”, disse Mari Alkatiri, em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos de declaração da unilateral da independência, que se assinalam na sexta-feira, e da ocupação indonésia, nove dias depois, em 07 de dezembro.

Em novembro, Mari Alkatiri fazia um “safari” por vários países africanos, principalmente aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), que passou pela participação na declaração da independência de Angola, em 11 de novembro de 1975.

“Depois dessa ‘tour’, desse ‘safari’ africano, regressei ao país. Na altura estava em Maputo para preparar o meu regresso e recebi um telefonema do Nicolau Lobato para não regressar, porque precisávamos de ter alguém fora do país”, recordou, salientando que não acatou a ordem do então vice-presidente da Fretilin.

“Então voltei a Díli em 22 ou 23 de novembro e o comité central e comité político militar estava reunido no atual quartel-general da Polícia Nacional de Timor-Leste, era sede provisória da Fretilin, e discutia-se a proclamação para 01 de dezembro”, explicou. No dia 28 de novembro, Mari Alkatiri, então com 25 anos, recordou que Nicolau Lobato foi ter a sua casa e disse que era preciso proclamar a independência naquele dia.

“Saímos os dois num carrito dele para Lahane onde estava Xavier do Amaral [antigo presidente da Fretilin] e transmitimos isso a Xavier Amaral, que disse claramente para esperarmos mais três ou quatro dias. Dissemos que não havia tempo para esperar e decidimos fazer a proclamação nesse dia à tarde”, disse.

“Felizmente que não só a Constituição estava pronta, mas também a bandeira já estava pronta. Foi a minha mãe que coseu a bandeira. Havia condições mínimas para a proclamação da independência”, afirmou o atual secretário-geral da Fretilin, que também escreveu o texto da proclamação.

“Quando começo a falar destes dias não é só memória, eu participei ativamente na proclamação unilateral da independência, embora se tente cortar a minha fotografia, politiquices, mas a verdade é que só há uma pessoa ainda viva que participou ativamente na proclamação há 50 anos, sou eu”, salientou.

No primeiro Governo timorense, liderado por Nicolau Lobato e que só durou nove dias, Mari Alkatiri foi nomeado ministro de Estado para os Assuntos Políticos. Nocolau Lobato liderou a luta contra a ocupação ondonésia e foi assassinado em dezembro de 1978. A restauração da independência aconteceu em 20 de maio de 2002, depois da realização de um referendo pela autodeterminação em 30 de agosto de 1999 e de 24 anos de resistência contra a Indonésia.

Uma questão de egos

Mari Alkatiri afirmou também, na mesma entrevista, que os “egos” estão a impedir Timor-Leste de suplantar os desafios e que é preciso uma cultura de liderança mais democrática, inclusiva e abrangente.

“Se nós conseguimos na altura, com todas as dificuldades, com todos os desafios suplantar, à velocidade da luz quase, porque é que hoje não conseguimos? É essa questão, a questão da causa. Quando a causa une, a jornada pode decorrer, com muitos atropelos aqui e acolá, mas vai conseguir e vai vencer”, disse Mari Alkatiri em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos de declaração unilateral da independência, que se assinalam na sexta-feira.

Questionado sobre a razão para não haver união, o líder da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) disse que são os “egos”.

“Eu estou a acompanhar o debate orçamental, quando nós continuamos a pensar de uma forma ‘cantineira’ os assuntos do Estado, não vamos a lado nenhum”, criticou o antigo primeiro-ministro timorense, cujo partido optou por se abster na votação final global do Orçamento do Estado.

Sobre as críticas contra as opções da atual governação, Mari Alkatiri disse não saber se alguma vez houve uma opção. “Estratégia não vejo. Há uns acertos aqui e acolá, tenta aqui e acolá, mas não há estratégia, mas defende-se bastante o planeamento estratégico, investimento estratégico, mas não vejo”, afirmou.

“Há necessidade de uma cultura de liderança muito mais democrática, muito mais inclusiva, muito abrangente, com sentido de missão e visão no futuro”, salientou o secretário-geral da Fretilin. O dirigente partidário alertou também para que não se aguarde que a “bomba rebente”.

“A bomba retardatária está aí, a bomba-relógio está aí, espero não termos de fazer, depois disso, a apologia da verdade, depois da bomba rebentar”, salientou. Questionado sobre se a “bomba” é a insatisfação, o ex-primeiro-ministro disse: “completa”.

“Um país que após 24 anos de restauração de independência, com os meios que teve para trabalhar, porque é que falhou? Falta de sentido de inclusão. Nós estamos a construir um Estado, fala-se de Estado de Direito Democrático, é verdade? Ou oligárquico”, questionou.

As novas gerações

Ainda em relação aos jovens, que representam a maioria dos cerca de 1,4 milhões de habitantes de Timor-Leste, Mari Alkatiri disse que estes se sentem perdidos. “Os jovens são naturalmente mais generosos quando são mais considerados, ou mais revoltosos, quando revoltados. Há duas facetas aqui na juventude, a de generosidade quando abraçam uma causa, outra, é uma reação muito mais violenta de confrontação”, disse.

Salientando que mais de 70% da população tem menos de 35 anos, Mari Alkatiri advertiu que daquelas “duas gerações já estão sacrificadas” devido à educação “sem qualidade” e uma “saúde cada vez pior” e “sem perspetivas”. “Agora, todos nós falamos que o dinheiro do petróleo vai acabar, estou a ver que para o Governo a alternativa para o petróleo, é o petróleo”, disse.

O capital do Fundo Petrolífero de Timor-Leste era em setembro de 18,95 mil milhões de dólares (16,4 mil milhões de euros). “Ficámos a sonhar com o Sunrise e como costumo dizer enquanto sonhamos com o Sunrise, teremos o ‘sunset’, porque não há política, não há planos, não há programas”, acrescentou.

Mari Alkatiri referia-se ao campo de gás Greater Sunrise, localizado a 150 quilómetros de Timor-Leste e a 450 quilómetros de Darwin, cujo projeto tem estado envolto num impasse, com Díli a defender a construção de um gasoduto para o sul do país, e a Woodside, segunda maior parceira do consórcio, a inclinar-se para uma ligação à unidade já existente em Darwin.

O consórcio é constituído pela timorense Timor Gap (56,56%), a operadora Woodside Energy (33,44%) e a Osaca Gás (10,00%). O Governo de Timor-Leste anunciou no sábado a assinatura de um acordo de cooperação com a australiana Woodside Energy para estudos para processar e exportar gás para o país.

Discussões que faltam

O secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri, defendeu a necessidade de “todos juntos” discutir o que falhou nos últimos 24 anos, após a restauração da independência, em maio de 2002.

“Fala-se muito de novos paradigmas e o velho paradigma, estamos prontos para nos sentarmos todos juntos para discutir o velho paradigma, porque é que falhou? Não”, afirmou o antigo primeiro-ministro timorense, em entrevista à Lusa por ocasião dos 50 anos de declaração unilateral da independência, que se assinalam na sexta-feira.

Para Mari Alkatiri, todos contribuíram com a “sua parte positiva, com a sua parte negativa”, mas é preciso perceber as falhas em “termos individuais”, em “termos coletivos” e haver “responsabilização”. Questionado pela Lusa sobre as razões pelas quais não há essa discussão, o líder da oposição timorense respondeu que um “líder que não se consegue sentar à mesa, não é um líder”.

“O líder deve saber que há um momento de se sentar à mesa. Eu fiz propostas. Quando voltei em 2018, disse ‘este meu voto é para que o povo possa vencer’, não disse para a Fretilin vencer. A mensagem era clara, era tempo de pensarmos todos em conjunto. Fiz a campanha a dizer Fretilin ganha, Xanana ganha”, afirmou Mari Alkatiri.

