Filipinas | Estudantes manifestaram-se contra corrupção no país

Milhares de estudantes nas Filipinas manifestaram-se na cidade de Quezon contra a corrupção, quando decorrem investigações a projectos de controlo de cheias que alegadamente foram concluídos, mas que são inexistentes ou de baixa qualidade

 

Em comunicado, o Conselho Estudantil da Universidade das Filipinas-Diliman declarou que o “vasto sistema de corrupção e a corrupção dentro do governo” é exposto diariamente. A organização de estudantes acrescentou que “os corruptos vivem no luxo” enquanto milhões de cidadãos filipinos continuam a viver em extrema pobreza.

Mais de dois mil jovens vestidos de negro protestaram na universidade da cidade de Quezon, de acordo com os dados do conselho estudantil citados pela emissora filipina ABS-CBN. A manifestação universitária na província de Quezon, organizada por vários grupos estudantis e da sociedade civil, ocorreu no dia em que estavam também planeados outros protestos em Manila, incluindo um protesto frente à sede do Departamento de Obras Públicas e Estradas das Filipinas (DPWH).

As autoridades mobilizaram uma força de segurança reforçada de 2.500 polícias em vários pontos da capital das Filipinas.

De acordo com o porta-voz da polícia de Manila, Randulf Tuaño, o objectivo do destacamento foi evitar surtos de violência como os que se registaram durante recentes protestos anticorrupção em outros países asiáticos. “O que aconteceu na Indonésia e no Nepal não faz parte da cultura filipina”, disse Tuaño em entrevista à emissora estatal PTV.

Bolsos cheios

Os protestos ocorridos nas Filipinas foram organizados numa altura em que se regista indignação no país sobre projectos multimilionários de controlo de cheias, mas que se revelaram inexistentes ou de baixa qualidade.

O Presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos Jr., ordenou em Agosto uma investigação sobre os projectos. De acordo com o ministro das Finanças, Ralph Recto, os projectos causaram prejuízos de 1,771 mil milhões de euros ao erário público nos últimos dois anos.

Marcos criou um órgão independente para rever os contratos atribuídos pelo DPWH, enquanto o Senado conduz uma própria investigação sobre o assunto, marcada por alegações de corrupção contra dois senadores.

Mar do Sul da China | Pequim acusa Manila de conluio com forças “extra-regionais”

A China acusou as Filipinas de conluio com “forças extra-regionais” para organizar patrulhas marítimas conjuntas, divulgar “reivindicações ilegais” de soberania marítima e de minar a estabilidade regional, num novo episódio de tensão entre os dois países

 

“Advertimos solenemente o lado filipino para que pare imediatamente de provocar incidentes e de se envolver em acções que aumentam as tensões no Mar da China Meridional”, afirmou o porta-voz do Comando do Teatro Sul do Exército Popular de Libertação (EPL, Exército chinês), Tian Junli, citado pela agência estatal chinesa, Xinhua.

Tian enfatizou que as “tentativas de provocar distúrbios ou perturbar a ordem” naquela região marítima estão “condenadas ao fracasso”.

As “tropas do Comando do Teatro Sul permanecem em alerta máximo para salvaguardar resolutamente a soberania territorial e a segurança nacional da China, bem como para manter a paz e a estabilidade no Mar da China Meridional”, acrescentou, de acordo com um comunicado oficial, divulgado pela Xinhua.

A marinha de guerra chinesa realizou “patrulhas de rotina no Mar da China Meridional na sexta-feira e no sábado”, dias 12 e 13, informou ainda o porta-voz. As manobras coincidem com a crescente actividade naval de Pequim no Pacífico. No sábado, a imprensa oficial chinesa informou que o porta-aviões Fujian, o terceiro do país, tinha atravessado o estreito de Taiwan em direção ao Mar da China Meridional para realizar testes e treinos.

Zona cinzenta

Especialistas em defesa em Taipé, citados pela agência de notícias CNA, alertaram que a futura entrada ao serviço do Fujian permitirá à China operar permanentemente três grupos de combate de porta-aviões, o que aumentará a pressão sobre Taiwan e ampliará a projecção naval de Pequim em relação aos Estados Unidos.

No mesmo dia, a Guarda Costeira de Taiwan denunciou a presença de um navio da guarda costeira e de um barco de pesca chineses nas proximidades da ilha de Dongsha, sob controlo taiwanês, que obrigou ao envio de patrulhas para os expulsar. Taipei classificou as incursões como “tácticas na zona cinzenta” e comprometeu-se a manter a vigilância.

A China considera o estreito de Taiwan parte das suas águas territoriais, enquanto Taipé, Washington e aliados o classificam como via marítima internacional. O trânsito de navios de guerra pela zona costuma aumentar a tensão entre as duas margens, num contexto de crescente mobilização militar de Pequim em torno da ilha.

O Mar da China Meridional, para onde se dirige o porta-aviões Fujian, é outro foco de atritos: Pequim reivindica a maior parte desse espaço marítimo, também disputado por países como as Filipinas ou o Vietname.

China recebe restos mortais de trinta soldados mortos na Guerra da Coreia

Um avião militar chinês aterrou em Shenyang com os restos mortais de 30 soldados chineses que combateram na Guerra da Coreia (1950-1953), repatriados da Coreia do Sul ao abrigo de um acordo bilateral. Trata-se da 12ª repatriação conjunta desde 2014, elevando para 1.011 o número total de soldados chineses cujos restos mortais foram devolvidos pela Coreia do Sul.

A cerimónia de entrega decorreu no aeroporto internacional de Incheon, onde os caixões, cobertos com a bandeira chinesa, receberam honras militares. Os restos mortais dos soldados foram depois transportados num avião Y-20 da Força Aérea chinesa, escoltado por quatro caças J-20 ao entrar no espaço aéreo da China. O avião aterrou no aeroporto de Taoxian, em Shenyang, nordeste do país, onde foi recebido com um arco de água tradicional feito por camiões de bombeiros, em sinal de respeito máximo.

Perto da fronteira

A maioria dos soldados chineses mortos na guerra – na qual Pequim enviou mais de dois milhões de combatentes em apoio à Coreia do Norte – permanece sepultada em território norte-coreano. Dados oficiais chineses indicam cerca de 197.600 mortos, embora estimativas ocidentais apontem para números mais elevados.

Os 30 soldados agora repatriados serão sepultados no cemitério de mártires de Shenyang, construído em 1952 para acolher combatentes chineses mortos no conflito. A cidade situa-se a cerca de 350 quilómetros da fronteira com a Coreia do Norte.

Em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, existe um monumento em homenagem aos soldados chineses mortos na guerra, visitado por vários líderes chineses em deslocações oficiais ao país vizinho.

Conhecida na China como a “Guerra para Resistir à Agressão dos Estados Unidos e Ajudar a Coreia”, a Guerra da Coreia tem recebido crescente atenção no país nos últimos anos, impulsionada por superproduções patrióticas como A Batalha do Lago Changjin (2021), o segundo filme mais visto da história do cinema chinês.

Economia | Anunciado plano para “estabilizar” as vendas de automóveis

A China disse que tem um plano para “estabilizar” o crescimento do sector automóvel nos próximos dois anos, face á guerra de preços entre fabricantes e as dificuldades à exportação de carros chineses.

O plano prevê uma desaceleração do crescimento das vendas de veículos a partir de 2025, sendo o objectivo de em 2025 face a 2024 haver um crescimento de 3 por cento para aproximadamente 32,3 milhões de veículos vendidos. Tal representa uma quebra face ao crescimento de 4,5 por cento registado entre 2023 e 2024, segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis.

O plano, anunciado por oito agências governamentais para 2025 e 2026 e noticiado pela agência de notícias estatal Xinhua, também inclui “reforçar os inquéritos sobre os custos e a monitorização dos preços”, assim como incentivar a inovação e apoiar a procura interna.

O Estado chinês investiu massivamente nos últimos anos no desenvolvimento da indústria chinesa de veículos eléctricos. Mas a guerra de preços entre fabricantes a nível global levou muitas empresas recentemente criadas à falência, à medida que os grandes fabricantes inundaram o mercado com veículos de baixo custo acompanhados de programas de troca atractivos.

Numa reunião em Julho, altos responsáveis chineses apelaram à contenção da “concorrência irracional” e ao incentivo ao desenvolvimento “mais saudável” do sector. Os fabricantes de automóveis chineses também enfrentam desafios nas exportações, sobretudo para a União Europeia, que iniciou em 2023 uma investigação sobre concorrência desleal.

No início desta semana, o México anunciou um projeto de lei para aumentar as tarifas sobre os automóveis chineses para 50%, face ao atual intervalo de 15% a 20%, irritando Pequim.

Ucrânia | Eslovénia pede a Pequim para usar influência junto da Rússia

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Eslovénia, a social-democrata Tanja Fajon, apelou a Pequim para usar a sua influência junto da Rússia de modo a cessar os ataques à Ucrânia e alcançar uma paz duradoura.

As declarações de Fajon, antiga eurodeputada, surgem no âmbito da visita do seu homólogo chinês, Wang Yi, que realizou ontem uma visita à Eslovénia.

Num comunicado emitido após um encontro entre os dois e citado pela agência noticiosa Efe, ambos destacaram a importância do multilateralismo nas relações internacionais e o respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas. “Estamos perante violações sem precedentes do direito internacional, especialmente do direito internacional humanitário e dos direitos humanos. Os acontecimentos em Gaza recordam-nos isso todos os dias”, apontou a responsável eslovena.

A ministra registou que é necessário um trabalho conjunto para assegurar que o multilateralismo seja a base da ordem internacional e que o direito internacional não fique “apenas no papel”. Fajon considerou que a posição se sustenta em princípios e foi defendida no Conselho de Segurança da ONU.

Por sua vez, Wang Yi apontou que a China é um membro responsável da comunidade internacional que quer promover o diálogo e negociações de paz, acrescentando que o seu país não quer estabelecer uma alternativa às estruturas existentes no mundo.

Segundo a Efe, a ministra eslovena destacou a cooperação económica entre os dois países, que se reforçou nos últimos anos, em particular em áreas como investimentos, cultura, ciência ou educação. Wang foi recebido ontem pela Presidente da Eslovénia, Natasa Pirc Musar, e pelo primeiro-ministro, Robert Golob.

Semicondutores | Pequim abre investigações sobre políticas americanas

O Ministério do Comércio da China anunciou a abertura de duas investigações sobre importações e políticas dos Estados Unidos no sector de semicondutores, na véspera da quarta ronda de negociações comerciais entre os dois países em Madrid. Num comunicado publicado no sábado à noite, o ministério informou que iniciou uma investigação “antidumping” sobre determinados circuitos integrados analógicos provenientes dos Estados Unidos, após um pedido de uma associação provincial da indústria.

De acordo com os dados fornecidos pelos requerentes, entre 2022 e 2024, as importações desses chips aumentaram 37 por cento e os seus preços caíram 52 por cento, o que teria pressionado o mercado interno para baixo. O ministério especificou que a investigação abrangerá chips de interface de dados e controladores de ecrã fabricados com tecnologia de 40 nanómetros ou superior e que será concluída, salvo prorrogação, em setembro de 2026.

