Segurança Nacional | Comissão com poderes em educação, cultura e economia

O Governo justificou o alargamento das áreas de competência da Comissão de Defesa da Segurança do Estado com o facto de a segurança nacional já não se limitar às áreas tradicionais

A Comissão de Defesa da Segurança do Estado (CDSE) de Macau vai passar a avaliar riscos para a segurança nacional da China nas áreas da educação, cultura e economia, disse ontem Leong Sun Iok. A composição da CDSE será alargada, sublinhou o deputado, o presidente da comissão da Assembleia Legislativa que está a analisar a proposta de lei sobre o regime daquele órgão, aprovado na generalidade por unanimidade em 10 de Fevereiro.

Entre os membros da CDSE passarão a constar o presidente do Instituto Cultural (IC), o director dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude e o director da Inspecção e Coordenação de Jogos.

Representantes do Governo justificaram o alargamento, dizendo que “a segurança do Estado vai deixar de se limitar às áreas tradicionais, como a militar, e passar a cobrir as áreas educativa, cultural e económica”, disse Leong.

Após uma reunião da comissão parlamentar, o deputado acrescentou que a CDSE irá também encarregar-se da “promoção da monitorização, alerta, avaliação e resposta a riscos para a segurança nacional”.

Questionado pela Lusa sobre se a CDSE irá avaliar riscos para a segurança nacional em espectáculos culturais, currículos educativos ou negócios entre empresas privadas, Leong não respondeu directamente. O deputado preferiu sublinhar que “a segurança nacional é muito abrangente” e que o alargamento irá permitir à CDSE cobrir “serviços que também são muito importantes”.

Leong revelou que alguns deputados questionaram o Governo sobre possíveis mudanças devido à fusão prevista entre o IC e o Instituto do Desporto e sobre a não inclusão do director dos Serviços de Saúde na CDSE.

O presidente da comissão permanente recordou que Macau esteve praticamente três anos sob rigorosas restrições no quadro da política ‘zero covid’, incluindo a proibição de entrada a estrangeiros sem estatuto de residente. “Se [uma pandemia] voltar a acontecer no futuro, como vai ser tratada?”, perguntou Leong.

O deputado disse que o Governo respondeu, sublinhando que a proposta de lei prevê a possibilidade de “convidar outros serviços e personalidades para participar nas reuniões, sem direito de voto”.

Educação patriótica

O programa do Executivo de Macau para 2026, apresentado em Novembro, prevê a criação, até ao final do ano, de um Grupo de Trabalho para a Coordenação da Educação Patriótica dos Jovens.

As Linhas de Acção Governativa incluem ainda, no âmbito do chamado “plano geral para a edução sobre a segurança nacional”, a revisão dos livros e outros materiais didácticos dos ensinos básico e secundário, até ao terceiro trimestre de 2027.

Em 2022, o então secretário para a Segurança de Macau, Wong Sio Chak, disse que a educação sobre a segurança do Estado iria ser alargada a alunos não chineses.

Os censos de 2021 indicam mais de 2.200 pessoas nascidas em Portugal a viver em Macau. A última estimativa dada à Lusa pelo Consulado-geral de Portugal apontava para cerca de 155 mil portadores de passaporte português entre os residentes de Macau e Hong Kong.

Crime | Estudo revela percepção de aumento, mesmo com tendência de quebra

Apesar de os dados oficiais revelarem menos crimes na RAEM, esta realidade não se reflecte na percepção da sociedade. Um estudo revela que em Macau apenas 13 por cento dos inquiridos tinham conhecimento da descida da criminalidade e que mais de 35 por cento acreditavam que o crime teria aumentado

O estudo “Examining fear of crime among Macao residents: Vulnerability, victimisation and situational factors”, publicado na revista International Review of Victimology, revela que no território a população não teme o crime, embora as percepções face à criminalidade nem sempre estejam de acordo com os dados oficiais.

O trabalho, da autoria de Yixuan Wang, Donna Soi Wan Leong e Lichao Lu, da Universidade de Macau (UM) e Jianhong Liu, da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST), revela que houve, entre 2021 e 2022, um “declínio de 13,9 por cento na criminalidade”, segundo dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Segurança em 2023.

Porém, “os dados da pesquisa deste estudo revelam uma discrepância significativa na percepção: apenas 12,83 por cento dos inquiridos relataram ter conhecimento do declínio, enquanto 35,72 por cento acreditavam que a criminalidade tinha aumentado”, pode ler-se.

Além disso, “a grande maioria dos inquiridos não demonstrou medo emocional” perante a criminalidade, já que “78,87 por cento referiu zero locais inseguros e apenas 2,77 por cento identificaram duas ou mais” zonas inseguras em Macau.

Enquanto isso, “apenas 9,69 por cento dos inquiridos referiram sentir risco de vitimização, indicando que a grande maioria não se sentia em risco”.

O estudo mostra também que “a proporção dos residentes que relataram respostas comportamentais defensivas foi a mais baixa de entre as dimensões do medo, com apenas 2,89 por cento dos inquiridos a indicar que adoptaram comportamentos defensivos nos 12 meses anteriores”.

Os autores descrevem como Macau constitui um exemplo paradigmático para analisar o medo social perante o crime e as percepções perante dados oficiais, já que é uma região administrativa especial que “funciona sob o quadro de governação ‘um país, dois sistemas’, caracterizado por uma estrutura sociopolítica e jurídica distinta, a par de uma população multicultural”.

Além disso, é referido que Macau tem uma economia “que depende exclusivamente do jogo e do turismo, o que impulsiona uma rápida circulação financeira e mobilidade populacional em grande escala”, tratando-se de um “pequeno território urbano com uma densidade populacional excepcionalmente elevada”.

Desta forma, as características particulares do território “levantam questões sobre a aplicabilidade dos modelos existentes de medo do crime, uma vez que as percepções dos residentes sobre o crime e a desordem podem ser moldadas por ambientes urbanos densos e fluxos populacionais rápidos”.

Uma questão de idade

O estudo foi feito tendo por base o Inquérito à Vitimização de Macau de 2022, com gestão da Sociedade de Criminologia de Macau, um projecto financiado pela Fundação Macau. A população-alvo do inquérito foram residentes com mais de 18 anos, sendo que, para este estudo, foram feitas entrevistas complementares por telefone a 1.102 pessoas, tendo resultado numa amostra final de 795 pessoas.

Lê-se ainda neste estudo que “os resultados revelam consistências e desvios em relação a pesquisas anteriores”, pois “ao contrário do que foi estabelecido, a idade e o género não influenciam significativamente o medo do crime”.

Para os autores, o “resultado inesperado” pode explicar-se com “factores institucionais e específicos de Macau”, já que o “Governo de Macau tem dado grande ênfase ao investimento no bem-estar social, o que pode funcionar como um amortecedor do medo para grupos potencialmente vulneráveis”.

É destacada a medida de apoios financeiros à reparação de edifícios, como o Regime de Apoio à Manutenção de Edifícios e o Regime de Subsídio para Manutenção das Partes Comuns, o que “reduz ainda mais a necessidade de os residentes implementarem estratégias defensivas adicionais ao nível doméstico”.

O estudo destaca a “extensa infra-estrutura de bem-estar em Macau”, como os “cuidados de saúde universais, pensões de velhice e regimes de protecção social, que podem mitigar a vulnerabilidade percepcionada entre os idosos”.

Leis que ajudam

No tocante à violência de género, descreve-se como a Lei de Violência Doméstica e os “sistemas reforçados de apoio às vítimas podem contribuir para um sentimento de segurança associado ao género”. Em 2022, ocorreram 22 casos de violação e oito de coacção sexual, segundo dados do Instituto de Acção Social (IAS) citados no estudo.

Os autores destacam também que o Índice de Desigualdade de Género de Macau foi de 0,06 em 2021, “substancialmente inferior” ao da China continental (0,192), Japão (0,083) e à média global (0,457). Tal indica “um ambiente relativamente equitativo em termos de género”, segundo menções feitas pelo IAS em 2021 e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em 2022.

Os académicos descrevem como “estes factores, em conjunto, podem atenuar a relevância da vulnerabilidade física na formação do medo do crime, explicando a ausência de efeitos significativos da idade e do género”.

O estudo destaca que o facto de se revelarem “níveis consistentemente baixos de medo” perante a criminalidade podem ser “parcialmente atribuídos ao investimento substancial do Governo de Macau na segurança pública e à elevada densidade de recursos policiais”.

Verifica-se, assim, que “o forte policiamento e investimento em segurança pública em Macau”, mesmo com a taxa de criminalidade baixa, resulta “na prevalência igualmente limitada de vitimização na amostra”.

Além disso, “os níveis relativamente baixos de medo reportados pelos residentes de Macau podem ser explicados tanto por mecanismos culturais substantivos como por factores metodológicos. Ao nível substantivo, orientações culturais colectivistas e relacionais podem exercer um efeito genuinamente amortecedor”, já que, nas sociedades chinesas “os indivíduos estão inseridos em densas redes familiares, de parentesco e comunitárias”, o que pode facilitar “o acesso ao apoio social e mitigar respostas de stress e medo”, lê-se no estudo.

