Informática | Si Ka Lon quer que Macau use mais software chinês

Si Ka Lon defende que o Governo e as empresas de Macau devem utilizar cada vez mais programas informáticos desenvolvidos no Interior da China ou localmente, por motivos de segurança informática. A posição foi tomada pelo deputado de Fujian em resposta à falha informática causada pela actualização do programa CrowdStrike, que afectou o sistema operativo Windows.

Numa interpelação escrita, o deputado espera que o Governo faça um balanço sobre a utilização de programas informáticos desenvolvidos na China, e pede os planos do Governo para garantir que o software chinês é sempre preferido face aos programas informáticos de outros países. Na perspectiva de Si Ka Lon, o incidente mostrou que o software chinês é mais seguro, e também que é cada vez mais importante adoptar aplicações “desenvolvidas de forma independente” para evitar problemas de segurança e proteger os dados dos utilizadores.

Si Ka Lon pediu ainda ao Governo que apresente um projecto para adoptar medidas de segurança informática, com objectivos a curto, médio e longo prazo. De acordo com o legislador, este plano de segurança deve ser elaborado tendo em conta das tendências informáticas mais recentes.

Lai Chi Vun | Ma Io Fong questiona obras após gastos de 42 milhões

Em Setembro do ano passado, o Governo anunciou a abertura dos estaleiros de Lai Chi Vun, após obras que custaram 42 milhões de patacas. Agora, o espaço volta a encerrar para novas obras. O deputado Ma Io Fong questiona a necessidade de gastar mais dinheiro

 

A realização de novas obras nos estaleiros navais de Lai Chi Vun, menos de um ano depois de terem sido gastos 42 milhões de patacas, está a gerar polémica. Numa interpelação escrita, o deputado Ma Io Fong, ligado à Associação Geral das Mulheres de Macau, questiona o Executivo e indica que não entende a necessidade de realizar obras mais uma vez.

Recentemente, o Executivo anunciou que os lotes X11 e X15 dos estaleiros navais de Lai Chi Vun foram encerrados a 1 de Junho para “obras de melhoramento”. Porém, Ma recorda que os lotes abriram em Setembro do ano passado, depois de outras obras que custaram 42 milhões de patacas. “As obras de melhoramento foram lançadas menos de um ano das obras iniciais, qual é a necessidade de realizar as obras mais recentes?”, questiona. “Estas obras servem para optimizar a estrutura original? Ou pertencem a um novo planeamento para a zona?”, insiste.

O deputado questionou igualmente a coordenação entre o Governo e a concessionária Galaxy, responsável pelo plano de revitalização e promoção dos estaleiros navais.

Na perspectiva do deputado, o plano sobre as obras mais recentes, anunciadas pela concessionária prevêem a criação de uma zona verde, espaços recreativos, artísticos, desportivos e ainda para as famílias. Porém, Ma Io Fong aponta que estes planos têm vários aspectos em comum com o que tinha sido previsto para as obras anteriores.

Muitas dúvidas

Na interpelação, o deputado indica que inicialmente estava previsto que todos os trabalhos de revitalização dos estaleiros ficassem concluídos até 2026. Como tal, quer saber se as novas obras vão empurrar esta data para uma altura posterior.

Por outro lado, o legislador não compreende porque serão feitas obras novamente nos lotes X11 e X15, quando os lotes X3, X5 e X10 estão por restaurar. “Agora foram lançadas novamente obras para os lotes X11 e X15, que já tinham sido melhorados. Porque vão lançar novas obras nestes lotes, em vez de nos lotes X3, X5 e X10?”, pergunta. “A sociedade está a prestar atenção ao calendário de revitalização”, assegurou.

Ma Io Fong destacou igualmente que o Governo deve garantir que a revitalização corresponde às expectativas da sociedade, em termos da preservação das características e das estruturas dos estaleiros navais de Lai Chi Vun.

Além disso, como os lotes X11 e X15 só vão ser abertos no fim do ano, o deputado deseja que o Governo apresente um plano para que a reabertura possa acontecer gradualmente, antes do tempo previsto.

Rodrigo Brum, ex-secretário-geral-adjunto do Fórum Macau: “Grande Baía é da máxima importância”

Depois da experiência no Fórum Macau, Rodrigo Brum está à frente da nova Câmara de Comércio e Indústria dos Países de Língua Portuguesa na Grande Baía. Sobre o projecto, defende mais divulgação e que os países lusófonos invistam em bloco para materializar a verdadeira expressão do seu peso económico

 

O projecto da Grande Baía foi anunciado em 2017. Tem havido a evolução certa ou há ainda muito a fazer, no relacionamento com Macau?

Evolução, para mim, é sempre algo positivo. Obviamente, que estes anos incluíram dois ou três de covid-19, e há que ter isso em conta. Considero que o sucesso de Macau está ligado ao sucesso da Grande Baía.

Estão interligados.

Sim. Em certa medida, até o sucesso da própria China. Há três grandes projectos de iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, da qual todos ouvem falar porque tem sido lançado nos últimos dez anos. Além disso, tem um carácter mais internacional porque atravessa vários países e continentes, e envolve infra-estruturas e financiamentos em inúmeros países. Em Macau todos falam da Grande Baía, mas em Portugal quase não se ouve falar do projecto. Mas os dois estão muito interligados, porque a China vê a Grande Baía como o fornecedor de produção para a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. Portanto, o comércio que vai surgir com a “Faixa e Rota”, tem como base muito do sucesso e produção que resultar da Grande Baía.

Considera que o sul da China continua a ser um vector de dinâmica económica.

É efectivamente. Mas há ainda uma terceira iniciativa chinesa que é o Fórum Macau. Essa é a ponte de ligação das outras duas iniciativas aos países de língua portuguesa. Mesmo em Macau, há um pouco o desconhecimento destas várias realidades e da interligação entre eles. Em relação à própria Grande Baía, já nos anos 90, no período de administração portuguesa, e eu fiz parte desse processo, falávamos muito no delta do rio das pérolas como aquele triângulo entre Cantão, Hong Kong e Macau, a fim de valorizar a posição de Macau com estas duas regiões. Vale notar que em 1 por cento de área da China, ocupada pela Grande Baía, temos cerca de 5 por cento da população, aproximadamente 86 milhões de habitantes, mas temos 11 ou 12 por cento do PIB (Produto Interno Bruto) chinês. Estamos a caminhar para 15 por cento, e esse é, de facto, o motor da China.

Que explicação encontra para estas estatísticas?

Por ser a área mais dinâmica do país, que tem maior crescimento de PIB da China. Quando, em 2019, arrancámos com este projecto, numa das primeiras vezes que falei deste assunto referi dez por cento de PIB, o que já era significativo. Esse dinamismo traduz-se no facto de o PIB naquela área, que tem uma dimensão significativa, terá uma expressão cada vez maior. Isto demonstra que a área da Grande Baía é de máxima importância na China, empresas e países que querem fazer negócio com o país. Este projecto não tem ainda a divulgação equiparada ao peso e importância que realmente tem. Relativamente aos países de língua portuguesa, a Grande Baía é também uma área importante, como é para todos os países. Estes países têm um interesse ainda maior tendo em conta que a China determinou que Macau é o elo de ligação com os países de língua portuguesa. Não é o único ponto e nem é obrigatório que se use Macau [como plataforma comercial), mas há uma decisão política no sentido de privilegiar o território nesse sentido. Então, há essa vantagem.

São países desiguais em termos económicos, e também o serão em matéria de investimento. Como se podem reduzir esses desequilíbrios?

Não queria fazer propaganda das minhas funções (risos), mas tenho de falar da nova Câmara de Comércio e Indústria dos Países de Língua Portuguesa (PLP) na Grande Baía. Essa foi a razão de ser dessa Câmara, dado existir uma desigualdade muito significativa entre as diferentes velocidades e dimensões dos diversos países. Desde logo, o Brasil que representa 75 a 80 por cento do comércio do bloco dos países portugueses com a China, percentagem essa que tem vindo a aumentar. O segundo país é Angola, com cerca de 15 por cento do comércio, mas desequilibrado, pois as exportações incidem no petróleo; e depois os restantes sete países que andam ali entre cinco a seis por cento. O conceito de PLP não está, aliás, devidamente clarificado nem é facilmente reconhecido pelas pessoas, sendo confundido muitas vezes com o termo PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). É importante perceber que há um núcleo de países que representam a quarta ou a quinta língua mais falada na Internet e o idioma mais falado do hemisfério sul, pelo que seria importante que o conceito de PLP fosse tão facilmente identificado como é o de PALOP ainda hoje [anos depois da sua criação].

Mas voltando às desigualdades. Como se podem combater?

Uma das formas é o funcionamento em conjunto. Criando organizações de âmbito comercial e económico que articulem estes nove países de forma englobada, porque para os PLP, se estiverem cada um a negociar com a China, é absolutamente insignificante para o país. Mas até para a Grande Baía é insignificante, para um importador em Xangai por exemplo. Mas se for feito em conjunto gera-se uma força maior para negociar com a China. Os PLP devem apoiar-se uns aos outros e funcionar de forma articulada. Isso também é vantajoso para a China, que não tem que passar pelas dificuldades de relacionamento com as pequenas economias e produções. Deve-se dialogar de forma quase bilateral entre o bloco dos PLP e a China. Há documentos chineses que falam nesta relação bilateral e não multilateral.

Ainda não se pensa em bloco?

Pensa-se ainda muito pouco, e é preciso que organizações como esta nova câmara de comércio venham a conseguir com que os PLP se articulem. Isso não invalida que haja situações em que países com especificidades não tenham de articular com os outros, como é o caso do Brasil que exporta soja em grandes quantidades para a China e tem um mercado e comércio externo com o país muitíssimo desenvolvido, e com um peso significativo para a própria China. Na questão do petróleo temos Angola. Mas na maioria das situações há vantagens em trabalhar em conjunto. São Tomé e Príncipe já foi um dos seis maiores produtos mundiais de cacau, mas Angola ou a Guiné Equatorial, por exemplo, também produzem e podem exportar. Se houver um desenvolvimento destas indústrias, a sua posição face a mercados como o chinês seria vantajosa.

Macau consegue responder aos desígnios da China na prestação de serviços para a plataforma comercial? Há, por exemplo, muitos entraves para a contratação de pessoas de fora.

