Comerciantes alertam para consequências do fecho de casinos-satélite

Empresários disseram à Lusa que o encerramento dos casinos-satélite ameaça a sobrevivência de sectores económicos que deles dependem, como as casas de penhores e o comércio de luxo.

As ruas das zonas ZAPE e NAPE, outrora animadas por jogadores, estão a ficar desertas. “As casas de penhores nestas áreas vão simplesmente fechar ou mudar-se. Não vejo outra solução”, disse à Lusa o presidente da Associação Geral dos Penhoristas de Macau, Alexander Wai Kai Leung.

Está previsto que, pelo menos, nove dos 11 casinos satélite da cidade cessem operações até 31 de Dezembro, prazo final de um período de carência de três anos concedido para acordos entre os operadores dos espaços de jogo e os concessionários sob os quais funcionavam.

Entre os casinos-satélite localizados nas áreas da ZAPE e NAPE contam-se o Casa Real, o Fortuna, o Kam Pek, o Landmark, o Legend Palace e o Waldo. A Lusa tentou contactar os hotéis que albergam estes espaços, mas nenhum dos seus colaboradores soube indicar qual será o futuro do local após o encerramento. O Grand Emperor serve de exemplo: o casino fechou há três anos e as instalações permanecem vazias até hoje.

“Se os casinos fecharem, o impacto para nós é significativo. O nosso sustento depende dos jogadores”, salientou Leung, expressando ainda a esperança de que os casinos-satélite permaneçam abertos.

Carta de intenções

A Direcção dos Serviços de Turismo (DST) disse à Lusa que “pretende atrair visitantes” para a área da ZAPE para apoiar o comércio local. Entre as medidas para o fazer incluem-se a realização de eventos, o melhoramento da paisagem urbana e a oferta de pacotes especiais dirigidos aos espetadores de concertos, que incluam ‘vouchers’ de compras e bilhetes para museus.

Empresários como Leong mantêm-se, não obstante, cépticos. O presidente da associação das casas de penhores questiona estas medidas, considerando-as mesmo inúteis para as casas de penhores.

“A nossa indústria depende dos jogadores como seus principais clientes. Podem atrair pessoas para jantar na rua, mas não vejo como é que isso nos beneficia”, disse, acrescentando que sente que o sector tem sido “marginalizado pelas autoridades, que consideram o negócio de ‘alto risco’ para branqueamento de capitais”. De acordo com a associação, existem cerca de 25 casas de penhores na área da ZAPE e NAPE.

A ameaça estende-se para além das casas de penhores. Montras de lojas como a do Grupo In Vo Chong exibem barbatanas de tubarão, ‘whisky premium’ e Moutai, cativando uma clientela abastada.

O proprietário, Lok Chi Lai, secretário-geral adjunto da Associação dos Comerciantes de Ninhos de Andorinha de Hong Kong e Macau, reconhece os esforços do Governo para aumentar a afluência de outras pessoas que não os frequentadores dos espaços de jogos. Porém, disse à Lusa, estas iniciativas “não conseguem atrair clientes de alta gama para consumir”, apenas atraem “jovens para tirar fotografias”, esclarecendo que existem mais de 40 estabelecimentos deste género nas duas áreas da cidade.

“Quem vem para jogar está disposto a comprar bens de luxo a preços mais elevados para oferecer. Sem estes clientes, o futuro não parece assim tão risonho”, disse Lok. Por outro lado, acrescentou, promover oferta hoteleira situada na ZAPE e na NAPE também é ineficaz porque “os hotéis aqui são antigos (…), e os clientes de alta gama preferem ficar nos hotéis de cinco estrelas em Cotai”.

AMCM | Reguladores de Macau e Cabo Verde reforçam cooperação

O novo acordo foi assinado na quinta-feira e anunciado no dia seguinte. A assinatura decorreu durante a 12.º edição do Encontro de Governadores dos Bancos Centrais dos Países de Língua Portuguesa, na Cidade da Praia

 

A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) anunciou ter assinado um novo acordo para “aprofundar a cooperação” em matéria na supervisão financeira com o banco central de Cabo Verde. O regulador financeiro disse que o protocolo com o Banco de Cabo Verde abrange o “combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, a cooperação técnica, a formação de quadros profissionais”.

De acordo com um comunicado, o acordo cobre ainda “a supervisão e o intercâmbio relativos a serviços financeiros emergentes, com o objectivo de salvaguardar em conjunto a segurança e a estabilidade dos respectivos sistemas financeiros”. O documento foi assinado na quinta-feira, durante a 12.º edição do Encontro de Governadores dos Bancos Centrais dos Países de Língua Portuguesa, realizado na capital de Cabo Verde, Praia.

A reunião, que decorreu à porta fechada incluiu intervenções de governadores e representantes dos bancos centrais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Timor-Leste assim como do Banco Central dos Estados da África Ocidental e do Banco dos Estados da África Central.

“Esta iniciativa simboliza um aprofundamento da cooperação e intercâmbio entre as duas instituições no domínio da supervisão financeira,” acrescentou a AMCM. “Este novo acordo foca-se particularmente na colaboração em matéria de supervisão prudencial, estabelecendo um quadro específico para a cooperação entre a AMCM e o Banco de Cabo Verde,” acrescentou o regulador.

Desde 1999

A AMCM assinou o primeiro acordo de cooperação e assistência técnica com o Banco de Cabo Verde em 1999. Em Setembro de 2024, durante a segunda Conferência dos Governadores dos Bancos Centrais e dos Quadros da Área Financeira entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que decorreu em Macau, o regulador financeiro de Macau anunciou que iria actualizar o protocolo com a institução homóloga de Cabo Verde.

A AMCM já celebrou acordos de cooperação bilateral com 12 autoridades de supervisão financeira de oito países de língua portuguesa.

Sismo / Filipinas | Novo balanço aponta para 72 mortos

O número de mortos no sismo que atingiu as Filipinas na terça-feira subiu para 72, anunciaram ontem os serviços de emergência, que se concentram agora em ajudar centenas de feridos e milhares de desalojados.

Os bombeiros e as equipas de resgate disseram ter removido os corpos de uma mulher e de uma criança dos escombros de um hotel que desabou na cidade de Bogo, perto do epicentro do sismo de magnitude 6,9 na escala de Richter. O anterior balanço apontava para 69 vítimas mortais. O epicentro do sismo foi localizado no mar, perto da ilha de Cebu, na parte central do arquipélago, na terça-feira às 21:59, na hora local, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Mais de 300 tremores secundários já atingiram a região, de acordo com o Instituto Filipino de Vulcanologia e Sismologia, abrandando os esforços de resgate. O Governo informou que 294 pessoas ficaram feridas e cerca de 20 mil fugiram de casa, tendo sido destruídas quase 600 habitações no norte da ilha de Cebu, obrigando muitos residentes a dormir ao relento.

A governadora da província de Cebu, Pamela Baricuatro, lançou um apelo por ajuda para milhares de famílias que necessitam de água potável, alimentos, roupa e abrigo. “Muitas casas foram destruídas e muitas famílias precisam de ajuda para recuperar (…) Precisam da nossa ajuda, das nossas orações e do nosso apoio”, escreveu Baricuatro, na rede social Facebook.

De acordo com a protecção civil de Cebu, mais de 110 mil pessoas em 42 comunidades afectadas pelo sismo necessitam de assistência, principalmente para reconstruir as casas e recuperar os meios de subsistência. A recente passagem da tempestade Bualoi e do tufão Ragasa já tinha provocado cerca de 40 mortos nos últimos dias no arquipélago filipino.

Ópera | “Carmen”, de Bizet, apresentada hoje no CCM

Começa hoje o Festival Internacional de Música de Macau (FIMM) com um espectáculo que há muito faz parte do panorama internacional: a ópera “Carmen”, que se apresenta em “Carmen – Ópera em Quatro Actos de Georges Bizet”. O palco é o grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), com o início do espectáculo marcado para as 19h30.

A produção está a cargo da Opéra Comique e da Ópera de Zurique, com encenação de Andreas Homoki. Este espectáculo acontece em parceria com a Orquestra de Macau, e as colaborações do Coro da Orquestra Sinfónica Nacional da China e Coro Juvenil de Macau.
“Mergulhemos num mundo de paixão ardente.” É este o repto deixado no programa oficial do espectáculo, marcado por uma “envolvência dramática e música inesquecível”.

