Timor-Leste | Xanana Gusmão em visita oficial a Portugal Hoje Macau - 13 Out 2024 O líder do governo timorense tem uma agenda apertada com deslocações aos Açores, lançamento de livros e a assinatura do Programa Estratégico de Cooperação para o período 2024-2028 no valor de 75 milhões de euros O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, iniciou sábado uma visita oficial a Portugal durante a qual será assinado o Programa Estratégico de Cooperação para o período 2024-2028 e mais dois acordos relativos a reabilitação de património e infraestruturas. O novo Programa Estratégico de Cooperação para o período 2024-2028 tem o valor de 75 milhões de euros e terá cinco áreas prioritárias, nomeadamente Desenvolvimento Humano, Estado de Direito e Boa Governação, Administração Pública, Finanças Públicas e Economia, Juventude e Emprego e Oceanos Sustentabilidade e Infraestruturas. O último PEC entre os dois Estados, que vigorou no período 2019-2023, teve uma execução de 102 por cento e tinha um envelope financeiro de 70 milhões de euros para intervenções nos setores de Consolidação do Estado de Direito e Boa Governação, Educação, Formação e Cultura e Desenvolvimento Socioeconómico Inclusivo. Programa das festas Para hoje, estão marcados encontros com o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, e com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, quando se realizará também um jantar oficial, oferecido pelo chefe do Governo português. Na terça-feira, Xanana Gusmão viaja para a ilha do Faial, no arquipélago dos Açores, onde vai ter vários encontros, incluindo com o presidente da Assembleia Legislativa Regional, Luís Garcia. No Faial, onde vai permanecer até quarta-feira, o primeiro-ministro timorense vai visitar também a Escola do Mar dos Açores, o edifício das actividades marítimas e turísticas, o Instituto de Investigação em Ciências do Mar e o Observatório do Mar dos Açores. Na quinta-feira à tarde, já em Lisboa, Xanana Gusmão participa na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa numa sessão solene e lança dois livros, nomeadamente um de discursos com o título “Dalan ba Dame” e um de poemas denominado “Mauberíadas”. Os livros vão ser apresentados pelo antigo chefe da diplomacia portuguesa, Luís Amado. Xanana Gusmão vai, na visita oficial a Portugal, liderar uma delegação que inclui o vice-primeiro-ministro, ministro coordenador dos Assuntos Económicos e ministro do Turismo, Francisco Kalbuadi Lay, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Bendito Freitas, e ainda os ministros da Educação, Dulce Neves, do Ensino Superior, José Jerónimo, da Justiça, Sérgio Hornai, e do Interior, Francisco Guterres, bem como o secretário de Estado da Comunicação Social, Expedito Ximenes, e o presidente da Câmara de Comércio e Indústria timorense, Jorge Serrano.
China | Anunciadas grandes divergências nas negociações com UE sobre carros eléctricos Hoje Macau - 13 Out 2024 O Ministério do Comércio chinês anunciou no sábado que as discussões em Bruxelas sobre os direitos aduaneiros impostos pela União Europeia aos veículos eléctricos importados da China terminaram com a observação de que permanecem “grandes divergências”. “Ainda existem grandes diferenças entre os dois lados. Até agora, as consultas não resultaram numa solução aceitável para ambos os lados”, disse o ministério num comunicado, acrescentando que convidou negociadores da União Europeia (UE) para a próxima ronda de negociações na China. Na sexta-feira, o Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, apelou à China para que “adapte o seu comportamento” de forma a aliviar as tensões comerciais com Bruxelas, na sequência de uma série de medidas aduaneiras contestadas por ambas as partes. “Contamos com a China para adaptar o seu comportamento e compreender que é necessário reequilibrar as relações económicas para uma maior equidade, para uma concorrência leal”, afirmou o dirigente, que se encontrou com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, à margem da cimeira da Associação das Nações do Sudeste Asiático, no Laos. Charles Michel disse esperar que se chegue a um acordo nos próximos dias ou semanas, embora o contexto seja “muito difícil”. Na passada terça-feira, Pequim impôs mais condições para a importação de brandy europeu – sobretudo conhaque francês – na sequência da decisão de Bruxelas de impor taxas alfandegárias punitivas sobre os automóveis eléctricos fabricados na China. A Comissão Europeia acusa Pequim de distorcer a concorrência ao subsidiar os fabricantes no seu território, permitindo-lhes oferecer preços mais baixos. A China retaliou lançando inquéritos ‘antidumping’ sobre a carne de porco e os produtos lácteos.
Pequim anuncia emissão de obrigações no valor de quase 300 mil milhões de euros Hoje Macau - 13 Out 2024 A gigantesca injecção financeira visa dar um novo ânimo ao desenvolvimento da economia chinesa O ministro das Finanças chinês anunciou no sábado que a emissão de quase 300 mil milhões de euros em obrigações especiais do Tesouro para reanimar a segunda maior economia do mundo, que está a perder dinamismo. Pequim vai emitir “obrigações especiais do Tesouro” para “ajudar os grandes bancos comerciais estatais a reconstituir a base de capital, melhorar a resistência ao risco e capacidade de empréstimo e servir melhor o desenvolvimento da economia”, afirmou Lan Fo’an, em conferência de imprensa. “Nos próximos três meses, um total de 2,3 biliões de yuan em obrigações especiais estará disponível para utilização”, acrescentou. Esta despesa pública vem juntar-se a uma série de medidas anunciadas nas últimas semanas, incluindo a redução das taxas de juro e a concessão de liquidez aos bancos. Pequim vai também aumentar o limite máximo da dívida das autoridades locais para que estas possam gastar mais em infra-estruturas e aumentar o emprego. O Governo central chinês ainda tem “uma margem considerável” para emitir dívida e aumentar o défice e vai continuar a estudar possíveis medidas anticíclicas, disse Lan. O responsável procurou acalmar os receios de muitos analistas e investidores, que apontavam precisamente a sustentabilidade da dívida como um possível travão ao aumento da despesa pública para relançar o crescimento da segunda maior economia do mundo, que não tem sido o esperado após o fim dos anos das restrições impostas para combater a pandemia da covid-19. A cobrança de impostos deste ano será inferior ao previsto, mas o sistema mostra resiliência suficiente para equilibrar receitas e despesas, disse o ministro, sem números específicos sobre os estímulos fiscais. Em andamento Na manhã de sábado, a emissora estatal CCTV noticiou que os principais bancos chineses vão baixar as taxas de juro da maioria dos empréstimos à habitação a partir de dia 25, em conformidade com um pedido feito pelo banco central em Setembro. No ano passado, a China registou uma das taxas de crescimento mais fracas das últimas três décadas. Lan avançou outras iniciativas para resolver problemas-chave da economia chinesa, como a dívida oculta dos governos locais e regionais – mais de nove biliões de dólares acumulados através de canais de financiamento informais – ou uma crise imobiliária prolongada que parece não estar a chegar ao fim. Em relação à primeira questão, o plano consiste em aumentar o limite máximo da dívida “numa escala relativamente grande”, a título excepcional, com o objectivo de trocar estes passivos ocultos e, assim, ajudar as administrações locais a reduzir os seus riscos de endividamento, um plano cujos pormenores serão conhecidos quando os respectivos procedimentos legais estiverem resolvidos. Lan precisou que, nos últimos três meses do ano, as regiões do país poderão ainda beneficiar de cerca de 2,3 biliões de yuans em obrigações especiais para acelerar o avanço dos projectos. Relativamente à crise imobiliária, o ministro adjunto das finanças Liao Min afirmou que serão emitidas obrigações a nível da administração local para “abrandar a queda do mercado imobiliário e estabilizá-lo”. Estas obrigações poderão ser utilizadas para comprar terrenos ociosos a promotores imobiliários em dificuldades ou propriedades não vendidas, com o objectivo de as converter em habitações a preços acessíveis, um plano que inicialmente envolvia a construção, mas que agora se centrará mais numa solução para casas já construídas e que não encontraram compradores, a fim de equilibrar a oferta e a procura. Além disso, Liao disse que as Finanças estão a estudar a possibilidade de eliminar o IVA sobre os imóveis residenciais.
Os Barcos de Maravilhas da Dinastia Ming Paulo Maia e Carmo - 13 Out 2024 Zheng He (1371-1433), no regresso da sua quarta grande viagem (1413-15) em que comandou a maior frota de navios de madeira jamais constituída para exposição do poder e grandeza do Império, trouxe, além de enviados de trinta Estados, como tributo ao imperador uma girafa. Trouxe-a de Bengala (no actual Bangladesh), um lugar onde esse animal não existia. Tinha vindo de África, como seria de esperar, já como uma oferta do rei de Melinde (actual Quénia) para esse Estado. Depois de observada pelo imperador Yongle, habituado a receber invulgares animais exóticos, alguns olhando o estranho animal, espantados com o que viam, disseram reconhecer nele o imaginário qilin, a quimera que se dizia surgir para anunciar o advento de um sábio. Da girafa, colocada nos jardins imperiais onde foi cuidada, foram depois feitas pinturas que guardaram o seu inusitado aspecto. Num rolo vertical conservado no Museu de Arte de Filadélfia (tinta e cor sobre seda, 80 x 40,6 cm) ela é apresentada junto do seu tratador e em cima, à esquerda, é identificada como um qilin. Mas, se da perigosa navegação cortando ondas alterosas se podiam esperar eventos incríveis, capazes de estimular auspiciosas fantasias, a necessidade espiritual de navegar, descobrir lugares e pessoas desconhecidos, dominaria a imaginação de literatos durante a dinastia Ming. Muitas vezes e de modo particular na arte da pintura, o antigo relato que Tao Yuanming (365-427) fizera de uma singular viagem solitária em que não eram protagonistas naves de alta proa sulcando os mares, enfrentando ondas colossais, mas um humilde esquife de madeira serpenteando na suave ondulação das águas de um rio, seria recontado e imaginado vezes sem conta. A popularidade da história da Nascente das flores de pessegueiro (Taohua yuan) situada num lugar inacessível, alcançado por acaso com um pequeno bote, ficaria resumida no ditado (chengyu) shiwai taoyuan, «fora do Mundo há uma nascente de flores de pessegueiro». Wang Shichang (1462- depois de 1531), um pintor literato de Jinan (Shandong) imaginou o momento em que um pescador, um «homem de Wuling que se esquecera das distâncias da rota», é recebido com afecto (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 24,4 x 190,5 cm na Galeria de arte da Universidade de Yale). A mesma cena que, no século XVIII, seria figurada no Longo corredor do Palácio de Verão em Pequim. Ao chegar, o pescador espantara-se com o que encontrara: árvores de flores cor-de-rosa prenunciavam o encontro com uma acolhedora comunidade pacífica. O veículo feito com um tronco de árvore que o transportara, discretamente preso na margem, tão comum quanto admirável fora muitas vezes tomado como metáfora por poetas como Zhao Ju, no século III: «Move-se mas não deixa rasto, Não cria raízes mesmo parando, Não tem pressa mas é rápido, É veloz como um cavalo galopando.»
