No limite da sombra

Um episódio é o mundo reduzir-se a si naquele meio metro quadrado em que a mulher permanece sentada com as costas apoiadas nas tiras esverdeadas dos ferros que atravessam a ponte. Um dia sem fim para aparar a ferrugem com uma cerveja na mão e duas garrafas já vazias perto dos artelhos. Os transeuntes passam e olham-na como se olha para uma escrava, faltaria apenas tomá-la pelas mãos e convertê-la em cinzas. Durante os largos meses em que navega pela cidade, sem casa nem dinheiro, também se sente por vezes uma rainha: caminha então pelo meio da rua e desvia-se dos eléctricos apenas no derradeiro instante, para depois se rir do fácies rochoso e franzido dos motoristas.

Viver na errância é suplantar o espaço, encontrar locais onde interinamente parar para depois se deslocar a partir dessas âncoras, nas mais diversas direcções e em ritmo de vaivém. Ao fim de dois meses, o mapa descrito pelos passos da mulher é parecido a um fole que se vai avolumando. Desenha-o com o pé na terra batida do jardim como se fosse uma nuvem que tivesse sido assoprada, cada vez com mais fôlego, nas últimas horas do dia da criação do mundo. Perceber a geografia fora das rotinas que se tornam normais é perceber-se a si, na medida em que uma pessoa é também um fole secreto que se alarga, que se desmonta.

Um dia, a mulher voltou a rir do rosto assustado do motorista do eléctrico e, ainda que sem grande motivação, seguiu na direcção do fim da linha. Foram quilómetros de um rumo magnetizado, as passadas sem a audácia do costume, um trajecto que lhe aparecia de forma indiferente. A certa altura a linha do eléctrico 3 terminou, mas uma outra prolongou-a. A mulher perseguiu essa outra linha e ganhou subitamente um novo alento. Após uma hora e meia de andamento, a vegetação selvagem já cobria os carris e, num terreiro onde os flamingos experimentavam os refluxos da vazante, a força da natureza descarnava-os por completo. Foi aí que a mulher encontrou a rulote abandonada e, numa cartolina que substituía os vidros partidos de uma das janelas, pôde ver o desenho.

Era uma esfera com duas enormes saliências, uma para cima e outra para baixo. O hemisfério do norte, chamemos-lhe assim, aparecia dominado por uma montanha ladeada nas vertentes por dois rios, enquanto o inverso, chamemos-lhe o hemisfério do sul, era todo um vasto oceano com uma única ilha, de onde despontava uma outra montanha, precisamente nos antípodas da do hemisfério norte. Dentro desta podia observar-se um túnel escavado em forma de cone invertido e logo dividido por nove círculos descendentes, o último dos quais tocava no centro do mundo, a “morada do diabo”. A partir daí um segundo túnel ascendia por dentro da montanha do hemisfério do sul, através de outros nove círculos que iam crescendo cada vez com mais luminosidade. No topo, o céu era pintado com aguarela de “azul cristalino”. O desenho estava assinado, no cume dessa luz branca e celestial, com letras de criança. Traços largos e redondos que davam a ver o nome que era também o da mulher vagante: Beatriz.

Três meses mais tarde, a mulher encontrou emprego num bar. Servia cervejas, cortava o pão e o fiambre, lavava os pratos e os talheres. Não tinha lido um único livro na vida, era esse o seu livro. Os clientes viam-na com a enorme tatuagem de uma rosa a meio da testa e, quando dela se despediam, o sorriso do adeus parecia distanciar o rosto como se regressasse à sua secreta fonte que pronunciava o mundo com palavras doces (“e quella, sí lontana/ come parea, sorrise e riguardommi;/ poi si tornò a l´etterna fontana” – “tão longe a sua fronte/ quanto ela parecia, riu e olhou-me;/ e depois regressou à eterna fonte”). O emprego durou muito pouco, mas o suficiente para que, todos os meses, ela pudesse acorrer ao serviço público que se ocupava dos desempregados. Viver na errância é sair de cena, despedir-se das altas montanhas que cumprem a rotina dos dias, vestir a pele da actriz que segue, sem ser vista, pelo limite da sombra.

15 Jul 2021

Torga e o Jardim

No meu jardim aberto ao sol da vida
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive…
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino;
Este, de ser menino
Ao pé de ti…

 

Esquecemos a ternura, esse saber de gostar de tantas coisas, de horas graves cravejadas nos sentidos, e dos caminhos andados em nossos sonhos, também eles de meninos.

Miguel Torga continua a falar-nos com profunda comoção, e a razão de ser assim reside na sua raiz telúrica que semeia lembranças limpas, inteiras, tão claras como os vastos sonhos que tivéramos, mas nada disto é fácil de alcançar na sua poesia que subtraída a este tempo de estagnação imaginária requer outra humana condição, perdendo no entanto o som das fontes de menino. Explanação de bem-dizer no tempo comum da singularidade, o que daqui sai é quase uma prece, e esse sentido remete-nos outra vez para as claras esferas: estamos sitiados de palavras, descritivas, abundantes, simiescas, andamos a responder a coisas e a designar outras tantas – verbo solto com o velo da beleza trespassado- e a importância dos poetas mais que nunca deveria ser imensa.

Tal truculência reinante não nos deve inquietar, servida de espasmos ortográficos e vozes sem verdade, renunciar ao dom maravilhoso da retórica seria agora um benefício em defesa do que restou de humano, e assim, calados mas com ritmo (que as palavras nos acendem por dentro) deve-se estar longe do martírio das vozes. Não valerá um segundo da eternidade uma conversa escrava na malvadez das palavras, e, no entanto, quantas vezes o nosso dom ardente que reverbera escatológicas vontades se desata neste estreito do barulho insano! Talvez replicar o estorvo vadio dos palavreadores, que ora arranjam convulsões quânticas para se manterem em grau no topo das barbaridades onde escrevinham entrincheirados volumes de ineficácia verbal, ora desmerecem o apreço pela conversação – se escutados amiúde, perdemos o jardim de Torga – e há jardins de onde não devemos ser retirados.

Todo o poema que contém esta ternura deveria ser evocado nos tempos mortos das mortas gentes, desfeitas em soldadura de coisas sem sentido, e, depois, começar por trilhar o ritmo do equilíbrio que é preciso para ser-se gente. Pessoa. Que tudo o que nos distrai acusa em nós a queda livre para um abismo inumano de desassossego sem causa.

Que dirão as máquinas vindouras da entropia maligna dos nossos diálogos? Que somos submecanismos impróprios para se fazerem compreender – que mesmo onde nada compreendemos, se nos fizer acrescentar estranheza, será digno de atenção, o mesmo é dizer, de vasta interpretação poética.

Muito mais que o desnorte da vida de cada um, nós sempre poderemos soltar a fonte do que nos é comum. A teia prateada das manobras da aranha que sedenta de fabricar nos transmite o cordão mais fino e resistente- seres de quebranto e pasmo- E só tu no teu jardim, permaneces o jogral de outrora, querido Torga, sem a caserna do amor de si em frangalhos indistintos – Um menino é uma maravilha! Já uma criança pode ser um transtorno com a qual a natureza não contava. Pode parecer soberbo, mas a evidência de ser menino não atinge as contingências magoadas de se ser criança entre adultos criancistas. Até para chamar a saudade preciso do teu tempo. Que a saudade deixou de crescer neste orfanato de desvalidos e abundantes detentores dos sonhos dos meninos. [que me lembrei de ter saudades dessa infância que já tive, mais normal, mas não banal, e quisera ser menina ao pé de ti]

Quando o fui, porém, lembrava ainda um outro Torga que me fascinou: «Senhor, deito-me na cama, coberto de sofrimento, e a todo o comprimento sou sete palmos de lama: sete palmos de excremento da terra mãe que me chama». Fui certamente uma menina muita velha. O que trazemos na lembrança! Jardins de fogo. Todos os homens, porém, foram meninos, e deles não conseguimos erguer esta delicadeza da entrega de um Torga que renunciou a ser criança. É um momento sem igual na rota dos dizeres. Ou talvez não … a coroação do menino, tema sem fim…Pessoa, menino quase sempre, e renunciar ao tema seria mais grosseiro que todos os atentados à memória da infância. Talvez o amor mude. – Talvez! Mas este, não devia ter saído do local onde estava situado. Criou homens fruto de um jardim difícil de ser alcançado.

Nasceu em Agosto no ano de 1907, tão longe de nós! – Como o Avô! Diálogos de seres que conheço e mereço pela substância activa do tempo.

Miguel Torga continua a falar-nos com profunda comoção, e a razão de ser assim reside na sua raiz telúrica que semeia lembranças limpas, inteiras, tão claras como os vastos sonhos que tivéramos, mas nada disto é fácil de alcançar na sua poesia que subtraída a este tempo de estagnação imaginária requer outra humana condição, perdendo no entanto o som das fontes de menino. Explanação de bem-dizer no tempo comum da singularidade, o que daqui sai é quase uma prece, e esse sentido remete-nos outra vez para as claras esferas: estamos sitiados de palavras, descritivas, abundantes, simiescas, andamos a responder a coisas e a designar outras tantas – verbo solto com o velo da beleza trespassado- e a importância dos poetas mais que nunca deveria ser imensa.

Tal truculência reinante não nos deve inquietar, servida de espasmos ortográficos e vozes sem verdade, renunciar ao dom maravilhoso da retórica seria agora um benefício em defesa do que restou de humano, e assim, calados mas com ritmo (que as palavras nos acendem por dentro) deve-se estar longe do martírio das vozes. Não valerá um segundo da eternidade uma conversa escrava na malvadez das palavras, e, no entanto, quantas vezes o nosso dom ardente que reverbera escatológicas vontades se desata neste estreito do barulho insano! Talvez replicar o estorvo vadio dos palavreadores, que ora arranjam convulsões quânticas para se manterem em grau no topo das barbaridades onde escrevinham entrincheirados volumes de ineficácia verbal, ora desmerecem o apreço pela conversação – se escutados amiúde, perdemos o jardim de Torga – e há jardins de onde não devemos ser retirados.

Todo o poema que contém esta ternura deveria ser evocado nos tempos mortos das mortas gentes, desfeitas em soldadura de coisas sem sentido, e, depois, começar por trilhar o ritmo do equilíbrio que é preciso para ser-se gente. Pessoa. Que tudo o que nos distrai acusa em nós a queda livre para um abismo inumano de desassossego sem causa.

Que dirão as máquinas vindouras da entropia maligna dos nossos diálogos? Que somos submecanismos impróprios para se fazerem compreender – que mesmo onde nada compreendemos, se nos fizer acrescentar estranheza, será digno de atenção, o mesmo é dizer, de vasta interpretação poética.

Muito mais que o desnorte da vida de cada um, nós sempre poderemos soltar a fonte do que nos é comum. A teia prateada das manobras da aranha que sedenta de fabricar nos transmite o cordão mais fino e resistente- seres de quebranto e pasmo- E só tu no teu jardim, permaneces o jogral de outrora, querido Torga, sem a caserna do amor de si em frangalhos indistintos – Um menino é uma maravilha! Já uma criança pode ser um transtorno com a qual a natureza não contava. Pode parecer soberbo, mas a evidência de ser menino não atinge as contingências magoadas de se ser criança entre adultos criancistas. Até para chamar a saudade preciso do teu tempo. Que a saudade deixou de crescer neste orfanato de desvalidos e abundantes detentores dos sonhos dos meninos. [que me lembrei de ter saudades dessa infância que já tive, mais normal, mas não banal, e quisera ser menina ao pé de ti]

Quando o fui, porém, lembrava ainda um outro Torga que me fascinou: «Senhor, deito-me na cama, coberto de sofrimento, e a todo o comprimento sou sete palmos de lama: sete palmos de excremento da terra mãe que me chama». Fui certamente uma menina muita velha. O que trazemos na lembrança! Jardins de fogo. Todos os homens, porém, foram meninos, e deles não conseguimos erguer esta delicadeza da entrega de um Torga que renunciou a ser criança. É um momento sem igual na rota dos dizeres. Ou talvez não … a coroação do menino, tema sem fim…Pessoa, menino quase sempre, e renunciar ao tema seria mais grosseiro que todos os atentados à memória da infância. Talvez o amor mude. – Talvez! Mas este, não devia ter saído do local onde estava situado. Criou homens fruto de um jardim difícil de ser alcançado.

Nasceu em Agosto no ano de 1907, tão longe de nós! – Como o Avô! Diálogos de seres que conheço e mereço pela substância activa do tempo.

14 Jul 2021

As Viagens de Gulliver – Segunda Parte

Mais do que na primeira viagem, a Lilliput, é na segunda viagem, a Brobdingnag, que a configuração do nosso ponto de vista começa realmente a fazer efeito. Evidentemente, já na primeira viagem ficámos confrontados com a conformação extática do nosso ponto de vista, aquando dos relatos que os lilliputianos fazem dos objectos de Gulliver. Veja-se como exemplo esta passagem, à página 32: «Pediu-me depois uma das colunas de ferro ocas, ou seja, as minhas pistolas.» Perante a descrição dos objectos de Gulliver pelos lilliputianos, nós passamos a ver os nossos objectos pela primeira vez. Porque vemo-los sem o preconceito daquilo para que servem, da sua utilidade.

Mas é mais do que isso. Nós não vemos as coisas, mas o sentido que damos a elas. Os liliputianos descrevem o objecto, nós vemos uma pistola. Nós já não vemos as partes de um objecto, a não ser que sejamos entendidos no assunto. Ver as coisas para lá da sua utilidade pode ser através da completa ignorância do que sejam ou através de uma especialização desse mesmo conhecimento, como, por exemplo, aquilo que um guitarrista vê em relação às guitarras eléctricas, que é completamente diferente do que a maioria dos humanos vê. Os humanos em geral olham uma guitarra eléctrica e vêem uma guitarra eléctrica, assim como os humanos em geral vêem uma pistola, mas os guitarristas vêm as partes: a madeira do corpo, a madeira do braço, a madeira da escala, os carrilhões, se têm trava ou não, qual o material dos mesmos. Depois vêem a alma da guitarra: os captadores (pick-ups); primeiro, se são single-coil, humbuckers ou P-90, depois qual a potência deles. Ou seja, perante uma guitarra eléctrica a maioria de nós somos humanos e os guitarristas liliputianos. Já se deram conta, evidentemente, que o meu modo liliputiano em relação à guitarra é diferente do modo dos liliputianos em relação à nossa realidade, pois eles descrevem as coisas porque as desconhecem, não dizem pistola, descrevem-na, ao passo que os guitarristas, em relação à guitarra eléctrica, atentam nas suas partes e não apenas no todo, porque sabem muito bem o que é uma guitarra eléctrica e que a sua qualidade (ou a sua utilidade) depende da qualidade das suas diversas partes. Não apenas no sentido de que umas partes são melhores do que outras, mas no sentido em que umas partes são mais eficazes para um determinado estilo de música, ou para aquilo que o guitarrista quer tocar, do que outras partes. De facto, há dois modos de sermos liliputianos: ou o completo desconhecimento das coisas ou um grande conhecimento das coisas. Entre o completo desconhecimento e o grande conhecimento está o humano.

Assim, a diferença de tamanho entre nós e os liliputianos, muito menores, ou entre nós e os brobdingnaguianos, muito maiores, não configura apenas uma diferença de escala, mas uma diferença de visão do mundo. De outro modo, a diferença de escala faz com que nos demos conta de que a nossa visão do mundo depende da nossa escala.

Para além deste nosso modo de nos relacionarmos com o mundo circundante, com aquilo que usamos no dia a dia, há também o modo como nos relacionamos connosco mesmos e com os outros. E isto espoleta com muito mais força na segunda parte do livro, em Brobdingnag, porque somos mais sensíveis a perceber as diferenças quando corremos risco de vida ou somos mais vulneráveis.

Por isso mesmo, e não é por acaso, somente na segunda parte do livro Gulliver diz estas palavras: «Sem dúvida alguma, os filósofos têm razão quando nos afirmam que nada é grande ou pequeno senão por meio de comparações» (p. 82) Apesar de se ter dado conta da diferença de escala em Liliput, ele não era vulnerável, ou pelo menos não era vulnerável como o é em Brodingnag. Mais do que em Liliput, é agora em Brodingnag, que ele se dá conta de que o ponto de vista em que estamos usualmente é relativo. Aquela frase, logo no início da segunda parte do livro, aparece quando Gulliver chega a Brobdingnag e se lembra de si no país dos lilliputeanos. Há uma reconfiguração do plano, uma reconfiguração do ponto de vista. Antes, em Lilliput, ele era um gigante, agora a situação inverteu-se, os gigantes são os outros e ele sente aquilo que os lilliputianos deveriam ter sentido com ele, mas que lhe estava completamente vedado. No fundo, o que aqui está em causa, é que nós mesmos só conseguimos nos ver se acontecer uma catástrofe, isto é, um rompimento com o ponto usual em que estamos. Curiosamente, nas viagens que fazemos usualmente o que acontece é que nós reparamos nos outros, nas diferenças, e é isso que acontece com Gulliver em Lilliput. Ele enumera as diferenças, quase comicamente, mas agora, em Brobdingnag, ele apercebe-se dele mesmo. E apercebe-se dele mesmo através da comparação com a sua vivência em Lilliput. Literalmente, ele foi virado do avesso. Viu-se por dentro. Leia-se: «Nesta terrível agitação mental não podia abstrair-me de Lilliput, cujos habitantes me olhavam como o maior prodígio que o mundo tivera, onde eu podia, com uma só mão, arrastar uma armada imperial e cometer outros feitos fantásticos que ficarão para sempre registados nas crónicas daquele império […]. Pensava na mortificação que, para mim, devia representar o facto de ser tão mesquinho nesta nação quanto um lilliputiano seria entre nós.» (82) Esta contínua e radical alteração do ponto de vista, ir do tamanho natural a sentir-se extremamente grande e depois a sentir-se extremamente pequeno obriga Gulliver a configurar a sua existência e o mundo. Ele percebe claramente que estamos presos num ponto de vista fixo e não perguntamos por nada. Mas quando aqui se diz fixo, não quer dizer que ele não mude ao longo da vida, que nós não estejamos sempre a mudar aquilo que julgamos acerca disto ou daquilo, porque estamos, fixo aqui quer dizer que o nosso ponto de vista é dependente da nossa escala, que não é apenas de tamanho, embora seja, mas também do nosso corpus de conhecimento. Ou seja, nós vemos as coisas, não como elas são, mas com os apetrechos sensíveis e com o conhecimento que temos. Nós não podemos ver os átomos ou os poros da pele, por exemplo, nem podemos ver o que quer que seja fora do saber que temos. A este modo de nos mostrar como somos, através de uma projecção ou criação de outras escalas, chamo reconfiguração do nosso ponto de vista, porque é disso que se trata: passamos a ver que temos um ponto de vista fixo e do que é que ele depende.

