Condenados à morte cinco membros de rede criminosa de burlas no Myanmar

Um tribunal da cidade chinesa de Shenzhen condenou ontem à pena de morte cinco membros de uma rede criminosa implicada em fraudes transnacionais com base no Myanmar (antiga Birmânia), segundo a imprensa oficial.

Outros dois arguidos receberam penas capitais com suspensão de dois anos, o que na prática poderá resultar em prisão perpétua, dependendo do comportamento durante o período de suspensão, anunciou o Tribunal Popular Intermédio de Shenzhen, através da sua conta oficial na rede social WeChat. O tribunal impôs ainda cinco penas de prisão perpétua e outras nove condenações a penas entre três e 20 anos de reclusão, bem como sanções adicionais, incluindo multas, confisco de bens e expulsão do país.

De acordo com a sentença, o grupo era liderado por membros do clã Bai e operava a partir da região de Kokang, no norte do Myanmar, onde estabeleceu e geria 41 complexos com recurso à sua influência local e uma força armada própria.

Estes complexos atraíam alegados ‘investidores’ ou ‘patrocinadores’, que sob protecção armada participavam em actividades como fraudes ‘online’, abertura de casinos, homicídios, agressões, raptos, extorsões, tráfico humano e prostituição forçada, além de facilitar travessias ilegais de fronteira.

O tribunal deu como provado que o grupo gerou movimentos financeiros ilegais superiores a 29 mil milhões de yuan e que as suas actividades resultaram na morte de seis cidadãos chineses, além de um suicídio e vários feridos. Os réus foram condenados por crimes de burla, homicídio intencional, agressão com dolo e outros 11 crimes. As penas foram determinadas com base na gravidade, natureza e impacto social dos atos cometidos.

Em curso

O caso insere-se na campanha lançada por Pequim contra redes de cibercrime com base no Myanmar, onde grupos armados de origem chinesa têm controlado, há anos, enclaves dedicados a burlas ‘online’, prostituição e jogo ilegal. Nos últimos meses, as autoridades chinesas anunciaram também o desmantelamento dos clãs Ming, Wei e Liu, apontados como outras das principais famílias criminosas da área de Kokang.

Após o golpe de Estado de Fevereiro de 2021, que mergulhou o Myanmar na instabilidade, registou-se uma proliferação de centros de cibercrime nas zonas fronteiriças com a China, aproveitada por vários grupos de crime organizado. Segundo um relatório das Nações Unidas, pelo menos 120 mil pessoas estão actualmente detidas em centros situados no país, onde são forçadas a cometer fraudes cibernéticas.

As vítimas, atraídas por falsas ofertas de emprego, são mantidas em complexos fechados semelhantes a prisões e obrigadas a operar burlas ‘online’ sob condições de “violência extrema”, denunciaram entidades internacionais.

Pequim alerta para tentativas de espionagem dirigidas a estudantes universitários

A China alertou ontem para um aumento das tentativas de espionagem contra estudantes universitários, através de falsas ofertas de trabalho ou parcerias académicas feitas por agentes estrangeiros, visando aceder a informação sensível.

Num artigo publicado na conta oficial na plataforma chinesa WeChat – semelhante ao WhatsApp –, o Ministério da Segurança do Estado (MSS, na sigla em inglês), principal órgão de inteligência do país, descreve um “caso típico” em que um estudante de mestrado, identificado apenas pelo apelido Jin, foi recrutado através de um fórum universitário por alguém que se fazia passar por diplomata de uma embaixada estrangeira no país asiático.

O estudante começou por reunir dados económicos de acesso público e redigir relatórios, em troca de dinheiro. Mas, com o tempo, o contacto passou a pedir-lhe informações sobre “áreas sensíveis”, como política, energia ou assuntos internacionais, além de lhe apresentar um contrato de consultadoria com salário mensal.

“Quando começou a suspeitar da verdadeira identidade do seu empregador, Jin decidiu cortar o contacto”, refere o comunicado, acrescentando que o alegado diplomata foi posteriormente identificado como agente de inteligência estrangeiro. As autoridades confiscaram os lucros obtidos pelo estudante e emitiram-lhe um aviso formal, considerando que cessou a colaboração antes de causar danos à segurança nacional.

Disfarces múltiplos

O MSS sublinha que os serviços secretos estrangeiros “aumentaram os seus esforços de infiltração”, com ofertas personalizadas para jovens talentos, disfarçadas de bolsas de estudo, estágios ou trabalho a tempo parcial. “Os estudantes devem manter-se vigilantes e não se deixar enganar por supostos intercâmbios académicos ou empregos altamente remunerados”, adverte o texto.

O ministério lembra ainda que a Lei Contraespionagem da República Popular da China prevê sanções penais para quem participe em atividades de espionagem, mas contempla a indulgência ou isenção de pena para os que se entreguem voluntariamente ou colaborem com as autoridades.

Nos últimos meses, o MSS tem divulgado vários casos semelhantes, alertando para recrutamentos encobertos, divulgação de informação classificada e o uso de redes sociais e plataformas de emprego como ferramentas de espionagem estrangeira.

Diplomacia | Relação com Moscovo é “escolha estratégica”, diz Xi Jinping

O líder chinês defendeu, num encontro em Pequim com o primeiro-ministro russo, a cooperação com Moscovo apesar do “ambiente turbulento” internacional

O Presidente chinês, Xi Jinping, afirmou ontem que salvaguardar, consolidar e desenvolver as relações com a Rússia constitui uma “escolha estratégica” para ambos os países, durante um encontro com o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, em Pequim.

Xi destacou que a cooperação bilateral “tem avançado com determinação, apesar de um ambiente externo turbulento” e manifestou disponibilidade para alinhar o 15.º Plano Quinquenal da China com as estratégias de desenvolvimento económico e social da Rússia, de modo a “promover um crescimento de maior qualidade e nível”, segundo a televisão estatal chinesa CCTV.

O líder chinês, que também é secretário-geral do Partido Comunista, apelou a uma “coordenação estreita” e à implementação dos consensos alcançados com o Presidente russo, Vladimir Putin, para “expandir o bolo da cooperação” e contribuir para o desenvolvimento global e a paz mundial.

Xi apelou ainda ao reforço dos intercâmbios entre os povos e sectores sociais dos dois países e à consolidação das parcerias em áreas como energia, agricultura, conectividade e indústria aeroespacial, além da exploração de novas frentes de cooperação em inteligência artificial, economia digital e desenvolvimento verde.

Cooperação e consensos

Mishustin transmitiu os cumprimentos de Putin e expressou a vontade de Moscovo em aprofundar a cooperação económica, científica e tecnológica com Pequim, no seguimento dos consensos alcançados pelos dois chefes de Estado. O encontro decorreu um dia depois de Mishustin se ter reunido com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, em Hangzhou (leste), onde afirmou que os laços entre Moscovo e Pequim “continuam a prosperar apesar das sanções ilegais do Ocidente”.

Mishustin participa esta semana no 30.º encontro ordinário entre os chefes de Governo dos dois países, centrado no reforço da cooperação energética, comercial e tecnológica, numa altura em que China e Rússia aprofundam a aliança face à pressão dos Estados Unidos e da União Europeia.

Sam Hou Fai diz que multilateralismo é resposta para desafios mundiais

O Chefe do Executivo declarou ontem que o multilateralismo enfrenta “desafios severos”, sendo difícil enfrentar os problemas isoladamente, em declarações que vão ao encontro dos discursos oficiais da liderança chinesa, num contexto de tensão com os EUA.

“As incertezas e instabilidades globais estão a aumentar. A rivalidade entre as grandes potências persiste, e os conflitos regionais eclodem com frequência. O multilateralismo e o livre comércio enfrentam desafios severos. A configuração mundial e a ordem internacional estão a sofrer mudanças aceleradas”, indicou Sam Hou Fai na cerimónia de abertura da 18.ª Convenção Mundial dos Empresários Chineses, a realizar-se em Macau.

Num contexto de crescentes tensões entre as duas maiores potências económicas mundiais, a liderança chinesa tem vindo a defender a importância de combater o proteccionismo, num mundo que está a caminhar, como referiu na segunda-feira passada o chefe da diplomacia chinesa, para uma “ordem multipolar”.

Palavras próximas

Dirigindo-se aos empresários, Sam Hou Fai notou que actualmente é “difícil enfrentar desafios complexos actuando de forma isolada”, sendo a globalização económica “uma tendência histórica irreversível e o multilateralismo “é decididamente a escolha para resolver as dificuldades e os desafios com que o mundo se debate”.

Os empresários chineses, continuou, “são uma força importante que liga a China e o mundo”, contribuindo para “o intercâmbio entre o Oriente e o Ocidente”. E “só através da consolidação do consenso e desenvolvimento conjunto”, vai ser possível alcançar “progressos mutuamente benéficos, salvaguardando, juntos, uma ordem económica mundial, equitativa, aberta, diversa e estável”, reforçou.