Creative Macau | “Time Pixels” para ver até ao dia 26 Hoje Macau - 13 Out 2024 Foi inaugurada recentemente a nova exposição patente na galeria da Creative Macau, intitulada “Time Pixels – Exposição de Trabalhos de Estudantes de Artes Visuais da Universidade Politécnica de Macau”. Segundo um comunicado, a Creative Macau, enquanto centro de indústrias criativas, “tem vindo a estabelecer uma parceria anual com a Universidade Politécnica de Macau há mais de uma década para apresentar obras de arte criadas por estudantes da Faculdade de Artes e Design”. Assim, em “Time Pixels” apresentam-se 22 obras dos alunos do curso de Artes Visuais concluídas em dois módulos, nomeadamente “Prática Artística Social” e “Sociologia da Arte”. O objectivo destas disciplinas “é orientar os estudantes para a aplicação das suas capacidades artísticas, nas áreas da pintura chinesa, pintura a óleo, gravura, escultura, cerâmica, aos temas sociais”. A exposição gira em torno do conceito “Cronologia da Família”, “adoptado pela primeira vez como o tema que atravessa o ensino e a criação de obras de arte”. Neste contexto, os alunos “foram orientados a investigar as suas histórias familiares, a construir e a integrar as ligações entre o indivíduo, a história familiar e as mudanças na sociedade, e a expor o seu pensamento e prática artística sob a forma de pinturas, esculturas, instalações, fotografias ou textos”. Anteriormente designada por Instituto de Artes Visuais, a Faculdade de Artes e Design da Universidade Politécnica de Macau foi criada pelo Instituto Cultural de Macau em 1989 e incorporada na Universidade Politécnica de Macau em 1993, tendo passado a designar-se Faculdade da Escola das Artes em 2022.
Doci Papiaçam | Coro actua em Lisboa e volta a juntar comunidade Andreia Sofia Silva - 13 Out 2024 Quarta-feira foi um dia especial para a comunidade macaense de Macau e a residir em Lisboa: a actuação do coro do grupo Doci Papiaçam di Macau juntou, na Casa de Macau, macaenses e antigos residentes portugueses que quiseram matar saudades do território. Carlos Piteira, presidente da Casa, anunciou que pode ser criado uma extensão dos Doci em Portugal O coro dos Doci Papiaçam di Macau esteve em Lisboa na última semana a convite do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, a propósito das eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas. Porém, a visita serviu de argumento para uma visita de maior importância: a ida à Casa de Macau em Lisboa, actualmente presidida por Carlos Piteira. Na quarta-feira, ao final da tarde, já se vivia o rebuliço na Casa, localizada na Avenida Almirante Gago Coutinho, com ensaios do coro, as mesas a serem preparadas com petiscos macaenses e membros da comunidade a chegar. Tratou-se de uma actuação que juntou os macaenses que vivem entre cá e lá, no meio de abraços e muitos sorrisos. Já no dia anterior os Doci tinham actuado no Palácio de São Bento, embora tenha sido “uma actuação muito breve”, com apenas duas músicas, conforme descreveu ao HM Miguel de Senna Fernandes, que se mostrou muito satisfeito por poder cantar numa casa que também é sua e de todos os macaenses. “Por falta de tempo só podemos cantar duas músicas. Gostámos de conhecer o Palácio de São Bento, porque não conhecia. Penso que as pessoas ficaram maravilhadas, e havia pessoas que não sabiam que em Macau havia este tipo de projectos.” Do grupo dos Doci vieram a Lisboa apenas alguns integrantes, como foi o caso de Agurtzane Azpiazu, Aleixo Siqueira, Arnaldo Ritchie, Carlos Anok Cabral, Isabela Pedruco, Ivone de Senna Fernandes, José Basto da Silva, José António Carion Jr., Luís Pedruco Novo, Manuel Jesus, Marina de Senna Fernandes e Miguel de Senna Fernandes, Paula Carion e Sónia Palmer. Trata-se de rostos que habitualmente são vistos em palco nas peças dos Doci, em patuá, mas que agora vestiram a pele de cantores, cantando também em patuá. “As letras e arranjos são meus, mas claro que, obedecendo à tradição antiga, as melodias são conhecidas e fazemos a adaptação. Há uma música do Adé, que é o hino”, disse Miguel. O espectáculo arrancou com “Nós Maquista Sâm” [Nós Macaenses Somos], uma letra sobre a personalidade dos macaenses, “gente com paixão” e com “bom coração”, apesar das discussões e coscuvilhices. Seguiu-se “Palavra di Amigo”, “Quelôra Sol Ta Quentá” [Quando o Sol Aquece] e a bem conhecida “Macau Sã Assí” [Macau é Assim], cantada por todos os presentes. Doci em Lisboa Na apresentação do espectáculo, Miguel de Senna Fernandes, autor das músicas e dos arranjos, bem como das peças de patuá, disse estar “sensibilizado” por poder estar com o grupo em Lisboa. “Somos um grupo cujos membros, por acaso, também cantam. Já que viemos a Lisboa, porque não fazer uma visita à Casa de Macau. Faz 25 anos que o grupo dos Doci não actua em Portugal, pelo que faz todo o sentido.” Do lado de Carlos Piteira, destacou-se o facto de o grupo estar naquela que é também a sua casa. “Se tivesse a ideia que a fama dos Doci era esta, teria contratado o Coliseu (risos). A contrapartida é que não vinham à Casa de Macau, e o virem aqui é virem também à vossa casa aqui em Portugal. É um tributo ao patuá, e nós Casa de Macau temos tentado manter este traço identitário paralelamente com a gastronomia. É uma pena estas canções não serem mais divulgadas aqui em Portugal.” O presidente destacou ainda a ideia de vir a criar em Portugal, mais concretamente em Lisboa, uma extensão dos Doci Papiaçam di Macau. “Ainda não é formal, mas estamos a tentar criar um grupo de patuá também aqui em Portugal”, disse. No dia seguinte a esta actuação, na quinta-feira, os Doci estiveram junto à Câmara Municipal de Lisboa a cantar em patuá, por ocasião da cerimónia de encerramento das actividades do Conselho das Comunidades, que reuniu durante três dias.
Empreendedorismo | ‘Startup’ portuguesa vence concurso de inovação Hoje Macau - 13 Out 2024 A ‘startup’ portuguesa Connected venceu o concurso de inovação e empreendedorismo para empresas de tecnologia do Brasil e de Portugal, realizado em Macau. A Connected, criada em 2023, desenvolveu módulos de comunicação entre objectos e aparelhos (conhecida como Internet das coisas) através da rede 5G, que podem ser integrados em satélites de observação da Terra. A tecnologia da empresa, com sede no Porto, pode ter vastas aplicações em áreas como a agricultura, monitorização marítima, infra-estruturas de auto-estradas e instalações de energias renováveis. A tecnologia foi testada no espaço em 2022 e a Connected garantiu um contrato com a Agência Espacial Europeia, que inclui Portugal, em 2023, ano em que conseguiu atrair um investimento total de dois milhões de euros. Um painel de investidores, académicos e especialistas financeiros seleccionou ainda para o pódio dois projectos brasileiros: a SleepUp, uma plataforma de terapias digitais para melhorar o sono, e a Pix Force, especializada em inteligência artificial e análise de dados. O Concurso de Inovação e Empreendedorismo (Macau) para as Empresas de Tecnologia do Brasil e de Portugal 2024 recebeu 64 candidaturas dos dois países e seleccionou 17 finalistas em áreas como biomedicina, dispositivos médicos, novas energias e tecnologia agrícola. Os sete projectos eleitos receberam prémios monetários, com um valor máximo de 150 mil patacas, e garantiram apoio para facilitar o acesso a financiamento chinês e ao mercado da China. O concurso foi organizado pela Direcção dos Serviços de Desenvolvimento Económico e Tecnológico do Governo de Macau e realizado pela incubadora Parafuturo de Macau e pelo Centro de Incubação de Jovens Empreendedores de Macau.
Óbito | Jovem local de 18 anos atropelada em passadeira João Santos Filipe e Nunu Wu - 13 Out 2024 O acidente aconteceu numa passadeira a escassos metros da fronteira de Qingmao. O óbito foi declarado no local. A viatura, um Lamborghini Aventador, tinha dupla matrícula de Macau e Cantão, mas não foram revelados pormenores sobre a identidade do condutor Uma jovem de Macau morreu em Zhuhai, depois de ter sido atropelada por um carro, quando atravessava uma passadeira. O caso aconteceu na madrugada de quarta-feira, e as imagens do embate, captadas por um carro que seguia na estrada, tornaram-se virais na noite do dia seguinte. O acidente terá acontecido por volta da 1h de quarta-feira, quando a mulher atravessava a estrada Guihua South Road na passadeira, a escassos metros da fronteira com Macau de Qingmao. Esta é uma fronteira que só pode ser utilizada por peões, na Zona Norte do território. De acordo com as imagens captadas, por um veículo que circulava no sentido oposto, vários carros abrandaram para ceder passagem à jovem de 18 anos. No entanto, na via mais rápida das quatro existentes naquela rua, surge um carro da marca Lamborghini a velocidade mais elevada, que aparenta não ter visto a jovem até ter chegado à passadeira. O carro tinha dupla matrícula, de Macau e do Cantãoo. Como consequência do embate, a mulher é atingida e projectada no ar durante vários metros. Quando aterra no asfalto, a jovem aparenta ter ficado imediatamente inconsciente. Por sua vez, o condutor do Lamborghini modelo Aventador é visto a parar a viatura e sair para fora do carro, ao telemóvel, embora não se saiba se ligou logo para as autoridades. A informação disponibilizada também não adiantou qualquer dado sobre a identidade do condutor, nem permitiu perceber se um era residente de Macau. Outras imagens colocadas a circular horas mais tarde, mostram os momentos depois das equipas de salvamento terem chegado ao local, com a faixa de rodagem a ser cortada ao trânsito e o corpo da jovem a ser coberto, depois do óbito ter sido declarado no local. Autoridades alertadas Horas depois do acidente, as autoridades de Macau emitiram um comunicado, com poucos detalhes, a revelar que tinham sido informadas sobre o ocorrido e da morte de uma residente em Zhuhai. Nessa mensagem, a única disponível até ao momento, era indicado que as causas do acidente ainda estavam a ser investigadas por parte das autoridades de Cantão. Este é o segundo acidente de trânsito, em pouco mais de um ano, em Zhuhai que resulta na morte de residentes locais. Também em Setembro do ano passado, um residente com 10 anos perdeu a vida num túnel de Gongbei, em Zhuhai, depois da viatura em que seguia se ter avariado na estrada. A viatura imobilizada foi depois abalroada por uma camioneta, o que causou um incêndio. Na altura, o acidente acabou por se revelar polémico, devido às diferentes informações que circularam, e que indicavam que, num primeiro momento, ninguém teria morrido. Contudo, horas mais tarde, o óbito acabaria por ser confirmado.
