Letras&Companhia | Lançada versão chinesa de “A aventurosa viagem do Pátria” Andreia Sofia Silva - 9 Abr 2025 Lançado em Novembro do ano passado, em Portugal, o livro infanto-juvenil “A Aventurosa viagem do Pátria”, da autoria de Filipa Brito Pais, é apresentado este sábado no festival Letras&Companhia, mas em versão chinesa – “祖国号”的冒险之旅 从葡萄牙飞行到澳门 (1924). Eis a história da primeira viagem aérea entre Vila Nova de Mil-Fontes e Macau protagonizada pelos aviadores Sarmento Beires, Brito Pais e Manuel Gouveia O festival infanto-juvenil Letras&Companhia, promovido pelo Instituto Português do Oriente (IPOR), acolhe este sábado o lançamento da versão chinesa de “A aventurosa viagem do Pátria”, livro da autoria de Filipa Brito Pais, docente, que conta a história da primeira viagem aérea entre Portugal e Macau protagonizada pelos aviadores Sarmento Beires, Brito Pais, tio-bisavô da autora, e o mecânico Manuel Gouveia. No ano passado celebrou-se o centenário desta viagem, e vai daí Filipa quis contá-la a um público mais jovem. A obra conta com ilustrações de Leonor Almeida. Numa nota enviada à imprensa, Filipa Brito Pais descreve que “como professora do primeiro ciclo, tenho ido a diversas escolas em Portugal e Macau para cumprir o meu dever de memória em relação ao meu tio”. Desta forma, “surgiu a possibilidade de escrever um livro infanto-juvenil que me acompanhasse nas palestras que dou, pela falta de informação adequada ao público mais jovem, e tem feito um sucesso no público mais adulto”. “A aventurosa viagem do Pátria” tem prefácio do Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, bem como o apoio de diversas entidades ligadas a Macau. Numa altura em que se conhece a versão traduzida para chinês, a obra já foi apresentada a mais de 2500 alunos em escolas e bibliotecas municipais em Portugal. Coube ao IPOR fazer a tradução da obra. Aquando do lançamento em Portugal, Filipa Brito Pais afirmou ao HM que muitas histórias da viagem tiveram de ficar de fora, mas que esta é uma homenagem a heróis que ficaram no esquecimento na historiografia portuguesa. “Não retrata todas as etapas, porque seria impossível que o fizesse por ser para crianças. É um livro cuja história está bastante reduzida, até a pedido do meu editor, porque queria meter todas as peripécias e aventuras que eles viveram. A história de escreverem na tela do avião, na partida, foi uma das que não escrevi. O facto de Manuel Gouveia [o mecânico], dizer que era um homem do Norte, e que se fosse para morrer, morria-se. Outra do banho tomado a água fria que afinal era água a ferver”, contou. Para a autora, tratam-se de peripécias “demonstrativas de coragem e perseverança, capacidade de liderança”, sendo que este é um livro com uma mensagem forte, para que os jovens “não desistam dos seus sonhos”. Alimentar a memória Na mesma nota enviada aos jornais, Filipa Brito Pais descreve o facto de “estes heróis nacionais [terem sido] esquecidos na história por questões políticas”, nomeadamente pela oposição de um dos aviadores à Ditadura Militar de 1926. O facto de o regime ditatorial do Estado Novo ter sido instituído uns anos depois em Portugal, em 1933, contribuiu ainda mais para que esse feito aéreo tenha caído no esquecimento. Para realizar a viagem, foram criadas várias campanhas populares de captação de fundos, mas o percurso aéreo que ficou mais conhecido foi mesmo a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. “Tive a honra de ter estado presente, em Junho de 2024, em Macau e Hong Kong aquando das celebrações das comemorações do centenário da viagem do meu tio, em representação da família Brito Pais. Terei agora a maior honra de apresentar o livro em chinês e homenagear estes três heróis portugueses na diáspora”, afirmou. “Brito Pais e Sarmento de Beires sonharam em voar e em honrar a Pátria e Camões, escolhendo o destino de Macau, que nessa época era terra portuguesa. Sem apoios financeiros e com um avião velho e pesado, arriscaram e voaram por países que até então, nunca ninguém tinha ousado voar. Foram muitas as aventuras e poderiam ter desistido perante as adversidades que foram encontrando, mas não! Eles continuaram”, disse ainda na entrevista ao HM.
Apuramento da Taça GT – Corrida da Grande Baía decide-se em Pingtan Sérgio Fonseca - 9 Abr 2025 A segunda prova de apuramento para a Taça GT – Corrida da Grande Baía da 72.ª edição do Grande Prémio de Macau não será disputada no Circuito Internacional de Zhuhai, como inicialmente previsto, mas sim no Circuito Internacional da Cidade do Lago Ruyi, na região turística de Pingtan, em Fuzhou. O calendário da temporada de estreia da SRO GT Cup ficou finalmente definido ontem, com o anúncio oficial da confirmação de que o circuito semi-permanente de Pingtan acolherá a terceira e quarta rondas do campeonato para viaturas GT4, nos dias 28 e 29 de Junho. Pingtan junta-se, assim, a Xangai, Pequim e Macau no calendário deste ano do campeonato lançado pela SRO Asia em parceria com a Associação Geral Automóvel de Macau-China (AAMC). A pista de Pingtan substitui Zhuhai, que constava no calendário provisório divulgado em Janeiro, mas que não conseguiu confirmar o seu evento. Esta nova data também não é coincidência, já que o evento da SRO GT Cup fará parte das actividades culturais Pingtan-Macau previstas para o mês de Junho. O pitoresco traçado de Pingtan – que combina cenários urbanos modernos e costeiros – continua largamente desconhecido fora da China. Inaugurado em 2022, o circuito conta com dois traçados que incorporam estradas públicas existentes na Ilha de Pingtan, secções construídas de raiz e boxes permanentes. Ambas as corridas da SRO GT Cup terão lugar no circuito de 2,9 quilómetros e 14 curvas, já utilizado por campeonatos nacionais como o China Endurance Championship (CEC) e o Campeonato Chinês de Fórmula 4. Início promissor A temporada de 2025 da SRO GT Cup arrancou de forma espetacular, com 33 carros – a maior grelha de GT4 alguma vez reunida na Ásia – a disputar duas corridas de apoio ao Grande Prémio da China de Fórmula 1, no mês passado. Integradas no programa oficial da F1, Chen Weian (Audi) e Lichao Han (Toyota) venceram as duas corridas que servirão de base para a seleção dos concorrentes com direito a participar, este ano, na Taça GT – Corrida da Grande Baía. Até 28 carros poderão competir na Taça GT – Corrida da Grande Baía, que se realiza no evento de final de temporada, nas ruas de Macau. Os lugares serão atribuídos com base na classificação após esta segunda jornada, agendada para Pingtan. Na disputa por uma vaga estiveram em Xangai seis pilotos da RAEM: Kevin Leong Ian Veng, Miguel Lei, Cheng Tou Wong, Wai Ming Fok, Kim Hou Lao e Un Hou Ip. Charles entra com o pé direito Ainda nas provas de GT, mas na Austrália, o piloto de Macau Charles Leong Hon Chio venceu as duas corridas da jornada inaugural do Lamborghini Super Trofeo Asia em Sydney. O jovem piloto do território, ao volante do Lamborghini Huracán Super Trofeo EVO2 da SJM Theodore Racing, dominou com autoridade as duas corridas disputadas no Sydney Motorsport Park, fazendo equipa com o irlandês Alex Denning. Após uma abertura de temporada sensacional, o Lamborghini Super Trofeo Asia regressa à ação no próximo mês, com a segunda ronda a decorrer no palco do Grande Prémio da China, o Circuito Internacional de Xangai, de 16 a 18 de maio. Depois de ter terminado em segundo lugar em 2024, Charles Leong está decidido a conquistar o título da competição da marca italiana na Ásia em 2025.
Visita | Elogiado papel de Espanha na aproximação da China à UE Hoje Macau - 9 Abr 2025 A China destacou ontem o papel positivo que Espanha está a desempenhar na melhoria das relações entre Pequim e a União Europeia, num contexto de crescentes tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos. “Os laços entre a China e a Espanha mantêm a estabilidade estratégica e baseiam-se na abertura, na cooperação e no benefício mútuo”, disse ontem o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian, numa conferência de imprensa em Pequim, onde o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, tem previsto iniciar amanhã uma visita oficial. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros descreveu a Espanha como “uma importante economia europeia e um parceiro de cooperação fundamental no seio da União Europeia”. A viagem acontece num período de escalada da guerra comercial entre a China e os Estados Unidos e depois de o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, ter falado com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Os dois líderes comprometeram-se a defender o comércio livre e a reforçar o papel da Organização Mundial do Comércio (OMC). Sánchez será recebido em Pequim pelo Presidente chinês, Xi Jinping, e terá reuniões com o primeiro-ministro, Li Qiang, visando diversificar os mercados de exportação, reforçar os laços económicos com a Ásia e enfrentar desafios globais como as alterações climáticas e a guerra na Ucrânia.
