Ruy Cinatti, uma poesia com vultos

Disse Jorge de Sena, no prefácio a um livro de Ruy Cinatti, que os literatos seus contemporâneos, em matéria de insulíndias não iam além das livrarias do Boulevard Saint Michel. De facto, poucos como este poeta nascido em Londres em 1915 olharam de forma tão intensa para fora do eixo euro-americano, para terras que são as eternas ilhas dos exotismos dos outros. Cinatti escolheu Timor – por ninguém desejado ou escolhido, devastado que era pela invasão japonesa e pela péssima administração – não como um lugar de sensualidades imprevistas, mas como uma geografia humana, real e sensível. Foi aí que ele deu largas a uma amorosa compreensão do espaço e das gentes, e por isso se chama Timor-Amor um de seus livros.

Homem de ciência e de terreno, da agronomia (sua formação de base) e da meteorologia, passou à etnologia e à antropologia (sempre timorenses, bem entendido). Na mesma década em que dirigiu, com Tomaz Kim e José Blanc de Portugal, os Cadernos de Poesia, chefiou também o gabinete do governador desta colónia portuguesa, de quem fala num poema dos anos 70: “Desse digo eu,/ que me queria às vezes/ para seu poeta,/ sorrindo às minhas luzes de botânico,/ «Você… da Orta…/ Eu, Albuquerque!»”, um que acabou “com os miolos fritos/ pegados no teto”.

Mas as tais luzes de botânico deram para ter duas plantas batizadas com o seu nome, tal como o seu predecessor em Timor, o também poeta-botânico Alberto Osório de Castro. Cinatti vai e vem daquele território português e, entre os anos de 1951 e 1956, lá o encontramos diretor dos serviços de agricultura. Porém, incompatibilizado com a administração colonial, regressa a Lisboa. As visitas à “ilha verde e vermelha” ficarão cada vez mais condicionadas, até à definitiva proibição em 1966. Metido em Lisboa, dedicou-se a uma errância mais condicionada e à poesia das famosas folhas volantes, que distribuía mão a mão.

Os versos timorenses, sobretudo o livro central Paisagens timorenses com vultos (1974), conseguem grande concisão nas suas intimações sobre o espaço e as gentes: diretas, despretensiosas, abertas ao estremecimento emocional e até ao humor: “Em Díli./ Em Baucau, tanto faz.// Um médico suplicava: «Não leias António Nobre,/ que eu adoeço».”

Centrada numa atenção ao quotidiano que comunica diretamente com a linguagem de alguns poetas dos anos 70, a escrita de Ruy Cinatti abre-se a um tipo de discurso que a poesia portuguesa demorou a levar a sério. Mas bem antes, já nos anos 40, Cinatti constituía uma ruptura na poesia portuguesa, já que os Cadernos pretendiam ser uma opção quer ao presencismo, quer ao neo-realismo.

O outro aspecto que ressalta nos versos dedicados a Timor é que aqui se realiza, talvez pela primeira vez na poesia portuguesa, uma forma de lidar com o mundo não-europeu que o não subjuga ao filtro do império e de seus avatares.

Quer dizer, não é o Timor português, projeção colonial de um Portugal sempre fora de si, que se colhe destes versos, apesar de o poeta ter vivido o império in loco e de até o ter defendido em seu estertor. Não admira, pois, que o nome do poeta tenha caído na marginalidade, apesar da galeria ilustre de predecessores, como Camões ou Pessanha, cuja escrita – tal como a de Cinatti – dependeu estreitamente das formas que historicamente assumiu o funcionalismo colonial português.

Neste sentido, é a partir do precedente aberto por este poeta que alguma poesia portuguesa contemporânea pode aceitar uma representação descomprometida e cosmopolita de espaços não-europeus: de forma notável na poesia de ambiente turco e chinês de Gil de Carvalho, mas também na poesia “macaense” de José Alberto Oliveira, na série «Poemas Orientais» de Fernanda Maldonado e ainda nos curiosos poemas japoneses de Miguel-Manso, numa dispersão geocultural que contrasta com o lastro de provincianismo que também deixou a sua marca na poesia portuguesa contemporânea. É partindo dos luminosos passos de Cinatti que novos poetas instauram novas formas de se falar na Ásia em Portugal, superando as marcas discursivas do exotismo orientalista. Longe do Oriente como metáfora do império ou locus exótico, o novo Oriente da poesia portuguesa é agora uma Ásia que é um entre outros interesses culturais, geográficos e sociais. Em suma, este descentramento físico e mental em relação ao espaço europeu, a constante plasticidade discursiva e ainda a positividade de fundo cristão são coisas que juntas se acham raramente e que não voltaram, depois de Ruy Cinatti, a juntar-se na poesia portuguesa.

5 Nov 2021

Ela e a ausência

O que muitas vezes acontece não é história que se relate ponto por ponto, mas também não é coisa que se confunda com o simples passar do tempo. O que acontece é, quase sempre, uma infinidade sem meta ou talvez um dia que tivesse começado pelo meio.

Ela senta-se no baloiço, sobrecarrega-o com o corpo, oscila as pernas para a frente e deixa depois cair a cabeça para trás. Parece uma planta carnívora a abandonar bruscamente o seu estado vegetal. O jardim ao fundo termina sobre um fosso onde há cisnes e folhas mortas a velejar na água escura.

Ainda não a consegues ver. O busto oitocentista encobre a zona dos baloiços. Só sabes que não há crianças a correr, nem tão-pouco aquele tremor que vive de urgências fictícias. A calma profunda passa por saber que aquilo que ocupa o tempo é privarmo-nos dele. Um certo alheamento, por outras palavras, que não esconde a floresta densa que somos e o amor que guardamos numa arca muito bem escondida.

Quando a viste de perfil e ao longe, com as pernas esticadas e o pescoço a reerguer-se, percebeste que ela nada te iria dizer. Excepção para a nulidade com que se revolvem as frases ou com que se revolve a terra à procura de uma pedra raríssima. Há sempre esperança, diz-se em certa filosofia.

Sentas-te no banco de pedra que tem vários azulejos partidos. Conta-los um a um, são trinta e dois. Consegues vê-la a partir daí e ela, depois de ter de novo levantado a cabeça, avistar-te-á, se for essa a sua vontade. Terá que fazer um pequeno esforço, inclinar ligeiramente o rosto para o lado direito. Se estiver em recolhimento, tratar-te-á como uma porção de nada. Mas fê-lo, fê-lo a custo e tu reparaste. Coisa de segundos. Não poderias suplicar-lhe que regressasse ao início, quer dizer, àquele ponto imaginário em que vocês os dois se teriam conhecido há muito tempo, de tal modo que agora poderiam estar prestes a reencontrar-se. Era falso, nunca se tinham deparado um com o outro. Era a primeira vez.

Sempre que ela movia a vasta cabeleira, distinguias as alças transparentes que lhe envolviam os ombros e logo insinuavas em desvario que era altura de se dirigirem um ao outro para festejar os anos que haviam injustamente defraudado. Estavas a passar-te, como é evidente. Os teus pensamentos eram extravagantes, mas, por outro lado, é verdade que nunca na vida tinhas sentido pensamentos tão estranhamente reais. Por isso te levantaste e dirigiste a tua pequena sombra até ao baloiço onde ela se recostava.

Foi nessa altura que surgiu a imensa nuvem esverdeada de pássaros. Seriam estorninhos. Eram milhares e milhares e cobriram tudo. O lajeado da fonte, o busto, as argilas do parque infantil abandonado, os bancos, o fontanário, os muretes do jardim, o fosso, o coreto, os ramos das árvores e os canteiros. Tinham bico avermelhado e as penas levemente escurecidas na extremidade das asas. Todo o espaço à vossa volta se converteu numa chiada contínua, num estrilo que bramia por dentro das argamassas mais espessas. Diz-se que os contentores do porto por vezes se abrem. Desta vez foi uma estranha clareira do céu que raiou de ponta a ponta.

Ficaste na frente dela, mas ela não te encarou. Como se nada se passasse, voltou a balancear as pernas para o lado da frente e baixou de novo a cabeça para trás. O baloiço rangeu levemente com o peso, enquanto, à volta dos vossos corpos, a quantidade de aves era tal que dir-se-ia terem quase cegado a luz do início da tarde. A dada altura, só se ouviam penas a bater e a chilreada impregnara-se em todos os poros do planeta.

Dois ou três minutos depois, os estorninhos levantaram voo ao mesmo tempo. Formaram no ar uma espiral gigante que se movia nas extremidades e que logo se reequilibrava. Um assombro que cobriu toda a parte norte da cidade.

Baixas a cabeça lentamente para, de novo, observares a mulher que se sentava no baloiço com as pernas para a frente e os cabelos caídos para trás. Abriste os olhos e verificaste que o baloiço estava vazio. É verdade: a mulher não existia. E o baloiço não passava da projecção vertical de um conjunto de trepadeiras que submergia todo o relvado até ao canteiro circular do busto oitocentista. E pensaste para ti em silêncio: a ausência é a origem da história, de todas as histórias. Regressar é ofício de sangue.
Os grandes dias iniciam-se verdadeiramente pelo meio.

4 Nov 2021

Elogio da embriaguez

Por estes últimos tempos os respigadores dos absurdos do quotidiano estão de barriga cheia, tal a carga que os dias lhes têm generosamente oferecido. Basta assistir a um noticiário ou apenas olhar à sua volta para poderem voltar para a casa com a sensação de dever cumprido.

Obrigado que estou a atravessar o que o mundo me está a oferecer tendo a esconder-me em trivialidades ou aparentes fogos-fátuos, bolas de sabão luzidias que rebentam sem fazer mal a ninguém. E por isso foi sem surpresa que a notícia em que mais me detive foi a da proibição dada à rainha Isabel II, em convalescença de uma pequena cirurgia, de poder beber o seu Dry Martini diário. Isto tem mais do que se lhe diga. Por um lado, aproxima o comum dos mortais de um ser humano que parece levitar sobre os demais; e para mim, que sou desde sempre um indefectível admirador da monarca e eu próprio apreciador dos doces prazeres do álcool, veio despertar um forte sentimento de solidariedade. A rainha, que assistiu a imensos grandes e pequenos estadistas da história da Humanidade irem e virem e que detém um dos mais exigentes empregos do mundo, bem precisa de um copo ao final do dia. Merece, diria.

Como de resto todos nós, há tanto tempo. Talvez quase desde o início. No admirável Drink: a social history, de Andrew Barr (1995), lê-se logo na introdução que o álcool desempenhou um papel fundamental nas sociedades humanas desde o sedentarismo, assumindo variadíssimas formas, desde lubrificante social a instrumento para rituais religiosos passando por meios de matar a sede sem contrair doenças, auxílio à digestão ou um alimento no sentido mais literal do termo. Mas, como lembrou um amigo há algumas noites e no lugar mais apropriado – um bar – existe outra pergunta que, aqui chegados, urge fazer: porque bebemos? Porque bebemos tanto?

A resposta a esta pergunta teve na devida altura o tom adequado: teorias fantásticas, risos e mais encomendas de rodadas. Só que analisada a frio e a sóbrio vemos que não se trata de questão despicienda. A verdade, receio, é esta: precisamos da embriaguez. Não serei o primeiro nem o último a escrevê-lo, estou certo. Mas as verdades atravessam o tempo e os pobres coleccionadores de palavras como eu.

Bebemos para nos transcendermos e para nos salvarmos uns dos outros. O famoso aforismo nietzcheano de que o homem é algo que tem de ser superado encontra aqui o seu verdadeiro sentido. A realidade é demasiado lúcida.

Temos necessidade dessa imperfeição que nos oferece a ilusão de que por breves instantes somos perfeitos. A alma e o corpo nunca irão entender-se já que a primeira pensa na imortalidade enquanto o segundo faz questão de nos atirar com a finitude. E é do corpo que nos escondemos nessas alturas, por mais que ele nos faça lembrar da sua existência no dia seguinte. Bogart dizia, e com alguma razão, que o mundo estava sempre com dois whiskies de atraso. Nós bebemos para empatar a partida, não para ganhá-la. Isso, já sabemos, é tarefa inútil. Mas andar em busca do empate mesmo por alguns momentos compensará.

Mas atenção: o álcool é apenas a forma mais primária de embriaguez, já que o ser humano a procura desesperadamente noutras formas – poder, riqueza, luxúria. Assim foi, assim é, assim será. Mas quem a quiser que a tome. Prefiro voltar aos conceitos primordiais da coisa. E tenho como respaldo o velho Chesterton que perorava que não é o álcool que degrada o homem mas sim o contrário.

Por isso escolhei o vosso excesso com moderação e consciência, amigos. O célebre apelo de Baudelaire à embriaguez reconhecia três modos de o fazer, de forma adversativa entre eles: de vinho, poesia ou virtude. Por mim fico com os dois primeiros. E alguém devolva o Dry Martini à rainha.

3 Nov 2021

Les beaux yeux noirs

O Cinema é um formato belo e único. É simultaneamente um jogo e um transformador desse mesmo jogo. Nesta série, a autora e pensadora visual, Julie Oyang, apresenta 12 realizadores chineses, as suas obras e as suas invenções estéticas, que acabam por se revelar as invenções estéticas de antigos filósofos.

 

Parte 1 – Guia do estilo de Wong Kar-Wai: Tudo o que precisa de saber

Chamar a Wong Kar-Wai um revolucionário romântico será quase um eufemismo. O realizador natural de Hong Kong criou um universo que “trouxe conforto aos espectadores e desconforto às personagens principais.” A provocação cultural chinesa que se encontra em filmes como Chungking Express e In the Mood of Love, passando por várias produções Wuxia de artes marciais, transformou-se numa espécie de culto ao longo dos anos e emergiu como um ícone do cinema chinês contemporâneo para o grupo dos seus muito devotos seguidores internacionais. Wong é um modernista, ou na verdade pretende criar uma relação com a ancestral tradição visual chinesa, sob uma fachada enigmática e divertida? Venham daí.

Como identificar um filme de Wong Kar-Wai?
Espectro de Néons

Segundo Ridley Scott, Hong Kong inventou o néon. O clássico de Ridley Scott Blade Runner foi filmado em Hong Kong. Blade Runner realça a estética inebriante da cidade asiática, com a panorâmica das ruas icónicas da década de 80 num cenário retro-futurista. No entanto, este léxico cinematográfico torna-se inexoravelmente verdadeiro e intemporal pela mão de Wong Kar-Wai, que tenta constantemente reimaginá-lo em novos contextos: “Eu queria encontrar o meu próprio espectro de néons.”

O mundo de Wong, embora intensamente iluminado por lâmpadas fluorescentes e néons incandescentes, não deixa de estar repleto de estranhos recantos escuros e de vielas inquietantes. Em vez da visão distanciada de Scott, em Wong o objectivo é defender o conforto trazido pelo cheiro característico do gengibre e das especiarias, que se liberta da cozinha ruídosa e fumacenta do pequeno restaurante na esquina da ruela, abençoada pelo desconcertante, mas no entanto bem-vindo Caos.

O Voo do Falcão

Às vezes gostaria de lhe enviar um email para lhe perguntar se os filmes colocaram limitações na sua obra. Imagino que a sua resposta seria: “Não existem limites.” Sendo eu própria possuidora de uma mente experimental, tenho constantemente fome de novos meios de expressão. Penso que ele poderia ser um indie game designer de sucesso.

Um outro tipo de jogo, mas com a marca inconfundível de Wong Kar-Wai. Ignorando com frequência as idiossincrasias do género de artes marciais Wuxia, Wong usa uma imaginação inconformista e sem fronteiras, enraizada na herança cultural chinesa, e eleva o género Wuxia para um plano romanticamente surreal. Os títulos dos seus filmes fazem com frequência alusão a este processo. Ashes of Time (As Cinzas do Tempo), Chinese Odyssey (Odisseia Chinesa), The Grandmaster (O Grão-Mestre) são exemplos invulgares da máxima “o gosto faz o género, o género faz o gosto”. Podemos esperar que a sua obra seja sempre transformadora do jogo, quer seja cinema quer seja um jogo de vídeo.

