Futebol: um jogo de origem chinesa

Por Miguel Lenoir

Há cerca de 2500 anos, os chineses criaram um desporto em que uma bola é jogada com os pés e se quer dentro de uma baliza. Chamaram-lhe CUJU.

Cuju (tsu-dju, em português), pontapear uma bola, foi a forma mais antiga de um desporto a que hoje se chama futebol. A sua origem remonta ao final do Período Primavera e Outono (770-481 a.E.C), início dos Reinos Combatentes, quando foram estabelecidas regras e a bola do jogo se tornou algo semelhante às que hoje rolam pelos estádios. Inicialmente, essa bola era recheada com penas ou palha de grãos, sendo mais rija do que as bolas modernas.

O cuju foi mencionado pela primeira vez nos textos históricos Anais dos Reinos Combatentes (Zhan Guo Ce) e Registos da História (Shi Ji), de Sima Qian, nos quais o desporto foi claramente referido como uma forma de treino físico para tropas militares. “Cu” significa literalmente chutar e “ju” significa bola. De acordo com outro texto antigo, Taiping Qing Hua, a bola na dinastia Han passou a ser recheada de penas e envolta em couro. Na dinastia Tang, seria substituída por uma bola cheia de ar com uma camada dupla de pele.

A Origem do Jogo

O estabelecimento do cuju, com regras e objectivos, ocorreu em Linzi, a capital do poderoso reino de Qi, um dos estados dominantes durante esse período, uma cidade extremamente rica e populosa, talvez pela mão de um homem famoso dessa época, Guan Zhong, primeiro-ministro do reino de Qi. Essa prosperidade económica permitia que os seus habitantes, para além das classes militares, tivessem tempo e recursos para se dedicarem a actividades de lazer e entretenimento.

Contudo, acredita-se que a forma mais competitiva do cuju foi desenvolvida como um método de treino militar para os soldados e cavaleiros do exército do reino de Qi. O objectivo era melhorar a condição física, a agilidade e o trabalho de equipa dos guerreiros. Esta prática remonta a cerca de 685 a.E.C., quando o primeiro-ministro Guan Zhong, ao serviço do Duque Huan de Qi, a terá implementado para fortalecer as forças armadas. Portanto, Linzi ofereceu o cenário perfeito: uma cidade rica com uma cultura de lazer florescente e um estado poderoso com necessidade de treinar um exército forte. Esta combinação única fez com que o cuju, que já existia como uns simples pontapés numa bola, evoluísse para um desporto com regras e objectivos claros.

Devido ao seu valor militar, o cuju era muito apreciado na dinastia Han. Além de ser usado como um meio formal de treino físico, os jogos de cuju foram padronizados e regras estabelecidas para ajudar a aumentar a resistência e a disciplina militar.

Um livro de regras e preceitos

Uma discussão aprofundada sobre o jogo cuju foi escrita pela primeira vez por Li You, (李尤), um poeta e funcionário da corte da Dinastia Han Oriental (25-220), que descreve o jogo de cuju com um detalhe notável. Trata-se do “Ju Cheng Ming” (鞠城铭) , que pode ser traduzido como “Inscrição no Muro do Campo de Jogo” ou “Ode ao Campo de Futebol”. No livro, lê-se o seguinte poema:

Esta obra é considerada a primeira descrição detalhada das regras e da filosofia de um jogo desportivo na história mundial. Ali se detalham o local e as regras do jogo — o campo era um rectângulo (fāng qiáng -muro quadrado), cercado por muros, o que lhe valia o nome de Ju Cheng (Cidade do Jogo), construído especialmente para partidas de cuju, com traves em forma de crescente em cada extremidade e com seis jogadores de cada lado. A bola deveria redonda (yuán jū). Havia duas equipas com seis jogadores cada (èr liù xiāng dāng), num total de doze jogadores, que se opunham e procuravam marcar golos. O jogo era dirigido por um árbitro principal e um assistente (zhǎng), que existiam para garantir a equidade (lì píng) e o cumprimento de regras fixas e imutáveis (qí lì yǒu cháng) que todos deveriam seguir.

Mas o aspecto mais notável do texto de Li You é a sua ênfase na moralidade e na justiça, tanto dentro como fora de campo. O autor não fornece apenas detalhes sobre o local e as regras do jogo: Li You menciona especialmente os requisitos morais para o árbitro e os jogadores: “Como árbitro, não deve haver favoritismo ou parcialidade (bù yǐ qīn shū, bù yǒu ā sī)”. Este é um dos primeiros códigos de conduta para árbitros na história do desporto. “Como jogador, é importante jogar de forma justa, sem reclamações ou acusações. Os jogadores devem manter uma atitude correcta e calma, aceitando as decisões sem se queixarem dos erros (duān xīn píng yì, mò yuàn qí fēi).”

Finalmente, Li You vai mais longe e termina com uma poderosa mensagem política e filosófica. Se um simples jogo exige regras justas, árbitros imparciais e jogadores disciplinados, quanto mais a arte de governar um país (kuàng hū zhí jī)? O cuju tornava-se, assim, uma metáfora para a harmonia social e a boa governação, reflectindo a visão confucionista de que a ordem e a rectidão em pequenas coisas são o fundamento para a ordem no mundo.

Enquanto os textos do Zhan Guo Ce e do Shi Ji nos mostram a popularidade do jogo, a inscrição de Li You revela a sua sofisticação e organização durante a dinastia Han, consolidando a importância do cuju na cultura chinesa antiga.

Ainda durante a dinastia Han, a popularidade do cuju espalhou-se do exército para as cortes reais e as classes altas. Diz-se que o imperador Wu gostava muito deste desporto. De acordo com o Livro de Han, o imperador frequentemente organizava lutas de galos e partidas de cuju no palácio imperial, a que assistia com grande prazer.

O cuju melhorou muito durante as dinastias Tang e Song. A bola cheia de ar era muito mais leve e saltitante, o que significava usar um conjunto diferente de técnicas e estratégias nas partidas. Os Tang tornaram o jogo mais divertido e ele espalhou-se para o Japão naquela época.

Os ministros fundadores da dinastia Song eram em grande parte oficiais militares. A sua preferência por desporto como forma de entretenimento ajudou a impulsionar o avanço técnico, o nível de diversão e a popularidade do cuju. O jogo floresceu durante a dinastia Song como resultado do desenvolvimento social e económico da nação, e a sua popularidade estendeu-se a todas as classes da sociedade.

Como marcar golos

Durante a Dinastia Han, o período em que o jogo foi padronizado, marcar um golo era um desafio de pontaria e precisão completamente diferente do futebol moderno. De acordo com as descrições, o campo tinha nas suas extremidades estruturas de golo muito particulares: seis postes em forma de meia-lua, com uma pequena rede era amarrada, a cerca de 10 a 20 metros do chão.

A abertura por onde a bola tinha de passar era surpreendentemente pequena, com apenas 30 a 40 centímetros de largura. O objectivo, portanto, era chutar a bola para que ela passasse por aquela pequena abertura e ficasse presa na rede elevada. Mais do que potência, este tipo de golo exigia uma enorme precisão e técnica apurada. A forma de lua crescente dos postes e a bola redonda eram vistas como uma representação do equilíbrio cósmico entre o yin e o yang.

Com o passar dos séculos, o jogo evoluiu. Na dinastia Tang (618-907), surgiram mudanças significativas: a bola passou a ser oca e cheia de ar, com um invólucro de duas camadas, o que permitia um melhor controlo e mais dinamismo no jogo. As balizas também foram modificadas. Ao lado do modelo com postes em meia-lua, surgiram dois novos tipos: balizas com rede, ou seja, postes com uma rede esticada entre eles, semelhantes às balizas do futebol moderno; ou um único poste colocado ao centro do campo, que parecia ser o alvo a acertar.

Na Dinastia Song marcar golos torna-se opcional. O jogo dividiu-se em duas modalidades principais :

— o Zhuqiu (Jogo Competitivo): Esta era a variante que mais se assemelhava ao futebol de equipas. Realizava-se em ocasiões especiais, como banquetes imperiais, com duas equipas de 12 a 16 jogadores de cada lado. O objectivo principal continuava a ser marcar golos na baliza adversária. Quando um golo era marcado, era celebrado com redobrar de tambores e bandeirinhas.

— o Baida (Jogo de Habilidades): Esta tornou-se a forma dominante de jogar cuju na dinastia Song e representou uma ruptura total com a ideia de golo. Sem Balizas, os golos tornaram-se obsoletos. O campo de jogo era simplesmente delimitado por uma corda. Os jogadores, em número variável (de 2 a 10), revezavam-se para manter a bola no ar, dentro dos limites da corda, usando qualquer parte do corpo excepto as mãos. O vencedor não era quem marcava mais golos, mas sim o jogador com menos faltas ou com a melhor performance técnica. Perdia pontos quem, por exemplo, não passasse a bola com a distância ou precisão suficiente para alcançar outro jogador, chutasse a bola para fora dos limites da corda ou chutasse a bola demasiado baixa. Portanto, numa partida de Baida, a “marcação” não existia no sentido de colocar a bola numa baliza, mas sim na acumulação de pontos positivos através de um controlo de bola hábil e esteticamente agradável. Ganhava quem demonstrasse maior domínio técnico e cometesse menos erros.

A história do cuju mostra-nos como um jogo pode evoluir de uma simples atividade de treino militar para um desporto complexo com regras variadas, onde o acto de “marcar” podia ser um pontapé preciso a uma rede a 10 metros de altura ou uma demonstração de equilíbrio e técnica individual.

Aliás, ao longo dos séculos, foram escritos vários manuais sobre o cuju, alguns dos quais sobreviveram até aos dias de hoje. Estes manuais oferecem uma visão fascinante sobre a vasta gama de pontapés que podiam ser utilizados, bem como sobre os vários movimentos e posturas corporais envolvidos. Havia pelo menos 16 tipos básicos de «pontapé», embora o significado de alguns ainda não tenha sido decifrado:

1 – O lian (com a parte superior do pé)

2 – O xi (com o joelho)

3 – O guai (com o tornozelo)

4 – O da (com a ponta do pé)

5 – O bazi (com o pé aberto)

6 – O banlou

7 – O deng (com o calcanhar)

8 – O chao

9 – O nie/nian (com o peito do pé)

10 – O jian (com o ombro)

11 – O zhuang (com a ponta do sapato)

12 – O xiudai

13 – O zuwo/zugan

14 – O pai (com o peito)

15 – Zati (pontapés mistos)

16 – O kong (bloqueador)

Havia também regras e regulamentos relativos ao movimento do corpo e às posturas permitidas. Por exemplo, um manual de cuju dizia:

“O corpo erecto como um pincel,

como se carregasse uma pedra nas mãos,

o coração livre e à vontade,

os pés numa postura móvel.

