Personalidades políticas pedem que jovens desenvolvam o país Andreia Sofia Silva e Nunu Wu - 5 Mai 2026 Ontem assinalou-se o 4 de Maio de 1919, data associada ao movimento anti-imperialista em Pequim contra o Tratado de Versalhes, marco histórico que motivou várias personalidades políticas locais a pedir a intervenção dos mais novos no desenvolvimento do país. Lam Lon Wai, deputado e presidente da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), apontou que a elaboração do 3º Plano Quinquenal da RAEM deve herdar o espírito do 4 de Maio, e levar os jovens a conhecer as estratégias nacionais em termos económicos e a participar na governança social. Lam Lon Wai disse ainda que o país tem destacado os quadros qualificados como força motriz principal e que a FAOM vai incentivar os jovens de Macau a participar no 3º Plano Quinquenal da RAEM. Lam Lon Wai destacou também a realização de mais acções de intercâmbio com parques industriais na Grande Baía e Hengqin, pensadas para jovens. Oportunidades para apanhar Calvin Chui, chefe do conselho de juventude da Associação Comercial de Macau, defendeu que os jovens de Macau devem ser responsáveis, resistentes e ter vontade de lutar. Por sua vez, o vice-presidente da União Geral das Associações dos Moradores de Macau (UGAMM), Tang Man Kei, recordou que o movimento do 4 de Maio tem como valores o patriotismo, progresso, democracia e ciência, que os jovens de Macau devem promover. O responsável disse que a UGAMM vai continuar a ouvir os jovens e responder aos seus pedidos, criando uma plataforma mais ampla de apoio aos estudos, emprego, compra de casa e empreendedorismo. A Associação da Construção Conjunta de um Bom Lar, liderada pelas deputadas Wong Kit Cheng e Loi I Weng, defende que os jovens devem estar atentos às políticas e oportunidades na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin. Wong Kit Cheng sugeriu ainda a elaboração de um estudo sobre a previsão dos recursos humanos para a zona de Hengqin, para estabelecer uma base de dados dos quadros qualificados existentes, para que jovens e empresas possam conhecer as oportunidades disponíveis.
Orçamento | 7.000 patacas para titulares da previdência Hoje Macau - 5 Mai 2026 O Governo irá atribuir este ano 7.000 patacas, a título de repartição extraordinária de saldos orçamentais, aos titulares de conta individual do regime de previdência central não obrigatório que preencham os requisitos legais. Segundo um despacho do Chefe do Executivo, publicado ontem no Boletim Oficial, a Direcção dos Serviços de Finanças foi ouvida no processo. A publicação do despacho oficializa a decisão que o Governo de Sam Hou Fai já havia indicado durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa. Recorde-se que o Governo liderado por Ho Iat Seng suspendeu a atribuição da verba, destinado a residentes idosos, durante três anos marcados pela pandemia da covid-19. Na altura, o Executivo justificou a medida com a falta de saldos financeiros devido à descida das receitas fiscais. Passes | Primeira via gratuita para idosos e estudantes As primeiras vias dos passes para autocarros públicos para estudantes, idosos e pessoas portadoras de deficiência, emitidas pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego passaram a ser gratuitas. De acordo com um despacho do Chefe do Executivo, publicado ontem no Boletim Oficial, os encargos com a produção dos cartões para as pessoas elegíveis passam a ser suportados pela RAEM. A medida entra hoje em vigor.
Fundação Macau | Apoios no primeiro trimestre totalizam quase 200 milhões João Luz e Nunu Wu - 5 Mai 20265 Mai 2026 No primeiro trimestre deste ano, a Fundação Macau distribuiu 198,8 milhões de patacas para mais de 700 projectos. As associações tradicionais foram as maiores beneficiárias, com os Operários a receber cerca de 16 milhões de patacas e os Moradores 17,2 milhões de patacas Ao longo dos primeiros três meses de 2026, a Fundação Macau distribuiu cerca de 198,9 milhões de patacas, entre 743 projectos e actividades de associações e instituições. O valor dos apoios cresceu 162,4 por cento face ao trimestre anterior quando foram entregues 75,8 milhões de patacas, mas regista-se uma descida acentuada face ao primeiro trimestre de 2025, com uma quebra de 84,3 por cento. Entre os maiores beneficiários, contam-se as associações tradicionais. No primeiro trimestre deste ano, a União Geral das Associações dos Moradores de Macau foi a entidade que recebeu quantias mais avultadas, cerca de 17,2 milhões de patacas. De acordo com os dados publicados no portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos, o segundo lugar no “pódio” foi para a Federação das Associações dos Operários de Macau, com um apoio total a rondar os 16 milhões. O pódio encerra com a Associação Geral das Mulheres de Macau, que recebeu 13,9 milhões de patacas. A Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau ficou a uma grande distância dos maiores beneficiários, com cerca de 478 mil patacas. Em relação às entidades ligadas a conterrâneos de Fujian, a Aliança de Povo de Instituição de Macau obteve apoios financeiros de cerca de 7,3 milhões de patacas, enquanto a Associação Geral dos Conterrâneos de Fukien de Macau foi financiada com 1,4 milhões de patacas. Projectos além-fronteiras Ainda no capítulo das associações de cariz político, destaque para o apoio financeiro concedido à Associação Geral dos Chineses Ultramarinos de Macau, que recebeu mais de 3,2 milhões de patacas. Já Associação dos Conterrâneos de Kong Mun, que representa a comunidade de Jiagmen, foi beneficiada com 1,7 milhões de patacas. Neste trimestre, a Fundação Macau voltou a conceder um apoio ao Instituto Cultural para a realização do Concerto de Bandas Sonoras da Grande Baía, 2025 “Lua Cheia Nascendo sobre a Baía”, desta feita no valor de 1,38 milhões de patacas. Analisando os dados públicos, podemos verificar que o mesmo projecto foi apoiado no último trimestre do ano passado com 12,4 milhões de patacas, totalizando quase 13,8 milhões de patacas. Por seu turno, o IPOR – Instituto Português do Oriente recebeu cerca de 213 mil patacas. No plano de apoio social, foram distribuídos à Cáritas de Macau cerca de 8,8 milhões de patacas. Um dos projectos de solidariedade social no Interior da China inscrito na lista de entidades apoiadas nos últimos anos é a construção da Escola Secundária Ao Yuan, na aldeia de Heshi do distrito de Xiushui da província de Jiangxi, que recebeu nos primeiros três meses de 2026 a última prestação para erigir a escola, num valor superior a 3,5 milhões de patacas. A construção da escola foi concluída em 2023. A este valor, foram acrescentadas 750 mil patacas em bolsas de estudo para 25 alunos com dificuldades financeiras no ano lectivo 2025/2026, o que resulta em 30 mil patacas por aluno. Um dos apoios mais avultados no primeiro trimestre do ano, foi a última prestação para pagar o projecto de reconstrução e ampliação dos edifícios escolares do Instituto Salesiano de Macau, num valor superior a 14,8 milhões de patacas.