Assimétrico

Famoso pela utilização da música, Wong introduz a banda sonora como mais uma voz narrativa, exuberante e simples, mas que por vezes preenche recantos emocionais inesperados. Nunca trilhando caminhos convencionais, Wong descarta qualquer necessidade de simetria – ou, na verdade, a forma padronizada de usar o cinema como uma expressão visual. O efeito assemelha-se bastante à bossa nova: a voz do cantor está em contraponto com a viola, o que – surpreendentemente – resulta num casamento perfeito.

A mulher

O filósofo taoísta Zhuang Zi, que viveu no séc.V A.C., contou uma história que ficou famosa sobre uma borboleta que lhe apareceu em sonhos. Quando acordou, o filósofo perguntou-se se a borboleta teria sonhado que era humana, ou se tinha sido ele a sonhar que era uma borboleta. O caracter chinês original para sonho mostra uma figura deitada numa cama com os olhos abertos como se estivesse a explorar o seu mundo interior. Zhuang Zi compreendeu que existia necessariamente uma diferença entre si próprio e a borboleta, e ao fazê-lo, o filósofo captou um dos mais importantes significados do sonho: a transformação. A transformação é uma alteração da consciência entre a realidade e a ilusão e aí reside a liberdade de escolha.

Nos filmes de Wong Kar-Wai, o filósofo é a borboleta no meio dos paradoxos da vida asiática. Uma mulher. Veste o último grito da moda parisiense e usa enormes óculos de sol. Está de pé, de frente para o mar, torcendo um lenço de seda entre os dedos delicados. A sua mente é uma tela em branco, parada e vazia contra um fundo de flores de néon e legendas. Uma tela que pode ser pintada com infinitas possibilidades, múltiplas e espontâneas. Ela não tem consciência de quebrar todas as formalidades que a auto-limitam, no entanto é precisamente o que faz.

Wong Kar-wai nasceu a 17 de Julho de 1958 em Xangai. Emigrou para a então colónia britânica de Hon Kong com a família, quando era criança. Começou a carreira como argumentista de soap operas antes de se ter estreado como realizador, como o policial dramático As Tears Go By (1988).

A não perder: Chungking Express (1994) Fallen Angels (1995) Happy Together (1997) In the Mood for Love (2000) 2046 (2004) The Grandmaster (2013)

Citações famosas de Wong Kar Wai para guardar na memória

  • O amor depende da ocasião. Não é bom conhecermos a pessoa certa demasiado cedo nem demasiado tarde.
  • Não vim de nenhuma escola de cinema., Aprendi nas salas, a ver filmes.
  • Os meus filmes nunca são sobre Hong Kong como ela é, ou qualquer coisa que se aproxime de um retrato realista, mas sim sobre o que eu penso de Hong Kong e sobre o que eu quero que seja.
  • O que faz com que o cinema seja tão atractivo, tão fascinante, é não ser um processo acumulativo. É uma química entre, palavras, ideias e imagens.
  • Todos nós já fomos infelizes no amor. Quando isso me acontece, vou correr. O corpo perde água quando corremos e desta forma não nos sobram lágrimas.
  • Penso sempre que filmar cenas de acção não depende dos duplos. Depende mais da expressividade e da imaginação.
29 Out 2021

A candidata política

Olho para o espelho – será o vestuário realmente importante? Fiel aos meus princípios pessoais, não me iria preocupar muito com a percepção externa de uma determinada indumentária. Mas há padrões, procedimentos, convenções que eu neste momento represento. É isto ser-se política (somos todos políticos), olhar para os processos e mecanismos de aplicação de medidas, tendo em conta um princípio ético bem estabelecido, profusamente fundamentado.

Grelhas de leitura da realidade que nos permitam aplicar conceitos operantes a todas as situações, sem excepção. Todas elas têm de ser contempladas, isto é, sobre elas devo ter uma opinião. A camisa azul propõe responsabilidade, as calças de ganga falam de aproximação, o sorriso tem os acordes da empatia. “Bom dia, posso deixar um panfleto?” Logo se erguem alguns olhares curiosos, outros monótonos. Outros que sintetizam uma declaração de interesse “não tenho tempo para isto, não sei”. Raros aqueles que em sintonia me desejam força e bom trabalho. Pontuais aquele olhares que já falam mas que precisam agora das cordas vocais em desarmonia “vocês são todos iguais, ladrões!” (somos todos políticos). O ativismo não é pago, mas muita gente não parece saber disso.

“Estás a subir na vida!” diz-me um parente distante que já não via há alguns anos. Viu-me numa capa de um jornal. Um obscurantismo em relação à minha função, provavelmente, um desconhecimento do funcionamento do sistema que também a ele enquadra. Será também essa a ignorância daqueles que me pedem ajuda quando os visito em nome colectivo, ou podemos atribuir estes pedidos a uma esperança última perante o desânimo, a lentidão necessária à mudança? Eu compreendo as suas atribulações e proponho uma visibilidade exequível. Não estou, contudo, numa posição de poder efetivo. Uma cara num cartaz é só uma cara num cartaz. É o voto que faz a diferença.

Reconheço os laivos de perceção de autoridade e poder nessa pose constrangida, algo diletante, dentro dos cânones expectáveis da representação de uma possível figura política. Mas como explicar que o meu poder só é poder com o vosso (somos todos políticos). Na preparação para a disputa, observo os meus adversários. Como se apresentam, que ideias realçam e quantas contradições me será possível apontar num debate sem que me acusem de beligerância desproporcional. Percepções (nem todos somos políticos) o trabalho não é apaixonante, mas preciso da atenção – aquela que me permita comunicar com aqueles para quem o dia-a-dia se faz pela vida privada porque o tempo é escasso, a existência é dura à base de instintos básicos de sobrevivência, não de citações de Pickettii.

“O que conta é a pessoa” e serei eu pessoa suficiente sem trazer em mim convicções e modelos, trabalho de investigação, uma atitude estóica perante a gestão particular de um coletivo com as necessidades universais do indivíduo? Uma cara num cartaz, bonita, feia, responsável, insana – mas nunca será suficiente personificar um conjunto de ideias. Olho para o espelho e este devolve-me o mundo com todas as suas tentativas de simplificação do complexo. Aquela nem sempre sou eu e desta vez sou todos.

29 Out 2021

Penélope: Crónica de um encontro

Creio que inventámos o amor para que Deus não se suicide. Não te importas que tudo isto seja ao contrário? Acredita, o que perdemos melhora-nos. Sim, é uma espécie de felicidade para náufragos. Hei-de ser capaz de explicar-te. Espera, tenho de me desconectar, preciso de ir à farmácia comprar um remédio para as miúdas, ligo-te mais logo.

Perguntavas, Como é que se agarra a primeira frase, numa narrativa? É ela quem nos bica duma vez só, como o pombo ao grão-de-bico, ou o gavião que faz um looping sobre a pequena lebre para a arrebatar num ápice, respondo-te, e olho-te as mãos.

Sondo nelas uma réstia de sombra, a mais miniatural, das minhas. Quantas vezes as tuas mãos seguraram as minhas no cinema?

Não se esquece o beijo que foi pasto de chamas na última fila da plateia do Incrível Almadense, um desses beijos que o Doisneau prontamente imitaria, numa urgência de fim-do-mundo. Porém, na verdade, nunca nos faltou lugar e ocasião para namorarmos e, por isso, era-nos mais comum, mais do que com os nossos amigos, seguir as fitas até ao fim e embrenharmo-nos nelas e no sentido que tivessem, num entreolhado cúmplice, sem que a cadela do desejo desencaminhasse da retina as bobinas.

Lembro-me, isso sim, em sendo a fita pavorosa, de te tocar, no escuro, a tua camisola de lã, larga e comprida escondendo a incursão no vértice desapertado das tuas calças; aí desencadeávamos uma nova montagem para o tempo. Tínhamos dezassete, dezoito anos, e lá fora o mundo mudava, tanto que eu queria ser escritor e tu psicóloga.
Decerto que milhentas vezes as tuas mãos desaprenderam as minhas, essas mãos com que tacteias agora no teu ventre a cicatriz da cesariana de um filho que não é meu.

Sobressalto – assalta-me aquele filho que nós não tivemos, desmanchado por enfermeira especializada. Está em que grampo, na tua cicatriz? Nunca lhe demos nome, mas, sei, chamar-se-ia David.

Como é que se agarra a primeira frase de uma narrativa, insistes. Digo, quando algo se põe em movimento a partir de um lugar que não é o do reconhecimento.

Interrompe-nos o velho Meireles, O meu amigo, vai desejar outro jarrinho? Anuo, De um quarto de litro… Observas, antes mesmo do jarro de vinho ter chegado, A Mena ia-me dando conta dos teus filhos, olha nasceu mais um… Cinco, sorris… Pressinto os comentários sobre a minha leviandade: Do que te livraste, ironizo.

Sirvo os copos. Seria o tempo para lastimar, Nós não chegámos ao primeiro, não tivemos a coragem e resolvemos o assunto, no mesmo despacho com que na época nos críamos imunes ao tempo, ao destrambelho da morte… Limito-me a declarar, Talvez não chegue, o jarrinho… Fixo-te, deve incomodar-te que o meu olhar te perfure, quero perguntar-te, Alguma vez pensaste naquele filho que não nasceu, mas calo. Ao fim de trinta anos, teremos de reconquistar a espontaneidade. O que teria mudado das nossas vidas se o tivéssemos deixado nascer? Seria eu escritor e tu uma pintora brutalista que derrama vida pelas telas?

E um quotidiano em comum, as rotinas que ensurdecem o mundo, compensaria este momento de nos reencontrarmos trinta anos depois, pudicamente, com a minha emoção fixa nos seus olhos, que se dão e fogem?

Compreendo, avalia ainda o que pode partilhar, quem serei, três décadas depois. E eu, sugado por uma aleatória esquina do tempo para um sentimento que julgava desalojado, quem te fui?

Disse-te, na rua Cândido dos Reis, se vieres comigo cinco minutos a minha casa dou-te o meu último romance. E tu aceitaste.

Tomámos chá, eu olhando as mãos dela pela primeira vez, desde há trinta anos. Não me ocorria mais nada senão aquele trecho de Cortázar: «Põe a mão em cima da mão de Michèle. Michèle põe a mão em cima da de Pierre. Pierre põe a outra mão em cima da de Michèle. Michèle tira a mão de baixo da dele e põe-na em cima. Pierre tira a mão debaixo da dela e põe-na em cima. Michèle tira a mão de baixo e apoia a palma contra o nariz de Pierre.»

Ou talvez fosse mais acertado dizer: face a mim estavam as mãos de Penélope, a que tece e desfaz as tapeçarias. Isto, se as mãos dela não enxotassem quaisquer insatisfatórias semelhanças.

28 Out 2021

Os 150 Anos do Hospital Kiang Wu

Há sensivelmente um século e meio, o Governo de Macau aprovou a instalação do Hospital Kiang Wu, respondendo a uma antiga e fundamental necessidade da comunidade chinesa que se via arredada do acesso à saúde, entregue a mezinhas. José Simões Morais apresenta ao HM a história de uma instituição incontornável na vida de Macau

 

Organizada pela elite chinesa de Macau, a Associação designada de Hospital Kiang Wu nasceu em 1869 para criar um hospital que servisse gratuitamente a comunidade chinesa mais desfavorecida, mas também para abrir escolas gratuitas, dar de comer a quem tivesse fome, socorrer os necessitados e enterrar os mortos cujas famílias eram pobres ou, sem ninguém para deles cuidar. “A nova instituição foi, logo de início, mais do que Hospital, em rigor deveria ser chamada – Casa de Beneficência, pois, se o seu objectivo primário era, na verdade, socorrer doentes, tanto pela hospitalização, como dispensário e consultas, nem por isso deixava de incluir, também, a instrução em escolas elementares e o socorro com outros subsídios, sobretudo em épocas anormais de epidemias, fomes, cataclismos vários, mesmo no território da China ou em locais afastados, mas onde houvesse população chinesa.

Tinha ainda como função responder pelos ritos culturais e mais cerimónias fúnebres, assim como de certa maneira representar também a principal sede do Hong (Grémio) dos vários comerciantes generosos, que por eleição escolhiam entre si os seus delegados representativos, até com carácter social”, refere José Caetano Soares, em Macau e a Assistência.

Macau, na altura, apenas tinha dois hospitais, um militar (no antigo Convento de S. Agostinho) e outro pertencente à Santa Casa da Misericórdia (Hospital de S. Rafael). Esta era a assistência médica que os portugueses usufruíam, no entanto, os doentes chineses continuavam esquecidos, entregues às mezinhas que de memória traziam de família, sem poder contar com bons profissionais de medicina tradicional, os quais só a Casa de Beneficência Sam Kai-Hui-Kun tinha capacidade de contratar, devido à pobreza extrema em que a maioria dos chineses em Macau vivia. Esta tinha a sua sede no Pagode das Três Ruas, o único edifício poupado pelo incêndio de 6 de Junho de 1818, que destruíra a maior parte do Bairro de S. Domingos, vulgarmente conhecido como Bazar Grande.

Sob a hegemonia do Mandarim de Heong-Shan (Casa Branca), a Casa de Beneficência chinesa Sam Kai-Hui-Kun (Assembleia dos habitantes das três ruas) começou a perder poder quando em 1847 o Governador Ferreira do Amaral tomou posse de todas as terras da península e expulsou os mandarins de Macau em 1849. Os novos aterros feitos para o lado do porto interior com a abertura de novas ruas e o enorme aumento da população chinesa retirou o soberano poder político à sob a comunidade chinesa, levando a uma cisão, aproveitando o governo de Macau para ajudar os dissidentes, que eram mais a favor dos portugueses, “doando-lhe uns lotes de terreno então suburbano.

Para aí foi a nova sede e nesses terrenos, mediante subscrição pública veio, também, a ser construído o primitivo Hospital Keng-Wu (Hospital de Macau) (1872). A designação Keng-Wu [Kiang Wu significa lagoa em espelho] traduz a forma literária do nosso termo – Macau”. Nesse aspecto, José Caetano Soares refere que “nunca houve propriamente Sociedade devidamente organizada à face de regulamentos superiormente aprovados [por isso nenhuma informação consta no Boletim da Província de Macau e Timor dos anos de 1870 e 1871 e só no Boletim Oficial da Colónia de Macau de 12 de Setembro de 1942, é referida a História da criação do Hospital Kiang Wu] mas o facto de ser para lá eleito, muito embora os cargos fossem sem remuneração, significou sempre prova já de distinta honorabilidade por parte da opinião geral. Pela sua feição assim honrosa e de respeito, não raro, ia servir às nossas autoridades de agente conciliador em ocasiões de atrito ou só discordância com elementos chineses, mesmo oficiais.”

EDIFÍCIOS DO COMPLEXO HOSPITALAR

A Associação do Hospital Kiang Wu, proveniente da cisão na Sam Kai-Hui-Kun, foi constituída como meio para ter voz perante o governo colonial português, e era composta por 152 influentes chineses, sendo muitos representantes dos Grémios estabelecidos na cidade.

Em 21 de Junho de 1870, o Governo de Macau aprovou a instalação do Hospital Kiang Wu, requerida pela comunidade chinesa de Macau, representada pelos senhores Sam Wong, Chou Iao, Tak Fong e Wong Lok. O Governo estipulou o foro anual de uma pataca e autorizou a angariação de fundos necessários para a construção do Hospital, num terreno de 75.000 m² na zona de San Kiu. Este era um dos locais mais doentios de Macau, onde os mortos mal enterrados, muitas vezes com partes do corpo a descoberto, e sem sepulturas, se encontravam espalhados pela encosta do monte, sendo o primeiro trabalho o de transferir os ossos dos corpos para WanZhai.

No 10.º ano do reinado do Imperador Tong Zhi da dinastia Qing, a 28 de Outubro de 1871 foi fundado o Hospital Kiang Wu, administrado por cidadãos chineses e no início, aí apenas se preparava e cozinhava os medicamentos, distribuídos gratuitamente. Só em 1874 foi no local criado o departamento de Medicina Tradicional Chinesa.

No museu da História da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, instalado na Casa Memorial e aberto todos os sábados das 15 às 18 horas, encontramos explicativos placards, onde num se refere que em 1871 o Hospital consistia numa construção ao estilo antigo de arquitectura chinesa [semelhante à do templo de Kun Iam Tong, tendo três pavilhões centrais]. Refere que na porta principal do primeiro edifício, [o da entrada] havia uma tabuleta a dizer Hospital Kiang Wu, sendo o átrio. No segundo edifício era o salão para as reuniões da Associação e no terceiro encontravam-se estátuas dos deuses da medicina para os pacientes orarem e pedirem-lhes ajuda no restabelecerem-se das doenças. [Nos altares aos deuses encontravam-se Hua Tuo, Guang Gong, Bao Gong, Liu Zu e Hong Sheng.]