No palco do CCM apresenta-se “uma inventiva produção”, com “árias pulsantes e inspirada no exotismo musical espanhol e em temas intemporais”. Com esta adaptação da “obra-prima de Bizet”, “Carmen” permanece “hoje tão possante e relevante como quando foi criada”.

“Levada à cena pelo galardoado Andreas Homoki, a produção transporta a trama para um cenário austero e meta-teatral. Uma réplica do palco da Opéra Comique transforma-se no pano de fundo de uma viagem no tempo, em que cada acto sugere uma era diferente: da Paris da Belle Époque até à Segunda Guerra Mundial e, finalmente, ao presente”, descreve o programa.

“Carmen” capta, assim, “como nunca a emoção crua e dramática do clássico, reinterpretando temas que afloram o destino e a humanidade de uma perspectiva subtil e ao mesmo tempo ousada”.

Segundo o programa, este espectáculo pode ser desfrutado por “melómanos ou espectadores novatos”, pois “esta produção envolve e desafia-nos, permanecendo connosco muito depois do espectáculo terminar”. Estamos, assim, perante “uma extraordinária demonstração de música, tragédia e sedução”.

Israel | Grupo italiano da flotilha diz que foram interceptados 39 navios

Um total de 39 navios da flotilha ‘Global Sumud’, que estavam a caminho de Gaza, foram interceptados pelo Exército israelita desde quarta-feira à tarde, anunciou ontem a porta-voz do grupo italiano de ativistas, Maria Elena Delia. As restantes embarcações da flotilha, os barcos mais pequenos, continuam a navegar, mas é quase certo que serão interceptados em breve, acrescentou a porta-voz, em declarações à agência de notícias espanhola Efe.

Delia adiantou ainda que se desconhece a localização do barco ‘Mikeno’, que se situava a poucos quilómetros da costa de Gaza quando desapareceu o sinal de vídeo que tinha sido activado durante a viagem. Neste momento, 22 italianos, incluindo vários deputados, estão detidos por Israel no âmbito da operação, mas “estão todos bem”, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, António Tajani.

De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano, as tripulações foram levadas para o porto de Ashdod e mantidas em centros designados, onde poderão aceitar a expulsão voluntária imediata ou rejeitá-la e aguardar uma decisão judicial. Caso a saída voluntária seja rejeitada, “os membros da flotilha terão de aguardar a decisão das autoridades judiciais sobre a sua expulsão, o que geralmente demora 48 a 72 horas”, explicou a mesma fonte.

O Governo referiu ainda que o Ministério dos Negócios Estrangeiros está a seguir o envolvimento de Israel na flotilha e oferecerá assistência consular aos detidos, uma vez que a embaixada de Itália em Telavive está a acompanhar de perto o caso e já preparou um programa de ajuda.

Portugueses detidos

Tajani já informou a Câmara dos Deputados que 22 cidadãos italianos embarcados na flotilha ‘Global Sumud’ foram detidos pelas autoridades israelitas quando estas começaram a interceptar os barcos que levavam ajuda humanitária a Gaza.

“De acordo com as minhas instruções, o consulado em Telavive e o consulado-geral em Jerusalém vão dar assistência a todos os italianos, tanto no porto como nos procedimentos de repatriamento”, afirmou, acrescentando que os italianos detidos por Israel deverão ser repatriados daqui a alguns dias. “Conversei repetidamente com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel [Gideon] Sa’ar, instando-o a evitar ações agressivas”, disse.

“Estou aliviado por constatar que as regras de empenhamento foram respeitadas e que, até agora, não houve actos de violência ou complicações nas operações das forças israelitas”, avançou, adiantando que “as primeiras partidas [da Israel] podem acontecer já na sexta-feira, especialmente daqueles que aceitarem deixar Israel voluntariamente”.

As embarcações integradas na flotilha foram intercpetadas pela Marinha de Israel na quarta-feira, sendo que uma foi abalroada em águas internacionais, segundo a organização. Entre os detidos encontram-se a coordenadora do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, a actriz Sofia Aparício e o activista Miguel Duarte.

Entre Hyperion e Paz Extinta – 2ª parte

(Continuação da edição de 26 de Setembro)

“Peace cannot be kept by force; it can only be achieved by understanding.”

Albert Einstein

O Norte está inteiramente repartido por meridianos entre Rússia, China e Estados Unidos. Três impérios sem solução de continuidade. Nunca as potências máximas estiveram todas contíguas. Nunca como agora as faíscas geradas pelas fricções recíprocas podem incendiar o planeta. Ordolândia sobreaquece enquanto Caoslândia se expande para nordeste. Os estudiosos do longo prazo notarão que a zona de paz quente, verdadeiro nome da guerra fria corresponde à ecúmena plurimilenar dos impérios, aquela dos conflitos armados nas (ex?) colónias. Segundo a estenografia geoestratégica, constatamos que o Norte Global continua a dedicar-se ao seu desporto favorito o de descarregar sobre o Sul as rivalidades entre impérios, através de clientes reais ou presumidos, ágeis em mudar de sigla e bandeira conforme a necessidade. Os massacres austrais são endémicos porque só podem ser resolvidos pelos boreais. Os quais têm outras prioridades. Quando não se dedicam a mantê-los ou expandi-los enquanto guerras por procuração. A economia geopolítica da reprodução de focos periféricos autoalimentados e/ou dirigidos externamente revelaria altares que nenhum actor tem interesse em expor. Um exemplo entre muitos é os ciclos de pirataria no Corno de África, incentivados pelos americanos para barrar à China o acesso aos hidrocarbonetos espalhados entre o Iémen e a Somália.

Subimos às latitudes imperiais para verificar o estado do Triângulo supremo. A competição entre Estados Unidos, China e Rússia, por ordem de valor, envolve paradoxalmente três sujeitos de saúde contingente. Próximos do limiar da dor suportável sem se dispararem mutuamente. Em que ponto está hoje o jogo? Ainda estamos a tempo de evitar a ameaça da paz justa autoproclamada pelo vencedor único, se é que virá a existir? A coruja de Minerva ainda não levantou voo. Demasiadas viragens em demasiado pouco tempo e em espaços dilatados anunciam outras, igualmente imprevistas. Os limites para compromissos impuros reduzem-se. Enquanto as obsessões belicistas das propagandas activam no Ocidente inéditos tiques totalitários. As verdades admitem-se em voz baixa, com a mão diante da boca. Nos templos do pensamento livre universidades americanas à cabeça com o politicamente correcto, a censura e a autocensura mimetizam neuroses soviéticas. O morto devora o vivo. O desafio é assimétrico. Quanto ao potencial global, os Estados Unidos mantêm uma vantagem decrescente sobre a China. Ambos distanciam-se da Rússia. Mas são quantificações estáticas simplificadas, enquanto a história acelera geometricamente. Não há mecânica nem teologia que nos emancipe do cálculo das probabilidades.

O senso comum, banalizado pelo mainstream nacional, embota ou omite factores profundos. Cinco exemplos. Primeiro; as relações de força estão sujeitas aos caprichos de culturas intransitivas. Americanos, chineses e russos acreditam que se compreendem, mas não podem. São herdeiros de civilizações orgulhosas, portadoras de códigos culturais profundamente enraizados, muitas vezes indecifráveis para quem os observa de fora. Quando um lê A onde o outro escreve Z, aproxima-se o risco de uma guerra involuntária precisamente a mais difícil de evitar, porque não prevista. O intervalo entre o raciocínio russo e americano é relativamente estreito, permitindo-lhes gerir tensões como as que se desenrolam na Ucrânia. Já no Indo-Pacífico, o grau de incompreensão entre os Estados Unidos e a China é mais acentuado, o que torna qualquer incidente potencialmente mais perigoso, exigindo prudência redobrada e canais de comunicação eficazes. Quanto à relação entre Rússia e China, a distância entre os seus universos simbólicos é reconhecida por ambos, o que os leva a privilegiar uma cooperação pragmática, sustentada por interesses convergentes e respeito mútuo. A expressão “amizade sem limites” deve ser entendida como uma fórmula diplomática que celebra essa aproximação, sem pretender apagar as diferenças que enriquecem cada civilização. Importa lembrar que slogans e aparências podem ser enganosos.