O corpo erecto, e não curvado,

as mãos pendentes, e não voando,

os pés baixos, e não altos,

os pontapés lentos, não apressados.”

Os primeiros profissionais

Havia muitos bons jogadores de cuju na dinastia Song e até associações formadas para o desporto, como o famoso Clube Qi Yun, também conhecido como Clube Yuan, o clube de futebol mais antigo da China e o primeiro do mundo. Esses clubes tinham como objectivo promover o cuju, oferecendo aulas de treino de habilidades e organizando competições para equipas masculinas e femininas. As partidas eram tão espectaculares e calorosamente recebidas quanto as que assistimos hoje. Os seus membros eram como os jogadores de hoje, também podiam ser transferidos para outro clube, mas não era fácil, pois tinham de preencher formulários com os seus dados básicos, tais como nome, local de origem, nome do seu professor e carreira anterior.

E tinham de passar em exames de aptidão. Por exemplo, era-lhes pedido que chutassem a bola para cima pelo menos 100 vezes com cada pé sem que ela caísse no chão. A obra “Os Esplendores da Capital Oriental” (Dongjing Meng Hua Lu) descreve a vida em Kaifeng por volta de 1120 e menciona a existência de clubes profissionais de cuju, com patrocinadores, treinadores e capitães.

Os clubes de cuju viam-se como uma força para a harmonia social, reunindo jovens de várias origens e adoptando um estilo de vida comunitário, com os membros a partilharem roupas, dinheiro e comida. Não há evidências de que as mulheres fossem autorizadas a participar. As sociedades também produziam manuais de instruções que não só explicavam as técnicas do desporto, mas também o promoviam como benéfico para a saúde física e mental. A sua crença de que o jogo ajudava a construir músculos, reduzir o peso e retardar o envelhecimento não pareceria fora de lugar num manual de futebol actual.

A importância do cuju, durante a dinastia Song, também levou alguns jogadores a tornarem-se famosos pelas suas habilidades com a bola. Meng Xian e Lu Bao são dois jogadores que alcançaram proeminência nacional e cujos nomes foram registados para a posteridade. Um campeonato nacional conhecido como Shan Yue Zheng Sai também era realizado, embora não se saiba como era organizado ou quem podia participar.

A crescente popularidade do cuju também ficou evidente com a contratação de instrutores pelos clubes para ensinar o jogo e com o surgimento de jogadores profissionais. Assim como outros artistas profissionais, tais como músicos, actores e dançarinos, os profissionais do cuju viajavam pelo país fazendo exibições das suas habilidades e ensinando-as a outras pessoas. O nível de organização do desporto era tal que os jogadores só podiam se qualificar como profissionais após passar por exames, nos quais tinham que demonstrar o domínio de uma ampla variedade de chutos sem cometer erros.

O treino era intensivo e árduo, ocorrendo ao longo de muitos anos. Essa não era a única maneira pela qual os jogadores podiam ganhar a vida com as suas habilidades. Os membros da nobreza também mantinham os seus próprios jogadores profissionais. O cuju era associado ao prazer e à felicidade. O jogador de cuju «não aspira à fama e ao lucro, mas deleita-se em passear à vontade», segundo um escritor do período Song. Outro afirma que o desporto «liberta a tensão, eleva o ânimo e ajuda a esquecer as dores e os problemas do mundo agitado. Dissolve o qi endurecido e faz com que o coração virtuoso se torne gentil e belo».

O cuju parece ter sido considerado uma espécie de panaceia para todos os tipos de males, com um impacto profundamente positivo a nível físico, mental e até espiritual. O jogo também parece ter tido um aspecto moral e ético. A maioria das sociedades de cuju promovia as principais virtudes confucionistas de benevolência, decoro, cortesia, sabedoria e sinceridade.

No entanto, um manual de cuju aponta para os perigos de «conversas, jogos de azar, brigas e lutas, arrogância, grosseria, falsidade, mau humor, litigiosidade, devassidão, álcool e sexo», o que sugere que esses podem ter sido problemas associados ao jogo. Há também exemplos de cuju associado a entretenimento e bebida, e a literatura revela que havia muitos jogos informais, que talvez fossem mais parecidos com uma partida de futebol, entre amigos no parque.

O cuju continuou a ser popular na China durante a dinastia Ming. Funcionários públicos e membros da realeza ficaram obcecados pelo jogo, a tal ponto que o imperador Hongwu ordenou que fosse proibido, pois era uma distração do trabalho e do treino militar. Aqueles que fossem apanhados a jogar podia-lhes ser aplicada uma pesada pena: ter um pé cortado.

No entanto, certos estabelecimentos continuaram a ter jogadoras femininas que realizavam proezas de cuju para atrair clientes. O governo Qing aprendeu com o erro do governo anterior, decidiu proibir o cuju de uma vez por todas, e esse foi o fim do futebol, outrora muito popular na China.

Reconhecimento internacional

Na Europa existem desde o século XVIII relatos de um jogo de rua em que duas equipas andavam atrás de uma bola pontapeando-a e que, sem regras claras, acabava invariavelmente em confronto com todos os elementos aos murros e pontapés. No final, todos recolhiam a casa esmurrados e a sangrar, mas satisfeitos e bem-dispostos pois tinham libertado as energias condensadas de um dia de trabalhos. Terá sido esta a origem do moderno jogo de futebol, desporto como hoje o conhecemos, que em meados do século XIX, em Inglaterra, passou a ser mais disciplinado e com regras, tendo-se formado clubes.

Quando nos anos 70 do século XX, a Inglaterra se proclamou como o país onde se iniciara o desporto-rei, a FIFA achou necessário criar um grupo de investigadores para recolher informações arqueológicas e apreciar os registos históricos. Assim, foram encontrados muitos locais com possibilidade para serem declarados como a pátria do futebol. Só entre 9 e 11 de Julho de 2004, foi feita uma votação entre os 36 estudiosos investigadores que, por unanimidade, declararam Linzi, como o local da origem do Futebol.

Na comemoração dos 100 anos da Federation International de Football Association (FIFA), em 2004, o presidente Joseph S. Blatter reconheceu, finalmente, ter sido na China, mais propriamente em Linzi, pertencente a Zibo, actual província de Shandong, que se iniciou o jogo com bola usando os pés. 完

Aeroporto de Macau recebeu mais de 267 mil passageiros no Ano Novo Lunar

O Aeroporto Internacional de Macau recebeu durante o período de festividades do Ano Novo Lunar mais de 267 mil passageiros, um acréscimo de 11 por cento em comparação com o mesmo período de 2025, declarou a infra-estrutura aeroportuária.

Entre 14 e 23 de Fevereiro, o aeroporto “recebeu 267.235 passageiros e operou 1.943 voos”, o que representa “um aumento de 11 por cento e 9 por cento, respectivamente, em relação ao mesmo período de 2025”, lê-se num comunicado divulgado na terça-feira pela CAM – Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau.

O pico no tráfego de passageiros ocorreu nos dias 21 e 22 de Fevereiro, com números diários de passageiros a alcançar 29 mil e 28 mil, respectivamente, refere-se ainda na nota.

“A análise da estrutura geral do mercado durante a temporada do Ano Novo Chinês mostrou que os passageiros das rotas da China continental representaram 43 por cento do volume total de passageiros”, notou a CAM, referindo ainda que as rotas internacionais representaram 39 por cento e para Taiwan 18 por cento. Durante o período de celebrações foram adicionados cerca de 60 voos de e para o Sudeste Asiático.

Para continuar

O Aeroporto Internacional de Macau anunciou este mês que prevê um aumento de 8 por cento dos passageiros e de 10 por cento das aterragens e descolagens este ano, quando se prepara para lançar novas rotas para a China continental, Filipinas e Vietname.

“Teremos novas rotas para Kunming, Chongqing [China continental] e Manila [Filipinas], nos próximos meses e queremos mais ainda”, anunciou o presidente da CAM num encontro com os meios de comunicação social, no início do mês, por ocasião do Ano Novo Lunar.

Simon Chan Weng Hong projectou mais de 63 mil movimentos de aeronaves na infra-estrutura aeroportuária, ou seja mais 10 por cento do que no ano anterior. Além disso, referiu o responsável, são esperados para este ano 8,14 milhões de passageiros, mais 8 por cento em termos homólogos, e um volume de carga de 110 mil toneladas, uma subida de 4 por cento.

O número de passageiros que passaram pelo Aeroporto Internacional de Macau registou uma queda de 1,6 por cento em 2025, “devido ao contexto económico e a alguns factores de incerteza”, afirmou a CAM no início de Janeiro.

Macau recebeu quase 1,6 milhões de visitantes durante os nove dias de feriados do Ano Novo Lunar na China continental, a maior migração anual do mundo, foi anunciado também na terça-feira. A Polícia de Segurança Pública de Macau disse que as fronteiras do território registaram a passagem de mais de 1,55 milhões de visitantes entre 15 e 23 de Fevereiro, uma média de 172.737 visitantes por dia.

Reserva financeira | Estabelecido novo recorde de activos em 2025

Os activos da reserva financeira valorizaram 6,9 por cento em 2025, ultrapassando a fasquia de 663,6 mil milhões de patacas, estabelecida em Fevereiro de 2021

Os activos da reserva financeira valorizaram-se em 6,9 por cento em 2025 e atingiram um novo recorde máximo no final de Dezembro, anunciou ontem a Autoridade Monetária de Macau (AMCM).

Um balanço publicado pelo regulador financeiro no Boletim Oficial do território mostra que a reserva valia, no final do ano passado, 666,7 mil milhões de patacas. O anterior recorde, 663,6 mil milhões de patacas, tinha sido fixado em Fevereiro de 2021, apesar de Macau estar então em plena pandemia de covid-19.

A reserva ganhou 42,9 mil milhões de patacas durante o ano passado, mais do que em 2024, ano em que os activos tinham subido 35,7 mil milhões de patacas. O melhor ano de sempre para a reserva financeira continua a ser 2019, antes do início da pandemia, quando os activos se valorizaram em 70,6 mil milhões de patacas.

Ainda de acordo com a AMCM, a valorização da reserva acelerou em Dezembro, mês em que ganhou 3,54 mil milhões de patacas, mais 1,39 mil milhões de patacas do que em Novembro. O valor da reserva extraordinária no final de Dezembro era de 499,5 mil milhões de patacas e a reserva básica, equivalente a 150 por cento do orçamento público de Macau, era de 167,3 mil milhões de patacas.