Um outro placard adita, no original Hospital, na ala direita do terceiro edifício era o lugar onde se providenciava o gratuito tratamento médico e onde havia dentro também uma farmácia. Nesses dias, o Hospital apenas tinha o departamento de tratamento médico chinês, isto é, era de Medicina Tradicional Chinesa e todos os médicos e farmacêuticos vinham nomeados de outros locais da China para providenciar tratamento médico aos pacientes.

Ao lado um desenho com uma planta do recinto muralhado do Hospital, que apresenta semelhanças com a forma e área [de 75.000 m²] ocupada por o actual complexo hospitalar, encontrando-se representados esses três edifícios, sendo eles ladeados por outros dois de cada lado e mais recuado um alpendre e no meio do terreno o que parece ser um tin, espécie de local coberto para repousar o espírito e seguindo, ao fundo do lado esquerdo encostado ao muro, que o separa da Estrada do Repouso, três edifícios onde se colocavam os doentes graves e no lado oposto, junto à Rua Tomás Vieira, o local onde eram colocados os defuntos e guardados os caixões, assim como os edifícios de farmácia.

Ainda dentro do museu encontramos cinco bei/tabuletas tendo uma os nomes das 152 pessoas e grémios que sugeriram criar o hospital; a segunda tabuleta é o documento escrito em caracteres chineses pelo Governo português de Macau onde consta a aprovação da criação do Hospital chinês. A terceira e quarta tabuleta referiam as razões por que havia necessidade de fazer o Hospital e a quinta explicava o porquê da existência da farmácia de produtos de medicina tradicional.

Os cuidados médicos eram realizados apenas numa casa situada no lado direito dos três pavilhões, contando no terreno do Hospital com um total de 60 quartos, onde eram gratuitamente prestados serviços clínicos aos doentes e um asilo. No recinto havia ainda a casa mortuária e um armazém de caixões, que em 1933, para permitir ao hospital expandir-se, passaram para a colina de Mong Há (Colina de Lótus), onde ainda hoje se encontra na Avenida Lacerda a casa funerária da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu.

Inicialmente o Hospital era dirigido por uma Comissão Administrativa, onde havia quatro directores. Teve como contabilista nos anos de 1871 e 72 Chan Zi Chen e em 1873 Choi Ian San e entre 1871 e 1880 conseguiu angariar 49.900 taéis de prata ($69.000,00) e recebia o dinheiro das ofertas de todos os templos de Macau. Em 1874 passou a ter uma direcção constituída por doze pessoas escolhidas entre os diferentes grémios.

AS ESCOLAS

A Associação do Kiang Wu em 1892 criou em Macau cinco escolas de instrução gratuita para crianças chinesas dos dez aos quinze anos, onde se ensinava pelo antigo sistema de educação chinesa, que na China preparava para os exames imperiais, usando-se os “Quatro Livros” (Si Shu) publicados em 1190 por Zhu Xi, que deveriam ser entendidos e decorados e o “Clássico dos Três Caracteres”, (San Zi jing) composto também na dinastia Song por Wang Yinglin. As cinco escolas situavam-se, uma em Mong-há, outra em San Pu Tau (Rua da Madeira), em San Pa Mun (Rua de S. José), em Mai Chou Tei (Rua da Palha) e por fim, em San Kiu (talvez na actual Rua Tomás Vieira).

Em 1905 as escolas foram reunidas numa só, dentro do recinto na ala direita do Hospital, que passou a chamar-se Escola Primária Kiang Wu com o sistema de educação Ocidental e a ensinar o inglês, havendo três classes e 150 alunos. Essa escola em 1950 juntou-se à Escola Primária Ping Man e tornou-se a Escola Keang Peng, cujo edifício da secção do Secundário foi inaugurado em 1997.

“Em 1917, verificando-se a exiguidade das instalações do hospital, foram estas ampliadas mercê do auxílio do Governo de Macau, de pessoas caritativas, de todas as classes sociais e de diversas entidades chinesas”, segundo refere o B.O. de 1942.

No ano 1919, num novo edifício próprio dentro do espaço do Hospital, os pacientes tratados pela Medicina Ocidental passaram a poder ficar aí internados e por isso, houve a necessidade de treinar pessoas para permanentemente deles cuidar. Tal levou à criação do curso de enfermagem, montando assim em 1923 a Escola de Enfermagem e Partejamento Kiang Wu de Macau, que em vinte anos graduou 48 enfermeiras. Em 1933, a casa mortuária e o armazém de caixões deixaram o recinto do Hospital, e para aí passaram as salas de aulas de enfermagem e o dormitório, possibilitando um permanente acompanhamento dos doentes. Os enfermeiros foram reconhecidos em 1945 como um grupo profissional, podendo para além de trabalhar no hospital, exercer a profissão noutros locais.

Em 1948, a escola começou a treinar as enfermeiras no ajudar ao nascimento das crianças, aparecendo a especialidade de obstetrícia e em 1956 foi construído o edifício para albergar essa Escola de Enfermagem.

Desde 1994, os cursos de enfermagem e obstetrícia ficaram com as habilitações oficialmente reconhecidas e designada Instituto de Enfermagem Kiang Wu de Macau foi convertido em instituição privada de ensino superior em Novembro de 1999, dedicando-se à formação de quadros qualificados na área de enfermagem. Segundo o Livro do Ano de 2013, “No ano lectivo de 2012/2013, o Instituto ministrou um total de três cursos de licenciatura (incluindo cursos complementares) e diploma profissional, contando nesse ano com 32 docentes e 305 estudantes matriculados em cursos de nível superior.” No ano anterior, com mais cinco docentes, mas menos 36 estudantes ministraram dois cursos de licenciatura.

NOVA FASE

Nos primeiros tempos o hospital oferecia apenas assistência no âmbito da medicina tradicional chinesa. Em finais de Setembro de 1892, Sun Yatsen (Sun Wen ou Sun Zhongshan, 1866-1925) após se licenciar em Medicina em Hong Kong veio para Macau convidado por Chen Xi Ru para criar um departamento de Medicina Ocidental no Hospital Kiang Wu e aí trabalhar. Chen Xi Ru em 1892 era o maior financiador do Hospital. Sun Yatsen foi o primeiro clínico licenciado em Medicina a ser contratado e como médico serviu no Hospital Kiang Wu em regime de voluntariado entre Outubro de 1892 e Setembro de 1893. Aí praticou medicina e cirurgia, ajudado nas grandes operações pelo seu professor da Universidade de Hong Kong, Dr. James Cantlie, que vinha a Macau expressamente para esse fim.

O jornal Echo Macaense, que publicava um Sumário em chinês no qual Sun Yatsen colaborou, a 19-12-1893 referia: .
Como Sun era formado em Hong Kong e segundo as leis portuguesas ninguém podia em Macau exercer legitimamente medicina sem possuir um diploma português, teve de abdicar da prática dessa profissão.

O Hospital Kiang Wu deixou de prestar assistência médica de carácter ocidental até 1935, quando foi contratado como médico licenciado o doutor Or Lun (Ke Lin, 1900-1991), que nesse mesmo ano obteve a permissão de efectuar cirurgias. Estudara na Universidade Zhongshan de Guangzhou e aí leccionou, atingindo o grau de Professor. Mais tarde passou por Xiamen onde criou um hospital e depois abriu uma farmácia em Hong Kong. Com a função de vir tratar o capitão Ye Ting (herói de Guerra chinês) veio para Macau e um ano mais tarde, em 1936 começou a trabalhar gratuitamente como professor na Escola de Enfermagem e médico no hospital. Em 1940 tornou-se membro da farmácia do Hospital Kiang Wu, conselheiro sobre assuntos de Medicina Ocidental e responsável pelo trabalho da Escola de Enfermagem. Em 1943 tornou-se Director da Escola, superintendente do Hospital e Vice-Presidente da Associação do Hospital Kiang Wu.

Durante o período da Guerra do Pacífico, o Hospital em 1943 acomodou 74.590 doentes e providenciou gratuitamente tratamentos a 89.238. Acolheu e ajudou com tratamentos médicos mais de dois mil refugiados de Hong Kong e em 1945 esses serviços gratuitos cresceram em número chegando a mais de cem mil.

Em 1941, a Associação fundou um asilo para crianças abandonadas, que só em dois anos acomodou e educou mais de 380 crianças refugiadas, tendo fechado em 1946, com o fim da Guerra do Pacífico.

Em 1941, no Hospital deixou-se de praticar Medicina Tradicional Chinesa e só nos finais dos anos 70 do século XX, esta regressou, providenciando actualmente tantos serviços de Medicina Ocidental como da Tradicional.

A sala de operações cirúrgicas, que se pretendeu construir em 1941, só a 20 de Maio de 1945 passou a existir devido às dificuldades nesse período. Em 1946, o Dr. Or Lun como superintendente do Hospital aperfeiçoou a instituição e começou a ensinar e a empreender as regras sanitárias e de saúde pública, conseguindo bons resultados para debelar a cólera, equipando o hospital com novos meios para melhorar as condições.

Em 1979 ascendeu a Presidente Honorário do Directório dos Directores, devido aos 38 anos como Director do Hospital, tendo voluntariamente durante 55 anos ajudado a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. Foi uma das figuras com maior prestígio de Macau, tanto a nível social, como político e sobretudo profissional.

28 Out 2021

A Relíquia, de Eça de Queirós – Parte 1 (de 8)

Em 1869, com apenas 25 anos, Eça de Queirós foi ao Egipto assistir à inauguração do Canal do Suez. A viagem durou seis semanas e foi estendida à Palestina. Desta sua viagem tomaria notas que seriam usadas em três textos. O primeiro deles é o conto «A Morte de Jesus», publicado em Abril de 1870, na revista Revolução de Setembro, onde narra a mesma época que descreve no terceiro capítulo de A Relíquia. O segundo texto é o romance que nos traz aqui,

A Relíquia, e, por fim, Egipto, livro que retrata a viagem que fez em 1869, editado postumamente. É também nesta viagem que contrai a doença que trinta anos mais tarde o levaria à morte: amebíase. Trata-se de um parasita que ataca os intestinos. É preciso lembrar que em 1969, Eça de Queirós ainda não tinha publicado nenhum livro, se bem que fosse já o director do jornal O Distrito de Évora.

Quanto ao romance que aqui nos traz, há quem veja, e não sem razão, A Relíquia como um romance picaresco, na tradição do célebre romance castelhano O Lazarilho de Tormes, de 1554, de autor anónimo. Anibal Fernandes, o seu tradutor para português, descreve deste modo o livro do castelhano: «[…] recusando-se aos excessos verbais que os grandes nomes da literatura espanhola então afagavam; apoiava-se numa coloquialidade não conhecida ou pelo menos rara entre os escritores da época. Era, para ouvidos e sentimentos, de um realismo penetrante em linguagem de povo; uma reconhecível visão parodística da vida que então rodeava os seus leitores: visão da Espanha decadente, empobrecida com a emigração para as Américas e com as guerras, a que suscitava esta crítica de amargo humor a uma nova sociedade de burguesia a nascer, com parasitismos e ociosidades, abundância de deserdados e avessa, por descrença, aos méritos do trabalho.» Sem dúvida, há um claro diálogo entre A Relíquia e O Lazarilho de Tormes, embora A Relíquia não seja um romance picaresco. Lembremos que o título original do livro era A Vida de Lazarilho de Tormes e de Suas Fortunas e Adversidades. Livro também ele escrito na primeira pessoa e através de um anti-herói, como o são todos os protagonistas da comédia. E não nos podemos esquecer que, no universo da escrita de Eça em particular e da escrita lusitana em geral, Teodorico Raposo é um anti-herói por excelência e que Eça conhecia bem O Lazarilho de Tormes e apreciava-o. As relações entre o livro de 1554 e o de 1887 são evidentes. Mas são propositadas e pretendem que o leitor pense e veja essas relações como um diálogo e não como um pastiche.

O diálogo que Eça estabelece com O Lazarilho de Tormes vai muito além do género picaresco. Não apenas pelo terceiro capítulo, mas ao longo de todo o livro. Na realidade, não há picaresco tout court. Veja-se panoramicamente o que se entende por romance picaresco. Trata-se de um romance que, a partir de uma estrutura em episódios e de um relato normalmente na primeira pessoa, procura explicar o estado de desonra do herói, para o qual são determinantes a sua condição e circunstâncias sociais, que aproveita para criticar, usando geralmente um tom satírico e mordaz. O relato é sempre retrospectivo, pois a personagem relata a sua vida desde a infância até ao momento presente em que está a narrar a história, abordando aspectos referentes à sua genealogia, que determinam a sua personalidade, e às condições sociais em que vive.

Na introdução à edição de O Lazarillo de Tormes de Milagros Rodríguez Cáceres, Mário M. Gonzalez, escreve: «Tentar definir o que é um romance picaresco não é tarefa fácil. Um trabalho nesse sentido merecidamente conhecido é o artigo de Claudio Guillén “Toward adefinition of the picaresque”. No entanto, procurando um enunciado mais sintético, propomos entender aqui romance picaresco como sendo a pseudo-autobiografia de um anti-herói, definido como um marginal à sociedade, o qual narra suas aventuras que, por sua vez, são a síntese crítica de um processo de ascensão social pela trapaça e representam uma sátira da sociedade contemporânea do pícaro, seu protagonista. O principal traço formal da picaresca é — ao menos no seu início — o seu caráter autobiográfico, ou seja, o narrador de primeira pessoa.»

Veja-se ainda, na mesma introdução supracitada, outra característica comum a O Lazarilho de Tormes e A Relíquia ou, melhor seria dizer, comum a Lázaro e a Teodorico Raposo: «É conveniente levar em conta que Lázaro, e os pícaros clássicos em geral, apresentam-se como portadores de um projeto pessoal de ascensão social. No entanto, eles excluem desse projeto o trabalho, já́ que este, na Espanha dos Áustrias (1517 – 1700), aparecia muito mais como um obstáculo à ascensão, visto que a não dependência do trabalho era requisito para a obtenção de títulos de nobreza. O “homem de bem” com quem o pícaro aspira a se confundir não pertence ao universo do trabalho. Pelo contrário, é definido por uma aparência que o separa deste. Assim sendo, o pícaro procura parecer, o quanto antes, um “homem de bem” e, para tanto, terá́ na obtenção da roupa adequada um dos seus alvos mais imediatos.»

Outro dos pontos de contacto é que O Lazarilho de Tormes é escrito como uma resposta a alguém que solicitou o relato ao autor. E, neste caso de A Relíquia, a solicitação não é feita pelo professor Topsius, mas a narrativa é levada a cabo de modo a colmatar uma falha grave no livro deste. Como escreve o estudioso Claudio Guillén, em The Anatomy of Roguery [Anatomia da Malandragem]: «[…] a confissão pública de Lázaro […] tem como ouvinte não o leitor, mas a pessoa que solicitou o relato.» (pp. 431-32) Aqui, Teodorico Raposo, tenta repor a verdade acerca de um episódio da sua vida, que terá sido deturpado pelo professor Topsius no seu livro sobre Jerusalém, onde conta partes da viagem que fez junto com Teodorico Raposo. Os pontos de contacto entre o romance picaresco e A Relíquia são muitos, como se pode ver.

Mas contrariamente ao romance picaresco, em Teodorico Raposo não são as condições sociais que determinam o seu comportamento e a sua desventura. O que determina o comportamento e a desventura é o seu egoísmo, ou, como iremos mostrar, o mal radical que ele escolhe, tal como aparece na obra de Kant, de 1973, A Religião dentro dos Limites da Simples Razão. No fundo, é o exercício da liberdade através de más escolhas, de uma não entrega à razão.