Sobre Macau, Sam notou tratar-se de um território marcado por “estabilidade política, harmonia social, rápido desenvolvimento económico e contínua melhoria das condições de vida”. É, além disso, “um dos sistemas comerciais e de investimento mais abertos do mundo e uma das cidades mais seguras do mundo; reconhecida como a cidade asiática com maior potencial de desenvolvimento económico”.

Entre 1999 e 2024, destacou o líder do Executivo, o produto interno bruto (PIB) aumentou de 51,9 mil milhões de patacas para 403,3 mil milhões, a taxa de desemprego diminuiu de 6,3 para 1,8 por cento e o número de visitantes que entram em Macau aumentou de cerca de 7,44 milhões para 34,92 milhões.

“Com as garantias proporcionadas pelo princípio ‘um país, dois sistemas’ e pela Lei Básica, Macau goza do estatuto de porto franco e de zona aduaneira autónoma com um sistema simples de baixa carga fiscal e uma extensa rede do mercado internacional, sendo o ‘interlocutor de precisão’ entre a China e os países de língua portuguesa”, acrescentou.

Carta de Rita Santos sobre o arquivamento do processo de investigação pelo Ministério Público português

Exmo. Senhor Dr. Carlos Morais José

M. I. Director do Jornal Hoje Macau

Serve este nosso presente pedido de publicação para confirmar que no passado dia 24 de outubro o Ministério Público de Portugal proferiu despacho de arquivamento do procedimento criminal que me foi movido na sequência de denúncias formais apresentadas por militantes do Partido Socialistas, maioritariamente residentes em Macau.

Durante todo o processo colaborei sempre de forma ativa com as autoridades portuguesas na descoberta da verdade material e, com isso, na proteção do meu bom nome, honradez e carácter impoluto, suportado na confiança que a comunidade Macaense deposita em mim, a qual jamais defraudarei.

Tratou-se, pelo que se me oferece conhecer, de um caso que nunca foi um caso, assente apenas em especulação, difamação e ataque de carácter, um caso típico de instrumentalização da justiça com objetivos político-partidários, mas que não colheram.

E, por isso, como não poderia deixar de ser, tendo o Ministério Público feito uma investigação minuciosa, constatado que nenhuma ilegalidade fora praticada e concluído pela ausência de indícios criminais, o arquivamento é o corolário lógico e seria sempre a única e justa solução para este “não processo”.

Valores como o respeito pela Lei e pela liberdade individual de cada cidadão não são para mim negociáveis e deles nunca abdicarei, pelo que jamais deixarei, como sempre o fiz, de ser uma voz ativa na defesa dos princípios democráticos e humanistas, e de ter uma participação cívica ativa na defesa dos interesses da comunidade portuguesa em Macau.

Com os melhores cumprimentos.

Macau , aos 31 de Outubro de 2025 .

Rita Santos

A droga mata que se farta

Já lá vai o tempo em que o ópio transmitia inspiração a Camilo Pessanha. Em que uma ganza acalmava e dormia-se bem. Hoje, a droga mata. Mata centenas de jovens que se viciam em heroína, cocaína e substâncias psicoactivas químicas e que destroem o cérebro. Os viciados nas mais diversas drogas injectam-se nas veias e quando não existe pureza no produto apanham overdose e morrem. Houve jovens em Portugal que, afectados pela ressaca, bateram nos pais por estes não lhes facilitarem o dinheiro pretendido e de seguida suicidaram-se. As mortes por overdose aumentaram 16 por cento em 2023 em relação ao ano anterior totalizando 80, revelou um relatório do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) divulgado o ano passado, sendo a cocaína a droga mais responsável pela mortalidade.

Há dias, um menor de 14 anos matou a mãe com uma pistola do pai e a Polícia Judiciária já juntou aos autos dados indicadores que o jovem andava a consumir canábis em excesso. E o que são os drogados? Simplesmente uns dependentes dos negócios milionários do crime organizado onde os chefes dos traficantes ganham milhões de euros.

Na semana passada, assistimos a dois casos em Portugal de bradar aos céus. Uma mega-operação da GNR que descobriu várias quintas nos arredores do rio Tejo onde eram fabricadas e guardadas 13 lanchas rápidas, 11 galeras, um camião, 30 motores sofisticados, 16 carros topo de gama, 750 mil euros em dinheiro e muitas armas de fogo e brancas. Foram detidos 32 suspeitos de ligação ao tráfico de droga internacional, uma operação que contou com a cooperação da Guardia Civil espanhola. Assim, foi desmantelada uma rede criminosa a operar em Portugal e que se dedicava à construção e movimento de lanchas para o transporte de droga vinda de grandes navios oriundos da Colômbia e Brasil. A referida operação decorria há 32 meses. No decurso da investigação foram identificados diversos suspeitos de nacionalidade espanhola. A investigação ao longo de três anos ainda levou à detenção em Espanha de dezenas de traficantes de droga e toneladas de estupefacientes.

Igualmente na semana passada, o país ficou chocado com a morte de um militar da GNR e de outros três que ficaram feridos após uma colisão entre uma embarcação da GNR e outra alegadamente pertencente a narcotraficantes no rio Guadiana, perto de Alcoutim, Faro. Segundo um observador do acidente, os traficantes atiraram propositadamente a sua lancha contra a da GNR, abalroando-a e matando um dos militares a bordo, tendo de seguida pegado fogo à sua lancha numa das margens do rio para que não existissem provas de posse de droga. O mesmo observador, disse que se “tratou de um autêntico acto homicida”. O Presidente da República descreveu a situação como “dolorosa” e “lamentável”. Entretanto, a Polícia Judiciária e a GNR já detiveram dois suspeitos de terem estado envolvidos no abalroamento da embarcação da GNR que causou a morte do militar. Ao que tudo indica, os dois suspeitos já estavam referenciados por tráfico de droga em Espanha. Os suspeitos foram detidos quando tentavam atravessar uma ponte, num carro de matrícula espanhola, a caminho do país vizinho. Teriam na sua posse avultadas quantias de dinheiro.

Ao contactarmos um porta-voz da GNR, este afirmou que “Normalmente, quando se trata de cocaína a origem é a América do Sul e os traficantes fazem a trasfega no Atlântico. Se for tráfico de haxixe, a proveniência é o norte de África, passando o produto estupefaciente de uma embarcação maior, no Mediterrâneo, para estas lanchas que depois tentam entrar na Europa, servindo-se de Portugal e Espanha.”

Antes de se colocarem em fuga, os suspeitos terão ficado encalhados na margem do rio, incendiando de seguida a lancha eventualmente cheia de droga. O mesmo porta-voz adiantou que “normalmente nestes casos, as embarcações vêm do alto mar, fazem o desembarque (da droga) tanto no Guadiana como no rio Pedras, em Espanha, queimam a lancha e depois escapam.”

Toda esta actividade criminosa é facilitada porque os militares não têm os meios necessários para um combate eficiente. O Governo limita-se a lamentar quando acontece uma tragédia e lá vão o Presidente da República e a ministra da Administração Interna a correr para o funeral do militar morto pelos traficantes dando um ar de grande pesar. Uma cena que os familiares dispensavam porque o importante é o desprezo que as autoridades têm dado aos apelos das associações das forças de segurança para que as verbas aumentem para o combate ao tráfico de droga. E de tal forma é significativa a nossa posição, que só horas depois do fatal acontecimento de Alcoutim é que o Presidente Marcelo promulgou um diploma que regula o uso de lanchas rápidas. Possivelmente se o diploma tivesse sido promulgado há meses o militar da GNR não teria morrido. Como diz o povo, depois do assalto, trancas à porta…

Filipinas e Canadá assinaram acordo de reforço na área da defesa

As Filipinas e o Canadá assinaram domingo um acordo que permite às forças armadas de ambos os países treinar e operar em conjunto nos respectivos territórios, com o objetcivo de reforçar a cooperação em matéria de defesa. O acordo foi assinado durante uma visita do ministro da Defesa canadiano, David McGuinty, à nação do sudeste asiático.

“Hoje [domingo] é um grande dia para as nossas duas nações. Reafirmamos o nosso compromisso de aprofundar a nossa cooperação em matéria de defesa, um compromisso para consolidar a aliança produtiva e benéfica que já mantemos”, afirmou McGuinty numa conferência de imprensa conjunta com o secretário de Defesa filipino, Gilberto Teodoro Jr., em Makati, ao sul de Manila.

As negociações acerca do Acordo sobre o Estatuto das Forças Visitantes (SOVFA) entre Otava e Manila foram concluídas em Março, de acordo com um comunicado publicado na altura pelo Governo do Canadá, que indicou que o pacto “reforçará os laços militares e de defesa entre os dois países, permitindo que as Forças Armadas das Filipinas e as Forças Armadas Canadianas operem e treinem juntas nos seus respetivos territórios”.