Economia | Macau e Interior actualizam CEPA Hoje Macau - 13 Out 2024 A partir de Março de 2025, as empresas de Macau vão ter condições mais facilitadas no acesso ao mercado dos serviços do Interior. A novidade foi apresentada no âmbito da versão mais recente do Acordo de Estreitamento das Relações Económicas e Comerciais entre o Interior da China e Macau (CEPA), assinado na sexta-feira, entre Macau e o Interior. Como consequência, os prestadores de serviços de Macau podem começar a operar no Interior, sem que lhe seja exigido a prática de três anos de operações na RAEM. Como parte das novidades, vai ser lançado um programa piloto na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau que vai permitir às empresas constituídas com capitais de Macau registadas na Grande Baía a escolherem Macau ou Hong Kong como local de arbitragem, em caso de conflitos contratuais. Estas também vão ter a opção de escolher se pretendem que nos seus contratos vigore o direito de Macau ou de Hong Kong, além de poderem ainda optar pelo direito do Interior. Existem outras medidas de abertura do mercado do Interior às empresas de Macau, principalmente a nível dos sectores identificados como chave para a diversificação económica, como as tecnologias avançadas, serviços financeiros ou indústrias criativas e culturais. Nos sectores audiovisuais e culturais vai ser possível às empresas de Macau investirem na produção cinematográfica e nas telenovelas co-produzidas com o Interior da China, e ainda poderem ser consideradas como domesticamente produzidas para efeitos da sua emissão e distribuição. Actualmente, o Interior controla o número de produções distribuídas provenientes do exterior.
Aviação | CAM quer mais voos internacionais Hoje Macau - 13 Out 2024 A empresa gestora do aeroporto de Macau afirmou estar a “trabalhar activamente” com companhias aéreas para lançar mais voos para a Europa e Estados Unidos. Num comunicado, a CAM – Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau disse que o objectivo é disponibilizar “um serviço de bilhete único através do despacho de bagagem”, para “atrair mais turistas internacionais”. A empresa indicou ainda que está a planear lançar rotas aéreas para o Laos até ao final do ano e prometeu continuar a expandir o mercado de aviação do Sudeste Asiático e Nordeste da Ásia. Nos primeiros oito meses de 2024, Macau recebeu quase 23,4 milhões de turistas. No entanto, a esmagadora maioria veio da China ou de Hong Kong, enquanto a cidade recebeu 1,5 milhões de visitantes internacionais.
Comunidades | Rui Marcelo na equipa do Conselho Hoje Macau - 13 Out 202413 Out 2024 Rui Marcelo, conselheiro das comunidades de portuguesas eleito pelo círculo da Ásia e residente de Macau, vai integrar a equipa de Flávio Martins, que foi reconduzido como presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP). A reeleição do também deputado pelo Partido Social Democrata aconteceu durante o segundo dia do primeiro plenário mundial do CCP, que terminou na passada quinta-feira. Além de Rui Marcelo, que vai desempenhar as funções de secretário, integram ainda a equipa de Flávio Martins, Paulo Marques, como vice-presidente, eleito pelo círculo das comunidades de França, e Vasco Abreu (África do Sul), como secretário. Rui Marcelo foi ainda escolhido como presidente do conselho regional para a zona da Ásia e Oceânia.
Arbitragem | Bruno Nunes alerta para falta de peritos Hoje Macau - 13 Out 2024 Para o presidente da Associação Lusófona de Arbitragem e Mediação a aposta na arbitragem entre a China e os países de língua portuguesa exige a captação de um painel de árbitros com reputação internacional Macau precisa de atrair mais peritos para se tornar a base de arbitragem de disputas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa, disse à Lusa o presidente da Associação Lusófona de Arbitragem e Mediação (ALAM), Bruno Nunes, durante o Congresso de Arbitragem Lusófona, realizado em Macau. “O que falta é um painel de árbitros internacionais. Os centros de arbitragem têm a sua reputação, o seu prestígio e são procurados quanto melhor for o painel de árbitros que faz parte do centro”, explicou o presidente da Associação Lusófona de Arbitragem e Mediação (ALAM). A associação organizou a primeira edição do Congresso de Arbitragem Lusófona, em Macau, com a mediação de disputas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa como o principal tema. “Macau deveria aproveitar as ligações que tem à lusofonia para tentar recrutar ou atrair candidaturas de árbitros de todos os países de língua portuguesa e também da China continental”, defendeu Bruno Nunes. O advogado recordou que já em 2013 a conferência ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa tinha apontado Macau como “lugar de arbitragem de disputas entre empresários” dos dois blocos. O dirigente defendeu que a região tem “condições únicas”, uma vez que aprovou em 2019 uma nova lei da arbitragem “extremamente moderna, que está de acordo com os padrões internacionais”, e que “oferece um espaço neutro para a resolução de litígios”. “Tudo aponta para que Macau assuma cada vez mais o papel de plataforma comercial entre a China e os países lusófonos e nesse comércio haverá sempre disputas que têm de ser arbitradas”, disse Nunes. Quase 170 participantes De acordo com dados oficiais, as trocas comerciais entre os mercados lusófonos e a China atingiram 132,2 mil milhões de dólares entre Janeiro e Julho, um novo máximo para os primeiros sete meses do ano. Nunes afirmou que a decisão de realizar o primeiro congresso em Macau foi “fruto da adesão e do interesse registado, principalmente da China continental”. Quase 170 pessoas, incluindo árbitros da China continental e de todos os países de língua portuguesa, participaram no evento, realizado sob o tema “Macau 2024 Harmonização na Arbitragem Sinolusófona”. Os três dias do congresso foram encarados como uma oportunidade de “agregação de conhecimento e estabelecimento de pontes”, explicou o presidente da ALAM. Isto porque “não é fácil a um árbitro chinês ou a um árbitro de Macau, por exemplo, ter contacto cara-a-cara com um árbitro de Timor-Leste, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe”, sublinhou o responsável. Durante o congresso, foi também publicado “um guião prático sobre arbitragem nas diferentes jurisdições lusófonas”, disse o advogado. A ALAM foi estabelecida em 2019, em Macau, e conta actualmente com 181 membros de 20 jurisdições. “O futuro levar-nos-á talvez a outras jurisdições lusófonas, sendo que o congresso está pensado para ser realizado de dois em dois anos”, rematou Bruno Nunes.
