Livros | “Sílaba” quer promover a leitura junto dos mais novos 

Com o objectivo de promover a leitura e o gosto pelos livros em língua portuguesa, Susana Diniz decidiu criar a Sílaba – Associação Educativa e Literária. Além dos clubes de leitura para os mais novos, estão a ser pensados passeios focados na história de Macau, entre outras actividades

 

Proprietária de uma empresa ligada à formação, ensino e tradução, Susana Diniz percebeu que não havia em Macau nenhum clube de leitura em português para os mais pequenos. De sessões em que se lê uma história, com a ajuda do personagem Diniz, para a criação de uma associação foi um passo. Nasceu, assim, em Dezembro, a Sílaba – Associação Educativa e Literária.

“Pretendemos ir um pouco mais além deste clube de leitura e estamos a pensar fazer um clube de cinema em português, chinês ou inglês, ainda não decidimos”, adiantou Susana Diniz ao HM. “Vamos também fazer workshops de escrita criativa e lançar um website, que ainda não está completo, e que irá ter um blogue onde os miúdos podem deixar os seus textos e imagens. Também já comunicámos com uma escola em Portugal para criarmos uma rede de pen friends, seja por carta ou por email”, acrescentou.

Apesar de esta ser uma associação que pretende ir “de encontro aos miúdos” e levar-lhe os livros, a “Sílaba” poderá ser também uma entidade de promoção de passeios que revelem pedaços da história de Macau.

“Temos algum contacto com miúdos que estão no ensino em português e que, por isso, aprendem história de Portugal. Mas há partes da história portuguesa em Macau que não conhecem, e vamos começar por aí. Vamos criar alguns passeios e temos dois peddy-papers desenhados para eles poderem participar.”

Trabalho informal

A criação de um clube de leitura surgiu depois de Susana Diniz ter percebido que as crianças com quem trabalha têm “muita dificuldade na interpretação de textos”, apesar do domínio do português ir melhorando.

“Está provado que, quanto mais lermos, melhor nos exprimimos. Achei que não havia nenhum clube de leitura em português em Macau e que poderia ser engraçado [fazer esta actividade]. No nosso caso, a personagem do clube, o Diniz, convida uma pessoa para contar a história e depois criamos uma série de actividades a partir dela.

O objectivo é promover o debate de ideias, para que consigam resolver questões rapidamente.”
Susana Diniz não aponta o dedo às escolas no seu papel de dinamização da leitura. Mas assume que o facto de as crianças lerem livros com a ajuda da Sílaba pode ajudá-los, uma vez que “não há a pressão das notas”. “Não somos os professores destas crianças e não há a pressão de dar a resposta certa ou tentar entender a história toda logo à primeira. E quando essa pressão desaparece, acontecem coisas engraçadas. As crianças partilham mais coisas connosco, porque sabem que não estão a ser avaliadas”, frisou.

Outro dos objectivos, é promover o contacto com o português fora da sala de aula, sobretudo para as crianças que não têm o idioma como língua materna. “[Nas escolas] há algumas actividades em português, mas penso que direccionadas aos livros e ao contar de uma história não é muito comum. Pretendemos fazer um clube de leitura mensal, mas se fosse possível faríamos todas as semanas. Falta isso às crianças, sobretudo os que não são portugueses, é difícil o contacto com a língua portuguesa fora da escola”, apontou a fundadora da Sílaba.

Jogo | Receitas de Fevereiro aumentaram 22,3% face a Janeiro

As receitas da indústria do jogo aumentaram em Fevereiro 6,1 por cento, em comparação com o mesmo mês de 2021, totalizando 7,759 mil milhões de patacas. Ainda assim, acumulando os dois primeiros meses deste ano, as receitas foram menores face ao mesmo período de 2021 devido aos fracos resultados de Janeiro

 

Com Lusa 

As receitas da indústria do jogo em Macau cresceram 6,1 por cento em Fevereiro, em relação a igual período de 2021, indicam dados divulgados ontem pela Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ).

As receitas do segundo mês de 2022 atingiram 7.759 milhões de patacas, valor substancialmente superior ao registado em Janeiro (+22,3 por cento), quando as receitas foram de 6,34 mil milhões de patacas.

Apesar dos resultados positivos em Fevereiro, somadas as receitas acumuladas dos primeiros dois meses de 2022, as concessionárias arrecadaram menos 8 por cento, muito devido à queda de receitas verificada em Janeiro, quando a descida se situou em 20,9 por cento.

Recorde-se que os casinos de Macau terminaram o ano passado com receitas de 86,8 mil milhões de patacas, valor que representou um aumento de 43,7 por cento em relação ao ano anterior, mas ficaram muito distantes dos verificados no período pré-pandemia. Em 2019, o território recebeu quase 40 milhões de visitantes e as receitas dos casinos foram de 292,4 mil milhões de patacas.

Leitura de números

Numa nota emitida ontem, os analistas da JP Morgan Securities (Asia Pacific) interpretam os resultados como o reflexo da recuperação das receitas brutas do segmento de massas para 48 por cento dos níveis pré-pandémicos.

Em contrapartida, o segmento VIP fixou-se em cerca de 5 por cento do volume de negócios verificado antes da pandemia. Neste sector, os analistas da JP Morgan acrescentam que as receitas amealhadas em Fevereiro resultaram de jogadores VIP directamente geridos pelos casinos, em vez de serem angariadas através de créditos cedidos por junkets.

“Contudo, a questão é saber quão sustentável será este nível de procura nos próximos meses, tendo em conta o aumento de casos de covid-19 no Interior da China, em particular na província de Guangdong, de onde é proveniente a maioria dos visitantes de Macau”, considera a consultora, citada pelo portal GGRAsia.

IPIM | Irene Lau afirma que Jackson Chang é “um bom patrão”

A ex-presidente do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau deixou elogios em tribunal a Jackson Chang

 

A ex-presidente do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), Irene Lau, elogiou ontem Jackson Chang, ex-presidente da instituição, que está a ser julgado pelos crimes de corrupção passiva e abuso de poder. Chamada a testemunhar, Irene Lau, que foi uma das ‘vices’ da presidência de Chang, recusou interferência nas decisões do superior, mas reconheceu que este era “um bom patrão”.

Irene Lau foi questionada pelo Ministério Público sobre a razão de, como presidente do IPIM, ter decidido tornar confidencial a divulgação do sistema de pontuação para os processos aquisição de residência por investimento. Na tese da acusação, Jackson Chang divulgou critérios ao empresário Ng Kuok Sao, a troco de benefícios, como “lai sis” e relógios.

Na resposta, Lau admitiu, ter definido alguns critérios, que tornou confidenciais, mas reconheceu que Jackson Chang, na condição de presidente, podia ter tomado uma decisão diferente. “Eu não discutia com o Jackson Chang as medidas que ele adoptava para o departamento de fixação de residência. Não eram questões da minha competência”, disse Irene Lau.

“Não sei como era o modo de proceder dele, se revelava ou não as informações, porque não era responsável por esse departamento. Sei que não devia interferir nas decisões dele. Ele é que era o presidente”, acrescentou.

Sobre a conduta de Jackson Chang, Irene Lau confessou haver vários aspectos que desconhecia, porque as suas funções não faziam com que tivesse de ser informada, mas deixou uma garantia: “Tenho a certeza de que ele é um bom patrão”, realçou duas vezes.

A esposa do empresário Tommy Lau recusou também fazer qualquer julgamento sobre se Jackson Chang tinha falhado as obrigações, como funcionário público. “Vocês é que decidem, não sou eu”, respondeu ao juiz presidente do colectivo.

Pés de barro

O resto da manhã de ontem foi ocupada pela defesa de Crystal Chang, filha do ex-presidente do IPIM, que tentou desconstruir a acusação do crime de corrupção passiva.

Segundo o investigador do CCAC, de apelido Chan, a corrupção passiva aconteceu quando Crystal Chang recebeu uma participação de 10 por cento a empresa San Fung Yu, criada pelo empresário Ng Kuok Sao. Este teria sido o “pagamento” para Jackson Chang, através da filha, a troco de informações sobre o processo de residência.

Contudo, os registos comerciais não mostram que a participação tenha sido efectivamente colocada em nome da filha de Jackson Chang. O investigador Chan mencionou também as trocas de mensagens entre Crystal e a mãe, sobre a necessidade de comentar a participação da empresa “com o pápi”. Porém, o investigador não conseguiu garantir que a conversa tenha mesmo acontecido. “Ela disse que tinha de perguntar ao pápi e depois não temos mais informações, porque não havia mais informações no telemóvel”, reconheceu.

Chan considerou também que o facto de haver uma foto de um cartão em que Crystal Chang aparece como “gerente” da empresa era outra prova do envolvimento. No entanto, não conseguiu esclarecer porque no cartão aparece gerente e não sócio-gerente.

IAM | Destruídos 720 quilos de leite vindos de Hong Kong

As autoridades de Macau destruíram “720 quilogramas de leite de Hong Kong”, depois de encontrarem vestígios do novo coronavírus no invólucro de plástico da embalagem, anunciaram ontem as autoridades.

A testagem foi realizada na noite de segunda-feira, durante uma inspecção regular de importação de alimentos, acrescentou o Instituto de Assuntos Municipais (IAM) em comunicado. O IAM sublinhou que “vai reforçar a limpeza e desinfecção das embalagens exteriores de frutas e alimentos da cadeia de frio importados do exterior, e aumentar o número de amostras recolhidas para testes”.

Actualmente, uma média de 100 mil caixas de alimentos congelados são desinfectadas semanalmente e 65 mil amostras de alimentos e frutas ambientais importados da cadeia de frio foram submetidas a testes de ácido nucleico para detecção do novo coronavírus, em 2021. Os trabalhadores do sector alimentar da cadeia de frio são obrigados a submeterem-se a testes de ácido nucleico a cada 48 horas, indicou o IAM.

Zhuhai | Mulher que acusou positivo impedida de entrar em Macau

A mulher que testou positivo à covid-19 em Zhongshan está impedida de entrar em Macau durante um ano. Segundo Wong Sio Chak, a mulher usou o visto de visita familiar para fazer contrabando. Quanto à lei de segurança nacional, o secretário reiterou que o projecto de revisão estará concluído até ao final do ano

 

A mulher que acusou positivo para a covid-19 na vila de Tanzhou (Zhongshan) e que se cruzou várias vezes a fronteira entre Macau e Zhuhai entre 22 e 27 de Fevereiro, foi interdita de entrar na RAEM durante um ano.

