Óbito | Faleceu Un Chi Iam, pintora e esposa de Mio Pang Fei Andreia Sofia Silva - 8 Abr 2026 Morreu, no último sábado, a pintora e professora universitária Un Chi Iam, viúva do já falecido artista e pintor Mio Pang Fei, um dos grandes nomes da arte contemporânea de Macau. Segundo uma nota enviada às redacções pela filha do casal, Cristina Mio U Kit, Un Chi Iam nasceu em Xangai em 1938, tendo-se mudado para Macau em 1983. Possuía um mestrado em Belas-Artes pelo Instituto de Arte de Nanjing, tendo-se dedicado, tal como o marido, às artes plásticas e também ao ensino. Un Chi Iam foi editora de arte da Revista de Cultura do Instituto Cultural de Macau e professora de pintura Chinesa na Academia de Artes Visuais de Macau e no Instituto Politécnico de Macau. Foi ainda membro fundadora do Círculo dos Amigos da Cultura de Macau, bem como “líder activa” em associações locais. No que diz respeito a exposições realizadas, Un Chi Iam fez três exposições individuais, participou em três Bienais de Macau e em mais de 60 exposições colectivas internacionalmente. Além disso, foi uma pintora distinguida pelo seu trabalho, tendo recebido “vários prémios de destaque em pintura Chinesa”. Segundo a mesma nota, “a sua obra combinava a tinta tradicional chinesa com influências modernas e ocidentais, incorporando selos, gravura e outras técnicas chinesas”, a fim de “expandir a linguagem da pintura chinesa contemporânea”. A falecida pintora é recordada “como uma inovadora e uma professora dedicada”, com a sua influência a perdurar “através dos seus alunos, publicações e das instituições que ajudou a construir”. Casal de eleição Ao lado de Un Chi Iam esteve sempre Mio Pang Fei, também natural de Xangai e cuja vida e obra mereceu, em 2014, um documentário da autoria de Pedro Cardeira. Sendo um dos nomes mais importantes da arte contemporânea chinesa, Mio Pang Fei foi tido como uma referência para muitos, a começar pelo facto de, no início da carreira, se ter interessado pela arte contemporânea ocidental, que no país era tida como anti-revolucionária. Nos anos da Revolução Cultural Mio Pang Fei teve de enveredar pela arte tradicional chinesa e caligrafia, mais política e socialmente aceites, tendo sido perseguido pelo maoísmo, detido e condenado a trabalhos forçados. No início dos anos 80, escapou para Macau e, no território, pôde continuar a arte que queria desenvolver e uma nova vida. Mio Pang Fei criou o chamado Neo-Orientalismo, com uma mistura entre as artes que realizou toda a vida: a tradicional chinesa e a ocidental, mais contemporânea e com um outro olhar. O artista faleceu em 2020.
Zaratrustra Amélia Vieira - 8 Abr 2026 Nós deixamos quase sempre a nossa pátria por volta dos trinta anos, ou seja, deixamos a vida primeira rumo à nossa própria identidade, vamos para a nossa montanha e daí recomeçamos qualquer coisa de inaugural que tem a ver com o ciclo de Saturno simbolicamente referenciado como a morte do pai. São vinte e oito anos este ciclo, mas trinta anos é a sua consumação talvez mais precisa. A vida que se deseja liberta deve ter nesta altura todas as prerrogativas que a façam manter-se livre, autónoma, e quiçá até esquecida da natureza primeira. Por estes anos não só a morte do pai é um imperativo como o amor vindouro um vasto sortilégio. Comecemos então a labuta para subir a montanha, a solidão que percorreria muito mais tarde Moisés, e ainda mais tarde Jesus, trilhando os caminhos do Bode. O pai das religiões monoteístas imprimiu este tema da montanha como se de uma profecia eterna se tratasse, e assim se quedou intacta até aos dias de hoje como se o caminho que rasura o sopé da primeira condição desaparecesse bem alto entre as nuvens que o solo não vê. A Pérsia está repleta dos melhores poetas que o mundo viu, e tanto foi assim, que nos confins distantes do seu império eles oravam a eles como se identidades sagradas se tratassem. Ao tempo de Ciro o Grande. O que andam os bárbaros a fazer nesta terra puxada a cavalos de fina raça, em completa oposição ao blasfemo oratório de uma Casa Branca em torno do chefe? É uma heresia e também um erro de cálculo gigantesco, e o facto de se aqui chegar desta maneira revela o abismo no qual andamos metidos. E Zaratustra, depois de uma década passada na montanha, chega à idade de quarenta anos, o temível numérico que desenvolve quarentenas, quaresmas e travessias, é um homem nascido de si e da sua solidão guiando o ciclo do sol antes que a noite total se implementasse (são ainda os velhos cultos de Mitra alinhados com a lonjura da sua existência) e ei-lo então no caminho inverso. Vai descendo, um Moisés futuro em estupefação com o que o espera cá em baixo, e um anjo o questiona;- vais ter com os homens? Não te esqueças de levar o chicote- Por essa altura é apoiado por uma rainha e um seu governante se faz adepto do Zoroastrismo, a sua missão tomava outra década e deu-lhe o destino então setenta e sete anos e quarenta dias. Muitos creem que ele já tinha existido há seis mil antes atrás muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, mas seja como for, nada se perde por um milénio a mais ou um milénio a menos nesta prodigiosa fase da civilização. Este ritmo do descer e subir já tinha sido aplacado para dar a Jacob um sonho, e depois lutar com um anjo onde viria a ficar cocho, mas de Zoroastro ninguém mencionou nenhuma alucinação nem um mínimo sinal de que tivesse sido manco. No Zaratustra de Nietzsche há um poema evocativo que nos interpela na voz grave da consciência: / escreve com o teu sangue que jamais amei aqueles que o fazem ociosamente…/vede como me sinto livre, vede como me sinto leve/ Vede voo, vede sobrevoou… Vede! Há em mim um deus que dança. Andamos ameaçados com terceiras, quartas e quintas guerras mundiais, estamos espiritualmente em guerra, quem retomar o caminho das montanhas que pergunte o que significa matar anciãos de longas barbas, que o fim de tudo começa com outras guerrilhas onde passamos incólumes como se nada de extraordinário estivesse a acontecer. O feitiço do feiticeiro que mata meninas com o urro inicial deixando as listas de canibais ao deus dará, numa arrepiante manifestação ressuscitada de Baal. Zaratustra ainda existe para nos lembrar da fronteira entre o homem e a besta, foi convocado à luz da nossa humanidade para pôr também fim a todos os cultos sacrificiais, e foi um pai de Abraão na sequência de acabar de vez com o massacre dos inocentes. Um poeta persa disse que os homens opõem resistência às coisas porque eles não as conhecem, Abu Hamid al- Ghasali, o que inspirou Saint- Exupéry a dizer outra; os homens amam a Terra porque esta lhes resiste. O que poderemos nós fazer no meio de tudo isto, e quem nos virá libertar destes “salvíficos”? Tu conheces o tempo, vem salvar-nos.
Primeira prova do “Arrive and Drive” da Ásia-Pacífico será em Coloane Sérgio Fonseca - 8 Abr 2026 Este ano, a FIA lançou novos campeonatos regionais e internacionais no formato “Arrive and Drive”, ou “chave na mão” na designação portuguesa, com o objectivo de aumentar a acessibilidade e a participação de jovens pilotos nas competições de karting. O Campeonato da FIA de Karting “Arrive and Drive” da Ásia-Pacífico, na sua primeira edição, será composto por três rondas, estando a primeira jornada marcada para o Kartódromo de Coloane. Neste modelo “Arrive & Drive”, os pilotos não necessitam de levar o seu próprio kart nem de integrar uma equipa técnica, uma vez que a organização fornece todo o equipamento necessário, incluindo karts totalmente padronizados do OTK Group, motores e pneus iguais para todos, bem como assistência técnica, preparação e manutenção do material. Desta forma, os participantes apenas têm de comparecer no circuito e competir, o que contribui para reduzir significativamente os custos e diminuir as diferenças técnicas entre concorrentes. O campeonato é composto pelas categorias Júnior (12–14 anos, pilotos nascidos entre 2012 e 2014) e Sénior (14–18 anos). Com esta iniciativa, a FIA pretende reduzir as barreiras financeiras no karting internacional para os pilotos mais jovens, aumentar a participação de competidores provenientes de países com menos recursos, assegurar condições de competição mais equilibradas — numa altura em que os custos da modalidade têm vindo a aumentar significativamente — e identificar e desenvolver novos talentos para o automobilismo. Depois do primeiro anúncio em Dezembro passado, o calendário do Campeonato da FIA de Karting “Arrive and Drive” da Ásia-Pacífico foi finalmente ratificado no último Conselho Mundial da FIA e será disputado em três eventos. A primeira prova está agendada para o Kartódromo de Coloane, que este ano celebra o seu trigésimo aniversário, entre 19 e 21 de Junho. Depois da prova em solo de Macau, a competição prossegue, de 24 a 26 de Julho, no Circuito Internacional de Karting de Zhuzhou, no Interior da China. A terceira e última jornada, marcada para 11 a 13 de Setembro, será realizada na Madras International Karting Arena, na Índia. As inscrições para o campeonato encontram-se abertas até 27 de Maio, permitindo a participação de pilotos individuais sem necessidade de nomeação pelas respectivas autoridades desportivas nacionais. Como prémio, os melhores classificados nas categorias Júnior e Sénior qualificam-se directamente para a Taça do Mundo da especialidade, tendo assim a oportunidade de assegurar um lugar no prestigiado “FIA Karting Shootout”. FIA mais perto A primeira edição da Taça do Mundo da FIA de Karting “Arrive & Drive” realizou-se em Novembro do ano passado, na Malásia, precisamente no fim-de-semana do Grande Prémio de Macau. Numa iniciativa pouco habitual, mas digna de registo, a RAEM fez-se representar no evento pelo piloto de 14 anos Chong Ian Ip e a supervisão de João Afonso, o piloto com mais títulos conquistados no karting de Macau. Na categoria Júnior, a prova reuniu mais de cinquenta participantes provenientes de todo o mundo, tendo Chong terminado na 19.ª posição na Final do Grupo B. A presença de mais esta competição da FIA em Macau não é fruto do ocaso e segue a linha da proximidade entre a federação internacional e o Associação Geral Automóvel Macau-China (AAMC). A Assembleia Geral Extraordinária da FIA será novamente organizada em Macau a 26 de Junho. O encontro será novamente promovido pela AAMC e faz parte da semana das conferências da FIA que também se realizarão no território.