José Ferreira Pinto, docente | Na época da “tirania dos números” Andreia Sofia Silva - 5 Mai 20266 Mai 2026 Docente na Universidade Cidade de Macau, José Ferreira Pinto acaba de editar, na Amazon, a obra “Arithmocracy: When Numbers Rule and Judgment Disappears”, sobre o poder crescente dos números sobre relações interpessoais. A “aritmocracia” veio, definitivamente, para ficar e é difícil reagir ou encontrar alternativas mais humanas, diz o autor Porque razão decidiu escrever sobre esta “obsessão métrica”? Como profissional académico e consultor, testemunhei uma transformação profunda nas organizações, com a substituição progressiva do julgamento humano pela tirania dos números. A “obsessão métrica” não é simplesmente o uso de dados, mas a elevação da medição a uma posição de domínio organizacional que, paradoxalmente, mina os próprios resultados que a medição pretendia melhorar. É como quando o médico passa mais tempo a documentar do que a curar. A “aritmocracia” não é sobre ter métricas – é sobre as métricas nos terem a nós. Desde a industrialização que os números, no sentido das horas de trabalho, ou contagem da produção, dominam a vida humana. Com a chegada dos meios digitais e, sobretudo, da Inteligência Artificial (IA), podemos ter uma nova fase desta “obsessão métrica”? Charlie Chaplin, em “Modern Times” (1936), profetizou este fenómeno, mostrando como sistemas desenhados para optimizar performance podem produzir situações absurdas, alienação e estupidez sistémica. Com a IA e meios digitais, entramos numa fase exponencialmente mais intensa. Como? A fase industrial, de Chaplin, tinha medição manual, localizada e visível, em que o cronómetro de Taylor media movimento. Aí, o trabalhador via a medição acontecer. Mas na fase digital há a mediação automática, ubíqua e invisível, em que os algoritmos medem cada clique, pausa e desvio sem que nos apercebamos. A IA não reduz a burocracia – torna-se a arma definitiva da “aritmocracia”. O que Chaplin satirizou como loucura mecânica, nós normalizámos como “gestão data-driven”. Hoje a máquina não apenas mede, mas também decide. E quando os algoritmos decidem, a responsabilidade moral dissolve-se: “foi o algoritmo que determinou.” De onde vem o conceito de “aritmocracia”? Tem uma genealogia fascinante, nomeadamente uma raiz histórica em Charles Kinglsey (1850), que cunhou este conceito para criticar a redução da democracia a uma mera contagem de votos: “A ‘democracy’ of mere numbers is no democracy, but a mere brute ‘arithmocracy’.” Há ainda um paralelo histórico com o período da dinastia Qing, na China, (221-206 a.C.), e a revitalização moderna com Anthony Tasgal, um estratega de comunicação, que reintroduziu o termo para descrever “a obsessão com números e medição, a crença numa espécie de infalibilidade divina nos números.” O que faço, no livro, é partir de uma observação sobre disfunção organizacional para uma teoria sobre como os sistemas métricos se tornam regimes de poder, e também porque a resistência individual parece fútil. Como funcionava o sistema de governança por quantificação na dinastia Qing? Esta dinastia oferece um paralelo histórico fascinante e instrutivo – talvez o exemplo pré-moderno mais sofisticado de governança através de quantificação sistemática. O sistema Qin antecipa, com notável precisão, os mecanismos da “aritmocracia” moderna. A filosofia Legista que fundamentou a Dinastia Qin representou uma revolução no pensamento político chinês. Ao contrário do Confucionismo, que enfatizava a virtude moral dos governantes, o Legismo propunha que o Estado deveria operar através de leis fixas e incentivos mensuráveis, nomeadamente com o “Registo Doméstico Sistemático”. Pela primeira vez na história chinesa, cada família foi catalogada, registada e tornada “legível” ao poder central. Este sistema não era meramente administrativo, mas epistemológico. Transformava populações em unidades contáveis que podiam ser taxadas, recrutadas e controladas com precisão sem precedentes. Havia depois o “Sistema de Mérito Quantificado”, em que o status social deixou de ser hereditário para ser determinado por realizações mensuráveis. Por exemplo, os soldados subiam de patente com base em “contagem de cabeças” – o número literal de inimigos mortos em batalha. [Publicou-se também] “O Livro do Senhor Shang”, um texto que articulou uma visão de statecraft [arte de governar] onde recompensas e punições eram calibradas matematicamente a resultados mensuráveis, eliminando a “confusão” introduzida por considerações morais. Deu-se ainda uma estandardização radical, em que pesos, medidas, largura de eixos de carruagens, escrita, moeda, tudo foi uniformizado. Isso tornou o vasto território “legível” à autoridade central, permitindo a administração à distância através de categorias universais. Contudo, a dinastia implodiu apenas 15 anos após a sua fundação – um dos colapsos mais rápidos na história imperial chinesa. Porquê? Deu-se a fragilidade sistémica, com um regime construído inteiramente em métricas abstratas, sem atenção à legitimidade moral ou sensibilidade a condições locais, revelando-se profundamente frágil. Quando uma revolta começou entre trabalhadores recrutados que chegaram atrasados aos seus postos – enfrentando a execução por falhar uma métrica temporal – o império inteiro desmoronou. As regras eram tão rígidas que nenhum contexto importava – e quando as pessoas deixaram de acreditar nas regras, não havia mais nada a sustentar o sistema. Como o historiador Mark Edward Lewis observou, Qin demonstrou que “o poder que flui de cima através de métricas é mais eficiente que o poder que emerge de baixo através de consenso – mas também é infinitamente mais frágil.” Que semelhanças podem ser encontradas com a actualidade? Em ambos [os períodos] se promete a eficiência através de uma quantificação universal, ou ambos tratam a diversidade humana como legível através de categorias estandardizadas. Além disso, privilegiam o controlo central sobre conhecimento local, transformando o julgamento moral em cálculo técnico. Defende-se que o termo “aritmocracia” não é “uma conspiração, mas um padrão emergente onde o sistema de medição, designado como ferramentas, se torna mestre”. Também entende que a forma como pensamos está a mudar. De que forma? A “aritmocracia” opera através do que Mary Douglas chamou “pensamento institucional”, em que sistemas métricos não apenas constrangem comportamento, mas fornecem as categorias cognitivas através das quais processamos experiência. Há três mecanismos de transformação cognitiva, através da naturalização das métricas, em que estas se apresentam não como escolhas institucionais, mas como descrições da realidade. Há ainda a ideia de que “o dashboard [painel de controlo] mostra”, que se torna equivalente a “a realidade é”; as alternativas tornam-se impensáveis. Há ainda uma amnésia institucional, em que as organizações esquecem o que não medem – um hospital que mede o “tempo de espera”, mas não a “compaixão” [para com os doentes], gradualmente esquece que compaixão importa. Há depois a ideia de captura de valor, de Thi Nguyen, em que valores ricos e subtis das pessoas encontram versões simplificadas e quantificadas no ambiente. Ou seja, as versões simplificadas assumem o controlo. Dou um exemplo concreto: um médico que trabalhou 20 anos num sistema de 15 minutos por consulta eventualmente perde a capacidade de diagnóstico profundo. Não por má vontade, mas por atrofia cognitiva – as capacidades que não praticamos, perdemos. Traz casos concretos para esta obra, oriundas de “histórias da academia, sistema de saúde, Governo, educação e hotelaria”. São sistemas métricos que não “apenas nos moldam, mas como reformulam a forma de pensar”. Os casos que o livro documenta são de cinco domínios, e um deles é a academia, em que há a “tirania do h-index”, com académicos a optimizar citações em vez de [garantir] o impacto intelectual [do trabalho produzido]. Há um jogo de rankings, em que as universidades manipulam métricas, encorajando-se candidaturas para rejeitar ou inflacionar rácios professor-aluno. Ainda na área da educação, apresento o “PISA Panic” [pânico ou pressão em torno dos resultados dos testes PISA], pois ministros copiam sistemas de topo em rankings sem questionarem se as métricas PISA capturam o que importa. Há depois a gamificação infantil, com crianças de sete anos a competir por “pontos de leitura”, escolhendo livros por valor de pontos, e não por interesse. [Falo ainda] dos modelos de valor acrescentado, em que professores são avaliados por pontuações de testes, independentemente de contexto. Na área do turismo, que exemplos apresenta? Nos resorts integrados há uma tensão entre a lógica do “gaming”, com controlo e métricas precisas, e a experiência. Há ainda uma gestão de receitas, com sistemas que maximizam a receita de quartos a curto prazo, ao mesmo tempo que potencialmente danificam relações com clientes a longo prazo através [da ideia] da percepção de injustiça nos preços. Há ainda uma inércia activa, quando os resorts que enfrentam desafios competitivos respondem medindo mais intensivamente, analisando mais profundamente, otimizando mais agressivamente, numa actividade sem adaptação. O livro fala da resistência individual à “aritmocracia”. De que forma pode ocorrer? Argumenta-se que resistência individual é largamente fútil – o problema é sistémico. Mas o livro documenta estratégias coletivas emergentes, nomeadamente a existência de métricas democráticas. [Há o caso da cidade de] Porto Alegre, em que os cidadãos deliberam que resultados importam e como medir. Há ainda o exemplo de cooperativas de trabalhadores, em que os empregados estabelecem métricas de performance. Temos ainda o caso da integração narrativa, em que se podem combinar “dashboards” quantitativos com histórias de pacientes, com a ideia de que os números mostram “o quê” e as narrativas explicam “o porquê”. Há depois actos individuais de coragem, como o médico que fecha o computador portátil para realmente ouvir [o doente] ou ainda o gestor que suspende a avaliação métrica para entender o que os empregados realmente precisam. Estes não mudam sistemas sozinhos, mas criam fissuras no edifício “aritmocrático”. Que conclusões retirou desta obra? A “aritmocracia” não representa meramente uma mudança técnica nos sistemas de gestão, sendo uma transformação na própria natureza da agência humana e da autoridade epistémica, na forma como conhecemos o que nos rodeia. Quando um médico experiente enfrenta um paciente cuja condição não se enquadra nos protocolos algorítmicos, o sistema não reconhece [este caso], [reconhecendo apenas] desvios mensuráveis de padrões estatísticos. O médico pode saber que este caso particular requer uma abordagem diferente, mas esse conhecimento não é quantificável, não pode ser inserido numa folha de cálculo, não gera métricas reportáveis. Aos olhos do sistema, não existe. O que se perde não é apenas autonomia profissional, mas a capacidade de responder à singularidade de cada situação humana. Mais profundamente perturbador é o que a “aritmocracia” faz à categoria de pessoa, quando algoritmos de contratação classificam candidatos por “pontuação de adequação”, ou quando plataformas digitais calculam o “valor vitalício do cliente”. Este é um problema da transformação de pessoas em pontos de dados, tratando-as como objectos mensuráveis em vez de sujeitos que se auto-interpretam. A vida humana caracteriza-se por uma pluralidade irredutível de valores que não podem ser reduzidos a uma escala comum de medição. Na prática, os valores que resistem à quantificação tornam-se progressivamente invisíveis e depois indefensáveis. É docente na área do turismo, porquê enveredar por esta área do discurso métrico e do raciocínio em torno dele? Por exemplo, de que forma este domínio do discurso métrico influencia o turismo e as respectivas políticas de gestão? A minha motivação para investigar a aritmocracia emerge da confluência entre a minha posição profissional e os interesses académicos que têm orientado o meu percurso intelectual. Como docente a tempo inteiro na Faculdade de Negócios da Universidade Cidade de Macau, encontro-me numa posição privilegiada para observar e analisar uma ampla diversidade de contextos organizacionais e sistemas de gestão subjacentes. Esta experiência proporciona-me acesso directo às dinâmicas através das quais diferentes tipos de negócios – desde pequenas empresas locais a grandes corporações multinacionais – implementam, resistem ou são transformados por lógicas quantitativas de tomada de decisão. O contacto quotidiano com estudantes que se preparam para entrar nestas realidades organizacionais, bem como com gestores e profissionais que navegam as suas complexidades, permite-me compreender não apenas as estruturas formais da aritmocracia, mas também as suas manifestações vividas e as causas profundas que a sustentam. Esta investigação conecta-se de forma particularmente significativa com o núcleo da minha tese de doutoramento, que se centrou na resiliência aos níveis individual e organizacional. Há uma relação entre a aritmocracia e esta resiliência? A relação entre aritmocracia e resiliência revela-se fundamental de múltiplas formas. Por um lado, sistemas aritmocráticos prometem aumentar a resiliência organizacional através de monitorização contínua, detecção precoce de desvios e resposta baseada em dados. Por outro lado, a própria rigidez destes sistemas pode minar as capacidades adaptativas que constituem uma resiliência genuína – a capacidade de responder criativamente ao inesperado, de mobilizar conhecimento tácito em situações ambíguas, de manter coerência de propósito mesmo quando métricas específicas se tornam temporariamente desfavoráveis. A nível individual, a resiliência dos profissionais confrontados com pressões aritmocráticas torna-se uma questão crítica: como mantêm integridade profissional e bem-estar psicológico quando o seu trabalho é reduzido a indicadores de desempenho? Esta intersecção entre os mecanismos de controlo quantitativo e as capacidades humanas e organizacionais de persistir, adaptar-se e prosperar sob condições de pressão constitui um território conceptual que liga organicamente o meu trabalho anterior a esta investigação presente, permitindo-me explorar como sistemas de governação numérica tanto facilitam quanto constrangem a resiliência em múltiplos níveis de análise. Porquê editar o livro em formato kindle na Amazon? Teve dificuldades em chegar a uma editora? A escolha da auto-publicação em formato Kindle foi deliberada e estratégica, por três razões: a velocidade, pois o livro aborda um fenómeno em rápida aceleração. O processo editorial tradicional, de 12 a 18 meses, tornaria o conteúdo desactualizado. Há depois a questão do alcance global, pois a Amazon permite distribuição imediata em mais de 190 países, essencial para um fenómeno global. Há ainda uma ironia intencional, no sentido do poder do uso de ferramentas da aritmocracia, como os algoritmos da Amazon e as métricas de vendas para criticamente a examinar. É trabalhar dentro do sistema enquanto o questionamos. Quanto às editoras tradicionais, não procurei [nenhuma] activamente. A academia tem os seus próprios rituais de publicação, com sistemas de revisão por pares ou editoras universitárias, mas este livro é, deliberadamente, transdisciplinar – combina antropologia institucional, filosofia, estudos de caso de negócios, crítica de tecnologia. Essa hibridez é difícil de encaixar nas categorias editoriais convencionais.