Mais despesas

O orçamento inicial do território para 2025 previa uma subida de 7 por cento nas despesas totais, para 109,4 mil milhões de patacas. Mas a Assembleia Legislativa aprovou em Julho uma proposta apresentada pelo Governo para um novo orçamento, que inclui um aumento extra de 2,86 mil milhões de patacas nas despesas.

Em Novembro, a AL deu também “luz verde”, por unanimidade, ao orçamento para 2026, que prevê despesas públicas de 113,5 mil milhões de patacas.

Investimentos subcontratados representam a maior fatia da reserva financeira de Macau, 286,7 mil milhões de patacas, que inclui ainda depósitos e contas correntes no valor de 272,4 mil milhões de patacas e até títulos de crédito no montante de 104,6 mil milhões de patacas.

Em 2024, os investimentos renderam à reserva financeira quase 31 mil milhões de patacas, correspondendo a uma taxa de rentabilidade de 5,3 por cento, disse a AMCM, no final de Fevereiro de 2025.

Portugal | Conselheiros suplentes felicitam Seguro

Os conselheiros suplentes das Comunidades Portuguesas, do Círculo da China, assinaram uma missiva a felicitar António José Seguro e a prometer colaboração com a Presidência da República. Foi também endereçada a Luís Montenegro uma carta de condolências pelas vítimas das cheias que assolaram Portugal

Os conselheiros suplentes das Comunidades Portuguesas, eleitos pelo Círculo da China, Luís Nunes, Maria João Gregório e Félix Teixeira, assinaram uma carta a felicitar o Presidente de República eleito António José Seguro pela vitória nas eleições presidenciais.

“É com grande satisfação que (…) lhe endereçamos os nossos mais sinceros parabéns pela sua eleição para o cargo de Presidente da República Portuguesa. Este momento constitui uma etapa de esperança e renovação para o nosso país, e estamos confiantes de que a sua liderança contribuirá para o fortalecimento de Portugal, tanto no âmbito interno como no cenário internacional”, pode ler-se na missiva datada de segunda-feira.

Os conselheiros suplentes afirmam contar com o apoio de Seguro e indicaram acreditar que com o novo Presidente da República “Portugal continuará a afirmar-se como nação unida, promovendo os interesses dos seus cidadãos emigrantes e consolidando o seu papel de destaque a nível global”.

Os conselheiros suplentes firmaram também o compromisso de colaborar com a Presidência da República “na construção de um Portugal mais próspero, unido e solidário, sempre em consonância com os objectivos” de António José Seguro.

Sim, senhor ministro

Também na segunda-feira, Luís Nunes enviou uma carta ao Primeiro-Ministro português Luís Montenegro, desta feita não só na qualidade de conselheiro suplente das Comunidades Portuguesas, mas também enquanto vice-presidente da direcção da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM). A missiva enviada a Luís Montenegro não surge assinada por Maria João Gregório e Félix Teixeira.

Enquanto conselheiro suplente e dirigente da ATFPM, associação descrita como “maior e mais representativa de matriz portuguesa, com mais de 19.500 associados”, Luís Nunes apresentou a Montenegro “as mais sentidas condolências e palavras de solidariedade a todas as vítimas das cheias que recentemente assolaram diversas regiões de Portugal”.

O responsável mostrou-se confiante de que o “com o empenho de todo o Governo”, as famílias afectadas pelas intempéries serão apoiadas e que serão dadas respostas prontas e firmes para os problemas causados pelo mau tempo.

O dirigente da ATFPM aproveitou também, enquanto pensionista da Caixa Geral de Aposentações, para agradecer a actualização às pensões dos residentes no estrangeiro. Luís Nunes acrescentou que a medida representa “um importante sinal de justiça e de reconhecimento por parte do Estado Português para com aqueles que, embora residindo fora do território nacional, dedicaram uma vida de trabalho e serviço público a Portugal”.

Saúde | Governo revê escolha de alimentos vendidos a alunos consoante idade

Depois de ter acrescentado à lista de produtos inadequados para vender nas escolas alimentos ou bebidas com chocolate, o Governo esclareceu que estes artigos não são impróprios para todos os jovens, sendo a idade um factor determinante.

Como tal, os Serviços de Saúde garantem que vão manter uma comunicação estreita com a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), escolas e fornecedores de lanches, no sentido de continuar a rever a lista de bebidas e alimentos vendidos nas escolas, com recomendações consoante as idades dos estudantes.

A ideia foi relevada na terça-feira à noite num evento sobre “assuntos sociais e cultura, em que participou a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, assim como o director da DSEDJ e Alvis Lo, director dos Serviços de Saúde (SS).

De acordo com o jornal Ou Mun, Alvis Lo afirmou que irá melhorar as orientações para promover a alimentação saudável nas escolas, segundo o sistema de três níveis: verde, amarelo e vermelho. Alimentos frescos, naturais e sem aditivos podem ser consumidos por alunos de todas as idades sem restrições. Produtos com gordura, sal ou açúcar, mas que ainda assim têm valor nutritivo podem ser consumidos com frequência, enquanto os alimentos com elevados teor de gordura, sal ou açúcar e sem valor nutritivo devem ser consumidos raramente.

Em relação às bebidas com chocolate, que foram retiradas das escolas, o director dos SS afirmou que não são prejudiciais, mas também não são apropriados para crianças, e que os alunos mais velhos podem consumi-las ocasionalmente.

IA | Ella Lei quer aplicação para indicar estado do trânsito

A deputada Ella Lei escreveu uma interpelação a pedir ao Governo para ponderar a criação de uma aplicação com recurso à inteligência artificial para prever as condições do trânsito, com base nos dados recolhidos. Segundo a interpretação escrita da legisladora, este tipo de aplicação ia permitir aos residentes perceber quais as vias mais congestionadas quando estão na estrada.

De acordo com a deputada, este tipo de plataformas pode ser desenvolvido com base no que é feito no Interior. Em relação às questões de trânsito, Ella Lei questiona ainda o Executivo sobre a implementação de mais semáforos inteligentes, que permitem dispensar os polícias que nos momentos em que o trânsito está mais intenso precisam de se deslocar para os cruzamentos para fazerem o controlo de forma manual.

Estacionamento | Propostas de exploração com preços até 2,43 milhões

A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) recebeu 13 propostas para o concurso público para a concessão da exploração dos parques de estacionamento público do Jardim de Vasco da Gama, do Edifício Iat Fai, do Edifício Fai Ieng, do Pak Lok (Terminal Marítimo), do Edifício Cheng I e do Edifício de Especialidade de Saúde Pública. As propostas foram abertas na terça-feira.

Entre as 13 propostas, 12 foram admitidas com propostas de retribuição de base trimestral entre 1,02 milhões e 2,43 milhões de patacas. A concessão para explorar os seis parques públicos tem a duração de sete anos, oferecendo 1.220 lugares de estacionamento para automóveis ligeiros e 1.118 para motociclos e ciclomotores. Além da gestão e exploração diária dos parques, a concessionária será responsável pela optimização do sistema de pagamento electrónico, o reforço do sistema de vigilância e segurança, assim como a melhoria das instalações.

DSAT | Lançado concurso público para estacionamento

A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) abriu ontem um concurso público para a concessão da exploração de lugares de estacionamento na via pública. O prazo da concessão é de sete anos e será entregue a uma única entidade.

A vencedora do concurso vai ter de introduzir os meios de pagamento electrónicos nos parquímetros, como a plataforma Simple Pay, cartões de crédito e porta-moedas electrónico. A futura concessionária vai ainda ter de criar uma aplicação móvel para consultar, em tempo real, a disponibilidade de lugares vagos e permitir fazer pagamentos à distância.

O objectivo das exigências passa por modernizar a gestão e tornar o serviço mais cómodo para os condutores. A entidade concessionária vai também suportar todos os custos de aquisição e instalação do novo sistema de cobrança.

Conselho consultivo | Maioria dos membros com mandatos renovados

Carlos Marreiros e Miguel de Senna Fernandes ficam mais dois anos no Conselho. Apesar da manutenção geral, há excepções. A realizadora Tracy Choi e o cenógrafo Tam Tin Chun foram substituídos por Cristina Ho Hoi Leng, vice-presidente da Associação das Mulheres, e por Lam Wai Kei produtora de teatro e vice-presidente do grupo de jovens da associação Aliança de Povo de Instituição de Macau

O arquitecto Carlos Marreiros e o advogado e dramaturgo Miguel de Senna Fernandes vão manter-se como membros do Conselho Consultivo para o Desenvolvimento Cultural durante mais dois anos. A informação foi divulgada ontem no Boletim Oficial, através de um despacho assinado pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, que preside igualmente ao conselho consultivo.

Os dois macaenses fazem parte deste conselho deste 2022, ano em que foi criado durante o Executivo de Ho Iat Seng e que tinha como secretária para os Assuntos Sociais e Cultura Elsie Ao Ieong U. As nomeações foram enquadradas no âmbito dos “profissionais, académicos e personalidades da sociedade” escolhidos para integrar o grupo. Os mandatos de Carlos Marreiros e de Miguel de Senna Fernandes são assim renovados por uma segunda vez, depois da primeira renovação em 2024.

O Conselho Consultivo para o Desenvolvimento Cultural foi criado para emitir pareceres, elaborar relatórios, realizar estudos e apresentar propostas sobre a política de desenvolvimento cultural do Governo, adopção de medidas que impulsionem o desenvolvimento cultural, como os mecanismos de apoio às indústrias culturais, realização de actividades culturais locais ou os planos de apoio financeiro e de formação de recursos humanos focados no desenvolvimento cultural.

Renovação ampla

Os macaenses não foram os únicos a verem os mandatos renovados. Esta tem sido a tradição do Conselho Consultivo para o Desenvolvimento Cultural desde a formação.

Chan Hou Seng, ex-deputado nomeado pelo Chefe do Executivo e ex-director do Museu de Arte de Macau, foi igualmente mantido como membro do conselho consultivo, que ocupa desde 2022 e que acumulou com as funções de legislador.

Também o académico Ieng Weng Fat, académico na área das artes e vice-presidente da Associação Geral dos Chineses Ultramarinos de Macau, membro desde a criação do conselho teve o seu mandato renovado. Os outros membros que constituem a comissão desde a criação são Lok Hei, Hoi Kin Wa, Samantha Chiang Siu Ling, Li Zisong, Lam Chong, Fong Man Wai e Lei Chon.