UE | Câmara de Comércio na China diz que empresas devem repensar estratégias Hoje Macau - 9 Abr 2025 A Câmara de Comércio da União Europeia na China afirmou ontem que as taxas alfandegárias de 104 por cento impostas pelos Estados Unidos sobre produtos chineses “exigem um repensar estratégico dos modelos de negócio e das cadeias de abastecimento”. A instituição afirmou, em comunicado, que as taxas conduzirão a “aumentos substanciais dos custos operacionais” e “a ineficiências”, o que, em última análise, significará “preços mais elevados para os consumidores”. Muitas das empresas que são membros da Câmara já alteraram ou estão a alterar as suas estratégias comerciais para um modelo “na China para a China”. “Isto tanto para mitigar os riscos decorrentes das tensões comerciais e para cumprir os requisitos regulamentares e de aquisição da China, que promovem cada vez mais os produtos ‘made in China’, como por razões comerciais”, acrescentou o texto. Segundo a instituição, num contexto em que os Estados Unidos estão “a recuar em muitos dos princípios que sustentaram a sua abordagem comercial global, gerando uma incerteza económica global sem precedentes”, a China tem agora “a oportunidade de estabelecer um ambiente de negócios que proporcione a estabilidade e a fiabilidade de que os investidores necessitam”.
Tarifas | Xi Jinping defende reforço de laços com vizinhos Hoje Macau - 9 Abr 2025 O Presidente chinês, Xi Jinping, apelou ontem ao “reforço dos laços estratégicos com os países vizinhos”, na sua primeira aparição pública desde que Donald Trump aumentou para 104 por cento as taxas alfandegárias sobre a China. Xi, que não mencionou o Presidente norte-americano, instou os seus funcionários, durante uma reunião de trabalho, a melhorarem as relações com os países vizinhos “através de uma gestão adequada das diferenças”, com vista a “reforçar os laços nas cadeias de abastecimento”, informou a agência noticiosa oficial Xinhua. As relações da China com os países vizinhos estão “no seu melhor nível na História moderna” e, ao mesmo tempo, Pequim está a entrar “numa fase crucial profundamente interligada com as mudanças na dinâmica regional e nos desenvolvimentos globais”, observou. O líder chinês defendeu que a diplomacia da China com os seus vizinhos se baseará na construção de uma “comunidade de futuro partilhado”, uma das frases mais repetidas pelos líderes do Partido Comunista Chinês (PCC) em que se defende que a prosperidade só é sustentável se as nações trabalharem em conjunto. Na reunião, foi salientado igualmente que a China deve reforçar o seu sentido de responsabilidade e manter uma “diplomacia de vizinhança de amizade, sinceridade, benefício mútuo e inclusividade”. Gestão de diferenças Foi igualmente sublinhado que a China deve “apoiar os países da região a manterem as suas próprias vias de desenvolvimento e a gerirem correctamente os conflitos e as diferenças”. “Devemos construir uma rede de interconexão de alto nível e reforçar a cooperação nas cadeias industriais e de abastecimento”, acrescentou o líder chinês, frisando a importância de “manter conjuntamente a estabilidade regional e cooperar em matéria de segurança e aplicação da lei”. O líder chinês não fez qualquer referência aos Estados Unidos e Pequim tem sublinhado até agora que não vai ceder às tarifas de Trump. Trump ordenou na terça-feira a aplicação de uma tarifa adicional de 50 por cento sobre os produtos chineses, elevando o total das taxas alfandegárias para 104 por cento. Pequim anunciou anteriormente uma taxa de 34 por cento sobre os produtos norte-americanos, depois de Trump ter imposto uma taxa na mesma percentagem sobre os produtos chineses, e anunciou ontem um acréscimo de 50 por cento à taxa imposta, totalizando agora uma tarifa de 84 por cento. Nas possíveis futuras negociações entre Pequim e Washington está também o futuro das operações da aplicação TikTok nos EUA, que o Governo de Trump exigiu que se desligue da sua empresa-mãe, a chinesa ByteDance, para poder operar em território norte-americano. Mais 50 por cento A China anunciou ontem uma taxa adicional de retaliação de 50 por cento sobre as importações oriundas dos Estados Unidos, para 84 por cento, intensificando a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. O Ministério das Finanças chinês afirmou que as novas taxas se aplicam para além das 34 por cento anteriormente anunciados sobre as importações dos Estados Unidos. As taxas entram hoje em vigor.
A imagem como o grande cesto materialista da arte Rosa Coutinho Cabral - 9 Abr 2025 “ Não é que o passado lance sua luz sobre o presente ou que o presente lance sua luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação” (Walter Benjamin) Tentando salvar a história das suas grandes tradições, para a fenomenologia, Heidegger não escapa a um resíduo idealista, como se as coisas do mundo lhe pertencessem a ela, à história e ao seu curso de uma só direcção, diz-nos Bragança de Miranda. Para Benjamin, na sua busca de uma superfície tangível dos objectos contaminados pelo tempo, o que lhe interessava era seguramente a perfuração háptica que encontramos em Caravaggio e em Fontana – o último trazendo ao objecto artístico um gesto claramente performativo e – como em tudo o que acontece no aqui e agora – capaz de recriar ou inspirar o caos nas coisas ditas artística. Coisas que já não se oferecem num curso harmonioso e não pertencem – nem à história, nem à estética, mas ao mundo como as pedras ou as palavras que nos saltam da boca. Superando de algum modo o punctum barthianao, a imagem dialéctica de Benjamin escapa à “historicidade” que se oferece como um altar sagrado onde as coisas da arte se eternizam – teleologicamente – num outro mundo onde as condições do mundo não se fazem sentir – onde é suposto que nada se perca, estrague, ou transforme na essência das coisas, e das obras, neste caso da obra de arte. O que interessa a Benjamin ecoa perturbadoramente em Duchamp, porque no vaivém entre o passado, o presente e o futuro, as coisas feitas seres que captam no acto de fazer a sua potência , é que possibilidade de pertencimento a um tempo determinado, se expande no gesto em que a obra afecta a sua própria historicidade, e pode ser lida em qualquer momento. Indicia a possibilidade do seu tempo e a potência da sua recepção em qualquer momento. É um boomerangue kronotópico e anmórfico. Infixo desde o momento em que se fixa. Como Benjamin dizia, apoderar-se de alguma coisa, no momento em que o perigo brilha, é fatal. Referia-se no entanto à potência do mito, que aqui prometeicamente pertencem aos que se aventuram a roubar o fogo aos deuses – o castigo é a esventração e o canibalismo dos outros, podendo, nestes outros, ler-se no mundo, no universo, no todo que existe e que não sabemos os limites, se bem que os possamos adivinhar. Para Benjamin, por isso, as coisas e obras feitas por artistas só podem ecxistir numa imagem que cintila como uma estrela, que se vê conforme as condições e os meios, e que faz parte de uma rede, um puzzle, ou, melhor, aproveitando a sua própria metódica ensaísta – numa constelação. Eu adoro lembrar a geometria do céu para saber onde se encontra a ursa maior e a ursa menor. Olhar o céu, este enorme ecran de imagens moventes, imagens que aparecem e desaparecem na enorme pele do mundo, porque mais não vemos para além dela, mesmo sabendo que existe mais. Que existe um universo inteiro de possibilidades. Nós, os que fazem e os que vêm, tocam ou usufruem da performatividade e efeitos do fazer, somos – como dizer – entranhas dentro deste enorme corpo que é o mundo. E desejamos repeti-la nos nossos pequenos gestos de artistas, e termos tanto impacto como o extraordinário espectáculo do céu, das sombras, do mar… E como o fazemos? Procurando criar imagens que expressam o tempo no seu espaço, sem se contaminarem por ele. Deixando-o à solta. Permitindo-nos duvidar dos nossos actos que já não são eternos nem pertencem da História, mas fazem parte de um arquivo incrível de possibilidades: todos podemos fazer, mas nem todos temos o efeito de afectar o mundo e, de algum modo, causar transtorno. Do acervo de possibilidade, do arquivo de todos os tempos e espaços, de todos os sonhos e modos de fazer, de todas as sensibilidades vem o objecto inflamado de originalidade – aquele cuja forma ainda não reconhecemos, aquele que re-arranja , desarranja, altera… aquele que convida um tempo a sentar-se para jogar xadrez com outro tempo. E a tal partilha do sensível, de que nos fala Rancière, é difícil. Tão difícil como temos a mesma imagem do mundo. Creio que estas coisas – que poucos vêm porque não reconhecem o novo aspecto, e que contemporaneamente na imensa libertação de normas excludentes, pode ter qualquer forma, nos conduz a uma inversão da teoria da Gestalt: já não é possível partilhar nada – nem mesmo o mundo e a sua grandiosa pele, o céu azul de Bataille. O grande mal de Ricoeur devora os olhos dos cadáveres e a imagem possível é a de um kit de sobrevivência perante a eminência de uma pavorods guerra nucleara à escala mundial. Como Agamben nos alerta, o gesto contemporâneo parte da urgência de responder. Que resposta nos trazem as imagens de todos os tempos se acreditarmos que não há kit de sobrevivência para a arte? Ela está sempre a mudar – tocada pela graça da aparição, ela está em decomposição como tudo o que está dentro do mundo. Como a luz… que hoje arrancamos à máquina e à técnica numa agónica comoção estética para ainda ver quando o mundo regorgitar a existência. O que fica, para já, é à martelada, ao arrepio do tempo, sem a iníqua verdade, muito nietzschianamente agourando que todos tentamos faze a nossa parte, sabendo da morte olharuda que tudo vê. Cada vez mais consciente que as coisas da arte não lhe podem escapar depois da brusquidão do seu nascimento, em perturbantes objectos que cada vez mais interferem performativamente com o estado das coisas, lembrando um maravilhoso filme de Wenders, os artistas autores, aqueles que afectam e alteram a aparência da aparição da obra de arte, como Duchamp, são viajantes imóveis que largam objectos-imagens que falam. Gritam. Lutam. Voam para o céu. Caem e explodem politicamente a terra onde vivemos onde tudo o que existe é imagem – sendo esta a constante matéria que emana do acto de fazer coisas – artísticas ou não.
