A história dos pauzinhos chineses: cultura, identidade e convivência social

Por Yiming Shu

A história dos pauzinhos na China remonta ao período pré-Qin, há mais de três mil anos. Inicialmente fabricados sobretudo em bambu ou madeira, estes utensílios apresentavam uma forma simples, leve e funcional, adequada às necessidades da alimentação quotidiana. O seu aparecimento constituiu uma inovação importante na história da cultura material chinesa, pois introduziu um instrumento de refeição prático, higiénico e profundamente adaptado aos hábitos alimentares da população.

O gesto de erguer os pauzinhos pode ser entendido como um momento discreto, mas significativo, da civilização humana. A relação com o alimento passou a ser mediada por um objecto técnico, cultural e simbólico. Os pauzinhos condensam hábitos sociais, valores familiares, formas de convivência e modos de pensamento característicos da cultura chinesa. Este texto procura, por isso, analisar o modo como este utensílio quotidiano se tornou um símbolo cultural relevante na sociedade chinesa.

A alimentação chinesa mantém uma relação muito forte com a dimensão colectiva. Em muitos países europeus, cada pessoa dispõe habitualmente de um prato individual. Na China, pelo contrário, é comum que vários pratos sejam colocados no centro da mesa e partilhados por todos os convivas. Os pauzinhos adaptam-se de forma particularmente eficaz a este modelo de refeição, pois permitem retirar pequenas porções de comida sem necessidade de cortar os alimentos durante o próprio acto de comer.

Esta prática revela uma diferença cultural importante. Na tradição chinesa, a refeição constitui um momento de encontro, convivência e partilha. Comer implica participar num espaço comum, observar gestos de respeito e integrar-se numa ordem familiar ou social. A mesa funciona, assim, como lugar de alimentação e, ao mesmo tempo, como espaço de relação.

A forma dos pauzinhos também permite compreender certas concepções filosóficas e comportamentais da cultura chinesa. Ao contrário da faca e do garfo, comuns em muitos países ocidentais, os pauzinhos apresentam uma aparência serena e desprovida de agressividade. Na culinária chinesa, os alimentos são geralmente cortados em pequenos pedaços antes de chegarem à mesa. O gesto de cortar é deslocado para a cozinha, preservando-se, durante a refeição, uma atmosfera de harmonia e contenção.

Esta característica aproxima-se de um princípio valorizado pela tradição chinesa: a procura do equilíbrio e a evitação de conflitos desnecessários. A tradição confucionista contribuiu para consolidar esta sensibilidade. Confúcio considerava que objectos associados à violência, como facas, não se adequavam ao ambiente tranquilo da refeição. Por essa razão, os pauzinhos tornaram-se progressivamente mais populares em muitas regiões da China. Ainda hoje, algumas pessoas mais velhas consideram pouco apropriado colocar facas directamente sobre a mesa durante refeições familiares.

Os pauzinhos estão igualmente ligados à estrutura familiar chinesa. Na China, comer em conjunto representa um momento de reafirmação dos laços familiares. Durante festividades tradicionais, como o Ano Novo Chinês, muitas famílias sentam-se em torno de uma mesa redonda para partilhar vários pratos. Em muitas casas, os idosos começam a refeição em primeiro lugar, enquanto os mais jovens demonstram respeito esperando a sua vez ou colocando comida nos pratos dos familiares mais velhos.

Neste contexto, os pauzinhos desempenham uma função social muito clara. Servem para comer, partilhar, oferecer e cuidar. Desde a infância, muitas crianças chinesas aprendem que não devem retirar comida apenas para si próprias, escolher os melhores pedaços de forma egoísta ou mexer excessivamente nos pratos comuns. Estas regras pertencem à educação familiar e influenciam profundamente o comportamento durante as refeições. Através de gestos simples, transmitem-se valores como respeito, moderação, generosidade e atenção ao outro.

Um dos aspectos mais reveladores da cultura dos pauzinhos reside na importância atribuída aos pequenos comportamentos à mesa. Espetar os pauzinhos verticalmente numa tigela de arroz é considerado um gesto de mau agouro, pois lembra o incenso utilizado nos rituais funerários chineses. Bater com os pauzinhos na tigela também é visto como falta de educação, uma vez que esse gesto era tradicionalmente associado aos mendigos. Apontar os pauzinhos directamente para outra pessoa durante uma conversa é igualmente considerado inadequado. Mexer repetidamente nos pratos à procura dos melhores pedaços revela falta de consideração pelos outros convivas.