Outro dos aspectos de não somenos importância, na ultrapassagem do picaresco, é a invenção de autores e livros. Aliás, esta invenção de autores, principalmente o alemão Topsius, doutor pela Universidade de Bona e membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas, que escreve uma obra sobre Jerusalém – Jerusalém Passeada e Comentada –, em sete volumes in-quarto, irá influenciar o poeta e escritor Jorge Luís Borges, que tinha um enorme apreço por esta obra de Eça de Queirós. Aleph é onde podemos ver melhor essa influência, levada ao extremo. Outro aspecto para além do picaresco em A Relíquia é a descrição da paixão de Cristo. E, neste caso, o célebre capítulo 3, que é de longe o maior de todos, é uma ruptura completa em relação ao estilo picaresco, que se pautava pelo realismo. De tal modo que, devido a este capítulo e em perfeito diálogo com o livro castelhano, Eça de Queirós acrescentou um sub-título a A Relíquia: «Sob a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia». O sub-título não é fortuna e desventura (de Teodorico Raposo) e o título não é Teodorico Raposo. Pelo contrário, o título é A Relíquia que, como veremos numa das últimas partes deste nosso exercício, está intimamente ligado ao tema central do livro.

Continua na próxima semana.

27 Out 2021

Dentro dos momentos

Serpa Pinto, Lisboa, domingo, 3 Outubro

Desde a (provável) primeira exposição de banda desenhada acolhida por museu nacional, dedicada a José Muñoz («Cidade, jazz da solidão»), nos idos de 1994, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro/Museu da Cidade, muito terá mudado, mas desconfio que não o bastante para evitar os esgares de excelso desdém ao ver bd nas paredes do MNAC. Mais ainda tratando-se de tira cómica, Bartoon. Talvez se salve por apresentar «O artista do momento: o Homem do Paleolítico». O mano Luís [Afonso], no seu inesgotável labor, uma escrita de subtilezas à base de gestos e olhares, anda esculpindo há décadas as luzes que projecta sobre temas que vão fazendo de nós o que somos, corpos do momento. No caso, reúne-se o comentando à volta das magníficas gravuras a céu aberto de Côa, tendo até acrescentado o dito Homem do Paleolítico à sua galeria de personagens. Digo magníficas em eco do que fui «ouvendo». Apesar de ter passado noite acampado à porta do Museu de Etnologia em greve de fome para que não acabassem debaixo de água, ainda não fui celebrar aquele sagrado, como deve ser, de olhos abertos e corpo inteiro.

(E vão duas recordações em um só parágrafo, continuas envelhecendo, meu velho).
E depois reencontrei o António Faria (vivemos tempos de reencontros, valha-nos isso), que interrompeu as suas paisagens para desenhar esta exposição. E para revelar o verdadeiro rosto do Luís, artista dos muitos momentos, desvelado a partir dos olhos das suas personagens.

Horta Seca (versão n.º 20), Lisboa, sábado, 9 Outubro

A Quinzena [Jean Moulin] fecha com estrondo e dois lançamentos. O do livro-relâmpago, «Jean Moulin Lisboa 1941», onde se acolheu o essencial dos textos e dos vestígios da sua passagem por Lisboa e por nós: o discurso de Malraux, dele fazendo rosto da França, o testemunho literário e (talvez) vivido de Jorge Reis, um belíssimo conto do Fernando [Sobral] a esticar todas as possibilidades ao limite da paisagem, o relatório com as contas da Resistência partida, e muito mais. Umas noitadas valentes, a fazer lembrar outros combates de urgência, corremos atrás do Jorge [Silva] que andou, tal maestro tresloucado, a pôr tudo e todos no andamento certo. Entregámos as 216 páginas a 4/4 cores ao Carlos Vintém na segunda-feira e ao fim do dia seguinte tínhamos 50 exemplares brilhando (demais) nas mãos. (Estes milagres ainda vão acabar com as tuas dúvidas acerca da impressão digital, cota…). Faltou o terno e atento texto do Ferreira Fernandes, que fez a propósito para «A Mensagem» (https://amensagem.pt/2021/10/05/jean-moulin-lisboa-comemoracoes/), mas nem a mais radical tecnologia resolveu o tempo: como incluir texto que ainda não foi escrito?

E depois o outro, aquele para as supostas crianças, quem sabe jovens, inevitáveis adultos, «Jean Moulin, a sombra não apaga a cor» (ed. APCC), traçado a meias com o Tiago [Albuquerque], que acabou por não conseguir estar. Aliás, senti-lhe a falta durante o processo inteiro de criação, que me interessa mais partilhado, dividido, rasgado. O combate entre o possível e o impossível nem sempre se perde, nem sempre se ganha.

O que aconteceu por estes lados, explodindo a partir da Casa da Imprensa, fez-nos acreditar. Descontemos os encontros e reencontros, que os houve e abraçados, além de gestos simples e comoventes, presenças regulares, disponibilidades que reverberam. Aconteceram filmes de sala cheia até altas horas, aqui no Ideal. Centenas de gente a perder-se nas exposições. Debates, acesos, e não apenas entre historiadores de renome. E depois a pedra, momento singelo em dia de comemorar a República, com todos os muitos oradores ironicamente disso se esquecendo. Está no chão do miradouro, a dizer com um olhar penetrante em granito negro do Zimbabué sobre lioz branco que as raízes podem ser horizonte. Afinal, com bem notou FF, se foi aqui que Moulin ganhou a luz, andámos, entre fogo e rasgo, a celebrar Lisboa. Uma certa Lisboa.

Horta Seca, Lisboa, segunda, 11 Outubro

Desmontada e embalada com mil cuidados a exposição Moulin, aguardo o transporte que a levará para Óbidos. Folheio o jornal do Festival Literário e noto gralha na prosa onde tratei de fazer coincidir festival e almoço de verão. Não dá para sacudir. Que venham os dias de outros e dessoutros, de vertigem e cansaço, de saber e sabor, de festa e hipocrisia, de deslumbramento e desfeita.

«Uma vespa. Uma vespa pousa-me no braço, sendo esquerdo pede palmada da mão oposta, dizem. Travo para garantir ao olhar que não é abelha, digna de respeito maior. O dono da casa e da mesa sob latada mediterrânica grita as vezes suficientes até que me aperceba: a bicha tem nome, não merece morte súbita. Uma vespa pode ter nome e nisto percebo o essencial.

Sou do Sul, portanto lugar de mesa invariavelmente estendendo-se sob sol-posto em rima com a maltosa feita casa, cal de parede e o sacudir de paisagem, serviço dobrado de sorrisos e vincos fazendo cama para pão e vinho. O cortejo dos dedos pendentes de suas mãos, marcadas pelo fazer, reparo, trazem comida e bebida, as cores, as dores. Alguém levanta a voz, sussurros concorrem com o vento, os talheres debatem-se, há-de alguém amanhar as tensões e as flores dos que, pelo toque, se dizem família. Os amigos, com eles montanhas e rectas. As falas que se partem como pão, dizem. As vozes logo se alevantam sob sopro da alegria, outros mandam calar, que faz parte. Há segredos para conter e revelações de nada para celebrar, corpos ansiosos por correr. Entorna-se um copo, elogia-se a receita, o forno, o gesto. Um dos outros terá que lavar a loiça, recolher os restos, abraçar o que sobra da partilha, uns que chegam e partem, a mesa afinal um peito. Como saber se a refeição abre, vai de meio, ou se finda? Só se ama conhecendo.

E nisto um festival. Do outro lado da mesa atiram papel amachucado garantido registo de rima imemorial com cantar e de discussão com pensamento e de debate com o marulhar do oceano e os toques de pele com o desejo e uns raios que nos partam. Para que conste, o deejay, antes de o ser ao ar livre, foi na rádio o maestro das convergências. Deixemo-lo ser agora nas noites recolhidas ao cubo. Valha-nos São Programador, padroeiro dos acidentes, esse Cristóvão das curvas!

Ao quarto parágrafo (no original estava terceiro, nunca atinas com números, velha carcaça) partilhemos a clareza possível: sacudo folhas e sobra-me um Folio a perder de vista, almoço de domingo para o que der e vier, pequenas heranças e o horizonte que nem navalha, erga-se em grito flamengo a coreografia de mãos desdobrando paisagens, guardanapos, gritos dissonantes, ideias de passar muralhas e de erguer livrarias no altar, toque enfarinhado da quentura da côdea, a sopa arrefecendo, velhas histórias, uma promessa de fruta. Cá entre nós, mal o outro mal se assome no desvão da frase faz-se fruta tocada. Morra quem se negue.”

27 Out 2021

A fome de Camões

A fome é meu final, o meu poente!
Saturnologia de Gomes Leal

 

Poema em 4 Cantos, este é um testemunho sem tréguas nem vacilações. Talvez que fomes tais tenham sido esquecidas no emaranhado das necessidades imensas e imediatas pela ideia peregrina do fim dos obstáculos e na procura do prazer a qualquer custo, não sabemos dar um nome para a nossa emergência, e na memória mais distante trazemo-la como a um espinho. Mas esta é também a fome ontológica da criatura em rota de colisão com a coisa criada, a senda de uma busca que bruscamente domina, faz destino, atravessa o ser – em 1881 já Gomes Leal tinha sido preso sem direito a fiança nem outras condições para contestar a acção, eram giratórias as portas dos desafios, e emblemáticos os Cantos desta matéria a tratar – estamos na presença de gatos, que mesmo escanzelados e empurrados para o cimo dos telhados nunca perdem a altivez dos invencíveis, uma teia difícil de ser tomada pelo medo, que fomes assim, impõem desassombro.

Nós que arquejamos e tanto nos deleitamos nas imediações do caricatural, devíamos poder vê-los lutar, seria boa essa visão electrizante, esse conhecimento das coisas tangíveis que colidem com as consciências, rever os jejuns das expurgas, tomar o punho das vidas no limiar, seria compreensível saber das suas fontes pródigas ao redor dos pântanos e por que não desertavam quando banidos da Cidade, teríamos mais tempo para saborear o que exigimos da vida e mais razões para agradecer uma saudável pequenez. Tanta gente de costas voltadas brandido na costumeira chacota dos hábitos, e nenhuma correspondência com estas coisas! O dom de esquecer pode ser bom, mas não deve seguir viagem para a vacuidade.

Que fomes assim deram a nascer as crias das feras que são sempre as mais belas, não nos ameaçaram com sua rotineira condição e ainda extraímos delas a maior doçura do universo ao redor, que muitas cresceram e se quiseram abatidas para pacificação da urbe de dentição escarninha, que não podemos meter o génio numa garrafa e deitá-lo ao mar, que se hoje dizemos como é, não conseguimos afirmar como se faz. Transfigurados com trechos de coisas ditas imaginárias e partindo da real razão do direito de cada um, a Maçã cai pela lei física da constatação toda feita ciência, aprendendo todos com a lógica as imponderáveis manifestações da vida. Há um dia que a Fome nos resgatará e não servirá de muito olhar para aqueles que tanto nos saciaram pelo seu frémito e que deixámos de saber ver. Um dia para voltar a rever estas paragens.

As vozes, essas, vêm de mais longe e os sinais estão intactos, nestas videiras já não se espremem as uvas, a beberagem não é forte, e os mostos são recolhidos em urnas; parece-nos normal a Abastança, este último estado de terror, que a Terra sem grades fecha tudo o que para cada um já não é vital. Já subsistimos parados como gado nos matadores, falando da estranha circunstância, e foi exactamente o que não muda aquilo que surpreendeu ainda mais.

Em Macau jogava xadrez, o poeta, bem longe dos Casinos e dos regimes, em «lôbregas jornadas» a política (inter)nacional era uma Barca que o levara e trouxera, sempre de longe, com os anéis do astro baço andaram rolando na matéria sem freio dos seus dias estes estranhos seres e ninguém pergunta agora por tais Fomes que os tornou tão desiguais.

« ……da Justiça sublime ao trono santo,
às solenes e eternas regiões,
Pedir justiça ao pranto de Camões.»

26 Out 2021

A Fábrica de Vinho Chinês Tai Cheong

Quando em 2010 pretendemos escrever sobre a loja de vinho chinês Tai Cheong, situada ao fundo da Estrada do Repouso, pouca informação obtivemos do funcionário que aí trabalhava e apesar de por três vezes a visitarmos, nem o nome lhe conseguimos saber e tão pouco quem era o patrão. Ao centro do acanhado compartimento da loja encontrávamos sempre uma mesa com pessoas idosas a jogar majong e na parede do fundo, um conjunto de antiguidades colocadas entre o altar a Kuan Tai e por cima, a tabuleta com o nome do estabelecimento. Já numa das laterais paredes, prateleiras cheias de garrafas, entre elas de cerveja Tsingtao cujo rótulo referia ser vinho de arroz glutinoso de original fermentação, tendo os caracteres em baixo a dizer “Tai Cheong antiga fábrica de vinho”. A última prateleira fazia de balcão e escondia enormes potes antigos gravados com dragões a armazenar o vinho, acessíveis por buracos no tampo de madeira fechados por rolhas.

Aberta ao passeio, daí fomos assistindo em silêncio ao ritual da venda quando os clientes entravam na loja para comprar vinho e o funcionário abria a caixa de metal que guardava as várias medidas e só depois o vendia já engarrafado ou, mediante o pedido, escolhia uma das quatro conchas de alumínio nela existente com diferentes capacidades e mergulhando-a num dos potes, vertia o líquido com a ajuda de um funil para o vasilhame trazido pelo cliente. Finda a transacção, voltava a fechar a tampa da caixa e recebia o dinheiro. Duzentas patacas era o imposto que a loja pagava por ano para vender vinho, como aparecia num papel exposto na parede.

Para facilitar um início de conversa compramos uma garrafa, perguntando se o vinho era feito em Macau e a resposta foi ser produzido em Panyu, província de Guangdong. Aproveitando então o degelo na comunicação, questionamos sobre a pequena fotografia exposta na parede a mostrar um jovem a andar de bicicleta, referindo o funcionário com um ligeiro orgulho ser ele o protagonista, já lá iam mais de 50 anos.

Em superficiais pesquisas, percebemos ser esta a última das lojas de vinho de arroz que em Macau permanecia aberta, após o encerramento em 2010 da Cheóng Ón na Rua de S. Paulo.

Em 1950, Macau só em lojas de venda a retalho de vinho de arroz tinha 118 e fábricas havia 44. Com a lista de 1981, que registava 27 fábricas, deambulamos pela cidade na esperança de ainda existir alguma. Sem nada encontrar, voltamos à loja Tai Cheong para tentar conseguir mais informações.

Em 2021 regressamos à loja, mas fechara em 2019, sendo-nos revelado ter sido esta fábrica de vinho chinês uma das mais importantes de Macau. Com vontade de conhecer a sua História soubemos poder encontrar na cidade um dos filhos do fundador, dono da loja de chá Va Lun, na Rua 5 de Outubro. Assim, durante uma manhã aí escutamos do Sr. Chang Chi Fai, amável e interessante personagem, as informações que até então nos falhavam sobre a fábrica Tai Cheong.

História da fábrica

O seu pai, Chang Hin Meng era natural de Jiujiang, Nanhai província de Guangdong, e quando em 1939 esta província foi invadida pelos japoneses fugiu com a família para Hong Kong. Enquanto aí vivia, abriu em Macau uma fábrica de palitos, Dai Wa e outra de châu peng (fermento para fazer vinho de arroz), criando assim empregos aos seus conterrâneos.

Em 1941 veio para Macau e nessa década de 40 fundou a Fábrica de Vinho de Arroz “Tai Cheong”, na Estrada do Repouso n.º 129, onde se situava a loja e atrás desta encontrava-se a fábrica a ocupar a área traseira de sete espaços comerciais, tendo no outro lado da rua mais três lojas para armazenar o arroz.

A tomar conta da fábrica ficou o irmão Chang Chan Wa, que era o segundo filho. O vinho na altura era produzido num recipiente de estanho com capacidade de 15 kg onde o arroz cozia durante uma hora, sendo depois submetido à fermentação. Na primeira cozedura a vapor fazia-se o vinho para cozinhar de pouco teor alcoólico e só após uma segunda cozedura este atingia os 31,5º. Com essa dupla destilação (seóng chêng) o vinho transparente era colocado em garrafas de meio litro pois os habitantes de Guangdong gostavam de o beber a acompanhar as refeições. No entanto, o estanho dos recipientes deixava resíduos de chumbo levando o governo de Singapura a proibir a importação do vinho de arroz de Macau.