Entre as entradas, constam os nomes de Cristina Ho Hoi Leng, vice-presidente da Associação das Mulheres, e Lam Wai Kei, produtora de teatro e vice-presidente do grupo de jovens da associação Aliança de Povo de Instituição de Macau.

No sentido oposto, deixaram de integrar o conselho consultivo a realizadora Tracy Choi Ian Sin e Tam Tin Chun, ligado ao teatro experimental de Macau.

Igualdade de género | Sam diz Macau é das regiões mais avançadas

O Chefe do Executivo considera que Macau é uma das regiões mais avançadas do mundo ao nível da igualdade de género. As declarações foram prestadas ontem num discurso proferido durante a cerimónia da Associação das Mulheres para assinalar o Dia Internacional da Mulher.

“A igualdade entre géneros em Macau mantém-se consistentemente entre as mais avançadas do mundo”, afirmou Sam Hou Fai. “Os notáveis sucessos alcançados por Macau na causa das mulheres evidenciam plenamente as grandes vantagens do princípio ‘um país, dois sistemas’, contribuindo com a experiência e sabedoria de Macau para promover o desenvolvimento da causa das mulheres em todo o mundo”, acrescentou.

O Chefe do Executivo considerou também que depois da transição a “a causa das mulheres em Macau entrou numa fase importante de grande desenvolvimento e prosperidade”. “Todos os direitos garantidos por lei às mulheres são efectivamente protegidos, a participação feminina nos assuntos políticos tem-se alargado, o seu nível de escolaridade e a taxa de participação no mercado de trabalho têm aumentado, as mulheres partilham de forma abrangente e igualitária os frutos do desenvolvimento socioeconómico, com cada vez mais oportunidades de emprego em áreas profissionais como a saúde, o Direito e as finanças, bem como com canais cada vez mais amplos de mobilidade social ascendente”, apontou.

Sam Hou Fai garantiu ainda que em relação aos assuntos das mulheres o Governo vai seguir o espírito do importante discurso proferido por Xi Jinping, durante A Reunião Mundial de Líderes sobre As Mulheres, realizada no ano passado, em Pequim.

Segurança Nacional | Comissão com poderes em educação, cultura e economia

O Governo justificou o alargamento das áreas de competência da Comissão de Defesa da Segurança do Estado com o facto de a segurança nacional já não se limitar às áreas tradicionais

A Comissão de Defesa da Segurança do Estado (CDSE) de Macau vai passar a avaliar riscos para a segurança nacional da China nas áreas da educação, cultura e economia, disse ontem Leong Sun Iok. A composição da CDSE será alargada, sublinhou o deputado, o presidente da comissão da Assembleia Legislativa que está a analisar a proposta de lei sobre o regime daquele órgão, aprovado na generalidade por unanimidade em 10 de Fevereiro.

Entre os membros da CDSE passarão a constar o presidente do Instituto Cultural (IC), o director dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude e o director da Inspecção e Coordenação de Jogos.

Representantes do Governo justificaram o alargamento, dizendo que “a segurança do Estado vai deixar de se limitar às áreas tradicionais, como a militar, e passar a cobrir as áreas educativa, cultural e económica”, disse Leong.

Após uma reunião da comissão parlamentar, o deputado acrescentou que a CDSE irá também encarregar-se da “promoção da monitorização, alerta, avaliação e resposta a riscos para a segurança nacional”.

Questionado pela Lusa sobre se a CDSE irá avaliar riscos para a segurança nacional em espectáculos culturais, currículos educativos ou negócios entre empresas privadas, Leong não respondeu directamente. O deputado preferiu sublinhar que “a segurança nacional é muito abrangente” e que o alargamento irá permitir à CDSE cobrir “serviços que também são muito importantes”.

Leong revelou que alguns deputados questionaram o Governo sobre possíveis mudanças devido à fusão prevista entre o IC e o Instituto do Desporto e sobre a não inclusão do director dos Serviços de Saúde na CDSE.

O presidente da comissão permanente recordou que Macau esteve praticamente três anos sob rigorosas restrições no quadro da política ‘zero covid’, incluindo a proibição de entrada a estrangeiros sem estatuto de residente. “Se [uma pandemia] voltar a acontecer no futuro, como vai ser tratada?”, perguntou Leong.

O deputado disse que o Governo respondeu, sublinhando que a proposta de lei prevê a possibilidade de “convidar outros serviços e personalidades para participar nas reuniões, sem direito de voto”.

Educação patriótica

O programa do Executivo de Macau para 2026, apresentado em Novembro, prevê a criação, até ao final do ano, de um Grupo de Trabalho para a Coordenação da Educação Patriótica dos Jovens.

As Linhas de Acção Governativa incluem ainda, no âmbito do chamado “plano geral para a edução sobre a segurança nacional”, a revisão dos livros e outros materiais didácticos dos ensinos básico e secundário, até ao terceiro trimestre de 2027.

Em 2022, o então secretário para a Segurança de Macau, Wong Sio Chak, disse que a educação sobre a segurança do Estado iria ser alargada a alunos não chineses.

Os censos de 2021 indicam mais de 2.200 pessoas nascidas em Portugal a viver em Macau. A última estimativa dada à Lusa pelo Consulado-geral de Portugal apontava para cerca de 155 mil portadores de passaporte português entre os residentes de Macau e Hong Kong.

Crime | Estudo revela percepção de aumento, mesmo com tendência de quebra

Apesar de os dados oficiais revelarem menos crimes na RAEM, esta realidade não se reflecte na percepção da sociedade. Um estudo revela que em Macau apenas 13 por cento dos inquiridos tinham conhecimento da descida da criminalidade e que mais de 35 por cento acreditavam que o crime teria aumentado

O estudo “Examining fear of crime among Macao residents: Vulnerability, victimisation and situational factors”, publicado na revista International Review of Victimology, revela que no território a população não teme o crime, embora as percepções face à criminalidade nem sempre estejam de acordo com os dados oficiais.

O trabalho, da autoria de Yixuan Wang, Donna Soi Wan Leong e Lichao Lu, da Universidade de Macau (UM) e Jianhong Liu, da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST), revela que houve, entre 2021 e 2022, um “declínio de 13,9 por cento na criminalidade”, segundo dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Segurança em 2023.

Porém, “os dados da pesquisa deste estudo revelam uma discrepância significativa na percepção: apenas 12,83 por cento dos inquiridos relataram ter conhecimento do declínio, enquanto 35,72 por cento acreditavam que a criminalidade tinha aumentado”, pode ler-se.

Além disso, “a grande maioria dos inquiridos não demonstrou medo emocional” perante a criminalidade, já que “78,87 por cento referiu zero locais inseguros e apenas 2,77 por cento identificaram duas ou mais” zonas inseguras em Macau.

Enquanto isso, “apenas 9,69 por cento dos inquiridos referiram sentir risco de vitimização, indicando que a grande maioria não se sentia em risco”.

O estudo mostra também que “a proporção dos residentes que relataram respostas comportamentais defensivas foi a mais baixa de entre as dimensões do medo, com apenas 2,89 por cento dos inquiridos a indicar que adoptaram comportamentos defensivos nos 12 meses anteriores”.

Os autores descrevem como Macau constitui um exemplo paradigmático para analisar o medo social perante o crime e as percepções perante dados oficiais, já que é uma região administrativa especial que “funciona sob o quadro de governação ‘um país, dois sistemas’, caracterizado por uma estrutura sociopolítica e jurídica distinta, a par de uma população multicultural”.

Além disso, é referido que Macau tem uma economia “que depende exclusivamente do jogo e do turismo, o que impulsiona uma rápida circulação financeira e mobilidade populacional em grande escala”, tratando-se de um “pequeno território urbano com uma densidade populacional excepcionalmente elevada”.

Desta forma, as características particulares do território “levantam questões sobre a aplicabilidade dos modelos existentes de medo do crime, uma vez que as percepções dos residentes sobre o crime e a desordem podem ser moldadas por ambientes urbanos densos e fluxos populacionais rápidos”.

Uma questão de idade

O estudo foi feito tendo por base o Inquérito à Vitimização de Macau de 2022, com gestão da Sociedade de Criminologia de Macau, um projecto financiado pela Fundação Macau. A população-alvo do inquérito foram residentes com mais de 18 anos, sendo que, para este estudo, foram feitas entrevistas complementares por telefone a 1.102 pessoas, tendo resultado numa amostra final de 795 pessoas.

Lê-se ainda neste estudo que “os resultados revelam consistências e desvios em relação a pesquisas anteriores”, pois “ao contrário do que foi estabelecido, a idade e o género não influenciam significativamente o medo do crime”.

Para os autores, o “resultado inesperado” pode explicar-se com “factores institucionais e específicos de Macau”, já que o “Governo de Macau tem dado grande ênfase ao investimento no bem-estar social, o que pode funcionar como um amortecedor do medo para grupos potencialmente vulneráveis”.

É destacada a medida de apoios financeiros à reparação de edifícios, como o Regime de Apoio à Manutenção de Edifícios e o Regime de Subsídio para Manutenção das Partes Comuns, o que “reduz ainda mais a necessidade de os residentes implementarem estratégias defensivas adicionais ao nível doméstico”.

O estudo destaca a “extensa infra-estrutura de bem-estar em Macau”, como os “cuidados de saúde universais, pensões de velhice e regimes de protecção social, que podem mitigar a vulnerabilidade percepcionada entre os idosos”.

Leis que ajudam

No tocante à violência de género, descreve-se como a Lei de Violência Doméstica e os “sistemas reforçados de apoio às vítimas podem contribuir para um sentimento de segurança associado ao género”. Em 2022, ocorreram 22 casos de violação e oito de coacção sexual, segundo dados do Instituto de Acção Social (IAS) citados no estudo.

Os autores destacam também que o Índice de Desigualdade de Género de Macau foi de 0,06 em 2021, “substancialmente inferior” ao da China continental (0,192), Japão (0,083) e à média global (0,457). Tal indica “um ambiente relativamente equitativo em termos de género”, segundo menções feitas pelo IAS em 2021 e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em 2022.

Os académicos descrevem como “estes factores, em conjunto, podem atenuar a relevância da vulnerabilidade física na formação do medo do crime, explicando a ausência de efeitos significativos da idade e do género”.

O estudo destaca que o facto de se revelarem “níveis consistentemente baixos de medo” perante a criminalidade podem ser “parcialmente atribuídos ao investimento substancial do Governo de Macau na segurança pública e à elevada densidade de recursos policiais”.