Estes detalhes mostram como um objecto aparentemente simples pode carregar significados culturais profundos. Para estrangeiros, algumas regras podem parecer excessivas. Para muitos chineses, porém, elas fazem parte de uma gramática quotidiana do respeito. Os pauzinhos organizam a relação com a comida e, ao mesmo tempo, regulam a relação com os outros. A mesa transforma-se, desse modo, num espaço de educação moral, memória familiar e continuidade cultural.

Os materiais utilizados na produção dos pauzinhos também se alteraram ao longo da história. Durante muito tempo, a maioria da população usava pauzinhos de bambu ou madeira, materiais acessíveis, baratos e fáceis de produzir. As famílias mais abastadas recorriam a materiais mais nobres, como marfim, jade ou prata. Existia inclusivamente a crença de que os pauzinhos de prata poderiam mudar de cor ao entrar em contacto com veneno, embora essa ideia não corresponda inteiramente à realidade científica. Ainda assim, essa crença revela a associação dos pauzinhos a imaginários de proteção, estatuto social e distinção simbólica.

Hoje, encontram-se pauzinhos de metal, plástico, madeira reutilizável e vários materiais modernos. São usados em casas particulares, restaurantes tradicionais, estabelecimentos de hotpot e restaurantes de sushi. Apesar desta diversidade, muitas pessoas continuam a preferir os pauzinhos tradicionais de madeira, por os considerarem mais confortáveis, estáveis e menos escorregadios. A permanência da madeira e do bambu revela a continuidade de uma sensibilidade táctil e cultural que atravessa as transformações da vida moderna.

Os pauzinhos também são utilizados noutras regiões da Ásia, embora apresentem variações importantes. Os pauzinhos chineses costumam ser mais longos e ter a ponta menos fina. Os japoneses são geralmente mais curtos e pontiagudos, característica relacionada com a presença frequente do peixe na alimentação japonesa e com a necessidade de retirar espinhas com precisão. Na Coreia, muitas pessoas usam pauzinhos metálicos, cuja utilização pode parecer mais difícil para quem não está habituado. Estas diferenças mostram como um mesmo utensílio pode adquirir formas distintas conforme os hábitos alimentares, os materiais disponíveis e as sensibilidades culturais de cada sociedade.

Na actualidade, apesar da globalização e da influência de culturas estrangeiras, os pauzinhos continuam muito presentes no quotidiano chinês. Mesmo entre os jovens que consomem fast food, frequentam restaurantes internacionais ou usam o telemóvel durante as refeições, os pauzinhos permanecem um instrumento habitual. Em alguns restaurantes, utilizam-se pauzinhos reutilizáveis; noutros, persistem os descartáveis, frequentemente associados a preocupações de higiene.

O uso massivo de pauzinhos descartáveis trouxe, contudo, problemas ambientais significativos. A sua produção implica o consumo de grandes quantidades de madeira e contribui para o aumento de resíduos. Nos últimos anos, a consciência ecológica em torno deste problema tem vindo a crescer. Diversas campanhas incentivam o uso de pauzinhos reutilizáveis, e algumas universidades chinesas distribuem conjuntos pessoais aos estudantes, procurando reduzir o desperdício. Assim, um objecto antigo participa hoje em debates contemporâneos sobre sustentabilidade, consumo responsável e proteção ambiental.

Com o desenvolvimento da internet, os pauzinhos ganharam nova visibilidade nas redes sociais e na cultura popular. Circulam vídeos de estrangeiros a tentar aprender a usá-los, desafios humorísticos e demonstrações de grande habilidade manual. Algumas pessoas conseguem apanhar grãos de arroz individuais ou objetos minúsculos apenas com os pauzinhos. Estes conteúdos, embora marcados pelo entretenimento, despertam curiosidade internacional pela cultura chinesa. Em certos contextos, os pauzinhos funcionam como símbolo visual da identidade asiática.

Quando cheguei a Portugal, percebi que muitas pessoas tinham curiosidade em relação aos pauzinhos chineses. Alguns colegas queriam aprender a utilizá-los, mas, no início, achavam difícil controlar o movimento das mãos. Alguns seguravam-nos como se fossem lápis; outros moviam apenas um dos pauzinhos, sem compreender a coordenação necessária entre ambos. Esta experiência foi reveladora para mim, porque, antes de sair da China, nunca tinha reflectido profundamente sobre este objecto tão comum. O contacto com estrangeiros permitiu-me perceber que aquilo que para mim era quotidiano podia parecer estranho, difícil ou fascinante para outras culturas.