Combustíveis | Aumento dos preços limitado a metade do valor de mercado Hoje Macau - 8 Abr 2026 A China vai continuar a limitar praticamente a metade o aumento no preço dos combustíveis, prolongando as medidas anunciadas em Março para tentar atenuar o impacto da subida do preço do petróleo. Segundo indicou ontem num comunicado a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR, principal órgão de planeamento económico do país), os preços da gasolina subirão 420 yuan por tonelada, quando deveriam subir 800 yuan, na sequência das “consideráveis” flutuações no mercado. O preço do gasóleo subirá 400 yuan por tonelada, em vez dos 770 yuan do cálculo padrão. “Para mitigar o impacto dos preços internacionais crescentes do petróleo bruto no mercado nacional, o Governo continua a aplicar medidas de controlo sobre os preços dos derivados do petróleo”, indica a instituição no seu portal. A 23 de Março, a CNRD anunciou que limitaria os aumentos a 1.160 e 1.115 yuan para a gasolina e o gasóleo, em vez dos 2.205 e 2.120 yuan que teria de aplicar face à escala do preço do petróleo. No comunicado de ontem, o responsável pelo planeamento económico exige que as grandes petrolíferas estatais “organizem a produção e o transporte” de produtos refinados para “garantir o abastecimento estável” e insta-as a “aplicar rigorosamente” os referidos controlos de preços. O comunicado adverte de “penas severas” contra quem infringir estas medidas e pede a todas as autoridades do país que “reforcem a supervisão e a inspecção do mercado”. Perante o bloqueio “de facto” do estreito de Ormuz, por onde passa 45 por cento do petróleo que importa, a China registou um dos maiores aumentos recentes nos preços dos combustíveis, o que levou os reguladores a intervir para limitar o seu impacto sobre os cidadãos.
Ucrânia | Pequim e Kiev acordam requisitos para exportação de farinha de trigo Hoje Macau - 8 Abr 2026 China e Ucrânia assinaram na segunda-feira um protocolo sobre requisitos sanitários, de inspecção e de quarentena para a exportação de farinha de trigo ucraniana para o mercado chinês, num novo passo na cooperação agroalimentar entre os dois países. O acordo foi assinado na segunda-feira pelo embaixador da China na Ucrânia, Ma Shengkun, e pelo chefe do Serviço Estatal da Ucrânia para a Segurança Alimentar e Protecção do Consumidor, Serhii Tkachuk, informou ontem a embaixada chinesa em Kiev, através da sua conta oficial na rede social WeChat. De acordo com a embaixada chinesa, Ma Shengkun avaliou positivamente a cooperação agrícola entre Pequim e Kiev, afirmando que a assinatura do protocolo “vai ampliar ainda mais a cooperação comercial em produtos agrícolas entre os dois países” e enriquecer o conteúdo da parceria estratégica bilateral. Na reunião participou também a vice-ministra ucraniana da Economia, Ambiente e Agricultura, Iryna Ovcharenko, que indicou que a China é o principal parceiro comercial da Ucrânia e um “destino importante” para as exportações agrícolas ucranianas, manifestando confiança de que o protocolo “impulsionará um novo crescimento” do comércio bilateral neste sector.
Energia | Xi pede novo sistema energético e reforço da segurança Hoje Macau - 8 Abr 2026 O Presidente chinês, Xi Jinping, defendeu ontem a construção de um “novo sistema energético” e o reforço da segurança energética do país, num contexto de perturbações no fornecimento de combustíveis fósseis, causado pelo conflito no Médio Oriente. Sem referir directamente a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão, Xi sublinhou que a China deve “acelerar o planeamento e a construção de um novo sistema energético” e reforçar a segurança, numa fase em que Pequim aposta na diversificação das fontes de abastecimento, noticiou a televisão estatal CCTV. O chefe de Estado apelou ao desenvolvimento “activo, seguro e ordenado” da energia nuclear e ao reforço de um sistema integrado de produção, fornecimento, armazenamento e comercialização de energia. As declarações surgem após semanas de instabilidade no Médio Oriente, onde a guerra envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos tem afectado o tráfego marítimo e pressionado o preço do petróleo, devido ao bloqueio de facto do Estreito de Ormuz. Segundo a CCTV, nos primeiros meses do novo plano quinquenal aprovado em Março, que orienta a segunda maior economia mundial nos próximos cinco anos, a China tem acelerado a construção de infraestruturas energéticas de nova geração, com o objectivo de reforçar a cadeia de abastecimento e promover um desenvolvimento mais verde e de baixas emissões. No final de Fevereiro, a capacidade instalada de energia eólica e solar atingia 1.880 milhões de quilowatts, um aumento de 28,8 por cento em termos homólogos, enquanto a produção eléctrica a partir de fontes renováveis já representa cerca de 40 por cento do total nacional. Xi Jinping salientou recentemente que o carvão continua a ser a “base energética” da China, devendo desempenhar um papel de suporte. Impacto global O conflito, em escalada desde finais de Fevereiro, tem incluído ataques a infraestruturas energéticas e afectado o tráfego no Estreito de Ormuz, por onde, em circunstâncias normais, transita cerca de 20 por cento do petróleo mundial e aproximadamente 45 por cento das importações chinesas de petróleo e gás. A guerra já teve impacto directo na China, ao aumentar os custos energéticos e logísticos, levando mesmo as autoridades a intervir temporariamente nos preços internos dos combustíveis. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês indicou recentemente que alguns navios chineses conseguiram atravessar o estreito após coordenação com as partes envolvidas. Pequim tem condenado repetidamente os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, ao mesmo tempo que sublinha a necessidade de respeitar a soberania dos países do Golfo, com os quais mantém estreitas relações políticas, comerciais e energéticas.
