A Dinâmica das Guerras Globais

“Great wars seldom begin with intention; they arise from the slow accumulation of pressures that nations fail to resolve before it is too late.”

Reinhold Niebuhr

A história das relações internacionais demonstra que as grandes guerras raramente emergem de um plano deliberado ou de uma decisão isolada. Pelo contrário, resultam de processos cumulativos, de tensões prolongadas e de transformações estruturais que, ao longo do tempo, convergem para um ponto de ruptura. A afirmação de que “as guerras mundiais não se planeiam” traduz precisamente a lógica de que os conflitos de escala planetária não nascem de um único acto de vontade, mas de uma sucessão de escolhas políticas, rivalidades estratégicas e percepções de ameaça que se intensificam até se tornarem incontroláveis. Este fenómeno, longe de ser um acidente histórico, constitui uma manifestação extrema da competição pela hegemonia global e da incapacidade dos sistemas internacionais de absorver choques sem colapsar.

A compreensão deste processo exige uma análise que vá além da descrição factual dos acontecimentos. É necessário examinar os mecanismos que transformam rivalidades regionais em confrontos sistémicos, bem como os factores psicológicos, económicos e geopolíticos que alimentam a escalada. A partir desta perspectiva, torna-se evidente que as guerras globais são, antes de mais, o produto de uma acumulação de tensões que se tornam irreversíveis quando os actores envolvidos percebem que a sua sobrevivência política, económica ou civilizacional está em causa. A convicção de que “está tudo em jogo” cria um ambiente em que a retirada é vista como sinónimo de derrota existencial, e em que a guerra deixa de ser um instrumento para se tornar um fim em si mesma.

A competição pela hegemonia mundial constitui um dos elementos centrais na génese das guerras de grande escala. Quando uma potência dominante começa a perder capacidade de projecção, confiança interna ou legitimidade externa, abre-se espaço para que actores emergentes desafiem a ordem estabelecida. Este fenómeno, amplamente observado em diferentes períodos históricos, não se limita à dimensão militar pois envolve também a disputa por recursos, mercados, influência cultural e controlo das instituições internacionais.

A perda de “sangue e ânimo”, não se refere apenas ao declínio material, mas também ao desgaste moral e psicológico que afecta as sociedades hegemónicas. Quando uma potência dominante revela hesitação, divisão interna ou incapacidade de impor regras, os rivais interpretam esses sinais como oportunidades estratégicas. A percepção de fraqueza, mesmo que não corresponda inteiramente à realidade, tem um efeito multiplicador pois encoraja alianças alternativas, legitima discursos revisionistas e acelera a erosão da ordem vigente.

A história demonstra que este tipo de transição raramente ocorre de forma pacífica. A potência estabelecida tende a resistir ao declínio, enquanto os desafiantes procuram acelerar a mudança. O resultado é um ambiente de desconfiança mútua, em que cada gesto é interpretado como ameaça e cada concessão como sinal de vulnerabilidade. A escalada torna-se, assim, quase inevitável.

Um dos aspectos mais inquietantes das guerras globais é a forma como os actores envolvidos se convencem de que não podem recuar. Esta percepção não surge de imediato; é construída gradualmente, através de crises sucessivas que reforçam a ideia de que a sobrevivência depende da firmeza. Quando os Estados se encontram “de costas contra a parede”, a margem de manobra política desaparece. A diplomacia é substituída pela lógica da força, e a guerra transforma-se numa realidade autoalimentada.

Este processo é agravado pela natureza das alianças internacionais. Uma vez comprometidos com determinados parceiros, os Estados enfrentam custos reputacionais e estratégicos caso decidam recuar. A credibilidade, elemento fundamental nas relações internacionais, torna-se um fardo em que qualquer sinal de hesitação pode desencadear desconfiança entre aliados e agressividade entre adversários. Assim, mesmo quando a guerra parece irracional, os actores envolvidos sentem-se compelidos a continuar.

A irreversibilidade também se manifesta na opinião pública. Em contextos de polarização extrema, os governos receiam ser acusados de fraqueza ou traição caso optem por soluções negociadas. A retórica nacionalista, frequentemente utilizada para mobilizar apoio interno, acaba por limitar as opções políticas. A guerra deixa de ser apenas um confronto entre Estados e passa a ser um elemento identitário, um símbolo de resistência e de afirmação colectiva.

Quando a escalada atinge o seu auge, a guerra perde o seu carácter instrumental. Não se trata de alcançar objectivos políticos específicos, mas de evitar a derrota a qualquer custo. Esta transformação é particularmente evidente nos conflitos que assumem uma dimensão total, em que a distinção entre civis e militares se esbate e em que todos os recursos da sociedade são mobilizados para o esforço de guerra.

A expressão “guerra pela guerra” traduz esta realidade. O conflito torna-se um mecanismo autónomo, alimentado por dinâmicas internas que escapam ao controlo dos decisores. A lógica de soma zero em que o ganho de um é necessariamente a perda do outro impede qualquer compromisso. A vitória absoluta torna-se a única solução concebível, mesmo quando tal objectivo é materialmente impossível.

Este fenómeno não é exclusivo das guerras mundiais clássicas. Pode manifestar-se também em conflitos regionais que, embora limitados geograficamente, envolvem actores globais e têm implicações sistémicas. A terceira guerra do Golfo, por exemplo, apesar da sua intensidade e impacto geopolítico, não atingiu a escala de uma guerra mundial. Contudo, ilustra como a percepção de ameaça existencial pode levar a decisões que ultrapassam a racionalidade estratégica.

(continua)

Irão | China e Paquistão reforçam coordenação e apelam a cessar-fogo

A China anunciou que vai reforçar a “coordenação estratégica” com o Paquistão sobre a crise no Irão, defendendo diálogo e um cessar-fogo, durante uma visita do chefe da diplomacia paquistanesa a Pequim.

O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, reuniu-se com o homólogo paquistanês, Ishaq Dar, na terça-feira, para discutir formas de reduzir as tensões regionais e lançar uma iniciativa conjunta de cinco pontos destinada a restaurar a estabilidade no Golfo Pérsico e no Médio Oriente.

O plano inclui um apelo a um cessar-fogo imediato, à suspensão de ataques contra civis e infraestruturas críticas – como instalações energéticas e de dessalinização – e à reabertura do Estreito de Ormuz, uma via marítima crucial para o comércio global de energia. A via marítima tem sido afectada por um bloqueio de facto por parte de Teerão, em resposta a ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel iniciados a 28 de Fevereiro, que perturbaram cadeias de abastecimento e os mercados petrolíferos.

Segundo o ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi sublinhou que um cessar-fogo é essencial para evitar a propagação do conflito, reduzir vítimas e garantir a segurança das cadeias globais de energia. “A China está disposta a trabalhar com o Paquistão para ultrapassar dificuldades, eliminar interferências, travar o conflito o mais rapidamente possível e abrir uma janela para negociações de paz”, afirmou.

Do outro lado

Ishaq Dar agradeceu o apoio chinês aos esforços de mediação de Islamabade, salientando que o conflito está a afectar de forma particular os países em desenvolvimento. “Alcançar a paz é uma causa justa e uma prioridade urgente”, declarou, reafirmando a disponibilidade do Paquistão para aprofundar a cooperação com Pequim e promover o diálogo entre as partes.

A visita de Dar, a segunda à China em três meses, ocorre após contactos diplomáticos com países como Arábia Saudita, Turquia e Egipto, e num momento em que Islamabade se posiciona como mediador entre Washington e Teerão. A porta-voz da diplomacia chinesa Mao Ning afirmou que Pequim e Islamabade vão “reforçar a comunicação e coordenação estratégicas” e “promover o diálogo, pôr fim ao conflito e salvaguardar a estabilidade regional”.

Analistas citados pela imprensa chinesa consideram que a cooperação bilateral vai além da crise iraniana, abrangendo também projectos económicos e questões regionais mais amplas, incluindo o corredor económico China – Paquistão. Ainda assim, especialistas sublinham que o apoio de Pequim deverá ser sobretudo político e diplomático, afastando a hipótese de garantias de segurança formais ao Irão, em linha com a política chinesa de não-alinhamento.

Paquistão e talibãs afegãos retomam negociações para cessar-fogo

O Paquistão e o Governo talibã do Afeganistão retomaram negociações na China, que está a mediar entre as duas partes para alcançar um cessar-fogo duradouro após mais de um mês de combates, disseram ontem dois responsáveis paquistaneses.

Uma terceira fonte com conhecimento do processo indicou que as conversações visam pôr termo aos confrontos em curso, segundo a agência Associated Press. Representantes de ambos os países estão reunidos em Urumqi, no noroeste da China, segundo os responsáveis, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a prestar declarações à comunicação social.

A China não comentou oficialmente o processo, enquanto o ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão não confirmou nem desmentiu o desenvolvimento. As fontes referiram que as conversações, vistas como um possível alívio para milhões de pessoas no Paquistão e no vizinho Afeganistão, já tiveram início.