(Continua na próxima semana)

13 Jul 2021

Corpo devagar

Delito. Matar o tempo, diz-se. Fazê-lo passar mais depressa e sem sentir o seu rasto lento, na expectativa de algo. Mas há outra maneira de o silenciar. Suspender sem extinguir, a respiração imparável e ficar num limbo de ilusória eternidade. O sem tempo de um intervalo. A quase morte do tempo por fuga da vítima. Uma coisa defensiva e sem instintos homicidas.

A pele das coisas. Espelhos visíveis. À flor da superfície. A lembrar-me. Desse corpo revestido de ti.
Pouso o guardanapo, o copo a libertar um aroma rico, colorido e encorpado, da região que eu gosto. Aliso a saia e disponho-me de costas direitas a fruir. O rio aqui atrás invisível mas a três passos largos. Uma pausa oferecida a custo num dia de agitação demais. Inquietações que não se curam senão com um intervalo de esquecimento. Um almoço que não pode ser longo mas terá o dom de parecer um daqueles momentos que duram eternidade mais uns minutos, mesmo se pouco mais do que isso contando no relógio. O pão de forno de lenha ainda morno e um pratinho de azeitonas. Não precisava de mais. Coloridas, amargas da cura e do tempero variadas. A lembrar-me, umas, os teus olhos, outras a cor da pele. Aquelas daquele tom de pele que é a lembrar o teu. Também invisível mas já aqui atrás à distância de um pensamento leve. Umas lascas da pequena merendeira intensa de ovelha, curada por fora com uma pele a ficar espessa e ainda sedosa por dentro. Coisas simples vindas de mais a sul e que lembram a mesa que era de casa e de sempre. Viva na memória.

Delito de ser corpo. Devagar. De pensamento. Um corpo amado tem uma arquitectura própria. Tão específica que se deve a um encontro de acaso entre um sentimento e uma genética da qual só se conhece a obra final. Percorre-se num olhar milimétrico e tudo é coerente com o sentido de posse que é a de amar. Não a de ter mas a de conter. Um palmo de pele discreta como o é sempre, a esconder mistérios que é como se não existissem. Não há um veículo que transporte nenhuma função orgânica que transcenda a visão estética. A visão pura. Coincidente. Avança-se um centímetro mais, com a palma da mão onde se concentra tudo. Minto. Menor a superfície do tacto e maior a intensidade. É já só a ponta dos dedos que sente mais e não há mais nada e é o todo que se intui em cada parte e prévio ao desejo. Poder-se-ia dizer que do corpo nasce. Este. Mas é um pouco como se o corpo pré-existente fosse produto do olhar que ama cada detalhe como por um acto de reconhecimento. Sem voz. A este corpo chegam as vozes únicas vindas do tacto e do olhar atento, focado. A ouvir de dentro. Não há mais desejo. Somente espanto, ou devoção. Deito-me esguia como me sinto como sempre quis ser, como uma linha a contornar um corpo ao lado. Em baixo, coberto pelo olhar, protegido do esquecimento. Deito-me ao lado. Deito-me a perder-me de vista. Nesse corpo que é único como o que lhe sinto ser seu. Eu. A elaborar esse corpo. De sentido se do amor que não se faz de mais do que disso.

Dessa paixão por entardecer na praia. Anoitecer. Serenar e silenciar tudo. Restando um estar ao lado, deitada, soturna de tão tarde, centrada e surda. A respirar esse momento – corpo. Ali. Ao lado. Dentro. Como um fado. E destilar-se dos olhos. A encaminhar-se na mão leve que toca somente para se fazer existente. Ou até acariciar o corpo meio ausente. Ali estranho. Em si distante quanto pesado de evidência.
Apago o candeeiro da mesa, chega de realidade, por hoje.

13 Jul 2021

Água para incêndios

O aumento da população de Macau em meados do século XIX levou a problemas com a água, poluída que estava a Ribeira do Patane, (inicial local de abastecimento da população e de aguada para os barcos), servindo-se os habitantes na sua maioria da dos poços públicos e da água da Fonte do Lilau que, apesar de não ser tratada, era boa para beber e onde os aguadeiros se abasteciam. Muitos donos de propriedades mandaram então abrir poços, sendo a água da maior parte deles de fraca qualidade. Já a da chuva, que num clima tropical cai torrencial, era nos pátios recolhida em grandes potes, colocados sob a junção dos telhados. Nos incêndios no Bazar, a água do Ribeira do Patane e do Rio Oeste era utilizada para complementar a dos poços próximos do fogo.

O Governador José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) a 27 de Dezembro de 1866 por Portaria n.º 45 nomeava o Major Comandante do Corpo de Polícia de Macao Bernardino de Senna Fernandes como Inspector de Incêndios, cargo que exercia já antes de 1862 e por Portaria n.º 46 determinava: Cumprindo-me organizar quanto em mim caiba e como melhor for, o serviço respectivo à extinção dos incêndios na colónia de Macau: hei por conveniente determinar que o Sr. inspector dos fogos inspeccione incontinente todos quantos poços assim públicos como particulares existirem na cidade, informando-se por sua própria inspecção e visita da quantidade d’ água aproximada que esses poços oferecerem, devendo de tudo isso dar-me minuciosa conta, e bem assim ordeno que as lojas maiores do bazar tenham permanentemente uma barrica d’ água em reserva, a qual deverá ser mudada todos os três dias por conta dos inquilinos. E que servirá para com ela se ocorrer às primeiras necessidades dos incêndios, quando estes se manifestarem nas vizinhanças dessas mesmas lojas: e determino também que nos cantos d’alguma das ruas do bazar, n’aquelas ao menos onde a água for mais escassa existam depósitos do mesmo líquido, que servirão para o mesmo fim, e que ficarão inteiramente sob a vigilância da polícia. Outro sim tenho por conveniente ordenar que o Sr. inspector dos fogos passe uma revista cuidadosa a todas as bombas da cidade, a fim de se informar do seu número e estado, da gente que as guarnece, da quantidade de baldes que as completam, do nome dos seus chefes, e enfim de género de responsabilidade que actualmente cabe a quem dirige e superintende o trabalho de cada uma d’essas bombas: devendo o mesmo sr. inspector instruir-me se convirá, acaso, o pôr à testa de cada bomba da cidade, um empregado seu que entenda o chinês, ou se por meio de um alistamento regular, e com penalidades, se logrará obter que cada bomba desempenhe com todo o seu pessoal o trabalho que lhe for determinado no momento do incêndio. Outro sim determino que o sr. inspector dos fogos auxiliando-se para esse fim da polícia, se tanto for necessário, faça visitas domiciliárias aos estabelecimentos industriais do bazar, e procure remover do centro da população china para outros pontos da cidade mais afastados, ou menos povoados, aquelas indústrias que reconhecidamente forem tidas por perigosas, e isto a bem do grande número de cidadãos chineses que actualmente habitam o centro do bazar. Ordeno também, que o sr. inspector dos fogos, logo que rebente algum incêndio em qualquer ponto da cidade mande imediatamente franquear por via da polícia, que ficará responsável pela segurança da propriedade dos cidadãos, aquelas lojas ou edifícios particulares da vizinhança do lugar atacado, onde existirem poços ou depósitos d’água, que possam servir no abastecimento das bombas, empregadas no trabalho da extinção do incêndio.

Determino mais, que o sr. inspector dos fogos organize, sem demora, uma brigada de homens de machado e de grampos, destinada a operar com prontidão nos casos em que seja necessário isolar, pela força, os edifícios atacados d’aqueles que se lhe acharem contíguos ou mui próximos; devendo a mesma autoridade aproveitar-se para este fim dos elementos que já hoje a colónia oferece com relação a este ponto>, Boletim Oficial de 31 de Dezembro de 1866.

Melhoramentos

A 19 de Fevereiro de 1868, o Inspector de Incêndios seguindo essas directivas apresentava o relatório ao Governador e antes, já entregara outro sobre o número de poços e de bombas para apagar os fogos, referindo agora Senna Fernandes: . Mandei assinalar as lojas que tinham poço com uma tabuleta afixada na parte exterior, a indicar haver ali água para se recorrer em caso de incêndio.

Entre as lojas que não haviam contribuído para a compra de bombas, que as lojas do Bazar têm a expensas suas, mandei fazer com o produto de uma subscrição voluntária um certo número de . Mandei reparar as bombas avariadas e . O prémio estabelecido pelo governo para as duas primeiras bombas a comparecer no lugar do incêndio, é um poderoso incentivo para apressar ao lugar do sinistro o principal meio para o extinguir.

Pago pela Fazenda havia apenas um empregado para cuidar das bombas e mais objectos pertencentes à repartição, falta suprimida por voluntários paisanos que se têm prestado a dirigir o trabalho das bombas na ocasião d’ incêndio, sendo Fermino Machado o mais assíduo a prestar este serviço.

Não só as bombas da Fazenda mas também as do Bazar e San-Kio usam acudir ao incêndio, dando-se o sinistro em qualquer ponto da cidade; e as bombas pertencentes às lojas chinesas são transportadas e trabalhadas pelos serventuários das mesmas lojas; por isso julguei conveniente mandar pôr um distintivo na cabaia, chapéu e lanterna dos dependentes de todas as lojas, a fim de os poder distinguir de outros chineses que não têm quem os garanta; e que por conseguinte são excluídos do lugar do incêndio ou presos em tais ocasiões, não trazendo o distintivo por mim dado.

Com prévia autorização de V. Exa., ordenei a todas as lojas do Bazar para que tivessem um dependente seu, armado, e postado na porta da rua durante o incêndio; e este expediente tem concorrido muito para evitar roubos, e para manter a ordem e sossego público, ficando por este modo o Bazar bem guardado e bem policiado.

12 Jul 2021

Um troféu imaginário

Já foi bastante mais novo e bastante mais estúpido. Felizmente, e na maioria dos casos, a idade tende a corrigir – ainda que desigualmente – ambos atributos. Quando tinha cerca de catorze anos, por exemplo, eu e um amigo meu descobrimos um cemitério abandonado, mesmo ao lado de uma igreja, onde se conseguia aceder trepando umas rochas que davam acesso a um dos muros do cemitério. De cima do muro avistavam-se jazigos de família, já muito degradados, as pedras tumulares pontuando o recinto como dentes incertos e estragados numa boca que se abre para um sorriso e o matagal viçoso envolvendo quase tudo num abraço cujo desleixo humano de décadas acabara por se tornar o melhor adubo possível. Da primeira vez que lá fomos, não ousamos entrar. Percebemos rapidamente que não seria difícil; uma amendoeira ladeando a parte de dentro de um dos muros dava um bom escadote. Do lado de fora do cemitério, uma inscrição ininteligível para adolescentes imortais: «Como tu és eu já fui / Como eu sou tu hás-de ser / Lembra-te / Hás-de morrer.»

Combinámos imediatamente regressar na noite seguinte devidamente equipados. Lanternas, facas de mato como as que víramos no Rambo e uma máquina fotográfica Nikon EM, herança paterna, para registar adequadamente a proeza. Uma ida a um cemitério abandonado, de noite, era coisa para engordar a nossa esquálida popularidade. Pelo menos junto dos geeks com que nos dávamos.

Como prevíramos, descer foi tão fácil como subir. A natureza, retomando conta do espaço, fornecia-nos os pontos de apoio necessários para que os nossos corpos magros e ágeis (há de facto vantagens físicas inegáveis na juventude) não encontrassem qualquer dificuldade em galgar os ramos que davam para o recinto. Lá dentro, tudo se complicava. Eu tenho pavor a aranhas e o meu amigo detestava ratos. Tínhamos a certeza de que havia ambos em abundância naquele lugar – afinal, onde se haviam de reunir os nossos terrores primordiais senão num cemitério?

Fomos muito devagarinho caminhando entre as pedras tumulares e lendo as suas inscrições. A maior parte eram de pessoas que haviam vivido no século XIX. Pessoas que, salvo raras excepções, tinham vivido muito pouco tempo.

Lembro-me de fazer contas e de pensar que o meu pai, nos sessenta e tais, já tinha vivido mais tempo do que a maior parte da gente ali enterrada. Lembro-me também de pensar que muitas daquelas pessoas nunca tinham visto luz eléctrica ou um automóvel. Uma pequena travessia no espaço, uma grande viagem no tempo.

Eu pedia ao meu amigo para apontar a lanterna para tal e tal sítio para eu ter luz suficiente para fotografar. Tinha um rolo novinho de trinta e seis fotos. Não tínhamos dado mais de uma dúzia de passos e já ia a meio. Tudo era fascinante.

O João decidiu que devíamos entrar num dos jazigos. Para mim, aquilo já era demais. Uma coisa é passear no bairro onde as pessoas moram; outra, bem diferente, é entrar-lhes em casa. Mas o João estava determinado. Não tinha decidido ir ali para ver de perto aquilo que já conseguia ver lá de cima do muro. Ainda tentei convencê-lo a voltar noutro dia, a fazer a coisa de modo gradual. Nada. Estava irredutível.

Nem todos os jazigos estavam abertos mas encontrámos um – por sorte, logo o maior – que o estava. Lá dentro, uma espécie de beliche de cada lado da parede e quatro caixões, três deles fechados. Daquele que estava aberto pendia uma mão – o que restava dela. Uma mão que no fundo era apenas a estrutura óssea da mão, aquilo que restava de um corpo depois da bicheza se ter encarregado de o limpar. A mão estava dentro de uma luva delicada, feita de um tecido que nos parecia tule ou renda miudinha – a capacidade de dois rapazes de catorze anos de identificar tecidos é, como se sabe, bastante diminuta. No dedo anelar, um anel.

Esgotei o que faltava do rolo a documentar aquele insólito em jeito de prémio: não só entráramos no cemitério como tínhamos tido contacto com um morto. Um daqueles a sério, não dos que se vêm nos velórios.

O João quis ficar com o anel como recordação. Achei péssima ideia. Aquele anel já era uma recordação e não era a nossa recordação. De certeza que existiam leis dos homens e regras divinas que desaconselhavam fortemente ficar com as coisas que os mortos levam para a tumba. Mas o João já se estava a ver a contar a história da nossa proeza e a exibir o troféu arvorado em cereja no topo do bolo. Eu não estava de todo convencido (e as doenças? E a fúria divina? E as dúzias de maldições em que justissimamente incorremos?)

Mal tocou no tampo do caixão semiaberto este caiu, separando sem esforço a mão do resto da frágil assemblagem de ossos em que uma pessoa se torna. A mão caiu no chão, o barulho assustou-nos. Os cães da vizinhança ladraram e corremos dali para fora como dois ladroecos apanhados em flagrante.

Sem o anel-troféu, o João rematava sempre a história dessa noite – que repetiu vezes sem conta anos a fio – realçando o carácter enigmático daquele súbito movimento do tampo do caixão. «Era como se o caixão a estivesse a proteger, porque nem lhe tocámos». Era mentira, claro. Mas sem o anel, que podíamos fazer?

9 Jul 2021

Cortejo

Levanta-se diante da janela e do outro lado os flocos de neve têm a dimensão de mastros de alto bordo, galeões orbiculares a caírem sem cessar do céu avermelhado. A rua desvanece-se e nas fachadas aparecem rostos apertados entre as cortinas a contemplarem o rasto que o início da noite lhes devolve. As lanternas dos candeeiros baloiçam fortemente, uma delas solta-se dos fios e despenha-se.

O rosto que aparece na janela da frente pertence a Erik que não desiste de procurar o local exacto onde a lanterna terá caído. Em vão. Hoje, todo prédio que se desmoronasse esvair-se-ia e com ele toda a história, toda a memória.

Apesar disso, Erik lembrar-se-á estranhamente do verão passado. Uma mulher, um pinhal e aquelas imagens sem figuras que descem por dentro de cada floco de neve. Erik amou-a de tal forma que se apoderou de todos os seus esquecimentos. Só ele tem acesso a todos os factos, situações, objectos, pessoas, paisagens, esquinas ou palavras que ela, um dia, esqueceu.

A noite é de um temporal tão ameaçador que, não obstante, desperta em Erik a vontade de percorrer os dois mil quilómetros que o separam dessa mulher. A silhueta que na fachada da frente observa os passos do jovem holandês volta a sentar-se, mas sem nunca abandonar a tempestade que enche a escuridão do céu de lés a lés com flocos maiores do que telhas, centelhas esbranquiçadas que despregam a construção da noite. Sobre a mesa coloca um plástico azul cortado à medida e é nos limites desta capa – tão parecida com um oceano domesticado – que seguirá os percursos de Erik. O tempo que irá passar é o das formigas que reatam sempre o mesmo trajecto, sem que, pelo menos aparentemente, o questionem.