Ponto de Convergência: Clássicos, Esquecimento e Renascimento no 15.º Festival Literário de Macau Hoje Macau - 8 Abr 2026 O Festival Literário de Macau através da perspectiva de Harold Bloom Por Lam Kongchuen O famoso crítico literário Harold Bloom, nas suas reflexões sobre a relação entre a literatura e a cidade, nunca considerou a cidade simplesmente como um pano de fundo para a literatura. Para ele, as grandes cidades — Alexandria, Londres, Paris, Nova Iorque — remodelam com uma força irresistível cada escritor que entra no seu espaço. A cidade impõe uma «ansiedade de influência», obrigando os criadores posteriores a procurar a sua própria voz à sombra dos clássicos. Se Bloom ainda estivesse vivo, talvez entrasse com um olhar diferente na 15.ª edição do «The Script Road — Festival Literário de Macau». Este grande evento cultural, que estabelece pontes entre o Oriente e o Ocidente, Portugal e a China, a tradição e a contemporaneidade, ilustra precisamente uma teoria central à maneira de Bloom: quando um festival literário tem como objetivo o «intercâmbio» e o «diálogo», estará a mobilizar a essência da literatura? 1/ A Sombra de Pessanha A homenagem prestada neste festival ao centenário da morte do poeta português Camilo Pessanha oferece o texto mais rico para uma leitura à maneira de Bloom. Pessanha, um poeta simbolista que passou os últimos 30 anos da sua vida em Macau, cuja obra «Clepsidra» é aclamada como uma das mais requintadas da língua portuguesa, ocupa, no entanto, uma posição especial em ambas as tradições culturais. Visto através de Bloom, Pessanha é precisamente aquele «fraco forte» — na tradição clássica portuguesa, herdou a ansiedade de Pessoa; em Macau, enfrentou uma tradição literária chinesa que ainda não o tinha totalmente absorvido. A nova obra de Yao Feng, “Encontro dos Extremos”, narra a história do intercâmbio literário entre Portugal e a China; esta narrativa do «encontro» é precisamente o mito que Bloom sempre procurou desconstruir. Para Bloom, o verdadeiro encontro literário nunca é um diálogo moderado, mas sim um confronto direto com a interpretação errada, a competição e a superação. A poesia de Pessanha merece ser celebrada não porque ele tenha conseguido «intercambiar» algo, mas porque criou, na franja entre duas tradições, uma ansiedade única — uma voz que não é nem totalmente portuguesa, nem totalmente macaense. O passeio histórico «Nas Pegadas de Pessanha», organizado pelo Festival de Literatura de Macau, foi conduzido pelo escritor Christopher Chu. Esta peregrinação espacial, se analisada pela perspectiva de Bloom, não é apenas uma reminiscência do passado, mas um ritual através do qual um «tardio» tenta aliviar a sua ansiedade de influência, revisitando as pegadas físicas de um clássico. A questão é: quando caminhamos pelas ruas por onde Pessanha passou, estamos a dialogar com ele ou apenas a procurar consolo para o nosso atraso? 2/Livros de Mulheres e Linguagem Secreta Em 1973, Bloom publicou “A Ansiedade da Influência”, que «abalou os nervos de todos», mas a sua teoria da formação clássica tem sido há muito acusada pelas críticas feministas de ser cúmplice do patriarcado — os «poetas dominantes» aos seus olhos são quase exclusivamente homens, e a «ansiedade da influência» que descreve é uma competição de masculinidade. No entanto, o foco deste festival literário na «escrita feminina» oferece precisamente uma alternativa à análise de Bloom. O documentário de Feng Du, “The Whisperers”, narra a história de «Nüshu», uma escrita exclusiva para mulheres de Jiangyong, na província de Hunan — um alfabeto criado por mulheres para escapar à compreensão masculina, escrito em leques dobráveis e bordado em lenços, que se desenvolveu como forma de poesia e de expressão de afecto. Se Bloom tivesse assistido a esta secção, talvez tivesse revisto a sua teoria: não se trata de uma tradição feminina excluída da literatura clássica que está a ser «recuperada», mas sim de uma manifestação paralela à literatura clássica. A própria existência do «Nüshu» é um protesto silencioso contra a literatura clássica dominante (seja em chinês ou em português) — não procura o diálogo, cria o seu próprio espaço. O Festival de Literatura organizou o workshop de «Nüshu» e a exibição no mesmo dia, coincidindo com o Dia Internacional da Mulher. Esta lógica curatorial tenta apresentar a «narrativa feminina» como uma unidade temática. Mas uma crítica ao estilo de Bloom salientaria: a verdadeira tradição literária feminina não precisa de ser «tematicizada»; o que precisa é de ser reconhecida como um sistema clássico completo, dotado de competição interna e de tradição. Quando a literatura feminina é trazida das aldeias de Hunan para o recinto do Festival Literário de Macau, corre o risco de ser transformada numa peça de exposição de «diversidade cultural», em vez de uma tradição literária viva, que continua a gerar inquietação. 3/ Macau como texto urbano: do ponto de convergência ao campo de irradiação Esta edição do Festival Literário enfatiza uma palavra-chave: Macau como «ponto de encontro das culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente». Por trás desta formulação está aquilo a que Bloom chamaria de «ilusão académica» — como se o encontro entre culturas pudesse ser harmonioso, complementar e mutuamente enriquecedor, sem distinções. No entanto, Bloom lembra-nos que o verdadeiro espaço literário urbano nunca é um ponto de encontro, mas sim um campo de batalha. A Paris do século XX não foi grande por ter permitido o «encontro» entre Hemingway e Joyce, mas porque obrigou cada um a procurar a sua própria voz à sombra dos outros. Da mesma forma, o potencial literário de Macau não reside na sua capacidade de «ligar» a China e o mundo lusófono, mas sim na sua capacidade de se tornar um local onde surgem novas ansiedades, novas interpretações erradas e novos clássicos. A exposição do arquiteto José Maneiras — uma retrospectiva sobre este arquiteto macaense que projetou o Complexo de São Francisco — oferece uma metáfora espacial. A arquitetura é a manifestação mais física do clássico: um edifício ergue-se ali, e os arquitetos que se seguem têm de decidir se o imitam, o destroem ou estabelecem um diálogo silencioso com ele. O colóquio organizado pelo Festival de Literatura procura «homenagear o seu contributo para a paisagem urbana», um ritual de canonização. Mas Bloom questionaria: quem é o «poeta dominante» do mundo da arquitetura de Macau, capaz de reinterpretar José Maneiras e, a partir daí, criar uma nova linguagem urbana? 4/Manifestações Multidisciplinares O cartaz desta edição do Festival de Literatura é verdadeiramente estrelado: o vencedor do Prémio Pulitzer Hernán Díaz, o romancista Amitav Ghosh, os mestres da literatura chinesa Bi Feiyu e Xiao Bai. Ao mesmo tempo, o evento estende-se ao cinema (A Mulher do Mar), ao teatro (a versão portuguesa de À Primeira Vista), à música (o concerto de Rodrigo Leão) e às artes visuais. A literatura manifesta-se em múltiplos domínios. Por um lado, há um esforço para alargar o público da literatura; por outro, à medida que o festival literário se torna cada vez mais um evento público, a autonomia da literatura é amplamente mobilizada, expandida e difundida. «À Primeira Vista» é uma excelente peça teatral, e a actriz Margarida Vila-Nova regressará a Macau para a apresentar. A peça, da autoria da dramaturga australiana Suzie Miller, já foi apresentada em Londres, Nova Iorque e cerca de trinta cidades em todo o mundo, incluindo Xangai e Hong Kong. A sua versão produzida em Portugal está em sintonia com o cerne do «Festival de Literatura de Macau». O concerto do músico português Rodrigo Leão tornou-se um capítulo à parte no intercâmbio literário sino-português. Bloom passou a vida a defender a autonomia estética — ele considerava que o valor da literatura não reside na sua correção política, representatividade cultural ou utilidade social, mas sim na intensidade da sua imaginação única e irredutível. Desta perspetiva, os dois encontros dedicados à poesia no festival, sendo o último deles o ponto alto de todo o evento, constituem o momento mais «bloomiano». A poesia — esse meio que possui, por natureza, as características de «transdisciplinaridade» e «intercâmbio», mas que, ao mesmo tempo, é o mais obstinadamente fiel à própria linguagem — foi colocada no final, como se fosse uma reflexão no desfecho de toda a celebração literária. Bloom diria: é aqui que o festival literário, ao chegar ao fim, recomeça, tal como o mar começa no fim da terra. 5/ Assim, a literatura imortal «A Imortalidade da Palavra», este nome em si está repleto da ironia bloomiana. O que é a imortalidade? Para Bloom, a imortalidade não é ser lembrado, mas sim gerar ansiedade de forma contínua — fazer com que os escritores posteriores não consigam dormir à noite por causa da tua existência, fazer com que os leitores sintam, perante as tuas palavras, os limites e a transcendência da linguagem. A «ponte cultural» que o Festival de Literatura de Macau procura construir tem a sua necessidade e valor, especialmente numa cidade ainda marcada pela intersecção e coexistência de uma história diversificada, da política linguística e da identidade. Mas Bloom lembrar-nos-ia: o significado da ponte não reside em tornar esta margem e aquela margem idênticas, mas sim em tornar as diferenças atravessáveis, confrontáveis e passíveis de interpretação errada. A imortalidade de Pessanha não se deve ao facto de ter conseguido transmitir alguma informação entre Portugal e a China, mas sim ao facto de a sua poesia se recusar a ser totalmente absorvida por qualquer tradição — o que ele deixou em Macau não foram vestígios de uma convergência, mas sim marcas de ansiedade. É a ansiedade contínua que traz novos impulsos à criação literária. Ao sairmos da Fundação Oriente, encerrando este banquete literário de onze dias, a verdadeira questão não é «quanto trocámos», mas sim «se gerámos uma nova ansiedade» — uma ansiedade capaz de impulsionar uma nova geração de escritores e artistas de Macau a criar, à sombra de Pissarro, das Mulheres-Livro, de Masua e de todos esses clássicos, uma linguagem literária própria, forte e inquietante. Só assim Macau poderá, no sentido literário, tornar-se verdadeiramente «imortal».