Islamabade acusa Cabul de dar abrigo a militantes responsáveis por ataques em território paquistanês, em particular ao grupo Talibã paquistanês, aliado dos talibãs afegãos, que tomaram o poder em 2021 após a retirada das tropas lideradas pelos Estados Unidos. O Afeganistão rejeita as acusações.

Ataques mútuos

As tensões agravaram-se no mês passado, quando Cabul denunciou que um ataque aéreo paquistanês atingiu um hospital de tratamento de toxicodependência na capital afegã, provocando mais de 400 mortos, número que as Nações Unidas dizem ainda estar por verificar. O Paquistão negou ter visado civis, afirmando ter atingido um depósito de munições.

O ministro da Informação paquistanês, Attaullah Tarar, afirmou recentemente que o país “apenas visou infraestruturas terroristas” e não qualquer hospital. Embora as duas partes tenham acordado um cessar-fogo temporário durante a festividade muçulmana do Eid al-Fitr, os combates foram retomados posteriormente, ainda que com menor intensidade face aos confrontos registados em Fevereiro e Março.

O conflito tem sido particularmente violento nos últimos anos. Em Fevereiro, o Paquistão declarou estar em “guerra aberta” com o Afeganistão, aumentando a preocupação da comunidade internacional, sobretudo devido à presença de grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico na região.

Segundo as fontes citadas pela AP, a actual ronda de negociações iniciou-se após ambas as partes aceitarem a proposta de mediação da China. As tensões persistem há meses e os recentes combates fragilizaram um cessar-fogo mediado pelo Qatar em Outubro, que tinha interrompido confrontos anteriores que fizeram dezenas de mortos. Conversações de paz realizadas em Novembro em Istambul não conseguiram produzir um acordo duradouro.

Japão | Pequim afirma que novos mísseis vão “além da autodefesa”

A China acusou ontem o Japão de ultrapassar o âmbito da autodefesa com o destacamento de novos mísseis de longo e manifestou preocupação com o que considera uma mudança na política de segurança japonesa. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning afirmou em conferência de imprensa que Tóquio está a instalar “armas ofensivas que vão muito além do alcance da autodefesa e do princípio de uma política exclusivamente defensiva”.

Segundo Mao, estas medidas reflectem que “forças de direita no Japão estão a impulsionar a política de segurança numa direcção ofensiva e expansionista”, advertindo que tal orientação “ameaça a paz regional” e apelando à comunidade internacional para manter “elevada vigilância”. A responsável instou ainda o Japão a “reflectir profundamente sobre a sua história de agressão militarista”, a respeitar os compromissos em matéria de segurança e a agir com prudência.

O Japão destacou na terça-feira os seus primeiros mísseis de longo alcance de fabrico nacional em bases nas prefeituras de Kumamoto, no sul do arquipélago, e Shizuoka, no centro, com um alcance de cerca de 1.000 quilómetros, o que lhe confere capacidade de contra-ataque.

O ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, afirmou que estes sistemas visam reforçar a capacidade de dissuasão do país, classificando-os como uma “iniciativa crucial para fortalecer as capacidades de dissuasão e resposta”, num contexto de segurança que descreveu como “o mais complexo e severo desde o final da Segunda Guerra Mundial”.

Esta semana, as autoridades japonesas anunciaram que o contratorpedeiro Chokai passou a ter capacidade para lançar mísseis norte-americanos Tomahawk, após modificações realizadas nos Estados Unidos.

O Abissal

Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau

Quantos foram os que tentaram domar as águas, interiores e exteriores? E os que venceram dilúvios?

Numa cultura tão antiga como a chinesa, há um grande imperador mitológico, gerado apenas por ventre paterno, tal como a deusa Atena, que havia de nascer da cabeça de Zeus. O Grande Yu (大禹), filho de Gun (鯀), nasceu do pai na forma de dragão e tinha poderes superiores aos do progenitor. Este procurava controlar as cheias com a terra reprodutora, aquele fê-lo com a mesma terra reprodutora milagrosa, mas com o auxílio suplementar de dois animais sagrados, o Dragão Ying (应龙) e a Tartaruga Xuan (玄龜). Apesar da oposição do Deus da Água, venceu-o e passou à história chinesa como o “Imperador que dominou o dilúvio”(大禹治水 Dà Yǔ Zhì Shuǐ) e, além disso, para impedir o avanço das águas construiu canais e dragou rios. As cheias, obra de deuses maldispostos ou de demónios perversos, foram controladas pela força do trabalho de um governante com poderes sobrenaturais, que se sacrificou a si e à sua família a bem da terra chinesa. Por isso se diz que ele casou com Nujiao (女娇), uma donzela da tribo Tushan (涂山氏) e “quatro dias depois do casamento, saiu de casa para retomar os seus afazeres. Esperavam-no trabalhos sem fim. Durante treze anos, passou três vezes pela sua casa, mas nunca entrou.” (Wang, Alves, 2009, 86).

 À sua imensa virtude e força de trabalho se ficou a dever a salvação da China e, como esta era à época o centro do mundo, da própria terra.

 Será ainda em luta e desafio às águas que outros heróis, divinos e humanos, vão exercitar as suas virtudes e, através delas, salvar a humanidade.

 Também na Grécia houve uma grande inundação provocada pela fúria de Zeus, contra uma humanidade cada vez mais impiedosa, violenta e corrupta. Conta-se que o deus supremo do Olimpo primeiro ainda pensou em desferir o seu raio contra os homens, deixando a terra toda em chamas, mas como o fogo poderia chegar aos céus, resolveu que o castigo seria perpetrado através das águas. Prometeu, que era vidente e muito amigo da humanidade, resolveu avisar o seu filho Deucalião, que morava em Ftia com a esposa Pirra, sendo esta filha de Pandora e Epimeteu. Ora como eles eram modelos de virtude foram os únicos a escapar ao dilúvio grego. “O casal tinha uma vida exemplar: eram muito trabalhadores, cumpriam as leis e eram piedosos. Por esse motivo, bem como pela afeição paternal, Prometeu quis garantiu que Deucalião e Pirra sobreviviam ao Dilúvio, que ele sabia que Zeus ia enviar um dia, e tinha dito ao filho para se preparar.” (Johnston, 2025, 83).

 Quando os céus escureceram, Deucalião percebeu que era tempo de se proteger, bem como à mulher. Preparou uma arca de madeira, isolou-a, encaixando as juntas e calafetando-as com alcatrão, depois equipou-a com alimentos necessários para se manter vivo com a sua mulher durante algum tempo. Passados nove dias e nove noites, a arca do casal encalhou no monte Parnaso. Perceberam que estavam sozinhos no mundo e para o repovoar procederam de acordo com os conselhos avisados de Témis, avó de Deucalião e mãe dos titãs Prometeu e Epimeteu, deusa que organiza o cosmos, conselheira e consorte temporária de Zeus. Não foi com o barro de Nϋwa (女娲), mas quase, foi com pedras, ossos maternos de Gaia, que repovoaram a terra: das mãos de Deucalião rolavam pedras que se transformavam em homens e das de Pirra eram atirados seixos que em contacto com o solo amoleciam e se metamorfoseavam em mulheres.

Assim foi salva a humanidade por um casal, meio divino, meio humano, totalmente exemplar. Eram de facto os únicos que se aproveitavam naqueles tempos antigos e, através deles, as gentes tiveram a sua segunda oportunidade.

Episódio semelhante sucedeu na tradição judaico-cristã. Depois de ter sido atingido o auge da corrupção “Javé viu que a maldade do homem crescia na Terra e que todo o projecto do coração humano era sempre Mau” (Gen, 6, 5-7) . Só havia um justo, de nome Noé, e esse preservou a vida, bem como a mulher, os filhos e as mulheres dos filhos. Para tal, e porque o castigo do dilúvio se aproximava, também ele construiu uma arca, com as dimensões exatas ditadas por Deus, cento e cinquenta metros de comprimento, vinte e cinco de largura e quinze de altura. Era ampla para que nela coubesse um casal de cada ser vivo. Tinha à época este justo Noé 600 anos. Ao cabo de um ano de aventuras, já atingira os 601 anos, pôde sair com toda a família e companheiros da barca para se multiplicar e encher a terra, sob a proteção de Deus, que assim falou: “Estabeleço a minha aliança convosco; de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a Terra.” (Gen, 9, 11).

Bastou um justo para salvar toda a sua família, os outros seres vivos e recomeçar a história da humanidade e do mundo. Mas o dilúvio, o banho purificador, também na tradição judaico-cristã, foi essencial, sem ele a terra continuaria poluída e corrupta.

 O que nos diz a tradição filosófica chinesa sobre a Água? Para obter uma resposta há que remontar ao Clássico das Mutações (易经), no qual se encontram entrelaçadas a poesia e a filosofia. Este é composto por oito trigramas (八卦 bāguà) básicos, sendo um deles a Água (坎 kǎn). Os oito trigramas combinam-se de modo a constituírem os 64 hexagramas. Quando o trigrama da Água de base se encontra com o trigrama da Água do topo, está-se rodeado de água e este hexagrama, o 29º (坎卦第二十九 kǎn guà dí èr shí jiǔ), denomina-se, numa tradução possível pelo seu atributo, o Abissal.