O mais grave de tudo é que, entre o muito que sabe, Erik está agora ciente de que ela o esqueceu. Também ele faz parte da longa lista de esquecimentos dessa mulher, chamemos-lhe Laura. O esquecimento é um potente glaciar que não escorre do mesmo modo ao longo do seu curso. Por isso Erik parte em viagem para tentar alterar a ordem das coisas. Surge agora numa praia a calcorrear a beira-mar em passo largo, cada pegada é um véu que se rompe ou o corpo ideal que avidamente procura. Junto à arriba que avança em desfiladeiro até ao pequeno cabo, vê desenhados na areia os contornos precisos de Laura: os cabelos gravados em espinha sobre os volteios da cintura e o vinco que define a boca virado para os pés que deslizam sobre a sua própria invisibilidade. Toda a imagem contradita a sua enorme presença.

Com a máquina de escrever assente no plástico azul, a silhueta hesita entre seguir a tempestade que ainda se abate sobre a janela ou tocar com os dedos nas assimetrias do teclado. Em ambos os planos, Erik cansa-se de procurar a sua amada e, numa das muitas noites da sua demorada estadia em Portugal, sonha com um sem número de figuras – iguais à que viu desenhadas na areia – a desembarcarem na praia. Entre elas distingue-se um rei com a cabeça cheia de grinaldas que se diz hermafrodita. Tal como Laura, esse excêntrico rei anda lentamente e de cabeça baixa como que à procura de algum sinal, primeiro na areia e depois já em terra firme. Talvez a atenção o atraia às flores amarelas do centauro das areias, aos goivos violetas das dunas ou apenas às orquídeas silvestres que são brancas como a neve do grande temporal.

Sem conseguir deter a roda do mundo, Erik regressa. Chegado aos Pirinéus, já a meio da viagem, olha na direcção daquele litoral distante e, pela primeira vez, desvenda o corpo concreto de Laura. Traz um vestido preto e em vez de cabeça tem um vaso onde alguém pintou um rei amarrado ao mastro duma barca a ouvir duas sereias que tocam a mesma lira. De cada lado do rei, um animal marinho faz sombra sobre a paisagem aquática do fundo. O vaso não permite ver os demais tripulantes, apenas o castelo da proa e o vasto oceano plastificado a recortar o horizonte do mundo que agora tem a forma de uma mesa ainda virada para o grande nevão. Todo o esquecimento contradita uma ausência maior.

8 Jul 2021

E esse lado do fim do mundo?

Santa Bárbara, Lisboa, Domingo longo começado no Sábado, 12 e 13 Junho

Na economia do tempo do micro-editor nunca sobra em quantidade para este lavrar das terras férteis. Estou em crer que o Mário [Gomes] se vai tornando na mais saborosa das fraudes literárias. Por exemplo, o Arno Schmidt nas suas mãos parece ter sido escrito em português, tal a limpidez de cascalho no fundo do riacho que por aqui se ouve. Será Arno extensão de Gomes? Anuncia-se, portanto, «A República dos Doutos – Romance-breve das Latitudes dos Cavalos», delirante “reportagem” ao lugar maravilhoso onde as artes e as culturas viveriam sem preocupações outras que a criação, ilha em movimento dividida por um muro, habitada por seres fabulosos e outros mais reconhecíveis.

Estende-se narrativa (para conforto dos carentes da anedota e outros preguiçosos) e explodirá moral (de agradar às tribos sanguinolentas dos malditos e outros mortos-vivos), mas o essencial está no labor da linguagem, com multiplicação ao infinito de planos, a lúdica recomposição das pontuações e outros sinais, e, sobretudo, o fraseado em pizzicato sobre escórias, imagens potentes, lâminas saltitantes, espinhos de rasgar peles. E por nisso falar, surpreendente erotismo para tão apocalíptico cenário. Certas obras inventam o presente. Se «Leviatã|Espelhos negros» podia ser sido livro de cabeceira durante a pandemia, estas «Latitudes dos Cavalos» continuam a ser ferramenta de ver ao longe, o que nos acontece ao perto. Ao calhas:

«Oh, ainda tem 1 hora ou 2 horas : afinal o fim do mundo é bem perto.» : «Pois, para pessoas como você !» (Pelos vistos ele gostou da resposta; passou a mão pelo bloco de barba maciço e deu um salto em frente, orgulhoso).
Nomes como terramotos ! : um sítio por onde passámos chamava-se ‹Tatara-káll› (e os cascos retumbavam ocos, como que a condizer !). –

Na – enfim, poderemos falar duma ‹aldeia› ? : as poucas cabanas de ramos esgalhados (alguns deles desfolhados até pelos mais famintos ou preguiçosos !). / Todos haviam retomado os seus afazeres, em plena paz : centauros barbudos com gadanhas ceifavam os lameiros. (Um deles, todo silhueta, levantou a garrafa, bebendo; (e eu achei por bem beliscar a minha perna : será que tinha adormecido a ler um livro de mitologia grega, Preller=Robert ?)).

Não ! Nunca na vida ! : uma centaura de óculos era certamente uma novidade (e além disso, mais velha : um balde de ferro com água estirava-lhe o braço : as mais velhas seguravam os seios maiores com ambas as mãos ao galopar. – ’ma fábrica de soutiens. Podia ser um negócio bombástico !).

E todos os nomes, como trovoadas, como lados entrelaçados, como aragem de fogo; como nudez da terra, cadinhos esquentados, ouro picado.»

Santa Bárbara, Lisboa, Domingo, 20 Junho

Chegou o carteiro. Podia ter sido, mas não e ainda bem. Imagino em quantas dobras tornaria o estreito fanzine em origami para habitar a caixa de correio… «Cartas ao mundo tal qual o conhecemos» (ed. cod, inc) nasce do primeiro fechamento e bela ideia: o narrador está separado do mundo e escreve-lhe, aproveitando o ensejo para pontosituar esse velho relacionamento. O Carlos [Morais José] escreve e assim pensa. «Estás a acabar como sempre estiveste, meu mundo. Todos albergam o desejo secreto de assistir à tua morte, ao teu fim, à extinção de tudo. Os profetas insistiram com veemência particular na vinda recente de um apocalipse. Mas tu, meu mundo, não acabaste: mais depressa eles acabaram para ti. Meio céu e meio terra, aqui estás, aqui estarás, incriado, sempre tu, pois nunca soubeste o que seria ser outro». A Ana desenha seguindo nervosamente a própria mão na combinação dos corpos (algures na página). Quando o ouriço se fecha, pequena esfera de espinhos, o mundo cessa de existir? Está posta a cama de faquir sobre a qual a reflexão poética encontra conforto para levitar. A doença faz-se solidão, e talvez o seu inverso. Certa melancolia habita estas linhas, talvez farpas: pode o indivíduo ser em pleno no eu sem as amarras e as vagas doidas que habitam o seu entorno, esse que nos cerca, que ora nos esmaga ora nos amplia? Afinal, terá o mundo fechado assim tanto? E para balanço? Não são dadas respostas, mas enumeradas dificuldades, entrechocando-se em dança tal os corpos da Ana. Este detalhar do convívio amoroso com o universo deixa-nos à beira do abysmo de mística profana. Em verdade vos digo, não há outro modo de andar que não sobre tal fio de navalha. Recordo sempre com o título errado de ponto final, quando o poema de Reinaldo Ferreira se chama com exactidão apenas «Ponto»: «Mínimo sou,/ Mas quando ao Nada empresto/ A minha elementar realidade,/ O Nada é só o resto.»

Basílica da Estrela, Lisboa, Quinta, 29 Junho

Vejo agora com o corpo todo que talvez seja desta matéria a despedida, momentos em que não distinguimos o que sobra de noite ou começa de luz, frescura nas mãos antes de cuspidas, os pulmões a encher com o céu do olhar, seis da manhã, talvez antes, contavas-me como no orvalho se colhem as derradeiras lágrimas de felicidade, sete da tarde final, devia ter levado enxada para marulhar as terras ajardinadas do claustro, círculo de tantos silêncios, era de ficar encostado ao cabo esperando pelo teus silêncios encavados, que os cultivavas com gosto, Manuel Luís [Bragança], vinhas tu de um pai e eu ao encontro do escritor, dos que lavram a eito, e encontrámo-nos de esternos no ar em entrechoque, cavername de cada navio seu, mas irmanados nos rumos diversos, logo naufragados à mesa da minha impotência, tonto, que não consegui nada, quando muito celebração, e agora que recomeçávamos vem a puta da velha e retira-te do jogo. Admiro o modo como indicavas a floresta doida de praças e ruas e varandas e janelas que foi sendo o teu pairrequieto, em absoluta liberdade desenvolvendo amores com sabor e perfume de limão ou assim, bandeiras doidas a estrelar na língua e mais além. Asneiras: disse todas em voz alta mal recebi a notícia, não as redigo como sabes que gosto. Não há alívio que valha. Eras para além da linhagem de onde vinhas, mas nela celebravas uma sementeira de desatinos e interpelações. Cuspo nas mãos, cuspo no céu. Hei-de aprender a dizer foda-se como quem reza. Toquei a madeira do teu féretro feito de veios, talvez raízes, e vociferei que do teu fogo se ergam árvores, mergulhem pássaros, voem copas e se enterrem asas. Sacudo a enxada batendo no chão, soltando terra até casa, marcando com som baço a linha directa ao coração. Volto a bater com a asneira no chão: caralho. Falta-me o ar.

7 Jul 2021

Elogio da imperfeição

Forget your perfect offering / There is a crack, a crack in everything / That’s how the light gets in.
Anthem, Leonard Cohen

 

Arrisco a tese, amigos, com a vossa benevolência: o mundo de agora está formatado para os grandes gestos. Há uma lupa imensa sobre tudo o que acontece e, pior ainda, sobre tudo o que deve acontecer. Alguém deixou a porta aberta e entraram todos os que se indignam, exigem, sabem, oferecem soluções generosas desde o conforto do seu teclado.

O clima é de dedos em riste e de discursos em cima de caixotes. Nada escapa: até o que antes era arte ou desporto tem de incluir uma componente de comício para ter credibilidade. As mentes sequiosas de virtude assim o exigem e na sua ausência assim o condenam. Nestes dias não se pede menos do que salvar o mundo – mesmo que exista muita gente que não queira ser salva. Esses, como eu, estão semi-clandestinos, fugitivos da ordem do dia e da polémica de micro-ondas. E sem surpresa refugiam-se nas pequenas coisas, nos pequenos gestos onde de resto sempre estiveram. Um olhar, um dito, um riso, uma imperfeição.

Lembram-se da imperfeição, amigos? Lembram-se quando a fragilidade era algo com que toda a gente convivia de forma natural? Uma lágrima vertida, uma piada infeliz, um comentário inoportuno mas possível? Lembram-se do que era a maravilhosa possibilidade de errar? Acarinhem essas memórias, então. Nos dias da ditadura sanitária temos mesmo que andar munidos de um documento que prova que estamos vivos da melhor maneira possível. E, em todas as áreas, somos obrigados a viver da melhor maneira possível tal como é entendida pelo espírito do tempo: militantes, interessados, activistas, especialistas, cavaleiros de armadura sempre reluzente e alma impoluta.

Vejo na minha mesa de trabalho duas fotografias que adoro e, apesar de terem sido tiradas na segunda metade do século XX, considero-as como relíquias arqueológicas de outras estações onde a fragilidade era bem-vinda. Uma delas mostra o Papa João Paulo II, personalidade fortíssima, chefe da igreja carismático e decisivo para o processo de desmoronamento da então União Soviética. E que faz Karol Wojtyla, esse sim praticante de grandes gestos? Boceja. E nesse momento banal reconhecemo-nos, somos nós que poderíamos ser aquele homem já quebrado pelo tempo e incapaz de suster o que é comum a todos os mortais. Noutra o fotógrafo estava presente na cerimónia de coroação de Isabel II, no dia 2 de Junho de 1953. A fotografia é tirada dentro da catedral de Westminster, com os protagonistas devidamente vestidos e preparados para a pompa e circunstância da ocasião. E o que vemos, então?

Uma jovem rainha, de manto e coroa segurando a orbe numa das mãos e sorrindo, quase corando. Percebemos a causa de tudo quando olhamos para quem está em segundo plano: o marido, príncipe Filipe com um sorriso maroto de um moço que terá soltado um piropo à sua amada que conseguiu atravessar a mais formal das cerimónias. Como sempre deveria ser.

Assusta-me uma ideia de sociedade perfeita e clínica, onde a imperfeição é pré-definida por decreto ou sentença popular. Aterroriza-me a imposição das “boas causas” que espezinham o factor humano enquanto cantam loas a mundos quem sabe desejáveis mas impossíveis de serem impostos.

Quero a imperfeição. Quero a fragilidade. Quero que o erro seja um direito. Até lá, e enquanto não chegar a carta de mobilização, fico-me com estes vestígios não de um tempo melhor mas certamente mais imperfeito.

7 Jul 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 31 ao 40

XXXI

Amoroso não percebia o que Benedito invejava na sua vida. Mas não replicou. Mudou de assunto:
– Bem, se Max Wolf quer guerra, vai tê-la. Ela não dará a outra face. Se é só uma forma de pressão, não resultará. O bom senso de Ding Ling é escuro. Selvagem.

– Sabe, tenente, Macau é apetecível. Não sei qual é o verdadeiro jogo de Wolf. Se quer só aproveitar esta desorientação portuguesa aqui e em Lisboa. Não sabemos se há mesmo negociações para vender o território à Alemanha. O dinheiro decidirá. E o patriotismo também. Só que Max pode querer aproveitar a brecha e abrir espaço para se estabelecer. Sabe como é. Dêem poder a um homem sobre os outros, e não demora muito até que ele perceba que não há limites para o seu próprio poder. E nenhum homem a quem se der esse comando será honesto durante muito tempo.

Amoroso tossiu. Estava demasiado fumo.
– Sim, qual é mesmo o jogo de Wolf? E qual será o futuro de Macau?

Os dedos da mão direita de Benedito Augusto cirandaram à volta do copo de cerveja que tinha à sua frente. Disse:
– Portugal, para mim, já não existe. É só uma ideia. Está lá longe. Macau está aqui. E sempre se salvou. E isso interessa-me. É a minha promessa de salvação na Terra. Quando cheguei à Ásia, buscava um clarão, que me iluminasse o caminho. Como dizia alguém, até aí só me tinham dado uma pequena vela para acender. Vi então as cores de um panchão. Encheu-me o coração. Percebi que era possível viver mais perto dos céus.

– Porque te tornaste jesuísta, Benedito?
– Fui um miúdo desobediente. Queria ordem. Com os jesuítas aprendemos a obedecer. É a nossa formação. Funcionamos como algo sem vontade ou juízo, que pode ser mudado de um lado para o outro sem resistência. Sentimo-nos leves. Depois foi a sua história. No século XII viviam na pobreza e abdicavam de qualquer adorno.

Vestiam-se de modo simples, só com batina e capuz, aprendiam a suportar a fome, a sede, a dormir sem tecto. Eram despojados de tudo. A simplicidade perfeita. Que coisa pode ser melhor do que podermos sair daqui para irmos embora, sem nada para transportarmos, para além do nosso corpo e espírito?
– E como concilias isso com o dinheiro que te pago?
– Por um espírito de missão. Só é pecado o que se julga que é. E acredito numa salvação que não tenha medo da fogueira.

XXXII

Amoroso já não tinha a certeza que existia a virtude. Os seus olhos brilharam.
– Onde andará Max Wolf?
– Ele vai aparecer. Ou me engano muito ou, uma noite destas, irá visitar Ding Ling. Ele precisa dela.
– Vou esperar uns dias. Mas depois terei de actuar. O Governador vai perguntar-me o que se passa. E eu não sei.
– Saberemos. É certo que, neste mundo, somos apenas ladrões do tempo. Um dia destes tornamo-nos dispensáveis e colocam-nos uma armadilha onde cairemos que nem tordos.
– Somos fortes, Benedito.
– É bom que pensemos isso.
Quando Amoroso o deixou, Benedito Augusto pediu outra cerveja. Não esperava ninguém. Queria estar sozinho e esconder-se, mais uma vez, do mundo. E da sua vida. Preferia a noite às horas mais malignas do dia, do calor. Pensou no tenente Amoroso, já corrompido, sem o perceber, pelo Oriente. Mesmo que dissesse o contrário, não queria trocar esta vida, de álcool, de mulheres, do jogo, das sombras, pelo que restava do império português. Mas a solidão e a bebida e o ópio deixavam marcas. Mesmo se tinha uma mulher forte a seu lado, Ding Ling. Não conseguira contar tudo o que sabia ao tenente. Talvez porque quisesse ter os seus próprios trunfos nas batalhas que se desenhavam. Ou por medo. Ou porque o seu seu instinto de sobrevivência era superior a qualquer lealdade.
Benedito Augusto pensou na sua própria vida e nos segredos que não partilhava com ninguém. Nem podia partilhar se queria continuar a dizer-se padre jesuíta. Desaparecia durante semanas de Macau. Secretamente, ia até Hong Kong ou Singapura, onde conhecera uma rapariga de remota origem portuguesa a que prometera vezes sem conta que deixaria de ser padre e casaria com ela. Nem sempre se sentia cómodo com estas diferentes máscaras. Mas eram elas que davam sentido ao conjunto de segredos que acumulara desde que deixara Portugal em 1910. Agora sabia que já não abandonaria a Ásia. Aqui perdera uma vida e ganhara algumas outras.
Bebeu o resto da cerveja e pediu outra. Recordou o seu encontro, nessa tarde, com Fu Xing no Grande Hotel, que ficava no extremo oriental da Avenida Almeida Ribeiro. Reformara-se da pirataria e, agora, pensava dedicar-se a negócios legais em Macau. Falava-se que iriam ser licitados os monopólios do tráfico de ópio e da lotaria. E Fu Xing, que tinha dinheiro para investir, desejava ter uma percentagem nesse lucrativo negócio.