Lisboa | Lançado quarto volume de “Figuras de Jade” de António Aresta Andreia Sofia Silva - 8 Abr 2026 Foi lançada ontem, em Lisboa, “Figuras de Jade IV – Os Portugueses no Extremo Oriente”, obra de António Aresta, ex-professor de Filosofia em Macau, que tem escrito sobre a cultura do território. O autor descreve aqui diversas personalidades que ajudaram a contar Macau ao mundo, confessando que já está a trabalhar nos quinto e sexto volumes da mesma obra Decorreu ontem, em Lisboa, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), o lançamento da obra “Figuras de Jade IV – Os Portugueses no Extremo Oriente”, da autoria de António Aresta, que deu aulas de Filosofia em Macau entre os anos de 1987 e 1998 e que, desde então, se tem dedicado a escrever sobre a cultura do território. “Figuras de Jade IV” é uma edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), feita em 2025, que teve agora o seu lançamento em Lisboa. Em declarações ao HM, António Aresta disse que este volume do livro “mostra que o projecto continua pujante”, tendo estudado já centenas de personalidades portuguesas que ajudaram a mostrar Macau nas suas diversas valências. Porém, o autor destaca uma: Manuel da Silva Mendes, considerando-a “a figura portuguesa mais relevante”. Tudo graças “à sua dimensão intelectual, o seu comprometimento cívico, a sua requintada faceta de coleccionador de obras de arte”, sem esquecer o facto de ter sido “professor e reitor do Liceu, vereador do Leal Senado e advogado”. Na visão de António Aresta, Manuel da Silva Mendes “construiu, coisa rara entre os portugueses expatriados, um vistoso palacete, de ‘tai pan’, na colina da Guia”, tendo “infelizmente falecido prematuramente, vítima de uma doença incapacitante”. Nesta sessão na SHIP foram apresentados os quatro volumes já editados de “Figuras de Jade” o que constituiu, na visão do autor, “uma oportunidade para se voltar a recolocar Macau no centro da informação cultural portuguesa”. Para António Aresta, “a opacidade e invisibilidade de Macau e da cultura chinesa em Portugal é um mistério oriental”. “O orientalismo, os estudos de Macau e a sinologia não são notícia ou interesse para o jornalismo português, o que é pena. Porque a nossa história é tão antiga, muito interessante e valiosa. Macau é um milagre do entendimento entre portugueses e chineses”, destacou. Mais a caminho Ainda segundo António Aresta, o nome “Figuras de Jade” remete para o facto de esta ser “uma pedra preciosa tão apreciada pelos chineses” e “símbolo magno da arte de ser português em Macau e no Extremo Oriente”. Assim, “os portugueses são o jade de Macau, sem eles nada disto existiria ou faria sentido”, pois “inventaram Macau, com a amizade, o trabalho e a cumplicidade dos chineses”, considerou. António Aresta diz estar a trabalhar em mais volumes de “Figuras de Jade”, sendo que o quinto “está no prelo”, prevendo-se “que seja apresentado ainda neste ano em curso”. O autor diz também estar a trabalhar no sexto volume, considerando o trabalho em torno de “Figuras de Jade” como “infinito” e “dependente de três coisas: saúde, o acolhimento do Jornal Tribuna de Macau e o inestimável apoio do IIM”. Longo contexto António Aresta já conta com muitos textos sobre Macau, tendo já escrito obras como “O Neoconfuncionismo na Educação Portuguesa”, editado em 1996, ou ainda “A Educação Portuguesa no Extremo Oriente”, com edição em 1999. O autor tem também editado um livro sobre Manuel da Silva Mendes, que saiu em 2017. Todas essas edições e referida pesquisa permitiu a António Aresta adquirir “uma visão panorâmica e pluridimensional da cultura em Macau, que é muito rica e problemática”. Os quatro volumes já publicados de “Figuras de Jade” demonstram, no entender do autor, “que Macau nunca foi indiferente para os portugueses que estudaram e se interessaram pelas mais variadas coisas”. “Outra coisa muito curiosa, é a vertente benemérita e filantrópica. Muitos dos portugueses que estiveram em Macau ofereceram aquilo que amorosamente juntaram e compraram, como bibliotecas, obras de arte, espólios documentais, mobiliário, fotografias, a arquivos, museus e bibliotecas em Portugal. É uma coisa discreta e esquecida”, rematou.
Da comédia à arte: vêm aí mais festivais e novos eventos Hoje Macau - 8 Abr 2026 Macau vai acolher, nas próximas semanas, uma série de actividades culturais organizadas pelo Instituto Cultural (IC) onde não falta, por exemplo, a nova edição de um festival de comédia. Um dos eventos que junta as áreas do desporto e cultura acontece já este fim-de-semana, sábado e domingo, dias 11 e 12. A “Festa Cultural e Desportiva” tem por objectivo “aprofundar a interligação entre as duas áreas” e acontece no Centro Náutico da Praia Grande, o recinto principal, e ainda em diversos locais históricos como as Ruínas de S. Paulo, Casa de Lou Kau, Praceta de Venceslau de Morais, Bairro da Ilha Verde e Edifício Lok Kuan de Seac Pai Van. Aqui vão acontecer “demonstrações e experiências de projectos culturais e desportivos”, além de estarem colocadas bancas subordinadas ao tema “Cultura e Desporto Reúnem-se em Macau”. No rol de experiências incluem-se temáticas como os Barcos-Dragão, Ópera Cantonense, Dança Folclórica Portuguesa, Artes Marciais de Wing Chun ou escalada. Outro dos destaques do IC, é o Festival Internacional de Comédia, que já vai na sua terceira edição e que acontece entre esta quinta-feira e domingo, de 9 a 12 de Abril. Organizado pela Mahua FunAge e Damai, este festival estende-se até Hengqin e promete apresentar “uma gama diversificada de espectáculos de artes performativas”. Destaca-se o espectáculo “Parque da Alegria”, no Anim’Arte NAM VAN, inspirado em figuras históricas de Macau, enquanto em Hengqin decorrerá a selecção de “novos talentos para o curso de formação prática de comédia de Macau”. O cartaz de eventos inclui ainda a realização, a partir do dia 23 de Abril, da Feira de Artesanato do Tap Seac de Primavera, que decorre durante duas semanas consecutivas, sempre de quinta-feira a domingo. Reúnem-se “stands que comercializam produtos culturais e criativos originais de Macau e do exterior”. Mais leitura precisa-se Ainda na área cultural, o IC vai lançar a iniciativa “Macau Lê – Semana Nacional da Leitura 2026”, que acontece entre os dias 20 e 26 de Abril. No dia 23 deste mês decorre a cerimónia do início desta actividade e o evento “10 Minutos de Leitura”, enquanto o Centro Cultural de Macau (CCM) acolhe depois, entre os dias 25 e 26, “várias actividades de promoção da leitura, incluindo a Troca de Livros, Venda de Revistas, Actividades de Leitura Conjunta em Família, Stands de Jogos e Actuações Artísticas”. Em Julho, haverá lugar a novas exposições, como “Duetos da Natureza: Pinturas de Paisagem das Dinastias Ming e Qing do Museu Nacional da China”. A mostra estará patente no Museu de Artes de Macau (MAM) entre os dias 25 de Abril e 26 de Julho, onde se apresentam “obras da colecção do Museu Nacional da China, nomeadamente pinturas de paisagem das dinastias Ming e Qing e os sentimentos dos pintores”. Destaque ainda para a exposição “Grandioso Espírito de Dinastia Han – Exposição de Tesouros da Dinastia Han de Xuzhou”, a ter lugar entre 18 de Abril e 14 de Junho no Museu de Macau. Aqui apresentam-se “obras da colecção do Museu de Xuzhou, demostrando-se uma visão multidimensional da história do Reino de Chu durante a dinastia Han”.
Obras ilegais | Em 72 processos só dois deram origem a multa Hoje Macau - 8 Abr 2026 A Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSCCU) diz ter inspeccionado, desde a entrada em vigor do novo Regime jurídico da construção urbana, em 2022, 90 edifícios relativamente à existência de construções ilegais. Deste número, foram instaurados 72 processos, em que apenas dois deram origem a multa, dizendo ambos respeito “ao encerramento de varandas”. Estes números, que vão de 2022 até Março do corrente ano, mostram também que, em 23 processos, os proprietários acabaram por colaborar com as autoridades, demolindo voluntariamente as obras ilegais. Dos 90 edifícios fiscalizados, verificou-se a existência de obras ilegais em 21 desses prédios, o que resultou na instauração dos 72 processos. De frisar que “cerca de um terço dos proprietários envolvidos já requereu a demolição voluntária”. Autocarros | Carreira n.º 15 arranca esta semana A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) anunciou que a nova carreira n.º 15 de autocarro começa a funcionar esta semana, nomeadamente a partir de sábado. Esta carreira inclui, segundo um comunicado, as actuais carreiras n.os 15, 15S e 15S1, passando a funcionar no percurso entre os Jardins do Oceano e a Povoação de Ká-Hó, com frequências reforçadas para 22 a 26 minutos. Além disso, a DSAT acrescentou o percurso entre a Estrada do Altinho de Ká-Hó e o Terminal de Combustíveis do Porto de Ká-Hó. Outra carreira de autocarro que sofreu alterações, foi a do n.º 52, sendo que “os passageiros provenientes das zonas do Oceano com direcção ao Parque Industrial da Concórdia podem chegar aos respectivos destinos através da carreira n.º 52 ajustada”, explica a DSAT.
Incêndio | Foco na Rua do Cunha terá mão criminosa Hoje Macau - 8 Abr 2026 A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar um incêndio que deflagrou numa banca de vendas na Rua do Cunha, por suspeitas de fogo posto, no dia 4 de Abril. A informação foi divulgada pela PJ e citada pelo jornal Ou Mun. O incêndio foi detectado por um transeunte que se apercebeu de alguns objectos em chamas na banca de vendas. O transeunte chamou a polícia para pedir ajuda, e o incêndio foi extinto pelos bombeiros. Não foram registados feridos, mas o caso foi classificado como suspeita de fogo posto e foi entregue à Polícia Judiciária para investigação complementar. Acidente | Detido após bater em barreiras metálicas Um residente local foi detido, depois do veículo que conduzia ter embatido contra barreiras metálicas, na Avenida da Amizade, por volta das 21h30. De acordo com os contornos apresentados pelas autoridades, o acidente aconteceu a 1 de Abril, e, num primeiro momento, o homem fugiu do local. Contudo, o embate foi visto por testemunhas, que ligaram de imediato à polícia. As autoridades identificaram o homem de 40 anos, que foi detido e acusou uma taxa de álcool de 1,11 gramas por litro de sangue. Após a detenção, o homem confessou ter estado a beber ao jantar e indicou que quando se despistou conduzia para regressar a casa. O caso foi entregue ao Ministério Público.