Mais segurança

Teodoro Jr. classificou o SOVFA como uma demonstração de confiança que permitirá às forças armadas e aos organismos de defesa de ambos os países colaborar, tanto bilateralmente como com outros parceiros afins, para preservar a paz, prevenir a instabilidade e garantir um futuro seguro para as próximas gerações.

McGuinty, por sua vez, lembrou que as Filipinas e o Canadá estabeleceram relações após o fim da Segunda Guerra Mundial, num momento em que ambas as nações buscavam “o seu lugar no mundo”, e destacou que, no âmbito da Estratégia Indo-Pacífica lançada por Otava em 2022, o seu país “reforçou” a sua presença em toda a região “por terra, mar e ar”.

O secretário de Defesa filipino assegurou que o novo acordo “é fruto de extensas conversações” entre o Presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos Jr., e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que na semana npassada participou na cimeira anual da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e países aliados na Malásia.

Seul | Lançado satélite de espionagem militar espacial

O último satélite, de um total de cinco que fazem parte do sistema Kill Chain, visa detectar qualquer ameaça vinda da Coreia do Norte

A Coreia do Sul lançou domingo o quinto e último satélite de uma rede de espionagem militar destinada a fortalecer capacidades independentes de vigilância sobre actividades da Coreia do Norte, confirmou o ministério sul-coreano da Defesa.

O satélite espião, equipado com um radar de abertura sintética (SAR), foi lançado a bordo de um foguetão Falcon 9 da empresa SpaceX às 01:09 horas na Florida, Estados Unidos (05:09 TMG), no âmbito da missão Bandwagon-4, a partir da Estação Espacial de Cabo Canaveral, naquele estado norte-americano.

A colocação em órbita bem-sucedida do satélite foi anunciada cerca de 20 minutos depois pelas autoridades sul-coreanas. “A operação conjunta de cinco satélites de reconhecimento permitirá uma detecção mais rápida e precisa das provocações da Coreia do Norte”, declarou o ministério sul-coreano em comunicado.

Seul completou assim a implementação da primeira rede de satélites espiões, cerca de dois anos após o lançamento, em 02 de Dezembro de 2023, do primeiro dos aparelhos, uma semana depois de Pyongyang ter anunciado ter colocado em órbita o seu próprio satélite espião, num contexto de escalada da tensão bilateral.

Assim que os cinco satélites estiverem em órbita, espera-se que o país possa monitorizar a Coreia do Norte a cada duas horas, reduzindo a dependência em relação a imagens de satélite norte-americanos.

Corrente mortal

A Coreia do Sul espera que os cinco satélites de reconhecimento sirvam como “olhos” destinados a apoiar o sistema de ataque preventivo Kill Chain, ao permitirem a detecção rápida ou sinais de alerta precoce de um eventual ataque nuclear ou com mísseis por parte da Coreia do Norte. Kill Chain é uma plataforma de detecção de possíveis ataques inimigos e de activação de ataques preventivos com mísseis terra-terra e mar-terra a partir de Seul, apresentada em 2022.

No âmbito desta campanha de vigilância espacial, Pyongyang lançou o seu primeiro satélite de espionagem militar, o Malligyong-1, em 21 de Novembro de 2023, e garantiu que lançaria mais três satélites espiões em 2024, mas não lançou nenhum outro desde que um foguetão que transportava um satélite explodiu após a descolagem em Maio do ano passado.

Visita de Felipe VI deve aprofundar cooperação com Espanha

O Governo chinês manifestou ontem esperança de que a próxima visita de Estado do rei de Espanha, Felipe VI, à China sirva para aprofundar a cooperação bilateral e reforçar a parceria estratégica entre os dois países. “Espanha é uma potência importante da União Europeia e um parceiro estratégico fundamental da China na Europa”, afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, em conferência de imprensa.

Segundo Mao, as relações entre a China e Espanha “têm mantido um elevado nível de desenvolvimento nos últimos anos” e a deslocação do monarca, prevista para entre 11 e 13 de Novembro, constitui agora “uma oportunidade para consolidar a amizade tradicional, expandir a cooperação mutuamente vantajosa, reforçar os intercâmbios entre os povos, melhorar a coordenação multilateral e impulsionar a parceria estratégica integral” entre os dois países.

A porta-voz acrescentou que Pequim espera que a visita “beneficie os povos de ambos os países” e contribua para “trazer maior estabilidade e dinamismo ao actual panorama internacional, marcado por turbulências”.

Agenda preenchida

Felipe VI e a rainha Letizia vão viajar acompanhados pelos ministros espanhóis dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, e da Economia, Carlos Cuerpo. A visita assinala o encerramento das comemorações do 20.º aniversário da Parceria Estratégica Integral entre China e Espanha, marco que, segundo o Governo espanhol, visa reforçar os “profundos” laços entre os dois países.

Os reis serão recebidos oficialmente pelo Presidente chinês, Xi Jinping, e pela primeira-dama, com uma cerimónia de boas-vindas marcada para quarta-feira, dia 12, em Pequim.

Felipe VI deverá também reunir-se com o primeiro-ministro, Li Qiang, e com o presidente da Assembleia Nacional Popular, Zhao Leji. A agenda da visita inclui ainda encontros empresariais e culturais, primeiro na cidade de Chengdu, no sudoeste da China, e depois na capital.

Esta será a primeira visita de Estado dos reis de Espanha à China desde a deslocação de Xi Jinping a Madrid, em Novembro de 2018. O chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, esteve na China em Abril passado, onde se reuniu com Xi.

Nessa ocasião, Sánchez descreveu o país asiático como um “parceiro imprescindível para enfrentar os desafios globais” e defendeu o aprofundamento das relações bilaterais e entre Europa e China. A diplomacia chinesa considerou então a visita “um sucesso” e sublinhou a “determinação de ambas as partes em fortalecer os vínculos”.

Antártico | Iniciada 42.ª missão para concluir base e perfurar lagos subglaciares

A 42.ª expedição antártica da China partiu este fim de semana de Xangai para uma missão de sete meses, que inclui a construção da quinta base do país no continente gelado e a primeira perfuração científica em lagos subglaciais.

A campanha, composta por mais de 500 especialistas de cerca de dez países e apoiada pelos navios quebra-gelo Xuelong e Xuelong 2 (“Dragão de Neve” e “Dragão de Neve 2”), tem como objectivos reforçar as infraestruturas da estação Qinling e aprofundar os estudos sobre as alterações climáticas, informou ontem o jornal oficial China Daily.

Durante a missão, serão concluídas as obras de engenharia e os sistemas de energia renovável da base Qinling, inaugurada em Fevereiro de 2024 na ilha Inexpressável, no mar de Ross, segundo a Administração Polar da China.

A estação foi concebida com tecnologia “inteligente” e materiais sustentáveis, combinando energia eólica, solar, de hidrogénio e geradores a gasóleo. Prevê-se que esteja totalmente operacional em Fevereiro de 2026. A equipa científica vai também realizar a primeira perfuração profunda em lagos situados sob mais de 3.000 metros de gelo, utilizando sistemas de perfuração com água quente e fusão térmica.

As amostras recolhidas servirão para estudar ecossistemas isolados e a evolução do clima global. Os investigadores realizarão ainda estudos multidisciplinares sobre o impacto do aquecimento global no oceano Antártico, incluindo observações biológicas, químicas, atmosféricas e glaciares em áreas como o mar de Amundsen e a baía Prydz.

O regresso da expedição à China está previsto para Maio de 2026. A China iniciou as missões científicas na Antártida em 1984 e conta actualmente com cinco estações de investigação no continente.

China rejeita acusações de Trump sobre alegados testes secretos

A China rejeitou ontem as acusações de Washington de que Pequim estaria a realizar testes nucleares em segredo, e reiterou o compromisso com o “desenvolvimento pacífico” da energia nuclear e com o regime internacional de desarmamento.

“Como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e Estado com armas nucleares responsável, a China está comprometida com o desenvolvimento pacífico”, afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning. Mao destacou que Pequim mantém uma “estratégia nuclear defensiva” e segue uma política de “não ser o primeiro país a usar” armamento nuclear em caso de conflito.

A responsável assegurou que a China “honra o seu compromisso com a moratória sobre testes nucleares” e manifestou a disposição de trabalhar com todas as partes para “salvaguardar o cumprimento do Tratado de Proibição Completa de Ensaios Nucleares (CTBT)” e proteger o regime global de não-proliferação.

“Esperamos que os Estados Unidos cumpram de forma rigorosa as suas obrigações no âmbito do CTBT e o seu compromisso com a moratória, adoptando ações concretas para respeitar o quadro internacional de desarmamento e não proliferação, de forma a manter o equilíbrio estratégico e a estabilidade global”, afirmou Mao, citada pelo jornal oficial Global Times.