O líder da Fretilin disse que a resposta tem sido “de vingança, de ódio”. “De tal forma que para se vingar de mim atinge centenas de pessoas, famílias. Se é comigo, venha falar comigo, não tem de prejudicar os outros, mas isso é uma questão pontual”, afirmou, referindo-ae ao primeiro-ministro timorense, XAnana Gusmão. A questão fundamental, continuou Maria Alkatiri, é “ter sentido de missão, visão de futuro e ter uma causa comum”.

“O que é determinante é saber todo o dinheiro que se gastou, o que se fez. Um balanço de desempenho do coletivo e do individual. Quando estávamos a fazer a guerra, sabíamos o que queríamos, restaurar a independência, 24 anos depois da restauração da independência não sabemos para onde vamos”, lamentou o dirigente.

Mari Alkatiri disse também estar “muito preocupado” com o relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que alertou em 11 de setembro para a proliferação de redes criminosas em Oecussi, enclave timorense no lado indonésio da ilha de Timor, salientando que as recentes investigações mostram uma contaminação da região.

“Já está a ser absorvido pelo cartel de mafiosos, que estão a entrar aqui em toda a sua força. Fechamos quiosques e achamos que estamos a combater a máfia. Estou muito preocupado”, disse. Para o futuro, Mari Alkatiri afirmou que vai continuar a lutar, mas para “criar massa crítica”.

“A minha luta agora não é a preocupação com os ciclos eleitorais, mas como posso criar realmente uma massa crítica verdadeira em Timor-Leste. Acabemos com a cegueira, muitos dos nossos intelectuais académicos emprenham pelos ouvidos, mas não ficam grávidos”, salientou.

O líder da Fretilin disse também, a todos da sua geração, que é tempo de se pôr “egos” de parte e voltar-se a “pensar em conjunto”, salientando que têm mais cinco anos para o fazer. “O próximo mandato de governação deve ser produto do entendimento se queremos realmente que este país vá para a frente”, afirmou Mari Alkatiri, salientando que o povo timorense merece “muito mais e muito melhor” do que o que foi dado até hoje.

Segurança | Japão e Reino Unido reafirmam cooperação

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e o seu homólogo britânico, Keir Starmer, reafirmaram este sábado a cooperação em matéria de segurança à margem da Cimeira dos Líderes do G20, que terminou ontem na África do Sul.

Takaichi e Starmer “concordaram em continuar a cooperar em questões de segurança” e também “acordaram em colaborar estreitamente nas áreas da economia e da segurança económica”, afirmou ontem o gabinete da primeira-ministra japonesa, que deu conta dos resultados de uma reunião entre os dois líderes em Joanesburgo na véspera.

No primeiro encontro entre Takaichi e o homólogo britânico desde que a governante assumiu o cargo no mês passado, ambos os líderes reafirmaram também a intenção de trabalharem “estreitamente” com os Estados Unidos por um Indo-Pacífico “livre e aberto”.

As declarações surgem no contexto de forte tensão diplomática entre Tóquio e Pequim, desde que Takaichi afirmou no Parlamento japonês que um ataque militar da China contra Taiwan poderia justificar a intervenção das Forças de Autodefesa (Exército) japonesas (ver página 12).

Pequim respondeu com duras repreensões e represálias económicas, ao mesmo tempo que exigiu que Takaichi se retratasse e aconselhou os seus cidadãos a não viajarem para o Japão, o que provocou centenas de suspensões de voos.

Takaichi recusou na sexta-feira retratar-se sobre as afirmações em relação a Taiwan e manteve que essa é a “posição coerente” do governo japonês. Ao mesmo tempo, a governante reiterou o desejo de manter relações benéficas com a China e lançou um novo apelo ao diálogo.

Tóquio manifestou-se disponível a um encontro entre Takaichi e o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, nas reuniões bilaterais do G20, sendo que a China tinha dito na passada segunda-feira que não há nenhum encontro previsto entre os dois líderes durante a cimeira.

Vietname | Pelo menos 90 mortos numa semana devido a chuvas torrenciais

O número de mortos no Vietname em uma semana de chuvas torrenciais que afectam o país subiu ontem para 90, contra 55 vítimas mortais registadas na véspera, enquanto 12 pessoas continuam desaparecidas, informaram as autoridades.

Inundações e deslizamentos de terra causados pelas chuvas intensas e prolongadas estão a afectar províncias do centro e do sul do país, com Dak Lak e Khanh Hoa como as mais castigadas, com cerca de cinquenta mortos, segundo dados divulgados pelo ministério vietnamita da Agricultura e Meio Ambiente.

Após dias de isolamento, as autoridades conseguiram distribuir ajuda – alimentos, suprimentos e roupas, entre outros – nas áreas mais afectadas e remotas de Dak Lak, que ficaram dias sem electricidade, sinal de telefone ou água potável e cujos habitantes continuam a usar canoas, barcos e pranchas de surf para se deslocarem, informam os meios oficiais.

Imagens publicadas pela imprensa vietnamita mostram casas completamente submersas, bem como ruas com água acumulada à altura da cintura dos cidadãos. O primeiro-ministro do Vietname, Pham Minh Chinh, reuniu-se em videoconferência com os governos de várias das províncias afetadas a partir da África do Sul, onde participa como convidado na Cimeira de líderes do G20, que terminou ontem em Joanesburgo.

Os danos causados pela tempestade estão estimados em cerca de nove biliões de dongs (cerca de 297 milhões de euros), de acordo com avaliações oficiais. O governo vietnamita distribuirá 1,1 biliões de dongs (cerca de 36,3 milhões de euros) em apoios à recuperação das províncias de Khanh Hoa, Dak Lak, Lam Dong e Gia Lai.

Embora as chuvas tenham diminuído desde sexta-feira, a precipitação persiste em vários pontos da metade sul do Vietname, indica a plataforma Zoom.earth, enquanto os trabalhos de busca e salvamento continuam.

Gaza | Hamas acusa Israel de ter violado quase 500 vezes cessar-fogo

O Governo do Hamas, que controla a Faixa de Faza, denunciou ontem que Israel violou 497 vezes o mais recente cessar-fogo em Gaza, promovido pelos Estados Unidos e em vigor desde 10 de Outubro.

Segundo o balanço, 27 dessas violações ocorreram no sábado, quando uma nova vaga de ataques israelitas em todo o enclave palestiniano causou 24 mortos e 87 feridos. “Condenamos nos termos mais firmes as contínuas e graves violações sistemáticas do acordo de cessar-fogo por parte das autoridades de ocupação israelitas”, afirmou o gabinete político do Hamas em comunicado.

Ao longo dos 44 dias desde a assinatura do cessar-fogo, o Governo de Gaza contabiliza a morte de 342 civis – a maioria crianças, mulheres e idosos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza –, 875 feridos e 35 detenções arbitrárias em incursões e rusgas para além da chamada ‘linha amarela’.

A ‘linha amarela’ é a demarcação imaginária para a qual as tropas israelitas recuaram, embora ainda dentro de Gaza, quando o cessar-fogo entrou em vigor. Entre essa linha e as fronteiras de Gaza com Israel e com o Egipto, todo o perímetro, mais de 50 por cento do enclave, está sob controlo militar israelita.

