Cerimónias com vinho

Han Shijie (寒食节), cerimónia conhecida por Comida Fria, realizava-se desde o Período Primavera-Outono (770-476 a.n.E.) na dinastia Zhou do Leste, oferecendo-se sacrifícios aos que passaram desta vida e as pessoas colocavam um ramo de salgueiro nas portas de entrada das casas.

Tal história teve origem quando Chong-er, com 60 anos se tornou em 636 a.n.E. o duque Wen e ascendeu ao trono do Reino Jin, após 19 anos de exílio. Tinha sido ele e os dois irmãos, filhos do duque Xian e da primeira esposa, preteridos como sucessores na governação do reino por Xiqi, nascido da concubina Liji, que influenciara o duque para os mandar matar. Sabendo isso, o mais velho, Shensheng logo se suicidou e os outros dois fugiram. Chegado ao poder, o duque Wen esqueceu-se do leal oficial Jie Zitui, que no período de fuga, em fome extrema cortara partes de carne da coxa para o alimentar. Só reconheceu a sua ingratidão quando Jie Zitui se demitiu e com a mãe se refugiou numa montanha.

Mandou-o chamar, mas ele preferiu o desterro e por sugestão de um oficial da corte foi deitado fogo à montanha para o obrigar a dela sair. Como após três dias não apareceu, foram à sua procura, encontrando-o consumido pelo incêndio, atado de costas para um salgueiro e no outro lado da árvore a mãe na mesma posição. Com remorsos, o duque Wen para assinalar a morte de Jie ordenou aos súbditos nesse dia não acenderem o fogo, ficando assim a data conhecida como o da Comida Fria.

Voltando no ano seguinte ao local, o duque encontrou a árvore de novo com vida e retirando um longo ramo fez com ele uma coroa colocando-a à volta da cabeça, sendo seguido pelos presentes. Desde então o costume perpetuou-se e as pessoas passaram a colocar um ramo de salgueiro à entrada da porta de casa e como não se abria o fogão, a comida era fria. Daí nesse dia as refeições serem acompanhadas por vinho doce, feito de fruta ou de glutinoso arroz, para aquecer e confortar o estômago.

Na dinastia Han apareceu o Calendário Solar do Agricultor, que dividia o ano em vinte e quatro termos, sendo o quinto o Qingming (Cheng Meng em cantonês), que significa limpo e brilhante. Conhecida também por Festa do Puro Brilho, é uma das raras celebrações chinesas ligadas ao calendário solar e ocorre 105 ou 106 dias depois do vigésimo segundo termo, Dongzhi, o Solstício de Inverno [21 de Dezembro]. Realiza-se a Grande Cerimónia tauista para que os vivos se lembrem dos falecidos, altura de os imperadores fazerem as cerimónias anuais de visita às campas dos Antepassados, culto de tempos imemoráveis apregoado na Filosofia de Confúcio.

Da dinastia Han até à Tang prestava-se mais atenção à cerimónia HanShiJie do que ao Qingming, realizada três dias depois. Oferecia-se sacrifícios às pessoas falecidas e na dinastia Tang (618-907), por decreto imperial no dia da Comida Fria começou a ser realizada a subida ao monte onde os cemitérios se encontram, fazendo-se a limpeza às campas.

Na dinastia Song, as cerimónias de HanSeJie e Qingming pouco a pouco começaram a juntar-se, fundidas definitivamente na dinastia Ming, sendo a celebração realizada à volta do dia 5 de Abril do calendário solar e como os alimentos eram já cozinhados e as refeições se comiam quentes, deixou de se beber o vinho doce e passou-se a usar o normal e corrente vinho.

Actualmente, na data do Qingming as famílias chinesas vão ao cemitério para se encontrarem mais perto dos seus antepassados e em convívio reúnem-se à volta da campa, procedendo à sua limpeza. Aí colocam a comida preferida do morto e acendem duas velas e três pivetes (incenso) e em três pequenos vasos se deita vinho, sendo este depois derramado no chão para chamar o espírito da terra, que contém a alma terrestre dos que passaram desta vida.

Alguns dos presentes também bebem de um trago esse vinho e juntos com o espírito do antepassado em reunião realiza-se então uma refeição, num convívio prolongado por todo esse dia se divertem e tiram partido da vida.

Quando longe das sepulturas de familiares, opta-se por um passeio no campo, num parque, ou a subir a uma montanha para estar mais próximo do espírito dos seus Antepassados, ajudando o vinho à confraternização.

Dança do dragão embriagado

No oitavo dia do quarto mês lunar realiza-se a Festividade da Dança do Dragão Embriagado (舞醉龙, Mou Tchoi-Long, conhecida em mandarim por Wu Zui Long), comemorada apenas em Macau apesar de ser originária de Sek Kei (Shi qi), capital de Zhongshan. Segundo a lenda, um homem muito embriagado caiu ao Qijiang, um afluente do Rio do Oeste, onde um dragão vivia e aterrorizava a população ribeirinha.

Num heroísmo imprudente, o homem atacou-o animado pelos vapores etílicos do vinho, e conseguindo cortá-lo em três partes, matou-o. Outra história refere, que o dragão banhava-se no rio quando Buda o cortou em três partes, ficando o tronco separado das duas extremidades. Cabeça e cauda foram resgatadas numa rede de pesca por um pescador embriagado que as trouxe para terra.

Por isso, anualmente nesse dia os homens das lotas (lanes) celebram a data embriagando-se para libertos do consciente emprestarem o corpo ao Dragão. Transportando pelas ruas a cabeça e a cauda do dragão, em passos e gestos livres, muitas vezes descontrolados, recriam em dança os movimentos da parte que seguram. Pela boca em chuveiro espargindo vinho de arroz são eles próprios a alma do animal que assim fica completo. Esta acção serve para acordar o dragão e este ganhar vida.

As celebrações começam numa cerimónia conhecida como “fora da água” ou “qi shui” e após os sacrifícios ao Deus da Água, do Templo Sam Kai Vui Kun saem as cabeças e caudas do Dragão transportadas pelas ruas ao som de tambores e címbalos.

Os barcos, que durante onze meses estiveram submersos na água, ou em Macau guardados nos armazéns, nesse dia são postos a boiar. Com o corpo do Dragão fora de água, é colocado no barco a cabeça e a cauda, ficando assim preparado para as regatas dos barcos-Dragão.

A partir daqui, os treinos das equipas são efectuados com afinco e nos Lagos Nan Van começa a escutar-se o bater ritmado dos tambores a cadenciar a entrada dos remos na água até ao quinto dia da quinta Lua, quando se realizam as regatas dos barcos-Dragão. Na origem dessa festa está Qu Yuan (340-278 a.n.E.), alto ministro do Reino Chu que devido a críticas na corte se viu desacreditado e foi demitido do cargo. Após a queda do reino, em desespero lançou-se à água, mas a população, admiradora das suas qualidades, enviou barcos à sua procura e percebendo ter-se afogado, lançaram para a água arroz a alimentar os peixes, a fim de estes não comerem o corpo do integro estadista e poeta.

Este ano as Festividades do Dragão Embriagado celebram-se no próximo domingo 8 de Maio, havendo distribuição do arroz da longevidade e no mesmo dia comemora-se o Dia de Buda, quando é dado um banho com água de rosas à estátua do Buda Criança, sendo às pessoas oferecida uma refeição de arroz e vegetais.

3 Mai 2022

A Guanguan

De facto, a montanha Qingqiu não cessa de nos surpreender, mesmo quando nos presenteia com seres cujo aspecto em pouco ou nada difere dos animais com que habitualmente nos cruzamos.
É o caso da guanguan, uma ave de corpo semelhante a uma pomba mas que, por razões ignotas, sempre atraiu de forma radical a imaginação de escritores e poetas. Poderá ser que o fascínio resida no seu expressivo canto, descrito como o som de um homem aos gritos. Poderá ser, mas dificilmente se admite que tal maneirismo seja um factor de sedução.
Se é certo que, num velho compêndio de culinária, a carne assada da guanguan é considerada uma “excelsa iguaria”, também não será despiciente a crença segundo a qual quem usar no cinto qualquer parte desta ave não sofrerá de confusão mental.
Não sabemos se isto quer dizer que a guanguan possibilita uma visão límpida da natureza e a intuição imediata das propriedades dos dez mil seres ou se, num sentido inverso, ilumina o que no nosso interior se guerreia, permitindo estabelecer um reino interno onde predominará uma suave harmonia moral, temperada por uma frenética disposição para o cultivo de si.
Sabemos é que um importante poeta como Tao Yuanming (365-427) dedicou a esta ave um belo poema, no qual refere a sua capacidade para ajudar os que mergulharam na noite do caos e da ignorância, mas não para caucionar um comportamento exemplar. Talvez isto justifique o uso da guanguan como amuleto capaz de melhorar as capacidades cognitivas, mas não estende a sua influência à clarificação dos preceitos morais. Estes continuarão a ser alimentados pela vontade dos sujeitos, sem que exista mezinha ou feitiço capazes de instilar num ser humano a prática da benevolência ou o respeito pelos ritos. Tanto este como aquela unicamente se adquirem pela constante via da renovação ou exame interior, e pela rectificação da total integridade do coração, ou seja, da força bruta das emoções, da ordenação dos pensamentos e da violência dos desejos.
“Dá-me a sabedoria”, terá rogado Salomão ao Deus do Livro, exprimindo assim o desejo de adquirir a compreensão total das coisas e de se tornar ele próprio um deus. Não será este tipo de saber que os crentes nos poderes da guanguan acreditam obter. Pelo contrário, longe de um entendimento do mundo e dos desígnios do Céu, procuram a translucidez que as asas dessa ave prometem, quando em pleno voo se cruzam com o Sol e naquele instante deixam entrever um universo mais claro e mais brilhante, enigma e salvação.
É possível também, ainda que sempre num registo meramente onírico, estabelecer uma relação entre a guanguan e a pomba do Espírito Santo, pois ambas são transmissoras de sabedoria. Mas que tipo de sabedoria nos transmite um e outro animal, um e outro símbolo? Será que a guanguan também nos permite o acesso a línguas estrangeiras e nos revela a comunidade universal ou, mais pragmática, simplesmente afasta algum do nevoeiro que diariamente nos povoa a mente e nos impede uma apreensão rectilínea do mundo?

29 Abr 2022

Para onde vamos?

À acusação de que a ONU não actuou em relação aos crimes cometidos pela Ucrânia no Donbass, António Guterres, bem, ripostou com o óbvio: “Não temos tropas ucranianas no território da Federação Russa, mas temos tropas russas no território da Ucrânia”. Justificou-lhe depois Putin, “o problema com a Ucrânia começa com o golpe de Estado que teve lugar em 2014. É um facto inequívoco.” E repetiu a lenga-lenga da nazificação que apaga as referências à cultura e às línguas russas do território. Palavras em conserva.

Seria útil que a Assembleia Geral da ONU, os russos algemados às cadeiras, visionasse os filmes de Sergei Loznitsa, o cineasta ucraniano, sobretudo Maidan, de 2014, precisamente sobre os movimentos populares que levaram ao golpe de 2014, e Donbass, de 2018. Ambos os filmes proibidos na Rússia. Ideologias à parte, os filmes ajudam-nos a compreender o que se passa hoje e o nível de incompatibilidade cultural e emocional entre os dois países.

Em Donbass, o filme sobre a guerra civil na província homónima, uma coisa ressalta: é um filme verdadeiramente incómodo, exasperante para os dois lados (- pelo subentendido do que possa ter gerado a crueldade que nele se expõe). Só que, enquanto o filme foi proibido na Rússia, o “nazi” Loznitsa condenou há dias, de forma veemente, na revista Variety o boicote ao cinema russo – imensa diferença.

Duas sequências se destacam em Donbass: a do “exterminador nazi” que é exposto ao linchamento popular e a do incauto comerciante chamado às autoridades locais – em “zona libertada” pelos separatistas – para recuperar o jipe que lhe havia sido roubado e é confrontado com “formalidades” que “formalizam” a “doação” do seu carro ao Governo Popular, ao que se acrescenta uma chantagem para extorsão de dinheiro. E os argumentos são redondos:

“Você ou apoia esses monstros, esses fascistas, ou está connosco?”. Ou cede, ou irá para o linchamento. A grande máxima da vida prática que os líderes do Novo Poder patenteiam é “conservar o que se tem, apanhar o que se pode”.

E fica claro a corruptela dos termos nazi/fascista, gastas senhas para justificar de antemão as arbitrariedades do novo poder. Conceitos em conserva. Como, antes do encontro com Putin, para Bolsonaro e vários milhões, comunista significava: aquele que come criancinhas. Alguém admite dúvidas quanto aos comunistas terem sempre uma criança de reserva no congelador?

Não se trata de uma questão de pontos de vista, mas de mundos diferentes, duma total assimetria traduzível na discordante relação quanto ao valor e aos significados atribuíveis às palavras. Para Putin, como para Trump ou Bolsonaro, consoante o desejável predomínio da vontade deles sobre a realidade, as palavras travestizam-se, ou mudam em conserva. Para os russos nem sequer há guerra, a Ucrânia submergiu num momentâneo estado de sonambulismo (como marionete do Ocidente) que não a deixa identificar os trilhos da paz e os ucranianos estão a ser salvos de si mesmo.

Ocorre-me a história que P. Jacob conta no seu livro O Empirismo Lógico:

«O físico Szilard anuncia um dia ao seu amigo Hans Bethe que decidiu escrever um diário:
-Não tenho a intenção de o publicar; vou simplesmente catalogar os factos para que Deus seja informado.
– Tu não achas que Deus conhece os factos? – pergunta-lhe Bethe.
– Sim, anui Szilard, mas ele não conhece esta versão dos factos!».

Em faltando Deus à loquacidade da fé, o que levou o Papa a desistir de tentar a sua chance como mediador, seria esclarecedor que os renitentes vissem os filmes de Loznitsa – e já agora também o Enterro de Estado, de 2019, sobre a morte de Estaline, porque é nesse estado de canonização que se imagina o Novo Czar – para que conhecessem essa versão dos factos. É na direcção desse imenso retrocesso que queremos ir?

Mas quanto ao perverso deslize das camadas tectónicas da semântica e aos seus efeitos no comportamento das instituições, valeria a pena lembrar que isto começa lá atrás e é de todos os lugares, como se atesta em A Mancha Humana de Philip Roth, ou neste facto que agora se noticia: «O tribunal de Fairfax, no estado norte americano da Virgínia, tem sido palco do julgamento de difamação contra Johnny Depp e Amber Heard, duas estrelas de Hollywood que revelam um ex-casamento de brigas violentas, uso de drogas e palavras cruéis. O julgamento tem captado multidões à porta do tribunal. A maioria são fãs do actor, que criticam a postura de Amber. Depp processou a ex-mulher por difamação e pede 46 milhões de euros em danos. Amber Heard avançou com a mesma acusação, mas exige o dobro: 93 milhões. A actriz ainda não foi ouvida em tribunal. O julgamento deverá continuar durante as próximas quatro semanas.»

O que é que falta a este ominoso casal? Interiorizar o visco da palavra Vergonha. E o mercado da comunicação que transforma a vergonha e a frivolidade em espectáculo, não é menos venal (ainda que diferidamente) que o mercado da guerra: corrompe, avilta, faz desejar a “verdade” da violência. Perante a condição de sem-abrigo da existência humana a que o horror da guerra nos propende, Amber Heard exige 93 milhões ao seu marido porque, como prova um vídeo que levou a tribunal, Deep bate com as portas dos armários da cozinha. Que democracia resiste a tanta falta de senso?