Imprensa e segredos

As declarações da diplomata surgem depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter afirmado, na semana passada, que autorizou a realização de testes nucleares norte-americanos “devido aos programas de testes de outros países”. Numa entrevista transmitida nas últimas horas pela cadeia norte-americana CBS, Trump insistiu que Rússia e China estão a conduzir “testes nucleares em segredo”.

“A Rússia está a fazer testes e a China também, mas eles não falam sobre isso. Nós somos uma sociedade aberta. Temos que falar, porque, caso contrário, os jornalistas descobrem e publicam. Eles não têm jornalistas que escreveriam sobre isso, nós temos”, declarou o Presidente norte-americano.

Segundo a CNN, um relatório divulgado em Agosto pelo Serviço de Investigação do Congresso dos EUA estimou que o país poderia realizar um teste com armas nucleares no prazo de 24 a 36 meses após ordem presidencial. Os Estados Unidos não realizam testes nucleares desde 1992, a Rússia desde 1990 e a China desde 1996.

Forças armadas | EUA e China acordam abrir canais de comunicação

O responsável chinês da pasta da Defesa, o almirante Dong Jun, e o da pasta da Guerra, o americano Pete Hegseth, encontraram-se para acertar agulhas sobre as relações entre os dois países no campo militar

O secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou domingo que Washington e Pequim vão estabelecer canais de comunicação entre as forças armadas, acrescentando que as relações bilaterais entre os dois países “nunca estiveram melhores”. Hegseth disse que conversou com o seu homólogo chinês, o almirante Dong Jun, no sábado à noite, à margem de uma reunião de segurança regional, e que ambos concordaram que “a paz, a estabilidade e as boas relações são o melhor caminho para os dois grandes e fortes países”.

As declarações de Hegseth, publicadas na rede social X, foram reveladas horas depois de ter exortado as nações do Sudeste Asiático a manterem-se firmes e a reforçarem as forças marítimas para combater as acções cada vez mais “desestabilizadoras” da China no Mar da China Meridional.

“As reivindicações territoriais e marítimas da China no Mar da China Meridional vão contra os compromissos de resolver disputas pacificamente”, afirmou Hegseth numa reunião com os homólogos da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) no sábado. “Buscamos a paz. Não buscamos conflitos. Mas devemos garantir que a China não esteja a tentar dominar-vos”, acrescentou.

O Mar da China Meridional continua a ser um dos pontos mais voláteis da Ásia. Pequim reivindica quase toda a região, enquanto membros da ASEAN – nomeadamente as Filipinas, Vietname, Malásia e Brunei – também reivindicam a soberania em áreas costeiras e várias ilhas. As Filipinas, um importante aliado dos Estados Unidos, têm protagonizado frequentes confrontos com as forças marítimas chinesas.

Manila tem repetidamente apelado a uma resposta regional mais forte, mas a ASEAN tem tradicionalmente procurado equilibrar a cautela com os laços económicos com Pequim, o maior parceiro comercial da região. Hegseth disse na rede social X que conversou com o Presidente norte-americano, Donald Trump, e que ambos concordaram que “a relação entre os EUA e a China nunca esteve melhor”.

Cravo e ferradura

A reunião de Trump com o Presidente chinês, Xi Jinping, na Coreia do Sul na semana passada “deu o tom para uma paz e sucesso duradouros para os Estados Unidos e a China”, acrescentou o secretário da Guerra, que deixou domingo a Malásia rumo ao Vietname. As mensagens contrastantes — uma advertência severa na reunião da ASEAN seguida por uma linguagem conciliatória na internet — sublinham o esforço de Washington para equilibrar a dissuasão com a diplomacia, no quadro de tensões crescentes com Pequim.

“Trata-se de controlo de danos. Mais importante ainda, reflecte duas correntes diferentes nas relações dos Estados Unidos com a China — uma que vê a China como uma ameaça e outra como um possível parceiro”, considera a analista política do Sudeste Asiático Bridget Welsh, citada pela agência Associated Press.

Hegseth instou no sábado a ASEAN a acelerar a conclusão de um Código de Conduta, há muito adiado, que está a ser negociado com a China para reger o comportamento no mar. O governante norte-americano propôs ainda o desenvolvimento de sistemas compartilhados de vigilância marítima e resposta rápida para dissuadir provocações.

Uma rede de “consciência compartilhada do domínio marítimo” garantiria que qualquer membro que enfrentasse “agressão e provocação não estivesse sozinho”, justificou. Hegseth saudou igualmente os planos para um exercício marítimo ASEAN-EUA em Dezembro destinado a fortalecer a coordenação regional e defender a liberdade de navegação.

Ingerências rejeitadas

A China rejeita as críticas dos Estados Unidos à sua conduta marítima, acusando Washington de interferir nos assuntos regionais e provocar tensões através da presença militar. Autoridades chinesas afirmam que as suas patrulhas e actividades martítimas são legais e visam manter a segurança no que consideram território chinês.

As autoridades chinesas criticaram as Filipinas no sábado, que classificaram como um elemento “desordeiro”, depois de Manila ter realizado exercícios navais e aéreos com os Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia no Mar da China Meridional. O exercício de dois dias, que terminou na sexta-feira, foi o 12.º que as Filipinas afirmam ter realizado com nações parceiras desde o ano passado para proteger direitos nas águas disputadas.

Tian Junli, porta-voz do Comando do Teatro Sul do Exército Popular de Libertação da China, disse que o exercício prejudicou gravemente a paz e a estabilidade regionais. “Isso prova ainda mais que as Filipinas são o causador de problemas na questão do Mar da China Meridional e um sabotador da estabilidade regional”, afirmou.

Filosofias Comparadas: Imagens de Portugal

Por Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural

A imagem que os portugueses possuem de si próprios enquanto todo coletivo difere interna e externamente, de acordo com os pensadores e seus modos de estar na vida, que por sua vez dependem de enquadramentoas culturais mais vastos, as suas próprias coletividades. Não se espera que o olhar de um francês sobre os portugueses e Portugal seja semelhante ao de um chinês e muito menos ao de um português, porque as suas perspetivas estão condicionadas pelo seu desenvolvimento histórico-cultural, o que irá definir uma postura civilizacional específica para cada pensador e sua história de vida pessoal e coletiva. Acresce ainda que o olhar de um estrangeiro sobre Portugal será sempre mais distanciado, para o bem e para o mal, do que a visão próxima e comprometida até à raiz mais funda do seu ser de um português, mesmo que este procure ser tão imparcial quanto possível, como é o caso de Miguel Torga, escritor e pensador que muito amou o seu país, mas sempre na via do meio, sem se deixar levar por os calores românticos e nacionalistas, por exemplo de um Teixeira de Pascoes em A Arte de Ser Português.

Comece-se pelos olhares exteriores, aqueles que nos chegam além-mar português. Comece-se pelo recentíssimo texto Astérix na Lusitânia de outubro de 2025 de Fabcaro com desenhos de Didier Conrad, impecavelmente traduzido para português por Maria José Pereira e Paula Caetano.

Os compatriotas, o pessoal do “pá”, que oscila no livro entre o calão e os rasgos líricos do fado português, no melhor que Amália tem para oferecer, são apresentados de um modo crítico e irónico, por vezes mordaz, num tom vindo da escola cómica e racionalista francesa, a que diz o que pensa, porque assim vai existindo sem se preocupar com as consequências de que o seu pensamento aberto, frontal e crítico possam ter sobre os lusitanos que lerão estas linhas em banda desenhada, muitas delas verdadeiramente cómicas, mas que por certo atingem em cheio as cordas sentimentais e nervosas dos grandes heróis do mar lusitano.

Os mais bem-dispostos aproveitarão o pretexto para se rirem de si mesmos, já os mais sérios e carrancudos digerirão com alguma dificuldade a banda desenhada, cuja principal característica é brincar em torno do mar português, mas gastronómico. Os portugueses distinguem-se na obra pelo gosto a peixe e a molhos com peixe, sendo monotonamente exímios nas mil e uma maneiras de confecionar bacalhau, o que leva, como é óbvio, ao desespero do ilustre gaulês Obélix, que se vê rodeado de bacalhau e molho de peixe (garum) por todo o lado. Astérix e Obélix vêm numa missão a Portugal ajudar a libertar o Malmevês um português condenado à prisão por alegadamente ter tentado envenenar César com garum. Eles foram chamados por um personagem português, cujo nome é altamente revelador, o Tristês. Entretanto, o Malmevês tem uma filha, com outro nome sintomático, a Saudade, por quem Obeléx se apaixona.

Aos lusitanos sobra tristeza, saudade e melancolia e não ficam a dever à beleza, sendo com grande desgosto que os gauleses terão de se disfarçar de lusitanos para salvar da prisão Malmevês, sendo a bem-sucedida missão auxiliada pela inteligência gaulesa que desmascara o verdadeiro envenenador e seu cúmplice.