Líbano | Israel ordena novas evacuações para lá da zona que controla Hoje Macau - 4 Mai 2026 O exército israelita emitiu ontem novas ordens de evacuação “urgentes” para localidades situadas para além da zona que controla no sul do Líbano e que designa como uma “zona de segurança”. O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) em língua árabe, Avichai Adraee, publicou na rede social X um aviso dirigido aos habitantes de várias localidades, incluindo Nabatiyé. Esta cidade situa-se vários quilómetros a norte da chamada “linha amarela”, que delimita a “zona de segurança” com cerca de dez quilómetros de profundidade, no interior da qual Israel se autoriza a operar desde a entrada em vigor, a 17 de Abril, de um frágil cessar-fogo com o Hezbollah, aliado do Irão no Líbano. “Qualquer ameaça (…) mesmo para além da linha amarela e a norte do rio Litani [a cerca de 30 quilómetros da fronteira] será eliminada”, advertiu na quarta-feira o chefe do Estado-Maior das IDF, Eyal Zamir, durante uma visita a esta zona do território libanês. Dois soldados israelitas e um contratado do exército foram mortos, e dezenas de militares ficaram feridos no espaço de uma semana, devido a ataques com drones explosivos no sul do Líbano. O movimento xiita libanês passou recentemente a recorrer a este tipo de aparelhos, guiados por fibra óptica, praticamente indetectáveis e com um alcance de várias dezenas de quilómetros, para realizar ataques diários contra as tropas israelitas no Líbano. Israel e o Hezbollah, apoiado pelo Irão, continuam a trocar ataques apesar da trégua em vigor desde 17 de Abril, tendo o exército israelita já realizado bombardeamentos além da “linha amarela”. O Presidente libanês, Joseph Aoun, apelou na quarta-feira a Israel para que cumpra “plenamente o cessar-fogo”, antes do arranque das negociações de paz previstas entre os dois países, sob mediação dos Estados Unidos. De acordo com os termos do acordo de cessar-fogo, Israel reserva-se “o direito de tomar, a qualquer momento, todas as medidas necessárias em legítima defesa” contra o Hezbollah.
Taiwan | William Lai criticado por abandonar a ilha Taiwan após sismo Hoje Macau - 4 Mai 2026 A China criticou a viagem do líder taiwanês a Essuatíni, acusando William Lai Ching-te de abandonar a população após um sismo e de sair da ilha de “forma dissimulada”, num avião estrangeiro. Num comunicado divulgado no sábado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou que Lai deixou Taiwan poucas horas após um sismo no nordeste taiwanês, “abandonando a população” e “desperdiçando fundos públicos”, numa atitude que, segundo Pequim, o torna um “alvo de troça internacional”. O Gabinete de Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado (executivo) chinês classificou a viagem como “um artifício”, sem valor diplomático e acusou o governante de agir de forma furtiva, para chegar a Essuatíni. Também este gabinete, questionou a gestão de Lai ao não ter prestado atenção à situação decorrente do sismo. Os dois organismos reiteraram a rejeição às iniciativas de Taiwan no âmbito internacional e defenderam que as acções não alteram a posição da comunidade internacional sobre a ilha.
Irão | Pequim trava sanções dos EUA contra empresas chinesas Hoje Macau - 4 Mai 2026 Pequim bloqueou a aplicação das sanções de Washington contra cinco empresas chinesas devido às alegadas ligações com o comércio de petróleo iraniano, através de uma ordem que proíbe pessoas e entidades de cumprir, reconhecer ou executar essas medidas. O Ministério do Comércio explicou, no sábado, que a ordem, conhecida como “blocking ban”, visa neutralizar dentro da China o efeito das sanções norte-americanas, impedindo que empresas ou indivíduos adiram às mesmas ou colaborem na aplicação. De acordo com o comunicado oficial, as medidas adoptadas por Washington, que envolvem a inclusão em listas de sanções, o congelamento de activos e a proibição de transações, interferem nas “actividades comerciais normais” entre empresas chinesas e países terceiros e violam “o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais”. A ordem baseia-se no quadro jurídico chinês contra a aplicação extraterritorial de leis estrangeiras, desenvolvido nos últimos anos e reforçado recentemente, em Abril, com novas normas que ampliam a capacidade de Pequim para contrariar sanções adoptadas por outros países. As autoridades chinesas reiteraram a oposição às sanções unilaterais sem o apoio das Nações Unidas e sublinharam que a medida não afecta o cumprimento das obrigações internacionais do país nem a protecção dos direitos das empresas estrangeiras na China. Rota da crise A decisão surge depois de Washington ter sancionado — na semana passada — dezenas de entidades e indivíduos pela alegada participação em redes financeiras ligadas ao petróleo iraniano, no âmbito da política de pressão sobre Teerão. Entre as empresas afectadas, encontram-se várias refinarias e grupos petroquímicos chineses, apontados pelos Estados Unidos pelo suposto papel na comercialização de petróleo iraniano, um fluxo que Washington considera fundamental para o financiamento de actividades militares e de grupos aliados da República Islâmica. A medida de Pequim coincide com a preocupação expressa pela China quanto ao impacto do conflito no Irão na estabilidade energética global, com especial atenção para o estreito de Ormuz, uma rota estratégica para o abastecimento de petróleo bruto.