Verifica-se, assim, que “o forte policiamento e investimento em segurança pública em Macau”, mesmo com a taxa de criminalidade baixa, resulta “na prevalência igualmente limitada de vitimização na amostra”.

Além disso, “os níveis relativamente baixos de medo reportados pelos residentes de Macau podem ser explicados tanto por mecanismos culturais substantivos como por factores metodológicos. Ao nível substantivo, orientações culturais colectivistas e relacionais podem exercer um efeito genuinamente amortecedor”, já que, nas sociedades chinesas “os indivíduos estão inseridos em densas redes familiares, de parentesco e comunitárias”, o que pode facilitar “o acesso ao apoio social e mitigar respostas de stress e medo”, lê-se no estudo.

Sinais para o Executivo

Os académicos defendem que estes resultados ” apresentam várias implicações para a governação social em Macau”, dada a existência de um “paradoxo entre as percepções subjectivas dos residentes sobre o crime e o declínio reflectido nas estatísticas oficiais”.

Tudo isto “sublinha a importância de reforçar a transparência na divulgação de informação e na aplicação da lei”, devendo ser feita a “disseminação de informação relacionada com o crime através de múltiplos canais e a melhoria da visibilidade dos esforços de prevenção”, o que pode “contribuir para reduzir o medo e reforçar a confiança pública”.

As acções do Governo na área da segurança parecem surtir alguns resultados, descreve-se no estudo, o que é “particularmente relevante no contexto do rápido envelhecimento populacional”. “Além da manutenção destes investimentos, o reforço do controlo social informal pode igualmente contribuir para aumentar a eficácia colectiva das comunidades.

Iniciativas como a expansão de programas de voluntariado e o apoio a associações de bairro (por exemplo, Federação das Associações dos Moradores de Macau; Associação de Voluntários Juvenis de Macau) podem fornecer recursos sociais adicionais para mitigar riscos associados à vulnerabilidade física”, é defendido.

Macau confirma que correio para Portugal voltou ao normal

Os Correios de Macau confirmaram ontem que os serviços de cartas e encomendas da região chinesa com destino a Portugal foram retomados após as tempestades que afectaram o território português.

Num comunicado, a Direção dos Serviços de Correios e Telecomunicações disse que “o serviço de entrega de objectos postais, anteriormente afectado por condições meteorológicas adversas no país, já retomou a normalidade”, de acordo com indicação dos CTT – Correios de Portugal.

O comunicado dos Correios de Macau surge horas depois do Hongkong Post, o departamento que assegura o serviço postal na vizinha região chinesa Hong Kong, ter dito que a entrega de correio a Portugal já estava a decorrer sem constrangimentos.

Os censos de 2021 indicam mais de 2.200 pessoas nascidas em Portugal a viver em Macau. A última estimativa dada à Lusa pelo Consulado-geral de Portugal apontava para cerca de 155 mil portadores de passaporte português entre os residentes de Macau e Hong Kong.

Em 02 de Fevereiro, os serviços de correio de Macau e Hong Kong tinham alertado que as cartas e encomendas com destino a Portugal poderiam sofrer atrasos devido à destruição causada pela depressão Kristin. Dezoito pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afectadas. A situação de calamidade que abrangia os 68 concelhos mais afectados terminou a 15 de Fevereiro.

Ásia | Tailândia acusa Camboja de violar cessar-fogo na fronteira

O exército da Tailândia denunciou ontem uma troca de tiros com as forças cambojanas ao longo da fronteira e acusou o país vizinho de violar as tréguas de Dezembro, alegação que o Camboja negou categoricamente.

Segundo um comunicado militar tailandês, as forças cambojanas dispararam ontem uma granada de 40 milímetros contra uma patrulha na província fronteiriça de Sisaket, o que desencadeou uma resposta da Tailândia.

Não foram registados feridos entre as tropas de Banguecoque, segundo o comunicado citado pela agência de notícias France-Presse (AFP).

“As forças tailandesas responderam disparando um [lança-granadas] M79 na direcção de onde provieram os disparos, de acordo com as regras de conduta militar, a título de aviso e em legítima defesa”, acrescentou o exército.

O porta-voz militar tailandês, Winthai Suvaree, declarou no comunicado que “as acções do Camboja violaram o acordo de cessar-fogo” de 27 de Dezembro de 2025, que pôs fim a três semanas de confrontos mortais na fronteira.

“Estas alegações são totalmente falsas, inventadas e distorcem grosseiramente os factos com a intenção deliberada de enganar a opinião pública e provocar tensões ao longo da fronteira entre o Camboja e a Tailândia”, reagiu o ministro da Informação cambojano.

Neth Pheaktra reiterou à AFP o “compromisso inabalável” de Phnom Penh com a trégua de Dezembro e com um acordo de cessar-fogo anterior, de curta duração, assinado em Outubro na presença do Presidente norte-americano, Donald Trump.

Segundo o comunicado tailandês, o incidente pode ter resultado de uma “rotação de tropas cambojanas”, em que o novo pessoal, não familiarizado com os regulamentos, terá cometido “falhas operacionais”. Os dois reinos do Sudeste Asiático disputam há muito o traçado da fronteira de 800 quilómetros, definida durante o período colonial francês.

Ano Novo Lunar | Macau recebeu quase 1,6 milhões de visitantes

A região de Macau recebeu quase 1,6 milhões de visitantes durante os nove dias de feriados do Ano Novo Lunar na China continental, a maior migração anual do mundo, foi ontem anunciado. A Polícia de Segurança Pública (PSP) de Macau disse que as fronteiras do território registaram a passagem de mais de 1,55 milhões de visitantes entre 15 e 23 de Fevereiro, uma média de 172.737 visitantes por dia.

De acordo com dados oficiais divulgados ontem pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST), a média diária representa um aumento de 5,5 por cento em comparação com o Ano Novo Lunar de 2025. A DST tinha previsto uma média diária de entre 158 mil e 175 mil visitantes e um total de visitantes de 1,4 milhões durante este período.

O terceiro dia do Ano Novo Lunar, 19 de Fevereiro, fixou um novo máximo histórico, com quase 228 mil turistas a chegarem ao território chinês.

Perto de seis milhões de pessoas atravessaram os postos de controlo fronteiriços de Macau durante os nove dias, uma média de 663.032 travessias diárias, ainda assim abaixo da previsão de 670 mil feita pela PSP na semana passada.

De acordo com a última estimativa feita pelo Governo local, a população total residente na Região Administrativa Especial de Macau era de 686.600 pessoas.

Bater recordes

A 08 de Fevereiro, Macau registou um novo máximo histórico de entradas e saídas nas fronteiras da cidade, quando faltavam dez dias para o Ano Novo Lunar, com cerca de 867 mil passagens.

De acordo com os dados da PSP, a maior fronteira do território, nas Portas do Cerco, registou a passagem de quase 463 mil pessoas, o valor diário mais elevado dos últimos cinco anos, desde o início da pandemia de covid-19.

As autoridades da China prevêem que centenas de milhões de pessoas viajem durante a maior migração anual em todo o mundo para celebrar o Ano Lunar do Cavalo de Fogo. A época destas deslocações, o chamado ‘chunyun’, um período de 40 dias antes e depois do início do Ano Novo Lunar, começou em 02 de Fevereiro.

Em 29 de janeiro, Li Chunlin, vice-diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China, o principal organismo de planeamento económico do país, anunciou que as estimativas para este ano prevêem que os chineses façam até 9,5 mil milhões de viagens durante o ‘chunyun’.

Caso esta previsão esteja correcta, constituirá um novo recorde histórico, ultrapassando o máximo registado em 2024: 9,02 mil milhões de viagens.

De acordo com as estimativas oficiais, as viagens de comboio podem atingir 540 milhões, enquanto as viagens aéreas deverão rondar 95 milhões, ambos potenciais máximos históricos para este período.

O ‘chunyun’ é frequentemente usado como indicador da actividade económica do país, num contexto em que a China procura impulsionar o consumo e os serviços como motores da procura interna, que ainda não recuperou totalmente desde a pandemia.

O olhar erótico dos Jogos Olímpicos

Se dependesse apenas das medalhas, os Jogos Olímpicos seriam um espectáculo de atenção mediática média. Mas basta abrir as redes sociais durante os Jogos Olímpicos de inverno em Milão para perceber que há outras narrativas de interesse. Há uma curiosidade clara sobre quem são estes atletas, os seus dramas, os seus limites, e as suas aventuras sexuais. Estas narrativas revelam algo: não é que os atletas estejam mais sexualmente activos, mas sim que o olhar público é intensamente erotizado.

Comecemos pelo “penisgate”, que correu as agências noticiosas por todo o mundo. Um jornal alemão alegou que atletas de salto de ski poderiam estar a injectar ácido hialurónico no pénis para favorecer uma aerodinâmica vencedora. De repente, estamos todos a olhar para os pénis dos atletas, notando a sua forma e volume. Discutem-se na imprensa sobre os possíveis riscos, que ainda assim poderiam garantir um salto vencedor: garantem-nos os especialistas em aerodinâmica. Mas ninguém sabe da veracidade de tal ideia. Muito se falou sobre os pénis, muito se conjecturou, e a agência antidopagem prometeu investigar. Talvez não seja uma erotização declarada, mas os pénis dos atletas tornaram-se no epicentro da conversa.

Também poderemos falar do mito erótico persistente, este bem mais antigo: o da Aldeia Olímpica como epicentro de actividade sexual desenfreada. Sempre que surgem notícias sobre o rápido esgotamento de preservativos, como já aconteceu em Milão, em três dias, o imaginário reacende-se. A narrativa é simples: jovens reunidos num espaço fechado e por isso estão entregues a uma espécie de festival permanente de desejo.

Colocando os pés numa realidade menos fantasiosa, por mais que queiramos acreditar que os atletas olímpicos estão cheios de tesão a consumir preservativos como se o amanhã não existisse, não podemos perder de perspectiva uma realidade bem menos glamorosa. Em períodos competitivos intensos, é mais provável que os atletas experienciem níveis elevados de stress fisiológico e psicológico. Cortisol alto, rotinas rígidas, privação de sono, foco na performance. Faria mais sentido que para muitas pessoas, o contexto dos jogos olímpicos pudesse diminuir — e não aumentar — a responsividade sexual. O corpo em modo de sobrevivência competitiva nem sempre está em modo de disponibilidade erótica.

