Rua do Mundo, 79

De entre os objectos que recolhi em casa, nestes anos em que alguns partiram, deixando-me e, para trás, vestígios que me custa apagar, há aquele livro em cujo título e subtítulos habitam e se leem, as palavras “resoluções” e “racional”. Que consta de questões de Aritmética, claro. Racional.

Há objectos estranhos, muitas vezes discretos e anónimos, que protagonizam ainda mais estranhos encontros. E nem sempre se nos apresentam com essa veemência no primeiro momento. Mas é como se esse primeiro instante fosse o início da futura percepção destes. Impregnados daquele momentum que inquieta as partículas da matéria, com uma intensidade crescente, até que, dando-lhes um espaço na casa, um dia, são actores naquele encontro, como os que descreve Breton em “Nadja”. Tornando-se, verdadeiramente, objectos encontrados. Ou que nos encontram ao cimo de uma caminhada por outras vidas e desembocam aqui em nós.

Folheio o roteiro de Lisboa de 1942, um pequeno livro de capa negra e letras sumidas, a que o arredondado natural com que foi desenhado se soma a um desgaste uniforme de todo ele mesmo na zona de corte das folhas.

A zona cortante de cada uma, de outro modo. É dos objectos que tenho como mais queridos do pequeno espólio de tesouros do meu pai. Mas era preciso recuar a uma das gavetas daquela estante vinda de longe, onde habitam alguns objectos de natureza diversa e espécies diferentes, silenciosos e pacíficos. Um molho de “Falcões” da serie de Mamselle X, uma caixa de aguarelas ressequidas e de muitas cores, oferecida numa idade em que não puderam apaixonar-me, porque as paixões têm tempos que nem sempre se encontram reciprocamente atentos, o “Célebre livro dos destinos de Napoleão Bonaparte”, mapas de viagens antigas, duas lanternas de papel de arroz de desenho delicado. E mais uns pequenos tesouros que incluem o pedido de importação de 53 passarinhos de Montepuez, datado de 2 de Julho de 1974. São gavetas silenciosas e discretas como discretos são os objectos que as habitam. Mas quando lhes toco, é um rumorejar intenso, o que se desprende deles. Procuro, entre tudo isto, folheando o pequeno roteiro da cidade, aquele nome de rua.

Volto ao livro amarelado, trazido de uma das casas de Z, de cheiro adocicado e, de tão frágil, em risco de fragmentação em folhas soltas. O livro em que como um grito ou uma acusação – quem sabe se, afinal, uma recomendação – aparece a negro a palavra “racional”. E bem mais abaixo, como uma revelação bem guardada para quem a merecesse: “Rua do Mundo, 79”. Como se o mais misterioso sinal, se tivesse guardado incógnito, reservando a encantadora e surpreendente referência para somente se dar a ver quando o envolvimento com o livro já era irreversível. Algum tempo depois. Morada da Livraria Pacheco. Aparentemente editores e livreiros. Telefone 21542.

Este nome de rua, nunca ouvido, pareceu-me recuperado de um registo poético que teria que descobrir ou escrever. Ecoou como metáfora, ou como sorriso das matérias mortas que são todas aquelas palavras e números que enchem o livro e, no fundo, todos estes objectos anódinos e insignificantes que me prendem a um aroma a uma cor de papel ou a uma estranheza.

Voltando ao roteiro da cidade, tão grande é a expectativa como o espanto da descoberta de que a rua é aqui perto, a umas dezenas de metros e a confinar com o meu bairro. Era. Mas antes do pequeno roteiro. Depois ainda é uma rua do mundo, mas com outro nome.

De repente é como se tenha dentro, ou aqui ao pé, o mundo inteiro. E nada.

Há momentos em que se dão pequenos encontros, com uma palavra e com estrondo, depois de o serem, com um livro e que nos levam a uma gaveta de preciosas recordações, que nos levam a uma referência que possui uma estranha coincidência e é como se de um conjunto desestruturado de acasos, surgisse um sinal da maravilhosa ou mesmo abismal fantasia, de que a realidade é somente uma capa. Uma ponte sinuosa de objectos do passado, todos eles escondendo uma vida alheia, como um mergulho num poço, numa espécie de macrocosmos dentro de um microcosmos, relembrando Foucault, ou a protagonizar um daqueles episódios de uma Alice no país de caminhos estranhos pela margem do aparentemente infértil real. Os interstícios, como intestinos de um animal-mundo, enorme, que é real, mas não mais do que o que se configura nos seus intervalos. Um e outro, indefiníveis. Uma perspectiva cónica com o ponto de fuga a apontar para dentro.
As coisas. Dentro das coisas, dentro das coisas.

21 Fev 2022

O xuangui

Da montanha Niuyang escorre um rio peculiar, onde germinam seres raros, cujas características têm assombrado gente local e viajantes, ao longo dos milénios. Chamam-lhe Rio da Água Estranha (guaishui). Nele, nas suas margens, afirmam os registos nascerem criaturas de excepção, algumas das quais perigosas. Em contraste com a sua fama e o seu nome, as águas do Guaishui deslizam suavemente por encostas e vales até desaguarem no rio Xianyi, sem nunca causar grande alarido, ao contrário de alguns dos seus irmãos que regularmente se revoltam e galgam as margens, inundando campos e aldeias. Ora nesta aprazível e serena aparência, neste celebrado curso de água, prolifera o xuangui, um animal com corpo de tartaruga, cabeça de ave e cauda de serpente.

O xuangui é um exímio nadador, o que contrasta com a lentidão com que se desloca em terra firme. Quando se move dentro de água, o seu corpo roda como um parafuso, à medida que vai avançando. Daí o seu nome que literalmente significa “tartaruga giratória”.

As similitudes com as suas primas tartarugas, nomeadamente a carapaça, que no caso do xuangui é profundamente negra, fazem com que seja extremamente apreciado para divinações. Além disso, acredita-se que quem usar uma qualquer parte do xuangui pendurada no cinto, nunca ficará surdo e perderá os eventuais calos que lhe tenham crescido nas mãos ou nos pés.

Sendo a carapaça associada ao céu e o corpo à terra, este animal simboliza um universo, solidamente ancorado nas suas patas. Conta-se ter o xuangui, em tempos primordiais, dominado a região que antecede os infernos, onde possuiria capacidade para voar, não sendo, no entanto, explícito se da sua carapaça brotariam ou não asas.

Nesse tempo, seria um predador carnívoro para desgosto de almas, homens ou bestas que cruzassem aquela região pré-infernal. Entediados de tanta voracidade, os deuses resolveram castigar o xuangui, retirando-lhe a capacidade de voar e exilando-o no Rio das Águas Estranhas, onde ocupa uma discreta posição.

Mas os implacáveis deuses não se ficaram por aqui. Para eles não era suficiente esta emigração forçada, a perda de mobilidade e de estatuto. Para evitarem para sempre o regresso de comportamentos ínvios, nomeadamente a glutonice assassina dos xuangui, extinguiram todos os machos da espécie. Desde então as fêmeas são penetradas por serpentes e é o amplexo com estes répteis que garante a continuidade desta espécie, sempre no feminino.

Há também quem considere, erroneamente, devido à sua carapaça de cor negra, o xuangui como a tartaruga original que ocupa o Norte do mundo, de onde as águas escorrem para os rios, os lagos e os quatro mares, parente da fénix vermelha, do tigre branco e do dragão verde. Contudo, é sabido que essa primeva tartaruga não possuía cabeça de ave, nem arrastava uma cauda longa de serpente. Além disso, não se imagina esse nobre animal a emitir um som de cana rachada, como faz o xuangui.

18 Fev 2022

Terceiro Acto – Cena 4

Valério pega num cigarro e vai à lareira. Pega num toro de azinho com uma tenaz e junta-o às brasas incandescentes.

Valério
Ainda sonho acordado…

Traz de volta uma brasa e acende o seu cigarro com ela. Deixa-se ficar a olhar para a madeira a pegar fogo.

Valério
Acho que nunca tinha dito isto a ninguém.

Gonçalo
Porquê?

Valério
Porque é que sonho acordado?

Gonçalo
Não, porque é que nunca disseste a ninguém?

Valério
Sei lá… [pausa] Vergonha, talvez.

Gonçalo
[imitando uma mãezinha]
Já não tens vinte anos, filho…!

Valério
Pois não, mas ainda assim…

Gonçalo
Sonhas com o quê?

Valério
Coisas parvas…

Gonçalo
Isso já percebemos. [pausa] Dá-me um exemplo.

Valério
É difícil… [pausa longa] Se estiver a ouvir música, fico a imaginar que sou eu que a estou a tocar, ou a cantar… ou as duas coisas. [pausa] Acho que acontece o mesmo quando vejo um quadro… ou se vejo um jogo de ténis na televisão…

Gonçalo
Imaginas-te o tenista?

Valério
Sim… [pausa] A questão é… se calhar não é questão nenhuma…

Gonçalo
Desembucha, jovem!

Valério
A questão é a duração… e a quantidade que vezes que me acontece o mesmo

Gonçalo
O sonhar acordado?

Valério
Sim… e o facto de me acontecer com esta idade. [imitando uma mãezinha] Já não tens vinte anos, filho…!

Gonçalo
Pois não.

Valério
Pois não… mas a verdade é que acho que já não há remédio. [pausa] Mas não me acontece o mesmo quando leio um livro.

Gonçalo
Não?

Valério
Não. E olha que leio cada vez mais… deve ser da velhice.

Gonçalo
Ou seja, queres brilhar como músico, pintor ou tenista, mas não como escritor.

Valério
Já não vou brilhar em nada.

Gonçalo
No entanto, já escreveste algumas coisas brilhantes.

Valério
Que ninguém leu. [pausa] Mas é qualquer coisa mais profunda do que isso…

Gonçalo
Do que quê?

Valério
Do que o querer brilhar…

Gonçalo
Senta-te no divã e aprofunda lá isso.

Valério regressa à sua cadeira, perto de Gonçalo, e leva o seu milionésimo copo de vinho à boca.

Valério
Escapismo?

Gonçalo
Estás perguntar?

Valério
Estou a falar para o ar.

Gonçalo
Pronto…

Valério
[pausa]
Ou então é uma maneira de me manter activo, com vontade de fazer coisas… [pausa] se não desisto.

Gonçalo
Estás a conjecturar ou é já uma sentença?

Valério
Não estás a ajudar.

Gonçalo
Desculpa, continua…

Valério
A verdade é que é coisa de adolescente, o resto é conversa.

Gonçalo
Julgas que não há outros quarentões a sonhar acordados?

Valério
Não deve haver muitos.

Gonçalo
Se te ajuda achares que és único, tal como te ajuda sonhares acordado, ainda bem para ti.

Valério
Certo. O que não deve faltar por aí é quarentões adolescentes…

Gonçalo
[imitando uma mãezinha]
Já não tens vinte anos, filho…!

Valério
Pois não… [pausa] Mas é uma coisa que eu procuro… é parecido com a depressão.

Gonçalo
Depressão?

Valério
Não falo de depressão profunda, nunca padeci de tal coisa, felizmente… [pausa] Mas há qualquer coisa naquela depressãozinha ligeira… [pausa] Um prazer qualquer quando me deito no sofá e começo a descer na horizontal… pelo poço abaixo… tudo a escurecer à minha volta e a luz a ficar lá em cima… [pausa] Até acho que as duas coisas estão ligadas.

Gonçalo
A depressão…?

Valério
[abrupto]
Zinha!

Gonçalo
A depressãozinha e o sonhar acordado?

Valério
Sim…

Gonçalo
E é qualquer coisa que buscas, tu próprio?

Valério
Activamente, sim… se estiver em casa, então, é o meu desporto preferido. [pausa] Felizmente, já não me masturbo tanto como dantes. [imitando uma mãezinha] Já não tens vinte anos, filho…!

Gonçalo
Pois não.

Valério
Posso até ter à disposição um manancial de coisas para me entreter… filmes, livros… A verdade é que, a maior parte das vezes, ponho música e me deito a olhar para o tecto… [pausa] E… ou aguardo a descida ao poço, activamente, deixo o corpo relaxar, começam as lágrimas a correr… [com uma ponta de vergonha] Mas não me comovo, atenção, não tem nada que ver com comoção… é uma espécie de abandono…

Gonçalo
Isso é quase erótico.

Valério olha para Gonçalo, desagradado com o comentário aparentemente despropositado.

Gonçalo
Falo a sério! Parece que…

Valério
Eu percebo, sim… Sim, é esse abandono. [pausa] Ou então a música eleva-me e eu imagino que sou eu o músico…

Gonçalo
Para fora do poço…

Valério
Não é que estivesse no poço quando me deitei, mas sim… eleva-me… [pausa] para fora do poço, sim.

Gonçalo
[pausa]
E também procuras isso… essa elevação?

Valério
[inabalável]
Bem como a descida.

Gonçalo
[pausa]
Parece-me que tens isso tudo já muito bem dominado… parece a tua hora do ginásio.

Valério
Pois parece.

Gonçalo
E gostas.

Valério parece não saber o que responder, mas também não parece abalado com a afirmação que acabou de ser proferida.

Gonçalo
Cada um com o seu desporto…

Valério
[acanhado]
Já vivo com isto há tanto tempo que já nem penso muito no assunto, confesso.

Gonçalo
O desporto em si não tem nada de errado, se é isso que estás a pensar. Mas é uma droga, mais do que um desporto… sabe-lo bem. Uma droga pesada. [pausa] Há que saber dominá-la… um deslize e já foste.

Valério
Sim… [pausa longa] Se calhar está na hora de terminarmos a consulta, não?

17 Fev 2022

O Ouro dos Tigres

E estamos em trânsito para o Ano Novo chinês engalado a Oriente com muita cor, fantasia e dias cheios de esperança. Este irá ser representado por um belo ser que vive na nossa memória colectiva como um abrasante representante da beleza: o Tigre.

Foi o Ano do 25 de Abril e, claro, só isso faz dele um estímulo sem freio para as nossas festividades. Raiado e real, alistemo-nos em sua pelagem de gigante solitário, altivo, cruel para com a progenitura, e coberto de dons que parecem malefícios: é um Tigre, e enfrenta a vida com a mesma crueza com que ela se nos apresenta.

Este é o título de uma obra de um seu grande amante, Jorge Luís Borges, fascinado e transido de emoção por tal criatura existir na Terra, sendo então uma colectânea de quarenta e oito poemas que viu o seu nascimento em 1972, que eclodirá na fórmula ” O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, que irá expressar a impotência dos seres majestosos e enjaulados, mas foi o tigre de fogo de Blake, que rondou os seus sonhos mais de uma vez em torno do poema; que estes gigantes encerram faiscantes dons que só o poema sabe cantar.

A gravura de Blake nele surge para ilustrar um dos mais belos versos da literatura inglesa, e dos tigres de um e de outro, as colectâneas encheram-se de listagens – do Ouro dos Tigres só sobrou na cegueira a cor amarela –
Nesta recolha há sem dúvida um dado mais a reportar-nos ao Oriente, pois que foi aqui que Borges tomou para si “Tankas”, a estrofe japonesa. A construção obedece a esta técnica de escrita, uma adaptação arrojada que só ele se poderia dar ao luxo, sem falhar, tal como um Tigre. Nós vamos coabitando neste Ouro como que movidos por forças estranhas, que obras assim nos dispensam problemas menores e pessoais, de todos e de cada um, na pouca interessante selva das nossas vidas. No «Fazedor» ele tem um poema chamado “o outro tigre”: “terceiro tigre buscaremos/ este será como os outros uma forma/ do meu sonho, um sistema de palavras/… buscar pelo tempo desta tarde/ o outro tigre, o que não está no verso/.

– «The Tyger» de Blake é um poema gnóstico, que ainda tem tudo de romântico – tigres da ira- mas aplaudidos mais como tempestades de beleza do que precursores de Leviatã, e se o Cordeiro aparece, lembrar-nos-á as pazes feitas com o Leão. Compenetra-se na simetria que deve ser uma matéria cara a um poeta que busca ordenar a matéria ferida em espaço harmonioso, que o seu caso é tão lendário como o do belo felino. Fala ainda do martelo e da bigorna, e nós, devemos seguir a retirá-los de todas as jaulas, que as forças divinas não são para subtrair a prisões para espectáculo de seres ensimesmados.

Que nos traga então Ouro, este Ano do Tigre, de natureza vária, e não tenhamos receio de atravessar a nossa fera interior para não sermos esmagados pela ferocidade alheia. A Oriente ruge o Tigre para que o seu Ano seja anunciado no cimo das multidões. Bom Ano, então.

17 Fev 2022

淮阳 Huaiyang celebra Fu Xi

Visitar a província de Henan, situada na parte média do Rio Amarelo, é como entrar nas primeiras páginas do longo livro da História da China por ser um dos berços da civilização chinesa e onde se registam do período Neolítico muitas culturas como, a Peiligang (6100-5000 a.n.E.), a Yangshao (5000-3000 a.n.E.), a Longshan (2500-2000 a.n.E.) e a Erlitou (c.1900-1500 a.n.E.), esta ligada à dinastia Xia (2070-1600 a.n.E.), a primeira das dinastias imperiais que duraram até 1911. Já a Cultura de Erligang (1600-1400 a.n.E.) está relacionada com o início da dinastia Shang (1600-1046 a.n.E.).

Chegamos a Zhengzhou, capital da província de Henan, para a 230 km ir a Huaiyang, na prefeitura de Zhoukou, assistir às festividades em honra de Fu Xi, que se estendem entre o segundo dia do segundo mês lunar até ao terceiro dia do terceiro mês. Ana Maria Amaro lembra-nos, “no segundo dia do segundo mês do calendário lunar chinês celebra-se a tradicional festa conhecida por ‘O Dragão levanta a cabeça’ que anuncia as primeiras chuvas da Primavera.” O dragão é considerado a divindade que domina a chuva e para um povo de agricultores como eram os chineses, esta era-lhes essencial para os campos.