Sinais para o Executivo

Os académicos defendem que estes resultados ” apresentam várias implicações para a governação social em Macau”, dada a existência de um “paradoxo entre as percepções subjectivas dos residentes sobre o crime e o declínio reflectido nas estatísticas oficiais”.

Tudo isto “sublinha a importância de reforçar a transparência na divulgação de informação e na aplicação da lei”, devendo ser feita a “disseminação de informação relacionada com o crime através de múltiplos canais e a melhoria da visibilidade dos esforços de prevenção”, o que pode “contribuir para reduzir o medo e reforçar a confiança pública”.

As acções do Governo na área da segurança parecem surtir alguns resultados, descreve-se no estudo, o que é “particularmente relevante no contexto do rápido envelhecimento populacional”. “Além da manutenção destes investimentos, o reforço do controlo social informal pode igualmente contribuir para aumentar a eficácia colectiva das comunidades.

Iniciativas como a expansão de programas de voluntariado e o apoio a associações de bairro (por exemplo, Federação das Associações dos Moradores de Macau; Associação de Voluntários Juvenis de Macau) podem fornecer recursos sociais adicionais para mitigar riscos associados à vulnerabilidade física”, é defendido.

Macau confirma que correio para Portugal voltou ao normal

Os Correios de Macau confirmaram ontem que os serviços de cartas e encomendas da região chinesa com destino a Portugal foram retomados após as tempestades que afectaram o território português.

Num comunicado, a Direção dos Serviços de Correios e Telecomunicações disse que “o serviço de entrega de objectos postais, anteriormente afectado por condições meteorológicas adversas no país, já retomou a normalidade”, de acordo com indicação dos CTT – Correios de Portugal.

O comunicado dos Correios de Macau surge horas depois do Hongkong Post, o departamento que assegura o serviço postal na vizinha região chinesa Hong Kong, ter dito que a entrega de correio a Portugal já estava a decorrer sem constrangimentos.

Os censos de 2021 indicam mais de 2.200 pessoas nascidas em Portugal a viver em Macau. A última estimativa dada à Lusa pelo Consulado-geral de Portugal apontava para cerca de 155 mil portadores de passaporte português entre os residentes de Macau e Hong Kong.

Em 02 de Fevereiro, os serviços de correio de Macau e Hong Kong tinham alertado que as cartas e encomendas com destino a Portugal poderiam sofrer atrasos devido à destruição causada pela depressão Kristin. Dezoito pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afectadas. A situação de calamidade que abrangia os 68 concelhos mais afectados terminou a 15 de Fevereiro.

Ásia | Tailândia acusa Camboja de violar cessar-fogo na fronteira

O exército da Tailândia denunciou ontem uma troca de tiros com as forças cambojanas ao longo da fronteira e acusou o país vizinho de violar as tréguas de Dezembro, alegação que o Camboja negou categoricamente.

Segundo um comunicado militar tailandês, as forças cambojanas dispararam ontem uma granada de 40 milímetros contra uma patrulha na província fronteiriça de Sisaket, o que desencadeou uma resposta da Tailândia.

Não foram registados feridos entre as tropas de Banguecoque, segundo o comunicado citado pela agência de notícias France-Presse (AFP).

“As forças tailandesas responderam disparando um [lança-granadas] M79 na direcção de onde provieram os disparos, de acordo com as regras de conduta militar, a título de aviso e em legítima defesa”, acrescentou o exército.

O porta-voz militar tailandês, Winthai Suvaree, declarou no comunicado que “as acções do Camboja violaram o acordo de cessar-fogo” de 27 de Dezembro de 2025, que pôs fim a três semanas de confrontos mortais na fronteira.

“Estas alegações são totalmente falsas, inventadas e distorcem grosseiramente os factos com a intenção deliberada de enganar a opinião pública e provocar tensões ao longo da fronteira entre o Camboja e a Tailândia”, reagiu o ministro da Informação cambojano.

Neth Pheaktra reiterou à AFP o “compromisso inabalável” de Phnom Penh com a trégua de Dezembro e com um acordo de cessar-fogo anterior, de curta duração, assinado em Outubro na presença do Presidente norte-americano, Donald Trump.

Segundo o comunicado tailandês, o incidente pode ter resultado de uma “rotação de tropas cambojanas”, em que o novo pessoal, não familiarizado com os regulamentos, terá cometido “falhas operacionais”. Os dois reinos do Sudeste Asiático disputam há muito o traçado da fronteira de 800 quilómetros, definida durante o período colonial francês.

Ano Novo Lunar | Macau recebeu quase 1,6 milhões de visitantes

A região de Macau recebeu quase 1,6 milhões de visitantes durante os nove dias de feriados do Ano Novo Lunar na China continental, a maior migração anual do mundo, foi ontem anunciado. A Polícia de Segurança Pública (PSP) de Macau disse que as fronteiras do território registaram a passagem de mais de 1,55 milhões de visitantes entre 15 e 23 de Fevereiro, uma média de 172.737 visitantes por dia.

De acordo com dados oficiais divulgados ontem pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST), a média diária representa um aumento de 5,5 por cento em comparação com o Ano Novo Lunar de 2025. A DST tinha previsto uma média diária de entre 158 mil e 175 mil visitantes e um total de visitantes de 1,4 milhões durante este período.

O terceiro dia do Ano Novo Lunar, 19 de Fevereiro, fixou um novo máximo histórico, com quase 228 mil turistas a chegarem ao território chinês.

Perto de seis milhões de pessoas atravessaram os postos de controlo fronteiriços de Macau durante os nove dias, uma média de 663.032 travessias diárias, ainda assim abaixo da previsão de 670 mil feita pela PSP na semana passada.

De acordo com a última estimativa feita pelo Governo local, a população total residente na Região Administrativa Especial de Macau era de 686.600 pessoas.

Bater recordes

A 08 de Fevereiro, Macau registou um novo máximo histórico de entradas e saídas nas fronteiras da cidade, quando faltavam dez dias para o Ano Novo Lunar, com cerca de 867 mil passagens.

De acordo com os dados da PSP, a maior fronteira do território, nas Portas do Cerco, registou a passagem de quase 463 mil pessoas, o valor diário mais elevado dos últimos cinco anos, desde o início da pandemia de covid-19.

As autoridades da China prevêem que centenas de milhões de pessoas viajem durante a maior migração anual em todo o mundo para celebrar o Ano Lunar do Cavalo de Fogo. A época destas deslocações, o chamado ‘chunyun’, um período de 40 dias antes e depois do início do Ano Novo Lunar, começou em 02 de Fevereiro.

Em 29 de janeiro, Li Chunlin, vice-diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China, o principal organismo de planeamento económico do país, anunciou que as estimativas para este ano prevêem que os chineses façam até 9,5 mil milhões de viagens durante o ‘chunyun’.

Caso esta previsão esteja correcta, constituirá um novo recorde histórico, ultrapassando o máximo registado em 2024: 9,02 mil milhões de viagens.

De acordo com as estimativas oficiais, as viagens de comboio podem atingir 540 milhões, enquanto as viagens aéreas deverão rondar 95 milhões, ambos potenciais máximos históricos para este período.

O ‘chunyun’ é frequentemente usado como indicador da actividade económica do país, num contexto em que a China procura impulsionar o consumo e os serviços como motores da procura interna, que ainda não recuperou totalmente desde a pandemia.

O olhar erótico dos Jogos Olímpicos

Se dependesse apenas das medalhas, os Jogos Olímpicos seriam um espectáculo de atenção mediática média. Mas basta abrir as redes sociais durante os Jogos Olímpicos de inverno em Milão para perceber que há outras narrativas de interesse. Há uma curiosidade clara sobre quem são estes atletas, os seus dramas, os seus limites, e as suas aventuras sexuais. Estas narrativas revelam algo: não é que os atletas estejam mais sexualmente activos, mas sim que o olhar público é intensamente erotizado.

Comecemos pelo “penisgate”, que correu as agências noticiosas por todo o mundo. Um jornal alemão alegou que atletas de salto de ski poderiam estar a injectar ácido hialurónico no pénis para favorecer uma aerodinâmica vencedora. De repente, estamos todos a olhar para os pénis dos atletas, notando a sua forma e volume. Discutem-se na imprensa sobre os possíveis riscos, que ainda assim poderiam garantir um salto vencedor: garantem-nos os especialistas em aerodinâmica. Mas ninguém sabe da veracidade de tal ideia. Muito se falou sobre os pénis, muito se conjecturou, e a agência antidopagem prometeu investigar. Talvez não seja uma erotização declarada, mas os pénis dos atletas tornaram-se no epicentro da conversa.