O novo balanço das autoridades do enclave sobre as violações ao cessar-fogo inclui 142 tiroteios contra civis, habitações, bairros residenciais e tendas de deslocados, 21 incursões de veículos em zonas residenciais e agrícolas, cruzando a ‘linha amarela’, 228 bombardeamentos terrestres, aéreos e de artilharia e 100 demolições de habitações e infraestruturas civis.

Ontem, o Hamas acusou Israel de violar a trégua “com falsos pretextos” e apelou aos mediadores (Estados Unidos, Egipto e Qatar) para “intervirem urgentemente e pressionar para que estas violações cessem de imediato”.

“Responsabilizamos totalmente a ocupação [israelita] por todas as repercussões humanitárias e de segurança decorrentes destas violações e afirmamos que a sua agressão contínua irá minar qualquer esforço internacional para manter a calma”, acrescenta o comunicado do Governo do Hamas.

Do outro lado

Por seu lado, o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou no sábado ter lançado os mais recentes ataques, depois de um alegado combatente do Hamas ter cruzado a ‘linha amarela’ e atacado soldados israelitas. “Em resposta, Israel eliminou cinco combatentes de alto escalão do Hamas”, garantiu o gabinete de Netanyahu.

Desde o início da ofensiva militar israelita, desencadeada após os ataques do Hamas a 07 de Outubro de 2023, morreram 69.733 habitantes de Gaza, entre eles mais de 20.000 crianças, devido ao fogo israelita, e 170.863 ficaram feridos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

Presidentes para todos os gostos

A campanha eleitoral para os candidatos a Presidente da República está na estrada. Os pretendentes ao palácio de Belém são mais que muitos e para todos os gostos. No dia 18 de Janeiro do próximo ano, o povo português é, mais uma vez, chamado a dirigir-se às urnas para votar em quem pretende ser o novo Presidente de Portugal. Há candidatos da extrema-direita à extrema-esquerda. O voto é secreto, mas a maioria do povo já tem uma ideia em quem irá votar. Uma coisa é certa: os portugueses querem continuar a viver em democracia e não aceitam teses xenófobas, racistas e neonazis. As sondagens valem o que valem. Normalmente erram no resultado final. No entanto, certos canais de televisão tudo têm feito para influenciar o voto num certo sentido.

Hoje, deixo-vos aqui o que pensamos de cada um dos candidatos.

André Ventura – Um candidato anti-sistema político em vigor, que tem defendido o ódio pelos imigrantes, que preconiza uma mudança nas leis da nacionalidade e até na própria Constituição da República. É visível que apenas se candidata para tentar manter a sua base eleitoral para futuras eleições legislativas, apesar de o seu Partido Chega, ter vindo a perder adeptos. Nos debates televisivos que já participou só sabe gritar e apresentar os mesmos argumentos que anuncia desde que fundou o partido. Não se adivinha sequer que possa participar numa eventual segunda volta das eleições presidenciais.

Marques Mendes – O antigo comentador televisivo e dirigente do PSD resolveu candidatar-se porque o seu companheiro Luís Montenegro lhe garantiu que teria o apoio da Aliança Democrática PSD/CDS, que de momento governa o País. Marques Mendes apresenta-se como um candidato de facção. Sem dúvida, que os adeptos do governo Montenegro irão votar nele. No entanto, nem todos os militantes do PSD apoiam esta candidatura. Para esses militantes, Marques Mendes é um Marcelo Rebelo de Sousa número dois, com menos conhecimento da legislação constitucional. As sondagens fabricadas para sua valorização já chegaram a apresentá-lo como estando à frente das intenções de voto. Não cremos, sinceramente, que o povo escolha um Presidente que apenas iria para Belém defender todas as propostas de Montenegro.

Almirante Gouveia e Melo – Um candidato que recolheu de imediato, ao anunciar a sua candidatura, o apoio popular esmagador por ter sido um homem de seriedade e de organização quando se registou a pandemia do vírus Covid-19. Uns, apoiam novamente um militar na Presidência de Portugal. Outros, são radicalmente contra a eleição de um militar. Dizem que não tem experiência política e que não sabe explicar em que área política se situa. Como é que um cidadão que chega a almirante não sabe de política? Como é que não acompanhou as vicissitudes da política nos 50 anos de democracia? Impossível. Gouveia e Melo sabe perfeitamente os apoios que tem e que ideias possui para ser um Presidente diferente. O problema, é que os seus adversários políticos sabem que Gouveia e Melo sabe demais, como por exemplo, quem recebeu “luvas” na aquisição dos submarinos de alta tecnologia Arpão e Tridente, não tendo existido qualquer investigação do Ministério Público quando os intervenientes alemães no negócio estão presos. Os seus adversários querem a todo o custo afastá-lo, por Gouveia e Melo saber todos os podres de quem o quer afastar. É um dos candidatos fortes a vencer as eleições, à primeira ou à segunda volta.

António José Seguro – Um candidato experiente na política e na vida académica onde tem mantido um vasto contacto com jovens. Foi secretário-geral do Partido Socialista e após a “guerra” com António Costa hibernou. Passados 10 anos regressa trazendo consigo a sua seriedade, o seu conhecimento político da realidade portuguesa e a sua serenidade na análise dos problemas nacionais. O Partido Socialista, ou uma parte dele, viu-se obrigado a anunciar que apoiava este candidato. Seguro agradeceu o apoio, mas sublinhou a sua independência. Seguro desde que anunciou candidatar-se a Presidente, tem subido paulatinamente nas intenções de voto dos portugueses, especialmente entre um “centrão” moderado que inclui social-democratas e socialistas. Poderá surpreender e seguir para uma segunda volta.

Cotrim Figueiredo – Um candidato que foi líder da Iniciativa Liberal, um partido que mais se assemelha ao Chega do que ao PSD. Cotrim poderá ser uma surpresa, especialmente no voto dos jovens e das mulheres. Pessoalmente é uma pessoa cordial, conhecedora dos dossiês políticos, com experiência nos corredores do Parlamento Europeu e que se apresenta como defensor de um liberalismo moderno e reformista. Pode surpreender na percentagem de votos, mas não cremos que chegue para disputar uma segunda volta. A mobilização ao redor de Cotrim está a ser activa e influente. O seu resultado irá depender muito das críticas que anunciar contra o Chega, caso contrário, os militantes social-democratas descontentes com Marques Mendes não o irão apoiar e podem optar pelo voto em Seguro.

António Filipe – Este candidato é um Senhor. Sério, deputado da Assembleia da República durante muitos anos, conhecedor da Constituição do primeiro ao último parágrafo, afável e popular. Não renega as suas raízes de comunista, mas muitas vezes discordou das directrizes do Comité Central do seu partido, o PCP. É um candidato que tem percorrido todo o País e que se senta nos cafés a ouvir as queixas das populações. Tem conseguido uma base de apoio maior que a do seu próprio partido. Já ouvimos socialistas a dizer que votarão na sua candidatura. António Filipe é culto, excelente comentador, amigo dos desprotegidos e poderá obter um resultado surpreendente, apesar de as sondagens encomendadas pela AD o colocarem sem significado eleitoral. Talvez se enganem.

Catarina Martins – A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda devia ter-se mantido na insignificância que se tem registado no seu partido, que mês após mês tem visto fugir eleitores para o Livre. Catarina não tem quaisquer hipóteses de obter um bom resultado, porque a crise que grassa no Bloco em nada a ajuda a conquistar eleitores. Sabe do que fala, aponta erros à governação de Montenegro, defende os reformados de miséria, mas não existe na sua candidatura uma máquina que a pudesse promover a uma candidata credível de conseguir um bom resultado.