Isto não quer dizer que não haja encontros ou intimidade na Aldeia Olímpica. Até mesmo depois de uma grande vitória, em modo de celebração afectiva. A activação fisiológica é tão alta que facilmente poderá ser reinterpretada como excitação emocional ou sexual. São carreiras inteiras condensadas em minutos de prova, emoções amplificadas e proximidade física. Mas a persistência quase folclórica da ideia de uma “orgia olímpica” diz talvez mais sobre a fantasia do público do que sobre o quotidiano dos atletas. Ninguém sabe, ao certo, se os preservativos estão a ser usados – só se andarem a remexer no lixo, e sobre isso não me pronuncio. Ninguém me garante que os preservativos estão simplesmente a ser acumulados para tempos futuros de mais sexo.

Na verdade, o que estas histórias erótico-sexuais parecem revelar é uma tensão. Por um lado, o desporto de alta competição é apresentado como o domínio do controlo e da disciplina. Por outro, o público insiste em reinscrever esses mesmos corpos numa narrativa de excesso ou descontrolo. A verdade é que eles estão imersos num ambiente de intensidade emocional rara.

A linha entre euforia competitiva, alívio pós-prova e abertura ao contacto interpessoal pode, por momentos, tornar-se mais porosa. Mas é importante reconhecer que a cultura digital contemporânea amplifica estes episódios. Uma história repetida mil vezes contribui para solidificar a percepção pública de que a sexualidade é um elemento central da experiência olímpica. Não há nada de errado se assim for — mas tudo indica que trabalhamos mais com projecções do que com realidades situadas. Porque precisamos tanto que o espectáculo olímpico seja também um espectáculo potencialmente erótico?

Claro que o corpo atlético, e o seu lugar simbólico no discurso contemporâneo, tem certamente a sua influência. Num mundo cada vez mais sedentário, mediado por ecrãs e marcado por ansiedade corporal, o atleta olímpico representa uma forma quase mítica de presença. Força, disciplina, juventude e vitalidade.

No fim de contas, episódios como o “penisgate” ou o eterno alarme dos preservativos dizem menos sobre uma suposta libertinagem olímpica e mais sobre o nosso próprio olhar colectivo. Talvez os Jogos nunca tenham sido apenas sobre quem corre mais depressa ou salta mais alto. Talvez tenham sido sempre, também, sobre a forma como olhamos para corpos que parecem ir mais longe do que julgávamos possível — e sobre tudo aquilo que, nesse olhar, escolhemos imaginar.

Coreia do Sul | Ex-presidente recorre da condenação a prisão perpétua

O ex-presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol, condenado na semana passada à prisão perpétua por ter imposto a lei marcial no final de 2024, recorreu ontem da sentença, informou a agência de notícias sul-coreana Yonhap.

“Pretendemos revelar os erros nos factos e a incompreensão dos princípios legais na decisão do primeiro julgamento”, afirmaram os advogados do ex-presidente preso.

Yoon foi condenado em primeira instância à prisão perpétua pelo Tribunal Distrital Central de Seul, que na quinta-feira passada considerou que os seus actos constituíram insurreição ao mobilizar tropas no Parlamento nacional e mergulhar o país na sua pior crise em décadas.

O recurso do ex-presidente surge depois de a equipa especial do Ministério Público que conduziu o caso ter anunciado que também iria recorrer da sentença, uma vez que tinha pedido a pena de morte, para a qual existe uma moratória no país.

Yoon, que já se encontrava na prisão enquanto aguardava a decisão, declarou a lei marcial na noite de 03 de Dezembro de 2024, um decreto que foi bloqueado pelo Parlamento algumas horas depois. O ex-presidente foi destituído em Abril do ano passado pelo Tribunal Constitucional, por considerar que não havia indícios de uma situação de emergência que justificasse o decreto.

Japão pede tratamento justo face à nova tarifa global de 15% dos EUA

O Japão pediu aos Estados Unidos que garantam que o impacto da nova tarifa global de 15 por cento, que deverá entrar agora em vigor, não seja superior ao do acordo comercial bilateral assinado em 2025.

O ministro da Economia, Comércio e Indústria do Japão, Ryosei Akazawa, insistiu, numa conversa telefónica com o secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, que “o tratamento dado ao Japão seja garantido como não menos favorável” do que o previamente acordado, informou o ministério, em comunicado.

O porta-voz do Governo japonês, Minoru Kihara, declarou em conferência de imprensa que o arquipélago vai estudar “de forma minuciosa” a decisão do Supremo Tribunal dos EUA, que na sexta-feira travou a anterior política comercial da Casa Branca.

Kihara acrescentou que o Japão está a seguir “de perto e com interesse” as ramificações da nova tarifa global sobre o acordo comercial bilateral assinado em Julho. O acordo prevê compromissos de investimento japoneses avaliados em 550 mil milhões de dólares e a redução de 25 por cento para 15 por cento das tarifas sobre produtos japoneses, incluindo automóveis.

Os primeiros projectos anunciados na semana passada, avaliados em 36 mil milhões de dólares, incluem a maior infraestrutura de gás natural no estado de Ohio, no oeste dos EUA, uma instalação de exportação de petróleo bruto e uma unidade de diamantes sintéticos.

Donald anuncia

No sábado, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que a nova tarifa alfandegária global iria aumentar de 10 por cento para 15 por cento, “com efeito imediato”.

Esta taxa vai somar-se às “tarifas aduaneiras normais já em vigor”, afirmou o Presidente republicano, acrescentando que “todos os acordos” continuam válidos e que Washington apenas vai “proceder de forma diferente”.

O anúncio aconteceu um dia depois de Trump ter anunciado uma tarifa global de 10 por cento sobre todos os países, por um período de 150 dias.

Horas antes, o Supremo Tribunal dos EUA determinou, por seis votos contra três, que o Governo norte-americano excedeu os poderes invocados para impor as chamadas “tarifas recíprocas” aos parceiros comerciais de Washington.

Diplomacia | Pequim quer Ucrânia fora do foco antes de visita de Merz

A visita do chanceler alemão à China deverá servir para aproximar as segunda e terceira maiores economias mundiais através da assinatura de vários acordos comerciais. Pequim reitera a sua posição “objectiva e imparcial” sobre o conflito na Ucrânia

A crise na Ucrânia “não é nem deve tornar-se uma questão entre China e Europa”, afirmou ontem a diplomacia chinesa, na véspera de o chanceler alemão, Friedrich Merz, iniciar a sua primeira visita oficial ao país asiático.

A porta-voz do ministério Mao Ning declarou em conferência de imprensa que Pequim mantém uma “posição objectiva e imparcial” sobre o conflito e apoia uma solução política através de esforços diplomáticos, mas “não é parte na questão da Ucrânia”.

Mao respondia a uma pergunta sobre a possibilidade de Merz abordar com as autoridades chinesas, durante a visita, a guerra na Ucrânia e o papel de Pequim no conflito, afirmando que os líderes “trocarão opiniões sobre assuntos de interesse comum”.

Segundo a porta-voz, a visita de Merz permitirá reforçar a “cooperação e o benefício mútuo” entre os dois países. Mao assinalou que se trata da primeira deslocação do líder alemão desde que assumiu funções e assegurou que Pequim está disposta a aproveitar a ocasião para “melhorar o entendimento e a confiança mútua”.

Durante a visita, que decorrerá entre amanhã e quinta-feira, o governante alemão reunir-se-á com o Presidente chinês, Xi Jinping, e manterá conversações oficiais com o primeiro-ministro, Li Qiang, para abordar o estado das relações bilaterais e temas de interesse comum.

Grandes expectativas

Mao salientou que, enquanto segunda e terceira maiores economias mundiais, o desenvolvimento estável das relações bilaterais “corresponde aos interesses de ambas as partes e às expectativas da comunidade internacional”.

De acordo com o Governo alemão, Merz abordará em Pequim questões económicas, comerciais e de segurança, sendo acompanhado por uma delegação empresarial. Em 2025, a China foi o principal parceiro comercial da Alemanha, com um volume de trocas de 251,8 mil milhões de euros, segundo dados oficiais alemães.

A visita de Merz junta-se à série de deslocações de líderes ocidentais à China nos últimos meses, incluindo os presidentes ou primeiros-ministros de Espanha, França, Canadá, Irlanda, Reino Unido e Portugal.

Mais de mil assinaturas contra a expulsão de aluno que pediu inquérito a incêndio em Hong Kong

Mais de mil pessoas já assinaram uma petição a pedir a uma universidade de Hong Kong a reintegração do estudante que foi expulso após pedir uma investigação independente a um incêndio que causou 168 mortos. Docentes, alunos e antigos alunos da Universidade Chinesa de Hong Kong (CUHK, na sigla em inglês) já tinham assinado a petição online até domingo à noite, avançaram os promotores da iniciativa.

De acordo com um comunicado enviado à imprensa e citado pelo portal de notícias Hong Kong Free Press (HKFP), a petição foi lançada na sexta-feira por “um grupo de estudantes, docentes e alumni” da universidade.

Em 12 de Fevereiro, Miles Kwan Ching-fung, que lançou uma petição a pedir uma investigação independente ao incêndio que causou em Novembro 168 mortos num complexo habitacional em Hong Kong, anunciou que tinha sido expulso da CUHK. A petição lançada na sexta-feira critica a decisão de um comité disciplinar da CUHK de expulsar Miles Kwan, de 24 anos, como uma “injustiça processual”.

Em 14 de Fevereiro, o jovem disse ao HKFP que foi convocado para uma reunião do comité disciplinar, em 07 de Janeiro, devido a “múltiplos actos de má conduta”, mas que o comité nunca relevou quais os alegados actos. A petição alega que o comité “parece ter privado (…) Kwan do seu direito fundamental, constitucionalmente garantido, a um julgamento justo”.

Os promotores da iniciativa recordaram que as regras internas da CUHK prevêm que “os casos sob investigação policial/processos judiciais (…) devem ser tratados após o conhecimento do resultado da investigação/sentença judicial”.

Tragédia em Tai Po

Em 26 de Novembro, 168 pessoas morreram no complexo de habitação social Wang Fuk Court, no pior incêndio a atingir Hong Kong em quase oito décadas.

Três dias depois, a polícia de Hong Kong deteve Kwan por suspeita de sedição – um crime que pode acarretar a pena de prisão perpétua – depois de o jovem ter lançado uma petição, que chegou a reunir mais de mil assinaturas.

O estudante sublinhou que a CUHK admitiu “falta de informação” sobre a detenção e justificou a expulsão com a “atitude indelicada e desrespeitosa para com o comité” e uma alegada violação das regras de confidencialidade.