A geopolítica contemporânea é marcada por sobreposições complexas, onde o aliado de hoje pode ser o competidor de amanhã, e vice-versa. A narrativa simplificadora que opõe democracias a autocracias ignora as múltiplas formas de organização política e os contextos históricos que moldam cada sociedade. É mais produtivo abandonar tais dicotomias e reconhecer que os modelos ocidentais também enfrentam contradições internas que desafiam qualquer pretensão de universalidade. Constatamos que a Rússia e China têm dois modelos de regime distintos, mais populares nos seus países do que Trump e vários líderes de democracias europeias. Hoje, a Federação Russa e a República Popular da China, separadas e conectadas por 4.209 quilómetros de fronteira siberiana ao longo do rio Amur, mantêm uma relação complexa e historicamente densa. São vizinhas estratégicas que, conscientes das suas diferenças civilizacionais e interesses distintos, optam por uma colaboração prudente e mutuamente vantajosa. Essa aproximação é também uma forma de evitar que terceiros venham a explorar eventuais divergências, fomentando tensões artificiais entre dois pólos fundamentais da estabilidade euro-asiática.

Terceiro; Washington e Pequim são, sem dúvida, potências de primeira ordem, capazes de agir em qualquer lugar e em todas as dimensões estratégicas desde os fundos marinhos ao Espaço, da terra ao ar e do ciberespaço à inteligência artificial. Moscovo é apenas uma grande potência eurasiática cultural, militar-nuclear, energética e agrícola, mas limitada por constrangimentos demográficos e geopolíticos que alimentam a sua ansiedade de ser esmagada entre a OTAN e o Império do Centro. Há, porém, um indicador poderoso que joga a seu favor nesta corrida triangular de fundo que é a coesão social. Expressa no patriotismo que ainda sustenta a aventura ucraniana promovida por Putin, mesmo contra influentes mecanismos, muitos dos quais ignoravam até ao último momento o seu risco. Criticavam-no discretamente nos primeiros meses da guerra, por subestimarem o espírito nacional do povo russo frequentemente superior ao seu próprio, mais profissional do que espontâneo. Quarto; se nos libertássemos do ilusionismo economicista que idolatra o PIB como medida de todas as coisas, e avaliássemos as relações de poder entre sujeitos geopolíticos a partir do grau de coesão social, descobriríamos os Estados Unidos em terceiro lugar bem atrás da Rússia e da China.

O antropólogo francês Emmanuel Todd diagnostica os Estados Unidos como uma oligarquia derrotada e niilista afirmando que «A sua dependência do resto do mundo tornou-se imensa e a sua sociedade está a desintegrar-se. Os dois fenómenos interagem». Existem nações sem império. Mas não impérios sem nação. E nunca nações sem sociedade. Hoje, a América é uma oligarquia intoxicada pela riqueza de poucos, que se reflectem na pobreza absoluta e na privação relativa dos “deploráveis”. E confirmam-se na fé segundo a qual «não existe tal coisa como sociedade» (Margaret Thatcher). Talvez seja pelo grau zero atingido pelo “American Creed”, religião anglo-saxónica protestante fragmentada em estilhaços neo-evangélicos centrados na relação especial Eu-Deus (por esta ordem), excitada por teleprofetas improváveis. Fonte de solipsismo, fragmentação de famílias e comunidades, violência sem valores, depressão agravada pelos opiáceos, perda do senso comum e, portanto, da realidade. Talvez também pelas consequências sociais do neoliberalismo, que reduzem os cidadãos a clientes, as instituições a empresas, o governo a “governance” e as pessoas a recursos humanos.

Abismo da elite degenerada e zénite da super classe gestora, casta que envolve os decisores de outrora no seu tecnicismo automático e na viva ausência de espírito. Resta saber como poderá voltar a ser grande um império em afastamento das referências nacionais e em retirada sem estratégica dentro da fortaleza americana, enquanto dança e quer fazer-nos dançar ao ritmo dos caprichos divertidos do seu Calígula. Quinto; a competição no Triângulo, desencadeada pela crise americana, baralha a hierarquia das potências. Potências médias assumem-se como médias máximas, enquanto se concebem super máximas para o futuro. À frente de todas, a Turquia neo-imperial, em escala transcontinental. Outras, como o Japão e até a Alemanha em crise nervosa, concentram-se em áreas menos amplas. Aproveitam o recuo americano para se expandirem nas respectivas regiões como parceiros prioritários do “Número Um” de hoje pois amanhã será outro dia. Os japoneses e alemães oferecem-se aos Estados Unidos para conter a visível expansão chinesa na Ásia e a alegada invasão russa da OTAN europeia, prevista para 2029 segundo a comunicação atlântica.

O rearmamento japonês prossegue discretamente, o alemão em retórica ostentadora ainda longe de se concretizar na prática ao ponto de se propor como primeira potência militar continental na próxima década. Sem humor, os líderes europeus parecem imitar a véspera da dupla guerra mundial. Macron e Carlos III redescobrem a “entente cordiale” anti-germânica de 1904, promovida como “amigável”. Com mão estendida aos polacos, empenhados em restaurar os pensamentos do marechal Piłsudski. E com o polegar virado para os russos. Sintomas da histeria emergencial que circula entre os europeus não sabemos quanto encenada e acreditada. Seja como for, o blefe europeísta foi desmascarado. Substitui-o o alarmismo. Em sentido estrito vai-se às armas. Chegam os cossacos. Assim desalentados, voltamos à questão central de como neutralizar, através de pazes sujas, a ameaça de guerra total, com focos bélicos unificados? Enquanto utopistas não produzem o plano geral da paz justa universal, avancemos com os modestos meios ao nosso dispor. Recomeçamos pela Paz Negociada.

Uma bolha de indulgência informal entre duelistas tranquilizados pela sua refinada ambiguidade. Inspiração do raciocínio sobre a ordem do caos. Na sua esteira, uma hierarquia dos conflitos, e portanto da urgência em tratá-los. A classificação baseia-se na probabilidade de um confronto estratégico abaixo do limiar bélico dos Estados Unidos contra a China ou dois conflitos regionais em curso da Rússia contra Ucrânia e Israel contra Irão (em pausa aparente), palestinianos e outros vizinhos desencadearem a terceira guerra mundial. Prevista envolver os três vértices do Triângulo. Arrastando-nos, frágil charneira entre ordem e caos. Como base de discussão, inventamos um coeficiente de dilatação bélica, emprestado da termodinâmica. Medida subjectiva que convida à refutação. Numa escala de 1 a 10, colocamos em primeiro lugar, com um 7, o duelo sino-americano centrado no Indo-Pacífico. Logo atrás, a Ucrânia, com nota 6. Em terceiro, a guerra de Israel, não acima de 3.

Festival da Lusofonia | Calema e Marisa Liz actuam nas Casas Museu da Taipa

Já é conhecido o programa do Festival da Lusofonia deste ano, que se realiza entre 24 de Outubro e 2 de Novembro, integrado no 7º Encontro em Macau – Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Na música, esperam-se nomes como Calema, Marisa Liz, Rui Orlando ou Josslyn

 

A música e o universo da cultura em língua portuguesa estão de regresso às Casas Museu da Taipa ao Festival da Lusofonia. O evento, que decorre entre os dias 24 de Outubro e 2 de Novembro, em dois fins-de-semana, está integrado na sétima edição do Encontro em Macau – Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

O destaque este ano vai para a cultura angolana, segundo o programa apresentado na terça-feira. Porém, na música destaca-se dois nomes bem conhecidos do público: a cantora portuguesa Marisa Liz, que pertencia à banda Amor Electro, que actua no dia 1 de Novembro às 21h30, e os Calema, a representar São Tomé e Príncipe, que actuam logo no arranque do festival, a 25 de Outubro, às 21h30.

As restantes escolhas musicais recaem em Rui Orlando, de Angola, com o espectáculo agendado para o dia 26 de Outubro, às 20h40, ou os Memu Sunhu, da Guiné-Bissau, que actuam no primeiro dia do festival, também às 20h40. Segue-se Josslyn, de Cabo Verde, a 31 de Outubro; os Galaxy, de Timor-Leste, a 2 de Novembro; os Carimbó Paidégua, do Brasil, marcados para o dia 26 de Outubro, às 19h10; os Negros Unidos, a representar a Guiné Equatorial, no dia 25 de Outubro, às 19h55; os Tafika, de Moçambique, no dia 2 de Novembro, e, a fechar, os Sanskruti Sangam, de Goa, Damão e Diu, no dia 1 de Novembro, às 19h15.