O perigo é enorme e repetido, de nada serve ao/à filósofo/a tentar escapar, porque está no meio de um dilúvio, que quando não é exterior, é interior, ou até simultâneo. No entanto, caso se observe a disposição das linhas, há esperança, já que o trigrama da Água é formado por duas linhas descontínuas yin, sombrias e aquáticas, mas ao centro contém uma linha contínua yang, solar, onde reside a alma. Quer dizer, ao todo, o hexagrama do abismo, ou numa interpretação ousada, do dilúvio, é constituído por quatro linhas sombrias e duas solares. Há então saída para o grande mergulho nas águas, mas essa deve ser encontrada no interior, o que liga a mente ao espírito, aquele capaz de se elevar, ainda que por vezes só em pensamento, para escapar ao perigo abissal.

 O/a sábio/a deverá cultivar uma determinada atitude, prática e muito concreta, se quiser ter a mesma sorte de Da Yu, Noé ou Deucalião, apontada pelo juízo do hexagrama, que resume e condensa a leitura atenta das seis linhas. No 29º hexagrama está-se perante: “O Abismal repetido, mas com sinceridade e confiança no coração, ser-se-á bem-sucedido em tudo o que se fizer.” (習坎,有孚,維心亨。行有尚) (Zhang, 1995,127). Será decisiva a sinceridade ,que nos tempos antigos também se dizia “pensar com o coração” (維心 wéi xīn).

 Assim, na leitura da primeira linha, aquela em que se dá a repetição das águas (o dilúvio), devem ser evitadas as armadilhas, porque caso se caía numa, dada a adversidade das condições circundantes, não há saída possível. Na segunda linha, yang contínua, surge a compreensão da situação e a tentativa de avançar aos poucos, com pequenas ações. Na terceira linha, yin descontínua regressa a atmosfera de água sobre água, pelo que a não-ação é a melhor resposta. Na quarta linha, também ela yin descontínua, experimenta-se um certo bem-estar usufruído nos pequenos prazeres da vida, como uma jarra de vinho ou uma vasilha gui2 de arroz, passados pela janela, a ser recebidos sem culpas. (六四;樽酒,簋貮、用缶,納約自牖,終無咎) (Zhang, 1995,129). A sinceridade do sentir e a comunhão desta com as ações é essencial para preparar a entrada na quinta linha yang contínua, solar e apta à compreensão e ao exercício da via do meio, seguida sem excessos de ambição que provoque uma cheia incontrolável. O/a sábio/a é então confrontado com a necessidade de se autocontrolar, sendo de ultrapassar o abismo interior. As águas do dilúvio são desafiadas e controladas por dentro, e quando se construiu a barca interna, está-se preparado para enfrentar a adversidade, mas caso não tenha havido essa preparação, segue-se uma sexta linha yin aquática, na qual todos os que não se cultivaram, ou melhor, não exercitaram a sua sinceridade, vão padecer por um período, segundo a linha de topo do hexagrama, “conhecendo a desgraça por três anos” (三歲不得,兇) (Zhang, 1995,130).

Na filosofia chinesa mais antiga, a pessoa de saber é igualmente confrontada com o dilúvio, só que o perigo abismal, ainda que possa ser provocado por condições externas, só será vencido, caso seja adotada a atitude correta, que implica ultrapassar os obstáculos como boa preparação e sinceridade. A arca transportamo-la nós.

Bibliografia

Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus.

Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Tradução de Luís Filipe Pontes. Odivelas: Alma dos Livros.

Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da Terra do Dragão. Lisboa: Caminho.

Wilhelm, Richard. 1989. I Ching or Book of Changes. Prefácio de C. G. Jung. London: Penguin Group.

張中鐸 (Zhang Zhongduo)(ed) 1995《易經提要白話解》(O Essencial do Clássico das Mutações)台南市:大孚.

Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores.

Gui (簋) é uma vasilha, de grande antiguidade, usada, por exemplo, no Paleolítico chinês para efeitos rituais, de culto ás divindades nos templos e nas casas dos grandes senhores do país.

José Drummond, artista, estreia novo trabalho em Lisboa: “A ideia foi criar um espaço de meditação”

“O néon é um material que me interessa muito”. Quem o diz é o artista plástico José Drummond, ex-residente de Macau actualmente a viver em Portugal, e que acaba de ver inaugurada no recente MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, em Lisboa, uma nova peça. “Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, inspirada no I Ching – Livro das Mutações, é um convite à reflexão sobre a vida e os caminhos que se podem percorrer

Como surgiu a oportunidade de ter um trabalho teu no MACAM [Museu de Arte Contemporânea Armando Martins] e de que forma ele se enquadra nas restantes obras?

Antes de mais quero falar sobre o valioso trabalho do coleccionador Armando Martins na promoção da Arte Contemporânea em Portugal. É um trabalho notável e incontornável. Quero também referir o interesse e visão sobre o meu trabalho e todo o apoio de modo a tornar possível um projecto tão complicado de chegar a uma fase final. O convite foi feito no final de 2020, pela directora do Museu, Adelaide Ginga, e pela curadora Carolina Quintela, que me lançaram o desafio de criar uma obra “site-specific” para o espaço do túnel que liga a garagem ao Museu. Quando começámos a trabalhar, o que sabíamos é que seria um espaço de passagem, que nos interessava manter o aspecto do túnel com as paredes em cimento e que seria uma peça com luz. O trabalho resultante prossegue a minha investigação do espaço intermédio entre culturas – chinesa e ocidental – prolonga as questões de transiência presentes no taoismo e budismo, e continua a explorar os aspectos de, praticamente, todos os meus trabalhos serem sempre uma transferência seja conceptual, cultural ou física.

“Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, nome da obra, é de 2025. Como foi o processo criativo? A sua colocação num corredor obedece a alguma mensagem específica, ou pretende transmitir algumas ideias em concreto.

Este foi um trabalho que teve várias fases e que implicou uma larga cooperação com os engenheiros da obra de recuperação do edifício. A nível de projecto foi complicado chegar a este formato final e cumprir a minha visão. Houve a necessidade de se criar uma estrutura eléctrica de propósito para a peça, de se fazer um tecto falso que mantivesse a expressão das paredes originais e por aí em diante. Mesmo depois de finalizar o projecto no papel, tivemos de esperar que as obras de recuperação do edifício ficassem prontas para que fosse possível avançar, pois o túnel era usado como passagem para todos os materiais usados dentro do Museu. Quando, em conjunto com a Adelaide e a Carolina, cheguei a uma versão conceptual final sobre o que apresentar, levantaram-se outros problemas técnicos de manufactura dos néons e de montagem. Foi um processo muito desgastante para todos porque, infelizmente, tanto o custo dos materiais como a falta de rigor da mão de obra em Portugal – para trabalhar com néon a este nível de alta exigência para uma obra com a dimensão que tem – é deficiente. Basicamente a empresa responsável pela manufactura e montagem teve um comportamento absolutamente grosseiro, de falta de profissionalismo, tendo falhado em praticamente tudo o que foi pedido. Foi necessário desmontar tudo e voltar a montar com a montagem final a ser feita por mim e pelo meu assistente, Rafael Lopes, sem o qual não teria sido possível. Quanto ao processo criativo, apesar de parecer complicado, acabou por ser mais simples. Quis fazer uma obra com inspiração no I Ching [Livro das Mutações], e a partir daí tudo apareceu.

Que ideias concretas trouxe para o projecto?

A minha ideia foi criar um espaço de meditação, de contemplação, uma pausa, um portal que permita uma reflexão sobre a humanidade, sobre cada um de nós, um caminho ou uma passagem que junte a sabedoria milenar ao tempo contemporâneo; e que seja capaz de estabelecer um diálogo intercultural que não se esgote numa só ideia de cultura. Ao combinar elementos como o I Ching, talvez o primeiro registo de cultura em livro do mundo, com uma escolha de materiais como luzes néon, componentes arduíno, sequências por algoritmo de computador e com uma componente de som, o trabalho promove uma fusão entre tradição e tecnologia, entre passado e presente. O gesto de incorporar sequências completamente aleatórias, decididas pela programação e sem que permita ao humano saber o que vai acontecer de seguida, levanta as questões da tecnologia que se começa a automatizar por si própria. A programação irá criar sequências virtualmente infinitas. Este gesto de não se saber se o néon que vai acender de seguida é o hexagrama x ou y, prolonga a ideia do I Ching.

De que forma?