Em restaurantes asiáticos em Portugal, observo frequentemente esse contraste cultural. Muitos chineses usam os pauzinhos de forma natural e quase inconsciente, enquanto muitos europeus precisam de tempo para se habituar ao gesto. Esta diferença mostra como os objectos mais simples incorporam hábitos culturais profundos. O modo de segurar, mover e utilizar os pauzinhos torna-se uma memória corporal aprendida desde cedo e interiorizada pela repetição.

Os pauzinhos estão ainda ligados à memória afectiva de muitas pessoas chinesas. Refeições familiares, festas tradicionais, comida preparada pelos avós e encontros em torno da mesa surgem frequentemente associados a este utensílio. Por isso, muitos chineses que vivem no estrangeiro continuam a preferir usá-los em casa, mesmo estando habituados aos talheres ocidentais. O gesto de pegar nos pauzinhos cria uma sensação de continuidade cultural e proximidade emocional. Longe da China, esse objecto discreto pode funcionar como uma forma íntima de regresso.

Em suma, os pauzinhos constituem um símbolo importante da cultura chinesa. Através deles, torna-se possível compreender hábitos alimentares, valores históricos, códigos sociais e vínculos familiares transmitidos ao longo de milénios. A sua presença no quotidiano revela a força dos objetos simples na construção da identidade cultural.

Estudar utensílios comuns permite compreender uma cultura a partir dos seus gestos mais discretos. Muitas vezes, são os detalhes aparentemente banais — a forma de comer, a etiqueta da mesa, o modo de partilhar um prato — que revelam estruturas profundas de pensamento e convivência. Os pauzinhos chineses pertencem a essa categoria de objetos silenciosos: modestos na aparência, vastos no significado.

30 Jun 2026

Obesidade | Associação alerta para riscos da comida “ocidental”

Vice-presidente de nova associação médica culpa os novos “hábitos alimentares ocidentalizados” pelo crescimento da obesidade em Macau, e pede à população que consuma menos take-away e faça mais exercício

 

A vice-presidente da Associação Médica de Obesidade de Macau, Chou Mei Fong, considera que a adopção de “hábitos alimentares ocidentalizados” pela população está a levar a um aumento da obesidade. A posição foi tomada durante a cerimónia de fundação da Associação Médica de Obesidade de Macau, que aconteceu no domingo, e representou também a primeira sessão académica sobre o tema.

Segundo o jornal Ou Mun, a vice-presidente da associação, Chou Mei Fong, alertou que, com base em inquéritos realizados no passado, mais de metade dos adultos em Macau têm excesso de peso. E entre as razões apontadas pela associação para uma tendência que se está a tornar cada vez mais comum, encontram-se os “hábitos alimentares ocidentalizados”.

No âmbito desta posição, Chou Mei Fong sugeriu à população que preste mais atenção aos hábitos da vida, pratique mais exercício e evite ao máximo encomendar take-away, porque indicou ser um hábito propício ao desenvolvimento da obesidade.

No âmbito da promoção de regimes de alimentação mais saudáveis, Chou Mei Fong prometeu uma associação em coordenação com o Governo para contribuir para a implementação do Plano de Acção para Macau Saudável.

A associação espera assim contribuir com iniciativas como actividades para pesar os residentes, e promover um maior controlo, realização de intercâmbio com associações locais e instituições médicas.

 

Mais investigação

Por sua vez, a presidente da associação, Mónica Cristina Pon, apontou que a fundação da associação não só é a concretização das estratégias do Plano de Acção para Macau Saudável, mas também serve para integrar os recursos médicos, promovendo a cooperação de vários partes e uma plataforma inovadora.

Os objectivos definidos pela profissional de saúde para a associação, passam também por elevar o nível académico dos médicos, divulgar as medidas de gestão saudável do peso e promover a prevenção da obesidade. A associação espera igualmente contribuir para que haja serviços médicos de maior qualidade.

Na cerimónia esteve também presente o director dos Serviços de Saúde, Alvis Lo, que reconheceu o impacto da obesidade em Macau, apontado que o fenómeno não é recente, como acontece um pouco por todo o mundo.

Alvis Lo elogiou ainda a fundação da associação, que considerou ser uma necessidade, desejando que este movimento se possa assumir como uma plataforma profissional para promover os estudos em Macau sobre fenómenos como a obesidade, metabolismo, ou outras áreas como a nutrição, farmacologia, e medicina comportamental.

A prevenção e controlo da obesidade fazem parte dos objectivos do Plano de Acção para Macau Saudável do Governo.

