O Jogo das Escondidas – Capítulos 51 ao 60

51

Ouviu a voz de Benedito:
– Foi em Singapura que tive a oportunidade de ler, pela primeira vez, os livros de Homero, a “Odisseia” e a “Ilíada”. Identifiquei-me com Ulisses, não sei porquê. Talvez pelas duas fases da vida que ali são retratadas. Fazem sentido para mim. Sabes, quando penso nos espiões lembro-me de um episódio que é contado nesses livros. É uma lição de vida. Nele, Ulisses encontra um espião troiano, Dólon, que ia espiar os gregos. Convence-o que a sua vida pode ser poupada se cooperar e revelar tudo o que sabe sobre as tropas troianas. Quando as dá, Diomedes diz que tem de matar Dólon. Porque se o libertar ele regressará, ou para espiar os gregos ou para os combater. Dólon pede clemência, mas a espada de Diomedes mata-o.
Benedito susteve a respiração, antes de continuar:
– Que lição podemos tirar daqui, meu caro tenente? Não podemos confiar em ninguém. Nem nos que nos prometem o que quer que seja. E na espionagem há sempre a hipótese de não escaparmos com vida.
– Eu sei, padre. O fundamental de qualquer actividade clandestina é poder escapar ao olhar alheio. E eu isso não consegui fazer.
– Aprendi uma coisa com um agente meu. Um chinês do interior. Dizia-me ele que quando um espião deixa de saber qual o seu caminho no meio da escuridão, deve sentar-se, observar o céu e ver as estrelas entre as nuvens. Talvez seja agora uma boa lição. Para ti e para mim.
– Sim, essa talvez seja a melhor estratégia. E também, como me ensinou Ding Ling, converter-me no inimigo. Colocar-me no lugar de quem me pode fazer mal e sondar o seu coração e as suas razões. Preciso de conhecer as suas ambições e intenções. E então saberei quem me quis matar.
– Sim mas tens de ter muito cuidado. Eles estão dispostos a calar-te. Quando se caminha de noite por caminhos iluminados pela lua, deve utilizar-se as zonas de sombra.
Continuaram a falar, enquanto não muito longe dali, a batalha fora rápida. Bei Li desviou o olhar dos corpos estropiados por balas e facadas e que estavam caídos no chão. Eram quase todos homens de Fu Xian, mas este não se contava entre os mortos. Tinha conseguido fugir.

52

O edifício de pedra esverdeada estava conquistado. Ding Ling, com olhar decidido, passou com a mão pelos contentores de madeira que continham sacos de heroína. Os seus homens esperavam, ansiosamente, ordens. Por fim ela disse:
– Queimem tudo!
Eles assim fizeram. Os contentores foram-se transformando em fogueiras enormes. Saíram rapidamente do local. O fumo começou a sair pelas janelas e pela porta. Ding Ling olhou para o céu. A lua estava com uma luz poderosíssima. Era uma visão maravilhosa. Por momentos julgou ver a sua face reflectida naquele círculo que iluminava Macau e que, em conjunto com as chamas que agora saíam do prédio, lhe davam um aspecto demoníaco. Ding Ling disse, enquanto começava a caminhar:
– Nesta guerra a melhor arma é o medo que provocamos nos nossos inimigos.
Bei Li não disse nada, mas seguiu os passos de Ding Ling, como se fosse a sua sombra.

13.

A ventoinha rodava lentamente no tecto. Fazia um ruído estranho, o que poderia ser um sinal de que estava quase a deixar de funcionar. O governador Rodrigo Rodrigues, sentado no seu cadeirão, olhou para lá, enquanto soprava o fumo do cigarro para o ar. No seu olhar havia algo de resignado, como se finalmente percebesse que nem sempre era fácil mudar o que fosse em Macau. O Palácio do Governador, onde estava, era um local onde os silêncios, muitas vezes, diziam muito mais do que as frases e os sussurros se impunham às vozes mais audíveis.
– Com este calor é fácil perder o hábito de agir.
As palavras do governador soavam a indiferença, mas Félix Amoroso sabia que ele tinha muitas ideias para a cidade. Circulava em voz baixa no Grémio Militar, que estava a tentar colocar, pela primeira vez, representantes da comunidade chinesa local no Conselho do Governo, algo que não era do agrado das entidades mais conservadoras. Por outro lado tinha convidado o bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, a fazer parte do mesmo Conselho. Parecia uma forma de ele, um maçon, mostrar que a República era a casa de todos e de tentar gerir interesses contraditórios. Era como construir um castelo de cartas. Bastava um sopro mais forte e tudo caía.


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Ainda assim, sabia a sua força, porque o poder estava formalmente concentrado nas mãos do Governador, representante de Lisboa. Mas, na prática, isso era um equívoco. O governador tinha sempre de gerir os interesses dos senhores locais mais influentes e, por isso, muitas vezes as suas ideias diluíam-se numa sopa sem sabor ou aroma. Na Taipa, era o comandante militar, que mandava em Amoroso, que fazia as suas próprias leis. Não que a sua força fosse muita. Recentemente o general Gomes da Costa tinha passado por Macau para ver como se encontrava a situação militar e partira desolado.
Em Macau tudo se sabia. Não era uma cidade muito grande para ser possível guardar segredos. Rodrigo Rodrigues insinuou:
– Nunca se deve tentar agradar a todos, porque no fundo estamos apenas a transferir para o futuro o verdadeiro duelo.
– Quem tem paciência acaba por vir a governar o mundo, senhor governador.
– Isso não sei. Mas tenho a convicção de que não estarei muito tempo em Macau.
Amoroso sondou a face do governador, mas esta manteve-se impassível e serena. Rodrigues tinha a virtude de saber esperar. E de não ter esperanças infundadas sobre o futuro. A voz do governador voltou a soar:
– Estou a pensar reforçar o patriotismo em Macau. Apelar aos sentimentos nacionais, mostrando o que nos une e não o que nos divide. Que acha da ideia, tenente?
– Parece-me boa. E como quer fazer isso?
– Penso que Luís de Camões diz muito às pessoas de Macau. E a Portugal. Foi o homem que serviu para juntar os portugueses em redor dos republicanos e contra a Monarquia, quando os ingleses nos humilharam com o Mapa Cor-de-Rosa. Os republicanos souberam recuperar Camões e “Os Lusíadas” para vincar o nosso patriotismo e fazer renascer o nosso sentido de honra. Estou a pensar instituir uma romagem à gruta de Camões no Dia de Portugal.
Amoroso acenou com a cabeça. Notara que, pouco depois de ter chegado a Macau, Rodrigo José Rodrigues deixara de andar fardado, apesar de ser miltar. Usava roupas civis. Dizia-se que era uma pessoa sociável, que gostava de se sentar debaixo de uma árvore quando estava calor e de ver os chineses mais velhos a jogar mahjong nas ruas. Às vezes, à noite, percorria as ruas da cidade, sem escolta.

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O governador bateu com um dedo no tampo da mesa, quebrando o silêncio.
– Tem de ter cuidado, tenente. Penso que não seria o primeiro português a apaixonar-se por uma chinesa e por causa disso nunca mais regressar a casa.
– Porque diz isso?
– Sei que a menina Ding Ling é a sua, como direi, protectora? Se não fosse a sua acção, poderia ter perecido na tentativa de assassínio. Ou estou enganado?
– Não está, senhor governador. Como diz uma outra amiga minha chinesa, “como um pássaro no rio, como um peixe no ar, um estrangeiro é um homem com problemas na noite de Macau.”
O governador deu uma pequena gargalhada.
– E ela, com essa frase, também se refere aos portugueses?
– A alguns. Não a todos. Muitos portugueses conhecem Macau e amam esta cidade. É a sua casa. Tenho aprendido isso.
– Não duvido. A minha mulher está a encontrar muita inspiração aqui para a sua poesia. Quando me for embora será um problema.
Seguiu-se um novo silêncio, antes de Amoroso questionar:
– Como está a vida política em Lisboa?
– Um pântano, como sempre, segundo o que vou lendo no “Diário de Notícias”. Vão desaparecendo os melhores, como o Carlos da Maia, que foi aqui governador. Assassinados ou afastados. E nascem, como cogumelos venenosos, os arrivistas, os lambe-botas e os que desejam apenas o poder. É difícil respirar ali. Não tenho muitas saudades. Isto pode parecer um exílio, mas aprecio-o. As intrigas demoraram algum tempo a chegar aqui e a ter um efeito nefasto.
O tenente puxou de um cigarro e acendeu-o antes de responder:
– Parece evidente que Portugal não vai vender Macau à Alemanha. Os chineses também não gostariam da ideia, porque a primeira coisa que a Alemanha faria era pôr aqui uma base militar a sério. Já lhes basta terem de aguentar os interesses de franceses, ingleses e americanos em Xangai e noutras cidades.
– Também me parece o caso. Sabe, em Lisboa, passam a vida a discutir a questão das colónias. Sobre Macau, só se faz isso em momentos de fúria nacionalista. De resto ninguém olha para aqui. Nem, diga-se, para lado nenhum.

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O governador continuou:
– Estive a reler o dossier que tenho sobre o assunto e já em 1896, foi muito comentado um boato sobre a cedência da Lapa à Alemanha pelo governo chinês. Um escândalo que durou dois ou três dias até as atenções se focarem na nova marca de charutos disponível na Havaneza. Mais tarde um deputado, Franco Frazão, quis delimitar o que achava que devia pertencer a Macau, e isso ia do forte do Passaleão às ilhas da Lapa e D. João e mesmo à de Hian-Chan. Queria aproveitar-se de um daqueles momentos em que a China foi submetida pelas potências ocidentais. Queria uma fatia do bolo. Depois discutiu-se o porto franco e a alfândega chinesa. Mais foguetes políticos. E ninguém apanhou as canas. Sabe como é. E há quem esteja sempre a dizer para vendermos esta fonte de problemas, tal como Timor ou Goa. Só se houver vantagens económicas para alguém é que se discute o assunto com um pouco de seriedade.
O tenente esticou as pernas. Sentia-se confortável, apesar da ligeira dor que ainda tinha no braço. E o governador estava numa daquelas tardes em que, sem compromissos, podia e queria falar. Porque, ao mesmo tempo, encaixava os seus pensamentos dispersos.
– E o governador, permita-me a pergunta, nunca teve ambições políticas?
Rodrigo Rodrigues sorriu e olhou para o tecto. Continuava fascinado pela ventoinha. Nela via a vida política portuguesa. Ia rodando, apesar do ruído incomodativo. Um dia cairia do tecto. Apontou para ela:
– Acha que um dia me pode cair na cabeça?
– Não sei. Isso poderia e deveria ser evitado.
– É como a vida política. Nunca se sabe se não nos pode acontecer o mesmo. Tive sonhos. E depois chegaram os pesadelos. Não sou propriamente amigo de Afonso Costa. Nem aliado. E ele, com a sua longa mão, que tudo toca, não esquece isso. Por isso afastei-me. E, confesso, acho que eles não se importaram muito com isso. Assim não têm de se preocupar comigo nem com o que faço. Sabe, Macau fica suficientemente longe do Terreiro do Paço e do Chiado.

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– Sabe, tenente, quando alguém deseja mesmo ser imperador precisa de traçar um círculo no solo, fechado à sua volta, para que ninguém mais entre ali. Mais tarde deve fazer outro círculo concêntrico onde está a sua guarda pretoriana, um punhado de conselheiros que não lhe dêem conselhos e que cumpram a sua função de recipientes vazios onde vertem a sopa das suas próprias convicções. Soldados obedientes, que não leais, e só fiéis à luz que irradia sobre eles a partir da liderança. Outro círculo mais amplo se pode criar, com uma boa quantidade de súbditos complacentes, sem ânimo para questionar as coisas e que não tenham memória ou sequer confiem muito nela e que a reescrevam em função da versão preferida do imperador. Não ganham nada, ou muito pouco, mas lutam entre si para caminhar à sombra do seu senhor.
– E o governador não é assim.
– Desejo não ser assim. Tal como o tenente. Se assim não fosse porque é que o teriam enviado para Macau?
– Não sei mas um dia regressaremos a Portugal. O que faremos?
– Não sei. Portugal disse adeus ao passado.
Amoroso sorriu. Como se não fosse o passado a dizer-nos adeus a cada instante. Mas talvez o governador quisesse dizer outra coisa. Mais complexa e terrível. Talvez: Portugal disse adeus ao futuro.
– E Macau? Podemos mudar esta cidade, tenente?
– Eu penso que o governador acha que é possível tornal reais algumas ideias. Tem a convicção que esta cidade pode ser transformada, para ser lucrativa para todos e ser redimida aos olhos de Lisboa. Mas está a pensar fazê-lo só com os interesses locais e sem ter qualquer ajuda de Lisboa. Seria um milagre. Mas é possível para que algum dia, no futuro, alguém aqui acenda o seu cachimbo e conte aos filhos a história de um sucesso. De que ninguém estava à espera. E começarão a história com o nome de um homem com coragem. Seria um motivo de orgulho para si.
Rodrigo Rodrigues sorriu enquanto apreciava as palavras do tenente. Depois disse:
– Eu acho que temos uma oportunidade única para que os habitantes de Macau controlem o seu futuro. Talvez depois pudesse chegar a Lisboa, aos corredores onde se manobram as decisões, e mostrasse que em Portugal se poderia seguir o exemplo de Macau. Só que o futuro não são apenas palavras. É preciso fazer e não estarmos apenas a pensar na nossa sobrevivência política.

Rodrigo Rodrigues calou-se. E voltou a olhar para o tecto. A ventoinha continuava a fazer o seu estranho ruído. Mas não caíra.

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14.

Quem diabo sou eu? Não sou padre, nem nunca fui. Não sou espião, apesar de o parecer. Gosto de mulheres, apesar de o esconder. O dinheiro seduz-me, mas finjo odiá-lo. Passei anos a esconder-me de todos, mesmo que eles me vejam. Por isso cada um tem a sua ideia sobre o que sou. E eu, quando me olho ao espelho, já não me reconheço. As dúvidas tropeçavam umas nas outras e Benedito Augusto sentia-se estranhamente perdido num mundo que entendia, nas suas complexidades e contradições. Mas talvez fosse por isso que tinha tantas dúvidas e receios. Nem o álcool ou as drogas conseguiam afogar esta sensação de estar numa terra de ninguém, num mar imenso sem ilhas à vista, sem um porto seguro onde sentisse firmeza por debaixo dos pés. Navegava à bolina, como sempre acontecera. E quando parecia ter tudo controlado, os alemães e os portugueses faziam ruir o seu castelo. Apetecia-lhe seguir para Singapura e desaparecer com Mariana da Conceição, uma malaia de remotas origens portuguesas e holandesas. Poupara quase o dinheiro suficiente para desaparecer nos confins da Ásia ou, talvez, em Zanzibar ou em Madagáscar. Longe do longo braço das tríades. Via-se numa cama de rede a olhar para o horizonte, junto a uma tabanca onde vendia álcool e sonhos aos perdidos da vida. Faltava-lhe o último golpe. Mas esse agora era perigoso.
Olhou à volta. Aquela hora da tarde a taberna estava estava quase vazia. O que era bom para conseguir estar atento aos seus pensamentos. Quando Félix Amoroso chegou ele folheava uns papéis encardidos. Repletos de manchas de vinho. Tocava-os com cuidado. Amoroso reparou no estanho fascínio com que o padre olhava para eles, como se fossem ouro reluzente.
– Que tens entre mãos, meu caro Benedito?
Este não levantou o olhar dos papéis.
– Há coisas que nos surgem por acaso. E que podem mudar uma vida.
– Um mapa do tesouro?
– É quase isso. Amanhã parto para Hong Kong. E depois para Singapura e para a Malásia. Tenho vários negócios a tratar lá.

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– Para Fu Xian?
– Alguns. Ele sofreu uma derrota. Mas não morreu. Voltará mais forte, não tenhas dúvidas. Agora está desconfiado de todos. E o alemão quer a sua heroína. Ou o valor dela. Não sei o que poderá acontecer, pelo que o melhor é afastar-me uns tempos. Tenho uma boa desculpa. Fu Xian quer que eu lhe faça um serviço.
– Vais ver a tua amada?
Benedito levantou a cabeça e fulminou o tenente com o olhar:
– De que estás a falar?
– Da menina Mariana da Conceição. De Singapura, ou da Malásia. Não sei. Dizem-me apenas que é muito bela.
Benedito piscou os olhos. O seu rosto pareceu, de repente, ter mais linhas a marcá-lo. Perdeu alguma da flexibilidade que o caracterizava.
– Nada temas, Benedito. Sei que não acreditas em mim, mas eu prometo silêncio.
– Porque não acreditaria em ti?
– Porque as pessoas não têm fé.
Benedito fitou-o severamente. Como se tivesse sido ameaçado com uma faca.
– Eu tenho fé.
– Tens? Alguma vez tiveste?
– Sou jesuíta. Padre.
– Achas que, se acreditarmos em tudo o que dizes, ainda és padre e tens fé? Não irás para o inferno?
– Não estamos todos no inferno?
Amoroso fez um sorriso velado e misterioso.
– Estamos. Mas nem tudo tem de ser sofrimento e culpa. Benedito sussurrou:
– Estou cansado. Até demasiado cansado para responder a essa pergunta.
Esfregou os olhos antes de continuar:
– Tenho muitas notícias sobre João Carlos da Silva. A sua vida. Foi-me contada por alguém que passou por aqui, e no meio da bebida, foi-me abrindo as portas para conhecer um homem que parecia transparente. Que aparentava ser apenas um secretário do Governo e que tinha tido um desgosto de amor depois da mulher não se ter adaptado a Macau e ter rumado a Portugal.
– Quem te contou?
– Um homem de Macau. Que foi amigo do senhor Silva. E, sobretudo, seu credor.
– E então?
– Então, a vida do senhor Silva é mais complexa. Veio efectivamenre para aqui, casado com a senhora Gertrudes de Albuquerque. Uma católica muito piedosa, que passava a vida na Igreja. Os primeiros meses foram suportáveis, até que o senhor Silva começou a jogar e a perder. Com isso destruiu o património da mulher. Esta, incapaz de o conter, desapareceu.