Palavras em conserva. Como fascista (uma tragédia, a trivialização do conceito). O Jünger, que supostamente o terá sido, tendia a afirmar a necessidade de manter o niilismo à distância. Nada mal, para um fascista. Melhor que a visão progressista de quem diz combater o fascismo e a uma proposta de tréguas contrapõe: «Moscovo não aceita esse tipo de propostas», numa despeitada letalidade não declarada. Porque, matar à fome e à sede aqueles (civis e militares) que escaparem aos bombardeamentos de Mariupol, à puridade, apenas significa Encomendar-lhes as Almas – exultemos!

28 Abr 2022

Terceira pessoa do plural

Fico indecisa entre primeira e terceira pessoa do plural, quando penso nisto.

Um dia jantava com alguém, uma amizade próxima e recente, à época, se bem que transatlântica, numa sala grande de restaurante, ruidosa e cheia e eu, todo o tempo, com a subtil sensação de que uma curiosa observação, alternada mas um pouco mútua, sempre me dirigia o olhar para aquela mesa próxima e para os olhos escuríssimos daquela mulher. Sei lá porquê. Eu tenho esta curiosidade de observar rostos e imaginar vidas por detrás dos rostos. Inibe-me pensar que posso incomodar alguém com o meu olhar inconsequente e inócuo e tenho tendência a pensar que se me olham é em virtude do meu olhar. Veio no final falar comigo. Assustei-me – fui invasiva, pensei. Uma colega da escola primária. Nunca a reconheceria mas reconheci-a de imediato no sucinto retorno àquele contexto. No nome. E depois no rosto, nos olhos. Não consigo acreditar como me reconheceu – ainda não consigo. Mas eu sou assim. A achar que muito mais eu poderia reconhecê-la do que ela a mim e foi o contrário. Mas não importa. Poderia dizer que aquela que ela identificou já não existe. Mas a situação teima e tende a dizer o contrário.

Ou não. Se pensar que as pessoas não existem por si, mas em relação e essa foi interrompida há meio século. Que resta desta e daquela pessoa? Nada para além do corpo. Esse ainda recuperável para um contexto de memória. Cristina Isabel. Quem será? Depois daquela doce e equilibrada figura de menina, como todas, a parecer mais crescida do que eu, mais sólida do que eu, mais segura e mais feliz do que eu. Se a conhecesse hoje, veria uma mulher pequena, magra e frágil, com um certo fogo interior e decisão. Como se o corpo não tivesse crescido a acompanhar essa solidez, ou crescido menos e por isso intensificada essa chama. Que não se sabe o que faz arder. Mas sei lá.

Dificilmente nos encontraremos de novo em tempo de vida. Ou seríamos já ambas, de novo, terceiras pessoas, vistas à distância. Senão, seria estranho mas curioso, conhecer esta mulher completamente estranha. Porque é isso que cinquenta anos de intervalo, deixaram entre nós as duas. Sem uma segunda oportunidade, e lembrei-me agora de que preciso de a rever, nas fotografias da escola, agora com uma necessidade de nitidez relativa àquela altura, que a memória já não cumpre depois de sobre ela ser substituído um rosto por outro. Porque a memória visual não é pura e recobre-se de outras impressões emocionais, factos que disfarçam o desaparecimento do rosto. Mas já passaram anos e esqueci-me de a rever. Coisa que me surge agora com uma enorme urgência. Preciso de comparar os dois rostos. Mesmo se também este, recente, já meio esfumado à custa das palavras que me vêm ao pensamento sobre ele.

Brincava com ela depois da escola, a um jogo qualquer com botões nos mosaicos frios mas próximos, da cozinha. Dela. Ou talvez de uma outra. Tão diferente, mas à distância dos anos, tão semelhante, parada no tempo. Isabel Margarida, esfuziante ansiosa e brejeira – sempre aquele sorriso nervoso, Fátima, Victória, Leonor – mas essa não se dava muito, a melhor aluna, excepto com a Palmira, também boa aluna, companheira de carteira. Uma menina pequena e empertigada ou somente segura. Ali nas imediações, nas carteiras dos lugares inalteráveis e lá mais para trás um mundo distante. De meninas mais altas e com um olhar mais triste.

Uma delas, Fernanda, talvez, que era minha amiga e eu dela, vivia lá para cima, numa dessas orlas que produzem casa precárias, barracas. E levou-me lá um dia, por qualquer razão que não me lembro, daquelas nossas de crianças, mas por um motivo que não tinha nada a ver senão com esse de, ainda assim, ser a casa dela. Mas outras meninas, geográficas, não se davam. Não. Hoje, as pessoas cada vez mais, não se dão.

Que será feito, de umas e de outras, territórios tão distantes? O que desmoronou, o que se inverteu.

27 Abr 2022

Spleen

Estamos em marcha para um tempo que julgáramos findo. Amanhã o seio da Europa será testado na vanguarda das Nações e, de súbito, só Baudelaire parece saber como se morre sem causar danos imorredouros, mas na têmpera também de uma noção insuportável – a da vida que chegando a certos estados, parece-nos o massacre de um demónio que não cessa a sua subordinação e, sobretudo, não refaz a novidade. Bela a ciência que nos prolongou tempo de vida, mas a vida que se prolonga não é tão boa como o avanço que nos fez continuar. Quer queiramos quer não, a nostalgia avança, mas sem uma reverberação apaixonante, de limite, por causa dessa incapacidade de nos separarmos da abominável natureza.

Sim! A natureza é abominável e desde que firmámos o tecido civilizacional que tentamos escapar-lhe. Sem solução à vista juntámo-nos a ela e retrocedemos hoje ao nível do embuste predador que grita em volta do seu último uivo confiante [Deus não existe, mas precisamos desesperadamente dele] que para algo existir é preciso necessidade tamanha… que teorias não servem para nada, e ao nada ainda pertencemos sem uma funda necessidade. Há seres que nos aparecem, duas, três vezes, ao dia, para que falemos deles em súbita orquestração, e Baudelaire é agora mais que um fantasma, é sonoridade manifesta no vazio dos dias iguais, que quer dizer como nasce a tristeza do nosso tempo vivente.

São criaturas imensas estes poetas! Repletos de tormentos tais, que o tempo circunscreveu as suas vidas a pequenos nichos de humanidade, não fazendo perder, contudo, uma lucidez futura de abordagem esplêndida, constante e sonhada. Vamos encontrá-los devastados, por vezes agrestes, imensos e belos nas suas súplicas e desdéns, mas sempre numa outra humanidade tão difícil de igualar!

Nasce com marcas, mas marca a diferença, diferenciado tal, que todo o crepúsculo se sublima para o recuperar da dor primeira «Maudite soit la nuit aux plaisirs éphémères où mon ventre a conçu mon expiation!», diz a mãe: mas a mãe nunca saberá nada de seu filho resoluto em triturá-la no abismo da servidão. Este é o poeta. Um ser aparentemente tenebroso se não encontrar nada na hora da morte para o salvar. Uma crispação vinda de longe que deita semente a todos no mundo. Nenhum pai, nenhuma mãe, concílio, estrutura, ou validez, seguirão os seus passos de inimigo indómito desta multiplicação desenfreada, onde só ele parece conseguir desesperadamente sobrepor-se.

Não o fará por vaidade, mas por aritmética a um mais vasto e amoroso ciclo civilizacional, não deseja a tribo, o dolo, o sacrifício, mas plangente se entrega ao bárbaro martírio de existir no meio daqueles que não são seus pares.

O decadentismo tende a ser ainda mais sombrio que o romantismo, mas Baudelaire deu-nos a beber esse vinho agreste da desistência amarga, sem o qual nos desviamos de uma entrega para um nível de consciência imprescindível. Os seus poemas em prosa não tinham a direcção do escalar das rimas sonantes, sonoras, mas transmitiram o xamã adormecido do poeta em transe de embriaguez e voluptuosa exactidão. Quem no embuste do conforto recria a sua demanda, não sabe nada do que aqui se passa, nem da voraz consciência da danação.

Inventamos agora poetas circunscritos à viciação, ao relapso da figura que não transgride, e parece-nos suficiente esta marca intelectualizada sem nuance e cerimónia em face dos confins dramáticos de uma imensa abstração. Não se esqueceu dos gatos, esses guardiões do destino dos amantes que não desejam ser importunados por festejos vãos.

Em todo o caso, “Spleen” é sempre o arco das suas pálpebras entreabertas numa contemplação tenaz, hipnótica, macia, triste, e quantas vezes, gélida. Não queremos mais sorrir. A beleza exige distância.

E sob tutela invisível de um Anjo, esse filho de nenhures, sabe ainda que não está só no confronto com o seu próprio destino «Bonjour Tristesse».

27 Abr 2022

Vinhos para comemorações

Durante a dinastia Xia (2070-1600 a.n.E.), a princesa Yi Di usando arroz glutinoso fez vinho amarelo com cinco diferentes sabores e Du Kang desenvolveu a técnica de produção pela fermentação de sorgo e daí ficarem considerados na China os deuses Patronos da Criação do Vinho, apesar de este existir já há mais de cinco mil anos.

Com grande teor alcoólico bastava um copo de vinho para embriagar quem o bebesse e daí a necessidade de várias regras tanto para o consumir como para o fazer.

Com o exemplo da queda das duas anteriores dinastias, a Xia e a Shang, na dinastia Zhou do Oeste, o Rei Wu (1046-1043 a.n.E.) criou uma autoridade para regular e manter sob estreita vigilância a produção e consumo de vinho. Este era feito com milho, arroz e o denominado chang, produzido com painço preto e preparado especialmente para o ritual das cerimónias de sacrifícios, sendo apenas levemente fermentado e logo de seguida consumido.

Nessa dinastia ocorreu o uso de fermento no vinho para lhe dar maior vigor alcoólico, começando a ser fabricado sob licença e eram precisas seis etapas para a sua confecção, segundo o registado no Livro dos Ritos (Li Ji). Constavam: ter o milho completamente amadurecido, água pura, tempo suficiente para fermentar, instrumentos limpos para manusear, apropriado calor, assim como boas e limpas vasilhas para armazenar. O vinho feito com estas precauções era excelente e gostoso.

Do Período dos Reinos Combatentes (475-221 a.n.E.), nos túmulos descobertos nos anos 70 do século XX no concelho de Pingshan, província de Hebei, foram encontrados inúmeros potes e dois deles ainda continham vinho feito de trigo de há 2280 anos.

Na dinastia Han (206 a.n.E.-220), devido ao grande progresso na agricultura houve um incremento da produção de grão e daí aparecer o sake, o licor chinês, o vinho tinto, o vinho da primavera, o vinho rehmannia resinoso e o vinho de mel. No reinado do Imperador Wu (Wu Di, 140-87 a.n.E.) o vinho foi taxado e o seu preço aumentou. No segundo século da nossa Era surgiu o monopólio do vinho e na Dinastia Tang (618-907) começou o monopólio da sua venda, sendo criadas as lojas imperiais de vinho fino. O poeta Bai Juyi (772-846) refere-se à destilação, que apareceu durante esse período, sendo o vinho bebido em copos mais pequenos, não existentes anteriormente. Li Bai (701-762) falava já do vinho de Lanling e Du Fu (712-770) do vinho Chongbi. Ainda durante a dinastia Tang, o cultivo de uvas e a produção de vinho dava um imenso lucro.

Na dinastia Ming (1368-1644), o licor destilado era bebido no Norte, onde em quase todas as povoações havia uma destilaria, enquanto no Sul era o vinho de arroz o mais popular. Usa-se vinho para as cerimónias de sacrifício, para beber em convívio, assim como para cozinhar e na medicina.

FESTIVIDADE DO ANO NOVO

Yuan Dan (元旦, Un-Tán) é o nome actualmente dado pelos chineses ao primeiro dia do ano solar, mas até à dinastia Qing era empregue para designar o primeiro dia do calendário lunar. Na dinastia Han, para celebrar a Festa do Ano Novo Chinês as pessoas bebiam um vinho feito com grãos de pimenta, pois o tempo era frio e este servia assim para aquecer o corpo. Na primeira hora do ano, entre as 23 h e a 1 da manhã, quando os panchões rebentavam, a família reunida brindava com este vinho para desejar um bom ano e muita saúde, sendo oferecido primeiro aos mais novos por ficarem com mais um ano de idade, devido à entrada do novo ano. Os mais idosos eram os últimos a beber, pois significava terem menos um ano de vida.

Na dinastia Tang começou-se a beber vinho feito de uma fórmula dada por os especialistas de medicina tradicional dias antes de terminar o ano, sendo a receita vendida às pessoas com os ingredientes colocados dentro de um saco de tecido, que em casa era mergulhado no recipiente com vinho. No primeiro dia do ano daí se retirava este vinho chamado TuSuJiu (屠苏酒), sendo bebido para dar às pessoas saúde e protegê-las das doenças.

Já na dinastia Song (960-1279) este tipo de vinho feito por receita da tradicional medicina caiu em desuso e no último dia do ano, o costume era fazer visitas de cortesia aos vizinhos, para não deixar assuntos pendentes, provando-se o vinho preparado por cada família e retirando-se cada um para suas casas, continuavam noite dentro a beber e comer, sem dormir. Acção denominada Shou Sui (守岁), significava proteger a idade e servia para desejar longa vida aos mais velhos da família.

Na dinastia Yuan (1271-1368) voltou-se a usar a prática da dinastia Han e Tang, bebendo-se o vinho feito com grãos de pimenta e a partir da receita medicinal. No período Ming, Qing e até hoje, seguiu-se o Shou Sui, mas apenas com a família reunida dentro de casa, acção denominada então Tuan NianJiu (团年酒), sendo escolhido o melhor vinho para acompanhar o repasto dessa longa noite sem dormir.

FESTA DAS LANTERNAS

A encerrar as cerimónias do Ano Novo Chinês, tem lugar a Festa das Lanternas (元宵节, Deng jie em mandarim, Tâng-Tchit em cantonense), também chamada Festividade da Primeira Lua Cheia. Desde a dinastia Han, no dia quinze do primeiro mês lunar, como à noite as lojas não fechavam, as pessoas saiam de casa e iam passear para as decoradas ruas principais do comércio, levando diferentes tipos de lanternas vermelhas, símbolo das almas dos antepassados, que estando de visita eram depois reconduzidas de novo para o outro mundo. Em convívio se passava toda a noite a falar, beber e comer e a assistir na rua a peças de ópera e teatro.

O imperador Han Wu Di (140-87 a.n.E.) neste dia prestava homenagem à Divindade da Primeira Causa, mas o religioso significado da festa, ligada ao culto dos Antepassados e ao fogo, perdeu-se. No reinado de Ming Di (57-75), imperador Han de Leste, apareceram as lanternas e por sua ordem, na primeira Lua Cheia do Ano as famílias colocavam-nas acesas nas portas das casas, conjuntamente com ramos de abeto, a atrair Prosperidade e Longevidade. No reinado do Imperador Yang (604-617) da dinastia Sui a Festa das Lanternas foi oficializada para ser celebrada na capital, em Da Xing (Xian) e popularizada na dinastia Tang, realizava-se durante três dias. O Imperador Rui Zong (710-712) na noite de 15 da primeira Lua abria as portas do recinto do Palácio Imperial em Dong Du (Luoyang) para a população admirar a gigantesca árvore iluminada com cinquenta mil lampiões.