A decisão do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) foi conhecida ontem pela voz do secretário para a Segurança Wong Sio Chak. Isto, depois de a detecção do novo caso positivo na segunda-feira ter levado à testagem de cerca de oito mil pessoas que moram e trabalham na zona das Portas do Cerco e à suspensão das aulas em 46 escolas. Em causa, está o facto de a mulher ter aproveitado o visto de entrada em Macau para visitar família, para contrabandear produtos provenientes do Interior da China no território.

“A pessoa em questão, está qualificada para entrar em Macau para visitar a sua família (…) o que permite ir e vir a Macau várias vezes. Essas pessoas devem permanecer em Macau e não sair logo. O CPSP vai interditá-la de entrar em Macau durante um ano. Para situações semelhantes iremos tomar a mesma medida”, apontou ontem Wong Sio Chak à margem de uma reunião da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa.

O secretário acrescentou ainda que, segundo a lei, é esta a penalidade prevista para estes casos e que, apesar de ser possível detectar facilmente movimentos suspeitos nas fronteiras, “cada pessoa tem as suas razões” e pode fazê-lo legalmente, quer seja por razões de trabalho ou para levar os filhos à escola. “Não podemos saber o que todas as pessoas estão a fazer”, acrescentou.

Em progresso

Questionado sobre o andamento dos diplomas complementares relativos à lei da segurança nacional, Wong Sio Chak reiterou a intenção de fazer uma consulta pública sobre a matéria após a sua conclusão, que deverá acontecer ao longo de 2022. No entanto, a calendarização está também dependente da situação epidémica, acrescentou o secretário.

Sobre a nova lei do jogo, Wong Sio Chak afirmou “não conhecer muito bem o seu conteúdo”, mas que pode haver alguns riscos para a segurança nacional. “A meu ver, o risco não é muito grande relativamente à segurança nacional, mas não podemos dizer que não existe risco”, apontou.

Em relação à possibilidade de abrir as fronteiras de Macau a estrangeiros, o secretário diz que essa é a vontade de todos, mas que a actual situação pandémica, agravada pelo aumento de casos em Hong Kong, não permite, para já, “ter essa ponderação”.

“Toda a gente pretende a abertura de fronteiras para que os estrangeiros possam entrar em Macau, mas se a situação epidémica não estiver atenuada não vamos ter essa ponderação. Muitas regiões têm visto o número de casos aumentar, principalmente em Hong Kong, onde o sistema hospitalar já não aguenta. Portanto, não é fácil abrir fronteiras. Isto apesar de a economia de Macau estar dependente do turismo”, explicou Wong Sio Chak.

Escutas | Casos urgentes validados pela justiça em 72 horas

Para casos urgentes em que o registo de comunicações é relevante na investigação criminal, as autoridades policiais podem pedir informações aos operadores de telecomunicação sem autorização prévia da justiça. No entanto, segundo explicou ontem a presidente da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL), Ella Lei, a autoridade judiciária competente deverá validar esse pedido no prazo máximo de 72 horas.

“Os órgãos da polícia criminal podem pedir registos [às operadoras], em primeiro lugar, por causa da urgência e sem prévia autorização da autoridade judicial, mas depois há-que passar pela validação da autoridade judicial competente no prazo máximo de 72 horas. O Governo disse que, tendo em conta a experiência de outras regiões, se for um caso de sequestro, há que contar com a acção urgente da polícia. (…) Depois é que se faz a validação junto da justiça (…) porque para haver intersecção de comunicações é sempre preciso ter autorização do juiz”, apontou.

De acordo com a proposta de lei do regime jurídico da intercepção e protecção de comunicações, os operadores de serviços de comunicação vão passar a estar obrigados a conservar os registos produzidos durante um ano.

Questionada sobre a possibilidade de aceder a dados encriptados de comunicações feitas online em aplicações como o WhatsApp, Ella Lei apontou que durante a reunião de ontem, o Governo disse “não ser adequado” revelar as técnicas de investigação criminal utilizadas para o efeito, mas que a situação poderá ser desencadeada de acordo com a lei e após obtida a autorização do juiz.

A deputada revelou ainda que o diploma só produzirá efeitos um ano depois da entrada em vigor, para dar tempo ao Governo de “sensibilizar a população” e “desenvolver os trabalhos preparatórios das operadoras”.

APN | Representantes locais focados em Hengqin antes de reuniões

O desenvolvimento da zona cooperação aprofundada em Hengqin é a prioridades dos delegados da RAEM em vésperas das sessões da Assembleia Popular Nacional. Ng Sio Lai pede melhorias nos cuidados de saúde, depois de queixas arrasadoras sobre o Hospital de Hengqin

 

O desenvolvimento da Ilha da Montanha e a necessidade de fazer com que os serviços recuperem do atraso face à zona de Macau são as principais preocupações dos representantes locais na Assembleia Popular Nacional (APN). As declarações foram prestadas ontem, por vários membros de Macau na APN ao Jornal Ou Mun.

Uma das pessoas que alertou para o atraso da zona da Ilha da Montanha foi Ng Sio Lai, principalmente ao nível dos cuidados médicos. De acordo com a representante da União Geral das Associações dos Moradores de Macau são frequentes as queixas dos residentes de Macau para a ausência deste tipo de cuidados no outro lado da fronteira.

Segundo Ng Sio Lai, não só faltam equipamentos e espaços de saúde, como os existentes no Hospital de Hengqin servem pouca gente e deixam muito a desejar em termos de qualidade, levando os residentes a dependerem dos cuidados prestados em Macau.

Por outro lado, a representante dos Moradores indicou que a oferta de transportes é insuficiente a nível de autocarros e que a passagem dos veículos na fronteira é demasiado demorada. De acordo com Ng, durante as horas de ponta, um veículo com matrícula dupla pode levar mais de uma hora a atravessar a fronteira.

Ng Sio Lai deixou assim o desejo de que o assunto seja abordado nas reuniões magnas e que sejam adoptadas medidas para facilitar a circulação de capitais entre Macau e Hengqin, mesmo que seja apenas para residentes da RAEM.

Pedida nova Lei

Por sua vez, Tina Ho, irmã do Chefe do Executivo, desejou a criação em breve de legislação para a zona de cooperação aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin.

Segundo a membro da Associação Geral das Mulheres, a lei tem de ser inspirada nas pretensões de Xi Jinping para ter impacto positivo e contribuir para o bem-estar da população, através da zona de cooperação aprofundada. Tina Ho apontou ainda que a lei tem de aliviar restrições para residentes de Macau que desejam entrar na Ilha da Montanha, não só para fazer negócios, mas para estudar e morar num ambiente “mais conveniente”.

Por seu turno, o empresário Kevin Ho deixou a esperança de que a Grande Baía possa concretizar o objectivo nacional da neutralidade carbónica, e que o projecto da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin seja concretizado com reduzidas emissões de carbono. Nesse sentido, sugeriu que a zona seja um teste para todo o país.

No mesmo sentido, Kevin Ho defende que Macau pode ser uma janela internacional para as empresas na zona de cooperação aprofundada procurarem financiamento.

Turismo | Pandemia afasta chineses das viagens internacionais a curto prazo 

Um estudo da consultora Mckinsey & Company revela que os turistas chineses continuam a manter o interesse em viajar para o estrangeiro, apesar de não estarem a planear visitas a curto prazo. Mais de 80 por cento dos turistas pretende visitar destinos com menos casos de covid-19. As restrições que vigoram em Macau são um dos exemplos apontados como tendo um imediato impacto nas viagens

 

Os turistas chineses continuam a ter vontade de sair do país e viajar pelo mundo, mas em tempos de pandemia a precaução continua a ser palavra de ordem. As viagens domésticas são agora uma opção mais comum. Em termos gerais, é expectável uma tendência de “períodos emergentes de suspensão na procura de viagens, seguidos de uma rápida recuperação”.

Estas são algumas das conclusões do mais recente estudo da consultora Mckinsey&Company, intitulado “Outlook for China Tourism in 2022: Trends to watch in uncertain times” (Panorama para o turismo na China em 2022: Tendências a observar em tempos de incerteza)”. Este trabalho é o resultado de cinco rondas de inquéritos realizados nos meses de Abril, Maio e Agosto de 2020, bem como Janeiro e Outubro do ano passado.

O objectivo do estudo, elaborado por Guang Chen, Steve Saxon, Jackey Yu e Cherie Zhang, foi analisar as percepções dos turistas chineses e padrões de consumo.

Uma das conclusões aponta para o facto de “os viajantes chineses expressarem vontade de viajar, tanto no país como no estrangeiro”. “Mesmo com restrições nas viagens internacionais, e com a percepção de que viajar para fora não é seguro – a maioria dos inquiridos não planeia viagens internacionais a curto prazo – o estudo mostra que continua a existir um forte interesse nos destinos internacionais”, pode ler-se.

Olhando para os números, 24 por cento dos inquiridos “revela vontade de viajar para destinos da APAC [Ásia-Pacífico]”, tal como países do sudeste asiático ou Japão, incluindo Rússia e Europa. Estes são apontados como “os destinos internacionais mais desejados”. Obviamente, os inquéritos foram conduzidos antes do conflito armado resultante da invasão da Ucrânia, assim como a divulgação dos resultados.

Além disso, 86 por cento dos participantes nos inquéritos aponta que, “para viajar para o estrangeiro, querem que o número de casos de covid-19 nos países de destino se aproximem de 0”. Este é, aliás, um dos três factores mais importantes apontados para viajar.

No entanto, os autores da investigação ressalvam: “Uma vez que o mundo está a ajustar-se à covid-19 endémica com novas variantes, parece pouco provável que este cenário venha a ser uma realidade num futuro próximo.”

O fim da quarentena é o segundo factor mais importante para que os chineses tenham vontade de viajar, com 84 por cento das respostas a irem nessa direcção.

O estudo elaborado pela Mckinsey & Company descreve que “são vários os factores que afectam a disposição [dos turistas chineses] de viajarem para o resto do mundo”. “Uma vez que as políticas anunciadas pela China continuam a atrasar a abertura [das fronteiras] ao mundo, espera-se que as viagens de lazer para fora continuem a ter uma lenta recuperação”, acrescenta-se.

O panorama do sul

Os autores da pesquisa de turismo apontam o caso de Macau como um exemplo de como as medidas restritivas para travar a ocorrência de infecções de covid-19 podem influenciar a vontade de viajar. “Quando a situação da covid-19 estabilizou, sem novos casos em Macau ou exigência de quarentena para turistas oriundos de zonas de baixo risco, o número de turistas recuperou para 50 por cento dos níveis pré-pandemia. No período do surto de covid-19 em finais de Setembro e inícios de Outubro, em Macau, cerca de mil turistas viajaram para Macau por dia. Em Outubro, o número chegou aos 20 mil por dia e atingiu o pico de 30.500 num só dia em finais desse mês.”