59

A voz de Benedito transformou-se num sussurro:
– Diz-se que partir um barco, às escondidas, para Moçambique. Onde tinha família. Este homem que o conhecia diz-me que ela nunca chegou a Moçambique. E que as tentativas da família para saberem o que acontecera a Gertrudes tinham sempre esbarrado no silêncio das autoridades de Macau.
– Talvez a mão do senhor Silva estivesse por detrás desse silêncio…
– Talvez. Como talvez a senhora Gertrudes não tenha saído daqui viva. Não se sabe e talvez nunca se venha a saber. Mas o certo é que ele continuou a jogar. E a perder o que tinha e o que não tinha. Foi quando conheceu a família Palha. Sofia viu nele o que não encontrava no seu Joaquim. Ou, talvez, segundo este meu informador, que emprestou muito dinheiro a Silva com bons juros, porque queria saber os segredos da administração. Quem deve muito está susceptível de trocar as dívidas por informação. Segundo parece, Silva passou a ter dinheiro. Chegou mesmo o momento em que pagou as dívidas e os juros. E isso coincidiu com a chegada de Max Wolf a Macau. Não é difícil ver a conexão. Sofia, ou mesmo o senhor Palha, colocaram Silva e Max Wolf em contacto. As suas amigas chinesas devem saber mais sobre isso.
– O mundo é gerido pela fraqueza dos outros.
– Ou do próprio. As fraquezas às vezes conduzem a respostas muito fortes. E impensadas.
O tenente passou a mão pelo queixo, bebeu um pouco de cerveja, e disse:
– Esse teu amigo de bebida sabe quem matou o Silva?
– Ele não sabe. Mas desconfia. Ele era útil para o alemão. Este tinha-o na mão. Restam o Joaquim Palha ou a Sofia. Porquê, não sei, mas o Silva e a Sofia acabaram na cama. Não sei o que ela viu nele. Ou se foi uma simples forma de ela se vingar do marido. Este tem uma amante em Hong Kong. Vai lá muitas vezes em negócios…
Deu um gargalhada. Soou a cinismo puro.
– Estava há pouco a falar-me de fé, tenente? Que acha? O universo é o caos. Talvez um dia a ordem consiga emergir do caos e prevalecer. Talvez deixe a escuridão e traga a luz.
Escutou um ruído. Alguém arrastava uma cadeira para um dos cantos da taberna. Tinha uma boina preta e, sem dizer nada, sentou-se, começou a tocar uma guitarra portuguesa e ouviu-se a sua voz.

(continua)

8 Ago 2021

Proezas a não repetir

Quando uma pessoa tem dezasseis anos é geralmente muito estúpida. É uma espécie de efeito Dunning-Kruger geracional: quando mais um tipo desconhece da vida mais assertivas são as suas certezas acerca da mesma. Há obviamente honrosas excepções, adolescentes cuja invulgar maturidade os previne de fazerem os mais diversos disparates. Infelizmente, esses sábios prematuros pouco ou nada retiram de positivo dessa santidade temporã – a não ser, claro está, a manutenção da integridade física. Os outros, do alto das suas pirâmides de desastres coleccionáveis, apoucam-nos sempre que podem. Estes passam ao lado de quase tudo que é inseguro e divertido; não se entopem de drogas numa festa com desconhecidos, não conduzem como se tivessem tido aulas no poço da morte de uma qualquer feira popular, não partem a cremalheira em volteios de skate ou bicicleta. São uma seca.

Eu, que sempre fora bom aluno e, por isso, relativamente solitário, queria muito ser adoptado. Pelos tipos das motas, das bandas de garagem ou pelos noctívagos profissionais. Não queria era estar sozinho. Sendo bastante tonto à altura, não me custava embarcar em todo o tipo de aventuras. Tudo quanto não comportasse perigo era insonso. Por isso todos os dias, a seguir às aulas, ia para um baldio atrás de casa fazer cavalinhos com a minha Target. Assim, quando estivesse com a malta a que eu aspirava a ser, poderia eventualmente fazê-los olhar, pelo menos uma vez que fosse, para mim. Ser bom aluno é suficiente até às hormonas começarem a falar. A partir desse momento, a conversa passa a ser outra.

Houve um dia em que nos lembrámos de empinar papagaios. Eu e mais dois amigos, na rua da minha irmã, em Albufeira. O Benjamin, o mais velho, teve uma ideia: «isto com mais vento até funcionava, e se o fizéssemos de mota?» Claro que a ideia me pareceu genial. Lamentei apenas não ter sido eu a tê-la.

A mota era do Benjamin, pelo que o mais expectável era ser ele a conduzi-la. Mas o papagaio também era do Benjamin, e era natural que quisesse ser ele a guiá-lo. Como não podia fazer ambas as coisas – os adolescentes podem ser malucos, mas até eles têm alguma noção dos limites – ficou combinado que eu conduziria a mota do Benjamin e ele, no banco de trás, empinaria o papagaio.

Durante uns quinze minutos, a coisa correu bastante bem. O papagaio lá esvoaçava com aquele vento forçado, rodopiando atrás de nós como um cão aéreo. Só não era sucesso absoluto porque o papagaio era baratucho e difícil de controlar. Mas já estávamos a pensar em comprar um papagaio mais robusto e mostrar a proeza perto da praia, onde decerto alguma gaiata mais curiosa apreciaria o nosso engenho.

Tudo estava a correr de feição até eu decidir que também merecia ver o que se estava a passar atrás de mim e não só ouvir os berros de satisfação do Benjamin mesmo à porta do tímpano. Passavam poucos carros naquela rua e, sendo uma recta, tinha mais que tempo para espreitar o que se estava a pensar sem nos colocar em perigo. Assim o fiz. Rapidamente percebi que a proeza só se tornaria matéria de conversa se o papagaio fosse capaz de nos seguir com alguma elegância e não com aqueles trejeitos de enguia epiléptica pela trela.

Feito o diagnóstico, voltei-me para a frente. A mota descaíra ligeiramente para a direita (o lado para que me tinha virado). Mesmo diante de mim, a parte de trás de um carro estacionado. Não dava para travar a tempo de não bater. Ainda assim, travei a fundo. Gritei. O Benjamin, ocupado com o papagaio, foi o último a perceber. Saltou por cima de mim, batendo-me com o joelho na nuca no processo. Escusado dizer que a queda foi bastante mais espectacular do que a proeza em si.

Acorreram as pessoas da rua, os vizinhos da minha irmã, o dono do carro. Chamaram-nos uma ambulância e sublinharam a nossa inconsciência. «Estes miúdos só estão bem fazendo asneiras», ouvi dizer a um velhote, do passeio. Verdade. Mas quando se lhes sobrevive, que belas histórias dão.

8 Ago 2021

Posturas

Quando tive de ir para o hospital consegui levar alguns livros (bom, escolhas que tinha de fazer de modo sonâmbulo, febril, e em cinco minutos).

Peguei ainda no tomo completo do Herberto Helder mas folheei cinco páginas e esbarrei em palavras abstractamente líricas, vazias, uma luxúria que vem do raciocínio, como uma máquina, que produz ideias ou metáforas segregadas por outras ideias e que, por terem abandonado o contacto com a vida nua, resistiam agora menos à violência, à prova do cateter.

A poesia tem de voltar a uma dimensão humana, de superar a prova do cateter (esse embate com a dor e a violenta drenagem de fluidos num vaso sanguíneo), ter o seu quê de mancha humana e de grito. Quantos poetas chegarão lá acima para a pergunta fatal do S. Pedro: eh tu onde meteste as tuas tripas?

Estou a ser injusto com o velho vate e aliás ao contrário de muitos adorei os seus últimos livros porque precisamente havia aí uma nova porosidade com a vida que prescindia de volutas e da gratituidade do engenho para ir direito ao osso, à humílima presença do ar que se partilha. Mas, pelo meio, a provação da doença destapara os brilhos de alguma talha dourada naquele húmus, algum apego ao adorno. Embora não esqueça que quanto mais uma coisa tem profundidade mais deva ser refinado o espírito que a pode entender.

E havia o problema do peso. Com quantos tomos completos me deixariam entrar no isolamento?

Mais tarde, já no hospital, optei por baixar na net uma antologia de Gullar. E logo ao quarto poema apanhei, AS PERAS: «As peras, no prato,/ apodrecem./ O relógio, sobre elas,/ mede/ a sua morte?/ Paremos a pêndula. Deteríamos,/ assim, a/ morte das frutas?/ Oh as peras cansaram-se/ de suas formas e de/ sua doçura! As peras,/ concluídas, gastam-se no/ fulgor de estarem prontas/ para nada./ O relógio/ não mede. Trabalha/ no vazio: sua voz desliza/

fora dos corpos./ Tudo é o cansaço/ de si. As peras se consomem/ no seu doirado/ sossego./ As flores, no canteiro/ diário, ardem,/ ardem, em vermelhos e azuis. Tudo/ desliza e está só.(…)», um poema magnífico, que naquela cama abismada pela espectralidade dos sudários, me levava a identificar-me com as peras, com a fugacidade que lhes dá e rouba a doçura e com essa voz que desliza para fora dos eixos do tempo.

Li entretanto, outras coisas com alguma densidade paliativa, que me desviaram de pensamentos tétricos, “A Tempestade”, de Vladimir Sorokin, que à partida me parecia e se confirmou como um pastiche do romance russo do século XIX mas que vai enlouquecendo à medida que progride e o absurdo se torna toda a medida, e o esplêndido segundo tomo da biografia de Doris Lessing, “Andando na Sombra”, que não deixa nada em pé dos mitos do século xx (da derrocada dos mitos políticos da esquerda, à figura do escritor como pêndulo de certos valores, em retratos onde esta pose é esgarçada pelas garras da autocondescendência, do paradoxo quanto à frequência com que se encontram em desacordo com a sua consciência, ou a da inveja) mas é de uma coragem na exposição da intimidade e duma honestidade que retempera e recupera, ainda que sob a sombra perpéta da possibilidade do erro, uma certa força moral.

E reli sobretudo um ensaio com um prazer redobrado: “Experience Esthetique et Spirituelle chez Henri Michaux /la quete d’un savoir et d’une posture”, de Claude Fintz.

É um livro que me é vital pois separa o trigo do joio e aqui é menos a estética do que o espiritualidade que me interessa, nessa vertente heterodoxa mas tão sériamente vivida por Michaux e onde também sinto ser o meu sulco – não falo dos conseguimentos mas do lugar onde me posiciono -, tal como na Catalunha o sinto na obra de Chantal Maillard, que já traduzi e espero vir a apresentar com outro fôlego.

Transcrevo dois excertos do Fintz, onde me sinto totalmente identificado: «Escrever permite, a um tempo, mudar-se a si mesmo, apaziguar as desordens individuais, mas também mudar o mundo e regular-lhe o mal. Michaux sonha com uma escritura sem traço, transfigurada em força radiosa. Ele crê na eficácia mágica duma escrita que desembocará no bem e cuja “crueldade” se metamorfosearia em poder de cura».

A segunda: «A escritura em Michaux é explicitamente pensada como empreitada de conhecimento de si (…) a escritura é certamente espelho das inquietações,  esperanças, hesitações, impasses da via experimental, mas ela é em si mesmo o caminho perdido e reencontrado de si; ela permite “percorrer-se” sobre diferentes modos – compreendendo-se aí  o ficcional e o imaginário – mas ela é em última instância una ascese que leva à maturação, quase à mutação interior».

Portanto, naquele umbral em que me encontrava confirmei as minhas convicções: merda para o cinismo, para o realismo, para o niilismo. Nós somos melhores do que isso – é o que vos digo.

E para alguém como eu, a quem interessa mais a espiritualidade do que a infusão num Deus nomeável, não deixo de encontrar sentido na questão levantada por Karlfried Durckheim: «Vocês serão melhores pintores, sapateiros ou carpinteiros, se sentirem que a vossa responsabilidade é para com Deus e não somente para com o vosso cliente.» Sim, é preciso que a sensibilidade da poesia testemunhe o seu tempo (é o fragor existencial de que não devemos abdicar) e ao mesmo tempo, numa dobra, como algo que difere ou se bifurca, desperte uma instância “anónima” e mais profunda, enraizada num outro plano onde o pequeno ego se reconcilia e dissolve – é isso que nos mede e reconstitui. É também o que nos dá uma dimensão crítica, um sentido da proporcionalidade dos valores que emudece o encantamento das sereias.

5 Ago 2021

Fios invisíveis

Biblioteca, Grândola, sexta, 16 Julho

O Luís [Cardoso] lá foi contar ainda uma vez das mulheres da sua vida – a mãe que se desdobrou em mais mãe de onze além dos onze iniciais, a namorada que foi ao encontro das balas assassinas – afirmando assim e sem quebrar o mistério a força das vozes femininas no seu romance-poema, romance-rio. Omnipresentes, quase invisíveis, comme d’habitude. Acabo de saber que quem lhe lança a pergunta, em acto de apresentação, e há muito o lê daquele modo íntimo como só a tradução, a Catherine Dumas assinará recensão para a Colóquio Letras.

Dá-se a reunião bem acompanhada em dia quente, neste espaço novo, que contém rios no coração dos muros, por haver ali uma belamente desarrumada exposição da Ana [Jacinto Nunes], na qual se incluem as ilustrações que abrem aquela «sonata para uma neblina». Esquecendo as salas, exemplo de uma arquitectura fechada sobre si, ignorante de funções e destinos, ali se encontram dezenas de rostos em pose. Gosto do jornal que diz ao que se pode ir, sujando as mãos, com singeleza, sem contar em demasia. A pintura da Ana, para captar a vida, surge sempre irrequieta, como que inacabada, a caminho de outra coisa, o gesto do pincel em busca da forma exacta das suas personagens, esculpidas na cor e respectivos movimento e temperatura, mulheres e animais, abraçando-se, quebrando fronteiras, celebrando nevoeiros. Um jazz no qual o tecido pode ser instrumento. Invariavelmente, os rostos olham-nos, desafiam-nos para diálogo em fluxo, fonte brotando da fronte. Oiço dos vários quadrantes que só somos na mistura com o natural. Nasceste da cor e a ela voltarás. Aqui e ali, as peças de cerâmica sublinham isso mesmo pois abrigam raízes, fazendo nascer do barro cortinas de verde, bambus onde se escondem os ventos, outros verdes esguios que podem bem dar pássaros. «Entre nuvens e papiros», assim se chama a mostra e no nome se (des)arruma o assunto.

 

Santa Bárbara, Lisboa, sábado, 17 Julho

A propósito: a SOS Racismo lançou um «Dicionário da Invisibilidade» contendo, além de belos retratos do André [Carrilho], uns bons milhares de entradas, com proveniências e autorias diversas, para «abrir uma brecha para a discussão e alargamento de horizontes sobre a questão da invisibilidade». Podem discutir-se os critérios, talvez demasiado abrangentes, e em qualquer lista sobra (não digo) ou falta sempre alguém (aqui sim, Natália Correia, exemplo exemplar). De qualquer modo, fica apresentada uma multidão de ladrões de fogo, que nas várias áreas e geografias, se entregaram, se entregam a uma causa, alargando horizontes. Seiscentas e tal páginas que dão bom princípio de conversa. Gosto de encontrar, logo abaixo de Tina Modotti, uma entrada para o Maçarico (1960-2014), nome que vestia o Vitor Ribeiro de nascimento. Era, fica escrito, traficante de sonhos.

 

Paço da Rainha, Lisboa, terça, 27 Julho

No diário fingido, que o são todos, esfregam-se mãos cuspidas para decidir caminhos nesta «rua da estrada»: enfrentar os mortos que nos interrompem os dias ou fugir pelo não. Folgo em ter amigos entre os que escavam obituários nos jornais e entre os que possuem as chaves dos portões de cemitério. Acabaremos todos por sair impressos naquelas páginas, em certo sentido, uma folha vibrante do quotidiano, a outra lençol de amargura na bainha da cidade.

Assim de atraso levo meses, mas que fique escrito que não pode passar sem lágrima o Vasco, o Otelo [Saraiva de Carvalho], o [Roberto] Calasso e o Pedro Tamen, assim por junto e sem sentido. Começando pelo fim, o poeta que foi, sem deixar de o ser, tradutor, editor e até administrador, vai faltar-me como orquídea cuja morte não apagará a culpa. Deixar de regar, de puxar o sol, talvez de soletrar em direcção da suprema elegância merece castigo. Falhei por não o ler mais, apesar do inevitável. Ergo mão que nem pelo gesto atingirá o leitor dos mitos e assim. Calasso contém o movimento das rochas, também no lugar de boas vistas do editor. Celebrando sem parar o movimento líquido do pensamento que se ergue das linhas correndo para o mar. Levantar a mão não arranca raiz. E nisto me encontro no dizer em desenho do Vasco, que compunha corpos explodindo. Dizer pelo nariz é bufar e por aí vai o comentador de ideias despenteadas, a quererem deixar a invisibilidade. Vai onde? Vai de encontro. Lá longe, pá, ergue-se o Otelo. Eu que sou das margens, apesar dos geómetras-vigilantes de algibeira se enganarem nas medições míopes, vou directamente ancorar no destruidor das âncoras. O que nos aproxima de casa não impede o voo. Ele foi quem apontou, por momentos, maneira de fazer do cais uma nuvem. Ou melhor, disse apenas que, para lá do aparente, o impossível estava ali: tomai e comei. Os quatro que partiram agora ajudariam a explicar. Ou a perguntar, que não há melhor maneira. Apontador de mitos, um, a desfazer a lápis no minuto pelo outro, se fosse caso disso, enquanto aquele gizava a logística do golpe e o poeta consertava sapatos e a luz. «Por cave deserta/ entram hábitos e ruídos/ verdes montanhosos, cascata/ um rio de água de Verão.// Estou só eu e o martelo/ e a minha mão opressa/ ou estará não sei que mundo/ com a palavra ou sem ela?// E eis-me então adivinho/ dos mistérios que atravessam/ a janela onde perpassa/ a luz que mal me ilumina/ e é o sal do meu pão.»

 

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 31 Agosto

A Patrícia Mamona voando fecha de boa maneira este dia pontado de intensidades. Resolvi entrar em «Pústula», outro perturbador filme de filmes da Bárbara [Fonte], exposto na Galeria da Casa Molder. Pendurado na parede velha, que a Bárbara pinta com a câmara, dando a ver sucessivos nascimentos, na ligação com a figuração clássica, a da dor sobretudo e à volta do religioso, essa encenação do essencial. A artista desenvolve uma liturgia em torno da natureza, da natureza das coisas. Nos interstícios do que passa e do que fica, do que se fixa e do que mexe, no corpo, na paisagem, na mescla líquida de um e outra. Vem depois o peso e as maneiras de o vencer. O vento que contém os fios que erguem o volúvel, o insustentável. A mulher voa («paralítico» do filme, algures na página e a sair dela). Vai acontecendo o arfar denso da lentidão ao limite, que cose os fragmentos da quase narrativa. Cada livro contendo pinturas faz-se espaço do sagrado. São momentos duros, rasgados e agrestes, beleza em carne viva, imagens fortes que ecoam em nós, por muito tempo e nos vários tempos do desperto e do sonhado. A cada um importa voltar e revoltar, como missal para nos explicar as cicatrizes de cada dia, o tule que se faz fumo, um fio de sangue branco leitoso que se puxa das chagas, dos mamilos antes de correr pelo negro, desperdiçando alimento, talvez vida. A casa é ruína, lugar de repouso das próteses, arrumo das naturezas mortas, o deitado que pode ser morte, raiz, mas também antena procurando céus. As lágrimas que foram areia, são agora fitas, fitas que não escorrem, para sempre brilhando esvoaçantes. E depois, ainda prolongamento de si, um enxoval de vestidos-prisão, a banheira e a água feita roupagem. A vida é crosta na nossa pele. A terra, lá fora, enxovalha. Há que a sentir com o corpo todo. Só com o corpo todo se penetra neste fascinante trabalho de inquietações. Daqui ninguém sai vivo. Da mesma maneira.