Nessa noite o Imperador saía do palácio e convivia com os súbditos, havendo uma alegria generalizada. Eram as únicas noites do ano sem toque para recolher a casa e por isso as ruas enchiam-se de pessoas até à alvorada. Na dinastia Song, a festividade passou a ser realizada durante cinco dias e no período Ming, do oitavo ao décimo sétimo dia do primeiro mês lunar, estendendo-se a celebração da capital ao resto do país. As ruas e praças estavam decoradas com lanternas e as pessoas com elas andavam, tornando-se costume nelas escrever advinhas, charadas e enigmas. Encerrados os quinze dias de festa, regressava-se à quotidiana abstinência de vinho.

26 Abr 2022

A Zhu

As várias partidas do mundo, os lugares, as cidades, as paisagens, unicamente reivindicam espaço na nossa memória quando algum traço particular as distingue. A esses espaços fica associada uma emoção, logo ali sentida ou mais tarde emergente, que a mente, ávida de acção, guarda com deleite. Certos sítios são lembrados pela sua beleza, outros pela extravagância; mas a montanha do Salgueiro e a sua particular fauna conseguem ultrapassar estas categorias e intrometer-se no mundo dos homens de forma relevante e inesperada.

É que por ali existe uma ave, com a forma aproximada de uma grande coruja, cuja aparição é suposto anunciar alterações importantes na hierarquia política de toda uma região. Chamam-lhe zhu e, provavelmente, ostenta uma penugem rubra escura, da cor do vinho feito de uva. Sendo uma ave, dotada da capacidade de voar, surge do nada ao crepúsculo, encontra o seu recanto num ramo onde se agarra com firmes dedos — pois a zhu não possui patas de pássaro, mas mãos humanas, que lhe saem de baixo do seu volumoso corpo — e dali os seus olhos penetrantes fixam o mundo como se o quisessem hipnotizar. De quando em vez, emite um som que lembra o seu nome: “Zhuuu…”

Não é bom sinal, garantem, avistar esta ave. Alguns mestres dizem ser um presságio de índole tão ruim como ver um cometa atravessar os céus ou encontrar uma baleia morta a flutuar entre as ondas. Reza a tradição que, quando uma destas aves aparece, tal quer dizer que o rei vai destituir, exilar ou matar grande parte dos seus oficiais superiores. É então fácil de prever a confusão gerada pelo rumor do avistamento de uma zhu; e imaginar os espíritos em desordem, a tessitura de conspirações, a emergência de terrores, a catadupa de planos e, amiúde, levianas mas trágicas decisões. Invocar a zhu é garantir o conflito e a desarmonia.

O poeta Tao Yuanming reforça a crença no mau agouro desta ave. Em breves linhas, irónico, sugere por ali ter andado uma zhu, quando o rei Huai de Chu baniu o famoso Qu Yuan, um importante oficial e trágico poeta. Não se pense, contudo, ter advindo de suas poesias a má sorte que lhe selou o destino ou que podemos dar como garantida a aparição de uma zhu naquele final do século IV a.E.C.. Arrebatado pelo desgosto de assistir ao espectáculo degradante de uma governação, maculada de práticas corruptas e inoperante pelo desleixo da realeza, Qu Yuan cometeu suicídio, atirando-se às águas barrentas de um rio. Este seu acto tornou-o num herói, num santo, numa data, todos os anos comemorada pelo povo.

Compreende-se o temor que a zhu inspira. A sua presença é disruptiva, não da ordem individual, ou seja, da vida de cada um, eventualmente da vida do sujeito que a avistou, mas de toda uma ordem social. Não é incomum, por exemplo, a visão de uma zhu acender o rastilho de guerras civis ou, no mínimo, criar um período de incerteza entre os mais qualificados oficiais. Aristocratas, generais, comerciantes milionários, todos eles sentem vacilar o seu poder e, por isto, pela aparição de uma simples ave, quantas vezes não são estragadas famílias, queimadas colheitas, arrasadas aldeias, sacrificadas raparigas e destruída toda uma geração?

22 Abr 2022

Quatro filmes de ficar com água na boca

O Cinema é um formato belo e único. É simultaneamente um jogo e um transformador desse mesmo jogo. Nesta série, a autora e pensadora visual, Julie Oyang, apresenta 12 realizadores chineses, as suas obras e as suas invenções estéticas, que acabam por se revelar as invenções estéticas de antigos filósofos.

Os chineses acreditam que é importante equilibrar o yin e o yang no nosso corpo, e esse equilíbrio pode ser alcançado se ingerirmos os alimentos certos. Os alimentos yang podem ser doces, picantes e acres e têm cores quentes como vermelho e o laranja. Muitas das vezes, crescem no solo em ambiente seco. São disso exemplo a batata, a papaia, a malagueta e a carne de borrego. Ao contrário, os alimentos yin são mais amargos e salgados e geralmente têm um maior grau de humidade, costumam ser verdes ou de cores frias. Estes alimentos por norma crescem em ambiente húmido. Entre os alimentos yin podemos encontrar o pepino, o tofu, o lótus e os legumes verdes. Para além disso, a forma como se cozinha pode ser mais yin ou mais yang. Fritar e assar é considerado yang, ao passo que cozer em água ou vapor é tido como yin. Esta antiga escola de pensamento é conhecida como Taoísmo, na qual a Medicina Tradicional Chinesa é em grande parte inspirada.

Quer seja um gourmet ou um fã da cozinha chinesa, pode celebrar as artes culinárias e familiarizar-se com a filosofia chinesa através destes filmes maravilhosos. Está na hora de trocar as pipocas por alguns saborosos dumplings e noodles!

Eat Drink Man Woman (1994)

O Chef Chu, pai de três filhas, cozinha-lhes todos os domingos banquetes deliciosos. Enquanto estão à mesa, discutem as mudanças ocorridas nas suas vidas, a que assistiremos ao longo do filme. A cena de abertura é espantosa, consiste em sequências de preparação dos alimentos, filmadas em grandes planos. Por oposição à facilidade e ao talento com que o Chefe confecciona refeições deliciosas, o realizador analisa o isolamento emocional dos protagonistas, revelando a verdadeira intenção do filme.

Rice Rhapsody (2004)

O Chefe sino-americano Martin Yan interpreta Kim Chui, dono de um restaurante que enfrenta algumas dificuldades e não consegue competir com o congénere de maior sucesso, de que é proprietária Jen, a personagem principal do filme, famosa por confeccionar o melhor arroz de galinha Hainanese da zona. Entre os dois chefes começa a crescer uma grande rivalidade quando Kim Chui cria um prato semelhante, o arroz de pato Hainanese, que se torna rapidamente muito popular na cidade. O filme atinge o auge durante um concurso gastronómico onde se procura eleger o melhor prato tradicional de Singapura. Mas um outro sub-enredo atravessa o filme, centra-se na luta travada por Jen para aceitar o facto de os seus três filhos serem gay.

The Chinese Feast (1995)

As competições gastronómicas são um tema recorrente em The Chinese Feast. Quando Au, dono de um restaurante, é abordado pelo representante de uma empresa que quer transformar todos os restaurantes chineses num monopólio, faz-lhe frente e propõe-lhe um desafio; confeccionar o impressionante Banquete Imperial Manchu ou perder o restaurante. Decide então reunir uma equipa de Chefes de topo, na qual se inclui o Master Chefe Kit, que precisa de trabalhar com a mulher para ressuscitar o seu amor pela culinária. As cenas na cozinha são incrivelmente inspiradoras e só nos apetece começar a cozinhar imediatamente.

The God of Cookery (1996)

Nesta comédia cantonesa, o célebre Chefe conhecido como ‘Deus da Culinária’ é o reflexo da moderna indústria da gastronomia. Depois de ter sido expulso por fraude, e impedido de cozinhar, Chow ingressa secretamente numa escola de culinária para aprender a dominar esta arte. Depois regressa a Hong Kong pronto para se vingar dos seus rivais e voltar a ganhar o direito ao epíteto ‘Deus da Culinária’.

Citações famosas sobre comida para guardar na memória:
🌸 Para os governantes, o povo é o paraíso; para o povo, o paraíso é a comida
🌸 Governar um grande país é como cozinhar um peixe pequeno – se for muito manuseado vai estragar-se.
🌸 A forma com que cortas a carne reflecte a forma como que vives.
🌸 Em terra nascem três tipos de criaturas. Algumas têm asas e voam. Outras têm pelo e correm. Outras ainda movem os lábios e falam. Todas elas precisam de comer e de beber para sobreviver.
🌸 Falar não cozinha o arroz.

 

{{ Julie Oyang é uma autora de naturalidade chinesa, artista e argumentista. É ainda colunista multilingue e formadora em criatividade. As suas curtas metragens foram seleccionadas para o Festival de Vídeo de Artistas Femininas e também para a Chinese Fans United Nations Budapest Culture Week. Actualmente, é professora convidada da Saint Joseph University, em Macau. Gosta especialmente de partilhar histórias inesperadas, contadas a partir de perspectivas particularmente distintas. Divide a sua vida entre Amsterdão, na Holanda, e Copenhaga, na Dinamarca.}

JULIE OYANG Writer | Artist | Namer of clouds
www.julieoyang.com | Instagram: _o_writes

22 Abr 2022

O Mandarim

Eça de Queiroz começa por endereçar uma carta a título de prólogo ao redactor da revista «Revue Universelle»; nela vai explicando a situação portuguesa em seus meandros, que vai da sensibilidade à crítica literária, esvaziando como pode aquilo que ao seu cosmopolitismo não agrada, tecendo férreas considerações a uma língua de fervores indistintos, como se ao ser falada, retirasse o dom de não saber dizer nada – nada de concreto, diga-se – que ele ama a secura da exactidão.

Enfim! Realismos à parte, eu acho que a língua é um memorando de inclinações que a alma tece… um outro ritmo… imensamente criativo, agitado, e sempre em construção, sintaxe em movimento. Que ele há sempre “sopros” que mesmo entendíveis se colocam ao nível dos esgares; impossível de ser suportado! Não será demais contemplar o grande deslumbramento Mefistofélico neste seu registo «Mandarim» e a seiva que translúcida influenciou até poetas – «Hora do Diabo» onde Pessoa entende que ele é tal qual como o de Eça, um Cavalheiro. Isto tudo entre a Rua do Carmo e a Rua da Conceição. Pessoa insurgi-o reluzente numa noite de Lua-Cheia dizendo que uma senhora nada tem a temer na sua presença, que ele é bem educado. Eça, um pouco antes, faz exactamente o mesmo quando Teodoro, escutando-o a propósito da riqueza vinda do Império do Meio, lhe transmite essa máxima: «Não duvide de mim. Sou um Cavalheiro».

E neste estrondoso espectro cavalheiresco uma impressão perpassa a nossa consciência, ambos (com o poeta a ser amestrado mais tarde) estão infiltrados por possessões capazes de reverberar obras tamanhas…! Nós subimos a Rua da Conceição e só vimos Salgueiro Maia avançando com suas chaimites até ao Carmo, não nos dando conta da “artilharia” de um Mandarim, que tem sinos para assinalar fortunas de uma herança vinda de longe, e quando chegamos à Rua do Carmo vamos logo para o Largo para analisar a toca do supliciado. Que Mandarim é este que nos fala Eça, anunciado por estranha figura que parece anteceder uma profecia? E quem está a fecundar virgens num espaço tão curto onde estas coisas se dão? (H.D) É um registo memorável. Há uma terrível febre em desfazer todos os dons, pois que os grandes criativos têm amiúde índoles destrutivas, e mesmo assim não devemos por isso perder nenhuma das suas abominações.

No delírio gastador da herança de um tal Ti Chin-Fu, advém o remorso ao nosso personagem principal, crendo mesmo que a ruína de um Império se deva a tal facto, e decide então partir para a China. E lá parte no paquete Ceilão, com terra à vista que é Pequim, toda desmontada em atrito verbal na sua enorme confusão paralisante, e o que daqui vai sair talvez responda bem ao nosso laço pelo Oriente tão polvilhado de acontecimentos imaginários, um pouco conflituoso, admirativo, estreito e delirante: o mais risível é quando a propósito de Macau, os então nossos concidadãos patriotas passavam os dedos pela grenha quando afirmavam negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China…» A paródia lusitana do conversador que vai à procura de uma coisa, neste caso do túmulo de Ti Chin-Fu, que se veio a descobrir que vivera outrora nos confins da Mongólia, e subitamente desvia o interesse para conversas rocambolescas esquecendo o fito original, indo quase a contragosto para os confins extremos da China, é uma análise ponderável.

A confusão dentro de um certo registo foi tanta que se crê alvo de ataque feito pela turba quando se encontra numa loja, um mal-estar que lhe provoca terror, pois que como todos os paranóicos, acha-se vítima de perseguição, uma alusão a um problema muito português do qual resulta a dimensão para o disparate persecutório com amplas explanações de soberba narrativa. É absolutamente emblemático este diálogo da nossa louca natureza quando nos imaginamos o centro de qualquer coisa. Tem uma graça infinita esta observância Queirosiana, ainda mais quando o desdém é acérrima companheira dos seus fluxos ilusórios, e um certo snobismo de classe faz estalar o verniz burguês pela usura de que é conhecido. De toda esta magnífica leitura vem-nos à ideia que os povos pequenos são naturalmente endogâmicos, como tal, recheados de patologias que bem desenvolvidas até acrescentam grandes dons, e a graça maior é contrastada aqui pela imensidão do país falado, e das causas e consequências de que a paranóia se reveste para enfrentar os grandes.

Pessoa olhou mais para Eça que para Merlim, e foi com destreza que preparou a chegada de outro Diabo qualquer que entre nós ainda está por nascer. Nunca nos desfazemos dele, e esta pode ser ainda a incubadora de duas narrativas paralelas no seu insofismável acontecer.

Sinto-me morrer. Tenho meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio: pertencem-lhe; ele que os reclame e que os reparta. E a vós, homens, lego-vos estas palavras: «Só sabe bem o pão, que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o mandarim! –
In- O Mandarim (final)

21 Abr 2022

Origem do Vinho na China

A degradação dos alimentos mal armazenados leva à sua fermentação e a ganharem teor alcoólico, chegando-se assim à maneira de fazer bebidas espirituosas. Daí a origem do vinho se relacionar com o período Neolítico, iniciado pela Revolução Agrícola pois a Natureza já não dava alimentos suficientes e foi necessário pegar nas sementes e plantar. Começou a produzir-se os produtos alimentares e para guardar os excedentes criaram-se potes de barro.

Os primeiros vinhos na China foram feitos a partir da fermentação de arroz, cana de milho e milho-miúdo e se a maior parte dos livros nos falam da técnica de produzir vinho há quatro mil anos, essa data recua um milénio pois na província de Shandong foram descobertos nas ruínas da Cultura Dawenkou (4300-2500 a.n.E.) potes de vinho com mais de cinco mil anos. Vasilhas para cozer os ingredientes, algumas para a sua fermentação e outras para o armazenar, encontrando-se também copos, demonstra estar na altura já desenvolvida a técnica de fazer vinho e ser o seu consumo uma prática corrente. Entre os achados arqueológicos estavam entre os potes pretos da Cultura Longshan (2800-2300 a.n.E.) vasos para guardar vinho.