Traz uma dimensão de imprevisibilidade e indeterminação que pode ser interpretado como uma metáfora sobre a complexidade e incerteza da vida contemporânea. As sequências aleatórias são em si um registo de transitoriedade e impermanência, que também podem sugerir a ideia de que cada experiência é singular e cada momento em si, único. A presença de luzes néon e som cria uma atmosfera imersiva e sensorial, convidando os visitantes a uma experiência contemplativa, estimulando estados emocionais e mentais, e incentivando a introspeção. O trabalho poderá parecer inicialmente místico e enigmático, mas os elementos visuais e a sua coreografia – com cadências e mudanças suaves, e a composição de sons – subtis e envolventes, direccionam o sentir e o estar para o momento presente, podendo criar uma sensação de tranquilidade e calma, favorecendo um espaço mental propício à meditação. Oferece ainda um espaço fora do ritmo acelerado da vida contemporânea, onde cada um possa estar com as suas emoções, com os seus pensamentos, naquele momento, ali. Existem duas cores, azul para o céu e vermelho para a terra, ou também noite e dia, ou positivo e negativo – o Céu com seis linhas contínuas e a Terra com seis linhas interrompidas são hexagramas fundamentais que vão de encontro ao processo dos opostos, yin e yang. Tive a felicidade de trabalhar com o programador João Cabral para toda a programação e montagem do sistema arduíno que comanda a peça, e do músico David Maranha que entendeu na perfeição o que eu queria. Uma experiência enriquecedora para todos.

Há muito que trabalha em torno dos neóns. De que forma este trabalho se relaciona com outras coisas que tenha feito, se é que se relaciona de alguma forma…

Ao nível expressivo o néon é um material que me interessa muito. Na montagem final desta peça há resquícios expressivos das memórias que tenho dos néons no antigo Hotel Lisboa e no Hotel Fortuna, que tristemente já foram substituídos por LEDs, ou dos primeiros néons que vi nas minhas viagens na China. Por outro lado, continua o meu trabalho sobre o espaço cultural intermédio, onde as culturas se misturam e se mantêm em suspenso, sobre o deslocamento da pertença de onde somos e para onde vamos.

Que outros novos projectos tem em mãos?

Voltei a pintar. Se conceptualmente é mais do mesmo, o processo está a ser gratificante. Estou a trabalhar num grupo de pinturas luminosas e mais não posso revelar.

Autismo | Pedido apoios a partir das escolas

A secretária-geral da Associação de Reabilitação Fu Hong de Macau, Chau Wai I, defende que é necessário elaborar planos de apoios de emprego para as pessoas com autismo, desde a altura em que ainda estão a estudar.

Segundo uma opinião escrita pela responsável no jornal Ou Mun, a assistência deve começar na idade escolar, para que através de apoios e aconselhamentos, as pessoas com autismo possam conhecer as suas vantagens e limites no mundo laboral, de forma a conseguirem encontrar um emprego onde possam desenvolver as suas competências sociais e profissionais e adaptar-se.

Bem-estar | Governo aumenta número de “estações de saúde”

O Governo aumentou o número de “estações de saúde e bem-estar” de 8 para 12, sendo que desde ontem estes espaços têm um horário alargado de funcionamento à tarde, das 16h30 às 19h. Estas estações funcionam mediante organização do Instituto Cultural, Instituto do Desporto e Serviços de Saúde, entrando agora na segunda fase.

Os postos servem para a realização de testes de glicémia, medir a força muscular e análise de outros parâmetros de saúde. Segundo uma nota oficial, estas estações e demais actividades de promoção do bem-estar ajudaram a detectar 235 casos de hipertensão, “com uma taxa de detecção de novos casos de cerca de 4 por cento”.

As estações contam também com o apoio da União Geral das Associações dos Moradores de Macau e Associação dos Médicos de Macau, entre outras, funcionando no Jardim da Flora, Praceta de Venceslau de Morais, Alameda da Harmonia e Jardim do Mercado de Iao Hon.

Feriados | Interior é destino de preferência dos residentes

Andy Wu prevê que durante os feriados dos próximos dias a maioria dos residentes opte por viajar para o Interior, devido aos preços mais baratos e às campanhas agressivas de turismo

O presidente da Associação de Indústria Turística de Macau, Andy Wu, afirmou que o Interior vai ser o destino mais escolhido pelos residentes que saírem de Macau durante os feriados do Cheng Ming e da Páscoa, assinalados entre 3 e 7 Abril. Em declarações ao jornal Exmoo, o responsável explicou que os preços mais baratos do Interior são muito atractivos para os residentes de Macau e que aos preços competitivos ainda se juntam as grandes campanhas de turismo promovidas pelas autoridades da China.

Quando questionado sobre o impacto do aumento recente dos preços do petróleo e do aumento das sobretaxas de combustível na aviação, Wu desvalorizou o impacto, por agora, por considerar que os residentes fazem viagens menos longas nesta fase do ano, para destinos como Japão, Coreia do Sul ou Tailândia.

No entanto, Andy Wu admitiu que nas viagens de grandes distâncias, como acontece nos voos para a Europa, poderá haver um impacto. Porém, esse efeito só será sentido mais perto do Verão, altura em que os residentes realizam as férias mais longas.

Entradas mais calmas

Quanto aos visitantes vindos do Interior durante os feriados, Andy Wu apontou que apesar de os residentes do Interior da China terem três dias de férias do Cheng Ming, entre 4 e 6 de Abril, as tradições de culto vão limitar as deslocações. Por este motivo, não se espera um pico no número de visitantes.

Andy Wu observou também que as reservas hoteleiras se mantêm num nível considerado normal para a época, não reflectindo uma subida significativa.

Quanto aos turistas de Hong Kong, o agente de turismo recordou que estes têm o hábito de viajar para Macau, devido à distância curta e à facilidade de transporte. Por isso, Wu espera que o volume de visitantes da região vizinha seja igual ao que normalmente acontece aos sábados.

Andy Wu indicou ainda que Macau vai beneficiar com o facto de os bilhetes do comboio de alta velocidade de Hong Kong para outras cidades turísticas do Interior estarem esgotados, o que vai fazer com que as pessoas não tenham tantas opções de escolha. Por isso, Macau aparece como um destino natural, quando se opta por deslocações de curta distância.

Sarampo: Serviços de Saúde pedem cautela durante feriados

Os Serviços de Saúde (SS) alertaram os residentes que viajam para Japão, Indonésia, Filipinas, Europa e Estados Unidos da América que tomem medidas de precaução, devido ao que as autoridades de Macau consideram ser a “situação epidemiológica do sarampo”. “Os Serviços de Saúde apelam os residentes para que tomem medidas preventivas contra o sarampo”, foi escrito.

“As crianças com vacinação incompleta e as mulheres grávidas não imunizadas são consideradas grupos de alto risco e devem evitar as deslocações para as zonas onde o sarampo é prevalente, com o intuito de reduzir o risco de importação e transmissão desta doença em Macau”, foi adicionado. “A vacinação contra o sarampo é a forma mais eficaz de prevenir a infecção e reduzir a propagação da doença”, foi acrescentado.

Tribunal | Pansy Ho pede medida de afastamento

A empresária Pansy Ho fez entrar no Tribunal Superior de Hong Kong um pedido para impedir que uma mulher, com o apelido Chen, se aproxime a menos de 30 metros dela, assim como dos escritórios da MGM China Holdings e da Shun Tak Holdings. O pedido foi noticiado pelo jornal The Standard, que indica que a data da audiência para decidir o pedido não foi marcada.

Segundo a petição, Pansy Ho alega que a mulher cometeu repetidos actos de assédio e ameaças contra ela, desde Março de 2025. Além da medida de afastamento, Pansy pede ao tribunal que impeça a mulher de publicar ou distribuir quaisquer declarações difamatórias ou depreciativas sobre ela, além de solicitar uma indemnização por danos. De acordo com o jornal, a mulher visada pela acção de Pansy trabalhou entre 2015 e 2018 no banco de investimento CCB International Securities Limited.

Jogo | Receitas crescem 15 por cento

As receitas do jogo aumentaram 15 por cento em Março, em comparação com o mesmo mês de 2025, segundo dados divulgados ontem pela Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ). Os casinos arrecadaram em Março 22,6 mil milhões de patacas, face aos 20,6 mil milhões de patacas registados em Fevereiro, que já tinham representado uma subida de 4,5 por cento em relação ao mês homólogo anterior.

Nos primeiros três meses do ano, os casinos de Macau somaram receitas totais de 65,9 mil milhões de patacas, mais 14,3 por cento do que em igual período de 2025. No ano passado, as receitas dos casinos atingiram 247,4 mil milhões de patacas, um crescimento de 9,1 por cento em comparação com 2024.

O Governo de Macau prevê que as receitas brutas dos casinos aumentem 3,5 por cento em 2026, atingindo cerca de 236 mil milhões de patacas. Nos primeiros dois meses, Macau recebeu 7,82 milhões de visitantes, um aumento de 15,1 por cento face ao mesmo período de 2025.

O território atingiu a marca de 10 milhões de visitantes em 21 de Março, alcançando este registo 12 dias mais cedo do que em 2025. As autoridades locais prevêem que o ano acabe com 41 milhões de visitantes.