4 Ago 2021

As Viagens de Gulliver – Quarta Parte

Se nas primeiras duas partes Swift reconfigura o nosso ponto de vista, isto é, coloca-nos na posição de vermos o nosso ponto de vista, fixo, nas terceira e quarta partes de As Viagens de Gulliver o autor vai realizar um outro movimento: o de mostrar aquela que é a nossa ilusão maior, a de pensarmos que somos animais racionais, de pensarmos que somos seres de razão. Há uma diferença radical entre ter razão e ser um ser de razão. Ser um ser de razão implicaria nunca ser fora dela, nunca agirmos contra ela. Isto seria ser um ser de razão, um ser racional ou, se preferirmos, um animal racional. Mas como isso não se passa, nós não somos animais racionais, mas animais que têm razão, assim como temos instinto.

De qualquer modo, para que o leitor consiga seguir convenientemente os seus passos até esse movimento derradeiro levado a cabo na quarta parte, foi preciso existir uma terceira, que prepara o terreno. Assim, veja-se primeiro o que acontece na terceira parte do livro. Aqui, e depois da embarcação de Gulliver ter sido capturada por piratas e de o terem abandonado numa canoa com remos e vela em alto mar e provisões para quatro dias, o nosso herói consegue navegar até uma ilha completamente rochosa, que fazia parte de um grupo de ilhas. Gulliver foi viajando de ilha em ilha até que alcança a última destas ilhas. E é aqui que no dia seguinte a ter aportado, surge a ilha voadora. Uma ilha igual a todas as outras, com habitantes e terra, mas que voava. Esta ilha voadora ou flutuante chamava-se Laputa, que é onde a próxima aventura de Gulliver acontece, e que é toda a terceira parte do livro de As Viagens de Gulliver. Gulliver dá-se conta de quão estranhos são os seus habitantes. Mas do mesmo modo que eles eram estranhos a Gulliver, também este era estranho a eles. Para além da questão física, que nos é descrita pormenorizadamente, aquilo que mais importa é o comportamento. O mais extraordinário era que os habitantes traziam consigo um criado e todos eles carregavam consigo, segundo a descrição de Swift, e passo a citar: «bexigas, cheias de ar, presas, como um mangual, a um bastão curto que empunhavam. Cada bexiga tinha uma pequena quantidade de ervilhas secas ou seixos (como depois me informaram). De quando em quando, batiam com essas bexigas na boca e nas orelhas das pessoas que estavam perto, prática que então não compreendi. Segundo parece, o espírito destas pessoas está de tal maneira absorvido por especulações intensas que não podem falar nem ouvem os discursos alheios se não lhes chamarem a atenção por meio de algum contacto externo nos órgãos da fala e da audição. Por esta razão, as pessoas que podem têm sempre ao serviço da família um criado, que poderíamos designar por batedor (a palavra exacta é climenole), e nunca saem de casa nem fazem visitas sem a companhia deste empregado. O dever deste consiste, quando duas ou mais pessoas estão reunidas, em bater com a bexiga na boca do que tem de falar e na orelha direita daquele ou daqueles a quem se dirige o orador.» (pp. 150-1)

De modo a que a nossa apresentação se torne mais fácil, imaginemos que se trata de uma fina vara. O professor Nuno Ferro, num texto acerca de Kierkegaard, escreve que «Sócrates é para Kierkegaard aquilo que ele foi, um moscardo incómodo, que funciona como os flappers, que Gulliver encontrou, que tinham por função bater com varinhas nos ouvidos dos pensadores absortos no pensamento, para que não esquecessem de ouvir quando os outros falam, e na boca, quando chegava a altura de falar. […] Curiosamente, nós precisamos de quem nos recorde que existimos.» (p. 64)

Sim, nós vivemos como se não existíssemos. Vivemos como se tivéssemos de seguir determinadas normas e comportamentos, como se a nossa existência não tivesse nada a ver connosco. Na verdade, de modo geral, nós não existimos, seguimos os outros. Não apenas o que vemos e o que ouvimos, mas também o que achamos que deve ser, sem qualquer investigação acerca do assunto. De modo geral, vivemos naquilo a que Kierkegaard chama de estádio estético da existência. Mas isto não é análise que caiba aqui. O que cabe aqui é que estes estranhos seres viviam num mundo à parte, e precisavam de alguém exterior a eles que os fizesse reparar ou darem-se conta do mundo e, concomitantemente, dos outros ao seu redor. Esta descrição deste estranho povo, se pensarmos bem, não nos é assim tão estranha quanto parece. É bem verdade que não andamos com batedores com varinhas ao nosso lado, a lembrarem-nos de quando temos de falar e de quando temos de ouvir. Mas bem que podíamos ter. Pois na verdade, e é isso que Swift percebe bem, de modo geral o humano está fechado em si mesmo sem prestar real atenção aos outros ou até a si mesmo. Nós na verdade não prestamos atenção a nada. A nossa atenção está continuamente a ser diluída em outra atenção à frente e assim por diante sem que nos detenhamos no que quer que seja. E se isto ao tempo de Swift era completamente claro para ele, nos nossos dias de smartphones e de computadores é escandalosamente visível para todos nós. Este povo somos nós, na verdade, povo esse, que só mais tarde entendemos, é o oposto do povo dos cavalos, na quarta parte do livro.
Nós não somos apenas os yahoos da quarta parte do livro – como se verá nas próximas semanas –, nós somos também e muito claramente este povo que precisa de um criado a bater em cada um dos habitantes, para que eles ouçam e falem apropriadamente, isto é, quando devem fazer uma ou outra coisa. Veja-se como Swift descreve este povo de Laputa: «[A despeito de se expressarem matemática e musicalmente, através de números, linhas e sons] São pouco racionais, entregando-se com veemência à contradição – a não ser quando estão certos das suas opiniões, o que é raro.» (154) Mas veja-se mais duas passagens. A primeira acerca daquilo que mais tarde irá aparecer em Kierkegaard como «tagarelice» e «loquacidade» e em Heidegger como «falatório» e «ambiguidade». Leia-se: «[Este povo analisava] constantemente os negócios públicos, fazendo críticas a problemas do Estado e discutindo apaixonadamente todos os pormenores dos programas dos partidos políticos.» (154) Depois de uma aproximação a alguns matemáticos europeus, a que voltaremos, Swift remata: «Mas inclino-me mais para a ideia de que esta condição nasce de um mal muito comum na natureza humana, que nos leva a sentirmo-nos sempre curiosos e vaidosos em assuntos de que nada percebemos e para os quais estamos menos preparados, quer pelo estudo, quer pela nossa própria natureza.» (154-5) Esta contraposição entre Gulliver e os habitantes de Laputa acaba por ter em nós um efeito de espelho, pois aquilo que Switf descreve – e que agora Gulliver vê fora de si – é aquilo que é descrito como «um mal muito comum na natureza humana», a saber, a curiosidade, que contrariamente ao que se julga não é uma estrutura boa, mas má, pois conduz-nos a saltar de uma coisa para outra continuamente, sem nos determos em nada. Entregues à curiosidade somos levados a nunca aprofundar nada, a estarmos continuamente na superfície das matérias que nos despertam a atenção. O que conduz a maioria das vezes a julgarmos que sabemos na verdade acerca daquilo que falamos, quando não passa de completa superficialidade. É aqui que reside a ambiguidade, julgamos saber o que não sabemos. Hoje, com as redes sociais, isto ficou muito mais claro que nunca. E é isto precisamente que Gulliver nos relata. Ao ver fora de si aquele comportamento pelos habitantes de Laputa, fora do humano ou do modo como usualmente se é humano, Gulliver vê-se a si mesmo como se estivesse face a um espelho. Antes do encontro com os habitantes de Laputa, Gulliver não se dera conta de que a natureza humana funciona assim na maioria do tempo, mas vendo agora fora de nós, em outros, aquilo que somos, isso tornou-se claro. Como ele mesmo escreve «um mal muito comum na natureza humana». Torna-se cada vez mais claro que estas viagens de Gulliver mais do que viagens a terras exóticas, são viagens ao humano, às estruturas do humano. Swift está a dizer-nos claramente que nós somos para nós mesmos mais desconhecidos do que as terras longínquas que descobríamos com embarcações.
(Continua na próxima semana)

3 Ago 2021

Criação oficial do Corpo de Bombeiros

O Governador Carlos Eugénio Corrêa da Silva (1876-1879) referia na Portaria N.º 18 publicada no Boletim da Província de Macau e Timor de 25 de Janeiro de 1879: Tendo vagado o lugar de inspector da repartição dos incêndios desta cidade, pela exoneração pedida pelo major Augusto César Supico, [Portaria N.º17 de 20 de Janeiro de 1879], hei por conveniente nomear para exercer o mesmo cargo, o major do corpo do estado-maior do exército Raymundo José de Quintanilha, director das obras públicas desta província, que tomará conta hoje mesmo.

Vindo de Lisboa, chegara no dia 19 de Janeiro no transporte de guerra África e logo a 24 foi mandado tomar conta da respectiva repartição das obras públicas para a qual fora nomeado por decreto de 27 de Setembro de 1878. Ainda em 1879 o Major Quintanilha tentou submeter um regulamento à aprovação do Governador Correia da Silva, segundo refere Beatriz Basto da Silva.

Seria ele, por decreto de 23 de Março de 1881, exonerado do lugar de director das obras públicas de Macau pelo Governador Joaquim José da Graça, Visconde de S. Januário, que nomeou para o referido lugar o capitão do estado-maior de engenharia do exército de Portugal, Constantino José de Brito. Este, já promovido a Major, foi nomeado inspector da repartição dos incêndios por Portaria N.º 84 de 14 de Novembro de 1881.

Com esta nomeação, o Governo da província achou “conveniente ordenar, que o sub-inspector da mesma repartição o alferes António d’ Azevedo e Cunha Júnior [desligado das obras públicas como condutor em 1879] faça dela entrega hoje mesmo, ficando eu satisfeito pela maneira porque o referido sub-inspector desempenhou o serviço da inspecção durante o tempo que esteve interinamente a seu cargo.” Assim agradecia o Governador Graça ao alferes Azevedo e Cunha Jr., que interinamente exercera o cargo na Inspecção de Incêndios (Kao-fô Kúng Kun).

“À medida que os serviços de incêndio se tornaram cada vez mais complexos, em 2 de Maio de 1883, o governador assina o Regulamento do Serviço dos Incêndios em Macau, apresentado pelo então director das Obras Públicas e inspector de incêndios, major de engenharia do Estado Maior Constantino José de Brito, que foi aprovado por portaria de 10 de Agosto do mesmo ano. Com a promulgação do Regulamento, os bombeiros de Macau seguem os caminhos normalizados e marca a criação do Corpo de Bombeiros de Macau”, segundo o excelente livro Corpo de Bombeiros, edição comemorativa do 130.º Aniversário do Estabelecimento do Corpo de Bombeiros da RAEM.

REGULAMENTO DO SERVIÇO DE INCÊNDIOS

Publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 9 de Agosto de 1883, o Regulamento do Serviço de Incêndios datado de 2 de Maio desse ano foi elaborado por Constantino José de Brito e mandado executar por Portaria n.º 93 de 10 de Agosto refere: . Ainda a 10 de Agosto, o Governador Thomaz de Souza Roza por Portaria n.º 94 exonerou o major do estado-maior de engenharia Constantino José de Brito do cargo de inspector dos incêndios, para que fora nomeado a 14 de Novembro de 1881.

Regulamento do Serviço dos incêndios em Macau a que se refere a portaria supra. Capítulo I – Organização e pessoal – Artigo 1.º A inspecção dos incêndios tem por fim superintender o serviço dos incêndios e prover a tudo quanto lhe diga respeito. Artigo 2.º – A inspecção dos incêndios forma um corpo activo de bombeiros que terá o seguinte pessoal [com vencimento anual]: um inspector (216$000 réis); um patrão-chefe (102$000); três primeiros-patrões (71$400 réis cada); 2 segundos-patrões (61$200 cada); 2 sotas (51$000 cada); 20 condutores e 34 moços (recebem gratificações anuais de 51$000). Artigo 3.º -O fornecimento da água nos casos de incêndio será feito pelos indivíduos pertencentes às companhias de carregadores desta cidade, nos termos das posturas e regulamentos policiais e pela forma designada nos artigos 27.º e 48.º deste regulamento. (Quando o número dos carregadores das companhias for insuficiente para o fornecimento da água, o inspector poderá contratar outros dentro da respectiva verba do orçamento). Artigo 4.º -A inspecção deverá ter pelo menos 4 bombas, sendo duas em Macau, uma na Taipa e outra em Colovan. Artigo 5.º -O inspector é o chefe da repartição dos incêndios e incumbe-lhe toda a direcção do serviço… Artigo 6.º -O inspector deve acudir com a possível rapidez a todos os incêndios, e tomar a direcção suprema e exclusiva dos trabalhos, obrigando todos os seus empregados a cumprir pontualmente as suas ordens, e não consentindo que pessoas estranhas intervenham num serviço cuja responsabilidade é toda sua, devendo por isso também tomar a direcção das bombas particulares que concorram nos incêndios. Artigo 7.º -De todos os incêndios o inspector remeterá ao governo da província uma parte em que mencione a causa do incêndio, o local, a hora, quais as duas bombas que primeiro se apresentaram no incêndio para serem premiadas (…) esta comunicação será publicada no Boletim da província.

Os artigos de 8.º a 14.º referem-se aos deveres do inspector, responsável pela conservação de todo o material dos incêndios, pela disciplina do corpo de bombeiros, que será por ele escolhido e a quem deverá dar instrução. A nomeação do patrão-chefe e dos primeiros patrões será feita pelo governo sob proposta do inspector e remeter ao governo o mapa das despesas anuais da sua repartição.

Sobre o patrão-chefe, nos artigos 15.º a 19.º, refere-se ter por obrigação fiscalizar e vigiar todo o pessoal seu subordinado e o estado do material que está sob a sua responsabilidade na estação em que estiver aquartelado.

Antes do inspector estar presente no local de incêndio é ele que toma a direcção dos trabalhos. Para chegar a patrão-chefe é preciso ser homem experimentado no serviço dos incêndios, ter servido pelo menos um ano como patrão, ter bom comportamento, idade apropriada e disposição física para o serviço.

Nos artigos 20.º a 23.º refere-se sobre os primeiros patrões, que terão a seu cargo as bombas da estação em que residirem. Terão a seu cargo a bomba da vila da Taipa e outra da vila de Colovan e para ser primeiro patrão terá de ter servido pelo menos durante três anos como segundo patrão e conhecer os poços, cisternas e quaisquer outros depósitos da água.

Sobre os segundos patrões os artigos 24.º e 25.º referem, ter servido pelo menos durante dois anos como sota e coadjuvarão os primeiros patrões na direcção e serviço das suas bombas e os substituirão em todas as suas faltas ou impedimentos. Assim, a 2 de Maio de 1883 nasceu oficialmente o Corpo de Bombeiros.

2 Ago 2021

Quando a emel lá no estrangeiro me deu um gato

Quando descobri, em Clermont-Ferrand, que os parquímetros da cidade tinham sido arrombados todos na mesma noite mas que, ainda assim, davam a aparência de estarem fechados e a funcionar, vi-me de repente em tio Patinhas, banheira cheia de moedas para trocar por livrinhos de banda desenhada, gelados de seis andares no Verão e saquetas de cromos para acabar todas as cadernetas a que faltavam apenas meia dúzia em cada uma.

Os meus pais davam-me dinheiro, como é óbvio. Uma espécie de mesada que tinha de dividir com cuidado para ir comprando um lanche aqui e ali na escola e umas canetas. Mas pouco sobrava. Ou, na minha opinião, pelo menos, não o suficiente. Pelo que quando me apercebi de que todos os parquímetros da cidade se tinham transformado no meu mealheiro, não só passei a demorar cada vez mais tempo da escola para casa como passei a chegar cada vez mais pesado. Os mealheiros que me tinham oferecido ficaram a abarrotar em menos de nada. Comecei então a depositar o fruto das minhas passeatas pós-lectivas num vaso de plástico a que a minha mãe não tinha ainda atribuído morador. Guardava-o debaixo da cama e, a seguir ao jantar, com os meus pais ainda à mesa, refugiava-me no quarto e contava as moedas, com medo de que entretanto alguém me tivesse surripiado umas quantas (o dinheiro vem de mão dada com uma série de coisas pouco simpáticas que eu, à altura, desconhecia).

Certo dia aproveitei o bom humor do meu pai para lhe confessar que preferia gatos a cães. Ele, nascido e criado no campo, na serra algarvia, não percebia porquê. Os animais, para o meu pai, ou tinham uma serventia ou não tinham lugar no círculo doméstico mais alargado. Era-lhe absolutamente estranha a ideia de «animal de estimação». Isso era coisa de gente a quem o dinheiro a mais espoletava a adopção de toda a sorte de comportamentos excêntricos pouco desejáveis. «Um gato para quê?», perguntou-me? «O que vais fazer com um gato?» Na verdade, nem eu próprio sabia. Sentia-me sozinho, tinha pouquíssimo amigos e imaginava que um gato pudesse de alguma forma suprir ou pelo menos minorar essa carência. «Para brincar com ele», respondi, timidamente. «Um gato sai caro», asseverou. «Já temos dois cães, já gastamos tudo quanto podemos gastar em comida para os bichos». Tinha esperança de que ele me tentasse dissuadir sacando do trunfo do dinheiro. «Eu pago», repliquei. «Eu tenho dinheiro». Ele riu-se. «Então mostra lá esse dinheiro», gracejou, «a ver quantos dias consegues dar de comida ao animal, que tu não tens noção do preço das rações». Eu fui buscar um dos mealheiros, atulhado até à boca de moedas e despejei-o em cima da mesa da cozinha. Ele olhou para as moedas, para mim, para as moedas novamente e logo para mim. Não fez perguntas. Eu mantive-me estrategicamente em silêncio. «Quando aparecer aí nas redondezas uma gata que tenha uma ninhada, a gente conversa».

Acabei por ter um gato, um mês e pouco depois. O meu pai, pensando que eu era a criança mais poupada da história das crianças poupadas, não só mo trouxe a casa como me acompanhou orgulhoso ao supermercado para comprar um areão e comida para ele. A senhora da caixa, impermeável à vaidade paterna, reclamava da quantidade de moedas que tinha de contar. O meu pai, impassível, repetia: «algum problema? É dinheiro, não é?».

Certa vez, vínhamos para Portugal em Agosto, cumprir a romaria de imigrantes a que estávamos votados na altura, o carro avariou, perto de Bordéus. Tivemos de ficar dois dias num hotel. Eu, o meu pai e a minha mãe num quarto e os dois cães e o gato num anexo no último andar. Na hora de pagar o arranjo e as diárias, o meu pai viu-se curto de massas. Discutiu o assunto com a minha mãe; que ali não havia uma dependência do banco dele, que o melhor seria pedir emprestado a alguém, que pudesse mandar um vale postal, e pagar depois. Mas teríamos de ficar mais dois ou três dias, o que encarecia bastante a situação.

Eu ofereci-me para cobrir a parte que faltava. «Afinal, também vou no carro», atirei. «E assim não perdemos tantos dias de férias». O meu pai riu-se. Quando depositei sobre a colcha da cama o dinheiro em falta, o sorriso transformou-se num esgar de perplexidade. Tive de lhe explicar tudo, obviamente. Nem a mais poupada formiga das histórias infantis era capaz de reunir aquela maquia.