Montenegro, o maior das promessas André Namora - 4 Mai 2026 Recordam-se que a série de tempestades aconteceu há mais de três meses. As zonas de Leiria e Marinha Grande foram as mais afectadas. O governo de Montenegro prometeu de imediato que as indemnizações às vítimas que ficaram sem nada seriam uma prioridade. Ainda hoje temos gente sem telhado, pior, sem casa e que receberam uns míseros cinco mil euros. Nos últimos tempos, Montenegro tem prometido este mundo e o outro. Afirma que Portugal está melhor. Mas, centenas de portugueses já pararam o carro devido ao aumento do preço dos combustíveis e o povinho vai ao supermercado comprar o mínimo indispensável para viver. O custo de vida aumenta todas as semanas. A inflação sobe. Há reformados que já não compram os medicamentos, mas o chefe do Executivo tem sempre na ponta da língua que aumenta as reformas. Isto, quando existem portugueses com reformas de 150, 250 e 350 euros. As promessas são quinzenais e algumas vão até 2030. Quando o Governo vai a debate na Assembleia da República lá ouvimos uma catadupa de promessas. Na semana passada foi demais. Montenegro, na qualidade de primeiro-ministro, tem focado as suas promessas na estabilização económica, apoio ao custo de vida e reformas estruturais. Cantigas leva-as o vento e, se não, vejamos. Montenegro tem defendido uma reforma laboral, procurando um acordo, apesar das tensões com parceiros sociais como a UGT. No entanto, a central sindical CGTP já marcou uma greve geral para Junho contra o pacote laboral e a UGT adiantou que poderá aderir à greve geral. Anunciou uma linha de apoio de 600 milhões de euros para empresas com elevados custos de energia, mas ainda na quarta-feira passada os dirigentes das pequenas e médias empresas vieram a público afirmar que não aguentam a actual situação, especialmente o aumento do custo da energia. Há muito tempo que Montenegro anunciou a aprovação de novas medidas para combater o aumento do custo de vida e o preço dos combustíveis. É só irmos ao supermercado e verificar o aumento do custo de produtos como leite, pão e fruta e o preço dos combustíveis aumenta quase todos os dias, mesmo quando o preço de petróleo baixou em face do cessar fogo no Irão. No último debate quinzenal no Parlamento, lá veio o Ventura tentar ganhar mais uns votos, porque aproveitando-se das falsas promessas de Montenegro, acusou o Governo de “ineficácia absoluta”. É assim que o populismo ganha votos. A ineficácia resulta de prometer e de nada acontecer em benefício do povo. Nas hostes social-democratas aplaude-se de pé Montenegro. Ele é o maior, o mais inteligente, o mais empreendedor, o mais resoluto, mas não é capaz de prometer que irá reformular o acordo da Base das Lajes com os americanos, antes que o Irão se lembre de enviar um drone contra Lisboa… As promessas são mais que muitas. O povo está cansado de ouvir Montenegro prometer e nada viabilizar para uma melhor qualidade de vida. Os reformados de miséria já nem querem ouvir falar em Montenegro e dizem que nunca mais irão votar num governo deste calibre. O chefe do Governo inventou um nome pomposo para as promessas. Imaginem que apareceu com o Programa de Recuperação e Resiliência Português (PTRR). Houve deputados na casa da democracia que se riram de tanta promessa para as calendas, tais como o apoio à reconstrução dos malefícios das tempestades, às infraestruturas rodoviárias, ferroviárias, ao abastecimento de energia eléctrica, de água e melhoria nos serviços públicos. Obviamente que a incongruência tinha de enfrentar a oposição parlamentar. O Governo tem falado na verba de 2,5 mil milhões de euros para dar resposta às necessidades das famílias, das empresas e das autarquias mais afectadas nas tempestades. Mas, ao mesmo tempo, anuncia que ainda não tem disponível o dossiê de levantamento das necessidades para solicitar o fundo de Solidariedade europeu. Esta incongruência foi naturalmente explorada e não escapou aos partidos da oposição durante o debate parlamentar. Como tudo isto parece um circo, os palhaços podem continuar em cena…
Korean Air proíbe galos a bordo dos EUA para as Filipinas Hoje Macau - 4 Mai 2026 Organizações de defesa dos direitos dos animais congratularam-se ontem com a decisão da companhia aérea Korean Air de proibir o transporte de galos dos Estados Unidos apara as Filipinas, onde as lutas com estes animais constituem uma indústria lucrativa. As autoridades estimam receitas na ordem das dezenas de milhões de dólares por semana geradas por lutas entre galos equipados com esporões metálicos afiados, dinheiro que alegadamente alimenta o crime organizado. Activistas e um criador filipino, Eduardo Eugenio, indicaram à AFP que os Estados Unidos da América (EUA) fornecem um grande número de galos destinados a estas lutas, pelo que a proibição da companhia aérea Korean Air promete ter um “impacto enorme”. A companhia sul-coreana confirmou, num comunicado enviado ontem à AFP, ter “suspendido o transporte de galos de qualquer idade nas ligações entre os Estados Unidos e as Filipinas”. “A Korean Air compromete-se a garantir o transporte legal e seguro de animais vivos, em conformidade com as leis e regulamentos em vigor”, acrescentou. A organização não-governamental (ONG) americana de defesa dos animais Animal Wellness Action declarou que a Korean Air era, na sua opinião, “a maior companhia aérea do mundo envolvida no transporte ilegal de galos de combate”. Embora a transportadora não tenha mencionado explicitamente os galos de combate no seu comunicado, várias organizações afirmaram que esta proibição é o resultado da sua campanha destinada a proibir uma prática que consideram cruel. Por ar e por terra Jana Sevilla, porta-voz da organização PETA nas Filipinas, declarou à AFP que a decisão, aplaudida pelo grupo, visa “certamente” as lutas de galos. “Esperamos […] que outras companhias aéreas sigam este exemplo”, acrescentou Jana Sevilla, recordando que as Filipinas fazem parte dos países onde as lutas de galos ainda são autorizadas. Esta semana, a ONG Animal Wellness Action reivindicou, num comunicado, o mérito desta medida, que surge na sequência de vários meses de investigação e troca de correspondência. “A Korean Air concordou em atender ao nosso pedido de pôr fim a todos os envios de galos para as Filipinas”, indicou a organização, referindo que criadores americanos fornecedores destas aves se fazem frequentemente passar por agricultores ou criadores inofensivos e enviam todos os anos “dezenas de milhares” de animais para as Filipinas. Outros galos criados nos EUA são transportados por via terrestre e aérea para o México, onde as lutas continuam a ser autorizadas em alguns estados. Segundo Eduardo Eugenio, responsável por uma exploração de 300 aves na cidade de Tagum, no sul do país, “a actividade nas Filipinas depende muito” dos criadores americanos.
Importações de vinho na China caíram para metade face a 2018 Hoje Macau - 4 Mai 2026 O director-geral de uma das maiores importadoras de vinho na China descreveu à Lusa uma transformação profunda do sector, marcada por uma quebra de 50 por cento nas importações face a 2018 e maior sofisticação dos consumidores. “O mercado que existia em 2018, hoje, é menos de metade”, afirmou à Lusa o português Francisco Henriques, director-geral da China Wines & Spirits, com sede em Xangai, a “capital” económica da China, que celebrou esta semana o seu 20.º aniversário. Em entrevista à Lusa, o responsável, que está há quase duas décadas na China, descreveu uma transformação profunda do sector, marcada por uma quebra “brutal” do consumo, associada a uma combinação de factores, desde a campanha anticorrupção e de austeridade promovida por Pequim, que inclui restrições ao consumo de álcool em eventos oficiais, até ao impacto da crise no sector imobiliário, que reduziu o apetite por bens considerados de luxo. Dados recentes indicam que, só no último ano, as importações chinesas de vinho recuaram 11 por cento, situando-se agora em cerca de metade dos níveis registados em 2018, quando o país comprou vinho estrangeiro no valor de quase 3 mil milhões de dólares. Durante anos, a China foi um dos principais motores do sector vinícola global, com produtores de regiões como Bordéus ou Austrália a dependerem fortemente da procura chinesa. Em 2019, cerca de um quarto das exportações de Bordéus tinham como destino o país asiático. Mas a quebra recente está a ter impacto global. Produtores enfrentam excesso de oferta, queda de preços e, em alguns casos, estão a arrancar vinhas ou a deixar uvas por colher. Além do contexto económico e político, Henriques apontou também para uma transformação cultural, sobretudo entre os mais jovens, que “bebem menos e bebem diferente”. Segundo o responsável, há duas décadas o vinho era consumido sobretudo por uma elite e dominado quase exclusivamente por França, sendo muitas vezes associado a ofertas e banquetes oficiais. Hoje, disse, o mercado está “em vias de maturidade”, com maior diversidade de origens e um consumo mais individualizado. “Há 20 anos bebia-se uma garrafa por pessoa, hoje as pessoas preferem beber um copo, mas melhor”, explicou. Tempos modernos O consumo deslocou-se também para novos contextos, com o crescimento das entregas ao domicílio e das compras através de aplicações móveis. “Os consumidores podem encomendar uma garrafa no telemóvel e recebê-la meia hora depois”, disse, sublinhando a necessidade de adaptação do sector a estes novos hábitos. Apesar da contracção do mercado, Henriques considerou que a China continua a ser uma aposta estratégica para países como Portugal, embora exija um trabalho de longo prazo. “Quando o consumidor prova, gosta”, afirmou, destacando a tipicidade das castas portuguesas como uma vantagem competitiva. O principal desafio, disse, é garantir presença consistente no mercado, nomeadamente na restauração, hotéis e canais de distribuição. “É preciso que o vinho esteja disponível (…) e esse é o trabalho difícil”, afirmou. Henriques alertou que muitos produtores falham ao encarar a China como um mercado de oportunidades rápidas, sem investimento continuado. “Aquele produtor que vem à China, exporta um contentor e depois fica à espera (…) não resulta”, disse, defendendo a importância de parcerias estáveis com importadores locais. Num mercado que descreveu como “muito dinâmico”, onde empresas entram e saem com frequência, encontrar o parceiro certo pode ser “como uma agulha no palheiro”. O responsável sublinhou que a dimensão e evolução do mercado justificam o esforço. “É um trabalho que demora anos, mas que traz frutos”, afirmou.