Paralelamente, Pequim abriu uma segunda investigação “antidiscriminação” contra as medidas dos EUA que, desde 2018, restringiram a exportação de semicondutores para a China ou limitaram a actividade de empresas com ligações ao país asiático.

O ministério citou como exemplos as regras associadas à lei norte-americana de Chips e Ciência de 2022, as restrições notificadas em 2023 e 2024 e as directrizes publicadas em Maio passado para vetar o uso de chips da Huawei ou processadores chineses em inteligência artificial.

As Filosofias de Vida Chinesa e Portuguesa

Ana Cristina Alves

Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau 1

Entre as leituras de férias, tive oportunidade de reler do filósofo José Gil Portugal, Hoje. O Medo de Existir (2017) e não pude deixar de me surpreender com a atualidade de muitas das suas reflexões a respeito da maneira de estar dos portugueses, ainda atualmente 21 anos volvidos sobre a primeira edição da obra em 2004. As razões do nosso modo de estar no mundo devem-se a uma série de fatores determinantes para o desenvolvimento coletivo que se prendem com opções religiosas e políticas pouco favoráveis ao desenvolvimento do espírito filosófico, crítico e científico, como Antero de Quental tão bem viu em Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, numa conferência apresentada na sala do Casino Lisbonense no dia 27 de Maio de 1871. Esta viria a ser retomada e tematizada pelo filósofo João Maurício Brás em O Atraso Português: Modo de Ser ou de Estar (2022). Aqui se defende que não somos atrasados, já que não há nenhuma determinação essencialista para o facto, mas estamos, enquanto modo de ser coletivo, atrasados em relação ao modelo europeu que seguimos desde 1985/1986. Faltaram-nos grandes pensadores e cientistas nos últimos três séculos e sofremos a viragem para a passividade pouco depois dos Descobrimentos, remontando, do ponto de vista religioso o sucedido ao Concílio de Trento, realizado entre 1545 e 1563.

Não se aderiu à reforma protestante e pagou-se um preço filosófico por isso, medido em falta de espírito crítico, falta de arrojo científico e ausência de iniciativa e estamina, em que tanto nos tínhamos excedido para o grande empreendimento dos Descobrimentos.

A esta limitação religiosa, somaram-se fatores políticos e económicos desfavoráveis, como a persistência de tendências políticas autocráticas, que viriam a culminar no salazarismo e o fator contraproducente da aparente “dádiva” de riquezas obtidas do exterior, concretamente das colónias, que não nos desenvolveram internamente, sobretudo do ponto de vista industrial, pois tudo o que necessitávamos vinha de fora, primeiro da Índia, depois do Brasil e por último, como bem nota o pensador João Brás da “Nova Índia”, a União Europeia, este maná por onde continuam a escorrer milhões.

A verdade é que para que eles não se diluam em mais “fumos da Índia”, será preciso saber o que fazer com eles, como aplicá-los corretamente em planos de reforma e modernização do país. Estamos ainda na fase dos três “Dês” da revolução de 2025, de acordo com João Brás, opinião que se partilha. Portugal precisa de se continuar a Desenvolver, Descolonizar, ou seja, acreditar que se pode criar riqueza de dentro, e Democratizar, quer dizer, exercitar o pensamento crítico, sem “medo de existir”. O movimento pensante já começou e as hordas filosóficas têm vindo a engrossar desde Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes, passando por Eduardo Lourenço, José Gil, Viriato Soromenho-Marques, João Brás, Adriana Serrão, Paulo Borges, Carlos João Correia, Pedro Calafate, entre tantos outros e outras.

Ao ler José Gil, deparei com um ou dois parágrafos incontornáveis para quem há muito se dedica aos estudos chineses:

Uma diplomata francesa que tinha vivido longos anos na China e, mais tarde, em Portugal, dizia que os portugueses eram “os chineses do Ocidente”. E explicava: os chineses nunca vão diretamente ao assunto, dão voltas e mais voltas antes de lá chegar e sempre em termos velados. Os portugueses fazem o mesmo: aproximam-se indiretamente, percorrem espirais, caminhos ínvios e barrocos até abordar claramente a questão. (Gil, 2017, 66)

Há, de facto, algumas semelhanças na maneira de estar dos portugueses e chineses, sobretudo em termos dos relacionamentos sociais. Nem portugueses, nem chineses gostam de confrontar diretamente as pessoas e muito menos os superiores hierárquicos, o chefe tem sempre razão, pelo menos até virar as costas, mal as vira é alvo da pior maledicência. A não confrontação não é apenas uma questão de cobardia para portugueses e chineses. Há uma suavidade nata nos portugueses e cultivada nos chineses, por uma longa tradição confucionista de controlo das emoções, com vista à criação de um ambiente harmonioso. Quanto aos portugueses, que melhor testemunho do que insuspeito Antero de Quental? Este distinguia-nos, como uma das características fundamentais pré-decadência, qualidades remontando à Idade Média, entre as quais “A caridade triunfava das repugnâncias e preconceitos de raça e de crença” (Quental, 2010, 12).

A suavidade em nome da harmonia e do bom viver é então uma característica partilhada por chineses e portugueses, que têm ou tiveram, ainda, outra afinidade notável, a importância da família como base e sustentáculo da pirâmide social. Esta virá a perder terreno para uns e outros, fruto das grandes alterações sociais, impressas na China, primeiro pela revolução comunista de 1949, na qual as massas populares e a coletividade passariam para primeiro plano, depois pelo movimento de reforma e abertura (1978/9) arquitetado por Deng Xiaoping (1904-1997), que aliou o socialismo à economia de mercado e ao desenvolvimento de uma classe média pronta a enriquecer, mas também a tornar-se cada vez mais egoísta e individualista, como refere António Caeiro em Novas Coisas da China ― «Mudo logo existo» “A emergência da classe média chinesa é a maior história da nosso tempo” (2015, 28), baseado em dados da Forbes Magazine de 2011.

É indesmentível, que os chineses hoje em dia se aproximam muito em individualismo dos portugueses. Há um outro traço que partilham por tradição e que os afasta na atualidade, o amor ao pensamento teórico, às formalidades e formalismos. No entanto, fruto de um trauma brutal no século XIX, as duas guerras do ópio (1839-1842; 1856-60), as autoridades e os pensadores e filósofos chineses, tais como Sun Yat-sen, Feng Yulan (馮友蘭/冯友兰,1895 -1990), entre outros, incentivaram os conterrâneos a aprender ciência com os ocidentais em nome da modernização. Hoje a China tem uma elite científica já com pensamento próprio e sem necessidade de seguir os modelos ocidentais, sendo este um dos fatores, aliado ao combate à corrupção e ao desenvolvimento de um modelo de ciência tão ecológica quanto possível, o que mantém o partido comunista na liderança governativa do país, tornando o seu sistema político difícil de descrever para grandes autores como Francis Fukuyama: chama-se-lhe muitos nomes como “capitalismo vermelho” (Caeiro, 2015, 174/5), que não é uma democracia à maneira ocidental, nem um ditadura ao jeito clássico, mas antes um país governado por um partido “ – de partido revolucionário, o PCC transformou-se em partido dirigente de um processo de modernização.

Antes era a vanguarda do proletariado, hoje dirige a nação” (Caeiro, 2015: 42), segundo a opinião de muitos chineses. Ou seja, enquanto tiver um plano para a modernização do país, sobretudo em termos educacionais e científico-tecnológicos, que inclua o combate às desigualdades sociais e ao problema endémico da corrupção e promova uma forte classe média, o governo da China não será discutido. Os chineses aderiram às mudanças, sobretudo científicas e estão na linha da frente em muitos setores tecnológicos. E neste aspeto houve um grande distanciamento em relação ao seu modo de estar tradicional, que enfatizava a expressão estética e, sobretudo poética, bem como o saber livresco, culminando numa imensa repetição dos Clássicos, que se estendeu desde a antiguidade até ao início do século XX.

Há, no entanto, uma interessante característica a salientar no modo de estar chinês que, guiado pelo princípio da transformação, importante pilar filosófico e cultural, muda, sem mudar. Como é isso possível? Mantendo as suas estruturas essenciais intactas. “O antigo e o novo confundem-se. Áreas «históricas» são reconstruídas de raiz, «novos edifícios antigos» substituem os velhos. Em vez de preservar, destrói-se e a seguir faz-se igual” (Caeiro. 2015, 14).

O princípio de transformação permite a mudança, mas não radical, do ponto de vista de mentalidades, por exemplo, e relativamente às categorias de interioridade vs exterioridade, há um fundo que permanece numa civilização habituada a cultivar a interioridade. Pense-se na mentalidade religiosa, formada por séculos de meditação, favorecida pelas escolas taoista e budista. A transcendência não surge como uma divindade exterior, está dentro e quando o meditador se volta para o interior encontra o divino em si.

E é justamente a relação interior/ exterior que mais distingue os modos de ser português e chinês, tanto do ponto de vista religioso como filosófico, a divindade portugusa é exterior e no mundo filosófico sempre houve o cuidado de separar o transcendente e o imanente, o sujeito e o objeto, etc. Portanto, na maneira de estar portuguesa a exterioridade foi determinante na filosofia e na ciência, pelo menos nos últimos séculos, já que tudo o que vem de fora é extraordinário e bom, leia-se a propósito o excelente artigo de Fernando Pessoa “O caso mental português”, no qual esta idolatria e bajulação do estrangeiro é classificado sem contemplações pelo poeta-pensador como “provincianismo” ; mas pelo lado positivo, esta tendência pode ser perspetivada como força anímica impulsionadora e inspiradora, dos pontos de vista geográfico e científico, já que a “nossa expansão” permitiu o desenvolvimento do pensamento científico e experimental, recordem-se a propósito as palavras de João Brás “a capacidade de iniciativa e até vanguardista que encontrámos nos séculos XV e XVI” (Brás, 2022:114), bem como o escape à pobreza e o bom viver à custa de terceiros. Quando se atenta na história e geografia da China, nota-se que os momentos expansionistas foram mínimos, baseados na ocupação de territórios fronteiriços, logo assistiu-se a um alastramento de dentro e não uma saída mar fora. E quando se lançaram para o exterior, fizeram-no no século XV com o auxílio duma frota comandada por um muçulmano, não para ocupar territórios, mas para envidar esforços diplomáticos relativamente aos países circundantes e até à África oriental. Há a acrescentar que, sobretudo no século XIX os chineses se viriam muito pressionados pela péssima situação económica, fruto das guerras, a emigrar e a imitar o estrangeiro, em pleno período considerado de decadência pelos chineses.

Portugueses e chineses têm um grande respeito pelas suas tradições históricas e heróis antigos e ambos os povos se veem confrontados com a premência de se modernizarem, no entanto, os chineses têm sido mais eficazes nas respostas encontradas, talvez por não terem esquecido os últimos séculos sob o jugo de uma dinastia estrangeira, pelas guerras e turbulência que tiveram de ultrapassar, e daí tenha resultado uma capacidade de esboçar planos a longo prazo que contribuiu para que a sociedade se mobilizasse e aceitasse as reformas, lendo-as como uma verdadeira possibilidade de emancipação socioeconómica, através da promoção de uma classe média ávida de um conhecimento que outrora pertencia apenas às elites, por muito que se apregoasse que o sistema meritocrático chinês era bom para todos, a verdade é que havia sempre que contar com o “privilégio sombra” da aristocracia que detinha o poder.