17 Mar 2026

Comida pré-preparada (I)

Recentemente, a imprensa informou que um proeminente empresário chinês, depois de ter jantado num restaurante que pertence a uma cadeia da China continental, veio manifestar a sua indignação online, dizendo que a comida que lhe tinha sido servida era “pré-preparada” e que tinha pago por ela um preço exorbitante. A cadeia de restauração respondeu de imediato, afirmando que os pratos que lhe tinham sido servidos não eram “comida pré-preparada, mas sim confeccionados com produtos provenientes da “Tecnologia de pré-processamento da cozinha central” da cadeia de restauração.

Este incidente desencadeou discussões acesas online em torno da utilização de comida pré-preparada nos restaurantes e do direito do consumidor a ser informado—questões merecedoras da atenção do público.

A 18 de Março de 2024, a China continental emitiu um “Aviso sobre o reforço da supervisão da segurança alimentar dos alimentos pré-preparados e a promoção do desenvolvimento da elevada qualidade da indústria.” O Aviso define comida pré-preparada desta forma:

“Comida pré-preparada, também conhecida como pratos pré-embalados, refere-se a refeições feitas a partir de um ou mais produtos agrícolas comestíveis e seus derivados, com ou sem temperos ou outros ingredientes auxiliares, sem conservantes, através de pré-processamento industrial (como misturar, marinar, fritar, assar, cozer, cozinhar a vapor, etc.), com ou sem pacotes de temperos, satisfazendo as condições de armazenamento, transporte e venda indicadas no rótulo do produto, pratos esses que devem ser consumido depois de aquecidos. Não inclui alimentos básicos, como arroz congelado, macarrão, alimentos de conveniência, refeições embaladas, tigelas de arroz, pães cozidos no vapor, pastelaria, roujiamo (hamburger chinês), pão, hamburgers, sandes, pizza, etc.”

Por outras palavras comida pré-preparada é aquela que é cozinhada previamente, armazenada e depois levada para o restaurante onde será aquecida e servida aos clientes.

Um ponto a salientar é que os alimentos pré-preparados geralmente têm um prazo de validade mais longo, que pode ir de vários dias a alguns meses, ao passo que os alimentos semi-preparados têm um prazo de validade muito mais curto, normalmente de apenas um a dois dias, e necessitam de refrigeração.

Depois de ler a descrição dos alimentos pré-preparados no “Aviso”, levanta-se uma questão: Os alimentos preparados na cozinha central da cadeia de restauração e que depois são transportados para as outras filiais podem serem considerados comida pré-preparada? O “Aviso sobre o reforço da supervisão da segurança alimentar das refeições pré-preparadas e a promoção do desenvolvimento de elevada qualidade da indústria” estipula claramente que as cozinhas centrais devem cumprir os requisitos e normas legais e regulamentares de segurança alimentar na indústria da restauração; por conseguinte, não são alimentos pré-preparados.

A China continental solicitou anteriormente pareceres sobre “Normas Nacionais de Segurança Alimentar de Alimentos Pré-Preparados,” e acredita-se que novas regulamentações serão emitidas em breve. Nessa altura, surgirão mais normas relativas a esta matéria.

A explicação que demos do conceito de alimentos pré-preparados resulta de uma interpretação textual, mas podemos, a partir de comida deliciosa, chegar a pensamentos complexos. Pensar nestas questões antes de comer pode ser mentalmente desgastante e diminuir o prazer da refeição. Agora, vamos tentar pensar sobre o que são alimentos pré-preparados para o consumidor comum.

Para a maior parte dos consumidores, qualquer alimento que não seja arranjado e cozinhado no próprio restaurante, e que contenha algum traço de processamento industrial, seja um kit de refeição ou um produto semi-acabado, é considerado comida pré-preparada. Ou seja, “não é cozinhada na hora, portanto, é pré-preparada” este é o entendimento comum sobre comida pré-preparada.

O caro leitor também partilha desta ideia? Concorda com a percepção generalizada? Na próxima semana, continuaremos a debater este tema e explorar como Macau deverá lidar com o assunto.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

18 Nov 2025

Infra-estrutura do Festival de Gastronomia cede e causa danos em nove viaturas

Uma infra-estrutura com o nome do Festival da Gastronomia cedeu ontem, junto à praça do Lago Sai Van, e causou vários danos em motos e carros estacionados no local. O acidente ocorreu na manhã de ontem, e não houve registo de feridos.

De acordo com o canal chinês da Rádio Macau, a infra-estrutura cedeu por volta das 11h da manhã, altura em que o Corpo de Bombeiros (CB) foi chamado ao local do acidente. Apesar de não existir o registo de qualquer ferido, a cedência da infra-estrutura causou danos em motas e num carro que estavam estacionados naquele lugar. A parte dianteira do carro ficou amassada pela estrutura de aço e oito motos foram esmagadas, o que fez com que algumas delas ficassem deformadas, com fragmentos espalhados pelo chão.