O recente surto em Hong Kong, que parece não dar sinais de abrandar, é também um exemplo apontado como o panorama da covid-19 pode ser imprevisível. “Recentemente, parecia que Hong Kong seria o próximo destino a abrir [fronteiras], devido ao baixo número de casos de covid-19. No entanto, o percurso [da pandemia] é difícil de prever e o recente surto trouxe uma nova complexidade ao processo de reabertura de fronteiras.”

Viajar cá dentro

Com incertezas em relação às viagens para o estrangeiro, os turistas chineses parecem estar a apostar em passeios dentro do país, apesar da ocorrência de surtos esporádicos “terem afectado a confiança nas viagens domésticas”. “Um recente inquérito da Mckinsey indicava que o ressurgimento de viagens domésticas poderia ajudar a apoiar a recuperação da indústria do turismo na China, mas com a ocorrência de surtos esporádicos, a confiança nestas viagens tem sido afectada”, lê-se.

O estudo exemplifica que “em Outubro de 2021 apenas dois por cento das pessoas planeavam viajar nos próximos dois meses”, mas em comparação com os resultados deste novo inquérito, “parece que os surtos de covid-19 suspenderam o desejo de viajar por mais de dois meses”. Há, no entanto, “um previsível padrão de recuperação” nesta matéria, ainda que ocorram algumas flutuações.

“Actualmente, 42 por cento dos inquiridos planeia viajar na China na sua próxima viagem de lazer, enquanto que 26 por cento destas viagens envolve voos com mais de três horas.” Outro indicador que releva uma tendência padronizada é que as viagens às cidades natal dos inquiridos surgem como a primeira escolha.

“Esta preferência constitui uma oportunidade para as empresas de turismo atraírem a procura nas cidades, providenciando experiências em linha com aquilo que os viajantes procuram nesse período”, aponta o estudo. O desejo por viagens de lazer, com visitas a locais históricos e patrimoniais registaram um aumento de 39 para 44 por cento e “são agora a segunda actividade mais procurada”, indo além das viagens a destinos de praia ou resorts, embora estes “se mantenham populares”.

Fazer compras ou viagens gastronómicas deixaram de estar no top 5 das principais preferências dos turistas chineses. A procura de destinos ao ar-livre, com bonitas paisagens, “mantém-se [a escolha] mais popular”, conclui este inquérito.

Em matéria de consumo, a confiança “está a crescer”, estando agora “no nível mais alto desde o início da pandemia”. O estudo descreve que “em Fevereiro de 2020 a confiança no consumo era de 43 por cento, sendo que em Outubro 67 por cento dos inquiridos indicaram acreditar que a economia chinesa poderia recuperar num espaço de dois a três meses”. Os dados mais recentes mostram ainda que cerca de sete em cada dez consumidores na China têm uma “visão optimista” em relação ao retorno económico do país.

China inicia retirada dos seus cidadãos da Ucrânia

A China retirou da Ucrânia o primeiro grupo de cidadãos chineses, incluindo 200 estudantes, residentes em Kiev, e outros 400 em Odessa, e planeia retirar hoje mais mil chineses do país, segundo a embaixada chinesa.

Os estudantes foram primeiro retirados para a Moldávia, onde chegaram após seis horas de carro, detalhou a chancelaria, citada pelo jornal oficial Global Times.

Segundo a embaixada da China, outros países vizinhos, como a Moldávia, Roménia, Eslováquia, Hungria e Polónia, vão ajudar os cidadãos chineses a entrar no seu território, garantindo-lhes temporariamente a entrada sem visto.

Na sexta-feira, a embaixada publicou um comunicado sobre a retirada dos cerca de 6.000 cidadãos chineses radicados na Ucrânia.

A China tem mantido uma posição ambígua em relação ao conflito. Pequim insiste no “respeito pela integridade territorial de todos os países”, mas diz entender as “legítimas exigências de segurança” da Rússia.

O país asiático absteve-se, na sexta-feira passada, na votação de uma resolução a condenar a Rússia, no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, explicou nos últimos dias que a estabilidade de um país “não pode ser conseguida à custa da de outros”, embora os seus porta-vozes tenham evitado referir-se às ações russas com a palavra “invasão”.

Em 4 de fevereiro, os presidentes russo e chinês, Vladimir Putin e Xi Jinping, anunciaram, após reunião em Pequim, a entrada das relações bilaterais numa “nova era”, e sublinharam o bom estado das relações entre a Rússia e a China.

A Rússia lançou na quinta-feira de madrugada uma ofensiva militar na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamento de alvos em várias cidades, que já mataram mais de 350 civis, incluindo crianças, segundo Kiev. A ONU deu conta de mais de 100 mil deslocados e quase 500 mil refugiados na Polónia, Hungria, Moldova e Roménia.

O Presidente russo, Vladimir Putin, disse que a “operação militar especial” na Ucrânia visa desmilitarizar o país vizinho e que era a única maneira de a Rússia se defender, precisando o Kremlin que a ofensiva durará o tempo necessário.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional e a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros, responderam com o envio de armas e munições para a Ucrânia e o reforço de sanções para isolar ainda mais Moscovo.

Advogados em Macau, Hong Kong e Portugal lançam ajuda jurídica gratuita a ucranianos

Advogados portugueses que residem em Macau, Hong Kong e Portugal disponibilizaram hoje serviços jurídicos gratuitos a ucranianos para ajudar à reunião familiar e obtenção de vistos, disse à Lusa um dos juristas. “Queremos providenciar serviços legais para entrada em Portugal”, explicou Paulo Rowett, advogado em Macau.

Para já são 13 os advogados que vão prestar gratuitamente serviços, acrescentou, mas o número está ainda em aberto, sendo atualmente formado sobretudo por antigos estudantes da universidade.

“Não estando disposto a ficar de braços cruzados à medida que a situação na Ucrânia se desenrola, irei, juntamente com outros colegas, prestar, gratuitamente, serviços a todos os cidadãos ucranianos que necessitem de assistência jurídica, nomeadamente autenticação e preparação de qualquer documentação necessária para os seus familiares deixarem a Ucrânia, autenticação da documentação necessária para a obtenção de vistos ou autorizações de saída para menores”, pode ler-se na página na rede social Facebook.

A Rússia lançou na quinta-feira de madrugada uma ofensiva militar na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamento de alvos em várias cidades, que já mataram mais de 350 civis, incluindo crianças, segundo Kiev. A ONU deu conta de mais de 100 mil deslocados e quase 500 mil refugiados na Polónia, Hungria, Moldova e Roménia.

O Presidente russo, Vladimir Putin, disse que a “operação militar especial” na Ucrânia visa desmilitarizar o país vizinho e que era a única maneira de a Rússia se defender, precisando o Kremlin que a ofensiva durará o tempo necessário.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional e a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros, responderam com o envio de armas e munições para a Ucrânia e o reforço de sanções para isolar ainda mais Moscovo.

SJM | Mais de 4 mil milhões de prejuízo em 2021

A Sociedade de Jogos de Macau (SJM) anunciou ontem um prejuízo de 4,1 mil milhões de dólares de Hong Kong em 2021. Em 2020, a empresa fundada pelo magnata Stanley Ho já tinha registado perdas de três mil milhões de dólares de Hong Kong, devido ao impacto da pandemia de covid-19, que resultou na queda abrupta de visitantes em Macau.

O balanço de 2021 contrasta igualmente com os ganhos contabilizados no ano pré-pandémico de 2019, quando a operadora apresentou lucros de 3,2 mil milhões de dólares de Hong Kong.

Ucrânia | Au Kam San critica Ou Mun por cobertura da invasão

O ex-deputado Au Kam San criticou o jornal Ou Mun, o maior do território, pela cobertura da agressão da Rússia contra a Ucrânia. “É difícil imaginarmos como os meios de comunicação social de Macau se podem mostrar tão insensíveis. Vemos que a Rússia comete uma agressão, bullying, contra o país mais fraco, e o título na manchete é ‘Forças Russas avançam para Kiev’, apontou.

Na argumentação contra a posição do Ou Mun, o democrata pediu que a direcção editorial do jornal se recordasse da invasão Japonesa da Manchúria, em 1931, e que se metesse no lugar dos chineses da altura. “A sorte é que este jornal só foi fundado em 1958 e não existia em 1931. Se existissem em 1931, quando foi a invasão da Manchúria também íamos ter de ler ‘Forças Japonesas avançam para o nordeste da China’”, atirou.

Au Kam San atacou ainda a falta de ética profissional do Ou Mun e mostrou-se solidário com o povo ucraniano e as vítimas da guerra. O ex-deputado considerou ainda que a invasão estava planeada há muito tempo e que é uma forma de concretização de um “rejuvenescimento nacional”. “A Rússia é uma nação invasora, a invasão violenta na Ucrânia foi premeditada e preparada. É um passo importante para concretizar o grande rejuvenescimento nacional da Rússia, que passa por separar e anexar gradualmente a Ucrânia,” indicou.

Das pensões

Já sobre as políticas dirigidas aos mais velhos, o antigo deputado considera que o Governo tem de indexar a pensão para idosos ao valor do risco social, ou seja, o montante tido pelo Executivo como necessário para que uma pessoa viva com condições mínimas na RAEM. Actualmente, a pensão para idosos é de 3.740 patacas, enquanto o nível de risco social está situado nas 4.230 patacas, uma diferença de 490 patacas.

Face à disparidade, o ex-deputado criticou os actuais membros da Assembleia Legislativa por ignorarem de forma intencional este aspecto que considera fundamental. Au Kam San recordou ainda que quando questionou a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong Iu, sobre este aspecto, lhe foi explicado que o aumento de 490 patacas por “idoso” levaria à falência do Fundo de Segurança Social de Macau.

Oportunidades para as finanças públicas

Durante a epidemia os impostos podem ser aumentados? E as rendas, podem ser deduzidas dos impostos?
No passado dia 23, o Governo de Hong Kong apresentou o Orçamento para este ano, no qual vale a pena analisar as medidas relativas às “taxas” e às “deduções das despesas de arrendamento”.

Em Hong Kong, as taxas são impostos que o Governo cobra em função de uma percentagem sobre o valor do arrendamento do terreno tributável. Devido aos diferentes sistemas sociais, Macau não cobra estas taxas.