A maneira de estar portuguesa só voltará a aproximar-se da chinesa quando a necessidade de desenvolvimento e modernização, que passará inevitavelmente pela implementação de reformas, for assumida por cada um de nós de uma maneira consciente e organizada, como já o pediam Antero de Quental e a geração de 70 nos finais do século XIX, o que não será assim tão difícil de acontecer, se cada um de nós se preparar para a transformação ética: “Não são necessárias pessoas excepcionais, mas auto-responsabilidade, civismo, espírito crítico e exigente, a ideia de que a mudança começa principalmente por cada um de nós.” (Brás, 2022, 110)2.

Referências Bibliográficas

Brás, João Maurício. 2022. O Atraso Português ― Modo de Ser ou Modo de Estar. Lisboa: Autor e Guerra e Paz Editores.

Caeiro, António. 2015. Novas Coisas da China ― «Mudo logo existo». Lisboa: D. Quixote.

馮友蘭 (Fung Yu-lan/ Feng Youlan).2006.《中國現代哲學史》香港:中華書局有限公司.

Gil, José.2017. Portugal, Hoje. O Medo de Existir. Lisboa: Relógio D’ Água.

Pessoa, Fernando. “O caso mental português”. Fernando Pessoa. Obra Poética e em Prosa, pp.1306 /1312.

Quental, Antero. 2010. Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos três Séculos. Sintra: Padrões Culturais Editora.

Notas:
Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores” https://www.cccm.gov.pt

O filósofo João Brás não segue a grafia do novo acordo ortográfico.

Arte Macau | Museu do Neo-Realismo português apresenta-se em Macau

Foi inaugurado na sexta-feira o “Pavilhão da Cidade de Vila Franca de Xira”, integrado na Arte Macau: Bienal Internacional de Arte de Macau que apresenta peças da colecção do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. O director do museu, David Santos, conta ao HM o que o público poderá esperar do trabalho de 14 artistas que compõem a mostra

 

Representações artísticas do neo-realismo português vão estar em exibição numa exposição incluída na programação da Arte Macau: Bienal Internacional de Arte de Macau. De Vila Franca de Xira, vieram 20 obras de 14 artistas portugueses que integram o “Pavilhão da Cidade de Vila Franca de Xira”, com curadoria de David Santos, director do Museu do Neo-Realismo, localizado na cidade do distrito de Lisboa, e José Maçãs de Carvalho, artista visual. O projecto nasceu de um convite do Consulado-geral de Portugal e Hong Kong e do Instituto Português do Oriente.

Os trabalhos, de artistas como Alice Geirihas, Ana Pérez-Quiroga, André Cepeda, Carla Filipe, Fernando José Pereira, José Maçãs de Carvalho, Luciana Fina ou Luísa Ferreira, entre outros, “dão uma expressão e uma perspectiva da qualidade da colecção do Museu do Neo-Realismo ao nível da produção mais contemporânea”, explicou ao HM David Santos.

“A colecção do museu está mais focada nos trabalhos dos anos 40, 50 e 60, um período referente à afirmação do movimento cultural e artístico neo-realista em Portugal. Mas através de ciclos de arte contemporânea feitos desde 2006 que vários artistas contemporâneos têm feito doações ao museu e à sua colecção, o que tem vindo a enriquecer a colecção ao nível da expressão contemporânea”, referiu.

As 20 obras presentes no Pavilhão correspondem a um período compreendido entre os anos de 1990 até 2025 e constituem “a expressão do melhor que tem sido feito na arte portuguesa nos últimos 25 anos”. A mostra “é também uma forma de afirmar o peso e a importância institucional da colecção do Museu do Neo-Realismo”, acrescenta David Santos.

A nova realidade

A mostra intitula-se “A Reinvenção do Real” e apresenta sinais do movimento Neo-Realista, “uma arte com um sentido mais crítico, com maior observação sobre as questões sociais e política, fazendo memória, de algum modo, e também uma homenagem ao espírito que alimentou o Neo-Realismo no seu sentido contestatário ao Estado Novo e à ditadura, em meado do século XX”.

Porém, David Santos salienta que o criticismo inerente ao movimento artístico, e a própria “observação do real é diferente nos seus conteúdos”, embora haja “pontos e uma relação próxima com esse sentido contestatário, crítico, interventivo na consciência do observador, do espectador da obra de arte”.

Assim, os 20 projectos artísticos presentes nesta mostra em Macau remetem “para um olhar muito crítico sobre alguns temas da nossa contemporaneidade, como a questão da guerra ou a percepção sobre o sistema capitalista, o modo como nos desenvolvemos, de forma consciente ou não, com o mundo e com o real, ou até sobre a importância da própria imagem”.

Há, nestas obras, “um processo de significação daquilo que nos rodeia do ponto de vista social e político, mas sempre com um assento crítico”, pelo que não se pode encontrar uma arte mais abstracta, mas sim “formalista”, no sentido em que “todas as obras têm uma grande ligação ao real”.

Apresentar esta mostra em Macau propõe um certo diálogo, tendo em conta que “a arte contemporânea, e a arte de todos os tempos, sempre se relacionou com o seu tempo e o seu espaço, e pode-se dizer que a arte produzida em Portugal, ou por artistas portugueses, está a ser mostrada num contexto do Extremo-Oriente”. “Sabemos que Macau é uma região com uma ligação muito forte a Portugal, até do ponto de vista histórico”, acrescentou o director do museu.

A participação de José Maçãs de Carvalho como artista e curador é salientada por David Santos, até por se tratar de um ex-residente de Macau. “Trata-se de um artista que já fez exposições individuais no Museu do Neo-Realismo e colaborou com a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, e tem uma relação próxima com a cidade e o museu. Além disso, é alguém que tem experiência de afirmação artística no contexto de Macau na segunda metade dos anos 90, e isso foi importante na decisão de o convidar.”

Algo que já não existe

Apesar de podermos observar em “A Reinvenção do Real” certas referências ao Neo-Realismo, este é “um movimento que já não existe”, pelo menos na sua forma mais pura de contestação a uma ditadura, até porque esse regime terminou em 25 de Abril de 1974.

David Santos explica que “até ao início dos anos 60 ainda podemos falar da existência de um movimento neo-realista na literatura, artes plásticas, mas desde aí que não é possível pensarmos numa expressão artística identificada com a designação de neo-realismo”.

Contudo, persistem “preocupações políticas e sociais em artistas de diversas gerações, mas não significa que estes artistas que cá estão [na exposição] são os novos neo-realistas”. O que há é “um ponto entre as preocupações sociais e políticas que são manifestadas no trabalho artístico de artistas de outras gerações, nomeadamente dos mais recentes, mas isso não faz deles artistas neo-realistas”.

“Estamos quase com 100 anos passados sobre esses meados do século passado [em que surgiu o movimento neo-realista] e os artistas de hoje revêem-se em cruzamentos que não são possíveis de identificar no período neo-realista. Portanto, não há um novo movimento, mas na expressão individual da criatividade de cada artista aqui representado, encontramos ligações com a questão do Neo-realismo e com o sentido crítico dessa tal reinvenção do real”, destacou David Santos.

A Bienal Internacional de Arte de Macau foi inaugurada a 18 de Julho e inclui um total de 30 exposições e 46 artistas, sendo que muitas das actividades já terminaram. A mostra com as obras do Museu do Neo-Realismo pode ser vista na Galeria Tap Seac até 16 de Novembro.

ONU | Wan Kuok Koi ligado a centros de burlas em Timor Leste

O empresário Wan Kuok Koi, também conhecido como Dente Partido, surge associado a um centro de fraudes estabelecido na Região Administrativa Especial de Oecusse-Ambeno, em Timor-Leste. A ligação consta de um relatório elaborado pelo Gabinete da Droga e do Crime da Organização das Nações Unidas, que aborda a ligação entre as políticas de investimento externo e o surgimento de redes de burlas no Sudeste Asiático.

O relatório aponta o caso de 25 de Agosto deste ano, quando a polícia de Timor-Leste fez uma rusga num hotel em Oecusse-Ambeno, que resultou na apreensão de vários cartões SIM e ainda aparelhos de ligação à internet Starlink, conhecidos pela elevada velocidade. De acordo com a ONU, este tipo de aparelhos é indispensável para o funcionamento de centros de burla. O hotel em causa é detido por vários empresários, inclusive um membro do Governo de Timor-Leste.

No entanto, Wan Kuok Koi, associado pela ONU à tríade 14 quilates, surge igualmente ligado a uma rede de exploração de casinos no Camboja e vários centros de burlas, que expandiu as operações para Timor-Leste. A ONU aponta ainda que esta rede tem várias ligações a complexos de burlas em Sihanoukville.

O relatório também menciona Macau, ao indicar que várias redes criminosas, como a 14 quilates, Gasosa ou Sun Yee On, começaram por se organizar no território, onde controlavam as empresas promotoras de jogo. Todavia, após as campanhas das autoridades contra estas tríades, as redes criminosas mudaram-se para o Sudeste Asiático, com investimentos em locais onde os casinos são legais.

Finanças | Corte nos apoios sociais faz cair despesa 1,8 por cento

Nos primeiros oito meses de 2025, a despesa pública caiu em termos anuais, devido à redução dos apoios sociais atribuídos à população. Um dos motivos que pode explicar a diferença anual é o novo modelo de distribuição do programa de comparticipação pecuniária

 

A despesa pública caiu 1,8 por cento nos primeiros oito meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2024, foi anunciado na sexta-feira, devido a um decréscimo nos apoios e subsídios sociais. De acordo com dados publicados pela Direção dos Serviços de Finanças (DSF), Macau gastou até Agosto 57,5 mil milhões de patacas.

A despesa pública diminuiu sobretudo devido à queda de 4,4 por cento, em termos anuais, nos gastos em apoios e subsídios sociais, que ficaram perto de 31 mil milhões de patacas. Um dos motivos que poderá justificar a redução da despesa passa pelo facto de o Governo ter deixado de distribuir 10 mil patacas, ou 6 mil patacas, do plano de comparticipação pecuniária a residentes que não permanecem, pelo menos, meio ano na RAEM.

A queda da despesa pública acontece apesar de no início de Julho, a Assembleia Legislativa ter aprovado uma proposta do Governo para aumentar em 2,86 mil milhões as despesas previstas no orçamento, para reforçar os apoios sociais.

A revisão inclui a criação de um subsídio, no valor total de 54 mil patacas, para crianças até 3 anos de idade, para elevar a mais baixa natalidade do mundo. Também os gastos com o Plano de Investimentos e Despesas da Administração caíram 2,4 por cento, para menos de 11 mil milhões de patacas. Em sentido contrário, as despesas com pessoal aumentaram 3,4 por cento, atingindo 3,14 mil milhões de patacas.

Jogo aumenta receitas

Ao invés da despesa, a receita corrente subiu 3,4 por cento nos primeiros oito meses do ano, para quase 72 mil milhões de patacas. A principal razão para o aumento foi um acréscimo de 5,3 por cento, para 61,9 mil milhões de patacas, nas receitas dos impostos sobre o jogo – que representam 86 por cento do total.

As seis operadoras de jogo pagam um imposto directo de 35 por cento sobre as receitas do jogo, 2,4 por cento destinado ao Fundo de Segurança Social e ao desenvolvimento urbano e turístico, e 1,6 por cento entregue à Fundação Macau para fins culturais, educacionais, científicos, académicos e filantrópicos.