Ainda nessa prefeitura, no concelho de Luyi celebra-se na mesma altura o aniversário de Lao Zi, enquanto Xihua, ligado a Nu Wa e onde tem o mausoléu, é outro dos oito concelhos da prefeitura de Zhoukou localizada no Sudeste da província.

Da cidade de Zhoukou partimos para Huaiyang numa viagem de 45 minutos de autocarro. Chamada Wanqiu no tempo de Fu Xi, ficou em 200 a.n.E. a ser Huaiyang por se encontrar a Norte do Rio Huai e daí o nome, pois yang designa Norte. Local onde Fu Xi e Nu Wa escolheram fazer as suas capitais, tal como também aí, já com o nome Chen, viveu Yan Di, estando assim relacionada com os Três Ancestrais Soberanos (San Huang) e mesmo considerando Nu Wa não ser um dos três, mas sim Sui Ren, o deus do Fogo, este era de Shangqiu, na fronteira para Nordeste da prefeitura de Zhoukou.

A FEIRA

Em Huaiyang (淮阳), após sair do autocarro, ao caminhar o quilómetro e meio até ao Templo de Fu Xi temos a sensação de pertencer ao imenso grupo proveniente da tribo Feng (风, Vento), que há 4800 anos viera da província de Gansu para Leste chefiada por Fu Xi. Percorreu desde a bacia do Rio Wei até ao Rio Amarelo onde encontrou terras férteis na Planície Central, na actual província de Henan e aí se instalou.

Criou a povoação amuralhada de Wanqiu para albergar o grupo, que então passou a designar-se tribo Yi e escolheu como totem o Dragão. Após a realização de festas onde se promoveram casamentos, parte da tribo separou-se e Nu Wa com as suas gentes seguiu para Norte dessa área, estabelecendo-se em Xihua.

Chegando pelo lado Oeste contornamos o Lago Dragão (Long hu), que separa o templo de Fu Xi da vila de Huaiyang, encontrando-se no meio da água uma escultura com dois dragões semi-submersos. A moldura humana caminha e avolumando-se dá lugar a uma multidão, ladeada por um sem número de vendedores. Dois pormenores logo rapidamente saltam à vista. Um grande número de pessoas em sentido inverso vem da festa trazendo bolas de basquete e outras, tigres feitos de tecido laranja com a face pintada, que pela forma parecem ser comprados para servir de almofadas.

A confusão é grande e as tendas de circo, instaladas num recinto descampado ao lado do muro do complexo do templo, animam com os altifalantes o som geral do local, anunciando animais ferozes, famosos artistas malabaristas e tudo o que pudesse causar espanto e estupefacção aos habitantes da região aí apinhados. Por detrás dos muros do complexo do templo pode-se ver um monte e os telhados de alguns dos pavilhões que constituem o Tai Hao ling (太昊陵), Templo-mausoléu de Tai Hao, a divindade de Fu Xi.

Na porta lateral Oeste (Xi Hua men) o rebuliço é ainda maior, pois muita gente tenta por aí entrar no templo, não deixando sair os que acabam de o visitar.

Prosseguimos em direcção à porta Sul, a principal do templo e por onde se deve entrar, entre tendas com esculturas de deuses e imagens de muitos dos soberanos mitológicos à venda, havendo ainda as bancas com geomantes entendidos no Feng-Shui e no Yi Jing.

CÃO DE ARGILA DE HUAIYANG

Da grande praça em frente ao templo, o nosso olhar é atraído pela água do lago e expande-se até aos edifícios da vila de Huaiyang, na margem oposta. O que parece uma ampla praça está interrompida por um canal, não perceptível devido às inúmeras tendas colocadas em frente. É o Rio Cai, cujo significado antigo era o de tartaruga. Segundo os registos do livro Chenzhou Fu Zhi, foi no Rio Cai que Fu Xi encontrou a tartaruga branca a trazer-lhe a base para criar os oito trigramas. Este rio nasce a Noroeste de Huaiyang, atravessa Wanqiu, a cidade construída por Tai Hao, que foi a primeira capital da China, e passa em frente do templo mausoléu.

Como viemos pelo lado Oeste, para o atravessar escolhemos a ponte mais próxima das três existentes e assim, entramos no recinto limitado entre o Rio Cai e o Lago Dragão (Long hu). Aí, a imensa feira, que para além do lado comercial tem uma parte de diversão, estende-se desde o lago até à entrada do templo.

Nas tendas vendem-se os papéis votivos e incenso, assim como estátuas de porcelana de muitos deuses, sobretudo os da Riqueza, contando com uma variedade de outros produtos típicos apresentados nas normais feiras de pendor rural. As pessoas ao passarem pelos carrinhos cheios de lingjiao, fruta com sabor a castanha e forma em miniatura de pares de cornos de búfalo, esperam a vez para a adquirir.

Encontramos então os famosos tigres (ou serão cães?) em vários tamanhos e feitos de tecido cor de laranja com pinturas a dar as feições e outros pormenores, parecem ser uma novidade. Produção actualizada, mais ao gosto dos compradores, inspirada nas pequenas esculturas antigas de barro pintado com fundo preto, ornamentadas por cores vivas a criar as feições das formas primitivas de seres humanos e pássaros. Servem como instrumento musical pois ao soprar-se por um buraco dão um assobio.

Assim, os locais camponeses artesãos entre a multidão chamam a atenção, pois vão com elas na boca usando-as como apitos, enquanto transportam cestas de vime cheias dessas pequenas esculturas para vender. São os ‘Cães do Mausoléu’, que por terem formas amórficas muito diversas, revelam ser provenientes de uma figuração muito antiga. Também conhecidos por Cão de Argila de Huaiyang, ou Cão Ling, é o nome dado a estas figuras no seu todo, não importando a representação que têm. Está relacionado, segundo o conhecimento popular, com o nome de Fu Xi, em cujo primeiro caractere (伏) existem dois radicais, um de homem (人) e outro de cão (犬). Segundo especulações de alguns estudiosos, a tribo de Fu Xi tinha como totem o cão e após o seu chefe deixar esta vida, os cães tornaram-se as divindades que guardam o mausoléu. Confúcio confirmou passados dois mil anos estar ali enterrado o corpo do inventor dos trigramas.

15 Fev 2022

II – O lushu

Andando de Guilin para leste uns bons cento e cinquenta quilómetros, deparamos com a montanha Niuyang. Na encosta sul dormem depósitos de ouro vermelho e na encosta norte repousam depósitos de ouro branco ou assim nos é sugerido em velhos rolos de papel, repletos de caracteres escritos num estilo anterior à dinastia Qin (220 a.E.C.).

Segundo os comentadores mais avisados, referem-se a minérios de cobre e de prata. Outros, mais propensos a fantasias, preferem acreditar que o texto antigo denota a existência de metais raros, desconhecidos das classificações hodiernas e de antanho.

Nesta incomum montanha existe um também exótico animal a que dão o nome de lushu. Dotado de uma forma semelhante à de um cavalo, o lushu distingue-se pela sua cabeça branca, o corpo malhado como um tigre e uma cauda avermelhada. Segundos os relatos, quando se desloca, este animal emite um som parecido com um ser humano a cantar.

Existem também algumas raras pinturas que o representam com chifres, o que poderá ter origem no facto do nome lushu incluir o caracter 鹿 (lu, veado). Já o segundo caracter 蜀 (shu) é mais difícil de interpretar, mas poderá referir-se ao antigo reino de Shu (hoje Sichuan) ou a um pântano. Se assim fosse, chamar-se-ia então “veado de Shu” ou “veado do pântano”, o que não parece totalmente credível à maioria dos comentadores.

Ao longo da História, numerosos pintores chineses revelaram-se fascinados pelo lushu, tendo produzido dissonantes interpretações. Era talvez o estranho contraste do seu corpo tigrado com a alva e imponente cabeça, ou então a cauda rubra vibrando como uma trémula chama em desfilada pelos planaltos de Niuyang.

Também os musicólogos imperiais foram, em certa época, chamados a ouvir e registar as “canções” dos lushu. A partir delas, terão elaborado algumas das mais famosas melodias do reportório tradicional do País do Meio.

O lushu vive em pequenas manadas com outros membros da sua espécie, as fêmeas não têm período de cio e os machos são dotados de uma fulgurante potência sexual. Estão, por isso, sempre dispostos a procriar. Tal facto faria com que os lushu fossem numerosos, o que não sucede devido à perseguição impiedosa que os homens sempre lhes moveram, certamente porque a sua pele e os seus pelos são considerados por numerosos sábios como poderosos talismãs.

É, no entanto, a cauda vermelha – muito desejada pelos homens, pois existe a crença de que usá-la no cinto provoca um acréscimo de potência sexual – que o torna excepcionalmente cobiçado. Quem assim se enfeitar com a cauda do lushu, com certeza terá um grande número de descendentes.

11 Fev 2022

Comboios astrologicamente vigiados

Nada me preparara para o sonho que me enovoou, entre Coimbra e Aveiro:
«Duas mulheres belas, altas, desengonçadas, ainda na leveza dos vinte, mas com a airosa gravidade dos trinta a poisar-lhes suavemente no semblante, uma loura e outra ruiva, conversam no banco ao meu lado. Num à-vontade que se exala ao arrepio da máscara. São manequins e adoram o que fazem, embora a covid lhes esteja a ratar os planos:
– Oh pá, é mesmo azar, tinha três desfiles de grande expressão nos próximos meses, um em Santander, outro em Paris e o último em Roma…
– Não digas nada, amiga, eu estava combinada para Barcelona e Biarritz no próximo mês. Tenho marcada uma sessão para a Vogue que, talvez, se realize, o resto é uma banhada…
– E o teu agente?
– Que tem?
– Ainda te responde? O meu anda aos soluços…
– Felizmente, mas tenho amigas que se sentem abandonadas.
– Shit para este tempo que nos coube.
Resolvo interrompê-las:
– Desculpem meter-me na conversa… mas estes tempos só exigem novos palcos, está tudo por reinventar…
– Desculpe, como assim? – pergunta a loira.
– Pensem no efeito de usar-se o comboio como passarela, em sessões contínuas, da carruagem 2 à 23…
– Seria o caos…- reage a ruiva.
– Não vejo porquê? – insisti – seria uma mera questão de disciplina e de horários. O vosso público mais aficionado, pelo inédito da iniciativa, tomaria o comboio por curiosidade, e teriam além disso um público novo, o dos viajantes normais…
– Já viu a confusão, com as entradas e saídas de pessoas? – voltou a loura a objectar.
– O Alfa Pendular só pára três vezes, os intervalos entre as estações seriam o período ideal. E admitamos que se faria à noite a passagem de modelos… Vocês representam a beleza, o glamour… Já viram o vislumbre, quantos milhares de pessoas viriam às janelas de sua casa a essa hora para vos ver passar? Na beleza fosfórica que seria a vossa, à passagem veloz do comboio?
– Como cometas…- admitiu a ruiva.
– Sim, cometas concretos, com nome, rosto, e uma beleza intangível… A junção improvável que alimenta o sucesso.
– Gostei… – ponderou a loura – O que faz o senhor.
– Sou poeta, mas isso não importa agora… Sabe que nome daria a esses desfiles?
– Não… – mostrando-se ansiosas.
– Comboios astrologicamente vigiados.
– Não sei se entendo. – atreveu-se a ruiva – Porquê vigiados?
– Vigiados pelo bom-gosto, no sentido de estarem superiormente devotados à elevação do olhar pela beleza. O que é comum é a cultura de massas nivelar por baixo a educação estética, vocês, como anjos, irradiariam a excelência que nos pode salvar… Cromaticamente, pelo relâmpago dos figurinos e a elegância que os estilistas emprestam aos modelos, e depois pelo vosso natural… Astrologicamente, porque vocês são estrelas de bons augúrios…
– A ideia é muito boa… – concedeu a loura, entusiasmada – poderíamos falar com alguns estilistas de renome…
– Eu sou amiga pessoal da Victoria Beckhman. Vou telefonar-lhe, tenho a certeza de que vai entusiasmar-se…- reforçou a ruiva.
– Isso, eu falo com a Anabela Baldaque e a Fátima Lopes… – prometeu a outra.
– Tenho a certeza de que com alguns nomes sonantes a CP aderia ao projecto, … Mesmo em época de vírus, algo precisa de salvar a soturnidade em que estas viagens se tornaram… Se quiserem escrevo-vos o projecto e vocês apresentam…
– E como poderíamos agradecer-lhe? – perguntou a ruiva, de olhos brilhantes.
– Isso é simples… – brinquei – se “tatuassem” uns versos meus, no colo, num braço, na perna, no ventre… plantados nalgum lugar visível do vosso corpo, já me sentiria bastante recompensado… Já deram conta da variedade de formatos nos média em que vocês aparecem, que melhor montra para a poesia?
– Outra boa ideia…- espantou-se a loura.
– Sim, cada modelo adoptaria um poeta. Sabem, pode ser essa a salvação da poesia… Vocês gostam de poesia?»
Acordaram-me nesse instante, as duas majestosas mulheres. O meu caderno caíra no chão e uma delas devolvia-mo. Agradeci-lhes. Iam sair em Aveiro e o comboio entrava na gare.
– Desculpe acordá-lo… – disse a loura. Mas agora vai entrar muita gente e temi que o seu caderno fosse pisado…
– Obrigado… – balbuciei, num sorriso tímido.
Teria ressonado? Preocupou-me a imagem com que teriam ficado de mim.
Nada me preparou para esse sonho porque há três meses que essa campanha abrilhanta as viagens nocturnas na CP. A operação revelou-se um sucesso internacional, sendo repetida nos países do núcleo duro da moda internacional. E também a minha ideia de cada modelo adoptar um poeta foi seguida como lei. Com um sucesso de arromba. Cada poeta escolhido passou a vender milhares de livros por edição, num rompante.
Em Portugal foram oito os poetas escolhidos.
E nenhum verso meu aflora a clavícula de qualquer modelo, orvalha um decote, ou torneia a barriga de alguma perna. Até o nome copiaram – e o copyright internacional do projecto pertence às duas modelos portuguesas, mais à Victoria Backhmam a quem com certeza elas ludibriaram dando por sua a ideia.
Há três meses que assisto atarantado ao êxito retumbante, por toda a Europa, da campanha dos Comboios Astrologicamente Vigiados. Tentei chegar a acordo com elas, mas riram-se na minha cara quando lhes assegurei que fora eu quem tivera a ideia e lhes transmitira num sonho. Processá-las num sonho e receber a indeminização na vida real será igualmente possível? Já dois ou três jornais zombaram da minha história, como ridícula.
Há três meses que sempre que ouço, a meio da minha insónia, alguém meter uma chave na ranhura da porta, para me vir assaltar, grito, possesso:
– Entre Irene, a casa é sua!

10 Fev 2022

Falar de nós

Falando de nossos feitos, são os efeitos melhorados, seguros, e naturalmente previsíveis no que à autossugestão diz respeito. Muitas vezes nem acrescentamos mais interesse que o imenso prazer dado pela valorização das coisas que em nós se enaltecem. Mostrar de nós coisas tão iguais a outras quaisquer nem é bem uma disputa, mas tão-somente um reflexo comparativo que todos tendemos a distribuir.

Depois os que se afundam na intrigante “originalidade” que nunca, ou quase nunca intriga (exatamente pela ausência de tal componente) podendo nós mesmo afirmar que alguém carismático pouco se apercebe desse impacto em seu redor na medida que ele é inato, mas, e dado que é particularidade perturbador e sem resposta, os que falam de si falam também de outros «sis» “de si” “de sim” “de não” e assim, num alvoroço que desconhece o poder central, se vão ajaezando à andaluza (que ao vidente nada se recusa) os que falando de todos, de si falam com demarcação e lunatismo padecentes.

Falando de nós que também merecemos, nós, aqueles que fazem, que estão de pé, que não baixam a guarda, que todos os dias lutam na aflitiva selva do desarranjo mental do mundo, dos que estão sós por destino e suprema ambição de liberdade – falando de nós, digamos – nós nem sabemos bem o que de nós mesmos dizer. Parece-nos irrisório, por outro lado, uma grosseria ocupar tempo alheio com tais voluntarismos, e por isso somos sempre aqueles que menos falam. Gente existe que opina de modo reverberante qualquer tema como instigados pela pressa de uma revelação, depois, ela não vem, as palavras estreitam-se e uma pessoa pensa o porquê de escutar as gentes em seus delírios onde se depreendem males de cognição avassaladora. Mas a vida tornou-se nisto, ou mais ou menos isto, patranhas, entranhas, e muita molécula solta de ilusionismo egótico, erótico, entrópico… Sem nos darmos conta deixámos de ouvir os sinos da Cidade, que ela se tornou um negócio de casas, casarios para mentes não casadoiras, intermitente e bastante decorativa, caríssima e carente de inquilinos de condição sustentável.

As coisas de que se fala! Coisas gentes, agentes das coisas e outras mais, e o que dizem parece uma obra ficcional ao negro tecida por escaravelhos. Dizem que dizem, fala que falam, e o certo é que quase nada se escuta da amálgama tecedeira de uma irrequieta imaginação daninha que só dá frutos estranhos: que há nisto até quem conte com o nosso testemunho! Nestas dissonantes matérias faladas existe sempre o depositário bom senso prestes a normalizar pelo verbo mofo uma “poliquice” tão correcta que o som das vozes prodigaliza o sono que por vezes não vem e por elas logo aparece. Desta estirpe de faladores os mais monótonos são ainda os negacionistas; negam até a obsoleta razão de haver tais pensamentos com roteiro de muito poucos caracteres. Mas temos fala para muito mais!