XXXIII

Tudo era um jogo, como ele dissera com um sorriso maldoso:
– Vendemos as nossas almas, jogamos com elas e voltamos a ganhá-las.
Fu Xing deixara de usar camisas encarcadas de suor devido ao calor sufocante. Agora vestia um fato de linho claro e ia deixando crescer um bigode. Não cortara, claro, os laços com os antigos companheiros. Estes tinham juncos e lorchas cheias de armamento em pleno Porto Interior, incluindo modernas espingardas Winchester. Pareciam barcos de pesca ou de transporte de mercadorias mas, na realidade, a sua actividade era outra. A polícia não ía ali, por isso não era necessário estarem muito disfarçadas. Fu Xing não temia o passado. Afinal, por ali os piratas eram prezados. Gastavam muito dinheiro e os portugueses desviavam o olhar se eles circulassem, sem muito ruído, pela Rua da Felicidade ou pelo Porto Interior, como se não os vissem.
Fu Xing ocupava agora parte do seu tempo a encontrar-se com comerciantes chineses. O seu centro de operações era o Grande Hotel, onde também podia jogar fantan. Perto do mar, encontrara um refúgio perfeito em terra: um lugar com amplas salas e confortáveis quartos. Só o cenário mudava, porque o resto era igual: ópio, mulheres, falsos amores e traições. Benedito Augusto era agora o seu correio em Xangai e Singapura. Levava mensagens para os seus contactos e trazia as respostas de volta. Ninguém o pressionava, porque andava disfarçado de padre. Perguntara a Benedito:
– Quando partes para Xangai? Tenho recados para levares.
– Dentro de dias, mas ainda não sei. Tenho, primeiro, de resolver um problema aqui.
– Tu tens problemas?
– Soou-me que os alemães poderão comprar Macau. E se isso acontecer…
– Estarás seguro.
– Como sabes?
– Ontem esteve aqui um alemão. Como se chama ele…? Max Wolf. E fez-me uma bela proposta.
– Um negócio?
– Sim. Ele não sabe se Portugal vai vender Macau. Se vender, muito bem. Se não vender, nada correrá mal. O seu objectivo é outro. Ganhar dinheiro. Muito dinheiro.
Benedito viu o olhar guloso de Fu Xing.
– Que te propôs o alemão?

XXXIV

O chinês olhou-o desconfiado, mas depois deu uma pequena risada.
– Posso contar-te. Tu poderás ser muito útil. O alemão tem heroína, uma droga muito mais potente do que o ópio. Traz euforia e também conforto. Os mais novos vão preferi-la. Ele tem uma fábrica que transforma ópio em morfina e, depois, em heroína. Falta a distribuição. E é isso que ele quer que eu faça. Ele tem o produto e eu os meios. Acho que é um bom negócio. E muito rentável.
– E como sabes que isso não é uma grande mentira?
– Padre, eu fui pirata, mas sei mais do que aparento. E sei ler as pessoas. Também tenho bons informadores. Max Wolf tem um químico alemão a trabalhar com ele em Xangai. Numa fábrica escondida, de que nem as tríades desconfiam. Fica numa fábria de cerveja. Wolf e o químico trabalharam numa empresa alemã, a Bayer. Onde aprendeu a extrair a heroína. Eles são negociantes, padre. Eu também o sou. O dinheiro une-nos.
Nos olhos de Fu Xing havia determinação. Por ali não navegavam fantasias contadas por marinheiros e soldados da fortuna, e que muitas vezes embalavam os sonhos de quem as escutava. Estava certo das suas escolhas e elas tinham a ver com o poder e a riqueza. Nada mais. Benedito levantou-se e saíu. Inspirou o aroma da noite, ainda contaminado pelo odor da pólvora queimada. O incêndio ainda não se tinha extinguido. Vivia-se uma falsa paz. Parou, fascinado pelas as águas do delta do Rio das Pérolas e olhou para os barcos chineses com a sua cobertura arrendondada, onde se abrigavam as famílias. Pequenos face às lorchas e aos poderosos juncos de grandes velas. Fora o mar que trouxera os portugueses até Macau. Fora ele que permitira que muitos deixassem Portugal, terra onde era difícil deixar de ser pobre. Mas o mar cansa os povos. Alguns, como ele, queriam afastar-se do mar e dos seus fascínios e encontrar a paz em terra. Onde as águas revoltas não o perturbassem. O mar tudo prometia. E tudo afogava.
Caminhou pelas ruas, polvilhavas de chineses, sentados em pequenos bancos, ou no chão, a comer arroz branco, cozido e sem sal, com pequenos edaços de carne e de peixe e legumes salteados. Habituara-se ao aroma forte das comidas chinesas, dos seus fritos, que como noutas cidades orientais, eram omnipresentes. Sabia para onde se dirigia. O pequeno quarto onde dormia não ficava longe.

XXXV

O mundo muda. Isso é inevitável. Talvez isso seja a única coisa que é inevitável, dizia, com voz serena, o governador Rodrigo Rodrigues. E acrescentou:
– Gosto da forma como vê o mundo e as suas mudanças, tenente. No fundo, como ele é. Observa as verdades e as mentiras e sabe como navegar entre essas duas grandes ondas sem ser submerso.
Félix Amoroso sentiu-se tocado pela amabilidade:
-O senhor tem uma visão demasiado bondosa de mim e das minhas acções.
– Até agora não me desiludiu.
Estavam na varanda do hotel Boa Vista, um local que parecia atrair ambos quando necessitavam de falar de coisas que consideravam importantes. O tenente transmitira-lhe as novidades sobre o assassinato de João Carlos da Silva. Tinha algumas pistas, mas não tinha certezas. Disse que tinha ido à casa deste e a inspeccionara mas escusou-se a mencionar o que descobrira lá. Especialmente uma carta de amor escondida por detrás de um espelho e assinada apenas com uma inicial. Amoroso não tinha certezas sobre quem a enviara. Mas suspeitava.
Lá dentro a festa continuava, num daqueles fins de tarde irrepetíveis de Macau. Escutava-se o som da banda de Borromeo Lou, um pianista de grande talento. Viera das Filipinas, e era a maior atracção do Bodabil, uma espécie de jazz. O sucesso que alcançara em teatros de Manila, como o Savoy e o Lux, e também no Carnaval da capital filipina, fora presenciado por Ana Ledesma, uma filipina que casara com um advogado português de Macau. Para ela era mais do que uma banda, porque eles prometiam um espectáculo total. Aproveitando uma ida de Lou a Hong Kong, tinha conseguido desviá-lo até ao Boa Vista, prometendo-lhe um público entusiástico. Muitos dos temas eram baladas sensuais cantadas por Miss Toytoy, a vocalista chinesa e uma artista completa. Convidavam à dança e ao amor. Mas o espectáculo era mais vasto. Amoroso gostara muito do barítono Datu Mandi (de origem Moro, que também cantava excertos de óperas).

XXXVI

Barromeo Lou, no início do espectáculo, dissera: “Se estiverem doentes, venham e ficarão curados. Se estiverem quase a morrer, venham e dêem uma boa gargalhadas antes disso acontecer. Se estiverem bons, venham e ajudem a transportar as vítimas da fobia do Jazz”. Ninguém deixara de rir. A boa disposição reinava. E depois dançara-se. Lá estava a nata da sociedade macaense, incluindo Joaquim José Palha e a mulher, Sofia. Palha aproximara-se de Amoroso e inquirira-o sobre o acordo que lhe propusera. O tenente respondera-lhe que falaria em breve com o Governador. Não se tinha esquecido. Palha afagara-lhe o braço e sussurara:
– Tem tudo a ganhar, tenente. Sabe que sim.
Deixara-o e voltara para conviver mais um pouco com os seus amigos. E dera espectáculo, quando dançara com Miss Toytoy. Era um excelente dançarino, como Amoroso podia testemunhar.
O Governador colocou um cigarro entre os lábios e acendeu-o. Após a primeira baforada, olhou para o tenente e disse:
– Uma das primeiras coisas que aprendi na vida é que é uma má ideia conheceres os teus heróis porque, geralmente, eles decepcionam-te.
– Aconteceu-lhe isso, Governador?
– Acontece a todos nós. Na política é fácil isso suceder.
Amoroso sentiu que o Governador perdera algumas ilusões que tvera no passado. Talvez com outros republicanos e membros da Maçonaria como ele.
– Ainda assim as pessoas precisam de memórias. Tal como as nações. Sem elas, o que resta? Nada. O que seria de Portugal sem as suas memórias? Sem um passado de que nos possamos orgulhar, como podemos ter alguma fé no futuro? Não é por acaso que nos agarramos a ele. Talvez porque não haja mais nada a que nos podemos segurar para não cairmos de vez. Foi esse o trunfo dos republicanos. Quando a Monarquia não soube o que fazer face ao Ultimato inglês, os republicanos recuperaram Luís de Camões, o patriotismo e o passado. Isso conquista os corações e as almas quando sentimos que o mundo está a ruir à nossa volta. Só que isso não chega.
Eram palavras de um homem cansado. Talvez desiludido. Ou então, isso era fruto daquele entardecer e daquela música que fazia ecoar imagens que o tempo tentara, sem o conseguir, apagar.

XXXVII

– Gosta de história, tenente? Aprendemos muito com ela. Pense numa coisa. Quando os impérios Ming e Otomano fecharam a Rota da Seda, os portugueses descobriram o seu destino. Dobraram o Cabo da Boa Esperança e fizeram da geografia comercial o seu legado à Europa. A Rota da Seda portuguesa fez-se por mar, evitando desertos, seduzida por sereias e atormentada por monstros marinhos. Lisboa tornou-se, por momentos, Veneza e Constantinopla. Foi uma utopia, tão sedutora como a que Camões cantou nos “Lusíadas”. Por momentos os portugueses foram deuses. Portugal deve parte do seu passado à Rota da Seda. Por isso Macau é tão especial para mim. E para si, não?
– Passou a ser quando conheci esta cidade melhor. E em especial as suas pessoas. Tão diferentes, com cada um à procura do seu destino. Uma das coisas especiais aqui é que as coisas nunca acontecem como se espera.
– Nunca acontecem. Não conseguimos manobrar o futuro. Bem, chega de conversa séria. Este é um dia para nos divertirmos. Vou voltar para dentro. Fica?
– Fico mais um pouco.
O Governador cruzou-se com Sofia Palha que caminhava altiva, como sempre. O seu vestido fazia jus à sua estrutura física. Era alta e musculada. A sua face ainda transmitia juventude. Aproximou-se do tenente e, sorridente, disse:
– Gostei muito da apresentação de tango há uma semana. Veio? Não o vi. É a dança do amor. Há demasiado contacto carnal para o gosto do meu marido, mas eu senti a força que transmite. Gostaria de aprender a dançá-lo. Mas, para isso, precisava de um bom par. Dizem-se que agora o que está na moda é o foxtrot. Pelo menos em Xangai. Aquilo é uma cidade…
Mostrava ter ideias firmes, mas a sua voz era sedutora. Aproximou-se mais do tenente.
– O seu nome é curioso. Amoroso. Aplica-se à sua vida?
– A necessidade, minha senhora, não conhece leis. Essa é uma das primeiras normas da diplomacia. Considere o seu marido, por exemplo. O costume, que é quase sempre a base de qualquer lei, dirá que, numa festa em sua casa, ele deve estar presente para entreter os convidados. Mas, imaginemos, que não está, porque tem necessidade estar a trabalhar num dos seus negócios. A necessidade, ignorando o costume, obriga-o a ficar longe, desapontando quase todas as pessoas. Mas alguém pode ter vantagens com base nessa necessidade.

XXXVIII

Ela fitou-o, espantada:
– O que quer dizer com isso, tenente?
O olhar de Sofia era mortal.
– A sua consciência está tranqula, minha senhora?
– Sempre esteve. Mas não compreendo as sua palavras. Elas parecem implicar que não deveria estar.
Amoroso tirou do bolso do casaco uma carta. Abriu-a e colocou-a defronte da face de Sofia Palha. Esta não disse nada, mas os seus olhos mostravam tudo.
– Reconhece a letra? É sua?
– Onde encontrou essa carta, senhor tenente?
– Onde pensa que foi?
Sofia Palha desviou a cara para o horizonte, onde a luz começava a desaparecer.
– E o que pretende fazer com ela? Fazer com que me sinta culpada de algo e comece a chorar?
– Eu só quero descobrir quem matou o senhor João Carlos da Silva. Não me interessa levantar o véu sobre outros segredos. Só aqueles que têm a ver com esse assassinato. Foi a senhora que o matou?
Ela fez um gesto de repulsa:
– Eu? Nunca? Eu amava-o.
– Há, como sabe, uma linha muito fina entre o amor e o ódio. Entre a morte e a vida.
– Não, tenente. Amei-o até ao fim. Foi uma paixão que durou meses. Até à sua morte.
– Sem o senhor Palha saber?
– Sem ele saber. Era um segredo só nosso. E o João era um homem em quem se podia confiar. Eu mandava-lhe pequenas cartas. Só assinadas com a inicial S. E ele sabia que as tinha de destruir logo a seguir.
– Esta ficou.
– Uma recordação. Não o deveria ter feito, mas compreendo-o. Era um homem apaixonado.
Sofia Palha voltara a ganhar a segurança que perdera momentaneamente. Os seus olhos aceitavam o desafio do tenente. Fez um sorriso triste:
– Eu também quero descobrir quem o matou. Mas, diga-me, tenente. Já estamos a falar há algum tempo. Se alguém nos vir aqui, só os dois, o que pensará? Eu espero que goste de estar comigo. Não consigo pensar em nada melhor do que isso. Mas se andarmos um pouco e formos para um local onde todos nos podem ver, não levantaremos suspeitas. E não estaremos sujeitos a mexericos, como se continuarmos aqui e alguém nos surpreender. Eu posso contar-lhe alguns segredos.

39

O tenente sabia que Sofia Palha detinha informação muito útil. Mas o seu jogo era perigoso. E Amoroso, nesse momento, não queria arriscar.
– Podemos ficar por aqui na nossa agradável conversa. Irei saber se o que me diz corresponde à verdade.
– É a verdade.
O tenente fez uma ligeira vénia e foi em direcção do local onde ainda se dançava. Foi despedir-se do Governador e da sua mulher. A noite chegava. À porta do hotel entrou num riquexó que o levou até à Rua da Felicidade.

10.

Os olhos de Ding Ling eram muito escuros. Mas, para Félix Amoroso, olhá-los era como ver o fundo do mar. Vemos tudo, sem saber nada. Tal como eles, a sua alma era insondável. Se fossem claros, de um jade muito límpido, poderiam deixar ler o que ela pensava? O tenente não tinha a certeza, mesmo naquele momento em que a sua mão estava colada em cima do seio esquerdo dela e Ding Ling parecia vulnerável como nunca. Os seus corpos estavam quentes, cobertos de transpiração e colados um ao outro. Ela soergueu-se e beijou-o na boca e no peito. Depois voltou a deitar-se, totalmente encostada a Amoroso. A sua respiração voltara a ganhar a serenidade que ele conhecia, depois de momentos de exaltação.
Quando se tinham deitado ela colocara-se em cima dele. As suas mãos seguraram-lhe o peito. Tinha soltado o cabelo e, enquanto se movia lentamente, este caíra-lhe para a face, escondendo-lhe os olhos. Amoroso tentou erguer-se para se perder nos cabelos dela, procurando os seus lábios para a beijar. Não conseguiu, porque a força de Ding Ling empurrava-o para trás. E ela, parecendo frágil, era mais forte porque também usava a força do tenente. Havia algum desespero na forma como os seus corpos chocavam. Depois deixaram-se cair, em silêncio.
Nem sempre os sentimentos podem esperar, sussurrou Ding Ling. Como se admitisse alguma culpa, coisa que nela era improvável. A sua fortaleza erguia-se sobre a intimidade e a lealdade. Era isso que, mesmo contra o vento, oferecia a Amoroso. Não era pouco. A mão dele voltou a explorar a pele dela, deslizando até ao sexo, onde ficou. Ela não se mexeu. Mas ele sentiu que o seu corpo passara a estar vigilante.

40

“Formosa como um anjo, mas com um punhal na boca”, dissera-lhe ele um dia. Era sorrira. Ding Ling nunca lhe pedira nada em troca das noitas em que o seu corpo oferecia o prazer que Amoroso ambicionava para poder repousar.
Durante quase uma hora deixaram-se estar ali, murmurando perguntas e respostas, com o coração a responder ao coração, os olhos a ler os olhos, e as mãos procurando o corpo do outro. Até que por fim Ding Ling se levantou e foi acender uma vela que deixava apenas um pequeno rasto de luz. Assim o seu corpo nu era mais misterioso e ela deixou-se ficar, por momentos, encostada a uma parede enquanto ele a contemplava.
– Gostarias que eu cantase para ti?
– Não. Isto é, gostaria, mas tu também estás cansada.
– Disparate. Dormi bastante esta manhã. Posso cantar, muito baixinho.
Assim fez. A sua voz recordou uma canção melancólica que aprendera, talvez em Xangai. Falava de amores perdidos na noite, que desapareciam como fantasmas e depois regressavam através de outros corpos. Mas o amor era o mesmo. Depois sentou-se numa cadeira de bambu e deixou ficar-se ali, sem se vestir.
– Está escuro. Queres mais luz?
– Gosto de te ver assim. Impossível de decifrar totalmente.
Ele levantou-se e aproximou-se dela. Afagou-lhe a face e o pescoço e ela encostou a cabeça ao corpo dele. Ele contou-lhe a conversa que tivera nesse final de tarde com Sofia Palha. Ding Ling levantou-se para o fitar nos olhos.
– É difícil que confies neles. Nela ou no marido. Cada um faz o seu jogo. Talvez o mesmo jogo, com cartas diferentes. Eles são mestres do subterfúgio, idolatram a intriga, a sedição. E a sedução. Trairão qualquer pessoa para conseguirem o que querem. Amanhã serás tu. No dia a seguir o senhor Wolf. Ela poderia ter interesse no corpo do senhor Silva. Mas a carne é, muitas vezes, a porta de entrada para a alma. E o senhor Silva era muito frágil. Li Bei sabia isso.
– Achas que algum está ligado ao alemão?
– Não duvido. Se chegasses a Macau com uma ideia de negócio como o senhor Wolf, quem procurarias conhecer? Palha é um homem com muitas conexões. E a mulher não olha a meios para conseguir atingir os seus fins. Um deles, senão os dois, estão ligados a ele. E talvez o senhor Silva estivesse também, por via disso.