As receitas totais dos casinos de Macau ultrapassaram 163 mil milhões de patacas nos primeiros oito meses do ano, mais 7,2 por cento do que no mesmo período de 2024.

Em 15 de Abril, O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, admitiu recear um défice orçamental em 2025, devido à desaceleração na recuperação das receitas do jogo, ainda aquém dos níveis atingidos antes da pandemia de covid-19.

Ainda assim, Macau terminou Agosto com um excedente nas contas públicas de 14,9 mil milhões de patacas, mais 30,4 por cento do que no mesmo período do ano passado. Este valor já é mais do dobro da previsão inicial do Governo para todo o ano de 2025: 6,83 mil milhões de patacas. Macau fechou 2024 com um excedente de 15,8 mil milhões de patacas, mais do dobro do registado no ano anterior.

Abstenção | Mais votos, apesar de terceira participação mais baixa de sempre

A taxa de participação no sufrágio directo fixou-se em 53,35 por cento com um total de 175.272 votantes. É o número mais alto de sempre de participantes, no entanto, como os inscritos têm crescido, a taxa de abstenção foi de 46,65 por cento. Sam Hou Fai considerou que os números mostram uma “adesão activa dos eleitores”

 

Apesar da campanha do Governo a promover o voto como um “dever”, a taxa de participação de ontem foi a terceira mais baixa de sempre, fixando-se em 53,35 por cento com um total de 175.272 votantes, entre 328.506 registados. Se forem considerados os actos eleitorais com urnas abertas até às 21h, foi a segunda taxa mais baixa, apenas superada pela abstenção de 2021, em plena pandemia.

Em reacção aos números, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, considerou que houve uma “adesão activa dos eleitores”. “Nas eleições deste ano, votaram um total de 175.272 eleitores, representando uma participação eleitoral de 53,35 por cento, número que reflecte uma adesão activa dos eleitores”, afirmou Sam Hou Fai, em comunicado. “Gostaria de agradecer aos eleitores pela sua iniciativa em participarem, e aproveitarem o poder do seu voto para escolherem, com acções concretas, os seus representantes na Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau, contribuindo para a implementação duradoura do princípio ‘Um País, Dois Sistemas’”, acrescentou.

Como parte da mensagem, Sam Hou Fai considerou também que “em geral” foram alcançados “os resultados esperados”.

Em relação a 2021, o primeiro acto em que foram excluídos candidatos por motivos políticos, a taxa de participação cresceu de 42,38 por cento para 53,35 por cento. Todavia, 2021 ficou marcado como o acto eleitoral com a menor taxa de participação desde que foi estabelecida a RAEM, com a abstenção a cifrar-se em 57,62 por cento.

A taxa de participação superou também o registo de 2001, quando a taxa de participação foi de 52,34 por cento, com a taxa de abstenção a atingir 47,66 por cento.

Número mais alto

Com 328.506 inscritos, houve um total de 175.272 votantes. Foi o número mais alto de sempre, ultrapassando o registo de 2017, quando tinham votado 174.872 pessoas, pelo que houve mais 400 votantes. No entanto, o último acto eleitoral antes das exclusões políticas tinha menos 22.891 votantes inscritos, o que levou a que a taxa de participação fosse maior, de 57,22 por cento, e a de abstenção mais baixa, não indo além 42,78 por cento.

A taxa de participação ficou assim abaixo dos registos de 2005 (58,39 por cento/abstenção de 41,61 por cento), 2009 (59,91 por cento/abstenção de 40,09 por cento), 2013 (55,02 por cento/abstenção de 44,98 por cento) e 2017 (57,22 por cento/abstenção de 42,78 por cento).

Na realização do acto eleitoral deste ano, o Governo envolveu-se para garantir que votavam tantas pessoas quanto as possíveis. Além da disponibilização de transportes públicos, ou a possibilidade de ver online o tamanho das listas para votar, as autoridades multiplicaram-se em apelos ao voto. Além disso, a Lusa revelou que antes das eleições vários departamentos da Função Pública perguntaram aos funcionários públicos se iam votar, pediram oralmente justificações para resposta negativas e exigiram ser informados através de mensagens, depois do exercício do voto.

Afluência nas Eleições Legislativas – Sufrágio Directo

Ano Número de Eleitores  Taxa de Participação Taxa de Abstenção

2001 159.813 52,34% 47,66%

2005 220.653 58,39% 41,61%

2009 248.708 59,91% 40,09%

2013 276.034 55,02% 44,98%

2017 305.615 57,22% 42,78%

2021 323.907 42,38% 57,62%

2025 328.506 53,35% 46,65%

CAEAL | Registada violação da lei em assembleia de voto

O presidente da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), Seng Ioi Man, revelou que entre as 09h e as 18h foi registado um caso de violação da lei eleitoral, que foi acompanhado pela polícia.

Em declarações aos jornalistas, o responsável apontou suspeitas de que eleitor terá fotografado o voto na assembleia e tentou partilhar através de uma aplicação chat com um amigo. No entanto, Seng Ioi Man considerou que o número de violações foi reduzido de forma significativa, em comparação com o passado, mostrando que os eleitores têm mais consciência da necessidade de cumprir as leis. Seng defendeu ainda que a redução das infracções mostra que os sinais nas assembleias de voto são eficazes a chamar a atenção das pessoas.

Eleições | Coutinho foi o vencedor de noite marcada pelos votos brancos e nulos

“Ficamos na História de Macau com este resultado”, afirmou o líder da lista Nova Esperança, depois de arrasar a concorrência com uma vantagem de mais de 14 mil votos para a segunda lista mais votada

 

A lista de Nova Esperança e José Pereira Coutinho foram os grandes vencedores da noite, com mais de 40 mil votos e uma diferença de quase 14 mil votos para a segunda lista mais votada, a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, liderada por Song Pek Kei. Nas primeiras eleições após a alteração à lei para garantir a governação por patriotas, o grande vencedor foi um cidadão português.

Ao longo da campanha eleitoral, a Nova Esperança mostrou dificuldades em mobilizar o eleitorado e as fotos da acção na Praça do Tap Seac foram alvo de chacota nas redes sociais. Na noite de ontem, o número de apoiantes da lista na sede da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau também não era superior a 30 pessoas. Mas nas urnas, onde realmente se construiu o resultado, a lista conseguiu uma vantagem arrasadora.

A lista número 2 reuniu 43.361 votos e além de José Pereira Coutinho e Che Sai Wang, a lista apoiada pela Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau passa a contar no hemiciclo com Chan Hao Weng.

A reeleição de Che Sai Wang acaba por ser um dos pontos altos da noite, dado que Che tinha sido despromovido de segundo a terceiro candidato da lista para estas eleições.

“É uma vitória muito saborosa, foi custosa. […] É uma vitória estrondosa. Muitas pessoas ficaram surpreendidas, e nós também ficamos. Esperávamos um bom resultado, mas nesta altura… Viver em Macau, ficar em primeiro, eu, um residente de Macau com nome português estar na lista com mais votos…”, começou por afirmar José Pereira Coutinho, depois de serem conhecidos os resultados da noite. “A comunidade macaense e portuguesa votou em peso na Nova Esperança. Sabemos da nossa responsabilidade e vamos trabalhar mais e melhor. Este resultado nunca teria sido possível sem a coordenação da Rita Santos. Tem uma experiência de largos anos e não foi fácil coordenar a campanha, porque os nossos recursos eram extremamente limitados, comparando com as outras listas que tinham outros recursos financeiros”, realçou ao Canal Macau. “Ficamos na História de Macau com este resultado”, atirou.

No segundo lugar terminou a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, ligada à comunidade de Fujian, que manteve os três deputados. A lista da deputada Song Pek Kei, que substitui Si Ka Lon como cabeça de lista, conseguiu um total de 29.459 votos, pelo se mantém no hemiciclo. Também Nick Lei segurou o lugar. A principal diferença face a 2021 prende-se com a entrada de Chan Lak Kei no parlamento, o último deputado a ser confirmado.

Nulos e brancos

A noite de ontem ficou também marcado pelo aumento exponencial dos votos brancos e nulos que totalizaram 13.064, uma proporção de 7,5 por cento. Este número seria suficiente para eleger um deputado, no décimo lugar entre os 14, à frente do segundo deputado da quarta lista mais votada.

Em 2021, a proporção de votos brancos e nulos tinha sido de 3,8 por cento, o que significa que a proporção deste tipo de voto duplicou no espaço de quatro anos. Nesse ano, os votos brancos e nulos totalizaram 5.223 (3.141 brancos e 2.082 nulos). Questionado sobre o aumento, o presidente da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), Seng Ioi Man, afirmou não ter comentários a fazer.

Derrota para Jiangmen

Entre os grandes derrotados da noite destaca-se a lista União de Macau-Guangdong, ligada à comunidade de Jiangmen. Após ter eleito como deputados em 2021 Zheng Anting e Lo Choi In, a lista apostou numa renovação completa e perdeu terreno, ficando inclusive atrás da lista União Promotora Para O Progresso, ligada à associação dos Moradores.

A lista liderada por Joey Lao, que tinha sido dispensado como deputado nomeado por Ho Iat Seng, não conseguiu juntar mais do que 21.461 votos e o cabeça de lista só entrou no hemiciclo atrás do segundo candidato da Nova Esperança. Ainda assim, Lao vai voltar ao parlamento pela lista que tinha vencido as eleições de 2017, fazendo-se acompanhar de Lee Koi Ian.

Outra das grandes desilusões da noite foi a lista Aliança de Bom Lar, da Associação das Mulheres. Wong Kit Cheng vai manter-se como deputada e vai ter como companhia Loi I Weng, que substitui o deputado Ma Io Fong no segundo lugar. No entanto, a associação viu a distância para a quinta lista crescer, quando se comparam com os resultados de 2021.

Enigma de Ng Kuok Chong

Na sexta-feira, Ng Kuok Cheong publicou uma mensagem enigmática nas redes sociais a indicar que tinha de sair da RAEM durante cerca de 10 dias, a pedido de terceiros, que não identificou. Numa escrita enigmática, Ng escreveu num chinês que tanto pode ser entendida como uma saída a pedido do “Governo” ou “dos pais”. “Por encomenda do Governo/dos pais, o meu corpo precisa de ser transportado para fora da RAEM, mas a saída foi autorizada, de forma prévia, e [o corpo] pode ser transportado, para regressar depois de 10 dias”, escreveu o ex-deputado.

Ng Kuok Cheong foi durante anos colega de bancada de Au Kam San na Assembleia Legislativa, que se encontra detido e está indiciado de violar a lei da segurança nacional. “Espero poder voltar a encontrar-me com os meus irmãos, sem obstáculos quando chegar aquele momento [passagem dos 10 dias]. Tenham todos cuidado”, acrescentou.

Foco no bem-estar

No segundo e terceiro lugar do “pódio” eleitoral ficaram as listas ligadas a Fujian e aos Operários. Em reacção aos resultados, por parte da Associação dos Cidadãos Unidos de Macau ficou a promessa de “concretizar com todos os esforços o programa político”. Song Pek Kei, a líder da lista, adiantou que a eleição de ontem foi significativa pela conquista de três lugares.