Macau tem ainda muito trabalho a fazer para poder cumprir cabalmente os desígnios que lhe são estabelecidos no âmbito da Grande Baía, e que são orientações de Pequim. Estou certo que os responsáveis sabem ainda o longo caminho que têm de percorrer, e é importante que o façam rapidamente e com dinamismo. Em Novembro do ano passado, nas comemorações do Fórum Macau, fiz algumas sugestões, tendo falado na possibilidade de contratações de técnicos ou talentos, como se diz em Macau, dos PLP, sem receios de que haja uma avalanche de gente a ir para Macau. Falamos de não haver qualquer receio em aceitar dezenas de especialistas, alguns com formação feita até em universidades de Macau, mas que sendo dos PLP podem mais facilmente fazer a ponte e acelerar a dinâmica de relacionamento entre a China e os PLP. Falamos de nove países, se forem dezenas de cada país, são umas meras centenas de pessoas. Que bom seria para Macau se tivéssemos umas 200 ou 300 pessoas qualificadas no território. Isso não causava qualquer perturbação ao mercado laboral local.

Os próprios delegados do Fórum Macau perderam a residência, por exemplo.

Isso é posterior ao meu tempo no Fórum, li notícias sobre o caso, e foi encontrada uma solução. Não foi sei exactamente o que aconteceu. No meu caso, entro sem problema porque sou residente permanente.

Esteve em Macau nos anos 90, nomeadamente no Parque Industrial da Concórdia, além de ter trabalhado com o secretário adjunto para a Economia e Finanças. O futuro passava já pela integração regional.

O projecto da Sociedade do Parque Industrial da Concórdia, que já sofreu alterações, era muito anterior à minha presidência da entidade. Quando assumi a presidência do parque não estavam sequer as infra-estruturas completas, não passava de um aterro em Coloane, com uma componente industrial e imobiliária, sendo esta maior. Eram 13 hectares que ainda lá estão. O parque correspondia a um terço da dimensão desse aterro destinado à zona industrial. Quando saí tinha contratualizado todos os lotes do parque industrial e respectivas infra-estruturas. Essas indústrias ainda lá estão, não sei se estão operacionais.

Mas o sector industrial poderia ter mantido alguma expressão na economia?

Não é fácil. Já no tempo da Administração portuguesa a diversificação era palavra de ordem. É evidente que a dimensão que o jogo tomou, especialmente após 2006, absolutamente espectacular, tornou esta concentração mais agradável do que no tempo da Administração portuguesa. O jogo nesse tempo tinha sempre cerca de 50 por cento de peso no que diz respeito aos impostos recolhidos aos casinos. Se já havia a pressão com a diversificação, maior é agora, contando que Macau venha a ter também uma economia virada para o turismo de conferências e realização de eventos. Continuará a ser necessário apostar na diversificação e até em termos de serviços, articulado com o projecto da Grande Baía.

Que comentário faz a propósito da VI Conferência Ministerial do Fórum Macau?

É importante que tenha sido relançada a actividade que o fórum vinha desenvolvendo nos últimos anos de forma crescente. Houve naturalmente uma repercussão dos anos de paragem devido à pandemia, acrescido do facto de que houve um adiamento na realização da conferência e definição de novas medidas. Mas estas são muito importantes especialmente se tivermos em conta que essas medidas são sempre para cumprir. Com maior ou menor impacto, até à realização da próxima Conferência Ministerial, essas medidas estarão implementadas e é importante que empresas e países analisem e aproveitem as oportunidades que são transmitidas através dessas medidas.

África nossa

LIXEIRAS de materiais electrónicos e metais venenosos têm aumentado exponencialmente pelo mundo fora, sobretudo na África e nos países do Indo-Pacífico. Segundo o relatório publicado na semana passada pela ONU, o ritmo médio anual de crescimento dos resíduos electrónicos foi de 30 por cento entre 2010 e 2022, mostrando que os antigos impérios coloniais, além de continuarem a explorar as suas possessões perdidas para a independência formal, donde importam as suas matérias primas a muito baixo preço, também as utilizam como depósito final para os televisores, computadores, telemóveis e todo o tipo de máquinas de funcionamento electrónico que deixaram de servir.

Os africanos que em 2023 geraram, em média, por pessoa, 0,44kg de resíduos electrónicos recebem parte substancial dos 3,25kg que cada indivíduo produz no mundo desenvolvido.

Informa o relatório da UNCTAD que “os países em desenvolvimento suportam a maior parte dos custos ambientais da digitalização, ao mesmo tempo que colhem menos benefícios. Exportam matérias-primas de baixo valor acrescentado e importam dispositivos de elevado valor acrescentado, a par de um aumento dos resíduos digitais. (…) Constituídos por poluentes orgânicos e metais pesados como o mercúrio e o chumbo, os resíduos de equipamentos eléctricos e electrónicos são classificados como perigosos pela Convenção de Basileia.”

Em janeiro de 2023, a polícia espanhola desmantelou uma rede que exportou ilegalmente mais de cinco mil toneladas de resíduos electrónicos da Europa para a África Ocidental, através das Canárias.

A Comissão Europeia calcula que, dos dois mil milhões de toneladas de resíduos produzidos pelos países da União Europeia (95 milhões considerados perigosos), entre 15% e 30% são exportados ilegalmente por organizações criminosas para países da África, América Latina e Sudeste Asiático. Da exportação legal, que é muito mais volumosa, nada diz.

Compreende-se…

*

Quando a escravatura foi abolida, houve países que se endividaram para pagar indemnizações, mas apenas aos proprietários de escravos. O que veio a seguir foi o trabalho forçado, que teve práticas diferenciadas em todo o ex-império português e culminou com o massacre da Baixa do Cassange, no sul de Angola, no dia 4 de janeiro de 1961.

Aí, cansados das condições de trabalho impostas pela companhia Cotonang, com apoio do governo da colónia portuguesa, milhares de trabalhadores angolanos dos campos de algodão lançaram-se num levantamento popular. A revolta foi brutalmente reprimida, tendo sido assassinados milhares de trabalhadores. Ainda hoje não se sabe quantos.

A Cotonang e as autoridades coloniais perpetraram então o que ficou para a História como o Massacre da Baixa de Cassange. Tratava-se de uma companhia luso-belga que obteve uma concessão para plantio de algodão nessa região e forçava os camponeses a cultivarem as fibras, sem receberem salário ou a vendê-las por um preço irrisório-

Os agricultores não tinham salário ou eram forçados a vender a sua produção por um valor muito abaixo do preço no mercado mundial. A obrigação de plantar algodão impedia as famílias de cultivarem seus próprios alimentos.

O poeta Arlindo Barbeitos, que lutou pela independência no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), descreve assim esta situação:

“As pessoas eram obrigadas a plantar algodão e era absolutamente indiferente que houvesse colheita de milho, massambala (sorgo), batata-doce, mandioca, feijão, aquilo que as pessoas comiam. Não importava, a colheita do algodão tinha que ser garantida. E o algodão só podia ser vendido a uma determinada empresa que tinha o monopólio, as balanças eram falseadas e o preço era baixíssimo. Se não produzissem o algodão devido, eram espancados. Isso são coisas que eu vi.”

Na revolta, os agricultores destruíram plantações, pontes e casas. A colônia reagiu enviando aviões da Força Aérea Portuguesa, que lançaram bombas sobre as pessoas. O número de mortes varia de mil até dez mil agricultores.

*

Fiquei com a pedra no sapato, ao ver o que substituiu a tão antiga, renovada e readaptada realidade da escravatura e, hoje, com o pé a doer cada vez mais, não descansei enquanto não fui mergulhar sem preconceitos óbvios nem certezas ingenuamente adquiridas nesse mar podre onde Gilgameche, Homero, Vigílio, Santo Agostinho, Averróis, Petrarca, Loyola, Camões, António Vieira, Fernando Pessoa e Hermano Saraiva, ministro de um ditador beirão e contador de histórias na TV, fizeram proliferar e repartir as águas por baleias, bacalhaus, sardinhas e medusas e alforrecas, com golfinhos de circo a entreter as academias e os patriotas da historiografia.

Quase me engasguei ao tentar saborear uma palavra que em absoluto desconhecia, chibalo, e até comecei por admitir que podia ser uma gralha arreliadora, já que tem uma fonética muito próxima um étimo moderno caçado aos espanhóis e muito em uso entre os jovens, chavalo. Provavelmente, 99,999 por cento dos humanos existentes nos dois hemisférios terrestres sabem tanto como eu sabia dos chibalos, aqueles infelizes que foram postos a substituir os escravos e os escravizados nas minas e nas plantações dos impérios coloniais.

Trata-se, afinal, segundo a Wikipédia, de “um conceito de servidão por dívida ou trabalho forçado no Ultramar Português (as províncias ultramarinas portuguesas na Ásia África), mais notadamente em Angola e em Portugal (ao contrário dos outros impérios europeus do século 20, as possessões portuguesas deixaram de ser consideradas legalmente colónias pela revisão constitucional de 1951, passando a ser designadas como províncias ultramarinas, parcelas de pleno direito do Estado Português, como forma de atenuar a pressão internacional para a descolonização). Em 1869, os portugueses aboliram oficialmente a escravatura, substituindo o escravo pelo chibalo foi usado para construir a infraestrutura das províncias africanas, pois apenas colonos portugueses e assimilados recebiam educação e estavam isentos deste trabalho forçado.”

Apesar de um pouco arrevesada, esta tradução wikipédica para o português, dá jeito utilizá-la, assim como a citação que faz do professor Motsomi Marobela: “No coração do colapso da agricultura na África Austral estava um desagradável sistema tributário colonial – o imposto sobre cabanas. Foi a introdução desse imposto que criou o que Marx chamou ’exército de reserva de trabalho’ e, que foi barbaramente explorado pelo capital de mineração. Foi esse trabalho forçado que trabalhou plantações e minas coloniais. Assim, de acordo com Seddon (2002), ‘o termo chibalo ou xibalo foi usado comumente na África Central e do Sul a partir do final do século XIX para descrever uma variedade de formas opressivas de trabalho introduzidas pelos europeus.’ Em Botsuana, por exemplo, diz-se que os homens que partiram para as minas sul-africanas foram para o makgoeng (para os brancos) por um período de seis meses como trabalhadores migrantes. Parte de seus pequenos ganhos foi para pagar o imposto. Mas as consequências de tal migração de mão de obra coagida foram profundamente prejudiciais para as economias nativas, que eram principalmente agrárias.”

Com Salazar, o chibalo foi usado em Moçambique para cultivar algodão, sendo “a Companhia do Niassa um exemplo do tipo de empresas que poderiam florescer desde que tivessem acesso a uma força de trabalho não remunerada. O investimento estrangeiro nas províncias ultramarinas portuguesas foi banido para que Portugal se beneficiasse diretamente. Todos os homens de idade adequada tiveram que trabalhar nos campos de algodão, que, por isso, se tornaram inúteis para a produção de alimentos, levando à fome e desnutrição.”