A História da dinastia Xia (2070-1600 a.n.E.) refere os inventores do líquido que influenciaria a vida tanto de monarcas como da população e bebido animava-as, mas também causaria muitos desastres. Dessa época são Yi Di e Du Kang, entronizados Deuses patronos da criação do Vinho.

Registado nos “Anais da Primavera-Outono do Mestre Lu” (Lu shi Chunqiu) do ano de 230 a.n.E., encontra-se Yi Di como a primeira a produzir vinho, mas segundo o “Dicionário Analítico dos Caracteres“ (說文解字, Shuowen Jiezi) escrito por o paleógrafo Xu Shen (許慎, c.58-148) foi Du Kang, o Rei Shao Kang, sexto dessa dinastia e bisneto de Da Yu, quem primeiro produziu vinho a partir de sorgo glutinoso.

O livro “Estratégias do Período dos Reinos Combatentes” conta a história da princesa Yi Di que se apresentou ao Rei Yu (Da Yu, o primeiro rei da dinastia Xia, que governou durante 45 anos) com um saboroso vinho e este predisse, muitos reis haveriam de se perder e aos seus reinos devido ao líquido. E não foi preciso ir muito longe pois Jie, o último rei da dinastia Xia, completamente bêbado caiu no poço do seu castelo e o vinho levou-o a uma vida desregrada e à sua degradação até perder o reino em favor da dinastia Shang. História narrada em “Biografias de Especiais Mulheres” (列女传), redigido nos finais da dinastia Han do Oeste por Liu Xiang (刘 向), que refere: “o Rei Jie tinha no seu jardim real um tanque tão grande onde cabiam vários botes, e que estava cheio de vinho. Ordenava que pendurassem grandes pedaços de carne cozida nas árvores das colinas da vizinhança e ali passava seus dias, em pândegas, com suas beldades”, entre elas três mil bailarinas. Continuando no livro “Mitos e lendas da China” de Wei Tang, “Entregue de corpo e alma a diversões, Jie não se preocupava com os assuntos estatais. Certa vez, passou mais de cem dias encerrado em seu palácio sem se avistar com os ministros,” e quando lhe chamaram a atenção para a vida dissoluta, entregue apenas a luxos e extravagâncias, poder provocar a ruína do país, Jie riu e respondeu: “Tudo o que há sob o céu me pertence. Sou como o sol no céu. Acaso se extinguirá o sol?” Ditas estas palavras, continuou a entreter-se.

Reinava há mais de cinquenta anos e o desgoverno e as práticas desumanas do Rei Jie, levou o príncipe Tang do estado Shang a declarar-lhe guerra. Em Wutiao, a Norte da actual Kaifeng (província de Henan), ocorreu a última batalha entre as tropas de Xia e Shang e o Rei Jie, convencido ser imbatível, levou consigo as suas concubinas para a frente de batalha, referindo ser mais divertido do que observar uma caçada. Apesar de já não contar com alguns dos seus antigos vassalos, o poderoso exército da dinastia Xia lutava contra as forças Shang quando uma forte tempestade se abateu e o pânico se instalou nas suas hostes, levantando então a coragem às tropas do príncipe Tang do reino Shang. Jie percebendo estar a perder a batalha, ordenou a retirada, mas foi perseguido até à sua capital Yin (Anyang, em Henan), sendo aprisionado e condenado ao exílio.

Banhos de vinho

Cinco séculos depois, devido ao vinho e à imoralidade do seu governante deu-se a queda da dinastia Shang (1600-1046 a.n.E.). O vinho tornara-se indispensável na vida das pessoas e os ossos de oráculos registavam já uma variedade de vinhos e para além do feito com milho, havia-o produzido com arroz, chamado li e com painço preto, denominado chang, usado nas cerimónias de sacrifício nos rituais aos antepassados.

O “Livro de História” (Shu Jing), na secção da dinastia Shang (Yin), alude a apenas se beber vinho nas cerimónias de sacrifício e por virtude, devia-se prevenir o não ficar embriagado. Os Oficiais ligados a essas cerimónias estavam proibidos de o beber e quem fosse apanhado devia ser enviado ao Rei para ser punido.

O Rei Zhou, o último da dinastia Shang, pensando poder fazer o que lhe apetecia, pois era o soberano, abusava diariamente do vinho e perdeu a virtude, sem nunca mais se importar com o seu povo e até o Deus do Céu o puniu e daí a dinastia acabar. No seu palácio havia um enorme tanque, não repleto de água mas de vinho, onde nas constantes festas se banhava nu em jogos eróticos com a sua concubina predilecta Daji e era tal a diária bebedeira, que não sobrava cabeça ao Rei para tratar dos assuntos do Estado. Tirano debochado, punia e mandava executar oficiais honrados e honestos a seu belo prazer, enquanto o exército Shang andava em constantes guerras intermináveis com cidades e tribos em rebelião.

Parte das suas forças encontrava-se a lutar contra o Reino de Yi quando o Rei Wu do Reino de Zhou, situado no vale do Rio Wei, província de Shaanxi, mandou as suas tropas invadir Yin (actual Anyang), a capital da dinastia Shang. A batalha ocorreu em Muye, a cerca de 35 quilómetros de Yin, e apesar do exército Shang ser maior, vinha exausto e enfraquecido devido à sua dispersão e sobretudo ser na maioria constituído por escravos que, descontentes pelos maus-tratos, se revoltaram e juntaram às do Reino de Zhou, capitaneadas por Wu, que se considerava descendente da dinastia Xia. Derrotado, o Rei Zhou de Shang fugiu para a sua capital, onde lançou fogo ao palácio e morreu queimado entre os escombros. Terminava assim a dinastia Shang e o Rei Wu tornou-se o primeiro soberano da dinastia Zhou do Oeste (1046-771 a.n.E.).

Uma das suas primeiras ordens foi proibir o vinho e decretar a abstinência no feudo Wei, de onde era originária a dinastia Shang e governado então por Wu Geng, filho do defunto Rei Zhou, que antes da guerra desertara para as fileiras do Rei Wu.

No País do Meio (Zhong Guo) o Rei Wu (1046-1043 a.n.E.) criou uma autoridade para regular e manter sob estreita vigilância a produção e consumo de vinho, preparado especialmente para uso no ritual das cerimónias de sacrifícios, sendo apenas levemente fermentado.

19 Abr 2022

Da Rússia, com amor

Segundo Chesterton, os anjos conseguem voar porque se enxergam a si mesmo com leveza. A leveza que a guerra nos retira, imersos num clima inamistoso que nos recorda a advertência de Confúcio em Analectos: nenhum país é governável quando nem os amigos se entendem. Um desalinho que não nos deixa sorrir.

Bastou a Putin acenar com a mijinha territorial e levanta-se o clamor contra o famigerado desequilíbrio que (na selva) a Nato quis provocar.

Esquecem-se, entretanto, de referir – aqueles para quem a Nato, na esteira de Putin, teve movimentos expansionistas adentrando-se nas fronteiras de influência da Rússia – que os países que se candidatam à Nato, não são aliciados; pelo contrário: é por pedido expresso dos países que a sua entrada na Nato tem lugar.

É um pormenor: pede protecção quem não se sente seguro em relação às “boas” intenções do vizinho. Demonstradas na Geórgia e na Crimeia. São os países (soberanos) que pedem protecção à Nato. Ainda ontem o porta-voz do Kremlin ameaçou suecos e finlandeses, hoje já as tropas russas se avolumam nas fronteiras finlandesas. Com que direito?

Nas entrevistas de Putin com Oliver Stone, o posicionamento do novo Czar é muito claro: ele rejeita o comunismo e capturou o sistema para forjar um novo regime, mais próximo dos nacionalismos tradicionais e místicos que ramificam na extrema-direita. Daí as ligações de Putin a Marine Le Pen. É difícil entender a adesão de tanta gente de esquerda às teses de Putin a não ser por reflexo de uma nostalgia patológica face a uma referência revolucionária de todo perdida. Para ilusoriamente se manterem fiéis aos “princípios” aterram nos hangares da extrema-direita.

Mesmo com a “saudosa” União Soviética a solidariedade da Internacional Socialista era uma cilada com aspectos tão reprováveis como as manobras dos países doadores na sua “ajuda” aos países africanos. E assim, “legitimamente”, a União Soviética rapava todo o peixe das costas moçambicanas e deixava aos camaradas moçambicanos o carapau, com tal exclusividade que nos anos oitenta (à falta de outros espécimes na mesa) até sobremesas de carapau se inventaram. De modo semelhante, os chineses hoje rapam as florestas, os espanhóis o marisco, os franceses o gás e, etc. Cada “apoio” ao orçamento de estado corresponde sempre ao interesse velado de mamar em qualquer matéria-prima. Daí que os países africanos não se sintam “gratos” o suficiente para alinharem com o repúdio do Ocidente à agressão russa: têm sido espoliados por todos.

Há também a fobia aos EUA, convulsiva, na escolha de muitos. Aí, entre uma adesão decapitadora e uma rejeição epidérmica, irracional, instala-se um ímpeto cego de crença. É a prova definitiva de que a disputa política raras vezes escolhe a razão como ringue.

É igualmente preocupante o facto do Ocidente estar a pôr todos os seus trunfos num peão que lhe despertou uma chama heróica, mas que igualmente não é impoluto. É provável que, em não sendo a guerra, Zelensky estivesse a contas com alguma crise no seu governo, dado o que foi revelado nos Panama Papers, e a sua bizarra aliança com o sinistro batalhão Azov. A guerra foi-lhe favorável, e fica mais difícil penetrar na obscuridade com que as informações e as contrainformações saturam de luz o palco.

Porém, há coisas que são muitíssimo claras, para além da inaceitabilidade da invasão da Ucrânia.
A primeira agressão de Putin é ao próprio povo russo. Para perpetrar a invasão, Putin mentiu aos seus recrutas e enviou-os para uma armadilha. Os atarantados lá foram, sem saber ao que iam. Neste momento, anulada a mínima liberdade de informação, o russo foi massivamente arredado de qualquer noção da realidade. Proibido de inteirar-se do que se passa, o povo russo é tratado como uma massa infantil a quem se proíbem os bombons porque apesar do espelho reflectir corpos franzinos o regime dita que estão obesos. As notícias indirectas chegadas através da inflacção galopante, do desaparecimento dos produtos no mercado, ou do estranho sumiço dos filhos idos para os exercícios militares, fazem-lhes pressentir algo que, sob pressão de uma ansiedade habituada a reprimir-se, os leva a ceder à paranoia: como no estalinismo, os russos já denunciam colegas e vizinhos (e professores) pela posição crítica em relação à guerra. A vergonha desta bufaria levará gerações a ser ultrapassada.

A segunda agressão de Putin ao seu povo é a denegação da morte. Os nazis encobriram o máximo de anos possível a existência de campos de concentração e a sua indústria de morte programada. Da Rússia, com um mês de combates, já sabemos que – se, em relação ao inimigo, visa sem escrúpulos os civis – incinera os seus militares mortos para que o grosso deles “desapareça” em combate, adiando o mais possível a entrega do cadáver aos familiares. Para Putin, a morte, sempre exterior, nada significa. Como para os nazis, os mortos deixaram há muito de ter nome, são exclusivamente números, abstracções dispensáveis. Mas quanto a isto, se o seu inimigo já o sabe, os russos que não participam directamente da guerra estão a leste duma consciência clara sobre o estado volátil dos seus mortos.

Apesar da democracia ser um sistema imperfeito, há uma diferença abismal entre a persuasão retórica e a repressão que coage os próprios pensamentos, entre os desequilíbrios sociais que renhidamente vão sendo denunciados e os desequilíbrios fundados em castas duma instância política inamovível, entre a corrupção que vive na ilegalidade e a que impele (sob risco da miséria) toda a gente a participar do esquema; etc., etc.

A democracia ainda permite a disseminação de simulacros culturais que moldam novos ritos e mediações, o actual regime russo vive na e da lei da selva. A da impossível reparação. Não creio que possa haver escolha.

Escreveu uma criança ucraniana para a mãe, morta: “Mamã, desejo-te boa sorte, no céu”. Depende, se aí ainda houver leveza.

14 Abr 2022

Une arme si douce

Acontecimentos históricos à parte, por vezes só nos lembramos dos países pela envergadura trágica do momento, mas ressurge sempre aquilo que deles fomos conhecendo de melhor trazendo-os dentro de nós bem mais altos que as bandeiras.

Nachman de Bratslav, cidade ucraniana onde viveu os últimos anos da sua vida, aquele que viria a ser considerado o mais distinto dos seus concidadãos pertencente a essa inúmera sociedade judaica destas paragens.

O Hassidismo que fundou é por demais um movimento tal que, analisando-o, ele só poderia ter nascido em tais paragens e, no entanto, ele sempre foi russo porque viveu e ensinou em muitas outras cidades do Império Russo.

Todos estes territórios o eram, naturalmente, e mais ainda naquele tempo em que nasceu, 1772, um mundo que não cabe em nós, mesmo que o queiramos transportar como a uma lenda, todo ele, esse grande Império Russo.

São estes aparentes pequenos grandes nadas que sobram neste momento, quando debruçados estivemos nesse livro de orações – poemas do rabbi de Bratslav, que nos recordam do impacto feliz destas latitudes muito para além das guerras: lio-o com a inocência dos que as julgaram extintas, mas isso foi há muito tempo! Mesmo assim, nada esmoreceu de encanto e gratidão, e agora mesmo não vejo como pode ser descrito um chão que viu nascer prodígios tais. Talvez sejamos severamente uma outra humanidade já esquecida das coisas mais importantes que nos trouxeram até aqui, mas, adiante. O nosso intrépido desejo de colaborar encontra muitas vezes coisas tais de desconhecida envolvência que nos tornamos blindados por sequências repetitivas de clivagens estruturantes. Nenhum Papa entrou na Rússia, mas todos os judeus por lá caminharam. Este nosso, pode no entanto entrar em todos os lugares pois que parece ter passado a fronteira da “divina” opressão.

E voltemos ao nosso Nachaman que à alma encantou e a Deus louvou com distinta graça; ninguém pode voltar da “romaria” do seu túmulo ucraniano pensando na conversão da Rússia, seria apostasia não conseguir ver aqui a marca de uma sacralidade que se tornou estratégica a partir de um mito também ele conquistador, tal qual como o Mariânico. Mas o que mais deslumbra são os seus versos risonhos e transparentes acerca da transcendência que lhe assiste a partir de uma severa tradição, esse encontro das asas com os ferros que fazem das grades efeitos belos.

Nós os descrentes, só vemos sangrar, e sangramos do lado em que nos damos ternos aos martírios, mas aqueles que amam ( que amar é louvar) toda a compunção é bem-dita. Ele morreu jovem, e tal como Jesus deixou discípulos, nasceu em Abril, e apenas parece existir na memória estricta destas Nações. Esta arma tão doce que foi a sua pregação, devolve-nos a nossa essência guerreira onde devemos sair vitoriosos por dons bem maiores do que aos que agora nos assistem. No fundo é um pequeno mantra de uma edição francesa, tão pequena e azul que faz parte de todas as travessias. Não se pode andar com pesos quando viajamos, toda a leveza nos liberta do entulho sem fim das coisas inúteis que sem querer vamos cedendo em todas as estações.