Já Ella Lei, que foi eleita com Leong Sun Iok pela União para o Desenvolvimento, promete “continuar o bom trabalho na promoção do emprego, reforço da economia e protecção do bem-estar da população”. Leong Sun Iok destacou o maior número de votos face a eleições anteriores, que tal demonstra “o apoio da população e as esperanças que os residentes têm em relação às políticas gerais de emprego”. O deputado destacou que, nos últimos anos, “a economia de Macau tem enfrentado desafios mais difíceis e toda a gente quer que o Governo continue a melhorar as políticas a nível social e económico, bem como as infra-estruturas”.

RESULTADOS:

Nova Esperança 26,73%

Deputados

José Pereira Coutinho

Chan Hao Weng

Che Sai Wang

Associação dos Cidadãos Unidos de Macau 18,16%

Deputados

Song Pek Kei

Nick Lei Leong Wong

Chan Lak Kei

União Para o Desenvolvimento 16,91%

Deputados

Ella Lei Cheng I

Leong Sun Iok

União Promotora para O Progresso 13,41

Deputados

Leong Hong Sai

Ngan Iek Hang

União de Macau-Guangdong 13,32%

Deputados

Joey Lao Chi Ngai

Lee Koi Ian

Aliança do Bom Lar 11,56%

Deputadas

Wong Kit Cheng

Loi I Weng

Votos Brancos e Nulos 7,45%

Abstenção 46,65%

Empresário Kevin Ho estreia-se como deputado eleito pela via indirecta

A nova legislatura do hemiciclo fica marcada por quatro novos rostos eleitos pelo sufrágio indirecto. Entre os quais, Kevin Ho King Lun, sobrinho de Edmund Ho, é o mais conhecido. O empresário foi eleito com 127 votos pela União dos Interesses Empresariais de Macau, que concorreu a estas eleições em representação dos sectores industrial, comercial e financeiro.

Neste sufrágio, estavam registados 7.500 eleitores na qualidade de representantes das associações, tendo votado 88,1 por cento, embora apenas um dos sectores, o laboral, tenha tido mais de uma lista de candidatos.

Apesar da estreia na política local, Kevin Ho está, desde 2019, ligado à política do continente, ao ser delegado de Macau à Assembleia Popular Nacional (APN), tendo substituído, na altura, Ho Iat Seng, que viria a ser Chefe do Executivo. Mas Kevin Ho é essencialmente empresário, com uma importante posição accionista, com a KNJ Investment, no grupo Global Media, dono de vários meios de comunicação em Portugal, além de investir também na área do imobiliário em Portugal.

Falando ainda de outras estreias, a próxima legislatura terá um novo rosto em representação do sector do trabalho, Leong Pou U, que ganhou 578 votos; e ainda Vong Hou Piu e Wong Chon Kit, estes últimos candidatos pelo sector profissional, nomeadamente na União dos Interesses Profissionais de Macau.

Ainda no que diz respeito à União dos Interesses Empresariais de Macau, liderada pelo veterano José Chui Sai Peng, que recebeu 1.021 votos, destaque ainda para a reeleição de Si Ka Lon, deputado que fez parte das fileiras de Chan Meng Kam no sufrágio directo e que agora volta a ser eleito com 255 votos.

Ho Ion Sang ganha assento

No que diz respeito ao sector do trabalho, foram eleitos dois deputados, cabeça de lista das respectivas listas: Lam Lon Wai, legislador ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau, foi eleito pela Comissão Conjunta da Candidatura das Associações de Empregados, com 484 votos; e Leong Pou U, da União das Associações de Trabalhadores, com 578 votos. Nesta última, o candidato Choi Kam Fu não conseguiu ser eleito.

Ho Ion Sang, da lista Associação de Promoção do Serviço Social e Educação, volta a ter um lugar no hemiciclo com 1.969 votos, através da lista com que concorria sozinho, a Associação de Promoção do Serviço Social e Educação. Já a empresária Angela Leong e Ma Chi Seng, candidatos com a União Cultural e Desportiva do Sol Nascente, voltam a sentar-se na Assembleia Legislativa, com um total de 1.648 votos.

Fado | Mariza regressa a Macau para concerto de Ano Novo

A fadista portuguesa Mariza vai regressar a Macau para um concerto de Ano Novo, em 31 de Dezembro, em conjunto com a orquestra da região. De acordo com um comunicado do Instituto Cultural de Macau, divulgado na quinta-feira à noite, Mariza vai actuar no Centro Cultural, como parte do programa da Orquestra de Macau para a temporada 2025-26.

O programa refere que Mariza, descrita como uma “superestrela internacional do fado”, vai apresentar canções deste género musical, acompanhada por uma versão sinfónica da orquestra, conduzida pelo maestro local Tony Yeh Cheng-te. Mariza esteve no território em novembro de 2024, para um concerto com a Orquestra Chinesa de Macau, no âmbito do último Festival Internacional de Música de Macau (FIMM).

O próximo FIMM conta, pela terceira edição consecutiva, com uma fadista, uma vez que Cuca Roseta vai actuar, também acompanhada pela Orquestra Chinesa de Macau, em 11 de Outubro.

O FIMM voltou aos palcos em 2022, após um interregno de dois anos devido à pandemia, com um programa que incluía dois espetáculos com convidados estrangeiros, um dos quais do português António Zambujo, mas apenas através de actuações gravadas. O regresso dos artistas estrangeiros aconteceu em 2023, depois do fim das restrições à entrada na região, num programa que incluiu um concerto de Gisela João.

A Orquestra Chinesa de Macau já tinha anterirmente realizado concertos com músicos portugueses, incluindo os fadistas (e irmãos) Camané e Hélder Moutinho, o guitarrista Custódio Castelo e o grupo Ala dos Namorados.

A Orquestra Chinesa de Macau foi fundada em 1987, ainda durante a administração portuguesa da cidade, enquanto a Orquestra de Macau foi oficialmente criada em 2001. Ambas as orquestras fazem, desde Fevereiro de 2022, parte de uma sociedade de capitais públicos.

GP | FIA dá a conhecer 10 equipas da Taça do Mundo FR

Na noite de quarta-feira, a Federação Internacional do Automóvel (FIA), em parceria com a Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau, publicou a lista oficial de equipas inscritas para a edição deste ano do Grande Prémio de Macau – Taça do Mundo FR da FIA.

Apesar de não terem sido divulgados os nomes dos pilotos de Fórmula Regional (FR) que visitarão Macau em Novembro, segundo o comunicado oficial da organização, com sede em Paris, este “pelotão cuidadosamente selecionado de dez equipas verdadeiramente internacionais irá reunir os melhores talentos regionais de todo o mundo para disputar esta prestigiada prova única no icónico Circuito da Guia”.

A edição deste ano dá as boas-vindas a duas novas equipas de peso no evento: a italiana Trident Motorsport, que chega a Macau depois de uma temporada de 2025 em que conquistou o Campeonato de Fórmula 3 da FIA, com o brasileiro Rafael Câmara, e a neerlandesa Van Amersfoort Racing (VAR), equipa que conhece bem o Circuito da Guia desde 1998 e que, em 2018, apanhou um enorme susto com o aparatoso acidente de Sophia Flörsch.

De regresso para defender o cobiçado título em Macau estará a R-ace GP, formação europeia que venceu em 2024 com Ugo Ugochukwu, piloto que não estará presente este ano para tentar revalidar o título. A equipa francesa mantém-se em grande forma, liderando a classificação actual do FRECA e tendo terminado em segundo lugar no Campeonato do Médio Oriente de Fórmula Regional, no início deste ano.

Regresso da SJM Theodore

Também estão de volta alguns dos mais fortes candidatos do Grande Prémio de Macau do ano passado e do panorama FR em geral, incluindo um nome bem conhecido do evento: a SJM Theodore Prema Racing. A equipa italiana Prema, atualmente em segundo lugar no campeonato FRECA 2025, é uma das formações mais bem-sucedidas do desporto motorizado de base e volta a fazer parceria com Teddy Yip Jr. no evento da RAEM.

De regresso estão ainda a Pinnacle Motorsport, equipa de bandeira irlandesa; a australiana Evans GP, que alcançou um quarto lugar na última edição; a japonesa TOM’S Racing, uma das mais prestigiadas do automobilismo nipónico; a alemã PHM Racing; e as sempre competitivas estruturas francesas Saintéloc Racing e ART Grand Prix.

Por outro lado, saíram de cena a holandesa MP Motorsport, a australiana Kiwi Motorsport e a japonesa TGM Grand Prix. Nenhuma equipa da China foi selecionada, mas, ao contrário do ano passado, nenhuma tentou inscrever-se na prova.

A lista oficial de inscritos só deverá ser dada a conhecer em meados de Outubro, como é tradição do Grande Prémio.

A segunda edição da Taça do Mundo FR da FIA realiza-se durante a semana do Grande Prémio de Macau, de 13 a 16 de novembro, e contará ainda, pela primeira vez, com a Taça do Mundo de F4 da FIA, tornando o evento numa das mais prestigiadas montras mundiais das categorias júnior de monolugares.

Tailândia | Funcionário de zoo morto por leões diante de visitantes

Um funcionário de um jardim zoológico em Banguecoque foi morto na quarta-feira por vários leões em frente a dezenas de visitantes, disseram ontem as autoridades tailandesas. O incidente ocorreu no Bangkok Safari World, o maior jardim zoológico privado do país, localizado no distrito de Khan Na Yao, no sul da capital tailandesa. A polícia já está a investigar o caso.

O coronel Niruchpol Yothamat, superintendente da esquadra de polícia local, explicou à imprensa que a vítima, de 58 anos, trabalhava no jardim zoológico há quase três décadas, onde desempenhava as funções de supervisor da área de animais selvagens. “Os leões foram trancados nas suas jaulas depois do incidente”, disse o superintendente da polícia.

Um funcionário do zoológico garantiu à imprensa, na mesma conferência de imprensa, que nunca tinha sido registado um incidente fatal no local e que cinco leões, de um total de 32 que estão no zoológico, estavam no local onde ocorreu o ataque.

Os visitantes do safari disseram que foram acionadas buzinas para dissuadir os animais, mas os leões não reagiram. Jason Baker, vice-presidente da organização não-governamental (ONG) Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (PETA), lamentou a morte do responsável e considerou que este incidente, que não considera isolado, “deve servir de alerta”.

“É tempo de pararmos de tratá-los como animais de exposição e considerá-los como seres que merecem liberdade e respeito. Os jardins zoológicos confinam animais selvagens em condições não naturais, suprimindo os seus instintos”, disse em comunicado. A ONG defende que o Bangkok Safari World deveria levar os leões para um santuário.

Resumo alternativo da 7.ª Legislatura da Assembleia Legislativa

A eleição para a 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, que terá lugar a 14 de Setembro, vai determinar a escolha dos 12 deputados eleitos por sufrágio indirecto, dos 14 deputados eleitos por sufrágio directo, enquanto sete deputados serão nomeados pelo Chefe do Executivo. De acordo com a Lei Básica da RAE de Macau, os deputados da Assembleia Legislativa, quer tenham sido eleitos directa, indiretamente ou nomeados, têm os mesmos deveres, direitos e salvaguardas, incluindo as obrigações que têm de cumprir. Embora nesta altura não seja apropriado fazer quaisquer previsões ou comentários sobre o resultado e composição da 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, é possível sumarizar o desempenho global da 7.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, sem que isso prejudique ninguém.