Comovemo-nos perante todas as formas de energia móvel lançadas ao vento quando se transformam em energia limpa, são aquelas vozes que se transformam em canto ao dizerem o inesperado sem dar azo a nenhum contraditório- solilóquio, narração, encanto e forma- que a palavra tem o esqueleto dos verbos altos, é como os segredos, nós escutamo-los como feitos apenas para nós.- Que esta outra coisa fala de nós, mas nós não falamos dessa “coisa” que nós devíamos falar pelo espírito das coisas, e não pelo fonador, o aparelho mais estridente que nos pôde acontecer.

E como para falar são sempre precisos dois, o que falam dois o tempo todo metidos no falatório de cada um? Empolgam-se palavrosamente numa constatação de que nada têm mais a dizer, e isso seria até bom se para tal se calassem de vez. Mas não! Há sempre uma reverberação pronta a soltar-se no trilho das causas, que os efeitos se geram por si. E dito isto, falemos então.

Não tanto que nos impeça a vida de colocar questões, nem de argumentar o irrazoável, mas das coisas concebíveis e nada mais, que o inconcebível foi esta natureza do eco partilhado por vozes tais que diríamos falácia. Falemos como nos sonhos nas noites de Verão, e se não nos doer a voz, cantemos! Nós devíamos retorquir às perguntas, respostas cantantes, e retirar de uma vez por todas a carga episcopal dos retóricos de serviço, libertá-los, que é gente amordaçada. Devemos uma certa misericórdia aos algozes frenéticos da palavra, sem a qual, a sua condição de escravos fonadores não se daria.

E soltos e mais livres, digamos pois somente o que nos inspira o pensamento, que nós sempre falaremos, e iremos Rumo a Bizâncio, o belo poema de Yeats, dizer a sua primeira frase a título de filme, que também «este país não é para velhos».

9 Fev 2022

Mês lunar e as 28 Constelações

O sistema astronómico chinês usa pequenos grupos de estrelas para enunciar cada um dos dias do mês lunar. Como o mês lunar compreende uma lunação, isto é, desde a Lua Nova até ao Quarto Crescente vão sete dias e mais sete para chegar à Lua Cheia e decrescendo passa ao fim de outros sete dias a Quarto Minguante, até que com mais sete dias regressa à Lua Nova, ao primeiro dia do mês. Assim ocorre um mês com quatro semanas a perfazer 28 dias, enunciados em regular sucessão pelos 28 asterismos, denominadas constelações. As 28 Constelações (28 Xiu, 二十八宿) estão divididas em Quatro Quadrantes (四宫, Si Gong), que correspondem às quatro semanas cada uma de sete dias a compor o mês lunar.

Luiz Gonzaga Gomes refere serem os quatro quadrantes (Si-Kun, 四宫, Si Gong): o do Leste, O Dragão Verde/Azul, denominado em cantonense Tch’êng (青, em mandarim Qing) ou Tch’óng-Long (苍龙, CangLong), e contém da primeira à sétima constelação. O Quadrante Norte, O Guerreiro Sombrio, Ün-Môn (玄武, XuanWu), abarca da 8.ª à 14.ª constelação. O Quadrante Oeste, O Branco Tigre, Pák-Fu (白虎, BaiHu), que compreende da constelação 15.ª à 21.ª, apesar de LGG referir, creio equivocando-se, conter da 22.ª à 28.ª constelação, pois trocou com as do Quadrante Sul, O Pássaro Encarnado, Tchü-Niu (朱鸟, ZhuNiao) ou Tchèok (雀, Que), a corresponder às constelações que vão da 22.ª à 28.ª e não, como afirma, entre a 15.ª e a 21.ª constelação.

Mês Lunar

Aqui deixamos a lista das 28 Constelações correspondentes aos 28 dias que constituem um mês lunar, enquadradas nos Quatro Quadrantes (Si-Kun 四宫, Si Gong) a marcar as quatro semanas, com sete dias cada.

Os nomes são os usados por Luiz Gonzaga Gomes para as 28 constelações (I-Sâp-Pát-Sôk, 二十八宿, 28 Xiu) e estrelas que compõem cada um dos 28 asterismos do sistema astronómico chinês.

O primeiro Quadrante do mês, Leste, O Dragão Verde/Azul, compreende da 1.ª à 7.ª constelação. O primeiro dia do mês lunar é chamado Kôk (角, em mandarim Jiao), O Chifre, e é formada pela constelação cujas estrelas são Espica, Zeta, Teta e Iota, dispostas em cruz, e situadas perto de Virgem.

O segundo dia, Kàng (亢, Kang), O Pescoço, formada pelas estrelas Iota, Kapa, Lambda e Ró, em forma de arco e situado nos pés da Virgem.

– Dia 3 – Tâi (氐, Di), O Fundo, constituída pelas estrelas Alfa, Beta, Gama e Iota, em forma de uma vasilha e situado na parte inferior da Libra.
– Dia 4 – Fóng (房, Fang), O Quarto – Beta, Delta, Pi e Nu, na cabeça do Escorpião. [É o 1.º Domingo do mês]
– Dia 5 – Sâm (心, Xin), O Coração – Antares, Sigma e Tau no coração do Escorpião.
– Dia 6 – Mêi (尾, Wei) – A Cauda – Úpsilon, Mu, Zata, Eta, Teta, Iota, Kapa, Lambda e Nu, formando a cauda do Escorpião.
– Dia 7 – Kêi (箕, Ji) – A Peneira – Gama, Delta, Úpsilon e Beta aparentando uma peneira e situada nas mãos do Sagitário.
O segundo Quadrante, Norte, O Guerreiro Sombrio, compreende da Constelação 8.ª à 14.ª.
– Dia 8 – Tâu (斗, Dou) – A Vazilha – Mu, Lambda, Ró, Signa, Tau e Zeta, do Sagitário.
– Dia 9 – Ngau (牛, Niu) – O Boi – Composto de Alfa, Beta e Pi do Áries e Ómega, Alfa e Beta do Sagitário.
– Dia 10 – Nui (女, Nu), A Donzela – Úpsilon, Mu, Nu e nove situadas à esquerda do Aquário.
– Dia 11 – Hôi (虚, Xu), O Vácuo – Alfa, na testa do Eqúleo e em linha recta com Beta do Aquário. [2.º Domingo do mês]
– Dia 12 – Ngâi (危, Wei), O Perigo – Alfa, no ombro direito do Aquário e Úpsilon e Teta na cabeça do Pégaso de maneira a formar um triângulo obtusângulo.
– Dia 13 – Sât (室, Shi), A Casa – Alfa, na asa, e Beta, nas pernas do Pégaso.
– Dia 14 – P’êk (壁, Bi), A Parede – Alfa na cabeça da Andrómeda e Gama (Algenib) na extremidade da asa do Pégaso.
Terceiro Quadrante do mês, Oeste, O Branco Tigre, da 15.ª à 21.ª Constelação.
– Dia 15 – Kuâi (奎, Kui), O Passo Largo – Beta (Mirac), Delta, Úpsilon, Zeta, Eta. Mu, Nu, Pi da Andrómeda e duas Sigmas, Tau, Nu, Fi, Ki e Psi do Pisces formando como que um homem dando um largo passo.
– Dia 16 – Lâu (娄, Lou), O Montículo, constituído por três estrelas em forma de um triângulo isósceles: Alfa, Beta e Gama na cabeça do Áries.
– Dia 17 – Uâi (胃, Wei), O Estômago, formado pelas três estrelas principais da Mosca Boreal.
– Dia 18 – Máu (昂, Ang), O Quadrante Ocidental, constituído por sete estrelas da Plêiade.
– Dia 19 – Pât (毕, Bi), O Termo, formado por seis estrelas na Híade com a Mu e Nu de Toiro.
– Dia 20 – Tchôi (觜, Zui), Eriçar – Lambda e dois Fi na cabeça do Oriente.
– Dia 21 – Tch’ám (参, Can), Misturar – Alfa (Betegeux), Beta (Rigel), Gama, Delta, Úpsilon Zeta, Eta e Kapa nos ombros, cintura e pernas do Oriente.
Quarto Quadrante do mês, Sul, O Pássaro Encarnado, da 22.ª à 28.ª Constelação.
– Dia 22, Tchèang (井, Jing), O Poço, constituído por quatro estrelas nos pés e quatro nos joelhos dos Gémeos.
– Dia 23, Kuâi (鬼, Gui), O Demónio – Gama, Delta, Eta e Teta do Câncer.
– Dia 24, Lâu (柳, Liu), O Salgueiro – Delta, Úpsilon, Zeta, Eta, Teta, Ró, Sigma e Ómega da Hidra.
– Dia 25, Sêng (星, Xing), A Estrela – Alfa, Iota, duas Tau, Kapa e duas Nu, no coração da Hidra.
– Dia 26, Tchèong (张, Zhang), Retesar o Arco – Kapa, Lambda, Mu, Nu e Fi na segunda espira da Hidra.
– Dia 27, Iêk (翼, Yi), A Asa, Formada por vinte e duas estrelas da Cratera e da terceira espira da Hidra.
– Dia 28, Tch’ân (轸, Zhen), A Canga, constituída por Beta, Gama, Delta e Úpsilon do Corvo.
Na dinastia Tang estas 28 Constelações tinham ao todo 183 estrelas, apesar de apenas contarmos 161 estrelas no artigo Patronos do Calendário Chinês de Luiz Gonzaga Gomes, que refere ainda, “os primeiros dias de todas as luas se chamavam kôk, os segundos káng e assim por diante, dando-se o facto de recaírem, sucessivamente, todos os primeiros dias de cada grupo de sete dias, nas constelações fóng, hói, máu, e sêng que, por este facto, equivalia a referir-se-lhes como sendo o 1.º, o 2.º, o 3.º e o 4.º domingos do mês.”
“Não obstante as suas aparentes complicações, o sistema cronológico chinês presta-se admiravelmente para determinar com mais ou menos exactidão, os diversos períodos do tempo. Os investigadores que se dedicaram ao estudo do almanaque chinês, asseveram que sob vários aspectos, ele é mais flexível que o europeu e até regista com maior rigor as alternações das estações e as suas respectivas fracções, não devendo nós deixar de mencionar o facto de o notável político e matemático francês, Paul Painlevé, ter proposto a amalgamação dos calendários chinês e europeu, com o fim de se elaborar um calendário universal que viria a ser o mais perfeito de quantos têm sido produzidos até à actualidade.”

8 Fev 2022

Palavras Que Dialogaram Com a Paisagem de Xia Gui

Por Paulo Maia e Carmo

 

Juefan Huihong (1071-1128) o monge que se tornaria uma das mais eminentes personalidades do Budismo Chan, teve um desafiante início de vida. Nascido em Yunzhou (actualmente em Jiangxi) orfão dos dois pais em 1084, o filho de um funcionário teria poucas possibilidades de encontrar um lugar na rigidez social da dinastia Song, que só acharia quando se juntou a um convento.

A sua dedicação ao estudo foi por vezes posta em causa, acusado de excesso de erudição para atingir a iluminação espiritual do Dao. Numa dessas ocasiões ele respondeu, dialogando com Lingyun Zhiqin, um célebre monge da dinastia Tang que escrevera: «Durante trinta anos procurando uma espada,/ Tantas vezes folhas cairam e rebentos despontaram,/ Uma vez olhei para uma flor de pessegueiro,/ E deixei de ter dúvidas.» Huilong respondeu no poema: «Quando Lingyun a viu uma vez, já não voltou a olhar,/ Esses ramos adornados de vermelho e branco não mostram flores./ O infeliz pescador que não pescou nada do seu barco,/ Regressou para pescar peixe e camarões em terra seca.» O seu mestre leu e aceitou-o. Também escreveu palavras tão concretas que quase mostram uma paisagem. Como o poema que inspirou o pintor Xia Gui (activo c. 1195-1230) para realizar uma pintura sob o tema das «Oito vistas de Xiaoxiang»: «A chuva da noite passada acalmou, o ar da montanha está pesado, Vapor subindo, o sol e a sombra; luz cambiante no meio das árvores; O mercado de minhocas vai fechar, a multidão diminui, Salgueiros à beira dos caminhos ao longo da ponte do mercado; como fios dourados a brincar, De quem é a casa com terreno cheio de flores para lá do vale? Que suave o trinado do pássaro amarelo chamando na brisa primaveril, Bandeiras anunciam vinho na distância enevoada – olha e verás; É o que está a Oeste do caminho para o Vale Sulcado da Árvore Zhe.»

Xia Gui foi um pintor profissional da corte e por isso mesmo desvalorizado, sobretudo a partir da hierarquia criada pelo influente teórico Dong Qichang. E no entanto ele é autor de pinturas alusivas e inovadoras, exemplares até para o tipo de linhas ditas fupi cun. A ausência de literatura contemporânea na sua biografia, bem como de escritos de sua autoria, denuncia um preconceito que só olhando a obra se percebe como foi superado.

As pinturas associadas à corte Song do Sul (1127-1279) apresentam-se habitualmente sob a forma de rolos verticais, folhas de álbum ou redondas para leques.Vale a pena por isso observar o seu extenso rolo horizontal Doze vistas da paisagem (tinta sobre seda, 27,3 x 353,6 cm) que está no Museu de Arte Nelson-Atkins, na cidade do Kansas. Apresenta-se hoje apenas com quatro vistas pintadas mas ao longo do tempo foi sendo acrescentado com colofónes que o estenderam para o triplo. Testemunho de quem olhou e, como o mestre que leu as palavras de Huihong, acreditou.

7 Fev 2022

Previsões por signos e por anos para 2022

As previsões aqui expressas são a ideia criada pela interpretação das escritas por Edward Li.

O dia de ir ao templo oferecer sacrifícios ao General He E, Deus do Ano (Tai Sui), é o oitavo da primeira Lua, que ocorre a 8 de Fevereiro de 2022

 

Tigre

Como animal do ano, os nativos de Tigre estão em Zhi Tai Sui (em confronto com o Tai Sui) significando ter pela frente um ano de muito trabalho, a tomar conta de tudo, sem dar espaço para desenvolver.

Evite as ondas de grande amplitude; os pequenos investimentos previnem tudo perder ao ser engolido nas turbulentas águas, sendo poucos proveitos melhor do que nada. Olhe pela saúde e mantenha-se em forma para melhor controlar as emoções.

Carreira: Sem uma poderosa estrela da sorte, terá a compensar a estrela Wen Chang (文昌, deus dos Letrados e da Literatura), que o colocará a aprender e a estudar mais, para se tornar um conhecedor. Se a ocupação está virada para a restauração e eventos culturais, conta com a ajuda das estrelas da sorte Tian Chu (天厨, Cozinha do Céu) e Tian Guan (天官, oficial do Céu). Já a estrela da sorte An Lu (暗禄, Dinheiro Sombra, ou da Sorte) significa receber dinheiro fora do normal. Mas não se esqueça que conta também com alguém a apontar-lhe o dedo, falando mal de si pelas costas, devido à má estrela Zhi Bei (指背). Por isso, precisa de cuidar das amizades. Outras duas maléficas estrelas, Jian Feng (剑锋, ponta da Espada, operação clínica) e Fu Shi (伏尸, Corpo Morto), representam acidentes, devendo, por isso, evitar colocar-se em situações perigosas. Lembre-se ainda que quanto mais se vangloria, mais setas irão contra si e assim, este será um ano para não ter grandes expectativas e não se expor muito.

Amor: Os nativos de Tigre, embrenhados no trabalho e apenas focados na carreira, mesmo ao encontrarem a pessoa certa não conseguem tomar uma decisão. Gostando de momentos românticos e de testar novidades, sem querer relações estáveis e duradoiras, se para os solteiros isso não traz problemas, na vida conjugal provoca turbulência e tensões.

Saúde: Ano em Fan Tai Sui será melhor ir oferecer sacrifícios ao Deus do Ano. Os nativos de Tigre nunca gostam de ouvir o que os outros têm a dizer sobre os seus defeitos, mas este ano como terá muita gente a apontar-lhe o dedo, as emoções tendem a ficar desequilibradas, propiciando por isso acidentes. Para os nativos nascidos no Verão, é fácil terem problemas com o coração, fígado e sangue.

 

Os nativos de Tigre nascidos em:

1962 – São os mais bafejados de todos os nativos de Tigre, tendo ideias activas para a carreira e conseguem ajudas para levar a bom termo os seus planos. Faça uma Festa de Aniversário para firmar as amizades.

1974 – Conseguirá ajuda de pessoas com mais experiência e se o permitir, a sua carreira e fortuna serão rentabilizadas.

1986 – Tem imensas ideias e quer realizá-las todas, mas isso está fora das suas capacidades. Quanto mais se mostra e vangloria, maior é o efeito contrário. Ano para ter relações diferentes, mas daí também podem advir problemas.

1998 – Bom para estudar e aprender, degrau a degrau, mas evite discussões. Faça sacrifícios ao Deus do Ano e uma festa de aniversário para chamar a boa sorte.

1950 – Para os que ainda trabalham, este ano estarão mais ocupados pelos afazeres e daí o cansaço. Procure não comer demais e controle o estômago fazendo mais exercício físico para equilibrar as emoções.

 

Coelho

Ano para os nativos de Coelho com apenas uma palavra, Esperar.

Carreira: Poderá contar com uma poderosa ajuda devido à estrela da sorte Tian Yi Gui Ren (天乙贵人), ligada à criatividade. Comparando com o último ano, os nativos de Coelho têm este ano mais sonhos, mais planos e mais pessoas a ajudar, mas na acção, em especial aos nativos masculinos surgem mais problemas a necessitarem de serem resolvidos. Sozinho não conseguirá realizar os seus projectos, precisando de um parceiro para os pôr em prática, sendo os nativos de Cabra um bom complemento.

A má estrela Mo yue (陌越, estrela de mudança) depende com quem se conjuga, pois se for com uma boa estrela melhora a situação, mas ligada a uma má, piora-a. Representa não ter direcção. Pensar muito e não acreditar nos outros, coloca-o a não conseguir tomar decisões e, por vezes, a encontrar razões para ter medo. Já a Wang Shen (亡神, problemas na justiça, ou perder algo de si) avisa poder ser afectado por alguém, tendo mesmo de parar a meio o projecto em que está a trabalhar.