 

Merci, de m´avoir amené
à cette compréhension des choses
Nachman de Breslau

14 Abr 2022

Os Girassóis de Odessa e poemas afegãos

Luis Gustavo Cardoso

https://revistapiparote.com.br

 

OS GIRASSÓIS DE ODESSA¹

Quando a lua abre caminho
entre os girassóis de Odessa
sei de um perfume que arrepia os campos:
Spasiba, Trachimbrod.

Em cada haste na terra fértil
pétalas, feito moinhos, retêm do vento
o conto inquieto de outros cantos:
Spasiba, Trachimbrod.

Sei de uns seios firmes, calmos, brancos
de cujas tetas mornas sabe a chuva
e o leite branco a esperar nas portas:
Spasiba, Trachimbrod.

AFEGÃO

O afago do afegão
sobre a barba de outro

é feito

afago de mãe

que não recebeu jamais

carinho de filho.

O afago do afegão

sozinho

é o maior dos carinhos.

TALIBÃ

Pense na barba do Talibã
Na textura dos pelos secos e empoeirados
Onde os traços do rosto se perdem
Cavados na terra feito as vias do país

Zeloso ele guarda o fuzil
e a paz de seus companheiros:
todos solteiros.

ALI KHAN

Ali Khan é avô
de outra menina
sem nome e sem
um dos olhos, o
esquerdo, que só
com o direito pode
ver a fumaça:

Minas brotam do chão.

Ali Khan e a neta
assistem à explicação:
sob as oliveiras o instrutor
descreve minas, bombas,
toda sorte de munição.

Outras crianças afegãs
sem nome, sem idade
têm o rosto tocado
pelo vento que arrasta
as folhas das árvores:
manhã de sol do afegão.

Devem aprender
onde pisar no chão
onde não tocar
onde se esconder.

Com 4, 5, 6 anos
as crianças afegãs
não têm idade.

Ali Khan também não.

O VOO DO AFEGÃO

Hoje vi um afegão voando
direto das asas de um avião.
Não era um juiz brasileiro,
não era um caça espião.

Era um homem sem asas
No meio de algum lugar
Caindo sentado no chão.

  1. O poema Os Girassóis de Odessa integra o livro “Noite Grande” (2017). Os poemas afegãos são inéditos.
13 Abr 2022

Convívio com vinho chinês

Ganbei! Palavra em voz alta pronunciada em uníssono a significar esvaziar o copo, mais propriamente secá-lo num único trago, antes de se brindar com ele cheio de vinho. Bebe-se todo o líquido e como prova vira-se para baixo, de onde não deve cair um único pingo. De pé repetimos o que vemos fazer. Uma volátil fragância perfuma toda a sala e o sabor forte anestesia a boca e um ardor escorre garganta abaixo. O anfitrião enche-nos então o copo de chá e em pequenos golos este líquido vai dissolvendo e aligeirando o teor de álcool, que segundo a garrafa atinge os 57º.

Nova rodada é servida, variando o copo de tamanho mediante a latitude e se no Sul da China o cálice é pequeno, já no Norte os copos bem maiores por três vezes são cheios e entornados de um só trago para aquecer o ambiente.

Ganbei!… (pelo melhor) e de pé, por respeito, com as duas mãos erguem-se os copos chocando com os das pessoas ao redor da mesa e sendo esta grande, então o toque é feito no redondo e rotativo vidro, onde se encontram os pratos de comida partilhada. No restante redondo tampo da mesa exterior estão os objectos de uso pessoal, guardanapo, os pauzinhos muitas vezes de bambu a retirar as mãos da comida, a pequena colher de porcelana, sem nunca haver garfo e muito menos faca. Já sobre um pequeno prato, para onde se deita o que não se come, está uma tigela a servir de suporte a proteger os alimentos quando retirados das travessas até chegarem à boca, ou a arrefecerem à espera de serem comidos e para beber, aí está o copo de vinho e do chá. A sopa vem numa terrina e o empregado traz as tigelas para servir a cada um dos presentes o delicado e refinado líquido, após cozer durante horas peixe ou carne, legumes e leguminosas, apresentados num prato ao lado. Já a tigela do arroz, também individual, nos banquetes só aparece no final da refeição, caso haja ainda fome. O chá está sempre presente, tanto no restaurante a acompanhar o vinho, ou em casa durante a visita, desde as boas vindas até à despedida.

Na China, quando se fala de vinho, apesar de existir o de uva, está-se a referir ao Bai jiu, vinho transparente feito por destilação de cereais ou de arroz e alcoolicamente muito forte. Por vezes a poder passar os 50°, é o usado sobretudo para os preparados medicinais, ou a libertar a essência aos poetas e artistas. Mas também há com um teor alcóolico mais baixo, a ficar nos 30° e 15° para se beber moderadamente em convívio. Por vezes amarelado, esse é o huang jiu feito através da fermentação do arroz.

Servido em pequenos cálices, o vinho é esvaziado num só trago. Ao lado, para dissolver o ardor, o chá deitado quente do bule na chávena sem asas.

Ganbei! À saúde de todos os presentes e de pé, num pequeno gesto eleva-se o copo cheio e mediante o respeito para com a outra pessoa, ou por hierarquia confucionista, se toca no outro copo com a borda do nosso mais alto, qual superior, ou ao mesmo nível, ou por baixo, em posição inferior, não significando isso inferioridade, sem sentido, pois tem a direcção do ritual. De um trago bebe-se todo o vinho.

Após o terceiro Ganbei, a porta abre-se para o mundo do espírito, onde despidos do racional controlo se expõe como somos e quem se é, visão do grau de educação, momento propício para iniciar amizades e negócios.

Li Bai (701-762) escreveu a maioria dos poemas sob o efeito do vinho e o também poeta Du Fu (712-770) refere-o com uma frase, cuja livre tradução diz: “Cem poemas por cinco litros” e justifica-o acrescentando, Li Bai bebia imenso vinho de arroz para se aquecer do frio que fazia ao ar livre no mercado de Chang’an (Xian) onde muitas vezes dormia.

Vinho na refeição

Em Beijing atravessávamos a Rua Dazhalan quando, numa casa térrea de portadas vermelhas, alguém ao sair nos dá a ver o interior de uma taberna antiga. Entramos e nas paredes de madeira estão dependuradas tabuinhas de bambu a referir os pratos do dia e os produtos da loja. Olhando para as mesas de banco corrido, reparamos todos a comer em tigelas e a acompanhar a refeição com uma pequena garrafa. Por gestos, apontámos para uma mesa e pedimos o mesmo. Assim ocorre o nosso primeiro contacto com o vinho chinês, sendo-nos servido como vinho da casa o destilado “er guo tou” para acompanhar a sopa de massa em fitas com uma peça de carneiro. A rudeza do sabor e aroma do vinho assemelha-se ao bagaço, tal como na transparência.

O “er guo tou” é um vinho destilado feito em Beijing e quando mais tarde falando com um habitante de Sichuan sobre a nossa experiência de vinho chinês, logo ele se apressa a ir buscar uma garrafa e faz-nos provar o licor “Wuliangye”, de Yibin. Produzido na sua terra como faz questão de sublinhar, enquanto o vai servindo em pequenos cálices explica ser o “er guo tou” do mesmo tipo de vinho mas de uma qualidade muito inferior.

Na recepção de outro restaurante, dois enormes potes com dragões esculpidos guardam o vinho de arroz, aperitivo para as lautas refeições servidas no primeiro andar. Chegado à enorme sala de jantar, séries de pequenos potes de vidro com diferentes tipos de vinho dão a escolha para acompanhar os múltiplos pratos de comida, que vão sendo colocados ao centro da larga mesa redonda, sob uma placa de vidro, também redonda, que gira e de onde as pessoas se servem, desde o carneiro de Harbin, ao agridoce de Guangzhou. Das portas dos privados, íntimos compartimentos para reuniões e festas, a algazarra sobe ao tom do jogo de dedos, ritmadamente gritando um número a duas vozes. A garrafa de vinho jogada ao copo esvaziadamente bebido por quem perde.

O copo é repetidamente enchido e lá recomeça o jogo dos dedos num embriagado alarido a denunciar o estado dos intervenientes. Relacionado com a Teoria dos Cinco Elementos (Metal, Madeira, Água, Fogo e Terra), representantes de forças cósmicas que se promovem e reprimem uns aos outros, num jogo de intuição nenhum é mais forte nem mais fraco que os restantes. Assim como o polegar perde para o indicador, o indicador para o médio, o médio para o anelar, o anelar para o mindinho e este para o polegar, também o Metal corta a Madeira, a Madeira a Terra, a Terra a Água, a Água o Fogo e o Fogo o Metal.

Ponbei é quando se brinda sem tilintar os copos e se saboreia o perfumado vinho bebendo-o em pequenos golos a ensedar a boca.

No tropical calor do Sul da China, a ementa mostra uma variedade de pratos que alimentam o gosto de estar à mesa em animadas conversas, enquanto se intercala o petiscar com o bebericar em delicados travos o vinho de um pequeno cálice, onde pelos sentidos se aprecia os mais leves pormenores. De seguida, um golo numa pequena taça de chá. Enche-se depois o bule com água fervida guardada no termo, por vezes colocado por baixo da mesa, e fechando as rodadas de vinho, o chá para limpar, pois quente ajuda a dissolver as gorduras. Em procura, como significava o antigo carácter para chá, primeiro dilui o teor alcoólico, servindo no dia seguinte para limpar a ressaca. Daqui passamos à História do Vinho na China.

12 Abr 2022

X- A Chiru

Não cessam de nos espantar os mistérios e maravilhas da montanha Qingqiu. Encrustada no seu seio rochoso, existe uma tímida nascente de onde brota o rio Yingshui. Ao deslizar encosta sul abaixo e por a ele se unirem, em coloridos amplexos, numerosos riachos e ribeiras, o que era um mero fio transmuta-se aos poucos num nobre curso de água, chegando a atingir proporções consideráveis, antes de desaguar no lago Jiyi. Pelo caminho, ocasionalmente, o Yingshui roça as suas águas em rochas do mais puro jade, abundante naquele lado da montanha.

Facto curioso: ainda antes do rio desaguar no lago Jiyi, alguém construiu uma barreira de toros aguçados, em madeira preciosa, à volta de uma dessas formações de jade, eriçada no meio das águas, isolando-a do mundo. A proximidade à preciosa pedra parece só poder ser alcançada por via subaquática, se na paliçada existir uma porta ou outra qualquer passagem.

A origem e a identidade dos construtores desta paliçada também se desfizeram no bolor do tempo. Alguns referem tribos nómadas, adoradores de pedras e do fogo, senhores da caça e dos metais. Outros preferem a crença em civilizações extraterrestres, capazes de deixar a sua marca como sinal da intenção de regressar. Mas a teoria talvez mais fantasiosa atribui a um animal, vulgar habitante do rio Yingshui, a edificação daquele inusitado círculo amadeirado, que impossibilita o acesso ao mais belo penedo de jade que por ali desponta.

De facto, quer ao longo do rio, quer em números bem mais abundantes no próprio lago, habita uma espécie de salamandra vermelha, a que dão o nome de chiru. Este animal respira debaixo de água, embora, surpreendentemente, seja capaz de se deslocar com desenvoltura, por curtos períodos de tempo, em terra firme, e mesmo adoptar uma postura vertical.

Outro dos aspectos mais impressionantes deste bicho, que dificilmente ousaríamos classificar como um peixe, é a sua face, pois nela se compõe uma real expressão humana. Por isso, há quem diga que não devemos sustentar o olhar de uma salamandra vermelha, porque o facto de um animal nos enfrentar com uma expressão que reconhecemos como humana induz-nos uma emoção disruptiva e provoca-nos uma singular disposição interna.

Por mais que a teoria seja atraente na sua inverosimilhança, ninguém pode garantir terem sido as salamandras vermelhas as construtoras da paliçada. E que são elas, ainda hoje, a dispor do seu usufruto exclusivo. Ou sequer se no seu instinto se inscreve esta capacidade de construção. Contudo, a teoria viu-se reforçada pela contribuição de um estudante da Boémia que, visitando a China, não apenas a defendeu ardentemente, como elaborou gráficos e projecções matemáticas diversas para provar a capacidade criativa dos membros posteriores das chiru para a execução daquela obra.

Contudo, nada de realmente científico chegou a ser concluído porque há sempre um elo que nos escapa quando pretendemos considerar racionalmente as salamandras, como se elas se constituíssem num objecto indizível, situado além da linguagem, impossível de traduzir em logos. Elas são tímidas, discretas e têm, definitivamente, um olhar inteligente. Diria mesmo: mais inteligente que alguns seres humanos. Mas não se pode garantir que por detrás desse olhar se esconde um coração capaz de ordenar logicamente os pensamentos ou distinguir o possível do impossível, sem deixar de sonhar com o segundo.

Entretanto, apesar de certos curandeiros entenderem que a sua carne cura a sarna, as chiru lá vão sobrevivendo e chapinhando nas águas mornas do lago Jiyi. Não é raro, nas margens do Yingshui pelo crepúsculo, ouvirmos um som parecido com o que produz o pato-mandarim. São as salamandras vermelhas que, em surdina, conversam entre si, antes de desaparecerem nas águas escuras, talvez para abrirem a porta submersa da paliçada e passarem a noite protegidas, enroladas umas nas outras, em torno da beleza interdita do penedo de jade.

8 Abr 2022

Raymond Abellio

Não será demais mencionar que vivemos tempos proféticos, talvez até esperados com impaciência apocalíptica, que um dom destrutivo habita em nós através da culpa que não nos é dada pronunciar por meio da tarefa ofegante de uma felicidade exigida com os punhos cerrados da conquista para o êxito, o que parece agora deixar entender que a tragédia nos parece balsâmica ao lado de tanta dificuldade talhada para desígnios tão pateticamente abstractos.

Mas houve quem elaborasse profecias capazes de subjugar a legenda da manobra social, dando-nos a ver a margem flexível das nossas muito humildes condições. Abellio! – Tinha vinte e seis anos quando descubro que «Os Olhos de Ezequiel estão abertos» e creio que nunca mais os vi fechados por um reflexo de assombro. Mais tarde «Para um Novo Profetismo», a marca do homem anunciador estava concluída com êxito. Os nossos olhos, volvidos que foram estas surpresas, vão-se fechando criteriosamente por renúncias e descasos de forma sempre mais cerrada e selectiva, profetizando, repensando, e ampliando os dons.

Abellio nasceu em Toulouse no início do século vinte, e a sua narrativa não passa pela imaginação a conta-gotas dos entrementes inspirados que resolvem para desfastio. Escrever, seja lá isso o que for, dado que a bem dizer muito poucos sabem “descrever” mas, já que vivemos no tempo dos desabafos, que se exulte então a verve solta.

Para mais era engenheiro civil, coisa que não condiz com a sua condição de grande perscrutador de patriarcas abismados em ciclos proféticos e, sobretudo, na roupagem de um grande resistente, revolucionário, alguém que pensou profundamente a Europa e se fez ainda aprisionar pelos alemães. A vida a um dado momento correu-lhe tão mal, que viveu clandestinamente no seu país sobrevivendo à custa de amigos, mas Abellio, no seu território colaboracionista que em parte foi a França, não se deixou esmagar. O seu activismo político era bem mais complexo do que o das trincheiras partidárias, e por isso abordou o que importa desocultar para uma análise integrada no seio de sociedades demasiado politizadas para se darem conta das suas várias heranças, onde explora então todos os temas para interpretar o que agora certamente nos irá fazer falta.