Ele riu-se e acho que entredentes resmoeu «filho da puta», mas na altura não percebi bem. Pagámos e passado dia e meio estávamos em Portugal. Nós e os bichos.

30 Jul 2021

A democracia não nos prepara para a ditadura

Era uma menina bem comportada, como as meninas têm tendência a ser. Uma longa tradição de família em ter-se orgulho na demonstração de competências cognitivas, sobretudo femininas. Menos mal, não me educaram para ser a melhor, apenas para nunca atingir um nível de vergonha própria e alheia. É verdade, por vezes até anexava um bocadinho o meu sentido de valor próprio aos números que iam surgindo. Nada de grave, há casos bem piores. Se fazia mal as contas levava reguada (ainda bem que entretanto nos fomos livrando destas técnicas pedagógicas do paleolítico) e quando levava reguada, sabia que professora não estava a olhar para a aluna dedicada e algo talentosa, estava a olhar para as contas mal feitas. Não é como se doesse menos, mas havia um princípio democrático – o castigo era aplicável a todos devido ao resultado de uma ação. Em democracia, queremos igualdade de tratamento e, acima de tudo, objetividade. Havia razões para o castigo – e não vou entrar aqui na discussão da noção de castigo como método porque esse não é o meu objetivo. Se tivesse um bom desempenho nas aulas mas os testes corriam-me mal, a minha nota ia ser uma conta feita através dessa balança. Os critérios de avaliação eram transparentes e isso era importante. Ninguém me dava uma nota com base naquilo que fazia no recreio ou por me vestir toda de preto com pentágonos, nem pela forma como questionava os professores. Eram sempre questões que provinham da lógica argumentativa e, mesmo que alguns professores tivessem um pouco mais de dificuldades em lidar com o confronto, ele saia do campo da avaliação de minha performance. A forma como me vestia, a forma como confrontava os professores com alguma injustiça na avaliação ou com matérias fora do programa, não interferiam com a minha avaliação que se regia por imparcialidade, racionalidade e não por emotividade. Justiça e democracia em todo o processo. Ninguém me tinha dito que o mundo do trabalho privado seria uma ditadura! Ok, provavelmente alertaram-me para isso constantemente de outras formas como “vais ver quando começares a trabalhar” ou outro tipo de premonições demoníacas. O certo é que ter começado com uma carreira académica não me tinha preparado para tudo o que me esperava no trabalho em empresas. Se nos formam para acreditar na justiça e no mérito, não nos formam para ter que lidar com estruturas que pouco têm de meritocrático porque a sua atribuição de estatuto depende exclusivamente da relação ao capital e, consequentemente, do poder inquestionável que este lhes confere.

Trabalhei em sítios onde me exigiam que andasse de saltos altos. Fui despedida por ter confrontado a minha chefe mesmo que os números do meu trabalho fossem os mais altos entre pares. Fui guiada em áreas do meu domínio por pessoas sem o menor conhecimento da área. Tal como na escola, tinha tarefas para executar e tentava executá-las.

Contudo, o desempenho de funções numa empresa nem sempre depende da transparência e da objetividade de critérios como numa escola. “É o mundo real” dizem. Talvez. Mas por vezes gostaria que me deixassem a um canto a sonhar com utopias.

30 Jul 2021

Máquina e identidade – Luz e fogo (3)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins
 
1.
A máquina apoderou-se da memória – e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia.
A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia.
Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira. 
O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros.
É evidente que te podes comover até com a arte abstracta, ponto linha e plano de Kandinsky, o senhor estético que chora uma lágrima qualquer por causa de uma qualquer linha azul. Mas tais sujeitos delicados são raros. Mesmo a pintura figurativa ou a descrição detalhada de um familiar, por via da escrita, jamais chegam a esse punctum em forma de poço ou queda que existe na fotografia de um nosso familiar que já morreu ou na nossa própria fotografia anos atrás – esta nossa fotografia que retrata, diga-se, um familiar nosso que já morreu. Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracção ou pudor. Agora e na hora da nossa morte.
 
2.
A nossa fotografia, de há trinta anos é também, então, a fotografia de um familiar que morreu – um familiar bem próximo, o mais próximo que existe, aliás. Mas como designar este familiar que está na fotografia e que sou eu, afinal, anos atrás? Não é o meu irmão mais velho ou mais novo, não é o meu pai nem o meu filho, sou eu, mas claro que não sou eu. Eu já não sou o que fui – e as formas verbais da linguagem ensinam o possível ao portador afectivo dessa linguagem – e tenho aquilo que fui nas minhas mãos quando pego numa fotografia. E sim, é urgente encontrar um nome para este estranho familiar que a fotografia coloca à minha frente. É aquilo que eu já não sou, é o meu não, o meu negativo, o meu antes.
 

30 Jul 2021

Trevo

Toda a vila se deixou cercar por arranha-céus, hematomas que rasgam as paisagens húmidas atravessadas pelo grande aqueduto. Na montra da praça, há um Cristo deitado de barriga para o ar que se mostra particularmente atento às prateleiras de cima onde as bonecas surgem alinhadas com folhos brancos, chapéus de chita e os lábios muito marcados em tons de vermelho vivo. A homeostase perfeita para uma vila com o nome de Belas.

O taxista continua no seu posto sentado ao volante. Olha vagamente para as portadas azuis da casa de saúde ou para o avarandado do café. Por vezes, vira a cabeça na direcção do parque infantil que continua deserto. O locutor da rádio garante que a mudança de dígito irá dar origem, dentro de dias, a um crash global. Este Millenium Bug, tal como o designa, já foi tratado por uma revista americana com o título “banho de sangue”. O medo não tem paisagem, é um buraco onde o teatro de sombras encena as peças mais improváveis com algum selo de verdade. O taxista viu crescer o seu próprio teatro ao rubro, a ponto de se imaginar a arder numa vala comum. O dia não promete bonança, pensou. Foi quando o telefone da praça tocou e o carro partiu para mais uma breve viagem.

O tempo dos clientes é um tempo proscrito. Voa como quem esvazia um balão que não pára de crescer. Até que o automóvel acaba por chamar a si as atenções e a estação de serviço interrompe todas as caminhadas. O taxista propõe-se encher o depósito como sempre, mas, desta vez, vê andar na sua direcção uma mulher de abas largas. Por trás das lentes grossas dos óculos que ostentam aros de chifre, os olhos desmaiam tons marinhos, à medida que a voz cresce naquele afã dos foguetes de arraial que falham na subida.

A mulher parece ter ressuscitado no momento em que encarou de frente o taxista que mantém ainda na mão o tubo negro por onde escorre o gasóleo. Jura que o conhece há muito tempo e repete-o com um ar ao mesmo tempo vitorioso e furioso. O taxista não tem sequer tempo para insistir que se deverá tratar de um engano. Indiferente, ela continua a jorrar palavras e lembra o clima tropical, as azáfamas debaixo do calor, aquilo era outro mundo, não era?

Lembro-me de o ver todas as manhãs com camisa branca a distribuir envelopes porta a porta. Por vezes parava e olhava para cima como se uma nuvem apenas feita para si lhe tivesse sido prometida. Nunca me passou pela cabeça investigar qual seria o seu emprego, mas cruzava-me sempre consigo na mesma estrada de terra batida, aquela terra barrenta cheia de sapos, lembra-se?

O taxista enche o depósito e continua com a longa mangueira na mão, incomodado por ter que interromper os seus habituais gestos mecânicos. À sua frente, a mulher devora as palavras e o relato torna-se de repente tão bizarro como a própria situação em que decorre. Poucas vezes o encontrava durante a tarde, mas havia aquele café entre os coqueiros do vale, isso mesmo, o Majestoso, onde o via por vezes com uma cerveja morna pela frente e o bloco-notas que ia enchendo entre um ou outro olhar na direcção da esplanada. Sempre o achei um solitário. Mas, minha senhora, eu nunca saí daqui da minha terra, está enganada com a pessoa, não sou eu certamente.

É o senhor, sim, eu não me costumo confundir. Nunca. Houve uma altura em que comecei a ter sonhos estranhos consigo, tenho que lho dizer. Via-o a bater à porta da minha casa com as palmas das mãos cheias de cavalos marinhos. Via-o a atravessar-se-me em frente como se levitasse diante da sacada do meu quarto. Via-o a contar-me que já vivera várias vidas, cada uma delas em seu continente e sempre, sempre com um fim trágico, terrível. E numa dessas vidas tinha sido taxista. Não me diga que não! Abruptamente, a mulher como que crepita em estado de pânico. O silvo da voz acende-lhe o rosto. Sua de ponta a ponta com os braços arqueados no ar, cabelos desordenados, o olhar em vaga a bulir com a pontaria de um lança-chamas.

O taxista, inquieto, tenta dar a cena por terminada, dirigindo-se com passo acelerado na direcção da caixa de pagamento. Gestos rápidos de ciclope. À volta, um pequeno grupo de pessoas junta-se em semi-círculo para bisbilhotar o inesperado turbilhão. A mulher grita, irada. A tarde sai das suas raízes como um relâmpago a alçar o piso molhado e escorregadio, por causa das nuvens rápidas e das manchas de óleo. O táxi parte com os pneus de trás a derraparem, enquanto a mulher, impassível, continua a vociferar, a bradar, deambulando entre as bombas de gasolina com o coração, distante do corpo e de tudo, a ribombar. Cada paisagem é uma fuga na direcção do animal que por dentro atiça a sua própria tempestade.

Noite caída. O taxista entra em casa, um modesto cruzamento de duas assoalhadas. Olha obstinadamente para o relógio, abre a televisão e o pequeno móvel do bar, levanta a cortina do aquário e contempla o movimento dos cavalos marinhos. No telejornal fala-se do Millenium Bug, mas o taxista não é capaz de pôr de lado a imagem de Cristo deitado de costas a espiar as bonecas que o lojista carregou de batom vermelho. Com o indicador, levanta a manga da camisa e torna a fitar o relógio, impaciente. Desdobra um dos jornais da semana passada, ao mesmo tempo que assobia a tónica dos acossados que desconhecem o que é descansar ao fim do dia. Olha mais uma e outra vez para o relógio até que batem finalmente à porta. É ela.

A mulher entra em silêncio. É o taxista quem reabre a sorvedouro. Ela acede de imediato, sentando-se na mesa de apoio com as pernas muito brancas a espantar os relances da casa: Ah sim, se me lembro de o ver, manhã atrás de manhã, com a camisa branca toda aberta a entregar os envelopes nas caixas de correio do pobre bairro. Desculpe, minha senhora, está mesmo enganada eu não sou essa pessoa. Ai é, é! Tantas vezes que o segui até ao Majestoso com um desejo enorme de tentar perceber o que escrevinhava nesse bloco-notas de capa azulada. Mas eu nunca… e não foi só isso, a partir de certa altura, via-o em sonhos a ameaçar-me com os seus cavalos marinhos, via-o diante da minha janela deitado sobre um tapete aos quadrados, enfim, via-o a contar-me as suas várias vidas e em todas elas eu e o senhor éramos levados a arder para mesma vala comum. Ah!

Belas anoitece cercada por arranha-céus, hematomas que rasgam os medos em fuga como se cada novo aqueduto fosse um animal gigante a atiçar a sua própria intempérie.

29 Jul 2021

O vizinho

Fazemos os nossos amigos, fazemos os nossos inimigos, mas Deus faz o nosso vizinho.
G. K. Chesterton

 

Por vezes, para apaziguar o pessimismo que sob temperaturas estivais passa a um nível efervescente detenho-me a considerar o tanto que o ser humano conseguiu para elevar-se na lama. A arte. A literatura. A arquitectura. A música. O cinema. As formas de organização social, geridas por um Estado de Direito e que permitem liberdade individual e possibilidade de escrutínio aos que detêm o poder. Os grandes filósofos, que nos ensinam a pensar. E mais haverá que seria ocioso aqui enumerar. Tudo conquistas dignas, extraordinárias, contra todas as possibilidades e que tendem a engrandecer a natureza humana. Mas depois lembro-me dos vizinhos.

O leitor sabe, que eu sei que sabe. Vamos lá ver: um vizinho em si não é coisa má. É necessária e é uma forma orgânica de comunidade que muitas vezes nos ajuda e até salva. Naturalmente esse tipo de altruísmo aparece ao mais alto nível e sem surpresa nas grandes tragédias: lembrai-vos do início da pandemia e do confinamento, quando saltitavam os vídeos de vizinhos confinados cantando e acenando para outros vizinhos. Que comovente maravilha. E agora que já vamos no segundo ano desta situação, a coisa continua solidária, alegre, com manifestações espontâneas de amizade entre vizinhança e…ah, espera.

Não se julgue que o vizinho é uma tipologia moderna, no entanto. Não, amigos: há milhares de páginas da nossa literatura que tentam caracterizar ou defender o sujeito ali do lado ou do andar de baixo. Por mim bastaria uma reunião de condóminos, mas isso sou eu. Chesterton, que ali está em epígrafe, concordaria comigo, como aliás George Bernard Shaw que deixou esta lapidar verdade: «Se ofenderes o teu vizinho é melhor não o fazeres pela metade». O romântico Schiller lembra a categoria de “mau vizinho” para lembrar que nem o homem mais bondoso consegue a paz se isso não agradar ao dito cujo. O Código Civil está cheio de artigos que visam justamente regular e confirmar a existência desta espécie. Por outro lado também existem as apologias mas normalmente são feitas por homens de enorme estatura moral e bondade, como Martin Luther King,Jr que confundem o amor ao vizinho com o amor ao próximo. Percebo mas a prática muitas vezes torna-se difícil.

Por mim, prefiro o anonimato discreto, o cumprimento cortês mas lacónico e o silêncio angustiante do elevador partilhado. Mais a mais agora, em que registo uma guerra surda com um desses cavalheiros acima descritos que me atormentam a paz e o sossego com queixas injustificadas. Como uma que ficará nos anais: na última passagem do ano, com duas pessoas a jantarem na sala, confinados que estávamos, ouviu-se gritos do andar de baixo e a tradicional vassourada no tecto, reclamando contra o barulho. Estava a televisão ligada, imagine-se. E eram 21 horas numa passagem de ano.

Enfim. Percebeis agora o motor desta crónica. Só devemos escrever sobre o que sabemos, ensinaram-me os mestres. E sobre este tema tinha muito mis para dizer, só que quero que esta coluna continue acessível a todas as idades. Mas sempre vos direi, parafraseando um célebre slogan: poderíamos viver sem vizinhos? Poderíamos, mas não seria a mesma coisa. Seria melhor.

28 Jul 2021

Colher e ser colhido

Horta Seca, Lisboa, sexta, 16 Julho

 

Que esconde uma montra? Percorro a página de abertura do sítio (www.abysmo.pt) e vejo como vem sendo parca a colheita, que nunca foi dada a abundâncias. Logo os restos de sangue camponês encontram razão nas vicissitudes do tempo, cargas de água e sol abrasador ou aquele nevoeiro que se abateu sobre o mundo e as vontades. O bom agricultor sabe ler a meteorologia, até a atmosfera da desgraça, pelo que não será apenas por isso. Onde se conservam as sementes adiadas, em que compostagem os apodrecidos? E as sombras, que celeiro bojudo as mantém na boa temperatura? Tanto por enfrentar e as ferramentas ferrugentas, rombas, quebradas…

O conforto de uma côdea surge de volumes como este «Eva – Ilustradoras Portuguesas do Século XX», aliás no seguimento do «Tom», com grafismo que se vai tornando assinatura (algures na página uma capa) e que celebra a letra em entrada para exposições portáteis que andam por aí nas mãos e olhos de quem as agarrar. O Jorge [Silva] continua, aqui e ali a convite de instituições, a fazer do seu hobby uma vocação, de um interesse pessoal autêntico serviço público. Ao contrário de tantos respigadores, ele pensa o que vai recolhendo quando o oferece em livro. (Em mercado drogado em novidades, desaconselham-se indícios que datem a obra. Caiu em desuso a classificação de catálogo, para que o livro não fique preso a uma circunstância.) Neste caso, que esteve patente na Casa da Cerca, em Almada, o ar dos tempos soprou-lhe por tema o feminino. São nove os nomes primeiros (Alice, Mily, Raquel, Guida, Laura, Ofélia, Sarah, Maria e Fernanda), quase todos bastante conhecidos, mas manda o habitual que se conheça mais o nome (vagamente) que a obra (minimamente). Esta sistemática recolha do esquecimento traz consigo invariável motivo de espanto. Para além dos costumes citadinos, os da alta burguesia e os da mítica ruralidade, de uma infância não menos mítica, encontramos representações da mulher que escapam ao lugar-comum e intenso trabalho plástico. Um bálsamo, as expressivas interpretações de Maria Keil para «Folhas Caídas», do Garrett.

Estonteantes, as composições e as poses e os rostos de Guida Ottolini para a capas da revista «Eva». Melancólicas, as formas de Mily Possoz, que vão do minimal ao colorido solar, passando pelo quase cubismo em ponta seca. Postas as lentes de aumentar da actualidade, o Jorge não hesita em sublinhar na contra-capa: «apesar das contingências da sua educação escolar e familiar, e do expectável papel que a sociedade patriarcal lhes reservava, muitas mulheres conseguiram afirmar um percurso ou uma carreira como ilustradoras editoriais, realizar uma obra inspiradora e inspirada nas vanguardas dos movimentos estéticos e pugnar por um papel igualitário na sociedade do seu tempo.»

Tendo a achar, a partir de testemunhos, que muitas vezes se tratou apenas de viver as possibilidades ao máximo. Com o que tal significa sempre ignorar com sobranceria o impossível anunciado, imposto, palpável. Surge até como metáfora esta brincadeira à la Silva com o código de barras. A imposição logística de um pequeno indicador de (quase) identidade, sobretudo, preço e arrumação, transforma-se em pretexto para modular formas. Ao limite.

São Cristovão, Lisboa, terça, 27 Julho

Tem andado um rio entre nós, pelo que há muito me não encontrava com o Paulo [José Miranda], para acerto de agulhas e apanha da notícia madura. Acompanho nestas páginas e às terças o seu excêntrico contributo para a letradura, não apenas com títulos – entre o doce e o estridente –, mas também com – e tal não será para todos – autores que suscitam a busca dos sequiosos leitores. Vale volume, pelo que comecem os trabalhos de apuro e enxertia! Em 2022, arredondam-se datas e soam já projectos pelo que temos de pensar em arredores para o centro que será, para nós e todo sempre, o livro. E a poesia. Passámos pelo futebol e, pour cause, um verde branco, antes de nos atirarmos ao tinto e às mudanças, que serão apenas de geografia. Apenas? Sim, quando os passos são no caminho da conversão, ao encontro de si mesmo, o exacto lugar não interessa por aí além. Mal lhe falei de novidades traduzidas, tomei nota da sua surpresa por publicarmos traduções. Se nem os casa conhecem os cantos às lombadas… Quedámo-nos em princípio muito inicial e prometedor de romance. O Paulo gosta de ler excertos em voz alta e eu de o ouvir. Não que me concentre, antes me faz andar por lugares. Lá foi o olhar subindo e descendo a estreita e geométrica escadaria que se estende entre azuis à nossa frente, Tejo em cima e céu em baixo.