Tarifas | Fornecedores recorrem a mercados alternativos João Luz e Nunu Wu - 9 Abr 2025 Macau estabeleceu acordos comerciais com Canadá, Austrália, Japão, e países europeus e do sudeste asiático que permitem minimizar o efeito das tarifas impostas pela Casa Branca, que entraram ontem em vigor. O presidente Associação da União dos Fornecedores de Macau refere que a partir do fim de Maio os efeitos serão imprevisíveis Entrou ontem em vigor a tarifa adicional a produtos chineses, elevando para 104 por cento a taxa total, implementada pela Administração de Donald Trump, e à qual Pequim respondeu também elevando a parada na guerra comercial que a Casa Branca declarou a um vasto leque de países e regiões. Para já, a curto-prazo, o presidente da Associação da União dos Fornecedores de Macau, Ip Sio Man, considera que as tarifas impostas pelo Governo dos Estados Unidos da América (EUA) não terão impacto no fornecimento de produtos e nos preços praticados em Macau. Em declarações ao jornal Ou Mun, o dirigente associativo referiu que nos últimos anos, Macau assinou protocolos comerciais com vários países que garantem a diversificação das fontes de produtos importados, que resultaram na substituição de muitos produtos importados dos EUA. Ip Sio Man revela que, por exemplo, parte da carne oriunda dos EUA foi substituída por carne do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, além da fornecida pelo Japão e países europeus. Em relação a frutas, o representante aponta que a larga maioria é comprada a fornecedores do Interior da China. Para já, os contentores que foram carregados antes de 5 de Abril e os que já se encontram em rota para Hong Kong foram apenas sujeitos a uma taxa de 10 por cento. Porém, Ip Sio Man confessou ser difícil de prever o que acontecerá às ligações comerciais com os EUA e aos preços quando começarem a chegar navios de carga já com produtos tarifados, algo que deve acontecer no fim do próximo mês. Problemas de rotas O presidente da associação de fornecedores tem uma visão optimista do panorama comercial, argumentando que os países e regiões vizinhos, sobretudo do sudeste asiático, podem procurar mercados com impostos baixos, como Hong Kong e Macau, para exportar os seus produtos e que essa concorrência pode levar à descida dos preços. Além das tarifas de Trump, Ip Sio Man salientou a instabilidade que tem cortado severamente o transporte marítimo no Mar Vermelho, devido às ofensivas de Israel e EUA no Iémen e os ataques dos rebeldes hutis, que têm atacado navios de carga. Esta situação afectou o comércio de bens oriundos de Portugal, com a venda de produtos como o azeite, que passaram a demorar dois meses, o dobro do tempo, a contornar a zona de conflito. O principal impacto foi sentido ao nível dos produtos frescos, de curta validade, como queijos, produtos lácteos e carnes premium, que ficaram mais caros. O HM falou com um empresário português que importa produtos portugueses e que, devido aos atrasos no transporte marítimo, passou a optar pela via aérea. Apesar do aumento dos custos do transporte, a gestão de stock obrigou à procura de alternativas à rota marítima, que chega a demorar três meses a ligar Portugal a Macau.
SPU | Abertas inscrições de residentes para simulacro de emergência Hoje Macau - 9 Abr 2025 Os Serviços de Polícia Unitários (SPU) recebem, até ao dia 22 deste mês, inscrições para a realização do simulacro “Peixe de Cristal 2025”, que visa “reforçar a capacidade de acção conjunta para resposta a emergências e elevar a consciência sobre a prevenção de desastres do público em geral”. A estrutura da protecção civil irá testar modos de funcionamento e equipas simulando um “Plano de evacuação das zonas baixas em situações de ‘storm surge’ durante a passagem de tufão”. A operação irá contar com a participação de residentes, pelo que os interessados poderão inscrever-se. “Durante o exercício serão simulados diversos incidentes, a fim de testar a capacidade de resposta conjunta dos membros da estrutura de protecção civil”, contando-se com o apoio dos membros do Mecanismo de Ligação Comunitária de Protecção Civil e dos voluntários de protecção civil. As inscrições podem ser feitas através do website do Instituto de Acção Social ou várias entidades, como o Centro Comunitário de Mong-Há da União Geral das Associações dos Moradores de Macau, entre outros.
Casinos-satélites | PME admitem agonia com encerramentos João Santos Filipe e Nunu Wu - 9 Abr 2025 Vários empresários de Pequenas e Médias Empresas admitiram que com o encerramento dos casinos-satélite vão ter de fechar os negócios ou avançar para despedimentos em massa As empresas dependentes ou com grandes receitas geradas pelos casinos-satélite reconhecem que estão muito preocupadas com as perspectivas de uma onda de encerramentos, no final do ano. A posição de vários empresários foi tomada em declarações ao jornal Ou Mun. Os casinos-satélite resultam de acordos entre algumas concessionárias e empresas independentes, que exploram vários espaços de jogo, como acontece com os casinos Kam Pek ou Ponte 16, num total de 11 casinos. Neste modelo, as empresas independentes exploram os casinos, mas com trabalhadores, mesas de jogo e fichas das concessionárias, com quem têm um acordo e a quem efectuam pagamentos. A última revisão à lei do jogo estabeleceu um período de três anos para acabar com este modelo, que termina no final deste ano. Como resultado, as concessionárias podem optar por assumir, por si, a exploração destes casinos ou fechar os espaços. Em declarações ao jornal Ou Mun, um residente com o apelido Lam, que é responsável de uma empresa de software, afirmou que metade das receitas da companhia derivam de um dos casinos-satélite. Sem estas receitas, o dirigente admite que a empresa vai começar a perder dinheiro e que nesse cenário só tem duas hipóteses: pagar as perdas com dinheiro do seu bolso, até a situação se tornar insustentável, ou fazer o que apelidou de “cortar um braço”, o despedimento de cerca de 30 a 40 por cento dos trabalhadores. Lam disse igualmente que os casinos-satélite distribuem muito dinheiro às Pequenas e Médias Empresas, através da contratação de serviços. Porém, se apenas sobreviverem as concessionárias, a economia local vai sentir um impacto que classificou como profundo. Outro empresário, com o apelido Sin, responsável por uma empresa de limpeza, traçou um cenário semelhante, e reconheceu que com o encerramento dos casinos-satélite vai despedir um quinto do total do pessoal, o que indicou representar cerca de 100 trabalhadores, por falta de trabalho. Menos transportes A necessidade de avançar com o despedimento de trabalhadores é igualmente o cenário antevisto por Choi, de acordo com o Jornal Ou Mun. O empresário de uma empresa de transporte privado de pessoas afirmou que actualmente sobrevive no mercado local devido aos serviços prestados aos casinos-satélite. Choi reconheceu que 80 por cento das receitas provém destes espaços e que em caso de encerramento este volume de negócio não vai ser substituído. O empresário indicou que apesar de Macau receber mais turistas estes têm um perfil muito diferente. Entre as diferenças, apontou que são mais jovens e que não se deslocam através deste tipo de transporte, recorrendo antes aos transportes públicos. O jornal Ou Mun falou também com um outro empresário Ip, responsável por uma empresa de produtos de iluminação de publicidades. Esta emprega entre 20 e 30 trabalhadores e grande parte dos serviços são prestados aos casinos-satélite. Se estes encerrarem, Ip indica que não só a sua empresa vai encerrar, assim como várias outras lojas nas imediações dos casinos e que dependem destes.
Mercado da Taipa | Arrancou concurso para atribuir bancas Hoje Macau - 9 Abr 2025 Começou ontem o concurso público para a exploração de 20 bancas de venda de refeições leves, café, produtos culturais e criativos no Mercado da Taipa. O anúncio foi feito pelo Instituto para os Assuntos Municipais (IAM). As propostas apresentadas vão ser avaliadas com base em critérios como estratégias de operação do concorrente, experiência e qualificações do concorrente, horário de exploração da banca, diversidade da tipologia de mercadorias e conveniência dos métodos de pagamento. Os interessados podem entregar as propostas para ocupar as bancas até às 13h de 23 de Maio. Como parte deste concurso público, o IAM vai realizar em Abril três sessões de esclarecimento sobre o concurso público, no Centro de Actividades do Patane. As bancas para distribuição vão ser divididas em três grupos, de acordo com a zona e as dimensões, estando disponíveis 19 bancas de refeições leves ou artigos culturais e criativos no 1.º andar do Mercado da Taipa. A renda mensal esperada varia entre 486 patacas e 1.854 patacas. O café fica situado no 2.º andar do Mercado da Taipa e vai ter uma renda mensal de 2.040 patacas.
