Cinzas

Quem é este? Ele chama-se Devorador de Milhões, quando está
na colina de Unet.
se alguém o percorre, que se acautele para não cair sobre as facas!
Ele chama-se o Violento, é o guarda da porta do Ocidente.
in Livro dos Mortos do Antigo Egipto

 

E a morte terá por fim o seu domínio sobrepondo-se ao abandono a que tentámos reduzi-la. Um tempo que a disfarçou em emaranhados silêncios, encruzilhadas que a subestimaram com os depósitos excrementícios da novela de má qualidade das vidas, que ela, mesmo empilhada, incinerada, esquecida e escondida, é a mais precisa das fontes, que a seu lado, toda a expansão se reduz a uma gigantesca avaria mecânica. Mas sim, a morte é sempre triste, a condição é trágica, a vida demasiado curta para contemplar tanto definitivo, mas impressionantemente há coisas piores, como o não saber lidar com ela por não haver vida que se consinta a ser vivida, só existida, assistida… estamos em viagem de cruzeiro esquecendo por completo a Barca. São os tempos em que as crianças nunca foram a um enterro e queremos delas sempre outras coisas e mais, por isso as doutrinamos ao ponto da sujeição, da utilização, em aglomerados de insanidade sempre com temor injectado nas veias para o caso de perguntarem algum dia por aquelas coisas essenciais. Uma sociedade de argumentistas saberá a um tempo ponderar a propósito daquilo que a diminui face ao corpo vital das provas, por isso se reveste de uma higiene que a imortalize e de uma segurança que lhe permita um certo elo de perenidade.

E eis-nos no caminho mais temível que é o do sorvedor das cinzas: quando nos tiram os corpos para as incenerações num lustral nazismo sem mácula que nos faz acreditar até em goelas necromânticas que se escondem mesmo por detrás das câmaras de extinção. Esperamos acabrunhados para que tudo esteja reduzido a pó, e que a natureza emocional de cada um impluda para níveis de relativismo programado. Tudo isto é tido como uma prática normal e desejável para a não expansão de corpos na Terra por decomposição em profundida, ela, que continua cada vez mais pequena para um enxame de gentes cuja felicidade as espera logo ali ao virar da esquina. E as pobres pessoas bem-intencionadas lá andam a acompanhar o vazio ardente de um momento que se evapora mas também lhes inspira alguns súbitos galanteios à vida. Toda a litania fúnebre se desfaz, e as carpideiras, esses abençoados seres que evocavam o tamanho da nossa dor, tão esquecidas foram que se inverteram os cânticos. A morte não gosta disto, e como tal, foi precipitando a nossa demanda, temos só números e poucas vozes por parte daqueles por ela visitados, o que faz ultrapassar em muito o que é expectável. – Sem querer entrámos no domínio da Besta com a plumagem de lindos Cordeiros, amigos de Lobos, em marcha para a liquidação total.

Das cinzas, alguns já fizeram anéis para continuarem com os seus defuntos entre os dedos, e algumas ainda foram espalhadas pelas reservas dos vivos, debaixo das árvores, ou em torrões de açúcar embalsamados com lúgubres indicações por cima, isto dá-se naquele reino da desflorestação em série e no domínio anatómico da sexualidade intrusiva, e nesse fim de mundo de grande superficialidade, abrir uma cova tornou-se um esforço de tal ordem gigantesco que exige argumentos capazes de revirar as tripas do centro planetário. A diferença face ao nazismo primeiro é que não há aproveitamento comercial de outro material orgânico, muito embora o negócio da queima seja bastante lucrativo: a pira funerária está lá para não permitir que se ocupe espaço na terra- a terra- esse elemento abrasivo e lento que ao invés de nos ceder sempre nos resiste… terra, excrementícia anatomia cinzelada pelas nossas cinzas que até fará brilhar os caminhos vulcânicos.