A infra-estrutura que cedeu apresentava o nome do Festival da Gastronomia em carateres chineses e tinha uma área de cerca de 30 metros de comprimento por 7 metros de altura.

A existência de “fortes ventos” foi apontada como estando na origem do acidente de ontem pelo Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP).

 

Queixas e lamentos

Ao canal chinês da Rádio Macau, um dos proprietários de uma das motos destruídas lamentou o acidente que definiu como “um desastre indesejado”. O residente com o apelidou Chou relatou ainda que deixou a moto estacionada no local por volta das 10h30. Nessa altura nada fazia antever o desfecho.

No entanto, depois de saber do acidente, o residente afirmou sentir-se “desamparado” e angustiado, porque ainda não tinha conhecimento da dimensão dos danos do seu veículo, uma vez que na altura em que prestou as declarações a mota ainda estava debaixo da infra-estrutura.

Chou apontou também que muitas pessoas utilizam aquela zona para correr e que foi uma sorte ninguém ter sido ferido. Todavia, o residente lamentou que aquela infra-estrutura com o nome do Festival de Gastronomia fosse instalada sem a segurança necessária.

O incidente foi comunicado ao Instituto para os Assuntos Municipais e também à Direcção dos Serviços de Turismo.

O Festival de Gastronomia é organizado pela União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau e vai decorrer entre 14 e 30 de Novembro.

11 Nov 2025

Investigador altamente qualificado entrega comida (I)

Recentemente, a imprensa online divulgou amplamente a história do académico chinês, Ding Yuanzhao (丁遠昭).

Em 2004, Ding Yuanzhao obteve 700 pontos, de um total de 750, no exame de admissão ao ensino superior na China continental e ingressou, na Universidade de Tsinghua para tirar bacharelatos em engenharia química e bio-industrial. Após a formatura, foi admitido na Universidade de Pequim e fez o mestrado em engenharia de recursos energéticos. Mais tarde, obteve o doutoramento em biologia na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura. Em 2018, ingressou na Universidade de Oxford, no Reino Unido, para tirar um mestrado em biodiversidade. Posteriormente, trabalhou como investigador num pós-doutoramento na Universidade Nacional de Singapura.

Em Março de 2024, o contrato como investigador chegou ao fim, não foi renovado, e Ding passou a trabalhar como entregador de comida em Singapura. Trabalha 11 ou 12 horas por dia, e ganha em média por dia 50 a 100 dólares de Singapura (cerca de 40 a 80 dólares americanos), podendo ganhar até 254 dólares de Singapura (cerca de 200 dólares americanos) aos domingos.

Este caso provocou um debate alargado depois de Ding ter filmado e carregado um vídeo na Internet. No vídeo, mostrava os diversos certificados académicos e aconselhava os candidatos ao ingresso nas Universidades da China continental, nos seguintes termos:

“Os resultados dos exames não são tudo. Não fiquem pessimistas se não tiverem boas notas. Os bons resultados não significam que venham a ter o futuro garantido. Os trabalhos não são muito diferentes. Fazer entregas de comida é uma boa escolha para servir a sociedade e para nos sustentarmos, basta trabalhar afincadamente que somos recompensados.”

Num outro vídeo, Ding aconselha os especialistas a prestarem atenção à segurança das pessoas que entregam comida.

O caso de Ding provocou uma discussão acesa na sociedade chinesa. O principal motivo é a disparidade entre o seu nível académico e a sua profissão actual. Esta disparidade chama a atenção para o problema do conflito cultural na sociedade chinesa. Desde os tempos mais remotos, a China sempre esteve focada na educação. As pessoas cultas podem servir como membros do Governo e dar largas a toda a sua ambição. Outro propósito da educação, é cultivar o carácter, por isso existe um ditado que diz “a formação começa com a aprendizagem e a aprendizagem com a leitura.” (立身以立學為先,立學以讀書為本)

Na Europa, a educação foca-se na transmissão do conhecimento e no incentivo aos alunos para que pensem de forma independente e inovadora. As Universidades são o bastião do conhecimento e valorizam particularmente a investigação científica. A investigação científica conduz à inovação e a inovação beneficia a sociedade. Este é o principal objectivo da educação, o que não tem qualquer relação com as carreiras que muitos estudantes escolhem depois da formatura.

Ding tornou-se um entregador de comida depois de ter obtido um doutoramento. Esta disparidade entre a formação e a profissão actual colide com os princípios da cultura tradicional chinesa e é inevitável que tenha provocado debates acesos. Este caso não representa só uma história, mas também um espelho que reflecte questões como o significado da educação, os valores sociais e as atitudes pessoais.