(continua)

6 Jul 2021

As Viagens de Gulliver – Primeira Parte

Jonathan Swift começa a publicar no início do século XVIII e cedo começa a ser lido como um escritor político, como alguém que antes de mais e acima de tudo está interessado em desmascarar a sociedade em que vivemos e a política que a sustenta. Desde os seus primeiros livros, publicados no ano de 1704, A Fábula de um Barril e A Batalha dos Livros, que a sua escrita mostrava uma sátira contundente a tudo o que lhe parecia ridículo, perverso e tirânico, embora a sua escrita não fosse apenas política, aquilo que ressaltava aos olhos dos leitores do seu tempo era a faceta política e cáustica dos textos. Swift criticava a corrupção dos homens de estado, criticava os juízes e os advogados, criticava o pseudo-conhecimento, como no caso da acérrima contenda com o astrólogo Patridge ou dos romances de viagem que estavam na moda na época. Mas esta leitura ao tempo em que viveu foi-se alastrando no tempo.

Também George Orwel, que considera As Viagens de Gulliver um dos melhores livros da história da humanidade e o seu escritor o melhor prosador de língua inglesa, fez acima de tudo uma leitura política deste livro, não deixando de sublinhar a sua excelsa ironia.

Que Swift estava em guerra contra o seu próprio tempo, isto é, contra a organização da sociedade e da política, ao mesmo tempo que nutria um enorme desagrado pelos livros de viagens, pois sabia que eles eram um poderoso veículo de ignorância, são factos inolvidáveis. A organização da sociedade, antes como agora, é corrupta, irracional, e estimula a desenvolvermos o pior de nós, ao invés de procurarmos sermos melhores do que somos, de um ponto de vista ético e científico. E Swift mostrou-nos isso como ninguém, pelo menos até Orwel. Também é verdade que os livros que Swift criticava, tanto ontem como hoje, reproduzem aquilo que as pessoas incultas querem ouvir, isto é, aquelas que não se preocupam em investigar mais acerca daquilo que se pronunciam ou acerca daquilo que lêem. Ao tempo do escritor irlandês, esses livros especulavam acerca de seres e terras estranhas sem qualquer relação com a plausibilidade; ao nosso tempo, especulam formas de auto-conhecimento sem aprofundamento da palavra ou do número, sem um aprofundamento daquilo que somos, como se pudéssemos chegar a nós por determinados gestos ou rituais. Ou os novos livros de viagem, que são as teorias da conspiração. Estes livros não só mantêm as pessoas entretidas com fantasias absurdas como as afastam do conhecimento. Tanto ao tempo de Swift quanto ao nosso. No fundo, aquilo que podemos ver nas montras das grandes livrarias. Jonathan Swift atacou tudo isto de modo implacável. Tudo isto são factos e podemos sem sombra de dúvidas encontrar nos livros de Swift em geral e neste em particular.

Mas aquilo que me parece mais importante neste livro de Swift é do foro ontológico e não político ou social. Talvez mais do que em qualquer outro livro de literatura se possa aplicar literalmente estes versos de Álvaro de Campos:

«O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. / O que há é pouca gente para dar por isso.» No final do livro, no último capítulo da quarta parte, o narrador, Gulliver, escreve: «Assim, caro leitor, te ofereci a narração fiel da história das minhas viagens durante dezasseis anos e mais de sete meses, relato em que me preocupei mais com a verdade do que com o estilo. Eu poderia, como outros, ter-te causado espanto com histórias estranhas e improváveis, mas preferi relatar fielmente os factos, na maneira e estilo mais simples, porque o meu principal propósito era informar-te, e não divertir-te.» (A edição utilizada em todas as citações é a da Relógio D’Água, na tradução de Luzia Maria Martins, p. 275). Reparem na tripla ironia da passagem: poderia contar histórias improváveis, mas preferiu não o fazer, mas antes contar apenas a verdade. Uma dupla ironia surge porque na verdade as histórias são completamente improváveis, ao mesmo tempo que mostram a verdade; por fim, a terceira parte da ironia aparece quando pede desculpa de não cuidar do estilo, quando a sua prosa é sublime. No fundo, o que Swift nos está a dizer, que faz ao longo de todo o livro, é que o problema dele não é a imaginação, mas a falta de verdade. Imaginação não é contrário a verdade. Ver-se-á adiante aonde isto nos vai levar. Assim, Swift vai traçar em

As Viagens de Gulliver uma poderosa ironia acerca dos romances de viagem, à semelhança do que um século antes Cervantes havia feito com Dom Quixote de La Mancha acerca dos romances de cavalaria. É bom recordar aqui que, a meio do tempo em que escrevia As Viagens de Gulliver, é publicado Robison Crusoé, de Daniel Defoe, que rapidamente se torna um sucesso de vendas, como que a dar ainda mais razão ao genial Swift.

Mas antes da passagem do último capítulo da quarta parte, que vos li anteriormente, Swift vai à página 89, no final do primeiro capítulo da segunda parte, já em Brobdingnag, nos colocar no sentido mais radical deste livro. Veja-se onde podemos ler as palavras do narrador em que explica a razão de ter escrito o livro que escreveu, sendo ele adverso aos livros de viagens: «Espero que o amável leitor me desculpe o facto de mencionar estes incidentes e outros semelhantes, os quais, parecendo insignificantes aos espíritos baixos e às mentalidades ordinárias, ajudarão, contudo, um filósofo a aumentar o âmbito dos seus pensamentos e da sua imaginação, podendo aplicá-los em benefício público ou particular. Aliás, foi este o meu único objectivo ao apresentar ao mundo este e outros relatos das minhas viagens, nos quais tentei exclusivamente servir a verdade, sem afectar quaisquer ornatos de erudição ou estilo.» O narrador tem a noção clara de que o seu relato, num espírito atento, servirá para alargar-se a si mesmo.

No fundo, o que Gulliver / Swift nos está a dizer é que este livro serve para nos vermos a nós mesmos. É uma viagem ao nosso interior, isto é, ao modo como nos vemos a nos mesmos. O que está em causa, mais do que uma visão política do seu tempo, que também há, ou uma visão de crítica literária, que também há, é uma visão filosófica do humano, isto é, um olhar radical acerca do ser humano. A viagem de Gulliver é uma viagem ao ser humano. Os países distantes e estranhos somos nós mesmos, os humanos, não apenas uns para os outros, como no caso dos diferentes povos ou diferentes estratos sociais ou ainda diferentes interesses culturais, mas nós para nós mesmos.

Nós não fazemos ideia de como nos vemos a nós mesmos, nem de como o nosso olhar sobre nós é configurado pelo que vemos nos outros. A artista plástica e poeta Leonor Hipólito escreve estes versos no início do poema 46 do livro A Natureza Que Esquecemos: «Tanto já se escreveu na primeira pessoa do singular / sabendo tão pouco sobre a nossa pessoa […]».

Não deixa de ser curioso que, para nos mostrar a nós mesmos, Gulliver tenha feito viagens a países inimagináveis.
(Continua na próxima semana)

6 Jul 2021

Frutos do bosque

Ou do pinhal. Cidade. Caminho de pessoas que encerram pequenos frutos secretos no cimo da sua verticalidade funcional. Os delicados elementos doces, protegidos em capa duríssima e mascarrada que suja os dedos e que se desprendem das pinhas caídas elas também, tendo como destino terra. Por entre agulhas. Às vezes vejo estes conjuntos aleatórios de pessoas como se transportassem a caixa do gato de Schrödinger, equilibrada sobre os ombros. Talvez por isso tanta intuição de peso sobre estes, na atitude corporal.

Pinhal de paradoxos. É onde crescemos e vivemos. Esse lugar que somente um dia mais tarde, mais tarde do que os primeiros efeitos que se confundem com indecisões, reconhecemos. Como uma coisa a estimar e preservar porque nos prende nos afectos e na razão. Ou então porque é a coisa que nos liberta. Desse preconceito de se ser eternamente conciso e consistente a cortar a direito na vida, sobre tudo e contra todos. Há que estimar os paradoxos que nos definem e identificam aquele pedaço em nós que sim mas também. Ou que não mas mesmo assim. Há que respeitar as luzes e sombras como as contradições que se aquecem no conforto mútuo de pele contra pele. Delas sobra, bem vistas as coisas, o essencial. E do essencial que tarde ou cedo emerge, é afinal a vida, naquilo que não controlamos, que tem um daqueles pequenos poderes que sempre decidem por nós. Às vezes contra nós. Um paradoxo é o conforto de ter duas certezas opostas e contraditórias a cantar em uníssono. O melhor de dois mundos conceptuais ou afectivos. O predomínio crítico da palavra “mas” e o império do “no entanto” e do “apesar de tudo”. A abrangência do “também” e do “que se dane”. O efeito de sobreposição que não exige escolha.

Gostava de saber como se traduz em fórmula química ou por um nome que se possa soletrar, este conforto com o qual não se pode viver senão juntando-nos a ele. Não será, talvez, felicidade. “Uma inundação de ocitocina”, como a designa Coimbra de Matos. Destilada no cérebro por existência de uma presença de amor dentro dessa caixa. Ou: “A constância do sujeito no interior do seu objecto”. Mas é o equilíbrio possível, numa balança que se assume não pender para um dos lados, por mais que recheada de opostos em densidade, peso e medida. Ou na aparência.

Caminhamos pelos caminhos não delineados no bosque denso, avançando pelo sinuoso possível que se nos depara ao contornar cada tronco. Delimitado e redondo como cada ser. E nos intervalos de vazio avançamos. Mas olhando para cima, o tronco de cada individualizada árvore que ao nível do solo se mantém una, divide-se e multiplica exponencialmente por finos ramos. E estes entrelaçam-se e confundem-se ao olhar. Numa amálgama de espécies até. Mas não nas funções que as alimentam. A seiva de uma, somente amarinha pelos caminhos de uma e não de outra. A confusão é apenas aparente, visual. É a visão de fora. E é nesse emaranhado em convivência serena que repousa o sentido de bem-estar, já que nada nos obriga a discernir qual dos pequenos ramos pertence a um troco de sentido e qual ao outro.

Olho para cima e de acordo com as particularidades da hora pode refulgir ou não em estrela uma divergência crua e cortante de raios visíveis que nunca o são, senão assim, filtrados. Obrigados a um grito sonoro de luz. Uma refulgência como se por aproximação pontual de um sol de outro modo ausente na sua distância.

Já de saída do Jardim botânico, lembro-me, deparo com aqueles corpos abatidos mas que conservavam a tepidez visual das formas orgânicas e antropomórficas, sem mácula. Musculatura e meneios de referência ao sentido da linguagem de corpo humano. Quando se exprime. Em dramático desalento ou espera ou desistência. Uma certa sensualidade na languidez das fibras. Um mamilo subtil ou uma axila descontraída, vegetal, um braço a quebrar um olhar não existente. Árvores tombadas pela força de vontade alheia. Corpos acumulados como em vala comum. Metáforas de corpos e silêncio. A morte do conforto dos paradoxos é o abate. Porque as árvores nem sempre morrem de pé. E os cavalos, também se abatem.

Tanta caminhada, hoje. Os pés um pouco doridos a clamar por um banco. Os sapatos que os protegem são os mesmos que começam a causar dor. O paradoxo de sentir e das vontades sobrepostas é o que nos faz descalçar os sapatos mentais de salto alto, suspirar de alívio ou não e dar um laço nas sapatilhas. Mas ambos provocam dor quando se dança a sério. Juntos na escuridão do roupeiro negro de prateleira ampla. A cada um reservado o seu suspiro, a sua carícia. Alternadamente, mas sobrepostos no desejo. E as caixas em que desconhecidos repousam, como a outra caixa que transportamos sobre os ombros e que define os sapatos que levamos calçados. Talvez uns e os outros. Enquanto a caixa permanece fechada.

6 Jul 2021

O sino como sinal de aviso

O Governador Izidoro Francisco Guimarães (1851-1863), que em três anos reverteu o enorme défice das finanças de Macau sem impor nenhum tributo, apenas fiscalizando com rigor os existentes e em severa economia conseguiu depois aumentar as despesas anuais com as obras públicas. Efectuou ainda durante a sua governação a reconstrução do Bazar, destruído por os incêndios de 1856 e de Dezembro de 1862, aproveitando com aterros sobre o rio torná-lo maior e melhor arranjado. Mas já no ano seguinte Marques Pereira referia, “No Bazar, há uma acumulação de casas e habitantes, muito e muito além do que o local permite.”

Era então Inspector dos Incêndios o macaense Bernardino de Senna Fernandes (1815-1893), organizador da Polícia e promovido a Major Comandante do Corpo de Polícia de Macao, quando este foi criado por Portaria de 11 de Outubro de 1861 pelo Governador Guimarães, que determinou a formação dessa Força da Polícia, proveniente do Corpo de Polícia do Bazar e inicialmente formado em 1857 com 50 portugueses por o chinês Aiong-Pong. Sobre o assunto, o padre Manuel Teixeira prova com um documento de 25 de Agosto de 1862: . A 30 de Agosto, o Conselho do Governo declarou ser isso verdade. Daqui se vê que, já antes de 1862, Senna Fernandes era Inspector de Incêndios, tendo reorganizado esse serviço, exercendo o cargo gratuitamente. Num dos seus relatórios dizia: . Aqui temos um corpo de bombeiros já organizado.

Sino em vez de canhão

O coronel de Engenharia José Rodrigues Coelho do Amaral (1808-1873), como Governador tomou posse a 22/6/1863, quando Macau, após 19 anos fora do domínio do Estado da Índia, voltou a ficar a ele subordinada. Iniciava-se a modernização com a iluminação da cidade, dando nome às ruas e números às casas, havendo em 1864 uma regulamentação urbanística com o cadastro de todas as ruas divididas pelas zonas da cidade, freguesias da Sé, S. Lourenço e Sto. António e o Bazar, assim como das povoações da península, mas fora da muralha da cidade. Na altura, as muralhas começaram a ser desmanteladas para permitir rasgar novas ruas e colocar canos de esgoto.

O Governador Coelho do Amaral convenceu-se ser o sinal de incêndio por meio de tiros na Fortaleza do Monte inconveniente e alarmante e fez adaptar o sistema usado em Portugal, com o sinal por meio de badaladas nos sinos das freguesias; porém, não deu bom resultado, pois os chineses revoltados por não ter a cidade aviso e não se prestar grande atenção ao referido sinal, cortavam as cordas que prendiam os badalos dos sinos, a manifestar o seu desagrado. Os pedidos dos chineses eram constantes para se restabelecer o antigo sinal de incêndio por meio de tiros no Monte. No Boletim Oficial de 23 de Maio de 1870 apresentava-se a solução encontrada para proteger as cordas dos sinos, que passaram a estar fechadas por uma caixa, sendo a chave guardada na Estação de Polícia de cada zona e estipulado o número de badaladas correspondentes a cada uma onde ocorria o incêndio. Assim, se o incêndio fosse na freguesia da Sé, a chave encontrava-se no Quartel de S. Domingos e davam-se 12 toques no sino.

Na zona de S. Lázaro badalava-se por 13 vezes, estando a chave na Estação de S. Lázaro. Para as freguesias de Santo António, tocava-se 14 vezes e 15 na de S. Lourenço, estando a chave na Guarda do Hospital. Já o Bazar, dividido para Norte, entre rua dos Coulaus e Patane, era preciso ir à Estação de Santo António ou à de S. Lázaro para ter a chave e badalava-se 16 vezes, enquanto no Bazar Sul, entre a Rua dos Coulaus e a Ponte da Rede (Estrada Marginal), ia-se à estação mais próxima das acima indicadas e tocava-se por 17 vezes.

O Capitão comandante F. J. de Souza Alvim do Quartel da Polícia de Macau no Bazar, no Boletim do Governo de Macau de 24 de Dezembro de 1866 fez saber pela Repartição dos Incêndios, .

Serviço de incêndios oficializado

O Governador José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) tomou posse a 26 de Outubro de 1866 e três meses depois tornava oficial o serviço de Inspector de Incêndios. Era este já antes de 1862 realizado de forma particular por Bernardino de Senna Fernandes e o Governador por Portaria n.º 45, de 27 de Dezembro de 1866 nomeou-o para o lugar de inspector dos incêndios como Major Honorário com a gratificação de 30 mil réis. Aceitou o cargo, mas não a gratificação, segundo o padre Manuel Teixeira, que refere, entre os seus colaboradores, cita [num relatório de 19/2/1868] Fermino Machado, e o tenente Frederico G. Freire Corte Real, ajudante do Corpo da Polícia, têm acudido a todos os incêndios e além deles, os voluntários António Romero e Manuel Martins do Rego, tendo este último corrido grave risco de vida pelo abatimento dum muro que teve lugar durante o sinistro.