Embora os portugueses não sejam apresentados como belos, inteligentes, tendo alguns pouca ética, porque traíram o herói dos heróis, Viriato, têm entre os aspetos mais positivos uma gastronomia interessante, excetuando o bacalhau e o molho de peixe, mas que inclui o pastel de nata e o bom vinho, até verde. A culinária é sem dúvida o ponto alto da narrativa, sob todas as perspetivas, mesmo a dos Descobrimentos, que são reduzidos e condensados numa referência ao Tasco do Vasco da Gama “Ó Pá, no Tasco do Vasco da Gama descobrem-se novos mundos” (Fabcaro, 2025, 36).

O facto dos portugueses gostarem tanto de fado faz com que o ambiente se torne muito triste para ouvidos gauleses, que vão tecendo considerações filosóficas interessantes ao longo do texto a respeito do mesmo, já que este é considerado retirar força anímica aos soldados e gentes lusitanas, que no calor da peleja são apaziguados pelo cântico dolente e triste que torna os guerreiros assim: “de repente fiquei tão melancólico” (Fabcaro, 2025, 28) ou “afinal passamos a vida a correr atrás de quê?” (Ibidem). Resumindo, desta banda desenhada retira-se para o nosso retrato coletivo, um povo triste e melancólico, muito marcado por longos anos de repressão, em que os revolucionários se encontram na cadeia, como aquele que grita atrás das grades “ó pá, ouçam bem, malditos romanos! O povo unido jamais será vencido.” (Fabcaro, 2025, 33).

Distinguem-se na Lusitânia umas verdadeiras mulheres de armas como a Gama, quando se diz, “seria impossível levar a missão a bom porto sem a ajuda da Gama” ( Fabcaro, 2025, 47). Por fim, os heróis gauleses partem rumo à Gália, retendo uma outra característica que costuma ser realçada em relação aos portugueses, a suavidade no relacionamento: “Ah estes lusitanos! São tão afáveis no trato…custa ter de partir, não é?” (Fabcaro, 2025, 48).

Não se pode generalizar a imagem filosófica cómica desta banda desenhada a todos os franceses, mas o que fica para alguns é que a ilustre e antiga história portuguesa se resume bem a um notável heroísmo gastronómico, representado por uma mulher forte, a Gama, à frente do Tasco Vasco da Gama e enquanto ela estiver ao leme novos mundos de sabor serão sempre descobertos. Do ponto de vista gaulês é dispensável tanta melancolia e tristeza, mas salva-se no meio deste “estranho modo de ser” a afabilidade que deixa saudades da terra e vontade de regressar.

Pelas características da mentalidade chinesa, moldada por séculos de harmonia confucionista não se pode esperar dum pensador chinês o mesmo tipo de registo aberto, livre, crítico, pelo contrário as descrições serão cuidadosamente escolhidas de modo a que não firam a sensibilidade alheia, como é o caso da obra do pensador e historiador Wu Zhiliang (吴志良), Crónicas de Portugal 葡萄牙印象, fruto de uma estadia do autor enquanto estudante no país em 1991. Logo, e recordando uma ideia com que se inaugurou o artigo, as reflexões de um pensador ou criativo estão condicionadas pela maneira de ver própria que se insere e enraíza na sua cultura.

Para Wu Zhiliang os portugueses são ainda os descendentes dos heróis do mar que chegaram à China e a Macau, cruzando destemidamente os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico e, nos nossos dias, são os grandes impulsionadores do diálogo cultural do século XVI, proporcionando um encontro de culturas que foi extremamente benéfico para os chineses, porque os abriu a outros mundos, despertando-os para um modo ser complementar ao chinês, que ele descreve como submisso e tranquilo. O mais valorizado na introdução e conclusão dos sucessivos retratos de Portugal fornecidos por estas Crónicas são as novas características com que os chineses e outros povos orientais são confrontados no seu relacionamento com os portugueses, sobretudo, o espírito ativo, inquieto e desassossegado, que cruzou “a magia de Alá com os Bodhisattvas indianos, o Tao chinês e a meditação japonesa com o espírito totalmente inquieto do Ocidente. Na nascente da força descobridora, espiritualizada e vazia, Oriente e Ocidente convergem num só neste humilde e silencioso “vazio”, a raiz de todas as coisas que se transforma numa imensa e infinita liberdade.《要以安拉的魔法,印度人的菩薩,中國人的道,日本人的禪,以及西方那充滿騷動的精神,來發現力的本源,在那裡,神意味着虛無。在這力的源泉中,東西方交融在一處,我們在 “無”這個萬物之本的謙卑和寂寞中,變得無比自由。》(Wu, 1991,1/ 2).

Enfatiza Wu Zhiliang ao longo da obra e, também nas notas finais, que os vários encontros, incluindo académicos, proporcionados pelas instituições do território de Macau são um contributo inestimável para a amizade e diálogo culturais, sendo esta a perspetiva correta do ponto de vista do autor para avaliar o papel dos portugueses no mundo, que em plena época contemporânea ainda remonta ao seu grandioso passado histórico, muito à semelhança do que sucede aos pensadores e escritores portugueses, mesmo aos mais imparciais como é o caso de Miguel Torga (1907-1995).

Este escritor nascido em São Martinho de Anta, médico de profissão, conhece bem o seu povo, as suas alegrias e tristezas, riquezas, misérias e superações. Num retrato muito bem conseguido do país em tempos salazaristas escreve Portugal, cuja primeira edição data em Coimbra de 1950, assumindo perspetivas muito claras em relação ao passado histórico português aquém e além-fronteiras. Aquém-fronteiras domina a marítima, versátil, cosmopolita e aventureira capital de Lisboa contra a telúrica cidade do Porto, realista e voltada para as suas raízes. Ao longo da obra vai tecendo considerações oportunas e incisivas sobre a mentalidade portuguesa, que conduzem a uma imagem que nos dias de hoje talvez desague para as gentes aventureiras na personagem da novela Senhor Ventura, obra datada de 1991. Esta transporta-nos até à China.

Voltando a Portugal, o autor estreia a obra pelo Minho onde tece considerações sobre o modo como os portugueses empobrecidos se relacionam com a vida do mar e da emigração: “De vez em quando poderá ter um acesso de fúria e tentar fugir de si. Baldada ilusão. Aonde chegar será sempre ele ainda, a morrer de saudades e a sonhar o regresso da aventura com uma pequena reforma. Como bálsamo, restar-lhe-á o narcisismo das façanhas passadas e o somático contentamento de ver crescer e progredir os mundos que descobriu e civilizou.” (Torga, 2003, 17). Muitos eram os emigrantes do antigo regime que tal como hoje partiram: a diferença é que atualmente estão muito mais bem preparados e educados. Os portugueses que emigram são, na sua maioria, quadros qualificados detentores de vários graus e diplomas nacionais, ostentando uma formação sólida e apetecida pelo mundo fora.

Mas se as pessoas evoluíram em termos sociais, a mentalidade não mudou assim tanto relativamente à maneira como se relacionam com o seu passado histórico, nem no gosto do risco e da aventura que as impele para fora do país. A esperança será sempre a de uma vida melhor, embora os passos para a alcançar nem sempre sejam bem medidos. O autor quando descreve Trás-os-Montes, as suas berças, diz-nos a respeito dos emigrantes “Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos (se não tiver sido antes), depois da militância, alguns emigram para as Arábias de além-mar. Brasis, Áfricas e Oceanias, metem toda a quimera numa saca de retalhos e lá vão eles” (Torga, 2003, 50).

Eis um traço de a mentalidade portuguesa que se mantém em regime constante desde os Descobrimentos, a vontade e a necessidade de partir não apenas por falta de oportunidades, mas também pela sede de aventura, assim como a naturalidade na miscigenação, que bem se nota na capital de Portugal já desde os tempos de” Dona Filipa de Lencastre a parir por conta da grei portuguesa de fora” (Torga, 2003, 77), ou até mais além, desde a própria fundação da terra derivada da energia de um filho de pai francês e mãe espanhola.

Porém, o maior perigo para Portugal e para a coletividade como um todo é, de acordo com a perspetiva de Torga, desperdiçar a força anímica dos portugueses e dos seus rasgos em aventuras inconsequentes que em nada possam contribuir para os seus projetos de vida individuais e/ou para o bem comum, mas que narcisicamente insistimos em reviver. Diz-nos a propósito de Lisboa “Narcisos que fomos também um dia, esperava-nos um destino igual ao do filho de Céfiso. Lisboa é essa flor em que o destino nos transformou; o Tejo, o rio onde nos perdemos a contemplar a nossa própria imagem” (Torga, 2003, 136).