Também poderemos falar do mito erótico persistente, este bem mais antigo: o da Aldeia Olímpica como epicentro de actividade sexual desenfreada. Sempre que surgem notícias sobre o rápido esgotamento de preservativos, como já aconteceu em Milão, em três dias, o imaginário reacende-se. A narrativa é simples: jovens reunidos num espaço fechado e por isso estão entregues a uma espécie de festival permanente de desejo.

Colocando os pés numa realidade menos fantasiosa, por mais que queiramos acreditar que os atletas olímpicos estão cheios de tesão a consumir preservativos como se o amanhã não existisse, não podemos perder de perspectiva uma realidade bem menos glamorosa. Em períodos competitivos intensos, é mais provável que os atletas experienciem níveis elevados de stress fisiológico e psicológico. Cortisol alto, rotinas rígidas, privação de sono, foco na performance. Faria mais sentido que para muitas pessoas, o contexto dos jogos olímpicos pudesse diminuir — e não aumentar — a responsividade sexual. O corpo em modo de sobrevivência competitiva nem sempre está em modo de disponibilidade erótica.

Isto não quer dizer que não haja encontros ou intimidade na Aldeia Olímpica. Até mesmo depois de uma grande vitória, em modo de celebração afectiva. A activação fisiológica é tão alta que facilmente poderá ser reinterpretada como excitação emocional ou sexual. São carreiras inteiras condensadas em minutos de prova, emoções amplificadas e proximidade física. Mas a persistência quase folclórica da ideia de uma “orgia olímpica” diz talvez mais sobre a fantasia do público do que sobre o quotidiano dos atletas. Ninguém sabe, ao certo, se os preservativos estão a ser usados – só se andarem a remexer no lixo, e sobre isso não me pronuncio. Ninguém me garante que os preservativos estão simplesmente a ser acumulados para tempos futuros de mais sexo.

Na verdade, o que estas histórias erótico-sexuais parecem revelar é uma tensão. Por um lado, o desporto de alta competição é apresentado como o domínio do controlo e da disciplina. Por outro, o público insiste em reinscrever esses mesmos corpos numa narrativa de excesso ou descontrolo. A verdade é que eles estão imersos num ambiente de intensidade emocional rara.

A linha entre euforia competitiva, alívio pós-prova e abertura ao contacto interpessoal pode, por momentos, tornar-se mais porosa. Mas é importante reconhecer que a cultura digital contemporânea amplifica estes episódios. Uma história repetida mil vezes contribui para solidificar a percepção pública de que a sexualidade é um elemento central da experiência olímpica. Não há nada de errado se assim for — mas tudo indica que trabalhamos mais com projecções do que com realidades situadas. Porque precisamos tanto que o espectáculo olímpico seja também um espectáculo potencialmente erótico?

Claro que o corpo atlético, e o seu lugar simbólico no discurso contemporâneo, tem certamente a sua influência. Num mundo cada vez mais sedentário, mediado por ecrãs e marcado por ansiedade corporal, o atleta olímpico representa uma forma quase mítica de presença. Força, disciplina, juventude e vitalidade.

No fim de contas, episódios como o “penisgate” ou o eterno alarme dos preservativos dizem menos sobre uma suposta libertinagem olímpica e mais sobre o nosso próprio olhar colectivo. Talvez os Jogos nunca tenham sido apenas sobre quem corre mais depressa ou salta mais alto. Talvez tenham sido sempre, também, sobre a forma como olhamos para corpos que parecem ir mais longe do que julgávamos possível — e sobre tudo aquilo que, nesse olhar, escolhemos imaginar.

Coreia do Sul | Ex-presidente recorre da condenação a prisão perpétua

O ex-presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol, condenado na semana passada à prisão perpétua por ter imposto a lei marcial no final de 2024, recorreu ontem da sentença, informou a agência de notícias sul-coreana Yonhap.

“Pretendemos revelar os erros nos factos e a incompreensão dos princípios legais na decisão do primeiro julgamento”, afirmaram os advogados do ex-presidente preso.

Yoon foi condenado em primeira instância à prisão perpétua pelo Tribunal Distrital Central de Seul, que na quinta-feira passada considerou que os seus actos constituíram insurreição ao mobilizar tropas no Parlamento nacional e mergulhar o país na sua pior crise em décadas.

O recurso do ex-presidente surge depois de a equipa especial do Ministério Público que conduziu o caso ter anunciado que também iria recorrer da sentença, uma vez que tinha pedido a pena de morte, para a qual existe uma moratória no país.

Yoon, que já se encontrava na prisão enquanto aguardava a decisão, declarou a lei marcial na noite de 03 de Dezembro de 2024, um decreto que foi bloqueado pelo Parlamento algumas horas depois. O ex-presidente foi destituído em Abril do ano passado pelo Tribunal Constitucional, por considerar que não havia indícios de uma situação de emergência que justificasse o decreto.

Japão pede tratamento justo face à nova tarifa global de 15% dos EUA

O Japão pediu aos Estados Unidos que garantam que o impacto da nova tarifa global de 15 por cento, que deverá entrar agora em vigor, não seja superior ao do acordo comercial bilateral assinado em 2025.

O ministro da Economia, Comércio e Indústria do Japão, Ryosei Akazawa, insistiu, numa conversa telefónica com o secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, que “o tratamento dado ao Japão seja garantido como não menos favorável” do que o previamente acordado, informou o ministério, em comunicado.

O porta-voz do Governo japonês, Minoru Kihara, declarou em conferência de imprensa que o arquipélago vai estudar “de forma minuciosa” a decisão do Supremo Tribunal dos EUA, que na sexta-feira travou a anterior política comercial da Casa Branca.

Kihara acrescentou que o Japão está a seguir “de perto e com interesse” as ramificações da nova tarifa global sobre o acordo comercial bilateral assinado em Julho. O acordo prevê compromissos de investimento japoneses avaliados em 550 mil milhões de dólares e a redução de 25 por cento para 15 por cento das tarifas sobre produtos japoneses, incluindo automóveis.

Os primeiros projectos anunciados na semana passada, avaliados em 36 mil milhões de dólares, incluem a maior infraestrutura de gás natural no estado de Ohio, no oeste dos EUA, uma instalação de exportação de petróleo bruto e uma unidade de diamantes sintéticos.

Donald anuncia

No sábado, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que a nova tarifa alfandegária global iria aumentar de 10 por cento para 15 por cento, “com efeito imediato”.

Esta taxa vai somar-se às “tarifas aduaneiras normais já em vigor”, afirmou o Presidente republicano, acrescentando que “todos os acordos” continuam válidos e que Washington apenas vai “proceder de forma diferente”.

O anúncio aconteceu um dia depois de Trump ter anunciado uma tarifa global de 10 por cento sobre todos os países, por um período de 150 dias.

Horas antes, o Supremo Tribunal dos EUA determinou, por seis votos contra três, que o Governo norte-americano excedeu os poderes invocados para impor as chamadas “tarifas recíprocas” aos parceiros comerciais de Washington.

Diplomacia | Pequim quer Ucrânia fora do foco antes de visita de Merz

A visita do chanceler alemão à China deverá servir para aproximar as segunda e terceira maiores economias mundiais através da assinatura de vários acordos comerciais. Pequim reitera a sua posição “objectiva e imparcial” sobre o conflito na Ucrânia

A crise na Ucrânia “não é nem deve tornar-se uma questão entre China e Europa”, afirmou ontem a diplomacia chinesa, na véspera de o chanceler alemão, Friedrich Merz, iniciar a sua primeira visita oficial ao país asiático.

A porta-voz do ministério Mao Ning declarou em conferência de imprensa que Pequim mantém uma “posição objectiva e imparcial” sobre o conflito e apoia uma solução política através de esforços diplomáticos, mas “não é parte na questão da Ucrânia”.

Mao respondia a uma pergunta sobre a possibilidade de Merz abordar com as autoridades chinesas, durante a visita, a guerra na Ucrânia e o papel de Pequim no conflito, afirmando que os líderes “trocarão opiniões sobre assuntos de interesse comum”.

Segundo a porta-voz, a visita de Merz permitirá reforçar a “cooperação e o benefício mútuo” entre os dois países. Mao assinalou que se trata da primeira deslocação do líder alemão desde que assumiu funções e assegurou que Pequim está disposta a aproveitar a ocasião para “melhorar o entendimento e a confiança mútua”.

Durante a visita, que decorrerá entre amanhã e quinta-feira, o governante alemão reunir-se-á com o Presidente chinês, Xi Jinping, e manterá conversações oficiais com o primeiro-ministro, Li Qiang, para abordar o estado das relações bilaterais e temas de interesse comum.

Grandes expectativas

Mao salientou que, enquanto segunda e terceira maiores economias mundiais, o desenvolvimento estável das relações bilaterais “corresponde aos interesses de ambas as partes e às expectativas da comunidade internacional”.