Violência doméstica | Ho Ion Sang pede recursos para ajudar vítimas João Santos Filipe - 9 Abr 2025 Apesar do “sucesso” das políticas de combate à violência doméstica, o deputado dos Moradores considera que as associações locais devem ter mais meios para apoiar as vítimas e os seus filhos. Além de meios de subsistência, Ho Ion Sang realça a importância de planear a carreira profissional e prestar cuidados infantis Ho Ion Sang defende o reforço da cooperação entre o Governo e as associações locais para dotar as vítimas de violência doméstica de mais meios de subsistência. O assunto é abordado através de uma interpelação escrita pelo deputado dos Moradores, em que é pedida uma maior cooperação entre o Governo e as associações locais. No documento, Ho defende o reforço da “rede de assistência social” e a melhoria do “apoio ao nível de meios de subsistência das vítimas de violência doméstica e dos filhos”, que passa não só pela disponibilização de apoio financeiros, mas também por “serviços mais orientados e diversificados, tais como planeamento de carreira, formação profissional e cuidados infantis”. Segundo o deputado, no contexto actual, as associações devem assumir um papel fundamental a ajudar as vítimas, na vida após os episódios de violência doméstica, nos casos em que precisam de uma rede de apoios, para reconstruírem a vida. Ho Ion Sang é deputado pela Associação dos Moradores, uma das mais apoiadas pelo Governo com fundos públicos. Mais cooperação O reforço da cooperação entre as associações locais e o Governo não visa só o pedido de mais recursos. Ho Ion Sang pergunta pelo desenvolvimento das directrizes, prometidas pelo Executivo para este ano, que vão definir formas para lidar com casos de violência doméstica quando há crianças envolvidas. Nas perguntas enviadas ao Governo, o deputado recorda que as directrizes foram concluídas em 2023, e que no ano passado as autoridades ouviram os serviços públicos e as associações. Todavia, a meta do Executivo passava por divulgar e implementar as directrizes ao longo deste ano, sem que haja, até agora, mais informações. Por isso, o deputado pede que o Governo revele o calendário de quando vão ser apresentadas. Na interpelação escrita, o deputado considera igualmente que se deve “intensificar” a “cooperação com as organizações não governamentais e consolidar os recursos de todas as partes envolvidas” para “criar uma atmosfera favorável para que toda a comunidade se oponha e resista unanimemente à violência doméstica”. Em relação à prevenção, Ho Ion Sang elogia os trabalhos realizados, com a aprovação da legislação que tornou este um crime público, que tem levado a uma redução gradual das ocorrências. No entanto, pede ao Executivo que não facilite nos esforços de combate ao crime, para alertar mais a população para este fenómeno.
DSAL | Novas sessões de emprego este mês Hoje Macau - 9 Abr 2025 A Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) volta a organizar novas sessões de emparelhamento de emprego em colaboração com a Federação da Associação dos Operários de Macau (FAOM). As três sessões decorrem na terceira semana de Abril, sendo que as inscrições decorrem até ao dia 15. Existem 79 vagas disponíveis para residentes, nomeadamente 21 para os empreendimentos da Sociedade de Jogos de Macau, cuja sessão decorre dia 16. No dia seguinte haverá uma sessão de emparelhamento para o sector de transportes para o turismo e públicos, tendo como empresas participantes a “AA – Turismo Limitada”, Transmac e TCM, com 28 vagas. Por sua vez, na tarde desse dia, haverá 30 vagas para a “CDFG Macau, Sociedade Unipessoal Limitada”. A sessão de emparelhamento para o sector hoteleiro das partes da manhã e da tarde do dia 16 de Abril terá lugar na Sala de reuniões Shang Zhou sita no 2.º andar do Hotel Grand Lisboa Palace Macau. A sessão de emparelhamento da manhã do dia 17 de Abril e a sessão da tarde do mesmo dia terão lugar no 2º andar da FAOM, no Edifício da Federação das Associações dos Operários.
PCC | Educação patriótica da RAEM elogiada João Luz - 9 Abr 2025 A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura foi a Pequim onde reuniu com dirigentes do Governo Central e do Partido Comunista da China, de quem ouviu elogios relativos à educação patriótica na RAEM. O vice-ministro Wu Yan aconselhou integração nacional às universidades de Macau Uma delegação liderada pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, que incluiu o director dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude, Kong Chi Meng e a Presidente do Instituto Cultural, Deland Leong Wai Man, deslocou-se a Pequim para reunir com dirigentes do Partido Comunista da China e do Governo Central. Apesar de a deslocação ter ocorrido entre 29 de Março e 1 de Abril, apenas foi divulgada pelo gabinete de O Lam na noite de terça-feira. A comitiva de dirigentes da RAEM visitou o Departamento de Comunicação do Comité Central do Partido Comunista da China (PCC), o Ministério da Educação do Governo Central, o Museu do Partido Comunista da China e o Centro Nacional de Artes Performativas. Na manhã de 31 de Março, a comitiva da RAEM reuniu com Hu Heping, responsável pelo trabalho diário do Departamento de Comunicação do Comité Central do PCC. O dirigente destacou “os notáveis progressos de Macau na educação patriótica, reafirmando o apoio contínuo do Departamento de Comunicação do Comité Central do PCC ao desenvolvimento da indústria cultural de Macau. Além disso, defendeu o fortalecimento da cooperação entre o departamento e o Governo da RAEM para promover “as belas tradições de amor pela Pátria e por Macau”. Hu Heping destacou as vantagens do entrosamento das culturas chinesa e ocidental de Macau, para promover o intercâmbio e aprendizagem entre civilizações e a integração sociocultural de Macau na conjuntura global do desenvolvimento do País. Aprender a ser feliz Os dirigentes da RAEM foram também recebidos o vice-ministro Wu Yan, que “manifestou o seu apoio ao desenvolvimento da educação de Macau e expressou a sua esperança de que Macau possa contribuir para a integração da educação, ciência e tecnologia e de quadros qualificados do país”. O governante chinês espera também que as instituições de ensino superior de Macau adoptem “um desenvolvimento de alta qualidade” para “operarem com alta precisão e integrarem-se na conjuntura geral do desenvolvimento do país”. A delegação visitou também o Museu do Partido Comunista da China e o Centro Nacional de Artes Performativas, “onde ficou a conhecer a magnífica história do Partido Comunista da China nos seus 100 anos de luta, bem como as importantes instalações culturais do país”. Os dirigentes da RAEM indicaram que querem organizar visitas de “professores e estudantes de Macau, empréstimo de colecções históricas importantes a Macau para exposição e da organização de seminários temáticos”.