Com carácter de urgência assistimos a um pensamento que se move em ensaios e narrativas por um interesse aperfeiçoadíssimo nas questões do seu tempo: marxismo, psicanálise, espiritualidade e filosofia, uma atenção expansionista que requer o saber unir veios e construir mais tecido unificador no meio de aspectos dissonantes.

O seu sentido gnóstico orienta-se para uma metamorfose em andamento no sentido da desocultação da tradição escondida, e vamos verificar isso mesmo no que pode ser respondido na exigente mensagem «Convém esclarecer a noção de Ocidente. Este Ocidente não se identifica com qualquer suporte geográfico da ‘civilização ocidental cristã’ tão apregoada pelo capitalismo reaccionário». Abellio distingue Europa, Ocidente, Oeste e Leste (….) o europeu vive ainda no plano ingénuo da política (…) o Leste é suporte de uma infinidade passada, o Oeste o de uma infinitude futura, e os tradicionalistas orientais, esses, há muito que saíram da história. A dualidade cartesiana é já passada e somente a unidade de um Eu pode agora ocupar o espaço de um mundo transfigurado reaparecendo o que está oculto pelo dom da manifestação. O Homem torna-se o seu próprio enigma integrante e integrado, sem uma exigência esotérica: e diz mais «Que o mundo tenha, pois, entrado em período de reintegração, apesar das confrontações internas, que a convergência entre Ocidente e Oriente prepare uma espécie de unidade planetária das manifestações do espírito».

Não saberemos jamais dos dons proféticos, prenhes que estamos da razão que em boa memória nos assiste, pois que teremos de aperfeiçoar o dom da razão pura que anda escondida no emaranhado das nossas heranças que já não se chama tradição, mas outra coisa qualquer que aos sentidos escapa, e voltar aos que têm coisas a dizer muito para além do dizer de cada um. Que neste momento, nesta Hora, urge reabilitar os que vêem o Tempo de modo amplo, de trás para a frente, e da frente para trás, para não nos deixarmos amordaçar pelo instante que parece uma farsa gigantesca de inusitados malefícios. Não será perdido nenhum conceito que nos ajude a qualificar a nossa Humanidade, mas será necessário dela não nos demitirmos para a tormenta fácil das comunicações indisciplinadas. Estamos comunicacionalmente em rota de colisão com a realidade. E penosamente com todo o onírico.

E ainda Ezequiel, nas palavras de Abellio, «O que é um corpo são? Na verdade, devem já ter compreendido que um verdadeiro Profeta nunca ficará doente, já o mesmo não se poderá dizer de um tamásico dos nossos dias, puramente telúrico e, como tal, exposto à formidável ofensiva das doenças de desagregação do corpo físico que são correlativas da suprema degradação involutiva da Matéria.» Entrados que estamos no ciclo das grandes transformações, e no limite dos temas, teremos quem nos guie um pouco mais, que a Era em que vivemos sofreu revezes impensáveis para não serem por nós lembrados.

7 Abr 2022

A invenção dos números

Há uma dimensão que não sei dizer se filosófica ou poética, na Matemática. A realidade dos números, que é diferente, em Matemática, da dos números reais. E a realidade de cada um dos conjuntos de números, a lembrar como sempre e em tudo essa sobreposição de camada sobre camada, de registos, mais ou menos inalcançáveis de que se recobre a abordagem, a compreensão ou a interpretação do real.

As folhas de papel quadriculado são uma malha útil ao projecto de um bordado em ponto cruz. Às contas da aritmética e à organização dos números. Em colunas e linhas, arrumados e disciplinados. Em linhas com o rigor e a infinitude do alinhamento dos números naturais ou dos números reais. Qualquer destes conjuntos, composto de corpúsculos situados à mesma distância nessa linha. Quando se diz uma parte de mim quer partir e uma parte de mim fica, penso como podemos exprimir por um número real aquilo que não é fragmentável.

Não somos metade de pessoa. Seremos metade de vontade? No entanto podemos dizer, a despeito de que as pessoas de um país se contam em números inteiros e naturais, que um quarto da população é jovem. Uma fracção composta de dois números, dita um número complexo. E tão real como uma pessoa ou duas o são.

Podemos dizer que 0,2 pessoas de uma determinada população, ou 20 por cento, um número que espelha a relação entre o número total e a parte designada, apresentam uma determinada característica. Ou que para cada pessoa com determinada característica, existe 0,2 com uma outra característica. Mas isso não existe, esse pedaço de pessoa. Esse 0,2 estatístico. Não existindo como pessoa, é um número que exprime uma realidade percentual. Que não tem relevância física, num universo em que as pessoas se contam pelos números naturais, mas habilita-nos, eventualmente para entender uma realidade particular no mundo do real. Números complexos esses.

Constituídos por pares de números, ou números que não são inteiros, fazem parte de um sistema diferente do que estamos acostumados a encarar como real e com relevância no real. São os números racionais. Porque a razão admite essa fragmentação. A fracção 3/1 é diferente do número três. Associa três qualquer coisa, a uma coisa. Uma espécie de posse. Donde talvez o sentimento de posse, humano, seja um mero mecanismo racional e não uma realidade indesmentível e natural. Que constituem o conjunto imaginário e que não podendo medir directamente a realidade, medem factos e ideias com tanta realidade. Essa, em que pessoas reais se apresentam fragmentadas. Incompletas face a uma unidade.

Quando alguém parte de nós para sempre, a incompletude que nos reduz a uma indefinível fracção de nós próprios, é o reentrar no reino da complexidade de ser. Aquela que pode ser descrita pelos números complexos.

E, mais complexos do que os números complexos, são seguramente os imaginários. Aqueles que se referem a razões, potências e números negativos

É uma curiosa poética a da Matemática que remete para a afirmação de realidade o conjunto dos números que inclui todos os que são inteiros mas também os negativos e o zero. Porque a realidade é assim. A ausência de algo ou de alguém, construída no tempo a partir de uma presença prévia ou de uma expectativa ou sonho, pode figurar-se no zero como entidade absolutamente credível. Ou como fronteira do abismo para lá do qual é a inexistência positiva, afirmativa, do negativo. O zero pode ser mais do que o nada ou o não existente. Pode ser a referência a essa ausência com forma própria ou quantificada a rigor por um número negativo. Menos uma pessoa, das que fizeram parte da minha vida. Menos um. O reflexo ao espelho de uma realidade anterior. Um. Ser que existiu numa dimensão em que deixou de existir.

E por isso continuamos a perguntar-nos se os números imaginários existem verdadeiramente. Como espelho de coisas palpáveis e mensuráveis. Mas aparentemente em equações complicadas em áreas como a engenharia, só eles permitem soluções. Número imaginário é um múltiplo de uma quantidade designada por “ i “ que elevada à potência de dois, ao quadrado, portanto, é igual a menos um. Será i uma ficção matemática conveniente? Um sistema numérico que contém raízes quadradas de números negativos.

Como pensar que cada ser humano que desexistiu na nossa vida, pudesse ter tido a possibilidade de três percursos diferentes de vida que nos teriam afectado cada um deles de três maneiras diferentes

Diz-se da Matemática, abstracção máxima. Uma meditação com transporte directo e sem paragens, para o éter do sereno e seráfico Zen. Senão, nela, a metáfora mais hermética.

Mas como chegou a ela a mente humana senão por reflexo da sua própria subjectividade e como expressão rigorosa por oposição a elaborações de raiz verbal, na filosofia ou na arte poética.

O ser humano é um ser natural, pertencente ao conjunto dos números naturais. A produzir por inerência, apesar de tudo, realidades mentais e artificiais. A realidade positiva do corpo no espaço, não é suficiente. Comer, dormir e habitar. Considerando-nos um. Ou supondo-nos numa âncora ou anseio de transcendência de um um, com imanência em si e uno, mas como dois. Ou insinceramente plurais. Ou zero. Ou, menos ainda. (B. E. Ellis, estava perdoado, com o seu irreprimível conjunto vazio, nos anos oitenta e Elvis Costello tinha ido talvez mais longe no mesmo lugar).

Mais. Enumerar acontecimentos marcantes numa ordem impossível. E numa hierarquia tornada falsa. Esta ligação entre o dado e o tempo como nos pares de números que formam os números complexos… Paixão pela ordem dos números naturais “N”, contaminada pela da ordem mais subjectiva dos números reais “R” e ainda mais pela daqueles que embarcam convictamente nos números imaginários. Estes, com uma grafia a bold. Que existem. Tanto quanto a imaginação não consegue abdicar deles. Fugir a eles. Mas a questão é querermos quedar-nos nos naturais a começar do um. Esquecendo o zero. Esse número tão importante.

Quantas vezes o revi como na enumeração dos números imaginários, na vida. Ombros a voltar costas mesmo antes de o fazer, como se numa fazenda de lã. Ou esse território etéreo, como espaço a refazer de imediato, a numerar parâmetros. Distância, anulação, ausência.

Quantas vezes somos um número imaginário. Ser. Parte da razão de um olhar, fracção numa interpretação de traços de carácter, percentagem no retorno à memória, no querer. Imagem ao espelho manipulada pelos números de outrem.

6 Abr 2022

XI – O Lili

Chegados à segunda Cordilheira do Sul deparamos com a imponente montanha do Salgueiro (Qishan). Um pouco mais a norte, encontra-se o monte Zhubi, a leste ergue-se o monte Changyou. Entre eles, desliza um rio onde se podem encontrar jade branco e grãos de cinábrio tão finos que formam, nas margens, uma camada brilhante e rubra, proporcionando esta paisagem fantástica a impressão de termos desembarcado noutro e distante planeta.

Ora neste insólito pedaço de terra existe, habitante teimoso das margens deste rio, uma outra criatura, cujas características facilmente nos levam a incluí-la na nossa coleção de bizarrias: o Lili. Poder-se-ia dizer que se trata de um javali, pois o seu corpo, coberto de pêlo grosso e áspero, e o focinho, onde duas enormes presas retorcidas lhe saem da bocarra, são semelhantes aos do porco selvagem. Contudo, os dois animais são inconfundíveis, porque as patas do Lili são iguais às de um galo, incluindo as orgulhosas esporas, e apresenta, além disso, uma espessa crina, em nada comparável aos meros pêlos hirsutos do nosso intempestivo cerdo.

Porém, o aspecto que mais o distingue de muitos outros bichos é a sua peculiar alimentação. O Lili gosta de se atafulhar de metais e de minerais, conseguindo mesmo sobreviver através do mero consumo de vulgares calhaus.

Segundo os cronistas, o seu menu favorito consiste em pedras semi-preciosas, ferro e cobre. Para aceder a estas iguarias, o Lili é capaz de escavar terrenos, refocilar em minas, destroçar construções, derrubar muros, chegando a modificar radicalmente o aspecto da paisagem. Talvez por estas habilidades, acredita-se que, quando alguém vê um Lili, é porque grandes obras públicas irão em breve ser lançadas ou então ocorrerá um terramoto de devastadora potência.

Por vezes, nomeadamente quando se aproximam demasiado de áreas habitadas, os Lili entram em conflito com os homens, porque pouco se ensaiam em destruir habitações, celeiros, redis, galinheiros e outras construções, o que muito irrita os camponeses das aldeias vizinhas. Estes, avisados do seu mau-humor e carácter violento, raramente se atrevem a enfrentá-lo sozinhos. Preferem preparar cuidadosamente uma batida, organizada segundo preceitos milenares, de modo a cercarem, capturarem ou matarem o incómodo animal. Por estranho que pareça, nada é referido quanto à qualidade da sua carne ou se qualquer parte do seu corpo detém algum poder mágico, o que leva a pensar que os homens temem o contacto com esta espécie de animal.

Quando habitam terrenos propícios, ricos em vários minérios, os Lili reproduzem-se abundantemente. As mães tomam conta dos filhotes, deslocando-se em solidários grupos de fêmeas. Quando os machos atingem os dois anos são convidados a abandonar o grupo feminino. Aí começa para os Lili um período de vida bem mais complicado, pois esta espécie é extremamente territorial e os seus membros envolvem-se em brigas constantes, por determinado espaço e por acesso às fêmeas, nas quais o vencedor poderá emprenhar, à sua discrição, as que muito bem lhe aprouver. Em média, um Lili dura cerca de 10 anos.

Curiosamente, os Lili não disputam a comida entre si. Pelo contrário, quando algum encontra uma jazida rica em apetitoso minério, imediatamente emite alguns sons, parecidos com o ladrar de um cão, com o objectivo de chamar os outros membros do seu grupo. Talvez, entre estes animais, a repartição voluntária de bens valiosos incorra num aumento de prestígio social e assim nenhum, nem em situações de escassez, tem o hábito de guardar só para si quaisquer despojos alimentares.

1 Abr 2022

VIII – A Jiuweihu

Na miríade de outeiros, colinas, montes e serras que eriçam o território da China, sobressai a montanha Qingqiu, não pela sua grande dimensão ou forma inusitada – pelo contrário, é com humildade que se destaca na paisagem –, nem pela beleza das imensidões que contempla, mas pela existência de seres vetustos e raros, descritos em inscrições tão antigas que remontam às névoas espapaçadas das origens.

Muito estranha verificamos ser a natureza na montanha Qingqiu pois até o cinábrio, que na encosta norte abundantemente prolifera e em todos os lugares é reconhecido pela sua cor vermelha, aqui ostenta uma tonalidade esverdeada, assemelhando-se ao jade, predominante na encosta sul desta tão extravagante montanha.

Dizem os registos de antanho existir na região uma volumosa raposa de nove caudas, a que dão o nome de jiuweihu, uma besta cujo comportamento apoquenta as aldeias, pelo facto improvável de ter um desenvolvido um gosto especial e disciplinado pelo consumo de carne humana. E, para atingir este seu obsessivo desiderato de atrair e devorar seres humanos, a jiuweihu adopta espantosos ardis. Por exemplo, segundo os relatos mais desapaixonados, o matreiro animal terá desenvolvido a capacidade de emitir sons que copiam os vagidos de um bebé.

Este truque faz com que as pessoas desprevenidas, sobretudo mulheres solteiras, não resistam a se aproximar, de tão intrigadas por si dão ao ouvir o aflitivo som, seja para meramente darem conta do que se passa, seja para, eventualmente, socorrerem um recém-nascido abandonado. É então que a raposa de nove caudas, aproveitando a sua ingénua e curiosa disposição, as ataca ferozmente e naquela carne humana, fresca e imprudente, afunda os seus afiados dentes, nela refocila e se regala.

Contudo, nem todos os encontros com esta criatura se revelam terríveis ou portadores de maus auspícios. No caso de Yu, o Grande, por exemplo, homem de inexcedíveis recursos, é famoso o momento da sua vida em que se cruzou com uma enorme raposa branca de nove caudas, o que era muito pouco para instilar medo no seu bravo coração. Pelo contrário, interpretou o encontro como um sinal de que em breve casaria e seria abençoado com uma extensa prole. Foi, talvez, a abundância de rabiosques (precisamente nove) que levou Yu a estabelecer uma homologia com o seu destino próximo e a considerar estar perante uma expressão divina e positiva, como se à sua descendência assim fosse prometido tudo sob o céu.