O novo Orçamento propõe um novo sistema de taxas – as ” Taxas Progressivas”, que se baseia no princípio de que “quem tem mais paga mais”. Esta taxa começa num valor básico e vai subindo progressivamente, em função dos rendimentos. Os proprietários mais afectados podem pagar até ao dobro do valor básico. Existem cerca de 42.000 imóveis residenciais sujeitos ao novo sistema, representando cerca de 2 por cento do total de imóveis residenciais privados. O novo sistema aumentou as receitas do Governo em cerca de 760 milhões de dólares de Hong Kong (HKD) por ano. Se as medidas de concessão de taxas pontuais precisarem de ser implementadas no futuro, o Governo poupará cerca de 3,1 mil milhões de HKD.

Não é a primeira vez que o Governo de Hong Kong aumenta os impostos no meio da epidemia. No Orçamento do ano passado, o Executivo subiu a taxa do imposto de selo de 0,1 por cento para 0,13 por cento, o que deverá aumentar a receita em cerca de 8 mil milhões de HKD. Após esta mudança, Hong Kong tornou-se o lugar com a segunda maior taxa de imposto de selo do mundo.

A “dedução das despesas de arrendamento” representa uma medida de desagravamento fiscal. A renda paga pelos inquilinos pode ser usada como dedução fiscal, até um máximo de 100.000 HKD, e as receitas do Governo serão reduzidas em 3,3 mil milhões de HKD. Muitos inquilinos congratularam-se com a medida, acreditando que aliviaria os encargos dos contribuintes que não possuem imóveis residenciais. Alguns académicos e pessoas do sector imobiliário de Hong Kong salientaram que, se calculada à taxa de imposto mais elevada, a isenção máxima de 100.000 HKD pode poupar aos inquilinos cerca de 1.000 HKD em impostos por mês. A isenção fiscal de 100.000 HKD não tem impacto no mercado imobiliário. É impossível para os inquilinos pagar rendas mais caras por causa dos incentivos fiscais.

Os senhorios têm de pagar impostos sobre as rendas que recebem. Uma vez que é operacionalmente difícil verificar se o proprietário está a alugar o imóvel, é muito comum este não pagar impostos após o arrendamento do imóvel. De acordo com o novo sistema, se o arrendatário quiser usufruir da dedução do imposto, deve declarar o arrendamento ao Departamento de Receitas Do Interior. A declaração é a mesma que o senhorio deve preencher para atestar os rendimentos do arrendamento, e, portanto, terá mais dificuldade de fugir ao imposto.

O novo sistema pode, por conseguinte, aumentar as receitas do Governo, mas no Orçamento não vem mencionado até quanto pode ir este aumento.

Quer a “progressão das taxas” quer a “dedução das despesas com o arrendamento” estão relacionados com aumentos de impostos. O Governo de Hong Kong fica um tanto ou quanto constrangido quando tem de aumentar os impostos. Poucos residentes apreciam esta medida. Em circunstâncias normais, haveria sempre quem se opusesse a estas medidas. Agora, neste período pandémico, a vida dos residentes é mais difícil, com os empregadores preocupados com o enfraquecimento dos negócios e os trabalhadores preocupados com o desemprego, o descontentamento vai naturalmente aumentar.

Hong Kong poderia não aumentar os impostos? Actualmente, as reservas fiscais do Governo são apenas suficientes para cobrir as despesas operacionais durante cerca de 18 meses. Além disso, para aliviar as dificuldades das pessoas durante a epidemia, o Governo aumentou as despesas, e já havia défice orçamental em 2020. Embora o aumento da taxa do imposto de selo e o sistema de taxas progressivas possam aumentar a receita fiscal de Hong Kong em cerca de 9 mil milhões de dólares, as despesas derivadas das medidas de combate à epidemia são da ordem dezenas de milhares de milhões de dólares, e estas despesas são muito superiores às novas receitas fiscais.

Resumindo, a reserva fiscal é escassa, as receitas são insuficientes e as despesas aumentaram significativamente, e embora o Governo tenha aumentado os impostos, este aumento não faz face aos grandes gastos decorrentes da epidemia. Finalmente, o problema do défice orçamental ainda existe, e, mesmo assim, alguns residentes mostram insatisfação com o aumento dos impostos. Não é fácil para o Governo de Hong Kong lidar com as finanças públicas.

 

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Escola Superior de Ciências de Gestão/ Instituto Politécnico de Macau
Blog: http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog
Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk

Arcano XXII

Falar de loucura nunca é assunto agradável, muito embora (e pese as devidas considerações que lhe assistem) seja tratada pelo desaire normativo como qualquer coisa de extremamente interessante indo ao ponto de a considerarem até libertadora. Mas só os escravos têm tais interpretações, sejam eles de que natureza forem, e se empolguem depois a fingirem-se de loucos sem nenhuma apetência trágica para tal condição.

Penso que assistimos impávidos a um drama de autoproclamados loucos, que mais não são que mentes equivocadas, e questionavelmente interceptadas pela falsa sugestão de se parecerem com uma sistemática ideia de génio. Esta forma arbitrária de tocar em tal noção tem produzido uma escalada daquilo a que designamente apelidamos por tontos, que é uma forma de cretinice moral com alto espectro à boleia de múltiplas “originalidades”. Só que a loucura não lhes toca – nunca os tocou – e por isso seguem sendo, assim, sem consciência, que de tão apavorante e não emblemática, avivou ainda mais a noção da malignidade da espécie.

Sobre o tema, parece que já tudo se falou, todas as grandes obras dela transbordaram, o que a faz muito próxima, e ao mesmo tempo tão intrigante! Dela nos dá Erasmo o seu Elogio, nos fala Gogol no seu Diário, e claro, são obras que devemos saber de cor para nos abastecermos de lucidez, que tempos diferentes têm no entanto este domínio imutável que os trespassa e flagrantemente o número do Arcano que nos é dado por Jung na sua busca sempre memorável por este nosso inconsciente colectivo, numa incrível viagem arquetípica acerca dos arcanos menores do Tarot. Esta viagem irá levar-nos a aspectos razoavelmente aperfeiçoados da sua funda natureza – o que se compreende – as grandes questões, por mais que se desenvolvam, têm apenas dois ou três pontos fortes, tudo o resto são derivadas, e não será por elas que o cerne poderá ser visitado.

Quando o Ano começou, bom de ver que o número vinte e dois anunciava uma qualquer inquietação numérica muito própria, ele é exactamente o Arcano do Louco, «Le Mat», pela interpretação simboliza também o zero, essa invenção numérica árabe que tanto fez avançar a ciência construindo o sistema decimal e a noção filosófica do nada, não estando numerado, e vagueando acima das vinte e uma cartas que compõem o baralho, ele é naturalmente o número vinte e dois (com que definir o Louco?) e assim poderemos começar a pensar no Vagabundo, senhor de dores tamanhas que precisa de espaço para a sua caminhada. Pode parecer-nos risível, mas ele contém doses letais de martírio e sofrimento prestes a pôr fim a tudo o que dele se aproxime.

E começam as doenças mentais! O grande emblema de uma sociedade patológica cravejada de felizes dogmas, mas de componentes desprezíveis de amor, que eles, liquefeitos de transtorno, irão lançar à cara estupefacta de todos os incautos. E vêm doridos, feridos, trágicos, inconsequentes, insurrectos, opressivos. Ninguém parece saber lidar com tal desastre que só se manifesta quando a sociedade requer uma pragmática definição de reais funções, e não há nada de alegre, de compensador, de iluminado na loucura, ela é trágica, e firma os seus ajustes na incompetência humana para testar a sua culpa.

Jung, no entanto, parece-nos muito menos lacrimoso, e vai juntar aspectos enaltecedores ao seu Arcano, não suspeitando nunca como o colectivo se transformaria numa amálgama cega, e já de si bastante “inconsciente” acerca do significado de tudo. Há patologias raras e tão capazes que ajudam até a rasurar a vã escolha dos assaltos à saúde, como existem outras do mesmo naipe, que ficam reflectoras da conjuntura estranha a que esta espécie está submetida. Uns passaram por cima, outros passaram por baixo. Eis a diferença. As instituições dos Estados esperam ainda que as tribos sejam mais eficazes que as normas da cidadania, só que as tribos são loucas e delas deriva hereditariedade pesada. Que pode um ser diante desta loucura?

” Nós fazemos vasos de barro mas a verdadeira natureza deles está no vazio interior” Lao Zi
Talvez ele responda ao nossa Arcano.

太昊陵 Tai Hao Ling Templo mausoléu de Fu Xi

Dos dezoito mais importantes mausoléus da China, o Templo do Mausoléu de Tai Hao em Huaiyang é o ancestral e está desde 1996 na Lista Nacional de Relíquias Culturais Protegidas. Construído de acordo com a filosofia dos oito trigramas criados por Fu Xi, a arquitectura do templo serviu de padrão aos palácios imperiais e mausoléus depois edificados para sepultar os Imperadores.

Logo após a morte de Fu Xi, ocorrida nos inícios do terceiro século antes da nossa Era, entre os anos de 2838 e 2738 a.n.E., no mausoléu, situado a 4 km SE da sua capital Wanqiu, realizavam-se celebrações ao primeiro dos três Soberanos Imperadores e o mais importante dos cem reis.

Em Wanqiu, pouco tempo depois Yan Di reconstruiu a sua capital e renomeou-a Chen, aí vivendo por um curto período, segundo Sima Qian no ShiJi.

Os Anais de Chenzhou referem a existência do Mausoléu de Tai Hao no Período Primavera-Outono e Kong Fuzi (Confúcio), que por três vezes visitou Chenzhou (Huaiyang) e aí viveu três anos e meio, assegurou ali estar sepultado Fu Xi.

Ainda antes da Dinastia Han havia um templo a acompanhar a sepultura, feita por um monte situado no extremo Norte do recinto. As construções adicionais estenderam-se sobretudo nas dinastias Tang e Song.

Durante a Dinastia Tang, no ano de 630 o Imperador Tai Zong (626-649) ordenou a proibição de as pessoas colocarem no local os animais a pastar. Já em 960, o primeiro imperador da Dinastia Song, Tai Zu (960-976) mandou haver no local do mausoléu um guarda e este aí fosse viver com a família para sempre, continuando esta com as funções de tomar conta do lugar. Ordenou ainda a realização de três em três anos de uma cerimónia de oferenda de sacrifícios a Fu Xi. Em 966 existiam cinco famílias a tomar conta do mausoléu e as cerimónias de sacrifícios eram feitas duas vezes ao ano, na Primavera e no Outono.

Com a chegada da dinastia mongol dos Yuan deixaram de se realizar as cerimónias de veneração e as construções do templo ficaram em ruínas. Apenas o bei (estela) do mausoléu feito na Dinastia Song se manteve de pé.