Sobre o candidato do Livre e de outros pretendentes ao “trono” de Belém não nos vamos pronunciar pelo facto de não terem qualquer hipótese de serem eleitos. Na nossa modesta opinião, as eleições irão ser disputadas entre Gouveia e Melo e Marques Mendes ou António José Seguro. E numa segunda volta, se Seguro estiver presente, toda a esquerda poderá coexistir com a tese de Álvaro Cunhal de tapar os olhos e colocar a cruz em Seguro.

GP | FIA vai continuar a apostar na Formula Regional em Macau

O facto de a FIA ter trocado a Fórmula 3 pela Fórmula Regional (FR) continua a ser um tema recorrente quando o tópico é o Grande Prémio de Macau. Apesar da prova rainha do programa não ter desapontado na edição deste ano, apagando um pouco a má imagem deixada no ano passado, ainda existe um sentimento generalizado de que a federação internacional privou o Grande Prémio da sua prova preferida

No final da 72.ª edição, a Coordenadora da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau, Lei Si Leng, quando questionada novamente pela imprensa local sobre um eventual regresso da Fórmula 3, afirmou que a organização vai continuar a cooperar com a FIA para escolher as corridas que mais se adequam a Macau. Ao mesmo tempo, a dirigente do Instituto do Desporto de Macau deixou a garantia que o plano passa por continuar a receber pilotos em idade de formação e que se afirmem como o futuro do automobilismo.

“Nós temos vindo a comunicar de forma estreita com a FIA para sabermos quais as provas que podem ser realizadas em Macau e a FIA tem seleccionado os melhores pilotos para virem cá competir”, disse, acrescentando que espera “que possam vir os melhores pilotos a Macau e que continuemos a colaborar com a FIA para organizar as provas mais adequadas para Macau”.

Do lado da FIA, existe a convicção de que a FR é a disciplina que melhor se adapta às características do Circuito da Guia, um traçado que permanece praticamente inalterado após sete décadas de existência. O descontentamento que ainda subsiste é considerado natural. “O desporto motorizado é tradicional, e não me recordo de alguma mudança que tenha sido bem recebida no início, mesmo as boas mudanças” admitiu Emanuele Pirro, o actual presidente da Comissão de Monolugares da FIA, em conversa com os jornalistas em Macau.

O ex-piloto italiano, um conhecedor do Circuito da Guia e vencedor da Corrida da Guia pela BMW, aproveitou a passagem pela RAEM para recordar que “se olharmos para a história de Macau, começou com a Fórmula 2, ou Fórmula Pacific, e depois passou para a Fórmula 3. Em 1984, um jornalista podia ter perguntado: ‘porque já não corremos com Fórmula 2?’ Acho que é inevitável. Tudo tem um preço. Para termos o privilégio de contar com um circuito que permaneceu inalterado ao longo da sua história, o preço a pagar é utilizarmos carros que continuem a ser razoavelmente seguros. E penso que a Fórmula Regional oferece um bom equilíbrio em termos de velocidade.”

Numa rara entrevista à revista especializada INSIDE, o ex-coordenador do Grande Prémio, José Manuel Costa Antunes, alertou para que não se deixe cair o nível da prova. “Hoje, com a transição para a Fórmula Regional e a Fórmula 4, o que não é um problema, são apenas carros diferentes, vemos mais pilotos inexperientes”, referiu o homem que esteve ao leme do evento por mais tempo, tocando num tema sensível: “Algumas pessoas podem simplesmente comprar um lugar. Isso é preocupante. Como fãs, queremos corridas a sério, não bandeiras vermelhas. Devemos à história do Grande Prémio recuperar esse processo selectivo, para garantir que apenas os melhores competem aqui.”

Números apoiam a decisão

Olhando para as folhas de tempos, conclui-se que os registos por volta da corrida principal da FR se situaram na casa dos 2m16s, cerca de dez segundos mais lentos do que os tempos verificados no último ano dos monolugares FIA F3, em 2023. Em termos históricos, estes cronos colocam os carros da FR num patamar semelhante ao dos Fórmula 3 do final da década de 1990. No entanto, do ponto de vista da segurança, as velocidades atingidas no “sprint” para a Curva Lisboa continuam a ser a principal preocupação desde o acidente de Sophia Flörsch em 2018. Com o cone de aspiração, velocidades superiores a 290 km/h eram frequentes em 2023 com os Dallara F3, mas a mudança para os carros da FR reduziu esses valores para a ordem dos 260 km/h.

Em 2026, espera-se a chegada a Macau do novo carro da Fórmula Regional, o Tatuus T-326, que está equipado com um motor Toyota ATM163T de três cilindros e 1.6 litros, preparado pela Autotecnica Motori, mais potente e eficiente. O chassis foi concebido segundo as últimas especificações da FIA, de forma a proporcionar melhorias ao nível do desempenho, da segurança e da aerodinâmica, facilitando as ultrapassagens e promovendo corridas mais animadas. Todavia, apesar de ser expectável que os tempos por volta voltem a descer, provavelmente as velocidades de ponta não serão dramaticamente mais altas.

Convém referir que a mudança para a FR não foi motivada apenas por questões de segurança. Quando a FIA concedeu à Formula One Management (FOM) os direitos comerciais e promocionais da Fórmula 3, a prova do território passou a ser uma corrida extra-campeonato de uma competição internacional, limitada à participação das mesmas equipas que disputavam o campeonato. Esta alteração foi recebida de forma desfavorável pelo próprio promotor, uma vez que o mesmo nunca desempenhou um papel verdadeiramente interventivo no âmbito do Grande Prémio. Acresce que a realização da prova em Macau, no mês de Novembro, implicava uma logística particularmente exigente, com impacto negativo no planeamento e execução dos testes de pré-temporada.

Venezuela | Pequim garante apoio a Maduro

O Presidente chinês garantiu sábado que a China vai continuar a apoiar a Venezuela para “salvaguardar a sua soberania e segurança nacional, dignidade da nação e estabilidade social”, na véspera do aniversário do chefe de Estado venezuelano.

Numa carta enviada a Nicolás Maduro, e citada pela agência espanhola de notícias, a Efe, Xi Jinping rejeitou as “ingerências de forças externas” nos assuntos internos do país sul-americano “sob qualquer pretexto” e acrescentou que “a China e a Venezuela são amigos íntimos, irmãos queridos e bons parceiros”.

Também numa carta enviada pela embaixada da Rússia em Caracas a Maduro, o Presidente russo, Vladimir Putin, reiterou o seu compromisso com a Venezuela na sua relação estratégica. “Sem dúvida, continuaremos o estreito trabalho conjunto em prol do fortalecimento contínuo das relações de parceria estratégica entre Moscovo e Caracas”, afirmou Putin na carta, que foi sábado divulgada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela.

O Presidente russo disse ainda estar certo de que, sob o mandato de Maduro, a Venezuela “superará com dignidade todas as provações e defenderá os seus interesses legítimos nestes tempos turbulentos”.

Estas declarações surgem num contexto de tensão entre a Venezuela e os Estados Unidos devido ao envio de tropas militares norte-americanas para o mar das Caraíbas, com o argumento de combater o narcotráfico, mas que Maduro considera ser apenas uma tentativa de o afastar do poder.

MNE | Pequim “nunca permitirá” o regresso do militarismo japonês

O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, deixou bem claro em declarações durante a sua visita ao Tajiquistão que a China não permitirá qualquer ingerência do novo governo japonês de direita nas decisões sobre Taiwan

A China “nunca permitirá” o regresso do “militarismo” japonês, advertiu o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, numa reunião com o homólogo tajique, Sirojiddin Muhriddin, em plena escalada de tensões entre Pequim e Tóquio devido a Taiwan. Durante o encontro, realizado no sábado em Duchambé, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros expressou agradecimento ao Tajiquistão pelo “firme apoio” em questões que afectam os “interesses fundamentais da China”, entre as quais a situação de Taiwan.