Em 1954, Chang Chi Fai após complementar o curso secundário com 18 anos foi trabalhar para a fábrica. Como a produção continuava a usar o antigo método decidiu desenhar e fazer de aço inoxidável a panela alambique para substituir a de estanho, aumentando-lhe a capacidade a fim de poder cozer 45 kg de arroz. Sendo preciso grande quantidade de água abriu-se um poço e para a conseguir fria foi-se buscar mais fundo pois necessária para cortar rapidamente o levedar com o novo bolo de vinho, que desenvolveu através do arroz glutinoso importado da Tailândia.

Este era triturado até ficar em pó, depois colocado em água e após seco dividido em bolinhas. Tai Cheong era a única fábrica a produzir desta maneira o vinho e em 1957 começou a vender esse châu pêng às outras de Macau. A juntar aos já bons resultados, inovou com a técnica de esterilização durante a fermentação usando luz ultravioleta para eliminar possíveis contaminações bacterianas e para purificar o vinho mandou vir de UK um filtro especial.

Se até então, com meio quilo de arroz se produzia quatro leong (1kg = 32 leong) de vinho, agora com a mesma quantidade de arroz conseguia-se 24 leong (¾ kg = 750ml de vinho). A qualidade também aumentou pois a fermentação era completa e assim conseguiu baixar o preço da produção.

Na década de 60 a fábrica precisava por dia entre uma a duas toneladas de arroz e por isso começou a importá-lo directamente da China, tornando-se o maior agente em Macau de todos os produtos necessários para a feitura do vinho de arroz. Tinha mais de 300 enormes potes, armazenando cada um 400 litros, havendo ainda um recipiente feito de aço inoxidável com a capacidade de 1750 litros.

Assim em três anos a fábrica de média tamanho tornou-se a maior e a número um de Macau. Em 1965 Chang Chi Fai deixou a fábrica e virou-se para o negócio do chá.

O vinho produzido em Hong Kong pagava 0,9 HK$ por cada meio litro, enquanto o importado tinha uma taxa de 1,1 HK$, mas mesmo assim o preço do vinho de Macau continuava aí a ser mais barato. Nessa altura, Macau exportava 80% do seu vinho de arroz cozido duas vezes para o Sudeste Asiático, Canadá e USA.

Na década de 80, alguns negociantes de HK usando álcool industrial e tornando-o transparente venderam-no como vinho de arroz, provocando a cegueira e morte a quem o consumiu. Tal levou à queda da confiança dos consumidores, que optaram por cerveja e uísque, dando-se assim o declínio do vinho de arroz.

Com a enorme diminuição de consumo, a fábrica fechou por volta do ano de 1987 e o último patrão, Chang Chan Wa, antes de deixar Macau vendeu a loja ao antigo empregado Tang Gan, o nosso primeiro co-locutor.

25 Out 2021

Elegância e Imagens – Família, infância – Legendas sem Fotografias (7)

Recordações de P.
Fotógrafo de rua, P. e pais, 1955, Rossio. 

 

Estamos elegantes. O rossio era um sítio elegante. Para irmos a certos sítios precisávamos de estar elegantes, pois se não estivéssemos não nos deixavam entrar. Nunca mais me esqueci disso. Se estás feio, não entras. Se estás bonito, entras. Vejo uma certa crueldade nisto, mas não sei explicar porquê. Sempre percebi que a elegância era importante e que isso abria as portas mais complicadas. Uma espécie de abracadabra. Os feios e mal vestidos não sabiam pronunciar abracadabra. Não encontravam a palavra certa para pôr de lado um obstáculo. Eu sempre senti que tinha essa palavra certa. Não sei qual é. Claro que não é abracadabra. Até pode não ser nenhuma palavra, pode ser apenas um silêncio qualquer e um gesto certo. Mas sempre senti que tinha esse poder. E que outros não. E isto não me deixava orgulhosa, o que é estranho. Por vezes, ficava mesmo envergonhada de sentir que era elegante e que por isso entrava em sítios que outras pessoas não entravam. É estranho isto. Gostava de não ter aprendido a palavra abracadabra. Mas os meus pais ensinaram-me a fazer abracadabra desde cedo. Não sei se foi uma prenda deles, se foi um castigo qualquer. Mas não posso ser injusto, eles queriam defender-me.

Recordações de C.

Estive sempre rodeado de mulheres. Isso tem importância. Nas fotos quase que não se vêem outros meninos nem homens graúdos. As imagens só apanham o que está na realidade, não é? Não podem inventar. A minha cabeça pode inventar, até a minha memória pode inventar. Mas a fotografia não. Gostava de ter outras fotografias, mas não tenho. Posso inventar ou mentir, mas não tenho muito jeito para isso. Já passou. Estas imagens já passaram, já não existem. Prefiro assim.

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

22 Out 2021

Uma dispersão do diabo

Eis-me numa dispersão do diabo, igual à da senhora australiana que, como foi noticiado esta semana, descobriu já tarde que tinha duas vaginas, quando, num assomo de curiosidade, perguntou à mãe (que pelos vistos nunca lhe mudara a fralda) se costumava meter primeiro o tampão na da esquerda ou na direita. Há vidas santas!

Excertos de três livros em curso:

Excerto 1
A minha vida? Feita de restos, de ingratos desencontros. Entra aquela mulher atraente no café, dá-me a espertina e ponho os óculos: é o casamento feliz de Joni Mitchell e da Suzanne Vega. Tirando a dentuça.
Paira, nesse esplendor condoído da metade dos quarenta.
Que pena não ter nove vidas como o meu gato Sebastião (faz hoje anos) para poder cantar com ela o Blue e o Luka.
Ainda teríamos filhos, dois, e numa visita ao Etna, falar-lhe ia de Empédocles, com cuidado, pra não tropeçar em arbusto incandescente.
(Mete-se a minha mulher, E eu, também não vivo de restos, não tenho os mais vivazes desencontros? Já não estamos sós nem na escrita! Tranquilizo-a: tens sim, meu amor, por isso não cometo o risco que te defraudaria: Viste, acabei de cair no Etna!).
Não te esqueceste dos bróculos, pergunta-me da cozinha (- mudei de parágrafo e de geografia!).
A Jade canta A Pedra Filosofal, a Luna ensaia pela nonagésima vez o Dangerously, de Charlie Puth (quem é?) eu faço o print de duas antologias de Emily Dickinson, roubadas ao amorfo manto da net.
“Tão fugitivo como o poente na neve”, diz a poeta. Fala da mente, digo eu: nenhum de nós tem razão. Para quê dar nome àquela bela miragem?
Na varanda, os jacarandás despem já o seu enxoval. Onde se meteu o noivo?

Excerto 2
De todos os livros sugeridos pelo bibliotecário, o único cujo tema me interessou logo e de que já tinha ouvido falar era o Moby Dick. Por um daqueles acasos felizes com que a vida nos trama, numa tarde de cata-caracol no Camponesa do Alva, assistira a uma conversa em que o primo açoriano de alguém, de visita ao bairro, enquanto chupava os gastrópodes, se entretivera a fascinar a plateia com um assunto absolutamente inesperado: a degola do cachalote.
A sua narrativa, brutal, foi tão arrebatadora que o dono do café, no fim, ofereceu à mesa uma travessa de amêijoas, pois, repetia, naquele dia “tinha-se fartado de aprender”. E como remate da conversa o primo açoriano recomendara a leitura do Moby Dick: “É um livro que sabe mais de baleias que a Bíblia sabe de anjos”.
Ainda hoje me pergunto o que me teria fascinado em Moby Dick, um livro de uma densidade excessiva para a capacidade de absorção de um rapazola de onze anos. Já não falo do vocabulário, que tiraria eu das «enxárcias lassas do sobrejoanete de proa», ou que poderia deduzir ao ler que «dos assuntos úberes medram os capítulos»? Ter-me-iam atraído os vários afluentes de curso fantástico que o Melville vai largando como quem não quer a coisa, ao jeito de ganchos narrativos: «Dizem que os pais de New Bedford oferecem às filhas baleias como dotes», «em Nantucket as pessoas plantam cogumelos diante das casas para conseguirem um pouco de sombra de Verão», «Hossea Hussea mandara encadernar os seus livros de contas com pele de tubarão de superior qualidade», «a alma é uma espécie de quinta roda numa carroça», «aquela mãe egípcia que deu à luz filhas já grávidas à nascença»? Seria da lenda que Melville relata sobre um lago da Serra da Estrela onde apareceriam misteriosamente carcaças de velhos baleeiros? Seria de ter intuído a absoluta precisão vocabular de Melville: «Foi portanto numa noite silenciosa que se avistou um jacto prateado», «empoleirado a desoras no alto do mastro», ou, como se lê num dito do Capitão Ahab: «foi Moby Dick que me desarvorou»?
Tudo isso mais o contraste deste genial romance de inabalável pulsação digressiva com as narrativas correctas, antisépticas e arrumadinhas de hoje. Hoje, na maioria dos livros, está tudo certo, o que lhes falta é a vertigem. A vertigem que nos assalta à leitura das primeiras páginas de Trópico de Capricórnio, a vertigem em que nos submerge o narrador quântico de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou a que nos imprime a loucura descabelada de A Música do Acaso, de A Noite e o Riso, de Partes de África ou a que é patente em muitos momentos de Manuel da Silva Ramos; esta sensação de torvelinho que transmite Melville e o absoluto domínio com que apesar do caos que pletoricamente parece invadir tudo nos tatua com uma impressão de irrefutável unidade.

Excerto 3
A arte é um reino da poligamia ou um estado do polígono? Continuo indeciso. Há lugar para a indecisão na mise en âbime? Nos sonhos sou visitado pela imagem de um homem que envelhece, sentado à janela do comboio. Furta-se a descer nas estações e apeadeiros, a ir lá para fora, como a mosca que se embriaga com os capitosos vapores da sopa mas receia cair na panela, o ruído fragoroso de cada cicatriz. Envelhece na janela do comboio, pois foi seu destino vaguear, como outros viveram indefinidamente em hotéis a ele coube-lhe a velocidade dos cometas, entre carris.
Uma noite, eram três da manhã e escrevia um artigo que me tinham encomendado, senti que metiam uma chave na ranhura de minha porta. Eh! – gritei. Fez-se silêncio. Seguido por uma corrida de retirada, célere como o fósforo que aprende a arder. Quem tem uma chave de minha casa e se apresta a visitar-me, sem avisar, às três da manhã, com intenções enviesadas? Esta noite não voltará. E amanhã terei de trocar a fechadura, pensei.
Mas não troquei. Para me sentir seguro, apanhei o comboio. O primeiro comboio da manhã para o Porto.

21 Out 2021

A americana

Tens dezoito anos e já percebeste que os jardins são iguais em todas as cidades. Viste a mesma estação de caminhos de ferro em todo o lado, viste o mesmo alinhamento de árvores nas alamedas em todo o lado, viste os mesmos bolbos raquidianos em todo o lado. Concluis que não existe um lugar que seja o teu. O mundo é uma paragem distante e a vida pouco ou nada te restitui. Tropeças mais nas ideias do que em ti próprio.

Restam-te os vinte metros quadrados do teu quarto. É a essa nave espacial a que pertences. Nela evaporas toda a cidade de Paris a bordo das cartas de Mário de Sá Carneiro. Nela bebes chá de frutas comprado numa loja de estrada em Badajoz. Nela traças a circum-navegação que te permite idolatrar seja quem for, ainda que não haja vivalma por quem possas morrer de desgosto.

Pensarás: A consciência de si própria nunca é actual. O que vem até mim – o que vejo e o que lembro – desaparece e esvai-se em cada instante. É como se o leme do barco existisse fora do barco e me lançasse a sós, metros e metros à frente da proa, no meio do oceano alteroso. Esse barco é afinal o curso da vida (repetes para ti próprio em surdina): um continente adiado, sempre meio perdido.

Adorarias apagar-te, fazer dos dias uma subtração. Sempre que sais de casa, fixas os olhos nas linhas imprecisas do asfalto. O teu corpo modificou-se e as vozes que nele e dele irradiam atropelam-se. Não imaginas sequer o que te falta, porque, muito provavelmente, viver é estar em falta. Quer olhes de baixo ou por cima para essa fonte rodeada de vasos, quer a olhes do interior onde cai a água ou de fora por onde agora passam os carros, é sempre a mesma fonte que tu observas. Mas nunca a abarcas na totalidade. A transcendência é apenas uma palavra que te segreda que tudo à tua volta está desconectado. Por isso sentes a vida como uma quebra e não sabes sequer como a exprimir com a tua boca. O medo não tem biologia, nem compleição. O medo é não poder convidar ninguém, não incitar a carne, não intimar o escuro.

Pensarás: Aquilo que nos espera é o oco profundo de um saguão, onde por vezes há pássaros escondidos que redemoinham a claridade. E assim foi.

Num fim de tarde uma americana apontou para o mapa e fez-te uma pergunta. Nesse tempo não havia americanos à procura de torsos e de talhes romanos. Quando muito, um simca chambord com franceses nos meses de verão ou os vates ingleses que começavam a escorchar os algarves. Foi uma raridade própria dos módulos lunares poderes seguir os passos dessa americana que tinha deixado os pais no parque de campismo e que navegava à vista pelas calçadas da cidade. Repartiram idiomas ou arquipélagos breves construídos nas tuas recentes viagens, já que o liceu e os primeiro anos da faculdade apenas te tinham cedido advérbios. A americana vertia linhas enxutas, o olhar azul bebé e um rosto seco de amêndoa, mas estava arrebatada com os ocres dos rodapés e com o calígrafo que exibias no teu jeito de andar.

Pensarás: Dizer o coração nas mãos é uma invenção da linguagem. Uma locução, uma frase, uma metáfora, não sei. Mas a invenção inundou a realidade da palma das mãos, suou-as e transformou-as numa espécie de bambu à chuva. Eis que a quiromancia não passa, afinal, de um deserto. Cada destino terá a sua linha, mas agora a linha é a que cada um dos dois pisa. O andamento, a lentidão, talvez o coração seja uma cidade para desencarnar distâncias. Respirei fundo o meu pensamento, confesso.

Ela queria perceber o sorriso das gárgulas, os ângulos dos relógios solares, a idade precisa dos primeiros arcos góticos, a dimensão da ladeira por onde antes passavam os reis, os caminhos da judiaria, enfim, o fado.

E de certeza que te quis perceber a ti que tinhas uma palavra para tudo, nem que fosse por causa do entrelaçado com que versavas os gestos rápidos, fugidios. Entraram no pátio do palácio e desceram até aos confins da muralha. Aí permaneceram do mesmo modo que se atinge uma derradeira finisterra e pela frente nada mais se vislumbra, a não ser o mar. Mas nesse molhe de proximidades havia cedros, a lateral de uma igreja, duas ogivas e, ao fundo, o horizonte a fazer de torno compressor.

Pensarás: Ela tem uma perna ligeiramente à frente da outra. A saia é comprida, leve com cores de tijolo e folhas de jarro estampadas. Está tudo ali.

Na tua frente e depois a teu lado, a escassos centímetros, a americana está imersa na tua presença. Ela quase que plana no fundo do lago por onde cresce a pulsação. Mas tu não sabes onde colocar os braços e pressentes que a cabeça corrupia. Uma penumbra de fim de inverno galga o plano da noite. Sim, anoiteceu repentinamente e a rua, o passeio, os terraços, o paço, as janelas, os arcos, tudo está fechado, vazio, desabitado. Esta urgência dos corpos parece ter sido concebida para que os dois fossem um único estilhaço a vibrar no crepúsculo. Não sei se hesitas, nem sei se ela espera que tu deixes de hesitar. O sexo é o magistério que corta, que transborda. Bastaria o mais leve indício, o golpe. Fosse o que fosse que se evadisse do mundo.

Pensarás: que partido tiraste, anos mais tarde, das leituras de John Ruskin? Em jovem apaixonou-se pelo jacente do túmulo de uma mulher que em vida se chamou Ilaria di Caretto. O brilho dos lábios, a liquidez oval do rosto e a lascívia com que as mãos se abriam na pedra perseguiram-no a vida toda. O casamento com Effie Gray seria anulado por nunca ter havido consumação e nos poemas, dedicados à adolescente por quem se apaixonou já em velho (Rose la Touche), era ainda à escultura de Ilaria que o esteta romântico verdadeiramente se dirigia.