De acordo com o Governo alemão, Merz abordará em Pequim questões económicas, comerciais e de segurança, sendo acompanhado por uma delegação empresarial. Em 2025, a China foi o principal parceiro comercial da Alemanha, com um volume de trocas de 251,8 mil milhões de euros, segundo dados oficiais alemães.

A visita de Merz junta-se à série de deslocações de líderes ocidentais à China nos últimos meses, incluindo os presidentes ou primeiros-ministros de Espanha, França, Canadá, Irlanda, Reino Unido e Portugal.

Mais de mil assinaturas contra a expulsão de aluno que pediu inquérito a incêndio em Hong Kong

Mais de mil pessoas já assinaram uma petição a pedir a uma universidade de Hong Kong a reintegração do estudante que foi expulso após pedir uma investigação independente a um incêndio que causou 168 mortos. Docentes, alunos e antigos alunos da Universidade Chinesa de Hong Kong (CUHK, na sigla em inglês) já tinham assinado a petição online até domingo à noite, avançaram os promotores da iniciativa.

De acordo com um comunicado enviado à imprensa e citado pelo portal de notícias Hong Kong Free Press (HKFP), a petição foi lançada na sexta-feira por “um grupo de estudantes, docentes e alumni” da universidade.

Em 12 de Fevereiro, Miles Kwan Ching-fung, que lançou uma petição a pedir uma investigação independente ao incêndio que causou em Novembro 168 mortos num complexo habitacional em Hong Kong, anunciou que tinha sido expulso da CUHK. A petição lançada na sexta-feira critica a decisão de um comité disciplinar da CUHK de expulsar Miles Kwan, de 24 anos, como uma “injustiça processual”.

Em 14 de Fevereiro, o jovem disse ao HKFP que foi convocado para uma reunião do comité disciplinar, em 07 de Janeiro, devido a “múltiplos actos de má conduta”, mas que o comité nunca relevou quais os alegados actos. A petição alega que o comité “parece ter privado (…) Kwan do seu direito fundamental, constitucionalmente garantido, a um julgamento justo”.

Os promotores da iniciativa recordaram que as regras internas da CUHK prevêm que “os casos sob investigação policial/processos judiciais (…) devem ser tratados após o conhecimento do resultado da investigação/sentença judicial”.

Tragédia em Tai Po

Em 26 de Novembro, 168 pessoas morreram no complexo de habitação social Wang Fuk Court, no pior incêndio a atingir Hong Kong em quase oito décadas.

Três dias depois, a polícia de Hong Kong deteve Kwan por suspeita de sedição – um crime que pode acarretar a pena de prisão perpétua – depois de o jovem ter lançado uma petição, que chegou a reunir mais de mil assinaturas.

O estudante sublinhou que a CUHK admitiu “falta de informação” sobre a detenção e justificou a expulsão com a “atitude indelicada e desrespeitosa para com o comité” e uma alegada violação das regras de confidencialidade.

“Quando o comité considerou as provas insuficientes”, isso “deveria ter levado à suspensão do processo”, refere a petição lançada na sexta-feira. As duas novas acusações foram “impostas sem notificação prévia” a Miles Kwan e apenas “após a conclusão da audiência”, lamenta o documento.

Além disso, o estudante foi acusado de ter uma “atitude indelicada e desrespeitosa” apenas por questionar “a base jurídica do processo disciplinar”, acrescenta a petição.

Dias depois do incêndio, o líder do governo de Hong Kong, John Lee Ka-chiu, criou uma comissão de inquérito independente, presidida por um magistrado, para esclarecer as causas do fogo e da sua rápida propagação.

Harbin | Tigres siberianos em dieta após excessos de Ano Novo

Cerca de duzentos tigres siberianos de uma reserva no norte da China estão a cumprir um “jejum intermitente” para contrariar os efeitos do excesso de alimentação durante o Ano Novo Lunar, quando recebem grandes quantidades de comida dos turistas.

A direcção do Parque do Tigre Siberiano de Harbin, na província de Heilongjiang, anunciou em comunicado que o programa de dieta estará em vigor até 31 de Março, com o objectivo de melhorar a saúde e o bem-estar dos felinos, que terão recebido uma média recorde de 10.000 visitantes diários durante as férias recém-terminadas, segundo a imprensa local.

O parque permite aos visitantes comprar no local tiras de carne crua ou mesmo aves vivas para alimentar os tigres através de aberturas nas janelas dos autocarros que percorrem as instalações, uma das atrações mais populares do espaço.

Durante o período de dieta, será proibida, de forma rotativa, a alimentação dos animais num dos onze espaços ao ar livre onde vivem, no recinto com uma área total de 800 mil metros quadrados.

Para além da vertente turística e pedagógica, as instalações de Harbin desenvolvem também programas de investigação, conservação e reprodução, no âmbito dos esforços da China para preservar o tigre siberiano, espécie ameaçada de extinção.

Estima-se que existam apenas cerca de 500 exemplares deste felino em estado selvagem em todo o mundo, dos quais cerca de 70 na China, segundo dados do World Wildlife Fund (WWF).

Taiwan | Japão planeia deslocar mísseis terra-ar para perto da ilha

O Japão anunciou ontem planos para deslocar mísseis terra-ar para uma ilha japonesa perto de Taiwan até 2031, ao mesmo tempo que as autoridades japonesas aumentam os alertas sobre as ambições militares da China na região.

“O nosso plano é deslocar “mísseis terra-ar de médio alcance” durante o ano fiscal de 2030″ — ou seja, durante o período de 12 meses que termina em Março de 2031 — para a ilha de Yonaguni, a cerca de 110 quilómetros a leste de Taiwan, anunciou o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, durante uma conferência de imprensa regular.

A ilha de Yonaguni, isolada e localizada a aproximadamente 2.000 quilómetros de Tóquio, já alberga uma base das Forças de Autodefesa do Japão.

Este anúncio surge quando a China tem tomado uma série de medidas económicas, políticas e simbólicas contra o Japão desde Novembro, em retaliação a comentários feitos pela primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi. A líder do Japão sugeriu que uma intervenção militar do seu país seria possível no caso de um ataque chinês a Taiwan.

Desde então, a China tem desencorajado os seus cidadãos a viajar para o Japão. Ontem, anunciou que iria sancionar 40 empresas e organizações japonesas acusadas de participar na nova militarização do Japão, nomeadamente proibindo 20 destas de adquirir bens e tecnologias com potencial tanto civil como militar a empresas sediadas na China.

Confúcio, Matteo Ricci e a questão dos Ritos

O jesuíta Matteo Ricci (1552-1610) numa primeira abordagem interpretou como supersticiosos os ritos chineses, mas para os compreender melhor estudou a doutrina de Confúcio, na qual se baseava a sociedade chinesa e o seu sistema político com os princípios de Ordem, Paz e Harmonia.

O nome de Confúcio foi dado por Ricci a Kong Fu Zi (孔夫子, 551-479 a.n.E.), mestre Kong (Kongzi), que nascera no Período Primavera-Outono (770-476 a.n.E.), havia dois mil anos. Viveu durante a Dinastia Zhou do Leste, quando centenas de pequenos reinos até então federados começaram a ser conquistados e grande instabilidade surgia pelas contínuas guerras entre os reinos cada vez maiores e mais fortes. Sem governantes capacitados para esse novo espaço de gestão estratégica, apareceram muitos ilustrados mestres, entre eles Kongzi, que ofereciam os seus conhecimentos, colocando-os ao serviço do rei para a governação.

Kongzi reorganizou os conhecimentos antigos e sendo um grande educador transmitiu-os aos discípulos. Incutiu o respeito pelos Antepassados, como modo de vida propunha o aperfeiçoar da ética pela rectidão, benevolência e virtudes. Como filosofia, o caminho da sabedoria prática pela harmonia na vida social, na educação e na política, atribuindo grande importância à Paz, Harmonia e Ordem como princípio do bem governar e organizar o Estado. Após a sua morte em 479 a.n.E., os ensinamentos, apesar de no tempo terem passado à margem, tiveram seguidores confucionistas, administradores exímios e poderosos. Em 213 a.n.E. boa parte dos escritos foram destruídos pelo fogo, mas reproduzidos de memória perpetuaram-se na sociedade chinesa a partir da dinastia Han (206 a.n.E-220).

Kongzi advogava o conceito de Harmonia: um Universo ordenado, em que o ser humano deve procurar manter as relações harmoniosas com a Natureza, consigo mesmo e com o próximo. Regulou as relações humanas, para as quais encontrou cinco fundamentais: soberano e súbditos, pais e filhos, marido e mulher, irmão mais velho e os mais novos e entre amigos. “Observados os deveres entre uns e outros há harmonia; de contrário, reina a desarmonia. A relação mais importante é a do pai e filho e a virtude central que a governa é a piedade filial (孝, xiao). Sobre esta virtude e as que a acompanham – obediência, respeito e serviço – construiu-se a estrutura da sociedade chinesa.” Entre aspas está o que creio ser do Padre Benjamim Videira Pires, mas poderá ter outro autor e por esta falta me penitencio e agradeço a quem corrija e nos desfaça tal dúvida. O artigo a partir daqui está estruturado sobre esse texto, de onde provêm as citações, pois creio merecer o assunto importância suficiente para ser publicado.