É justamente este misto de orgulho, vaidade e iniciativa que mostra a obra O Senhor Ventura. O protagonista é um homem de Penedono, no Alentejo, mas de múltiplos recursos e capaz de deitar mão a qualquer obra. Com uma constituição possante e taurina, depois de uma aventurosa experiência de serviço militar que o conduz a Macau e a um pequeno romance logo contrariado com Júlia, a filha do secretário do Governador, desertou da tropa e fez-se ao mundo como marinheiro a bordo de um navio que fazia cabotagem no mar da China. Daí passou a empregado numa garagem da casa Ford em Pequim, onde fez amizade com o Pereira um homem do Minho que cozinhava muito bem, tendo sido ele seu companheiro de aventuras até à morte. Entretanto, o Ventura cai nas boas graças do patrão da Ford, o Sr. Hughes por ser “um homem de pulso e iniciativa” (Torga, 2003, 26). Na vida, fez de tudo um pouco, traficou drogas e armamento, foi pirata, raptou, conduziu 200 camiões até à Mongólia e para sua desdita apaixonou-se por uma russa de vida pouco recomendável, a Tatiana. Embora avisado, até por si mesmo, porque o par se dava muito mal, quis casar com ela de quem teve um filho, o Sérgio. Foi então que resolveu enriquecer metendo-se no tráfico de droga, mais concretamente de heroína. Este novo ramo de atividade correu-lhe mal, foi descoberto pelas autoridades chinesas e teve de regressar a Portugal, deixando o filho ao cuidado da mulher, que o traiu, assim que virou costas. Regressou ao Alentejo num período de 5 anos para que as autoridades chinesas se esquecessem do assunto.

Enfim, esteve em Portugal e regressou à China quando descobriu que a mulher o tinha traído. Procurou-a por todo o lado até que já moribundo foi ela quem o encontrou para lhe fechar os olhos no seu leito de morte. A palavra que melhor caracteriza o Senhor Ventura é segundo o autor “Acção – era a sua grande palavra.” (Torga, 2003,64).

O escritor tem o cuidado de advertir a respeito desta história: “em cada paragem não faço mais do que tentar uma pequena meditação sobre o destino que é mais colectivo do que individual” (Torga, 2003, 70), acrescentando que o facto de estar o alentejano de regresso à terra é um chamamento do destino, imperioso, para o recolocar em contacto com as raízes, numa nova oportunidade de vida. O protagonista rejeita a chance, devido à obsessão que sentia pela sua paixão russa e que o vai conduzir à morte, rematando o autor com a seguinte reflexão: “Mãos estranhas enterraram no dia seguinte o corpo mirrado do pobre aventureiro na terra estrangeira onde devia pagar o preço das suas aventuras.” (Torga, 2003, 100).

Das duas imagens estrangeiras e mais distantes dos portugueses, uma crítica e lúdica pelas mãos do artista francês Fabrice Caro (Fabcaro), outra enaltecedora e muito positiva transmitida pelo pensador chinês, Wu Zhiliang, a que se junta uma terceira mais realista e próxima transmitida pelo escritor português, não se pode concluir que haja apenas uma verdadeira. O retrato coletivo só em conjunto e numa espécie de perspetivismo nietzschiano se pode obter dos traços essenciais da mentalidade portuguesa contemporânea, moldada, como viu bem o artista francês, por séculos de apagamento, mas também pela consciência das façanhas gloriosas de um passado intercultural que se prolonga até ao presente, segundo Wu Zhiliang, ou ainda pela sede de ação e de aventura que, quando não é devidamente estruturada e enraizada em sólidos planos individuais e coletivos, pode conduzir a um inoportuno beco sem saída.

Referências Bibliográficas

Fabcaro, 2025. Astérix na Lusitânia. Tradução de Maria José Pereira e Paula Caetano. Desenhos de Didier Conrad. Cor de Thierry Mébarki. Alfragide: Edições Asa.

Torga, Miguel. 2003. Portugal. Lisboa: Herdeiros de Miguel Torga José Manuel Rodrigues e Publicações Dom Quixote.

Torga, Miguel. 1991. O Senhor Ventura. Coimbra: Círculo dos Leitores

Wu Zhiliang (吴志良). 1991. Crónicas de Portugal 葡萄牙印象Macau: Associação Mundial de Intercâmbios Culturais e Artísticos (Macau) com o patrocínio da Fundação Oriente e Fundação macau.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. https://www.cccm.gov.pt

Arquitectura | Johannes Widodo fala sobre cidades e modernismo esta semana

O arquitecto e investigador Johannes Widodo dá, esta semana, duas palestras com o cunho da associação Docomomo. Uma delas é “Reenquadrando o Modernismo: Modernidades Fundamentadas no Mediterrâneo da Ásia”, a ter lugar na Fundação Rui Cunha, enquanto a Casa Garden acolhe um debate em torno da habitação pública de Singapura

Decorrem esta semana duas palestras de arquitectura promovidas pela associação Docomomo Macau, e que contam com a presença do arquitecto e investigador Johannes Widodo. Uma delas, acontece na Fundação Rui Cunha (FRC) esta sexta-feira, intitulando-se “Reenquadrando o Modernismo: Modernidades Fundamentadas no Mediterrâneo da Ásia”. Trata-se de uma conversa que se insere no ciclo de palestras “Revisitando o Modernismo e o seu Impacto na Ásia”. Esta sessão começa às 18h45.

Com este evento, pretende-se “revisitar o conceito de modernismo através de uma lente asiática, desafiando as narrativas eurocêntricas dominantes”, propondo-se “uma reformulação enraizada nos contextos culturais e ambientais locais”.

A Docomomo descreve, numa nota, a Declaração de Macau da mAAN (modern Asian Architecture Network) de 2001, que “afirmou a Ásia como uma fonte dinâmica de identidade moldada pela industrialização, colonização e interacção sustentada com o Ocidente”.

Nesse contexto, a palestra visa redefinir “o modernismo e a modernidade asiáticos com uma mudança deliberada de ênfase: um ‘a’ minúsculo para arquitectura, um ‘m’ minúsculo para modernismo e um ‘s’ para modernismos plurais”. Este “reposicionamento linguístico” não é mais do que uma reflexão “da multiplicidade e a natureza fundamentada das experiências modernas em toda a Ásia”.

“Tendo foco no Sudeste Asiático e na região em torno do ‘Mar Mediterrâneo da Ásia’, onde Macau está situada, a palestra destaca expressões arquitectónicas que incorporam respostas locais às influências globais”, ilustrando-se “como a arquitectura moderna na Ásia é um testemunho da engenhosidade das gerações passadas e uma base para a resiliência cultural futura”.

Na conversa de sexta-feira, irão também revisitar-se “os princípios estabelecidos na Declaração da mAAN”, defendendo-se “um compromisso renovado com a documentação, conservação e envolvimento crítico com o património arquitectónico moderno da Ásia”.

O caso de Singapura

Na quinta-feira é dia da Casa Garden, sede da Fundação Oriente (FO), receber outra palestra de Johannes Widodo, desta vez sobre o caso particular da habitação pública em Singapura. “From Sit to HDB: Singapore’s Public Housing Morphology and Policy In The 20th Century” acontece a partir das 18h45 e conta com moderação do arquitecto, e membro da Docomomo, Tiago Rebocho.

Nesta sessão irá traçar-se “a trajectória da habitação pública em Singapura, desde o Singapore Improvement Trust (SIT) da década de 1920 até o Housing & Development Board (HDB), fundado em 1960, destacando-se a mudança da habitação social colonial para uma estratégia de desenvolvimento nacional”.

Será analisado o caso do Fundo Central de Previdência, que “possibilitou a aquisição generalizada de habitação própria”, e também “como as políticas urbanas de Singapura enfrentaram os desafios da escassez de terrenos, da diversidade cultural e da sustentabilidade”.

Desta forma, “através da análise espacial e política, a palestra explora a evolução morfológica da habitação HDB e o seu papel na formação da coesão social, identidade e resiliência ambiental”, promovendo-se ainda uma reflexão “sobre desafios futuros, como o envelhecimento dos bairros, a inclusão e a adaptação climática”.

Johannes Widodo é professor na Universidade Nacional de Singapura e é fundador executivo da mAAN (Rede de Arquitectura Asiática Moderna), pertencendo também ao comité executivo da Academia Asiática para Gestão do Património. Além disso, é também júri do Prémio UNESCO Ásia-Pacífico para Conservação do Património Cultural e fundador da Docomomo para os territórios de Macau e Singapura.

Mercado de San Kio e Festival de Gastronomia em destaque nas próximas semanas

Decorrem nas próximas semanas uma série de eventos que visam fomentar o turismo comunitário, apoiados e promovidas pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST). Entre a cultura, gastronomia e desporto, haverá oportunidade para residentes e turistas explorarem as ruas do território.

Uma das iniciativas já arrancou e dura até ao dia 20 de Novembro, sempre aos fins-de-semana (sexta-feira, sábado e domingo). É o “2025 San Kio Traditional Market Tour”, a ter lugar no Largo do Templo de San Kio, Jardim San Kio, Rua da Emenda e Rua da Erva.

Segundo uma nota da DST, as actividades “incluem tendas de jogos, visitas guiadas aos bairros comunitários, sorteio de fim-de-semana, benefícios de consumo no bairro de San Kio e breves actuações de rua”, sem esquecer workshops e “cinco feiras temáticas”.