ONU | MNE chinês presidirá debate do Conselho de Segurança Hoje Macau - 4 Mai 2026 A China, que preside este mês ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, anunciou sexta-feira que organizará um debate de nível ministerial visando “defender a Carta da ONU”, que será presidido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros chinês. O representante permanente da China junto das Nações Unidas (ONU), Fu Cong, apresentou sexta-feira à imprensa a agenda mensal de Pequim, indicando que o ministro Wang Yi presidirá ao debate de alto nível subordinado ao tema “Defender os Propósitos e Princípios da Carta da ONU e Fortalecer o Sistema Internacional Centrado na ONU”, agendado para 26 de Maio. “Nos últimos anos, temos assistido a uma crescente turbulência no panorama internacional. Os conflitos estão a aumentar, as divisões estão a aprofundar-se e o sistema multilateral — juntamente com o direito internacional — está sob considerável restrição”, afirmou o diplomata, em Nova Iorque. “Tudo isto aconteceu não porque a ONU esteja desactualizada ou tenha falhado. Pelo contrário, isto acontece porque os propósitos e os princípios da Carta não são efectivamente respeitados e o sistema internacional centrado na ONU não é mantido com afinco”, acrescentou Cong. Nesse sentido, o embaixador defendeu que a comunidade internacional deve tomar medidas urgentes para defender a autoridade da Carta e reforçar o papel das Nações Unidas, a fim de evitar que o “mundo recaia na lei da selva” e “salvar as gerações futuras do flagelo da guerra”. A segunda prioridade da presidência rotativa chinesa será promover a solução política no Médio Oriente, região que classificou como o lugar do mundo “onde se desenrolam a maioria dos problemas críticos”. “O Conselho de Segurança deve instar as partes relevantes, em particular Israel, a observarem integralmente o acordo de cessar-fogo em Gaza, a garantirem o acesso humanitário, a interromperem as actividades de colonato e a trabalharem para revitalizar a perspetiva da solução de dois Estados”, instou Fu Cong. Ainda sobre Gaza, o diplomata afirmou que a “negação dos legítimos direitos nacionais do povo palestiniano é a maior injustiça dos nossos tempos”. Em relação ao Líbano, o diplomata notou que a situação continua muito instável e frágil, frisando que os ataques contra civis libaneses e contra as forças de manutenção da paz da ONU “são inaceitáveis”. O Conselho de Segurança deve enviar uma mensagem clara de apoio à soberania, segurança e integridade territorial do Líbano, apelou o representante de Pequim, defendendo ainda apoio ao Governo libanês na estabilização da situação interna e na garantia da paz. Questão iraniana Questionado sobre o papel da China nas negociações de cessar-fogo entre Washington e Teerão e sobre o que Pequim está disposto a fazer para reabrir o Estreito de Ormuz, Cong optou por sublinhar que a causa principal da situação actual é a “guerra ilegítima dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão”. “Francamente, estamos muito preocupados com algumas das declarações que temos ouvido recentemente sobre este cessar-fogo ser temporário, sobre a necessidade de iniciar outra ronda de ataques. Penso que a comunidade internacional deve mobilizar-se e elevar a voz contra o retomar dos combates naquela parte do mundo”, declarou. “Sobre o papel da China, temos defendido a paz e estamos a falar com todos os lados. O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros tem estado ao telefone quase constantemente e também apoiamos totalmente os esforços do Paquistão de mediação entre as partes. Esperamos que estes esforços possam trazer resultados positivos”, adicionou. Sobre a situação no Estreito de Ormuz, Fu Cong disse estar certo de que, se esse bloqueio ainda se mantiver quando o Presidente norte-americano, Donald Trump, visitar a China nos dias 14 e 15 de Maio, essa questão estará entre os principais temas da agenda das conversações bilaterais. A terceira prioridade apontada por Cong para este mês diz respeito à estabilidade e ao desenvolvimento dos países africanos, garantindo que Pequim apoiará os esforços para “resolver as questões africanas de forma africana”. Este mês, o Conselho de Segurança vai também realizar o seu debate anual sobre a protecção de civis em conflitos armados.
Bienal de Veneza | Macau participa com obras sobre Wu Li Hoje Macau - 4 Mai 2026 Macau vai estar representada na Bienal de Veneza este ano com uma exposição inspirada na vida do pintor e poeta católico chinês, Wu Li (1623-1718), também conhecido como Jacone. Com curadoria conjunta de Feng Yan e Ng Sio Ieng, a exposição organizada pelo Instituto Cultural de Macau (IC) e implementada pelo Museu de Arte de Macau reúne os artistas locais Eric Fok Hoi Seng, O Chi Wai e Veronica Lei Fong Ieng, sendo inaugurada em Veneza a 8 de Maio. Segundo o IC, o projecto integra instalação, pintura e vídeo, e inspira-se na figura do pintor e poeta Wu Li, que viveu entre o final da dinastia Ming e o início da dinastia Qing, para reinterpretar a sua “viagem criativa transcultural e espiritual”. Wu Li residiu em Macau em 1681, durante o reinado do imperador Kangxi, onde estudou teologia e registou na coletânea Sanba Ji a convergência das culturas chinesa e ocidental. Tendo estudado latim e teologia no Colégio de São Paulo, a primeira escola de estilo Ocidental na China, Wu converteu-se ao catolicismo e foi missionário jesuíta na província chinesa de Jiangsu, referindo-se a si mesmo como “Jacone”. A exposição recria, através da arte contemporânea, a viagem à Europa que o “poeta nunca realizou”, celebrando as “raízes culturais de Macau e a sua herança multicultural”. A mostra estará patente de 9 de Maio a 22 de Novembro de 2026 no Arsenale, Campo della Tana, em Veneza, com entrada gratuita. Macau participou pela primeira vez na Bienal de Veneza em 2007, sendo esta a décima participação do território no maior e mais antigo palco internacional de arte.
Mostras sobre José Saramago em Timor-Leste Hoje Macau - 4 Mai 2026 A inauguração de uma exposição sobre José Saramago em Díli, hoje, marca o arranque das celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa em Díli, Timor-Leste, que decorrem durante toda a semana. A semana da língua portuguesa – para assinalar a data (5 de Maio) instituída pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) -, foi organizada pelo grupo dos embaixadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na capital timorense, nomeadamente Angola (que preside), Brasil e Portugal, em parceria com as instituições timorenses. “Esta exposição é organizada em sete núcleos expositivos, cada um corresponde a um subtema dentro da lógica de Saramago e nós quisemos destacar uma faceta de Saramago muito menos conhecida, que é o Saramago poeta”, afirmou à Lusa o embaixador de Portugal em Díli, Duarte Bué Alves. A inauguração da exposição, com o título “Que lembrança ficou no mundo que tiveste” (um verso da poesia de Saramago), vai contar com a presença do secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, que se encontra em Díli para participar na reunião de ministros da Cultura da CPLP, a realizar esta terça-feira. Outros destaques O embaixador de Portugal destacou também a exposição que vai ser levada ao município de Aileu, no sábado, sobre o poeta António Gedeão, que era professor e físico. “É sobre a física do dia a dia, uma forma de as crianças aprenderem física, a ciência, mas também a literatura e poesia de António Gedeão”, disse o embaixador Duarte Bué Alves. As celebrações vão também contar com a participação da secretária de Estado da Administração Escolar, Maria Luísa Oliveira, que chega quarta-feira a Díli para participar na reunião dos ministros da Educação da CPLP, que se realiza na quinta-feira. Segundo o embaixador, na sexta-feira, os três embaixadores da CPLP, em conjunto com a secretária de Estado da Administração Escolar, vão ao Externato de São José, em Díli, oferecer livros de autores portugueses, brasileiros e angolanos. A semana de celebração do Dia Mundial de Língua Portuguesa vai incluir também oferta de livros ao Ministério da Educação, a cerimónia de entrega de prémio de Língua Portuguesa (na Fundação Oriente) e a apresentação do coro da Escola Portuguesa de Díli no parlamento timorense, entre outros eventos.
IPOR | Festival traz escritos de Coco Cheong e de autores portugueses Hoje Macau - 4 Mai 2026 Começa amanhã mais uma edição do festival “Letras & Companhia”, promovido pelo Instituto Português do Oriente, e que este ano tem como tema “A Minha Cidade”. De Macau, a escritora Coco Cheong apresenta o livro “Our Precious Moments”, estando também convidada a escritora de livros infantis e jornalista Inês Cardoso. Decorrem ainda actividades de leitura com a ilustração em destaque O Instituto Português do Oriente (IPOR) apresenta amanhã, com o apoio do grupo Galaxy, mais uma edição do festival “Letras&Companhia – Festival Literário e Cultural para Pais e Filhos”, que se dedica ao universo da literatura infantil e ilustração. O tema deste ano é “A Minha Cidade”, sendo que o evento conta também com apoio do Consulado-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, prolongando-se até ao dia 24 de Maio. Do programa, destaca-se a presença da escritora local Coco Cheong, com a apresentação da obra “Our Precious Moments”, em chinês e inglês, seguindo-se “uma oficina para os mais novos com jogos de quebra-gelo, momentos de desenho e contos”, descreve um comunicado de imprensa. Outro dos nomes constantes no programa, é o de Inês Cardoso, jornalista e directora do Jornal de Notícias, e também autora de livros infantis. Será lançado o livro “Londres ao Porto numa gaivota”, além de que Inês Cardoso vai também protagonizar uma sessão de formação para professores “sobre desinformação, partilhando ferramentas pedagógicas para desenvolver o pensamento crítico e a verificação de informação junto dos alunos”. Inês Cardoso estará também presente para uma conversa aberta ao público no Consulado de Portugal em Macau e Hong Kong. O festival arranca amanhã na Escola Portuguesa de Macau, com a entrega de minibibliotecas escolares a instituições de ensino não superior de Macau onde se ensina a língua portuguesa. No cartaz consta também a presença de Afonso Cruz, que apresenta o livro “Assim, mas sem ser assim: Considerações de um Misantropo”, sendo que o autor também dará um workshop de escrita criativa aberto ao público. Imagens que nos ligam André Letria, ilustrador português, apresenta o projecto “A Minha Cidade”, que chega agora a Macau graças ao “Letras & Companhia”. Segundo a mesma nota, este projecto nasceu de uma colaboração com várias escolas locais, onde “os alunos criaram mapas ilustrados da cidade, revelando o seu olhar íntimo e quotidiano”. Os trabalhos estarão expostos no IPOR após a inauguração da exposição, na qual André Letria falará sobre o projecto numa mesa-redonda e lançará o seu próprio mapa de Macau. O ilustrador e criador da editora Pato Lógico dinamizará ainda várias oficinas pedagógicas nas escolas, explorando a ilustração como meio de criatividade e expressão artística, bem como uma formação de professores sobre literacia visual. O IPOR exibe ainda, no contexto do festival, quatro curtas-metragens de animação infantis, escolhidas a partir do programa do Festival lisboeta de Animação “Monstra” (edição de 2025). Andrea Magalhães, por sua vez, realizará diferentes oficinas dirigidas a públicos jovens de várias faixas etárias. Haverá também três momentos de teatro, sendo que um deles acontece em parceria com a associação Sílaba, que apresenta “A Revolta dos Lusecos”, “peça que transporta o público para os acontecimentos marcantes do 25 de abril de 1974 em Portugal”. Já a Joyful, companhia de teatro de Hong Kong, apresenta “The Secret Magic Recipe: Enemy Pie”, uma peça interativa inspirada em livros infantis, seguida de uma oficina de fantoches e storytelling para pais e filhos. O festival encerra na Fundação Rui Cunha com o espectáculo musical “(En)Cantar com Alice e Sebastião”, com Sara Meireles, que começa às 15h e que também vai ser apresentado nas escolas locais. A sexta edição do festival procura “abordar a relação intrínseca entre a cidade enquanto espaço físico e a comunidade que nela habita, tópico que guiará todas as actividades que integram o programa”. “Esta relação é retratada etimologicamente – a palavra cidade deriva do termo latino ‘civitas’, que significa “cidadania” ou “membro da comunidade”. A cidade não é só um ‘habitat’, porque não se cumpre na sobrevivência material da espécie, mas é um todo orgânico que envolve os vestígios urbanísticos do passado e a comunidade do presente que, ao preservar e atualizar o legado de que faz parte, aponta para o futuro”, descreve a organização do evento.