O kow-tow nos ritos

“A piedade filial não deve cessar com a morte dos pais; o filho deve continuar a servi-los como se vivessem, e este dever estende-se a todos os antepassados da família. Confúcio ao estender a piedade filial aos mortos fomentou essa virtude em vida”, levando as acções a serem realizadas como mostra de respeito aos antepassados e desejo de alcançar as suas perfeições com a ajuda do exemplo, imitando-os; – a melhor maneira de honrar a família.

Em memória dos Antepassados realizavam-se rituais nas casas onde se encontravam as tabuletas em madeira inscritas com os nomes dos defuntos antepassados masculinos, pai, avô e bisavô, pois chegando a trisavô passava a tabuleta a ter direito a constar no Templo de Família, até entrar ao fim de algumas gerações no dos Ancestrais. Às tabuletas dirigiam-se expressões de reverência e respeito, num ambiente com flores, velas, incenso, pois a intenção é “arranjar um certo lugar ou termo para onde possam elevar as suas mentes; e para o qual, como para uma pintura, possam dirigir as costumadas honras, como se eles estivessem presentes.” Nesta cerimónia fazia-se “o kau-táu (bater cabeça), em que uma pessoa se ajoelha e inclina profundamente até tocar com a testa no solo. É o costume chinês do respeito: nove prostrações ao trono nas recepções imperiais; prostrações nos tribunais perante os magistrados e dos filhos perante os pais e sogros. Assim, nada há de religioso nas prostrações nos funerais diante do caixão e não se podia afirmar que se tratava de adoração dos mortos.”

Tudo isto levou Ricci a modificar a primitiva opinião: “o que ao europeu parecia superstição e adoração, para o chinês era apenas uma expressão simbólica da piedade filial. O facto de usarem as mesmas cerimónias para os vivos levava a crer que não se tratava de actos religiosos quando aplicados aos mortos. Tal era o caso da queima do incenso (…). As pessoas educadas costumavam receber os hóspedes com incenso, que era parte do cerimonial da etiqueta, que dava graça e harmonia às relações sociais, sendo um sinal de respeito. Não havia, pois, razão para lhe dar um significado religioso quando era usado nos funerais, perante as tabuletas ou nas salas de Confúcio.”

Após longas discussões com os amigos chineses, Ricci concluiu nada haver de idólatra nos ritos ancestrais nem talvez de supersticioso e “submeteu estas opiniões a Valignano, que as discutiu com os seus consultores. A conclusão foi ser permitido participar nos ritos solenes em honra dos antepassados da família com a condição de não se queimar o papel-dinheiro, mas não era permitido tomar parte nas cerimónias solenes em honra de Confúcio com o sacrifício duma vítima, porque, segundo dizia Furtado, “cheiram fortemente a superstição>” (Cit. por Dunne, Generation of Giants).” Em dias prescritos pelo ritual, com aparência de sacrifícios religiosos, oferecia-se aos antepassados um animal (imolado no local), vinho, seda…, seguindo um banquete familiar. Segundo os jesuítas, “Devia-se repudiar a ideia de os espíritos tomarem alimento da comida oferecida; e de não se fazer orações ou pedidos aos mortos”.

Outras cerimónias os jesuítas permitiam e até observavam. “Por ocasião da morte de alguém, os amigos, que vinham dar os pêsames, envergavam, como luto, uma veste de seda branca; ao entrar no quarto, faziam quatro vezes o kau-t’au diante do defunto; os filhos do defunto repetiam então o mesmo gesto; o visitante, aproximando-se mais do caixão, voltava a fazer a mesma cerimónia.

Os ritos em honra de Confúcio eram apenas praticados pelos letrados e não diferiam no essencial das cerimónias ancestrais,” sendo após a “passagem nos exames feitas prostrações perante a tabuleta de Confúcio numa sala dedicada ao mesmo. Iguais ritos, prostrações e queima de incenso eram observados pelos oficiais e letrados nos dias da lua nova e lua cheia.”

O confucionismo baseia-se nos ensinamentos de Kong Fuzi, reformador que a partir dos ritos dos Zhou reorganizou a ordem da sociedade e estruturou na China o pensamento humano pelos conceitos de virtude, justiça, tolerância e generosidade. Para a sabedoria prática, a importância da Astronomia e na preparação do Calendário, pois qualquer incorrecção perturba o balanço entre o Céu e a Terra. 完

Hong Kong | Festival de Artes arranca esta semana com muitas estrelas

O maestro John Eliot Gardiner, Yuen Siu-fai, veterano de ópera cantonense, e a coreógrafa Anne Teresa de Keermaesker, são alguns dos nomes bem conhecidos do panorama das artes que marcam presença na edição deste ano do Festival de Artes de Hong Kong, que começa oficialmente esta sexta-feira. Até Março, podem ser vistos mais de 170 apresentações integradas em 45 programas artísticos, onde não falta o Coro da Gulbenkian, de Portugal

Começa esta sexta-feira a 54.ª edição do Festival de Artes de Hong Kong, um dos maiores eventos anuais da região vizinha. E como já é habitual, é de esperar uma diversidade de programas artísticos, que vão desde a música à performance teatral, com nomes bem conhecidos como o maestro Sir John Eliot Gardiner, tido como uma “lenda da música”; o “veterano da ópera cantonense” Yuen Siu-fai; a “coreógrafa consagrada” Anne Teresa De Keersmaeker, o tenor Benjamin Bernheim, a grande estrela de ballet Roberto Bolle e ainda o dramaturgo Meng Jinghui.

Estes nomes servem de grande aperitivo para um cartaz que traz mais de 1.100 artistas internacionais, 170 apresentações ligadas a mais de 45 programas, e ainda “300 eventos PLUS, actividades educativas e de extensão comunitária”, revela um comunicado oficial do evento.

O espectáculo de abertura do festival é protagonizado pelo Ballet Nacional de Espanha, acontecendo esta sexta-feira. “La Bella Otero” é descrita como uma “produção de grande escala que conta a história da sedutora artista espanhola do século XIX, Carolina Otero, outrora uma das mulheres mais famosas do mundo”.

Neste espectáculo, dirigido por Rubén Olmo, foi reimaginada “a vida extraordinária de Otero através da coreografia, estabelecendo paralelos intrigantes com ‘Carmen’, de Bizet”, apresentando-se também “uma variedade de danças espanholas”.

Destaque ainda para o “Teatro-Dança” de nome “Dream in The Peony Pavillion”, marcado para 27 de Março, uma “produção de dança chinesa deslumbrante e emocionalmente comovente”, e que tem direcção e coreografia assinadas por Li Xing, “um dos mais procurados directores da nova geração” na China. “Dream in The Peony Pavillion” traz uma nova interpretação da peça da dinastia Ming, de Tang Xianzu, com uma roupagem contemporânea. Aqui “homenageia-se a clássica história de amor chinesa num estilo etéreo e surreal”.

A 54ª edição do festival traz ainda ópera, nomeadamente “Eugene Onegin”, romance em verso de Alexandre Pushkin, publicado em 1831, e que foi adaptado para uma versão musical por Tchaikovsky.

O que se poderá ver em Hong Kong é uma “obra-prima clássica da ópera romântica russa, raramente encenada no território, com um notável elenco de solistas, orquestra e coro de uma das mais prestigiadas instituições culturais da República Checa e um pilar da vida operática da Europa Central”.

Esta é “a história de um amor não correspondido, de uma amizade destruída e do arrependimento assombroso”, que ganha nova vida com a encenação do Teatro Nacional de Brno.

Gulbenkian marca presença

A programação musical está em destaque “com actuações únicas que abrangem a música clássica, jazz e músicas do mundo”, com foco em “dois recitais de tirar o fôlego, com dois recentes vencedores do Concurso Internacional de Piano Van Cliburn”.

O maestro Sir John Eliot Gardiner vai dirigir, com o recém-criado “Constellation Choir & Orchestra”, com obras-primas de Mozart e Bach. Haverá ainda um concerto cinematográfico de Cameron Carpenter, juntamente com o clássico do cinema mudo chinês “Sports Queen”, enquanto Roberto Fonseca traz “La Gran Diversión”, em celebração “da era dourada do jazz cubano”.

De Portugal, chega o Coro da Fundação Calouste Gulbenkian, “com obras contemporâneas e repertório de Bach e Brahms”. Lo Kingman, presidente do festival, declarou, citado pela mesma nota, que organizar um evento desta dimensão exige apoios públicos e também grandes receitas de bilheteira.