A construção do actual templo provém de um decreto de Zhu Yuanzhang, (Tai Zu, 1368-1398) o primeiro imperador da Dinastia Ming, que tornou o mausoléu o número 1 de toda a China, quando em 1371 ele mesmo aí foi oferecer sacrifícios a Tai Hao. Informação do livro MingShi LiZhi (História da Dinastia Ming), que indica ser Chenzhou o único lugar permitido para existir um templo a Fu Xi. Depois colocou uma pessoa e a família a guardar o mausoléu.

Os inúmeros templos em honra dos Três Ancestrais por toda a China levaram Tai Zu, ainda em 1371, a mandar destruir os que não fossem templos dos mausoléus. Por isso, o único templo a Fu Xi preservado foi o de Chenzhou, apesar de na Colina de Gua Tai ser discretamente mantido um templo em honra de Fu Xi, por aí ser o local do seu nascimento.

Entre 1448 e 1576, no templo de Chenzhou novos edifícios foram construídos, como as torres do Sino e do Tambor e arranjados os existentes. Em 1745, o governo da Dinastia Qing deu dinheiro para uma grande reparação dos edifícios do templo. Chenzhou passou em 1913 a ter definitivamente o nome de Huaiyang.

Em 1949, já no tempo da República Popular da China foi criada uma Associação para tomar conta da área do templo mausoléu. Em 1984, aí foi construída uma esquadra da polícia e no ano seguinte o Museu de Huaiyang, que segundo se diz nunca chegou a abrir. Em 1996, Tai Hao Ling tornou-se Património Cultural da China.

HISTÓRIAS TERRENAS

Yue Fei, um general da Dinastia Song, por três vezes foi com as suas tropas defender a cidade de Chenzhou e talvez por isso, dentro do recinto de Tai Hao Ling, num pequeno pátio encontra-se o Templo a Yue Fei, sendo o único dos heróis nacionais a merecer tal honra. As estátuas de bronze de Yue Fei e Qin Hui aqui estão desde a Dinastia Ming e na Qing, a elas se juntaram as de Wang Shi, Mo Qixie, Wang Jun e Zhang Jun.

Para saber quem são estas personagens, teremos de referir a História da Dinastia Song do Norte (960-1127) e a razão da mudança para a Dinastia Song do Sul.

Após Zhao Kuangyin se tornar o primeiro Imperador da Dinastia Song do Norte, com o nome de Tai Zu (960-976), compreendendo serem as causas da queda da Dinastia Tang o ter comandos militares demasiado fortes e independentes do controlo dos imperadores, passou a governar com uma grande centralização de poder, reforçado pelas doutrinas confucionistas. Reduziu o exército, enfraquecendo a defesa nacional e por isso, em 1126 a Dinastia Jin (1115-1234) conquistou a capital Bianjing (Kaifeng), levando da corte Song quase três mil presos para Harbin (capital da tribo tártara Jurchen, que criou a Dinastia Jin). O que restou da Dinastia Song retirou-se para Sul e fugindo das investidas dos Jin, instalou-se em Nanjing (actual Shangqiu, na província de Henan) onde Zhao Huan foi feito Imperador Qin Zong (1125-1127). O irmão Zhao Guo, no ano de 1127 proclamou-se imperador com o nome de Gao Zong e iniciou a Dinastia Song do Sul (1127-1279), mudando em 1138 a capital para a cidade de Hangzhou, que tomou o nome de Lin‘an.

O exército Jin continuou a atacar-lhes o território e Yue Fei (1103-41), um dos quatro famosos generais Song, foi vencendo os invasores tártaros que pelo Norte faziam constantes incursões. Mas nem mesmo após a Batalha de Yancheng, na província de Henan, em 1140, quando Yue Fei de novo lhes ganhou, bastou para conter o exército Jin, que obrigou o Imperador Gao Zong (1127-62) a fugir pelo Mar da China e depois, a negociar a paz cedendo muitas terras.

O Imperador Gao Zong apontou para primeiro-ministro Qin Hui, um homem fugido do campo do inimigo, que tomou como missão negociar a paz com os Jin, apesar das importantes vitórias conseguidas sobre estes por o general Yue Fei.

Chamado à corte de Gao Zong e por exigência dos Jin, Yue Fei, com uma acusação forjada escrita por Wang Jun, um seu desleal subordinado, foi metido na prisão e executado. Estava-se em 1141 e nesse Inverno os Song cederam aos Jin um vasto território, tornando-se como vassalos, pois pagavam-lhes um tributo anual. Após o Imperador Gao Zong abdicar em 1162, subiu ao trono da Dinastia Song do Sul o filho adoptivo, o Imperador Xiao Zong (1162-89), que reabilitou o general Yue Fei, passando desde então a ser venerado como Deus da Guerra.

Nesse pequeno templo, a Yue Fei são feitos sacrifícios com três vénias e incenso por muitos peregrinos e à frente da sua estátua encontram-se no pátio exterior encostadas ao muro, com um ar de humilhação, cinco figuras de bronze ajoelhadas. Representam o primeiro-ministro Qin Hui, a esposa Wang Shi, os serventes Zhang Jun e Mo Qixie, assim como o traidor Wang Jun, que recebem pontapés, murros e estaladas, quando as pessoas por elas passam, dadas com a emoção de quem partilha esse momento histórico ainda vivido pela dor resultante dessa acção. E batem forte, saindo com as mãos a arder! É o incenso para purificar da maldade e deslealdade essas personagens.

Ucrânia | Historiadores chineses contra a invasão russa

Uma carta aberta escrita por cinco historiadores denunciou a guerra e apelou a Pequim para tornar mais clara a sua posição

 

Sábado passado, cinco historiadores chineses de renome escreveram uma carta aberta denunciando a acção da Rússia sobre a Ucrânia e fizeram um apelo à paz. Para os autores da carta, o que a Rússia está a fazer é errado.

Para Xu Guoqi, um historiador chinês, a situação é alarmante. “Sou um historiador da Primeira Guerra Mundial. A Europa foi sonâmbula num enorme conflito há mais de 100 anos, que também teve enormes consequências para a China”, disse Xu. “O mundo pode estar outra vez num ponto de não retorno. Receio que ainda não tenhamos aprendido as lições das tragédias do passado. Como historiador, estou muito desapontado”.

“A que conduzirá esta guerra? A uma guerra mundial em grande escala?” perguntam os historiadores. “As grandes catástrofes da história começaram muitas vezes com conflitos locais. Opomo-nos veementemente à guerra da Rússia contra a Ucrânia. A invasão pela força de um Estado soberano pela Rússia … é uma violação das normas das relações internacionais baseadas na Carta das Nações Unidas e uma violação do sistema de segurança internacional existente”.

Publicamente, a China opõe-se a qualquer acto que viole a integridade territorial dos países. O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, reafirmou novamente esta posição numa mensagem de última hora publicada no portal do seu ministério na sexta-feira. Mas, ao longo da última semana, Pequim continuou a fazer eco do argumento de Putin de que a acção de Moscovo é uma resposta à expansão da NATO para leste.

“Será que acreditam realmente nisso? Vale [a pena] para a China minar a sua própria credibilidade para defender o indefensável? Receio que tenham sido enganados por Putin”, disse Xu, sublinhando que ele e os seus colegas escreveram esta carta porque amam o país, e não desejam que uma potencial tragédia mundial paralise o futuro da China.

“Isto é simplesmente uma questão a preto e branco”, continuou. “Isto é uma invasão. Como diz o ditado chinês: não se pode chamar veado a um cavalo. Como historiadores chineses, não desejamos ver a China ser arrastada para algo que irá prejudicar fundamentalmente a actual ordem mundial. Pelo amor da humanidade, paz mundial e desenvolvimento, devemos deixar isto bem claro”.

Prós e contras

A carta aberta de Xu e dos seus colegas provocou reacções variadas na internet chinesa. Alguns chineses pró-guerra denunciaram os autores – que estão baseados em Nanjing, Pequim, Hong Kong e Xangai – como “vergonhosos” e “traidores”. “Por que não disseram nada durante a invasão do Ocidente no Iraque?”, um deles perguntou.

Alguns chineses expressaram a sua admiração por Putin online. Alguns chamaram ao líder russo “o maior estratega deste século”. Outros disseram que a China deveria aproveitar a situação actual para “tomar Taiwan de volta”. Mas no WeChat, por exemplo, muitos têm também estado a discutir a situação na Ucrânia.

No domingo, quando Putin ordenou aos seus militares que colocassem as forças de dissuasão nuclear da Rússia em alerta máximo, alguns utilizadores publicaram uma declaração de 1994 na qual a China exortava todos os Estados detentores de armas nucleares a não utilizarem ou ameaçarem utilizar armas nucleares contra Estados que as não possuam, incluindo a Ucrânia.

Nas redes sociais, alguns são contra a acção da Rússia, embora se encontrem frequentemente com outros pró-guerra que os acusam de serem “fracos” e “ingénuos”. “Se a Rússia tem problemas com a NATO, deve lidar com a NATO, porquê invadir a Ucrânia?”, foi questionado num vídeo WeChat que atraiu mais de meio milhão de visualizações num espaço de horas. Cerca de 9.000 utilizadores gostaram do vídeo e mais de 23.000 partilharam-no.

Inquietação

Na sexta-feira, a China absteve-se no final da votação do Conselho de Segurança da ONU, condenando a agressão russa. Os diplomatas ocidentais viram isto como um sinal de que Pequim está cada vez mais inquieto em ser visto como defensor da acção de Putin, o que tem atraído a condenação mundial.

No domingo, o enviado chinês a Kyiv, Fan Xianrong, salientou num vídeo que “a China respeitava a soberania e a integridade territorial da Ucrânia”. Instou também os cidadãos chineses baseados na Ucrânia a não revelarem a sua identidade ou mostrarem quaisquer sinais da sua nacionalidade, invertendo o anterior aconselhamento da sua embaixada que encorajava os cidadãos a hastear a bandeira nacional nos seus carros.

“Mais cedo ou mais tarde, eles terão de se sentir”, disse Xu. “Os chineses são muito pragmáticos. Precisam de compreender que são um grande beneficiário da actual ordem mundial, sob a qual a China também prosperou. Esta é uma oportunidade para todos nós demonstrarmos que somos um verdadeiro interveniente responsável”.