O plano da organização da morte dita sempre a composição das leis sociais, ela acompanha o fluxo das circunstâncias, como o tempo da implantação dos cemitérios públicos a grande medida social das Luzes, democratizando-a e banindo pragas, hoje, é-nos filtrada pela desmesura negacionista e pela falta de um período chamado luto que nada mais é que a salutar época de saber integrar um processo doloroso. Ela surge-nos em muitos contextos pela culpa, relembrando-nos a todo o instante que o mundo está repleto de assassinos involuntários, ou não, mas nunca afirmando que se morreu. Falece, fenece … É! Para o que não se pode dizer todo o eufemismo serve até aos seus sinónimos. Por culpa ou não, nós sempre morremos, pois que somos mortais. Deve haver um culpado para tal condição?! Talvez… talvez não… e neste interregno construamos, isso sim, o direito a ter uma alma, intacta, firme, em altos voos, enquanto o corpo carregado de desamor se encaminhe para um espaço protector. Nesse invólucro habitou uma centelha imortal que não esquecerá a sua antiga casa, só que nesta habitação de poeiras corremos o risco de retrocesso até à primeira ovulação da Terra.

Bom lembrar aquilo que nos define como espécie, a noção do mistério da morte, e que os primeiros altares do mundo foram todos em seu nome. Naquelas pedras erguia-se uma certa evolução de que hoje tanto nos orgulhamos. Por isso, a não podemos esconder.

Só que
Tu
Subiste ao Céu
Atravessaste as águas celestes,
Estás associado às estrelas,
e na Barca te aclamamos.
23 Nov 2020

O meu cavalo chama-se Nietzsche

“Olhos de transeuntes da loucura: em vós desaguam os restantes olhares”
Paul Celan

Há um brilho no tempo que cega. A cintilação é-nos dirigida e nunca atinge o presente, segundo Agamben. E os amaldiçoados que não se deixam cegar pelas luzes do século só podem ver de longe. Do alto. Do Céu. Talvez por isso tenha gostado sempre do título Teorias do Céu. E roubo-o para este e outros textos que hão-de vir a trote e a galope de cavalo.

O ar fresco lava-me a cara, enquanto o passeio montado ganha asas. Posso gritar a plenos pulmões: obrigada Kant, doce inimigo de alguns. Deliro porque lhe roubei um enunciado tão belo. Que ousadia a minha!

Escorrego vertiginosamente no tempo. É urgente! Tenho de chegar precisamente às 15h a Konigsberg. Não posso deixar de rir. Parece um sonho, eu sei – mas, como sabemos, dos sonhos só é preciso despertar – desagrilhoar. Vou despedir-me do filósofo que libertou a razão de Deus, lançando a moral dele, daquele desavindo Deus, na experiência. Golpe baixo na metafísica — a bem do pensamento, o mal da vida! Como Bartleby, preferia não receber nenhuma moral prescrita por aquele Deus. Prefiro não o ter por companhia eterna.

Volto a ser arrastada para os céus. O movimento alado deixar-me-ia descansar? O mundo escureceria o suficiente para eu adormecer, sonhar, despertar de novo para ver melhor? E seria despertada por quem? Por Duchamp? Adorava! Contando que ele tivesse a infinita delicadeza de me olhar com aqueles olhos de águia embelezados de inteligência, e nos deliciássemos a comentar a forma pertinente como laminou e revolucionou o princípio do nosso século XX. Ou ser desperta por Marx, acusando-me de sonhar a história em vez de ter consciência dela! Se assim fosse, acatava. Como podia discordar do homem que criminalizou a burguesia por afogar o velho mundo nas “águas geladas do cálculo egoísta”? Como podia recusar um beijo ao homem que sonhou a simbolização igualitária e emancipatória? Sucumbiria perante as barbas, o cheiro a velho e passaria a noite a tentar perceber porque falhou o projecto comunista! Há quem diga que foi assassinado, o projecto. Onde estávamos todos, os que podiam ter feito alguma coisa? Lamentavelmente quando o modelo antropológico é fracturado, nem sempre conseguimos ser contemporâneos. A anomia resultante gera guerrilhas incalculáveis. E muitas vezes os fantasmas é que lutam sozinhos nestes campos de batalha onde elementos pregnantes, entre sangue e pranto, geram um mundo novo. Marx estava ciente da violência deste nascimento. O óbito do passado ficaria como fantasma resiliente pronto a atacar em qualquer momento em que os contemporâneos descansassem e fechassem os olhos. É preciso ser águia e falcão ao mesmo tempo. Ver sem qualquer miopia estéril. Ter o gesto tão afiado politicamente e preciso eticamente, como uma lâmina de bisturi para não falhar o compromisso contemporâneo com a ruptura. Não, não há descanso possível.

