Spleen

Estamos em marcha para um tempo que julgáramos findo. Amanhã o seio da Europa será testado na vanguarda das Nações e, de súbito, só Baudelaire parece saber como se morre sem causar danos imorredouros, mas na têmpera também de uma noção insuportável – a da vida que chegando a certos estados, parece-nos o massacre de um demónio que não cessa a sua subordinação e, sobretudo, não refaz a novidade. Bela a ciência que nos prolongou tempo de vida, mas a vida que se prolonga não é tão boa como o avanço que nos fez continuar. Quer queiramos quer não, a nostalgia avança, mas sem uma reverberação apaixonante, de limite, por causa dessa incapacidade de nos separarmos da abominável natureza.

Sim! A natureza é abominável e desde que firmámos o tecido civilizacional que tentamos escapar-lhe. Sem solução à vista juntámo-nos a ela e retrocedemos hoje ao nível do embuste predador que grita em volta do seu último uivo confiante [Deus não existe, mas precisamos desesperadamente dele] que para algo existir é preciso necessidade tamanha… que teorias não servem para nada, e ao nada ainda pertencemos sem uma funda necessidade. Há seres que nos aparecem, duas, três vezes, ao dia, para que falemos deles em súbita orquestração, e Baudelaire é agora mais que um fantasma, é sonoridade manifesta no vazio dos dias iguais, que quer dizer como nasce a tristeza do nosso tempo vivente.

São criaturas imensas estes poetas! Repletos de tormentos tais, que o tempo circunscreveu as suas vidas a pequenos nichos de humanidade, não fazendo perder, contudo, uma lucidez futura de abordagem esplêndida, constante e sonhada. Vamos encontrá-los devastados, por vezes agrestes, imensos e belos nas suas súplicas e desdéns, mas sempre numa outra humanidade tão difícil de igualar!

Nasce com marcas, mas marca a diferença, diferenciado tal, que todo o crepúsculo se sublima para o recuperar da dor primeira «Maudite soit la nuit aux plaisirs éphémères où mon ventre a conçu mon expiation!», diz a mãe: mas a mãe nunca saberá nada de seu filho resoluto em triturá-la no abismo da servidão. Este é o poeta. Um ser aparentemente tenebroso se não encontrar nada na hora da morte para o salvar. Uma crispação vinda de longe que deita semente a todos no mundo. Nenhum pai, nenhuma mãe, concílio, estrutura, ou validez, seguirão os seus passos de inimigo indómito desta multiplicação desenfreada, onde só ele parece conseguir desesperadamente sobrepor-se.

Não o fará por vaidade, mas por aritmética a um mais vasto e amoroso ciclo civilizacional, não deseja a tribo, o dolo, o sacrifício, mas plangente se entrega ao bárbaro martírio de existir no meio daqueles que não são seus pares.

O decadentismo tende a ser ainda mais sombrio que o romantismo, mas Baudelaire deu-nos a beber esse vinho agreste da desistência amarga, sem o qual nos desviamos de uma entrega para um nível de consciência imprescindível. Os seus poemas em prosa não tinham a direcção do escalar das rimas sonantes, sonoras, mas transmitiram o xamã adormecido do poeta em transe de embriaguez e voluptuosa exactidão. Quem no embuste do conforto recria a sua demanda, não sabe nada do que aqui se passa, nem da voraz consciência da danação.

Inventamos agora poetas circunscritos à viciação, ao relapso da figura que não transgride, e parece-nos suficiente esta marca intelectualizada sem nuance e cerimónia em face dos confins dramáticos de uma imensa abstração. Não se esqueceu dos gatos, esses guardiões do destino dos amantes que não desejam ser importunados por festejos vãos.

Em todo o caso, “Spleen” é sempre o arco das suas pálpebras entreabertas numa contemplação tenaz, hipnótica, macia, triste, e quantas vezes, gélida. Não queremos mais sorrir. A beleza exige distância.

E sob tutela invisível de um Anjo, esse filho de nenhures, sabe ainda que não está só no confronto com o seu próprio destino «Bonjour Tristesse».

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