António Izidro: “Acho interessante a ideia de estabelecer um paralelo entre Li Bai e Camões”

António da Amada Izidro, macaense, bilingue em Chinês e Português, foi Chefe do Departamento de Informação no Gabinete de Comunicação Social, até se reformar em 2002. Daí para cá um dos seus maiores interesses tem sido a poesia e a vida do poeta chinês Li Bai. Agora vai publicar um livro – “Li Bai – A Via do Imortal”, que intersecta a biografia com numerosos dos seus poemas traduzidos para língua portuguesa. O lançamento, integrado na Semana de Cultura Chinesa do Hoje Macau, terá lugar na próxima segunda-feira, dia 7 de Março, na Fundação Rui Cunha, pelas 18:30

 

Como nasceu o seu interesse por Li Bai e pela poesia chinesa?

Quem gosta de poesia chinesa, delicia-se. Quem não gosta, aprende a gostar. A poesia chinesa, como dizia um político chinês, é como cana-de-açúcar. Começa-se a degustar a parte menos doce da raiz e à medida que vai roendo tronco acima, o aroma açucarado intensifica e enche a boca. Por quê Li Bai? Das recordações da sua infância ao tempo de exílio, uma vida tumultuosa, Li Bai caracteriza-se por ser um poeta com verdadeiro amor à pátria. Uma vida contemplativa nos montes, exótica sob o luar, escondida no vinho. Provavelmente, é o mais multifacetado dos compositores chineses, de personalidade ímpar, que dificilmente se dobra. Os seus poemas são um cardápio de temas tão abrangente que não se encontra noutros poetas: misticismo, erotismo, espiritualidade, poemas melíferos e ácidos, sentimentais e românticos, tudo pincelado com a mesma originalidade e riqueza de estilo. Verticalidade é porventura o termo que assenta bem no seu discurso.

Que passos teve de dar para fazer este livro? Visitou locais frequentados pelo poeta?

De Sichuan até Hangzhou, um trajecto de quilómetros e mais quilómetros por entre municípios e vilas. «Ainda é possível ´respirar´ Li Bai», dizia eu. «Antigamente talvez se pudesse dizer isso. Hoje está tudo mudado», assegurava-me o meu cicerone, que aí procurou guiar a conversa para a excelência dos locais que o poeta pisou e que me ia mostrar. De manhã cedo metemo-nos no caminho. Quanto a mim, era para satisfazer um fascínio nascido no dia remoto em que sentia a necessidade de rasgar novos horizontes e lançar o trabalho rotineiro para as raias do esquecimento. A política de reformas e abertura mudou toda a China, cintilam agora grandes e modernas metrópoles. Os montes, em cadeia, capeados de pinheiros, os rios e vales verdes, esses, felizmente, é que não mudaram, nem as pedras, nem os pagodes que ainda emanam ´cheiros´ do poeta imortal. Foram muitos museus percorridos e papelada sem fim consultada. Eu sabia dos livros, mas preferia testemunhos vivos. De tudo fui ouvindo, perguntando, memorizando e anotando.

Para realizar este livro, visitou então numerosos lugares na China. Como correram essas viagens e o que trouxe delas? Quanto tempo lhe levou a realização deste livro?

Trouxe um volumoso bloco de notas que fui ordenando, pesquisando e acrescentando novos elementos, mas sem ainda o impulso para iniciar o trabalho. Foi então que a covid-19 estoirou e veio a ordem governamental que mandou fechar tudo. Eu também me fechei, mas no meu quarto deleitando-me com Li Bai durante cerca de um ano.

Depois de tanto tempo a conviver com ele, com que ideia ficou do poeta e do homem Li Bai?

Digamos que tem um perfil incompleto, quase perdido, mas nele tudo fala, nada esconde: homem de forte personalidade, sensível ao mal alheio, grande espiritualidade, observa a vida ao redor e não poupa críticas através de uma forma subtil. O filme pessoal que tinha pensado apresentar à história, contracenando com figuras heróicas do passado ruiu na estratégia, no idealismo que lhe parecia verosímil e no não aderir aos sistemas corruptos que grassavam na corte Tang, no curto tempo em que lá permaneceu. Granjeou, indiscutivelmente, a simpatia do imperador, num ambiente em que não faltaram oposição e ciúmes, com os quais os círculos do poder o alvejavam. Conquistou amizades e admiração dos seus pares. Morreu com dissabores e frustações. A fama e a arte ficam para a posteridade e a história. Acho interessante a ideia – penso que não é despropositada – de estabelecer um paralelo entre Li Bai e Luís de Camões, não me refiro ao engenho e à arte dos dois, evidentemente. É possível constatar, porém, que fizeram um percurso de vida que se assemelha em alguns aspectos: Camões também lia poemas na corte portuguesa, viajou por mares, enquanto que Li Bai peregrinou pelas montanhas. Ambos lutaram pela causa da pátria, receberam pensão da coroa, ambos foram presos. Li Bai morreu só e frustrado, no limiar de uma nova dinastia, enquanto que Camões viveu seus anos finais na pobreza. Terá dito o poeta luso que morria com a Pátria.
Repara nestes dois poemas:

O teu perfume ficará em mim para sempre,
mas onde andas tu, meu amor?
Suspiro e folhas amarelas caem dos ramos.
Choro e o musgo verde brilha, húmido de orvalho.
Li Bai

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
Luís de Camões

Tem algum método particular para abordar a tradução de uma língua tão distante da portuguesa como o chinês?

Sim. Primeiro, procuro sempre encontrar o contexto histórico-cultural, às vezes físico, em que a poesia foi escrita. Em segundo lugar, faço uma tradução literal palavra a palavra, expressão a expressão. Em terceiro lugar, reescrevo tudo de modo a fazer sentido em português, sem que perca com isso o seu sentido original. Finalmente, procuro sentir o que terá sentido o poeta e volto a reescrever. Nem sempre fico satisfeito com o resultado (risos).

De facto, o seu livro e as notas apresentam, de forma erudita, os contextos em que vários poemas foram escritos. Considera isso fundamental para o entendimento desta poesia?

É preciso contextualizar não só em termos históricos e geográficos, mas também as circunstâncias, os sentimentos, as ideias que os poemas versam. São episódios distintos e ambientados, inseridos na vida do poeta Li Bai. As notas dos poemas, diria, são como o sal que se quer para a comida. Os detalhes eliminam o surreal e enquadram melhor o leitor na compreensão, no alinhamento com os cenários vividos pelo autor. É um tratamento virtual que se dá à leitura poética.

Considera estas traduções poéticas o ponto mais alto da sua carreira de tradutor ou preferia traduzir discursos oficiais e ser intérprete como no tempo em esteve no GCS?

Diria antes que foi um trabalho fascinante e o cumprimento de um propósito que me impusera. É recomendável manter-se sempre activo intelectualmente. Tive oportunidades de praticamente traduzir de tudo e todos. O trabalho profissional deve ser abrangente e o ineditismo circunscreve-se no âmbito da criação que não se deve abdicar. Traduzir e interpretar poemas clássicos chineses sã devera penoso mas empolga o espírito e assoberba a vontade.

Nascido em Macau, assistiu ao final da administração portuguesa e a duas décadas de administração chinesa. Que mensagem gostaria de deixar aos presentes e futuros governantes desta terra? E aos seus conterrâneos macaenses?

Continuo a achar que não podemos cruzar os braços e deixar escoar uma sociedade em que os ventos do Norte sopram cada vez mais fortes, num processo de transformação sem precedentes que acabará (espero que não) por diluir irremediavelmente a identidade e cultura macaenses. Há que atiçar o empenho para garantir que as condições existam; que os ´filhos da terra´ de agora e gerações vindouras possam assumir um papel mais interventor nos diferentes sectores sociais, sem fomentar o individualismo, mas posto ao serviço da sociedade de Macau e da comunidade macaense. O actual critério que rege a atribuição de cargos públicos de responsabilidade de acordo com o ratio étnico-racial da população local julgo que deve ser reconsiderado. Afinal, os portugueses de Macau (naturais e não naturais) são herança de uma história de cinco séculos, não é?

Teve alguns apoios para a realização deste trabalho?

Essencialmente livros de consulta e alguns mestres sinólogos.

Caso IPIM | Powerpoints e problemas técnicos marcam reinício do julgamento

No arranque dos trabalhos, a defesa contestou a utilização de testemunhos com recurso a powerpoints, mas o juiz permitiu um tratamento especial aos agentes do Comissariado Contra a Corrupção

 

O arranque da repetição do julgamento de Jackson Chang ficou marcado por um diferendo sobre a utilização de apresentações em powerpoint pelos agentes do Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) e ainda por problemas técnicos que impediram a tradução simultânea.

Na segunda sessão, o tribunal esteve a ouvir o Ministério Público a tentar provar que Jackson Chang tinha cometido vários crimes de corrupção passiva. A primeira testemunha a depor foi um agente do CCAC, de apelido Chan, que se fez acompanhar por uma apresentação em powerpoint.

No primeiro julgamento, o método tinha sido contestado pela defesa e ontem voltou a acontecer o mesmo. “Não é a primeira vez que a defesa se opõe à utilização do powerpoint. O powerpoint é uma ferramenta que dá para fazer apresentações bonitas, mas o que se pretende são provas e essas temos verificado que são poucas nas apresentações bonitas”, afirmou Rui Moura, advogado de Crystal Chang, filha do ex-presidente do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM). “As testemunhas não podem socorrer-se de apontamentos no depoimento e o powerpoint é efectivamente um apontamento”, acrescentou.

Por sua vez, Álvaro Rodrigues, advogado de Jackson Chang, mostrou-se preocupado com a possibilidade de o investigador do CCAC recorrer a powerpoints feitos para o primeiro julgamento, com referências a outras acusações, como a de associação criminosa, que estão, para já, afastadas. “Espero que a testemunha tenha refeito o powerpoint porque se usar o mesmo que utilizou no dia 26 de Junho de 2020, quando fez a primeira apresentação, há o risco de extravasar o âmbito deste julgamento”, alertou.

Falhas nos ecrãs

Apesar das opiniões contra, o juiz autorizou a utilização do powerpoint. “Se no primeiro julgamento a autorização da utilização de powerpoints foi concedida, o tribunal não vai impugnar agora essa decisão”, justificou o presidente do colectivo de juízes. “Mas não quero que o Ministério Público esteja a discutir e mostrar provas que estão fora deste julgamento”, avisou.

Aprovada a utilização do powerpoint, a sessão prosseguiu com a acusação a tentar provar os crimes de corrupção passiva. Contudo, problemas técnicos levaram a uma interrupção da sessão de praticamente meia hora.

Em causa, esteve uma falha no ecrã das equipas de tradução do tribunal, que impedia que os intérpretes tivessem acesso às provas documentais dentro da cabine. A situação levou a que não fosse possível fazer a tradução simultânea, e o tribunal não teve outro remédio que não fosse suspender os trabalhos.