“Organizar um festival internacional de artes desta dimensão exige uma enorme quantidade de recursos, especialmente num contexto de custos em rápida e constante ascensão. Este ano, o Festival precisa gerar um total de, pelo menos, 159 milhões de dólares de Hong Kong, dos quais cerca de 24 por cento terão de provir da bilheteira.” O responsável lembrou o subsídio de 18,34 milhões de dólares de Hong Kong concedido pelo Governo, o que representa 12 por cento da receita anual do evento.

Da programação deste festival destaca-se ainda a iniciativa “KAGAMI”, da série Jockey Club InnoArts, e que recorda o falecido pianista e compositor Ryuichi Sakamoto. Juntamente com Tin Drum, o que o público poderá ver e ouvir é uma expansão “das fronteiras criativas através da magia da realidade mista”, tudo isso num recital de piano fora do comum.

Na parte da conexão do festival aos bairros comunitários, destaca-se o programa “PLUS”, com visitas culturais guiadas, uma delas à comunidade piscatória de Hong Kong e ao bairro de Sheung Wan, “proporcionando um vislumbre da Hong Kong literária e retro da década de 1960”.

Fundado em 1973, o Festival é um dos principais eventos artísticos da região e um importante festival internacional. Este ano apresenta-se ainda o festival No Limits Hong Kong, que, com o apoio do The Hong Kong Jockey Club Charities Trust, promove a inclusão no mundo das artes para pessoas portadoras de algum tipo de deficiência.

Economia | Wong Un Fai fala em “janela de oportunidade” para Macau

Wong Un Fai, vice-secretário-geral da associação para o Desenvolvimento de Macau, defendeu, num artigo de opinião publicado no jornal Ou Mun, que a economia do território tem actualmente “uma janela de oportunidade” tendo em conta que Macau está a atravessar um período de transformação das suas indústrias, sendo que o caminho é para que haja um desenvolvimento mais saudável e diversificado.

O responsável recordou que o Produto Interno Bruto (PIB) de Macau recuperou cerca de 90 por cento face aos números pré-pandemia, sendo que o turismo continua a representar uma importante fatia do PIB. Wong Un Fai não esqueceu que o mercado imobiliário revelou, em Janeiro, transacções mais activas, com mais de 800 casos de pedido de isenção de selo. Tal representa um nível mais elevado face ao nível médio mensal dos pedidos do ano passado.

No artigo de opinião é referido, porém, que esta recuperação económica não é sentida em todos os sectores, tendo em conta que os benefícios para o turismo continuam a verificar-se em alguns locais e os bairros comunitários continuam a ter falta de visitantes. Quanto ao consumo, está dependente dos festivais que se realizam, lembrou.

Wong Un Fai disse ainda que os anos de pandemia mostraram como a economia de Macau pode ficar vulnerável se depender de um único sector, pelo que agora, em plena recuperação económica, há espaço para avançar com reforma e planeamento.

Em relação ao Governo, o dirigente associativo diz que é necessário um maior esclarecimento público das políticas e que haja uma perspectiva mais alargada, pois o mercado não gosta de incerteza. Por isso, na sua visão, o Executivo tem de continuar a dar sinais em prol da estabilidade das previsões económicas e da construção de um “ciclo virtuoso” de investimento e inovação.

Wong Un Fai concluiu que a economia de Macau já saiu do ponto mais baixo, mas falta ainda terminar a sua mudança estrutural.

Jogo | JP Morgan reduz previsões das receitas

Após ter estado em Macau a observar as mesas de jogo durante o Ano Novo Lunar, os analistas do banco de investimento reduziram a estimativa de crescimento das receitas do jogo para um máximo de 2 por cento

Após o período do Ano Novo Lunar, o banco de investimento JP Morgan Securities (Asia Pacific) reduziu as previsões de crescimento do mercado do jogo em Fevereiro. Segundo o relatório mais recente, citado pelo portal GGRAsia, os analistas apontam que no melhor cenário as receitas deverão crescer cerca de 2 por cento, sendo mais provável que se mantenham estáveis.

“Com base nas nossas análises, as receitas brutas do jogo nos primeiros 22 dias de Fevereiro atingiram 14,3 mil milhões de patacas, ou 650 milhões de patacas por dia”, pode ler-se no relatório assinado pelos analistas DS Kim, Selina Li e Lindsey Qian. “A média diária de receitas – abrangendo tanto os períodos mais calmos como os de pico das férias do Ano Novo Lunar – ficou em 785 milhões de patacas por dia, aquém da nossa previsão de 850 milhões de patacas”, foi acrescentado.

Anteriormente, a JP Morgan Securities (Asia Pacific) previa que as receitas apresentassem um crescimento de 2 a 5 por cento em Fevereiro, face ao ano passado.

Os meses de Janeiro e de Fevereiro costumam coincidir com uma época alta do jogo, devido aos turistas do Interior que visitam Macau durante as celebrações do Ano Novo Lunar e nos feriados associados. Este ano o Ano Novo Chinês celebrou-se a 17 de Fevereiro, mas no ano passado coincidiu com 29 de Janeiro.

Começo lento

Durante os primeiros dias do ano novo lunar, os números estiveram longe de entusiasmar os analistas: “as férias começaram a um ritmo lento, e a média de receitas dos primeiros quatro a cinco dias não foram além dos 450 milhões de patacas por dia”, foi indicado. Este ritmo foi apresentado como uma diminuição das receitas superior a 10 por cento, em comparação com o período do Ano Novo Lunar de 2025.

Todavia, nos dias seguintes, o ritmo das receitas acelerou de forma significativa com as receitas diárias a ultrapassarem o montante de 1,2 mil milhões de patacas, o que representou um crescimento de 10 a 15 por cento face ao período homólogo.

Com os feriados a chegarem ao fim, os analistas DS Kim, Selina Li e Lindsey Qian acreditam que até ao final do mês os gastos dos jogadores ainda podem disparar, o que pode gerar um crescimento das receitas de 2 por cento. “Os próximos dias são importantes – esta fase de ‘procura residual’ pós-feriados costuma ver os jogadores dos segmentos mais elevados a acelerarem os gastos. Teremos uma visão completa dos resultados das receitas do jogo do mês inteiro no fim-de-semana”, foi apontado.

Apesar das estimativas menos optimistas, os analistas destacam o momento positivo do mercado e que o somatório dos dois primeiros meses do ano vai gerar um crescimento anual das receitas de 12 a 13 por cento.

Concertos | Polícia nega estar a recusar vistos a artistas japoneses

O Corpo de Polícia de Segurança Pública afirma não ter recebido qualquer pedido de visto para artistas japoneses, pelo que nega ter recusado qualquer autorização de trabalho

O Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) negou estar a recusar vistos a artistas japoneses, afirmando que “não recebeu qualquer pedido” oficial, após o cancelamento de um festival de música na região. Em 28 de Janeiro, a emissora sul-coreana MBC, que estava a organizar o ‘Show! Music Core in Macau’, um festival de música da Coreia do Sul, que incluía bandas que integram artistas japoneses, cancelou o evento.

O festival estava marcado para 7 e 8 de Fevereiro, no Local de Espectáculos ao Ar Livre, na zona do Cotai, criado pelo Governo.

A MBC não deu qualquer explicação para a decisão, dizendo apenas que foi tomada “após uma análise completa das circunstâncias locais e das condições logísticas gerais”.

Ainda antes do anúncio oficial por parte da MBC, a imprensa da Coreia do Sul já tinha avançado com o possível cancelamento devido à alegada dificuldade dos artistas japoneses em obter vistos para actuar em Macau.

Em resposta às questões colocadas pela Lusa, a polícia esclareceu que o processo dos artistas japoneses nunca chegou à sua alçada.

“Este serviço não recebeu qualquer pedido ou consulta por parte da entidade competente”, a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), na resposta emitida pelo CPSP à Lusa.

Nos termos da lei, explicam as autoridades, as entidades patronais que pretendam contratar trabalhadores sem estatuto de residente para funções em Macau, incluindo pessoal para espectáculos, “devem apresentar, em primeiro lugar”, um pedido de autorização de trabalho à DSAL.

“Caso o pedido seja autorizado, a entidade patronal deve posteriormente solicitar ao Corpo de Polícia de Segurança Pública a emissão de título de residência para o trabalhador não residente, conferindo-lhe o estatuto de trabalhador não residente. O não residente só pode iniciar o exercício de funções em Macau após a emissão desse título de residência”, acrescenta.

Calados e a ignorar

A Lusa pediu, em 26 de Janeiro, esclarecimentos junto da DSAL e Instituto Cultural (IC) de Macau para os Assuntos Laborais, mas até agora, não obteve qualquer resposta. Em 7 e 8 de Fevereiro, o grupo masculino sul-coreano Riize actuou na cidade sem um dos seus membros, o cantor japonês Shotaro, devido a “circunstâncias imprevisíveis”, disse a organização dos dois concertos, a empresa IME Macau.