Amor: Com a ajuda da estrela da sorte Tian Yi Gui Ren, (天乙贵人) os nativos de Coelho terão uma activa vida social e os nascidos em 1987 são os que melhor colhem esse harmonioso estar. Já os nativos de 1963 precisam de mais cuidado, pois demasiadas aventuras amorosas só trazem problemas. Este ano é necessário aprender a dar outro valor às relações.

Saúde: Com a má estrela Bing Fu (病符, Sinaliza doença) precisa de ter cuidado com a saúde, especialmente os nascidos no Verão, ou entre os dias 8 de Outubro e 7 de Novembro. Por isso, no início do ano faça um exame de saúde e vá ao Templo oferecer sacrifícios ao Deus do Ano. Limpar a casa traz também uma grande ajuda. Se tem um problema de saúde, peça ajuda aos amigos nativos de Macaco e Porco.

 

Os nativos de Coelho nascidos em:

1963 – Terão uma nova oportunidade para atingir um elevado patamar e podem contar com mais recursos monetários. Os nativos masculinos deverão evitar demasiadas relações amorosas, pois só lhe trazem sarilhos. Dê especial atenção à saúde.

1975 – Com ajudas, o ano será fácil no trabalho. Deve evitar a prática de desportos que envolvam perigo. Festejar o aniversário elevará a sua sorte.

1987 – Poder e estatuto aumentam, e os nativos femininos contarão com um ano harmonioso com o parceiro.

1951 – Muito activo, cheio de planos, tenha, no entanto, cuidado para não exceder as possibilidades do que consegue fazer. Faça mais exercício físico e relaxe. É melhor do que matar-se a trabalhar para apenas conseguir arranjar mais problemas.

1999 – Cada coisa no seu tempo e quanto mais rápido quer fazer, mais o oposto acontece. Bom ano para estudar, aprender e criar uma grande base de relações de amizade, a preparar o próximo ano.

 

Dragão

<A beber chá sozinho na alta montanha.>

Ano de muitas mudanças, com possibilidade de fazer uma longa viagem, mudar de casa ou de emprego, e também com alterações nas relações emocionais.

 

Carreira: Ano para ter de cuidar de tudo sozinho, pois ninguém o pode ajudar. Mas, devido à estrela da sorte Fu Xing (福星), protectora, que lhe limpa o caminho, se estiver em perigo, terá alguém a resolver-lhe o problema.

A má estrela Tian Gou (天狗, Cão do Céu) leva a ser fácil criar conflitos e representa acidentes, colocando-o com pessoas em que não poderá confiar, precisando por isso de ter cuidado. Ano para ter muita paciência e enfrentar os problemas em vez de os esconder. Espere pelas oportunidades certas para surfar nas grandes ondas, que permitam limpar a mente e equilibrar as emoções.

Amor: Sem ajuda de estrelas da sorte, a má estrela Tian Ku (天哭, Chora o Céu) provoca uma onda emocional aos nativos de Dragão, pois, seja no amor, na família, ou nas relações de amizade, terão de despender imensa energia para resolver os problemas, mas sem, no entanto, obter bons resultados. Daí, terá de pensar se o problema não estará em si, em vez de o apontar aos outros. Ganhar ou perder, depende da sua atitude. Mantenha-se calmo para decidir melhor.

Saúde: Os problemas para os nativos de Dragão são de natureza emocional. É você que se coloca em grande tensão e por isso, deve relaxar e ser simpático, é o melhor para todos e em especial para si. A má estrela Diao Ke 吊客, relaciona-se com a morte de um familiar, por isso, quando viajar, ou se vai a conduzir faça-o com muito cuidado para se manter em segurança e evite todo o tipo de discussões. Ao desculpar os outros, estará a desculpar-se a si mesmo.

 

Os nativos de Dragão nascidos em:

1964 – Contará com a boa estrela Lu Shen (禄神, bom rendimento e abundantes relações) de onde lhe advém dinheiro. Aproveite e agarre a oportunidade, promova a carreira, pois quanto mais arduamente trabalhar mais alcançará.

1976 – Trabalhará bem este ano com uma boa cooperação, mas evite expor-se demais, pois apenas irá atrair invejas.

1952 – Vida social activa, mas cuidado, escolha os amigos e evite qualquer forma de cooperação financeira nos investimentos. Mantenha-se atento, para evitar acidentes.

1988 – O caminho é ser paciente e trabalhar em silêncio. Cuide da maneira como os seus amigos o tratam.

2000 – Ano para se revelar e conseguir trabalhar em novas e diferentes áreas, embora isto apenas o leve a ganhar experiência, sem retorno monetário.

 

Serpente

Se no ano passado foi um bom ano para os nativos de Serpente, este será ainda melhor. Mas lembre-se, seja flexível e esqueça a intransigência, pois as verdades dos factos apenas são a sua interpretação e para lá do que lhe é dado ver, existem outros mundos de consciência que não consegue alcançar. Assim, sendo um ano de Fan Tai Sui, que está em Xing Tai Sui, significando Xing ser julgado, permite-lhe crescer ao ver-se pelos outros e muitos deles são trazidos pelas inúmeras estrelas da sorte que o bafejam, logo o julgamento que farão de si, será positivo. É um vencedor.

Carreira: Ano para se expor e fazer tudo o que quiser. A acção é o mais importante e não apenas pensar fazer, pois todas as estrelas da sorte, como a Tian De (天德) e Fu Xing (福星), protectoras, lhe limpam o caminho; Fu De (福德) a trazer riqueza material e protecção pela virtude; e as poderosas estrelas, Tian Yi Gui Ren, (天乙贵人) ajuda ligada à criatividade e Tai Ji Gui Ren, (太极贵人) alguém o apoia, levam a bom termo o que pretende realizar.

Ano de muita competição e mudanças, por isso tomar cuidado devido à má estrela Juan She (卷舌, falarem mal de si), pois o sucesso chama a inveja, o que é normal.

Precisa este ano de se abrir e aceitar pacificamente todas as diferenças, a permitir, se souber escutar, melhorar substancialmente os conhecimentos e usar a virtude para ganhar o seu verdadeiro coração.

Amor: Em Xing Tai Sui, alguém o coloca em sarilhos e por isso terá de ter a mente limpa para não se deixar envolver e entrar numa relação pouco clara. Resolva a situação rapidamente.

Com as más estrelas, Juan She (卷舌, alguém a falar mal de si) e Tian Ku (天哭, Chora o Céu), é fácil arranjar problemas com as palavras e por isso, tenha cuidado ao falar e pense primeiro no que vai dizer. Como é um ano focado na carreira, no amor não haverá surpresas.

Saúde: Os nativos de Serpente este ano estão propensos a terem pequenos acidentes. Evite pequenas discussões, que podem trazer grandes problemas. Equilibre o trabalho, para a carreira e para si mesmo, e relaxe.

 

Os nativos de Serpente nascidos em:

1953 – Além das estrelas da sorte encima referenciadas, contam ainda com Jin Yu Lu (金舆禄, grande fortuna) e se quanto à carreira e fortuna não é preciso repetir, deve apenas lembrar-se que tem demasiados namoros e por isso, terá de se organizar melhor.

1965 – Continua com um bom apoio na carreira e isso provoca inveja nos outros. Ano em que terá de passar mais tempo a equilibrar as relações. Deve sobretudo tentar controlar as emoções e ter mais cuidado com a saúde.

1977 – Irá ser promovido e vai ganhar mais. A sua vida atingirá um novo patamar.

1989 – Cheio de confiança, faz os planos funcionarem e recebe recompensa monetária satisfatória.

2001 – Ano muito criativo e cheio de vontade para experimentar tudo, mas mantenha a segurança.

 

Cavalo

No ano do Tigre [Elemento Madeira yang], os nativos de Cavalo [Fogo forte (yang)] nascidos no Verão, [Fogo], ou entre 8 de Outubro e 7 de Novembro [mês de Cão, também Fogo], precisam de ter cuidado, pois demasiado fogo não é bom, sendo bastante negativo para a saúde, especialmente a provocar ataques de coração.

Carreira: Sem suporte de estrelas da sorte, para fazer alguma coisa precisa de encontrar um parceiro para cooperar, combinando apenas com Tigre e Cão, mas atenção, não deve ser com um ser feminino por causa da forte má estrela, Bai Hu (白虎, a Tigre Branco), a representar mulher a trazer problemas e a causar perda de saúde, ou dinheiro. Os nativos de Cavalo nascidos no Outono e Inverno terão menos problemas. Ano em que cada passo deve ser dado com muito cuidado. Manter o que já tem, é o melhor.

A má estrela Zhi Bei (指背, falar mal de si pelas costas, rumores) leva-o a ter de usar os nativos dos animais com que se combina bem, Tigre e Cão, para solucionar o problema.

Amor: Os solteiros nativos de Cavalo este ano não irão encontrar a sua cara-metade, por causa da má estrela Bai Hu (白虎, Tigre Branco), a colocá-lo em maus lençóis, especialmente agora com o forte e imenso poder da mulher, terá de ser paciente. Entre os casais, precisa de dar valor ao amor e se houver problemas, procure uma pessoa do sexo masculino para o aconselhar.

Saúde: As más estrelas Fei Lian (飞廉, imprevista calamidade) e Fei Ren (飞刃, fio da lâmina) representam acidente e operação cirúrgica e se estiver grávida, mais cuidado deve ter. Se tem excesso de peso, tente emagrecer. Poderão surgir problemas no sangue, avc’s e ataques do coração. Oferecer sacrifícios ao Deus do Ano é importante.

 

Os nativos de Cavalo nascidos em:

1954 – Os melhores dos nativos de Cavalo em matéria de carreira e dinheiro. Mantenha bem o que tem, sendo ano para dar mais atenção à família.

1966 – Atenção aos namoricos, pois ter um ano calmo ou com problemas só disso depende. Conseguirá ajudas para a carreira.

1978 – Quanto ao emprego, não haverá surpresas. Poderá encontrar novas vias para se desenvolver em outras áreas a trazer algo de diferente. Mas este ano trabalhará sozinho, sem contar com nenhuma ajuda. Celebrar o aniversário é bom para recolher as energias dos amigos.

1990 – Ano muito ocupado e de árduo trabalho. Não é por muito se esforçar a trabalhar que será mais compensado. Para as nativas de Cavalo é ano de grandes ondas e precisa de muito cuidado com a saúde.

2002 – Será bem-vindo à vida social, mas preste atenção, não transforme a competição em guerra pois ainda tem muito caminho para percorrer.

 

Cabra

No ano passado os nativos de Cabra estavam em oposição ao Deus do Ano, Chong Tai Sui, e tendo conseguido realizar mudanças e equilibrar as energias, este ano estão de parabéns, pois são os mais bafejados entre os 12 animais do zodíaco chinês.

Carreira: As estrelas da sorte, Zi Wei (紫微) e Long De (龙德) são as duas mais poderosas para a carreira, a trazer a possibilidade de vir a ter uma posição de chefia na sua área, ou a ser o mais desejado e requisitado. Sendo um pouco introvertido, este ano deverá mostrar o que tem de melhor dentro de si e surpreender os outros com o seu brilho, que irão ganhar uma nova visão da sua pessoa. A estrela da sorte Guo Yin Gui Ren (国印贵人, poderosa ajuda) significa ter apoio de pessoa qualificada por isso, deverá agarrar todas as oportunidades, não importa o que quer fazer, pois em tudo o que investir terá sucesso. Para voltar a este estado de graça só daqui a doze anos.

As más estrelas, Bao Bai (暴败, mudança sem poder controlar) e Tian E (天厄, Catástrofes provenientes do Céu) representam acidentes ou desastres. Junta-se ainda a má estrela Wang Shen (亡神, perder algo de si), mas não trazem grandes problemas.

Amor: Protegida pela auspiciosa e súper estrela da sorte Tian Xi (天喜, Alegria Celeste, a transformar pequenos infortúnios em bons acontecimentos) terá todo o ano boas emoções e consegue facilmente destacar-se. Os solteiros nativos de Cabra encontram-se no ano correcto para casar e os casais, para ter filhos. Em festa com a família, celebre a data do seu casamento, ou faça uma nova lua-de-mel.

Saúde: Os nativos de Cabra nascidos no Verão deverão ter cuidado com a cabeça, olhos e coração. Os restantes, apenas precisam de controlar o que comem e equilibrar o trabalho com um relaxante repouso.

 

Os nativos de Cabra nascidos em:

1967 – Com poder e posição serão promovidos; este ano será uma boa página da sua vida.

1979 – Ano para ganhar dinheiro e conseguir chegar a outro patamar. Coloque toda a atenção na carreira e trabalhe arduamente. Quanto aos nativos do sexo feminino, o seu parceiro irá tratá-la como uma Rainha.

1991 – Activo e criativo, é ano para se focar não só na carreira, mas investir na família e ampliá-la.

1955 – Rodeado de pessoas a ajudar, apenas terá de tomar cuidado em não ultrapassar as suas possibilidades de execução. Coloque o trabalho como um entretimento.

2003 – Terá boas relações sociais, mas facilmente se deslumbra, levando-o a acumular namoros, o que lhe trará complicações. Deve definir claramente a fronteira das amizades, sendo este ano propício para as ampliar e criar uma boa rede de amigos.

1943 – A carreira continua a desenvolver-se e com compensações monetárias, precisando apenas de tomar cuidado com demasiados namorados e evitar excesso de noitadas.

 

Macaco

<A vida é uma eterna procura por fora, mas o que se quer encontrar está dentro de nós e sempre esteve à nossa frente.>

Após dois bons anos de sorte, agora haverá mudanças e grandes ondas que não podem ser evitadas pois vai entrar em Chong Tai Sui, oposição ao Deus do Ano e em Xing Tai Sui vai ser julgado. Inteligente e sensível, para os nativos de Macaco estas mudanças e vagas poderão também ser oportunidades. É o momento que faz os heróis e só depende de como age.

Carreira: Ano Fan Tai Sui significa haver grandes mudanças, incluindo trocar de emprego, de casa, emigrar e mesmo encontrar outro parceiro. Mas terá muito boas estrelas de protecção, todas de mudança, podendo ser conduzido numa boa direcção.

Se tiver planos para investir no estrangeiro, ou ir estudar para fora, este ano, a estrela da sorte Yi Ma (驿马) permite que tal se torne realidade. A poderosa estrela da sorte Ba Zuo (八座, da carreira) representa ser promovido e ficar na posição de comando, a dar-lhe hipótese de saltar para fora do normal e conjugada com a Tai Ji Gui Ren (太极贵人) terá alguém a ajudá-lo no trabalho. Já as estrelas da sorte Tian Jie (天解) e Jie Shen (解神) indicam ter apoio na resolução dos problemas e com Ci Guan (词馆, Perfeitas palavras) mesmo só com palavras consegue mudar a situação.

A má estrela Da Hao (大耗, gastar dinheiro) coloca-o com problemas financeiros e a Lan Gan (阑干, barreira) provoca não ser nada fácil atingir o sucesso devido às barreiras que encontrará. A Chen fu (沉浮) altos e baixos) significa estar a sua vida numa encruzilhada e torna-se muito difícil tomar uma decisão.

Amor: Ano cheio de paixões, mas também de muitas zangas. Irá encontrar alguém de fora para entregar o seu amor, mas este ano terá más experiências com os namoros, tanto os solteiros como os casados e por isso procure perceber qual é a melhor decisão.

Saúde: A estrela Yi Ma indica ter de viajar imenso e combinada com a má estrela Xue Ren (血刃, Fio da lâmina com sangue) significa dever evitar movimentos perigosos e ter cuidado com o trânsito. Se está grávida, é necessário proteger o feto e tomar mais precauções. Evite desportos radicais, como mergulho com garrafa, ou saltar de grande altura em corda elástica. No início do ano, no oitavo dia (8 de Fevereiro) vá ao templo fazer sacrifícios ao Deus do Ano, para que o julgamento deste lhe seja benéfico.

 

Os nativos de Macaco nascidos em:

2004 – Entra num novo nível e se agarrar bem esta oportunidade irá ter um futuro risonho.

1992 – Está no topo dos nativos de Macaco quanto à carreira e fortuna e conta com uma profícua vida social, a degustar diariamente boa comida.

1980 – Este ano precisará de trabalhar arduamente para resolver os muitos problemas que terá pela frente. Os nativos do sexo feminino poderá engravidar.

1968 – Com muitas mudanças, precisa de aproveitá-las para ganhar mais dinheiro e tentar encontrar um novo investimento.

1956 – Bastante comunicador e a falar muito bem, irá fazer algo de anormal, mas tal chamará parceiros que não são bons para si. Quanto mais simples, melhor.

1944 – Tem o respeito dos outros, na profissão e na carreira, apenas precisa de ter cuidado com a saúde e escolher caminhos seguros.

1932 – Este idoso macaco continua a ter energia e força, sendo activo na vida social, sem precisar de se preocupar com o material, apenas deve controlar o que come.

 

Galo

Após um glorioso ano na carreira, os nativos de Galo regressam este ano ao seu normal posto, onde se sentem mais confortáveis a observar por fora o que se vai passando, mas sem se misturarem.

Carreira: Sem novidades, será um ano normal, pois não conta com nenhuma estrela da sorte a ajudar. Com oportunidade de subir na carreira, mas tal ocorre apenas num momento e logo desaparece, o melhor é manter o que já tem. A não acção é o caminho.

A má estrela Xiao Hao (小耗, pequenos gastos) leva a despender mais do que tem, mas tal problema é facilmente resolvido ao não se entusiasmar nas compras e levar o dinheiro controlado.