Junkets | Número de empresas sobe para 31

O número de empresas de promoção do jogo licenciadas pelas autoridades subiu para 31, o que significa um aumento de duas licenças face ao registo anterior, de acordo com o portal GGRAsia. As mais recentes empresas a obterem a licença necessária para promover o jogo são a Xin Wei Lda e a Pok Lok Promoção de Jogos Lda.

No entanto, o total actual representa apenas 62 por cento da quota existente para 50 empresas junkets, estabelecida anualmente pelo Governo. O Governo estima que, em 2026, irá arrecadar 150 milhões de patacas em impostos sobre as comissões pagas pelos casinos aos junkets. De acordo com o plano orçamental da cidade para 2026, isso representaria um aumento de 50 por cento em relação aos 100 milhões de patacas de receitas fiscais que o governo espera registar no ano fiscal de 2025.

Macau Legend | Grupo admite que sobrevivência está em causa

Até ao final do ano, a Macau Legend pode ser obrigada a pagar empréstimos avaliados em 2,4 mil milhões de dólares de Hong Kong. O grupo já soma incumprimentos e os administradores esperam o perdão dos bancos para manter a empresa viva

A sobrevivência da Macau Legend, empresa que controla a Doca dos Pescadores, vai estar em jogo até ao final do ano, por falta de capacidade para pagar as dívidas. O cenário é admitido pelo grupo no documento de apresentação dos resultados financeiros de 2025, que revela perdas de 1,6 mil milhões de dólares de Hong Kong.

Segundo as explicações da empresa, no final do ano passado o endividamento grupo era superior a 2,7 mil milhões de dólares de Hong Kong. A maior parte destas dívidas, 2,4 mil milhões de dólares de Hong Kong, tem de ser paga até ao final deste ano. Contudo, ao mesmo tempo que soma resultados negativos, a empresa apenas tem 27,1 milhões dólares em caixa, o suficiente para pagar 1,2 por cento da dívida que vai vencer este ano. Parte da dívida de 2,4 mil milhões de dólares de Hong Kong, já inclui empréstimos bancários que deveriam ter sido pagos em 2024, pelo que podem gerar acções de execução a qualquer altura pelo bancos.

Neste contexto, é indicado no comunicado que “existem circunstâncias que suscitam dúvidas significativas quanto à capacidade do grupo de continuar a exercer a sua actividade”.

Assim, os administradores explicam que a sobrevivência depende de medidas que passam por conseguir financiamento extra através da emissão de mais acções do grupo, negociação com os bancos para evitar a execução do património e definir novas formas de pagamento das dívidas em favor da empresa, negociações com os accionistas que emprestaram dinheiro ao grupo, num valor de 339,4 milhões de dólares de Hong Kong, e ainda a adopção de outras formas de gerar capital.

A tarefa da Macau Legend adivinha-se difícil, uma vez que desde Novembro que o grupo deixou de explorar o casino-satélite Legend Palace. Segundo os resultados de 2024, ainda antes do encerramento deste casino, o grupo empregava 1.149 pessoas, das quais 327 tinham contratos com a concessionária SJM.

Lucros só em 2018

Além disso, nos resultados financeiros de 2025, mostram que a saúde financeira do grupo está a degradar-se de forma acelerada. As perdas de 1,6 mil milhões de dólares de Hong Kong ultrapassam os prejuízos de 2024, que não tinham ido além dos 795 milhões de patacas.

A última vez que o grupo apresentou resultados anuais positivos foi em 2018, com um lucro de 2,0 mil milhões de dólares de Hong Kong. No entanto, desde essa data somou prejuízos de 172 milhões, em 2019, 1,9 mil milhões em 2020, 1,2 mil milhões em 2021, 608 milhões em 2022 e de 3 milhões em 2023. Estes resultados negativos foram somados, apesar do grupo ainda explorar um casino ou vários casinos em Macau, o que deixou de acontecer em Novembro do ano passado.

De acordo com o relatório de 2024, a empresa tinha como principal accionista Levo Chan Weng Lin, que se encontra em Coloane a cumprir uma pena de prisão de 13 anos, devido às operações de promoção de jogo da empresa Tak Chun, e a sua esposa a actriz Ady An. Além de Levo, também constam entre os vários accionistas da empresa a terceira mulher de Stanley Ho, Ina Chan Un Chan, com cerca de 15 por cento das acções, assim como o fundador David Chow, com uma participação de 9,89 por cento.

Imposto de Circulação | Mais de 10 mil veículos em falta

Mais de 10 mil veículos ficaram com o imposto de circulação de 2026 ano por pagar. O prazo terminou na terça-Feira. A informação foi divulgada ontem pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), através de um comunicado. Segundo este organismo “o pagamento fora de prazo implica a cobrança de multas adicionais, juros de mora e outros montantes legais”, pelo que foi lançado um apelo para os proprietários fazerem o pagamento o mais rapidamente possível.

“Para facilitar o pagamento do imposto de circulação, a DSAT continua a disponibilizar múltiplos canais. Durante os meses de Abril e Maio, os proprietários de veículos particulares ainda podem efectuar o pagamento integral dos impostos, multas e outros encargos, de uma só vez”, foi acrescentado.

As plataformas para fazer o pagamento desta forma são: a aplicação ou página electrónica Conta Única de Macau, quiosques multifuncionais da DSI, dos quiosques E-Serviços Governamentais da RAEM, ou presencialmente nos balcões designados da DSAT ou do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM).

BNU | Carlos Cid Álvares mantido na liderança

Carlos Cid Álvares vai continuar a liderar o Banco Nacional Ultramarino (BNU) até 31 de Dezembro de 2028, avançou ontem TDM, que cita “fonte” da instituição bancária. O actual mandato do presidente da Comissão Executiva terminou em Dezembro de 2025, mas a renovação foi aprovada na terça-Feira pelo Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos. O próximo mandato termina a 31 de Dezembro de 2028.

Carlos Cid Álvares, que é também vice-presidente do Conselho de Administração do BNU, foi nomeado para o cargo actual em 2018, tendo assumido a liderança do banco em Junho desse ano. O dirigente do banco é licenciado em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Católica. Além disso, o presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Paulo Macedo, foi nomeado para presidente do Conselho de Administração do BNU.

Sam Tou foi promovido a vice-presidente da Comissão Executiva e a administrador da CGD, Bárbara Costa Pinto, será Administradora Não Executiva do BNU. As nomeações dos novos nomes que integram os órgãos sociais do BNU carecem de aprovação final da Autoridade Monetária de Macau.

Activos Públicos | Prejuízos de Centro Comércio Mundial sobem 72%

A empresa que controla o centro de arbitragem fechou o ano com perdas de 1,1 milhões de patacas. Sem o subsídio da RAEM, os prejuízos teriam sido de 12 milhões de patacas

No ano passado, os prejuízos do grupo Centro de Comércio Mundial Macau aumentaram 72 por cento, para 1,1 milhões de patacas, quando em 2024 tinham sido de 612 mil patacas. Os resultados foram divulgados ontem pela empresa, através do portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos (DSSGAP).

O grupo detido a 60 por cento pela RAEM só não apresentou resultados piores, porque no espaço de um ano o Executivo aumentou o valor do subsídio atribuído ao grupo que indica ter como actividade a disponibilização de “serviços ligados ao comércio internacional”, principalmente através de um centro de arbitragem.

O subsídio cedido pela RAEM cresceu de 11,0 milhões em 2024 para 13,0 milhões de patacas, um aumento de 2 milhões, equivalente a 18 por cento. Sem este subsídio, a empresa teria apresentado perdas de aproximadamente 12 milhões de patacas.

Os resultados da empresa agravaram-se principalmente devido aos custos com o pessoal, que no espaço de um ano aumentaram em 2,3 milhões de patacas, acima do aumento do subsídio da RAEM. As despesas com o pessoal eram de 9,9 milhões em 2024, mas cresceram para 12,2 milhões no ano passado.

Este aumento foi explicado, em parte, com o facto de o grupo ter passado a contar com 51 trabalhadores, quando no ano anterior tinha 49. Os salários dos trabalhadores aumentaram assim de 8,2 milhões de patacas para 10,0 milhões de patacas, um crescimento de 22 por cento. Em termos dos administradores, o aumento foi de 1,3 milhões de patacas para 1,8 milhões de patacas, uma diferença de 38 por cento.

Quanto às receitas, a empresa conseguiu melhorar o desempenho em comparação com o ano anterior, ao facturar 5,2 milhões de patacas, quando no ano anterior o valor tinha sido de 5,1 milhões de patacas.

Do imobiliário

Nos resultados do grupo, constam não só as operações da Centro de Comércio Mundial Macau, mas também da subsidiária Condominium, Administração de Propriedades, Limitada, que se destina à exploração do edifício onde opera a empresa.