“Quando o comité considerou as provas insuficientes”, isso “deveria ter levado à suspensão do processo”, refere a petição lançada na sexta-feira. As duas novas acusações foram “impostas sem notificação prévia” a Miles Kwan e apenas “após a conclusão da audiência”, lamenta o documento.

Além disso, o estudante foi acusado de ter uma “atitude indelicada e desrespeitosa” apenas por questionar “a base jurídica do processo disciplinar”, acrescenta a petição.

Dias depois do incêndio, o líder do governo de Hong Kong, John Lee Ka-chiu, criou uma comissão de inquérito independente, presidida por um magistrado, para esclarecer as causas do fogo e da sua rápida propagação.

Harbin | Tigres siberianos em dieta após excessos de Ano Novo

Cerca de duzentos tigres siberianos de uma reserva no norte da China estão a cumprir um “jejum intermitente” para contrariar os efeitos do excesso de alimentação durante o Ano Novo Lunar, quando recebem grandes quantidades de comida dos turistas.

A direcção do Parque do Tigre Siberiano de Harbin, na província de Heilongjiang, anunciou em comunicado que o programa de dieta estará em vigor até 31 de Março, com o objectivo de melhorar a saúde e o bem-estar dos felinos, que terão recebido uma média recorde de 10.000 visitantes diários durante as férias recém-terminadas, segundo a imprensa local.

O parque permite aos visitantes comprar no local tiras de carne crua ou mesmo aves vivas para alimentar os tigres através de aberturas nas janelas dos autocarros que percorrem as instalações, uma das atrações mais populares do espaço.

Durante o período de dieta, será proibida, de forma rotativa, a alimentação dos animais num dos onze espaços ao ar livre onde vivem, no recinto com uma área total de 800 mil metros quadrados.

Para além da vertente turística e pedagógica, as instalações de Harbin desenvolvem também programas de investigação, conservação e reprodução, no âmbito dos esforços da China para preservar o tigre siberiano, espécie ameaçada de extinção.

Estima-se que existam apenas cerca de 500 exemplares deste felino em estado selvagem em todo o mundo, dos quais cerca de 70 na China, segundo dados do World Wildlife Fund (WWF).

Taiwan | Japão planeia deslocar mísseis terra-ar para perto da ilha

O Japão anunciou ontem planos para deslocar mísseis terra-ar para uma ilha japonesa perto de Taiwan até 2031, ao mesmo tempo que as autoridades japonesas aumentam os alertas sobre as ambições militares da China na região.

“O nosso plano é deslocar “mísseis terra-ar de médio alcance” durante o ano fiscal de 2030″ — ou seja, durante o período de 12 meses que termina em Março de 2031 — para a ilha de Yonaguni, a cerca de 110 quilómetros a leste de Taiwan, anunciou o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, durante uma conferência de imprensa regular.

A ilha de Yonaguni, isolada e localizada a aproximadamente 2.000 quilómetros de Tóquio, já alberga uma base das Forças de Autodefesa do Japão.

Este anúncio surge quando a China tem tomado uma série de medidas económicas, políticas e simbólicas contra o Japão desde Novembro, em retaliação a comentários feitos pela primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi. A líder do Japão sugeriu que uma intervenção militar do seu país seria possível no caso de um ataque chinês a Taiwan.

Desde então, a China tem desencorajado os seus cidadãos a viajar para o Japão. Ontem, anunciou que iria sancionar 40 empresas e organizações japonesas acusadas de participar na nova militarização do Japão, nomeadamente proibindo 20 destas de adquirir bens e tecnologias com potencial tanto civil como militar a empresas sediadas na China.

Confúcio, Matteo Ricci e a questão dos Ritos

O jesuíta Matteo Ricci (1552-1610) numa primeira abordagem interpretou como supersticiosos os ritos chineses, mas para os compreender melhor estudou a doutrina de Confúcio, na qual se baseava a sociedade chinesa e o seu sistema político com os princípios de Ordem, Paz e Harmonia.

O nome de Confúcio foi dado por Ricci a Kong Fu Zi (孔夫子, 551-479 a.n.E.), mestre Kong (Kongzi), que nascera no Período Primavera-Outono (770-476 a.n.E.), havia dois mil anos. Viveu durante a Dinastia Zhou do Leste, quando centenas de pequenos reinos até então federados começaram a ser conquistados e grande instabilidade surgia pelas contínuas guerras entre os reinos cada vez maiores e mais fortes. Sem governantes capacitados para esse novo espaço de gestão estratégica, apareceram muitos ilustrados mestres, entre eles Kongzi, que ofereciam os seus conhecimentos, colocando-os ao serviço do rei para a governação.

Kongzi reorganizou os conhecimentos antigos e sendo um grande educador transmitiu-os aos discípulos. Incutiu o respeito pelos Antepassados, como modo de vida propunha o aperfeiçoar da ética pela rectidão, benevolência e virtudes. Como filosofia, o caminho da sabedoria prática pela harmonia na vida social, na educação e na política, atribuindo grande importância à Paz, Harmonia e Ordem como princípio do bem governar e organizar o Estado. Após a sua morte em 479 a.n.E., os ensinamentos, apesar de no tempo terem passado à margem, tiveram seguidores confucionistas, administradores exímios e poderosos. Em 213 a.n.E. boa parte dos escritos foram destruídos pelo fogo, mas reproduzidos de memória perpetuaram-se na sociedade chinesa a partir da dinastia Han (206 a.n.E-220).

Kongzi advogava o conceito de Harmonia: um Universo ordenado, em que o ser humano deve procurar manter as relações harmoniosas com a Natureza, consigo mesmo e com o próximo. Regulou as relações humanas, para as quais encontrou cinco fundamentais: soberano e súbditos, pais e filhos, marido e mulher, irmão mais velho e os mais novos e entre amigos. “Observados os deveres entre uns e outros há harmonia; de contrário, reina a desarmonia. A relação mais importante é a do pai e filho e a virtude central que a governa é a piedade filial (孝, xiao). Sobre esta virtude e as que a acompanham – obediência, respeito e serviço – construiu-se a estrutura da sociedade chinesa.” Entre aspas está o que creio ser do Padre Benjamim Videira Pires, mas poderá ter outro autor e por esta falta me penitencio e agradeço a quem corrija e nos desfaça tal dúvida. O artigo a partir daqui está estruturado sobre esse texto, de onde provêm as citações, pois creio merecer o assunto importância suficiente para ser publicado.

O kow-tow nos ritos

“A piedade filial não deve cessar com a morte dos pais; o filho deve continuar a servi-los como se vivessem, e este dever estende-se a todos os antepassados da família. Confúcio ao estender a piedade filial aos mortos fomentou essa virtude em vida”, levando as acções a serem realizadas como mostra de respeito aos antepassados e desejo de alcançar as suas perfeições com a ajuda do exemplo, imitando-os; – a melhor maneira de honrar a família.

Em memória dos Antepassados realizavam-se rituais nas casas onde se encontravam as tabuletas em madeira inscritas com os nomes dos defuntos antepassados masculinos, pai, avô e bisavô, pois chegando a trisavô passava a tabuleta a ter direito a constar no Templo de Família, até entrar ao fim de algumas gerações no dos Ancestrais. Às tabuletas dirigiam-se expressões de reverência e respeito, num ambiente com flores, velas, incenso, pois a intenção é “arranjar um certo lugar ou termo para onde possam elevar as suas mentes; e para o qual, como para uma pintura, possam dirigir as costumadas honras, como se eles estivessem presentes.” Nesta cerimónia fazia-se “o kau-táu (bater cabeça), em que uma pessoa se ajoelha e inclina profundamente até tocar com a testa no solo. É o costume chinês do respeito: nove prostrações ao trono nas recepções imperiais; prostrações nos tribunais perante os magistrados e dos filhos perante os pais e sogros. Assim, nada há de religioso nas prostrações nos funerais diante do caixão e não se podia afirmar que se tratava de adoração dos mortos.”

Tudo isto levou Ricci a modificar a primitiva opinião: “o que ao europeu parecia superstição e adoração, para o chinês era apenas uma expressão simbólica da piedade filial. O facto de usarem as mesmas cerimónias para os vivos levava a crer que não se tratava de actos religiosos quando aplicados aos mortos. Tal era o caso da queima do incenso (…). As pessoas educadas costumavam receber os hóspedes com incenso, que era parte do cerimonial da etiqueta, que dava graça e harmonia às relações sociais, sendo um sinal de respeito. Não havia, pois, razão para lhe dar um significado religioso quando era usado nos funerais, perante as tabuletas ou nas salas de Confúcio.”

Após longas discussões com os amigos chineses, Ricci concluiu nada haver de idólatra nos ritos ancestrais nem talvez de supersticioso e “submeteu estas opiniões a Valignano, que as discutiu com os seus consultores. A conclusão foi ser permitido participar nos ritos solenes em honra dos antepassados da família com a condição de não se queimar o papel-dinheiro, mas não era permitido tomar parte nas cerimónias solenes em honra de Confúcio com o sacrifício duma vítima, porque, segundo dizia Furtado, “cheiram fortemente a superstição>” (Cit. por Dunne, Generation of Giants).” Em dias prescritos pelo ritual, com aparência de sacrifícios religiosos, oferecia-se aos antepassados um animal (imolado no local), vinho, seda…, seguindo um banquete familiar. Segundo os jesuítas, “Devia-se repudiar a ideia de os espíritos tomarem alimento da comida oferecida; e de não se fazer orações ou pedidos aos mortos”.

Outras cerimónias os jesuítas permitiam e até observavam. “Por ocasião da morte de alguém, os amigos, que vinham dar os pêsames, envergavam, como luto, uma veste de seda branca; ao entrar no quarto, faziam quatro vezes o kau-t’au diante do defunto; os filhos do defunto repetiam então o mesmo gesto; o visitante, aproximando-se mais do caixão, voltava a fazer a mesma cerimónia.

Os ritos em honra de Confúcio eram apenas praticados pelos letrados e não diferiam no essencial das cerimónias ancestrais,” sendo após a “passagem nos exames feitas prostrações perante a tabuleta de Confúcio numa sala dedicada ao mesmo. Iguais ritos, prostrações e queima de incenso eram observados pelos oficiais e letrados nos dias da lua nova e lua cheia.”