Além destes espectáculos principais, a música acontece na zona das Casas Museu da Taipa a partir das 19h30, com espectáculos de músicos e bandas locais como os Concrete/Lotus, Elvis de Macau, Giuliana Fellini e banda, Fabrizio Croce, The Bridge, Rita Portela ou Banda 80&Tal. As actuações decorrem até às 22h.

Com organização do Instituto Cultural (IC), o evento promete trazer “ao público uma diversidade cultural e a oportunidade de vivenciar a dinâmica e a vitalidade do mundo lusófono, contando com uma programação de actividades que inclui espectáculos de música e dança, jogos e degustação gastronómica”, descreve a entidade numa nota.

A ideia é revelar os detalhes das culturas das comunidades lusófonas residentes em Macau, onde a comunidade macaense não fica esquecida. De resto, na banca de cada associação participante haverá artesanato, trajes tradicionais, gastronomia e informação turística de cada país ou região. Os visitantes podem ainda participar nos Jogos Tradicionais Portugueses, Torneios de Matraquilhos e Jogos Recreativos para Crianças.

Entre as letras e o cinema

O Festival da Lusofonia integra-se com mais eventos do 7º Encontro em Macau – Festival de Artes e Cultura entre a China e os Países de Língua Portuguesa, nomeadamente exposições e mostra de cinema.

Um dos eventos principais é a “Narrativa Espiritual 2025 – Exposição Anual de Artes entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, uma mostra que reúne artistas do Interior da China, de Macau e dos Países de Língua Portuguesa.

O público poderá ver “criações contemporâneas de estilos variados”, que exploram “as conexões profundas entre as culturas chinesa e lusófona, convidando o público a embarcar numa viagem artística poética”. Ainda sem data fixa, a exposição fica patente entre Novembro e Março do próximo ano na Galeria de Exposições e na Casa da Nostalgia das Casas da Taipa.

Outro dos eventos agendados é o “Concerto Sino-Lusófono”, que promete oferecer “uma selecção especial de músicas para destacar o diálogo harmonioso entre a música chinesa e a música lusófona, revelando-se a fusão harmoniosa das duas sonoridades”. A data deste espectáculo ainda está por anunciar.

Outro evento integrado no programa do “Encontro em Macau” é o Festival de Cinema entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, que este ano celebra também a sétima edição. O tema é “Transcendendo Fronteiras”, apresentando-se “uma selecção especial de obras da China, dos Países de Língua Portuguesa e da Ásia Oriental”. Os filmes “contam histórias humanas que transcendem fronteiras”, sendo o filme de abertura “Green Wave”, realizado por Xu Lei, exibido a 14 de Novembro nos Cinemas Galaxy.

Depois, os filmes exibem-se na Cinemateca Paixão entre os dias 15 de Novembro e 5 de Dezembro, com um total de 30 películas.

Outro dos eventos integrados nesta iniciativa do IC é a “Exposição de Livros Ilustrados em Chinês e Português”, de 24 de Outubro a 2 de Novembro no Auditório do Carmo, na Taipa. Sob o tema “Mundo de Contos de Fadas”, apresentam-se “mais de 800 livros ilustrados de literatura infantil, maioritariamente em chinês e português, com entrada gratuita”. Há ainda o “Workshop de Degustação Chinesa e Portuguesa”, com três sessões do “Workshop de Café Preparado à Mão. Aqui os participantes podem provar as diversas variedades de café dos países de língua portuguesa. Destaque também para o evento “Workshop para Pais e Filhos sobre Experiência de Escultura em Chocolate”.

Ásia | Carros eléctricos chineses desafiam domínio japonês

As vendas crescentes de automóveis eléctricos chineses de baixo custo estão a abalar o domínio de décadas das marcas japonesas no Sudeste Asiático, segundo um estudo divulgado terça-feira pela firma de consultadoria e auditoria PwC.

A quota de mercado dos fabricantes japoneses – liderados por Toyota, Honda e Nissan – caiu para 62 por cento das vendas na primeira metade de 2025 nos seis maiores mercados da região, contra uma média de 77 por cento na década passada. Os produtores chineses aumentaram a sua fatia de quase nula para mais de 5 por cento de 3,3 milhões de unidades vendidas.

A ofensiva chinesa é explicada pela guerra de preços que o sector enfrenta na China, que levou os fabricantes a procurar mercados externos próximos, beneficiando de um acordo regional de comércio que garante acesso sem tarifas. “A entrada dos fabricantes chineses de veículos eléctricos marca o fim de uma era de domínio japonês no Sudeste Asiático”, apontou Patrick Ziechmann, analista da PwC na Malásia.

Na Indonésia, maior mercado consumidor da região, as vendas da Toyota caíram 12 por cento entre Janeiro e Agosto, para 161.079 unidades, enquanto as da chinesa BYD triplicaram para 18.989. Os preços acessíveis são vistos como factor determinante: alguns modelos chineses começam nos 12 mil dólares.

“O preço é o factor decisivo. Os japoneses têm de reagir, caso contrário vão continuar a perder quota de mercado”, afirmou o vice-presidente da associação indonésia de fabricantes de automóveis, Jongkie Sugiarto, citado pelo jornal britânico Financial Times. A presença chinesa no país não se limita às vendas. Pelo menos 15 marcas estão já activas e outras cinco devem entrar brevemente.

Médio Oriente | China “apoia todos os esforços que conduzam à distensão” entre Palestina e Israel

A China manifestou terça-feira apoio a “todos os esforços que conduzam à distensão entre Palestina e Israel”, após o Presidente norte-americano, Donald Trump, apresentar um plano para pôr fim à guerra em Gaza.

Em conferência de imprensa, o porta-voz da diplomacia chinesa Guo Jiakun apelou à aplicação “séria” das resoluções da ONU, a um cessar-fogo “imediato e integral” em Gaza, à libertação de todos os detidos e ao alívio da crise humanitária “o mais cedo possível”.

O responsável reiterou que Pequim defende o princípio de que “os palestinianos governem a Palestina” e a concretização da solução de “dois Estados”. “Estamos dispostos a trabalhar com a comunidade internacional para alcançar uma solução pronta, abrangente, justa e duradoura para a questão palestiniana”, acrescentou.

A reação surge depois de a Casa Branca ter tornado público, na segunda-feira, um plano de 20 pontos que prevê cessar-fogo na ofensiva israelita, libertação de reféns e a criação de um Governo de transição em Gaza supervisionado por uma junta presidida pelo próprio Trump.

O plano contempla ainda o compromisso dos Estados Unidos em mediar entre israelitas e palestinianos para “uma coexistência pacífica” e abre a porta à criação de um Estado palestiniano. Desde a escalada do conflito, a China tem condenado os ataques israelitas e reiterado apoio à solução de “dois Estados”.

Henan | Cinco mortos por inalação de gás tóxico em fábrica

Cinco pessoas morreram e outras três ficaram hospitalizadas devido a uma fuga de gás tóxico numa fábrica na província central chinesa de Henan, informou terça-feira a imprensa local.

O incidente ocorreu na manhã de segunda-feira na empresa Hexin Chemical Industry, na cidade de Hebi, após uma fuga num tanque de armazenamento de ácido sulfúrico ter provocado um derrame no sistema de águas das instalações, segundo a agência de notícias oficial chinesa Xinhua.

O ácido chegou a um tanque séptico, onde uma reação química gerou gás sulfídrico, que se infiltrou numa área de descanso para funcionários. Dos três feridos, um encontra-se em estado grave, mas estável, e os outros dois sofreram lesões ligeiras, indicou o gabinete local de gestão de emergências.

A fábrica suspendeu as operações e todo o pessoal foi retirado, enquanto as autoridades abriram uma investigação para apurar as causas do acidente. A China regista com frequência acidentes industriais, sobretudo em sectores como a mineração ou a produção de fogo-de-artifício, onde continuam a existir falhas de segurança, apesar do reforço da regulação nos últimos anos.

Dia Nacional | Previstas 2,4 mil milhões de viagens durante feriados

A celebração do Dia Nacional na passada quarta-feira coincidiu este ano com o Festival do Bolo Lunar a 06 de Outubro prolongando a ‘semana dourada’ para oito dias

 

O Ministério dos Transportes da China previu mais de 2,4 mil milhões de viagens em todo o país durante a chamada ‘semana dourada’ que começou quarta-feira, com o Dia Nacional chinês. O Ministério dos Transportes estimou uma média diária de 295 milhões de viagens, um aumento de 3,2 por cento em relação a 2024, durante o período de feriados, que termina com o Festival do Bolo Lunar, na noite de 06 de Outubro.