A actividade da Condominium, Administração de Propriedades é lucrativa, mas também nesta área os lucros foram mais baixos. Em 2025, o lucro foi de 636 mil patacas, quando no ano anterior tinha atingido 684 mil patacas. Também no caso da subsidiária, os custos com o pessoal justificam os piores resultados, dado que estas despesas cresceram para 634 mil patacas, quando no ano anterior tinham sido de 625 mil patacas.

Além da RAEM, são accionistas do grupo o Banco Nacional Ultramarino (BNU), o Banco Comercial de Macau (BCM), o Estado Português, mas também vários empresários e políticos locais como Liu Chak Wan, Chui Sai Chong ou Peter Lam. O Conselho de Administração é dirigido por Chui Sai Cheong, enquanto a Comissão Executiva tem como presidente Ao Weng Tong.

Secretário diz que “mercado em baixa” afecta renovação urbana

O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, afirmou ontem que o “mercado [imobiliário] está em baixa”, o que faz com que muitos proprietários não queiram arriscar reconstruir as suas casas nas zonas mais antigas.

“Creio que concordam comigo, é difícil promover esse trabalho [de reconstrução]. As pessoas não estão optimistas e não investem na reconstrução. A dificuldade [está] no ambiente do nosso mercado e vamos ter de pensar em como podemos promover esse trabalho de reconstrução”, disse o governante, admitindo que se pode recorrer a “reduções fiscais” ou mesmo “prémios”.

No âmbito das 1.700 fracções existentes para troca, e 2.800 de alojamento temporária, utilizadas em processos de renovação de prédios antigos, o secretário disse que o Governo “não vai excluir a hipótese de adquirir estas fracções através da Macau Renovação Urbana”, mediante a situação financeira da empresa.

“Através de um processo de troca podemos resolver estas questões. Caso haja uma propriedade em sucessão, com cinco ou seis herdeiros, e que não queiram a habitação para troca nem viver na casa temporariamente, aí é provável que queiram receber dinheiro. Vamos ponderar caso a caso no âmbito da renovação urbana.”

O secretário explicou ainda que “se a natureza [da fracção] continuar a ser a de habitação para troca, teremos de a alterar, e aí será mais fácil”. “Estamos a discutir com a Macau Renovação Urbana para ver se há mais sujeitos que podem fazer habitação para troca”, destacou.

Na resposta à interpelação oral da deputada Wong Kit Cheng, Raymond Tam esclareceu que “está em estudo a forma de utilização das habitações para troca e das habitações para alojamento temporário, com vista a melhor promover a renovação urbana”.

Incentivos precisam-se

O deputado Lei Leong Wong pediu ao Governo para “relaxar as restrições em termos de políticas”. “Muitos projectos de renovação urbana têm enfrentado dificuldades recentemente. O projecto em Toi San [sete prédios] decorre sem sobressaltos, havia 50 fogos, agora vão construir 107 fracções comerciais, e os proprietários não têm de assumir grandes despesas de construção mas, além disso, há outros projectos que não estão nesta situação.”

Já a deputada Loi I Weng pediu “mais incentivos e apoios” para os proprietários das casas. “A renovação urbana implica muitas vertentes, avultados encargos e isso afecta a vontade dos proprietários [em reconstruir], porque têm de assumir muitas despesas.”

O secretário lembrou que, quem investe, tem retorno. “Claro que os proprietários saem beneficiados, porque o valor do seu imóvel vai ser mais elevado, os custos vão ter um retorno”.

Plano director | Revisão vai incluir novo cenário demográfico

Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, anunciou ontem que será lançada, no segundo semestre, a consulta pública para a revisão do Plano Director. Este processo terá em conta o novo cenário demográfico, com menos nascimentos e mais idosos, admitiu

O Governo vai rever o Plano Director de Macau tendo em conta a nova situação demográfica do território, que tem uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo e um elevado envelhecimento populacional. A consulta pública sobre a revisão vai acontecer no segundo semestre, afirmou ontem o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, no segundo dia de sessão plenária dedicada a responder a interpelações orais dos deputados.

“A alteração do Plano Director está a avançar de forma ordenada e há que seguir certos procedimentos legais. O Chefe do Executivo já autorizou a sua alteração e no segundo semestre podemos avançar com a consulta pública”, disse.

O Plano Director foi implementado em 2024 e, conforme a lei, é necessário aguardar cinco anos para uma nova revisão, mas esse processo já está em marcha. “Segundo a lei do planeamento urbanístico a alteração do Plano Director só pode acontecer cinco anos depois, mas nada impede que avancemos com os trabalhos preparatórios.”

Raymond Tam, em resposta à interpelação oral do deputado Lam Fat Iam, disse que “vamos ter em conta as necessidades actuais para planear a zona Este-2”, ou seja, a Zona A dos Novos Aterros em Macau, pensada para ter 96 mil fracções.

“De facto é necessária uma ponderação global sobre a política demográfica, e temos de ter uma coordenação interdepartamental para estes trabalhos. O Governo vai ter grande prudência”, admitiu. O secretário disse mesmo que “na zona A, ou Este-2, sabemos que as alterações populacionais e de mercado fazem com que se altere [o nível de] procura pela habitação, e a ideia que tínhamos antes tem de ser ajustada.”

Na resposta a Lam Fat Iam, o governante disse mesmo que “o Plano Director não é imutável”, tendo em conta também “a utilização de terrenos” para as novas actividades económicas no âmbito da política “1+4”.

Muitas questões numa só

A questão demográfica levou muitos deputados a colocaram questões sobre o que aí vem. Che Sai Wang lembrou que “temos uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo”, segundo o último Relatório do Estudo sobre a Política Demográfica de Macau data de 2015.

“Passaram dez anos e o Governo tem de implementar um mecanismo para alterar a política demográfica”, destacando que menos bebés e mais idosos leva a mudanças a nível dos serviços de saúde, habitação ou ensino. “Temos de delinear o desenvolvimento da cidade em função da baixa taxa de natalidade e do envelhecimento da população, tendo em conta os transportes e saúde.”

Kou Ngon Seng considerou que “enfrentamos desafios quanto ao aproveitamento dos terrenos”, dado que “vai haver um ajustamento da população”. “Será que vai haver um ajustamento nas 96 mil fracções na zona A?”, questionou.

Leong Hong Sai questionou se o Governo pondera “captar mais quadros qualificados para optimizar o planeamento”. “O último relatório sobre política demográfica é de 2015 e nos últimos anos a situação sofreu alterações, estando em causa os recursos de solos, mercado de arrendamento, transportes, serviços de saúde e de apoio a idosos”, rematou.

Timor-Leste | Aprovado Regime Jurídico da Prática de Artes Marciais

O parlamento de Timor-Leste aprovou ontem na generalidade o Regime Jurídico da Prática de Artes Marciais, suspenso desde 2023, com 38 votos a favor e a abstenção da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin). A Fretilin, através da deputada Nurima Alkatiri, justificou com a abstenção com o facto de não compreender o que o Estado entende sobre organizações de artes marciais.

“São desporto, representam um risco para a segurança pública ou constituem uma base de mobilização político-partidária”, questionou a deputada, salientando que só quando o Estado tiver uma “posição clara poderá definir políticas, leis e regulamentos adequados”. A deputada considerou também que a legislação foi feita com base no preconceito de que os cidadãos timorenses são criminosos ou agentes de comportamentos negativos.

“É verdade que existem casos isolados de comportamento inadequados, mas a generalização e o estigma podem gerar discriminação e exclusão”, afirmou. Em terceiro lugar, a Fretilin questiona a apresentação temporal da lei.

“Só agora surge uma proposta de lei com este objectivo. Porquê agora? Num contexto de crescente sensibilidade política, incluindo ciclos eleitorais, importa questionar se estamos perante uma resposta estruturada ou uma iniciativa motivada por interesses de curto prazo”, questionou a deputada.

O Governo de Timor-Leste prolongou, em Dezembro de 2025, até Junho de 2026 a suspensão do ensino, aprendizagem e prática de artes marciais, bem como o encerramento dos locais e instalações destinados ao seu ensino. A suspensão do ensino, aprendizagem e práticas de artes marciais foi pela primeira vez imposta em Novembro de 2023, na sequência de graves incidentes registados em todo o território nacional, que provocaram pelo menos quatro mortos e 26 feridos.

Índia |Pelo menos oito mortos e oito feridos numa cerimónia religiosa

Pelo menos oito pessoas morreram ontem e outras oito ficaram feridas durante uma cerimónia religiosa num templo hindu do estado de Bihar, no norte da Índia, devido ao calor intenso e excesso de participantes.

“Infelizmente, oito pessoas morreram. Outras oito ficaram feridas e foram transportadas para receberem tratamento, encontrando-se estáveis”, disse o responsável policial local, Kundam Kumar. As autoridades da região informaram que havia uma maioria de mulheres nas imediações e dentro do templo por se tratar de um ritual dedicado à deusa Shitala, protectora da saúde e das crianças.