Ainda no Boletim do Governo de 31 de Dezembro de 1866, por Portaria N.º 46 o Governador determina, que o mesmo Sr. inspector dos fogos compenetrando-se bem da valiosa significação e séria importância do seu lugar, haja de me propor todas quantas medidas julgar necessárias e oportunas, assim como o for entendendo e experimentando no desempenho sucessivo da sua importante comissão.

O Major Honorário Bernardino de Senna Fernandes, por motivos de saúde pediu a sua exoneração de inspector dos fogos a 11 de Março de 1872, aceite no dia seguinte pelo Governador António Sérgio de Sousa (1868-1872), que exarou a Portaria n.º 11, onde refere ter ficado muito satisfeito pelo modo desinteressado como exerceu semelhante lugar por espaço de cinco anos. Na mesma data, o Governador nomeou interinamente inspector dos fogos o capitão Frederico Guilherme Freire Corte Real, sem vencimento enquanto exercer as funções de capitão fiscal do Corpo de Polícia.

Assim, a fundação oficial da Repartição do serviço de incêndios e a nomeação oficial do seu primeiro inspector data de 27 de Dezembro de 1866.

5 Jul 2021

Jacaré e bomba

Os haikus modernos vigiam a guerra como um avião moderno, quase silencioso, que só leva olhos e atenção; nenhum explosivo.

1.
ansioso
o jacaré
(permanece) imóvel

2.
delirante
o balão
não volta

3.
um bisonte parado
vê passar a bicicleta
– não entende a roda

4.
os sinos não distinguem
um morto de outro
– as famílias sim

5.
cautela, não te aproximes
um homem está infectado
e é teu amigo

6.
galo despedido
os meninos acordam sem ele
– música electrónica

7.
dinamite ocupa o ar da sala
– o perfume desapareceu
do vestido enamorado

8.
a primeira investida da viúva
é contra o sol
– morte num dia lindo

9.
escreveu poesia
– agora é responsável
por uma explosão

10.
engenheiro assina o papel
mas o vento leva
documento e lixo

11.
as cadeiras parecem vazias
e cheias
– cinema bombardeado

12.
bombardeiro parado
no porta-aviões
– uma cana de pesca

2 Jul 2021

Literatura de Outro Planeta – Sayaka Murata

O objetivo da organização social é a manutenção da paz. A manutenção da paz garante a sobrevivência da espécie humana. Qual a melhor forma de organização social? Sayaka Murata é uma autora claramente fascinada por perguntas desta natureza. A sua reflexão é contemporânea e o seu ponto de vista geográfico é o Japão. Japão, esse país com uma vasta tradição de pérolas de ficção científica sobre o conflito espiritual entre a máquina e o humano. Tópico que não se esgota na época da recuperação económica dos anos 80. Não se esgota no manga e no anime que nos rechearam a infância com visões filosoficamente proféticas de distopias tecnológicas. Na realidade, talvez ainda estejamos só a começar a explorá-lo. A autora de “Loja de conveniência” tem um posicionamento muito específico na abordagem à realidade robótica. Não a considera propriamente distópica porque não a considera irreal e, precisamente por isso, também não a considera futuro. Em “Uma Questão de Conveniência” o leitor é convidado a entrar na vida de Keiko que, aos 36 anos, não tem outro objetivo na vida que não, simplesmente, sobreviver. O seu trabalho na loja de convivência é rigorosamente sistematizado. É um procedimento colocado em prática que lhe permite executar determinadas funções durante um determinado período de tempo – que lhe permite determinado salário que é o suficiente para um apartamento minúsculo e para comer. Como uma máquina, Keiko é uma extensão do lugar onde trabalha. Amar ou procriar nada lhe dizem e, no entanto, não consegue encontrar forma de a deixarem em paz. Familiares, colegas, amigos, ninguém compreende a falta de “sentimentos humanos” de Keiko.

Esta capacidade em transmitir uma simplicidade profundamente perturbadora encantou milhares de leitores e garantiu à autora um dos mais apetecíveis prémios literários do país, o Akutagawa.

Em “Terráqueos”, temos uma repetição da grelha de leitura filosófica sobre a ideologia vigente do sistema de organização social. A palavra “sobreviver” é a mais repetida em todo o livro. A autora afirma a sua vontade em ser diferente num mundo de normalidades (e consequente normalização). Desta vez, vai mais longe. Desafia limites que pouca ficção desafiou. Num cenário de um Miyazaki tétrico, a personagem e a sua inocência de pensamento contam-nos uma história de abuso parental, abuso sexual, incesto juvenil e doença mental. Tudo incorporado na existência psicótica do planeta Popinpobopia. O planeta de onde é proveniente um pequeno alienígena que parece um rato fofo que vai dando instruções à pequena Natsuki. Até que essas instruções se traduzem em homicídio, isolamento social e, como cereja no topo do bolo, canibalismo. Este resumo é simultaneamente sinistro e absurdo. Observemos a capa do livro na sua versão inglesa. O tal rato alien, uma fonte quase infantil das letras e umas estrelas. A autora gere assim a fronteira entre a verosimilhança e a metáfora, o literal e a caricatural – e eu diria que aqui está um dos principais problemas que muitos leitores encontram neste livro. É uma abordagem que cairia no chavão do experimentalismo porque não se pode dizer, de forma definitiva, qual é o lugar da autora quando nos compõe a puerilidade macabra destas páginas mas estou convencida que não lhe falta um grande sentido de humor (negro, claro está). Na segunda parte do livro, quando a pequena Natsuki é agora uma mulher na casa dos trinta, vamos encontrar as mesmas problemáticas que vimos já com Keiko – torna-se esclarecedor que a autora pretende debruçar-se com maior profundidade sobre um tema e esse tema é o da procriação. Não diria que o teor da exploração da questão da procriação detivesse em si uma visão intrinsecamente feminista. Em ambos os livros, a construção de um falso casal surge como símbolo externo de normalidade e conformismo perante a vigilância apertada dos outros.

Também neste livro é levantada a hipótese: e se a nossa organização em núcleos familiares for só uma construção social? E ainda que fosse mais simples resumir o livro a esta questão, a verdadeira questão parece-me outra. Para além da crítica ao capitalismo e ao conservadorismo, o livro parece sugerir que o ser humano é movido por um impulso de preservação da espécie que é inane, absurdo. Nesta etapa, o campeonato não é pensar modelos de organização social ou ideologia política, é simplesmente reconhecer que filosoficamente o ser humano é feito por “componentes” de uma “fábrica” da qual nunca será gerente. Sem forma de conhecer o seu verdadeiro propósito, continua a existir porque é tudo o que sabe e, pelos vistos, melhor seria se soubesse antes morrer. Perguntas pesadas entre uma experiência estética e sensorial que estão a chamar tanto a atenção do mundo literário. “Terráqueos” de Sayaka Murata parece um livro de outro planeta e quem não gostaria, eventualmente, de conhecer o espaço?

2 Jul 2021

Crónica duma sobrevivência

Primeiro o lugar-comum: ficas isolado numa atmosfera rarificada para além das agulhas do cateter, do tétrico incómodo da máscara de oxigénio, duma áspera sensação de aquário que devagar mas inexoravelmente te desloca para a periferia da vida – vais sobrando.

E bate-te funda a perplexidade de que em 24 horas te foram roídos sessenta por cento dos pulmões – infectados.
Chegou de onde o ataque, se estavas medicado? Na primeira percepção de que algo te colocou em jogo eis-te em desvantagem, antes de tomares posição na trincheira. Uma metáfora da ligeireza com que te entregaste à vida? Metáforas de areia, reduzidas a um nó de carne patética, manejada por um reles vírus que numa ceifa rápida te fez roçar a face na lâmina da indeterminação e de quem ouves a gargalhada. Tens quarenta por cento de hipóteses, num território em que o inimigo domina.

A máscara de oxigénio incomoda-te, dias a aceitares que é tua aliada. Uma aliada que pouco te confirma. Precisarás de algo que te afaste dos números da máquina que três vezes ao dia vai à tua cabeceira ler a tua produção de oxigénio e que te desengana; aquém da resposta devida. Só aqueles malditos números importam, só eles te permitirão levantares-te, antes que paultatinamente o teu sistema biológico entre em derrocada. Tudo depende dos pulmões; tens mais de sessenta e estás na Volta a França em bicicleta. Aguentas-te? O teu diálogo passa a ser com aqueles números digitais e os seus apitos, as ondas da tensão e os valores dos diabetes, e as injecções anti-coagulantes e, com o zinco, o zinco teu amigo, mas sobretudo, com a percussão do sonar martelado por aqueles números, estamos nos Pirinéus, merda de subidas, os teus números têm de subir aos noventa.

Como evitar que ao fim de quatro, cinco, seis dias de impasse, o medo aflore? Que te sintas no intérmito, insituado em pleno deserto, sem nada para trás que te salve, inúteis os milhares de livros na estante, os versos escritos, a vaidade dos inéditos, ah, a “inteligência”, em que vácua galhofa patinam agora os milhares de artigos? Em que insuficiência te tornaste tu? Afinal o que resiste para além da borbulhagem, do imago, da caca que todos os dias produzes? Estás só, enterrado num saco de pele, recoberto por brisas e alguns escombros de palavras, enfeixado por fim num espesso saco de plástico, que te cobre inteiro com uma máscara de matéria insólita que vai engrossando com, parece-te, intenções ambíguas, suspeitas.

Não fazes balanços de vida, aí saberias que cederias à morte – a soma dos erros não te deixaria em paz.
Quando te atreves a tirar a máscara de oxigénio sabes que tens um minuto para levantares-te e ires à tomada carregar o telemóvel e o kindle. Um minuto antes de começarem as tonturas, e dessa oportunidade depende tanto. Pior, o carregador que sempre serviu para ambos dá sinais de fadiga, são horas para carregar 20 % do telemóvel, e o kindle decidiu passar para o lado das trevas. As tuas defesas baixam.

Na clínica, há resistências para receberes mais artefactos electrónicos e livros. Vais ter de te amanhar com o caderno cartonado, preto, de quadrículas, onde te apanhas a repetir variações em torno de três quatro palavras: ar, oxigénio, grainhas… Ah, de repente és um poeta concretista e só te apetece chorar!

Tens de encontrar poros no sarcófago, uma narrativa que te devolva a uma certa unidade humana, a uma presença de que te sintas parte.

Decides que a morte fica fora do tempo e que só te importa o que lateja no seu interior, no frágil tecido temporal. Só aí há algo intocável, que não pode ser invadido: o Amor. Não cederás à puta um milímetro.

Dedicas a energia a fazer no WhatsAap (nunca mexeste nessas coisas) um grupo familiar, com a tua mulher e as cinco filhas, quatro em Portugal, e netos. O que é vital é saberem que os amas e lutas por elas, e procuras todos os dias trocar mensagens animosas, contra o teu estado de espírito, fotografias com mínimas travessuras, ditos de humor, mensagens benignas – porra, amas a tua mulher e filhas, aconteça o que acontecer, o importante é elas sentirem que as amas, o resto é secundário. Depois, fechas os olhos e com a pouca carga que o carregador te permite ouves música: Debussy, Poulenc, Messiaen, tudo o que lhe sejam pássaros, a Hélène Grimaud, a tocar, Bach – Chaconne from Partita No. 2 in D minor, BWV 100, a Quarta Sinfonia do Philip Glass, o Calculus 2020, do John Zorn…( falhas tragicamente as sinfonias do Lutoslawski – adoras as sinfonias três e quatro mas era a net que ia ao ar, ou a bateria que faltava…).

Ouves a música que te expande as células e te faz abraçar o pouco grão de ar que te sustém, e é a música que, naquele momento, desesperadamente, gostarias de transmitir aos que amas, para que fossem tocados por uma parte do Belo de que fazemos parte e nos justifica a vida e sempre tão inabilmente comunicaste.

Agora o teu corpo é como uma tábua de engomar, precisa de reabrir poro a poro e de reaquirir o seu ritmo respiratório – os pulmões estão frágeis. Vais reler poetas a que deste menos atenção, poetas do ar: Guillen, Jaccottet.

Mas já estás na varanda, a apanhar sol e a ler Milosz, outro dos teus alimentos:
« O PRÉMIO / Que dia feliz./ A névoa dissipou-se cedo. Pus-me a trabalhar no jardim./ Colibris estacaram sobre a madressilva./ Nada sobre a terra que quisesse possuir,/ Ninguém sobre a terra que eu pudesse invejar./ Todo o tanto que sofri, esquecido,/ Não tinha já vergonha do homem que fui./ Não me doía o corpo./ Ao endireitar-me, vi o mar azul e as velas».

Parece que a Teresa fez uns pastéis de bacalhau; retiras-te, que te desculpem a pieguice.

1 Jul 2021

A noiva

O outono veio corromper o sufoco. A terra estava cansada e o dia caiu dentro da noite, tal como um rosto se pode converter numa árvore em estado de iniciação. O problema é saber encontrá-la, perceber que é essa a nossa própria árvore e não outra. Foi esse o início da caminhada do arqueólogo que quase mastigava a terra como forma de a saber sagrada. 
 
Havia também um louco nas redondezas, um desses loucos que vagueiam em todas as cidades. Este tinha a particularidade de vestir sempre uma gabardina que não possuía botões. Escapava-se às muralhas da cidade que a isolavam do universo e atrevia-se também à floresta cerrada, embora fosse de serrania baixa, mas sempre pejada de altos sobreiros, oliveiras, azinheiras e um interminável novelo de silvas e de décimas ocultas por pronunciar. 
 
O louco espiava o arqueólogo e ambos colocavam as mãos nas rochas graníticas, nos trilhos criados por ribanceiras ancestrais e nos alinhamentos suspeitos de ter ali existido vida noutros tempos. Um e outro falavam com os mortos e os mortos acenavam como só eles conseguem fazer: esboçando no céu os atalhos que se secundam no chão do mundo.
 
O fotógrafo chegou ao local vindo de muito longe. Apaixonou-se logo por uma actriz que, tal como ele dizia, circulava sempre no limite da sombra. Tinha o carisma de saber sorrir em contraluz. Eram agora quatro a indagar os segredos da grande mata. Cada um desejava encontrar a sua árvore, mas mal se conheciam, razão por que percorriam veredas diferentes, vielas de mato quase sem saída, caminhos deligados e obscuros. 
 
Quem os juntou foi uma poeta revoltada que tinha morrido há algumas décadas. Ao fim da tarde, escrevia no céu os traçados certos, ainda que fosse preciso compreender os sinais, domesticá-los, persegui-los tal como se assedia um javali ferido e foragido. E os quatro, o arqueólogo, a actriz, o louco e o fotógrafo, repetiam-lhe efusivamente os versos e passaram a sentar-se à mesma mesa e a beber dos mesmos jarros, logo que reentravam na cidade.
 
A amizade é uma superfície que se ergue debaixo do solo, embora cresça com relativa lentidão, movendo as pás e as mós invisíveis do seu próprio moinho, mas quando o pão se reparte, eis que cada um dos novos amigos pareceria ter encontrado a árvore que lhe estava destinada. Agora perambulavam juntos pela cidade, embora o louco, a quem nunca ninguém perguntara o nome, caminhasse sempre uns cinco metros atrás. O fotógrafo marcava o território com a leica ao passo que o arqueólogo sondava o purgatório, ou seja, a montanha invertida que replicaria em profundidade a elevação onde a urbe se tinha soerguido ao longo dos séculos. Os dois acreditavam que os sortilégios se agarram com a mão, enquanto a actriz decorava palavras de Strindberg e estava plenamente convencida de que a única coisa tangível que existia no cosmos era o seu corpo.
 
Muito cedo, raiava ainda a madrugada, houve um dia em que uma nuvem de pássaros se imobilizou por cima da catedral. E o louco – que viu o acontecido – disse que dentro daquela nuvem de penas estava o pensamento da poeta. O mais perfeito dos casulos aéreos. O arqueólogo, a actriz e o fotógrafo desestimaram a voz do homem, para quem as casas dos botões da sua gabardina eram versos por escrever. No entanto, todos desconheciam que a cidade tinha um segredo: adoraria viver a sós, sem qualquer habitante a habitá-la, a vivê-la, a desflorá-la. Terá sido sempre esse o seu desígnio e apenas o fotógrafo o intuiu, pois, nas fotografias que tirava, raramente aparecia o que antes havia focado. Registavam-se sempre grandes surpresas. As pessoas desapareciam. Talvez a cidade acolhesse agora melhor o pensamento da poeta – ainda que sob a estranha forma de uma nuvem – do que antes tolerara a sua presença física. 
 
Nessa mesma tarde regressaram à floresta e perderam-se uns dos outros. Cada um procurou a sua árvore ao longo de horas e horas. Horas que se fizeram dias e dias que se fizeram meses. O trabalho do fotógrafo foi de longe o mais lento. É sempre difícil encontrar as imagens certas. Bem mais do que determinar a posição exacta no palco, bem mais do que as sondagens que definem o ponto preciso de uma escavação e bem mais do que elevar o zénite da loucura. Mas depois de ter fotografado a maioria das árvores, em quatro delas a revelação deu a ver, não os troncos, as folhagens e a geometria das copas, mas os rostos dos quatro exploradores desta terra a que os antepassados chamavam sempre noiva.
 