Em 12 de Dezembro, a presidente do IC negou qualquer interferência no cancelamento de concertos com artistas japoneses marcados para a região e garantiu que se trata apenas de decisões comerciais dos organizadores. “É normal ter ajustamentos sobre concertos ou diferentes eventos. Situações de cancelamento por força maior, é algo corrente”, disse Leong Wai Man, numa conferência de imprensa.

Questionada pela Lusa sobre se havia indicações do Governo para a não realização de eventos culturais com artistas do Japão, Leong Wai Man garantiu que “esta é uma questão do sector comercial, é uma decisão do organizador”.

Em Dezembro, tinham sido cancelados espectáculos com artistas japoneses em pelo menos três diferentes hotéis-casinos de Macau.

Em Novembro, a primeira-ministra do Japão falou no parlamento nipónico sobre uma eventual intervenção militar japonesa num conflito entre a China continental e Taiwan. Sanae Takaichi afirmou que, se uma situação de emergência em Taiwan implicasse “o envio de navios de guerra e o recurso à força, isso poderia constituir uma ameaça à sobrevivência do Japão”.

Dias depois, Pequim desaconselhou deslocações ao Japão, exemplo seguido mais tarde pelas regiões semiautónomas de Macau e Hong Kong.

Nick Lei quer reforçar mecanismos de combate ao trabalho ilegal

Nick Lei, deputado à Assembleia Legislativa (AL), considera que é necessário reforçar, em Macau, o combate ao trabalho ilegal. Nesse sentido, enviou ao Governo uma interpelação escrita pedindo que o Governo reveja a lei, no sentido de preencher as lacunas existentes no combate ao emprego ilegal, a fim de aumentar as penalizações e elevar os custos de manter trabalhadores ilegais.

A ideia surgiu ao deputado depois do caso de uma equipa de fotógrafos que vieram a Macau fotografar um casamento realizado junto a uma estrada em Ka-Hó, Coloane. Segundo referiu o deputado, não só o responsável da equipa era suspeito pelo trabalho ilegal, como o motorista e outro trabalhador não residente, que participou no evento, eram suspeitos de trabalhar mediante outra categoria profissional sem aquela para a qual tinham obtido autorização.

Nick Lei destaca que este caso chamou a atenção da sociedade quanto à importância do combate ao trabalho ilegal.

Neste sentido, o legislador entende que, nos últimos anos, o fenómeno do trabalho ilegal tem vindo a tornar-se mais oculto, envolvendo novas indústrias. O deputado destaca que, em publicações de redes sociais do Interior da China, há empresas e profissionais que divulgam negócios ou serviços como a remodelação de casas, serviços de fotografia, maquilhagem, guia turístico e catering.

“O Governo disse que ia supervisionar as informações divulgadas em redes sociais, promovendo uma coordenação entre departamentos para reforçar essas inspecções, mas os efeitos não são muito claros. Será que o Executivo pode comunicar com os diferentes sectores, através de plataformas da comunicação social, a fim de criar um mecanismo imediato de denúncias, a fim de aumentar a sua eficácia?”, questionou.

Dados desactualizados

Nick Lei argumentou que o regulamento sobre a proibição do trabalho ilegal está em vigor há 21 anos, e os montantes das penalizações estão desactualizados para a sociedade moderna actual, face ao número de infracções que continua a aumentar.

Quanto aos dados de trabalho ilegal, Nick Lei espera que o Governo possa apresentar estatísticas mais detalhadas, ao invés de apenas divulgar o número de inspecções realizadas e as pessoas interceptadas. “Será que o Governo pode apresentar detalhes sobre o conteúdo destes dados, divulgando, por exemplo, qual o tipo de infracção realizada, a categoria profissional e a residência original, para que os sectores sociais prestem atenção e seja possível procurar resoluções?”, questionou.

AL | Deputado nomeado diz não representar cidadãos de Macau

Numa sessão em que respondeu a perguntas dos internautas na rede social threads, Wong Ka Lon defendeu as exclusões dos candidatos à Assembleia Legislativa, prometeu apoio total ao Governo e admitiu que a questão da saúde mental da população exige atenção

O deputado Wong Ka Lon respondeu a algumas perguntas na rede social threads e afirmou que não representa os residentes de Macau. A resposta foi escrita, depois de ter sido confrontado com o facto de ser um deputado nomeado pelo Chefe do Executivo.

Wong foi questionado por um internauta sobre a forma como tinha sido escolhido para ser deputado e se ele achava que isso lhe dava “o direito de representar os residentes de Macau”. Na resposta, o legislador recusou estar no hemiciclo para representar os residentes: “Eu não estou a representar a população de Macau, só espero conseguir ajudar a reflectir as sugestões construtivas, obrigado”, respondeu ao internauta.

Sobre as funções de deputados, Wong afirmou igualmente que vai cumprir as indicações do Governo Central para a Assembleia Legislativa, que passam por apoiar o Governo local, ao mesmo tempo que se faz a supervisão.

Sobre a constituição do hemiciclo, Wong Ka Lon defendeu a exclusão dos candidatos das eleições à Assembleia Legislativa, por entender que “a segurança nacional não deve ser desafiada” e considerou que os actos eleitorais em Macau são “abertos, justos e democráticos”.

Wong Ka Lon também não fugiu ao assunto sobre uma eventual utilização de bots pelo Governo nas caixas de comentários das redes sociais, ao considerar que “as críticas constantes ao Governo são cansativas”.

Críticas ao silêncio

Após mostrar-se aberto a responder às perguntas dos internautas, Wong Ka Lon esteve activo na rede social até ás O5:00 da madrugada.

Entre os assuntos abordados, Wong referiu a questão da saúde mental dos jovens e das tentativas de suicídio. O aumento do número de casos de suicídio e tentativas depois da pandemia da covid-19 levaram as autoridades a apagarem os dados das estatísticas oficiais, quebrando uma tradição de anos. No entanto, o deputado afirmou que o tema tem sido abordado na Assembleia Legislativa e que a situação não é exclusiva de Macau.

Apesar disso, Wong Ka Lon não se livrou de críticas, por ter ignorado algumas questões relacionadas com o casamento por pessoas do mesmo sexo, a má utilização do português em Macau, os erros nos sinais e placas com indicações, a responsabilização dos governantes ou o facto dos residentes que trabalham em Hong Kong não poderem receber o cheque da comparticipação pecuniária.

Em jeito de balanço sobre as várias perguntas e respostas, o deputado reconheceu que foi a primeira vez que utilizou esta rede social e que a iniciativa atraiu muito mais atenção do que a esperada. Wong Ka Lon afirmou igualmente que adorava falar com a população, que aprendeu muito, e questionou os internautas se consideravam valer a pena repetir a sessão de perguntas e respostas ou se a iniciativa seria uma perda de tempo, como lhe disseram alguns amigos.

Protecção civil | Prometidas acções de prevenção e planificação

Decorreu recentemente a primeira reunião do ano do Centro de Operações da Protecção Civil, onde se declarou que o plano principal do Executivo é apostar na prevenção de incidentes públicos e na planificação.

“Os membros da estrutura de protecção civil continuarão a promover planos de contingência específicos para diferentes tipos de incidentes de segurança pública, aumentando a capacidade de interacção entre os serviços”. Além disso, pretende-se “envidar todos os esforços para assegurar o bem-estar da população, a paz e a estabilidade social”, descreve uma nota oficial sobre o encontro.

A presidir à reunião, que contou com a presença dos representantes dos Serviços de Polícia Unitários, dos Serviços de Alfândega e das 29 entidades que compõem a estrutura de protecção civil, esteve o secretário para a Segurança e Comandante de Acção Conjunta, Chan Tsz King.

O responsável destacou “que Macau enfrentou severas condições meteorológicas extremas em 2025, com o número de tempestades tropicais a ser 14, o maior desde que há registos, em 1968”. Foram accionadas quatro operações de resposta por parte dos serviços de protecção civil.

Na reunião, foram ainda discutidos planos para este ano, nomeadamente a preparação do simulacro “Peixe de Cristal 2026”, sem esquecer “a revisão dos planos de contingência específicos e as estratégias de sensibilização comunitária, com vista à implementação eficaz dos trabalhos de protecção civil”.

Construção urbana | Obras ilegais de baixo risco podem ficar sem multa

Os deputados que integram a terceira comissão permanente da Assembleia Legislativa (AL) pediram esta terça-feira mais explicações sobre como vão acontecer, na prática, as alterações ao regime jurídico da construção urbana, diploma que está a ser analisado na especialidade.

Segundo noticiou o jornal Ou Mun, o deputado Leong Sun Iok, que preside à comissão, descreveu que os deputados questionaram o entendimento do Governo sobre obras ilegais de baixo risco e perguntaram que critério que preside à classificação das construções.

A fim de incentivar os residentes a destruírem construções ilegais, a proposta de lei sugere que, para obras ilegais de baixo risco, haja isenção da emissão de licença e de entrega da notificação prévia junto dos serviços públicos. Além disso, a demolição voluntária de obras ilegais e o restauro das estruturas originais podem ficar isentas de multas.