Jogo | Receitas anuais podem crescer até 8,3 por cento Hoje Macau - 8 Abr 2026 Com o avançar do ano, os analistas começam a corrigir as estimativas iniciais de crescimento para a principal indústria de Macau. Após a subida de 14,3 por cento das receitas no primeiro trimestre, as previsões tornam-se ainda mais optimistas A empresa de avaliação de acções CBRE estima que o mercado do jogo vai crescer 8,3 por cento ao longo deste ano, o que indica ser uma estimativa que supera em dois pontos percentuais o consenso entre os analistas. O relatório mais recente da CBRE foi citado pelo portal GGRAsia, depois de ser divulgado na segunda-feira. A estimativa dos analistas John DeCree e Max Marsh tem em conta a subida anual de 14,3 por cento das receitas no primeiro trimestre do ano, para 65,87 mil milhões de patacas. O consenso dos analistas aponta para um crescimento anual de 6,0 por cento. No entanto, DeCree e Marsh explicam que este valor implica uma desaceleração das receitas, dado o crescimento do primeiro trimestre, o que não é expectável: “após o primeiro trimestre, o [crescimento] das receitas teria de desacelerar para 3,5 por cento durante o resto do ano… Consideramos improvável [tal] desaceleração”, é justificado. Os analistas afirmam ainda que “esperam que as receitas brutas do jogo de Macau cresçam mais rapidamente” do que o Produto Interno Bruto subjacente do Interior. No Interior, espera-se um crescimento do PIB entre 4,5 por cento e 5 por cento, o valor mais baixo da última década, excluindo o período da pandemia. Abril mais moderado Em Março, as receitas apresentaram um crescimento anual de 15 por cento, para 22,61 mi milhões de patacas, muito perto de Janeiro, quando as receitas cresceram 24 por cento, em termos anuais, para 22,63 mil milhões de patacas. No entanto, em Abril espera-se um crescimento mais moderado, com as estimativas a variarem entre 10 por cento e 12 por cento. Segundo as previsões do banco de investimento Seaport Research Partners, Abril deverá apresentar um crescimento anual de 12 por cento. Contudo, a partir da segunda metade do ano, o analista Vitaly Umansky espera um crescimento mais moderado, dado que os valores atingidos no período homólogo são mais elevados. Quanto à JP Morgan, os analistas Daniel Politzer, Samuel Nielsen e Michael Hirsh são mais moderados, com previsões de crescimento das receitas de 10 por cento em Abril.
One Oasis | Condomínio abdica de serviços da Transmac Hoje Macau - 8 Abr 2026 A administração do condomínio One Oasis abdicou do fornecimento dos serviços shuttle da empresa Transmac. A informação foi divulgada pelo Canal Macau, que indica que a nova opção passou por adquirir todos os autocarros que anteriormente eram utilizados pela agência de viagem que fornecia o serviço. Desde o início do ano, com a entrada em vigor da nova lei da actividade das agências de viagens e da profissão de guia turístico, que o Governo apertou a fiscalização ao fornecimento de serviços shuttle pelas agências de viagem. A lei foi aprovada pelos deputados e proposta pelo Governo. Antes da nova lei, a disponibilização de serviço shuttle por agências de viagens a empreendimentos habitacionais era uma prática ilegal, mas comum.
Viajantes do Interior escolhem Macau como destino de eleição Hoje Macau - 8 Abr 2026 A plataforma chinesa de viagens online do grupo Alibaba registou um aumento significativo nas reservas para o Festival de Qingming, com Macau a continuar a ser um dos destinos mais populares para os turistas chineses. “Macau é actualmente um dos destinos com crescimento mais rápido para os feriados de Qingming. As reservas de hotéis e voos estão em alta, enquanto as reservas de produtos de viagem e lazer, incluindo pacotes turísticos, serviços de motorista particular e ingressos para atracções, mais que dobraram em relação ao ano anterior”, indicou a plataforma Fliggy à Lusa. O Festival Qingming, em que os chineses limpam os túmulos dos antepassados, decorreu entre 4 a 6 de Abril. Segundo informações enviadas pela empresa, o turismo doméstico chinês liderou as tendências de viagem, com reservas de hotéis a crescerem 40 por cento em termos homólogos e a venda de bilhetes para locais turísticos a subir mais de 70 por cento. Macau e outras regiões de viagens mais longas no país, como Hainão, Xinjiang, Yunnan e Tibete, registaram crescimentos superiores a 100 por cento e consolidaram-se como destinos de eleição para viagens durante este feriado. Grandes centros urbanos como Pequim, Cantão e Chengdu lideraram as reservas, mas destinos menos conhecidos também se expandiram. As compras de pacotes de férias na plataforma aumentaram 72 por cento em Março, enquanto as pesquisas por “observação de flores” e “passeios de Primavera” dispararam quase 380 por cento face ao mês anterior. Cidades como Xangai, Hangzhou e Wuhan organizaram festivais temáticos de flores para atrair visitantes. Para fora As viagens ao estrangeiro estiveram igualmente em alta, com os gastos em actividades de lazer – desde passeios de barco a excursões de helicóptero – a aumentarem 120 por cento em termos homólogos. Destinos de curta distância, a menos de quatro horas de voo, como Coreia do Sul, Tailândia e Singapura, mantêm-se populares. A plataforma registou também um crescimento muto rápido, com forte procura por países como o Sri Lanka, Nova Zelândia, Islândia e Grécia. Nos primeiros dois meses, Macau recebeu 7,82 milhões de visitantes, um aumento de 15,1 por cento face ao mesmo período de 2025. O território atingiu a marca de 10 milhões de visitantes em 21 de Março, alcançando este número 12 dias mais cedo do que em 2025. As autoridades locais prevêem que o ano termine com 41 milhões de visitantes.
Banca | Lucros sobem 14,3 por cento em dois meses Hoje Macau - 8 Abr 2026 Apesar de a AMCM ter aprovado três descidas da taxa de juro de referência em 2025, os bancos estão a conseguir gerar mais dinheiro, com os lucros nos primeiros dois meses do ano a atingirem 2,71 mil milhões de patacas Os bancos de Macau obtiveram um lucro de 2,71 mil milhões de patacas nos primeiros dois meses do ano, mais 14,3 por cento do que no mesmo período do ano passado. De acordo com dados oficiais da Autoridade Monetária de Macau (AMCM), divulgados na quinta-feira, a principal razão para a subida dos lucros foi um aumento de 24,4 por cento, para 3,09 mil milhões de patacas, na margem de juros, a diferença entre as receitas dos empréstimos e as despesas com depósitos. Isto apesar de a AMCM ter aprovado três descidas da principal taxa de juro de referência em 2025, a última das quais um corte de 0,25 pontos percentuais, introduzida em 11 de Dezembro, seguindo a Reserva Federal norte-americana. Os empréstimos, a principal fonte de receitas da banca a nível mundial, subiram 0,3 por cento em comparação com Fevereiro de 2025, fixando-se em 1,05 biliões de patacas. Mas os depósitos junto dos bancos de Macau aumentaram ainda mais, 7,4 por cento, para 1,42 biliões de patacas no final de Fevereiro passado, disse a AMCM. Os bancos de Macau obtiveram um lucro de 7,34 mil milhões de patacas em 2025, quase o dobro do registado no ano anterior (mais 92,7 por cento). O ano mais lucrativo de sempre para a banca da região administrativa especial chinesa foi 2020, quando os lucros ficaram perto de 17 mil milhões de patacas. Macau tem dois bancos emissores de moeda: a sucursal local do banco estatal chinês Banco da China e o Banco Nacional Ultramarino (BNU), que pertence ao Grupo Caixa Geral de Depósitos. O BNU anunciou no início de Fevereiro lucros líquidos de 431,2 milhões de patacas, menos 153,9 milhões de patacas do que em 2024, algo que o banco atribuiu à queda das taxas de juro. Malparado em quebra O crédito malparado caiu pelo terceiro mês consecutivo, para 48,8 mil milhões de patacas, depois de ter encolhido 11,6 por cento em 2025, a primeira queda anual desde 2013. Os empréstimos vencidos representavam 4,7 por cento dos empréstimos dos bancos de Macau, menos 0,8 pontos percentuais do que em Fevereiro de 2025. Uma percentagem que sobe para 5,1 por cento no caso do crédito a instituições ou indivíduos fora da região chinesa. A Autoridade Bancária Europeia, a agência reguladora da UE, por exemplo, considera que os bancos com pelo menos 5 por cento dos empréstimos malparados têm “elevada exposição” ao risco e devem estabelecer uma estratégia para resolver o problema.
UCCLA Assembleia marcada por solidariedade face a catástrofes natural Hoje Macau - 8 Abr 2026 A solidariedade com as populações afectadas pelas chuvas em Moçambique, Cabo Verde e Portugal vai marcar a XLIII assembleia-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), que reúne as cidades e empresas membros da organização no próximo dia 13 em Macau. Além da discussão e aprovação de três moções relativas às chuvas intensas em Moçambique no final de Dezembro de 2025 e durante Janeiro deste ano, em Cabo Verde em Agosto de 2025, e no início de 2026 em Portugal, eventos todos eles marcados pela ocorrência de vítimas mortais e prejuízos avultados, a agenda de trabalhos da assembleia tem ainda inscrito um voto de pesar e de reconhecimento ao escritor António Lobo Antunes, que morreu no passado dia 5 de Março. A reunião magna da UCCLA, que este ano decorre em Macau, no Complexo da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), irá ainda apreciar as candidaturas à organização da cidade de Viseu, assim como da província angolana de Ícolo e Bengo, a sul de Luanda, que abarca sete municípios, e ainda uma associação luso-brasileira. À margem da assembleia-geral, no dia seguinte, está prevista a realização de um fórum empresarial subordinado ao tema “Infra-estruturas e Cidades Inteligentes”, que visa reforçar “a dinâmica económico-comercial da instituição”, de acordo com um comunicado da UCCLA. Promover o investimento O evento permitirá à cidade anfitriã desenvolver como subtema o “ambiente de investimento em Macau, as vantagens da plataforma sino-lusófona, e o desenvolvimento conjunto de Macau e da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin e as oportunidades de negócios trazidas pela Grande Baía aos países de língua portuguesa, do ponto de vista dos investidores externos e de eventuais empresas lusófonas parceiras”, ainda segundo o comunicado. Concluído o fórum, o Governo de Macau oferece aos participantes uma visita guiada a Hengqin, uma zona económica especial sob um regime especial de cooperação entre a cidade de Zhuhai e Macau, onde pretende dar a conhecer a possibilidades de intercâmbio com os serviços e empresas do interior da China. A UCCLA é uma organização intermunicipal, sem fins lucrativos, que se dedica ao fomento do intercâmbio e da cooperação entre os seus membros em vários domínios. Constituída em 28 de junho de 1985, a UCCLA tem entre as cidades fundadoras Bissau, Lisboa, Luanda, Macau, Maputo, Praia, Rio de Janeiro e São Tomé/Água Grande. Actualmente, congrega 106 membros, entre os quais 24 efectivos, 44 associados, 28 apoiantes e 10 observadores.