Aliás, os papéis desempenhados pelas raposas nas histórias orientais em muito ultrapassam a mera matreirice, qualidade das suas congéneres do Ocidente. No mundo que se estende a leste dos Himalaias, as raposas têm a capacidade de se transmutar noutros seres, incluindo humanos. É por isso comum escutar histórias de homens enganados por raposas disfarçados de velhos sábios ou, no melhor dos casos, por mulheres belíssimas e impregnadas de um sábio erotismo, capazes de transtornar a mais equilibrada mente e fazer o mais regrado dos corpos delirar num oceano de prazeres difíceis de imaginar e impossíveis de descrever.

Também há quem, em nossos cinzentos dias, não creia na existência da jiuweihu e, mesmo sem questionar a veracidade das observações antigas, considere que a raposa de nove caudas, afinal, não passará de uma espécie de lince ou gato selvagem, cuja cauda ostenta nove círculos negros sobre a pelagem rubra, o que estaria na origem do seu nome: nove anéis e não nove caudas.

Seja como for, os inimigos veramente tradicionais das raposas de nove caudas, para quem é indesmentível a sua existência, são os xamãs pertencentes a uma categoria específica: os wu ou, traduzindo para linguagem ocidental, os que se ocupam de magia negra. Tal acontece porque a carne desta bizarra raposa é o único antídoto conhecido para o famoso veneno gu, uma poção mortal extraída do corpo de um insecto, cuja existência surge referida desde inscrições oraculares da dinastia Shang e cuja eficácia é comparável ao curare, substância sul-americana destilada de um sapo.

O consumo de carne de jiuweihu, ao que parece, evitava a morte de quem, por descuido ou malfeitoria, tivesse haurido o temível veneno gu. E, tratando-se ou não da carne de uma verdadeira jiuweihu ou, pelo contrário, de uma burla assente numa fantasia, geralmente o procedimento tornava cheio de valiosa realidade o baú magro do xamã.

31 Mar 2022

Amadis

Vêm-nos ecos de encantamentos quando surge a Primavera, talvez que ela esteja ligada a uma lenda lá longe, à dos bosques verdes da memória onde a transparência das manhãs nos traz reinos antigos. Amadis de Gaula – a terra de Gales – e não da Gália, França, que ambas as regiões se orientavam aqui nas lendas bretãs, dando depois origem aos trovadores anglo-franceses, que as nacionalidades ainda demoraram a vir; e chegaria Amadis a Portugal com Dinis, este emblema céltico com seiscentos anos de atraso e remetido à intertextualidade como não pode deixar de ser num sistema transformado. Estamos mergulhados nas brumas de um sonho que correu a Europa e a marcou de formas várias reescrevendo-se e adaptando-se ao modelo das suas sociedades.

Amadis, o Namorado, leva-nos até à poesia de Sophia Mello Breyner, esta versão na sua «Fada Oriana» – Oriana a sem Par, Donzel do Mar, uma paixão por uma gentil senhora muito jovem, escrito por um irmão mais novo de D. Dinis, e nós percorremos esta viagem de idealismo amoroso que na época de quinhentos tanto viria a ser reabilitado como um treino moral de valentia, doçura e suave sentir, que muitos o acharam profano lascivo e vadio, doutos seres de responsabilidades culturais que por sinal nunca vêm mencionados, mas Amadis foi proclamado como «Doutrina de Cavaleiros e roteiro de Príncipes» havendo nas lutas além-mar quem o quisesse imitar levando a narrativa com eles.

Até um certo tempo, 1600 por aí, o “Português Namorado” que Espanha ridicularizara em nós por excesso de sentimentalismo e devoção, fizera que Cervantes escrevesse contra o estigma dos cavaleiros andantes retirando obra maior de uma densidade a golpes severos de ironia e marcando claramente o fim de uma era narrativa. Nós, pequenos, quantas vezes ausentes, levámo-la no coração, e Afonso Lopes Vieira trezentos anos mais tarde lhe presta ainda culto como uma memória profunda das bases nacionais, ao escrever «Romance de Amadis». Já o mundo é outro, e o que mais fascina é esta memória que nunca esquece os ciclos quase perfeitos de uma velha litania. Esta disputa pelo texto entre Portugal e Espanha viria a reflectir-se para nosso lado como a primeira “flor de sal” deixada perdida, mas que marcou condutas e fez toda uma linhagem de lirismo com uma lealdade transfiguradora.

Deixámos fugir Amadis, como deixamos e abandonamos quase tudo que os nossos sonhos transportam. Somos poucos para tão grande amor! Nos tempos de agora toda esta conexão será no mínimo estranha pois que nos tornámos ausentes de nós mesmos, criaturas amordaçadas por coisas que não estão no caminho das lendas, que tudo aquilo que nos lembrava se foi de nós também partindo, e que tal estado seria ainda um mal menor se dele ao menos houvesse consciência. Estamos submetidos a ordens, mas não às leis da Ordem, essa outra coisa que é fundamental no instinto maior da liberdade.

Faz agora cem anos que Lopes Vieira no pinhal D´el -Rei, na sua casa, nos daria de novo a encantadora versão dos seus anos de investigação para reescrever uma natureza que continua a querer falar-nos como se fosse um convite de alvorada.

Suspenso fica o amor de Amadis e Oriana, sem lhe sabermos o fim?
Mas o amor não tem fim, se é belo amor; ou, se o tem, tem-no em si mesmo,
Porque o amor ama o amor.
AFONSO LOPES VIEIRA – ROMANCE DE AMADIS

Assim termina o que a Primavera vem de novo lembrar, uma gesta que parece esquecida mas que renasce firme nos nossos corações. O vinte e cinco de Abril traz a lenda inconsciente de um corpo comum nas bailias de um antigo sonho, e foi por isso que nele estivemos tão felizes, que os jovens capitães foram Amadis na vontade de servir com ternura a nossa causa. Com Oriana, e além o mar.

31 Mar 2022

La vache qui rit

28/03/22

Hoje percebemos como o século XX foi o rio das utopias sanguinárias (do fascismo e das revoluções comunistas às vanguardas artísticas) e da ignomínia programada – o resto é a lactescência das margens. Nessas margens leitosas rumorejavam as bolhas da paz, a fraternidade da música e a magna ilusão do cinema, assim como o sonho da educação para todos, prendadas remanescências do progresso, sob as saias da Ilustração.

Bolhas que se revelariam frágeis, face a três investidas, que correspondem às três Virgens anunciadas certamente no Quarto Segredo de Fátima: a primeira, a Virgem do pós-colonialismo e do “politicamente correcto”, que fez cair as malhas na meia do universalismo; a Virgem do neo-liberalismo que abriu brechas no ideal democrático ao preterir aos valores a economia (daí ter-se abolido as minissaias da minha juventude); e a paradoxal investida das redes sociais que sob a face risonha (que também têm) mostrou ter duas faces e mostrou ao espelho o aspecto de uma Virgem Negra de uma comunicação sem ética (- a piada de Chris Rock e a estalada de Will Smith: duas faces da mesma moeda, no “vale tudo” sem comedimento).

Se quisermos parafrasear o célebre mandamento de Lenine, segundo o qual «o socialismo é igual aos sovietes + a eletricidade», «esta invasão da Ucrânia é igual à violação das três virgens + a bondade com que o Putin nos quer livrar do fascismo».

Tendo ido o ano passado à Beira dar uma formação para professores (da primária ao sétimo ano), saí de lá deveras apreensivo: a maior parte dos docentes não sabia, literalmente, o que era um “ponto de vista”. Portanto, os professores não logravam alcançar o reconhecimento de si que supõe a escolha de um “ponto de vista”, o que pouco campo lhes deixava para a generosidade da empatia; além disto simplesmente minar qualquer habilitação para o exercício democrático. A ignorância pode ser inocente? Lembremos, com Deleuze, que perverso é aquele que vive num mundo sem o outro.

Alertado, fui detectando em graus diversos este mesmo estado ante-Gulliveriano por todo o lado e como alastrava pelas redes sociais e o Facebook: aí, a um estado de deficiência cognitiva generalizado junta-se a “tirania do indivíduo”.

Um dos sinais de intolerância e de inadaptabilidade argumentativa é a efervescência com que se procura acima de tudo ter razão e a última palavra, numa postura heliocêntrica. A mim não me incomoda nada, rigorosamente nada, estar equivocado sobre algo, ou iludido, por me faltar qualquer informação que me fará contemplar outra perspectiva – é-me evidente, não vemos como as trilobites em 360%. Posso ser veemente na forma como armo a argumentação lógica, não confundo a (minha) opinião com o conhecimento. Procurando ser persuasivo, isso faz parte do jogo da comunicação, mantenho em aberto a possibilidade do erro e não invisto cegamente na validação narcísica. Tal como perder ao jogo não me muda a disposição. Fico inclusive contente se me apontam um ponto de vista de que não me apercebera.

O que não me abstém de ficar abismado com algumas reacções, mais do que enérgicas, inflamadas, como se quem me interpela jogasse ali a vida. Já me aconteceu, se é amigo, recordar à criatura que o argumento que exponho é fruto dessa “terça-feira”, que na quinta-feira, fazendo jus à afirmação de Picabia de que temos a cabeça redonda para permitir às ideias mudar de direcção, poderei pensar diversamente.

Sem que isso me roube um centímetro na defesa de algumas causas por que estas são o resultado de um pensamento sedimentado no imenso laboratório que a vida e a idade nos faculta; havendo, portanto, ideias que, como os rins e pâncreas, se tornam interiores: órgãos a que não podemos renunciar.

Um exemplo: não me custa nada concordar com o sr. Biden quando ele diz que esta é uma guerra das democracias contra as autocracias, mas gostaria de o interpelar em relação ao cinismo com que ele, como arauto do Ocidente, agora deplora o “despertar dos carniceiros” que usam as armas que o Ocidente lhes foi vendendo, irresponsavelmente, em nome da economia. E gostaria de o inquirir sobre a sordidez de cada míssil Javelin custar 150 000 dólares, e um carro blindado ou um tanque 2 000 000 de dólares, tendo em conta a fome no mundo e a falta de escolas, de livros e vacinas no terceiro mundo; se esse é o seu conceito de avanço democrático.

Coisas tão simples como manter-se higiénico o cu de um mandril. Em querendo acreditar que a democracia é, terá de ser, a garantia de um incremento da biodiversidade que de todo não se compatibiliza com a guerra e os seus negócios.

Entretanto, estando o caldo entornado, leio: «Nas duas próximas semanas, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Estados Unidos estarão juntos num exercício que simula a ameaça russa a território da Aliança.

Os pilotos vão voar contra sistemas de defesa aérea de origem russa que alguns dos países da aliança operam. Quem participa quer que esta seja uma mensagem clara para o Kremlin.» E, do ponto de vista do meu sofá, que adora simulações, não sei se hei-de rir, se chorar!

29/03/22

QUEM FICA POR ÚLTIMO FAZ AS ACTAS DAS CIDADES DERRUÍDAS

Ao fim de trinta anos de porfia/ nas fontes mais áridas e obscuras/ tendo inclusive decifrado os dísticos/ até aí secretos de Gilgamesh, na finisterra, // após trinta anos de genuflexões na água/ e de experimentar sucessivas, novas, tatuagens,/ alheio ao risco de não distinguir auto-profecia/ do que realmente cauteriza; em variações // da pedra que esposa a veia e da pedra/ sem trapaças e da pedra que escolta o silêncio/ e da pedra erudita que vai aos rins // galgar no azul e nas nuvens;/ montou finalmente a sua bicicleta/ de ouro – já não tinha era pulmão.

30 Mar 2022

Terraço HuaGua

Após horas a percorrer de Sul para Norte as três áreas do Templo Mausoléu de Tai Hao (太昊陵) ouvimos falar de um museu e questionando a sua localização, somos levados a uma tenda já fora do recinto com objectos de bronze, um esqueleto e mais uns quantos objectos insignificantes. Só na segunda passagem por Huaiyang demos conta de um museu dentro das muralhas do templo, mas desistimos de o visitar tão grande a fila de pessoas para entrar.

Pensando terminada a visita aos locais de Fu Xi, para sair voltamos à Porta Wu Chao e pretendendo ir até à cidade de Huaiyang, depois de passar a feira, seguimos para Sul pela Rua JinBuNan, um istmo ladeado pelas águas do Lago do Dragão. Andando quinhentos metros aparece à esquerda uma plataforma com a “Torre-Templo dos Desenhos dos Trigramas” e entrando por um arco memorial em pedra, atravessamos a Ponte Ying Bin e na acanhada ilha, com uma área de 10 mu (0,667 hectares), está o Terraço HuaGua, onde os trigramas foram desenhados.

Aí edificado um pequeno templo na Dinastia Tang, teve frequentes reparações e já na dinastia Ming e Qing foi construído um muro, o pátio e o Pavilhão dos Oito Diagramas esculpido em pedra. Em 2002, tudo foi destruído por um tornado e um homem de negócios de Huaiyang, o Sr. Huang Jin ofereceu dez milhões de yuans para o reconstruir.

Passando a Ponte Tonghan, entrando pela Porta Sul estamos perante o Pavilhão dos 8 Diagramas e seguindo o eixo central, após o Pavilhão para oferendas de sacrifícios, aparece a figura congenial dos Oito Diagramas. No topo Norte, o Pavilhão ao Ancestral dos Humanos com uma resplandecente escultura de Fu Xi em trajes amarelos. A Oeste situa-se o Pavilhão dedicado a Nu Wa e a Leste o Pavilhão da Tartaruga Branca.

No pátio, inúmeras estelas gravadas com diferentes representações de quadrados mágicos encontrados no Luoshu e no Mapa He, do Rio Amarelo (Huanghe).

HE TU E LUO SHU

A tartaruga, além de ser símbolo da longevidade e da sabedoria, oculta os segredos do espírito do Universo e a sua carapaça serviria de base para Nu Wa recolocar o danificado pilar do Noroeste, reparando assim os estragos provocados pelo deus da Água Gonggong quando, após ser derrotado por o deus do Fogo Zhurong, se atirou contra a Montanha Buzhou, quebrando um dos quatro pilares a sustentar o Céu.

Nestas águas, então Rio Cai, Fu Xi encontrou a tartaruga branca e na carapaça visualizou 55 pontos organizados em cinco conjuntos com as seguintes posições: uma bola branca e seis pretas em baixo (Norte, atrás); duas bolas pretas e sete brancas em cima (Sul, à frente); três bolas brancas e oito pretas à esquerda (Leste); quatro bolas pretas e nove brancas à direita (Oeste), e no meio, cinco bolas brancas e dez bolas pretas. Neste arranjo em cruz, segundo a mitologia chinesa Fu Xi viu emergir do Rio Amarelo um Dragão-Cavalo trazendo no dorso o Mapa do Rio (He Tu) baseada no sistema decimal, sendo os dez dígitos os números do Céu, apresentando a Ordem do Universo Anterior à Manifestação. Neste mapa do Sistema Solar estavam desenhadas várias constelações de onde concebeu o conceito de Yang, (linha contínua), simbolizando o princípio masculino, o luminoso, a força e Yin, (linha interrompida), o feminino, o obscuro, a suavidade, com os quais compôs as Quatro Imagens (duas linhas inteiras, Supremo yang; duas linhas quebradas, Supremo yin; linha inteira e linha quebrada, Jovem yang; linha quebrada e linha inteira, Jovem yin) e usando a Achillea (erva pombinha) desenhou os Oito Trigramas, [mais tarde combinados por o Rei Wen, chefe do Reino Zhou, originando os 64 hexagramas].