O chibalo substituiu a escravidão que apenas tinha sido abolida “em 1901, uma mera década e meia antes do final dos cinco séculos que abrangem o Império Português. No entanto, enfrentou forte oposição desde o final do século XIX de colonialistas e empresários portugueses, nomeadamente Theodorico de Sacadura Botte”, nas então províncias de Marracuene e Magude.

CCM | Orquestra de Macau toca com pianista japonês

Decorre este sábado, a partir das 20h, mais um concerto de música clássica no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM). Trata-se de do espectáculo de encerramento da temporada da Orquestra de Macau (OM), intitulado “Explorando Limites”, que conta com o jovem pianista japonês Nobuyuki Tsujii.

Segundo uma nota do Instituto Cultural (IC), o concerto será dirigido pelo director musical e maestro principal da OM Lio Kuokman. Já Nobuyuki Tsujii é tido como um pianista de renome internacional. O concerto irá apresentar a obra “Concerto para Piano nº 3 em Ré Maior”, do russo Sergei Rachmaninoff, traçando-se, assim, “um ponto final perfeito para a presente temporada [da OM], com os tocantes timbres de piano”.

O pianista japonês Nobuyuki Tsujii nasceu com deficiência visual, mas “possui um talento extraordinário na música”. Em 2009, aos 20 anos, venceu o prémio de ouro do Concurso Internacional de Piano Van Cliburn, considerado um dos concursos de piano mais difíceis do mundo, tornando-se o primeiro vencedor de nacionalidade japonesa na história desse prémio e o primeiro pianista com deficiência visual que alguma vez venceu em concursos internacionais de piano.

Depois desse marco, o pianista publicou vários álbuns e cooperou com diversas orquestras sinfónicas de ponta do mundo.

Além do solo de Nobuyuki Tsujii, com a composição de Rachmaninoff, a OM vai tocar “Suite Lago dos Cisnes”, de Pyotr Tchaikovsky, proporcionando “um final perfeito para a temporada de concertos com melodias líricas e românticas”.

Os bilhetes para este espectáculo já estão à venda e custam 80 patacas, disponibilizando-se um desconto de 25 por cento para quem faça parte do grupo de amigos da OM.

Cinemateca | Filme de Éric Rohmer exibido hoje

Numa única exibição, incluída na secção “TGIF – Exibição de Sexta à Noite”, é apresentado hoje, a partir das 20h, na Cinemateca Paixão, o filme “Conto de Verão”, do conhecido realizador francês Éric Rohmer. Visualizado o filme, será altura de uma festa de degustação de vinho francês com uma sommelier

 

Corria o ano de 1996 quando Éric Rohmer, realizador francês, rodou “Conto de Verão”, filme integrado numa série de quatro intitulada “Contos das Quatro Estações”. É uma película que gira em torno das ideias do ser e não-ser, o desejo ou a ausência dele. O terceiro filme desta série pode ser hoje visto na Cinemateca Paixão, na Travessa da Paixão, perto das Ruínas de São Paulo, incluído na secção “TGIF – Exibição de Sexta à Noite”.

Esta é a história de Gaspard, que vai de férias para o litoral, encontrando-se com Lena, a sua namorada. Enquanto espera que ela chegue, conhece as amigas Margot e Soléne, sendo que cada uma delas representa algo que Gaspard aprecia: a amizade, dada por Margot, e Soléne, a promessa de paixão e sensualidade, que busca um compromisso sério com Gaspard. Segundo a sinopse do filme, Lena, a verdadeira namorada, representa o amor verdadeiro. Mas quando esta chega ao local combinado para as férias, o rapaz tem de escolher entre as três mulheres.

Este é um dos quatro “Contos das Quatro Estações”, da autoria do famoso realizador francês Éric Rohmer. Nascido em Nancy a 4 de Abril de 1920, Rohmer foi, além de realizador de cinema, crítico de filmes, guionista e jornalista, sendo tido como uma das grandes personalidades da chamada “Nouvelle Vague” francesa. Editou também a prestigiada revista de cinema “Cahiers du Cinema”.

Não lhe faltam prémios atribuídos nos mais reputados festivais de cinema internacionais, tendo feito a sua primeira curta-metragem em 1950, “Journal d’un scélérat”. Nove anos depois realizou a sua primeira longa-metragem, “Signo del León”.

Segundo a biografia do realizador disponibilizada na plataforma de “streaming” Filmin, “o cinema de Eric Rohmer caracteriza-se pela sua simplicidade e agudeza intelectual, em climas de profunda empatia com os ambientes nos quais se desenvolve a acção e com os personagens que definem o sentido moral de cada uma das suas histórias”.

Rohmer foi nomeado em 1970 para o Óscar de Melhor Filme não falado em Inglês, pela sua longa-metragem “Mi Noche con Maud”. No ano seguinte o filme foi candidato ao melhor guião original.

A série “Contos das Quatro Estações” arrancou em 1990, focando-se “nas relações humanas, das quais o amor é o principal protagonista e o engano”. O realizador é ainda autor de filmes como “O Bom Casamento”, “Noites de Lua Cheia” e “A Mulher do Aviador”, entre outros.

Vinho para rematar

Visualizado o filme de Rohmer, é altura dos interessados provarem vinho francês numa sessão acompanhada por uma sommelier, à semelhança de outros eventos já organizados na Cinemateca Paixão.

Para hoje será a vez de Lauryn, “apaixonada por vinhos”, apresentar um Domaine Gramenon l’Emouvante 2011, da região vinícola do Ródano, em França. Segundo a descrição feita pela organização do evento, Lauryn trabalhou como administradora de bar e fez um curso de WSET, na área dos vinhos e bebidas espirituosas. Além disso, trabalha como designer gráfica.

Itália | PM Giorgia Meloni em visita oficial de cinco dias à China

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, vai realizar uma visita oficial de cinco dias à China a partir de sábado, anunciou ontem Pequim.

“A convite do primeiro-ministro, Li Qiang, (…) a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, efectuará uma visita oficial à China entre os dias 27 e 31 de Julho”, disse a porta-voz da diplomacia chinesa, Mao Ning, em comunicado.

A visita surge após Roma ter abandonado a iniciativa Faixa e Rota, o principal programa da política externa de Pequim, sinalizando uma mudança de postura face à China. Meloni optou por não renovar o acordo com Pequim por mais cinco anos, em Dezembro passado. No entanto, o Executivo italiano espera salvaguardar as relações com a segunda maior economia do mundo.

A Iniciativa Faixa e Rota inclui a construção de portos, linhas ferroviárias ou autoestradas, criando novas rotas comerciais entre o leste da Ásia e Europa, Médio Oriente e África.

O maior relacionamento entre Pequim e os países envolvidos abarca um incremento da cooperação no âmbito do ciberespaço, meios académicos, imprensa, regras de comércio ou acordos financeiros, visando elevar o papel da moeda chinesa, o yuan, nas trocas comerciais.

Lançada em 2013, pelo Presidente chinês, Xi Jinping, a iniciativa simbolizou uma mudança na política externa da China, de um perfil discreto para uma postura mais assertiva, visando moldar o cenário internacional. Itália era o único país do G7, grupo que reúne algumas das maiores economias do mundo, que assinou um memorando de entendimento no âmbito do programa chinês.

Gaemi | Tufão dirige-se para leste do país após provocar mortes em Taiwan e Filipinas

O tufão Gaemi está a dirigir-se para o leste da China, depois de ter atravessado Taiwan, onde matou duas pessoas, e de ter provocado deslizamentos de terras nas Filipinas que resultaram em seis mortos.

A forte tempestade, acompanhada de ventos violentos e chuvas fortes, obrigou na quarta-feira a ilha de Taiwan a cancelar alguns dos seus exercícios militares anuais, a encerrar escolas e escritórios e a retirar milhares de pessoas de zonas com elevado risco de deslizamento de terras.

A tempestade, que se dirige para a província de Fujian, no leste do continente chinês, causou inundações no sul de Taiwan. Várias cidades, incluindo Taipé, anunciaram que as escolas e serviços públicos permanecerão encerrados pelo segundo dia consecutivo. A bolsa de valores também esteve encerrada ontem.

O tufão matou duas pessoas e feriu mais de 200 outras antes mesmo de atingir a costa. De acordo com as autoridades, um motociclista foi esmagado por uma árvore que caiu em Kaohsiung, e uma condutora morreu quando destroços caíram sobre o seu carro na província de Hualien, leste de Taiwan.

As rajadas de vento mais fortes que acompanharam o Gaemi atingiram 190 km/h quando o tufão se dirigiu para Taiwan, o que levou os meteorologistas a afirmarem que este seria provavelmente o tufão “mais poderoso” a atingir o território nos últimos oito anos.

Antes de atravessar a ilha autónoma, o Gaemi atingiu o norte das Filipinas na quarta-feira. Aí, intensificou a monção típica desta altura do ano, provocando inundações nas ruas de Manila.

Alasca | Bombardeiros estratégicos russos e chineses em patrulha

A acção conjunta das forças chinesas e russas foi acompanhada parcialmente por aviões norte-americanos e canadianos. A patrulha durou cerca de cinco horas

 

Bombardeiros russos e chineses realizaram uma patrulha conjunta na junção dos continentes asiático e americano, não muito longe do Estado norte-americano do Alasca, sem violar o espaço aéreo nem visar “terceiros”, afirmaram Pequim e Moscovo.

Os bombardeiros foram interceptados por aviões norte-americanos e canadianos, revelou o Comando Norte-Americano de Defesa Aeroespacial (NORAD).

De acordo com um comunicado do Ministério da Defesa russo, “um grupo constituído por bombardeiros estratégicos TU-95MS das Forças Aeroespaciais russas e bombardeiros estratégicos Xian H-6K da Força Aérea chinesa efectuou uma patrulha conjunta sobre o Mar de Chukchi, o Mar de Bering e a parte norte do Oceano Pacífico”.

A China disse que a patrulha conjunta com a Rússia perto do Alasca não visou “nenhum país terceiro”.

“Esta acção não visa terceiros, está em conformidade com o direito internacional e não tem nada a ver com a actual situação internacional e regional”, declarou Zhang Xiaogang, porta-voz do Ministério da Defesa chinês, acrescentando que a patrulha “testa e melhora o nível de cooperação entre as duas forças aéreas”.