Optoelectrónica | UN vai abrir em Macau laboratório sino-português Hoje Macau - 8 Abr 2026 A inauguração do novo espaço, criado em conjunto pela Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, com foco no estudo e aplicação de aparelhos electrónicos que fornecem, detectam e controlam luz, acontece amanhã A Universidade Nova de Lisboa (UNL) vai inaugurar esta quinta-feira, em Macau, um laboratório sino-português para estudar “energia sustentável, ecrãs de última geração e dispositivos inteligentes”, disse a cientista Elvira Fortunato à Lusa. A nova instituição vai juntar o Instituto de Nano-estruturas, Nano-modelação e Nano-fabricação (i3N) da UNL e o Instituto de Ciências e Engenharia de Materiais da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla em inglês). O Laboratório Conjunto Sino-Português de Optoelectrónica irá reunir “conhecimentos especializados em optoelectrónica, nano-tecnologia e materiais avançados de ambos os lados”, explicou Fortunato. A optoelectrónica é o estudo e aplicação de aparelhos electrónicos que fornecem, detectam e controlam luz, incluindo os computadores do futuro, que poderão funcionar com luz e não só com transições electrónicas. O objectivo é ser “um espaço onde investigadores de Portugal, China e outros países podem trabalhar (…) em desafios comuns, como energia sustentável, ecrãs de última geração e dispositivos inteligentes”, acrescentou Fortunato. “Macau, com a sua história singular como ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente, é um local natural para este tipo de colaboração”, sublinhou a antiga ministra portuguesa da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2022-2024). Fortunato sublinhou que o laboratório conjunto “representa o culminar de uma longa e profícua parceria” entre as duas universidades, que no final de 2025 assinaram um novo acordo de cooperação. Apoio da RAEM O acordo teve o apoio do Governo de Macau e o novo laboratório conta já com financiamento do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia. Isto “envia um sinal claro de que o Governo de Macau está empenhado em desenvolver uma capacidade de investigação de classe mundial e em transformar as descobertas científicas em impacto no mundo real”, acrescentou. Elvira Fortunato e o marido, Rodrigo Martins, que lidera a Academia Europeia de Ciências desde 2018, são conhecidos por terem inventado, em 2008, com colegas, o chamado “papel electrónico”, o primeiro transístor feito de papel. Martins, coordenador do i3N-NOVA, sublinhou que o instituto está também a desenvolver um outro projecto de investigação em parceria com a MUST sobre “os chamados materiais funcionais avançados” para a energia. Em paralelo com a inauguração do laboratório, a MUST irá acolher um fórum de três dias sobre materiais optoelectrónicos, em colaboração com a Universidade de Suzhou, no leste da China. Numa nota enviada à Lusa, a MUST sublinhou que “este laboratório é o primeiro do seu género em Macau e o primeiro laboratório de investigação conjunta China-Portugal (…) dedicado à optoelectrónica”.
Identidade de Género | Alterações só com “estudo prudente” Hoje Macau - 8 Abr 20268 Abr 2026 As autoridades de Macau declararam à Lusa a necessidade de ser feito um “estudo prudente sobre as questões jurídicas envolvidas” no reconhecimento da identidade de género, descartando qualquer revisão legislativa. “Na situação em que não existe um consenso geral na sociedade, o Governo da RAEM necessita ainda de proceder ao estudo prudente sobre as questões jurídicas envolvidas”, respondeu por email a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça (DSAJ). A Lusa tinha questionado este departamento sobre se planeava criar legislação para o reconhecimento da identidade de género em Macau, único local na China onde não existem leis que permitam aos residentes mudar o marcador de género no documento de identidade ou realizar cirurgias de redesignação sexual. “O reconhecimento da identidade de género envolve questões, nomeadamente relacionadas com o valor nuclear da sociedade de Macau, as disposições do direito civil e as relações matrimoniais e familiares”, indicou ainda a DSAJ. Esta direcção referiu que, “até ao presente momento, não se encontra um planeamento para a revisão do respectivo regime jurídico”. Quatro pessoas trans em Macau narraram à Lusa, por ocasião do Dia Internacional da Visibilidade Transgénero, assinalado em 31 de Março, um trajecto de exclusão, com barreiras no acesso a cuidados médicos, emprego e ensino.
Energia | Pedido maior controlo sobre fornecedores João Santos Filipe - 8 Abr 2026 O deputado ligado aos Moradores, Leong Hong Sai, está preocupado com a “instabilidade persistente na região do Médio Oriente” e as consequências da inflação para a população e para as pequenas e médias empresas O deputado Leong Hong Sai defende que o Governo deve aumentar o controlo sobre os fornecedores de energia. A posição foi tomada através de uma interpelação escrita do legislador ligado à Associação dos Moradores, numa altura em que a economia mundial continua a lidar com as consequências do encerramento do estreito de Ormuz. “A instabilidade persistente na região do Médio Oriente provocou fortes perturbações nos mercados energéticos mundiais, com uma subida acentuada dos preços internacionais da energia, afectando de forma profunda o abastecimento de energia, o funcionamento das indústrias e o bem-estar da população de todas as economias do mundo”, escreve o deputado. “O abastecimento energético está directamente ligado à estabilidade social e à qualidade de vida da população em geral, sendo que o aumento dos preços internacionais da energia exerce igualmente pressões e desafios latentes sobre Macau”, avisa o Executivo. “A estabilidade dos preços é do interesse de todos os residentes, especialmente no que diz respeito à protecção do modo de vida dos grupos mais vulneráveis, enquanto que o processo ‘gasolina para electricidade’ constitui um passo fundamental para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e alcançar o desenvolvimento sustentável”, acrescenta. Neste sentido, Leong Hong Sai quer saber como “é que o Governo vai regular os fornecedores de energia” em áreas como o gás natural, o gás butano, a gasolina e a electricidade. O legislador pretende ainda saber se o Executivo vai divulgar “mais dados sobre os preços” e fiscalizar “de perto as variações dos preços”. Apoios à vista? Face à possibilidade de os combustíveis aumentarem os preços praticados pelas pequenas e médias empresas (PME), reduzindo ainda mais a competitividade, principalmente face ao Interior, Leong Hong Sai quer que o Governo explique se há abertura para apoiar a economia local. “O aumento do custo da energia vai, com certeza, afectar o ambiente comercial das pequenas e médias empresas e o nível de vida da população, assim sendo, como é que o Governo vai definir, de acordo com a situação real, medidas especiais de apoio às pequenas e médias empresas e às famílias em situação vulnerável, com vista a assegurar a estabilidade da vida da população?”, questionou. Finalmente, o deputado encara o choque energético como uma oportunidade para diversificar as fontes de energia e apostar em alternativas. Em concreto, o deputado defende que se devem abandonar os veículos a combustão, e apostar nos veículos eléctricos, mercado em que o Interior é o principal produtor, e ainda “explorar energia fotovoltaica”.