Em primeiro lugar, tendo passado de investigador universitário a entregador de comida, Ding ter-se-á interrogado sobre a utilidade de ter obtido vários graus académicos? Para quê frequentar a Universidade? Para responder a esta pergunta, não podemos só ter em conta a experiência pessoal, mas sim uma perspectiva social.

O conhecimento é uma propriedade pessoal. Não se mede em termos de dinheiro, mas na evolução que provoca nos seres humanos. Os estudantes recebem educação na Universidade para obterem mais conhecimento, para herdarem uma propriedade “intangível” e enriquecerem os seus espíritos. O conhecimento obtido na Universidade transforma-se em conhecimento profissional, por isso os profissionais, como os médicos, os advogados e os contabilistas, têm de receber formação universitária. Depois de adquirirem conhecimentos profissionais, o caminho certo será abraçarem uma profissão em que dêem bom uso à formação que receberam. Só com pessoas talentosas e especializadas pode existir desenvolvimento social, e só com investigadores talentosos e especializados podem surgir novas invenções, o que é também muito necessário em todas as sociedades. Por conseguinte, os estudantes que receberam formação universitária devem seguir carreiras diferentes daqueles que não a receberam e é impossível que os “trabalhos futuros não sejam assim tão diferentes.”

Ding tem um doutoramento e é uma pessoa com um alto grau de educação. Trabalhar como entregador de comida é obviamente o resultado de um desajuste entre a sua formação e a sua profissão actual; este desajuste resulta no desperdício de pessoas talentosas e a sociedade perde com isso. A dificuldade que Ding teve em encontrar um trabalho compatível com as suas qualificações académicas foi uma questão de falta de oportunidades e fez parte do seu percurso de vida. Quando no futuro encontrar um trabalho digno da sua formação, pode voltar a usar os seus conhecimentos e aprender a torná-los úteis. Portanto, não é correcto confundir o objectivo da educação com as circunstâncias da vida.

Na próxima semana, continuaremos a aprofundar esta história.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

7 Jul 2025

Casa-Museu da Taipa com restaurantes e cultura portuguesa

O Instituto Cultural abriu um concurso público de adjudicação da Casa de Recepções, uma das Casas-Museu da Taipa, para um restaurante que promova a cultura portuguesa e produtos “gourmet macaenses”. O despacho assinado pela presidente do IC materializa uma velha promessa de Alexis Tam

 

 

“Vamos montar um restaurante português, cafés e mais esplanadas naquela zona. Arranjar alguns [artistas] portugueses para tocarem. Vai ser interessante”, afirmou Alexis Tam no dia 9 de Novembro de 2015, citado pelo HM há exactamente sete anos. A intenção do à altura secretário para os Assuntos Sociais e Cultura era dinamizar as Casas-Museu da Taipa.

Sete anos depois, a intenção de Alexis Tam é materializada num despacho assinado pela presidente do Instituto Cultural, Leong Wai Man, que abre o concurso público para a adjudicação da Casa de Recepções, no coração da zona que recebe anualmente o Festival da Lusofonia, em frente ao auditório onde é montado o palco principal do evento.

A intenção do Governo é abrir um “restaurante que promova a cultura portuguesa com características próprias de Macau e que possua elementos do património cultural intangível de Macau, através de fornecimento de alimentos e bebidas gourmet macaenses”.

O IC pretende a abertura de um espaço que se conjugue “com o ambiente envolvente das Casas da Taipa e que seja utilizado também para vendas, exposições, actividades experimentais, workshops.”

 

Plano de pormenor

Em relação aos detalhes do “negócio”, o concurso público estabelece que a adjudicação será feita através de um contrato de arrendamento com a duração de quatro anos, sendo que a renda base ainda não está definida.

Os interessados têm até ao dia 30 de Dezembro para entregar as propostas e pagar uma caução provisória no valor de 20.000 patacas “mediante depósito em numerário ou através de garantia bancária legal a favor do Instituto Cultural”, assim como uma caução definitiva no valor de 40.000 patacas.

Quanto aos critérios de avaliação das propostas, o despacho estipula que a renda vale 40 por cento, o plano de negócio terá um peso de 35 por cento, projecto de planeamento do interior 10 por cento e a experiência do concorrente 15 por cento.

Os requisitos do concurso público estabelecem ainda que os “concorrentes devem estar inscritos na Direcção dos Serviços de Finanças e na Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Móveis da RAEM”. No caso de o concorrente ser um “empresário em nome individual, deve ser residente na RAEM, e no caso de sociedades comerciais, o respectivo capital social deve ser detido numa percentagem superior a 50 por cento por residentes da RAEM”. O IC afasta a admissão de consórcios ao concurso público em questão.