“A China nunca permitirá que as forças de direita do Japão façam retroceder a roda da história, nem permitirá a ingerência de forças externas na região chinesa de Taiwan ou um ressurgimento do militarismo japonês”, afirmou Wang, de acordo com declarações recolhidas pela agência oficial Xinhua. O ministro sublinhou que Pequim “trabalhará com todas as partes para defender o consenso internacional” em torno do “princípio de uma só China” e faz questão de “salvaguardar conjuntamente as conquistas da vitória na Segunda Guerra Mundial”.

A China e o Japão estão envolvidos numa disputa diplomática tensa depois da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que está no cargo há um mês, ter afirmado que um ataque da China a Taiwan poderia justificar a intervenção das Forças de Autodefesa japonesas.

Após as declarações de Takaichi, a China aconselhou os seus cidadãos a não viajarem para o Japão, o que provocou centenas de cancelamentos de voos, assim como vetou novamente a importação de marisco japonês, entre outras medidas.

Finca pé

A primeira-ministra japonesa, por sua vez, recusou-se na sexta-feira passada a retratar-se das sobre Taiwan no Parlamento nipónico, considerando que se trata de uma “posição coerente” do governo japonês, e reiterou o apelo ao diálogo com a China. Pequim considera a ilha de Taiwan, governada de forma autónoma desde 1949, como uma “parte inalienável” do seu território e não descarta o uso da força para assumir o seu controlo.

O Japão, que rompeu relações diplomáticas com Taipé para estabelecer relações com Pequim em 1972, mantém intercâmbios estreitos não-oficiais com a ilha, bem como um compromisso de segurança com os Estados Unidos.

Disputa na ONU

O Governo chinês levou a disputa diplomática com o Japão à ONU, acusando Tóquio de “lançar uma ameaça de uso da força” contra Pequim e advertindo que se defenderá de qualquer “acto de agressão” no estreito de Taiwan. Numa carta enviada sexta-feira ao secretário-geral da ONU, António Guterres, o embaixador da China junto da organização, Fu Cong, afirmou que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, “fez comentários provocadores sobre Taiwan de forma flagrante”.

O embaixador advertiu que, se o Japão se atrever a intervir militarmente no estreito de Taiwan, isso será considerado por Pequim um “acto de agressão”. “A China exercerá com determinação o seu direito à autodefesa ao abrigo da Carta da ONU e do direito internacional e defenderá firmemente a sua soberania e integridade territorial”, afirmou Fu.

“Como país derrotado na Segunda Guerra Mundial, o Japão deve reflectir profundamente sobre os seus crimes históricos, cumprir estritamente o seu compromisso político relativo à questão de Taiwan, cessar imediatamente provocações e ultrapassagens de linhas vermelhas, e retratar-se das suas declarações erróneas”, concluiu o diplomata chinês.

Barra Slow Festival | Café e cultura nas Oficinas Navais

Chama-se “Barra Slow Festival” e a primeira edição está marcada para o próximo fim-de-semana, entre os dias 28 e 30 de Novembro, pretendendo-se revitalizar a zona da Barra com actividades ligadas à cultura do café, design e artesanato. O público poderá desfrutar de eventos nas Oficinas Navais nº 1 e nº2, bem como na praça situada na zona

É já este fim-de-semana, nomeadamente entre sexta-feira e domingo, que decorre em Macau a primeira edição do “Barra Slow Festival 2025”, um evento que traz várias actividades ligadas ao café, cultura e arte e que visam atrair a atenção do público para a zona da Barra, conhecida por locais turísticos como o Templo de A-Má.

Segundo um comunicado oficial do evento, trata-se de uma estreia no território de eventos como o “To Play Market × Tokyo Coffee Festival · Macau 2025” e ainda a “Feira de Arte e Design Shanghai UNFOLD”, e ainda iniciativas como o “Coffee Rave”, “Macau Chill Collective” e uma exposição do conhecido designer gráfico Florian Lamm. Todos estes eventos estarão espalhados pela praça da zona da Barra e Oficinas Navais nº 1 e nº2, onde habitualmente decorrem eventos culturais.

Segundo a mesma nota, o “Barra Slow Festival” integra “elementos contemporâneos populares, como cultura do café, design criativo, exposições visuais, produtos artesanais limitados e música”, tratando-se de um “evento cultural com conceitos seleccionados”.

Defende-se a ideia de um evento em que haja “calor humano”, incentivando-se o público “a relaxar e viver intensamente, recuperando a tranquilidade inerente à vida”. Desta forma, “o bairro da Barra foi o escolhido [para esta iniciativa], com barracas montadas dentro e fora dos edifícios históricos das Oficinas Navais”.

Espera-se, assim, que o público em geral “possa desfrutar de uma chávena de café, passear pela área e experimentar a profundidade histórica do bairro da Barra”.

De fora para dentro

Acima de tudo, o “Barra Slow Festival” traz a Macau eventos já conhecidos na Ásia, como é o caso do “Tokyo Coffee Festival”, organizado pela “To Play Market” e que reúne quase 50 marcas famosas de café do Japão, da Grande Baía e de Macau.

“Há apenas alguns meses, o Tokyo Coffee Festival fez a sua estreia em Hong Kong, atraindo mais de 30.000 participantes, e tanto o seu café artesanal como os seus produtos de café foram muito elogiados”, destaca a organização. Nesta estreia em Macau haverá produtos especiais à venda e edições limitadas.

Outro destaque do cartaz, é a Feira de Arte e Design “UNFOLD”, organizada em Xangai pela Shanghai BANANAFISH. Trata-se de um evento com o conceito curatorial de “desdobrar, ler e apresentar”, sendo uma “plataforma de comunicação que reúne amantes da cultura e da arte, designers, trabalhadores criativos e profissionais da indústria criativa”.

O que se poderá ver na Barra, com o “UNFOLD”, é um mercado com 100 stands de marcas e produtos de design de todo o mundo, com “selecções criativas e produtos artesanais limitados”, sendo que os detentores dos bilhetes podem ainda visitar a exposição especial do designer Florian Lamm.

As obras de Florian foram seleccionadas para o Top 100 Posters na Alemanha, Áustria e Suíça, e ganharam o Prémio Artista na Bienal de Brno, a mais antiga exposição de design gráfico do mundo.

Já o “Macau Chill Collective” pretende “reunir a força das marcas locais”, convidando-se “dezenas de marcas, desde proprietários de cafés conhecidos, artesãos criativos e criadores”. Durante o festival, será ainda realizada a exposição “Memórias Antigas: Impressões do Estaleiro – Exposição Fotográfica Histórica do Distrito de Barra”, a fim de “aprofundar a compreensão dos participantes sobre a história do distrito”.

O “Barra Slow Festival” tem entrada gratuita e decorre entre as 12h e as 20h, sendo necessário adquirir bilhetes para a Feira de Arte e Design UNFOLD, com um custo de 55 patacas em regime de pré-venda e 78 patacas nos dias do evento. Há ainda bilhetes à venda para alguns eventos relacionados com a cultura do café. Os bilhetes têm estado à venda desde o dia 2 de Novembro nas plataformas MacauTicket, Damai e Ctrip. O evento é organizado pela Federação da Indústria e Comércio de Macau, Distrito Central e Sul, coorganizado pela BANANAFISH e TOPYS, e apoiado pelo Instituto de Desenvolvimento Económico e Tecnológico, pela Direcção dos Serviços de Turismo de Macau, pela União Geral das Associações de Bairro de Macau e outras entidades patrocinadoras.