Calcutá, Lisboa, terça, 28 Julho

Estão elencadas, e não apenas pelos profissionais do contratudismo, as fraquezas dos festivais literários: a vacuidade das ideias distribuídas, a claustrofobia dos temas e editoras dominantes, o espectáculo das vaidades, a promoção da leitura reduzida ao culto do autor, a dislexia entre performance pública e qualidade de escrita, a insistência em um só modelo de conversa pequena perante plateias enormes, etecetera. Ah, e o excesso de festa! Cultura não condiz com alegria, coisa de entretenimento. (O que para aí vai, aliás, de confusão entre uma e outro.) Por princípio, não nos negamos aos ditos. Para o melhor e o pior, são encontros. Quando solicitados, participamos muito para além das nossas possibilidades (e da nossa capela). Nem sempre com bons resultados, nem sempre recebendo o devido tratamento.

Anuncia-se o regresso do Folio, sendo caso particular. Antes mesmo dos dias concretos e definidos de Óbidos, tratamos de pôr mesas de tal modo cubistas que não sei como os copos e os pratos e as vozes e o resto de estar à mesa se aguentam. Com a Raquel [Santos] e o José [Pinho], além de ocasionais convidados, pintamos assim festival dadaísta e muito particular de leituras ao ouvido e absurdas encenações imersivas, projecções holográficas de autores queridos e outros, jogos de sociedade a partir das sinopses, combate entre badanas, intervenções relâmpago de poetas patafísicos, disparates épicos de par com ambiciosos centros de experimentação, enfim, ideias, planos, propostas, esboços e delírios. Não podia ser de outro modo, da gigantesca lista riscada nas toalhas de papel apenas se cumprirá à risca uma sensata e mínima parte, mas a discussão, o gargalhado, a criação bruta, o dito e o pensado, faz com que se cumpra logo ali algo de essencial. Para mim, o resto será sobremesa.

28 Jul 2021

Querido avião

Esforçava-se, na consciência retrospectiva de não entender a realidade em redor da carteira, na sala atulhada de meninas de vários tamanhos. As maiores com olhar triste e batas puídas, atrás. (Talvez também usassem a bata previamente gasta, do tio mais novo. Que três anos depois ainda valia a galhofa das amigas no recreio). Eternamente atrás do rebanho em que as outras foram progredindo, um pouco mais depressa do que cresciam. Esforçava-se por entender quando é que na véspera tinha havido trabalhos de casa, anunciados talvez num daqueles lapsos entre o sonho com os rios de moçambique, as províncias do mapa de orla vermelho escuro, a morte da querida bisavó avó etelvina e as paragens da linha de comboio de quelimane a tete ou outra coisa qualquer e a fotografia feia do perfil do salazar ali mesmo à frente porque ela estava na fila da frente por ser a mais pequenina e ver muito mal mas isso ninguém sabia e durante muito tempo e só veio a lume daí a uns dez anos, mais coisa menos coisa. Esforçava-se por dar atenção à professora luísa que estivera em cabo verde e levara uma gabardina e chapéu-de-chuva, dizia, até ao limite do ridículo à chegada. Mas andava regularmente com as palmas pequeninas das mãos doridas das reguadas repetidas consoante os erros, os horríveis erros ortográficos de uma era em que não se falava ou protegia dislexias ou disortografias. As mãos desinchavam. Mas na terceira classe ainda não sabia ler nem escrever, dizia. Sabe-se lá se sabia ou não.

Esforçava-se. Primeiro nuns patins de recreio e só mais tarde nos verdadeiros. Na medida em que no desgaste das rodas interiores dos patins se ia gravando o sinal. Tinha sempre os joelhos e as palmas das mãos doridas e negras das quedas, no treino dos exercícios. Na aprendizagem. Era uma pequena imprecisão de crescimento de uma perna a mais do que a outra e uma imperfeição na linha da coluna e que lhe valera as críticas de mestra e os comentários recorrentes de colegas cruéis. Aquela postura hirta do pescoço nas curvas elegantes da técnica nos peões mal feitos ainda mas que por outras razões. O corpo, os músculos descontraídos não cediam às limitações da forma. Décadas mais tarde uma radiografia e um médico explicaram aquilo que é a forma de um pescoço normal e aquilo que é uma forma diferente. Coisas da correcção da estrutura de um corpo, pela própria estrutura inalterável e para equilíbrio.

Os jovens cruéis mas amigos, vingavam o seu vazio nas drogas como uma camada subjacente que não lhe confiavam e no sexo, em desespero. Que cada dia trouxesse algo. A miúda do pescoço hirto e Axel imperfeito e raro, na garrafeira do pai uma vez ou outra, em misturas apressadas para apressar qualquer coisa, para esquecer a lentidão monocórdica de qualquer coisa e para testar o estilo engasgava-se com os charutos ou cigarrilhas agressivas, porque os cigarros sempre protegidos no bolso do peito.

Mas no avião, figura de estilo em velocidade e a desafiar a gravidade com equilíbrio, durante anos, ninguém a batia com postura mais flexível e perna mais elevada. Mas para trás. Em velocidade estonteante para trás. E a descrever uma curva larga. Mas disso, a fotografia não diz.

É essa sucessão de camadas que nos envelhece, que nos amadurece para um estado em que todos os outros transpiram a sua essência. Nada se perde. Talvez até infelizmente o que é negativo e a memória se recusa a descartar. Tudo vai a jogo por debaixo de uma só e fina pele que mostra o mais evidente e por debaixo as tais camadas de ser e de sentir e de ter vivido.

E para olhos incautos ou pouco incisivos, é essa pele marcada que sobressai mesmo quando a pessoa adolescente lá atrás se liberta (como) décadas antes. Ao som de uma música punk ou a irritar ridiculamente o público que não há em trejeitos anedóticos, depreciando o Bolero. De Ravel. A mesma pessoa por debaixo de uma patine que a faz até talvez ridícula para quem não entende. Quem ainda não percorreu percurso semelhante.

Há muitos anos escrevia sobre o sistema de camadas de uma cidade. Intrigante e apaixonante. Que todas as têm. As cidades. Como seres que são e como todos os seres que se reservam com um depósito de protecção à invasão abrupta. E se destinam a ser desvendados, sem ao fim da noite uma verdade absoluta. Ou a deixar o olhar, também ele focado como objectiva com anel rodado criteriosamente, incidir sobre a camada que é alvo de focagem. Da selecção. Tantas fotografias diferentes sobre o mesmo ângulo de abordagem, simplesmente focando intervalos de distância diferentes. A profundidade de campo. Chama-se a esse intervalo de espaço focado desfocando o que está mais para lá ou para cá do mesmo. Como a dizer que podemos de algum modo ver a realidade como a queremos ver. Senão como a queremos.

Crescer. Pensa aquela miúda para lá de muitas outras camadas, custa tanta frustração e resistência e cria tantas couraças de protecção. É um caminho tão duro e que visto lá de trás parece tão lento e inexpugnável.
Por isso voou. Abriu a janela e voou. A miúda triste mas alegre.

27 Jul 2021

Tabuletas e bombas d’incêndio

Os incêndios apareciam relatados nos Boletins Oficiais e as condecorações por actos heróicos eram neles também publicadas, como no B.O. de 2/11/1872 quando o cabo de esquadra n.º 83 da primeira companhia do batalhão de infantaria de Macau, Joaquim Coelho da Rocha recebeu uma medalha de prata, (sem necessidade de pagar direitos de mercê nem de selo) pelos serviços que prestou por ocasião do incêndio ocorrido a 27 de Abril 1872 em Sá-com, salvando com grande risco de vida dois chineses que se achavam sem sentidos dentro de uma barraca já presa das chamas.

Num dos Editais no Boletim da Província de Macau e Timor, de 20 de Março de 1875, João Hyndman, procurador interino dos negócios sínicos fazia saber aos habitantes chineses que o Governador, querendo melhorar o serviço de incêndios para melhor segurança dos habitantes, determinava: 1.º Que por conta do governo serão afixadas nas portas das casas que tiverem poços tabuletas com a palavra poço; 2.º Que todas as vezes que houver incêndio de noite, as lojas e casas em cujas portas estiverem afixadas as tabuletas mencionadas no artigo antecedente, deverão colocar uma lanterna ao lado dessas tabuletas; 3.º Que, nos lugares próximos ao sítio de incêndio, as casas que tiverem poços deverão franqueá-los ao pessoal do serviço de incêndios, na certeza de que o governo dará toda a protecção para que essas casas tenham toda a segurança e não sofram prejuízo algum.

A 22 de Fevereiro de 1877, o mesmo procurador João Hyndman por Edital fazia saber: Tendo sido retiradas em algumas casas as tabuletas designativas da existência de poços, o que causou graves inconvenientes por ocasião do último incêndio que teve lugar na travessa do Tintureiro na madrugada de 13 do corrente mês, e convindo em semelhantes ocasiões de desastre que as pessoas que concorrerem para prestar socorros tenham meios de reconhecer facilmente quais são as casas onde existem poços, vão ser, por ordem do Governador, substituídas as tabuletas acima indicadas, pela letra P acompanhada do carácter sínico que significa poço, sendo ambas as letras [de altura de dois decímetros] de cor branca e pintadas a óleo sobre um quadro preto, o que pelo presente edital se faz público para o conhecimento dos habitantes chineses, os quais são também avisados que os proprietários das casas em que forem pintadas essas duas letras serão responsáveis pela conservação delas, ficando sujeitos a uma multa além da obrigação de pagar as despesas da reparação, quando por culpa ou negligência dos mesmos proprietários ou inquilinos forem deterioradas as ditas letras. Ao mesmo tempo faço saber aos habitantes chineses que o governo lhes garante toda a segurança, quando em ocasiões de incêndios for necessário que eles abram as portas de suas casas para se poder utilizar dos poços que possuírem, pois que serão então colocadas sentinelas para evitar todo e qualquer abuso, de modo que não haverá razão para que em ocasião de semelhantes calamidades procurem os chineses dificultar o acesso dos poços de suas casas; por isso todos que para futuro assim fizerem serão processados e punidos rigorosamente como desobedientes à autoridade.

O lugar de inspector dos incêndios encontrava-se vago por falecimento do capitão da guarnição Frederico Guilherme Freire Corte-Real, o que levou o Governador José Lobo d’ Ávila a publicar no B.O. de 25/9/1875 a Portaria N.º 94, onde o major d’ engenharia, director das obras públicas, Augusto Cezar Supico, era nomeado inspector dos incêndios, pois considerava que do melhor desempenho de tal serviço resultará maior facilidade aos proprietários que desejem segurar as suas casas, nas companhias estabelecidas em Hong Kong. Já a Portaria N.º 95 refere: Já no B.O. de 17/2/1877, o Inspector dos incêndios, Cesar Supico narrava: Os primeiros a comparecer no local foram o comandante e alguns oficiais e praças do corpo de polícia e guarda da cadeia por eles foram empregadas as primeiras diligência para o extinguir. A falta de meios próprios e a grande quantidade das matérias inflamáveis, que existiam no prédio, tornou infelizmente ineficazes aqueles bons serviços e por isso o fogo comunicou-se rapidamente a toda a casa. Nestas circunstâncias tratei principalmente de evitar a sua passagem para os prédios vizinhos, o que felizmente se conseguiu. Compareceram todas as corporações, notando-se a boa vontade e diligência com que trabalharam os piquetes da polícia de terra e mar, e a companhia da limpeza conduzida pelo seu fiscal.

Dentre os indivíduos particulares que prestaram serviços sobressaem, como dignos do maior elogio, os cidadãos António Carlos Brandão e filho José Brandão, trabalhando com uma bomba sua desde o princípio. Ganhou o primeiro prémio a bomba n.º 1 desta inspecção, cujo pessoal foi auxiliado por um soldado da guarda do quartel de S. Domingos e outro da guarda da cadeia. Tendo-se partido uma escada foram precipitados da altura do telhado dois chineses da companhia de limpeza e um da bomba Men-Ki, ficando este último gravemente contuso. Por esta inspecção lhe mandei prestar todos os socorros que foram indispensáveis para o seu tratamento.

A relação das bombas particulares existentes em Macau foi publicada na Procuratura dos negócios sínicos a 17/11/1879, com indicação da cor das cabaias que devem trajar os dois encarregados de cada uma dessas bombas.

Tendo os proprietários das bombas particulares pertencentes a estabelecimentos industriais chineses concordado em dar aos encarregados das mesmas bombas trajos especiais para poderem distinguir-se umas das outras. Assim com cabaia branca apresentavam-se as bombas, de Menki (do hão de chá) com borda azul; da Rua dos Ervanários (ou Quartel Velho) com borda preta; da Rua da Caldeira (Ven-Lum-Fong) com borda vermelha; de Sankiu com borda azul; do Bazar com borda verde; e da Pat-Coc-Tong (Rua da Barca da Fruta) com borda amarela. A cabaia azul era usada pelas bombas de Ch’eongki, (fábrica de tabaco) com borda branca; da Rua do Infante (Simão-Kai) com borda branca; e a de Patane com cabaia azul-claro e borda azul-escura. A bomba de Matapao (Siun-Ho-Hao) trajava cabaia amarela com borda azul.

26 Jul 2021

O Jogo das Escondidas – Capítulos 40 ao 50

– E a tua protegida, Wei Zi, já soube algo do subordinado de Max Wolf?
Antes de responder Ding Ling foi em busca de um roupão de seda e vestiu-o.
– Ele sabe alguma coisa. Mas não sabe tudo. Se o soubesse teria dito a Wei Zi. A questão resume-se a uma: ópio ou heroína? É isso que separa Macau do senhor Wolf. Se ele introduzir aqui a heroína destrói o negócio de muita gente. Mas ele está disposto a isso, mesmo que tenha de destruir os seus opositores. Para isso promete riquezas sem fim a piratas e elementos das tríades. É assim que se cegam os homens sem princípios. É preciso fazê-los acreditar, não no presente, mas no futuro. Desviar a sua atenção para o que ele vos pode vir a dar. E não o que ele te dá agora. Assim conquistam-se os tolos. Poderá ser uma luta terrível.
– Acho que estávamos mesmo a necessitar de um beco sem saída.
– Querido tenente, o problema não está muitas vezes na infinita crueldade de alguém. Está mais na sua cordialidade. Talvez por isso o senhor Wolf tenha escolhido a estratégia errada. E é isso que o pode fazer perder a guerra que se adivinha.
Ding Ling não lhe contou que Wei Zi conseguira saber a estratégia de Wolf para conseguir dinheiro. Ele tinha a mesma intenção que ela: assaltar o barco que transportaria ouro e dinheiro de Macau para Hong Kong. Wei Zi soubera quando, como e onde ele atacaria. O tenente começou a vestir-se, sem deixar de olhar para ela. A voz da chinesa voltou a escutar-se:
– Recorda que uma cobra nunca se pode transformar num dragão. Houve um sábio na China que nos disse que um sábio que se dedica a pôr ordem no mundo deve saber de onde vem a desordem, e só assim poderá cumprir a sua missão.
– Quem disse isso?
– Um senhor chamado Mozi. Para ele era claro que a desordem tinha origem na falta de amor mútuo.
– É isso que separa as pessoas?
– Sempre o será, não te parece querido tenente?
– Para isso é necessário que elas saibam distinguir o sabor amargo do que é doce. E nem sempre o sabem.

43

– Esse será sempre o eterno problema dos homens. Por isso, na história da China quem atacou bem sempre ganhou. Quem teve dúvidas, perdeu. A vida também é assim. Foi assim que me conquistaste o coração.
– A ti ninguém te conquista. Tu deixas-te conquistar.
– Às vezes tu não me compreendes. E eu não te compreendo. Há assim algo de comum entre nós.
Amoroso sorriu.
– Não podes cometer um erro sem aprender uma lição, adorável Ling.
– Já pareces um chinês a falar, querido tenente.
– Aprendi contigo.
– Talvez. Mas não esqueças que quem nada deve é sempre senhor do seu destino.
Amoroso sentiu que alguém estava na escuridão. Não se enganou. Bei Li aproximava-se. Trazia um vestido transparente que deixava visível todo o seu corpo. Aproximou-se de Ding Ling e os seus corpos tocaram-se, por momentos. Ambas ficaram a olhar para ele. Mas o tenente não reagiu e saiu.

11.

O Bazar guardava segredos que nunca revelaria. Quando a noite caía e os silêncios e a escuridão convidavam ainda mais ao sigilo, as suas ruas estreitas e becos sem saída escondiam ainda mais um mundo que não se regia pelas leis escritas nos centros do poder. Ainda não anoitecera, mas o Bazar recordava, a Félix Amoroso, Alfama. Talvez fosse isso que aproximasse os portugueses dos chineses, o seu gosto pelos labirintos de onde não sabiam sair. Caminhava calmamente, mas sentia que olhos invisíveis o seguiam. Voltou-se mas não viu ninguém. Era uma sensação estranha, mas sabia que alguém seguia a sua sombra. O tenente tinha consciência do seu erro. Não fora prudente e tornara-se um alvo. O calor impiedoso ofuscava o seu pensamento. Não tinha nenhum mapa do tesouro entre mãos, que pudesse ser cobiçado. Era apenas o senhor de suspeitas que ameaçavam alguém. Percebera que, ao alertar Sofia Palha e, eventualmente, Max Wolf, poderia estar a pôr em causa um grande negócio. E quem queria lucros não se importava de colocar alguns prejuízos alheios nas contas finais.

44

Chegou à Rua do Matapau e escutou o som de diferentes pássaros, cantando o que parecia uma pequena ópera. Vinha de uma loja que conhecia, e onde há algum tempo adquirira um periquito. Parou por um momento para escutar a agradável disputa entre os pássaros, fechados em gaiolas. Depois passou por um pagode, de onde vinha um cheiro agradável do sândalo das oferendas queimadas. Lá dentro, sabia, um Buda observava os que ali vinham depositar as suas preces num altar. Entrou depois na rua das Estalagens. A actividade ainda era ruidosa e frenética. Chineses andavam de um lado para o outro, transportando mercadorias e produtos diversos. Muitos deles destinavam-se aos juncos do Porto Interior, que não ficava longe. Numa das lojas viu algumas pérolas, colares e braceletes. Pensou em comprar uma para Ding Ling. E assim fez. Adquiriu uma bracelete de jade, depois de ter regateado o preço. Pagou em patacas e dólares de Hong Kong.
Sentiu uma espécie de felicidade quando colocou a bracelete no bolso do casaco. No ar notava-se um odor de ópio que vinha de uma casa de chá. Muito perto estava a cozinha aberta para a rua assinalada pelo padre Benedito Augusto para o encontro entre os dois. Pediu um pouco de arroz com porco assado e um chá. O chinês ficou a vê-lo comer e beber e, depois, fez-lhe sinal para avançar até dentro do beco. Amoroso seguiu por um corredor muito estreito entre paredes esverdeadas da humidade até que chegou a uma porta que estava entreaberta. Entrou e, ao fundo, na semi-obsuridade, estava sentado um homem, com um cigarro que não estava aceso entre os lábios, e uma navalha na mão direita que ia retalhando um pedaço de madeira. Levantou a cabeça e fez um sorriso acolhedor. Benedito Augusto, de vez em quando, marcava encontros em locais que o tenente desconhecia, mas que faziam parte da cidade chinesa de Macau, o seu Bazar. Ali o padre movia-se como se estivesse em casa. E quem ele convidava entrava num labirinto de que não conhecia a saída. Era a sua forma de mostrar que controlava os movimentos e as informações. Amoroso não tinha dúvidas que ele criara uma rede de contactos muito rica e secreta.