Por terem descoberto as suas próprias árvores, os quatro regressaram à cidade para festejar. Passaram pelas gárgulas e pelas muralhas e não desvendaram vivalma. A cidade encontrava-se desabitada, vazia, sem um único ser vivo a calcorrear pelos passeios ou a povoar as casas. Um tempo sem começo é um tempo que sempre existiu: sem origens, sem contagens estéreis, sem história pensada ou mesmo cumprida. Deveria ser esse o caso, acenou o louco. O arqueólogo não o acompanhou na subida ao terraço da catedral. Preferiu escavar um túnel com o objectivo de encontrar o outro lado da cidade, agora adormecida. O fotógrafo e a actriz continuaram abraçados na grande praça como se a sua calçada fosse uma cama sempre por fazer. E ali ficaram até hoje deliciadamente a foder.

1 Jul 2021

O factor lupicínio

Um dia glorioso de sol e azul numa das mais bonitas cidades que conheço, a minha. Há cheiro a Verão, vestidos leves e disposição soalheira. As máscaras não conseguem esconder o sorriso que se adivinha pronto a soltar. Tudo do melhor no melhor dos mundos. Dia perfeito, portanto, para vos escrever sobre a solidão e a dor de cotovelo.

Não vou mentir: já não é a primeira vez nem será a última que me sirvo das palavras para tentar traduzir este fascínio que o falhanço e o perdedor tem sobre este que vos escreve. Muitas vezes nem precisei de pretexto, a coisa saiu naturalmente porque convive comigo desde que me conheço. Desta vez, porém, aproveitei a boleia de um pequeno-grande espectáculo feito por três amigos – os poetas Júlia Zuza e Viton Araújo e a cantoríssima-cumplicíssima Luanda Cozetti – e o qual se intitula, sem medo, “Dor de Cotovelo”.

O conteúdo vai buscar letras e poemas da música popular brasileira que tratam do destino de quem fica a chorar sozinho no fundo do balcão, feito sem preconceitos de gosto ou género musical – apenas o tema interessava e interessou para quem assistiu. Celebrar a dor com alegria enquanto se canta e bebe uma caipirinha é possível e desejável. Eu próprio, que acalento uns planos secretos para algo muito semelhante há alguns anos fiquei finalmente a perceber o caminho. E quando voltarem, quem puder não perca.

Só que no meio de tantos autores de canções há alguém que se agiganta de forma irremediável nestas funções. Aqui, como na vida, venceu o factor Lupicínio. O leitor desconhece o grande Lupicínio Rodrigues? O leitor faz mal mas estou aqui para ajudar.

Fiquem comigo, então. O falhanço amoroso pode ser uma coisa boa. Na maior parte das vezes, é. E não falo de lições de vida mas de oportunidades de auto-conhecimento. De reconhecimento, até. Como dizia Vinicius, «Ai de quem não rasga um coração/ Esse não vai ter perdão».

Nesse aspecto, urge conhecer Lupicínio Rodrigues. Ele é nosso cúmplice. Ele é nosso parceiro. Ele é nosso camarada de armas, o que se rende ao nosso lado e que depois da rendição continua a sonhar com a batalha. No amor, Lupicínio é um tirocínio.

As suas canções são hinos, gloriosos na sua ostentação da modéstia e sumptuosos na singeleza dos afectos: há raiva, há ciúme, há sacanice, há abandono. A força destes sentimentos em bruto abalam-nos porque crescemos a evitá-los.

Temos pudor do que nos é primevo. Lupicínio não tem pudor nem vergonha. Minto: na sua imortal Vingança, canção que fala disso mesmo, há estes versos desesperados do amante traído mas que nunca mais se irá libertar da sua traidora: “Me fazer passar essa vergonha com um companheiro / E a vergonha é a herança maior / Que meu pai me deixou”. É isso: Lupicínio é um Shakespeare dos pobres, que privado de metáforas e vocabulário, trata as coisas exactamente como elas são.

Lupicínio é dos que perde.

Há muito, muito tempo, passando por mais uma desilusão amorosa, foi quase sem surpresa que descobri a origem da expressão “dor de cotovelo”. Tem um sentido diferente daquele em que a usamos, que é o da inveja ou o do ciúme. «Dor de cotovelo» foi cunhado por Lupicínio para designar o excesso de tempo passado ao balcão do boteco, sozinho a pensar no que foi e no que podia ter sido. É o retrato infalível do tipo que fica até o bar fechar, a beber o desgosto e a segurar a cara e o coração.

Podemos encontrar algo semelhante em Sinatra, que de resto transformou este estado de vida numa arte maior. Mas Sinatra é especialista em passar-nos a sua vida (o que está a cantar), de tal forma que nos confundimos com ele.

Quando ouvimos Lupicínio estamos perante um tipo que sofre – exactamente naquele momento. E o que reconhecemos é o seu sofrimento.

O cancioneiro de Lupicínio Rodrigues é a wikipedia do falhanço. E é por isso que ele nos é tão urgente: para nos dar a possibilidade de falhar outra vez e nem sempre melhor. E isto é preciso e precioso, amigos. As lágrimas são um preço justo pelo tanto que nos ensina.

30 Jun 2021

“A morte de um apicultor” 4 (Última parte)

De um ponto de vista literário, aquilo que fascina no livro é como não conta nenhuma história, propriamente. Conta o modo como um homem enfrenta uma doença e os seus pensamentos, que divide em cadernos. Não há enredo. De algum modo, Gustaffson está a dizer que o enredo é a morte do romance contemporâneo. Enredar, no sentido de tecer um enredo, é tão absurdo hoje no romance, como compor música erudita cheia de compassos sustentados em arpejos ou tríades, ou fazer uma exposição de pintura com retratos ou paisagens naturalistas. Quando alguém no diz que a diferença entre um bom e um mau romance é que no primeiro estamos a ver acontecer e no segundo estão a dizer-nos o que aconteceu, está a defender o ponto de vista naturalista do romance. Também o cinema naturalista nos cria a ilusão de que aquilo a que estamos a assistir está a acontecer. E, deste ponto de vista, este romance de Lars Gustaffson é não apenas um romance contemporâneo, mas um romance contemporâneo que se levanta contra o naturalismo do romance nos nossos dias. É evidente que este romance pode ser considerado pos-modernista, mas há inúmeros romances pos-modernistas que têm enredo. Para não irmos mais longe, o excelso romance de Helder Macedo, Tão Longo Amor Tão Curta A Vida. apesar de o enredo neste romance ser auto-destrutivo e não um enredo comum ou naturalista. Mas o romance de Gustaffson despreza o enredo do mesmo modo que despreza a sociedade sueca. E, neste sentido, é também um romance em que forma e conteúdo – distinção ultrapassada, mas que fora dos circuitos literários nos dá muito jeito – se conectam na perfeição. «Até a minha forma de reagir à doença é evidentemente insocial», escreve no capítulo IV. E esta frase atinge o livro todo: o modo de escrever, à revelia do enredo, insocial; o modo como vive, afastado de todos e junto das abelhas, insocial; o modo como lida com a doença, começando por rasgar o envelope do centro de saúde, insocial; o modo como questiona o modo como vivemos, insocial.

Mas ao mesmo tempo não é um livro que tenha uma linguagem violenta ou desabrida, não tem descrições que nos possam magoar, directamente. O pior que nos faz é pôr-nos a pensar. O modo como escreve, tão claro e tão pouco agressivo, parece querer dizer-nos que aquilo que lhe importa é apenas uma coisa: pensar. Pensar é aquilo que configura, no fim, uma vida humana. É este o luxo da existência: poder pensar. Ter o poder de pensar. Ter símbolos à mão. Ter símbolos na cabeça. Ter uma linguagem que usamos constantemente e desconhecemos. Porquê?

Podíamos com toda a segurança apresentar «A Morte de um Apicultor» como um grande livro de porquês. Mesmo quando as frases nos aparecem em forma de sentenças, actuam dentro de nós como perguntas. Veja-se o caso das frases do capítulo V, que tem o título «Quando Deus acordou». A primeira diz: «Em vez dele, havia uma mãe.» (165)

Em vez dele o pai. A ideia de Deus ser uma mãe põe-nos a pensar. Não é Deus ser uma mulher, pois isso não é nada de novo, é Deus ser uma mãe ao invés de um pai. Se Deus fosse uma mãe, a humanidade estava como estava? A outra frase, e é a que fecha este mesmo capítulo V: «Se Deus existe tudo é permitido.» Frase que inverte a posição de Dostoiévski em Crime e Castigo, se bem a que ele não o diga «ipsis verbis». Mas mais interessante ainda é a frase anterior, que a língua começou a morrer. Num mundo perfeito a linguagem não faria falta. Gustaffson está claramente a dizer-nos que a linguagem é aquilo que mais nos magoa, sendo ao mesmo tempo aquilo que nos define e nos permite a criação de todos os símbolos que nos ajudam na pragmaticidade da vida. E, obviamente, num mundo onde a linguagem desaparece, a última frase teria de ser, sem margem para dúvidas: Se Deus existe tudo é permitido. Esta frase tem de ser lida à luz da esperança. Tudo pode ser, num mundo onde se possa voltar para trás.

Onde se consiga inverter o tempo. No fundo, deus é esperança. Aquilo a que chamamos deus poderíamos chamar esperança, e assim passamos a vê-lo melhor.

E é agora que podemos analisar o estribilho que percorre todo o livro: «Recomeçamos, não nos rendemos.» e ver como se liga à esperança. Recomeçar é um modo de voltar atrás, de inverter o tempo. Só se inverte o tempo com esperança. É este o sentido da não rendição do humano, que se interliga à esperança, que é um nome mais palpável e mais plausível para deus. Recomeçamos, não nos rendemos. E, sem dúvida, não podemos terminar esta leitura sem ligar também esta frase ao facto de estarmos sempre continuamente a ser outros e como isto se reflecte no nosso medo de enlouquecer, como Gustaffson escreve no capítulo VI «Memórias do paraíso»: «O medo de enlouquecer é, na verdade, o medo de nos tornarmos outra pessoa: / mas é isso que nos está constantemente a acontecer.»

(Não continua na próxima semana)

29 Jun 2021

Os serviços de incêndio

Até meados do século XIX, a cargo dos mandarins de Xiang-shan estavam as ordens e medidas para evitar incêndios, como a de 7 de Novembro de 1829 onde se ordenava, a demolição de todas as barracas de palha, as lojas serem obrigadas a ter baldes com água à porta e em vez de archotes devia-se andar de noite com lanternas. Contava-se com os habitantes da cidade, avisados por o repicar dos sinos dos templos, sobretudo os das igrejas, e mais tarde, em simultâneo com dois tiros de pólvora seca dados a partir das fortalezas, para comparecerem com baldes de água a combater os frequentes incêndios.

Após tomar posse da terra de Macau, o Governador João Ferreira do Amaral (1846-1849) afastou da península os mandarins e para resistir a qualquer ameaça, em 1847 criou o Batalhão Provisório (de segunda linha) destinado a auxiliar o Batalhão de Artilharia de Primeira Linha, como Força mista de 1ª linha.

Em 1851 os serviços de incêndio foram atribuídos às forças militares portuguesas e da Fortaleza de Nossa Senhora do Monte dava-se aviso de incêndio à cidade, disparando do canhão dois tiros seguidos de pólvora seca. Os serviços de extinção de fogo eram assegurados por um piquete do Batalhão de Artilharia com a bomba existente, aquartelado no antigo Convento de S. Francisco [demolido em 1864 para ser construído o Quartel] e também por pessoal em serviço para ir atacar os incêndios do Batalhão Provisório, instalado no extinto Convento de S. Domingos.

A 4 de Janeiro de 1856 houve um incêndio como nunca se viu em Macau, talvez o mais devastador de sempre na cidade. Refere Luís Gonzaga Gomes, “Teve princípio à 1 h 45 m, numa das boticas chinesas [no centro] do Bazar.

Ajudado pelo vento norte, o fogo espalhou-se com grande rapidez, mas às 5.00 horas, mudando para leste, fez avançar o incêndio sobre as boticas do Matapau. Às 6.30 horas, voltando, outra vez, para o norte, fez com que a terrível conflagração seguisse pela Travessa de S. Domingos, Rua do Quintal e Travessa do Tronco, escapando, por pouco, o antigo convento de S. Domingos [que esteve em risco]. O incêndio durou toda a noite, destruindo 420 boticas (lojas) e 400 residências de famílias chinesas, subindo a mais de meio milhão de patacas o valor de propriedades destruídas. Os cidadãos de Macau auxiliaram, por toda a forma possível, a combater o incêndio, tendo prestado valiosos socorros as guarnições das fragatas francesas Virginie e Constantine.” No Bazar o incêndio só não destruiu algumas lojas dos limites Norte e do Sul, tudo o resto devastou.

A companhia

Com a cidade a expandir e cheia de emigrantes chineses, estava na altura de melhorar os serviços e a 30 de Outubro de 1858 foi criada a Companhia de cules chineses para carregos [carga, encargo] para cada um dos bairros de Macau.

Em cada bairro existiam três companhias de cules, cada com um chefe, usando chapéus de bambu numerados e de cores diferentes, sendo obrigados a apresentar-se no Largo do Senado para o serviço de bombas sempre que houvesse deflagração de incêndio e os aguadeiros tinham o dever de comparecer no local para acudir, e quem não cumprisse corria o risco de pagar uma pataca de multa. Os aguadeiros passaram assim a fazer parte de um conjunto organizado – a Companhia – deixando de proceder individualmente à venda de água para passarem a distribui-la segundo normas e princípios estipulados pela Companhia. Deste modo os aguadeiros perderam o seu carácter de vendilhões para se transformarem, sobretudo, em cules distribuidores ou simples carregadores de água ao serviço da Companhia para quem trabalhavam e por quem eram pagos. Se, por um lado, este facto lhes trouxe vantagens no sentido de lhes proporcionar maior segurança, por outro, e a partir daí, passaram a conhecer um certo número de obrigações que, para garantia do seu emprego, deviam cumprir. A mais importante de todas as obrigações foi a prestação de serviço de incêndios, o que veio a constituir um grande apoio para a Administração que, frequentemente, via a cidade ser assolada por fogos e não possuía meios eficientes para os combater.

A partir de 13 de Novembro de 1858, a complementar com os dois tiros de pólvora seca de canhão disparados da Fortaleza do Monte, aí se colocava no mastro sinais, à noite por luzes e durante o dia por balões e bandeira vermelha, a dar a conhecer o local do fogo.

A cidade estava dividida em sete zonas e por sinalização indicava-se cada uma. Colocado no mastro o anúncio de incêndio, se fosse no Patane, durante o dia hasteava-se uma bola e à noite, duas luzes amarelas. Se ocorria no Bazar, durante o dia duas bolas e à noite, uma luz amarela em cima e por baixo uma vermelha. Em S. Lourenço, durante o dia, no topo uma bola e por baixo a bandeira e à noite, uma luz vermelha e por baixo uma amarela. Se fosse em Santo António, durante o dia, a bandeira e por baixo uma bola e à noite, no mastro duas luzes vermelhas. Sendo o incêndio na freguesia da Sé, durante o dia duas bolas e entre elas a bandeira e à noite duas luzes amarelas com uma vermelha entre elas. Já para Mong-Há, duas bolas e por baixo delas a bandeira e à noite, duas luzes vermelhas com uma amarela entre elas. Se o incêndio era na Barra, a bandeira encontrava-se em cima, tendo por baixo duas bolas e à noite apareciam três luzes vermelhas. Na Fortaleza do Monte, a sinalética colocada no mastro, visualizado de toda a cidade, permitia localizar o incêndio.

O vento ajudou

A 19 de Dezembro de 1862, pelas 15 horas deu-se sinal de fogo no Bazar. O incêndio manifestou-se com rapidez na Rua da Barca de Lenha, num lugar apertadíssimo, onde só existiam estâncias de lenha, carvão e madeira, e estendeu-se até Pun-Pin-Vai. Como na ocasião o vento soprava fresco de Norte, o incêndio desenvolveu-se intenso, apresentando feio aspecto, e, ameaçando consumir as casas das ruas próximas, porém a felicidade de rondar o vento para o nordeste e leste-nordeste, abonançando consideravelmente, e ser quase praia mar, o que forneceu água em abundância, e os socorros prontos que se administraram, com a boa direcção dos trabalhos, cortando-se o incêndio a ponto tal que se isolou o foco das chamas dos prédios e ruas contíguas, fez com que ele não progredisse, ficando extinto pelas 9 horas da noite. O fogo proveio d’ um descuido numa loja de colchoeiro e arderam 57 prédios, sendo destruídas quatro casas nos cortes que se fizeram, e vítimas houve apenas uma rapariga de 10 anos e uma criança recém-nascida, segundo o Boletim do Governo de 20/12/1862.

“Depois do grande incêndio do Bazar, em 1856, foi este um dos maiores que se deu na cidade”, refere Gonzaga Gomes, mas o ocorrido em 1860 na Travessa do Armazém Velho causou a morte de 30 trabalhadores chineses.

A 31 de Dezembro de 1862 foram isentos do pagamento de décimas e licenças, pelo período de um ano, os donos das propriedades do Bazar, que arderam no dia 19 de Dezembro deste ano, sendo os mesmos obrigados a começar com a reconstrução dentro de três meses.

29 Jun 2021

Torre e Caminhos

Entender um pormenor é começar a entender tudo. Mas é preciso continuar, claro.

1.
o míssil inteligente
não entende
a letra A

2.
a gargalhada impede a linguagem
– os dois amigos
estão felizes

3.
– na torre
vigia distraído
observa o insecto

4.
sistema binário
amigo ou inimigo
– humano demasiado ansioso

5.
na igreja
os meninos beliscam
o devoto distraído

6.
som distorce mensagem
– recebida com sorriso
declaração de ódio

7.
não encontra as músicas
a infância passou
– desmonta o rádio velho

8.
não havia aqui uma fogueira?
o computador
no centro da sala

9.
a aldeia da infância cresceu
– procuro mas não encontro
os meus pais vivos

10.
os maxilares ouvem-se
ensonados
– dorme mas pensa nela

11
só eles sabem o caminho
– os cegos, os loucos
os mudos

25 Jun 2021

A arte de viajar sem sair do lugar

Roda de amigos, conversa mansa e sem destino como é sempre a melhor conversa. Alguém que diz, falando dos tempos que correm: “O que sinto mais falta é de viajar”.