Levantamos voo de novo. Como Montesquieu, Nietzsche e tantos outros, é preciso aprender a ver montado nas estrelas. O meu olho esquerdo olha para trás, enquanto nos esgueiramos em força para a frente. O meu olho direito para a frente. Os dois, estrabicamente, convergem no presente. É um grande esforço atar estas duas órbitas, estes dois arquivos, um morto e um por viver, e dar-lhes, oximaramente, um sentido. Uma coisa é certa, na tarefa difícil do etnógrafo do presente, prefiro não fazer parte dos legisladores do pensamento e fixar-me nos estilhaços que fundam a crise, que estão ali por ligar, rematar, completar ou ser indiferente. A constelação que resulta de tudo isso é infixa, o referencial que a move é infixo. O verbo que a comanda é imprevisível. Instala-se um boomerang imparável, um caleidoscópio imparável, um ruminar imparável, como se mastigássemos o tempo e o regurgitássemos. Não é um caso de subjectividade, mas de urgência de “voltar a um presente em que jamais estivemos”.

O cavalo finalmente adormeceu. Imagino que sonha. Quando quiser partir desperto-o e peço-lhe que conte o seu sonho na língua da natureza a que ambos pertencemos. Estremece, coitado. Deito-me no seu dorso, não tanto para ter calor, mas para o sossegar. Não o quero ver sofrer. Entre as coisas do mundo, algumas merecem amor. Adormeci no seu colo. Sonhei com Nietzsche. Melhor, sonhei que o meu cavalo falava comigo intempestivamente, dizendo que a sua época padecia de um mal, “um defeito do qual justamente se orgulha”. E também que um tal Barthes iria dizer que “o contemporâneo é intempestivo” e não um momento cronológico da história. Bem me parecia que não podemos ensacar o tempo na eternidade linear porque ele não é objecto de domesticação. Como se estivesse num Western, o meu cavalo relincha, abre as asas de Pégaso e leva-me de volta ao mar. É bom sobrevoá-lo, cheirá-lo e fechar os olhos sob a plúmbea superfície, antes das rebeldes espumas esbranquiçadas anunciarem as grandes vagas e medonhos abysmos. Mesmo de longe sinto receio quando a superfície coesa e pacífica do oceano se altera, desenhando outro mapeamento e outro enredamento, porque não sei se o mundo é o mar que se agita ou o meu corpo que receia.

A veloz besta em que se tinha tornado a minha montada, não me permitia parar. Queria repousar deste desassossego, mas assalta-me um poema de Celan: “vejo tanta coisa de vós/ que não vejo mais / do que ver”, como se tivesse na bagagem um telescópio inoportuno que me libertasse do real pelo próprio acto de ver. Como uma Poeisis, o contemporâneo liberta-se da história, e enquadra o real onde os mortos “brotam e florescem” como modificadores de tempo em acontecimentos a-históricos. Dir-se-ia que o tempo morre no presente, por isso não se pode parar para olhá-lo frente-a-frente. É-se condenado a um olhar distante para assistir ao luto do tempo que se despede de outro tempo no próprio presente, numa kronostipia efervescente e desregrada. Neste desesperado exílio qualquer reflexo devolve ao olhar trágico do contemporâneo um requiem ao humanismo.

Somos agora um rosto informe, fractal à procura de um mundo que nos deseje e reconheça os sinais como a ama de Ulisses. Mas as minhas mãos, as minhas orelhas, os meus olhos, os meus pés desconfiam uns dos outros. Que rosto é aquele que olha fixamente os fantasmas do tempo que refulgem no presente? Que reclama pelo não vivido ainda? Que se materializa no que está por acontecer? Que olhos são aqueles que são capazes de mergulhar o olhar nas trevas do presente? Na dor, na lancinante dor? É esta a almejada condição de ser contemporânea?

19 Fev 2020

Astronomia | Ver o que este céu não mostra

É um convite para uma viagem. A astrónoma Tânia Sales Marques está na sexta-feira no Centro de Ciência de Macau para explicar de que é feito este céu. A luz excessiva da cidade não deixa ver as estrelas, mas elas estão lá para serem vistas no planetário
Tânia Sales Marques

Quando Tânia Sales Marques decidiu ser astrónoma, já não era possível ver estrelas em Macau. Mas o céu era limpo em Coloane – “nas montanhas”, como dizia em miúda. O Cotai era um istmo e estava longe de se mascarar de luzes. Tânia Sales Marques interrogava-se sobre o que estaria no céu, que estrelas eram aquelas, de que seriam feitas.