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– Não sou um fantasma, tenente. Pode aproximar-se e ver que sou real. Se quiser tem aqui uma cadeira e uma cerveja para beber. Ou um cigarro, se quiser fumar.
Ao contrário do que dizia, Benedito gostava de se mostrar como um fantasma que governava as almas a partir do mundo subterrâneo. O universo que muitos não conheciam e outros não desejavam conhecer. Não era inocente esta escolha. No seu jogo, Benedito gostava de ser dono do baralho de cartas ou das das peças de mahjong. Ali não se estava num território neutro. Amoroso sentou-se e agarrou na garrafa de cerveja que o padre lhe estendeu. Bebeu um pouco e voltou a focar a atenção nele.
– Este mundo é curioso, não é tenente? Hipnotiza-nos. Vai mudar, não tenhamos dúvidas. Eu, por certo mudarei com ele. Mas ao contrário da sua amiga Ding Ling, não o quero mudar. Vou adaptar-me ao que me espera. E o tenente, que pretende fazer? Adaptar-se ou mudar o mundo?
– Eu já tentei mudar o mundo, meu caro Benedito. Mas sobre o futuro tenho apenas uma certeza: não conheço as respostas para a pergunta que me estás a fazer.
Benedito fez um sorriso e acendeu o cigarro. O seu rosto, por momentos, pareceu ficar rijo, como pedra.
– Realmente a minha pergunta era errada. E é inútil procurar respostas para questões como esta. Ninguém sabe que decisões tomará. Eu compreendo-o, tenente. Percebo como se sente. Não há muito tempo, eu também me sentia perdido. Sem amigos. Sem identidade. Achava que não havia vida para mim que fizesse sentido. Melhor, sentia que não havia via nenhuma. Depois houve um momento, em Singapura, em que descobri o meu espaço.
Fungou, antes de continuar:
– Não me pergunte o que aconteceu. Não lho vou dizer. Mas há sempre uma vida. Há sempre um futuro, se o quisermos construir. Mas há limites para o que sonhamos sozinhos. E se amamos alguém compreendemos melhor esses limites. Mas eu não sou como o tenente. Acho que há vida para lá do amor por uma mulher.
– Acha mesmo isso?
– Para percebermos essa dura realidade temos de ter informação. E termos bons espiões.

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Deu uma pequena risada. E tentou ver a reacção que as suas palavras despoletavam na cara de Amoroso. Este manteve-se silencioso.
– Esta conversa não nasceu do acaso, ou porque me apetecia vê-lo. Tenho uma uma informação útil para lhe dar. Fu Xing colocou ao serviço do alemão Max Wolf a sua rede de espiões e de marinheiros. O negócio de heroína parece-lhe ter futuro. Pelo que sei, Macau será apenas um entreposto discreto para Hong Kong. Ali é que pensam fazer dinheiro. Aqui têm já um depósito bem defendido. Max prometeu-lhe que este pode ser o início de outros negócios. Legais. E ele quer a minha colaboração.
Amoroso fez um sorriso cínico e olhou-o fixamente. Seria possível ler a alma do padre Benedito? As suas motivaçõs eram obscuras e a sua história também. O tenente tinha recebido um relatorio de um dos seus novos agentes, colocado em Singapura. E percebera que o homem que tinha defronte dele tinha outras vidas. Não eram cartas que utilizaria agora, porque o jogo era outro. Mas, no futuro, nunca se saberia. Até porque ele sabia demasiado sobre o tenente.
– E que vais fazer, Benedito?
– Não tenho como fugir à teia de Fu Xing. Ele sabe que caminhos trilho e onde me encontrar. É um inimigo que não desejo ter.
– Compreendo. Farás o seu jogo. E o meu. E, sobretudo, o teu. Será um equilíbrio difícil, senão impossível. Tu o saberás. A luz é só a outra face das trevas.
– Também tem de decidir de que lado do tabuleiro está, meu caro tenente. O senhor Palha e a mulher não lhe darão tréguas. E investigar a morte do senhor Silva não lhe traz amigos. Pelo contrário. Eles cercam-no. Já descobriu mais alguma coisa?
– Não. Mas há indícios.
– Cuidado, tenente.
Era uma despedida. Benedito acendeu outro cigarro e ficou a olhar para Amoroso, enquanto este caminhava para a saida. Cá fora, a noite conquistara o Bazar. A única luz que via era a de um candeeiro de petróleo, junto a um local onde alguém vendia comida. Ouviu vozes abafadas. Na sombra estavam homens, mulheres e crianças sentadas em pequenos bancos ou no chão a comer o que as pequenas taças que tinham na mão continham.

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Continuou a caminhar para sair do Bazar. Ouviu um sussurro à sua esquerda. E um estronho, seguido de um silvo. Sentiu um impacto forte no ombro esquerdo. Caíu com o embate. Levou a mão ao braço e depois retirou-a cheia e sangue. Procurou a sua pistola, mas antes de o conseguir fazer, levou um pontapé na mão direita. Olhou para cima. Viu o cano de uma pistola apontada a ele e, mais acima, o de um chinês que o olhava fixamente. Ouviu a sua voz:
– Zōi gīn!
Ia puxar o gatilho. Mas o som do tiro não saíu da sua pistola e o homem que estava defronte de si caíu. O seu sangue jorrou para cima do tenente. Espantado, viu o rosto de Li Bei e de outros dois chineses que empunhavam pistolas. Agarraram-no e puxaram-no. Do nada apareceu um riquexó para onde o transportaram. Percebeu que seguiam a caminho da Rua da Felicidade. Antes de chegarem à “Noite Tranquila” pararam numa casa sem luz à porta e levaram-no para dentro. Amoroso deitou-se numa cama e procurou tirar a sua pistola Luger do coldre. Não lhe servira para nada, porque o ataque fora rápido. Alguém começou a tratar-lhe da ferida.
– A bala entrou e saíu do seu braço esquerdo. Não vai haver problemas.
A voz de Li Bei era reconfortante. A do tenente, um murmúrio:
– Como sabiam que estava ali?
– Ding Ling estava preocupada consigo. Tem sido seguido, dia e noite, tenente. Para seu bem. Descanse um pouco. Depois levá-lo-ei até ela.
Passada quase uma hora, em que dormitou, Bei Li veio acordar o tenente. Depois levou-o até ao “Noite Tranqila”. Ding Ling esperava-o. Agarrou num copo com vodka e deu-lho.
– Bebe. Faz-te bem.
Ele assim fez. O olhar dela era preocupado, mas doce. Disse, com uma voz aveludada:
– Sabes, às vezes sonho que quando estamos na cama, colados um ao outro, há algo no meio. Uma pistola. Pergunto-me: será sempre uma pistola o que nos junta e nos separa?
Ding Ling atravessava a fronteira do silêncio que tinham jurado respeitar. Falava do passado e, também, do presente. Fora uma pistola que os juntara. Aquela Luger que agora não lhe servira para nada.
– Queres falar disso, querida Ling?
– Não. Mas penso nisso.
– Porque me mandaste seguir?
– Foi o que fiz de bem, não foi?
– Talvez. Neste momento estaria morto, por certo.

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Ela não respondeu. Ele fechou os olhos e depois procurou no bolso do casaco cheio de sangue e tirou uma bracelete de jade. Deu-a a Ding Ling:
– É para ti. Comprei-a antes do atentado.
Ela aceitou-a e retorquiu. Não simulou os seus sentimentos:
– Já não sabemos o que é a bondade. Ficamos surpreendidos quando nos confrontamos com ela. Obrigado.
Ele sorriu e depois disse:
– Imaginas quem foi? Só vejo três hipóteses. Max Wolf. Joaquim Palha. Sofia Palha.
– Eu riscaria o primeiro. Não lhe interessa problemas com as autoridades portuguesas. Os outros, sim. Podem ter tudo a perder com a tua interferência.
Amoroso levou a mão ao braço. A dor continuava lá, para o recordar dessa noite.
– Precisas descansar, querido tenente. Eu estarei aqui. Mas tens de dormir.
Ding Ling falou com doçura. O seu rosto enigmático estava agora exposto à luz que iluminava a sala. Amoroso sentiu-se protegido. Algo que não acontecia há muito tempo. Muitas horas depois, Félix Amoroso foi levado até a um riquexó por Bei Li. Esta, com voz cândida, disse-lhe:
– Tanto somos filhos do que queremos recordar como do que queremos esquecer. Mas é bom que o tenente não esqueça o que se passou.
– Não esquecerei.
– Faz bem, tenente. O problema não é a dor nem o amor. É sempre as desculpas que as pessoas dão para ficarem com o dinheiro. E sobre o que fazem para o ter. O resto, seja a violência, as traições ou a guerra não são os problemas principais. Só o dinheiro o é.
Amoroso concordou. A luz encadeava-o. Despediu-se e partiu. O caminho, cheio de solavancos, foi penoso. Quando chegou a casa deitou-se, relembrando as últimas horas. Depois foi lavar-se e mudar de roupa. Quando voltou à rua foi até ao Grémio Militar para almoçar. Comeu um bacalhau cozido com grão que lhe fez recordar uma velha tasca junto ao quartel do Carmo, em Lisboa. Cumprimentou colegas militares e depois saiu, procurando evitar o sol inclemente que queimava as ruas e os prédios de Macau. Sentia-se dorido mas mais determinado do que nunca.

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12.

Às vezes as coisas são o que parecem. Para Ding Ling isso era óbvio. Sentiu a presença de Bei Li e o seu corpo ganhou vida. Olhou para a bracelete de jade verde que Amoroso lhe oferecera e colocou-a no pulso esquerdo. Era luz num mundo de escuridão, onde forças contrárias se opunham. Como num poema antigo chinês, sentia-se muitas vezes a dançar com a sua própria sombra. Mas, em momentos como aquele, parecia que a vida poderia ser um romance. A vida era sempre a história de um caminho e de um caminhante. A dela, sempre entre a força da água e a do fogo. Não sabia, nem podia renunciar, à missão a que se comprometera. Mas olhava para Amoroso ou para Bei Li e sentia que havia um espaço para a esperança.
Nas longas noites observava muitas vezes aqueles que no “Noite Tranquila” buscavam a fortuna e que estavam perdidos num mundo sem passado e sem futuro. Presos por fios num presente onde eram simples marionetas. Personagens de um jogo de sombras que não manipulavam. Eram refugiados do tempo, sobreviventes de um mundo que não tinha contemplações, muitas vezes fantasmas de si próprios, incapazes de ver o reflexo dos seus fracassos. Jogavam a vida numa noite. Viam-se ali, com dinheiro e com uma garrafa e uma mulher nas mãos, e julgavam-se eternos. E senhores de algo que nunca seria seu. Tal como aqueles que se viam ao espelho e imaginavam ser estadistas ou líderes. Mas então chegava o vento forte e destruía esse país de fantasia onde reinavam.
A quem é que interessava a verdade? A ninguém. Bei Li aproximou-se e passou-lhe a mão pelo pescoço e pelo cabelo. Arrepiou-se e Bei Li não deixou de notar isso.
– Os nossos homens estão prontos, Ling.
– Está na hora, não é? Pensas que temos a hipótese de sobreviver a tudo isto? Penso nas coisas que destruí para chegar a este momento.
– Que destruímos.
– Não me esqueço de ti, querida Bei Li. A confiança é uma coisa estranha. Quando te conheci percebi que haveria uma ligação indestrutível entre nós. Não me enganei.
– Nem eu.
– Sim, foi um prémio para ambas. Porque muitos vêem a vida como um tráfico. É certo que passamos a vida a fazê-lo. Traficamos tudo. Mercadorias, ideias, afectos, recordações, amizades. Alguns fazem-no por gosto. Outros, por necessidade. Outros ainda por obrigação. Nós traficamos confiança e lealdade. É uma coisa bela.

50

Bei Li nada disse mas o seu olhar mostrava o que sentia. Amor.
– Vamos?
O caminho até ao Porto Interior foi feito através das ruas mais escuras. Quando ali chegaram, Li Bei dirigiu-se aos homens e disse-lhes o que esperava deles. O ataque à casa dos seus inimigos teria de ser inesperado, rápido e fulminante.
Aquela hora Amoroso regressara ao refúgio de Benedito, aquele local escondido da rua dos Mercadores. Este, quando o tenente entrou, não se mostrou surpreendido.
– Já sabia que tinhas sobrevivido. Sentia o que poderia acontecer. Mas estava longe de imaginar que te tentariam matar aqui, no coração do Bazar.
– Talvez tenham tentado por ser aqui. Para a polícia seria o resultado de um assalto numa zona onde os portugueses não costumam vir à noite.
– Mas tu és militar. Tens uma missão secreta. Não acredito que o Governador não mandasse investigar o que te pudesse ter acontecido.
– Quem sabe?
Benedito não respondeu. Sentou-se para fumar um cigarro.
– Percebeste agora o perigo que corres. E que eu também me arrisco a correr. Quem sabia que estavas aqui, estava ciente de que vinhas ter comigo.
– Quem sabe que vives aqui?
– Fu Xing. Alguns dos meus contactos. Quem vive aqui perto. Eu espio. Mas também sei que posso ser espiado.
A sala onde estavam praticamente não tinha móveis. Três cadeiras, uma mesa onde estava uma lamparina que pouca luz dava e uma escrevaninha encostada a uma das paredes. A simplicidade perfeita. Se tivesse de fugir, Benedito pouco tinha para levar. Este disse:
– A luz garante a segurança na escuridão. Por isso gosto de me refugiar nas sombras. Mas não é suficiente. Especialmente neste mundo onde todos preferem evitar mostrar a cara. Meu caro tenente, estás a aprender uma arte muito difícil e arriscada. Ver sem ser visto, saber sem dar nada, ou quase nada, em troca, seduzir sem ser seduzido. Há quem tenha lido os mesmos livros.
Amoroso aconchegou-se na cadeira de bambu onde se sentara. O formigueiro gerado pela ferida no braço não ajudava à sua concentração. Sentia a falta de ópio para afastar as dores. As físicas e as da alma. Mas isso agora era secundário. Sentia que estava próximo do assassino de João Carlos da Silva. O atentado não fora por causa dos negócios de Max Wolf, estava convicto. (Continua)

23 Jul 2021

Memória e Fotografia – Luz e fogo (2)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

4.
As fotografias são memória em película.
Quando pegas na tua memória com as mãos podes queimar-te.
As fotografias são feitas em parte de fogo, isso é evidente.
Cuidado com as mãos.

5.
O século vinte ficou técnico dos pés à cabeça e o que, em muitos séculos, era memória em desenho e escrita bateu de frente com essa revolução. Há muito que as mãos produziam artefactos para o humano não esquecer a família ou a cidade, mas a invenção da fotografia e do cinema colocaram a tecnologia ao serviço de uma nova memória, mais meticulosa e exacta e mais democrática. Não precisas de saber desenhar ou escrever, accionar um botão basta.
A matéria da memória deixou de ser feita com as mãos hábeis, deixou de ser arte de artesão. Até ao final do século XIX, as mãos faziam objectos e memória – quando escreviam e desenhavam; mas agora parece bastar um dedo fazer o gesto mais simples e uma pequena pressão.
As mãos tornaram-se secundárias e acima de tudo a aptidão artística foi colocada no armazém ou no museu. Já não precisas de ser escritor ou pintor para fixar um rosto ou uma montanha que não queres esquecer.
Carregar num botão não tem a mesma dificuldade, apesar de tudo, do detalhe que o quadro exige das mãos e de um pincel.
Podes, se for caso disso, accionar a máquina fotográfica com o cabo do pincel de um pintor antigo – mas tal é uma performance, não uma necessidade.
Só um completo desastrado de dedos não consegue, no século XXI, tirar uma fotografia ao seu pai ou ao seu filho. Se a fotografia é boa, de luz e intensidade, isso é outro assunto. A família, a memória e a tecnologia, eis três palavras que se aproximaram muitos – talvez demasiado – nos últimos anos.

23 Jul 2021

A fenda

O homem conhecia como poucos a diferença que existe entre um submundo, mesmo se branco e polido, e o mundo com o seu esplendor das coisas ditas reais, claras e correntes. Uma cidade levanta-se ao fim de muitos séculos a esgrimir a pedra. Uma pedreira explora-se durante poucas décadas também a esgrimir a pedra, mas logo é abandonada. Uma cavidade que se deita contando apenas consigo ao invés de uma cidade que se avoluma em altura e que conta – de modo indefectível – com quem a perfilha, com quem nela reside e assim se imagina a defender-se do caos.

O homem caminhava todos os dias para o fundo da antiga pedreira onde não havia ninguém. Fazia disso uma missão, uma prédica ou um sermão a sós que resgatava do eco em cadeia que advinha das profundidades, sempre que se movia com a presteza de um felino. Levava consigo vários cadernos e enchia as folhas com traços que reproduziam os vestígios da violência com que os blocos de mármore tinham sido atingidos durante anos. Poliedros incompletos, rectas quebradas, rectângulos fugidios, extractos lascados, cubos torcidos, triângulos dobrados, texturas fendidas, curvas desfeitas, linhas pendidas, pontos soltos e arestas arruinadas. No fundo de tudo, uma água verde, vagamente turquesa ao centro, definia a alma da imensa cúpula invertida.

Meses e meses de prospecção e de desenhos fizeram com que o homem percebesse que esta ferida gigante se movia. Era um tectonismo lento que emprestava ao vale da pedreira uma locomoção de carrossel, uma suave translação.

Quando chegava a casa, revia a evolução dos desenhos em certas secções e tornava-se claro que os traçados reflectiam um movimento circular. Numa mesma parede – que descia a mais de cem metros até à base, – os mesmos contornos ora se concentravam numa dada direcção, ora irradiavam, ora evidenciavam estranhos paralelismos. O homem tomou a sério estes avisos e agiu em conformidade como se fosse uma prece plagiada. Reuniu amigos há muito tempo afastados, dispersou pensamentos terríveis, mas manteve-se sempre distante do mundo como se ambos fossem rasgos paralelos. Até que, um dia, descobriu a fenda e se maravilhou.

Entrou pela estreita fenda com dificuldade, pois foi preciso entrar de lado com os membros afastados e a cabeça inclinada copiando a pena de pavão de Krishna. Sem que o pudesse prever, viu-se subitamente no fundo de um mar de água muito densa e foi preciso nadar até à superfície para poder voltar a respirar. Pelo meio desvendou um navio afundado, preso entre rochas, taludes e algas de cor azulada. Regressou para rever a embarcação e imediatamente descortinou o estranho habitáculo. Atravessou as portadas hidráulicas, penetrou na câmara pressurizada e sentiu o que seria a gravidade zero. Deslizou ainda pelo ar, flutuou como uma raia e na sua frente sonhou ter visto uma mulher louca, parecida com lady Macbeth no início do quinto acto quando não pára de repetir que “o inferno é sombrio”.