21 Out 2021

É de lá

No dia quatro de Outubro de 2021 muito terá acontecido neste planeta. Muitas vidas, muitas mortes. Muito espanto, muita desilusão. Muita alegria, muita tristeza. E muito truísmo em diferido, como podeis agora mesmo comprovar por estas constatações que certamente o mundo aguardava com ansiedade.

Agora a sério, por uma vez. Permitam que volte a abusar da vossa generosidade para regressar às pequenas coisas que engrandecem mesmo à nossa frente, minério demasiado nobre para este modesto mas teimoso garimpeiro: esse foi o dia em que algo se terá passado com o servidor Google que alimenta as principais redes sociais deste mundo. De repente, tudo desapareceu. Angústia, horror, dúvida, impotência: o que terá acontecido, o que posso fazer, como manter o contacto com quem queremos e, ainda mais terrível, de que maneira poderão entrar em contacto comigo? Será do meu telemóvel? Será, para reabilitar uma antiga e patusca expressão dita sempre que a ainda púbere televisão portuguesa deixava subitamente de transmitir – será “de lá”?

A questão técnica pouco importa para o que me interessa. Menos ainda o prejuízo financeiro que terá custado ao pobre Zuckerberg – fala-se de seis mil milhões de dólares – a que, estou certo, conseguirá sobreviver. Não: foram as consequências desse hiato tecnológico que me levaram a escrever. Ou seja: de repente, de forma inesperada aconteceu isto: houve gente que ligou. Assim, de viva voz. Lembram-se do que isso era, amigos? Usava-se muito, anexado a outro costume em extinção a que se deu o nome de “conversar”.

Aqui chegado, importará dizer-vos ou repetir para os pobres que insistem em ler-me desde o início: não tenho nenhuma simpatia ou convicção pelo “antes é que era bom”. Nada. Agora é que é. Mas existem coisas que funcionam, que atravessam os dias e continuam a fazer a vida melhor. A voz de um amigo, por exemplo, é uma delas. Não um eco no WhatsApp, não uma fotografia no Instagram. A voz, alguém que vos telefona – ainda é assim que se diz? -, um outro ser humano como interlocutor nem que seja para oferecer as mais terríveis notícias. Ou as melhores.

Agora e graças à facilidade que as redes sociais nos oferecem os pêsames têm o mesmo valor do que as felicitações. Apenas mudam os desenhos escolhidos para significar emoções e as palavras, sejam elas quais forem, sacrificam a sua vida numa caixa de comentários para que possamos ficar de consciência tranquila e longe do que é humano – a dor e a alegria.

Por isso é que nunca irei esquecer aquele quatro de Outubro de 2021.Através de uma falha numa máquina abriu-se uma brecha que deixou entrar o anacronismo de uma voz humana que procura por nós. A humanidade regressou, por breves instantes. Mas, sem surpresa, foi “de lá”.

20 Out 2021

Outubro

Estas coisas da memória. Fios finos, que rasgam a luminosidade dos dias, voltando a inscrever o que nunca se arreda para mais longe do que um segundo plano de sensações sedosas e quase ténues. Como um sopro.

Um bater de asa. Passou um anjo. Mas que logo se acendem com toda a significação. Cores outonais, em avermelhados oxidados da queda. Uma certa natureza a perder a folha para reiniciar a renovação. Mas lembro o esverdeado daqueles olhos com uma profundeza que pouco se exprimia e era esperança. Outubro, cinco, logo no início é desde sempre a memória de um aniversário de quem sempre gostou de o celebrar, com toda a família e o contentamento de uma criança, mas tão sóbrio. Desse avô de olhos transparentes esverdeados e sonhadores que, em qualquer lugar novo, encontrava sempre um sítio um pouco à distância e à sombra, onde se sentar a fumar um dos seus cigarros, antes Sagres e depois Definitivos. E a sonhar as memórias e as dádivas. Esse avô que veneramos e foi um pilar forte no meio de tantas ausências e instabilidades familiares. Ficou a lancheira, o chapéu, tantos objectos e escritos esparsos, peças de mobiliário amorosamente aplainado, amaciado e envernizado. A caixa do dominó feito por ele e que jogávamos à tarde a seguir o número de pintas pretas. Mesmo pequenina desconfiava que o jogo não era assim tão simples.

Talvez seguir, sem saber estratégias mais complexas, seja o ideal de caminhar. E sim, era sobretudo disso que os seus momentos de longitude se alimentavam, porque de ambições nunca. Grandes ambições para si, nunca se lhe conheceu. E nisso, a vida descreveu-o com rigor. Marceneiro até á reforma e por paixão depois, dentro de casa a produzir mobiliário para atender ao crescimento da vida. Como seria se não existisse como foi? Em pequenina ia comprar-lhe cigarros e caixinhas de fósforos que colecionei com fotografias de caravelas e, as mais amadas, de gatinhos. E logo de manhã em casa, o jornal. E visitava-o na marcenaria a pedir uma coisa qualquer para os trabalhos da escola. Ou ficava a vê-lo em casa a produzir rolinhos de madeira aromática e lisa, enquanto me explicava o futuro do móvel.

As pessoas têm que ser alguma coisa. Que o reconhecer, que o assumir. Fazer parte. Ele, o meu avô A., era do Sporting e do Lusitano de Évora, republicano convicto talvez ao ponto de se estabelecer como data sua de nascimento o dia cinco de Outubro, num tempo em que as datas de nascimento na família, tinham um não sei o quê de deliberado e pouco rigoroso, por ausência de memória nítida registada ou por fuga à obrigação de registo em determinado período. Ou coincidência feliz. E comunista de alma, coração e memória, mesmo das torturas na prisão “política”, que não conseguiram arredá-lo dessa fé. Quando a grande questão não é a validade do paradigma mas a força da fé. Os dentes quase todos perdidos sob tortura, com filhos pequenos, a minha avó trazida a Lisboa para estar por perto naqueles meses sombrios, nómada em quartos da família e os filhos distribuídos por madrinhas e tias, entretanto. Para não falhar uma única visita. À espera, com outras, por vezes somente de um aceno à janela. Uns iam sabendo dos outros. Excepto em dias de “solitária”.

Aquelas pequeníssimas celas de isolamento total. Para reflexão e para castigo. Ou vice-versa. Quando o Forte de Caxias se transformou em estabelecimento prisional, começou por encerrar soldados insubordinados, ladrões de mercearias e grevistas, para ser, com a implantação do estado novo, uma prisão política. Dos crimes de pensamento e expressão.

E aquelas noites medonhas de visitas inesperadas, denúncias, às vezes, rusgas e buscas a meio da noite. Provas, panfletos ou livros suspeitos de veicular ideias subversivas. Vezes sucessivas em que o primo A., jornalista e assim alvo particularmente apreciado desses divertimentos, era levado.

O avô gostava de contar histórias, mais para o fim dos jantares em que se juntava a família. Mas da prisão lembro sempre as batatas. Eles, encerrados e comedores de batatas como os de Van Gogh. Ele dizia que quando estavam alentejanos na cozinha não iam as batatas podres para a comida. Que mais teriam que comer, pergunto. E parcialidade sua, talvez mas de que sobrava a questão positiva de, no possível, respeitar a dignidade daqueles homens. Ou definição de limites, quando mais poder não se tem do que sobre as batatas, para definir que nem ultrapassados todos os limites da violência sobre o ser humano, alguém com nobreza pode admitir ultrapassar algum, quando se trata dos seus semelhantes.

As pessoas têm que ter nas mágoas incontornáveis o registo subliminar dos sonhos que elas contrariaram. As pessoas têm que se definir, mesmo não definindo mas percorrendo um caminho de afectos e fé e convicções, que vistos de fora preenchem um determinado retrato. As pessoas são o que afirmam e o que fazem mas também o que sonham. Quando tudo se conjuga coerente, as pessoas são. Isso. Mesmo vistas de fora.

E é sempre tão bom, conseguir identificar os que são bons, mesmo sabendo onde também eles ou os seus sonhos falharam.

19 Out 2021

Desabafos do cantineiro

11/10/2021

 

Não é o melhor da Uma Thurman, os pés. Num deles ameaça o joanete e as unhas, “piquininas”, mate, velejam a custo num mar de carne, despontam ridículas como os narizes redondos dos anões da Branca de Neve recortados contra aqueles gorros inomináveis. A elegância do corpo, do rosto, daquele olhar malicioso como o gume de um sabre, tropeçam-lhe naqueles trambolhos – que custava ao Tarantino ter-lhe arranjado um duplo para aquele plano de “Kill Bill”, penso.

Contudo, aquilo que vejo na tela não é o Tarantino, mas “Nhanguitimo”, de Licínio de Azevedo, o último filme do cineasta moçambicano, onde ele adapta um conto de Luís Bernardo Howana e eu faço mais do que uma perninha, dado ser um dos dois protagonistas. É isso, faço de mau da fita.

É a vigésima vez que vejo o filme, nesta apresentação pública para algumas entidades oficiais (como a ministra da cultura e o presidente da república, os patrocinadores, e algumas figuras), em que em solidariedade com o realizador tive de cumprir agenda pública. Eu é que já não suporto ver-me e já só vejo os defeitos. E zás, introduz-se-me num insert, os joanetes de Uma Thurman, com que adormecera de véspera.

De qualquer maneira, os ecos do filme na imprensa moçambicana extirpam qualquer hipótese de cultivar um grama de narcisismo: procurando na net fotos do filme para ilustrar estar crónica, constato que os jornalistas só deram realce à presença do presidente Nyusi na sessão, nem uma só imagem do filme. Critérios.
E afinal como é a cereja?

É uma curta de vinte e cinco minutos destinada a fazer uma bela carreira nos festivais de cinema; um daqueles exemplos felizes de um magote de boa gente que se junta para remar tudo para o mesmo lado. Costumo dizer a brincar que só não ganho o Óscar de melhor actor porque o meu antagonista me papa as cenas todas, e é verdade, o Antonio Sitoe veste de uma forma superlativa a pele do “indígena” a quem o cantineiro Rodrigues (moi) tem de lixar (para lhe ficar com as terras de cultivo). No filme ganho eu mas na vida real faz-se justiça. Eu não vou mal como colonialista façanhudo (aliás, aproveitei as autoridades presentes na sessão para pedir uma “escolta vitalícia” assim que o filme passar nas televisões moçambicanas), e sou um convincente salazarista de uma ambição sem escrúpulos, mas o puto, que protagoniza já a revolta que incendiará a colónia poucos anos depois, come-me as papas na barriga.

E surpreenderá a câmara exímia (tanto nos enquadramentos como na luminotecnia, num preto e branco “agarrado”) do “Pipas” Forjaz e a música do João Carlos Schwalbach. Assim como o bom ritmo da edição. O resultado final é gratificante.

Aprendi bastante, sobretudo que o “overacting” só fica bem ao Gene Hackman.
Pessoalmente, acabrunha ver o cabelo que perdi com a covid (a rodagem do filme teve lugar duas semanas antes de ter sido contagiado). Face a isso até os joanetes da Uma Thurman são desculpáveis.

12/10/2021

Uma livraria perto de casa anda a fazer saldos com o que definitivamente não vendeu ao cabo de vinte anos e que já só atravancava o armazém. Numa semana comprei o volume onde se reuniu toda a obra édita do Raul de Carvalho por três euros, igual preço que paguei pela obra compilada do M.S. Lourenço, o livro do Viriato Teles sobre o José Afonso, por um euro e vinte, todas “As Tisanas”, da Ana Harteley, e o “Do Extermínio”, do Jaime Rocha, por idêntico dispêndio, o “Terra Nostra”, do João Miguel Fernandes Jorge, por oitenta centavos, dois volumes da Irene Lisboa por um euro e vinte, um volume de ensaios de homenagem ao Virgílio Ferreira, por dois euros… e continuarei atento às novidades que se forem depositando naquela mesa de refugo. Eis-me muito egoisticamente grato a que só eu saiba quem é aquela gente e a mais que sobre aquele tampo pingar.

Quarenta anos depois da independência a literatura portuguesa em Moçambique é um fantasma sem tripas nem leitores.

13/10/2021

Esperam que os clientes chamem. Mas vão afeiçoando o corpo, os quadris, os joelhos, o balanço dos pés, ao jeito da música. Não é ensaiado nem instruído, são apenas incapazes de não o fazerem. Os colegas homens, procuram ser mais sóbrios, mas o movimento do queixo sob a máscara denuncia-os: acompanham o ritmo da batida.

Vê-los em perspectiva, nesta ampla cervejaria de Maputo, é engraçado e contrasta com a pose hirta dos empregados de mesa das cervejarias da minha memória, a norte, que tinham a postura de pinguins petrificados e saudosos de que o frio os obrigasse a mexer.

Eu degusto lentamente a cerveja e folheio, pela décima vez na semana, um livro de João Pedro Grabato Dias; incubo para o prefácio da antologia dele que terei de escrever e que sairá em Lisboa até ao fim do ano, numa iniciativa do Pedro Mexia e da “Tinta da China”.

Um cheirinho: «Chegámos. / O meu morto é o primeiro do dia/ e é bonito isto de ser o primeiro em qualquer coisa/ algo que tanta gente pode verificar num balancear aprovador/ de perfis quási dignos, quási belos. / Passa mais fresca uma aragem de estádio/ um não sei quê de desportivo de goal de meta/ sem o cronómetro da metafísica, de pódio olímpico/ de alegres cem metros planos, de veloz velocipédico estrelato/ o da frente, o primeiro, o ás, o melhor o maior/ o maior morto do dia, o maior morto da semana/ o maior do mês, do ano, do biénio, do triénio/ do lustro, da década, da centúria/ do milénio, da era, da história, do universo…/ Em toda a simplicidade, o morto da minha vida/ o meu morto.» Excerto de “O Morto/ Ode Didáctica”, 1971

15 Out 2021

Os Leões de Daniel

Foi levantada uma questão muito recentemente que deve merecer um pouco da nossa atenção: animais, ou seja, carnívoros, passarem a ser vegetarianos, reportando quase em exclusivo para aqueles mais perto de nós, evidentemente estamos a falar de cães e de gatos. De certa forma, o deixarmo-nos de comer uns aos outros é a mais elevada das utopias e também uma conquista redentora que poria fim ao ciclo sacrificial, só que quando esta proposta foi lançada alguma coisa de genuinamente atávico ficou em silêncio. O amor animal é um valor adquirido, tanto, e de tal forma, que não seria possível viver sem esse laço que partilhamos com viva intensidade e gratidão, mas será que todas as vidas que se abeiram da nossa devem por isso seguir os tramites humanos?

O antropomorfismo é seguramente uma aberração que não é entendida como desrespeito, e para que desejamos nós seres à nossa semelhança?! A resposta mais plausível vai até ao instinto de poder, que não se sabendo, fica suspenso nestas vontades, a modos de combate por um mundo “melhor”. Porventura a ausência de medo provocou em nós uma demência contagiante, altiva e “sonhadora”? O nosso conforto terá dado azo a uma perda de sentido vital, aquela matéria impulsionadora de todos os crimes, e não só, de toda a maravilha? Bem capaz de ser assim.

Esta transgressão chamada “dor de dentes” no corpo físico das gentes deve ser também alongada aos caninos dos nossos amigos, que mesmo não sendo cães (canino é para todos): ou devemos arrancar-lhos para que não mordam, e sobretudo, não denunciem a “atrasada” evolução desse delírio natural? Há de facto, e cada vez mais, espécies híbridas ao serviço inumando de «Sua Majestade o Homem» que já não têm garras, isto, porquê? Para não arranharem os sofás! – Alguns, coitadinhos, repletos de pêlo nórdico no abrasante sul quais fantasmas iridescentes vão até às más réplicas da espécie egípcia para não acumularem matéria orgânica, mas jamais tão distintas como aquelas dos Faraós, e tudo isto, parecendo sedutor, não passa de uma perversão que denuncia desprezo, utilitarismo, e miséria moral num tempo verdadeiramente de arrepiar. Quem gosta de animais – destas animas – que de tão esplêndidas nos incitam a contemplar a sacralidade feroz, sente-se brutalmente ultrajado e sem força para se opor a uma barbárie cor – de – rosa. Sofremos de muitas desertificações… é o trabalho, as relações, a vida, isto e mais aquilo, e projetamos os afectos como uma imposição moral para com qualquer vida, quer ela queira, quer não. As vidas grandes odeiam que o amor seja da ordem do entretenimento, pois que na sua economia do esforço não pode falhar face às leis severas, devemos partilhá-las como os segredos, e tal como eles, sentir-lhes a maravilha, o instante, o último reduto, a transluzente compaixão…

Quanto a Daniel, não desmereceu nem a Deus nem aos Leões por força da sua grande aura de profeta, mas também é certo que os carnívoros se repelem no momento de se consubstanciarem, os carnívoros, só instigados se matam uns aos outros, porém, um dos engenhos humanos foi o de apaziguar as feras, e desde tempos imemoriais as cítaras tocavam nos dedos dos heróis para as acalmar, é que elas são passíveis de hipnose, ficando rendidas, e de olhar fixo e imóvel perante a melodia. Depois de uma semana de transe imobilista elas estavam saciadas pela beleza ímpar de Daniel, mas mal as soltaram estas lembraram-se que tinham fome, e tragaram os imigos do profeta, cumprindo o destino da terra de Judá; e se as abnegadas vítimas cristãs delas não tiveram medo, nem por isso deixaram de ser mortas, pois que o desplante da fragilidade excessiva perante uma força em andamento, faz parecer aos olhos de um predador que estão doentes.