A suspensão demorou cerca de meia hora e os trabalhos prosseguiram durante o dia com o Ministério Público a tentar provar a tese de que Jackson Chang recebeu subornos, directamente e através da filha.

Eleições | Listas de Jiangmen, Fujian e FAOM foram as que mais gastaram

As três listas que mais gastaram na campanha eleitoral das últimas legislativas estão entre as quatro mais votadas. As contas da comissão eleitoral mostram que a lista de Jiangmen fez mais despesas, seguida das campanhas dos Operários e Fujian. A CAEAL encaminhou para o Ministério Público as contas da lista Aliança Para a Promoção da Lei Básica de Macau

 

A lista União de Macau – Guangdong, que reelegeu Zheng Anting e elegeu a estreante deputada Lo Choi In foi a que maior despesa fez durante a campanha eleitoral, acumulando gastos de 2,67 milhões de patacas, de acordo com o relatório de apreciação das contas eleitorais, publicado ontem pela Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL).

Recorde-se que a lista anteriormente encabeçada por Mak Soi Kun ficou em quarto lugar, um resultado desapontante com menos 406 votos em relação ao sufrágio de 2017, obtendo 16.813 votos. Dividindo o total dos custos da campanha pelo número de votos, calcula-se que cada voto “custou” quase 160 patacas.

Ao longo da campanha eleitoral, as listas que mais gastaram, todas de associações tradicionais, foram as que mais votos conseguiram. A única excepção foi a lista Nova Esperança, liderada pelo deputado José Pereira Coutinho, que gastou um terço das despesas da campanha ligada a Jiangmen e, ainda assim, obteve mais 1.419 votos.

Em segundo lugar no topo dos gastos, surgiu a lista dos Operários, União Para O Desenvolvimento, que elegeu Ella Lei e Leong Sun Iok, com despesas totais de 2,371 milhões de patacas. A lista dos Operários conseguiu 23.761 votos, o que representou o segundo lugar no sufrágio directo para a Assembleia Legislativa.

No poupar está o ganho

A terceira lista mais gastadora, fechando o trio com despesas acima dos 2 milhões de patacas, foi a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, ligada à comunidade de Fujian, a grande vencedora das eleições do ano passado, arrebatando 26.583 votos. A lista que elegeu Si Ka Lon, Song Pek Kei e Nick Lei gastou 2,09 milhões de patacas, num sufrágio que igualou a vitória que já haviam conseguido em 2013. Feitas as contas, por cada voto conseguido, a lista ligada à Aliança de Povo de Instituição de Macau gastou quase 79 patacas.

As listas ligadas à Associação de Bem-Estar dos Moradores de Macau e à Associação Geral das Mulheres tiveram gastos semelhantes, com 1,68 milhões de patacas e quase 1,4 milhões de patacas respectivamente, diferença mínima que se repetiu também no resultado eleitoral.

Uma das listas vencedoras das eleições de 12 de Setembro foi a Nova Esperança, liderada pelo deputado José Pereira Coutinho, que arrebatou o terceiro lugar, com 18.232 votos, e elegeu Che Sai Wang. A campanha da Nova Esperança acumulou despesas de 892 mil patacas, o que representa menos de 49 patacas por voto.

No capítulo dos mais “poupados”, a lista encabeçada por Nelson Kot foi a que apresentou menores despesas, com um total de 212,5 mil patacas. Em relação à votação a lista Poderes do Pensamento Político ficou em quarto lugar a contar do fim, com apenas 834 votos.

Recorde-se que nas últimas eleições, entre um total de 323.907 eleitores inscritos, apenas 137.281 foram às urnas, o que representou 57,62 por cento de abstenção, ou seja, a mais fraca participação eleitoral desde 1992.

Em relação à lista Aliança Para a Promoção da Lei Básica de Macau, a CAEAL relevou que as suas contas “não estão em conformidade com as disposições legais.” A entidade liderada pelo juiz Tong Hio Fong indica que a lista apresentou contas com informações incompletas e não supriu incorrecções dentro do prazo, “não apresentou facturas de algumas receitas e despesas, e aceitou contribuições provenientes de residentes não permanentes da RAEM”. Assim sendo, a CAEAL participou o caso para o Ministério Público.

Idosos | Lo Choi In preocupada com falta de lares

A deputada Lo Choi In considera que, tendo em conta o envelhecimento da população e o aumento da procura por lares, o Governo deve definir um plano de longo prazo que inclua a disponibilização de terrenos para construir lares, residências para idosos e equipamentos sociais.

“O Governo e os serviços competentes devem reservar, no âmbito do planeamento urbanístico, mais terrenos para lares de idosos, de residência para idosos e de equipamentos sociais, mas sem afectar a oferta de habitação pública, com vista a prestar serviços médicos, de enfermagem e reabilitação aos idosos necessitados”, disse durante o período reservado às intervenções antes da ordem do dia.

De acordo com a deputada, existem actualmente em Macau 22 lares para idosos com um total de cerca de 2.500 vagas, que, apesar de oferecerem um tempo de espera “melhor do que o das regiões vizinhas”, não são suficientes, causando “grande sofrimento” aos idosos e às suas famílias.

Consumo | Coutinho preocupado com subida de preços e falta de apoios

O deputado José Pereira Coutinho mostrou-se ontem preocupado com o aumento de preços dos bens essenciais e do custo de vida, quando os rendimentos da população não registaram um crescimento equivalente ao longo dos últimos 20 anos.

O deputado considerou assim que, dado que os desempregados, idosos, trabalhadores e franjas desfavorecidas da população sentem cada vez mais “nos seus bolsos” o aumento do custo de vida, “a classe média está a diluir-se e a tornar-se pobre”.

Por isso mesmo, Pereira Coutinho defende que o Governo deve promover medidas de apoio como a restituição das 7 mil patacas aos idosos do Regime de Previdência Central e o aumento das pensões de aposentação e sobrevivência de idosos. Na mesma linha, a deputada Song Pek kei sugeriu que o Governo lance uma nova ronda do cartão de consumo no valor de 5.000 patacas para “estimular directamente a economia interna”.

Cultura chinesa | Aposta em talentos que “amem a nação”

Os deputados Kou Kam Fai e Pang Chuan sugeriram que o Governo promova os valores da cultura tradicional chinesa na formação de talentos que dominem as bases da sinologia e “amem e sirvam verdadeiramente a nação”.

“Quanto aos ensinos primário e secundário, a educação da cultura tradicional carece de programação global e de espírito substancial, o que vai directamente afectar os trabalhos da RAEM na formação de talentos que dominem os conhecimentos fundamentais da sinologia – recorrer à cultura tradicional para formar talentos que amem e sirvam verdadeiramente a nação”, começou por dizer Kou Kam Fai.

Sem esquecer a diversidade cultural de Macau, o deputado considera que a cultura chinesa se baseia nos princípios de “buscar a verdade a partir dos factos, coexistir com as divergências, ter por base a população, e defender a moralidade e a benevolência”. Tal irá contribuir para “construir uma China orientada pela moralidade e cultura na era moderna”.

Fiscalização | Ron Lam acusa Governo de menosprezar interpelações

Ron Lam teceu ontem duras críticas à forma como o Governo responde às interpelações e solicitações de informações dos deputados da Assembleia Legislativa (AL). Isto, quando em resposta a uma interpelação escrita do deputado, o Governo respondeu “apenas com duas frases” e remeteu as explicações para uma sessão plenária que aconteceu em Janeiro, onde foram apresentadas interpelações orais.

Para Ron Lam, além de isso ser demonstrativo de que o Executivo “não respeita as disposições da Assembleia Legislativa e do Regimento da Assembleia Legislativa”, contribui para prejudicar “a confiança mútua entre o poder administrativo e o poder legislativo”.

“O Governo deve respeitar o poder de fiscalização da AL. A interpelação escrita, a interpelação oral e o pedido de informações são instrumentos importantes do poder de fiscalização atribuído aos deputados pela Lei Básica da RAEM e pelo Regimento da AL. Se o Governo deixar que os seus dirigentes respondam, com menosprezo, às interpelações dos deputados ou se esquivem às informações solicitadas pelos mesmos, a confiança mútua entre os órgãos executivo e legislativo será prejudicada, o desejo do Governo Central de uma interacção positiva entre estes órgãos não será alcançado, e a transparência e a credibilidade do Governo serão também postas em causa”, atirou o deputado.

Frisando que o conteúdo das respostas dadas por alguns serviços públicos “não corresponde às exigências dos deputados”, Ron Lam fez um apelo para que o Governo aceite as opiniões e responda de forma “positiva, activa e responsável” às interpelações e às solicitações de informações dos deputados, tendo em vista a “concretização conjunta de uma boa governação”.

AL | Lei de bases da educação aprovada na especialidade

Foram ontem aprovadas, na especialidade, a alteração à lei de bases do sistema educativo não superior e ao regime do ensino superior e a revisão da lei que proíbe a prestação de alojamento ilegal.

Relativamente à lei que prevê juntar num só fundo autónomo, os fundos do ensino superior, desenvolvimento educativo e de acção social escolar, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Leong U, revelou que, até Junho, será criado um regulamento administrativo para definir regras para atribuir apoios. Isto, após deputados como Ip Sio Kai, José Pereira Coutinho e Ron Lam terem pedido “clarificação” quanto à gestão do fundo.

Já durante o debate que culminou com a aprovação por unanimidade da proposta de lei que proíbe a prestação ilegal de alojamento, o secretário para a Administração e Justiça, André Cheong, disse que “as novas regras e sanções não são 100 por cento eficazes” e, por isso, as suas lacunas serão revistas “se necessário”.

Quarentenas | Pedida melhoria nas reservas e inclusão de hotéis de Zhuhai

As dificuldades dos residentes no regresso a Macau desde Hong Kong marcaram a sessão plenária de ontem. Ma Io Fong e Zheng Anting sugeriram a utilização de hotéis em Zhuhai e um sistema de reservas online. Ip Sio Kai e Ngan Iek Hang querem alargar a fonte de turistas e o apoio às PME para recuperar a economia. Preocupações com o desemprego também marcaram a sessão

 

Com o agravar da situação epidémica em Hong Kong e a vontade que muitos residentes têm, sobretudo estudantes, de voltar a Macau, vários deputados mostraram preocupação sobre a falta de quartos para quarentena no Hotel Tesouro.

Durante a sessão plenária de ontem, Ma Io Fong, Zheng Anting e Ho Ion Sang pediram ao Governo soluções, sugerindo, por exemplo, a possibilidade de residentes de Macau provenientes de Hong Kong ficarem em quarentena em hotéis do Interior da China e o estabelecimento de um sistema de reservas online. Isto, quando quem vem do território vizinho, só pode ficar alojado no Hotel Tesouro e este não consegue dar resposta a todos os pedidos.