Literatura | Dora Nunes Gago fecha trilogia de Macau com “Flores de Cinza” Andreia Sofia Silva - 9 Abr 20259 Abr 2025 Dora Nunes Gago, escritora e ex-directora do departamento de português da Universidade de Macau, acaba de lançar um novo livro de poesia. “Flores de Cinza” encerra a trilogia de obras dedicadas a Macau, composta por “Floriram por engano as rosas bravas” e “Palavras Nómadas” Foram dez anos que se traduziram em muitas palavras. Tantas, que deram três livros, “Floriram por engano as rosas bravas”, com clara referência a Camilo Pessanha; “Palavras Nómadas” e, agora, “Flores de Cinza”. O novo livro de poesia de Dora Nunes Gago, docente e ex-directora do departamento de português da Universidade de Macau (UM), remete ainda para a Macau que perdura na sua memória e que, por isso, se traduz em palavras. Com a chancela da Húmus, o livro acaba de sair em Portugal, resultando dos “muitos poemas” escritos por Dora Nunes Gago no período em que esteve em Macau, experiência que a transformou numa autora publicada e premiada. Escrever poesia nesses anos de docência e vivência a Oriente acabou por ser a forma encontrada para lidar com rebuliços de Macau e as suas dinâmicas. “Talvez por ser um registo mais breve, uma forma de captar instantes, de os cristalizar, no meio de todo o bulício e surpresas de que Macau se veste. A Maria Ondina Braga referia na obra “Estátua de Sal”, escrita em Macau, por volta de 1963, que Macau é ‘terra de sono e poesia’. De sono não sei bem, sendo uma cidade que não dorme, mas de poesia, penso que será”, contou ao HM. “Flores de Cinza” chama-se assim porque foi buscar inspiração a um poema de Natália Correia: “(…) Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa / Passam por mim como alamedas de ciprestes / E a flor de cinza da juventude é uma aresta / Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres (…) / a galope num sonho com espuma nos dentes.” Dora Nunes Gago seleccionou os “poemas sobreviventes” dos restantes dois títulos da trilogia. “Houve os que se perderam, entre mudanças, viagens, blocos e cadernos perdidos.” Tal como todo o rebuliço próprio de Macau. Em “Flores de Cinza”, o território “é representado pelos rituais, as épocas simbólicas como o Ano Novo Chinês, que é aquele tempo festivo em que parece que o mundo renasce e se inventa”. Há também elementos que se transformam em poesia como os dumplings, os templos, a ilha de Hengqin, onde a autora viveu nos tempos em que deu aulas na UM. “O território está presente nas imagens, mas também na solidão e no silêncio que habita os poemas, todos eles curtíssimos. Neste livro, a minha obsessão pela síntese culminou”, descreve. Cada livro, uma mensagem Há poemas que falam por si só, outros que necessitam de ser explicados. E falando da trilogia que escreveu nos últimos anos, Dora Nunes Gago remete para o primeiro, onde se vai buscar o Simbolismo de Pessanha e onde se denota “o primeiro olhar sobre a Ásia e sobre Macau”. Aqui, não existe poesia, mas sim 24 contos, “muitos deles inspirados em histórias presenciadas, ouvidas ou lidas em jornais”. Já o premiado “Palavras Nómadas”, vencedor do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, no ano passado, contém 50 crónicas. “Foi o modo de achar um fio condutor para unir várias experiências e aprendizagens que teceram um fio condutor para a minha vida.” Eis que, no último livro da trilogia, se reúnem 55 poemas, organizados em três partes, nomeadamente “exílios, permanências e regressos”. São “uma síntese de todo o meu percurso”, destaca. “Flores de Cinza” é “talvez o livro mais autobiográfico dos três, pois enraíza-se em múltiplos sentimentos, numa espécie de instantâneos que configuraram os meus dias”, destaca a autora. Do prefácio, da autoria de Maria João Cantinho, lê-se que o primeiro da trilogia, “Floriram por engano as rosas bravas” é “um livro de contos breves, cujo título foi tomado de empréstimo a um belíssimo verso (e um poema) do melancólico Camilo Pessanha, em Clepsidra”. Enquanto “Palavras Nómadas” reúne crónicas que nascem “da sua vivência em Macau, bem como da sua vertente de viajante e aventureira, como precisou Onésimo Teotónio Almeida, de forma muito elogiosa”. Por sua vez, no terceiro, Dora Gago “muda o registo e encontramo-nos diante de uma escrita poética e sensível, construída por poemas breves”, lê-se. Maria João Cantinho entende ainda que o poema “Destino” é um dos mais belos em “Flores de Cinza”: “Na louca corrida / do galgo abandonado / solitário de existir, lamber as feridas da morte / na pele do poema.” Aqui, descreve-se “a escrita poética é apresentada como vertigem (‘na louca corrida’) movida por um impulso alegórico, em que a presença da morte emerge”, onde “o destino é certamente essa corrida desvairada em que a morte ronda os vivos e só o poema pode salvar ou redimir aqueles”, considera Maria João Cantinho. Para esta, “a escrita de Dora Nunes Gago contém uma dimensão reflexiva, abordando temas como a criação ou a passagem do tempo, entre muitos outros, e recorrendo a uma linguagem rica, tanto vocabular, como ao nível prosódico, na busca de efeitos que acentuem a tensão do poema”. “Exílios”, a primeira parte da obra, arranca com “Início”, nome simples para um poema curto: “Sigo as pegadas da memória / inscritas na areia do tempo / e sou navio / ancorado sem leme / nem alento”. Talvez marcado pela saudade e pela distância, encontramos “Ausência”: “Dançam cinzas solenes / silvando sopros de saudade, / céus / soletrados / no sangue / da solidão.” E como este livro é feito de idas e vindas, a obra termina com “Retorno”, como se de uma linha do tempo se tratasse: “Regressar a casa / tatuar montes e vales / na retina, / regar as flores de cinza / renascidas / nas frestas pedregosas / da esperança.” Dora Nunes Gago é natural de São Brás de Alportel e actualmente é docente no Instituto Politécnico de Setúbal. Sobre “Palavras Nómadas”, o júri do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, concedido pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), considerou tratar-se de uma “obra de variadas e ricas observações concernentes aos lugares por onde transcorrem as viagens relatadas, com descrições de grande vivacidade sensorial, a que não falta o olhar íntimo sobre os lugares e as gentes, bem como a capacidade de captação do que se tem vindo a designar como ‘génie du lieu’”. “Numa prosa de grande fluidez, eivada de reflexões onde se cruzam percepções, memórias, cultura, literatura e história, a autora logra suscitar uma leitura aderente desde as primeiras páginas, cujo ritmo e interesse sabe manter ao longo da considerável extensão da obra”, referiu o mesmo júri.
A psicologia da atração à primeira vista Tânia dos Santos - 9 Abr 2025 A “atração à primeira vista” é um fenómeno que fascina toda a gente. As comédias românticas retratam-na como um momento de ligação instantânea e incontrolável entre duas pessoas. Cabe-me agora desvendar as possíveis explicações por detrás deste fenómeno, recorrendo a duas grandes escolas de pensamento: a psicologia cognitiva — que desenvolve metodologias empíricas para testar hipóteses sobre o tema — e a abordagem psicodinâmica — que trabalha com bases interpretativas. Ambas as perspetivas constroem metáforas que nos ajudam a interpretar estes processos. Assim, podemos oscilar entre duas propostas: a atração à primeira vista será um produto de mecanismos inconscientes profundamente enraizados ou, pelo contrário, uma construção romântica a posteriori, baseada em processos sensoriais e cognitivos? A psicologia cognitiva sugere que a “atração à primeira vista” pode resultar de um processamento rápido de informação sensorial e emocional. O cérebro humano está programado para reconhecer padrões e categorizar informações de forma eficiente, o que nos permite avaliar alguém em frações de segundo, com base em traços faciais, expressões ou linguagem corporal. Estudos sobre perceção social confirmam que formulamos juízos imediatos sobre os outros. Do ponto de vista biológico, este fenómeno pode estar ligado à ativação do sistema dopaminérgico, responsável pela regulação do prazer e da recompensa. Quando encontramos alguém que consideramos atraente, o cérebro liberta dopamina, desencadeando um desejo de proximidade. Além disso, investigação sobre feromonas indicam que somos inconscientemente atraídos por parceiros cujo sistema imunitário complementa o nosso, favorecendo a diversidade genética na descendência. Por outro lado, a abordagem psicodinâmica, enraizada na psicanálise de Sigmund Freud, explica a atração à primeira vista através de mecanismos inconscientes. Segundo esta perspetiva, as experiências passadas — sobretudo as da infância — moldam os nossos padrões de atração. Quando nos sentimos instantaneamente atraídos por alguém, pode ser porque essa pessoa ativa memórias ou emoções associadas a figuras de vinculação primárias, como pais ou cuidadores. A atração não se centra no outro enquanto pessoa real, mas na forma como ele ressoa dentro da nossa estrutura inconsciente de desejo. O outro pode simbolizar algo que nos falta, algo interdito ou uma questão emocional ainda não resolvida. Esse mecanismo, conhecido como identificação projetiva, explica como podemos sentir uma forte atração por alguém que representa, de forma inconsciente, partes significativas da nossa história psíquica. Segundo esta teoria, raramente nos apaixonamos por quem a pessoa realmente é, mas sim pela maneira como projetamos nela as nossas necessidades emocionais não resolvidas. A atração é por isso um encontro de inconscientes, onde ambos projetam padrões familiares um no outro. Claro que as crenças também moldam expectativas românticas. Se acreditamos que a atração instantânea é um sinal de destino, tendemos a atribuir-lhe significado emocional. O impacto da cultura e das normas sociais mostra como a perceção do “amor à primeira vista” pode ser influenciada por narrativas romantizadas. Por exemplo, em livros, filmes ou publicidade romantiza-se a ideia da atração à primeira vista, criando uma narrativa que leva as pessoas a idealizar e a esperar ligações emocionais intensas e imediatas. Esta expectativa cultural pode influenciar a forma como interpretamos encontros reais — se alguém vive sintonizado com ideais românticos, é mais provável que atribua significado emocional a uma atração instantânea, encarando-a como algo “destinado a acontecer” ou “predestinado”. A psicologia cognitiva encara o fenómeno de forma mais pragmática, quase despojando-o do seu romantismo: tudo depende do nosso processamento mental e do que consideramos relevante. Já a psicanálise articula melhor o cruzamento entre fantasia e realidade, propondo que, embora a atração à primeira vista seja composta por elementos projetivos e fantasiosos, estes não estão totalmente dissociados do encontro em si. Há algo de significativo nessa dinâmica; caso contrário, as pessoas não se apaixonariam. Como diria um psicanalista, somos atraídos por quem consegue nutrir as nossas feridas psíquicas — o que, mais tarde, pode revelar-se a causa de disfunções no casal. Existe um domínio intangível que comunica subtilmente quem somos, de onde viemos e como nos podemos completar. Em suma, enquanto a neurociência e a psicologia cognitiva destacam reações automáticas e hormonais, a psicodinâmica enfatiza o papel do inconsciente e das experiências passadas. Embora a psicologia cognitiva e a psicodinâmica possam parecer opostas – uma focando-se em processos conscientes e observáveis e a outra em mecanismos inconscientes e emocionais –, existe potencial para sobreposição, e reconhecer isso poderia tornar a explicação mais robusta. A perspetiva cognitiva sobre a atração, que enfatiza julgamentos rápidos e automáticos baseados em sinais físicos e respostas emocionais, pode ser entendida como o processamento inicial e superficial que é complementado pelos processos inconscientes. Mas a minha proposta é outra: mostrar que a forma como olhamos para o fenómeno afecta a forma como o vivemos. Cada explicação poderá adaptar-se melhor às vivências de cada pessoa. Estará a atração à primeira vista enraizada num desejo autêntico e profundo, ou será uma ilusão alimentada pela necessidade humana de conexão e significado? A resposta talvez resida na imaginação e riqueza emocional de cada um. Em última análise, a maneira como interpretamos o fenómeno da “atração à primeira vista” pode ser profundamente influenciada pelos mecanismos cerebrais e inconscientes discutidos, mas também pelas narrativas culturais que internalizamos. Assim, a experiência será sempre uma intersecção entre o que sentimos e como aprendemos a sentir.