Branqueamento de Capitais | Macau mantém-se um “nó fundamental para lavagem de dinheiro” Hoje Macau - 8 Abr 20268 Abr 2026 O cenário foi traçado por especialistas em branqueamento de capitais à Agência Lusa, que destacam que o negócio assume novas formas, depois das campanhas contra as empresas junket. Os novos modelos passam pelas casas de câmbio, de penhores e a utilização de cartões de crédito Especialistas em crime organizado indicaram à Lusa que Macau continua a ser um “nó fundamental para a lavagem de dinheiro” por organizações criminosas, apesar do desmantelamento do anterior sistema de jogo VIP no território Segundo Martin Pubrick, antigo membro da Polícia Real de Hong Kong e especialista em corrupção e crime organizado, embora Pequim tenha desmantelado o sistema de angariadores de jogo VIP, conhecidos como ‘junkets’, que outrora dominava o sector dos casinos da cidade, Macau continua a ser uma porta de entrada crucial para a lavagem de dinheiro na região. “Embora grandes sindicatos criminosos chineses tenham deslocado operações pelo Sudeste Asiático em resposta a medidas repressivas, Macau continua a ser um ponto operacional e de encontro para estas redes profundamente enraizadas”, disse à Lusa. O sistema de ‘junkets’ permitia “enormes fluxos de capitais provenientes da China Continental” e enriquecia grupos ligados às tríades, um “processo que terminou nos anos anteriores à pandemia de covid-19, quando o Governo central expandiu a campanha anticorrupção, reforçou os controlos de capitais e processou vários ‘junkets’ de Macau para enviar uma mensagem clara”, explicou o analista. Alvin Chau Cheok Wa, ex-chefe do maior grupo de ‘junkets’ da cidade, a Suncity Group, foi preso em 2021 e depois condenado a 18 anos de prisão por associação criminosa e exploração de jogo ilícito. Num processo paralelo, Levo Chan, líder do Tak Chun Group, o segundo maior ‘junket’ de Macau, foi condenado a 13 anos de prisão por acusações semelhantes. Modelos afastados John Wojcik, investigador sénior da Infoblox Threat Intelligence e ex-analista do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, faz a mesma análise. Apesar de a mensagem das autoridades locais ser clara de que “as velhas formas de negócio acabaram”, Macau mantém uma importância estratégica nesta indústria paralela, afirmou à Lusa. O modelo de negócio dos “junkets” de Macau e dos grupos criminosos associados era, até 2019, centrado nos casinos. Hoje, porém, a actividade deslocou-se para apostas e jogos ilegais online, com pagamentos em criptomoedas e uma expansão significativa para esquemas de fraude digital em larga escala, sublinhou Pubrick. “Casas de câmbio, lojas de penhores e movimentos através de cartões de crédito absorveram essa procura, o que pode significar que a lavagem de dinheiro em Macau é hoje menos centralizada e menos visível”, observou o analista. Mas “Macau continua a ser um nó fundamental para a lavagem de dinheiro”, reiterou. Estes grupos criminosos, descreveu Pubrick, adaptaram-se, deslocando operações para jurisdições com regulamentação mais frágil, como o Camboja, Filipinas, que acolhia várias companhias de jogo online offshore, assim como zonas fronteiriças de Myanmar (antiga Birmânia). Muitos migraram para “apostas ilegais online, fraude digital e transacções em criptomoedas”, criando um negócio “geograficamente distribuído”, com vítimas que se expandem hoje à Europa e Américas. “Macau já não é o centro da lavagem de dinheiro, mas é uma porta regulada que continua a ser explorada por grupos criminosos da China Continental, Hong Kong e Taiwan”, reforçou Pubrick. Casos mais recentes Dois casos recentes ilustram esta realidade. Em Março, as autoridades de Taiwan prenderam 20 pessoas envolvidas num esquema de lavagem de dinheiro estimado em 33 mil milhões de dólares taiwaneses. De entre as duas dezenas de detidos, 10 foram, entretanto, acusados pelo Ministério Público de Taiwan por, nomeadamente, usarem casinos de Macau para branquear o dinheiro, proveniente de jogo ilegal na Internet. “Mulas de dinheiro” inflacionavam limites de crédito, compravam grandes quantidades de fichas e trocavam-nas por moeda local, disfarçando os fundos. Dois alegados cabecilhas do esquema permaneçam em fuga. Num segundo caso, Lin Ping-wen, um fugitivo taiwanês ligado a um dos maiores escândalos de jogo ilegal na Ilha Formosa e procurado por jogo ilegal e branqueamento de capitais, foi morto a tiro no Camboja, em Sihanoukville, cidade costeira no sudeste do país conhecida pelos seus casinos. Com antecedentes no crime organizado em Taipé, Lin esteve também ligado a um escândalo de manipulação de jogos de beisebol em 2007 e, mais tarde, integrou o sector de promoção de jogo VIP em Macau, com ligações ao Suncity Group. Dados oficias mostram redução anual no número de transacções suspeitas No ano passado, o número de transacções suspeitas registadas pelo Gabinete de Informação Financeira (GIF) apresentou uma redução anual de 6,1 por cento, para 4.925 relatos. No entanto, este foi o segundo valor mais elevado dois últimos 10 anos e que representa uma média de 13 transacções suspeitas diárias. A maior parte das denúncias não são tidas como transacções suspeitas, e no ano passado apenas 118 operações foram encaminhadas para o Ministério Público. O recorde de transacções relatadas pelos diferentes sectores da economia ao GIF atingiu o pico em 2024, quando foram registadas 5.245 operações financeiras que geraram suspeitas, uma média de 14 transacções suspeitas por dia, com 142 a serem apresentadas ao Ministério Público. No ano anterior, em 2023, o número tinha sido de 4.614 transacções. Entre 2020 e 2022, durante os anos da pandemia e das fortes restrições de circulação para o território, devido à adopção da política de zero casos de covid, os números atingiram valores mais baixos, que variaram entre 2.224 e 2.199, sempre inferior às 2.500 transacções. Antes da pandemia e até 2016, o valor mais elevado tinha sido registado em 2018, quando foram denunciadas 3.716 transacções, um valor que apenas foi ultrapassado em 2023, a primeira vez em que o registo ultrapassou a barreira das 4.000 transacções, o que representa uma média de 11 casos por dia. Jogo mais alerta As principais denúncias recebidas pelo GIF partem do sector do jogo, que no ano passado foi responsável por 73,1 por cento dos 4.925 relatos de transacções suspeitas, o que significou 3.603 relatos. No entanto, o sector do jogo apresentou menos denúncias ao GIF em termos anuais, dado que em 2024 foram reportadas 3.837 transacções suspeitas. Ainda no que diz respeito a 2025, o segundo sector a apresentar mais denúncias foi o das instituições financeiras e companhias de seguros com 1.008 movimentos suspeitos. Finalmente, todas as outras instituições da economia apresentaram 314 relatos, o que representou 6,4 por cento do total.
Venezuela | China critica licenças mineiras dos EUA Hoje Macau - 2 Abr 2026 A China acusou ontem os Estados Unidos de interferirem na sua cooperação com a Venezuela, após a emissão de uma licença que permite investimentos no sector mineiro do país sul-americano, mas exclui empresas chinesas. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning afirmou em conferência de imprensa que Pequim “se opõe firmemente” ao uso, por parte de Washington, de “alegadas licenças gerais para interferir na cooperação entre a China e a Venezuela”, sublinhando que os “direitos e interesses legítimos” do país asiático devem ser protegidos. Mao acrescentou que os Estados Unidos deveriam “levantar imediatamente as suas sanções unilaterais ilegais contra a Venezuela”, em vez de utilizarem estas licenças para “encobrir acções que prejudicam os direitos e interesses legítimos da Venezuela e de outras partes”. As declarações surgem depois de o Departamento do Tesouro norte-americano ter emitido nos últimos dias uma licença que autoriza empresas dos Estados Unidos a negociar, assinar contratos e investir no sector mineiro venezuelano, incluindo a exploração e comercialização de minerais como o ouro, até agora sujeitos a sanções.
Comércio | Eurodeputados analisam em Pequim concorrência comercial Hoje Macau - 2 Abr 2026 Uma delegação da comissão do Mercado Interno do Parlamento Europeu reuniu-se ontem em Pequim com empresas europeias para analisar a concorrência com a China, incluindo desequilíbrios comerciais, comércio electrónico e inteligência artificial. Segundo a comissão, o encontro com a Câmara de Comércio da União Europeia na China centrou-se no “desequilíbrio comercial”, no impacto da inteligência artificial no emprego e produção, na evolução do comércio electrónico e nas oportunidades de mercado, durante a primeira visita de eurodeputados ao país em oito anos. A missão é liderada pela eurodeputada alemã Anna Cavazzini e começou na terça-feira com reuniões com o embaixador da União Europeia na China, Jorge Toledo, e outros representantes europeus em Pequim. Os eurodeputados reuniram-se também com altos responsáveis chineses, a quem transmitiram preocupações sobre a entrada na União Europeia de produtos “perigosos” provenientes da China. A delegação tem previsto reunir-se ainda com representantes das plataformas Shein e Alibaba, antes de seguir para Xangai, onde deverá encontrar-se com a Temu e visitar o aeroporto internacional de Pudong. Durante a visita, os eurodeputados vão também acompanhar, com autoridades aduaneiras chinesas e empresas de logística, o funcionamento dos controlos de exportação e importação. A deslocação ocorre num contexto de crescente atenção de Bruxelas à entrada massiva de pequenos pacotes provenientes de plataformas fora da União Europeia, sobretudo chinesas. Segundo o Parlamento Europeu, em 2024 entraram no mercado europeu 4.600 milhões de pequenos pacotes, 91 por cento dos quais com origem na China. A instituição considera ainda que a relação económica com Pequim continua assimétrica, devido à desigual abertura dos mercados, num contexto de défice comercial europeu de 359,8 mil milhões de euros com a China em 2025.