Curioso, pensei e disse na altura, repetindo agora para supremo benefício do leitor benévolo. A mim não me faz falta nenhuma. Na verdade, nunca fui grande adepto de viagens e mesmo que fosse atraído por algum romantismo inerente ao viajante profissional isso estaria destruído pela burocracia sanitária que nesta altura nos infligem. Pode parecer triste para alguns ou até mesmo algo cínico e limitado – e isto garanto que na altura não terei dito – mas a verdade é que a noção de descobrir povos, lugares e costumes tendo de me deslocar nunca me foi atraente.

Para minha magra defesa sempre direi que tive a sorte de viajar e conhecer algum mundo e na devida altura. Aprendi, como sempre se aprende, com a diferença ou as semelhanças inesperadas. Em alguns lugares, como a minha amada Irlanda, terei sido “feliz”, para usar uma formulação utilitária. Mas mesmo assim. Ao procurar razões para este sedentarismo convicto deparei-me sem surpresas com o passar do tempo: as coisas perdem novidade, o entusiasmo decresce, o tédio avança e o gosto pelo familiar domina naturalmente à vontade. Para o nómada voluntário e ansioso de se misturar com outras “culturas”, isto seria desastroso e compreendo. Para quem sempre esteve e está habituado a viajar sem sair do lugar é apenas um transtorno menor e quase bem-vindo.

Explico, sob o risco assumido de parecer pretensioso: gosto de viajar nos livros. Em pequeno, ao colo de Stevenson, Verne ou Salgari. Fui a todo o lado sem sair da sala – de resto como o próprio criador de Sandokan ou Corsário Negro, que sempre terá visto a Malásia ou o mar das Caraíbas sem a maçada de se ter de levantar da secretária.

Depois, mais tarde, a descoberta de um género literário pouco ou nada cultivado por estas bandas: a literatura de viagens. Como em tanta coisa, a cultura anglo-saxónica tratou de mostrar o caminho. E o caminho é este espelho, às vezes distorcido, que nos devolve o outro, a sua cumplicidade ou estranheza. Por exemplo, os relatos dos ingleses em Portugal durante os séculos XVIII e XIX sempre me fascinaram. E não falo das hipérboles sintrenses de Beckford ou Byron. No magnífico Retratos de Portugal – Sociedade e Costumes, escrito pelo capitão de infantaria escocês Arthur William Costigan entre 1778 e 1779 e que é uma recolha das cartas dirigidas ao irmão encontramos uma descrição notável e obviamente parcial do Portugal daquele tempo. Gosto muito de uma carta em particular em que o oficial se encontra em Faro na companhia de um adido militar britânico e um jovem padre português. Falam da biblioteca do Vice-Rei dos Algarves e o adido nota a escassez de livros interessantes, com a excepção de dois ou três sobre estratégia militar e uma Bíblia. Depois isto, que cito: “À palavra Bíblia, pronunciada pelo senhor Bagot, o jovem padre mostrou grande desejo de a ler, dizendo tratar-se de um livro que nunca lhe chegara às mãos”.

Portugal, país de viajantes por necessidade, engenho e terna cupidez, também tem os seus relatos. Mas o género, infelizmente, nunca se consagrou como no Reino Unido ou, de forma mais discreta mas nem por isso menos interessante, noutros países. Embarco de memória nos extraordinários livros de Peter Fleming (o irmão mais velho de Ian, o do James Bond, mas igualmente um sucesso editorial) ou abandono-me ao extraordinário On A Chinese Screen, livro de viagens de Somerset Maugham com capítulos quase impressionistas mas em que se consegue perceber a génese dos seus melhores contos. Aqui mesmo ao meu lado espera-me a primeira edição (1946) de When The Going Was Good, do meu ídolo Evelyn Waugh. Escrito entre 1929 e 1936 é uma jóia de humor, snobeira e descrição. Não resisto à citação de algumas linhas no original, escritas em Addis Abbeba na véspera da invasão de Mussolini e perfeitas na fotografia dos personagens: “ There was an American who claimed to be a French viscount and represented a league, founded in Monte Carlo, for the provision of an Ethiopian Disperata Squadron for the bombardment of Assab. There was a completely unambiguous British adventurer, who claimed to have been one of Al Capone’s bodyguard and wanted a job; and an ex-officer of the R.A.F. who started to live in some style with a pair of horses, a bull terrier and a cavalry moustache – he wanted a job too.”

Que galeria, que de matéria literária e de sonhos! Mesmo leituras de viagem que nos dão conta de sombras mais negras são necessárias: recomendo vivamente o que ando a ler de forma voraz: Travellers In The Third Reich, de Julia Boyd (2017). A autora serve-se de cartas e testemunhos de turistas, diplomatas, celebridades e anónimos locais para traçar um retrato assustador e ao mesmo tempo cândido dos anos de ascensão do nazismo – onde o visitante, no limite, apenas poderia suspeitar o que se iria passar. Por outro lado, através dos testemunhos dos alemães pós- Tratado de Versalhes compreendemos como medrou depressa e de forma horrenda o terror subsequente.

Ah, viajar, viajar. Pois sim. Destinos exóticos? Trocava-os todos por um bilhete de regresso à Irlanda ou aos Açores, o único lugar que realmente desejo conhecer. Até lá fico-me bem com estas palavras-espelhos. Que as cultivem, que não me sejam negadas, para bem da minha preguiça e necessidade de viagens inesquecíveis.

25 Jun 2021

As saudades sem mundo

O homem move o polegar e o indicador da mão direita. Fá-lo em círculos sucessivos que fazem lembrar a espuma a explodir na rebentação das ondas. Não retira os dedos do botão do rádio, atento ao ruído que se ouve entre as raras estações muito distantes que se captam. O número de decibéis varia, as interferências sucedem-se e a distorção altera a forma do sinal.

O homem sabe por experiência própria que o ruído é branco quando se torna constante em todas as frequências. Talvez a largura de banda se revele insuficiente ou tudo não passe de desvanecimento, o que acontece quando a propagação dos sinais se faz por múltiplos percursos. Estranhas amplitudes de uma noite quase sem fim. Nos dedos da mão esquerda, a cinza do cigarro morre e cai para o chão sem que o homem dê conta. A frequência perde-se outra e outra uma vez.

O Diderot avança pelo meio do oceano com a atroada das comunicações a balbuciar estes sons ora compassados, ora estridentes. Lê-los é desobedecer, perceber que funcionam como um cosmos desintegrado, entender que as quebras da emissão são o convite para conquistar uma armada distante que nunca se rende. O homem sabe disso e espelha-o com um sorriso cáustico, pois tudo ali, na exiguidade da cabine, se oculta em surdina sob o peso das vibrações convertidas numa cadeia de obscuros rugidos metálicos.

Outro cigarro se acende para que a cinza volte a morrer e o fumo penetre nas vigias circulares de onde se avista a proa a afastar-se da linha do vento. O futuro é um nó que se desata, um amanhã infiel, uma invasão que resiste a qualquer ordem. A linguagem indecifrável do rádio é uma espécie de voz do futuro e nem o próprio homem, tão batido por estes ofícios de escuta, imagina que há uma mulher no mundo que, daqui a quatro décadas, se entregará à tarefa de averiguar as origens desta viagem.

Essa mulher existe antes ainda de ter nascido, tão desejada ela é, e, nos compartimentos a estibordo, a futura mãe dilui-se no sonho de sonhar com o homem que dorme a seu lado no beliche e que a foi buscar a Vancouver. Também ele sonha e, talvez por ter incorporado há dias e dias o ruído roufenho do rádio como pano de fundo (o Diderot já desceu o Pacífico desde o Canadá, atravessou o canal do Panamá e entrou depois no Atlântico a caminho da Europa), associa o burburinho não apenas a uma metáfora do futuro, mas também do passado e visiona a filha imaginária à procura do rasto desta viagem que nunca terá existido. Refira-se, de qualquer modo, que os sonhos têm uma apetência igual a todas as grandes histórias: eclipsam-se no bulício que as perfaz e destina.

De manhã, o ar fresco invadiu o convés e o jovem casal sentou-se a observar o horizonte hoje completamente limpo de nuvens. Um e outro no ponto de abalo que é a marca de um início de vida. Ela a regressar à Europa, agora que a guerra terminou há quase dois anos, e a lembrar-se da fuga ao nazismo num dos últimos navios americanos que partiu de Roterdão. Ele que nunca a esqueceu desde os tempos em que se conheceram numa festa em Leiden.

É certo que não existe hospitalidade na leitura do mundo. O sentido é um curto-circuito que apenas esporadicamente se transforma em explosão. Todavia, para compreender o que se avizinha – ou o que estará por vir – a tentação manda que se procure sempre uma luz sob a qual persiste a mais estranha das obscuridades. Há exemplos que falam por si. No ano de 2017, em entrevista à neta do homem que continua a tentar sintonizar o rádio, Steiner contou algo que se passou ao mesmo tempo que esta viagem do Diderot decorria. Começou por revelar que fora visitar o pai a Nova Iorque e que lhe deu conta de duas boas propostas de universidades americanas de topo. O pai de Steiner já bastante doente, reflectiu e comentou: “Só tu podes decidir. Mas se deixares a Europa, Hitler terá ganho”. Steiner ligou imediatamente à mulher e foi muito assertivo: “Não suportaria sentir de novo o desprezo contido nessa frase do meu pai. Seja o que for que tivermos que fazer, regressamos à Europa.”.

No caso de Steiner, o regresso à Europa teve a carga e o sentido de uma vida que jamais se submete. O mesmo aconteceu com os nossos dois viajantes do Diderot. Dois dias depois, chegou via rádio a autorização para o desvio de rota. Tratava-se de fazer escala em Lisboa antes da chegada prevista para Southampton. Foi aí que tudo se reiniciou. A filha do casal, Cláudia, viria a nascer em Tomar no ano seguinte, em 1948. Passou parte importante da vida a dar a volta ao mundo e a pesquisar todos os vestígios da sua família materna. Tudo desapareceu à excepção de uns primos distantes que conheceu em Limoges. Eram as saudades à procura do seu mundo, pois a ausência merece um lugar em tudo igual à presença.

Pelo seu lado, o homem do rádio nunca deixou de mover o polegar e o indicador em rotações continuadas que sempre associou à espuma da rebentação das ondas. O pai de Cláudia acompanhou-o durante inúmeras horas ao longo da viagem e, até ao fim da vida, manteve nos ouvidos aquele sussurro fanhoso e martelado. Era não apenas uma metáfora física do futuro e do passado, mas igualmente de um tempo para o qual não existem denominações, nem um nó-górdio possível. Um tempo estrangeiro, um tempo de extravios, um tempo de ruídos brancos em todas as frequências.

“Outro cigarro se acende para que a cinza volte a morrer e o fumo penetre nas vigias circulares de onde se avista a proa a afastar-se da linha do vento. O futuro é um nó que se desata, um amanhã infiel, uma invasão que resiste a qualquer ordem.”

24 Jun 2021

Situacionismo

Horta Seca, Lisboa, quinta, 21 Maio

Computador grávido de décadas resolve despedir-se, sem estrondo, mas com malefício. Afirmamos na conversa mole a dependência, mas não sabemos o modo como estes seres nos prolongam em prótese essencial para qualquer passo até falharem. Há vida além do ecrã, mas não sei já onde. Algures havia backups a velar pelo passado, aquele a que não voltaremos e o outro que nos falta como oxigénio embora respiremos, pelo que a desgraça talvez não seja tão grande agora surge. Algo se perderá, que não há outro modo do dia nascer. Só que o acontecido não se limita a mera alteração na rotina, funciona mesmo como reboot: as máquinas velhas têm manhas a que nos afeiçoámos ou pelo menos domesticámos, os programas em versões vetustas obedecem-nos, sabemos onde está cada botão, cada password, cada rotina. E a culpa assenta no nosso comportamento, que temos demasiado peso no correio, muitas mensagens abertas, muitos programas a funcionar em simultâneo, mais isto e menos aquilo, descuido e desrespeito. De súbito, vemo-nos obrigados a repensar mais esta relação, a começar de novo e o word não se diz da mesma maneira, é preciso recomprar o pacote dos básicos, aceder a dezenas de plataformas, redefinir milhares de palavras-passe, aceitar contratos em que cederemos até o futuro e um rim. Estou a ver a velha Olivetti armada em decorativo objecto sob a camada de pó e suspiro.

Rua da Rosa, Lisboa, sexta, 28 Maio

Qualquer cidade tem os seus segredos. Lisboa não sendo como as outras, tem mais e distintos, diz Pessoa em perpétuo desassossego e digo eu que nunca daqui saí. O [José] Pinho tem um radar que descobre lugares, na aparência vagos, mas que acabam cruzamentos concretos de gente e ideias e livros, pontos de encontro e interrogação e exclamação. Descobriu agora prédio assente em memórias e luz e resolveu correr a habitá-lo de possibilidades. Andou a mostrá-lo como quem conta uma história. Pode até nada mais acontecer, mas participar nesta peça de teatro imersivo valeu o dia (de aziaga memória).

Horta Seca, Lisboa, sexta, 11 Junho

Há uns meses foi o telemóvel que resolveu armar-se em situacionista e mandar nas minhas conversas, desatando a fazer chamadas em direcções indesejadas. Deu conversas longas e divertidas e uma delas foi com o António Torrado, que agora parte para parte incerta. A costumeira ignorância arrumou-o na gaveta de escritor para putos, coisa das mais menores, algures entre o conto e a poesia, uma necessidade por causa da didáctica e para entreter e por isso agora em atenta vigilância. Também teve pé em palco, mas isso pouco muda. Ora o António, que foi editor, era escritor a merecer outras sortes, as da leitura, nos mínimos. Se nele entrarmos pelo lado do absurdo logo a viagem se faz compensadora. Mas não, dá menos trabalho e alinhar na celebração pacóvia do que nos chega mastigado do que procurar raízes na terra comum. Uns dias antes, também nos havia deixado a Leonor Riscado, que gastou a vida precisamente na valorização desta disciplina luminosa e obscura. Não consigo deixar de procurar na minha cabeça em incessante crash uma palavra, uma única trocada com cada um e que gostasse que fosse, para sempre, a sua e de mais ninguém. Há palavras que procuram as pessoas certas onde morar.

Livraria Verney, Oeiras, Sábado, 19 Junho

Tem acontecido neste espaço, sob a minha desatenção, uma curiosa troca de olhares. Tendo em depósito a obra de Neves e Sousa, primeiro o Nuno [Saraiva], e neste momento a Catarina Sobral trataram de a ilustrar, ilustrar o desenho, outro modo de o comentar, de o ler, de o tornar seu. A tinta-da-china ganhou cores e o registo rápido de viajante atento ganhou sequência quase narrativa: se um grupo se junta em torno do fotógrafo em Neves e Sousa, a Catarina faz-nos a ver a fotografia possível. O que era transparência nos traços de um passou a expressividade no desenho de outra. Os corpos que se queriam reais passaram a ser formas de um vocabulário pessoal. E o essencial dá-se nesta maravilhosa deslocação dos corpos nas paisagens. E se no preto e branco só a podemos adivinhar, nas massas de cor apresenta-se em todo o seu esplendor, sua excelência, a luxúria. Fico preso a um mangal (na página), veios e folhagens sopradas pelo vento, lugar de híbridos e cruzamentos de estados, onde a terra se faz líquida e o vegetal toca as nuvens. Oculto nas folhagens está o observador indistinto do horizonte, animal que respira e vê.

Livraria Verney, Oeiras, Sábado, 19 Junho

Ainda nos reunimos sob o signo do medo. Coreografamos os primeiros momentos com a dança da hesitação, não sei se mão se cotovelo, se abraço ou aceno. Afasto por instantes a máscara para que me reconheçam ou continuo oculto e falante? Perceberão que estou sério ou sorridente? Se as comissuras falassem… O Luís [Cardoso] invoca os bons espíritos e com eles se dará a sessão de lançamento d’ «O plantador de abóboras», por acaso já bastante lido e comentado. Ana Paula Tavares faz justíssimo enquadramento, a corada Ana [Jacinto Nunes] não se cansa de elogiar as mulheres, personagens da verdade, e a Natália Luiza trará em voz alta a toada desta «sonata para uma neblina».

E o Luís fala como se cantasse e cantou de igual modo, a embrulhar a complexidade de cada gesto no pano da simplicidade. Um pouco como tem dito a cada entrevista: esta história foi-lhe entregue em herança por mulher perdida nas memórias esfumadas de Timor, mas o romance vai muito além dessas montanhas; que queria compor um longo poema de amor, que bem se espraia naquelas páginas, mas não se resume a isso, não sendo pouco. A ternura com que talha as personagens, gente e planta, animal e paisagem; o modo de contar como quem toca, não esconde assuntos como as malhas do Império, a identificação de um país ou essa inescapável desilusão. (Aqui para nós, que nos ninguém nos lê, emociona-me que inclua Sancho Pança nessa galeria de figuras, pois encontro nela muito do que pode ser um editor). Confirmo, a partir de pistas que já vinha recolhendo, em sala que não pode estar mais cheia por causa do vírus do tempo, que o Luís soube construir uma comunidade de leitores, feita sobretudo de mulheres. Sinto-me privilegiado por dela fazer parte.

23 Jun 2021