Entre os candidatos à 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, não se encontram nas listas de candidatura os nomes de 11 dos actuais deputados, para a corrida ao sufrágio directo ou sufrágio indirecto, o que significa que ou eles desistiram da reeleição ou pretendem sair para dar lugar aos mais novos, que trarão mais energia e dinâmica à Assembleia Legislativa. Destes deputados, com excepção do deputado Lam U Tou, eleito directamente, que certamente não estará na Assembleia nos próximos cinco anos, os restantes 10 continuarão a servir no Plenário a convite do Chefe do Executivo. Por conseguinte, este artigo vai focar-se apenas no desempenho da 7.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, recorrendo a dados estatísticos para destacar certos aspectos, especialmente no que respeita a Lam U Tou, que não irá definitivamente estar envolvido nos assuntos da 8.ª Legislatura da Assembleia Legislativa.

A 15 de Agosto, o dia do encerramento da 4 ª Sessão Legislativa da 7.ª Legislatura da Assembleia Legislativa, o Chefe do Executivo Sam Hou Fai tinha jantado com os deputados e expressado o seu apreço pelo trabalho da 7.ª Legislatura da Assembleia Legislativa. No seu discurso, Sam Hou Fai declarou que “a 7.ª legislatura da Assembleia Legislativa desempenhou activamente as atribuições de fiscalização conferidas pela lei, cumprindo eficazmente as suas funções de fiscalização, bem como, manteve estreita ligação com todos os sectores sociais e com os residentes em geral, os deputados apresentaram activamente opiniões e sugestões construtivas, promovendo uma representatividade e profissionalismo cada vez mais reforçados na Assembleia Legislativa”.

No final de cada sessão legislativa da Assembleia é publicado o relatório de actividades para sumarizar a produção legislativa do ano e fornecer informação detalhada sobre a presença dos deputados nas reuniões, e sobre as intervenções no período de antes da ordem do dia e as interpelações. Os leitores interessados podem visitar o website da Assembleia Legislativa e visualizar este relatório. De acordo com a sumarização que Lam U Tou fez do seu desempenho como deputado durante os últimos quatro anos, podemos verificar que apresentou um total de 187 interpelações escritas e 17 interpelações verbais.

O Artigo 71(6) da Lei Básica da RAE de Macau estipula que “compete à Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau: receber e tratar das queixas apresentadas pelos residentes de Macau”. Na minha experiência como deputado, muitos dos residentes que visitaram os Gabinetes de Serviço à População criados pelos deputados apresentaram a sua contestação administrativa e solicitaram assistência. Estes gabinetes de atendimento à população tornaram-se uma plataforma de comunicação e interacção entre o Governo e a população.

E como o Artigo 76 da Lei Básica da RAE de Macau estipula que “os deputados à Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau têm o direito de fazer interpelações sobre as acções do Governo, de acordo com os procedimentos legais”, as muitas questões levantadas pelos residentes podem ser canalizadas através de interpelações escritas ou interpelações verbais, de forma a solucionar ou mitigar os problemas.

Para servir melhor o público, o Artigo 33(3) da Lei n.º 3/2000, que “Estabelece o regime da Legislatura e do Estatuto dos Deputados à Assembleia Legislativa”, estipula que “os deputados têm direito a um subsídio mensal correspondente a 65 por cento do seu vencimento mensal destinado às despesas de funcionamento dos gabinetes de atendimento à população e à contratação de pessoal de apoio”. Mas depois de analisar o desempenho da 7.ª legislatura da Assembleia Legislativa, descobri que sete deputados nomeados pelo Chefe do Executivo, que criaram o seu próprio gabinete de atendimento à população, não apresentaram uma única interpelação escrita ou verbal ao longo de quatro anos. Este procedimento requer atenção especial do Chefe do Executivo?

Além disso, de acordo com a Deliberação n.º 32/2025/MESA a proposta de lei intitulada “Lei do Trânsito Rodoviário”, foi retirada. E segundo o Relatório n.º 1/VII/2025 – a Proposta de lei intitulada “Lei do Trânsito Rodoviário”, a 1.ª Comissão Permanente fez um exame na especialidade desta proposta de lei, tendo a 1.ª Comissão Permanente realizado 23 sessões para a discutir, entre o período de aprovação da proposta de lei na generalidade. a 11 de Abril de 2024 e 15 de Agosto de 2025. Assumindo que os 10 membros que compõem a 1.ª Comissão Permanente estiveram presentes em cada uma das sessões, a média de subsídio por membro é de aproximadamente 1.600 patacas. Excluindo os salários dos assessores jurídicos da Assembleia Legislativa e dos representantes dos departamentos governamentais, as despesas totais com a convocação das 23 sessões foram de aproximadamente 368.000 patacas. Mas cada cêntimo do erário público deve ser valorizado, por isso esta é uma questão importante que deve ser abordada desde o início da 8ª legislatura da Assembleia Legislativa.

2º Festival Internacional de Curtas-Metragens arranca este domingo

Decorre entre domingo e o dia 21 de Setembro a segunda edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Macau do Galaxy, com sessões em locais tão diversos como os Cinemas Galaxy e Cinemateca Paixão. Os bilhetes já estão à venda na plataforma Enjoy Macao, existindo vários descontos disponíveis.

Fica a promessa de um “programa rico e diversificado”, com sessões de cinema, um fórum da indústria, workshops temáticos e masterclasses. Para encerrar, está programada a cerimónia de entrega de prémios.

Além disso, já está escolhido o júri, composto pela directora artística de Giornate degli Autori (Dias de Veneza), Gaia Furrer; a curadora e produtora do Interior da China, Shen Yang; o curador do Festival Internacional de Cinema de Singapura, Jeremy Chua e o curador do Festival Internacional de Cinema de Jeonju, na Coreia do Sul, Sung Moon. Destaque também para a inclusão de “curadores experientes de festivais internacionais de cinema”, como Giovanna Fulvi, Winnie Lau e Mike Goodridge.

De Macau para o mundo

Há cinco secções de filmes para ver neste festival, sendo uma delas “Curtas de Macau”, inteiramente dedicada às produções locais, podendo ser vistos dez filmes que concorrem ao “Prémio de Unidade de Macau” e “Menção Especial do Júri”, nomeadamente “Chuc Chuc Chuc, de Chao Koi Wang; “Família de Baratas” de Ho Cheok Pan; “Caixa da Raposa” de Ao Ka Meng; “Girl with Amen” de Teng Kun Hou; “Vovó Pirata 3: Tufão Novamente” de Ho Wai Tong; “Hand Hand” de Jarvis Xin; “Voo Nupcial” de Chan Chon Sin; “Roxo” de Ho Keung Un; “The Performance” de Keo Lou e “Waves Under the Sea” de Chan Si Ieong.

O festival traz também a secção “Novas Vozes do Horizonte”, com 26 filmes de todo o mundo, feitos em 2024 e este ano, “com variados temas e géneros de animação, experimental, ficção e documentário”. Neste caso, há quatro prémios a concurso, tal como Melhor Curta-Metragem, Menção Especial do Júri, Melhor Realizador e Prémio de Narrativa Inovadora.

De referir também a secção “Panorama da Ásia Oriental”, com dez curtas-metragens exclusivamente asiáticas que “reflectem o notável dinamismo cultural e a identidade única da região”. Neste caso, o júri que irá escolher os melhores projectos desta secção é presidido por Wang Muyan, programador da Quinzena dos Realizadores, em Cannes. Há ainda para ver a secção “Realizador em Destaque”, onde serão exibidos filmes clássicos do realizador japonês Nobuhiro Yamashita. Inclui-se aqui a exibição comemorativa do 20.º aniversário do filme “Linda Linda Linda”.

O festival inclui ainda a secção “Sessões Especiais”, onde se apresenta “uma selecção de obras não competitivas, ricas em inovação artística e profundidade cultural”.

Fogo de artifício | Equipas da Áustria e Coreia do Sul actuam amanhã

Decorre amanhã mais uma competição integrada na 33.ª edição do Concurso Internacional de Fogo de Artifício de Macau, desta vez com a apresentação pirotécnica das equipas da Áustria e Coreia do Sul. Mais uma vez o território prepara-se para registar os melhores momentos deste festival icónico

 

Com mais um fim-de-semana a chegar, é também a hora de assistir a duas novas actuações integradas na 33.ª edição do Concurso Internacional de Fogo-de-Artifício de Macau (CIFAM), organizado pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST), e que acontecem amanhã.

Espera-se a actuação das companhias pirotécnicas da Coreia do Sul e da Áustria, com exibições de fogo-de-artifício, na baía frente à Torre de Macau, pelas 21h e 21h40, respectivamente. Decorre ainda o Arraial do Fogo de Artifício, que começa às 17h30 e termina às 22h30, disponibilizando-se no passeio ribeirinho do Centro de Ciência de Macau um “arraial colorido com gastronomia, espectáculos e jogos”, descreve a DST, em comunicado. A entidade espera, com este evento, poder “atrair mais visitantes e promover a economia nocturna nos bairros comunitários” através da junção das áreas de turismo com eventos.

A Coreia do Sul traz, assim, o terceiro espectáculo de um festival que arrancou no passado dia 6 de Setembro, e que se intitula “Universe of Lake”, com referência à “história do pastor e da tecelã”. O espectáculo está a cargo da empresa “HWARANG Art Pyrotechnics”, que participa pela primeira vez no CIFAM, esperando-se uma apresentação com música e “um design criativo com características da Coreia do Sul”.

Harmonia no ar

A partir das 21h40, surge nos céus o quarto espectáculo, protagonizado pela empresa “FIREevent”, e que se intitula “The Power of Harmony”. Promete-se uma “viagem emocionante”, em que o fogo-de-artíficio e a música servirão para “enaltecer a beleza e a solidariedade”, bem como “partilhar o amor, a amizade e a alegria”. Esta empresa actuou no CIFAM nos anos de 2011, 2015 e 2018, pelo que já conhece bem os cantos à casa e de toda a competição.

Para ver toda a magia proporcionada por estes espectáculos, e até para a captar, haverá seis pontos de visionamento para fotografias e vídeo, nomeadamente na Avenida Dr. Sun Yat-Sen do Centro Ecuménico Kun Iam até à Zona de Lazer Marginal da Estátua de Kun Iam, no passeio ribeirinho do Centro de Ciência de Macau, na Avenida de Sagres (ao lado do Hotel Mandarin Oriental, Macau), no Anim’Arte Nam Van, no caminho marginal do Lago (ao lado do Hotel YOHO Ilha de Tesouro Resorts Mundial), e na Avenida do Oceano, na Taipa, permitindo apreciar o fogo-de-artifício sob diferentes perspectivas.

Quem não puder estar presente nas actuações pode ouvir a música do festival no canal chinês da Rádio Macau (FM100.7), além de que os canais de televisão TDM Ou Mun e TDM Entretenimento transmitirão as exibições em directo. O CIFAM chega ao fim no próximo dia 20 de Setembro.

Hong Kong legaliza apostas em basquetebol

O Conselho Legislativo de Hong Kong aprovou ontem, em terceira leitura, uma alteração à Lei do Imposto sobre Apostas, que legaliza as apostas em jogos de basquetebol e estabelece um quadro regulamentar para a sua implementação.