PJ | Pedida maior cobertura de programa anti-burlas

O deputado Chan Lai Kei interpelou o Governo sobre a necessidade de reforçar e aumentar a cobertura do programa anti-burlas da Polícia Judiciária (PJ), tendo em conta os frequentes casos de burla que ocorrem associados a falsos funcionários da plataforma Taobao.

Assim sendo, o deputado, com ligações à comunidade de Fujian, questionou se podem ser introduzidas, neste programa, análises com recurso à inteligência artificial (IA) para que possam ser dados alertas aos utilizadores sempre que encontrem mensagens com alto risco de burla. Além disso, o deputado lembrou que existe a técnica de troca de rosto com recurso à IA, o que leva idosos a serem, facilmente, vítimas de burla, esperando por isso que a PJ utilize este programa anti-burla para divulgar este tipo de casos a grupos de potenciais vítimas de burlas.

Na mesma interpelação, o deputado pergunta ainda como vai o Governo reforçar a cooperação com as regiões vizinhas no que toca à partilha de dados transfronteiriços, a fim de rastrear a origem e fluxo de capital envolvido em burlas.

Imobiliário | Aumento trimestral dos preços em 7,7 por cento

Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) demonstram que os preços médios das casas, por metro quadrado de área útil, registaram um aumento de 7,7 por cento no terceiro trimestre deste ano em comparação com o anterior. Só na península de Macau esse aumento foi de 12,6 por cento, registando-se um preço médio de 74.590 patacas, “devido principalmente aos novos complexos habitacionais terem sido colocados à venda no trimestre de referência”, destaca a DSEC.

Nas ilhas, destaca-se a subida de 4 por cento em Coloane, com o preço médio das fracções autónomas habitacionais a situar-se nas 87.093 patacas, enquanto na Taipa os preços desceram 4,6 por cento, rondando as 70.110 patacas. O preço médio das fracções autónomas habitacionais de edifícios construídos situou-se em 65.897 Patacas, menos 3,2 por cento, em termos trimestrais.

A DSEC revela ainda que no terceiro trimestre deste ano transaccionaram-se, com base no imposto de selo cobrado, 1.411 fracções autónomas e lugares de estacionamento pelo valor de 6,26 mil milhões de patacas. O preço médio por metro quadrado de área útil das fracções autónomas habitacionais, em termos globais, fixou-se em 74.190 patacas.

Oceanos | China, Portugal e Brasil criam laboratório de investigação

Entre as instituições envolvidas no novo projecto estão a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Macau (UM) e o Instituto Superior Técnico (IST)

Instituições académicas da China, Portugal e Brasil criaram na sexta-feira, em Macau, um novo projecto para colaborar na investigação dos oceanos, incluindo o impacto das alterações climáticas e as mudanças nas correntes marinhas.

“Vamos aprofundar o conhecimento dos oceanos e ter uma visão mais integrada, que nos permita antecipar o futuro de forma mais segura”, disse à Lusa o coordenador do Laboratório de Robótica e Sistemas de Engenharia. O objectivo do Centro de Investigação Oceânica entre a China e os Países de Língua Portuguesa é “colaborar e partilhar os dados, recursos e talentos”, acrescentou José Santos-Victor.

Além do laboratório associado ao Instituto Superior Técnico, o novo centro integra a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Macau (UM) e o laboratório estatal chinês Laoshan Laboratory, com sede em Qingdao, no leste da China. “Há vários centros de investigação que fazem um excelente trabalho nestas várias áreas”, defendeu Santos-Victor, dando como exemplo a investigação e previsão dos efeitos das alterações climáticas nos oceanos.

De acordo com grupos ambientalistas, as mudanças climáticas são uma das grandes ameaças aos oceanos, juntamente com a poluição e novas tecnologias que abrem as portas à exploração mineira em alto mar e à pesca mais intensiva. Uma prioridade será a formação, com planos para intercâmbios entre investigadores e estudantes de mestrado ou doutoramento entre os vários laboratórios do centro, sublinhou o académico português.

Novos mestrados

Durante a cerimónia de inauguração, o reitor da UM, Song Yonghua, prometeu o lançamento de programas conjuntos de mestrados entre as universidades que fazem parte da iniciativa. Ettore Apolonio de Barros, professor da USP, recordou à Lusa que a universidade brasileira criou, em 2024, o Centro USP-China, para “provocar a cooperação com universidades chinesas”.

O investigador destacou o carácter multidisciplinar do centro inaugurado em Macau, como “uma das primeiras iniciativas” a juntar cientistas e engenheiros para colaborar na exploração e estudo dos oceanos. O especialista em sistemas electromecânicos automatizados lembrou que o projecto é “um importante desdobramento” da Aliança de Investigação Científica Oceânica entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

A aliança foi criada também em Macau, em 2022, por 19 universidades da China e de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique, para lançar projectos conjuntos de investigação sobre os oceanos. O vice-reitor da UM, o português Rui Martins, disse à Lusa que recentemente a aliança foi reforçada, com a entrada de mais cinco instituições, incluindo a Universidade de Hainão, no sul da China.

Do lado lusófono, aderiram a Universidade Técnica do Atlântico (Cabo Verde), a Universidade de Coimbra, o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e o INESC P&D Brasil.

Casa Real | Casino encerrou no sábado

O encerramento do casino Casa Real, ligado à concessionária SJM Resorts, decorreu na manhã de sábado “de acordo com os procedimentos previstos”. A informação foi revelada pela Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos, que coordenou o fecho e garantiu “a conformidade dos termos legais e o encerramento ordenado”.

“Após o encerramento do Casino Casa Real, às 23h59 do dia 21 de Novembro, a DICJ procedeu, de imediato, à suspensão do funcionamento das mesas de jogo, tendo assegurado a coordenação, de forma activa, com diversos serviços, o acompanhamento do processo de retirada do respectivo recinto, entre outros. O encerramento do casino decorreu de forma ordenada”, foi comunicado.

“No decurso do encerramento do referido casino, a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais enviou pessoal ao local para prestar esclarecimentos aos trabalhadores em causa, tendo-lhes sido fornecido informações sobre uma linha aberta para consultas posteriores”, foi acrescentado.

Inflação atinge valor mais elevado dos últimos 14 meses

A inflação anual em Macau acelerou em Outubro, pelo quarto mês consecutivo, atingindo 0,6 por cento, o valor mais elevado dos últimos 14 meses, foi anunciado na sexta-feira. A subida do índice de preços no consumidor (IPC) em Outubro cresceu 0,13 pontos percentuais face a Setembro, e o foi o valor mais alto desde Agosto de 2024 (mais 0,74 por cento), segundo dados oficiais.

De acordo com a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), a aceleração da inflação deveu-se sobretudo aos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas (mais 0,7 por cento). O custo das refeições adquiridas fora de casa subiu 1,54 por cento. Os gastos com rendas ou hipotecas de apartamentos subiram 0,83 por cento e 0,58 por cento, respectivamente.

Em 30 de Outubro, a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) aprovou a segunda descida da taxa de juro em dois meses. A Assembleia Legislativa aprovou, em Abril de 2024, o fim de vários impostos sobre a aquisição de habitações, para “aumentar a liquidez” no mercado imobiliário, defendeu na altura o secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong.

Joalharia a subir

Com a recuperação no número de visitantes, a região registou uma subida de 29,8 por cento no preço da joalharia, ourivesaria e relógios, produtos populares entre os turistas da China continental.