Com companhia

O ministério russo afirmou que “combatentes de governos estrangeiros” tinham acompanhado o grupo “em certas etapas da viagem” e que a patrulha durou mais de cinco horas.

“Durante o voo, as tripulações russas e chinesas, numa nova área de operações conjuntas, trabalharam em questões relacionadas com a cooperação em todas as fases de uma patrulha aérea”, disse o ministério russo.

Anteriormente, o NORAD, composto pelo Canadá e pelos Estados Unidos, indicou que os caças norte-americanos e canadianos avistaram e interceptaram dois TU-95 russos e dois H-6 chineses. Os bombardeiros “não entraram no espaço aéreo americano ou canadiano” e a sua actividade não foi “considerada uma ameaça”, acrescentou a NORAD.

As intercepções de aviões russos são relativamente frequentes nesta zona. Moscovo e Pequim, que visam contrapor a ordem liberal, liderada pelos EUA, realizam agora regularmente este tipo de exercícios conjuntos noutras zonas do Pacífico.

Os bombardeiros estratégicos têm capacidade para efectuar ataques nucleares e convencionais a longa distância.

No domingo, a Rússia declarou ter enviado caças para impedir que dois bombardeiros estratégicos norte-americanos atravessassem a sua fronteira sobre o Mar de Barents, no Ártico.

Na segunda-feira, o Pentágono advertiu contra uma cooperação mais estreita entre a Rússia e a China no Ártico, numa altura em que as alterações climáticas estão a abrir a região a uma maior concorrência pelas rotas marítimas e pelos recursos.

Curso Médio do Changjiang (长江中游)

Nos 6363 km, o rio Longo (Changjiang), também conhecido por Yangtzé ou Yangzi, está dividido em três secções, o Curso Superior do Changjiang (长江上游) com 4504 km de comprimento, desce das nascentes da montanha de Tanggula (唐古拉山) nos planaltos de Qinghai-Tibete e termina em Yichang (宜昌), província de Hubei. Aí se inicia o Curso Médio do Changjiang (长江中游), com 955 km de comprimento até Hukou (Jiujiang, no Jiangxi), tomando o rio o nome Jingjiang entre Yichang e Yueyang.

A viagem de barco de Yichang a Wuhan leva 22 horas e passa por Yidu, onde o rio Qing desagua no Jingjiang, depois aparece na margem esquerda Jingzhou, cidade antiga muralhada, centro militar com muita história e na mesma margem está Shashi, directamente controlada por o governo provincial de Hubei. Servira já no Período dos Reinos Combatentes (475-221 a.n.E.) de porto ao reino Chu e foi um dos quatro portos abertos aos japoneses em 1895.

Navegando para Sul em Hubei chegamos a Yueyang, na parte Leste do Norte da província de Hunan, onde o rio toma a direcção Nordeste e de novo por Hubei vai à capital Wuhan, a meio da parte navegável do Changjiang. Daí, até chegar à pequena cidade industrial de Jiujiang, são treze horas.

Desde Wuhan, o curso das águas desce para Sudeste, passa por Huanggang, Huangshi e ainda em Hubei por Wuxue (武穴市, até 1987 Guangji), tendo na margem oposta, já na província de Jiangxi, Niuguanji (牛关矶), em frente às quais o Changjiang regista a sua maior profundidade natural com 103m, considerada como as águas mais profundas de um rio no mundo.

De novo a Norte da província de Jiangxi, agora em Jiujiang, localizada na margem direita do rio, onde pouco depois se encontra a boca do lago Poyang [este, com 3585 km² de superfície é o terceiro maior da China, sendo de água doce].

Na península em frente à de Jiujiang fica Hukou, considerado um bairro nos arredores da cidade, onde se iniciam os 938 km do Curso do Baixo Changjiang (长江下游) até desaguar no Mar do Leste da China, Oceano Pacífico.

DE BARCO ATÉ NANJING

Numa viagem de cerca de vinte horas, na continuação da descida feita de barco desde Chongqing, em Jiujiang rumámos para Nanjing.

O navio de grande calado está dividido por andares e zonas, mediante o número de camas por cabine. Assim a segunda classe, a corresponder à primeira devido à não existência dessa categoria, é de cabines para duas pessoas com todo o tipo de conforto, alcatifa, televisão, quarto de banho privativo, mesa, poltronas e varanda com as melhores vistas para o exterior. Mediante o tamanho do barco, nessa classe podem existir duas, quatro, ou seis cabines, mas então raramente ocupadas pois o preço dobra em relação à classe seguinte. Já na terceira classe, o número também varia, podendo dispor de cabines de seis, oito, ou doze camas em beliches. Um lavabo e uma televisão juntam-se a uma mesa e à garrafa termos, constituindo o mobiliário de cada um desses cubículos, onde uma pequena janela redonda dá acesso a uma das margens.

A quarta classe é de cabines sob a forma de corredores entre dezasseis a trinta e duas camas em beliche, tendo além do lençol, uma toalha, almofada e um cobertor. A quinta classe dá simplesmente acesso ao barco, com bancos corridos num amplo compartimento, mas sem cama as pessoas dispersam-se pelos corredores e locais de mercadorias, ou ainda no convés, quando o clima permite.

Os vários quartos de banho e retretes compartimentadas por paredes baixas são constantemente limpos à mangueirada. Existem dois restaurantes de classes distintas, embora ambos com preços acessíveis, sendo o de melhor qualidade transformado à noite em sala de karaoke e discoteca.

Pouco tempo depois, apareceram os paquetes de luxo a fazer cruzeiros, elevando a qualidade às excursões turísticas. Arrumadas as malas, vamos à varanda e percebendo poder ter outra vista, subimos as escadas até ao andar superior.

Do outro lado do rio, um imenso número de grandes batelões passa e é quando na margem nos apercebemos de um porto de carga. Os estaleiros mais à frente, assim como o porto da marinha chinesa só verdadeiramente os vemos já o barco navega Rio Longo acima. Comboios de barcos cruzam vagarosamente, pois mais de uma dezena de barcos atrelados são puxados por um rebocador com o mesmo tamanho, deixando-os livres para o transporte de carga.

Após Jiujiang, o Wanjiang [assim chamado o rio entre Jiujiang e Wuhu] vira agora para Nordeste e já na província de Anhui, na margem esquerda os lagos vão até Anqing. Na margem direita aparece Guichi e no lado esquerdo Tongling, seguindo-se Wuhu e por fim Ma’anshan, na fronteira entre Anhui e Jiangsu.

Chegados a Nanjing ao cabo de vinte horas, atracamos junto à ponte rodoviária e de comboios construída em 1968. Está Nanjing (a Capital do Sul) em total remodelação, com as grandes avenidas, anteriormente cobertas por árvores, escavadas para a construção de modernos viadutos e mais tarde, de novo para o metro. As pessoas mais velhas olham tristes a demolição das casas, sentindo-se órfãs da cidade que lembra os 50 anos da invasão japonesa. Prepara-se agora afincadamente para o século XXI.

Sem atenção prestada ao trajecto desde Jiujiang, após visitar Nanjing, com vontade de sentir a experiência do lento navegar rio acima, rumamos de volta, para ter o deslumbre do sulcar as águas numa lassidão sem relógio.
Saindo de um dos cais a jusante da ponte rodoviária e de comboios de Nanjing, o barco passa primeiro por uma povoação da qual não sabemos o nome e alguém depois informou ser Ma’anshan, já a Leste da província de Anhui, pois ali termina Jiangsu.

Após 90 km de viagem aparece a povoação de Wuhu, seguindo-se Tongling na margem esquerda e Guichi [desde 2000 Chizhou], onde o barco atraca. Dão-nos meia hora para visitar terra, o tempo necessário para descarregar a mercadoria trazida a abastecer a região. Do cais, subindo as escadarias de pedra a levar à pequena povoação, somos atraídos por um som de altifalante. Em cantata, sem nenhum instrumento musical a tocar senão a voz, a atenção é chamada para uma ruela em frente ao muro do porto.

Seguimos atrás daquela música estranha e encontramos um aglomerado de pessoas concentradas em torno de uma figura tauísta, personagem de aspecto descuidadamente rural, com um gravador. Virado para um pano colocado no muro canta enquanto aponta com uma vara os caracteres escritos. Traz um acto de ópera teatralizado pela dicção dada, sonoridade cuja língua de uma melodia fora da do mandarim vibra ao coração, apesar de nada ter de terno. No chão, um plástico retira da lama o gravador e as cassetes vendidas a 5 yuan.

Gostamos da música e a cena fica-nos na mente. Daí comprar a k7 e sem pedirmos desconto cobra-nos 4 yuan. Anos mais tarde ouvimos este músico na rádio, cujo nome não sabemos, pois a caixa da cassete nem capa traz.
De novo no barco, as pessoas sem dele saírem compram laranjas a uma pequena embarcação nele encostado. Seguimos viagem e após Anqing, deixando Anhui entramos na província de Jiangxi. No cruzamento destas duas com Hubei e pouco antes de chegar a Jiujiang, o Changjiang toma o nome de rio Xunyang.

Em Jiujiang, à saída do porto encontramos as ruas transformadas em feiras, sendo o número de restaurantes elevado. Por estar perto a cidade da porcelana, Jingdezhen, resolvemos voltar a visitá-la e de autocarro partimos para percorrer os 150 km feitos em seis horas de estrada. A viagem é interrompida a meio, pois temos de mudar para uma barcaça afim de atravessar o lago Poyang, próximo da foz com o rio Yangtzé.

Um cabo aéreo conduz o barco, mais parecido com um grande contentor sem tampa, permitindo a travessia a pessoas e carros. Na outra margem, um autocarro espera para nos levar a Jingdezhen. Daí, a porcelana era escoada pelo rio Chang em pequenos barcos até ao Yangzi, de onde entrando pelo Grande Canal desde o século XV seguia para a capital Beijing. Agora [imagem de 1991 a 1995] o rio Chang serve de refúgio aos barcos-casa onde famílias inteiras habitam, alguns abrigados por a ponte. Falta agora percorrer o Curso do Baixo Changjiang (长江下游) até Xangai.

TSI | Anulada sanção aplicada pelos Serviços de Saúde

O Tribunal de Segunda Instância (TSI) anulou uma advertência aplicada a um médico local, por considerar que não ocorreu qualquer violação dos deveres médicos. A decisão desfavorável aos Serviços de Saúde (SS) foi divulgada ontem pelos tribunais.

O médico foi visado pelos SS, depois da clínica onde trabalhava, e onde era um dos administradores, ter contratado uma médica de Hong Kong, que não estava habilitada a desempenhar as funções em Macau.