Outro evento, é o “2025 Ferreira de Almeida Festival”, a decorrer até ao fim deste mês, na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, na freguesia de São Lázaro. Acontecem “exposições, feiras, workshops, espectáculos, carnaval e exibições”, sendo que seis das actividades incluem o Carnaval de São Lázaro, um workshop sobre Macau com o Grande Prémio como tema ou a exibição de curtas-metragens, entre outras.

Destaque ainda para o “Roving Manduco – Street Life Festival”, que começa esta semana, sábado, e acontece até ao dia 30 deste mês, sempre aos sábados e domingos. Abrange-se a Rua da Praia do Manduco, o Pátio da Restauração, a Zona da Doca da Barra e as zonas envolventes, com “destaques variados, como um mercado de tendas que reúne objectos característicos, espectáculos teatrais e musicais sucessivos”, sem esquecer “visitas guiadas para levar os participantes a viajar na história e a ter a experiência de tomar chá na rua”.

Festejar com comida

Novembro é também o mês do 25º Festival de Gastronomia de Macau, com data marcada para os dias 14 a 30 deste mês, durando 17 dias consecutivos na Praça do Lago Sai Van.

O público e os amantes das comidas das mais variadas origens podem esperar mais de 100 estabelecimentos de restauração e bebidas de Macau, comidas típicas, espectáculos de palco e tendas de jogos apelativos. A DST pretende, com este evento, “demonstrar a cultura gastronómica diversificada de Macau, na qualidade de Cidade Criativa de Gastronomia, enriquecendo a experiência gastronómica dos visitantes e residentes”.

Na área do desporto, a DST promove ainda, até ao dia 9 deste mês, a “Sports Carnival: National Games Celebration Party”, a pensar na 15ª edição dos Jogos Nacionais. O evento compõe-se de “várias actividades, tais como Torneio Juvenil da Liga de Ouro 3×3 em Macau, tendas de indústrias culturais e criativas, tendas de gastronomia, espectáculos culturais e artísticos”, entre tantas outras.

Os Jogos Nacionais são também destaque nos “15th National Games – Cheer Up! Community Fun Day”, a decorrer entre os dias 8 e 16 de Novembro na antiga Fábrica de Panchões Iec Long, na Taipa velha. Trata-se de uma actividade com “tendas de divertimento temáticas de desporto”, com o foco em várias modalidades, e acontece sempre aos sábados e domingos.

Hotelaria atinge um novo recorde com 10,9 milhões de hóspedes

Os estabelecimentos hoteleiros acolheram mais de 10,9 milhões de hóspedes até Setembro, um novo recorde máximo para os primeiros nove meses de um ano, foi sexta-feira anunciado.

De acordo com dados oficiais da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), este valor representa um aumento de 0,1 por cento em comparação com igual período de 2024. Além disso, é o número mais elevado desde que a DSEC começou a compilar estes dados, em 1998, ainda antes da transição de administração de Macau, de Portugal para a China.

Com mais hóspedes, os estabelecimentos hoteleiros do território tiveram 89,3 por cento dos quartos ocupados entre Janeiro e Setembro, mais 3,9 pontos percentuais do que no mesmo período de 2024 e a taxa mais alta desde o início da pandemia de covid-19. No final de Setembro, Macau tinha 147 hotéis e pensões, mais três do que no ano passado e um máximo histórico, disponibilizando cerca de 45 mil quartos, referiu a DSEC.

Mais hotéis

Também no mês passado, estavam a ser construídos três hotéis, com um total de 204 quartos, e em fase de projecto mais nove, que poderão disponibilizar mil quartos, anunciou na sexta-feira a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana de Macau. A região recebeu nos primeiros nove meses 29,7 milhões de visitantes, mais 14,5 por cento do que no mesmo período de 2024 e o segundo valor mais elevado de sempre para um arranque de ano.

No entanto, 58,2 por cento dos visitantes (17,3 milhões) chegaram em excursões organizadas e passaram menos de um dia na cidade. Só em Setembro, a taxa de ocupação média dos estabelecimentos hoteleiros recuou 0,1 pontos percentuais, para 84,6 pro cento, enquanto o número de hóspedes permaneceu semelhante ao mesmo mês do ano passado: 1,12 milhões.

Isto apesar de os hotéis terem baixado os preços médios dos quartos para 1.270 patacas, menos 1,1 por cento do que no mesmo mês de 2024, de acordo com dados da Associação de Hotéis de Macau, que reúne 48 estabelecimentos locais. Segundo o relatório, divulgado pela Direcção dos Serviços de Turismo, a descida foi sentida sobretudo nos hotéis de três estrelas, cujo preço médio caiu 5,4 por cento, para 850 patacas.

Os estabelecimentos hoteleiros de Macau acolheram mais de 14,4 milhões de hóspedes em 2024, estabelecendo um novo recorde histórico.

Casinos | Receitas atingem o máximo de seis anos

Nem o impacto do Matmo, que levou a que fosse içado o sinal número 8 de tufão, impediu que em Outubro as receitas do jogo atingissem o valor de 24,1 mil milhões de patacas, um aumento anual de 15,9 por cento

As receitas dos casinos subiram em Outubro 15,9 por cento em comparação com igual período de 2024, atingindo o valor mensal mais elevado dos últimos seis anos.

O sector do jogo arrecadou 24,1 mil milhões de patacas no mês passado, a receita mensal mais alta desde Outubro de 2019, revelou a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), no Sábado. O valor foi alcançado apesar de, devido à passagem do tufão Matmo, as autoridades de Macau terem elevado o sinal de tempestade tropical para o nível 8, o terceiro mais elevado, algo que leva à suspensão dos transportes públicos, em 4 de Outubro.

Algo que coincidiu com a chamada ‘semana dourada’ do Dia Nacional da China, um período de feriados que este ano se prolongou por oito dias, mais um do que em 2024, graças à proximidade do Festival do Bolo Lunar. Macau recebeu um total de 1,14 milhões de visitantes, mais 16,5 por cento do que no mesmo período de 2024, incluindo mais de 191 mil só no dia 4 de Outubro, o valor diário mais elevado para a ‘semana dourada’ de Outubro.

Melhor que o esperado

A subida homóloga de 15,9 por cento nas receitas em Outubro ultrapassou as expectativas dos analistas. A consultora JP Morgan Securities tinha previsto um aumento entre 3 por cento e 6 por cento, enquanto o analista da Seaport Research Partners Vitaly Umansky esperava um crescimento de 10 por cento.

O valor registado em Outubro representa 91,1 por cento do atingido no mesmo mês de 2019, antes do início da pandemia de covid-19, quando os casinos de Macau tiveram receitas de 26,4 mil milhões de patacas. Em termos de receita bruta acumulada, os primeiros dez meses de 2025 registaram um aumento de 8 por cento em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo 205,4 mil milhões de patacas.

Macau fechou 2024 com receitas totais de 226,8 mil milhões de patacas, mais 23,9 por cento do que no ano anterior. O Governo previu, no orçamento inicial para 2025, que o ano iria fechar com receitas totais de 240 mil milhões de patacas, o que representaria um aumento de 6 por cento em comparação com o ano passado.

Mas, em 11 de Junho, a Assembleia Legislativa aprovou um novo orçamento, proposto pelo Executivo, que reduz em 4,56 mil milhões de patacas a previsão para as receitas públicas.

Aviação | Número de voos com quebra até Setembro

Entre Janeiro e Setembro, o número de voos comerciais no Aeroporto Internacional de Macau apresentou uma redução anual de 3,8 por cento. Os números foram revelados na sexta-feira pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos. Até Setembro, registou-se assim um total de 40.797 voos de passageiros a utilizar o aeroporto local.

Apesar desta redução, quando a comparação é feita tendo em conta apenas o mês de Setembro houve mais aviões a utilizar o aeroporto, num total de 4.256 voos. Este foi um aumento anual de 2,6 por cento, face Setembro do ano passado.

Entre Janeiro e Setembro, houve também uma redução anual de 3,1 por cento no movimento de embarcações de passageiros, num total de 57.884 movimentos. Se a análise focar apenas Setembro, a redução anual foi mais significativa, de 12,5 por cento, num total de 5.373 movimentos.

Investigação | Rita Santos afirma ter sido alvo de ataque de carácter

Face ao arquivamento da investigação em Portugal devido a interferência nas Legislativa de 2024, Rita Santos considerou ter sido alvo de um ataque de carácter e afirmou ter colaborado de forma activa na investigação.

“Durante todo o processo colaborei sempre de forma activa com as autoridades portuguesas na descoberta da verdade material e, com isso, na protecção do meu bom nome, honradez e carácter impoluto, suportado na confiança que a comunidade Macaense deposita em mim, a qual jamais defraudarei”, afirmou a conselheira das comunidades portuguesas com mandato suspenso, através de comunicado enviado às redacções.