Sam Hou Fai: As reacções à vitória Hoje Macau - 13 Out 2024 Carlos Cid Álvares acredita em crescimento O presidente do BNU, Carlos Cid Álvares, acredita que Sam Hou Fai vai tomar medidas para incentivar a recuperação das Pequenas e Médias Empresas (PME). “O novo Chefe do Executivo é uma pessoa bastante próxima das populações, conhecido por ir ao mercado. No âmbito da campanha, ouviu bastante as populações de diferentes áreas. Tomou o pulso à situação real e acredito que vá tomar medidas para recuperação das PME”, afirmou, em declarações ao HM. “Na campanha falou da possibilidade de serem criados fundos para apoiar esse segmento das empresas em Macau e acho que é uma ideia positiva”, acrescentou. Carlos Cid Álvares destacou também as boas condições económicas que dão margem de manobra ao futuro Governo: “Felizmente Macau goza de um ranking internacional muito forte, com uma notação financeira AA, tem reserva bastantes excedentárias, e o futuro Chefe do Executivo tem hipótese de meter em prática um plano de crescimento da economia, de forma diversificada, de acordo com aquilo que o Governo Central tem solicitado”, vincou. Rui Pedro Cunha destaca “boas expectativas” no comércio O presidente da Câmara de Comércio Europeia em Macau, Rui Pedro Cunha, destacou as boas expectativas criadas por Sam Hou Fai, durante a campanha eleitoral. “É um novo ciclo para Macau e todos depositamos esperanças de que esta mudança seja em benefício de Macau e das suas gentes”, afirmou Rui Pedro Cunha, em declarações ao HM. “Foram criadas boas expectativas durante a campanha eleitoral e agora temos de tempo ao candidato para preparar uma equipa capaz e forte, para liderar Macau nos próximos anos”, realçou. Rui Pedro Cunha destacou como principal desafio a situação económica, principalmente a diversificação que definiu como “essencial para o futuro” da RAEM. Sobre medidas concretas a adoptar no futuro, o presidente da câmara de comércio destacou a necessidade de formar quadros qualificados, mas também de reter os estudantes que passam pelas instituições do ensino superior local, e que depois são obrigados a deixar o território. O responsável pediu ainda que as emissões licenças para certos negócios, como acontece com os restaurantes, sejam aceleradas para facilitar a contratação de mão-de-obra não residente. Gabinete dos Assuntos de Macau deixa felicitações Após a eleição de Sam Hou Fai como futuro Chefe do Executivo, o Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau junto do Conselho de Estado emitiu um comunicado a elogiar a eleição de Sam Hou Fai, por considerar que foi uma expressão da implementação bem-sucedida do princípio um país, dois sistemas. Além disso, o gabinete definiu seis desejos da população de Macau para o futuro. O primeiro, passa pela promoção dos sentimentos de patriotismo, de amor pelo país e de Macau, “de forma sincera”. A segunda esperança atribuída à população visa a união “harmoniosa”, para que se trabalhe para a promoção do desenvolvimento e prosperidade. Os restantes desejos visam o “desenvolvimento pragmático” da RAEM, a “melhoria do bem-estar da população”, a “promoção de medidas de defesa da segurança nacional” e o aprofundar das reformas “de forma inovadora” no âmbito da Zona de Cooperação Aprofundada e da governação da RAEM. HK | John Lee felicita Sam Hou Fai e destaca ligações culturais Momentos depois de ter sido confirmada a eleição, Sam Hou Fai recebeu uma mensagem de parabéns de John Lee, Chefe Executivo de Hong Kong. “Felicito o Dr. Sam por ter sido eleito o sexto Chefe do Executivo da RAEM e por conduzir Macau a novos patamares”, podia ler-se na mensagem. O líder da RAEHK destacou ainda as ligações entre as duas regiões. “Hong Kong e Macau têm laços geográficos estreitos e partilham as mesmas raízes culturais. […] Tenho toda a confiança que no futuro vamos trabalhar em estreita colaboração, a fim de alcançar uma relação complementaridade entre Hong Kong e Macau e obter benefícios mútuos […] para servir as necessidades do país e dar novos e maiores contributos para a construção de um grande país e para o rejuvenescimento nacional através da modernização chinesa”, acrescentou. John Lee destacou também o compromisso de vários anos de Sam Hou Fai, enquanto presidente do Tribunal de Última Instância, com a prosperidade e estabilidade de Macau. Membros da Comissão Eleitoral com esperança no próximo Governo Vários membros da Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo expressaram as suas expectativas em relação ao futuro Executivo liderado por Sam Hou Fai, que tomará posse no dia 20 de Dezembro. Ouvido pelo canal chinês da Rádio Macau, Lao Ngai Leong, também membro de Macau à Assembleia Popular Nacional, disse esperar que Sam Hou Fai possa continuar a tirar partido das políticas traçadas por Pequim para Macau a fim de promover a diversificação económica. Ng Sio Lai, membro e presidente da União Geral das Associações de Moradores de Macau, defendeu que o novo Governo deve continuar a ouvir as expectativas do sector social, apostando em políticas que promovam o desenvolvimento da economia e o bem-estar da população. Leong Sun Iok, que é também deputado na Assembleia Legislativa (AL), ligado aos Operários, disse esperar que o candidato eleito ajude os sectores sociais na construção de Macau como território, sempre com o espírito de “amor à pátria”. Zheng Anting, outro deputado na AL, afirmou desejar que a eficácia da Administração pública melhore e que haja mais transparência na governação. O legislador pediu ainda mais apoios para as pequenas e médias empresas. Wong Kit Cheng, também deputada à AL, pede uma maior comunicação entre Executivo e o hemiciclo, além de uma melhoria nas políticas sociais e na concessão de benefícios à população. Leonel Alves, membro da Comissão, advogado e ex-deputado à AL, disse que a eleição de Sam Hou Fai representa uma “fase de consolidação” do trabalho que vem sendo feito desde a transição, tendo-se mostrado optimista em relação ao futuro novo Governo.
Chefe do Executivo | Sam Hou Fai eleito com 394 votos Andreia Sofia Silva - 13 Out 2024 Apenas duas pessoas das 400 que compõem o colégio eleitoral que elege o Chefe do Executivo não votaram ontem, tendo sido ainda registados quatro votos em branco. Sam Hou Fai assegurou a eleição por volta das 11h, reunindo um total de 394 votos. O ex-juiz, eleito Chefe do Executivo, afirmou que este é o ponto alto da sua carreira Sam Hou Fai foi eleito ontem o novo Chefe do Executivo da RAEM com 394 votos da Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo, o que significa que duas pessoas não votaram, além de que se registaram quatro votos em branco. Contudo, por volta das 11h o candidato único contabilizava já 201 votos, o que assegurou a sua eleição. O homem que foi presidente do Tribunal de Última Instância (TUI) nos últimos 25 anos torna-se agora líder de uma região que celebra precisamente este ano o 25º aniversário enquanto RAEM. A candidatura surgiu subitamente após Ho Iat Seng ter desistido de concorrer a um segundo mandato devido a problemas de saúde. A partir daí, o caminho estava feito. Sam Hou Fai só tomará posse a 20 de Dezembro, precisamente a data do aniversário da RAEM, mas já frisou que este é o momento mais alto da sua carreira. A votação e conferência de imprensa, que decorreram no edifício do Fórum Macau, começou às 10h, sendo que a votação terminou meia hora depois. O candidato eleito agradeceu também à família, que vive em Macau há cerca de três gerações, tendo destacado que, como governante, vai dar atenção às relações comerciais com os países lusófonos. Sam Hou Fai disse que “no próximo mandato do Governo temos de estudar bem o conteúdo e funcionalidades da plataforma” comercial em Macau, “promovendo mais a cooperação entre a China e os países de língua portuguesa”. Prometeu “melhorar a ligação com os países de língua portuguesa” e fortalecer o papel de Macau como “uma ponte para maximizar as vantagens singulares” do território, como um local onde as empresas lusófonas e chinesas podem fazer negócios. “Ao nos integrarmos e ajudarmos a conjuntura do desenvolvimento nacional, podemos maximizar as nossas vantagens singulares, sendo esse um rumo importante e crucial para o rumo de Macau. A base jurídica do território é o facto de este estar subordinado ao Governo popular, sendo uma região administrativa especial, e o tempo tem mostrado que essa política é muito adequada para o desenvolvimento de Macau”, declarou também. O novo líder frisou ainda que “no futuro temos de aproveitar bem as nossas vantagens”, explicando que a transição tem sido um sucesso sobretudo devido aos princípios ‘um país, dois sistemas’ e ‘Macau governada por patriotas’. Parabéns de Ho No rescaldo da vitória, Ho Iat Seng, que se mantém em funções até 20 de Dezembro, deu os parabéns ao candidato eleito, referindo que Sam Hou Fai “expôs o conteúdo do programa [eleitoral] e ideias de governação aos diversos sectores sociais e aos residentes”, procurando “inteirar-se das condições sociais e ouvindo a opinião pública, o que lhe granjeou amplo reconhecimento e apoio dos diversos quadrantes da sociedade”. Para Ho Iat Seng, o próximo governante “continuará a promover com sucesso o princípio de “um país, dois sistemas” e a “impulsionar o desenvolvimento da RAEM para um novo patamar”. De destacar que para a corrida a Chefe do Executivo chegou a estar na calha Jorge Chiang, natural de Macau, com 61 anos e católico, e que denunciou as “famílias poderosas” que dominam certos sectores da sociedade. Porém, o desejo de querer ser Chefe do Executivo caiu pelo caminho.
Prémio Nobel da Literatura 2024 atribuído a sul-coreana Han Kang Hoje Macau - 13 Out 202413 Out 2024 O prémio Nobel da Literatura de 2024 foi atribuído à escritora sul-coreana Han Kang, anunciou na quinta-feira a Academia Sueca. Em 2023, o escolhido pela academia foi o norueguês Jon Fosse, precisamente o mesmo que liderou até ao fim a lista das apostas, juntamente com Can Xue. Han Kang nasceu em Gwangju, na Coreia do Sul. Em 1994 começou a sua carreira de escritora vencendo o primeiro lugar de um concurso literário em Seul. “A Vegetariana”, o seu primeiro romance publicado pela Dom Quixote, em Portugal, ganhou o Man Booker International Prize em 2016. “Actos Humanos” venceu o Prémio Manhae na Coreia do Sul e o Prémio Malaparte em Itália. A obra seguinte, “O Livro Branco”, foi, em 2018, finalista do Man Booker International Prize. Han Kang recebeu ainda os prémios literários Yi Sang, Jovens Criadores, Melhor Romance da Coreia, Hwang Sun-won e Dongri. Foi professora no Departamento de Escrita Criativa do Instituto das Artes de Seul e dedica-se atualmente apenas à escrita. Está publicada em mais de trinta línguas. O Nobel da Literatura é um prémio concedido anualmente, desde 1901, pela Academia Sueca a autores que fizeram notáveis contribuições ao campo da literatura, e tem um valor pecuniário superior a 900 mil euros.
China | Acções de empresas caem face a desilusão com estímulos Hoje Macau - 10 Out 2024 As principais praças financeiras da China registaram ontem perdas, depois de os pormenores sobre os planos de estímulo económico de Pequim terem ficado aquém das expectativas dos investidores, enquanto outros mercados na Ásia subiram. As acções em Hong Kong oscilaram entre ganhos e perdas, com o índice Hang Seng a cair 2,4 por cento, para os 20.418,61 pontos. Esta descida seguiu-se a uma queda de mais de 9 por cento na terça-feira, com os investidores a venderem acções, após as recentes subidas. “A falta de novos estímulos tem sido a causa da desilusão, com muitos participantes no mercado a esperarem políticas fiscais que seguissem os passos da ‘bazuca’ financeira entregue no final de Setembro, mas houve claramente um recuo no anúncio de terça-feira”, escreveu Yeap Jun Rong da IG, líder mundial no comércio e investimentos ‘online’, num comentário. O Shanghai Composite, o índice de Xangai, perdeu 5,1 por cento, depois de ter encerrado com ganhos de 4,6 por cento, na terça-feira. O índice CSI300, que acompanha as 300 principais acções negociadas nos mercados de Xangai e Shenzhen, cedeu 5,6 por cento.
Química | Nobel distingue ‘design’ computacional de proteínas Hoje Macau - 10 Out 2024 O Prémio Nobel da Química foi atribuído aos químicos David Baker, Demis Hassabis e John M. Jumper, “pelo ‘design’ computacional de proteínas” e “pela previsão da estrutura de proteínas”, anunciou ontem a Real Academia Sueca de Ciências. De acordo com o Comité do Prémio Nobel, que atribui os galardões, o premiado David Baker criou em 2023 a primeira proteína “totalmente diferente de todas as existentes”, algo descrito como “um desenvolvimento extraordinário”. A proteína, Top7, criada pelo professor da Universidade de Washington, em Seattle, tem uma “estrutura única que não existia na natureza”, possuindo 93 aminoácidos (unidades formadoras de proteínas), sendo maior “do que qualquer outra produzida anteriormente”. David Baker também lançou um código para o ‘software’ de computador Rosetta, que tem sido desenvolvido pela comunidade de investigação, encontrando novas áreas de aplicação. O grupo de investigação do cientista norte-americano produziu uma criação de proteínas, incluindo proteínas que podem ser usadas como produtos farmacêuticos, vacinas, nanomateriais e pequenos sensores. A outra metade do prémio, “pela previsão da estrutura de proteínas”, foi entregue a Demis Hassabis e John M. Jumper em conjunto. Este é o terceiro dos Nobel a ser anunciado, depois dos da Física e da Fisiologia ou Medicina, seguindo-se nos próximos dias os galardões relativos à Literatura e Paz. Em 2023, o prémio foi atribuído aos cientistas Moungi Bawendi, Louis Brus e Alexei Ekimov, pela descoberta de pontos quânticos, fundamentais para a nanotecnologia pela descoberta e síntese de pontos quânticos.