O confucionismo baseia-se nos ensinamentos de Kong Fuzi, reformador que a partir dos ritos dos Zhou reorganizou a ordem da sociedade e estruturou na China o pensamento humano pelos conceitos de virtude, justiça, tolerância e generosidade. Para a sabedoria prática, a importância da Astronomia e na preparação do Calendário, pois qualquer incorrecção perturba o balanço entre o Céu e a Terra. 完

Hong Kong | Festival de Artes arranca esta semana com muitas estrelas

O maestro John Eliot Gardiner, Yuen Siu-fai, veterano de ópera cantonense, e a coreógrafa Anne Teresa de Keermaesker, são alguns dos nomes bem conhecidos do panorama das artes que marcam presença na edição deste ano do Festival de Artes de Hong Kong, que começa oficialmente esta sexta-feira. Até Março, podem ser vistos mais de 170 apresentações integradas em 45 programas artísticos, onde não falta o Coro da Gulbenkian, de Portugal

Começa esta sexta-feira a 54.ª edição do Festival de Artes de Hong Kong, um dos maiores eventos anuais da região vizinha. E como já é habitual, é de esperar uma diversidade de programas artísticos, que vão desde a música à performance teatral, com nomes bem conhecidos como o maestro Sir John Eliot Gardiner, tido como uma “lenda da música”; o “veterano da ópera cantonense” Yuen Siu-fai; a “coreógrafa consagrada” Anne Teresa De Keersmaeker, o tenor Benjamin Bernheim, a grande estrela de ballet Roberto Bolle e ainda o dramaturgo Meng Jinghui.

Estes nomes servem de grande aperitivo para um cartaz que traz mais de 1.100 artistas internacionais, 170 apresentações ligadas a mais de 45 programas, e ainda “300 eventos PLUS, actividades educativas e de extensão comunitária”, revela um comunicado oficial do evento.

O espectáculo de abertura do festival é protagonizado pelo Ballet Nacional de Espanha, acontecendo esta sexta-feira. “La Bella Otero” é descrita como uma “produção de grande escala que conta a história da sedutora artista espanhola do século XIX, Carolina Otero, outrora uma das mulheres mais famosas do mundo”.

Neste espectáculo, dirigido por Rubén Olmo, foi reimaginada “a vida extraordinária de Otero através da coreografia, estabelecendo paralelos intrigantes com ‘Carmen’, de Bizet”, apresentando-se também “uma variedade de danças espanholas”.

Destaque ainda para o “Teatro-Dança” de nome “Dream in The Peony Pavillion”, marcado para 27 de Março, uma “produção de dança chinesa deslumbrante e emocionalmente comovente”, e que tem direcção e coreografia assinadas por Li Xing, “um dos mais procurados directores da nova geração” na China. “Dream in The Peony Pavillion” traz uma nova interpretação da peça da dinastia Ming, de Tang Xianzu, com uma roupagem contemporânea. Aqui “homenageia-se a clássica história de amor chinesa num estilo etéreo e surreal”.

A 54ª edição do festival traz ainda ópera, nomeadamente “Eugene Onegin”, romance em verso de Alexandre Pushkin, publicado em 1831, e que foi adaptado para uma versão musical por Tchaikovsky.

O que se poderá ver em Hong Kong é uma “obra-prima clássica da ópera romântica russa, raramente encenada no território, com um notável elenco de solistas, orquestra e coro de uma das mais prestigiadas instituições culturais da República Checa e um pilar da vida operática da Europa Central”.

Esta é “a história de um amor não correspondido, de uma amizade destruída e do arrependimento assombroso”, que ganha nova vida com a encenação do Teatro Nacional de Brno.

Gulbenkian marca presença

A programação musical está em destaque “com actuações únicas que abrangem a música clássica, jazz e músicas do mundo”, com foco em “dois recitais de tirar o fôlego, com dois recentes vencedores do Concurso Internacional de Piano Van Cliburn”.

O maestro Sir John Eliot Gardiner vai dirigir, com o recém-criado “Constellation Choir & Orchestra”, com obras-primas de Mozart e Bach. Haverá ainda um concerto cinematográfico de Cameron Carpenter, juntamente com o clássico do cinema mudo chinês “Sports Queen”, enquanto Roberto Fonseca traz “La Gran Diversión”, em celebração “da era dourada do jazz cubano”.

De Portugal, chega o Coro da Fundação Calouste Gulbenkian, “com obras contemporâneas e repertório de Bach e Brahms”. Lo Kingman, presidente do festival, declarou, citado pela mesma nota, que organizar um evento desta dimensão exige apoios públicos e também grandes receitas de bilheteira.

“Organizar um festival internacional de artes desta dimensão exige uma enorme quantidade de recursos, especialmente num contexto de custos em rápida e constante ascensão. Este ano, o Festival precisa gerar um total de, pelo menos, 159 milhões de dólares de Hong Kong, dos quais cerca de 24 por cento terão de provir da bilheteira.” O responsável lembrou o subsídio de 18,34 milhões de dólares de Hong Kong concedido pelo Governo, o que representa 12 por cento da receita anual do evento.

Da programação deste festival destaca-se ainda a iniciativa “KAGAMI”, da série Jockey Club InnoArts, e que recorda o falecido pianista e compositor Ryuichi Sakamoto. Juntamente com Tin Drum, o que o público poderá ver e ouvir é uma expansão “das fronteiras criativas através da magia da realidade mista”, tudo isso num recital de piano fora do comum.

Na parte da conexão do festival aos bairros comunitários, destaca-se o programa “PLUS”, com visitas culturais guiadas, uma delas à comunidade piscatória de Hong Kong e ao bairro de Sheung Wan, “proporcionando um vislumbre da Hong Kong literária e retro da década de 1960”.

Fundado em 1973, o Festival é um dos principais eventos artísticos da região e um importante festival internacional. Este ano apresenta-se ainda o festival No Limits Hong Kong, que, com o apoio do The Hong Kong Jockey Club Charities Trust, promove a inclusão no mundo das artes para pessoas portadoras de algum tipo de deficiência.

Economia | Wong Un Fai fala em “janela de oportunidade” para Macau

Wong Un Fai, vice-secretário-geral da associação para o Desenvolvimento de Macau, defendeu, num artigo de opinião publicado no jornal Ou Mun, que a economia do território tem actualmente “uma janela de oportunidade” tendo em conta que Macau está a atravessar um período de transformação das suas indústrias, sendo que o caminho é para que haja um desenvolvimento mais saudável e diversificado.

O responsável recordou que o Produto Interno Bruto (PIB) de Macau recuperou cerca de 90 por cento face aos números pré-pandemia, sendo que o turismo continua a representar uma importante fatia do PIB. Wong Un Fai não esqueceu que o mercado imobiliário revelou, em Janeiro, transacções mais activas, com mais de 800 casos de pedido de isenção de selo. Tal representa um nível mais elevado face ao nível médio mensal dos pedidos do ano passado.

No artigo de opinião é referido, porém, que esta recuperação económica não é sentida em todos os sectores, tendo em conta que os benefícios para o turismo continuam a verificar-se em alguns locais e os bairros comunitários continuam a ter falta de visitantes. Quanto ao consumo, está dependente dos festivais que se realizam, lembrou.

Wong Un Fai disse ainda que os anos de pandemia mostraram como a economia de Macau pode ficar vulnerável se depender de um único sector, pelo que agora, em plena recuperação económica, há espaço para avançar com reforma e planeamento.

Em relação ao Governo, o dirigente associativo diz que é necessário um maior esclarecimento público das políticas e que haja uma perspectiva mais alargada, pois o mercado não gosta de incerteza. Por isso, na sua visão, o Executivo tem de continuar a dar sinais em prol da estabilidade das previsões económicas e da construção de um “ciclo virtuoso” de investimento e inovação.

Wong Un Fai concluiu que a economia de Macau já saiu do ponto mais baixo, mas falta ainda terminar a sua mudança estrutural.

Jogo | JP Morgan reduz previsões das receitas

Após ter estado em Macau a observar as mesas de jogo durante o Ano Novo Lunar, os analistas do banco de investimento reduziram a estimativa de crescimento das receitas do jogo para um máximo de 2 por cento

Após o período do Ano Novo Lunar, o banco de investimento JP Morgan Securities (Asia Pacific) reduziu as previsões de crescimento do mercado do jogo em Fevereiro. Segundo o relatório mais recente, citado pelo portal GGRAsia, os analistas apontam que no melhor cenário as receitas deverão crescer cerca de 2 por cento, sendo mais provável que se mantenham estáveis.

“Com base nas nossas análises, as receitas brutas do jogo nos primeiros 22 dias de Fevereiro atingiram 14,3 mil milhões de patacas, ou 650 milhões de patacas por dia”, pode ler-se no relatório assinado pelos analistas DS Kim, Selina Li e Lindsey Qian. “A média diária de receitas – abrangendo tanto os períodos mais calmos como os de pico das férias do Ano Novo Lunar – ficou em 785 milhões de patacas por dia, aquém da nossa previsão de 850 milhões de patacas”, foi acrescentado.

Anteriormente, a JP Morgan Securities (Asia Pacific) previa que as receitas apresentassem um crescimento de 2 a 5 por cento em Fevereiro, face ao ano passado.

Os meses de Janeiro e de Fevereiro costumam coincidir com uma época alta do jogo, devido aos turistas do Interior que visitam Macau durante as celebrações do Ano Novo Lunar e nos feriados associados. Este ano o Ano Novo Chinês celebrou-se a 17 de Fevereiro, mas no ano passado coincidiu com 29 de Janeiro.

Começo lento

Durante os primeiros dias do ano novo lunar, os números estiveram longe de entusiasmar os analistas: “as férias começaram a um ritmo lento, e a média de receitas dos primeiros quatro a cinco dias não foram além dos 450 milhões de patacas por dia”, foi indicado. Este ritmo foi apresentado como uma diminuição das receitas superior a 10 por cento, em comparação com o período do Ano Novo Lunar de 2025.

Todavia, nos dias seguintes, o ritmo das receitas acelerou de forma significativa com as receitas diárias a ultrapassarem o montante de 1,2 mil milhões de patacas, o que representou um crescimento de 10 a 15 por cento face ao período homólogo.

Com os feriados a chegarem ao fim, os analistas DS Kim, Selina Li e Lindsey Qian acreditam que até ao final do mês os gastos dos jogadores ainda podem disparar, o que pode gerar um crescimento das receitas de 2 por cento. “Os próximos dias são importantes – esta fase de ‘procura residual’ pós-feriados costuma ver os jogadores dos segmentos mais elevados a acelerarem os gastos. Teremos uma visão completa dos resultados das receitas do jogo do mês inteiro no fim-de-semana”, foi apontado.

Apesar das estimativas menos optimistas, os analistas destacam o momento positivo do mercado e que o somatório dos dois primeiros meses do ano vai gerar um crescimento anual das receitas de 12 a 13 por cento.