O Governo vai organizar uma visita ao local para potenciais interessados no concurso na próxima terça-feira, dia 15 de Novembro. Para participar, é preciso fazer inscrição no Instituto Cultural até ao final do horário de expediente do dia anterior à visita.

10 Nov 2022

Che Sai Wang preocupado com comissões na distribuição de comida

O deputado defende que o Governo deve seguir o exemplo dos Estados Unidos e limitar as comissões cobradas aos restaurantes pelas aplicações móveis de take away. O pedido faz parte de um documento partilhado ontem pelo escritório de Che Sai Wang, ligado à Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM).

Numa tendência que afirma ser recente, o deputado revela ter recebido “pedidos de ajuda e queixas de operadores da restauração” para fazer frente a comissões que define como assustadoras. “Sob o impacto da pandemia e do encerramento das fronteiras, as receitas diminuíram significativamente, os custos aumentaram, e as comissões das plataformas de take away são verdadeiramente assustadoras”, aponta Che. Estas mudanças, diz o legislador, reduziram “gravemente o espaço de sobrevivência de muitos operadores das pequenas e médias empresas de restauração”.

Che Sai Wang pede assim ao Governo que siga os exemplos de São Francisco e Nova Iorque, onde as comissões cobradas por plataformas como a Uber Eats estão a limitadas a valores de 15 por cento e 5 por cento, respectivamente.

Comissões de 30 por cento

No documento, Che Sai Wang critica também as comissões praticadas em Macau, e fala do monopólio de uma das aplicações, que, no entanto, não identifica. “O monopólio das plataformas de take away de Macau, em que a percentagem das comissões na zona da península de Macau é de 22 por cento, e em que a percentagem das comissões na zona da Taipa é de 30 por cento”, aponta. “Estes elevados montantes das comissões deixam os operadores dos estabelecimentos de restauração numa situação de lucros extremamente reduzidos”, complementa.

Face a esta situação, o deputado questiona se há planos para criar um limite para as comissões cobradas pelas aplicações de distribuição de comida, de forma a também proteger os consumidores da inflação.

Ao mesmo tempo, pede para que sejam criados mecanismos de supervisão para os preços praticados, com a possibilidade de sancionar os envolvidos.

8 Jun 2022

Cinemateca Paixão celebra aniversário ciclo de cinema sobre comida

[dropcap style≠‘circle’]“B[/dropcap]eber-Beber, Comer-Comer!” é um ciclo de filmes totalmente dedicado à gastronomia. O evento, que começa no dia 16, serve de mote à celebração do primeiro aniversário da Cinemateca Paixão. Quem estiver interessado pode adquirir os bilhetes que vão estar disponíveis para venda já a partir de amanhã.

De acordo com um comunicado, o ciclo “Beber-Beber, Comer-Comer” é composto por seis filmes “dedicados à gastronomia”, estando também prevista a realização de seis “workshops de sabores”. O objectivo é “expandir a inspiração [dos espectadores] do sabor do cinema para o sabor do mundo lá fora”.

O programa contém três documentários e três longas-metragens, tais como “Kampai! Pelo Amor do Sakê”, que revela “o declínio e o renascimento da indústria japonesa do sakê”. Um outro documentário que poderá ser visionado na Cinemateca Paixão chama-se “Cidade do Ouro”, que conta a história do crítico Jonathan Gold, vencedor de um prémio Pulitzer.

O terceiro documentário inserido neste ciclo de cinema intitula-se “Formigas num Camarão”, a obra mostra os bastidores “do processo de mudança do melhor restaurante nórdico do mundo, o NOMA, para Tóquio”. No capítulo das longas-metragens, destaque para “Tampopo”, “uma obra prima japonesa clássica” que foi considerada o primeiro “Ramen Western”. Outro dos filmes a ter em atenção é “A Marmita”, uma obra premiada “que inverte a percepção geral do cinema indiano” e ainda “Tostas”, uma adaptação de um filme televisivo baseado na autobiografia do premiado escritor culinário inglês, Nigel Slater.

Para acompanhar o cinema estão também programados seis “workshops de sabores”, pensados “para levar o público para fora do cinema, numa exploração de diversos restaurantes únicos da cidade”.

“O crítico gastronómico local, OB, levar-nos-á a um restaurante nepalês, onde provaremos os exóticos momos. Chakra Space, um fantástico café vegan, que enfatiza uma cozinha minimalista, preparará um menu especial para nós.”