A medida, apoiada por larga maioria dos legisladores, visa desviar fundos do mercado ilegal para circuitos controlados, aumentar as receitas fiscais e reforçar a prevenção contra a dependência do jogo, sobretudo entre os mais jovens.

Dos 89 deputados em funções, 83 participaram na votação: 77 votaram a favor, dois contra e dois abstiveram-se, segundo o portal de notícias local hk01. A nova legislação altera o Capítulo 108 da Ordenança do Imposto sobre Apostas e suas disposições complementares, criando um enquadramento específico para o sector.

Entre os principais pontos, o texto atribui ao director do Gabinete para os Assuntos Juvenis a competência para emitir licenças e definir condições de operação. Estabelece ainda um imposto de 50 por cento sobre o valor líquido das apostas, alinhado com o que já é aplicado nas apostas em futebol, e amplia os poderes da Comissão de Jogos e Lotarias na supervisão da atividade.

A deputada Mak Mei-kuen, do Partido Democrático Progressista, anunciou o reforço dos programas de orientação para prevenir o vício do jogo entre os jovens.

As apostas em jogos de basquetebol passarão a ser operadas pelo Hong Kong Jockey Club, replicando o modelo existente para as corridas de cavalos e apostas em futebol.

O Gabinete para os Assuntos Juvenis sublinhou que a nova estratégia visa reduzir o impacto social do jogo, através da criação de um centro especializado em aconselhamento e de campanhas educativas para desencorajar a adesão a plataformas ilegais.

A secretaria confirmou que já decorreram reuniões com o Jockey Club para definir os detalhes da implementação da nova lei, assegurando que a medida pretende canalizar fundos para o circuito regulado sem promover o vício.

Outras apostas

O Executivo comprometeu-se ainda a intensificar acções de sensibilização, educação e fiscalização legal, com aumento de recursos destinados a iniciativas de combate à dependência, incluindo a criação de um centro focado na prevenção junto da população juvenil.

No debate parlamentar, intervieram 28 deputados. Alguns, como Chan Chun-ying e Chow Man-kong, defenderam a proposta pelo seu potencial para combater fluxos ilícitos e apoiar o desporto local. Outros, como Tik Chi-yuen e Chu Kwok-keung, manifestaram cepticismo, recordando que regulações anteriores não impediram o crescimento do jogo ilegal nem protegeram eficazmente os jovens.

O Governo garantiu que irá reforçar o combate às apostas clandestinas com uma abordagem integrada que combine regulação, educação e aplicação da lei.

O original inédito de uma carta do jesuíta espanhol Francisco Pérez

Embaixada, ilusões missionárias, mandarins e elefantes

O original inédito de uma carta do jesuíta espanhol Francisco Pérez, escrita de Macau a 7 de Janeiro de 1564

Por Ivo Carneiro de Sousa

O autor da carta manuscrita em português que adiante se publica integralmente a partir do seu original pela primeira vez, Francisco Pérez, nasceu cerca de 1514 em Villanueva de Barcarrota, na diocese de Badajoz, na Extremadura espanhola, falecendo a 12 de Fevereiro de 1583 em Negapatão. Encontrava-se já ordenado sacerdote quando, pelos inícios de 1544, chegou ao colégio da Companhia de Jesus de Coimbra para, dois anos mais tarde, a 8 de Abril de 1546, partir na Flor de la Mar para as missões jesuítas na Ásia. Começou por se instalar brevemente em Goa, depois seguindo para Malaca por onde ajudou a erguer a residência jesuíta na cidade-enclave, tornando-se desde a morte de S. Francisco Xavier superior das missões da Companhia de Jesus na Índia Oriental. Dez anos decorridos, parte a 7 de Julho de 1563 para Macau, integrando a alegada “embaixada” de Gil de Góis à China, promovida pelo vice-rei português do chamado “Estado da Índia”, D. Francisco Coutinho, terceiro Conde do Redondo. Frustrada por Cantão a tentativa missão tanto política como religiosa, Pérez instala-se em Macau e ergue com o seu companheiro português, padre Manuel Teixeira, a primeira residência da Companhia, ao lado da primitiva igreja de madeira dedicada a Santo António que serviria de primeiro auditório religioso aos sacerdotes jesuítas. Até à sua saída definitiva de Macau, em 1568, sabe-se que escreveu generosamente para membros da Companhia na Ásia e na Europa, produzindo acervo documental hoje na maioria por recuperar.1Quando, em 1964, a diocese de Macau patrocinou o quinto centenário da chegada dos Jesuítas a Macau (em rigor, tinham chegado no ano anterior de 1563), o padre Benjamim Videira Pires publicou sob o comemorativo título de “cartas dos fundadores” uma missiva de Francisco Pérez para o jesuíta Luís Gonçalves, datada de 3 de Dezembro de 1564, “neste porto de Amacau da China”.2 Esta divulgação do documento com vários erros de leitura viria a ser revista, corrigida e reeditada em 1996 e 1997 pelo Prof. Rui Manuel Loureiro, alargando o reconhecimento do texto.3 A carta servia, entre outras matérias, para se ficar a saber que “Neste porto há muita gente nossa. Dizem que se ajuntaram aqui seis ou setecentos portugueses, fora outra muita gente cristã misturada, como servidores e jurubaças, que são homens que sabem nossa língua e a da China, donde são naturais”.

Chame-se agora esta carta inédita na sua versão original escrita por Francisco Pérez quase um ano antes, menos de seis meses após a sua primeira entrada em Macau, datada de sete de Janeiro de 1564 “de amachaon”.4 Redigida em português, pela missiva logo circulam alguns dos mercadores, ricos e bem relacionados, que desde 1557 se foram fixando no porto, em terra, muitos, outros vivendo nos seus barcos: Diogo Pereira, o único entre centenas de comerciantes portugueses que, a 4 de Dezembro de 1552, acompanhou com dois escravos e um criado chinês o enterro de São Francisco Xavier em Sanchoão, homem abonado, muitos navios, abundante escravatura e criadagem, mais boas ligações a comerciantes e mandarins de Cantão; era nesta altura capitão-mor, praticamente eleito pelos seus companheiros; aparece também o seu irmão, Guilherme Pereira, e o curioso “provisor” João Soares, personagem que se documenta nestes primeiros anos de circulação portuguesa por Macau como singular “homem de leis”, pese embora se dedicar aos mesmos tratos mercantis de quase todos os outros. Prefere Francisco Pérez com os seus dois companheiros – o padre Manuel Teixeira e o irmão André Pinto – “pousar” na casa de Pedro Quintero, um veterano soldado castelhano que havia tomado ainda parte na expedição pioneira de Ruy López de Villalobos às Filipinas, em 1543. Estabelecido em Macau para se dedicar aos combates mais lucrativos das mercancias, Quintero ainda estava activo em 1579 quando acolheu e recebeu o franciscano espanhol Pedro de Alfaro, ajudando-o a fundar o convento de São Francisco de Macau, conseguindo obter autorização do bispo-patriarca Melchior Carneiro, o homem mais poderoso e temido do lugar, mas que detestava viver em Macau.5 Feito em madeira, o pequeno convento não resistiu ao primeiro tufão.

A carta sugere as ilusões missionárias destes primeiros jesuítas na conversão da China que Francisco Pérez perdeu rapidamente quando, em visita a Cantão, em Novembro de 1565, ficou a saber que os dois pedidos que tinha enviado em português e chinês às autoridades da província tinham sido totalmente rejeitados, não autorizando, como sempre, a circulação de estrangeiros, muito menos missionários, no império.6 A missiva desvenda entre muita distância cultural a prefiguração do inevitável falhanço da “embaixada” de que Pérez também fazia parte.

Depois de encetadas as primeiras negociações com os “mandarins do porto”, vieram as chapas e os controlos de Cantão, concluindo-se com a visita de “outro mandarim que dizem ser dos principais da corte”. Recebido com aparato, o mandarim exigiu ver as peças do presente da “embaixada” na melhor igreja da povoação. Admirou-se, mas respeitou, as imagens sagradas e “foi-se direito ao altar maior e olhou a imagem de Nosso Senhor crucificado e de Nossa Senhora e perguntou o que era aquilo”. Viu e tomou nota de todos os presentes da embaixada que eram espelhos, cristais, espadas, joias e muitos têxteis indianos. Ontem como hoje, Diogo Pereira regalou-o com jantar ainda não certamente muito “à portuguesa”, oferecendo “conservas e com água” que o alto mandarim parece ter apreciado porque “foi contente”. Demorou-se mais uns dias pela povoação e Diogo Pereira não poupou em despesas para o agradar. Quando saiu de Macau, todos ficaram com a esperança de que a embaixada seria recebida em Cantão: “Agora ao presente está o negócio da embaixada esperando um regedor grande para dar sua voz. E segundo lá dizem que não há dúvida senão que se Receberá. Porém, como esta embaixada é nova e seja para eles grande, e que há mister muito conselho, se há dilatado até agora.”

 Ainda assim, o padre Francisco Pérez que era homem perspicaz e cuidadoso, percebeu rapidamente que nas negociações os mandarins chineses esperavam “peitas, porque já a coisa está em quanto me darás.” Por isso, o jesuíta espanhol não se afigura ter ficado muito convencido do valor e do acolhimento favorável dos presentes da embaixada de Gil de Góis. A fechar a sua carta ao provincial da Companhia na Índia, padre António Quadros (1528-1572), Pérez avisa que o Rei de Portugal vai ter “muito trabalho” e “algumas despesas” para abrilhantar os seus presentes ao grande imperador da China, pelo que lhe parece “que mandará pedir o embaixador será dois alifantes e outras coisas que depois escreverei”. O leitor interessado nestas embaixadas quinhentistas entre mito e realidade com alifantes de que D. Manuel, em 1514, tinha inaugurado a solenidade ao enviar ao papa Leão X um elefante vivo, não têm de se preocupar em desvendar documentação arcana ou procurar complicada prosa académica, sendo bem mais preferível revisitar estes singulares investimentos de aparato imperial lendo o romance de José Saramago “A Viagem do Elefante”, obra genial publicada em 2008. O que não liberta, a seguir, a leitura interessada que se quer histórica e quase documental de acompanhar esta carta do nosso Francisco Pérez convocada do seu manuscrito original.

  * historiador [ivocarneiro@gmail.com]

Referências

1 ALONSO ROMO, Eduardo Javier. “Un extremeño en las indias portuguesas: Francisco Pérez (c. 1515-1583) y sus escritos”, Revista de Estudios Extremeños, vol. 58, nº 3 (2002): 1047-1069; BACKER, Augustin de; DEHERGNE, Joseph. 1973. Répertoire des Jésuites de Chine de 1552 à 1800. Roma: Institutum Historicum, S.I – Paris: Letouzey & Anê, p. 201: 628; MATEOS, Francisco. “Compañeros españoles de San Francisco Javier”, Missionalia Hispanica, vol. 9 (1952): 347-353; SCHURHAMMER, Georg (1992). Francisco Javier. Su vida y su tiempo. Bilbao: Mensajero, III, 230-232; WICKI, Josef. “Dos neuentdeckte Xaveriusleben des P. Francisco Pérez”, Archivum Historicum Societas Iesu, vol. 34 (1965): 36-78; WICKI, Josef. “Pérez, Francisco”, in: O’NEILL, Chrles E. & DOMÍNGUEZ, Joaquín Maria (dir.). Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús. Biográfico-temático. Roma-Madrid: IHSI – Universidad Pontificia Comillas, 2001, III: 3090.