O custo das excursões e hotéis para viagens ao exterior de residentes de Macau aumentou 5,87 por cento, enquanto os gastos com educação e combustíveis para veículos subiram 1,67 por cento e 3,18 por cento, respectivamente. A inflação em Macau acelerou em Outubro, num período em que o IPC voltou a subir a cair na China continental, depois de quatro meses em queda.

Na China continental, de longe o maior parceiro comercial de Macau, o IPC registou uma subida homóloga de 0,2 por cento. A China registou deflação em seis dos dez meses deste ano.

A deflação reflecte debilidade no consumo doméstico e no investimento e é particularmente gravoso, já que uma queda no preço dos activos, por norma contraídos com recurso a crédito, gera um desequilíbrio entre o valor dos empréstimos e as garantias bancárias.

O valor registado em Setembro surpreendeu os analistas, que previam que o indicador se mantivesse inalterado em comparação com Outubro de 2024.

Turismo | Novo recorde de visitantes para mês de Outubro

O território recebeu cerca de 33,1 milhões de visitantes nos primeiros dez meses, mais 14,1 por cento do que em igual período do ano passado. É o segundo valor mais elevado de sempre, abaixo dos registos pré-pandemia

Macau recebeu 3,47 milhões de visitantes em Outubro, mais 10,8 por cento do que no mesmo período de 2024 e o valor mais elevado de sempre para este mês, foi anunciado. O número de turistas que passou pelo território foi o mais elevado para qualquer mês de Outubro desde que a Direcção dos Serviços de Estatísticas e Censos (DSEC) começou a compilar dados mensais, em 1998, ainda durante a administração portuguesa.

A região já tinha registado no mês anterior um máximo histórico para Setembro: quase 3,8 milhões de visitantes, mais 9,8 por cento do que no mesmo período de 2024. No entanto, em Outubro quase 61 por cento dos visitantes (2,1 milhões) chegaram em excursões organizadas e passaram menos de um dia em Macau.

Em 2024, o Governo Central divulgou uma série de medidas de apoio ao território, como o aumento do limite de isenção fiscal de bens para uso pessoal adquiridos por visitantes da China. Ao mesmo tempo, as autoridades chinesas alargaram a mais 10 cidades da China a lista de locais com “vistos individuais” para visitar Hong Kong e Macau.

Além disso, desde 1 de Janeiro, os residentes da vizinha cidade de Zhuhai podem visitar Macau uma vez por semana e ficar até sete dias. Em resultado, a esmagadora maioria (89,8 por cento) dos turistas que chegaram a Macau em Setembro vieram da China continental ou Hong Kong, enquanto pouco mais de 353 mil foram visitantes internacionais.

A cidade recebeu no total cerca de 33,1 milhões de visitantes nos primeiros dez meses, mais 14,1 por cento do que no mesmo período de 2024 e o segundo valor mais elevado de sempre para um arranque de ano.

Abaixo de 2019

De acordo com dados oficiais, o número de turistas que passou por Macau só foi superado entre Janeiro e Outubro de 2019 – antes da pandemia de covid-19 -, período em que registou mais de 33,4 milhões de visitantes. Em 17 de Janeiro, a directora dos Serviços de Turismo de Macau disse esperar entre 38 e 39 milhões de visitantes este ano.

Em Agosto, Maria Helena de Senna Fernandes apontou como meta mais de três milhões de visitantes internacionais em 2025. Nos primeiros dez meses do ano, Macau recebeu quase 2,97 milhões de turistas vindos do estrangeiro, mais 14,9 por cento do que no mesmo período de 2024.

Cidadãos da Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Barém e Omã passaram a estar dispensados de visto para entrar na cidade a partir de 16 de Julho. Apesar do aumento no número de turistas, o consumo médio de cada visitante em Macau, excluindo nos casinos, caiu 9,5 por cento nos primeiros nove meses do ano, em comparação com o mesmo período de 2024.

No início de Maio, a DSEC apontou a “alteração do padrão de consumo dos visitantes” como uma das principais razões para a queda de 1,3 por cento da economia de Macau entre Janeiro e Março. Foi a primeira vez que o Produto Interno Bruto do território encolheu, em termos homólogos, desde o final de 2022, quando a região começou a levantar as restrições devido à pandemia de covid-19.

Macau recebeu no ano passado 34,9 milhões de visitantes, mais 23,8 por cento do que no ano anterior, mas ainda longe do recorde, 39,4 milhões, fixado em 2019, antes da pandemia.

LAG | Miguel de Senna Fernandes pede mais foco em Macau

O presidente da Associação dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes, defendeu a importância da integração regional, mas destacou que Macau atravessa um momento “delicado” e precisa de mais atenção do Governo. A posição de Senna Fernandes foi tomada em declarações ao Canal Macau.

“Macau está integrado na Grande Baía, não se espera outra coisa que não melhorias para a aceleração do desenvolvimento da Grande Baía. Mas, não se pode esquecer que estamos em Macau. Isto é fundamental”, começou por dizer o presidente da associação, sobre as Linhas e Acção Governativa. “Não há cidadão, por mais nobre, por mais que defenda o Governo, por mais que aplauda o Governo nesta política e contribuição de Macau para o desenvolvimento, não há cidadão que não tenha Macau como uma prioridade”, acrescentou.

Num contexto em que a recuperação do turismo abrange a sociedade de forma desigual, Miguel de Senna Fernandes pediu mais atenção a Macau, porque se atravessa um período complicado: “Apesar dos números da retoma económica, não podemos esquecer que ainda há uma faixa de cidadãos aos quais isto não chega”, vincou.

“É preciso dizer as medidas, e não digo de longo prazo, mas de médio prazo para que se melhorem as condições, as perspectivas de futuro desta camada de trabalhadores, de profissionais em Macau. Não se vá alimentar apenas o sonho de Hengqin, por exemplo. Há pessoas que gostam de ficar em Macau e para eles Macau é sempre o futuro”, sublinhou.

Trabalho | Johnson Ian critica excesso de TNR

Johnson Ian, ex-candidato a um lugar de deputado na Assembleia Legislativa (AL), defendeu que o Governo não demonstrou verdadeira determinação para substituir os trabalhadores não residentes (TNR) por residentes na área laboral, isto a propósito do mais recente relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2026.

Na coluna de opinião publicada no jornal Sou Pou, Johnson Ian recordou que um dos destaques do relatório das LAG, divulgado na última semana, é a exigência junto de instituições financeiras e de ensino superior, entre outras, da libertação de mais postos de trabalho para os residentes de Macau. No entanto, Johnson Ian apontou que os residentes têm dificuldade em encontrar trabalho no território porque há muitos TNR. O responsável afirma também no mesmo artigo que os residentes querem trabalhar e até pretendem assumir postos de trabalho de categoria inferior, mas as empresas não têm vontade de os recrutar.

Johnson Ian citou dados oficiais que demonstram que existem, actualmente, 183 mil TNR, devendo, na sua opinião, o Governo reduzir este número de trabalhadores estrangeiros, sobretudo nas empresas de jogo, para aliviar o problema do desemprego dos residentes.

Economia | UE expressa “preocupação com questões políticas”

Harvey Rouse, chefe da Delegação da União Europeia (UE) em Hong Kong e Macau, esteve reunido com o secretário para a Economia e Finanças de Macau, Tai Kin Ip, para discutir o investimento de empresas europeias na diversificação da economia de Macau

A União Europeia (UE) escusou-se a revelar se Au Kam San, detido com nacionalidade portuguesa, foi mencionado numa reunião com as autoridades de Macau, em que um representante europeu demonstrou “preocupação com questões políticas”. Na quinta-feira, o chefe da Delegação da União Europeia (UE) em Hong Kong e Macau, Harvey Rouse, escreveu nas redes sociais que se tinha encontrado com o secretário para a Economia e Finanças de Macau, Tai Kin Ip.