Apesar do médico não ter o poder de decisão na gestão da clínica, os SS entenderam que na condição de médico “não fez uma boa gestão do estabelecimento”, pelo que foi considerado que violou o dever de “desempenhar com zelo e competência a profissão e aperfeiçoar continuadamente os seus conhecimentos científicos e técnicos”.

O médico não se conformou com a decisão e levou o caso para o tribunal. Num primeiro momento, a sanção foi anulada pelo Tribunal Administrativo. Todavia, os SS decidiram recorrer para o TSI, que confirmou a decisão anterior.

No entender dos juízes do TSI, o médico não deve ser sancionado com recurso ao regime para fiscalização os médicos, porque a falta de zelo que lhe é imputada pelos SS prende-se com as funções de gestor da clínica. “O que está em causa é a conduta decorrente da cedência do espaço da clínica para o exercício de actividade não licenciada e, portanto, a violação do dever de boa gestão do estabelecimento que não se enquadra, de todo, no exercício da actividade médica”, foi decidido.

O TSI também destacou que médico não era o proprietário da clínica. E mesmo que fosse, a haver qualquer sanção esta devia ser aplicada ao abrigo do regime para as “entidades proprietárias de clínicas” e não ao abrigo do regime para os médicos.

Camboja | Secretário do Comércio em Macau para promover investimento

O Camboja está a planear a criação de um centro de comércio privado em Macau, para promover o potencial de comércio e investimento, indicou o Governo de Phnom Penh.

Na segunda e terça-feira, o secretário de Estado do Ministério do Comércio, Seang Thay chefiou uma delegação que visitou o local onde será estabelecido o centro de comércio cambojano. De acordo com o Ministério, o objectivo é promover a exportação e divulgação de produtos cambojanos para os mercados estrangeiros, assim como dar a conhecer as oportunidades de comércio, investimento, turismo e cultura do Camboja.

Durante a visita, Thay reuniu-se com o presidente do Fundo de Investimento Regional de Hengqin e gestores de duas empresas privadas.

Nessas reuniões, o governante cambojano apresentou o ambiente empresarial, os potenciais sectores de investimento, as condições favoráveis de que o Camboja beneficia enquanto país menos desenvolvido e incentivou essas empresas a comprar produtos agrícolas do Camboja. O governo de Phnom Penh indica que uma das empresas manifestou interesse em criar uma unidade de transformação de mobiliário para exportação, utilizando matérias-primas importadas, e outra confirmou que estudaria a possibilidade de adquirir alguns produtos do Camboja.

Comércio | Joalharias Chow Tai Fook com quebras de 41%

O negócio das lojas de Joalharias Chow Tai Fook de Macau registaram quebras anuais de 41,3 por cento no primeiro trimestre do ano. No segundo trimestre, o valor global das vendas a retalho de Macau e Hong Kong caíram quase 30 por cento. O grupo fechou mais de 90 lojas no Interior da China

 

Numa declaração enviada na terça-feira à Bolsa de Valores de Hong Kong, o grupo das Joalharias Chow Tai Fook reporta quebras anuais de vendas em Macau de 41,3 por cento no primeiro trimestre do ano, a pior performance do grupo em termos regionais. Já no segundo trimestre, o valor global das vendas a retalho de Macau e Hong Kong sofreu quebras de 28,8 por cento e representou 12,2 por cento dos negócios do grupo.

O grupo de cita “desafios macroeconómicos que continuam a causar impacto no consumo”, assim como “a volatilidade dos elevados preços do ouro” como razões para “contratempos na procura de produtos de joalharia em ouro, um fenómeno transversal a toda a indústria”.

Em Hong Kong, onde o grupo empresarial tem 68 joalharias os negócios caíram 30,8 por cento, face ao período homólogo.

No Interior da China, o grupo destaca as performances de lojas em franchising e lojas operadas pelo grupo, ambas com quebras anuais de 19,1 e 26,4 por cento, respectivamente, no primeiro trimestre do ano.

“No que diz respeito à gestão da nossa rede de retalho, as prioridades actuais são maximizar a saúde financeira global da nossa carteira de pontos de venda, com enfoque na produtividade e rentabilidade das lojas, e manter a nossa liderança no mercado. Durante o segundo trimestre, optimizámos a rede de retalho e encerrámos 91 pontos de venda no Interior da China”, adianta o grupo aos seus accionistas.

Minerais essenciais

Apesar das quebras gerais, os preços médios de compras de joalharia de ouro aumentaram em Macau, Hong Kong e Interior da China no segundo trimestre deste ano. Na China, o preço médio fixou-se em 6.200 dólares de Hong Kong (HKD), em Macau foi de 8.400 HKD e Hong Kong 8.900 HKD.

Em relação a pedras preciosas, a comunicação do grupo indica que o seu consumo é por natureza mais discricionário e moderado nas actuais condições de mercado. Neste caso, apesar de o volume total de vendas ter caído, o preço médio das compras subiu para 8.600 HKD no Interior da China, 16.400 HKD em Hong Kong e 16.700 HKD em Macau.

Os resultados das Joalharias Chow Tai Fook são um reflexo da crise que o sector atravessa, também verificado nas estatísticas da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos. Na passada segunda-feira, foram divulgados os resultados do inquérito de conjuntura ao comércio a retalho referente a Maio, que revelou quebras anuais de negócios de 25,9 por cento. A queda foi empurrada sobretudo pela fraca performance dos negócios do sector que a DSEC designa como dos relógios e joalharia, que caíram 34,9 por cento em termos anuais.

Sheraton | Hotel vai ser substituído pela marca Londoner Grand

O novo hotel no The Londoner deverá começar a operar a partir de Dezembro e vai ter 1.500 suites. No próximo ano, o presidente da Las Vegas Sands acredita que as receitas brutas do jogo vão ficar acima dos 241,4 mil milhões de patacas

 

Até ao final do ano, a marca Londoner Grand vai substituir a Sheraton no empreendimento turístico The Londoner, no Cotai. A revelação foi feita ontem por Robert Goldstein, presidente Las Vegas Sands, empresa-mãe da concessionária que controla os casinos-hotéis Sands, The Londoner, The Venetian e The Parisian.

Na apresentação dos resultados do segundo trimestre da Las Vegas Sands foi revelado que o futuro hotel Londoner Grand deverá começar a operar em Dezembro e vai disponibilizar 2.405 quartos. Esta é uma redução face ao número de quartos oferecidos pelo Sheraton, que se cifrava em 3.968 unidades.

No entanto, o Londoner Grand vai ter 1.500 suites, o que significa um aumento face às 360 suites disponibilizadas antes das obras.

Robert Goldstein deixou igualmente um voto de confiança ao mercado do jogo de Macau. Numa fase em que as receitas brutas têm vindo a crescer gradualmente, – desde o início do ano até Junho aumentaram 41,9 por cento – o presidente das Las Vegas Sands previu que no final de 2025 as receitas vão ultrapassar a barreira dos 30 mil milhões de dólares americanos” o que significa 241,4 mil milhões de patacas. “Acredito que as receitas brutas do jogo vão ultrapassar os 30 mil milhões de dólares americanos no próximo ano, e continuar a crescer ano-após-ano”, afirmou Robert Goldstein.

Melhor que há um ano

Em relação às operações de Macau, contabilizadas na empresa Sands China, os números mostram uma melhoria face ao segundo trimestre do ano passado.

No que diz respeito ao total das receitas líquidas da Sands China, o valor cifrou-se em 1,75 mil milhões de dólares americanos (14,1 mil milhões de patacas), o que representa um aumento de oito por cento face ao período homólogo.

Ao mesmo tempo, o lucro líquido da Sands China entre Abril e Junho deste ano fixou-se nos 246 milhões de dólares americanos (1,98 mil milhões de patacas), o que representou um aumento face aos 187 milhões de dólares americanos (1,50 mil milhões de patacas) do período homólogo.

Também os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização ajustados por empreendimento mostram uma melhoria de três por cento face ao ano passado. No entanto, neste capítulo, em relação ao primeiro trimestre houve uma redução de três por cento do valor.

Na apresentação dos resultados da Las Vegas Sands foi explicado que o desempenho da concessionária foi afectado pelas obras que decorre no empreendimento The Londoner, e que se espera que tal seja ultrapassado com o início do novo ano.

IAS / Idosos | Iniciado processo de verificação de subsídio

Desde o início da segunda quinzena deste mês que o Instituto de Acção Social (IAS) desenvolve os trabalhos de verificação da situação dos idosos aptos a receber subsídio. De acordo com os números oficiais, este ano vai ser verificada a situação de aproximadamente 600 idosos.

O processo de verificação é iniciado com o envio de uma carta para os beneficiários do subsídio. Estes, podem depois “actualizar e confirmar os seus dados pessoais mediante o preenchimento do formulário, enviando, posteriormente, os respectivos documentos ao IAS juntamente com uma cópia do BIR”. As formalidades de verificação podem igualmente ser concluídas através da aplicação Conta Única de Macau.

O Subsídio para Idosos é atribuído aos residentes permanentes com mais de 65 anos. A distribuição do montante vai acontecer em Outubro no valor de 9 mil patacas por idoso. “Neste ano, o subsídio de 9.000 patacas será atribuído em Outubro, prevendo-se que o número dos beneficiários seja mais de 100.000 pessoas”, indicou o IAS.

Com base nos números oficiais, o Subsídio para Idosos implica um gasto do orçamento da RAEM de 900 milhões de patacas. De acordo com o IAS, o subsídio tem “o objectivo de demonstrar a sua atenção para com os idosos”.

DSAL | Feiras de emprego com 190 vagas em Agosto

A Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) irá organizar três sessões de feiras de emprego, disponibilizando um total de 190 vagas, nos dias 2 e 6 de Agosto, para os sectores da hotelaria, aviação, segurança e limpeza.

Segundo um comunicado divulgado ontem pela DSAL, as inscrições para as três sessões abrem hoje e os interessados podem inscrever-se no website da DSAL até ao meio-dia de 1 de Agosto.

A primeira sessão está marcada para a manhã de 2 de Agosto, daqui a uma semana, com a oferta de 109 vagas para o sector da aviação para os cargos de agente de segurança do aeroporto. Na parte da tarde, será a vez do sector da segurança e limpeza, com a oferta de 62 vagas, para supervisor da secção de limpeza, chefe de guarda de segurança, guarda de segurança, empregado de limpeza e jardineiro. As duas sessões vão decorrer no Edifício da FAOM, na Rua da Ribeira do Patane nº 2-6.