Tudo isto traz à lembrança um vegetariano «serial killer» que enaltecendo o desperdício conseguiu instalar a maior forma de terror de que há memória, e se voltarmos ao início, ainda nos vamos debater com práticas de bruxaria em versão litúrgica, de sangue bebido nos altares, só porque Noé plantou uma vinha. – Parece que sim! A condição das espécies não é “fofinha” e ainda menos, se levarem com este Humano pelos seus magníficos focinhos adentro repletos de usura e transgressão defeituosa. Infecundos, com fêmeas tomando a pílula, e machos eunucos, agora vegetarianos, que andamos a fazer com os animais? Não, não é por aqui! Os lobos têm fome. Fomos nós que assaltámos a pradaria.

12 Out 2021

A Relíquia, de Eça de Queirós – parte 3 de 8

Segundo Kant há três classes de disposições originárias no humano para o bem: 1) a disposição para a animalidade, que origina a conservação de si mesmo; 2) a disposição para a humanidade, que origina o sentimento de igualdade e, concomitantemente, de obtenção de valorização de si por parte dos outros; 3) a disposição para a personalidade como ser racional, que origina precisamente a reverência à lei moral como lei da razão; é, no fundo, a disposição máxima para a reflexão acerca de si enquanto humano, e humano enquanto ser racional, a disposição que nos dá a consciência da nossa liberdade, a consciência de que somos responsáveis pelas nossas acções.

Reparem que estas disposições não são «naturezas», isto é, destinos, mas horizonte constitutivos do humano. Isto é, não há humano sem estes «constituintes» (palavra de Kant). E precisamente por isso, Kant refere ainda o que acontece quando nestas disposições o vício corrompe a natureza destas disposições. Na animalidade, quando o vício nos corrompe, entregamo-nos à luxúria, à gula e a uma selvagem ausência de lei, que segundo Kant é a não contemplação do outro no horizonte das nossas acções.

Não nos importamos se o outro sai prejudicado, desde que os nossos apetites sejam satisfeitos. Kant chama também a isto o amor de si, no sentido em que a pessoa pensa acima de tudo naquilo que será o seu bem-estar acima, não só do bem-estar dos outros, mas também no prejuízo dos mesmos. Na corrupção da disposição para a humanidade, entregamo-nos à inveja, à ingratidão e à alegria malvada. Com este último, Kant quer dizer «comprazimento no sofrimento alheio».

E do mesmo modo que há três classes de disposições para o bem, há três diferentes graus de propensão para o mal. Repare-se que Kant faz uma distinção entre disposição e propensão. A disposição é constituinte, a propensão é um estar-se predisposto a alguma coisa. Por exemplo, podemos ser predispostos ao alcoolismo, mas nunca chegarmos a beber ou até a controlar essa predisposição. Uma disposição é constituinte, por conseguinte sem possibilidade de não acontecer. O primeiro grau de propensão para o mal deve-se à pusilanimidade, ou, como lhe chama Kant «[…] a debilidade do coração humano na observância das máximas em geral […]» (35) Ou seja, apesar de vermos o caminho do bem, aquilo que deveríamos fazer, por fraqueza não o conseguimos fazer.

O segundo grau é a «impureza», isto é, como escreve Kant «[…] a inclinação para misturar móbiles imorais com os morais (ainda que tal acontecesse com boa intenção e sob as máximas do bem).» (35) Por fim, o terceiro grau de propensão para o mal, segundo Kant, «[…] é a inclinação para o perfilhamento de máximas más, i. e., a malignidade da natureza humana ou do coração humano.» (35) Trata-se no fundo daquilo a que Kant chama «perversidade do coração humano, porque inverte a ordem moral a respeito dos móbiles de um livre arbítrio e, embora assim possam ainda existir acções boas segundo a lei (legais), o modo de pensar é, no entanto, corrompido na sua raiz […].» (36)

Não nos causa qualquer dificuldade ver aqui Teodorico Raposo. Que ele seja um homem mau não nos causa quaisquer embaraços ao pensamento, mas como acusá-lo de «mal radical». O mal radical, segundo Kant, não se prende com a gravidade do acto em si, mas com a consciência dele ou, se preferirmos, com a sua premeditação e inversão do sentido moral. Escreve Kant, em A Religião dentro dos Limites da Simples Razão: «Este mal é radical, pois corrompe o fundamento de todas as máximas; […] deve, no entanto, ser possível prevalecer [sobre o mal], uma vez que ele se encontra no homem como ser dotado de acção livre.» (43) O que está aqui em causa, para Kant, é que, e passo a citar: «Nesta inversão dos motivos, graças à sua máxima, contra a ordem moral, as acções podem, apesar de tudo, ocorrer de modo tão conforme à lei como se tivessem promanado de princípios legítimos […]» (42) É aquilo que vimos hoje acontecer com os bancos, com as offshores, por exemplo. Quando fazemos o mal, conscientemente, mas o justificamos com a lei. É aquilo a que Kant também chama «radical perversidade do coração humano». (43)

E, continua o filósofo: «Esta desonestidade de lançar poeira nos próprios olhos, que nos impede a fundação de uma genuína intenção moral, estende-se então também exteriormente à falsidade e ao engano de outros, o que, se não houver de se chamar maldade, merece pelo menos apelidar-se de indignidade, e reside no mal radical da natureza humana […].» (44) Acerca deste mal radical da natureza humana falaremos em outra semana. Por ora, fixemo-nos naquilo a que Kant chama de mal radical pessoal, sempre ligado à premeditação e perversidade da lei continuadamente ou, se preferirmos, a sobreposição da interpretação da lei à máxima, que é aquilo que vemos em Teodorico Raposo nos primeiros dois capítulos do livro de Eça de Queirós, como iremos ver melhor ainda na sessão de hoje.

Para Kant, nós somos livres se formos racionais, isto é, conforme razão. E deixamos de ser livres se nos movermos segundo um objecto exterior, quer seja a aquisição de dinheiro quer seja aquilo a que ele chama felicidade própria.

Para Kant, se eu percebo o que está certo, mas não o faço, porque vai contra os meus interesses, contra os meus desejos ou os meus sentimentos, então não sou livre. Sou, pelo contrário, um escravo desses interesses. Escravo desses desejos e desses sentimentos é aquilo a que Kant chama «inclinações». Por exemplo, se sei que a ação X é errada, mas ainda assim a faço, empurrado por exemplo pelo medo, pela ganância ou pelo ciúme, não sou livre. Só sou livre quando faço aquilo que tenho a obrigação moral de fazer. Assim, não basta escolher para ser realmente livre, é preciso escolher bem. Só sou livre quando faço aquilo que tenho a obrigação moral de fazer. Porque seguir a razão é seguirmo-nos a nós próprios.

A liberdade é escolher segundo a razão e não segundo aquilo que são as nossas inclinações ou aquilo que julgamos trazer-nos bem-estar. No fundo, para Kant, o mal reside na vontade. É a vontade que nos impele a más decisões ou pode impelir-nos a más decisões, como também é muito claro em Teodorico Raposo. É a guerra entre razão e vontade. Ou se quisermos, a guerra entre liberdade e subordinação a algo exterior.

Porque a vontade tem sempre como móbil algo que não nos pertence. A vontade é dirigida para algo e por aquilo que está fora. E ficar deposto na vontade leva-nos a querer encontrar desculpas para as nossas decisões. E é assim que as más decisões encontram na interpretação um forte aliado

Kant mostra-nos que a interpretação como aliado do mal, ou das más decisões, já se encontra na Bíblia, em Moisés II e III, e escreve: «Toda a deferência atestada para com a lei moral sem, no entanto, lhe conceder na sua máxima a preponderância sobre todos os outros fundamentos de determinação do arbítrio, como o motivo impulsor por si suficiente, é fingida, e a propensão para tal é interna falsidade, i. e., uma propensão para mentir a si próprio na interpretação da lei moral em desta (III, 5); por isso, também a Bíblia (na sua parte cristã) chama, desde o começo, ao autor do mal (que em nós próprios habita) o mentiroso, e assim caracteriza o homem no tocante ao que nele parece ser o fundamento capital do mal.» (48)

No fundo, quando a interpretação da lei se sobrepõe à máxima estamos a entregar-nos à mentira. E este modo de ser é a expressão pessoal do mal radical. Uma vez mais, Teodorico Raposo por inteiro.

Continua na próxima semana

12 Out 2021

Por que não fugiu Monty?

Como lhe sugere o pai, por que não foge Monty? Cumprirá sete anos por narcotráfico, consciente de que tendo rejeitado continuar no “esquema” mafioso dentro da cadeia ou tornar-se informador da polícia ficará mais desprotegido e sujeito à violência e à arbitrariedade. Contudo, Monty escolhe a “via recta” num labirinto de solicitações e de emboscadas – e a sua escolha insólita eleva-o a um plano ético insustentável, embora, dada a dificuldade, digníssimo.

Falo de “A 25ªHora”, de Spike Lee, que revi agora porque preparo um pequeno ciclo do cineasta.

Aos sete anos, Monty tem pouca esperança de sobreviver. A narrativa segue as suas últimas horas de soltura (fora alguns flash-backs de contextualização); vemo-lo abrir mão dos privilégios que conquistou como traficante: uma boa casa, a entrada VIP em boates, a fama e a prosperidade económica. E despede-se do pai, um comerciante alcoólatra a quem o filho foi safando as dívidas, da sua namorada Naturelle (Rosario Dawson), que o ama apesar das desconfianças dele, e dos seus melhores amigos de infância, Jacob (Philip Seymour Hoffman), um tímido professor do liceu apaixonado por uma aluna, e Slaughtery (Barry Pepper), um corrector de sucesso em Walt Street. Os quatro passam a última noite livre de Monty, enquanto se adensa a questão de saber quem o terá denunciado à polícia (- terá sido Naturelle?).

Monty extrai as devidas consequências dos seus actos e aceita estoicamente a ida para a prisão. Monty não é um rebelde sem causa, alguém a quem o instinto da liberdade, à visão do castigo, faz espernear; vibra nele uma espécie de diapasão que lhe tempera o tom certo a cada momento da sua vida. Houve necessidade, para resolver certas coisas, de entrar nos negócios ilícitos, e fê-lo convictamente, com eficácia, desfrutando o que pôde da situação. Depois conheceu o amor e entregou-se-lhe, sem reservas nem cinismo – sinal de que o seu carácter não fora corrompido. Com a mesma naturalidade e a mesma lucidez face às circunstâncias, aceita o custo da redenção.

O carácter de Monty clarifica-se logo de início quando, contra a opinião de Kostya (o ucraniano que o denunciará), resolve salvar o cão que encontraram abandonado e ferido, em vez de matá-lo num “gesto de misericórdia”.  É um homem decente que face a certas circunstâncias teve necessidade de enveredar por más escolhas.

A sua índole conhece um contraste em Slaughtery, o corrector. Que vive duma actividade lícita onde só a lógica entra, arredia à natureza do escrúpulo.

Jacob vai a casa de Slaughtery, definido num ápice pelo que há sobre a mesa de trabalho – o Financial Times, revistas de gajas nuas, garrafas de vinho: é um hedonista empedernido. As janelas do apartamento dão para o Ground Zero, o espaço vago das Twin Towers (o filme é de 2002). Dá-se aí uma conversa desconcertante, sintomática. Jacob refere que segundo as informações o “ar daquela zona é irrespirável” e pergunta-lhe se não pensa em mudar. Slaughtery insinua-lhe que ainda espera ganhar muito com a inflação imobiliária e por isso, mesmo que tivesse como vizinho o Bin Laden, não tenciona mudar de poiso.

Slaughtery não tirou as devidas consequências do desastre de 11 de Setembro, a que pôde assistir “nas primeiras filas”; para ele quando se vive na selva há que seguir as regras e aproveitar as oportunidades: é um puro caçador-colector.

Monty/ Edward Norton é de outra índole, mesmo que pleno de contradições. Fez o que havia a fazer na sua oportunidade, agora tem necessidade de redimir-se e rejeita as possibilidades flagrantes de fuga, preferindo uma “reparação” quase irrespirável. Apesar das tentações que o pai enumera pelo caminho, o filme termina sem mercê (- sendo incerto que Monty resista ao inferno da prisão).

A dado momento, Monty, que almoça com o pai, vai à casa de banho do restaurante e um “Fuck You” que alguém escreveu a marcador no espelho atira-o para uma longa diatribe sobre os tipos humanos e étnicos que compõem a cidade, uma massa diversa de comportamentos anómicos que segundo o discurso transformam a urbe numa pauta de irresgatáveis dilaceramentos morais; como se se confessasse filho de um determinismo inescapável. E nada fica de fora desse discurso, da manhosa “inocência” das minorias e do assistencialismo a que se encostam à cupidez dos judeus ou à torpeza dos que impõem a lei. É um segmento que parece desgarrado no filme, uma espécie de manifesto. Que, contudo, se integra e se elucida na sequência final quando no percurso para a cadeia, o rosto condoído e desfigurado de Monty dentro do carro vê como aqueles de quem ele disse mal lhe acenam dos transportes públicos, num gesto de empatia, que lhe antecipa o perdão.

“25th Hour”, que só ganhou com o tempo, feito ainda no rescaldo do 11 de Setembro, é um magnífico manifesto sobre a necessidade do perdão.

O segmento do filme com o Ground Zero, que Spike Lee acrescentou ao romance adaptado, deu uma outra densidade à narrativa e um segundo nível de leitura que o tempo trouxe à tona.

O perdão teria de começar por um “encarceramento” interno, especular, da América, que a fizesse reflectir e reconhecer os seus crimes, antes de se estender de forma incondicional, gratuita, infinita aos terroristas.

Só a força da “resposta paradoxal” introduz mudanças radicais nos comportamentos culturais: foi assim com o oferecimento da outra face, em Cristo, com a inesperada inflexão para a reconciliação de Mandela, que salvou a África do Sul de um banho de sangue, com o pacifismo de Ghandi face ao imperialismo britânico.

Spike Lee intuiu-o, mas a América não esteve à altura da sua lucidez nem teve a grandeza de o seguir. E escolhendo depois a mentira como modo-de-uso imperial a América pôs-se de costas voltadas para o mundo. Começou então o regime de um mundo pós-verdade.

11 Out 2021

Lá atrás

Quando entrei na faculdade, em filosofia, estava tudo menos preparado. Não só para a faculdade como para a idade adulta, se assim o podemos chamar. Tinha vinte anos, era mais velho do que os meus colegas de primeiro ano e, ainda assim, não estava preparado.

A vida é toda ela um pouco isso, cenário destas divergências entre a idade legal ou socialmente idealizada para fazer uma coisa – beber, tirar a carta, casar, abrir um negócio – e a idade em que um sujeito se sente capacitado para tal. Há muitas pessoas que poderiam perfeitamente ter tirado a carta aos dezasseis, ou até antes, e há pessoas – que vemos todos os dias na estrada – que nunca o deveriam ter feito. Há pessoas que acertam praticamente sempre na altura de tomar decisões – seja vender a casa, ir de viagem ou apenas o caminho a tomar naquele dia. E há pessoas que falham quase sempre. Somos tempo e é por ele que medimos o acerto e o fracasso.