Outros estabelecimentos participam também neste evento, como é o caso da Old House Bakery, que “criará toda a espécie de pastelaria para um delicado chá da tarde”. Já o restaurante de ramen Furu Furu e o restaurante indiano Taste of Índia prometem servir “pratos únicos”.

No dia da abertura do ciclo de cinema que celebra o primeiro aniversário da Cinemateca Paixão, haverá uma festa, onde Eric Leong, “amante e perito de sakê” irá “partilhar o seu profundo conhecimento e paixão por aquela bebida”.

A Cinemateca Paixão, no seu primeiro ano de existência, “tem oferecido uma selecção única de cinema não comercial ao público de Macau”, assim como uma “séries de palestras, festivais de cinema e workshops”. “Temo-nos empenhado em promover continuamente o cinema, os documentários e os filmes de animação locais”, referiu a organização da Cinemateca Paixão.

2 Mar 2018

Segurança alimentar preocupa presidente da ANP

Zhang Dejiang, apresentou um relatório de inspecção à aplicação da nova Lei de Segurança Alimentar e os resultados não foram brilhantes. Muitos produtores “carecem de sentido de responsabilidade e alguns deles só procuram o lucro”, disse. De locais de processamento imundos, a adulteração de alimentos, ou fertilizantes químicos mal aplicados, os inspectores descobriram de tudo um pouco

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] mais alto legislador da China disse na quinta-feira que a segurança alimentar na China continua “severa” e pediu para melhorar a supervisão e os padrões de segurança.
Foram descobertos locais de processamento de alimentos imundos, fraudes e adulteração na produção de alimentos, além de irregularidades no transporte, indicou o presidente do Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular (ANP), Zhang Dejiang, ao apresentar um relatório aos legisladores sobre a inspecção da implementação da Lei de Segurança Alimentar.
O país tem mais de 11,85 milhões de empresas de alimentos licenciadas, disse Zhang.
O relatório foi elaborado após o Comité Permanente da ANP terminar a inspecção nacional sobre o cumprimento da lei em Abril e Maio.

Falta de escrúpulos

Liderados por Zhang e quatro vice-presidentes do Comité Permanente da ANP, cinco grupos de inspecção foram a 10 regiões provinciais, incluindo Tianjin, Mongólia Interior, Hubei, Guangxi e Chongqing. Os grupos visitaram centros de criação, mercados de produtos agrícolas, produtores de alimentos, negócios de catering e outras unidades.
Os inspectores descobriram que alguns produtores de alimentos carecem de um firme sentido de responsabilidade e que alguns deles só procuram obter lucros.
Além disso, descobriu-se ainda que na fase de plantação, os pesticidas e os fertilizantes químicos não são utilizados de maneira apropriada, explicou Zhang.
Embora tenham sido criados quase 683 padrões de segurança alimentar e mais de 4.000 limites para os níveis de pesticidas, a supervisão da segurança alimentar é fraca em algumas áreas, afirmou Zhang.
No entanto, a situação geral da segurança alimentar na China melhorou e a qualificação de amostras de alimentos foi de 96,8% em 2015, uma alta de 2,1 pontos percentuais em relação ao nível de 2014.

Milhões em multas

Foi estabelecido um mecanismo de cooperação interdepartamental de segurança alimentar, acrescentou Zhang, que assinalou que as sanções severas contra os infractores tiveram um efeito dissuasivo.
Em 2015, a Administração Geral da Supervisão de Alimentos e Medicamentos supervisionou a investigação de 364 importantes casos de segurança alimentar e as autoridades de administração de alimentos e medicamentos em todos os níveis investigaram mais de 240 mil casos e emitiram multas no valor de 1,165 mil milhões de yuans.
Desde que a revisão da Lei de Segurança Alimentar foi promulgada, a polícia descobriu 15 mil casos criminosos relacionados com os assuntos de segurança alimentar, com mais de 26 mil suspeitos investigados.
Zhang sugeriu o reforço da publicidade da lei da segurança alimentar, o impulso da supervisão ao cultivo e a necessidade de um sistema de padrões consistente com as condições internacionais e chinesas.
O presidente do Comité Permanente da ANP também sugeriu melhorar as agências de provas de alimentos.
A sessão semanal do Comité Permanente da ANP terminou no sábado mas antes, na quinta-feira, Zhang Dejiang presidiu ainda a uma reunião de líderes do Comité Permanente do organismo onde foram apresentados relatórios sobre diversos temas, nomeadamente propostas de revisão às leis relacionadas com protecção de animais selvagens, poupança de energia e a própria qualificação de alguns dos membros da ANP.

4 Jul 2016