O dia 1 deverá ser o dia mais movimentado, com aproximadamente 340 milhões de viagens. Os automóveis estão a consolidar a posição como o principal meio de transporte, com 1,87 mil milhões de viagens previstas por estrada, quase 80 por cento do total.

As autoridades alertaram para congestionamentos intensos nas entradas das principais cidades e nas principais rotas turísticas. A operadora ferroviária estatal chinesa informou que mais de 110 milhões de bilhetes foram vendidos para viagens entre 29 de Setembro e 10 de Outubro.

A empresa reforçou as operações com a introdução de mais de dois mil comboios adicionais nos dias de ponta. A operadora previa transportar 23 milhões de passageiros no primeiro dia de Outubro, após ter registado 18,4 milhões de passageiros na terça-feira, segundo dados oficiais.

Outros números

A Autoridade de Aviação Civil espera transportar 19,2 milhões de passageiros durante os oito dias de feriados, o que marcaria um recorde para esta ‘semana dourada’, com os aeroportos de Pequim e Xangai entre os mais movimentados.

O regulador estima ainda que aproximadamente 139 mil voos irão operar no país entre 01 e 08 de Outubro, com um aumento de 4,9 por cento nos voos domésticos e de 11,9 por cento nos voos internacionais em comparação com 2024, de acordo com dados citados pela televisão estatal chinesa CCTV.

A época alta turística trouxe um aumento, por vezes de até dez vezes, nas tarifas dos hotéis, de acordo com as redes sociais chinesas. O advogado Wang Duo, citado pela CCTV, pediu que “as empresas que cometam violações, como aumentos maliciosos de preços, sejam denunciadas publicamente” para “dissuadir eficazmente as empresas de aumentos arbitrários de preços”.

De acordo com a Administração Nacional de Imigração, o fluxo de pessoas que atravessam as fronteiras da China ultrapassará os dois milhões por dia durante o período de férias, com picos no dia 01 e em 06 de outubro.

Dados das plataformas de reservas citados pelos meios de comunicação locais mostram que o Japão, Hong Kong, Tailândia, Malásia, Coreia do Sul, Vietname, Indonésia, Singapura, Estados Unidos e Austrália estão entre os principais destinos para os turistas da China continental.

No sudeste asiático, o Vietname, a Malásia e a Indonésia destacam-se pelo forte aumento das reservas, enquanto no Japão, o interesse por cidades como Kobe e Fukuoka está a crescer em relação às tradicionais Tóquio ou Osaka. Em locais como Da Nang (Vietname) e Kota Kinabalu (Malásia), as reservas de hotéis por parte de visitantes chineses mais do que quadruplicaram em relação ao ano passado, segundo a imprensa local.

A coincidência do feriado nacional deste ano com o Festival do Bolo Lunar – que varia com o calendário lunar e em 2025 se celebra a 06 de Outubro – alargou a ‘semana dourada’ para oito dias.

Hotelaria | Taxa de ocupação média de 93 por cento em Agosto

Os hotéis de Macau receberam mais de 1,3 milhões de hóspedes ao Agosto, registando uma taxa de ocupação média de 92,9 por cento, segundo dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) na passada terça-feira.

Em termos anuais, a ocupação média dos quartos aumentou 1,5 pontos percentuais, e o número de hóspedes aumentou 3 por cento. Esta discrepância ficou-se a dever ao aumento de quartos disponíveis no período em análise pelos 147 estabelecimentos hoteleiros.

A DSEC salienta que a taxa de ocupação dos hotéis de 5 estrelas (95,7 por cento) e a dos hotéis de 4 estrelas (88,2 por cento) subiram 2,2 e 1,6 pontos percentuais, respectivamente, ao passo que a dos hotéis de 3 estrelas (89,9 por cento) diminuiu 0,9 pontos percentuais.

O número de hóspedes do Interior da China (991.000) ascendeu 2,4 por cento, relativamente a Agosto do ano anterior e o de hóspedes internacionais (87.000) aumentou 20,3 por cento. A DSEC destaca que o número de hóspedes da Tailândia (8.000) registou uma subida homóloga de 157,7 por cento.

Jogo | Receitas sobem 6% em Setembro apesar de super tufão

As receitas dos casinos de Macau subiram em Setembro 6 por cento em comparação com igual período de 2024, apesar do encerramento temporário devido ao super tufão Ragasa. Ainda assim, o mês passado foi o segundo mais fraco deste ano

 

O sector do jogo arrecadou 18,3 mil milhões de patacas no mês passado, mais 6 por cento face a Setembro do ano passado. O registo representou o segundo valor mensal mais baixo de 2025, revelou a Direcção de Inspeção e Coordenação de Jogos (DICJ) de Macau.

Ainda assim, as receitas aumentaram em termos anuais, apesar da passagem do Ragasa, que levou as autoridades da região semiautónoma chinesa a encerrarem os casinos durante 33 horas. As operadoras terão perdido 880 milhões de patacas em receitas, quase 5 por cento do previsto para Setembro, estimou Jeffrey Kiang, analista da consultora CLSA, citado pelo portal de notícias GGRAsia.

O valor registado em Setembro representa 82,8 por cento do atingido no mesmo mês de 2019, quando os casinos de Macau tiveram receitas de 22,1 mil milhões de patacas.

Em relação ao mês anterior, os casinos de território amealharam menos 17,5 por cento de receitas brutas. Porém, é de referir que em Agosto deste ano, a indústria do jogo de Macau registou a melhor performance mensal deste Janeiro de 2020, com receitas brutas a rondar 22,16 mil milhões de patacas.

Visão alargada

Em termos de receita bruta acumulada, os primeiros nove meses de 2025 registaram um aumento de 7,1 por cento em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo 181,3 mil milhões de patacas. Recorde-se que Macau fechou 2024 com receitas totais de 226,8 mil milhões de patacas, mais 23,9 por cento do que no ano anterior.

O Governo de Macau previu, no orçamento inicial para 2025, que o ano iria fechar com receitas totais de 240 mil milhões de patacas, o que representaria um aumento de 6 por cento em comparação com o ano passado. Mas, em 11 de Junho, a Assembleia Legislativa aprovou um novo orçamento, proposto pelo Executivo, que reduz em 4,56 mil milhões de patacas a previsão para as receitas públicas.

O secretário para a Economia e Finanças, Anton Tai Kin Ip, admitiu aos deputados que o corte se deve ao facto de as receitas brutas do jogo no primeiro trimestre de 2025 terem “ficado ligeiramente abaixo do previsto”.

“Matmo” | Sinal 1 de tempestade emitido entre hoje e amanhã

Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) vão içar, entre a noite de hoje e o início da manhã de amanhã, sábado, o sinal 1 de tempestade tropical, tendo em conta a aproximação da depressão tropical “Matmo”, situada a leste das Filipinas, que se intensificou e, entretanto, passou à categoria de ciclone tropical.

O içar do sinal 1 de tempestade está relacionado com o facto de o “Matmo” ficar a um raio de 800 quilómetros de Macau, devendo deslocar-se em direcção às áreas entre a costa oeste de Guangdong e a ilha de Hainan. No domingo o “Matmo” estará mais próximo de Macau, resultando na “intensificação significativa dos ventos na região, acompanhada de aguaceiros fortes e frequentes”.

Cultura | Coutinho denuncia falta de transparência em financiamentos

Pereira Coutinho revelou na quarta-feira ter recebido “muitas queixas de jovens empresários apontando para a falta de transparência do Instituto Cultural e do Fundo de Desenvolvimento Cultural”.

Numa publicação no Facebook, o deputado indica que os problemas se verificam ao nível da “concessão de financiamento de projectos ao abrigo do Fundo de Desenvolvimento Cultural (FDC) que há muito tempo tem estado a ser monopolizada por três a cinco entidades particulares”.

Coutinho realça que em Agosto de 2023 escreveu uma interpelação a pedir transparência para o processo de concessão de financiamento, incluindo “informação detalhada dos membros e peritos das várias Comissões de Avaliação de Actividades e Projectos do FDC”, de forma a filtrar eventuais conflitos de interesse. Porém, o deputado considera que “lamentavelmente, a situação não tem melhorado”, e que irá “continuar a acompanhar a questão na Assembleia Legislativa”.