Ele e a mulher sonhada regressaram à pedreira. O perpétuo retorno é sempre o regresso a uma morada diferente. De tanta silenciosa translação, a pedreira já desabara e nela haviam ficado retidas várias pessoas que confraternizavam.

Ter-se-ão salvado, soube-se mais tarde. Mas a mulher sonhada não arredou pé das suas falas e repetiu que, se tudo se tivesse passado em cena, fosse no teatro ou em filme, de certeza que haveria mortos, muitos mortos. E riu-se para que o eco soçobrasse e inundasse todo aquele firmamento de pedra falante. O homem ficou para sempre com essa falha: bastar-lhe-ia apenas pensar em regressar à velha pedreira dos arredores da vila, e logo aquele riso maldito lhe enchia a cabeça como se fosse um entulho metálico a explodir nas membranas do tímpano. O inferno nem sempre é sombrio.

23 Jul 2021

Cruz e Sousa

20/07/21

 

Está prestes a sair em Portugal uma antologia do verdadeiro introdutor do simbolismo no Brasil, Cruz e Sousa. A organização e o aparato crítico são do poeta Alexei Bueno, um excelente indicador porque Alexei é um criador sempre em diálogo com os clássicos e de um estro técnico inexcedível, o que se traduz numa enorme segurança nas suas análises.

Cruz e Sousa foi um visionário que morreu aos trinta e sete anos na miséria, acicatado pela inveja e o preconceito, dado ser negro – outro desses seres de escol de origem africana que o Brasil produziu no século xix (bastaria lembrar Lima Barreto e o Machado de Assis) e que depois passou um século a querer branquear (até a cédula de nascimento de Machado foi falsificada, para se esconder os seus genes africanos).

A fulgurante qualidade de Cruz e Sousa, no âmbito do simbolismo em língua portuguesa, talvez só tenha par em Camilo Pessanha, dois poetas que viveram a condição de uma “diáspora interior” e a quem a vida, literalmente, lapidou a expressão.

Seria igualmente curioso fazer paralelismos, de vida, de destino trágico, de imersão nas mesmas atmosferas poéticas para uma transfiguração plena de conseguimentos artísticos, entre Cruz e Sousa e o poeta Jean-

Joseph Rabearivelo (1901–1937), o primeiro poeta moderno da África, o maior artista literário de Madagascar, e uma vítima da colonização francesa.

Como em certos poemas de Pessanha, antecipa-se no plinto de Cruz e Sousa, nalguns poemas, os laivos expressionistas e até um salto estilístico da música (avant toute chose) dos versos para o regime do olhar, como se atesta aqui:

«ÉBRIOS E CEGOS, Fim de tarde sombria./ Torvo e pressago todo o céu nevoento./ Densamente chovia./ Na estrada o lodo e pelo espaço o vento.// Monótonos gemidos/ Do vento, mornos, lânguidos, sensíveis:/ Plangentes ais perdidos/ De solitários seres invisíveis…// Dois secretos mendigos/ Vinham, bambos, os dois, de braço dado,/

Como estranhos amigos/ Que se houvessem nos tempos encontrado.// Parecia que a bruma/ Crepuscular os envolvia, absortos/ Numa visão, nalguma/ Visão fatal de vivos ou de mortos.// E de ambos o andar lasso/ Tinha talvez algum sonambulismo,/ Como através do espaço/ Duas sombras volteando num abismo.// Era tateante, vago/

De ambos o andar, aquele andar tateante/ De ondulação de lago,/ Tardo, arrastado, trêmulo, oscilante.// E tardo, lento, tardo,/ Mais tardo cada vez, mais vagaroso,/ No torvo aspecto pardo/ Da tarde, mais o andar era brumoso.// Bamboleando no lodo,/ Como que juntos resvalando aéreos,/ Todo o mistério, todo/ Se desvendava desses dois mistérios://Ambos ébrios e cegos,/ No caos da embriaguez e da cegueira,/ Vinham cruzando pegos/ De braço dado, a sua vida inteira.(…)»

Um outro excerto nos sirva de isca: «Em vão fui perguntar ao Mar que é cego/ A lei do Mar do Sonho onde navego.// Ao Mar que é cego, que não vê quem morre/ Nas suas ondas, onde o sol escorre…// Em vão fui perguntar ao Mar antigo/ Qual era o vosso desolado abrigo.» Um livro a não perder.

21/07/21

De convalescença, arrumo papéis, folheio cadernos com esboços e notas. Acho uma longa sinopse de um filme que seria um EVANGELHO SEGUNDO MÍRIAM, cuja acção se localizaria nas Minas de S. Domingos, na actualidade. E no interior do filme haveria outro filme, uma história de amor, envolvendo um antepassado do protagonista do plot principal e que se passaria em 1938, em plena Guerra Civil espanhola:

«Um anarquista, para escapar ao massacre de Badajoz, escapa-se a vau para o Alentejo e vive escondido, pois sabe a Guarda Republicana de simpatias franquistas.

Um dia a Custódia, uma rapariga bonita e de espírito vivo, sempre com a resposta na ponta da língua, marca encontro com o filho do patrão, Luciano, num velho moinho de água. Luciano era uma má rês que, segundo o padre, “adubava o pecado e a maldade nas raparigas”. Como era boa figura causava quase sempre efeito. A Custódia sabia-lhe a fama mas era mais curiosa que precavida.

Contudo, ele falta ao encontro, havia ficado de véspera na jogatina e ingeriu tanta aguardente que não acordou para o encontro.

Custódia, farta de esperar, ouve barulho dentro do moinho e resolve ir espreitar. Encontra Diego, ferido; na véspera tivera um mau encontro com um javali. Diego conta-lhe que é um professor primário, fugido aos malefícios da guerra. Está esfomeado, anda a águas há vários dias. Ao princípio ela assusta-se, mas os modos do espanhol inspiram confiança e resolve ajudá-lo. É o seu segredo.

Traz-lhe uma merenda e com umas ervas do campo fez um unguento que lhe cura as feridas. Dura isto vários dias e vão-se aproximando. Ele conta-lhe a sua aventura, as esperanças que teve e a mortandade que se seguiu. Neste novelo apaixonam-se, ainda que ela rejeite chegar a “vias de facto”. Diego respeita-a nisso, o que só intensifica a paixão.

Passam a chamar ao monte e ao moinho onde se desenrola o seu amor CABEÇA DE DEUS.

O pior é que Luciano desatou a cismar. Não estava acostumado a que lhe dissessem que não e fazia-lhe espécie que ela primeiro lhe tivesse acenado com um sim para depois ser tão recticente, negando-lhe um, dois, três encontros. Desatou a segui-la e um dia descobriu-os.
No dia seguinte, Diego era entregue à Guarda Espanhola.

Lá ficou na prisão à espera de ser fuzilado. Não contavam era com a determinação de Custódia.
Numa madrugada, armou uma trouxa, e andou cinquenta quilómetros em dois dias, até chegar à vilória onde Diego estava preso.

Depois entrou decidida no gabinete do chefe do posto e negociou com ele a liberdade de Diego. Como? Ofereceu-lhe a virgindade.
O chefe de posto abusou dela mas honrou a palavra e escoltou-os até à fronteira.

Diego tornou-se o melhor professor primário daquelas regiões, tendo educado muitos filhos de camponeses. Luciano é morto em Angola, pelo leão que caçava.”

22 Jul 2021

A amigologia

“Which of all my important nothings shall I tell you first?”
― Jane Austen

 

Ah, leitores. Se de facto ainda têm a benevolência de entregar um pedaço da vossa vida às palavras que por aqui vão saltitando, eu louvo e agradeço. E derivada dessa que para mim é uma inexplicável atenção (mas que, pronto, da qual vou dependendo) saberão quase ad nauseam que entre mim e o mundo existe uma relação – para usar um adjectivo científico – “complicada”. Estamos a dar um tempo, eu e o mundo. O fenómeno, devo confessar, é pessoal e cíclico; mas pela idade, tédio, inadequação, falta de pachorra ou tudo junto a coisa tem vindo a agravar-se. Há muitas, muitas luas, sentindo a mesma angústia, cheguei a tentar ingressar – espaço para gargalhada do público – numa ordem religiosa que, pensava eu, me iria garantir tudo: oração, silêncio, leitura e beleza. Sem surpresa não me aceitaram. Percebo: eu teria feito o mesmo e sem a pedagogia e doçura.

Mas agora, mas agora? Tudo me cansa, amigos. Se ouso abandonar por um instante os meus refúgios solitários – a literatura, a filosofia, a música, a fé – sou atropelado pelo que existe. E o que existe é aquilo que o profeta Nelson Rodrigues há muito vaticinou: o triunfo do idiota. Num clima tão extremado como o que vivemos em que a ideia de debate ou da possibilidade do outro começa a ser um ramo de arqueologia é natural que isso possa acontecer.

Mas irrita. Agarradas às circunstâncias sanitárias que vivemos começam a medrar e a ter eco as linhas chalupistas que sempre estiveram latentes: curas através de calhaus judiciosamente esfregados nas costas; desaparecimento de doenças terminais através da meditação ou da convocação de “energias positivas”; diagnósticos através da “aura”; a certeza de que a “Mãe Terra”, bem invocadinha, irá substituir a ciência. E por aí fora.

Cautela: eu não acho que por mais obnóxias que pareçam – e serão – muitas destas “teorias” devam ser dispensadas sem sequer serem ouvidas. Eu tenho o meu Against The Current de Isaiah Berlin aqui ao meu lado e sei bem o que implica a ausência de voz e de resposta. Mas ainda assim.

Então para vos dizer o quê? Que não sou imune. Que também tenho direito às minhas teorias e proclamá-las com a vantagem de não querer discípulos. E num mundo em que se prefere a Humanidade ao humano, a massa ao indivíduo, eis o que vosso oferecer: a amigologia.

Não se trata de uma ciência – se o fosse seria a mais inexacta; não se trata de uma ideologia porque os dogmas não são universais; não se trata de uma arte, porque existe muito para lá do prazer estético. E no entanto é tudo isso e ainda mais baseada no maior risco e privilégio que nos é atribuído: a possibilidade da escolha. A mesma maravilha que nos salva todos os dias é a que nos condena e fere quando as coisas correm mal. E no entanto, e no entanto.

Reparai o pouco que nos custa: quando a amizade é natural não exige assiduidade: os anos de ausência são transformados em segundos no momento do reencontro. Não há perguntas nem julgamentos a não ser esta: «Estás bem? E se não, o que posso fazer?».

Exige trabalho, certamente. Dói, tantas vezes, quando a perdemos. Talvez mais do que o amor. Mas nesta altura é provável que possa ser santuário e redenção. A amigologia apenas observa, não ensina. Mas a sua mera presença lembra-nos do tanto que ganhamos num pequeno ou grande gesto que não exige reciprocidade, apenas reconhecimento.

De forma que é isto. Num mundo em que toda a gente parece mobilizada para salvar prefiro refugiar-me e esforçar-me por aqueles que estimo, que posso ajudar e me ajudam. Que se danem as grandes causas, desculpem: prefiro dois minutos de trivialidades com amigos. Prefiro as pessoas ao que as pessoas são. E estou disposto a embarcar nesse risco e, como o estou a fazer agora e contra a minha natureza, exortar a que o façam. O resto, com sorte, virá depois. Ou então não e não faz mal.

22 Jul 2021

O eu algures entre palco e plateia

Palácio Nacional, Queluz, sexta, 2 Julho

 

Caro Raphael,

Sinto-me (incluir imagem de gordo barbudo corado, se a soubesse desenhar a teu modo) por há tanto não te mandar umas linhas. O último ano deixou-me entalado entre estranhos afazeres: fazer o que me mandavam, pensar em fazer, fazer o possível, desfazer o previsto, ansiar por fazer das minhas, fazer por onde com aquele gosto de riscar horizonte, fazer que fazia ou esse tão querido fazer nada (pôr depois desenhos de anafado ora prostrado ora saltitante). Nem tenho para te oferecer a troco deste meu silêncio a descrição detalhada ao mínimo sabor daquelas jantas a que nos sentamos séculos a fio.

Vê tu que o Massimo [Mazzeo], sim, uma das almas daquele «Divino Sospiro», me desafiou para apresentar à sociedade a sua mais recente beldade, o volume 4 dos Cadernos de Queluz (ed. Hollitzer e Parques de Sintra), tendo por título «“Padron mio colendíssimo…” Letters about music and stage in the 18th Century», umas 808 páginas editadas com barroquíssimo gosto e rigor pela Iskrena Yordanova e a Cristina Fernandes. Fiquei como imaginas (colocar grande plano do gordo enrascado), antes de me atirar a este planalto de cheiros a travejamentos e panos, mas também de rumores da pena no papel colhendo ecos das mais dispersas visões. Vi-me, como tu, encolhido a uma bela plateia abraçando palco. Mas seria capaz de me manter aceso na atenção ao mundo ampliado pelo espectáculo (assim tu no desenho que se oferece aos leitores)? E discernível, apesar de camuflado? Como percebeste, pela correspondência se acede, então, aos modos de fazer, aos instrumentos como ao texto, do apelo ao mecenas à notícia de concerto privado, enfim, de pormenores na concreta dramaturgia à política do teatro (há outra?) na tua Europa. (José Camões, exemplo entre tantos possível, conta-nos de precioso espectáculo de marionetas revelado pelo poeta escocês William Julius Mickle no qual se ouviria: «Acomode-se, não tenha medo, que o diabo não é tão feito como o pintam.») Bastidores, portanto. Eis motivo primeiro de encantamento, o martelo e o formão do carpinteiro transfigurados em cartas, esse híbrido de diário e reportagem e registo de viagem e ensaio. Literatura, nalguns casos. E relembrei as nuvens aparecidas há pouco vindas de uma encenação de «Dardanus», do Jean-Philippe Rameau. Cada missiva lida e sublinhada, com jeito de ourives em certos casos, evola-se que nem nuvem atravessando os séculos para testemunhar, a folha de papel tornada de Flandres para melhor espelhar e durar. O indivíduo a encenar, claro, um olhar que agora se revela precioso (a palavra tesouro surge nas várias línguas em que o volume fala em revigorante convívio). E depois há o segredo. O confessional, encenado, pois claro, diz para além do que se viu, do que se vê. Nalguma investigação arde ainda uma brasa que, se soprada, reacende. Este mecanismo produz nuvens.

Percebes, portanto, caro mio, porque precisava te contar, tu que desenhaste sigilos à vista de todos, que consegues confrontar o tédio da família real com os nervos do ponto, deixando que o olhar percorra a sala até te encontrar. Reverberante.

Os afazeres haviam regressado pé-ante-pé e contra soberanas vontades, mas que melhor pretexto para me perder nestas paisagens? Dou por mim (botar versão abstracta do gordo barbudo) a pensar no peso do modo como se faz o que fazemos. Haveria diferença se estes textos, reflexões, retratos fossem publicados em volume frezado na vez de cosido, a preto e branco espelhado pela impressão digital na vez deste offset bicolor, em papel esbranquiçado de tão banal na vez desta quase transparência em creme? O que diz a capa dura e respectivas guardas, os fitilhos de assinalar intensidades? E as notas de rodapé e a cuidada revisão? Esta carpintaria que sustenta o livro enquanto palco implica na marcha do mundo. Quero acreditar que sim, que grãos assim na engrenagem multiplicam, pelo menos, a resistência. E depois há o puro prazer, a celebração da inutilidade, a luxúria. «Sospiro».

Vamos lá marcar a ida ao Tavares, que chegaram aguardentes do Oeste, ou, melhor, makavenka aí encontro onde bem sabes (colocar emoticon, mas desenhado como fez há séculos o Raphael Bordallo Pinheiro).

Escola de escritas, Algures, sábado, 17 Julho

Na véspera insistia em saboroso almoço, no qual se tratou de cansaços interiores e despolíticas externas, além de dedos e anéis, que as comunidades de leitura me parecem cruciais na promoção de leitura, algures entre a suave entrada e o elegante digestivo. Também por implicarem os leitores nas suas leituras. Quantos livros esconde um livro? Este Clama (Clube de Leitura Abençoados Malditos) dificilmente podia ter começado melhor com «Os Meus Oscar Wilde», de André Gide (ed. Sistema Solar), mas que, no fundo, pertence ao tradutor, Aníbal Fernandes. Os dois In Memoriam são enquadrados por pré, inter e pós-fácios, os quais, naquilo que convocam, são moldura pintada a participar na composição e expressividade da grande imagem. A vida, saravah, é a arte do encontro. E talvez a arte não seja menos a vida dos encontros. Estamos perante um triângulo de bons e produtivos malditos, ficando por ora, Pierre Louÿs na plateia assombrada pela encenação brutal de Wilde e Gide. A morte de um suscita no outro o registo definitivo do momento em que a alegria lhe foi revelada, em que começou a viver. Quando o coração antes apenas tomado pelo desejo abria para a luz de outros afectos. Sexo e amor eram dicotomias afastadas, e foi pela escrita que Gide tentou coser tal ferida. Assim como a usou para perseguir a alegria (nota para o futuro: voltar às páginas que busca esse pólo). No segundo e mais breve texto, o amargor insinua-se e a avaliação enegrece, mergulha em cinzas. A realidade cobrou com sangue ao devir em cena de Wilde. Entre um e outro texto, há excertos do processo em tribunal, dolorosa e bem-humorada peça de teatro onde a lei procura no miolo das palavras os sempiternos medos: o sexo desregrado, a corrupção da juventude, a ociosidade, o prazer, a alegria, enfim, o desafio ao deus posto em religião. O livrinho acaba sendo, ele mesmo, introdução a lugares e caminhos dos ditos malditos: a escrita tornada bússola do eu, aquele pensar com o corpo e a partir dele, o esforço para tornar indistinta vida e arte, cabal maneira de viver uma e outra. Vede com Louÿs, também em prefácio a «Afrodite» (ed. Círculo de Leitores), como fazê-lo: «É que a sensualidade é a condição misteriosa, mas necessária e criadora, do desenvolvimento intelectual. Aqueles que nunca sentiram até ao limite, para as amar ou para as maldizer, as exigências da carne, são por isso mesmo incapazes de compreender toda a extensão das exigências do espírito. Assim como a beleza da alma ilumina o rosto, também a virilidade do corpo fecunda o cérebro.”

21 Jul 2021

Un Certain Panassié – Boris Vian

Tradução de Emanuel Cameira

 

Em França, no jazz, a querela dos Antigos e dos Modernos ganhou uma dimensão deveras especial graças à existência de um mago. Desiludido por André Hodeir ter descoberto Parker e Gillespie antes de si, inclinado desde sempre a resistir a qualquer evolução, incapaz de voltar atrás sem perder a face em matéria de palavras tão violentas quanto imprudentes, encerrado num sistema de contradições multiplicadas, o Senhor Panassié(*) consegue dar à discussão estética uma volta um tanto ou quanto particular. Instaurador do Hot Clube de França na companhia de Charles Delaunay, de quem se livrou para reinar sozinho, este profeta de extrema-direita imitando Léon Bloy encontrou à sua frente um Boris Vian inabalável. Fundador de uma seita religiosa («Os Servos de Maria Medianeira»), associada, há algum tempo, aos ritos da Comunidade de Fátima, grão-detector dos endemoninhados, o Senhor Panassié é um personagem que, regra geral, poucos conhecem. Vian, que o apelidava de Palhaço Peine-à-Scier [Difícil-de-Serrar], nunca o levou a sério.