2 PIRES, Benjamim Videira. “Os três heróis do IV centenário. Cartas dos Fundadores”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, vol. 62 – no. especial “O IV Centenário dos Jesuítas em Macau: 1564-1964” (Outubro-Novembro 1964): 768-777.

3 LOUREIRO, Rui Manuel (1996). Em Busca das Origens de Macau. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; Macau: Museu Marítimo de Macau, 1997.

5 Existe edição de cópia tardia incompleta com omissões, cortes e variantes desta carta original inédita feita por FREITAS, Jordão (1988). Macau Materiais para a sua História no século XVI. Macau: Instituto Cultural de Macau, pp.27-28. Este trabalho segue cópia de meados do século XIX das transcrições que se queriam “paleográficas” realizadas em Macau entre 1742 e, provavelmente, 1748 pelos jesuítas padre José Montanha e irmão João Álvares que estão na origem dos 61 códices formando actualmente a colecção Jesuítas na Ásia da Biblioteca da Ajuda, em Lisboa. Não se trata, assim, de colecção de documentos originais, os quais se encontram tanto no arquivo de Roma da Sociedade de Jesus como em arquivos e bibliotecas de Madrid (Biblioteca Nacional, Arquivo Histórico Nacional e Real Academia de História), visto que o antigo arquivo e livraria do Colégio de São Paulo de Macau seguiu, após a expulsão dos jesuítas, em 1762, para o Colégio de Santo Ildefonso de Manila, depois rumando cerca de 1770 para Espanha. A investigação científica histórica está, naturalmente, obrigada a recuperar e trabalhar com documentação original.

7 Carta de Pedro Quintero a Fr. Pedro de Alfaro, 1579, 5 de Novembro – Macau (Archivo General de Indias, Filipinas 79, no. 7).

9 ESCOBAR, João de. Comentários sobre a Embaixada de Gil de Góis (LOUREIRO, Rui Manuel (1996). Em Busca das Origens de Macau. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 149-157 e Revista de Cultura, no. 31 (II Série), Abril/Junho de 1997: 67-74).

Contexto:

Nos últimos três anos, Ivo Carneiro de Sousa concluiu pesquisas sistemáticas em arquivos de Espanha e Itália que permitiram recolher os textos que, em 2026, darão origem à publicação de “Memórias, Viagens e Viajantes Espanhóis por Macau (1564-1900)”. Na sequência do primeiro trabalho desta série, os 4 volumes publicados pelo Instituto Cultural, em 2022, de “Memórias, Viagens e Viajantes Franceses por Macau (1609-1900)”, a documentação reunida de viajantes e viagens espanholas por Macau permitiu recolher 111 memórias, manuscritas e impressas: 24 textos do século XVI; 20 do século XVII; 16 do século XVIII; 51 do século XIX. Muitos destes textos são inéditos ou praticamente desconhecidos, a começar pela carta que abre esta obra, escrita a 7 de Janeiro de 1564 pelo jesuíta espanhol Francisco Pérez.

Este documento encontra-se guardado no Arquivo dos jesuítas em Roma, o Archivum Romanum Societatis Iesu, simplesmente conhecido pela sigla ARSI, albergando-se ao quinto volume da colecção conhecida por Japonica-Sinica. Compreendendo 84 volumes de milhares de documentos originais e cópias, os primeiros quatro volumes desta colecção são especialmente procurados por reunirem centenas de documentos e xilogravuras em chinês. Durante várias décadas, historiadores e investigadores interessados em estudar as missões católicas na China e no Japão, desde meados do século XVI, foram esperando pela prometida edição pública desta colecção.

Em 2002, dois jesuítas, John W. Witek e Joseph Sebes, publicaram os Monumenta sinica. I: (1546-1562). Roma: Institutum Historicum Societatis Iesu. Foi tudo. Os editores entretanto faleceram, a edição não continuou, pelo que só resta aos investigadores o trabalho sempre sinuoso e desafiante de arquivo, perseguindo vestígios, por vezes fantasmas, chegando-se às vezes a resultados como este de recuperar documento importante e raro para a investigação dos primeiros anos da circulação e, depois, instalação portuguesa em Macau.

Álcool | Entra com carro em campo de golfe e acusa taxa de 3,14

Um homem foi detido por conduzir alcoolizado, depois de ter perdido o controlo do carro às 6 da manhã e entrado num campo de golfe na Avenida Flor de Lótus em Coloane. O caso foi revelado ontem pelo Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) e citado pelo jornal Ou Mun. A situação aconteceu na madrugada de 8 de Setembro e as autoridades foram alertadas por volta do meio dia.

Com recurso às imagens de videovigilância identificaram o homem e deslocaramse posteriormente à sua casa, onde o submeteram ao teste de álcool. Quase seis horas depois da ocorrência, o teste apresentou um resultado de 3.14 gramas de álcool no sangue. O homem confessou ter estado a beber até às 5 da manhã e que quando conduziu para casa ficou zangado por não conseguir encontrar um lugar de estacionamento.

No entanto, alegou não se recordar do que se passou no resto da madrugada nem de conduzir no campo de golfe. O caso foi encaminhado para o Ministério Público. O residente de 30 anos está indiciado dos crimes de condução com excesso de álcool no sangue e de evasão à responsabilidade.

Toi San | Mercado Municipal remodelado e com restauração

O Instituto para os Assuntos Municipais planeia optimizar o Mercado Municipal de Tamagnini Barbosa, reorganizando a disposição de bancas e instalando um centro para refeições. A possibilidade de abrir um concurso público para explorar bancas está a ser estudada

 

Depois da renovação dos mercados municipais da Taipa, Mitra e Mercado Vermelho, a linha de modernização destes espaços pode chegar em breve ao bairro do Toi San. O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) revelou ontem que planeia optimizar o Mercado Municipal de Tamagnini Barbosa, sem proceder a demolições ou grandes obras de construção.

Em declarações ao canal chinês da Rádio Macau, o organismo presidido por Chao Wai Ieng indicou que o projecto pode passar pela reorganização do piso térreo de acordo com a oferta de produtos das bancas. No primeiro andar do mercado será instalado um centro de restauração com bancas de venda de comidas e bebidas. As autoridades esperam conseguir optimizar o espaço, disponibilizando suficientes lugares sentados que ainda permitam reservar um espaço para uma possível ligação ao jardim desportivo para os cidadãos, que será construído no antigo Canídromo.

Além disso, face à baixa taxa de ocupação das bancas no Mercado Municipal de Tamagnini Barbosa, o IAM está a analisar a viabilidade de lançar um concurso público para a exploração de bancas.

Gongbei ali ao lado

O Mercado de Tamagnini Barbosa é apenas um dos muitos exemplos da decadência comercial que afecta, com especial acutilância, o norte da península de Macau devido à proximidade da fronteira de Zhuhai, onde todos os produtos e géneros alimentícios são muito mais baratos. O canal chinês da TDM ouviu um vendedor que testemunhou essa realidade, depois de cerca de duas décadas a trabalhar no Mercado de Tamagnini Barbosa. Face ao declínio dos negócios dos últimos anos, o comerciante gostaria de ver o mercado remodelado e com maior oferta, incluindo um centro de restauração, para atrair mais clientela.

Outro comerciante, sugeriu a optimização do aspecto das bancas de rua e o aumento dos lugares de estacionamento nas imediações como formas de potenciar os negócios.

Já o presidente da Associação de Assistência Mútua dos Moradores do Bairro Artur Tamagnini Barbosa, Luo Xiaoqing, salientou que apenas um terço das bancas do mercado estão em operação, ainda para mais por comerciantes que se aproximam da idade da reforma. O responsável, ligado aos Kaifong, sugeriu a abertura de um espaço para actividades comunitárias, de forma a atrair pessoas, e expressou esperança que o Governo comunique com os moradores do bairro e comerciantes antes de avançar com projectos concretos.

Comércio livre | Estudada nova zona a ligar Macau, HK e Interior

O vice-ministro do Comércio do Interior, Yan Dong, revelou em Hong Kong que Pequim está a estudar a criação de uma zona de circulação de bens entre Macau, Hong Kong e o Interior sem taxas alfandegárias. O objectivo é tornar as regiões administrativas especiais mais atractivas a nível comercial

 

O vice-ministro do Comércio do Interior, Yan Dong, revelou que Pequim está a estudar a viabilidade de criar uma nova zona de comércio livre que envolva Macau, Hong Kong e o Interior. A afirmação foi feita na quarta-feira, no âmbito de um discurso relacionado com a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, de acordo com a emissora de Hong Kong RTHK, e o objectivo passa por ganhar atractividade comercial nas regiões administrativas especiais.

De acordo com Yan, as trocas comerciais entre os países envolvidos na iniciativa e a China têm gerado resultados positivos, que ultrapassaram o volume de 3,1 biliões de dólares norte-americanos no ano passado, o que representou mais de metade do volume das trocas comerciais do país.

Todavia, o objectivo não passa por ficar por estes resultados, e as autoridades centrais estão a estudar um maior envolvimento tanto de Hong Kong como de Macau. No entanto, como o discurso foi feito durante uma conferência no território vizinho, a RAEHK recebeu o maior foco da mensagem.

“Vamos expandir ainda mais a abertura do Interior a Hong Kong em áreas como finanças, telecomunicações, construção e turismo, alinhar-nos com regras económicas e comerciais internacionais de alto padrão e estudar e promover a construção conjunta de uma zona de comércio livre entre o Interior, Hong Kong e Macau”, revelou Yan, “Também apoiaremos Hong Kong na assinatura de mais acordos de comércio livre e investimento com países estrangeiros e na adesão à RCEP [Parceria Económica Regional Abrangente ] o mais rapidamente possível, a fim de expandir ainda mais a sua rede económica e comercial externa”, acrescentou.

As Zonas de Comércio Livre permitem circular entre diferentes territórios sem necessidade de pagar taxas alfandegárias.

Participação na Faixa

A participação de Macau na iniciativa Uma Faixa Uma Rota tem sido um objectivo dos diferentes governos locais pelo menos desde 2019, altura em que foram publicadas no portal da Direcção dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional (DSRPDR) as primeiras orientações de “Preparação para a participação plena de Macau na construção de ‘Uma Faixa, Uma Rota’”.

Até 2023, os trabalhos prioritários de participação continuaram a ser elaborados e na versão mais recente incluíam tarefas, a nível económico, como a consolidação de Macau como Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, a promoção da instalação em Macau de instituições financeiras que já participavam na iniciativa e ainda a expansão das instituições financeiras a nível de actividades off-shore em renminbis.

Quanto ao que o plano definia como a “interacção entre os povos” os objectivos passam por aspectos como a intensificação dos laços entre o Interior e Macau com os Países de Língua Portuguesa, e também com os países do sudeste asiático e outros países da União Europeia.

A iniciativa Uma Faixa, Uma Rota é um mega projecto promovido pela República Popular da China que prevê o investimento e criação de ligações comerciais entre mais de 150 países.