Gaza | Mortes superam 42.000 após um ano de guerra Hoje Macau - 10 Out 2024 O número de mortos na Faixa de Gaza, onde Israel mantém há um ano uma intensa ofensiva militar, ultrapassou ontem os 42.000, a maioria mulheres e crianças, após uma noite de ataques no norte e centro do enclave palestiniano. “Nas últimas horas, a ocupação israelita cometeu três massacres contra famílias na Faixa de Gaza, incluindo 45 mártires e 130 feridos”, pormenorizou, num comunicado, o Ministério da Saúde local, tutelado pelo grupo extremista palestiniano Hamas, que controla o enclave desde 2007. O número total de mortos aumentou assim para 42.010, incluindo mais de 16.900 crianças e cerca de 11.500 mulheres, o que equivale a 69 por cento do total de vítimas mortais, segundo dados do Hamas. Entre as crianças estão mais de 700 que morreram antes de completar um ano de idade, referiu ainda o Ministério da Saúde tutelado pelo Hamas. A mesma fonte indicou que o número total de feridos na rede de hospitais locais é de 97.720 desde 7 de Outubro de 2023. Efeito borboleta A guerra em curso em Gaza foi desencadeada por um ataque sem precedentes do Hamas no sul de Israel, a 7 de Outubro de 2023, que causou cerca de 1.200 mortos e mais de duas centenas de reféns, segundo as autoridades israelitas. Em retaliação, Israel lançou uma ofensiva militar contra o enclave palestiniano com mais de dois milhões de habitantes. Devido à guerra, Gaza está também a enfrentar uma crise humanitária sem precedentes, com milhares de pessoas a necessitarem de ajuda urgente, segundo as organizações internacionais. O conflito em Gaza tem desestabilizado toda a região do Médio Oriente.
A guerra pós-moderna (I) Jorge Rodrigues Simão - 10 Out 2024 “Nobody reaches through here, least of all with a message from one who is dead” Franz Kafka O Ocidente sem estratégia acredita mais em histórias do que em factos. Enquanto os inimigos elaboram planos para o derrubar. Histórias infundadas entre a América, a Ucrânia e a Terra Santa. O método Petraeus em que não é possível imaginar qualquer iniciativa que envolva o uso da força sem uma estratégia política precisa de um guia para o diálogo. Para acabar com os conflitos, é preciso redescobrir a realidade. Se, de pistola ao templo, nos pedissem para indicar a primeira grande derrota da Grande Guerra (a possível ou impossível que teria contornos de III Guerra Mundial) era de responder sem hesitar que seria o “Princípio da Realidade”. Não a realidade tout court. Mas a nossa forma de a abordar. Não deixámos simplesmente de “compreender o mundo”. Privámo-nos das ferramentas necessárias para o fazer. E não é de hoje. Como muitas vezes acontece, o que parece extraordinário e totalmente imprevisível revela-se a um olhar mais atento implicado e anunciado pelo passado. Tempo decisivo, para o qual o rouxinol de Minerva olha ao cair da noite na tentativa de iluminar o presente. Regressemos à Terra. O princípio da realidade ditaria que se considerasse a Grande Guerra como uma potencial guerra de sucessão americana. Hoje, ela é travada na Ucrânia, na Terra Santa e no Mar Vermelho. O coup de théâtre seria a abertura de uma frente americana, caso a “Doença da América” se transformasse numa doença autoimune. Concretizando assim as previsões do filme (distópico?) “Guerra Civil”, de Alex Garland estreado nos cinemas americanos a 12 de Abril. Se o princípio da realidade se confirmar, a Grande Guerra obrigaria os Estados Unidos e o que resta do Ocidente a pensar estrategicamente, isto é, a enfrentar uma tal conjuntura para compreender como se reorganizar. Tratar-se-ia de repensar o seu lugar no mundo, agora que para usar a expressão de um livro profético aparecido em 2008 “os sonhos acabaram”. Mas o princípio da realidade não se aplica. E assim a estratégia torna-se impossível. Prefere-se, na teoria e na prática, as simplificações políticas maniqueístas (democracias vs. autocracias) ou as especulações sobre a loucura dos líderes inimigos. E isto no melhor dos casos. Na pior das hipóteses, a existência da Grande Guerra é mesmo negada ou suprimida. É o caso da Europa, que gosta de se considerar em paz, armando os ucranianos, fornecendo aos americanos bases para operações contra os russos e combatendo os Hutis no Mar Vermelho, embora com um sucesso moderado. Recusando-nos a olhar para a “verdade dos factos” diria o nosso Maquiavel que tendemos a perder-nos nas “cláusulas-ampola” da retórica. O resultado é que a Grande Guerra não tem fim. Nem masculino nem feminino. Uma vez que não compreendemos os objectivos dos nossos inimigos que preferimos rotular de loucos e violentos somos incapazes de criar os nossos próprios objectivos. Por isso, não podemos imaginar um fim para a guerra, porque não sabemos onde estamos e o que queremos. E enquanto os chineses, os russos e os iranianos raciocinam sobre a forma de derrubar o “Ocidente colectivo”, este último prefere eliminar este simples facto do seu raciocínio. Na esperança de que as suas palavras ditas ou pensadas sejam mais poderosas do que as coisas. Mas quem matou o princípio da realidade e, consequentemente, a nossa capacidade de processamento estratégico? Já temos um suspeito. Passemos ao seu interrogatório. Comecemos pela acusação. O princípio da realidade foi assassinado pelo advento do “storytelling” e do conceito de “narração”. A progressiva perda de sentido histórico nas sociedades ocidentais é acompanhada por uma superabundância de histórias anti-históricas, de narrativas destinadas apenas a condicionar e orientar a praxis do homo economicus ou a satisfazer a “curiosidade” no sentido heideggeriano do que resta da chamada classe média reflexiva. Segundo o crítico literário americano Jonathan Gottschall, vivemos actualmente num “historioverse”, ou seja, num mundo em que já não existe qualquer análise da realidade. Em vez disso, cada um escolhe a narrativa que prefere, independentemente da sua aderência aos factos. A “historilândia” é, paradoxalmente, “um mundo com mais certezas em que, independentemente da história absurda em que se acredita, pode-se apoiar essa história com muita informação que se assemelha a provas reais”. Corroborando essa tese está o maior crítico literário vivo, Peter Brooks, emérito de Literatura Comparada em Yale. Num livro recente, icasticamente intitulado “Seduced by Stories”, ele atribui a importância do contemporâneo à “historicização da realidade”. Esta importância revela uma contradição, enraizada no homo occidentalis desde o seu nascimento de que o “universo não corresponde às nossas histórias sobre o mesmo, embora estas sejam tudo o que temos”. Em suma, movemo-nos em narrativas. Não temos outras possibilidades. Mas estas não são a realidade. O risco de nos extraviarmos e de confundirmos o mapa com o território é, por isso, elevado submergidos em histórias, como parece que estamos, podemos mesmo deixar de ser capazes de reconhecer a diferença entre o que aconteceu e o relato do que aconteceu, dando às realidades que inventamos a primazia sobre a verdadeira realidade. Sorte para o escritor, drama para quem trafica na geopolítica. O processo de historicização, de facto, tem um impacto directo no pensamento estratégico. E fá-lo de três formas diferentes. Assim, talvez, matando o princípio da realidade. Afinal de contas, três pistas fazem uma prova. Primeira pista, a nossa época caracteriza-se por uma narrativa individualista. A “historilândia” é habitada por indivíduos sejam eles políticos, influenciadores ou cidadãos comuns que fazem da marca pessoal a sua imagem de marca. Todos têm de contar a melhor história possível sobre si próprios com o objectivo de serem apreciados, estimados ou, pelo menos, conhecidos. Não importa o que se faz, porque hoje em dia os factos concretos não são de todo conhecíveis enquanto não os transformarmos numa narrativa. A realidade só surge quando encapsulada em uma narrativa coerente, apaixonada e, acima de tudo, singular. Possivelmente única e irrepetível. Essa abordagem existencial também coloniza a dinâmica política e geopolítica. Os chamados “líderes” são transformados em personagens de um romance. Ao contar e construir as suas histórias, estrategicamente tentam retratar-se como dotados de certas peculiaridades caracterológicas, bem como sujeitos absolutos dos assuntos humanos. Há o populista raivoso, o moderado, o agressivo e o competente. Pouco importa se todos fazem as mesmas coisas. São as palavras que os distinguem. O problema, no entanto, é que essa comunicação com base na personalidade gera a imagem de um mundo semelhante a um cenário de filme. Assim como a trama dos filmes é desvendada pelas acções dos indivíduos que invariavelmente derivam do carácter e das histórias dos personagens, da mesma forma, em questões geopolíticas, acredita-se que é possível a) deduzir as acções das colectividades a partir de uma análise parapsicológica e caracterológica (quase lombrosiana) das almas dos líderes e b) dividir o mundo em bons e maus justamente com base nessa análise. Em consequência, aqueles que são maus com base na história que me contaram terão um comportamento ruim. Mas como posso saber quem é ruim? Fácil, ver como se comporta. E por que faz isso? Obviamente, porque é ruim. Para ser rigoroso, isso seria uma petição de princípio. Mas no mundo da “historilândia”, a coerência narrativa é mais importante do que a lógica pois os factos são moldados pelas nossas expectativas de significado e coerência narrativa. Traçar estratégias a partir dessa premissa é simplesmente um absurdo. Se tudo é derivado das histórias dos que estão no comando, então que se enfrentem! Até porque, em uma boa história, os meninos sempre vencem no final. Então, por que fazer esse esforço? É uma pena que, nesse romance que é a geopolítica, todos acreditem que são os meninos. E com isso passamos para a segunda pista. Na “historilândia”, aplica-se a lei de Schmitt. Amigo/inimigo é a regra de platina. Uma história que se preze deve ter um protagonista e um antagonista. E não pode haver diálogo entre os dois. O demónio e a água benta. O historiador não deve unir as histórias dos