Sucede, por um estranho e bizarro acaso, que esta primeira crónica coincida com o aparecimento de acontecimentos jazzísticos de grande importância, que tentarei relatar: não poderia, de resto, haver melhor introdução.

O jazz (esclareçamos desde já que não se trata da chamada música de dança, mais ou menos melosa, com que os maníacos especiosos da rádio francesa sistematicamente se esforçam para nos dissuadir de tudo o que possa parecer-se, de uma maneira ou de outra, com o verdadeiro jazz) é defendido entre nós, desde há doze anos, pelo Hot Clube de França, o primeiro de todos os Hot Clubes. Organizado de início sob uma certa barafunda, o H. C. F. desenvolveu-se aos poucos, sob o impulso do seu Presidente, Hugues Panassié, e do seu secretário-geral, Charles Delaunay. Até 1940, o todo funciona um pouco mais ou menos. Por volta de 1940, cansado de mudar de opinião todos os anos, Panassié retira-se definitivamente para a província e Charles Delaunay assume, individualmente, a responsabilidade pela defesa do jazz durante a ocupação. Vem a Libertação: tudo recomeça lentamente (e de que maneira!). A revista Jazz Hot reaparece. Estamos em 1947. Após sete anos de inércia, acreditando ter chegado a hora de fazer valer os seus privilégios reais, Hugues O Montalbanês abandona a sua reforma, doutrina os valentes presidentes dos Hot Clubes regionais, infiltra-se no Hot Clube de França introduzindo aí as suas traiçoeiras criaturas e, atacando Charles Delaunay sob pretextos no mínimo ridículos e falaciosos, trazendo o debate para o terreno pessoal, consegue destituir Delaunay do seu cargo de secretário-geral, durante a Assembleia Geral de 2 de Outubro.
Direi uma palavra sobre os pretextos: Delaunay publicou, há poucos meses, um número especial da Jazz 47, inteiramente consagrado ao jazz e à América, e no qual figuravam: 1.º) uma fantasia deste vosso súbdito, ilustrada com uma montagem fotográfica, género surrealista, de Jean-Louis Bédouin, onde, horror!, a cabeça de Zutty Singleton, baterista, emparelhava com o corpo quase nu de Rita Hayworth, e 2.º) a reprodução de um quadro de Félix Labisse, quadro bastante conhecido e deveras despido. Nisto, Panassié gritou escândalo e com os seus dedos, bastante afastados, tapou a cara, corada de alto a baixo. Na verdade, havia na Jazz 47 um excelente artigo de Sartre que – com toda a justeza – tinha primazia sobre o de Panassié. Por outro lado, certos interesses comerciais misturavam-se indecentemente com as motivações do presidente.

Era portanto de se temer que a cisão ocorrida levasse (como diria Madame de La Fayette) ao total desmoronamento do trabalho até então realizado. No entanto, o Hot Clube de Paris, de longe o mais importante, depositou toda a sua confiança em Charles Delaunay no último sábado. Nesse movimento, foi seguido por certos Hot Clubes regionais que desaprovavam as manobras manhosas do Grande Hughes. A revista Jazz Hot continua, como no passado, a ser dirigida por Delaunay. Os concertos da Escola Normal vão continuar, e inúmeros projectos estão ora em estudo, ora em plena realização. Contactar-vos-ei em tempo útil, convocando-vos para esses divertimentos simultâneos, se trouxerem algo para beber.

De momento, é esta a situação. Uma nova era na luta pelo jazz está a começar, e embora seja lamentável ver velhos amigos matando-se em público, é certo que ambas as partes irão redobrar as suas actividades, o que será talvez a ocasião de ouvir um pouco mais de bom jazz e de assistir a espectaculares brigas com golpes de judo à boa maneira de Gillespie.
Outubro 1947

Tradução de: Vian, Boris, “Un certain Panassié” [1947], in Chroniques de Jazz, Paris, Éditions La Jeune Parque, 1967, pp. 271-274.
(*) De Hugues Panassié publicou-se, em Portugal, História do Verdadeiro Jazz (em Outubro de 1964, na Portugália Editora, com tradução de Raul Calado).

19 Jul 2021

As Viagens de Gulliver – Terceira Parte

Nós vivemos fechados num ponto de vista pelo qual nunca perguntamos. Chegamos ao mundo e ele é assim e agimos em conformidade com o que vemos sem nos perguntarmos por nada. Repare-se em outra passagem em Brobdingnag: «O gigante estacou repentinamente e, olhando à sua volta e para o chão certo tempo, com a precaução de quem tenta apanhar um animal daninho, para que não arranhe nem morda, como eu próprio fiz, algumas vezes, em Inglaterra, quando tentava agarrar uma doninha. […] temia a cada momento me lançasse violentamente no chão, tal como fazemos com qualquer animalzinho odioso que pretendemos destruir.» (83) Nós nem nos perguntamos por uma formiga, tomamos por certo que não é importante, que não faz mal que desapareça, que não faz mal matá-la. E do mesmo modo que acontece de nós em relação aos seres menores que nós, também acontece connosco em relação às vivências usuais. Por exemplo, não nos damos conta dos cheiros, porque nos habituámos, e o mesmo podemos dizer em relação às formas. Veja-se esta passagem: «Por fim, a ama […] dar-lhe de mamar. Devo confessar que nunca vi um objecto que me causasse tanta repugnância como aquele seio monstruoso […]. Aquela visão fez-me pensar nas peles brancas das damas inglesas, que nos parecem tão belas só porque são do nosso tamanho e os defeitos não podem ser apreciados por meio de uma lente de aumentar, ainda que, por experiência, saibamos que até as peles macias e brancas são ásperas, grosseiras e de cor feia. // Recordo-me de quando estava em Lilliput a cútis daquele povo diminuto me parecia a mais bela do mundo; e discutindo este assunto com uma pessoa de estudos daquele país, meu amigo íntimo, ele afirmou que a minha cara tinha uma aparência muito mais bonita e suave quando ele me olhava do chão do que quando me olhava de um ponto mais próximo.» (87) Acrescente-se mais este exemplo, à página 103: «Uma vez aconteceu o seguinte: no verão, o reino fica infestado de moscas, e estes insectos odiosos – tão grandes como uma cotovia de Dunstable – não me deixavam tranquilo durante o jantar, zumbindo continuamente à volta dos meus ouvidos. Pousavam às vezes na comida, onde deixavam o excremento ou ovas, que me causavam náuseas, o que eu conseguia ver claramente, ainda que os nativos do país – cuja visão era, para objectos minúsculos, infinitamente mais limitada do que a minha – não vissem.» Ou seja, isto que acontecia com os habitantes de Brobdingnag é o que acontece connosco no dia a dia. E tal como com os habitantes desse reino distante também nós não vemos os excrementos e as ovas das moscas. E a pele de cada um de nós ou o cheiro não causa repulsa, porque estamos ajustados à escala. Em Brobdingnag, Gulliver vivia como se tivesse olhos de microscópio. Mas essa realidade microscópica existe, embora nós não a vejamos no nosso dia a dia. Estamos completamente condicionados não apenas no comportamento, através dos hábitos que adquirimos, mas também através do nosso equipamento sensorial. Por isso não nos enoja os cheiros ou a visão do que fazem as moscas.

Jonathan Swift mostra-nos que estamos sempre num contexto prévio, de uma escala prévia com a qual medimos o mundo em que somos. Séculos mais tarde, Heidegger dirá que antes de mais nós estamos lançados no mundo, agimos nele sem pensar. Nós usamos as coisas do modo que estamos habituados a ver serem usadas. Não perguntamos, não pensamos. Só o fazemos quando algo corre mal, isto é, quando o usual é interrompido.

Imaginemos que se trata da fechadura de uma porta ou de uma torneira de água, nós usamo-las sem nos perguntar pelo seu funcionamento ou questionarmos o seu fabrico ou eficácia, só quando elas não abrem, isto é, quando deixam de se comportar como usualmente, é que somos obrigados a pensar nelas, a perguntar por elas e pela relação que se estabelece entre nós e as fechaduras e as torneiras. Mas isto que acontece em relação às coisas também acontece em relação a nós, àquilo que pensamos de nós. E é isso que lemos em as duas primeiras partes de As Viagens de Gulliver. É quando o ponto de vista usual é interrompido que ele se dá conta do seu ponto de vista usual.

O que acontece em relação às coisas, acontece também em relação ao pensamento, como podemos ver neste exemplo em Liliput. Leia-se: «Mostrou-se admirado do barulho contínuo que o relógio fazia. Assim como dos movimentos do ponteiro dos minutos, que ele conseguia perfeitamente ver – a visão deles é muito mais penetrante do que a nossa –, e pediu as opiniões dos eruditos, que foram diversas e vagas, como o leitor pode muito bem imaginar sem que eu as repita […].» (33) Acerca do relógio é também deliciosa a parte em que os lilliputianos se inclinam a pensar tratar-se de um deus. Reparem que eles interpretam a relação de Gulliver com o relógio como sendo oracular. Leia-se: «Chamou-lhe o seu oráculo, dizendo que indicava o tempo para todas as acções da sua vida.» E nós só não vemos assim um relógio porque nos habituamos ao seu uso, à sua utilidade. Repare-se também como os liliputianos não acreditavam que o mundo pudesse ser à nossa altura, à altura de Gulliver, pois nada nos seus livros o dizia. Leia-se: «Ouvimo-lo afirmar que há outros reinos e estados no mundo, habitados por seres humanos tão corpulentos como o senhor, mas os nossos filósofos mostram-se duvidosos, e preferem pensar que veio da Lua ou de uma das estrelas […]. Além disso, as nossas histórias oficiais, que abrangem um período de seis mil luas, não mencionam quaisquer outras regiões que não sejam as dos dois grandes impérios de Lilliput e de Blefuscu [o reino rival e inimigo].» (44) Como vêm, tal como nós, os lilliputianos têm dificuldade de imaginar o que não sabem, de aceitar o que não se sabe. Preferimos não saber a aceitar uma realidade diferente. Preferimos a ignorância de um texto escrito quando nada se sabia a aceitar a verdade. A verdade é difícil. Só aceitamos a verdade se ela já tiver sido escrita, se ela nos assentar bem, como um fato feito à nossa medida. Nós estamos configurados, não apenas com o aparelho sensitivo que temos, visão, olfacto, etc., mas também configurados pelo que sabemos. Estas duas primeiras partes de As Viagens de Gulliver são uma viagem ao humano, ao modo como na realidade estamos completamente condicionados não apenas pelos nossos sentidos, isto é, pelo nosso equipamento sensorial de captação da realidade, mas também pelo que sabemos ou julgamos que sabemos.

Neste sentido, as duas primeiras partes do livro depõem-nos face a face com a nossa natureza, através de duas viagens a países completamente opostos na escala: um onde somos gigantes outro onde somos homúnculos. É neste confronto, nesta contraposição de escalas que Gulliver se dá conta de si mesmo e do humano, de que nós somos completamente relativos, isto é, que aquilo que sabemos e valorizamos só o fazemos porque estamos presos, configurados a uma escala precisa.

Acerca da ironia como expressa a nossa condição humana, o risível da nossa condição e de como começamos grande parte das nossas guerras ou discussões, remeto-vos para a leitura da passagem do final do capítulo IV da primeira parte, à página 44, acerca da discussão dos ovos. Não podemos deixar de fazer um riso amarelo ao ler esta passagem.

Quão tristes somos ao começarmos guerras por causa do lado em que se deve ou não partir um ovo, isto é, como quase todas as guerras começam. Quase no final dessa passagem, é referido o «Alcorão dos liliputianos» para depois falar da distorção que é feita do texto, como no fundo acontece tantas vezes no Alcorão e na Bíblia. Mas o que uma vez mais está em causa é o nosso ponto de vista relativo, e isto acontece pela nossa natureza intermédia entre a ignorância e o conhecimento.

Se nestas duas primeiras partes Swift nos confronta com o nosso ponto de vista, nas terceira e quarta partes confronta-nos com a nossa maior ilusão, a de que somos seres racionais. Swift não apenas nos confronta com o nosso ponto de vista, fazendo-nos ver que não fazemos a mínima ideia de como funcionamos ou por que razão funcionamos como funcionamos – que é o que aconteceu nestas primeiras partes do livro – como ainda nos vai virar do avesso, fazendo confrontar-nos com a nossa maior ilusão: a de que não somos animais racionais, apesar de termos razão, e isto mais de 100 anos antes de Kierkegaard.

(Continua na próxima semana)

19 Jul 2021

Obras públicas e incêndios

Quando a 26 de Outubro de 1866 o Governador de Macau e Timor José Maria da Ponte e Horta (1866-1868) tomou posse, as circunstâncias determinavam a urgência de reformas nos vários serviços da Administração da colónia e por isso, logo começou a nomear uma série de comissões para estudar e elaborar as necessárias a empreender.

A 14 de Setembro de 1867 o Governador por Portaria N.º 51 determina: , publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 16 de Setembro de 1867.

Logo a 18 de Setembro de 1867, a Comissão nomeada por portaria de 14 do corrente mês e composta por Francisco Maria da Cunha, major de artilharia, presidente, Jerónimo Osório de C.C. d’ Albuquerque, capitão às ordens, secretário e W. A. Read, E. C., enviou o relatório ao Governador, publicado no Boletim da Província de Macau e Timor de 23 de Setembro de 1867 onde é apresentado o projecto de organização de um corpo especial de obras públicas. Refere no Artigo 1.º referente ao pessoal do Corpo d’ obras públicas: : §1.º- É composto do inspector, do director e do engenheiro; e, na falta de qualquer um destes, entra, em primeiro lugar, o chefe da secção d’ estatística, e, em segundo, o condutor de trabalhos, por forma que nunca resolve com menos de três membros. §2.º- Este conselho é consultivo, mas tem iniciativa de proposta, para o governo da colónia e §3.º- Por intermédio dele, e com responsabilidade de todos os indivíduos que o compõem, são feitos os ajustes, contratos e a compra de materiais. §4.º- Sempre que o governo da colónia o indicar, ou que o inspector o julgue conveniente, serão ouvidos, o chefe da secção da estatística e o condutor de trabalhos, ficando então o conselho composto de cinco membros. Já o Artigo 3.º : §1.º- Há uma repartição de obras públicas que se divide em duas secções: secção d’ obras públicas e secção d’ estatística. §2.º- É chefe da repartição o inspector, e sub-chefe o director. §3.º- O director é também chefe da 1.ª secção; o chefe da 2.ª é um funcionário nomeado especialmente para este fim. §4.º- Fazem igualmente parte da repartição, o condutor de trabalhos, que além dos trabalhos do campo tem o encargo de arquivista das plantas, memórias, desenhos, &c.; o amanuense, que exerce também as funções de arquivista do expediente e dos documentos de contabilidade; o intérprete; e o engenheiro, que também deve ter ali a sua mesa de trabalho. §5.º-

Este pessoal é comum às duas secções da repartição. §6.º- Toda a correspondência é feita por intermédio da repartição; a esta são remetidas todas as ordens do governo da colónia; e delas partem todas as propostas e consultas para o governo. §7.º- O inspector e o director substituem-se, no impedimento um do outro, tanto nos trabalhos da repartição, como nos de campo. Artigo 4.º- § único: O sistema de escrituração de registo, de arquivo, de expediente, d’ escrituração, da contabilidade, etc., é considerado parte regulamentar e deve ser o primeiro encargo do conselho d’ obras públicas.

A comissão foi dissolvida com louvor do Governador a 24 de Setembro de 1867, publicado a 30 de Setembro no Boletim da Província de Macau e Timor.

Ataque ao fogo

No Bazar, as casas e lojas chinesas são tão unidas e contíguas umas às outras que parecem antes ser uma e mesma propriedade, refere o Inspector de Incêndios Senna Fernandes no resumido relatório de 19 de Fevereiro de 1868 para o Governador.

O Governador António Sérgio de Sousa a 12 de Março de 1872 exonerou por motivos de saúde o major Honorário Bernardino de Senna Fernandes de inspector dos fogos, nomeando para o cargo o capitão Frederico Guilherme Freire Corte Real, sem vencimento enquanto exercer as funções de capitão fiscal do Corpo de Polícia.

Em Setembro de 1875, o capitão Frederico Corte Real faleceu e o então Governador José Maria Lobo de Ávila por Portaria de 25 de Setembro nomeou o Major Eng. Augusto César Supico, então Director das Obras Públicas a exercer esse cargo desde 23 de Fevereiro, como inspector dos fogos, assim como para seu ajudante, o condutor das Obras Públicas António de Azevedo e Cunha Jr. – que já em tempos serviu com louvor como imediato do inspector dos incêndios. Desde então, o cargo de inspector dos fogos ficou por muitos anos adstrito à Direcção das Obras Públicas.

O aviso de incêndio continuava a ser feito pelo toque dos sinos, mas para os accionar era preciso ir buscar a chave da caixa, que fechada protegia as cordas dos sinos, guardada na Estação de Polícia de cada zona e conhecer o número estipulado de badaladas correspondentes a cada uma onde ocorria o incêndio.

19 Jul 2021

Memória e Infância – Luz e fogo (1)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

 

1.

A memória é uma forma de o cérebro colocar imagens na cabeça que não existem cá fora – e perder a memória é um incêndio algures no nosso sótão mais privado – e as imagens, já sabemos, são bem inflamáveis. As palavras ardem a uma temperatura, as imagens a uma outra – talvez mais baixa, talvez mais alta, não sabemos. Estudemos, pois, quem perde a memória; o que perde primeiro: palavras ou imagens?
Sabemos que as canções ficam quase sempre para último, como a definitiva resistência – mas as canções não são palavras, são palavras com certo ritmo; são palavras elevadas a um qualquer estado aéreo que as faz aproximar mais do céu que da terra. As canções ficam na nossa memória e não sairão tão cedo, isso é evidente e é apenas um exemplo.
A música é talvez o que fica, mesmo em bailarinos: como num incêndio onde tudo o que é material é destruído, mas das cinzas vem um som, uma canção.
É isso perder a memória, das cinzas vem um som. E muitas vezes esse som é uma canção de infância.
E assim definimos rapidamente aqui uma regra: são as canções de infância que melhor resistem aos incêndios.
O fogo não destrói o som. E isso tem de ser repetido: o fogo não destrói o som.

2.
A infância é evidentemente um sítio onde o nosso corpo estava como quem está no estrangeiro. Pode ser um feliz país estrangeiro ou um infeliz país estrangeiro, mas sim, nenhuma criança conhece as palavras dessa língua – e um adulto ainda menos.
Talvez a velhice seja o estrangeiro mais agreste e menos compreendido a que o corpo tem acesso. De qualquer maneira, mas para alguns a infância não foi essa maravilha que os contos de fadas contam.

3.
Perder a memória como quem está diante do último incêndio no sótão dos pais.
E diga-se rapidamente: a morte dos pais é isso: o incêndio principal. Com a morte dos pais, vai esse armazém afectivo para o céu ou para a terra ou directamente para um local, no corpo do filho, onde a vida choca de frente com os seus limites.

16 Jul 2021