Bolsas asiáticas recuperam após perdas devido à guerra comercial Hoje Macau - 9 Abr 2025 As bolsas asiáticas regressaram ontem aos ganhos, depois de fortes perdas na segunda-feira, marcadas por receios de uma guerra comercial desencadeada por Washington, e depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, prometer “acordos justos” com quem negociar tarifas. Acompanhando a moderação de perdas registada por Wall Street, as principais praças asiáticas abriram com ganhos, lideradas por Tóquio, que subiu mais de 5 por cento na abertura, depois de registar perdas históricas no dia anterior. O principal índice da Bolsa de Hong Kong, o Hang Seng, subia cerca de 1,58 por cento a meio da sessão de terça-feira, após a maior queda em quase trinta anos, na segunda-feira: 13,2 por cento. Em Tóquio, o Nikkei subia 6,08 por cento a meio da sessão de negociação, depois de ter caído quase 8 por cento na segunda-feira, enquanto as bolsas de referência de Xangai e Shenzhen, que registaram quedas de 7,34 por cento e 9,66 por cento, respectivamente, na segunda-feira, estavam em terreno positivo ligeiro, 0,91 por cento e 0,42 por cento respectivamente. Respostas prontas O Presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou aplicar tarifas adicionais de 50 por cento à China, se Pequim não recuar com as taxas impostas aos produtos norte-americanos. Em resposta, o Ministério do Comércio do gigante asiático respondeu ontem que as contramedidas anunciadas na passada sexta-feira são “completamente legítimas”. O fundo estatal chinês Central Huijin Investment fez ontem saber que tem capacidade suficiente para garantir a estabilidade dos mercados de capitais do país e reafirmou a decisão de aumentar novamente a participação em fundos negociados em bolsa, depois de o ter feito na segunda-feira, quando as bolsas de Hong Kong e da China continental caíram fortemente. O mercado bolsista de Taiwan abriu no vermelho, com o Taiex a cair quase 3 por cento poucos minutos após a abertura e depois de ter registado a maior queda diária da história da ilha na segunda-feira, com uma descida de 9,7 por cento. Na Indonésia, o principal índice de referência da bolsa, que não operava desde 28 de Março, caiu mais de 9 por cento nos primeiros minutos da sessão, o que levou a uma paragem de meia hora, ao abrigo de um novo regulamento introduzido no dia anterior. Nos restantes mercados do Sudeste Asiático, as bolsas abriram, na sua maioria, com perdas, lideradas pelo Vietname (-5,04 por cento), Tailândia (-4,08 por cento) – ambas as bolsas estiveram encerradas na segunda-feira – e Singapura (-1,63 por cento). Já as bolsas das Filipinas (+2,04 por cento) e da Malásia (+0,3 por cento) despertaram com ganhos.
Tarifas | Von der Leyen pede a Li Qiang para evitar uma escalada Hoje Macau - 9 Abr 2025 A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pediu ontem que se “evite uma escalada” na sequência das tarifas aduaneiras impostas pelos Estados Unidos, durante uma conversa telefónica com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang. Segundo um comunicado do executivo comunitário, durante o telefonema, “a presidente apelou a uma solução negociada para a situação actual, sublinhando a necessidade de evitar uma nova escalada. Von der Leyen apontou também a importância vital da estabilidade e da previsibilidade para a economia mundial. Em resposta à perturbação generalizada causada pelos direitos aduaneiros dos Estados Unidos, a líder do executivo comunitário sublinhou a responsabilidade da Europa e da China, “enquanto dois dos maiores mercados mundiais”, de apoiar um sistema comercial sólido e reformado, livre, justo e assente em condições de concorrência equitativas. Recordou igualmente a urgência de soluções estruturais para reequilibrar as relações comerciais bilaterais e garantir um melhor acesso das empresas, produtos e serviços europeus ao mercado chinês. Por último, Ursula von der Leyen reafirmou junto do primeiro-ministro chinês o apoio firme da UE a uma paz justa e duradoura na Ucrânia, salientando que as condições de paz devem ser determinadas pela Ucrânia. Convidou a China a intensificar os seus esforços para contribuir de forma significativa para o processo de paz.
EUA | Pequim critica observações de JD Vance sobre “camponeses chineses” Hoje Macau - 9 Abr 2025 A China classificou como indelicados os comentários do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, que afirmou numa entrevista que Washington estava a pedir dinheiro emprestado aos “camponeses chineses” e depois a comprar-lhes os frutos do seu trabalho. Em entrevista ao canal de televisão Fox News, Vance defendeu a ofensiva comercial do Presidente Donald Trump, que abalou a economia mundial com a introdução de taxas alfandegárias, em particular contra a China, apesar dos receios de repercussões globais e das críticas dentro do seu próprio partido. “Pedimos dinheiro emprestado aos camponeses chineses para comprar o que os camponeses chineses produzem”, afirmou Vance. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês disse ontem que “a posição da China sobre as relações económicas e comerciais sino-americanas foi claramente expressa”. “É surpreendente e triste ouvir palavras tão ignorantes e indelicadas por parte deste vice-presidente”, afirmou Lin Jian, em conferência de imprensa. O vice-presidente dos Estados Unidos disse que via esta medida como um antídoto para a “economia globalista”, que, na sua opinião, não está a funcionar em benefício do povo norte-americano. “Este não é um método para a prosperidade económica. Não é um método para preços baixos, e não é um método para bons empregos nos Estados Unidos da América”, acrescentou o braço direito de Donald Trump.
China sem nada a perder se taxas aumentarem mais 50 por cento, dizem economistas Hoje Macau - 9 Abr 2025 Pequim está a aproximar-se de um ponto em que não tem “nada a perder” na guerra comercial com Washington, afirmaram economistas, após o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter ameaçado aumentar as taxas em mais 50 por cento sobre produtos chineses. “A margem de lucro do sector exportador chinês é entre 30 por cento e 40 por cento”, escreveu Dan Wang, director para a China do grupo de reflexão (‘think tank’) Eurasia Group. “Se os Estados Unidos impuserem taxas alfandegárias superiores a 35 por cento, a maior parte dos seus lucros será eliminada. O facto de as taxas serem de 70 por cento ou mesmo de 1000 por cento não faz grande diferença, uma vez que impede a China de negociar directamente com os Estados Unidos”, argumentou. Desde a sua tomada de posse, em Janeiro, Trump já aplicou uma sobretaxa adicional de 20 por cento sobre produtos chineses que entram nos Estados Unidos. Esta sobretaxa deverá aumentar para 54 por cento amanhã. Em resposta, Pequim anunciou que vai impor taxas de 34 por cento sobre os produtos norte-americanos a partir de quinta-feira. O Presidente dos Estados Unidos ameaçou na segunda-feira aumentar as taxas em mais 50 por cento se Pequim mantiver a sua decisão. No conjunto, as taxas iriam para cerca de 115 por cento, segundo Su Yue, economista principal para a China na Economist Intelligence Unit. “Além disso, todas as conversações com a China sobre as reuniões que solicitaram connosco serão encerradas”, ameaçou Trump. Wang explicou que, apesar de os exportadores chineses enfrentarem agora a nova realidade de um aumento permanente dos custos de exportação, isso não significa que as exportações vão parar. Pelo contrário, obriga os exportadores a encontrarem novos mercados e a reduzirem o envio de mercadorias directamente para os EUA. Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a região Ásia-Pacífico do banco de investimento francês Natixis, também minimizou a última ameaça de Trump. “O mercado dos EUA já está fechado para os produtos chineses, pelo menos directamente da China para os EUA, pelo que [um aumento adicional de 50 por cento das tarifas] não é uma ameaça [eficaz]”, considerou. A decisão reflecte o facto de os EUA estarem a visar a China mais do que qualquer outro país, o que “já acontecia antes de a China retaliar”, frisou. Erros e chantagens A China ameaçou ontem “tomar resolutamente contramedidas para salvaguardar os seus próprios direitos e interesses”, em resposta à ameaça de Trump. Em comunicado, o Ministério do Comércio disse que a imposição pelos EUA das “chamadas ‘tarifas recíprocas’” à China é “completamente infundada e é uma prática típica de ‘bullying’ unilateral”. “As contramedidas tomadas pela China têm como objectivo salvaguardar a sua soberania, segurança e interesses de desenvolvimento e manter a ordem normal do comércio internacional. São completamente legítimas”, lê-se no comunicado. “A ameaça dos EUA de aumentar as taxas sobre a China é um erro em cima de um erro e mais uma vez expõe a natureza chantagista dos EUA. A China nunca aceitará isso. Se os EUA insistirem nesse caminho, a China lutará até ao fim”, apontou.