inimigos. Pelo contrário, cada lado deve criar a sua própria. E o que divide os diferentes “historioversos” é uma cortina de diamante, tanto por ser mais dura do que a cortina de ferro quanto por permitir que os protagonistas contemplem a sua pureza e beleza, em um autodesfrute hegeliano. A repetição do idêntico gera um senso de identidade e uma falta de curiosidade em relação ao que é diferente. O resultado, de acordo com Gottschall é de que hoje estamos todos dentro das nossas próprias pequenas histórias e, em vez de nos tornar mais semelhantes, as histórias nos transformam em versões extremas de nós mesmos. Elas permitem-nos viver em mundos narrativos que reforçam os nossos preconceitos em vez de desafiá-los. O resultado final é que tudo o que é consumido nas nossas histórias faz com que eu seja mais eu e outro mais outro. Em um contexto como esse, não há estratégia porque não há amor pelo inimigo. Um imperativo categórico da geopolítica, resumido por George Friedman é de que “você deve tornar-se o seu inimigo. Deve ver da forma que ele vê, ter medo do que ele tem medo, desejar o que ele deseja. Somente assim poderá entender o que ele fará e como fará”. Pense no amor de Kissinger pela China ou no amor de Kennan pela Rússia. O que tornou essas figuras tão importantes e eficazes na história da geopolítica foi sua paixão pelo inimigo da época. Isso é muito para a “historilândia”. Amor pelo inimigo. E pela realidade. Terceira e última pista. O que são essas histórias senão propaganda e retórica? É claro que a propaganda é parte integrante da estratégia. Ela serve para fazer com que a população a digira e a mobilize. E a retórica é a sua valiosa aliada. O problema é quando, na ausência de estratégia, a retórica e a propaganda tomam o seu lugar. Ou quando elas se tornam tão poderosas que se transformam em estratégia. O exemplo escolar é a ideia do fim da história, patenteada mas não inventada por Francis Fukuyama. Após o colapso da União Soviética, os americanos realmente pensaram que poderiam tornar universal e eterno um momento particular e contingente, ou seja, o unipolar. Depois descobriram, para seu desânimo, que o mundo não queria ser americano e que decretar o fim da história não era suficiente para realmente detê-lo. Em suma, os Estados Unidos acreditaram no seu próprio poder e na sua capacidade de se tornar um país de mercado. Em resumo, os Estados Unidos acreditaram na sua própria propaganda. Graças à ideologia do fim da história, “inimigos e aliados seriam dissuadidos de concentrar grandes forças em regiões estrategicamente importantes”. Diante do extraordinário poder americano, um círculo vicioso teria sido gerado de que a supremacia mundial dos Estados Unidos estava destinada a durar para sempre. Foi uma pena que esse silogismo não fosse o mesmo usado pelos Estados Unidos. É uma pena que esse silogismo tivesse que convencer os inimigos, não os americanos! Eles deveriam ter-se mantido atentos e desenvolvido uma sensibilidade trágica necessária para enfrentar os desafios que se apresentam a qualquer império que queira durar para sempre. Isso não aconteceu porque, acreditando ser superiores ao mundo e transcender a realidade, os Estados Unidos decidiram ignorar ambos, o mundo e a realidade. A propaganda, a narrativa das narrativas, substituiu a estratégia. E também porque, convenhamos, o fim da história foi uma história muito boa. Por que arruiná-lo com a verdade? Poderíamos continuar, mas é bom parar. De facto, encontramos as três pistas necessárias para condenar o conceito de contar histórias pelo assassinato do princípio da realidade. Mas, pelo menos na Europa, ninguém é culpado até que se prove a sua inocência. Portanto, deve-se conceder à narrativa um último grau de julgamento. Será difícil absolvê-la, mas, talvez, possa apresentar algumas circunstâncias atenuantes. Afinal de contas, quando introduzimos a metáfora do julgamento, também começamos a contar uma história. E que história seria essa sem uma reviravolta? Se a narrativa tivesse um bom advogado, ele levantar-se-ia e declamaria: “Excelências, estão esquecendo-se de uma questão fundamental. Antes de condenar o meu cliente por assassinato do princípio da realidade e raciocínio estratégico, deveriam ter em mente que, afinal de contas, a estratégia também é uma narrativa”. É verdade. Toda estratégia deve ser narrada. E deve basear-se em um passado às vezes mítico e não necessariamente real. A estratégia não é exclusivamente prescritiva. Não se trata de uma receita ou de uma lista de tarefas. É, antes de mais, uma história, certamente orientada para o futuro, enraizada no passado a partir das necessidades do presente. Uma estratégia sem história (tanto no sentido de conto como de história) está condenada ao fracasso, se não for contada, não encontra consenso entre a população; se for estranha à memória colectiva, é sentida como estrangeira. A estratégia é, portanto, uma grande narrativa. Precisamente no sentido de Jean-François Lyotard é uma meta-narrativa que dá legitimidade aos factos, ordenando-os com vista à realização de um objectivo final. A estratégia tem um fim precisamente. É uma narração dirigida a um objectivo que, partindo de um estado de coisas, procura produzir um outro, considerado melhor. Mas aqui está o problema decisivo. Como afirma Lyotard, na nossa época “a grande narrativa perdeu a credibilidade”. Por razões endógenas e exógenas. Concentremo-nos nas últimas. O declínio das grandes narrativas, mesmo das estratégicas pode, de facto, ser considerado “um efeito da descolagem das técnicas e das tecnologias que colocou a ênfase nos meios e não nos fins”. Este facto é evidente no caso americano. O “factor superpotência”, que já se tinha desenvolvido no rescaldo da II Guerra Mundial, ascendeu a primum mobile da (não) estratégia americana após a vitória na Guerra Fria.
GP Macau | Huff regressa à Guia ao volante de um Audi Sérgio Fonseca - 10 Out 2024 A Corrida da Guia do Grande Prémio de Macau vai contar com o seu maior vencedor, o britânico Rob Huff. Actualmente a competir no popular BTCC, o campeonato britânico de carros de Turismo, Huff vai disputar os dois últimos eventos da temporada de 2024 do FIA TCR World Tour, conduzindo um Audi RS 3 LMS pela estreante equipa espanhola Volcano Motorsport. O piloto de 44 anos volta a tripular o carro com o qual esteve na disputa pelo título de 2023 até ao evento final da RAEM, agora com uma nova equipa para ele, os campeões da série TCR Europe de 2021, que subiram este ano para o TCR World Tour. Huff é conhecido pelo seu impressionante recorde no circuito citadino de Macau, com as suas 10 vitórias desde 2008, tanto na Corrida da Guia como na Taça de Macau de Carros de Turismo. Na próxima semana, o piloto britânico vai juntar-se à grelha do FIA TCR World Tour pela primeira vez este ano no próximo evento agendado para o Circuito Internacional de Zhuzhou, a primeira ronda chinesa de sempre do TCR World Tour, em preparação para o seu regresso a Macau. Nesta prova, as estrelas do mundial correrão em conjunto com o pelotão do TCR China. Huff não esconde o seu entusiasmo neste seu regresso a uma categoria que tantas alegrias lhe deu: “Estou absolutamente encantado por voltar a Macau, e também estou entusiasmado para ver o que podemos fazer em Zhuzhou, correndo com o TCR China, uma série que também conheço muito bem. É bom estar de volta ao TCR World Tour, especialmente agora que é uma categoria FIA. Conheço alguns dos elementos da equipa da Volcano Motorsport, uma vez que trabalharam comigo no ano passado, e claro, conheço o carro, tendo ajudado no seu desenvolvimento”. Em preparação O objectivo de Huff passa por ganhar ritmo com o carro na prova chinesa, para depois tentar vencer nas ruas de Macau. Huff correu pela Toyota Gazoo Racing UK este ano no BTCC e terminou em nono lugar do campeonato. “Não corro no TCR há dez meses, por isso ir a Zhuzhou será uma boa preparação para Macau. O objectivo é claro, estamos a procurar a vitória, e estou encantado por terminar o ano num dos meus lugares favoritos no mundo”, disse Huff. O 71.° Grande Prémio de Macau terá lugar de 14 a 17 de Novembro, sendo que as listas oficiais de inscritos deverão ser divulgadas ainda durante este mês.
Taiwan | Pequim acusa Lai de quebrar laços históricos Hoje Macau - 10 Out 2024 Pequim acusou ontem o líder de Taiwan de “quebrar deliberadamente os laços históricos entre os dois lados do estreito”, após William Lai ter afirmado “ser impossível” que a República Popular da China seja a pátria dos taiwaneses. A porta-voz do Gabinete para os Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado (Executivo chinês), Zhu Fenglian, disse, em conferência de imprensa, que “Taiwan é um território sagrado da China com base em fundamentos históricos e legais claros”. Zhu lembrou que, em 25 de Outubro de 1945, o Governo chinês declarou a “recuperação da soberania sobre Taiwan”, depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. Em 01 de Outubro de 1949, com a fundação da República Popular da China, o novo regime de Pequim “substituiu a República da China como único representante legítimo de todo o país”, disse. A porta-voz sublinhou que, “embora a reunificação ainda não tenha sido totalmente alcançada”, a soberania e o território da China “nunca foram e nunca poderão ser divididos” e o “facto de a China continental e Taiwan pertencerem à mesma China nunca mudou e nunca poderá mudar”. “Não importa que tipo de paradoxos históricos e declarações bizarras sobre a independência de Taiwan Lai faça, isso não muda o facto objectivo de que os dois lados do estreito de Taiwan pertencem à mesma China e não destruirá o sentimento patriótico dos nossos compatriotas de Taiwan”, disse Zhu, acusando Lai de “suprimir a identidade nacional dos compatriotas de Taiwan”. O Conselho dos Assuntos Continentais de Taiwan (MAC), o organismo governamental responsável pelas relações com a China continental, emitiu um comunicado a denunciar as “declarações absurdas” de Zhu, sublinhando que a República Popular da China “nunca governou Taiwan”, desde a criação em 1949.