Economia | PIB cresceu de 7,1% no primeiro trimestre Hoje Macau - 4 Mai 2026 No primeiro trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 108,01 mil milhões de patacas, o que significou um crescimento anual de 7,1 por cento, de acordo com os dados preliminares divulgados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Segundo a DSEC, estes números mostram “um crescimento estável” porque “as exportações de serviços continuaram a subir a um ritmo acelerado, impulsionadas pelo aumento significativo do número de visitantes”. As exportações globais de serviços aumentaram 13,9 por cento no primeiro trimestre de 2026, visto que o número de entradas de visitantes na RAEM subiu 13,7 por cento, em termos homólogos. Em relação à procura interna, a despesa de consumo privado cresceu 2,8 por cento, em termos anuais, ao passo que a despesa de consumo final do Governo e a formação bruta de capital fixo desceram 4,8 por cento e 21,9 por cento, respectivamente. Segundo a mesma fonte, o PIB encontra-se ao nível de 90,3 por cento da economia do primeiro trimestre de 2019, antes da pandemia da covid-19.
Melco | Lucros mais do que duplicam até Março Hoje Macau - 4 Mai 2026 A operadora de jogo em Macau Melco Resorts and Entertainment anunciou lucros líquidos de 76,8 milhões de dólares no primeiro trimestre do ano, um aumento de 136 por cento em termos anuais. Em igual período de 2025, a Melco, com três casinos no território, registou lucros líquidos de 32,5 milhões de dólares, indicou a companhia, em comunicado divulgado na quinta-feira à noite. As receitas operacionais do grupo, no período em análise, foram de 1,37 mil milhões de dólares, subindo cerca de 11 por cento comparativamente ao primeiro trimestre do ano passado, quando registou 1,23 mil milhões de dólares, indicou a empresa liderada por Lawrence Ho, filho do magnata do jogo Stanley Ho. Os lucros operacionais entre Janeiro e Março deste ano alcançaram 179 milhões de dólares, representando uma subida de 23,5 por cento em relação ao mesmo período de 2025 (144,9 milhões de dólares), lê-se ainda no comunicado.
Jogo | Lucros da MGM China descem 4% no primeiro trimestre Hoje Macau - 4 Mai 2026 A operadora de jogo MGM China anunciou que o primeiro trimestre deste ano ficou marcado por uma descida dos lucros, apesar da subida das receitas. A empresa reportou lucros operacionais de 273 milhões de dólares, menos 4 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. Este resultado foi pressionado pelo aumento das despesas de licenciamento de marca, que duplicaram para 41 milhões de dólares, na sequência de um novo acordo de longo prazo entre a MGM China e a companhia mãe, a operadora de jogo norte-‑ americana MGM Resorts. O encargo adicional acabou por limitar a rentabilidade, mesmo com o crescimento das receitas líquidas, que subiram 9 por cento para 1,1 mil milhões de dólares. Mesmo assim, Bill Hornbuckle, presidente e CEO da MGM Resorts, afirmou que o grupo está “satisfeito por reportar receitas consolidadas recorde no primeiro trimestre, impulsionadas sobretudo pela MGM China e pela MGM Digital, bem como pelo crescimento da BetMGM na América do Norte”. No total, a MGM Resorts registou receitas de 4,5 mil milhões de dólares, um aumento de 4 por cento face ao período homólogo. Contudo, os lucros operacionais caíram para 580 milhões de dólares, contra 637 milhões de dólares no ano anterior.
Jogo | Receitas de Abril foram as mais baixas dos últimos sete meses Hoje Macau - 4 Mai 2026 Nem tudo foram más notícias para a principal indústria de Macau. Apesar dos resultados mensais mais baixos desde Setembro, Abril trouxe um crescimento anual de 5,5 por cento das receitas brutas dos casinos As receitas do jogo registaram em Abril uma queda de 12 por cento, em termos mensais, alcançando o valor mais baixo dos últimos sete meses, de acordo com dados anunciados na sexta-feira. Os casinos arrecadaram 19,9 mil milhões de patacas em Abril, contra 22,6 mil milhões de patacas no mês anterior, de acordo com dados da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ). Trata-se do valor mais baixo desde Setembro de 2025, quando as receitas dos casinos totalizaram 18,3 mil milhões de patacas. No entanto, em termos homólogos, as receitas apresentaram um crescimento de 5,5 por cento, dado que em Abril do ano passado as receitas tinham alcançado 18,9 mil milhões de patacas. Em 2025, as receitas de 18,9 mil milhões de patacas foram as terceiras mais baixas desse ano, ficando apenas a cima do mês de Setembro, quando o valor foi de 18,3 mil milhões de patacas e do mês de Janeiro, que teve receitas de 18,2 mil milhões de patacas. Os número revelado na sexta-feira ainda está longe da realidade pré-pandemia. Em Abril de 2019, as receitas do jogo atingiram 23,6 mil milhões de patacas, uma diferença de 18,6 por cento ou 3,7 milhões de patacas. Carteira mais pesada Em termos de receita bruta acumulada, os primeiros quatro meses deste ano registaram uma subida de 12,1 por cento em relação ao ano anterior, com um total de 85,8 mil milhões de patacas contra 76,5 mil milhões de patacas entre Janeiro e Abril de 2025. Também neste aspecto os números estão distantes da realidade pré-covid-19. Em 2019, nos primeiros quatro meses do ano, as receitas do jogo atingiram 99,7 mil milhões de patacas, uma diferença de 23,2 mil milhões de patacas para os números mais recentes. Apesar disso, as receitas continuam a crescer ano após ano, com os primeiros quatro meses de 2026 a atingirem as maiores receitas desde a pandemia. Macau fechou o ano passado com receitas totais de 247,4 mil milhões de patacas, mais 9,1 por cento do que no ano anterior (226,8 mil milhões de patacas).
Turismo | Hóspedes internacionais sobem 16% em três meses Hoje Macau - 4 Mai 2026 O número de hóspedes internacionais que ficaram em hotéis de Macau aumentou 16 por cento no primeiro trimestre deste ano para 338 mil, em comparação com mesmo período do ano passado. Segundo dados dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) do território, a maioria desses hóspedes veio da Coreia do Sul, cerca de 106 mil, mais 15,1 por cento que em 2025. Registaram-se aumentos também no número de hóspedes da Tailândia (28 mil, +61,3 por cento), da Malásia (22 mil, +1,2 por cento) e da Índia (19 mil, +51,0 por cento). Em contrapartida, o número de visitantes do Japão (25 mil) e da Indonésia (14 mil) registou quedas de 2,9 por cento e 18,2 por cento, respectivamente. As autoridades de turismo de Macau estão a tentar atrair mais turistas internacionais para a cidade, para reduzir a dependência do território dos turistas oriundos do Interior da China. Estes esforços têm incluído maior oferta de produtos turísticos, a organização de grandes eventos e actividades de promoção em diferentes países, incluindo Portugal. Mais de 3 milhões No total, os hotéis acolheram 3,67 milhões de hóspedes entre Janeiro e Março, mais 2,6 por cento em termos anuais. O Interior da China continua a representar a maior fatia do número total, com 2,74 milhões de visitantes, um aumento de apenas 0,6 por cento, com hóspedes de Hong Kong a aumentar 4,3 por cento até 390 mil. A taxa de ocupação média dos quartos fixou-se em 92,3 por cento, mais 2,1 pontos percentuais face ao primeiro trimestre de 2025. Existem actualmente 147 hotéis em Macau, que disponibilizam 45.400 quartos. Os hotéis de cinco estrelas registaram uma taxa de ocupação de 95,4 por cento, os de quatro estrelas 88,7 por cento e os de três estrelas 87,5 por cento. No mesmo período, o número de entradas de visitantes em excursões caiu 14 por cento, para 475 mil, com o número visitantes internacionais em excursões a crescer 16,1 por cento para 61 mil. As excursões provenientes do Interior da China (385 mil) diminuíram 20,4 por cento, com as autoridades de Macau a indicarem que mais turistas chineses estão a escolher viajar sozinhos.