Centaline | Mercado residencial recupera após medidas de estímulo Hoje Macau - 2 Abr 2026 O mercado imobiliário residencial de Macau registou uma recuperação acentuada no primeiro trimestre de 2026, impulsionado pela entrada em vigor de medidas de estímulo do Governo, indicou a agência imobiliária Centaline. Num relatório publicado ontem, a imobiliária destacou que entre Janeiro e Março foram transaccionadas 1.328 unidades residenciais na cidade, um aumento de 95 por cento face ao mesmo período do ano passado. Segundo a companhia, a recuperação foi impulsionada por medidas introduzidas em 01 de Janeiro pelas autoridades de Macau, que isentam de imposto de selo as primeiras 600 mil patacas na compra de um imóvel e aumentam para 80 por cento o rácio máximo entre o valor do empréstimo e o valor do imóvel. Os preços médios das transações no mercado residencial subiram ligeiramente, 1,5 por cento em termos homólogos, para cerca de 75 mil patacas por metro quadrado de área útil, criando um “aumento simultâneo do volume de vendas e do preço”, afirmou Steve Ng, director sénior de vendas regionais da Centaline Macau, citado no relatório. A recuperação ganhou força após o Ano Novo Lunar no final de fevereiro, com o mês a registar 494 transações, o valor mensal mais elevado desde 2021. O segmento de luxo, no entanto, ficou aquém da recuperação geral, com as transacções de imóveis avaliados acima de 15 milhões de patacas a cair para metade em termos homólogos, para apenas seis no trimestre. O mercado de arrendamento residencial de Macau manteve a trajectória ascendente, com as rendas médias a subirem 2 por cento no ano passado, para 139 patacas por metro quadrado, de acordo com as estatísticas oficiais. As unidades entre 100 e 150 metros quadrados registaram o maior aumento das rendas, de 5 por cento. A Centaline espera que o mercado residencial de Macau mantenha o seu dinamismo no segundo trimestre, com o volume de transacções a manter-se previsivelmente acima das 1.000 unidades. Stanley Poon, director-geral da Centaline Macau e Zhuhai Hengqin, afirmou que a recuperação do mercado residencial reflecte uma “correcção saudável” após anos de descidas de preços. Mas alertou que os imóveis comerciais continuam sob pressão e apelou a mais apoio político para melhorar o ambiente de negócios. “Num ambiente geopolítico instável, os investidores são cada vez mais atraídos para jurisdições com estabilidade política e elevada segurança nacional”, afirmou Poon, também citado no texto. Sentido contrário Enquanto a actividade residencial aumentou, o sector comercial de Macau manteve-se em baixa, com a Centaline a prever terem sido registadas 79 transacções de lojas no primeiro trimestre, uma queda de cerca de 30 por cento face ao trimestre anterior. Nos distritos turísticos, no entanto, continuaram a verificar-se transacções de lojas de gama alta, com duas transacções de lojas acima de 50 milhões de patacas concretizadas durante o trimestre. Do outro lado da fronteira em Hengqin, as transacções imobiliárias abrandaram acentuadamente no primeiro trimestre, com as escrituras a caírem 58 por cento em termos trimestrais, para 610 unidades, afirmou a Centaline. No entanto, os preços mantiveram-se firmes, subindo 17 por cento em termos trimestrais, para uma média de 22.770 yuans chineses por metro quadrado. Os compradores oriundos de fora da província de Guangdong representaram 41 por cento das transações em Hengqin, seguidos pelos compradores locais de Zhuhai, com 24 por cento, e pelos residentes de Macau, com 18 por cento. Os preços das habitações novas na China caíram pelo 33.º mês consecutivo em Fevereiro, no contexto da prolongada crise imobiliária no país, embora tenham moderado o ritmo de descida face ao mês anterior. Em Macau, o sector imobiliário tem registado descidas nos valores por metro quadrado há oito anos consecutivos.
A paleoclimatologia e o estudo da evolução do clima Olavo Rasquinho - 2 Abr 2026 Muitos de nós já nos interrogámos como é que os cientistas colhem informações sobre o clima de há milhares de anos. Por outro lado, é também alvo da curiosidade como se caracteriza o clima atual e como se antevê a sua evolução nas próximas décadas ou centenas de anos. Para que possamos prever o melhor possível quais as transformações a que estará sujeito o clima, é necessário conhecer o seu passado e o estado atual. Podemos caracterizar o clima de uma região como o estado médio das condições meteorológicas durante um determinado período, de preferência não inferior a trinta anos. Para esse efeito os serviços meteorológicos nacionais calculam os valores médios das principais variáveis meteorológicas ocorridos em períodos de trinta anos. As tabelas resultantes desses cálculos designam-se por “normais climatológicas” ou simplesmente “normais”. Assim, os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais (SMHN) publicam regularmente tabelas deste tipo, referentes a várias estações meteorológicas instaladas em locais escolhidos para esse efeito, as quais são atualizadas todos os dez anos. Estas estações constam de abrigos expostos à radiação solar e ventilação, onde são instalados instrumentos (termómetros, psicrómetros, barómetros, etc.) em locais representativos da região circundante, longe de obstáculos e de fontes artificiais de calor, em chão coberto de relva. Fora dos abrigos, no parque de instrumentos envolvente, são também instalados anemómetros, pluviómetros, heliógrafos, piranómetros, sensores UV, evaporímetros, etc. Note-se que, quando se refere a temperatura do ar, subentende-se que esta é medida à sombra, dentro do abrigo. As estações meteorológicas selecionadas para monitorização do clima são designadas por estações climatológicas. Estas diferem das primeiras no uso dos dados e na frequência das observações. As estações meteorológicas (também designadas por estações sinóticas) têm como objetivo a medição dos parâmetros meteorológicos para fins de monitorização das condições atmosféricas e para previsão do tempo a curto prazo, enquanto as climatológicas têm como finalidade o estudo do comportamento da atmosfera a longo prazo. Todos os SMHN constroem as respetivas normais referentes a várias estações climatológicas, abrangendo os mesmos períodos, o que permite a harmonização das estatísticas entre as diferentes instituições à escala global. Assim, as últimas quatro normais referem-se aos períodos 1961-1990, 1971-2000, 1981-2010, 1991-2020. As próximas tabelas abrangerão o período 2001-2030. Além dos valores médios, as tabelas incluem também outros dados estatísticos, como valores máximos e mínimos, número de horas de insolação, quantidade de precipitação, direção e velocidade do vento, número de dias de nevoeiro e de trovoada, etc. A Direção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau é a entidade responsável pelas normais climatológicas de RAEM1. Da sua análise, conclui-se que em Macau há uma tendência de aumento do número de dias quentes (com temperatura máxima superior ou igual a 33 ºC) e de noites quentes (temperatura mínima igual ou superior a 28 ºC), o que se reflete no aumento consistente da temperatura média. Estas conclusões estão em consonância com o que se passa à escala global. No que se refere à precipitação, a tendência é também para aumentar. Para se ter conhecimento sobre a evolução do clima desde há milhares de anos, recorre-se, entre outras ciências, à paleoclimatologia, que consiste no estudo das variações a que o clima da Terra tem estado a ser sujeito desde há milhares de anos até à utilização de instrumentos meteorológicos. A paleoclimatologia recorre a outras ciências, como a dendrocronologia, que consiste no estudo dos anéis de crescimento das árvores, as quais produzem geralmente um anel por ano, o que permite a contagem da sua idade. Maior ou menor espessura dos anéis corresponde a anos mais ou menos chuvosos, respetivamente, o que permite aos paleoclimatologistas tirarem conclusões sobre ciclos de seca e de anos chuvosos. Para que o estudo do clima do passado seja o mais completo possível recorre-se também a outras ciências, nomeadamente a palinologia (estudo de pólen e esporos), glaciologia, oceanografia e geologia. Com recurso à palinologia estuda-se o pólen preservado em fósseis, o qual corresponde a um determinado tipo de vegetação. Mudanças do pólen com o passar do tempo refletem alterações da cobertura vegetal como consequência de mudanças no clima. A glaciologia estuda as propriedades físicas e químicas das formações de gelo na natureza, a sua origem e evolução, tendo como foco principal as calotas polares e os glaciares. Com recurso ao gelo obtido através de perfurações nas calotas polares os glaciologistas recolhem testemunhos sobre o clima de há milhares de anos. As bolhas de ar aprisionadas nas amostras de gelo permitem calcular a composição do ar, em especial a concentração dos principais gases de efeito de estufa (GEE), o dióxido de carbono e o metano. Estas amostras encerram uma espécie de arquivo da história climática da Terra. O recuo e o avanço dos glaciares constituem também um bom testemunho sobre as mudanças climáticas no passado. Para calcular a idade do ar encerrado nas bolhas de ar, recorre-se à lei do decaimento radioativo aplicada a um elemento que se encontre nessa amostra, por exemplo, o crípton 81, isótopo radioativo raro que é produzido na atmosfera por ação dos raios cósmicos sobre o crípton. Uma vez conhecida a meia-vida do crípton 81 (cerca de 229 000 anos) pode-se calcular a idade desse ar. Assim, o conhecimento das concentrações do dióxido de carbono e do metano permitem detetar quais os períodos a que corresponderam maior ou menor aquecimento, atendendo as características desses gases. No que se refere ao estudo do clima atual e do passado recente, a melhor maneira de o fazer consiste na análise das normais climatológicas obtidas com recurso a dados de estações climatológicas estrategicamente instaladas. Relativamente ao estudo do clima do futuro, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC) recorre a modelos climáticos que permitem elaborar projeções baseadas em diferentes cenários de emissões de gases de efeito de estufa: cenário de baixas emissões, cenários intermédios e cenário de altas emissões. Estes modelos consistem em simulações matemáticas complexas que tentam reproduzir o comportamento da atmosfera, entrando em consideração com as leis da física e as interações entre as diferentes componentes do clima (atmosfera, hidrosfera, litosfera, criosfera e biosfera). Independentemente dos cenários de emissões de GEE a partir dos quais se fazem correr os modelos, o IPCC considera que haverá consequências, entre as quais as seguintes: o gelo do Ártico poderá desaparecer durante o verão nas próximas três dezenas de anos; o nível médio do mar continuará a subir; a precipitação extrema diária pode aumentar cerca de 7% por cada grau Celsius de aquecimento global; furacões de categorias 4 e 5 e tufões intensos poderão aumentar de frequência. A evolução do clima nas próximas décadas ou séculos é uma das maiores preocupações de quem se preocupa com a sustentabilidade do nosso planeta e, dada a atual situação internacional e aquela que se prevê num futuro mais ou menos próximo, face ao avanço das forças retrógradas, é urgente que as recomendações das organizações que se preocupam com esta sustentabilidade sejam devidamente postas em prática, de forma a evitar que as projeções resultantes dos modelos climáticos, com base em qualquer dos cenários referidos, se tornem uma realidade. Meteorologista As normais de Macau são publicadas pela DSMG e podem ser consultadas em https://www.smg.gov.mo/pt/subpage/348/page/252