Trabalho | Joey Lao quer subsídios para o primeiro emprego

O deputado eleito Joey Lao defende que o Governo deve lançar um subsídio mensal destinado às empresas para financiar salários de jovens contratados para o primeiro emprego. O responsável entende que desta forma os empregadores serão incentivados a recrutar recém-licenciados.

A posição foi tomada no programa matinal Fórum Macau do canal chinês da Rádio Macau da quarta-feira, em que participaram os candidatos eleitos de Jiangmen à Assembleia Legislativa. “Quando o Governo apoia jovens para trabalharem na Grande Baía, atribui-lhes subsídios de 5 mil patacas por mês, porque é que estas cinco mil patacas não podem subsidiar trabalhos em Macau?

Se o Governo estiver disposto a subsidiar os empregadores para recrutarem recém-licenciados, estes terão mais vontade de contratar. Imaginem recém-licenciados com salários mensais de 13 mil patacas. O Governo subsidia 5 mil e os empregadores só precisam de pagar 8 mil patacas. Deve resolver o problema do desemprego jovem,” acrescentou.

Tráfico humano | Governo em “forte oposição” a relatório norte-americano

O Governo da RAEM voltou a reagir com repúdio a um relatório do Departamento de Estado da Administração Trump, desta vez sobre tráfico humano. O documento salienta que desde 2021 não houve condenações de traficantes, enquanto o Executivo denuncia preconceitos e “interferência grave e expressa nos assuntos internos da RAEM”

 

“Este ‘relatório’ denegriu a RAEM e contém afirmações difamatórias e arbitrárias relativas aos frutos notáveis obtidos pela RAEM, pelo que o mesmo não tem nenhuma credibilidade. Os EUA têm elaborado, ano após ano, relatórios com informações falsas relativas às questões de tráfico de pessoas, numa tentativa de lançar a confusão na sociedade internacional, constituindo uma interferência grave e expressa nos assuntos internos da RAEM. Por estas razões, as autoridades de segurança repudiam veementemente este “relatório” e demonstram fortemente a sua insatisfação”. Foi desta forma que o Governo de Sam Hou Fai reagiu a mais um relatório elaborado pelo Departamento de Estado norte-americano sobre tráfico humano, publicado na segunda-feira.

A forte oposição do Executivo local foi tornada pública na terça-feira ao fim do dia, com o Governo a referir que o documento “está repleto de preconceitos políticos e juízos subjectivos, além de ignorar os factos objectivos”.

O facto, evidenciado pelo departamento liderado por Marco Rubio, de que Macau raramente condena suspeitos envolvidos em tráfico humano, ou identifica vítimas, é justificado pelos “esforços conjuntos” do Governo e da sociedade de Macau. “Os crimes relacionados com o tráfico de pessoas têm sempre registado uma baixa percentagem ou uma percentagem quase nula, o que demonstra que Macau é uma das cidades mais seguras do mundo”, realça o Governo.

O valor da palavra

O organismo que pertence à Administração Trump reconhece que o Governo de Macau “deu alguns passos para combater o tráfico humano, nomeadamente investigando um potencial caso, treinando pessoal e organizando seminários em escolas para aumentar a consciencialização para o tema”. Porém, “os esforços gerais de aplicação da lei contra o tráfico e de protecção às vítimas continuaram inadequados”, é indicado.

O relatório destaca também que as autoridades da RAEM consideraram no passado que o consentimento inicial da vítima ou a sua “associação voluntária” com um traficante constituíam provas suficientes para demonstrar que não tinha ocorrido um crime de tráfico”. Essa postura, segundo o Departamento de Estado, faz com que as autoridades tratem os casos de tráfico como outros crimes e enfraquece os esforços de identificação das vítimas.

São também realçados relatos de observadores que apontaram a falta de legislação abrangente contra o tráfico na China afectou negativamente a capacidade das autoridades de Macau de conduzir operações conjuntas, algo que provocou um “impacto desproporcional” no combate ao tráfico humano, uma vez que as “vítimas exploradas em Macau eram predominantemente do Interior da China”.

Táxis | 100 viaturas começam a operar em 2026

A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) assegura que uma centena de táxis regulares deverão começar a operar no mercado, “o mais tardar, no segundo trimestre de 2026”. Este concurso público decorreu tendo em conta o fim do contrato, à meia-noite de terça-feira, 30 de Setembro, do fim do contrato dos chamados “táxis azuis”, com a Indústria de Transportes de Passageiros em Táxis Especiais.

Numa nota, a DSAT esclarece que há ainda 200 “táxis vermelhos” a circular, bem como os “táxis pretos”, num total de 1.400 viaturas disponíveis no mercado. A DSAT destaca ainda que “estão em curso os preparativos para uma nova ronda de concurso público para a atribuição de licenças de táxi, com o objectivo de aumentar rapidamente o número de táxis disponíveis e reforçar as exigências para que haja táxis acessíveis”.

A DSAT diz que, dos 200 condutores dos “táxis azuis”, “cerca de 70 por cento foram reaproveitados pela companhia para conduzir os ’táxis vermelhos'”, sendo que os restantes “manifestaram intenção de continuar no sector dos táxis, mudar para outras áreas do sector de transportes ou proceder à reconversão profissional”.

Administração | Johnson Ian defende nova mentalidade

O ex-candidato à Assembleia Legislativa, Johnson Ian, defende que o principal problema da Administração Pública não vai ser resolvido com a reforma governamental. Numa opinião publicada no jornal Son Pou, o candidato excluído das eleições considerou mais importante adoptar uma nova mentalidade, virada para a qualidade dos serviços e para a autodisciplina, de forma a responder às necessidades da população.

Sobre as mudanças recentes no Governo, Ian afirmou que foi a primeira vez que este tipo de remodelação aconteceu em 26 anos da RAEM, após a transferência da soberania.

Contudo, o ex-número dois da lista encabeçada pelo deputado Ron Lam apontou que as mudanças serão em vão, se o Governo não souber responder às expectativas sociais, responsabilizar os governantes pelas suas acções, ouvir as consultas públicas e utilizar bem o erário público.

Ian abordou também as notícias que sobre a fusão dos institutos Cultural e do Desporto. O ex-jornalista considerou que há anos que a redução da máquina administrativa é um objectivo comum aos governos, mas que não tem sido alcançado.

Portugal | Sam Hou Fai visita deverá acontecer até Junho do próximo ano

O Chefe do Executivo destacou que a visita oficial a Portugal é “bastante importante” para o desenvolvimento de Macau, e que tem esperanças que a deslocação aconteça logo no início de 2026

 

O Chefe do Executivo prevê realizar a visita oficial a Portugal na primeira metade do próximo ano, depois do adiamento de Setembro. A meta temporal foi traçada na quarta-feira, à margem das cerimónias do 76.º aniversário da implantação da República Popular da China.

“Eu tenho comunicado com o Primeiro-Ministro Montenegro, e quando ele veio a Macau disse-lhe que o meu desejo era que a minha primeira visita ao exterior fosse a Portugal”, afirmou Sam Hou Fai, de acordo com o Canal Macau. “Agora estamos a preparar as novas Linhas de Acção Governativa, mas, espero que a visita possa ser realizada no princípio do próximo ano. Só depois é que vamos planear as visitas aos outros países”, acrescentou.

As Linhas de Acção Governativa deverão ser apresentadas na Assembleia Legislativa a partir de Novembro, até Dezembro, e constituem o plano de governação para o próximo ano.

O Chefe do Executivo destacou ainda a importância da visita para a RAEM, por considerar que é uma forma de promover o desenvolvimento. “[A viagem] é de uma acção bastante importante para o nosso desenvolvimento e estou convicto que se possa realizar no primeiro semestre do próximo ano”, vincou.

Visita adiada

Inicialmente, a visita oficial de Sam Hou Fai a Portugal, que incluía uma passagem por Espanha, estava agendada para o período entre 16 e 23 de Setembro.

Todavia, a poucos dias da deslocação, o Executivo anunciou o adiamento, sem que tivesse sido avançada uma justificação oficial ou uma nova data. “A visita foi adiada e não há ainda data de quando será realizada”, afirmou na altura fonte do Gabinete de Comunicação Social (GCS), citada pela Agência Lusa.

No entanto, o jornal Plataforma revelou que o adiamento da deslocação terá estado relacionado com a agenda do Primeiro-Ministro de Portugal. Entre 9 e 12 de Setembro, Luís Montenegro realizou uma visita à China e ao Japão, e o programa do itinerário no país nipónico terá levado as autoridades portuguesas a considerar que seria mais oportuno receber o líder do Governo de Macau noutra ocasião.