Espectáculos | Cadeiras dobráveis geram cenas de violência João Santos Filipe - 4 Mai 202620 Mai 2026 O festival de Kpop no K-Spark in Macau foi um sucesso e os bilhetes esgotaram rapidamente. No entanto, os organizadores só disponibilizaram lugares sentados, o que espalhou a confusão entre os fãs O festival de Kpop no K-Spark in Macau, que decorreu no sábado no Local de Espectáculos ao Ar Livre, ficou marcado pela confusão criada com a colocação de cadeiras dobráveis à frente do palco, uma zona que normalmente é para lugares em pé. Ansiosos por estarem mais pertos dos ídolos, vários fãs não se coibiram de colocar as cadeiras móveis o mais à frente possível, perto do palco, o que gerou momentos de tensão, inclusive cenas de pancadaria. As imagens da confusão foram divulgadas pelos fãs nas redes sociais, com várias queixas, principalmente através da rede social Threads. Apesar de ser um lugar de concertos ao ar livre, os organizadores apenas disponibilizaram lugares sentados, mesmo em zonas que normalmente são para lugares em pé. A esperança era que as pessoas respeitassem o lugar onde as cadeiras móveis estavam colocadas. No entanto, pouco depois de se sentarem, os fãs perceberam que podiam mover as cadeiras mais perto do palco, porque não havia controlo. A situação gerou imediatamente mal-estar, porque quem respeitou o lugar onde tinham sido colocadas as cadeiras ficou com a visão para o palco bloqueada. E os momentos de tensão acabaram mesmo por gerar cenas de pancadaria, pelo menos num caso, que também foi divulgado online, com puxões de cabelos entre fãs, chapadas e empurrões. Concerto esgotado Apesar da confusão, o espectáculo foi um sucesso de vendas e os 30 mil bilhetes disponíveis esgotaram rapidamente. Os preços variavam entre as 799 patacas e 2.999 patacas. O espaço tem uma capacidade máxima para 80 mil pessoas, embora normalmente não seja totalmente utilizado, o que voltou a acontecer. O principal cabeça-de-cartaz foi o cantor coreano G-Dragon, cuja presença em Macau fica mais uma vez marcada por polémica. Em Junho do ano passado, durante outra passagem pelo território, os concertos foram alvos de uma operação contra a contratação ilegal de trabalhadores não-residentes. Em causa, esteve o facto de três mulheres do Interior, envolvidas na equipa de vendas dos organizadores, terem contratado cerca de 68 estudantes, igualmente do Interior, que aproveitaram os vistos para trabalhar, o que constitui uma situação ilegal. Daesung foi o segundo cantor mais popular do evento, também ele coreano e colega de G-Dragon no grupo de Kpop Big Bang, embora ambos tivessem actuado a solo. Os outros artistas, foram os grupos P1Harmony, Kiss of Life e Kiiikiii.
Balança Comercial | Registado défice de 33 mil milhões Hoje Macau - 4 Mai 2026 O valor exportado de mercadorias no primeiro trimestre de 2026 situou-se em 4,18 mil milhões de patacas, mais 19,7 por cento do que no primeiro trimestre de 2025. Os valores da reexportação (3,78 mil milhões de patacas) e o da exportação doméstica (396 milhões de patacas) subiram 20,2 por cento e 14,7 por cento, respectivamente. No primeiro trimestre do corrente ano o valor importado de mercadorias foi de 37,26 mil milhões de patacas, mais 25,1 por cento, em termos anuais. Como resultado, o valor total do comércio externo de mercadorias no primeiro trimestre de 2026 correspondeu a 41,44 mil milhões de patacas e o défice da balança comercial cifrou-se em 33,08 mil milhões de patacas. O Interior (559 milhões de patacas), Hong Kong – RAEHK (2,88 mil milhões de patacas) e para a União Europeia (65 milhões de patacas) foram os principais destinos das exportações, com aumentos de 221,6 por cento, 7,1 por cento e 15,1 por cento, respectivamente, face ao trimestre homólogo do ano transacto.
Dia do Trabalhador | Sétimo ano sem manifestações Hoje Macau - 4 Mai 20264 Mai 2026 As manifestações do Dia do Trabalhador, que chegaram a reunir milhares de participantes em Macau, não se realizaram pelo sétimo ano consecutivo, de acordo com o Corpo de Polícia de Segurança Pública. Este ano, as autoridades não receberam avisos prévios de reunião ou manifestação As manifestações que durante anos foram uma tradição na celebração do Dia do Trabalhador, a 1 de Maio, desapareceram do panorama político de Macau. Segundo informações avançadas na véspera do feriado pelas autoridades policiais à Lusa, não foram recebidos avisos “prévios de reunião ou manifestação” para 1 de Maio, data que antes de 2020 registava regularmente iniciativas públicas. Segundo a Lei Básica de Macau, todos os residentes de Macau têm o “direito de se reunir, pacificamente e sem armas, em lugares públicos, abertos ao público ou particulares”. No entanto, é necessário entregar um aviso prévio ao Corpo de Polícia de Segurança Pública por qualquer entidade que planeie realizar uma demonstração, com qualquer recusa ou restrição a ter de ser justificada pelas autoridades policiais. Durante a pandemia de covid-19, as forças de segurança recusaram-se a aprovar o percurso de qualquer manifestação, invocando razões de “ordem e segurança” ou de saúde pública. Estas proibições chegaram ao Comité dos Direitos Humanos da ONU que, em 2022, avaliou “um crescente número de informações de restrições indevidas ao exercício da liberdade de manifestações pacíficas”. As autoridades levantaram as restrições antipandémicas no final de 2023, mas as manifestações não voltaram às ruas da cidade. Ruas só com turistas No ano passado, o grupo Poder Popular de Macau cancelou uma manifestação planeada para 1 de Maio, a exigir a redução do número de trabalhadores migrantes, devido à “pressão da polícia”, que alegou que o protesto poderia violar a lei de Segurança Nacional, reportou na altura o jornal All About Macau. O Governo indicou então que a realização de manifestações pode ameaçar a segurança da China, mas negou que a polícia tivesse pressionado a associação a cancelar a iniciativa. “As manifestações podem trazer conflitos à sociedade, à segurança de Estado”, defendeu o então secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, numa conferência de imprensa. Um homem que protestava contra o número de trabalhadores migrantes em Macau, viria a ser detido no 1 de Maio do ano passado, com as autoridades a invocarem uma violação da lei do Direito de Reunião e Manifestação. Este foi o primeiro protesto público no Dia do Trabalhador desde 1 de Maio de 2019, antes da pandemia da covid-19, quando duas associações organizaram acções. Em 2018, por exemplo, a Nova Associação dos Direitos de Trabalhadores da Indústria de Jogos levou cerca de três centenas de membros a percorrer as ruas de Macau, exigindo melhores condições laborais. ATFPM | 1 de Maio assinalado com eventos desportivos A Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) organizou no Dia do Trabalhador, 1 de Maio, uma série de actividades desportivas. Segundo um comunicado da associação, a participação este ano bateu o recorde, com “mais de 1.000 funcionários públicos e seus familiares” a participarem no evento. As competições abrangeram desportos como atletismo, futebol de sete, ténis de mesa e badminton. Além dos funcionários de mais 28 serviços públicos, participaram também docentes e funcionários da Universidade de Macau e da Universidade Politécnica de Macau, bem como trabalhadores da Companhia de Electricidade de Macau. As provas desportivas realizaram-se no Estádio Olímpico e no Pavilhão Desportivo dos Jogos da Ásia Oriental de Macau, e à noite realizou-se uma cerimónia de entrega de prémios.