No dia 6 de Agosto, de manhã e à tarde, será a vez do sector da hotelaria, numa sessão que disponibiliza 19 vagas para chefe do serviço de atendimento ao VIP, agente de atendimento ao cliente do Resort, assistente de recepção, agente de serviços de marketing por telefone, recepcionista e alfaiate de uniforme. Estas sessões vão decorrer no Hotel Grand Lisboa Palace.

Saúde | Programa de alimentação saudável atrai 88 restaurantes

O programa “Alimentação Saudável”, lançado pelos Serviços de Saúde desde 2018, conta este ano com 88 restaurantes. Na lista, constam espaços como os Café Alves, Subway, Lavish Pizza, Café Terra e restaurantes de Yum Cha. Responsáveis pelos restaurantes dizem que a procura por alimentação saudável está a aumentar

 

Em 2018, os Serviços de Saúde lançaram o programa “Alimentação Saudável”, criado em colaboração com o sector da restauração para incentivar o conceito de “menos sal, menos açúcar, menos gordura, mais vegetais e grãos integrais”. Este ano, as autoridades revelam que contam com a participação de 88 restaurantes neste programa, muitos deles oferecendo uma ementa que está longe de ser a mais saudável.

Na lista, constam vários restaurantes que oferecem opções saudáveis, como lojas de takeaway Prep’d, Habitbox, Nami Poké e os Café Terra. Porém, na lista de aderentes aparecem muitos cha chaan tengs (cafés cantoneses onde os fritos e molhos são omnipresentes), muitos restaurantes de yum cha (incluindo da famosa cadeia Va Fung Dim Sun), o mítico Restaurante Federal, assim como os restaurantes da cadeia Café Alves, as lojas da Subway, a Lavish Pizza, lojas de bubble tea e sobremesas.

A lista inclui também o restaurante do antigo Instituto de Formação Turística de Macau. Os critérios para entrar no programa obrigam o estabelecimento a fornecer regularmente, no mínimo, cinco pratos “Alimentação Saudável”.

Por exemplo, a Subway tem enfrentado escândalos sucessivos devido aos produtos que vende. Um dos mais recentes foi parar aos tribunais, depois da empresa ser processada por afirmar que vendia atum em sanduíches, algo que não foi verificado em análises laboratoriais. Também o pão foi alvo de polémica devido aos elevados níveis de açucares, mais apropriados para pertencer à classe de produtos de confeitaria do que produtos panificados. A existência de químicos no pão, também usados em tapetes de ioga, esteve na origem de outro escândalo recente da cadeia de lojas de sanduíches. Apesar deste historial, as lojas da Subway de Macau estão no programa “Alimentação Saudável” do Governo.

Saúde na moda

Em declarações ao jornal Ou Mun, a presidente do Grupo de Alimentação e Bebidas Alves, Eugenia Lao Alves, afirmou que os seus restaurantes oferecem 26 pratos saudáveis, dando prioridade aos produtos frescos, menos sal, menos açúcar, menos gordura e nutrição equilibrada. A responsável pelo grupo de Cafés Alves afirmou que, apesar da boa resposta e elogios dos clientes às opções mais saudáveis da ementa, os 26 pratos saudáveis ocupam apenas 10 por cento do volume de negócios da cadeia.

Ainda assim, Eugenia Lao Alves aposta nos pratos mais leves, mesmo que representem custos elevados que implicam na confecção, através do lançamento de promoções com preços semelhantes aos pratos comuns.

A responsável sugeriu também ao Governo a organização de campanhas de divulgação da alimentação saudável em cooperação com o sector da restauração.

Por seu turno, o director do Grupo de restauração Va Fung, Lok Kam Meng, afirmou que o seu grupo oferece mais de 10 pratos saudáveis nas ementas de yum cha e nos outros restaurantes de comida cantonense do grupo. O responsável não tem dúvidas de que a população tem cada vez mais cuidado com a saúde e a alimentação, e que as opções mais saudáveis dos menus têm aumentado de popularidade. Lok Kam Meng garante que o grupo Va Fung vai continuar a criar pratos em que o foco está na frescura dos ingredientes e no controlo de custos.

O restaurante SaladHey que se situa na NAPE, entrou no programa “alimentação saudável” há meio ano. Com uma oferta baseada em saladas, como o nome indica, o responsável do restaurante, Chan Fat Tim, recordou que nos últimos anos, a popularidade dos pratos saudáveis aumentou 20 por cento no volume de vendas, o que revela o potencial do negócio.

Leong Hong Sai afirma em Zhuhai que quer túnel entre Barra e Wanzai

O deputado Leong Hong Sai defende que o Governo deve avançar com a construção do túnel pedonal entre a Barra e Wanzai, em Zhuhai. A opinião do deputado foi divulgada após as autoridades de Zhuhai terem anunciado a intenção de avançar com um projecto, que tinha sido recusado pelo Governo de Macau em 2020.

Segundo o deputado dos Moradores, é preocupante que actualmente a ligação entre a Barra e o Porto da Lapa (Wanzai) apenas seja feita por barco. Leong defende que para uma distância tão curta, que aponta ser inferior a 600 metros, devia haver uma alternativa. “A construção do túnel é desejável porque além de evitar que a ligação deixasse de ser feita devido ao mau tempo e a tufões, também traria maior conveniência a residentes e turistas”, argumentou.

A construção de um túnel entre a Barra e a Lapa voltou a ser discutida, depois de no início deste mês o Departamento de Recursos Naturais de Zhuhai publicar um relatório sobre o projecto. No documento é indicado que o projecto está a avançar, e que será construído um posto fronteiriço para circular entre as regiões.

Confusão instalada

Leong Hong Sai é o primeiro deputado a defender publicamente a construção do projecto. O outro legislador a debruçar-se sobre o assunto foi Leong Sun Iok, deputado dos Operários.

Numa opinião partilhada com o Jornal do Cidadão, o deputado apelou ao Governo para ponderar o impacto da construção no trânsito de uma das zonas mais congestionadas de Macau, assim como as consequências para os trabalhadores dos barcos que fazem a travessia naquela zona.

O Governo de Macau ainda não tomou uma posição sobre o assunto. Contudo, na interpelação divulgada ontem, Leong Hong Sai avisou ainda as autoridades locais que é preciso criar uma plataforma para divulgação dos projectos da Grande Baía, para que se “evitem rumores” e confusões, como a que está actualmente instalada à volta do túnel pedonal.

Feira de Marca | Secretário destaca maior presença de Guangdong

Foi ontem inaugurada mais uma edição da Feira de Produtos de Marca da Província de Guangdong e Macau. O secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong, destacou, no seu discurso, que esta é a “maior edição da feira de sempre”, tendo como tema principal a inovação.

“A edição deste ano introduziu, pela primeira vez, três novos elementos ou temas, como equipamentos e serviços hoteleiros, equipamentos inteligentes e tendências nacionais”.

Lei Wai Nong sublinhou o facto de, pela primeira vez, o número de empresas expositoras de Guangdong ter atingido 70 por cento do número total de empresas. O secretário lembrou que Macau e Guangdong “sempre desempenharam um importante papel de porta que abre tanto para a realidade nacional como para a comunidade internacional”. Assim, a feira “tem sido uma plataforma de exposição fundamental para as empresas de ambas as regiões mostrarem ao exterior os seus produtos de qualidade e explorarem oportunidades de negócio”, declarou o governante.

O secretário não esqueceu a ligação do evento ao projecto da Grande Baía, permitindo “mostrar ao mundo mais produtos de marca e de qualidade com grande competitividade e inovação”.

Trabalho | Acidente mortal leva Ngan Iek Hang a questionar Governo

O deputado dos Moradores pede ao Governo que reforce a consciencialização sobre segurança no trabalho, depois de um trabalhador ter sofrido uma queda em altura fatal, quando substituía um ar-condicionado no exterior de um prédio

 

Ngan Iek Hang quer saber as medidas que estão a ser adoptadas para aumentar a consciência da sociedade para as necessidades de segurança no trabalho. Foi através de uma interpelação escrita que o deputado reagiu ao acidente deste mês, em que um trabalhador perdeu a vida, após cair de um edifício, quando substituía um ar-condicionado.

De acordo com o deputado dos Moradores, nos últimos anos têm sido desenvolvidas várias actividades de promoção da segurança no trabalho pelo Executivo. Contudo, o legislador indica que “continuam a registar-se muito acidentes em obras de construção”. Neste sentido, defende “que é necessário reforçar a publicidade e promoção” sobre as medidas de segurança.

O deputado pretende saber o que tem sido feito pelo Governo nos últimos tempos: “Se olharmos para as estatísticas de segurança e saúde no trabalho no portal da Direcção de Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), podemos ver que existem muitos cursos de formação e educação em matéria de segurança e saúde no trabalho. Qual é a proporção de trabalhadores e empresas de engenharia de construção que participaram neste tipo de cursos?”, questiona. “Como se pode atrair mais empresas para participarem nestes cursos de formação e educação?”, pergunta.

Ngan Iek Hang destaca ainda que a segurança nos trabalhos em altura se tornou uma “questão pública”, pelo que pretende que o Governo explique o que vai ser feito para promover a segurança entre as Pequenas e Médias Empresas (PME). O legislador sublinha também ser fundamental explicar as ferramentas de segurança disponíveis para os trabalhos em altura, e a sua forma de funcionamento.

Aposta nos vídeos

Ngan Iek Hang propõe ainda que as autoridades “considerem organizar e produzir” mais materiais de promoção, como vídeos online, de forma a “responder ao acidente dos últimos dias”.

Além disso, o membro da Assembleia Legislativa sugere um aumento das fiscalizações nos estaleiros, para assegurar que as medidas de segurança são “cumpridas de forma rigorosa”. “Será que podem realizar mais inspecções aos equipamentos de protecção individual para melhorar a sensibilização geral para a segurança?”, interroga. “Será que estas inspecções podem ser realizadas de acordo com as particulares de cada actividade e das diferentes indústrias?”, acrescentou.

No documento partilhado ontem com os órgãos de comunicação social, Ngan Iek Hang sugere também que o Governo avance para uma revisão dos panfletos sobre segurança no trabalho, principalmente no que diz respeito aos trabalhos em altura.

Foi a 13 de Julho que um trabalhador não residente perdeu a vida, quando substituía um ar-condicionado. Suspeita-se que o homem terá prendido a corda de segurança a um dos braços do apoio do ar-condicionado, que acabou por ceder, provocando a queda.