DSEC | Economia acelera e desemprego diminui

Ao mesmo tempo que a economia apresentou um crescimento de 8 por cento, o desemprego registou uma quebra para 1,8 por cento. No entanto, os casinos têm agora menos pessoas empregadas

A economia cresceu 8 por cento em termos homólogos no terceiro trimestre, mais 2,9 pontos percentuais do que no período anterior, depois da primeira queda em dois anos, foi sexta-feira anunciado. Entre Julho e Setembro, o Produto Interno Bruto (PIB) de Macau atingiu 103,86 mil milhões de patacas, adiantou a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC).

Num comunicado, a DSEC sublinhou o “acréscimo contínuo das exportações de serviços, impulsionado pelo aumento notável do número de visitantes que beneficiou tanto da época alta do turismo (férias de Verão) como do desenvolvimento sustentável do ramo de actividade económica do turismo”.

O benefício económico dos serviços – cuja maioria advêm do turismo, o sector que domina a economia de Macau – subiu 10,5 por cento, com a DSEC a apontar para um aumento de 13,6 por cento, para quase 10,5 milhões, no número de visitantes no terceiro trimestre.

A DSEC mencionou também a “manutenção de estabilidade da despesa de consumo privado no mercado local”, que aumentou 0,8 por cento em termos homólogos. Já as despesas do Governo, subiram 2,7 por cento. Pelo contrário, o investimento em infra-estruturas e equipamento caiu 26,1 por cento, “em virtude do decréscimo do número de obras de construção privadas e públicas”, referiu a DSEC.

No terceiro trimestre, a economia de Macau representava 92,6 por cento do volume económico no mesmo período de 2019, pelo que ainda está abaixo dos números pré-covid-19. A economia de Macau tinha crescido 5,1 por cento no segundo trimestre, depois de encolher 1,3 por cento entre Janeiro e Março, a primeira queda do PIB do território desde o final de 2022.

Desemprego em queda

As estatísticas divulgadas pela DSEC mostram também que houve uma redução do desemprego no terceiro trimestre para 1,8 por cento entre Julho e Setembro, o valor mais baixo desde Fevereiro, apesar do encerramento de dois ‘casinos-satélite’. De acordo com a DSEC, o indicador diminuiu 0,2 pontos percentuais em comparação com o período entre Junho e Agosto, com o número de desempregados a recuar em cerca de 700, para 6.900.

A taxa representa menos de metade do registado no terceiro trimestre de 2022 (4 por cento), o valor mais alto desde 2006. Segundo dados oficiais, a construção contratou mais 8.300 pessoas, em comparação com o período entre Junho e Agosto, enquanto a mão-de-obra nos restaurantes aumentou em cerca de 2.500.

Em sentido contrário, os casinos despediram cerca de 200 pessoas. Em Junho, o Governo anunciou que as concessionárias de jogo comunicaram o fim da exploração dos 11 ‘casinos-satélite’, onde trabalham cerca de 5.600 residentes.

Desenvolvimento Comunitário | Ng Kuok Cheong anuncia saída

O ex-deputado Ng Kuok Cheong anunciou oficialmente que abandonou a associação Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário de Macau a 31 de Outubro. A posição foi tomada através de uma publicação na rede social Facebook. A plataforma política Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário de Macau foi criada em 2015 e cessou as operações em 2022.

Esta plataforma política chegou a servir de base às listas de Ng Kouk Cheong e de Au Kam San como candidatos à Assembleia Legislativa.

Au Kam San está actualmente em prisão preventiva em Coloane e é o primeiro caso na RAEM de um cidadão acusado de violar a lei da Segurança Nacional. A Polícia Judiciária acusou o ex-deputado de fornecer informações “falsas” a associações fora de Macau.

Imprensa | Associação manifesta preocupações

Uma associação de profissionais da comunicação social demonstrou preocupação com o silêncio de Portugal face ao anúncio do encerramento do jornal ‘online’ e publicação mensal impressa All About Macau.

A Sociedade de Jornalistas e Profissionais da Comunicação Europeus na Ásia (JOCPA) manifestou “profunda preocupação com o silêncio das autoridades e das instituições internacionais — incluindo Portugal e a União Europeia” (UE).

Lisboa e Bruxelas “têm a responsabilidade moral e histórica de defender o Estado de direito e os direitos fundamentais, incluindo a liberdade de imprensa e de expressão”, defendeu o presidente da JOCPA, Josep Solano, citado num comunicado. O All About Macau anunciou na quinta-feira que vai encerrar devido a “pressões crescentes”, falta de recursos e por processos judiciais no território contra três dos seus jornalistas.

Turismo | Mais cidades com vistos para quadros qualificados

A Administração Nacional de Imigração anunciou ontem que foram incluídas mais cidades da China continental na medida de concessão de vistos para quadros qualificados virem até Macau em turismo. Tratam-se das cidades da região do Delta do Rio Yangtzé e das zonas Pequim-Tianjin-Hebei

O país decidiu expandir a política de atribuição de vistos turísticos para quadros qualificados com destino à RAEM, a cidadãos fora da zona da Grande Baía e cidades de Pequim e Xangai.

Isto porque a Administração Nacional de Imigração anunciou ontem, em comunicado, a expansão do número de cidades ligadas à implementação da política de concessão de vistos para quadros qualificados para a entrada em Macau e Hong Kong. Foram também anunciadas mais medidas para “a abertura de alto nível” do país e “desenvolvimento de alta qualidade”.

O programa de vistos passa, então, a incluir os cidadãos que são considerados quadros qualificados de zonas como a região do Delta do Rio Yangtzé e Pequim-Tianjin-Hebei, bem como em todas as zonas de comércio livre. O pedido de visto pode ser feito a partir de amanhã.

Segundo a mesma nota, existem seis categorias para os quadros qualificados abrangidos nesta política, que têm de ser quadros de excelência, quadros de pesquisa científica, quadros de educação, quadros de saúde, quadros de direito e quadros de administração. Os candidatos devem trabalhar nas cidades abrangidas na medida e podem pedir um visto com duração de 1 a 5 anos. Trata-se de um visto com múltiplas entradas e cada estadia deve ser inferior a 30 dias, devendo ser apresentados os documentos comprovativos da situação laboral e residencial.

Além disso, a partir de 20 de Novembro, os cidadãos da China com visto de visita familiar para deslocações a Macau e Hong Kong podem pedir a renovação do visto no prazo de sete dias úteis antes do período de permanência. A Administração Nacional de Imigração explicou que, com esta medida, pretende dar maior conveniência a este grupo de cidadãos.

Novos postos

Também a partir de amanhã, haverá mais cinco postos fronteiriços da província de Guangdong, incluindo de Hengqin e da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, que vão estar abrangidos pela política de isenção de visto em 240 horas. O número total dos postos fronteiriços integrados nesta medida passa, assim, dos actuais 60 para 65.

Os cidadãos de 55 países sujeitos à isenção de visto podem entrar na China através destes 65 postos fronteiriços, sendo que durante o período de permanência de 240 horas podem viajar, fazer viagens de negócios e visitar o território. No entanto, para as actividades com necessidade de aprovação prévia, nomeadamente acções de trabalho, estudo ou cobertura noticiosa, continua a ser necessário pedir visto.

Outro destaque, vai para o facto de mais postos fronteiriços, incluindo os de Hengqin e da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, aceitarem o pedido da leitura de rosto. Actualmente, apenas o Posto Fronteiriço de Gongbei e o Posto Fronteiriço da Baía de Shenzhen aplicam este método de passagem na fronteira.

LAG | Executivo recebeu 3.548 opiniões e sugestões

O Governo recebeu um total de 3.548 opiniões e sugestões no âmbito da elaboração das Linhas de Acção Governativa para o próximo ano. O número foi revelado através de um comunicado, com o cheque pecuniário a ser o tema mais abordado por residentes e associações.

Segundo os dados apresentados, as três áreas com mais opiniões apresentadas foram o “bem-estar e serviços à população” (2.232 opiniões, 28,10 por cento das opiniões), “emprego e direitos laborais” (1.199 opiniões, 15,10 por cento) e “transportes” (643 opiniões, 8,10 por cento). A “administração pública” e “cultura, educação e desporto” ficaram em quarto e quinto lugar, com 6,69 por cento ​​e 6,41 por cento.

Os temos mais populares foram a “comparticipação pecuniária” (7,10 por cento das opiniões), o “emprego” (6,94 por cento) e a “questões dos transportes além dos transportes públicos” (5,46 por cento).

Sobre a questão da comparticipação pecuniária, que foi alterada este ano, passando a abranger apenas as pessoas que passam meio ano em Macau ou na Grande Baía, excluindo Hong Kong, o Executivo diz que a maioria das opiniões defendem a manutenção do sistema actual, embora com “mudanças no requerimento de atribuição”. As opiniões foram recebidas entre 17 de Setembro a 17 de Outubro, principalmente através da Conta Única.