Amor: Com a estrela da sorte Yue De (月德, Virtude da Lua) os nativos de galo mostrar-se-ão mais simpáticos, captando a atenção dos outros. Este ano permite também recuperar a imagem deixada por não conseguir expressar bem o que lhe vai na alma, e assim mudar a maneira como os outros o vêem. Para os solteiros, é um bom ano para encontrar parceiro, pois sem a carreira a ocupá-lo, terá todo o tempo para se dedicar ao amor. O mesmo com os casados, que devem aproveitar para encontrarem espaço para a família. Tenha cuidado com os encontros virtuais pelo computador.

Saúde: Com a má estrela Shi Fu (死符) sinal de morte), os nativos de Galo deverão ter mais cuidado com a saúde, sendo propício aparecer uma doença inesperada, como diabetes, problemas na próstata e para os nativos do sexo feminino, problemas no útero, especialmente para os nascidos em 1945 e 2005.

 

Os nativos de Galo nascidos em:

1993 – Com muito boas relações, é ano para uma vida amorosa, sendo na carreira e dinheiro o melhor dos nativos de Galo. Trate bem as amizades, senão podem aparecer muitos problemas.

1981 – Parece ter muitas oportunidades, mas apenas o levam a trabalhar arduamente, sem alcançar grandes proveitos. Por isso, deve saber decidir o que fazer, ou não fazer.

1969 – Ano sem grandes ondas, tal como gosta, para caminhar passo a passo, simples, mas seguro.

1957 – Contará na carreira com uma onda de elogios, mas sem grandes repercussões. Se investir faça-o por prazer, pois o retorno não será material.

1945 – Ano relaxante e agradável, pois terá ajuda de alguém a tomar conta dos detalhes da sua vida quotidiana. Apenas precisa de fazer exercício físico, como andar para manter a saúde.

 

Cão

Tendo passado um ano de mudança, sem perigosas ondulações, chegado ao ano de Tigre, um dos três, juntamente com o Cão, que se combinam (san he), agora os seus inimigos vêm procurá-lo como amigos e isto abre uma nova etapa.

Carreira: Entrando no ano, onde tem ajuda dos outros dois animais que consigo se conjugam, terá sem dúvida boas relações com toda a gente e isso alavanca a carreira. A estrela da sorte San Tai (三台, o Carimbo) transporta-o a um lugar de chefia, podendo dar ordens aos outros, mas os nativos de Cão já sabem que, quanto mais trabalham maior é a sua sorte.

A má estrela Guan Fu (官符) indica ao fazer algo, dever tomar muito cuidado e não colocar como garantia a sua palavra. Já as más estrelas, Wu Gui (五鬼, Cinco fantasmas), a representar pessoas a fazerem-lhe mal pelas costas e Zhi Bei (指背, a falarem mal de si) advertem para os problemas que alguém no emprego lhe trará. O sucesso chama a inveja e daí os nativos de Cão este ano dever acalmar-se e com modéstia não proclamarem alto e em bom som serem os melhores.

Amor: Todos gostam de si e é a atracção para onde quer que vá. Bom ano para os solteiros, que estarão como peixes na água. Já os casais, precisam de ter cuidado com as relações extra conjugais e se for inteligente deve transferir essas energias para encontrar um bom parceiro de trabalho.

Saúde: Cão (戌, Xu) é Terra yang, que representa Fogo, e sendo um ano com demasiado fogo facilmente terá problemas de pulmões e no intestino grosso. Devido a muitos almoços e jantares sociais, diabetes podem ser um problema para todos os nativos de Cão, sobretudo para os nascidos em Fevereiro, Junho ou Outubro. No início do ano, a 8 de Fevereiro vá ao templo fazer sacrifícios ao Deus do Ano.

 

Os nativos de Cão nascidos em:

1982 – Tem uma clara ideia do que pretende na carreira e contará ajudas de toda a gente para progredir. Os bons resultados levam-no a receber mais do que espera.

1994 – Em conjunto com os nascidos em 1982, serão ambos para este ano os mais afortunados dos nativos de Cão.

1970 – Só precisa de acelerar, pois à sua frente tem estrada livre para mostrar todo o seu potencial, devendo apenas ter cuidado com a saúde.

1958 – Altura para enveredar por novos assuntos, mas terá de fazer tudo sozinho, pois não conta com ajudas, conseguindo mesmo assim um ano satisfatório.

1946 – Precisa de ter cuidado com o que diz, já que este ano as palavras podem causar-lhe problemas. Mantenha-se sempre como segundo e não se mostre como o campeão. Atenção aos muitos encontros amorosos.

 

Porco

<Com bom coração, todos os dias são bons.>

“A Primavera chega e as borboletas andam de flor em flor e a súper estrela da sorte Tai Yin (太阴), a Lua) tira o frio ao coração, tornando-o mais alegre e a sentar-se com companhia para ver o nascer e pôr-do-sol e mesmo a estrela da sorte Lu Shen (禄神) o acompanha.”

O Porco, nos seis pares que se combinam, é o grande amigo do Tigre e também está em Fan Tai Sui, mas em Po Tai Sui (fácil ocorrer danos) leva ambos a ficarem um contra o outro, trazendo problemas e por isso será um ano complicado. É no equilíbrio das suas emoções que se fará o ano, mas tudo apenas dependerá da sua atitude.

Não importa como, este ano será melhor do que o anterior. Bom para planear o que virá e criar boas bases.

Normalmente é muito sério e tenso, a deixar os outros nervosos, mas para este ano deverá mostrar a sua gentileza e relaxando dar um bom sentir aos que consigo convivem.

Carreira: A súper estrela da sorte Tai Yin (太阴, a Lua, combina yin e yang e traz a Paz) abre o seu coração pois representa boas relações sociais, que transformam o negativo em situações positivas e tornam os nativos de Porco mais simpáticos e cuidadosos com os outros, levando assim a receberem mais ajudas. A estrela da sorte Lu Shen (禄神, bons rendimento e boas relações) coloca o seu trabalho a render e por isso, quanto mais trabalha mais ganha e o que fizer vai servir para preparar o próximo ano. A má estrela Gu Chen (孤辰, estar só) potencia más emoções e a rejeitar tudo, incluindo ajudas. Já a má estrela Guan Suo (贯索) linha escondida, armadilha) traz algo para desfazer os seus planos.

Amor: Ninguém rejeita uma pessoa simpática e que gosta de ajudar os outros, sendo estas as características dos nativos de Porco. Se quiser, este ano não precisa de se preocupar em não ter um parceiro, pois o difícil é escolher quem e por isso os solteiros terão hipóteses de casar. Já a má estrela Liu Xia (流霞, atraente, mas com rápido terminar de relacionamento) avisa-o para ter cuidado com os muitos encontros amorosos.

Saúde: A má estrela Wang Shen (亡神, Perder algo de si) representa acidentes e combinada com Po Tai Sui (fácil ocorrer danos) revela ir ser confrontado com algo perigoso, em especial os nativos nascidos em 1935 e 1995. Por isso, ano para controlar as suas más emoções e não colocar pequenos problemas a darem-lhe enorme trabalho para resolver. Faça mais exercício, pratique ioga e meditação, ou caminhe pela montanha para ficar mais calmo.

 

Os nativos de Porco nascidos em:

1983 – Bom ano nos rendimentos, conta na carreira com bons suportes e ajudas. Muitos serão os encontros românticos.

1971 – A carreira terá bons e diferentes caminhos para se desenvolver. Irá gastar muita energia e ficar em tensão, impaciente, até conseguir atingir o pretendido. Relaxe para atingir o equilíbrio.

1959 – Hipótese de desenvolver a carreira pois alguém vai conhecê-lo melhor e descobrir as suas qualidades e habilitações. Não será fácil, pois terá de fazer o caminho passo a passo.

1995 – Precisa de estudar mais e ganhar experiência para alcançar outras competências, a trazerem-lhe grandes ajudas no ano de 2023. Cuidado com os acidentes e por isso, evite praticar desportos de risco e entrar em discussões.

1947 – Continua a ocupar a posição de liderança e é respeitado pelos outros. Se não pedir demais, será um bom e alegre ano.

 

Rato

Com um ano passado cheio de estrelas da sorte, os nativos de Rato este ano não contarão com grandes ajudas, devendo estar preparados para acolher a mudança. Será um ano muito ocupado, mas sem retorno.

Carreira: A estrela Yi Ma (驿马, mudança) significa ter de enfrentar muitas e novas situações, incluindo mudar de emprego, de casa, emigrar, ou ir estudar para o estrangeiro. Precisa de resolver os problemas um a um e sem ajudas, terá de tomar conta de tudo. Sem nenhuma boa estrela, será um ano muito ocupado e por isso, deve aprender a planear a longo prazo. Tire prazer do que faz e não tenha grandes expectativas. Coloque este ano como Inverno, tenha paciência e espere a chegada de 2023.

A má estrela Gu Chen (孤辰) representa ficar sozinho e as Di Sang (地丧 sang=perder; di=terra) e Sang Men (丧门, má sorte) trazem más notícias e tristeza. Este ano o problema estará dentro do seu coração.

Amor: Sem estrela da sorte e com a má estrela Gu Chen (孤辰), significa ser fácil ao casal entrar em discussões e daí ser necessário haver paciência entre ambos, escutarem as razões do outro e tentarem conciliar-se, mas tal exige mudanças interiores. Quanto aos nativos de Rato solteiros, devido à estrela da sorte Yi Ma (驿马) terão hipóteses de fazer mais amigos e facilmente mudar de companhia.

Saúde: A má estrela Yang Ren (羊刃, operação cirúrgica, corte a provocar sangue) indicia ser fácil cair e partir a cabeça, e ter de ser operado.

A má estrela Sang Men (丧门, porta da morte) significa receber más notícias da família, desregulando-lhe as emoções, e ter de cuidar da saúde dos seus. Este ano, Junho é o mês mais perigoso para os nativos de Rato, por serem Água yang e Junho (Cavalo, Fogo yang) e daí a violência do confronto entre os dois elementos opostos, a indicar que deve ter cuidados especiais nesse mês.

Como não conta com estrelas da sorte, coloque tudo num plano fácil para passar bem este ano.

 

Os nativos de Rato nascidos em:

1972 – Enfrentarão uma grande competição, mas como têm boas bases e qualificações facilmente conseguem resolver os problemas. Poderá testar novos caminhos e tornar o ano mais colorido. Os nativos masculinos deverão prestar mais atenção à saúde.

1984 – A sua carreira poderá ser ajudada por pessoas com mais experiência e daí continuar na mesma direcção a desenvolvê-la.

1996 – Activa vida social e ao falar consegue ganhar a atenção dos que lhe estão próximos. Ano propício a uma relação romântica mas tenha cuidado em não se deixar cativar por outras mais, que só lhe trazem problemas.

1960 – Ano de muito trabalho, mas o que recebe é o oposto. O estar muito ocupado só lhe destrói a saúde e por isso, o melhor é abrandar e relaxar.

1948 – Quanto à carreira, ano em que menos é mais e assim sendo dirija os seus interesses para usufruir do prazer das artes e cultura.

2008 – Ano muito activo e cheio de recompensas materiais, mas não coloque grande pressão nos estudos, podendo a boa relação e comunicação com os pais resolver muita dessa tensão.

 

Búfalo

Seguindo diferente caminho ao do Tigre, os nativos de Búfalo este ano devem prosseguir o rumo descoberto no tempestuoso ano transacto e com vontade, tudo se torna mais fácil.

Protegidos por uma poderosa súper boa estrela, os nativos de Búfalo serão um dos três animais mais bafejados pela sorte, na carreira, no amor e dinheiro e por isso viverão em felicidade e cheios de alegrias.

Carreira: A súper estrela da sorte Tai Yang (太阳, Sol como a grande estrela) este ano está para os nativos de Búfalo como o Sol para a Terra, fazendo desaparecer todos os problemas. Leva-os a estarem cheios de confiança e sempre com bom humor, tornando tudo mais fácil. A estrela da sorte Jin Yu Lu (金舆禄, grande fortuna) significa ser colocado em frente à sua porta um imenso tesouro. Já a influência das más estrelas, Tian Kong (天空, Vazio Céu), Gu Chen (孤辰, estar sozinho), Hui Qi (晦气, Energia Suja) e Tun Xian (吞陷, ser engolido), leva-o a ficar zangado e a isolar-se, mas apenas trazem uma pequena turbulência, que servirá para não se deixar adormecer na imensa felicidade e despertar para a boa vida que tem.

Amor: A estrela da sorte Hong Luan (红鸾, Sorte no Amor) traz um romântico e harmonioso ano, sendo propício aos solteiros casarem-se e os casados terem filhos e realizarem uma nova lua-de-mel.

Saúde: O ano apresenta-se sem problemas de saúde. A má estrela Gu Chen (孤辰, estar sozinho) leva-o a fechar-se para meditar e limpar as impurezas. Os nativos de Búfalo nascidos no Verão deverão ter cuidado com problemas de coração e AVC’s.

 

Os nativos de Búfalo nascidos em:

1973 – Quanto à carreira e dinheiro são os melhores entre os nativos de Búfalo. Todos os seus planos podem ter andamento e fácil progressão. No amor será um ano complicado pois encontrará tantas hipóteses que não consegue tomar uma decisão e escolher.

1961 – Cheio de energia para planear muitos projectos, ficará satisfeito com o que consegue receber.

1949 – Os seus investimentos este ano darão lucro. Não coloque demasiada pressão sobre si.

1985 – Sem grandes ajudas, será um ano perigoso para o nativo masculino de Búfalo devido a acidentes e para o feminino, por operações cirúrgicas.

1997 – Vai ser promovido para um lugar de chefia e a sua confiança coloca-o a falar e agir bem, conseguindo atrair as pessoas. Ano bom para casar.

 

Votos de um Feliz Ano Novo – 新年快乐 (San Lin Fai Lok, 新年快乐em mandarim Xin Nian Kuai Le), e sobretudo, com muito Boa Saúde – 身体健康 (Sun Tan Kin Hong, em mandarim Shen Ti Jian Kang).

 

5 Fev 2022

Da serenidade

E o colapso não é uma fronteira última, nem o que vimos descer uma vitória da queda, sempre em algum lugar havemos de cair mais fundo que o nível da interdição. Mergulhamos até ao chão oceânico por que tudo são partes do mundo conquistado – que nós, somos grandes produtores materiais, somos a própria substância da multiplicação, e «se morre, nasce…desmorre… » não nasce o organismo morto, mas a montagem da carga em cadeia na sua ampliação.

Conhecemos o descanso depois da luta, e o entusiasmo renovado após as derrotas, que enquanto predadores não nos é possível ficar sem cair, apenas quietos, que esta combustão tem de queimar, mas nunca os serenos destinos servidores que carregam outras leis, planeiam a deriva da condição (perigoso bem, este também) pois que estão revestidos de colunas salvíficas, de frente para a circunstância, o tangível, com todos aqueles que afrontam a existência em golfadas de ambição e movimento descontrolado, eles alinham os desígnios e impedem a derrocada, que a vida em ondas de choque contínuas terá as suas sentinelas a impedir a força do Trovão.

E eles estão sós. O mundo necessita da sua solidão, passa por eles a estrutura subtil da restauração da harmonia, do controle do desastre, desviando-o, e melhor que isso tudo, transformado. Necessitam de pouquíssimas estrofes estes tocadores de harpa de teias de aranha, eles que se infiltram, onde queda e condição não devem cegamente passar .

Não os reconhecem as gentes enquanto pedras angulares no seu exaustivo labor da pouca arte de viver, mas, ser-lhes-á servida a lembrança quando as coisas serenarem.

A eles, sempre lhes custará assistir à queda que parece sem fim dos grandes infortunados, à zanga terrível dos insubmissos, à rudeza dos factos, e aos seus inesgotáveis sofrimentos, por serem mais frágeis, por não conseguirem entender tais realidades: pois suas realidades têm um olho dentro da circunferência que perscruta todos os lados em simultâneo, e nesta paragem, dão-se conta da energia perdida que só eles ainda imaginam para onde vai.

Tudo isto é vida? É vida! Mas não entendível. Os condenados parecem ter dela áspera memória, e por isso inventaram as chacinas como acto último de uma estranha compaixão. Ficam então em órbitra os intocáveis, aqueles que entre a plenitude e o abismo se mantêm serenos, que a estranheza de que dão provas não é senão uma conquista pela graça, uma certa aceitação que não renega no entanto a dura coragem para defender aqueles que dependem do fluxo dessa mesma vida.

Terminamos dentro de momentos o mundial circular agente pandémico, mas a força dos materiais nunca se dissolve, esculpindo ao redor fileiras de intenções. E outros grandes desassossegos em marcha ocorrerão: Gaia magoada, em revolta fera por dentro das suas raízes – dores fêmeas de um planeta cuja revolta já hoje desconhecem os homens – trazendo-lhes o conhecimento inesperado do que é uma mulher, que embrulhados nas avalanches e nos fogos, incapazes de conduzir a própria marcha humana, Serenamente vimos estes abismos de olhos abertos, e nem sinal de julgamento foi equacionado.

Nessa dimensão não se desejará apartar os seres das suas quimeras, eles sofrem já demasiado. Todas as épocas foram duras, porque duro é o Humano, e se houver entre eles baluartes, será ainda essa voz escondida e vivificante dos poetas trazendo lembranças. Só que estamos num outro patamar da consciência, e o que aqui foi dito, suspeito ainda que devia ser calado, mas há momentos que não podemos mais.

4 Fev 2022

O xingxing

Na primeira orla montanhosa do Sul, ficam as montanhas da Pega (Queshan). As antigas crónicas relatam que ali, nos vales que serpenteiam os sopés, os aldeões contam estranhas e variadas histórias sobre um tal de monte Zhaoyao, um cume que apresenta a característica singular de quando em vez estremecer. Recentemente, o Instituto de História da Academia de Ciências Sociais de Sichuan acredita ter provado que se trata do monte do Gato Agachado (Mao’er), assim denominado devido à forma do seu pico, que fica a cerca de cem quilómetros a norte de Guilin, na província de Guangxi. Nas suas encostas cresce a canela, abunda o ouro e o jade. Riquezas minerais à parte, este monte é conhecido pelos seres bizarros, plantas e animais, que por ali terão existido.