CPLP | Destacado progresso da Guiné Equatorial no português

Decorreu na sexta-feira passada a 29ª reunião ordinária do conselho de ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, da qual Macau é observador consultivo. Das decisões destaca-se os progressos da Guiné Equatorial no ensino e dinamização do português e a necessidade de intercâmbio entre escolas na área da língua portuguesa

 

Foi desde o início uma questão polémica. A Guiné Equatorial, país na África Central liderado há décadas por Teodoro Obiang, passou a fazer parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em 2014, sem que a população falasse português, ou que o idioma fosse língua oficial. Na grande maioria, as línguas mais comuns são o fangue e o pidgin inglês, enquanto o espanhol e francês são línguas oficiais.

Porém, ligações históricas a Portugal, que remontam ao século XV, foram determinantes para a decisão.

Segundo as conclusões da última reunião do conselho de ministros da CPLP, decorrida em São Tomé e Príncipe no passado dia 19, os membros “congratularam-se com todos os esforços na expansão da língua portuguesa na Guiné Equatorial, que contou com o apoio inestimável do Camões, I.P. [Camões – Instituto da Cooperação e da Língua], e do Brasil”.

Estes esforços passaram, segundo o comunicado oficial das conclusões publicado no portal da CPLP, pela “revisão dos currículos de ensino, a criação de uma licenciatura em Língua Portuguesa na Universidade Nacional, a introdução da disciplina de Português no ano lectivo de 2024/2025”. O país apostou também na “formação de funcionários e membros do Governo em leitura e compreensão do Português, bem como o intercâmbio de funcionários do Governo com São Tomé e Príncipe (30), Cabo Verde (40) e Angola (40)”.

Além disso, foi realizada “uma campanha de recolha de livros e manuais em língua portuguesa, que contou com a solidariedade do Governo português e o apoio de todos os Estados-Membros, para a dotação de obras neste idioma nas escolas e bibliotecas da Guiné Equatorial”. O país africano desenvolveu ainda “acções concretas adoptadas para fortalecer o pilar económico da CPLP”, e que terão contribuído para “a integração económica entre os Estados-Membros e para o desenvolvimento sustentável do país”.

Os membros “congratularam-se” também pela passagem do décimo aniversário de adesão do país como membro de pleno direito da CPLP, algo que aconteceu na X Conferência de Chefes de Estado e de Governo, realizada, em Díli, Timor-Leste, a 23 de Julho de 2014.

Na reunião da passada semana participaram os ministros dos Negócios Estrangeiros e Relações Exteriores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e ainda o Secretário Executivo da CPLP. Macau, não sendo país, mas tendo o português como língua oficial, é apenas membro consultivo da CPLP através de “comissões temáticas”, neste caso duas, levadas a cabo pela Universidade de São José e do Instituto Internacional de Macau.

A fim de melhor integrar a Guiné Equatorial na entidade de matriz política, fez-se um programa de apoio. Nesse contexto, os membros destacaram ainda, na reunião do dia 19, “o esforço [da Guiné Equatorial] do planeamento da nova etapa de cooperação e pelo alargamento da designação dos ‘Pontos Focais’ para todos os sectores de cooperação”.

Além disso, o país africano solicitou a realização do “Seminário de Capacitação dos Pontos Focais Nacionais”, que decorreu nos dias 9 e 10 de Julho deste ano em Malabo, capital da Guine Equatorial, com o apoio do Brasil. Este evento visou “reforçar o conhecimento e a capacidade técnica dos pontos focais sectoriais nacionais no acompanhamento e aprofundamento da cooperação nas respectivas áreas de competência”.

Tratou-se de uma iniciativa que contribuiu “para a efectiva participação da Guiné Equatorial nas diversas reuniões estatutárias e para a concretização da nova etapa do processo de plena integração”. O país nomeou ainda o primeiro secretário permanente para a CPLP, Pedro Ela Nguema Bea, indicado pelo Senado do país. Recorde-se que muito recentemente a Guiné Equatorial passou a estar representada no Fórum Macau no contexto da adesão à CPLP.

A língua é um país

Uma vez que a CPLP aborda várias áreas, que passam pela segurança alimentar, ensino, ambiente e defesa, entre outras, o conselho de ministros abordou pontos relacionados com o ensino e dinamização do português.

Uma das iniciativas abordadas foi o projecto-piloto intitulado “Rede de Escolas Amigas da CPLP”, tendo sido reconhecidos “os notáveis progressos na implementação”.

Numa resolução própria, foi ainda encorajado “o secretariado executivo, em colaboração com os Estados-Membros, o IILP [Instituto Internacional da Língua Portuguesa] e demais parceiros, a prosseguirem com determinação os esforços para a boa conclusão do projeto piloto da Rede de Escolas Amigas da CPLP, visando a sua posterior generalização”.

A ideia integrar mais “estabelecimentos de ensino de todos os níveis, de todos os Estados-Membros da CPLP, bem como de países terceiros, particularmente aqueles com estatuto de observadores associados da CPLP”.

Foi ainda pedido um olhar mais atento às “potencialidades do Fundo Especial para o apoio na realização de projectos e iniciativas” no âmbito desta Rede, tal como “concursos de escrita criativa (no âmbito do) Dia Mundial da Língua Portuguesa, programas de conversa com escritores e as Olimpíadas de Matemática da CPLP”.

O projecto “Rede de Escolas Amigas da CPLP” foi lançado no ano passado e visa, entre vários objectivos, promover a língua portuguesa, acolhendo escolas do ensino primário ao secundário e em regime técnico-profissional, públicas ou privadas. Actualmente, apenas 22 escolas fazem parte desta rede.

Ainda na vertente de ensino, da reunião do conselho de ministros da CPLP saíram ideias sobre a necessidade de “concertação, entre os Estados-Membros, para promover a certificação cruzada entre cursos de ensino superior e o lançamento do programa de intercâmbio de estudantes universitários CPLP ‘Frátria’.

Mobilidade a rodos

Foi ainda destacada a implementação do Acordo sobre Mobilidade entre os Estados-Membros da CPLP, caracterizado como “um passo firme para constituir uma verdadeira comunidade de povos, abrindo caminho à circulação de pessoas, cultura, valores, princípios e conhecimento”.

Países membros da CPLP, como foi o caso de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal, alteraram leis para a execução do referido acordo, enquanto no caso de São Tomé e Príncipe, a legislação já previa a livre circulação dos cidadãos da CPLP. Foi ainda encorajado “todos os Estados-Membros a continuar a promover a sua implementação, dentro do princípio da flexibilidade variável nele consagrado”.

Desta reunião saiu também a aprovação de oito novas entidades que passam, desta forma, a ter estatuto de observador consultivo. São elas a Associação Galega da Língua, Associação Portuguesa de Recursos Hídricos, Associação CFA Portugal (Associação de Consultores Financeiros Certificados Portugal), Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Federação Portuguesa de Ginástica, Fundação Biblioteca Nacional, Instituto Brasileiro de Direito da Família, Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Económicas.

Macaenses | “Partido dos Comes e Bebes” comemorou 22 anos

O “Partido dos Comes e Bebes” (PCB), grupo informal de confraternização da comunidade macaense em Portugal, celebrou no dia 20 deste mês o seu 22.º aniversário com um almoço que reuniu vários ex-residentes de Macau. Gina Badaroco, uma das dinamizadoras do grupo que nasceu na rede social Facebook, disse ao HM que o balanço do PCB é “muito positivo”.

“Desde o início que o PCB tem mostrado grande capacidade de mobilização graças à adesão de uma rede cada vez mais alargada de amigos. Cada vez temos mais participantes nos nossos convívios”, acrescentou.

O PCB foi inclusivamente alvo de estudo por parte da antropóloga Marisa Gaspar, que se tem dedicado a investigar o perfil e rumos da comunidade macaense. “O objectivo do PCB é promover a confraternização entre os macaenses residentes em Portugal e os amigos que têm Macau sempre no coração, preservando a gastronomia macaense, pois esse convívio faz-se sempre à volta de uma mesa.”

Tudo começou em 2003 com a organização de festas temáticas, num espaço alugado, em que cada um levava um prato tipicamente macaense. Havia ainda músicas em patuá, sendo que o PCB tem inclusivamente um hino próprio, criado por Rigoberto Rosário, mais conhecido por Api. A última festa temática aconteceu em 2013, com o tema “A Noite Oriental”. Desde então o grupo reúne-se em restaurantes. Sem apoios ou contactos formais com entidades de Macau, o PCB vai continuar a promover o que é tipicamente macaense, comemorando também o Ano Novo Chinês ou o Festival do Bolo Lunar.

Tribunal chinês diz que processo Suncity constitui “exemplo”

O Supremo Tribunal da China emitiu ontem um comunicado onde descreve o processo do antigo grupo junket Suncity, liderado por Alvin Chau, como sendo um “exemplo típico da prática do jogo transfronteiriço”, noticiou o portal Macau News Agency.

Na mesma nota, é referido que o grupo liderado por Alvin Chau, composto por 34 pessoas, tinha uma “hierarquia clara” com membros fixos. O Supremo referiu ainda alguns dados do processo, nomeadamente o facto de, desde 2015, o grupo Suncity ter criado várias plataformas de jogo online para atrair jogadores nas Filipinas e outros locais, além de ter facilitado a deslocação de cidadãos chineses para jogar em Macau ou para apostarem online através de agentes intermediários.

O Supremo Tribunal da China, que é o mais alto tribunal do país, declarou ainda que Alvin Chau e os seus associados criaram empresas de gestão de activos na China para ajudar nas acções de troca de crédito ou fichas de jogo, ou ainda para recuperar as dívidas de jogo. Na mesma nota, é referido que foram usados serviços clandestinos para transferência de dinheiro.

Ganhos ilegais

Este comunicado do tribunal chinês surge depois de Alvin Chau ter sido condenado a uma pena efectiva de 18 anos de prisão, além de que o processo obrigou a mudanças estruturais no grupo Suncity, que deixou de ter esse nome.

Na mesma nota do Supremo Tribunal da China, é referido que em Novembro de 2021 o grupo tinha mais de 480 agentes com papel de accionistas, sendo que 280 eram cidadãos do continente. Nas folhas de pagamento consultadas pelas autoridades, estão agentes de cariz geral, incluindo mais de 38 mil cidadãos chineses, é descrito.