Visita | PM espanhol na China pela terceira vez em dois anos Hoje Macau - 9 Abr 2025 Em plena guerra comercial, o líder do governo espanhol regressa à China para estabelecer acordos bilaterais com o gigante asiático O primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, visita esta semana dois dos países mais afectados pelas novas taxas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos, o Vietname e a China, para promover o comércio e os investimentos bilaterais. No caso da China, é a terceira vez em apenas dois anos que Sánchez visita Pequim e vai reunir-se de novo com o Presidente do país, Xi Jinping, como já aconteceu em Março de 2023 e Setembro de 2024. Esta viagem à Ásia ocorre poucos dias depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter anunciado a intenção de impor e agravar taxas sobre produtos importados pelo país, com a China e o Vietname a serem alvo das maiores percentagens: 34 por cento e 46 por cento, respectivamente. O Governo espanhol realçou nos últimos dias que as visitas de Sánchez ao Vietname e à China foram coordenadas com a União Europeia (UE) e já estavam previstas antes dos anúncios de Trump. A ida de Sánchez ao Vietname e à China não é, assim, uma resposta à guerra comercial norte-americana nem “contra ninguém”, disseram as mesmas fontes, que reconheceram, porém, que a viagem adquiriu uma relevância nova no contexto dos últimos dias. O objectivo de Espanha é diversificar mercados para exportação, assim como de destino e origem de investimentos, mas não substituir a relação comercial com os EUA, disse o Governo espanhol. Espanha tem com o Vietname e a China um enorme desequilíbrio comercial, que pretende reduzir. Segundo dados oficiais, em 2024, Espanha importou do Vietname 5.200 milhões de euros e exportou 530 milhões. No caso da China, as importações ascenderam a 45 mil milhões de euros e as exportações a 7.400 milhões. Chave da diversificação Na semana passada, no dia seguinte ao anúncio das novas taxas comerciais dos EUA, Sánchez acusou Trump de ter iniciado uma guerra comercial “injusta e injustificada contra tudo e contra todos” e com um “ataque unilateral”. O primeiro-ministro espanhol apelou a uma resposta da UE que passe pela negociação com os EUA e pela imposição de taxas recíprocas, mas também pela diversificação dos parceiros comerciais, em linha com o princípio da “autonomia estratégica da Europa” em que os dirigentes europeus têm insistido nos últimos anos, sobretudo após a guerra na Ucrânia iniciada pela Rússia. A China “tem de ser um parceiro estratégico no futuro” e “independentemente da situação actual em relação aos Estados Unidos”, disse na segunda-feira o ministro espanhol da Economia, Carlos Cuerpo, no Luxemburgo, à chegada a uma reunião de ministros da UE com a pasta do comércio. Cuerpo realçou que Espanha está “há vários anos a insistir no reforço desta relação” da UE com a China. “Entre outras coisas porque nos ajuda a abrir um mercado importantíssimo e, além disso, é uma fonte potencial de investimentos no nosso continente, nos nossos países”, acrescentou o ministro, que afirmou que Espanha quer “estabelecer uma relação estratégica com a China”. Plano de viagem Sánchez inicia amanhã a primeira visita de um primeiro-ministro espanhol ao Vietname, que inclui encontros com os líderes políticos do país e com empresários. Chega à China na sexta-feira e tem na agenda encontros, em Pequim, com o Presidente chinês, Xi Jinping, o primeiro-ministro, Li Qiang, e com empresários chineses. A visita anterior, em Setembro de 2024, coincidiu com um momento de tensão entre a União Europeia e a China, por causa da decisão de Bruxelas de avançar com novas taxas sobre a importação de carros eléctricos chineses e a ameaça de Pequim de retaliação em relação à carne de porco europeia, de que Espanha é um dos maiores produtores dentro do bloco comunitário. Para além do comércio, Espanha atraiu nos últimos anos investimentos chineses significativos. Segundo dados oficiais das autoridades de Espanha, empresas chinesas têm investidos mais de 10 mil milhões de euros no país para a produção de carros eléctricos, a par de outros projetos na área das baterias ou dos eletrolisadores (usados na produção do designado hidrogénio verde).
Jurista Cristina Ferreira apresenta hoje livro na FRC Hoje Macau - 9 Abr 2025 A Fundação Rui Cunha (FRC) acolhe hoje, a partir das 18h30, a apresentação do novo livro da jurista Cristina Ferreira, intitulado “Estatuto Jurídico do GAFI na Ordem Internacional”, editado pela Brill. O evento decorre no âmbito do ciclo de palestras “Reflexões ao Cair da Tarde”, e conta com a moderação de Paulo Cardinal, jurista e docente. Ambos dão aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Macau. O evento tem por objectivo dar a conhecer as premissas do livro “The Legal Status of the Financial Action Task Force in the International Legal System”, lançado em Janeiro, sendo que a conferência versa sobre a “evolução do estatuto jurídico do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI) na cena internacional, com base no argumento ousado de que o GAFI evoluiu gradualmente para uma organização internacional, abordando este tema na perspectiva do direito internacional e do direito das organizações internacionais, combinando teoria e prática”, segundo a autora, citada por um comunicado da FRC. O GAFI (FATF – Financial Action Task Force) é a organização a nível mundial responsável por fixar as políticas e padrões internacionais no combate ao branqueamento de capitais, ao financiamento do terrorismo e da proliferação de armas de destruição maciça, e à ocorrência de outras ameaças à integridade do sistema financeiro mundial. Anos de análise Como consultora jurídica em Direito Internacional, a autora testemunhou ao longo de duas décadas “a metamorfose gradual, do que começou por ser um organismo técnico especializado, para uma organização complexa e multifacetada, cuja legitimidade é prejudicada pela falta de clareza quanto à sua posição jurídica”. O âmbito da organização, e o impacto de longo alcance das suas políticas e medidas, para responder às tendências e ameaças globais que representam um risco para o sistema financeiro internacional, bem como a forma como os membros, não membros, Organizações Internacionais e outros intervenientes, as aceitaram e implementaram, sem um exame minucioso (pesos e contrapesos) e sem questionar o seu estatuto legal, é a reflexão que se coloca. O tema tem especial relevância para audiências nas áreas do Direito Internacional Público, Direito das Organizações Internacionais ou Direito Institucional Internacional, Direito Económico Internacional, Relações Internacionais, e para um público potencial de decisores políticos, académicos, profissionais do Direito, advogados, reguladores e estudantes.
Peter Kogler, artista: “A linguagem visual que uso é universal” Andreia Sofia Silva - 9 Abr 2025 Peter Kogler é o artista escolhido para uma nova montra no estúdio de design e arquitectura Impromptu Projects, de Rita Machado e João Ó, inaugurada amanhã. Até ao dia 31 de Dezembro deste ano será possível ver, em “Peter Kogler: Showroom”, na Travessa de Inácio Baptista, os trabalhos deste artista internacional que inovou ao colar o mundo da tecnologia e computadores à arte, criando uma nova linguagem artística Como se sente por apresentar o seu trabalho em Macau? Infelizmente nunca estive em Macau. Fui contactado há cerca de dois ou três anos pela Rita e João [Rita Machado e João Ó] para participar num projecto, vi as coisas que estavam a desenvolver, e que me pareciam muito interessantes. Tivemos uma conversa e a partir daí sabíamos que havia a hipótese de fazer um projecto conjunto no futuro. Mas só agora o conseguimos concretizar. Que tipo de trabalhos traz a esta montra? É uma fachada interessante com um mosaico, em que há uma montra e fizemos uma instalação com papel de parede, que é uma espécie de continuidade da fachada, como se fosse uma grelha distorcida. Temos depois das ventoinhas LED com dois globos que rodam em todas as direcções de forma caótica. É uma espécie de exposição de rua, porque está numa montra. É, para si, uma forma diferente de apresentar o seu trabalho junto do público? Já expus em diversos museus e espaços, e expus de uma forma mais clássica, digamos assim, com exposições. Mas também fiz muitos projectos no chamado espaço público, como estações de metro ou de comboio. Essa é a razão pela qual estou agora em Nápoles, porque estou a trabalhar num projecto para uma enorme estação de metro em parceria com um arquitecto. Como artista, como se sente mais confortável a mostrar o seu trabalho? Num museu, ou num espaço público? Gosto de trabalhar das duas formas. É preciso ter em conta que, quando se faz um projecto no espaço público, as pessoas não têm escolha. Têm de atravessar uma estação de metro ou uma estação de comboios [e ver o projecto exposto]. Mas quando se vai a uma galeria ou a um museu, é uma decisão consciente de alguém que sabe que vai confrontar-se com a arte ali exposta. Essa é a principal diferença. Portanto, temos um público diferente quando trabalhamos num espaço dito público, e temos de ajustar a nossa linguagem visual a uma situação específica. É considerado um dos pioneiros da arte computacional e da integração de um ambiente digital na arte. Como decidiu que era este o caminho a seguir como artista? Quando era apenas um jovem artista, em 1984, fui a uma feira de máquinas de escritório em Viena. Recordo-me quando foi apresentado o Macintosh, da Apple, o primeiro computador que tinha uma interface de utilizador baseada em ícones, em informação gráfica. Foi, assim, a primeira máquina em que o utilizador