As crónicas narram, com relativo detalhe, a existência de árvores com propriedades fabulosas, capazes de matar a mais profunda das fomes ou de impedir os viajantes de se perderem do seu caminho, mas talvez a mais espantosa entidade do monte Zhaoyao seja um animal, a que chamam xingxing, cuja forma se parece com a de um macaco de cauda longa com a cabeça decorada por duas orelhas brancas. O xingxing caminha acocorado, mas quando corre assume a posição vertical dos humanos. Talvez por isso, nesta região, se creia que comer este animal aumenta a capacidade para correr.

O xingxing é também descrito como tendo, além da longa cauda e das orelhas brancas, uns olhos muito vermelhos. Outros descrevem-no como um porco de face humana. Contudo, a sua característica mais fascinante é o facto de “chamar as pessoas pelo nome.” Esta capacidade para articular palavras é o que leva, talvez, um outro compêndio a considerar os seus lábios uma iguaria. Na região onde vive o xingxing, os camponeses descrevem-no como um bicho nómada, que vagabundeia sem nexo, nem objectivo perceptível. Contudo, queixam-se também de ser um animal muito difícil de capturar.

O que desgraça o xingxing é o seu amor desmedido por vinho e sandálias. Estando a par desta tara, os camponeses colocam estrategicamente, em locais que sabem frequentados pelo bicho, vinho e várias sandálias atadas umas às outras. Quando se apercebe da presença da bebida, o xingxing aproxima-se, apesar de saber que se trata de uma armadilha e consegue reconhecer quem a terá montado. Então chama-o muito alto pelo nome e insulta-o, imprecando: “Seu miserável escravo! Julgas que me apanhas?!”

Logo em seguida, o xingxing afasta-se. No entanto, passado pouco tempo, regressa pois não resiste a experimentar o vinho e a calçar um par de sandálias. Se ele bebe demasiado torna-se uma presa fácil porque fica ébrio e as sandálias, presas umas às outras, não lhe permitem correr. E assim os camponeses são finalmente capazes de o conduzir a uma jaula, amparando-o como se faz a um tio bêbado. Quando depois alguém se aproxima e, para o irritar, lhe diz “vá, arranja maneira de sair da jaula…”, ele volta-se para essa pessoa e dos seus olhos deslizam lágrimas rubras que encharcam a pelugem fulva do seu rosto.

4 Fev 2022

Tigre

Âncora entre marés. Palavra-chave

Podemos pensar e até devanear acerca da possibilidade de tudo ser irresolúvel, assumir um olhar niilista e nele descansar porque mais fácil. Podemos ser selvagens e retroceder à pureza dos instintos básicos de egocentrismo que vai muito além, ou fica aquém dos desígnios estruturais em cada comunidade animal, que visam proteger a espécie, o grupo, a alcateia, mas também podemos depurar custosamente este balanço entre razão emoção e experiência e dormir sobre a convicção de que já cá não estaremos dentro em pouco, no mínimo à escala do universo. Uma verdade. E pousarmos as peças estratégicas a evoluir no tabuleiro. O que somos e gostamos, o que achamos belo, bem, ou bom, o conforto de termos critérios que arrumam a mente, mesmo se não nos trazem o retorno que pensávamos dever ser inevitável. E deixar que a memória nos traga ao convívio aquele tu outro que nos faz reviver ou rebrilhar, ampliados para além dos defraudados sinais de que a vida é ela própria soberana nas suas dispersas e múltiplas ramificações. Improdutiva e inútil. Mas o retorno a coisas simples de sentir, verdades sobre as quais nos construímos, não tem preço nem está à venda. Um tu outro. Que sinto. Um tu, que não está ao alcance dos critérios pode ser essencial e é. Aí, nessa zona inalcançável do paraíso. Sem mais, para além do que me é dado poder. Uma palavra. Como a cavilha retida e retirada abruptamente. Numa granada de mão que voa no destino que não se vê. A explodir. Sem cuidado, o estilhaçar irrecuperável da memória. Ou um enorme fragmento que voa do lugar e poisa inusitado sabe-se lá onde, no dia de alguém. Ou, não dita. Nós e os outros. Sem conversar. Tigres em extinção.

 

 

Tigre de água, seriedade e maresia

levanta-se cedo e pinta as unhas de vermelho

como retrato do fogo

e fantasia

 

às vezes os olhos crus perdidos no ar

bicho em extinção

pressentimento de um futuro abalar

as candidatas do partido, evitam cuidadosas o batom na fotografia

tristes tigres

estamos

 

rodeados de bichos que lavam os dentes ao espelho da manhã

mas com uma condição:

mamíferos sim, répteis não

insectos sim, vermes não

porque a falar

enquanto comem

já não nos dizem nada.

 

3 Fev 2022

A Viagem de Li Shi e o Perigo de Adormecer Com Tigres

Mokuan Reien o peregrino budista Japonês que foi ordenado em Kamakura em 1323, passados três anos foi para a China onde viveu até 1345, para aprofundar o Dao na região de Jiangnan. Primeiro no templo Liutang, na área do Lago do Oeste e depois durante dez anos no templo Benjue entre 1333-43,onde dirigiu o repositório dos Sutras. Também fez pinturas, que o levariam a ser considerado um segundo Muqi (ou Fachang, 1210-1269) o admirável pintor do Chan também associado ao templo Liutang, particularmente venerado no Japão. As pinturas de Mokuan, levadas para a sua terra natal, seriam admiradas tanto pela concepção do acto de pintar como pelos temas. Como é o caso dos Quatro a dormir (Shisui, rolo vertical, tinta sobre papel, 73,7 x 32,5 cm) que hoje se encontra em Tóquio na colecção da Fundação Maeda Ikutokukai. Nela convergem o significado e o modo de fazer, desenrolando o paradoxo de figurar o que não se pode ver, que é referido como o «sonho», sonhado pelas personagens adormecidas. Os três que são associados ao Monte Tiantai (Zhejiang): Fenggang, Hanshan e Shide e o tigre que sempre acompanhava o primeiro. As figuras operam aqui como um dispositivo despertador de uma corrente de significados associados ao mistério de Hanshan e Shide, personalizações de um conjunto de preciosos poemas. Na pintura está uma inscrição feita por Shaomu do templo de Xiangfu, que saúda com «as mãos juntas»: «O velho amigo Fenggan abraçando o tigre, dorme,/ Num amplexo de grupo com Hanshan e Shide./ Sonham o Grande Sonho da fluida impermanência,/ Enquanto uma árvore velha e frágil se agarra à beira do precipício.» Esse precipício a que ele alude pode ser aquele estado entre o sono e a vigília ou entre a sombra (jing) e a penumbra (wangliang) que dialogam por exemplo no capítulo dois do Zhuangzi.

Li Shi que esteve activo no século XII é um nome associado a uma pintura cujo título pode ser traduzido como «Viagem em sonho pela região dos rios Xiao e Xiang» (Xiaoxiang woyou, rolo horizontal, tinta sobre papel, 33 x 403,6 cm) que está também em Tóquio no Museu Nacional, onde é visível uma técnica que é referida com esse nome de «penumbra» – wangliang hua, habitualmente traduzida como «pintura de aparição.» Na figuração imaginada da área que foi frequente motivo de poetas, e que seria encapsulada como tema na denominação «Oito vistas de Xiaoxiang» tudo é ao mesmo tempo conciso e vago. Nalguns lugares como que dissolvendo-se na bruma, dialogando com o que não pode ser visto, numa reafirmação de que o lugar da sua apreciação é no mundo da literatura. Que estas duas pinturas se encontrem no Japão não será alheio o facto de ter sido ali que se desenvolveu o género pictórico designado sumi-e, figuras de água e tinta, em que as formas, como se fora o tempo, fogem imprecisas sem se fixar – dir-se-ia um sonho.

3 Fev 2022

2022 Ano Tigre Água

O ano lunar começa a 1 de Fevereiro e terminará a 21 de Janeiro de 2023, sendo para o Feng Shui o início do ano de Tigre o dia 4 de Fevereiro de 2022, quando se celebra o Lichun, Princípio da Primavera.

A China, com existência há setenta e oito ciclos, cada de 60 anos, para este ano apresenta o número 39 e corresponde a Ren Yin (壬寅, em cantonense yam yan), ‘o Tigre atravessa a floresta’. No Caule Celeste, o Elemento Ren (壬), Água yang, direcção Norte, e no Ramo Terrestre, Yin (寅, yan), Tigre (nome comum Hu) regido pelo Elemento Madeira yang, direcção Leste Nordeste.

Para o ano Tigre Água, os nativos de Cabra estarão no topo da boa sorte, seguido pelos de Serpente e Búfalo. Os nativos de Cavalo, Porco, Coelho e Cão que nasceram no Inverno terão um ano mais fácil. Já os de Rato, Dragão e Galo estarão ocupados com muito trabalho. Os animais com pior ano serão os de Tigre e Macaco.
Água yang alimenta Madeira yang e Yin (tigre) é a chave para abrir o armazém do fogo, que segundo as previsões de Edward Li aqui deixadas, aparecerá com diferentes focos:

– Ligado com a pandemia, para onde a atenção está toda virada, o vírus cujo Elemento é Fogo e sendo este ano Tigre de Madeira yang, levará o Fogo a ficar mais forte e assim, o vírus em vez de desaparecer vai tornar-se ainda mais complicado.

Se os países pensarem apenas em termos económicos e abrirem as fronteiras, aceitando viver com o vírus no quotidiano, são más notícias pois novas variantes aparecem, a levar ao caos. Atenção aqui. Ano de muitas novidades, como novas vacinas e medicamentos para resolver o problema da Covid-19, mas dentro do intenso nevoeiro do momento não há uma imagem clara do que nos está a ocorrer. Apenas este ano se poderá ver os efeitos colaterais das vacinas.

– Dois anos de existência da pandemia nas nossas vidas, sem válvulas de escape para aliviar as tensões, ao chegar a um ano de Fogo eleva-se a impaciência e a pressão colocará as pessoas a fazerem imensos disparates.
– Abrir o armazém do fogo, significa acender o rastilho para a Guerra e este ano é propenso passar-se das palavras aos actos. Grande possibilidade de ocorrer explosões de gás nas casas, em contentores e outros acidentes ligados com o fogo, assim como vulcões, tremores de terra, tsunamis, serão o normal quotidiano do ano em que a Natureza perde a balança e como a guerra não é possível de ser evitada, o mais importante é manter-se em lugar seguro, preservar a boa saúde e esperar pelo desagravar no ano seguinte, de menores extremos.

Este ano a Madeira yang é alimentada por Água yang e terá para 2023 os mesmos Elementos mas em yin, logo não serão tão intensas as ocorrências.

– A interrupção e desregulação dos sinais digitais, vitais para o actual quotidiano, serão devidas à interferência do planeta interior Mercúrio (o planeta Água) e dos exteriores, de onde provêm poderosas energias de Júpiter (o planeta Madeira) e Marte (o planeta Fogo), a provocar na Terra problemas nas telecomunicações, impedindo por vezes o sinal. Tal falha, nem que seja por breves momentos, desregula o estar da vida na Terra, exponenciando acidentes.

Entre os sessenta desenhos do livro “Tui Bei tu”, ao olhar para o 39.º, cujo título é Ren Yin, apresenta um pássaro sem garras no cume da montanha e na base o Sol, parecendo a imagem representar os carácteres 九日 (9 e Sol) e acrescenta o poema, – toda a gente chora. Caos, pois dia e noite não têm diferença, provocando os nove sóis seca e escassez de alimentos. Acompanha com o 27.º hexagrama do Yi Jing, As Bordas da Boca. Trovão na base da Montanha: prover alimento, sendo o homem superior cuidadoso no falar e a controlar o que come.

Imensa Água alimenta Madeira forte

Macau, renascido em 20 de Dezembro de 1999, tem o seu bazi a não gostar nada de Água e sendo os próximos dois anos, o de 2022 Água yang e o de 2023 Água yin, no primeiro semestre deste ano será tudo complicado. Em Macau quando está mau é mesmo ao fundo, mas logo no segundo semestre e sendo Elemento Madeira a alimentar o Fogo, a situação melhora e com a pandemia controlada, rápida e fulgurante os ambientes da cidade animam. Já para o próximo ano, do Coelho, Macau em Fan Tai Soi terá de fazer uso da imaginação e criatividade e ao encarar as vagas, reflectindo desbravar nas suas várias dimensões.

Como nota, o Qi Gong (Palácio de Energia) da nossa terra, Lin Dong (林 东) passou desta vida no dia 20 de Janeiro de 2021 com votos, como Ser de Puro Espírito, ter o Dao transmitido chegado ao ritual quotidiano na energia do bem-fazer e ajudar, pois nisso foi Grande a sua Vida. Esperemos encontrá-lo no templo como um Tai Soi.

O GENERAL HE E

O Deus do Ano (Tai Sui, em cantonense Tai Soi) de 2022 é o General He E, nascido durante a dinastia Yuan em Yanling, Hunan. Perspicaz a investigar e firme nos objectivos, tinha um rápido pensar e a habilidade de resolver depressa complicados crimes. Calmo, actuava estrategicamente como chefe militar levando a conseguir conquistar facilmente as cidades fortificadas. Como administrador era equilibrado e em boa condução governava as diferentes populações, as quais com ele sempre se sentiam felizes. Um dos primeiros locais em que esteve à frente a governar foi a província de Guan Zhong (na bacia do Rio Wei) após a ter conquistado. Como muitos corpos estavam espalhados sem sepultura e os habitantes começavam a ficar doentes, mandou os soldados procurarem os corpos e depois de os juntar numa pilha, queimá-los, para assim evitar espalhar doenças. Devido às suas qualidades de ser honesto e benevolente líder, foi mais tarde transferido para a corte imperial, ficando a chefiar o exército e a controlar as áreas sensíveis da cidade capital. Nos livros de História vem referido ter encontrado sete mil taéis de ouro numa parte da muralha que colapsara durante a conquista da cidade. O normal era ficar essa quantia para quem chefiava o exército, que depois da batalha a distribuía pelos seus homens, mas como o Imperador pretendia começar outra campanha para conquistar mais terras e para isso era preciso aumentar as taxas à população, resolveu o General doar o dinheiro para o povo não sofrer com mais impostos.

Sendo o Tai Sui do ano de 2022 o General He E, ficaria bem ao mundo encontrar o equilíbrio perdido e em estratégica condução ética ser governado por inteligentes, honestos e benevolentes líderes.

O dia de ir ao templo oferecer sacrifícios ao Deus do Ano General He E é o oitavo da primeira Lua, que ocorre a 8 de Fevereiro de 2022.

3 Fev 2022

Nada está perdido – Terceiro Acto | Cena 3

Terceiro Acto | Cena 3

Gonçalo tira uma mancheia de tremoços e apaga o cigarro com a outra mão. Lá fora o vento começou a soprar de mansinho, indiferente à galhofa dos pássaros que se ouve através da janela. Valério volta a folhear o texto do amigo.

Valério

Devias acabar o livro…

Gonçalo

Já tinhas dito isso… Ou não?

Valério 

Acho que não.

Gonçalo

Se dissesses história…

Valério

História?

Gonçalo

Em vez de livro.

Valério

[sorrindo]

Por amor de Deus…

Gonçalo

É verdade… [pausa] Se dissesses história, não me fazia comichão nenhuma. “Sim, vou acabá-la em breve”… Mas livro… Já pesa na consciência.

Valério acende novo cigarro e levanta-se. Vai até à janela e perscruta a escuridão sonora que acontece lá fora. Dobra-se e pousa os cotovelos no parapeito. Dá uma longa passa no cigarro.

Valério

Chega uma altura que tens de assumir…

Gonçalo

O livro?

Valério

[agastado]

O que quiseres…  livro ou não-livro. [exalando o fumo] Assume, toma uma decisão.

Gonçalo olha-o, estranhando aquela súbita mudança de humor. Depois pega na garrafa de vinho e deita-o no copo. Valério fecha a janela e vem sentar-se outra vez ao pé do amigo.

Valério

[procurando as palavras]

Talvez não sejas escritor.

Gonçalo

Ó diacho…

Valério

Vais escrevendo umas coisas… coisas boas, claro… mas não és um escritor. [pausa] Daqui a nada tornas-te um “poderia ter sido”…

Gonçalo

[curioso]

Como é isso?

Valério

Aquele de quem toda a gente falava… o que poderia ter sido um grande escritor. [pausa] Há tantos assim, cheios de talento… escreveram uns contos, umas críticas, publicaram alguns poemas numa revista qualquer… e depois, quando chega a hora H, “ah e tal… morreu a minha mãezinha”… “a tecla A no computador saltou…”, “ando inseguro”… “tenho tido muitas traduções”… ou “ainda estou a pesquisar”… tudo serve para fugir do “não consigo, ponto final”.

Gonçalo

[melindrado]

Mas eu começo sempre assim, caramba!

Valério

[divertido]

Assim como?

Gonçalo

A achar que não consigo.

Valério

Mas uma coisa é um textículo de umas páginas, outra é um livro. Se te serve a manigância, ainda bem… mas para coisas de fôlego não podes ser tão infantil.

Gonçalo

[irritado]

Mas qual infantil… estás a falar de quê!

Valério

[sorrindo]

É um truque infantil, desculpa… vou dizer à mamã que não consigo andar de triciclo, a mamã vai dizer que o menino consegue, o filho, com a lágrima no olho, diz que não consegue de todo, a mamã insiste…

Gonçalo

[interrompendo]

Que estupidez!