“Juntou-se um grande número de mulheres, muitas delas ainda em jejum. Depois de tomarem um banho sagrado, estavam a entrar para o templo. A combinação do calor intenso, desidratação e dificuldades em respirar fez com que a multidão ficasse incontrolável”, descreveu Kumar. O acidente coincide com a visita oficial da presidente indiana, Droupadi Murmu, à mesma zona, o que terá feito com que os meios de segurança fossem aplicados à sua comitiva e deslocações, desguarnecendo o evento religioso daquele templo hindu.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, manifestou “profunda tristeza” pelo sucedido e anunciou indemnizações de 200.000 rupias (cerca de 2.100 euros) para as famílias das vítimas mortais, bem como a criação de uma comissão para investigar as causas do acidente.

Segurança social | Governo prevê estabilidade até 2075 com actuais valores de reforma

O Executivo considera que há condições para assegurar a estabilidade financeira do Fundo de Segurança Social (FSS) até o ano de 2075 caso o valor da reforma se mantenha nos montantes actuais, 3.900 patacas por mês, estando a ser estudados possíveis ajustes.

A garantia foi ontem dada pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, em resposta a uma interpelação oral do deputado Leong Sun Iok, que questionou, precisamente, a situação financeira do FSS a longo prazo, tendo em conta o envelhecimento populacional.

“De acordo com a análise dos resultados actuais encomendada pelo FSS a uma instituição académica em 2025, se a pensão para idosos se mantiver ao nível actual de atribuição (3.900 patacas por mês) e for ajustada posteriormente de acordo com o Mecanismo de ajustamento regular das prestações do regime da segurança social, o valor patrimonial do FSS continuará a ser estável até o ano 2075.”

Desta forma, “face às incertezas externas e da economia local no futuro, juntamente com os desafios resultantes da mudança da estrutura demográfica, o Governo deve ponderar prudentemente sobre o ajustamento estável do nível de prestações da pensão para idosos”.

Ainda assim, O Lam referiu que o Executivo “vai empenhar-se no aperfeiçoamento do regime de segurança social de dois níveis”, continuando a “promover, de forma gradual e ordenada, o andamento da obrigatoriedade do regime de previdência central”.

Ficou também a promessa de “estudar, em tempo oportuno, a viabilidade do ajustamento do montante das contribuições do regime de segurança social” por parte dos trabalhadores. Para isso, “realizará uma consulta junto da sociedade para auscultar amplamente as opiniões” sobre esse assunto.

Contas estáveis

O Lam apresentou ainda dados na AL sobre a situação financeira do FSS, tendo em conta que o Governo tem vindo, desde 2013, “a aumentar as fontes de receita financeira e a consolidar a sua estabilidade financeira a longo prazo”, nomeadamente através do “aumento de percentagem da dotação regular das contribuições do jogo ao FSS”.

Fez-se ainda “a injecção extraordinária com o valor total de 37 mil milhões de patacas durante quatro anos consecutivos”, além de se ter criado “o mecanismo de atribuição de dotação do saldo financeiro mediante legislação”, que resultou na atribuição anual de 3 por cento do saldo da execução do orçamento central da RAEM ao FSS.

Segundo a secretária, essas dotações “consubstanciam-se como uma das mais proeminentes fontes de receitas do FSS, actuando em sinergia com as comparticipações das receitas correntes da RAEM, as contribuições para o regime da segurança social, a taxa de contratação de trabalhadores não residentes, os rendimentos dos investimentos e demais proveniências”.

Desde a injecção extraordinária de capital ao FSS em 2013 e até 2025, “o valor total dos activos sob a gestão do FSS acumulado [passou] de 15,7 mil milhões de patacas para mais de 108,4 mil milhões de patacas”, com um aumento de 92,7 mil milhões de patacas.

Deu-se também um retorno global do investimento de 41,3 mil milhões de patacas, “correspondendo a uma taxa média de rentabilidade de 4,1 por cento ao ano”, disse a secretária. O Lam acrescentou, assim, que “a estratégia de investimento do FSS tem uma boa capacidade de combate à inflação e, ao mesmo tempo, consegue preservar e valorizar os activos”.

A falta de líbido não se resolve (só) com suplementos

Hoje há um suplemento para quase tudo: para dormir melhor, para melhorar a memória, para reduzir o stress. Não surpreende, por isso, que haja também suplementos que prometem melhorar o desejo sexual. Basta uma rápida pesquisa online para encontrar dezenas de produtos que garantem dar um reforço sexual — seja lá o que isso signifique: mais desejo, erecções mais firmes ou orgasmos mais intensos. Ginseng, maca, tribulus, ashwagandha, zinco, fórmulas ancestrais criadas fora de um laboratório: todas fazem parte de um catálogo promissor. Estes suplementos dizem resolver algo tão complexo como a sexualidade.

A literatura científica sobre suplementos para a função sexual é, em geral, não muito optimista. Existem alguns ingredientes com evidência preliminar — por exemplo, o ginseng ou a maca — que parecem ter efeitos ligeiros sobre o desejo ou sobre a função eréctil em alguns estudos. Contudo, a maior parte destes estudos envolve amostras pequenas, períodos de observação curtos ou resultados inconsistentes. Não é raro que um estudo mostre algum benefício e o seguinte não consiga replicá-lo.

Isto não significa que todos os suplementos sejam inúteis. Significa apenas que a evidência científica e as promessas publicitárias não estão alinhadas. Parte da explicação reside no facto de a sexualidade humana ser um fenómeno extraordinariamente complexo – um tema sobre o qual já escrevi várias vezes.
O desejo sexual não depende apenas de um mecanismo biológico isolado. É influenciado por factores hormonais, sim, mas também pelo contexto ou a situação, como o estado emocional ou dinâmica relacional. Por não estarem conscientes desta complexidade, muitas pessoas identificam como “falta de libido” outras questões secundárias, como ansiedade, cansaço crónico, efeitos secundários de medicamentos ou simplesmente as exigências de uma vida cada vez mais acelerada. A investigação científica sobre sexualidade mostra, aliás, algo que raramente é discutido neste âmbito: factores básicos de saúde têm frequentemente mais impacto no desejo sexual do que qualquer suplemento. A qualidade do sono, o exercício físico regular, a redução do stress, bem-estar emocional estão associados a melhor função sexual. A sexualidade depende profundamente do estado geral do corpo e da mente. Em muitos casos, melhorar o contexto de vida, e até fazer psicoterapia, pode ser mais eficaz do que procurar o suplemento certo.

Exactamente porque a sexualidade humana é um fenómeno multi-factorial, uma parte dos efeitos positivos relatados em estudos sobre suplementos pode ser explicada pelo efeito placebo. Quando acreditamos que estamos a tomar algo que irá melhorar a nossa vida sexual, essa expectativa pode alterar a forma como interpretamos as nossas próprias sensações. A confiança aumenta, a ansiedade diminui e, em alguns casos, o desejo reaparece. Isto não significa que o suplemento “funcione” no sentido farmacológico, mas também não significa que a experiência do utilizador seja uma fantasia. A mente humana tem influência sobre o corpo.

Os suplementos podem ter, por isso, um lugar na conversa. Em alguns casos específicos podem ter um papel auxiliar. Mas dificilmente serão a solução universal que o marketing promete.

Num tempo marcado por relações cada vez mais pressionadas por expectativas irrealistas, a promessa de uma solução simples torna-se irresistível. Um suplemento é sempre mais fácil do que confrontar a complexidade da vida íntima. E é precisamente por isso que continua a vender tão bem.

Automobilismo | Célio Alves Dias faz pausa, com regresso apontado para o ano que vem

Célio Alves Dias, um dos nomes históricos do automobilismo do território, não vai competir esta temporada por opção. Ainda assim, o piloto macaense não pensa pendurar o capacete e já tem planos para regressar às corridas em 2027.

O vencedor da Taça de Carros de Turismo de Macau no Grande Prémio de Macau de 2021 esteve afastado da competição em 2023 por motivos pessoais. Nos dois últimos anos, contudo, participou no Macau Roadsport Challenge, a competição promovida pela Associação Geral Automóvel de Macau-China (AAMC) e que junta em pista os Toyota GR86 (ZN8) e Subaru BRZ (ZD8). Esta temporada, porém, o piloto da Fu Lei Loi Racing Team decidiu fazer um interregno, já com o olhar no próximo passo da sua carreira no desporto.

Apesar da vasta experiência em corridas de Turismo, tendo conduzido várias gerações de carros da categoria, Célio Alves Dias nunca tinha pilotado os novos modelos antes de 2024. Nesse ano conseguiu qualificar-se para o Grande Prémio, mas em 2025 o piloto de matriz portuguesa ficou de fora da prova mais importante do ano, tendo sido uma das vítimas das corridas de apuramento realizadas no Circuito Internacional de Zhuzhou.

“Vou parar este ano, mas não vou parar definitivamente”, esclareceu Célio Alves Dias ao HM, acrescentando que durante o ano “terei de estar ausente de Macau durante algum tempo”, o que o impede de assumir compromissos competitivos. Ainda assim, garante que pretende “manter-se activo”, recorrendo “a treinos no karting” para continuar a rodar e preservar a forma. E o Toyota GR86 não será, por agora, vendido.