Os dois falaram sobre como as empresas europeias podem apoiar “a diversificação económica” de Macau, altamente dependente do turismo, e “o desenvolvimento contínuo” da vizinha zona económica especial de Hengqin (ilha da Montanha). “Também expressei preocupação com questões políticas”, acrescentou o britânico Rouse.

Questionado pela Lusa sobre se tinha discutido a detenção do ex-deputado Au Kam San com Anton Tai, o diplomata britânico não respondeu. “Não comentamos o conteúdo específico de reuniões bilaterais”, disse à Lusa a Delegação da UE em Hong Kong e Macau, numa resposta escrita.

“Nas nossas reuniões com as autoridades de Macau, levantamos regularmente preocupações sobre as alterações políticas e jurídicas na RAEM [Região Administrativa Especial de Macau], em consonância com o Relatório Anual da UE sobre Macau, incluindo sobre casos individuais”, acrescentou a delegação.

Em 11 de Setembro, a Comissão Europeia alertou que a “insistência na segurança nacional do governo de Macau” está a levar à “limitação do espaço para vozes pluralísticas quer da política, quer da sociedade”.

Revisões incómodas

Num relatório, a comissão deu como exemplo a revisão das leis eleitorais para o líder do Governo e para o parlamento local, para excluir candidatos considerados não patriotas. Em 31 de Julho, a polícia de Macau anunciou a detenção do activista pró-democracia Au Kam San, no primeiro caso ao abrigo da lei de segurança nacional da região, que entrou em vigor em 2009 e cujo âmbito foi alargado em 2023.

Em 10 de Setembro, durante uma visita a Macau, o primeiro-ministro português Luís Montenegro admitiu que não falou de Au Kam San com o líder do Governo local, Sam Hou Fai, e defendeu que o caso exige “a necessária discrição” e “algum recato”.

Em 21 de Outubro, a presidente do Tribunal de Última Instância de Macau, Song Man Lei, declarou que a justiça local tem o “dever indeclinável” de julgar “de forma justa, independente e profissional” os casos de segurança nacional, bem como “garantir que sejam punidos nos termos da lei todos os actos de ofensa à segurança do Estado”.

Recentemente, após a apresentação das Linhas de Ação Governativa para 2026, Sam Hou Fai abordou, brevemente, e pela primeira vez, a detenção de Au Kam San. “Em Agosto, tivemos o primeiro caso relacionado com a lei de segurança nacional”, disse em conferência de imprensa, sem referir o nome do activista. Ainda não é conhecida a acusação e não há informações sobre quem vai defender o ex-deputado.

Sam Hou Fai destaca segurança nacional como caminho do futuro

O Chefe do Executivo destacou que a RAEM tem de “defender firmemente a soberania, a segurança e os interesses do desenvolvimento do país” nos próximos anos, de forma a concretizar o “espírito da Quarta Sessão Plenária do 20.º Comité Central do Partido Comunista da China”. As declarações foram prestadas no sábado, num encontro que decorreu nas instalações do Fórum Macau.

No discurso de encerramento do evento, Sam Hou Fai sublinhou ainda a necessidade de desenvolver “Macau em todos os aspectos”, objectivo que referiu apenas ser possível se a sociedade souber “identificar correctamente, gerir adequadamente e procurar activamente mudanças”.

Além da segurança, o Chefe do Governo indicou que o espírito da sessão plenária do Comité Central passa por “promover o espírito patriótico, dinamizar a vitalidade social e elevar a eficiência da governação de acordo com a lei”.

Neste sentido, prometeu “reforçar os mecanismos de colaboração com as associações que amam a pátria e Macau, consolidando assim o seu alicerce de administração em prol das comunidades sociais de bases”. Em relação às associações, o Governo espera que sejam pontes de comunicação de ideias entre o Executivo e a sociedade.

Procurar mais amigos

Como terceiro aspecto, Sam Hou Fai indicou a necessidade de “agarrar de forma proactiva as oportunidades decorrentes do desenvolvimento, promovendo a diversificação adequada da economia e o desenvolvimento sustentável da sociedade de Macau”.

O Chefe do Executivo não esqueceu as campanhas para envolver a RAEM no panorama mundial ao contribuir para a construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, a participação na iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, e o fortalecimento das “interligações com o interior e o exterior”. Estas foram as vias apresentadas para alargar “o ‘círculo de amigos’ internacionais” de Macau e assumir “o papel de ‘interlocutor com precisão’ entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola”.

Cultura | Tensões entre China e Japão adiam reunião em Macau

Estava agendada para hoje em Macau uma reunião das “Cidades de Cultura da Ásia Oriental” com ministros da China, Coreia do Sul e Japão. No entanto, a iniciativa foi cancelada por Pequim, devido à crescente tensão com o Japão, após declarações da primeira-ministra japonesa

A reunião em Macau entre os ministros da Cultura da China, Japão e República da Coreia, que originalmente estava agendada para hoje, foi adiada, sem que tenha sido marcada nova data. O anúncio foi feito na quinta-feira, pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, citado pela Xinhua.

De acordo com a informação da agência estatal, o porta-voz chinês afirmou “que uma líder japonesa fez, de forma aberta, declarações altamente erradas sobre Taiwan, o que feriu os sentimentos do povo chinês, desafiou a ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial e minou a base e o ambiente para a cooperação entre China, Japão e República da Coreia”.

Mao Ning disse ainda que as declarações da “líder japonesa” levaram “a uma situação em que ainda não há condições para realizar a reunião”.

Embora a Xinhua não identifique a “líder japonesa”, a visada é Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão. A primeira mulher a liderar o Executivo do país do sol nascente afirmou, a 7 de Novembro, no parlamento, que um ataque do Interior à Ilha de Taiwan seria encarado no Japão como uma situação que “ameaçaria a sobrevivência” do país.

Em resposta, Xue Jian, cônsul-geral da República Popular da China em Osaka, escreveu uma publicação na rede social X a indicar que “não havia outra escolha que não fosse cortar sem hesitação o pescoço imundo que se intrometeu” nos assuntos chineses. A publicação acabou por ser apagada, após um protesto diplomático do Japão.

Tensão crescente

Face ao incidente diplomático, o Governo da China passou a exigir a Sanae Takaichi que se retrate publicamente das declarações prestadas no parlamento japonês, o que tem sido recusado.

Sem o recuo japonês, a China lançou um alerta de segurança sobre as viagens turísticas, que foi acompanhado pelos governos de Macau e Hong Kong. O Interior não se ficou pelo alerta para turistas e obrigou companhias de aviação a cancelar voos para os Japão, agências de viagens a cancelar as estadias em hotéis, bloqueou novamente as importações de marisco japonesas, adiou a entrada de filmes japoneses no mercado interno e lançou um alerta para os estudantes que pretendem estudar no Japão.

O encontro previsto para hoje em Macau visava promover “o intercâmbio e a aprendizagem mútua” entre os três países e foi apresentado como uma selecção das “Cidades de Cultura da Ásia Oriental”, entre as quais se inclui Macau. No portal do Governo da RAEM dedicado ao evento era igualmente apontado que o encontro era “visto como uma realização relevante para a humanidade” e “uma marca de cooperação cultural na Ásia Oriental”.