Pequim pede aos EUA que clarifiquem limites da segurança nacional Hoje Macau - 10 Out 2024 O ministro do Comércio da China pediu ontem aos Estados Unidos que “clarifiquem os limites da segurança nacional na esfera económica e comercial”, numa conversa telefónica com a homóloga norte-americana, Gina Raimondo. Nos últimos anos, Washington e Pequim têm utilizado a segurança nacional como motivo para impor restrições comerciais. De acordo com um comunicado difundido pelo Ministério do Comércio chinês, Wang Wentao afirmou que uma clarificação sobre os limites do conceito de segurança “contribuiria para manter a segurança e a estabilidade nas cadeias de abastecimento da indústria global e para criar um bom ambiente político para a cooperação entre as indústrias dos dois países”. O ministro manifestou também preocupação com “as restrições” dos EUA sobre os veículos eléctricos chineses e com a política de semicondutores de Washington em relação à China. Os EUA limitaram a exportação de ‘chips’ e tecnologias estrategicamente importantes para o país asiático. Wang instou Washington “a prestar atenção às preocupações específicas das empresas chinesas, a levantar as sanções impostas a estas firmas o mais rapidamente possível e a melhorar o ambiente empresarial para as companhias chinesas nos Estados Unidos”. O responsável pediu que as relações económicas entre Pequim e Washington se tornem o “pilar fundamental” das relações bilaterais entre as duas potências. De acordo com o comunicado, a conversa foi “franca, profunda e pragmática”. Raimondo sublinhou as preocupações expressas pela comunidade empresarial dos EUA relativamente à “falta de transparência regulamentar” na China, bem como às “práticas de mercado pouco competitivas e ao excesso de capacidade estrutural”, de acordo com um comunicado do Departamento do Comércio dos EUA. A responsável sublinhou que a segurança nacional dos EUA “é inegociável” e explicou que a abordagem do Governo dos EUA procura proteger a segurança nacional de “forma direccionada, sem fechar o espaço para um comércio e investimento saudáveis” entre as duas nações. Luta continua A China tem manifestado repetidamente preocupação com as restrições comerciais impostas pelos EUA nos últimos anos, que vão desde a imposição de taxas punitivas sobre as importações chinesas até à proibição de vendas de tecnologia a empresas chinesas. Em particular, o sector dos semicondutores é fundamental para a China, uma vez que constitui uma das pedras angulares dos planos para reforçar a autossuficiência tecnológica e reduzir a dependência de países terceiros. Os Estados Unidos têm criticado o que descrevem como “excesso de capacidade industrial” chinesa, ao qual reagiram impondo taxas sobre os veículos eléctricos chineses, entre outras medidas. Desde o início de 2018, os dois países estão envolvidos numa guerra comercial e tecnológica que tem vindo a desgastar significativamente as relações bilaterais.
Médio Oriente | China opõe-se à expansão do conflito e deplora contradições na região Hoje Macau - 10 Out 2024 Um ano passado desde o início do conflito no Médio-Oriente, Pequim manifesta a sua extrema preocupação com a escalada da violência que já provocou a morte de mais de 40.000 pessoas em Gaza e condena a possibilidade de um ataque ao Irão pelas forças israelitas A China manifestou ontem a sua “oposição à expansão do conflito no Médio Oriente”, referindo-se à possibilidade de Israel atacar o Irão em retaliação pela ofensiva de mísseis iranianos da semana passada. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, disse em conferência de imprensa que a China está “profundamente preocupada” com “a intensificação das contradições” na região. A China está “profundamente preocupada” com a “intensificação das contradições” na região e “lamenta que a escalada do conflito israelo-palestiniano se tenha arrastado durante um ano, resultando na morte de mais de 40.000 pessoas em Gaza, a maioria das quais mulheres e crianças”, afirmou Mao. “O que é necessário para resolver o conflito israelo-palestiniano não são armas e munições ou sanções unilaterais, mas sim vontade política e esforços diplomáticos”, afirmou, apelando às grandes potências para que “desempenhem o papel que lhes compete, respeitem a objectividade e a imparcialidade e assumam a liderança no cumprimento do direito internacional”. Mao instou ainda “todas as partes” a “manter a paz e a estabilidade regionais e a abordar a situação actual com calma, racionalidade e responsabilidade”. “A comunidade internacional, especialmente as potências influentes, deve desempenhar um papel construtivo para evitar mais instabilidade”, acrescentou. Tensão palpável Nos últimos dias, tem crescido a preocupação sobre a possibilidade de Israel atacar o Irão em retaliação contra o ataque de Teerão a território israelita na semana passada. Alguns analistas temem que Israel ataque as instalações nucleares iranianas, enquanto Teerão instou Israel a não testar a “vontade” do Irão. A China tem reiterado repetidamente o seu apoio à “solução dos dois Estados”, mostrando a sua “consternação” face aos ataques israelitas contra civis em Gaza, e os seus funcionários realizaram numerosas reuniões com representantes de países árabes e muçulmanos para reafirmar esta posição ou para tentar fazer avançar as negociações de paz. A China é o maior parceiro comercial do Irão, com o qual tem vindo a reforçar as suas relações nos últimos anos. Em Maio passado, quando o Irão realizou um ataque de menor dimensão contra Israel, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, indicou ao seu homólogo iraniano que a China tinha “tomado nota das declarações do Irão de que as suas acções são limitadas e no exercício do seu direito à autodefesa”, sublinhando a boa relação entre Pequim e Teerão.
Meditando com Han Shan Ana Cristina Alves - 10 Out 2024 Ana Cristina Alves, Coordenadora do Serviço Educativo do CCCM 27.09.2024 I António Graça de Abreu possui vasta obra poética publicada, entre os títulos destaco: China de Jade (1997), China de Seda (2001); Terra de Musgo e de Alegria (2005); China de Lótus (2006); Cálice de Neblinas e Silêncios (2008); A Cor das Cerejeiras (2010). O poeta e sinólogo é ainda tradutor de poesia clássica chinesa, tendo traduzido para português os seis maiores poetas da China: Li Bai (1990); Bai Juyi (1991); Wang Wei (1993); Han Shan (2009); Du Fu (2015) e Su Dongpo (2023). Lançou em setembro de 2024, em segunda edição, Han Shan Poemas寒山詩 (2024) com a Editora Grão-Falar, dirigida pelo Editor, Jornalista e Escritor Carlos Morais José. Em Han Shan Poemas寒山詩, António Graça de Abreu convida a visitar o mundo poético deste budista Chan, Zen no Japão. O poeta, cujo nome significa “Montanha Fria”, talvez tenha vivido no século VIII, durante o período áureo da dinastia Tang (618-906), tendo-nos brindado com uma meditação existencial única sobre o vazio. O Eremita da “Montanha Fria”, se acaso viveu no século VIII, ter-se-á cruzado, como sugere António Graça de Abreu no Prefácio à obra que traduziu, com os maiores vultos poéticos da dinastia Tang, quer dizer, Wang Wei, Li Bai e Du Fu. A verdade é que, tirando a lenda a seu respeito e do filho adotivo e irmão espiritual Shi De, pouco mais se sabe sobre ele. No entanto, a lenda tem a vantagem de nos alertar para o essencial quer da vida de Han Shan quer de Shi De, já que o poeta abandonou a mulher bonita que tinha, no sopé da Montanha Tai, na aldeia de Qinfeng, na província de Shandong, por acreditar que o coração dela pendia para o filho adotivo adolescente, Shi De; e este último ao perceber a confusão gerada foi procurar por muito tempo Han Shan até o encontrar no mosteiro budista de Han Shan em Suzhou para onde entraria também como monge. A atitude de ambos denota que o traço de união entre eles era a dedicação à religião Budista, dedicação essa vivida poeticamente por Han Shan. Este legaria um estilo poético budista Chan (禪 Chán), que seria transferido no Japão de Matsuo Bashô (1644-1694) para a forma Zen. Já antes na dinastia Song, o primeiro-ministro, poeta e letrado Wang Anshi (1021-1086) se referira à imitação necessária para os estetas crentes mas quase impossível do estilo poético de Han Shan, nas palavras apresentadas por Graça de Abreu “Procuramos a água e apenas ele encontrou a nascente” (Han Shan, Apud Abreu, 2024, 23). II Dos 311 poemas de Han Shan, 15 foram traduzidos por Graça de Abreu, tendo anteriormente 25 sido por Jacques Pimpaneau, adaptados na versão poética de Ana Hatherly para português. Qual é então o estilo que inspirou tantos poetas e anima os poemas de “Montanha Fria”? O estilo filosófico de Han Shan revela, antes de mais, o amor à natureza, que permite enquanto paisagem a concentração no essencial, o coração-mente (心 xīn), seguindo-se a par do elogio do vazio, contraponto a uma existência efémera, eivada de sofrimento, doença e morte, pelo que a meditação sobre o vazio, auxilia o coração-mente a cultivar uma atitude tranquila e desprendida das paixões e prazeres terrenos, bem como a suportar, com a paciência possível, às vezes com alguns desabafos, as dificuldades, limitações e desafios de uma vida curta, repleta de pobreza e frugalidade. O sentimento da brevidade da vida e o envelhecimento, magoam-no, sobretudo por comparação aos tempos de juventude. Apesar de toda a meditação, é perpassado por forças contraditórias, que expressa poeticamente, por exemplo, em as pessoas “São flores num dia de Primavera, /abrem de manhã, murcham ao entardecer” (Abreu, 2009, 12). Satiriza e crítica gente poderosa, rica e avarenta, apontando o tal caminho frugal, cultivado por taoistas e budistas, revelando ainda estranheza por certos monges budistas se apegarem a atitudes mundanas, denotadoras de valorização de bens materiais em lugar de se concentrarem em desenvolver a força espiritual que os poderá aproximar do Dharma, a lei de Buda. Os grandes oficiais, os ministros de estado, a quem os portugueses chamaram mandarins, são de igual modo satirizados e denunciados pela prepotência e injustiça com que exercem os seus cargos. Para chegar à conclusão