O passo seguinte

Presença habitual no Grande Prémio de Macau e no automobilismo local desde a transferência de administração, Célio Alves Dias estreou-se no Circuito da Guia em 2000. A partir daí, marcou presença de forma consecutiva na prova até 2023. O ponto mais alto da carreira chegou em 2021, com a vitória na Taça de Carros de Turismo de Macau. Curiosamente, não pôde subir ao lugar mais alto do pódio, pois estava a ser assistido no Centro Hospitalar Conde de São Januário após um violento acidente na última volta da corrida, num dos finais mais insólitos da história do evento.

Para a temporada de 2027, apesar de nunca ter competido em carros de Grande Turismo, Célio Alves Dias admite que “talvez se prepare para competir na classe GT4”, por considerar que “esta categoria pode ser a mais adequada para mim, já que existe um maior equilíbrio entre os carros”.

Apesar de a Macau Roadsport Challenge ter actualmente um regulamento mais restritivo, pensado para conter custos, a categoria GT4, que segue padrões internacionais e utiliza o sistema de Balance of Performance (BoP), também apresenta um forte controlo de despesas, não permitindo evoluções significativas nos carros adquiridos aos construtores. Em paralelo, a competição organizada pela AAMC admite a participação de viaturas cuja homologação GT4 já expirou, como os BMW M4 GT4 (F82), McLaren 570S GT4 e Ginetta G55, e que estão disponíveis no mercado a preços bastante interessantes.

China espera que visita de eurodeputados contribua para desenvolvimento das relações

O Governo chinês afirmou ontem esperar que a visita ao país de eurodeputados da comissão do Mercado Interno do Parlamento Europeu, que começou ontem, “contribua para o desenvolvimento saudável e estável” das relações entre Pequim e a União Europeia. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da China Mao Ning disse, em conferência de imprensa, que “os intercâmbios legislativos constituem uma componente importante das relações entre a China e a UE”.

Mao acrescentou que “esta visita vai promover os intercâmbios e a cooperação entre os órgãos legislativos da China e da UE”. “A deslocação permitirá melhorar o conhecimento que o Parlamento Europeu tem da China”, indicou a porta-voz.

Nove eurodeputados (três alemães, três franceses, um holandês, um polaco e uma dinamarquesa) iniciaram ontem a visita para conhecer melhor os sectores tecnológico e do comércio electrónico do país, bem como avaliar o cumprimento das normas aplicáveis ao envio de encomendas para a União Europeia, naquela que é a primeira deslocação de eurodeputados ao país asiático em oito anos.

Novos desafios

Num comunicado, o Parlamento Europeu descreveu a visita como “uma oportunidade importante” para abordar desafios comuns nas áreas digital e do comércio electrónico e promover uma concorrência leal entre a UE e a China, esperando transmitir aos interlocutores chineses a posição europeia em matéria de regulação digital, protecção do consumidor e segurança dos produtos.

“Uma das principais preocupações [dos eurodeputados] são as infrações sistemáticas das normas europeias e o elevado volume de pequenas encomendas que não cumprem essas regras provenientes de plataformas não europeias, incluindo chinesas”, lê-se na mesma nota. Na capital chinesa, os deputados vão reunir-se com a Câmara de Comércio da UE para conhecer os desafios de acesso ao mercado enfrentados pelas empresas europeias no país e terão encontros com representantes dos gigantes do comércio digital Shein e Alibaba.

Em Xangai, os eurodeputados reunir-se-ão com representantes da Temu para discutir o cumprimento das normas europeias relativas aos mercados digitais e à concorrência leal, e visitarão o aeroporto internacional de Pudong com as autoridades aduaneiras chinesas e uma empresa local de logística.

A visita representa mais um passo na normalização das relações entre a China e o Parlamento Europeu, depois de ambas as partes terem levantado, em 2025, as sanções que tinham imposto mutuamente em 2021, quando Pequim adotou medidas contra dez pessoas e quatro entidades da UE em resposta às sanções europeias contra responsáveis chineses acusados de violações dos direitos humanos de membros da minoria étnica chinesa de origem muçulmana uigur.

A China é o terceiro maior parceiro comercial da União Europeia, mas a relação económica é assimétrica devido ao desequilíbrio na abertura dos respectivos mercados, segundo o Parlamento Europeu.

Ormuz | Pequim confirma que três navios chineses atravessaram Estreito

O ministério dos Negócios Estrangeiros chinês congratulou-se com a passagem das três embarcações, apelando ao mesmo tempo a um cessar-fogo urgente na região

O Governo chinês confirmou ontem que três navios do país asiático conseguiram atravessar recentemente o Estreito de Ormuz, num sinal de alívio parcial para o tráfego nesta via estratégica, que se encontra bloqueada pelo Irão. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da China Mao Ning afirmou, em conferência de imprensa, que, “após coordenação com as partes relevantes, três navios chineses transitaram recentemente pelo Estreito de Ormuz”.

Mao sublinhou que a China “agradece a assistência prestada pelas partes envolvidas” e destacou a importância estratégica desta rota marítima para o comércio internacional.

“O Estreito de Ormuz e as suas águas adjacentes são uma importante via internacional para o comércio de mercadorias e de energia”, acrescentou a porta-voz, apelando a “um cessar-fogo o mais rapidamente possível” e ao restabelecimento “da paz e da estabilidade no Golfo Pérsico”.

As declarações de Mao surgem depois de dados do portal de monitorização marítima MarineTraffic indicarem que os cargueiros da Cosco “Indian Ocean” e “Arctic Ocean”, bem como o “Mac Hope”, um navio com bandeira do Panamá que se declarou de propriedade e tripulação chinesas, atravessaram na segunda-feira esta via e se encontram já a leste de Ormuz.

Segundo órgãos de comunicação chineses, os dois cargueiros da Cosco transportavam contentores maioritariamente vazios e tinham ficado retidos no Golfo Pérsico desde o final de Fevereiro, quando começaram os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, seguidos da retaliação de Teerão.

Os navios já tinham tentado anteriormente atravessar o estreito na passada sexta-feira, mas tiveram de voltar atrás depois de a Guarda Revolucionária iraniana ter-lhes negado a passagem, de acordo com informações da consultora Lloyd’s List Intelligence.

Caso sério

A confirmação oficial chinesa surge dias depois de a Cosco ter anunciado a retoma da aceitação de novas reservas de contentores convencionais com destino a vários países do Médio Oriente, embora tenha então alertado para a “volatilidade” regional e para o facto de os custos, a programação e as condições do transporte continuarem “sujeitos a alterações”.

A passagem por Ormuz é particularmente sensível para a China, dado que cerca de 45 por cento das suas importações energéticas transitam por essa via.

A perturbação do tráfego marítimo e a subida dos preços do petróleo já tiveram impacto no mercado interno chinês, onde os combustíveis registaram recentemente uma das maiores subidas dos últimos anos, levando o regulador a intervir de forma excepcional para limitar esse aumento.

Alerta para “graves consequências” face a ataques contra instalações nucleares no Irão

A China alertou ontem que acções contra “instalações nucleares pacíficas” podem ter “graves consequências para a paz e estabilidade” regionais, após o Irão ter denunciado ataques dos Estados Unidos próximo da central nuclear de Bushehr.

A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da China Mao Ning afirmou, em conferência de imprensa, que “os ataques armados contra instalações nucleares pacíficas sob salvaguardas e supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica violam os propósitos da Carta das Nações Unidas, o direito internacional e o Estatuto da AIEA”.

Mao sustentou que estas operações “minam gravemente a autoridade do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e enfraquecem os esforços para manter o regime internacional de não proliferação nuclear”. “A China defende uma solução pacífica para a questão nuclear iraniana por via política e diplomática”, acrescentou a porta-voz.

A campanha de bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel incluiu, nos últimos dias, três instalações nucleares, duas universidades, o edifício de uma televisão do Catar e zonas residenciais de Teerão, ataques que causaram mais de 70 mortos. Nos últimos dias, Estados Unidos e Israel têm centrado as suas acções nas indústrias do país, no seu programa nuclear e nos seus centros de conhecimento.

Degradação contínua

Ao final da passada sexta-feira, registou-se um ataque nas proximidades da central nuclear de Bushehr (sul) – o terceiro em dez dias – pelo que a instalação “continua a degradar-se”, segundo a Rússia, que construiu a central e está a retirar parte do seu pessoal.

A guerra opõe o Irão aos Estados Unidos e a Israel desde 28 de Fevereiro, quando estes lançaram ataques contra território iraniano, aos quais Teerão respondeu com ofensivas contra Israel, vários países do Golfo e posições associadas a Washington na região.

Pequim tem condenado reiteradamente as acções dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, por considerar que “violam a soberania” do país persa, embora também tenha apelado ao respeito pela integridade territorial dos países do Golfo, com os quais mantém laços estreitos.