No Livro das Mutações (Yi Jing, 易经) vem explicada a teoria dialéctica do Yin e Yang e dos Oito Trigramas, na qual o Universo é eterno e a sua ordem regida pelo Tai ji, a união dos dois princípios, yin e yang. Representa-se por um círculo dividido em duas partes iguais com a forma de Ϩ, sendo yin a parte escura e yang a parte clara e dentro da parte escura existe um ponto claro e na parte clara um ponto escuro. Rodeando esse círculo, as oito fases da energia do Universo, (as oito forças fundamentais da Natureza), representadas nos oito trigramas.

No He Tu, o círculo exterior mostra-se com os números de 6 a 9, no círculo interior de 1 a 4 e no meio, o 5 e o 10, sendo de referir apresentarem-se os números ímpares (do Céu) em pontos brancos e os pares (os números da Terra) por pontos pretos. Disposição num eixo vertical (Eixo Celeste) a dar a direcção e o sentido, no horizontal (Eixo Terra). O encadeamento em progressão numérica no Ciclo da Criação dos Cinco Elementos, na ordem dos ponteiros do relógio aparece: (3,8) Madeira, Leste; (2,7) Fogo, Sul; (5-10) Terra, Centro; (4,9) Metal, Oeste; (1,6) Água, Norte.

Yu o Grande, conhecido por conseguir controlar as cheias alargando os leitos dos rios e a construir canais, ao estabilizar o Rio Luo viu emergir da água uma tartaruga e na carapaça encontrou o Livro do Rio Luo (Luoshu) com a Teoria do materialismo dos Cinco Elementos a representar a Ordem do Universo Manifestado.

Nove dígitos reproduzem as mudanças que ocorrem na Terra e daí representado em quadrado (mágico) de ordem 3, isto é 3x3x3. Tem três colunas na horizontal e outras três na vertical e a soma de cada uma e das oblíquas dá sempre 15 e os dígitos somados 45.

| 4 | 9 | 2 |
| 3 | 5 | 7 |
| 8 | 1 | 6 |

Ainda no recinto, numa pequena arrecadação um tanque guarda duas tartarugas, a branca foi em 1984 reencontrada e a segunda tartaruga, na carapaça tem desenhados caracteres, parecendo querer comunicar algo.
Após sair do Terraço Hua Gua, mais 500 metros para Sul estamos na cidade.

PING LIANG TAI

Na aldeia de Dalian, quatro quilómetros a Sudeste do centro de Huaiyang, visitamos a estação arqueológica de Ping Liang Tai onde, iniciadas as escavações em 1980, foram descobertas próximo da superfície as relíquias da dinastia Han, mais abaixo as de Zhou e Shang, seguindo-se as da Cultura Longshan (2800-2300 a.n.E.) e por fim, a uma profundidade entre três e cinco metros a Cultura Dawenkou (4300-2500 a.n.E.). Aí, as ruínas da cidade de Wanqiu, habitada por a tribo de Fu Xi, com uma área interior em quadrado de 34 mil m², fora cercada por muralhas com cerca de três metros de altura e um comprimento de 185 metros, havendo uma porta a meio dos muros Norte e Sul. Cidade com saneamento, pois existiam três linhas de canos em argila para conduzir a água, assim como no exterior dos muros tinha três fornos, um a Nordeste, outro a Sudoeste e no Leste.

Na Dinastia Han houve uma proliferação de túmulos com a imagem de Fu Xi e Nu Wa, tendo ambos cabeças humanas e o Pai da Humanidade corpo de dragão e a irmã e esposa corpo de serpente, com as caudas entrelaçadas, a representar a união entre os dois. Encontram-se representações de Fu Xi com um Sol, ou a segurar um compasso na mão esquerda e Nu Wa com a Lua, ou um esquadro na mão direita. Na China, as Eras começaram a ser contadas no ano de 2697 a.n.E., data ainda da existência de Fu Xi.

29 Mar 2022

Parte 8.: “As pessoas nascem boas”

O Cinema é um formato belo e único. É simultaneamente um jogo e um transformador desse mesmo jogo. Nesta série, a autora e pensadora visual, Julie Oyang, apresenta 12 realizadores chineses, as suas obras e as suas invenções estéticas, que acabam por se revelar as invenções estéticas de antigos filósofos.

O título foi retirado de um excerto da formação da moral humana de Confúcio. Confúcio nasceu no séc. VI AC, um homem que acreditava que a bondade se podia alcançar desde que os homens fossem distribuídos pela ordem hierárquica correcta.

Nascida em Pequim em 1982, a realizadora sino-americana Chloé Zhao conta que foi uma adolescente rebelde interessada no desenho de manga e na escrita de fanfiction. Quando tinha 15 anos, os pais puseram-na a estudar num colégio interno no Reino Unido. Após este período frequentou a Universidade e a escola de cinema nos EUA.

Muitos dos seus filmes retratam o Oeste Americano, que Zhao compara à Mongólia interior, um local que ela visitava nas viagens escolares. Ambos os locais estão impregnados de mitos e liberdade, dominados por extensões amplas e paisagens acidentadas. A sua primeira obra, Songs My Brothers Taught Me (2015), foi filmada na reserva Sioux de Lakota. A segunda, The Rider (2017), que conta a história de uma jovem vedeta de rodeo, estreou no Festival de Cannes, e recebeu nomeações na 33ª edição dos Independent Spirit Awards. O filme mais recente de Zhao, Nomadland (2020), que nos fala dos americanos que vivem em caravanas e que procuram trabalho sazonal, ganhou o Globo de Ouro para melhor realização.

Nomadland parece ser uma experimentação social em escala cinematográfica, uma fantasia onde a sabedoria oriental e o modelo ocidental se combinam harmoniosamente. Uma história sobre todos aqueles que têm fé e coragem para se apegarem ao bem que têm dentro de si e para defender a bondade dos outros, por mais difícil que isso seja.

Parte de uma premissa lógica, relacionada com a transformação económica causada pela recessão financeira de 2008, que fez com que muitas pessoas tenham perdido as economias, os negócios, as casas e que tenham ficado impossibilitadas, especialmente as mais idosas, de obter empréstimos para comprar uma casa mesmo que modesta. O sonho americano – que é na verdade uma máquina económica – em transformação. Estas pessoas viram-se obrigadas a ir para a estrada viver em caravanas e em camiões, deambulando em busca de trabalhos temporários e sazonais no Midwest americano. São os sobreviventes do séc. XXI. Os novos Beduínos”.

Em vez de apresentar o colapso da vida humana através de uma perspectica trágica, Zhao retrata a bondade radiosa e a esperança que guiam as pessoas pelo caminho da construção de uma vida nova. A arte torna-se vida e a vida torna-se arte, o princípio básico da filosofia estética oriental fala bem alto no coração do Oeste Americano.

A vida como fonte de beleza cristaliza-se através dos seus três filmes. O estilo de vida minimalista e austero enriquece as profundezas do ser. A virtude, por assim dizer.

Isto traz-nos inadvertidamente ecos da virtude em Aristóteles: os mais virtuosos não procuram agir.

Citações famosas de Chloé Zhao para guardar na memória
🌸 Um realizador de documentários não pode deixar de usar a poesia para contar uma história. Trago verdade à minha ficção. Estas coisas andam a par e passo.
🌸 Modifico-me constantemente. Esta característica tem aspectos negativos porque estou sempre a tentar descobrir quem sou, mas ao mesmo tempo, sou abençoada pela ausência de um pano de fundo estático.
🌸 Sou fortemente influenciada pelo cinema europeu e pelo cinema americano, mas quanto mais avanço na minha carreira, mais dou comigo a olhar para trás à procura da inspiração oriental.
🌸 Infelizmente, acho que por ter andado tanto à deriva quando era criança não criei um sentimento forte de identidade. Não me sinto em casa em lado nenhum e, por causa disso, acho que sou mais ou menos um camaleão.
🌸 Algumas das pessoas mais trabalhadoras e mais generosas que conheci em toda a minha vida não queriam votar nele. O meu desejo é compreender o outro lado, humanizar e retratar as lutas de muitas das pessoas que votaram em Trump.
🌸 A não perder:
2015 Songs My Brothers Taught Me
2017 The Rider
2020 Nomadland

 

{Julie Oyang é uma autora de naturalidade chinesa, artista e argumentista. É ainda colunista multilingue e formadora em criatividade. As suas curtas metragens foram selecciondas para o Festival de Vídeo de Artistas Femininas e também para a Chinese Fans United Nations Budapest Culture Week. Actualmente, é professora convidada da Saint Joseph University, em Macau. Gosta especialmente de partilhar histórias inesperadas, contadas a partir de perspectivas particularmente distintas. Divide a sua vida entre Amsterdão, na Holanda, e Copenhaga, na Dinamarca.}

JULIE OYANG Writer | Artist | Namer of clouds
www.julieoyang.com | Instagram: _o_writes

25 Mar 2022

Boris Rýji – O último poeta do Império Soviético

Apresentação e tradução de Astier Basílio

In revistapiparote.com.br

Boris Borisovich Rýji nasceu em 1974, na então Sverdlovsk, como era chamada, na época da União Soviética, de Ecaterimburgo, cidade de operários do ramo metalúrgico. Filho de um geólogo e professor universitário, Rýji passou a infância no bairro de Vtorchemet, na periferia. Foi o poeta que melhor descreveu os escombros da queda do império soviético e cantou a tristeza e a desilusão de sua geração pela perda do prometido futuro glorioso.

Começou a escrever poesia aos 14 anos, mesma idade em que se consagrou campeão local de boxe, mas abandonou a atividade esportiva por não concordar com o rigor da preparação sugerido por seu treinador, com vistas a uma participação futura em outra competição. Profissionalmente, seguiu a profissão do pai. Para não ser convocado para o exército, seguiu nos estudos, vindo a concluir doutorado em geologia, em 2000.

No ano em que aconteceu o colapso da União Soviética, em 1991, Boris Rýji casou-se com Irina Knyazeva, colega de turma na época da escola. Em 1993, nasceu Artyem, único filho do casal. Em 1992, os poemas de Boris Rýji começaram a ser publicados na região dos Urais, onde morava. O poeta chegou, inclusive, a assinar uma coluna sobre poesia contemporânea. A consagração veio em 2000, quando Boris Rýji foi vencedor de um prêmio nacional, o Antibooker. Havia sido publicado em Moscou. O sucesso começava a bater na sua porta. Mas o poeta, que vinha enfrentando problemas de alcoolismo, suicidou-se. Tinha apenas 26 anos. Tombou como os “primeiros soldados da Perestroika”, conforme ele próprio descreveu em um dos seus mais conhecidos poemas.

Com o fim do regime, a Rússia engolfou-se numa avassaladora onda de violência e criminalidade. Sem perspectiva, a maioria dos amigos de infância de Boris entrou para o mundo do crime e morreu. Em outro famoso poema, Boris Rýji fala da “culpa por estar vivo”. No calor do momento, ao escrever sobre a morte do poeta, o crítico literário Aleksei Mashevski cunhou uma expressão que acompanha o Boris Rýji até hoje: a de último poeta soviético.

Em 2008, foi lançado Boris Ryzhy (grafia em inglês), com direção de Aliona van der Horst. A película ganhou os prémios de melhor documentário nos festivais internacionais de Edimburgo, na Alemanha, e em Montreal, no Canadá. No filme, vemos a tensa relação do filho adolescente Artyem com o legado do pai. Todavia, ao chegar à idade adulta, Artyem reconciliou-se com a memória do pai. Infelizmente, o jovem também teve um destino trágico. Morreu de parada cardíaca, em 2020, em Israel, onde trabalhava como vendedor em um mercadinho.

Ano passado, dois dos principais canais de televisão aberta da Rússia prepararam programas dedicados ao jubileu de 20 anos de morte do poeta. Rýji vem conquistando o público jovem. Poemas seus têm sido musicados por bandas de punk, declamados por rappers. E já está sendo rodado um filme de ficção sobre sua vida. A direção será de Semyon Serzin, encenador responsável por levar aos palcos “Como tão bem a gente viveu mal”, montagem baseada em poemas de Rýji, que cumpriu temporada em um dos mais importantes teatros de Moscou, o Gogol Center.

Aliona van der Horst mantém ainda um site em homenagem a Rýji (www.borisryzhy.com), em que estão traduções de poemas em inglês, francês, italiano, holandês. Em 2018, foi publicado na Itália “E così via…”, traduzido por Laura Salmon. Ano passado, saiu na França: “La neige couvrira tout”, com tradução de Jean-Baptiste Para. As primeiras traduções em português de sua poesia são de nossa autoria.

No prédio viviam ex-presos…

No prédio viviam ex-presos,

uma fábrica os aceitava…

Eu, bitucas poeirentas,

com meus amigos catava.

Tão carinhosa a amizade,

com toda força a valer

me batiam com vontade

era eu bom em bater

Nós ficávamos sentados

à entrada do quinto andar.

Sempre juntos,  lado a lado,

mas nos separamos já.

Lá jogamos carteado,

lá  bebemos vinho e

por nós eram desprezados

carteira e filme infantil.

Nós devíamos estar

com doze anos, mais ou menos.

não nos separar juramos,

apuro algum não tememos.

… mas apuros têm seus lados,

bem poucos nós  contornamos.

E um vizinho assassinado,

vão na escada carregando

Olhava no rosto deles,

havia medo em seus rostos

… O assassino não sou eu,

meu doce amigo, por pouco.

1996

 

Às noites por lá, Iessiênin se lia…

Às noites por lá, Iessiênin se lia

Dominó jogavam, de um Porto se enchiam.

Da delegacia um polícia desce

Retirando o quepe, sentou-se de lado

E por não ser um verme bebeu um bocado.

O ano é oitenta. URSS.

Fábrica de carne, a pracinha atrás,

Lembro e não preciso lembrar disso mais.

Daqui um mês escola, mas agora tudo

É luz e é ar. O vento. O verão.

“Compre um sorveti para você”. Na mão

Está a moeda e no olhar, as nuvens.

“Obrigadu”. E sai, para trás não olhei.

Dezessete anos passaram, e eu voltei

–Nem luz e nem ar. Muito embora

a pracinha há. Agora, cadê todo mundo?

Eu, tendo a fábrica de carne no fundo,

Ajusto o casaco, levantando a gola.

Nos anos oitenta, cheguei à conclusão

Vocês viveram bem, houve palavrão

Vinho e Iessiênin estimados foram.

Tornaram-se em sombras, os que faleceram.

Mas em minha alma vivem ainda Iessiênin,

URSS, dominó e os escombros.

1997

 

Fabulosos anos e neles a gente…

Fabulosos anos e neles a gente

O ar por cerveja substituía

E ela, como ar, desaparecia,

Mas acontecia de ocorrer às vezes

Por trás do mercado, quando anoitecia,

Conversa tranquila, em pé, no local.

E como tão bem a gente viveu mal,

Com cigarro aceso em meio à ventania.

E, sem ser privada de embelezamento,

Muito embora tenha rude tessitura,

A vida fez grades de uma forma burra,

com filas de caixas que há em nós, por dentro.

E tão somente o céu é quem, pode ser,

Mirou de uma forma doce e atentamente

Quem lidou de um jeito um tanto displicente

Com a maravilha do verbo VIVER.

1997

24 Mar 2022