No entanto, quando se deslocou a Macau, entre 9 e 10 de Setembro, Luís Montenegro foi recebido por Sam Hou Fai, num encontro que decorreu à porta fechada na sede do Governo. Caso a visita não tivesse sido adiada, os dois teriam realizado dois encontros em pouco mais de uma semana.

AL | André Cheong promete utilizar experiência para maior ligação com Governo

O futuro deputado André Cheong prometeu utilizar a sua experiência para implementar uma “interacção benéfica” entre o poder Executivo e o Legislativo.

As promessas foram deixadas à margem das celebrações do dia nacional. “Vou utilizar a minha experiência para promover a interacção benéfica entre o Executivo e o Legislativo, contribuindo assim para os trabalhos da Assembleia Legislativa”, afirmou André Cheong.

Por outro lado, o ainda secretário afirmou que irá contribuir para o hemiciclo, independentemente de ser nomeado presidente da Assembleia Legislativa: “O presidente da Assembleia da Legislativa vai ser eleito entre os deputados. Qualquer que seja o lugar que vou assumir, vou dar o meu melhor contributo”, destacou. O secretário revelou ainda que com a nomeação para a AL vai deixar a posição no Conselho Executivo, em que é membro e porta-voz, e na comissão de desenvolvimento da Zona de Cooperação Aprofundada.

Administração | Wong vai seguir os objectivos do antecessor

Após assumir a pasta da Administração e Justiça, a partir de 16 de Outubro, Wong Sio Chak prometeu seguir as prioridades definidas pelo antecessor, André Cheong.

“O secretário André Cheong já definiu claramente as medidas das próximas linhas de acção governativa. Portanto, em primeiro lugar, vou impulsionar estas orientações e metas definidas pelo secretário André Cheong”, afirmou Wong Sio Chak, na quarta-feira, em declarações aos jornalistas.

“Entre as prioridades está a reestruturação, com o objectivo de simplificar a Administração. Depois queremos elevar a capacidade dos funcionários públicos. Espero que possam ser lançadas medidas nesse sentido. O aumento da eficiência da Administração também é prioridade para o futuro”, acrescentou.

Segurança | Chan Tsz King confiante antes de assumir pasta

O Procurador da RAEM e futuro secretário para a Segurança, Chan Tsz King, está confiante nas suas capacidades para assumir a nova posição. “De facto, o Ministério Público e a Segurança têm trabalhos semelhantes. Ambos têm a responsabilidade de assegurar a estabilidade e ordem social.

Temos de colaborar e cooperar permanentemente. Os trabalhos destinam-se sempre a assegurar a estabilidade social”, afirmou Chan, citado pelo Canal Macau. “Estou confiante que me vou adaptar e integrar rapidamente na equipa da pasta da Segurança, dados os vários anos de experiência que acumulei no Ministério Público, no Comissariado Contra a Corrupção, bem como na cooperação com os colegas”, acrescentou.

Remodelação | Sam Hou Fai defende mais cooperação com AL

O Chefe do Executivo justificou a nomeação do ainda secretário André Cheong como deputado, com a necessidade de implementar “uma maior comunicação” entre o órgão Executivo e Legislativo e “responder às expectativas da sociedade”

 

Sam Hou Fai explicou a nomeação como deputado do ainda secretário para a Administração e Justiça, André Cheong, com a necessidade de aumentar a comunicação entre o Executivo e a Assembleia Legislativa. As justificações foram apresentadas na quarta-feira, à margem da cerimónia oficial de comemoração do 76.º da implantação da República Popular da China.

“Um dos pontos importantes na minha ponderação, foi promover no futuro uma maior cooperação entre o órgão executivo e legislativo, para que também haja uma maior comunicação para responder às expectativas da sociedade”, afirmou Sam, citado pelo Canal Macau.

“O órgão legislativo tem a competência de legislar, mas também de inspeccionar e supervisionar o Governo. Ao longo deste ano tenho reparado que todos esperam que os órgãos administrativos e legislativos possam não só cumprir as suas competências, mas também que tenham uma comunicação e cooperação mútua”, acrescentou.

De acordo com a remodelação do Governo apresentada no início da semana, a partir de 16 de Outubro, André Cheong vai passar a ser deputado. O seu cargo vai ser ocupado por Wong Sio Chak, que era até agora o secretário para a Segurança. Ao mesmo tempo, Chan Tsz King, Procurador da RAEM, vai passar a liderar a tutela da segurança.

Reforço da cooperação

Momentos antes das declarações aos jornalistas, Sam Hou Fai tinha abordado as alterações ao nível da nomeação dos deputados no discurso da cerimónia. O líder do Governo afirmou estar a adoptar “uma abordagem inovadora e uma determinação reformista” para “reforçar o exercício […] das funções dos órgãos administrativo, legislativo e judicial” e “aprofundar a sua interacção construtiva, em prol da criação de um ambiente mais favorável às reformas e desenvolvimento de Macau”. O Chefe do Executivo sublinhou ainda que Macau tem um regime político “com predominância do poder executivo”.

As declarações fizeram eco do discurso na Assembleia Legislativa, em Maio deste ano, de Xia Baolong, director do Gabinete das Autoridades Centrais para os Assuntos de Hong Kong, que defendeu uma maior cooperação entre a Assembleia Legislativa e a Administração, dada a predominância do poder Executivo.

Xia também afirmou na altura que a relação entre o poder Executivo e Legislativo não pode ser entendida da mesma forma que o Ocidente interpreta a separação de poderes.

Linguística | Publicado estudo baseado numa viagem a Macau no século XIX

A académica Anabela Leal de Barros acaba de publicar um estudo linguístico que incide sobre a viagem do padre Miranda e Oliveira, ligado à Congregação da Missão, a Macau em 1825. Com laivos de história, são revelados detalhes sobre o português da época e de Macau. O livro será apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau na próxima quarta-feira

 

“Viagem de Lisboa para Macau – 1825” é o título da mais recente obra editada pela Grão-Falar, da autoria da académica da Universidade de Minho Anabela Leal de Barros.

O livro faz uma análise crítica e interpretativa ao português da época deixado no manuscrito do pároco José Joaquim de Miranda e Oliveira, sacerdote da Congregação da Missão. Esta documentação está à guarda do Arquivo Distrital de Braga. Porém, a obra não desbrava apenas o português da época, revelando outros detalhes históricos de Macau, da Ásia e de uma viagem marítima.

Segundo contou Anabela Leal de Barros ao HM, a obra é “o mais fiel possível à ortografia do manuscrito”, até à data praticamente desconhecido.

Neste diário de viagem, o padre Miranda e Oliveira “revela enorme curiosidade diante de todas as novidades e vai partilhando connosco os seus nomes nas línguas do mundo que as baptizaram, começando pela nossa”.

É dessa forma que explica situações como “o enjoo marítimo, realidade ainda relativamente desconhecida e fortemente invasiva nas embarcações”, naqueles tempos. O padre nomeou ou definiu “os mangalhões, as toninhas, as caravelas, os feijões-frades, os voadores, as albacoras — toda a sorte de aves e de peixes que ao longo da viagem se admirou, pescou ou provou”, ou ainda os “fenómenos meteorológicos com os nomes locais – cacimba, samatra, tufão”. Há também detalhes sobre os “hábitos culturais como a masca, buio em indonésio; às seges filipinas, os berloches, e à classe dominante dos camisolas, bem como às sômas, embarcações chinesas”.

A embarcação partiu de Lisboa em Abril de 1825 e demorou-se nas Filipinas, chegando a Macau a 23 de Outubro. Descreve-se a chegada “à ilha de Caó” e no dia seguinte “ao Colégio de S. José”, a “uma cidade com ‘um magnífico porto de comércio’, situada ‘em uma península assaz agradável’, com ‘boas águas’ e ‘famosos edifícios à europeia'”.

Variedades linguísticas

Na obra editada pela Grão-Falar há, por exemplo, “histórias ricas como a das Orvalhadas de S. João, do Caldeirão de Frei Junípero ou do hábito de os mareantes gritarem ‘Refresca S. Lourenço!’ para que o vento sopre, sendo esse o significado aqui de ‘refrescar'”.