Valério

[continuando]

O menino tenta, anda três metros… Ena, vês, a mamã não tinha razão?! Toma um miminho, meu amor… 

Gonçalo

Já percebi.

Valério

Mas com o Paris-Dakar já não resulta.

Gonçalo

[interrompendo]

Já tinha percebido!

Valério

Tens de arranjar truques mais adultos… ou então, fazes-te homenzinho e acabas já com o assunto: ou escreves, ou não escreves.

Gonçalo

[imitando uma mãezinha]

Já não tens vinte anos, filho…!

Valério

Pois não… nem eu tenho pachorra para putos.

Gonçalo

De onde é que veio esse azedume todo?

Valério

[sorrindo]

Dos trinta copos de vinho?

Gonçalo aquiesce e os dois deixam-se mais uma vez ficar em silêncio. Valério começa a sorrir.

Gonçalo

[curioso]

O que foi?

Valério

Já viste que temos sempre o mesmo intervalo de tempo entre os tópicos… [serve-se de mais vinho] Há aqui um padrão, meu caro. Há aqui uma tese a caminho, vais ver! [emborca o copo e serve-se outra vez] Se gravássemos as nossas conversas e as botássemos num software de edição de som, ias ver que as ondas sonoras das nossas vozes, as pausas, os isqueiros, os cigarros, o vinho a ser servido, o gargalo a bater no copo… ias ver… Aliás, ainda melhor…! Mandávamos imprimir o gráfico sonoro… ias ver… um padrão perfeitamente descodificável.

Gonçalo

Somos previsíveis.

Valério

De certa maneira, sim. Mas para nós próprios… Já temos o nosso ritmo. [pausa] Deve ter a ver com o espaço, também. [pausa] Agora não tenho bem presentes as nossas conversas noutros lugares, mas parece-me que esta casa [faz um círculo com o indicador], o sítio onde está, a montanha onde foi edificada, o material com que foi construída e blá, blá, blá influencia o ritmo… o padrão.

Gonçalo

Também não tenho presentes as nossas conversas. Mas reconheço o padrão, sim. E reconheço o padrão nos meus hábitos de escrita, agora que falaste disso. [pausa] A procrastinação… se bem que a domino bem. E sim, há sempre um muro qualquer que aparece à minha frente quando começo qualquer coisa… aliás, esse muro está sempre presente, mesmo quando não estou a escrever. Sobretudo quando não estou a escrever! Antes de dormir, lá estou eu “Não sou capaz! Não sou capaz!” [pausa] Mas ao contrário do que disseste, que eu uso esse muro imaginário como desculpa para justificar a minha incapacidade, talvez eu o use como combustível… [pausa] E olha que é altamente inflamável, deixa-me que te diga. Alimenta-me. Faz parte. Agora… será que eu alimento este hábito? Não sei, confesso. Mas resulta. Tenho é de fazê-lo resultar em coisas mais ambiciosas, para te poder esfregar na cara e mostrar que resulta. 

Valério

“It aint bragging if you can back it up!”

28 Jan 2022

Xunzi 荀子 – Elementos de ética, visões do Caminho

O Caminho da Liderança, Parte XI

Um líder de homens que não tiver favoritos, nem membros fiáveis do seu círculo interior, chama-se “entrevado”. Se não tiver primeiro-ministro, conselheiros ou assistentes que possam receber responsabilidades, a isso se chama “solidão”. Se aqueles que enviou como emissários aos senhores feudais nas fronteiras dos quatro lados do estado não forem as pessoas certas, a isso se chama ser “abandonado”.  Se estiver abandonado, solitário e nas trevas é conhecido como aquele que “está em perigo”.  Mesmo que o seu estado ainda subsista, os antigos lhe chamariam “perecido”. As Odes dizem: “Quão incrivelmente refinados e numerosos eram os homens bem-criados! O Rei Wen os usou para conseguir a paz”. Isto exprime o que quero dizer.

Da classificação das pessoas segundo aquilo de que são feitas: serem conscienciosas, honestas, contidas e arduamente trabalhadoras, meticulosas no cálculo e poupadas, nunca ousando perder ou desperdiçar nada – disto deve ser feito um oficial, escriba ou funcionário.

Ser cultivado, cuidadoso, probo e correcto, exaltando o modelo apropriado e respeitando a posição que lhe for atribuída, livre de qualquer tendência para o coração se transviar; alguém que vela pelas suas responsabilidades e cumpre as tarefas que lhe são dadas, nunca se atrevendo a elas acrescentar ou subtrair; alguém a quem pode ser dado o trabalho da geração anterior, mas que não pode ser forçado a abusar ou apoderar-se daquilo que não compete ao seu cargo – disto deve ser feito um homem bem-criado, um grande ministro ou um supervisor de oficiais.   

Compreender que o modo de venerar o seu senhor é pela exaltação do ritual e de yi [justiça]; compreender que o modo de obter uma boa reputação é apreciar homens bem-criados; compreender que o modo de conseguir a paz para o estado é cuidar do povo comum; compreender que o modo de unificar os seus costumes é através [da implementação] de um modelo constante; compreender que a forma de desenvolver as realizações é pela elevação dos meritórios e emprego dos capazes; compreender que o modo de aumentar os recursos é trabalhando nas tarefas fundamentais e proibindo as diligências insignificantes; compreender que o modo de conseguir ser expediente é evitar disputas com subordinados sobre pequenas questões de lucro; compreender que o modo de evitar que as coisas se atrasem é através de regras e medidas claras e pela aferição de que as coisas correspondem aos usos a que se destinam – disto deve ser feito um primeiro-ministro, conselheiro ou assistente. Contudo, isto ainda não constitui o caminho da liderança.

Ser capaz de ajuizar a qualidade das pessoas destes três tipos, sendo depois capaz de as colocar em cargos oficiais, sem cometer erros nas respectivas patentes – esse é o caminho do líder. Se assim for, ele próprio estará tranquilo e o seu estado será bem ordenado. Os seus feitos serão grandes e boa a sua reputação. No máximo, poderá tornar-se um verdadeiro rei e, no mínimo, será um tirano. Este é o ponto crucial pelo qual o líder dos homens deve velar.

Se o líder dos homens não for capaz de ajuizar a qualidade daqueles três tipos de pessoas e se não tiver por seu caminho aquele que acabamos de descrever, acabará simplesmente por desqualificar a sua autoridade ao mesmo tempo que se exaure em esforço. Deixando de lado prazeres dos olhos e ouvidos, passará os dias a tratar pessoalmente de ordenar matérias de grande detalhe. Consumirá a totalidade de cada dia na distinção exaustiva das coisas enquanto delibera sobre como discutir coisas menores com os seus ministros e subordinados e sobre como demonstrar capacidades especializadas. Desde tempos antigos até ao presente nunca houve uma situação assim que não resultasse em caos. É aquilo a que se chama “inspecionar aquilo para que não se deve olhar, escutar aquilo que não se deve ouvir e almejar aquilo que não é para ser obtido”. Isto exprime aquilo que quero dizer.   

Xunzi (荀子, Mestre Xun; de seu nome Xun Kuang, 荀況) viveu no século III Antes da Era Comum (circa 310 ACE – 238 ACE). Filósofo confucionista, é considerado, a par do próprio Confúcio e Mencius, como o terceiro expoente mais importante daquela corrente fundadora do pensamento e ética chineses. Todavia, como vários autores assinalam, Xunzi só muito recentemente obteve o devido reconhecimento no contexto do pensamento chinês, o que talvez se deva à sua rejeição da perspectiva de Mencius relativamente aos ensinamentos e doutrina de Mestre Kong. A versão agora apresentada baseia-se na tradução de Eric L. Hutton publicada pela Princeton University Press em 2016.

28 Jan 2022

Plotino e a bibliotecária

Afirma Plotino, preto no branco, que nunca o olho lograria ver o sol se não contivesse, de certo modo, ele mesmo o sol. É um conceito mágico de identificação do sujeito e do objecto, de coincidentia oppositorum. A óptica confirmou este facto.

Mas, antes, a Grécia mitológica registou dois momentos em que, pelo contrário, se tramou um recuo do olhar em relação ao objecto, instaurando, uma disjunção, quer por encapsulamento onírico, quer como vinco naturalista.

O primeiro corte ocorre no episódio em que Hermes, com melífluos acordes de flauta, devolve ao sonho a última pálpebra de Argos. Argos é decapitado em virtude de a música ter produzido um curto-circuito entre a sua vontade (programada para tudo ver) e o desfrute contemplativo a que a melodia o arrastava – que, com notas e harmonias imprevistas, pregueava a suposta lisibilidade do visível. Argos não estava preparado para a abertura ao desejo, ao devaneio, e o seu olhar, enublado pelo apreço às volutas da música, começa a sentir como um estorvo a sua missão… e desata a querer descolar do que «vê» – reconduzidas as suas visões apriorísticas ao sonho.

O segundo caso teve lugar quando Perseu, pelo reflexo no escudo, surpreende Medusa de olhos fechados. Perseu, atónito por não ter sido imediatamente transformado em pedra teve um momento de dúvida e quase embarca no desvelo da promessa de harmonia que as pálpebras cerradas de Medusa desenhavam. Reagiu a tempo e antes que ela abrisse as pálpebras cortou-lhe a cabeça.

A Górgone não acolhia o olhar do outro – sem admitir o contágio, a afectação recíproca, tatuava de uma vez na retina alheia a sua cartografia para a memória. Górgone é o símbolo das imagens cristalizadas num repertório auto-centrado, imune a variações:

«Na face de Górgone opera-se um efeito de desdobramento. O voyeur é arrancado de si mesmo, destituído do seu próprio olhar, investido e como que invadido pelo da figura que o encara; (…) o que a máscara de Górgone nos permite ver, quando exerce sobre nós o seu fascínio, somos nós mesmos no além (…) a verdade do nosso próprio rosto» diz-nos Jean-Pierre Vernant. No além: no núcleo mesmo de uma radical ausência a si mesmo. Apelo da pedra, poder de morte.

Górgone representava a Hollywood do seu tempo, uma máquina de converter paisagens em moldes de produção e em receita.

Nos sonhos da Idade Média cabia ao corpo inteiro ser o próprio olho do Diabo, embora o optimista Pedro Damião acreditasse que em cada um dos cinco sentidos havia uma porta que o decoro e uma vontade férrea para rejeitar os impulsos hedonísticos podiam fechar (tempos infelizes, aqueles). Inúmeros são também os olhos que a mãe de Dante, com susto, atribui ao filho. Segundo um sonho de grávida, relatado por Boccacio, Bella vê o filho metamorfosear-se num pavão real e abrir a cauda com os seus mil olhos.

O Renascimento, ao invés, projecta-se como uma alba compadecida e avulsa, à parte de qualquer diabolização: o corpo devém senhor da imagem e a perspectiva espacial inscreve-se na medida (anatómica) do gesto. A partir daí o olho vê o que o corpo mede.

Essa transparência, na inocência que a neutralidade da perspectiva encena, anuncia o écran cinematográfico.
O século XX abriu uma nova fenda na visão pois começou por tratar a figura pelo excedente que a sua relação com outras figuras introduz. Um corpo isolado passa a ser um perjúrio. Era a reacção da pintura contra os moldes realistas e a imobilidade calcária da fotografia, atraída pelo enlace da narrativa e a inter-relação dos movimentos.

Entretanto, a “arte do raccord” reforçava a suspeita sobre a identidade unívoca das figuras, fazendo prevalecer sobre os gestos o intervalo rítmico entre eles: assim se capturaram, escondidas na ambivalência das imagens, algumas insuspeitas invariantes, uma intencionalidade não declarada.

Um filme de Tarkovski é uma rede que erra em busca do Peixe do Invisível e o tempo mana nele como as turbulências num rio ou as dobras nos panejamentos de Leonardo.

Por outro lado, a publicidade entreteve-se século XX adentro a alternar variações para a máscara de Baubó: um sexo dissimulado de rosto, ou, antes, um rosto reduzido ao gracejo de sexo, sem dar conta de que se ia favorecendo a ferocidade dos animais que se entredevoram e que com isso se aboliam as leis da hospitalidade.

Talvez se prenda aqui a razão para Blanchot nos prevenir de que todos os dias há uma coisa para não ver.
No visionamento de um filme catalão permeado pelo trabalho do luto ocorreu-me esta possibilidade: imaginemos um povo sem palavras, mas cujo olhar ritualístico, intencional, de cada geração por alguns objectos e totens, restitui, com a atenção que os seus progenitores já haviam escrutinado, a temperatura das coisas que permitem o apelo da memória, que o mundo se torne sustentável.

Só a plena vigência do olhar, confirmando o detalhe, a invisível pulsação das nervuras ou da sua geometria, na árvore ou nas pedras, as descongelaria do seu estreme esquecimento.

E, contudo, apesar de avisado, ceguei, logo ao primeiro encontro, nas badanas do labiríntico desejo da bibliotecária de olhos verdes a quem calhou ir perguntar que edições haveria de Plotino e em que línguas; grácil e voluptuosa bibliotecária que, nos meses seguintes, se revelou uma amante de um pródigo desregramento como talvez só da Cleópatro haja registo.

O meu olho está embutido na sua carne como o ar molda as vagas que se sucedem na oceânica pélvis de Deus. Coincidentia oppositorum. A óptica confirmou este facto.

27 Jan 2022

Sobre o baptismo dos monstros

Do livro Embriologia Sagrada, escrito por um frade siciliano no século XVIII, abençoado pelo Papa Bento XIV e publicado em Português no ano de 1791. Neste passo do volume, em que o religioso pede auxílio a um especialista francês, discute-se a geração, ocorrência e o baptismo de monstros (Descoberto em Passarela, Gouveia, numa arca improvável):

 

“(…) Huma mulher póde ter commercio, primeiro com huma besta, e algum tempo depois com hum homem, ou com homem, e com besta, ou com huma besta sómente. No primeiro caso ha motivo para duvidar se a mulher concebeo da besta, ou se o féto, que sahe della, he huma produção do homem só, porém desfigurada, e feita monstruosa pela impressão, que a besta fez na imaginação da mulher no tempo da união, que precedeo á do homem: por outra parte quem póde afirmar que assim como huma besta pode fazer que huma concepção humana se faça monstruosa, também o homem não póde indireitar, e humanizar, digamo-lo assim, huma concepção bestial.

No segundo caso, se se suppõe que a mulher tem concebido do homem, toda a dificuldade está tirada (…), e sempre ha razão para duvidar e suspender o juizo; porém se huma mulher só tem tido commercio com uma besta, augmenta-se a dificuldade, e o embaraço: se he certo, como o crem muitos Fysicos, que o féto está formado todo, e organizado perfeitamente no ovo, e que se vivifica no mesmo instante da concepção, quem se atreverá a dizer que Deos suspende o seu concurso, e que não lhe infunde huma alma racional, seja quem for o macho que o põe em movimento?

Pois não se póde determinar se esta informação se faz logo que o féto se vivificou, isto é, no mesmo instante da concepção; pois não ha coisa que pareça deva impedir que entre nelle a alma racional; pois o féto, segundo esta hypothesi, não he todavia monstro; e he necessario, ao parecer, algum tempo, ou ao menos mais de hum instante, para que hum féto humano bem formado, e bem organizado se transforme, e possa converter-se em monstro.

Não sei que diga dos monstros, que nascem de bestas femeas com figura humana: confesso que tremo, quando revolvo esta materia: com tudo não sendo artigos de fé os systemas, que ideião os Medicos, e Fysicos, e os Anatomicos, parece que quando ha dous com pouca differença igualmente verisimeis, he permitido, havendo a mesma difficuldade em hum, que no outro, e sendo a cousa de tanta importância como esta, differir ao dictame de Medicos, e Fysicos muito hábeis, que julgam que o féto está todo formado, e perfeitamente organizado na semente do homem.

Mr. Levenhouc, Hollandez, faz ver por meio de seus globos de vidro, que na semente dos badejos machos estão formados inteiramente os badejos filhos, e que se movem algum tanto. Nesse sistema, se se supõe que o espirito seminal da femea põe em movimento o féto, e o vivifica ao tempo da concepção, e que a alma racional se infunde no mesmo instante, he necessario grande valor para decidir que o féto humano, formado todo, e perfeitamente organizado, só por estar no corpo de huma besta femea, não está informado de huma alma racional.

De tudo o que fica dito concluo, que se devia desejar que se visse baptizar geralmente tudo o que nasce de mulher, no caso de ter vida, e ainda os monstros, que nascem de bestas femeas, se tem figura humana, quando se sabe que algum homem tem podido ter parte na producção; pois é impossivel decidir que semelhantes monstros não são animais racionaes. Trata-se da salvação, ou da condemnação eterna das almas; e tendo-se feito o sacramento para as almas, e não as almas para o sacramento, a razão, e a piedade pedem que se aventure sempre o sacramento antes que a alma.”

Paris, a 25 de Maio de 1693. Fillipe Ignacio Save, Doutor em Medicina da Faculdade de Paris.”

26 Jan 2022

Nevermore

Falamos de um refrão, uma repetição para reforçar «Nunca mais» que o que passa não virá, anunciado pela asa negra do Corvo, que no fim de cada estrofe nos relembra que não se prolongue jamais a vã esperança. A vertigem sombria torna-se ainda aqui mais importante que uma narrativa moralista de intenção redentora na medida em que o puro objecto da linguagem não se encontra ao serviço de coisa nenhuma, escapando a todas as categorias, e apenas se centra na criação rítmica. Como conclusão, é tudo o que desejamos que a linguagem seja, um festim de boas ligações que concebam beleza e estranheza concertadas com um código de inspirador instante, que a temática sempre ensombra a qualidade dos textos podendo até suprimir a sua autonomia para se curvar a julgamentos redutores.