de que “Hoje compreendo melhor: riquezas, honrarias, / o nome, a fama, tudo é inútil e vazio.” (Abreu, 2009, 16). O prefácio à obra, primorosamente organizado, encontra-se dividido em: apresentação biográfica do poeta, intitulada “Do poeta e da bruma”; “Da Poesia”; “Da Tradução” e “Conclusão”. No que respeita à tradução, a poesia de Han Shan, segundo nos informa o seu tradutor, não é das mais complicadas de traduzir, porque, por um lado, não se encontra repleta de sentidos figurativos e alusões históricas, por outro, utiliza uma linguagem simples e coloquial de modo a que possa ser entendida por todos. Os poemas, sem título, são na sua maioria Lǜshī律詩, 8 versos regulares compostos por cinco ou sete caracteres. As rimas são paralelas e tonais, com alternância entre os tons uniformes, e oblíquos, sendo na concordância tonal que o poeta terá recebido maiores críticas por parte dos letrados, com pouco fôlego poético e muita atenção às convenções. Quanto ao tradutor, confessa-se a trabalhar num registo de sombra cujo silêncio o ilumina (Abreu, 2024, 37). Considera ainda que a empatia com o poeta marca decisivamente os poemas a traduzir (Abreu, 2024,38), bem como “a busca de identidade cultural e afetiva entre o tradutor e o poeta a traduzir” (Abreu, 2024, 39). Considera-se ainda grato pelo seu trabalho não ser um percurso solitário, mas realizado em companhia da consorte, Wang Haiyuan e do velho amigo tradutor ao jeito dos letrados, Zhang Weimin, ilustre tradutor de Fernando Pessoa e Luís Vaz de Camões para Chinês. A rematar o Prefácio recorda como são importantes as traduções para manterem vivos os diálogos poéticos entre toda a humanidade. Assim, devido à tradução de Jacques Pimpaneau, com versão poética de Ana Hatherly, em 2003, e da sua própria tradução, publicada primeiro em 2009 e agora em 2024, o poeta Han Shan torna-se cada vez mais familiar dos leitores portugueses. III Esmiuçando a análise temática da poesia traduzida de Han Shan por António Graça de Abreu, comecemos pelo último poema da coletânea, o 155, uma quadra chinesa jueju (绝句 juéjù) sobre e, perdoe-se o paradoxo, vazio plenamente vivido pelo eremita na sua bela montanha fria: Habito a montanha, ninguém me conhece. Entre nuvens brancas, o silêncio, sempre o silêncio. 我居山 勿人識 白雲中 常寂寂 (Abreu, 2024, 158/9) Esta é a postura meditativa que todos os monges budistas procuram alcançar. Coexistir santamente na paisagem, com uma tranquilidade de espírito só possível pela fusão com a natureza, na contemplação silenciosa das nuvens brancas, tal como se ele próprio ao habitar na montanha tivesse incorporado as suas características, ao jeito do trigrama “Montanha” (艮gěn) do Clássico das Mutações (《易经》) fazendo crescer em si, a força, a solidez e a firmeza necessárias a uma postura exteriormente imóvel, mas que desenvolve a máxima energia a partir do seu interior, porque a viagem na montanha é mental. O corpo permanece no mesmo lugar, enquanto o espírito do eremita procura o domínio que lhe pertence e o vazio iluminante, recetivo e compreensivo de todos os males que afligem os seres vivos a nadar num mar de sofrimento até que a força da mente os liberte. Como adverte no poema numerado por Graça de Abreu 154, no qual declara ter mais de 100 anos, não se deve usar o coração para alcançar a “vã glória” mundana, já que ela arrasta inúmeros desejos fatais às pessoas “Quando se usa o coração para renome e fama/ entram no corpo cem diferentes desejos” (心神用盡為名利/百种貪婪進己軀) (Abreu, 2024, 158/9). Aconselha o monge que o coração das pessoas seja tão vazio quanto possível, mas não indiferente aos outros, eis a grande distância entre as pessoas que vivem sem pensar, nem em si nem nos outros, e os monges, como o poeta, atentos ao fluir da existência e ao auxílio e libertação de todos das amarras que mantêm, segundo a filosofia budista Chan, os seres humanos prisioneiros sem de facto estarem encarcerados numa prisão física. Estes podem até mover-se, aparentemente de uma forma livre, mas na realidade são cativos dos múltiplos desejos com que enchem e enfrenesiam as suas vidas e as alheias, pelo que o melhor é o despojamento meditativo que conduz a uma existência simples e desprendida. Esta é a via certa, a da libertação das manchas e poeira do mundo, a única que apazigua o coração, em comunhão profunda com a falésia, a névoa, o arroio e porque o faz, sabemos o que sente no poema 154 “No meu corpo nem manchas, nem poeiras, /no meu coração nem traço de inquietude.” (身上無塵垢,/心中那更憂。) (Ibidem). O poeta não é insensível à beleza feminina das meninas, das flores e dos elementos naturais, mas a consciência da efemeridade da felicidade, que não passa de breves momentos em longas existências, às vezes mais de cem anos, como talvez a dele, condu-lo ao distanciamento dos prazeres da vida, como nos informa no poema 152 relativamente à brevidade do riso e gozo, que encaminham inexoravelmente para o choro e sofrimento. Só por meio da meditação é então possível relativizar as forças positiva e negativa em ação, equilibrando-as de uma forma tensional, onde a ponderação da vacuidade da existência fenomenal é decisiva ao bem-estar espiritual do poeta, já que as necessidades e carências corpóreas são supridas pela harmonia no coração-mente em contacto com o incenso exalado pela resina do pinheiro e pelos rebentos do cipreste, de acordo com o poema 150, “Tenho fome, uma bolinha desta panaceia,/harmonia no coração, encostado às rochas” (飢餐一粒加陀藥,/ 心地調和倚石頭) (Abreu, 2024, 156-157). Pode e deve estar silencioso e tranquilo “o coração como a lua de outono/ reflexo imaculado num lago esmeralda” (吾心似秋月/碧潭清皎洁) (Abreu, 2024, 53). O ideal de muitos eremitas, de Han Shan em particular, é conseguir afastar-se e descansar dos males do mundo, num lugar abençoado pela beleza natural, propício, por isso, à manifestação da força espiritual, na única companhia dos elementos naturais e dos textos sagrados, incluindo os dos poetas do passado e sobre imortais, assim alcança a energia, que se esconde se transferida para a sociedade humana, impelida pelos ventos fortes das paixões individuais. Aqui fica a confissão de bem-estar de Han Shan, no poema 8: Desejei um lugar para descansar, a Montanha Fria deu serenidade. Um vento leve sopra entre os pinheiros, de perto ouve-se melhor a canção da brisa. Sob as árvores, um homem de cabelos brancos recita velhos textos taoístas. Não deixo este lugar há já dez anos, esqueci o caminho por onde vim. 欲得安身處 寒山可長保 微風吹幽松 近听聲逾好 下有斑白人 喃喃讀黃老 十年歸不得 忘卻來時道 (Abreu, 2024, 54/5) Que melhor sítio para envelhecer do que este entre montanhas e penhascos, rios e lagos, acompanhado pela suave brisa ou pelo canto dos pássaros, aprendendo a escutar a voz da natureza em todas as estações, das mais suaves e convidativas às agrestes, estas últimas, úteis para despertar a força de vontade e a resistência a um mundo ilusório que, apesar da sua inexistência em termos da verdadeira realidade, deixa marcas, que doem e transtornam os corações, tumultuando-os como se em lugar de ventos suaves soprassem no interior impiedosos tufões. Enquanto os contrastes e oposições naturais produzem beleza, como as negras rochas e as nuvens brancas de que nos fala o poema ou, ainda, o salto imprevisível das estações da Primavera diretamente para o Outono, o certo é que os conflitos e oposições ao nível humano causam feridas profundas, por vezes insanáveis, pelo que o eu poético confessa a sua preferência por um fluir sossegado dos dias sem confrontos dilacerantes para o seu coração. Prefere então suportar os rigores de uma montanha de que o gelo não se aparta, nem mesmo no Verão. Dada a opção, terá de seguir uma vida frugal, satisfazendo apenas as necessidades alimentares básicas, pelo que sobrevive dos frutos que a dadivosa mãe-natureza coloca ao seu dispor, por isso explicita no poema 10, “Retirado na Montanha Fria, /Alimento-me de frutos da montanha” (一自遁寒山/養命餐山果) (Ibidem). Tal não significa que o eu poético não tenha momentos de desalento e de humana solidão, isso sucede quando se deixa vencer pelo cansaço e pelo sentimento da fugacidade da existência, como confessa no final do poema 27: “O tempo foge, os cabelos brancos, tão brancos,/ o ano acaba e eu velho triste, tão triste”( 時催鬢颯颯/歲盡老颯颯) (Abreu, 2024, 70/1) Já no tempo de Han Shan, presumivelmente o século VIII da dinastia Tang, o mais importante para muitos senhores de então era o dinheiro, como explica nos últimos verso do poema 41: “mais importante que tudo é o dinheiro (愿君似今日/錢是急事爾)(Abreu, 2024,80/1)”, a valorização dos bens materiais que o eu poético constata parece ser uma constante de todos os tempos em pessoas apenas concentradas nos interesses mundanos, que não conseguem entender que existem outras necessidades para além das físicas, tão importantes como estas e apenas alcançáveis pela via da meditação. Pois para lutar contra os vãos desejos do mundo, o conselho dado ao sábio é: “como arma, leva apenas a espada da sabedoria,”( 常持智慧剑) (Abreu, 2024, 82/3), ele sabe que tudo o que é necessário para se viver bem se encontra nos cinco elementos Wu Yin (五陰Wǔ Yīn ) do Budismo Mayahana (Grande Veículo) : a forma, a sensibilidade, a perceção, a vontade e a consciência, essenciais na compreensão da pobreza e do vazio existenciais, mas ainda de uma certa leveza de um corpo tornado quase espírito na Montanha Fria, como se lê nos últimos versos do poema 63 “Um vento cortante, a lua fria como gelo,/ o meu corpo, um grou solitário voando” (寒月冷颼颼/身似孤飛鶴) (Abreu, 2024, 94/5). Por fim, um conselho de estética religiosa que o eu poético deixa a todos os seus leitores no poema 64, naturalmente a seguir, porque a poesia é a música das palavras que vai direta ao coração-buda: Em casa, ter poemas de Han Shan é melhor do que ler sutras. Escrevam os poemas num biombo e olhem-nos, de vez em quando. 家有寒山詩 胜汝看經卷 書放屏風上 時時看一遍 (Ibidem) Bibliografia Abreu, António Graça de (Org. e Trad.). 2024. Han Shan Poemas寒山詩. Lisboa: Grão-Falar. Hatherly, Ana (Adapt.). O Vagabundo do Dharma. 25 poemas de Han-Shan. Tradução do chinês de Jacques Pimpaneau, versões poéticas de Ana Hatherly e caligrafias de Li Kwok-Wing.