É esta curiosidade que a astrónoma pretende despertar em quem for, na próxima sexta-feira, ao planetário do Centro de Ciência de Macau. De passagem pelo território, Tânia Sales Marques foi convidada para uma apresentação do céu de Macau, em moldes semelhantes aos dos shows que faz em Londres.

Trata-se de uma oportunidade única para quem se interesse por astronomia ou simplesmente para aqueles que nunca foram ao planetário de Macau. As apresentações que decorrem no Centro de Ciência são feitas em chinês; a astrónoma vai mostrar o céu de Macau em inglês. A apresentação será feita para o público em geral, sendo que as crianças são bem-vindas.

Ao HM, a astrónoma explica que vai usar o sistema digital do planetário – que “é muito bom” – para fazer uma apresentação do céu de Macau como estará na noite de 23 de Dezembro. “Começa com o céu e com o que é que se poderia ver se não houvesse poluição e as possíveis nuvens desse dia. Depois, vou levar o público a fazer uma viagem pelo espaço, em que falamos das coisas que estão lá, apesar de não as conseguirmos ver com os nossos olhos”, diz. Tânia Sales Marques vai falar das constelações e dos planetas, e da mitologia associada ao tema. A viagem termina com “conceitos mais cosmológicos”. “O que decidi fazer, para haver uma espécie de narrativa, foi ligar os objectos de que vou falar à sua história observacional. Vou fazer uma ligação às culturas e civilizações que descobriram ou observaram esses objectos”, diz.

“Não sou historiadora, nem antropóloga, mas a ideia é aproveitar o sistema digital que o planetário tem para mostrar coisas que não conseguiríamos ver num planetário mais tradicional, e relacionar esses objectos à nossa posição, de tempo e espaço, mas também ligá-lo à linha comum do Homem que é olhar para o céu, ver as estrelas e pensar no que é aquilo.”

CURIOSOS À NASCENÇA

Como é que se ensina a olhar para um céu que não se vê e querer saber-se mais sobre de que é feito? Tânia Sales Marques acredita que nasce- mos todos com vontade de perceber o que está acima de nós. Uma história bem contada pode ser o su ciente para despertar outro tipo de interesse, como aquele que a levou para uma universidade dos Estados Unidos para estudar astronomia.

“Hoje olho para o céu intuitivamente, mas a verdade é que os astrónomos amadores olham mais”, arma, fazendo referência às pessoas de Macau que, por exemplo, viajam até à China com os binóculos na mala a procura da escuridão. “Um astrónomo profissional acaba por se sentar em frente a um computador e vê números.”

“Espero que as pessoas, sobretudo as crianças, tenham vontade de explorar mais.”
TÂNIA SALES MARQUES, ASTRÓNOMA

A viver em Londres, Tânia Sales Marques conta que, “para manter a curiosidade” que a levou a escolher a profissão, começou a trabalhar no planetário da cidade. “Apresento shows para crianças e adultos. Londres acaba por ser um bocado como Macau: não tem tanta poluição de luz, mas o tempo faz com que não se consigam ver as estrelas.”

À semelhança do que vai fazer na sexta-feira, a apresentação no planetário londrino começa sempre com o céu em estado puro. “As pessoas sabem que é verdade, mas ao mesmo tempo não acreditam no que estão a ver, porque é um céu fantástico. E isto mostra que as pessoas continuam a manter a curiosidade, que é quase intuitiva, que faz parte do ser humano, de sentir uma certa ligação ao espaço mesmo que não o veja”, constata. “Saem dos espectáculos com vontade de saberem mais sobre astronomia em termos gerais.”

A experiência de Londres faz a astrónoma considerar que, na sexta-feira, terá uma boa oportunidade de “tentar tornar a ligação ao céu mais real”. “Espero que as pessoas, sobretudo as crianças, tenham vontade de explorar mais”, diz.

A apresentação de Tânia Sales Marques começa às 17 horas. A entrada é livre.

21 Dez 2016