Criminalidade | Jornal Ou Mun critica fim de conferências de imprensa Hoje Macau - 4 Mai 2026 O maior jornal diário em língua chinesa de Macau criticou as autoridades por “fecharem as portas ao público”, depois de o Governo ter terminado as conferências de imprensa trimestrais sobre relatórios de criminalidade. O Executivo acrescentou que o fim das conferências de imprensa tem como objectivo “aumentar a transparência” O jornal Ou Mun publicou um artigo de opinião onde critica o fim das conferências de imprensa, organizadas pela secretaria para a Segurança, de apresentação dos dados estatísticos da criminalidade em Macau. O relatório de criminalidade 2025 foi divulgado na passada terça-feira, apenas na página do gabinete do secretário para a Segurança, Chan Tsz King, na Internet, e sem a realização da habitual conferência de imprensa. Em comunicado, o gabinete confirmou que irá deixar de realizar conferências de imprensa trimestrais para apresentar os dados, “no intuito de aumentar a transparência das informações” e contribuir “para a paz e harmonia”. A divulgação regular dos dados estatísticos criminais vai passar a ser efectuada por “meios electrónicos” e apenas presencialmente quando “necessário”. Na edição de quinta-feira do jornal Ou Mun, um jornalista escreveu uma opinião, em que considerou que a “verdadeira transparência da informação não “significa simplesmente ‘colocar dados online de forma transparente’ mas “ter coragem para enfrentar as críticas e aceitar activamente a supervisão pública”. O mesmo jornalista afirmou que o ajuste “pode fechar uma das poucas janelas de diálogo que ainda restam” entre as autoridades do território e o público. “Quando um Governo escolhe fechar os canais de comunicação com os ‘media’ e reduzir a interacção directa com os jornalistas, pode parecer que evita o incómodo de lidar com perguntas difíceis, mas ao fazê-lo, também fecha voluntariamente a porta para resolver mal-entendidos e manter a credibilidade pública”, sublinhou o jornalista. Na mesma opinião, o jornalista aponta que, no passado, as conferências de imprensa “não eram apenas ocasiões para divulgar estatísticas criminais, mas também canais importantes através dos quais os cidadãos podiam comunicar com as autoridades através dos ‘media'”. “Durante as conferências, os responsáveis tinham de responder aos jornalistas em frente às câmaras, mesmo que as suas explicações nem sempre fossem satisfatórias, e pelo menos havia um diálogo aberto”, alertou o jornalista. Papel com poder Para o mesmo autor, “por mais detalhados que sejam os dados ou bem organizadas que estejam as tabelas” fornecidas ‘online’, “sem as perguntas de seguimento dos jornalistas, sem as respostas e esclarecimentos imediatos dos responsáveis, e sem um debate interactivo em tempo real” deixa de ser possível informar correctamente o público. Fundado em 1958 com o apoio do Partido Comunista Chinês, o jornal Ou Mun possui a maior tiragem do território, representando de 70 a 80 por cento da circulação de jornais da cidade. A publicação tem mantido desde sempre relações muito próximas com o poder político local e nacional. O histórico director da publicação, Lok Po foi membro de Macau no Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) entre 2003 e 2008, e mais tarde representante de Macau na Assembleia Popular Nacional (APN) entre 2008 e 2022. Antes da entrada nos dois principais órgãos consultivos e legislativos a nível nacional, Lok Po foi membro da CCPPC da província de Guangdong. Quando saiu do cargo na APN, foi substituído pelo director-geral do jornal Ou Mun, Wan Nang Hon. João Luz / Lusa
Jacob Fordham, académico: “Estudo a história dos primeiros macaenses” Andreia Sofia Silva - 4 Mai 2026 Jacob Fordham, académico ligado à London School of Economics, está a ultimar um livro que analisa o papel dos tradutores no comércio entre portugueses e chineses em Macau. No âmbito das Conferências da Primavera, no Centro Científico e Cultural de Macau, o investigador apresentou a palestra “Chinese-Portuguese Linguists, Corruption, and Office: a Late Ming Chinese Debate”. Ao HM, diz que os “linguistas” eram “essenciais para gerir relações com chineses” Tem analisado arquivos chineses, ingleses e portugueses sobre o comércio no sul da China. Falamos de um período intenso de negociações, com muitos interesses em jogo? Fiz o doutoramento em Estudos Asiáticos e do Médio Oriente na Universidade de Oxford, investigando a história dos “linguistas” ou “jurubaças” [termo atribuído a chineses cristãos nascidos em Macau] do delta do Rio das Pérolas nos séculos XVI e XVII. Eram tradutores e intérpretes, mas, ao contrário do que esperamos hoje — que os tradutores sejam neutros e discretos — estavam também activamente envolvidos nas relações entre chineses e estrangeiros como negociadores e intermediários. Estudei teoria da tradução, mas fiquei um pouco insatisfeito com a análise de textos traduzidos como forma de estudar a tradução no passado. Porquê? Porque a tradução não é apenas linguística; é um acto social realizado por pessoas num contexto específico, e queria escrever sobre essas pessoas. Por isso, passei da teoria da tradução para a história. Mas voltando a esse período histórico em Macau… Foi, de facto, um período de negociações intensas e de luta pela sobrevivência para a recém-estabelecida cidade de Macau. Não se tratava apenas de um encontro entre duas culturas separadas, mas de um constante vai-e-vem, um contacto que gerou novas formas de pensar a relação entre Estado e comércio, entre chineses e estrangeiros, e assim por diante. Tentei revelar algumas dessas formas de pensamento através da lente dos “linguistas”, que estavam no centro dessas negociações. Na sua apresentação, no Centro Científico e Cultural de Macau, falou do caso de Paulo Neretti [falante de português que esteve envolvido no comércio entre Macau e o Japão no século XVII] e das percepções de Zhang e Chen [figuras chinesas envolvidas no comércio] sobre o seu papel como “linguistas”, especialmente em relação ao poder político e comercial e à busca de lucro. Como encontrou a figura de Paulo Neretti e qual a sua importância? Paulo Neretti foi uma descoberta casual que acabou por ser fascinante. Encontrei-o quando procurava material sobre as primeiras viagens inglesas ao sul da China. Na Biblioteca Bodleian, em Oxford, existe o diário de um mercador inglês que participou na primeira expedição comercial inglesa a chegar a Macau e Cantão, e que lidou com este “linguista” bilingue, Paulo Neretti. A partir daí, segui o rasto arquivístico pelo mundo para descobrir quem ele era exactamente. Descobri que, na verdade, era chinês de nascimento, mas foi criado em Macau na casa de um nobre florentino chamado Orazio Neretti, que se estabeleceu na cidade e chegou a servir como enviado a Nagasaki. Esse agregado incluía outros intérpretes bilingues com ligações até à Coreia e ao Japão. Paulo Neretti teve uma vida extraordinária, sendo eventualmente assassinado em sua casa pouco depois de regressar de um encontro com o imperador Shunzhi, onde actuara como intérprete de uma embaixada holandesa. Foi ele quem me colocou no caminho de estudar os “linguistas” e abriu uma janela para um mundo raramente preservado nos arquivos. Macau foi um porto comercial muito importante no sul da China a partir de meados do século XVI. Como descreveria a relação entre mercadores e tradutores, ou “linguistas” nesse período? Uma relação próxima, com convergência de interesses? Eram completamente dependentes uns dos outros. Na verdade, os “linguistas” pertenciam normalmente à casa de um mercador, criados desde o nascimento a falar ambas as línguas. A ligação aos mercadores dava-lhes acesso a uma actividade potencialmente muito lucrativa; e, para os mercadores — que não falavam muito chinês —, os “linguistas” eram essenciais para gerir as relações com os chineses. Mais especificamente sobre a comunidade macaense, participou activamente nesses jogos de poder em nome da administração portuguesa, ou também da chinesa? Pode dar exemplos? Este foi o período inicial em que aquilo a que chamamos comunidade macaense estava a formar-se. Muitos dos “linguistas” que estudei tinham origens étnicas mistas ou biculturais, o que lhes permitia ser bilingues em português e chinês. Curiosamente, o termo “jurubaça” passou a ser usado não só no sentido de intérprete, mas também como classificativo étnico para chineses cristãos nascidos em Macau, devido à forte associação com essa profissão. Portanto, aquilo que estudo é, na verdade, uma história dos primeiros macaenses. Como descreveria a perspectiva das autoridades chinesas sobre este tipo de comportamento, especialmente em relação a lucro, poder e Estado? Seriam conceitos muito diferentes dos europeus? O que me chamou a atenção ao ler fontes chinesas e europeias foi que todos enfrentavam o mesmo problema: a comercialização trazia oportunidades e perigos. Por um lado, os “linguistas”, vindos de famílias mercantis, eram motivados pelo lucro, e isso podia ser aproveitado pelos oficiais para gerir relações com estrangeiros. Por outro lado, era arriscado, pois significava delegar o controlo da fronteira. Hoje vemos a tradução como algo neutro, mas eles encaravam-na como uma actividade com interesses próprios. Em vez de perguntarem “como traduzem os tradutores?”, perguntavam “por que traduzem?”. Ou seja, qual era a sua motivação? Nas fontes europeias, fala-se da “honestidade” e “coragem” dos tradutores; nas chinesas, da sua “orientação para o bem público” ou “interesse próprio”. Assim, o mesmo problema era pensado de formas diferentes em tradições intelectuais distintas. Podemos concluir que, em termos de corrupção e jogos de poder, as autoridades chinesas estavam conscientes dessas situações e as permitiam para benefício próprio, nomeadamente em Macau? Sem dúvida que estavam conscientes e faziam uso disso. Hoje, o termo “corrupção” tem uma conotação totalmente negativa, mas alguns oficiais chineses da época viam isto como uma oportunidade. O uso das “línguas” motivado pelo lucro permitia ao Estado expandir a sua influência além das suas capacidades directas. Quanto a Hong Kong, surgiu muito mais tarde, quando os “linguistas” já tinham perdido importância e eram essencialmente funcionários aduaneiros. Este sistema de gestão de fronteira, delegado a intermediários semi-estatais e semi-comerciais, foi bastante específico dos séculos XVI e XVII. O que revelam estes casos sobre a presença portuguesa e britânica no sul da China e o comércio da época? Estes debates ajudam a compreender como eram as relações entre a China e os países europeus na época moderna. Muitas vezes, essas relações são vistas de forma negativa, com a ideia de que a China era fechada, xenófoba e imutável. Mas estes casos mostram que isso não é verdade. A forma de pensar era diferente da nossa. Que investigação pretende desenvolver no pós-doutoramento? Estou a escrever um livro baseado nesta investigação, que está quase concluído. Espero que esse livro mostre uma história mais humana e que vá além dos estereótipos de uma China passiva e estática. Também podemos aprender com eles sobre o papel de intermediários informais em zonas de fronteira hoje. Estou também a iniciar um novo projecto sobre as relações entre Macau e Malaca, bem como com o mundo malaio em geral.