não tinha de ter qualquer tipo de conhecimento sobre programação, podia-se usar o Macintosh de forma bastante intuitiva. Essa foi, claro, uma mudança paradigmática, e era evidente que iria mudar a forma como as imagens são produzidas e como são comunicadas. Este foi um dos aspectos que me influenciou. Outro tem a ver com o facto de, na história da arte, os computadores não terem, nessa altura, nenhuma presença, ou seja, não havia muito a fazer nessa altura, por isso a oportunidade de criar uma espécie de nova linguagem visual era bastante boa. Estas foram as duas principais razões que me levaram a escolher este meio como a minha ferramenta principal. Actualmente, com a Inteligência Artificial (IA), há todo um novo universo que pode ser explorado artisticamente. Bem, acredito que vai mudar a nossa vida em vários níveis, vai afectar todo o contexto social. A Internet foi, por si só, uma grande mudança, e as redes sociais também vieram alterar muita coisa. A IA não se trata apenas de algo com impacto na arte, mas em toda a nossa vida. Que tipo de mensagens são transmitidas com o seu trabalho? Não há um tipo de mensagem específica, eu diria. Quando trabalhamos com computadores e os usamos como ferramenta visual estamos ligados a todos os outros domínios em que este tipo de meios digitais desempenha um papel. Portanto, é uma área que nos diz algo sobre determinada situação em um determinado momento histórico. Que expectativas tem em relação ao acolhimento do seu trabalho em Macau? E que influência poderá o território trazer ao seu trabalho? Começo por dizer que a linguagem visual que utilizo no meu trabalho tem um carácter bastante universal. Trabalho com alguns elementos que podem ser lidos em qualquer tipo de cultura, como o cérebro, as mãos, o globo, tubos. Todas estas imagens não têm qualquer tipo de conotação cultural específica. Estou ansioso por ir a Macau, para que me possa aperceber das qualidades específicas do território. Presumo que Macau seja fruto de uma situação muito complexa devido às circunstâncias históricas, com o facto de ter sido uma colónia portuguesa junto à China que, neste momento, apresenta um poderoso contexto económico. São muitas as influências que se cruzam ali. Ao longo da sua carreira tem exposto nos principais museus e galerias de todo o mundo. Esperava este reconhecimento internacional? Acima de tudo penso que é um privilégio ter a possibilidade de trabalhar a tantos níveis diferentes e com tantos contextos culturais diferentes. É também um processo contínuo de aprendizagem. O seu trabalho está muito ligado ao universo abstracto. Como se sente se o público não compreender o que quer transmitir, ou até com críticas negativas? Claro que não fico nada contente, mas isso faz parte do trabalho. Sabe, há sempre opiniões diferentes, e é assim que as coisas são. Mas entende que o seu trabalho se pode centrar ao nível do abstracto, ou estou a fazer uma análise errada? Há de facto certos elementos na minha linguagem visual que se apresentam com uma espécie de tradição abstracta. Mas há também muitos elementos com ligação a coisas que conhecemos, como o cérebro ou o globo. O meu trabalho comunica também a diferentes níveis, mas há também coisas mais directas, como as instalações que faço mais direccionadas a crianças, por exemplo. Aí, as crianças reagem de maneira forte. Tal significa que a informação passa de forma bastante directa, porque não é algo que se lhes possa dizer ou explicar, porque as crianças não têm propriamente conhecimentos da história da arte. Quais as grandes influências na sua arte? Essas influências foram mudando ao longo dos tempos? Um aspecto importante é aquilo que se pode fazer com a tecnologia. Comecei a trabalhar com computadores em 1984, em que havia programas gráficos com uma linguagem visual específica. Mas havia muito poucos dispositivos para transferir os elementos para outros materiais, como telas ou papéis de parede. Portanto, eram processos de transferência e produção totalmente analógicos, ao nível da fotografia ou da serigrafia, por exemplo. Ao longo de todos estes anos a tecnologia desenvolveu-se rapidamente e hoje qualquer tipo de transferência de elementos ou produção é digital, como projectar animações de computador, imprimir coisas para fachadas… Para mim foi importante observar todas essas possibilidades técnicas e perceber como as posso utilizar e incluir na minha linguagem visual.
Incêndios | Menos 15 por cento de ocorrências João Santos Filipe - 9 Abr 2025 Nos primeiros três meses do ano registou-se uma diminuição geral das ocorrências que implicaram a intervenção do Corpo de Bombeiros. Ainda assim, as autoridades foram chamadas a intervir em 13.207 casos Nos primeiros três meses do ano o número de incêndios registados pelo Corpo de Bombeiros (CB) apresentou uma redução de 15,35 por cento com 215 ocorrências, em comparação com o período homólogo. Os números do primeiro trimestre do ano foram apresentados ontem, em conferência de imprensa. De acordo com os dados oficiais, entre Janeiro e Março deste ano houve menos 39 incêndios em comparação com o período homólogo, quando o número de incêndios tinha sido de 254 ocorrências. Entre os 215 fogos, 155 foram extintos sem necessidade de recorrer à utilização de mangueiras. No ano passado, o número de incêndio extintos sem necessidade de ligar as mangueiras tinha sido de 204. Em relação aos incêndios dos primeiros meses deste ano, 35 fogos ficaram a dever-se a situações de comida queimada. No ano passado, este tipo de ocorrências tinha contribuído para 61 casos. Entre as outras causas de ocorrências de incêndios, constam o esquecimento de fogões ligados, chamas que não ficam totalmente extintas, a queima de incensos, velas e papéis votivos, curtos-circuitos em instalações eléctricas e falhas mecânicas. Apesar da redução dos incêndios, no primeiro semestre registaram-se várias ocorrências em prédios residenciais que causaram pelo menos cinco feridos. Os números mostram que o total geral de ocorrências em que o Corpo de Bombeiros teve de intervir apresentou uma redução de 6,32 por cento, de 14.098 casos para 13.207 casos. Menos ambulâncias Em relação aos dados sobre as saídas de ambulâncias houve uma redução dos casos de 3,1 por cento para 11.406 ocorrências, que exigiram a utilização de 12.221 veículos, uma redução de 3,43 por cento. No período homólogo, registaram-se 11.774 ocorrências que exigiram a saída de 12.655 veículos de emergência. Sobre esta diferença, o Corpo de Bombeiros indicou que se deveu “principalmente à redução dos casos de leve indisposição da febre e dificuldades de respiração”. “Os casos gerais de socorro lidaram essencialmente com tonturas, dores abdominais, dificuldades de respiração, vómitos, febres e vários tipos de ferimentos”, foi acrescentado. Também nas operações de salvamento houve uma redução, de 3,3 por cento, de 454 casos para 439 casos. Finalmente, no que diz respeito aos serviços especiais, apurou-se uma redução de 29,01 por cento, de 1.616 casos para 1.144 casos, uma diferença de 29,21 por cento.
AMCM | Central de Depósito e Liquidação de Valores Mobiliários perde 7,18 milhões João Santos Filipe - 9 Abr 2025 A Central de Depósito e Liquidação de Valores Mobiliários de Macau, controlada a 100 por cento pela RAEM, continua a registar prejuízos sucessivos. Desde 2022, a empresa criada para diversificar a economia de Macau nunca apresentou lucros A empresa Central de Depósito e Liquidação de Valores Mobiliários de Macau (MCSD, na sigla em inglês) registou prejuízos de 7,18 milhões de patacas no ano passado. Este é o segundo ano consecutivo com perdas da empresa controlada a 100 por cento pela Autoridade Monetária de Macau (AMCM), que tinha apresentado perdas de 6,7 milhões de patacas no ano anterior. Criada em 2021, a MCSD surgiu no âmbito da política do Governo de Ho Iat Seng para diversificar a economia na área das finanças e tem como funções a exploração das infra-estruturas financeiras, de serviços de registo central, compensação, liquidação e de depósito de valores mobiliários. No âmbito destas funções, a MCSD tem prestado apoio ao mercado de empréstimos obrigacionistas. No entanto, os números da empresa teimam em continuar a apresentar prejuízos. No primeiro ano completo de operações, em 2022, a empresa que tem um capital social de 50 milhões de patacas, apresentou prejuízos de 3,9 milhões de patacas. No ano seguinte, os prejuízos subiram para 6,7 milhões de patacas e os dados mais recentes mostram um novo recorde negativo de 7,18 milhões de patacas. Mais receitas e despesas Apesar do cenário negativo, as receitas originadas por contratos com participantes no mercado financeiro de Macau até registaram um aumento. Actualmente, no portal da MCSD, surgem registadas como “participantes” cerca de 90 entidades. Em 2024, as receitas derivadas dos contratos de participação subiram para 2,9 milhões de patacas, quando no ano anterior tinham sido de cerca de 966 mil patacas. Em termos das restantes receitas do ano passado, foi apurado um 1 milhão de patacas em juros, com os outros serviços a geraram 11.300 patacas e os ganhos com câmbios a gerarem 721 patacas. Em termos das despesas houve igualmente um aumento para 11,2 milhões de patacas em 2024, face aos 9,2 milhões de patacas de 2023. O custo mais elevado foi para as remunerações dos trabalhadores que subiram de 3,1 milhões de patacas para 4,6 milhões de patacas. Para este aumento contribuiu o recrutamento de cinco funcionários, totalizando 13 trabalhadores no fim de 2024. A outra grande despesa deveu-se ao pagamento dos serviços de correio telecomunicações que foi de 3,2 milhões de patacas, abaixo do custo de 3,3 milhões do ano anterior.