Um tal poema é tanto mais importante, agora, do que o foi sem dúvida no seu tempo, na medida em que desfizemos a linguagem num macerado volume de causas e efeitos que ditam a manifestação chamada realidade que não passa de exercício mórbido do nomear compondo as circunstâncias onde até a poesia, tomou para si, também tal suborno, retirando a capacidade do saber como marca da sua efabulação para ir sempre mais além. Sabemos, mesmo assim, onde andam as dores, e se amor existir, onde se encontra nos agrafos da melodia, que nestas coisas, amor ou desamor são apenas nomes que pouco nomeiam o fluxo da criatividade. – Podemos sim, criar realidade a partir do verbo, e quebrar realidades com o trabalho saído do seu génio, mas para isso, devemos estar livres para desempenhar funções que são invariavelmente difíceis.

Este belo Corvo não jaz nas calçadas flutuantes da cidade, não transportou nenhum mártir, nem viu martírio algum em que continuasse moura: «nunca mais» poderia ser cristã a tempo inteiro como desejaram as gentes, este outro Corvo fala-nos mais da desintegração final a que preside o nada. E no entanto, o sofrido Poe, range a sua dor por ter perdido a jovem amada, que sabe não poder ver mais, pois que para diante nada mais se vê. Ele ensina a esvaziar o cálice da ilusão com batidas nocturnas na janela, e espera que reponhamos a lucidez para encararmos que tudo é «apenas isso e nada mais» continuamos com ele até o sono chegar como um desejo antigo e confundimo-lo com o vento, a asa, o sopro, a substância.

S. Vicente vem numa nau qual Creonte para um mito daqui saído «Encoberto», mas o Corvo de Poe não carrega tais excessos, nem se balança em ondas acompanhando o corpo morto, ele deflagra toda a quimera numa componente calma e rasura a esperança florentina numa actividade onde tudo o mais nos parece rebuscado. É um talismã que nos vem alertar para o esquecimento. E nem nunca se conseguiu coisa igual! Não queremos, é certo, só que não podemos com estas leis tão fortes que presidem às nossas causas, que num ritmo belo na linguagem circunscrita, ele se despede das superfícies por onde a nossa loucura mergulhou como num lago de Narciso.

Até a saudade está ausente, e não será matéria de opróbrio que um poema tão raro se desfaça de todas as coisas conhecidas como sentimento, pois o que fica para além dos sentidos continua tão poeticamente puro como o grau de emoção que todos pensam que não lhe preside. Estar em nenhures falando com as trevas infindas corre o risco de ser ainda a grande paz, que sossego não há na busca de muitas coisas, que tudo vem de um simples efeito multiplicado.

«Deixe minha solidão intacta! – saia do busto acima da minha porta! Tire o bico do meu coração e tire a forma da minha porta!» Tantas coisas ainda para retirar! – “Lembra apenas corpo o quanto foste amado” e não esperes que a alma de traga recompensas. – Que nunca ninguém amou, é certo, e permanecemos sem ver o desastre imenso desta consciência que se desfaz, Nevermore. Nós brilhámos e ficámos saciados, já nada produz mais vida, na desesperança alongamos a espera como os monges se levantam para orar na madrugada. Depois, o negro Corvo, interpela-nos e ficamos bem, seguimos para o esquecimento.

Ditar aquilo que a nomenclatura linguística ilustra como materialismo e coroá-la de beleza, faz necessitar outras formas de dizer, que ditas pelo pragmatismo, elas se tornam rudes para fazer o trabalho imenso do descolar da condição: não devemos ser bruscos nem grosseiros face à evidência de uma realidade terrível, saibamos escutar o nome, Nevermore, como uma libertação, e toda a propaganda sobre a morte como um dolo a que nunca deveríamos estar sujeitos.

25 Jan 2022

Salitre, de Duarte Drumond Braga

Por Jorge Arrimar

 

Cláudia Ribeiro, no seu livro, No dorso do dragão (2001), escreveu que “a China sofre do facto de ter sido sempre, por excelência, o repositório de todos os sonhos impossíveis do Ocidente, pois este tem no Oriente a sua noite.” (2001, p. 11-13)). De certa forma, podemos dizer que Macau foi o travesseiro onde alguns escritores portugueses sonharam uma narrativa diferente. Este será o caso de Duarte Braga em Salitre, seu livro mais recente (2021), publicado em Macau pela Capítulo Oriental.

Diz-se que a criação é uma dor e que o autor (re)constrói-se através da sua obra. Este é o mistério do texto literário, que resiste a ser desvendado, como se fosse uma gruta de segredos que só ganha significado quando se consegue entrar nela. E o acto de ler é o “abre-te sésamo” que só se completa, só é eficaz, quando se consegue ver “o não escrito”, como diz Guimarães Rosa (Ed. 10, O Sindicato, 1999), e tocar a nudez do texto. Assim o leitor tem de olhar para o livro, Salitre de seu título, como a gruta do poeta, onde este se confronta consigo mesmo e com os seus fantasmas. É nesta solidão quase iniciática, que, umas vezes o ouvimos murmurar palavras leves de que só apanhamos a sombra; outras vezes, palavras pesadas de água que nos encharcam.

Em Salitre, Duarte Braga vai-se mostrando na confissão das emoções, aflorando a velha arte de trovar escárnios e maldizeres, uma pegada antiga, deixada na cidade que neste livro tem lugar central. É uma metáfora de Macau, uma acumulação de sinais, a maior parte deles muito familiares aos seus habitantes, como o bolor, o mofo, o próprio salitre, mas que, neste contexto, exigem uma outra leitura. Aqui o autor reinventa-se na personagem principal do poema, salgando a carne dos seus próprios versos. Apresenta uma identidade subterrânea e traça um perfil líquido, impreciso, uma espécie de biografia esfumada.

Aparentes contradições perturbam uma leitura menos atenta e exemplo disso é o poeta afirmar que se sentiu perdido num deserto interior que depressa se ampliou em outro deserto, quando o que o sufoca permanentemente é a humidade. Porém, a nebulosidade constante não o impede de observar o que o cerca, olhar as pessoas que passam, ouvir a língua que falam, a escrita que desenham… Afinal, a pátria sínica chega até ali, está em todo o lado, ao virar da rua, ao dobrar da esquina. E tenta chegar-lhe, tocá-la com cuidado como se fosse uma antiga porcelana, interpretar-lhe os sinais. Mas não é empreendimento fácil. É como se pretendesse descodificar a tatuagem das folhas que as árvores deixam cair sobre a face turva do tempo. Por isso tem vontade de vir a “ser poeta da natureza” para “ler os nomes das árvores”, confessa. Mas desilude-se depressa pois só consegue ver magros calígrafos que recolhem lírios e os depositam nos “rodapés dos dicionários”. Incomoda-o este conhecimento de nota de pé-de-página e, ao que parece, resta-lhe esperar na varanda dos dias e depois juntar-se aos demais, aos outros, no “pátio da harmonia irrefutável”, para se deliciar com “gomos da felicidade”.

O “poeta é um fingidor”, já dizia Pessoa, e fingir a dor que deveras sente, é assumir que esta faz parte da matéria-prima da criação, seja ela de que área artística for, da pintura à poesia. Neste caso, o autor, através do texto, (d)escreve o que não é dito ou ouvido. Como diz Catherine David “Pedacinhos da realidade, fragmentos de luz, estas experiências minúsculas participam no silêncio da realidade, como as pinceladas de Cézanne participam na montanha” (Catherine David – La Beauté du geste [A beleza do gesto], Actes Sud, Babel, 2006). Salitre é apenas um dos pedacinhos dessa realidade complexa que é Macau, uma pincelada literária e perturbada, uma gota de tinta grossa na tela da escrita, versos de salitre no corpo do poema. E o poeta, “com o rosto a arder no escuro”, recolhe à cidade eternamente sitiada, conservando, contudo, o cheiro ao alecrim das janelas de sacada que guarnecem a calçada de Santana, em Lisboa; acompanha-o um vendilhão de sonhos e de azulejos da Praia Grande, a de S. Luís do Maranhão e a da cidade do Nome de Deus de Macau. É o sujeito de uma aventura com o gosto acre das laranjas agras que decoram as cidades velhas e sitiadas, “pequenas lisboas de troca e insalubridade jogadas pelos trópicos”, onde o poeta se recolhe, confessando, contudo, que as ama.

Em Salitre constrói-se uma utopia de pernas para o ar, denunciando-se o lugar onde os bons poetas escrevem maus poemas e o próprio autor quer acreditar encontrar-se preso num haiku de Pound ou numa ostra encontrada nos tintins. E neste passo do bailado da escrita, o poeta deixa um legado patético, um “molho de imagens” e um tropel de sugestões. O salitre que corrói as paredes é o que brilha nas palavras e envenena a língua. Assim o poema nasce como o nenúfar num pântano e a apoteose é o grande aquário, de onde se retiram peixes dourados, mortos, secos ao sol e convenientemente salgados, enquanto ao longe, veem-se “barcos de flores a chegar e partir entre felácios e rosas (os lábios do carmim desflora)”. A poesia é, afinal, uma fuga… não da realidade, mas para a realidade, como diria o poeta brasileiro, Mário Quintana. (Gabriel Perissé – As experiências reversíveis […]. Dispon. em: < http://www.hottopos.com/convenit4/perisse.htm >).

Salitre não é de leitura fácil e dócil. O seu autor não se deixou ir na corrente literária mais em voga, antes preferiu ser disruptivo em relação a ela, o que torna o texto diferente, tanto em termos de conteúdo, como a nível estético e conceptual. Por tudo isto, não será de estranhar que Salitre possa vir a ter um lugar especial enquanto criação literária.

24 Jan 2022

Cinema espiritual: Red Cliff de John Woo

O Cinema é um formato belo e único. É simultaneamente um jogo e um transformador desse mesmo jogo. Nesta série, a autora e pensadora visual, Julie Oyang, apresenta 12 realizadores chineses, as suas obras e as suas invenções estéticas, que acabam por se revelar as invenções estéticas de antigos filósofos.

 

John Woo é um realizador imensamente prolífico, além de escritor e produtor. Realizou 37 filmes desde a sua estreia em 1968. Embora tenha nascido na China continental, Woo estava mais associado à indústria cinematográfica de Hong Kong quando ingressou em Hollywood. O mestre dos filmes de acção é também conhecido pela elaboração e pelo realismo que põe em cada cena. No entanto, a sua segunda carreira nos Estados Unidos frustrou-o e, já há muito tempo, decidiu voltar às películas de temática chinesa. O seu filme Red Cliff  ilustra uma batalha épica travada durante a guerra que teve lugar há 18 séculos.

Red Cliff não é um filme de Hong Kong estilisticamente promíscuo, embora – inevitavelmente – seja um filme de época que retrata um romance célebre. Red Cliff não parece ser suficientemente avassalador e caótico para nos fazer evocar a lama, o sangue e o terror de um cenário de combate. Enquanto escrevo estas palavras, sinto que, de alguma forma, há algo que me escapa. Esta saga com milhares de figurantes, que se concentra apenas em quatro personagens, não pretende alcançar o espectáculo da guerra nem um estilo artístico extravagante, à la Zhang Yimou.

A história baseia-se em acontecimentos reais. Cao Cao, o desagradável primeiro-ministro do Império Han (séc. III DC), tinha ambição de conquistar dois pequenos reinos. Nesse sentido, enviou uma armada através do rio Yangtze para atacar os governantes desses territórios, Liu Bei e Sun Quan, que desempenham papéis secundários no filme. A aliança crucial contra Cao Cao foi estabelecida entre os dois líderes estratégicos, Zhuge Liang e Zhou Yu. A quarta personagem principal é a bela Xiao Qiao, mulher de Zhou Yu. Cao Cao há muito que cobiçava Xiao, e por isso ela é a opção lógica para desviar as atenções do invasor, enquanto Zhuge e Zhou preparam o contra-ataque final.

Entretanto, vamos assistindo ao bramir das espadas em câmara lenta, à recitação de poesia, à caligrafia, à cerimónia do chá, e pombas que representam a paz celestial no meio da carnificina terrena. Assistimos ainda ao surgimento de uma intensa e espirituosa amizade masculina durante um dueto de cítara. Depois de terem chegado a um entendimento, os dois estrategas começam a planear as duas grandes linhas de acção do filme. Na primeira, usam “a formação tartaruga” para repelir e finalmente cercar os soldados de Cao Cao, em número superior. A segunda linha de acção envolve barcos, fogos e uma mudança oportuna da direcção dos ventos. Zhuge revela-se um metereologista com um conhecimento de primeira sobre o comportamento e a natureza dos ventos.

Considerado o filme chinês mais caro de sempre, Red Cliff impressiona pela amplitude, escala e precisão. Todo o aparato do filme lembra-me um jogo Go no mundo real.

O Go é mais simples que o xadrez e no entanto mais complexo. Mais simples porque todas as peças são iguais, embora existam peças brancas e peças pretas. Neste jogo as peças não se movem através do tabuleiro. Aqui, o Go, como um sistema bem equilibrado que tivesse uma falha, permite que um jogador mais forte (Cao Cao) jogue em pé de igualdade com um jogador mais fraco (Aliança Zhuge & Sun Quan) e que seja vencido.

Red Cliff é suficientemente grandioso para entreter, mas emocionalmente distante e pouco profundo para chegar a ser emocionante. A narrativa também parece estar mais focada na táctica militar do que na dinâmica do desenvolvimento das personagens, nas batalhas psicológicas ou na dimensão moral. Woo tenta ser um pioneiro do espiritualismo – mostrar o “coração” oriental ou o “coração” chinês, por assim dizer – o que pode acabar por ser uma forma entediante, mas bastante aventureira de fazer cinema.

  • A não perder: The Killer (1989), Face/Off (1997), Red Cliff: Parte 1 (2008), Red Cliff: Parte 2 (2009)
    Citações famosas de John Woo para reter
  • Posso usar o cinema como uma linguagem. Não só posso enviar uma mensagem positiva, como posso transmitir às pessoas o que penso, como vejo o mundo, como vejo a cor, como vejo a música, como vejo todas as coisas.
  • Os filmes que gosto de fazer são muito ricos e repletos de paixão. Algumas pessoas vêem-me como um realizador de filmes de acção, mas a acção não é o único elemento dos meus filmes. Gosto sempre de mostrar a natureza humana – qualquer coisa de profundo dentro do coração.
  • Também quero que as pessoas saibam que na verdade o futebol começou na China há cerca de 3.000 anos.
  • Penso que fui rotulado em Hollywood como realizador de filmes de acção, por isso só me davam argumentos desse género.
  • Os meus filmes têm sempre a ver com a família, a amizade, a honra e o patriotismo.

 

Julie Oyang é uma autora de naturalidade chinesa, artista e argumentista. É ainda colunista multilingue e formadora em criatividade. As suas curtas metragens foram selecciondas para o Festival de Vídeo de Artistas Femininas e também para a Chinese Fans United Nations Budapest Culture Week. Actualmente, é professora convidada da Saint Joseph University, em Macau. Gosta especialmente de partilhar histórias inesperadas, contadas a partir de perspectivas particularmente distintas. Divide a sua vida entre Amsterdão, na Holanda, e Copenhaga, na Dinamarca.

Writer | Artist | Namer of clouds
www.julieoyang.com | Instagram: _o_writes

21 Jan 2022

Alexandria

Existe na cidade de Alexandria um Porto Interior. Fixa o Norte, de onde lhe veio o pai. Num dos seus extremos, alguém de novo ousou a Grande Biblioteca. Abundam livros e mulheres jovens. Pelo meio, sobre as praias, debruçam-se esplanadas, num excesso de mar. No outro extremo, passeia a desmesurada gente, talvez à espera do momento certo para voltar a pegar fogo a isto tudo.

*

Já Marte sobre o fim da cidade se levanta, mas nem por isso os homens sossegam e olham de novo o mar antigo. Pela urbe persiste o ruído, o caos que pouco cintila ou alcança. A cidade deixa à estrela esse castigo. E ela olha do alto e pouco vê, nada procura. Onde estão os épicos fantasmas da minha literatura? Ficaram os homens impuros e as suas mulheres cercadas. E as ruas belas como rugas ou trapos pisados nas calçadas.

Na casa de Kavafis paira um odor a abandono. Apenas um refrão, sussurrado por um bigode. Escasseiam os livros e sobram as horas. Os versos lamentam a sorte rasa. Poemas dormem sem abrigo pelas ruas. Nada há para fazer, só para ver e os olhos humedecem da tristeza do que não é (talvez nunca tenha sido), a sentirem fundo a culpa de uma deslocada ambição.

*

Nos versos de Kavafis expirava o último heleno e talvez uma cidade.

*

Havia no lugar onde em 1902 foi construído o Hotel Metropole um obelisco de dois mil anos. Cleópatra impusera-o para celebrar Marco António. Agora existem sombras posteriores a marcar corredores, um elevador de três portas e as colunas solenes do átrio. — Ainda há onde respirar, rosno curto.
Kavafis frequentava o Hotel Metropole. Não sei se unicamente a entrada, de onde se disfruta a rua em poltronas altas; se subia ao primeiro andar, e deslizava pelos salões, entre brandys, golpes de estado, charutos e revoluções.
Provavelmente, pouco disso o interessava, como lhe deviam ser indiferentes os veludos e os pendentes adamascados. Imaginemos que, sem sabermos de quê, lhe interessava a possibilidade. Fantasiemos que esse quê poderia surgir, vindo da rua, sob a forma de um cavalo ou de um príncipe, ainda pingentes de suor de um galope ou de múltiplas defenestrações.
E o poeta esperava, naquele canto sóbrio, meio enternecido de sombra, raspado do passado, ainda que o hotel fosse então novo e pouco fizesse prever a glória a que o meu coração o consagra. Previra os bárbaros, é certo, mas não os previra assim.
O obelisco está algures em Nova Iorque. Central Park, creio.

in Anastasis

20 Jan 2022