Há também “alusões à própria variedade linguística”, pois “em vários momentos se refere a comunicação com estrangeiros feita em latim, em território indonésio-holandês e filipino-espanhol; o ensino particular do inglês nas Filipinas por membros da Congregação da Missão; o pouco conhecimento e uso do espanhol, mesmo em Manila, e a variação do próprio tagalo, língua em que o sacerdote se preocupa em deixar registada a Ave-Maria”.

Antes de chegar a este relato de viagem, Anabela Leal de Barros já andava nos meandros da investigação deste tipo de manuscritos, deparando-se com a história de outro sacerdote, “o maior sinólogo português, Joaquim Afonso Gonçalves, que viajara da mesma casa de Rilhafoles da Congregação da Missão para Macau em 1812”.

Segundo a autora, este pároco “dedicou os últimos vinte e nove anos da sua vida à missão de evangelização na China, e em particular à investigação e ensino do chinês no Colégio de S. José em Macau”. Em toda a sua vida, “este transmontano escreveu mais de cinco mil páginas de gramáticas e dicionários em português, latim e chinês, expressamente dedicados aos seus alunos do Colégio, sete impressos na sua tipografia e pelos menos dois manuscritos”.

Depois, em 2017, António Lázaro, do Departamento de História da Universidade do Minho, e director do Instituto Confúcio, disponibilizou a Anabela Leal de Barros “uma lista de referências a manuscritos do Arquivo Distrital de Braga sobre Macau e a China”. Iniciou-se, então, uma “viagem” que culminou na edição deste estudo.

“Este livro é o primeiro fruto de um projecto meu de edição e estudo de manuscritos inéditos de literatura de viagens cujo objectivo principal é exactamente esse: contribuir para a valorização e consolidação da micro-história dos Descobrimentos e da memória da história, entre os séculos XV-XIX”.

Acompanhado em viagem

José Joaquim de Miranda e Oliveira demorou cerca de sete meses a chegar a Macau, partindo de Lisboa a 1 de Abril de 1825, e chegando a Oriente a 24 de Outubro do mesmo ano. Partiu no navio Vasco da Gama com mais três padres da congregação: João da França de Castro e Moura, Jerónimo José da Mata e José́ Ferreira da Silva.

Segundo Anabela Leal de Barros, “o manuscrito não parece ter sido passado a limpo pelo próprio autor, atendendo ao tipo de variação ortográfica e de gralhas e emendas que apresenta”, tendo sido, provavelmente, “trasladado, para salvaguarda de cópias, por algum membro macaense do Colégio, já que o português de Macau, no século XIX, tinha características compatíveis com certos traços, estranhos num sacerdote chegado de Portugal, ainda que jovem”.

Este diário de viagem “termina no próprio dia da chegada a Macau, com a brevíssima apresentação da cidade e do colégio, ficando já clara a perspectiva católica da época diante do culto chinês dos antepassados e sem se deixar de chamar a atenção para os meros cinco mil cristãos no conjunto dos 40 a 50 mil habitantes da cidade”.

Hostilidades políticas

José Joaquim de Miranda e Oliveira descreve como o bispo de Macau não recebeu a comitiva, o que é “suficiente para nos conduzir ao contexto hostil em que se achavam os lazaristas, defensores do liberalismo, o que levara Joaquim Afonso Gonçalves, poucos anos antes, a refugiar-se nas Filipinas, tendo o colégio ficado desfalcado de dois dos seus mestres”.

Além disso, “ao longo da viagem o sacerdote não deixa de narrar todos os momentos em que vai realizando a sua missão diária, com a administração dos sacramentos, a reza de responsos e a celebração de missas, mas sobretudo regista a notável falta de sacerdotes que revelam os povos cristianizados, em particular em Batávia, actual Jacarta, onde a comunidade de origem portuguesa, de mais de um milhar de pessoas, contava apenas com um velho padre”.

Nestes relatos revela-se ainda a preocupação de “recordar os primeiros mártires franceses da Congregação na tentativa de evangelização de Madagáscar e de relatar a presença de frades e padres das diversas congregações, de Cabo-Verde às Filipinas, onde estes são reconhecidos como mais importantes para a solidez do domínio espanhol do que o seu exército”.

Segundo Anabela Leal de Barros, o relato aludiu também, em Java, “aos luteranos e maometanos, bem como às religiões da China e, em Manila, à perseguição dos cristãos (referindo o ‘jantar’, ou seja, almoço com um chinês cristão, ‘e como tal perseguido’)”.

Miranda e Oliveira terá tido “uma conduta muito diplomática e convivial, assegurando o estabelecimento e manutenção de relações cordiais entre as várias ordens e igualmente com os governadores e potências estrangeiras em presença, dos holandeses aos espanhóis, que visitam em todas as paragens”.

Um projecto em curso

Nestes anos, era uma aventura perigosa viajar de barco, enfrentando-se “os povos antropófagos, a pirataria, as doenças dos embarcadiços e as epidemias”, uma “visão perfeitamente cinematográfica” já descrita n’Os Lusíadas, de Luís de Camões. Quem embarcava nestas viagens também se via só, “individualmente e num pequeno navio pouco mais que uma casca de noz, diante de um mar infindo, durante meses, em tempos nos quais era comum vários passageiros não chegarem ao destino, ou não regressar sequer um navio de uma esquadra completa”.

No relato de Miranda e Oliveira “não há grandes novidades” face a relatos anteriores, mas “somos inteirados das principais dificuldades das viagem marítima para a Ásia no século XIX: as pedras existentes ainda antes da Torre de Belém, que causavam não poucos naufrágios; e o enjoo, que merece mesmo definição para os muitos leitores que nunca haviam posto os pés num barco, e a propósito do qual se refere a facécia do capitão aconselhando as senhoras enjoadas a subir à tolda e a trabalhar, por ser o melhor remédio”.

Há ainda “o episódio do homem caído ao mar da charrua que os acompanhou em parte da viagem, que não conseguiram salvar — uma morte a que todos estavam tão expostos, como refere o narrador”. Destaca-se também outra potencial peripécia em viagens deste tipo, “o encontro com navios que, não hasteando de imediato qualquer bandeira, ou hasteando-a sem dar confiança de verdadeira, conduziam imediatamente à decisão de acender os morrões e abrir fogo, o que bem traduz a dimensão da pirataria e os receios que impunha”.

Essencialmente, “a personagem principal das viagens marítimas era o vento”, o que levou o ainda “jovem sacerdote” a “evocar por duas vezes os versos camonianos da tempestade”.

Depois da chegada a Macau, Miranda e Oliveira partiu para o seu posto em Nanquim, “numa viagem comparativamente mais demorada que a primeira, recebido pelos cristãos a custo e secretamente”. “Diante de perseguições” acaba por sucumbir “aos perigos e enfermidades da terra firme, aos 31 anos, longe de todos os seus confrades, logo a 1 de Novembro de 1828, apenas dois anos depois de ter descrito a difícil despedida da sua família espiritual, em Lisboa”. “Tiveram mais longevidade os seus companheiros de viagem, um dos quais viria a ser Bispo de Macau e o outro, de Pequim e do Porto”, destaca Anabela Leal de Barros.

Filipinas | Número de mortos pelo tufão Bualoi sobe para 24

Pelo menos 24 pessoas morreram na passagem do tufão Bualoi pela região central das Filipinas durante o fim de semana, declarou ontem um responsável da Protecção Civil filipina.

O director-adjunto da Protecção Civil das Filipinas, Rafaelito Alejandro, disse que o tufão matou 10 pessoas na província de Biliran, nove na província de Masbate, quatro na província de Samar e uma na província de Leyte do Sul. A maioria morreu afogada ou foi atingida por destroços, acrescentou Alejandro. As autoridades indicaram 11 mortos no balanço anterior.

Depois de passar pelas Filipinas, o tufão chegou no domingo ao Vietname, onde pelo menos 11 pessoas morreram e milhares de edifícios ficaram danificados ou destruídos, declararam ontem as autoridades locais. A tempestade — a décima a atingir o Vietname este ano — atingiu o país na noite de domingo, gerando ventos de 130 quilómetros por hora.

Mais de 53 mil pessoas foram levadas para escolas e centros médicos convertidos em abrigos temporários antes de o Bualoi atingir o Vietname, segundo o ministério. Quatro aeroportos domésticos e parte da autoestrada nacional foram ontem encerrados. Mais de 180 voos foram cancelados ou atrasados, anunciaram as autoridades aeroportuárias.