Os deputados da comissão analisaram ainda os procedimentos dos pedidos de licença para obras nos formatos digital e em papel, nomeadamente no que diz respeito a prazos de aprovação e entrega ou direitos dos requerentes.

Reuniões Magnas | CE quer “elites” a liderar áreas profissionais

Sam Hou Fai quer que as elites da APN e CCPPC conduzam pelo exemplo e levem a toda a sociedade, mesmo às entidades privadas, a predominância do Executivo. “Quando se trata de questões de princípio, é preciso serem inequívocos e firmes na sua posição”, destacou

O Chefe do Executivo (CE) quer que os deputados da Assembleia Popular Nacional (APN) de Macau e os membros do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) liderem as suas áreas profissionais e imponham o respeito pela predominância do Executivo. A mensagem foi deixada durante um jantar com os representantes de Macau nos órgãos nacionais, como forma de lançamento da quarta sessão da 14.ª APN, cujo único encontro anual começa a 5 de Março, e da quarta sessão da CCPPC, que tem início a 4 de Março.

No discurso proferido, Sam Hou Fai deixou “três pontos de vista”, em “consonância com o espírito consagrado nas instruções importantes do Presidente Xi Jinping” para serem seguidos pelos vários membros presentes.

O principal foco assentou na manutenção da estabilidade na RAEM, promoção do nacionalismo e a defesa da segurança nacional. Sam indicou que os deputados e membros do conselho consultivo devem “adoptar uma visão abrangente, fomentar o consenso social, promover com empenho o valor essencial do amor pela Pátria e por Macau, defender juntos a segurança nacional e a estabilidade social, e continuar a abrir novos horizontes de desenvolvimento de alta qualidade para a causa um país, dois sistemas”.

Como parte dos esforços de promoção da estabilidade, o Chefe do Executivo quer aqueles que classificou como elites aprofundem “o conteúdo do intercâmbio e interacção com os residentes”, actuem como ponte entre a população e o Governo e “se concentrem nas preocupações da população”.

Predominância executiva

Como segundo aspecto, o líder do Governo quer ver as elites a imporem o espírito da predominância do Executivo em todos os sectores da sociedade, inclusive entre as organizações privadas.

“Os deputados da APN e membros da CCPPC são de prestígio reconhecido, com ampla rede de contactos, pelo que, cada palavra e acção sua tem influência e serve de exemplo. Espero que desempenhem activamente um papel de liderança na sua carreira profissional, defendam com firmeza o arranjo institucional da predominância do Poder Executivo, e, tendo em conta os dois eixos principais, o desenvolvimento da diversificação adequada da economia e a reforma da Administração Pública”, afirmou Sam. “Quando se trata de questões de princípio, é preciso serem inequívocos e firmes na sua posição. No intercâmbio diversificado de ideias, devem manter a direcção correcta, encontrar o maior denominador comum para fomentar uma sinergia poderosa para promover a grandiosa revitalização da nação chinesa e contribuir para a estabilidade e prosperidade duradoura de Macau”, vincou.

Em relação às reuniões, e como último ponto de vista, Sam pediu aos deputados da APN e membros da CCPPC que apresentem “opiniões francas com propostas construtivas, demonstrando plenamente o sentido de missão, a sabedoria e a força de Macau”.

Tarifas | Pequim anuncia que está a “avaliar” decisão do Supremo dos EUA

O ministério chinês do Comércio anunciou ontem que está a “avaliar” o conteúdo e impacto da decisão da Supremo Tribunal dos Estados Unidos sobre as tarifas impostas pela Administração de Donald Trump, reiterando a oposição às medidas “unilaterais”.

Num comunicado, o ministério indicou que “tomou nota” da decisão judicial no litígio sobre as tarifas e que está a realizar uma “avaliação integral” das suas implicações.

A China “opõe-se sistematicamente às medidas tarifárias unilaterais” e reitera que “a guerra comercial não tem vencedores e o proteccionismo não tem saída”, indicou o ministério, depois de o Supremo Tribunal dos Estados Unidos ter decidido que a Administração Trump excedeu os seus poderes ao invocar a Lei dos Poderes Económicos de Emergência Internacional (IEEPA) como base jurídica para impor as taxas tarifárias.

O ministério acrescentou que as chamadas “tarifas recíprocas” e as tarifas relacionadas com o fentanil constituem medidas ‘unilaterais’ que, segundo Pequim, “não só violam as regras económicas e comerciais internacionais”, como também o “direito interno” dos Estados Unidos, e “não atendem aos interesses de nenhuma das partes”.

Pequim insiste ainda que as relações entre as duas potências devem ser geridas com base na cooperação. “Os factos têm demonstrado repetidamente que a China e os Estados Unidos beneficiam quando cooperam e são prejudicados quando se confrontam”, afirmou o ministério, que instou Washington a “cancelar” as tarifas unilaterais impostas aos seus parceiros comerciais.

Pequim afirmou ter observado que os Estados Unidos “se preparam” para recorrer a medidas alternativas, como “investigações comerciais”, com o objetivo de manter a imposição de taxas aos seus parceiros, e advertiu que a China “manterá uma vigilância estreita” e “protegerá firmemente” os seus interesses.

ONU | Direitos humanos sob ataque em grande escala

Os direitos humanos “estão sob ataque em grande escala em todo o mundo”, levado a cabo “por aqueles que detêm o maior poder” e, por vezes, até “com orgulho”, denunciou ontem o secretário-geral das Nações Unidas.

“O Estado de direito está a ser substituído pelo Estado de força. E este ataque não vem das sombras nem é uma surpresa. Está a acontecer à vista de todos e, muitas vezes, liderado por aqueles que detêm o maior poder. Em todo o mundo, os direitos humanos estão a ser deliberada e estrategicamente reprimidos, e, por vezes, com orgulho”, declarou Guterres, intervindo, em Genebra, na sessão de abertura da 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O secretário-geral advertiu que as consequências deste ataque “são devastadoras”, apontando que as pessoas sofram assim “duas vezes: primeiro com a violência, a opressão ou a exclusão, e, depois, novamente com a indiferença do mundo”.

“Vivemos num mundo onde o sofrimento em massa é ignorado, onde os seres humanos são usados como moeda de troca, onde o direito internacional é tratado como um mero inconveniente. Os conflitos multiplicam-se e a impunidade tornou-se contagiosa. Isso não se deve à falta de conhecimento, ferramentas ou instituições. É o resultado de escolhas políticas”, deplorou o antigo primeiro-ministro português.

Segundo António Guterres, “esta crise de respeito pelos direitos humanos não é um caso isolado” e “reflecte e amplia todas as outras fraturas globais”, já que “as necessidades humanitárias estão a explodir, enquanto o financiamento entra em colapso”, “as desigualdades estão a aumentar a uma velocidade impressionante, os países estão a afogar-se em dívidas e desespero, e o caos climático está a acelerar”.

O líder das Nações Unidas sublinhou também que “a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, está a ser cada vez mais utilizada de formas que suprimem direitos, aprofundam a desigualdade e expõem pessoas marginalizadas a novas formas de discriminação, tanto online como offline”.

“Em todas as frentes, aqueles que já são vulneráveis estão a ser empurrados ainda mais para as margens. E os defensores dos direitos humanos estão entre os primeiros a serem silenciados quando tentam alertar-nos”, lamentou, reforçando que, “nesta ofensiva coordenada, os direitos humanos são as primeiras vítimas”.

Retrato deplorável

Expondo um retrato devastador a nível global, o secretário-geral da ONU apontou que é hoje evidente um “aperto cada vez maior do espaço cívico”, com “jornalistas e activistas presos, ONG [Organizações Não-Governamentais] fechadas, direitos das mulheres em retrocesso, direitos das crianças ignorados, pessoas com deficiência excluídas e democracias em erosão”.

“O direito de reunião pacífica é esmagado – e condeno mais uma vez a recente repressão violenta aos protestos no Irão. Os migrantes são perseguidos, detidos e expulsos, com total desrespeito pelos seus direitos humanos e pela sua humanidade. Os refugiados são transformados em bodes expiatórios. As comunidades LGBTIQ+ são difamadas. As minorias e os povos indígenas são alvo de ataques. As comunidades religiosas são atacadas”, prosseguiu.

Aludindo à sua história pessoal, na última vez que discursou como secretário-geral na abertura de uma sessão do Conselho de Direitos Humanos, apontou que “crescer sob a ditadura de Salazar” lhe ensinou que “a negação dos direitos humanos corrói todos os aspectos da sociedade.

“Quando o Conselho de Segurança está paralisado, quando os vetos servem de escudo político, quando as rivalidades geopolíticas prevalecem sobre a protecção dos civis, o resultado é o mesmo: a impunidade espalha-se, o sofrimento multiplica-se e os direitos humanos são pisoteados”, disse. “Precisamos de um Conselho de Segurança que reflicta o mundo de hoje, não o de 1945”, acrescentou.