O comunicado destaca também o facto de o antigo grupo Suncity ter chegado aos 60 mil membros com ganhos de cerca de 8,9 mil milhões de renminbis. O tribunal recorda que Zhang, um dos principais associados de Alvin Chau, estava encarregue de dirigir uma empresa de gestão de activos na China, a qual tinha sido criada pelo antigo CEO do Suncity. Entre Setembro de 2018 e Abril de 2020, descobriu-se que Zhang estabeleceu acordos de cooperação para investimentos, tendo usado contas bancárias para transferir fundos entre Macau e a China. As transferências nesse sistema terão sido superiores a 1,15 mil milhões de renminbis, resultando em lucros obtidos de forma ilegal acima de 17 milhões de renminbis.

O Clube da Luta (II)

“Pezeshkian might be able to bring some social freedoms. But he will be a weak president because Khamenei and his allies are much more powerful than the president.”

Sohrab Hosseini

A classe dirigente israelita está longe de estar convencida da ambição ou megalomania de Shiloah. Em torno de David Ben-Gurion, que governou o seu Estado como um quase ditador, os dirigentes trabalhistas da época tendiam para o não-alinhamento, ou seja, para a neutralidade. Pelo menos até 1956, quando, graças à guerra do Suez, o aventureiro Nasser desencadeia a vaga pan-arabista e se torna um defensor da resistência palestiniana, que organiza e promove. E aproxima-se da União Soviética.

Geopolítica dos três círculos, o árabe, muçulmano e africano, com o Egipto no centro. Perigo mortal para Israel, rodeado de árabes inimigos. Shiloah sugere a Ben-Gurion uma contra-estratégia em espelho e Israel como pivot de uma “Aliança da Periferia”, composta pelo braço Norte, com a Turquia e o Irão, e pelo braço Sul, com a Etiópia e o Sudão.

Encoberto, entendimentos bilaterais, baseados em informações (espionagem e operações especiais), comércio (ver as importações israelitas de hidrocarbonetos persas, também através da duplicação do oleoduto entre Eilat e Beersheba com a contribuição da companhia petrolífera nacional iraniana) e até produção de armas, incluindo um protótipo de míssil israelo-iraniano. Baile de máscaras. Tudo estrictamente secreto, muitas vezes salpicado de polémicas amargas sublinhadas pelos meios de comunicação social, porque as opiniões públicas respectivas e as potências opostas não apreciariam essas convergências incómodas. O que une o trio é a desconfiança em relação aos árabes e o medo do Egipto de Nasser, um cavalo de Troia soviético. Não uma verdadeira aliança. Em 29 de Agosto de 1958, numa reunião secreta em Ancara entre Ben-Gurion e o seu homólogo turco Adnan Menderes, com a presença de Shiloah, o patriarca israelita explicou que “Os árabes estão a fazer uma tal algazarra que o mundo inteiro pensa que o Médio Oriente é composto apenas por países árabes, mas isso não é verdade. Se formarmos este bloco de cinco países, poderemos garantir a nossa existência e independência, o que também terá efeitos no Norte de África”.

Pouco tempo antes, Ben-Gurion e o Xá da Pérsia trocaram missivas calorosas de entoação semelhante, com tons de intimidade multimilenar. O líder israelita recorda o que o rei Ciro fez pelos judeus, trazendo-os de volta a casa, e Mohammad Reza Pahlavi disse que “A memória do que Ciro fez pelo seu povo é-me cara e tentarei continuar esta antiga tradição”. O mesmo se passa com Haile Selassie, imperador da Etiópia, “descendente” do rei Salomão e da rainha de Sabá. Na frente dos serviços secretos, nasceu o “Trident”, um acordo de colaboração secreta entre a Mossad e os serviços correspondentes da Turquia e do Irão. A sede é em Israel, financiada pela CIA, com uma secção amarela para os turcos e uma azul para os iranianos, que depressa caiu em desuso e foi transformada num ginásio da Mossad. É impossível avaliar a extensão das trocas entre os membros da “Aliança da Periferia”, dado o grau de secretismo e informalidade. O impulso inicial perde-se rapidamente, ainda que a colaboração secreta de Jerusalém com Ancara resista entre altos e baixos até 7 de Outubro de 2023 e à escolha de campo de Erdoan a favor do Hamas, quando a tensão entre o secretismo do aparelho e a pressão da opinião pública parece esmagar as arquitecturas subterrâneas do semi-eixo turco-israelita.

O de Teerão sobrevive em parte à revolução de Khomeini, desenvolve-se na guerra Irão-Iraque (1980-1988), até ao advento do Pasdaran ao leme da República Islâmica. Dois objectivos principais unem o triângulo que é quebrar as ambições pan-arabistas de Nasser e dos seus emuladores; contar mais com a América. Atingido o primeiro objectivo mais devido ao irrealismo egípcio do que por mérito próprio, o segundo é progressivamente alcançado por Israel, ao ponto de, desde os anos de 1970, ter evoluído para uma quase simbiose. Na opinião do diplomata Gershon Avner “A aliança contribuiu para que nos sentíssemos como uma grande potência. Não somos apenas um mendigo sentado numa vala a ser alvejado em todas as direcções.” Talvez não compreendamos hoje o sentimento de precariedade que tirou o sono a Ben-Gurion e que continua a assombrar as elites mais conscientes do Estado judaico.

O fundador escreveu em 1963 ao Presidente Kennedy que “Pode não acontecer hoje nem amanhã, mas não tenho a certeza de que o Estado continue a existir depois da minha morte”. Equivalente ao roncado com que Ben-Gurion comenta a confissão do general Yehoshafat Harkabi, director dos serviços secretos militares de que “O que temos em comum é que nenhum de nós acredita que o Estado de Israel existe realmente”. Para a Turquia, que neste momento sofre por estar reduzida a uma sentinela no flanco sudeste da NATO, e para o Irão do Xá, que está menos esmagado por Washington do que parece, a “Aliança da Periferia” não é o bilhete privilegiado para o que espera o establishment americano. O quantum de influência de que o Estado judeu goza e que Ancara e Teerão esperam utilizar para os seus próprios fins não é o que Shiloah e companhia se gabam. Washington também não precisa de utilizar o canal israelita para negociar com Ancara e Teerão.

A CIA assegura que a troca de informações não excede um certo grau. Se se aproxima, Langley esvazia o depósito. Quanto ao Departamento de Estado, o lobby arabista iguala, se não ultrapassa, o lobby pró-israelita até aos anos de 1960. Hoje, os antigos aliados da periferia são adversários. E têm tendência para o parecer. Porque, enquanto o pan-arabismo já não tem vestígios e o espantalho do Ocidente é encarnado pelo jihadismo, se é que este serve para dividir a frente supostamente islamista, estes três continuam a presidir ao pódio dos desequilíbrios do Médio Oriente. Apostamos que continuarão a precisar uns dos outros. Talvez como inimigos acesos. Muitas vezes, a inimizade une mais do que a amizade. Até porque, em geopolítica, a primeira existe, a outra é digna de dúvida. Finalmente, e para já visível, a época das alianças, reais ou presumidas, passou e dificilmente voltará. No turbilhão do Médio Oriente, o menu é apenas à la carte. O império persa compreende, na sua actual forma informal, uma população multiétnica com uma maioria árabe agregada por líderes que se sacrificam diariamente a uma ideologia fundada no ódio contra Israel (Pequeno Satã) e o seu protector americano (Grande Satã).

Centrada na República Islâmica do Irão, fundada em 1979 pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini, governada, para além dos véus teocráticos, por uma oligarquia militar-policial centrada nos Guardiões da Revolução (Pasdaran) e nos paramilitares basiji. A sua ramificação em redes de clientes e milícias estende-se desde o oeste do Afeganistão (Herat) até ao Mediterrâneo oriental (Beirute), passando por Bagdade e Teerão. Penetração na Península Arábica, desde os Territórios Palestinianos Ocupados até à costa ocidental do Estreito de Ormuz e ao Iémen dos Hutis. O Irão acrescenta à sua aversão aos judeus e aos americanos a sua rivalidade geopolítica com a Arábia Saudita, que envolve as petromonarquias do Golfo, sobretudo os Emirados Árabes Unidos. O seu centro comercial e financeiro é Dubai, a lavandaria premiada de todos os tráficos iranianos e outros tráficos oblíquos. Para aqueles que resistiram desde o nascimento às sanções americanas e ocidentais, destinadas a esmagar as suas ambições nucleares e a cortar-lhes as asas imperiais, esta saída é essencial.

O leque de relações especiais é completado pela cooperação, não só energética e militar, com a Rússia, mestre das operações cinzentas, que, após a invasão da Ucrânia, arrebatou ao Irão a primazia de Estado mais sancionado do mundo. Selo de um entendimento pragmático entre impérios historicamente adversários. Para além da relação ambígua com a Turquia, rival geopolítico e ao mesmo tempo matriz genética relevante dos povos do Irão metade persas, um quarto de azeris e outros turcos, um décimo de curdos, muito poucos árabes, reflectida na parábola dos impérios persas, como testemunha a origem azeri do Guia Supremo, o turcófono Ali Khamenei; finalmente, o “olhar para Leste”, sobretudo para a China, para equilibrar a pressão americana. Para Washington, o Irão é um membro permanente de qualquer “Eixo do Mal”.

Do original, baptizado em 2002 por George W. Bush para classificar o Irão, o Iraque e a Coreia do Norte como patrocinadores do terrorismo jihadista, numa tentativa falhada de identificar os inimigos a vencer para erradicar essa raiz maléfica. E a mais recente, evocada pela administração Biden, alinhando China, Rússia, Irão e Coreia do Norte. Acusados, entre outras coisas, de conluio na produção de mísseis hipersónicos, a marca das superpotências nucleares. Os quatro cavaleiros do apocalipse estariam equipados com eles, incluindo o Irão com o seu último Fatah, os Estados Unidos ainda não. (perdoe-se a condicionalidade, mas a ideia de que a informação pública sobre armas estratégicas é real ultrapassa mesmo a nossa ingenuidade).

Além disso, os drones iranianos fornecidos aos russos estão a ajudar a afundar a Ucrânia e a aumentar o receio da Casa Branca de perder a guerra com a Rússia. Hipóteses impensáveis na actual revolução. Perante este cenário, conceber os conflitos do Médio Oriente como locais ou regionais, se não redutíveis à rivalidade Israel-Irão, é um erro crasso. Igualmente desviante é centrarmo-nos na competição ideológico-religiosa, numa região onde a legitimação divina do poder está em declínio com excepção dos extremistas religiosos do governo israelita enquanto as inclinações agnósticas, se não mesmo ateias, se propagam sobretudo entre os jovens (no Irão, a idade média é de 27 anos).

(Continua)