Eu vinha de Albufeira e fui morar para uma casa típica perto de Santa Apolónia. Quatro quartos – começámos com três, mas pobretanas como éramos, rapidamente prescindimos da sala para dar espaço a outra pessoa –, uma cozinha, uma casa de banho. Vínhamos todos do Algarve. Lisboa era apetecivelmente enorme e havia tudo o que não havia em Albufeira: teatros, cinemas, livrarias, alfarrabistas, a noite com todos os seus espaços e possibilidades, um sem-fim de raparigas bonitas, de amigos por descobrir, de gente com quem traçar tangentes a caminho do trabalho final de curso. Filosofia. Depois do final do curso, não se adivinhava uma saída profissional que não o ensino ou a árida e insegura carreira académica. Felizmente, nessa altura era-se demasiado tonto para equacionar devidamente as consequências. Há coisas que, felizmente, só fazemos porque não sabemos mais.

A casa estava quase sempre desarrumada, a loiça quase sempre por lavar. Cada um retirava com basto nojinho o prato, a faca e o garfo que ia utilizar, lavando-os tão bem quanto sabia para no final da refeição os deixar no lava-loiça, novamente sujos, novamente à espera do desespero do próximo esfomeado. Era uma baderna masculina sem qualquer tipo de romantismo salvífico.

A coisa boa dessa impreparação para a convivência, para a idade adulta e para as coisas dos adultos, fruto também da forma como cada um tinha crescido e sido educado, era a possibilidade de, longe e com medo, cada um se reinventar sem ninguém fosse capaz de fazer luz sobre a inconsistência da criatura face ao seu passado. De repente, tudo quanto eu via reflectido no espelho da minha interioridade – e não gostava – era passível de ser mudado (claro que não o era, mas muita coisa é-o e não o fazemos por conveniência ou medo).

A minha aprendizagem, fora do espaço das aulas, foi sobretudo essa: despir-me, vestir-me, olhar-me ao espelho e tentar perceber a pessoa em que me estava a tornar e a pessoa que, desesperadamente, não queria ser. O que eu queria ser era apenas ideal: um tipo mais ou menos correcto, mais ou menos capaz de encontrar o amor, mais ou menos fiel a uma voz interior a que na altura prestava pouca atenção.

Quando sai da faculdade, cinco anos depois e uma tentativa de doutoramento frustrada pelo meio, era outra pessoa. Ganhara a segurança que é a valiosa poeira que as refregas vão soltando cada vez que eclodem, tinha alguns preceitos morais – fruto da tentativa e erro – e tinha a certeza de que o amor, mesmo que raro e esquivo, podia ser encontrado.

11 Out 2021

Os 60 anos da casa de chá Long Wa

Para saborear a atmosfera das antigas casas de chá de Cantão, aí já inexistentes, há ainda em Macau a possibilidade de usufruir esse estar na casa de chá Long Wa, situada no primeiro andar do n.º 3 da Rua Norte do Mercado Almirante Lacerda, aberta todos os dias das sete da manhã às duas da tarde.

O prédio amarelo de dois andares, por detrás do Mercado Vermelho, chama a atenção do exterior pelos bonzais colocados ao longo da varanda a circundá-lo e nas suas sempre abertas janelas encontram-se nostalgicamente dependuradas algumas gaiolas já sem pássaros. Subindo as escadas para o primeiro andar, um mundo completamente fora do espectável. De frente, o balcão sem caixa registadora, mas onde repousa um ábaco e lateralmente abrem-se duas amplas salas, agora completamente atafulhadas de antiguidades, esculturas e mobílias, tendo nos últimos tempos aparecido, a substituir as cadeiras de madeira, inúmeras de plástico azul cerúleo a desfazer o ambiente. Nas paredes, entre as verdes janelas, relógios, quadros de caligrafia e pinturas, e o poster com o retrato de Mao Zedong.

Desde a nossa última visita passaram quase dez anos pois, devido à fama alcançada não conseguimos em várias tentativas arranjar mesa para sentar. Sentíamos falta da saborosa comida, da qualidade do chá e daquele ambiente, que ao longo da nossa estadia em Macau foi desaparecendo com o fecho da maior parte das casas de chá então existentes, devido a irem paulatinamente fechando umas atrás das outras, deixando a cidade sem inúmeras das que nos anos 70 tinham aparecido.

Abrira em 1962 com capital de Hong Kong, sendo o prédio construído de raiz para ser uma casa de chá e teve como gerente Ho Fong, nativo de Deqing, Guangdong, que viera da então colónia britânica para Macau em 1952. O negócio era florescente, chegando a ter mais de 60 empregados a trabalhar nas salas dos dois andares, ocupando a cozinha a metade do segundo andar, fora da vista dos clientes, onde num fogão a lenha se preparavam as iguarias da casa, a massa frita, carne de porco assada e pato à Cantão, sem faltar o famoso dim sam.

Na década de 70, o gerente Ho Fong comprou-a ao seu patrão e Ho Meng Te, que estudara em Inglaterra, em 1976 veio trabalhar para ajudar o pai no negócio.

CONVÍVIO COM OS PÁSSAROS

Conhecia-a ao seguir um homem transportando três gaiolas e curioso, quis ver onde ia. Já nessa altura era só usado o primeiro andar para casa de chá, com uma virtual separação das duas distintas e airosas salas, recheadas de arte chinesa. As janelas estavam sempre abertas, pois nunca teve ar-condicionado, e por baixo delas as mesas dispostas ao longo das paredes com bancos corridos para duas pessoas em cada um dos lados. Junto ao local da água a ferver, uma estante guardava, além de chá, livros e catálogos, inúmeros diferentes bules e chávenas, parecendo pertença dos clientes que aqui quotidianamente passavam as manhãs num uníssono convívio com os seus pássaros, cujo tagarelar entre eles se juntava ao dos comensais, dando grande animação à sala. Nesse embriagante ambiente de um todo envolvente, o volume de som sustentava-se harmonioso e ia aumentando acompanhado pelo chilrear dos pássaros que na sua sensibilidade se ligava ao som das vozes até atingirem um clímax. Ao se dar pelo barulho da sala, repentinamente tudo se calava e o ruído suspenso perdia pé, imperando um monumental silêncio. Aos poucos uma voz animada se elevava e outra e mais outra, acompanhadas por um piar e mais um e outro e o avolumar da sala voltava a entrar em ebulição até ao momento de se atingir a atenção e então quebrava. Era o respirar da casa.

Na fictícia divisão das salas, junto às escadas para o segundo andar da cozinha, num carrinho coziam a vapor as iguarias do dim sam, confeccionadas nos cestos redondos de bambu, com bolas de carne e de peixe, pão chinês não fermentado, carne de porco e o bolo de canela cantonense. Numa panela ao lado aquecia a sopa de arroz, o canji.

As salas estavam divididas; a reservada para comer e conversar num convívio com o chá, sem a presença de pássaros, contava com os peixes dourados da boa sorte num enorme aquário. Na outra, dependuradas nas janelas as gaiolas dos pequenos chivit (de pelugem verde e um bico longo para o tamanho desta ave) que exibiam constantemente os seus atributos, tanto no canto como em voos com cambalhotas. Já nas mesas do centro da sala, dispostas de uma maneira desordenada, repousavam as gaiolas com os wa men, chamados também de olhos de long-ngán, com uma pelugem preta e junto aos olhos um traço branco, eram constantemente mudadas para obterem os lugares de privilégio mediante o movimento do ar. Durante os meses de Março, Abril e Maio realizavam-se frequentes combates entre estes pássaros. De um momento para o outro notava-se uma movimentação estranha na sala, deslocando-se as mesas para dar lugar no chão a duas gaiolas, cada uma com um macho, cobertas com um pano branco. Uma em frente à outra e ao lado de ambas era colocada a gaiola com uma fêmea. Em redor, a tensão dos espectadores em silêncio era transmitida aos machos que vendados sentiam a presença da fêmea. Aos poucos, já com os machos assanhados, era retirada a gaiola da donzela e os panos a envolver-lhes as gaiolas. Ainda separados pelas grades tentavam com bicadas atingir-se e abertas as portas, o mais assanhado atacava, entrando para a gaiola do adversário. Durante alguns minutos as bicadas sucediam-se e com as patas se agarravam entre eles, até que por fim, um fugia e o combate terminava.

NOVOS TEMPOS

Em 2003, na sala de chá foram os pássaros proibidos de entrar pois tornaram-se potenciais transmissores do H5N1 e assim muitos dos habituais clientes matinais com as suas aves deixaram de aparecer. A sala de chá Long Wa passou a ser então local de encontro de fotógrafos e onde se realizaram exposições de fotografia, não fosse o dono Ho Meng Te um apaixonado por arte.

Com a abertura dos novos casinos apareceram clientes de todos os cantos do mundo e sobretudo da Malásia e Singapura, em busca das memórias antigas que já não encontravam nos seus países. O ambiente encantava e amplamente divulgado por artigos de jornal e programas de televisões em 2010 chegaram os turistas chineses do continente, sendo o filme Du cheng feng yün (O Mestre dos Jogos, ou From Vegas to Macau) de 2014 do realizador Wong Jing a catapultar a fama que atraiu para aqui verdadeiras multidões.

Hoje, apenas um lado da sala é usada e os quatro trabalhadores e o jovem patrão dão conta do recado, garantindo à casa uma maior estabilidade, já que sem grandes encargos, mesmo neste período difícil como o que passa desde 2020, consegue manter-se aberta. Findo o dia de trabalho e após a sala limpa, às duas e meia, três da tarde, Ho Meng Te senta-se à roda da mesa com os seus empregados e tomam a refeição em conjunto.

A casa de chá Long Wa guarda ainda as características e um ambiente das existentes antigamente e conseguiu sobreviver sem perder o charme.

11 Out 2021

Sombras, o joelho

Família, infância – Legendas sem Fotografias (6)

Recordações de P.
1. A Mãe, não faço ideia onde, 1911. As sombras são tão estranhas, não são? Parecem que são noutro espaço. Parece que têm vida própria. Lembro-me de um livro que li em que a sombra se chateava de estar sempre e a seguir o corpo e ia à sua vida. Ia para outro lado e fazia o que queria. A nossa sombra fazer coisas que nós não fazemos é bem estranho. Mas não é assim tão impossível. Esta fotografia lembra-me disso, não sei porquê. Espero que a minha sombra não se escape de mim quando eu morrer. Tenho medo disso, que uma pessoa morra e a sua sombra decida continuar por aqui. Somos nós, mas sem corpo. É uma sombra de nós. Mas é muito parecida connosco e isso assusta muito. Pelo menos a mim
3 – Provavelmente vizinhos , família C. , dona de uma fábrica de chocolates na Rua Artur Lamas. Lembro-me bem por isso, por causa dos chocolates. Quem era dono de uma fábrica de chocolates era dono do mundo, pelo menos. Era como ser dono de uma empresa de petróleo. Fazia aquilo que era mais importante para uma criança. Chocolate e petróleo, é curioso. Um combate mais ou menos desigual, mas eu nesta idade pensava que uma fábrica de chocolates era a coisa mais poderosa do mundo. Por causa de uma fábrica de chocolates podia começar uma guerra. Eu tinha a certeza disso. Por mim, começava mesmo uma guerra. Era mais que justo.
4 – P. e o pai, 1949 em Belém, fotógrafo de rua. Temos os dois chapéus. Eu gostava de estar ali em cima da perna dele. Parecia que podia cair a qualquer momento, mas era ele, o meu pai, que me impedia. Era como se ela, a cada segundo, me estivesse a salvar. Sentia-me seguro dessa maneira, mas ao mesmo tempo pensava que dependia dele, do meu pai, era estranho. Mas sim: talvez preferisse os momentos quando estava com os dois pés no chão. Ainda hoje prefiro. Não gosto de depender dos outros. Mas este joelho também já não existe.
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior
10 Out 2021

A Arquitectura e o Jogo

Guy-Ernest Debord (1931-1994)

(tradução de Emanuel Cameira)

Johan Huizinga, no seu Ensaio sobre a Função Social do Jogo, declara que “… a cultura, nas suas fases primitivas, contém as características de um jogo, desenvolvendo-se segundo as formas e na atmosfera do jogo”. O idealismo latente do autor, e a sua apreciação estritamente sociológica das formas superiores do jogo, não desvalorizam a contribuição inaugural da sua obra. Em contrapartida, é inútil buscar nas nossas teorias sobre a arquitectura ou a deriva outros motivos que não a paixão pelo jogo.

Por mais que o espectáculo de quase tudo o que acontece no mundo desperte a nossa raiva e repulsa, sabemos, cada vez mais, como nos divertir com tudo. Aqueles que disto depreendem sermos ironistas são demasiado ingénuos. A vida à nossa volta é feita para obedecer a necessidades absurdas e, inconscientemente, tende a satisfazer as suas verdadeiras necessidades.

Essas necessidades e suas satisfações, compreensões parciais confirmam, por toda a parte, as nossas hipóteses. Por exemplo, um bar chamado Au bout du monde [Nos confins do mundo], no extremo de uma das unidades mais icónicas de Paris (o bairro das ruas Mouffetard-Tournefort-Lhomond), não está lá por acaso. Os acontecimentos não pertencem ao acaso senão quando conhecemos as leis gerais da sua categoria. É necessário um esforço de consciencialização, tão amplo quanto possível, dos elementos que determinam uma situação, à parte dos imperativos utilitários cujo poder sempre diminuirá.

Queremos, para a arquitectura, uma organização muito parecida à que desejamos para a nossa vida. Como é costume dizer-se, as belas aventuras só podem ter por cenário e origem os bairros elegantes. A noção de bairros elegantes mudará.

Actualmente já podemos apreciar a atmosfera de algumas áreas desoladas, tão propícias para a deriva quanto escandalosamente impróprias para habitação, onde, ainda assim, o regime aprisiona as massas trabalhadoras. O próprio Le Corbusier reconhece, em O urbanismo é uma chave, que se tivermos em conta o miserável individualismo anárquico da construção nos países altamente industrializados, “… o sub-desenvolvimento pode ser tanto a consequência de um excedente quanto de uma escassez”. Esta observação pode naturalmente voltar-se contra o promotor neo-medieval da «comunidade vertical».

Indivíduos bastante diferentes esboçaram, mediante abordagens aparentemente similares, algumas arquitecturas intencionalmente desconcertantes, que vão desde os célebres castelos do rei Luís da Baviera a essa casa de Hanôver que, ao que parece, o dadaísta Kurt Schwitters perfurou com túneis e complexificou com uma floresta de colunas de objectos aglomerados. Todas essas construções recuperam um carácter barroco, tal como se encontra evidenciado nos ensaios de uma arte integral, que seria absolutamente determinante. A este respeito, importa assinalar as relações entre Luís da Baviera e Wagner, que deveria, ele próprio, buscar uma síntese estética, da maneira mais penosa e, no fim de contas, mais vã.

Convém deixar claro que se as manifestações arquitectorais, às quais somos levados a atribuir valor, estão de algum modo relacionadas com a arte naïf, estimamo-las por algo bem diferente, a saber, a concretização de forças futuras inexploradas de uma disciplina economicamente pouco acessível às «vanguardas». Na exploração dos valores mercantis estranhamente ligados à maioria dos modos de expressão da ingenuidade, é impossível não reconhecer a exibição de uma mentalidade formalmente reaccionária, bastante parecida à atitude social do paternalismo. Mais do que nunca, acreditamos que os homens merecedores de alguma estima devem ter sabido como responder a tudo.

Os riscos e os poderes do urbanismo, que actualmente nos contentamos em utilizar, não porão fim ao nosso objectivo de participar, tanto quanto possível, na sua construção real.

Sabemos bem que o domínio provisório e livre da actividade lúdica, que Huizinga acredita poder opor enquanto tal à «vida quotidiana» caracterizada pelo sentido do dever, é o único campo, fraudulentamente limitado por tabus de pretensão duradoura, da vida verdadeira. Os comportamentos de que gostamos tendem a estabelecer todas as condições favoráveis ao seu pleno desenvolvimento. Trata-se agora de alterar as regras do jogo, de uma convenção arbitrária para um fundamento moral.

Tradução de: Debord, Guy-Ernest, “L’Architecture et le Jeu” [1955], in Potlatch 1954-57, Paris, Éditions Gérard Lebovici, 1985, pp. 137-140.

7 Out 2021