Começando por frisar que esta última medida foi “surpreendente” e apanhou a população “desprevenida”, Ma Io Fong pediu que o Governo se esforce para coordenar as medidas “com antecedência” e prepare o pessoal da linha da frente, para “oferecer mais opões de regresso”.

“Compreendo que aos hotéis de observação médica se impõem exigências rígidas quanto às condições físicas e aos recursos humanos. Portanto, é provável que não haja muitos hotéis para o efeito. Sugiro (…) que tomem a iniciativa de reforçar a cooperação com as regiões vizinhas do Interior da China, como Zhuhai, para estudar a possibilidade de os residentes de Macau que regressam de Hong Kong ficarem em quarentena em hotéis do Interior da China, proporcionando-lhes, assim, mais uma opção”, disse durante o período dedicado às intervenções antes da ordem do dia.

Acusando as mesmas preocupações e apontando que o Governo deve tomar a iniciativa de ajudar os residentes que já tinham reservado outros hotéis antes da mudança de política, Zheng Anting sugere a criação de um sistema centralizado de reservas online para marcar quartos para quarentenas. “Na minha opinião, o Governo deve aperfeiçoar a forma de reservar quartos e, por exemplo, criar um sistema de reserva de quartos on-line, destinado exclusivamente à reserva de quartos nos hotéis de observação, para facilitar, com maior precisão e eficácia, a reserva de quartos aos residentes”, vincou Zheng Anting.

Agir agora

Por seu turno, Ho Ion Sang focou a presente situação de Hong Kong como uma espécie de tubo de ensaio para a eventualidade de um surto de grande escala em Macau, sugerindo que o Governo prepare e divulgue o “quanto antes” os planos de resposta a accionar, caso essa realidade se verique. Segundo o deputado, desta forma, haverá camas de isolamento e quartos de quarentena em número suficiente para quem necessitar. “Com a elevada densidade populacional de Macau, se houver propagação na comunidade e um surto em grande escala, as consequências serão inimagináveis”, começou por dizer.

“A sociedade espera que o Governo tome como referência as experiências de outras regiões, avançando, já, com preparativos de contingência para diversas fases, sobretudo em relação aos hotéis de quarentena, camas de isolamento, recursos humanos de saúde, capacidade relativa à testagem, etc., e divulgue, quanto antes, planos de resposta a um eventual surto na comunidade e os respectivos trabalhos de prevenção e combate à pandemia, para dissipar as dúvidas dos residentes”, concluiu.

Ho Ion Sang referiu que o Governo deve também definir, desde já, o local para construir instalações de cuidados comunitários de grande dimensão e de um hospital de campanha “para evitar o colapso do sistema de saúde”.

Apanhar os cacos

Perante o aumento da taxa de desemprego e a degradação do tecido económico de Macau a reboque da pandemia de covid-19 e do ajustamento profundo do sector do jogo, Ip Sio Kai defendeu o alargamento da fonte de turistas.

Por seu turno, Ngan Iek Hang sugeriu que o Governo “reveja a eficácia das medidas de apoio económico” para reforçar o desenvolvimento sustentável das pequenas e médias empresas. O deputado disse esperar, juntamente com a “melhoria da qualidade do turismo”, a implementação de políticas “específicas e sustentáveis”, que permitam “ultrapassar este tempo difícil” e “reforçar a resiliência das empresas”.

Já os deputados Leong Sun Iok e Lei Chan U apontaram baterias à implementação de medidas para garantir o emprego dos residentes. Se por um lado, Leong Sun Iok referiu que o Governo deve ser capaz de aperfeiçoar o mecanismo de gestão de trabalhadores não residentes (TNR) para “para devolver os bons postos de trabalho aos residentes”, Lei Chan U sugeriu o estabelecimento de um limite “de trabalhadores estrangeiros a importar em cada ano”.

Sobre o tema, Ella Lei recomendou que as grandes empresas com necessidades de recursos humanos, como as concessionárias, sejam incentivadas a contratar trabalhadores locais e que as obras públicas sejam obrigadas a recrutar residentes.

Covid-19 | Caso em Tanzhou obriga a oito mil testes e aulas online 

Cerca de oito mil pessoas que moram e trabalham junto às Portas do Cerco terão de fazer testes de despistagem à covid-19 na sequência de um caso positivo detectado em Zhongshan, ao lado de Zhuhai. As aulas presenciais foram suspensas em 46 escolas e instituições do ensino superior com docentes, alunos e funcionários que tenham passado na zona

 

Um novo caso positivo de covid-19 registado no domingo na vila de Tanzhou, na cidade de Zhongshan, ao lado de Zhuhai, vai obrigar à realização de nova uma ronda de testes para quem vive e trabalha na zona das Portas do Cerco. Os testes começaram ontem às 17h e terminam hoje às 12h, e cerca de oito mil pessoas, incluindo moradores do edifício Kong Nam (blocos 1, 2 e 3), edifício Arco-Íris (blocos 1 e 2), edifícios San Nam, Ling Nan, Wa On, Wa Hong, Wa Keong, Wa Fu e Jardim do Mar do Sul (blocos 1 e 2). Quem trabalha junto às Portas do Cerco também tem de submeter-se ao teste de ácido nucleico.

Segundo adiantou Leong Iek Hou, coordenadora do Centro de coordenação e de contingência do novo tipo de coronavírus, haverá dois modelos de teste. O teste gratuito pode realizar-se no primeiro andar do Campo dos Operários, mas serve apenas para rastreio e não para passar a fronteira.

O segundo modelo de teste é pago e o resultado será integrado no código de saúde, o que permite atravessar os postos fronteiriços. “As pessoas que já fizeram o teste hoje em Macau ou Guangdong, ou que fazem esta terça-feira [hoje], não serão sujeitos a esta ronda de testes obrigatórios”, adiantou a responsável.

Além de moradores e empregados em negócios da zona das Portas do Cerco, também deve realizar teste de ácido nucleico quem esteve nos arredores do edifício do posto fronteiriço entre 22 e 27 de Fevereiro, altura em que a pessoa infectada circulou na área.

A mulher que testou positivo é natural do Interior da China e entre os dias 22 e 27 de Fevereiro “deslocou-se várias vezes entre Macau e Zhuhai pelo posto das Portas do Cerco”, tendo realizado vários testes com resultado negativo. As autoridades classificam este como um caso “leve”, sendo a situação “estável”, apesar das medidas preventivas adoptadas.

Até à altura da conferência de imprensa de ontem tinham sido contactadas 28 pessoas, sendo que duas delas são consideradas de contacto próximo. A maior parte das pessoas teve apenas um percurso comum com a pessoa que testou positivo, além de que cinco estiveram nos mesmos locais.

“Ainda não dominamos muitos dados sobre esta senhora. Sabemos que ela esteve em Macau, Zhuhai e Zhongshan. Para já, só vamos fazer testes obrigatórios a pessoas destas zonas. Foi feito um percurso simples em Macau, mais nos arredores da praça das Portas do Cerco, e com um tempo de permanência muito curto. Vamos acrescentar mais sítios ao código de saúde local para ajudar as pessoas a fazer o registo do itinerário”, explicou Leong Iek Hou.

Aulas online

Outra das medidas preventivas é a suspensão das aulas presenciais, a partir de hoje, em 46 escolas e instituições do ensino superior que têm alunos, docentes ou funcionários que tenham passado na vila de Tanzhou nos últimos dias.

“Os alunos passam a estudar em casa e a avaliação será flexível. Caso a situação se mantenha estável, a data das aulas será divulgada posteriormente”, disse Luís Gomes, Chefe do Departamento do Ensino Não Superior dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

Em causa estão cerca de 300 pessoas. “A medida envolve 46 escolas e cada uma tem uma situação diferente. Não temos números concretos de alunos e professores de cada escola que estiveram em Tanzhou. Ainda precisamos de contactar as escolas para conhecer a situação concreta”, adiantou o mesmo responsável. Não há, para já, alterações das regras na passagem da fronteira na zona das Portas do Cerco. Também não está prevista nova ronda de testes a toda a população, mas caso tal venha a ser necessário as autoridades adiantaram estarem preparadas para fazer 340 mil testes diários.

Bloqueio a Gongbei

Um vídeo divulgado ontem à tarde no grupo de Facebook “Golden Macau”, mostra um grupo das seguranças bloquearam a estrada em frente da Plaza Fronteiriça de Gongbei, o acesso principal para entrar em Zhuhai vindo do posto fronteiriço das Portas do Cerco. Das imagens recolhidas pelo internauta consegue-se ler a informação “não é permitido entradas ou saídas”.

À procura de hotel

Um responsável da Direcção dos Serviços de Turismo adiantou ontem que continuam os contactos com unidades hoteleiras do território para receber pessoas em quarentena. “Estamos a contactar com o número máximo possível de hotéis para entrarem no plano de observação médica. Neste momento, as pessoas vindas de Hong Kong e Singapura têm de fazer quarentena no Hotel Tesouro, enquanto que as pessoas vindas de Taiwan têm à sua disposição três hotéis.” As autoridades frisam que o mais importante para travar eventuais surtos comunitários é “controlar as fronteiras”, além de ser feito “um controlo bastante exigente das mercadorias vindas de zonas de médio e alto risco”. Existe ainda “uma capacidade rápida de identificação dos possíveis meios de transmissão” do novo coronavírus.

Hong Kong | Novo recorde diário com 34 mil novos casos

As autoridades de Hong Kong registaram ontem um novo recorde diário de infecções de covid-19 com o registo de 34 mil casos. Além disso, foram reportadas 124 mortes devido à doença.

Segundo o canal de rádio e televisão de Hong Kong RTHK, Albert Au, responsável pelo Centro para a Protecção de Saúde, disse ser “preocupante a crescente tendência de infecções, uma vez que o número de casos continua a duplicar a cada dois ou três dias”.

Até ontem foram diagnosticadas com covid-19 um total de 190 mil pessoas, só neste último surto, sendo que as autoridades vão abrir mais cinco clínicas apenas para tratar este tipo de doentes.

Nesta altura operam na região vizinha 14 clínicas privadas que ajudam a aliviar a pressão que se vive nos hospitais. De frisar que, na última sexta-feira, a região já tinha atingido a fasquia inédita de dez mil novos casos, depois de superar seis mil ao longo da semana.

O número de mortos fixou-se na última semana numa média de cerca de 50 por dia, sendo que muitos deles são idosos não vacinados. O Executivo de Carrie Lam anunciou planos para testar todos os 7,4 milhões de habitantes, no próximo mês.