“The Crown” é a grande vencedora dos Emmys

A série da Netflix “The Crown” foi a grande vencedora da 73.ª edição dos Prémios Emmy, levando pela primeira vez a estatueta de Melhor Série Dramática e dominando por completo a categoria na maior noite da televisão.

“Estou sem palavras”, disse o produtor executivo de “The Crown”, Peter Morgan, no discurso de vitória do Emmy para série dramática do ano, que foi entregue no fim da cerimónia, na madrugada desta segunda-feira em Los Angeles.

Olivia Colman, que já tinha vencido o Emmy de Melhor Actriz em Série Dramática pelo seu papel de Rainha Isabel II, mostrou-se surpreendida pelo domínio absoluto da série, agora na quarta temporada, e a sua própria vitória. “Teria apostado dinheiro em como isto não aconteceria”, afirmou.

Nas nove principais categorias de Série Dramática, “The Crown” venceu oito. Além de série do ano e Melhor Actriz, deu a Josh O’Connor o Emmy de Melhor Actor, pelo papel de Príncipe Carlos, distingiu Tobias Menzies como Melhor Actor Secundário pelo papel de Príncipe Filipe de Edimburgo e corou Gillian Anderson como Melhor Actriz Secundária, por interpretar Margaret Thatcher.

A série também recebeu o prémio de Melhor Escrita para Série Dramática, para Peter Morgan, e distingiu a realizadora Jessica Hobbs pelo episódio “War”, com o Emmy de Melhor Realização.

Kate Winslet vence prémio

A outra grande vencedora da noite foi a nova série da Apple TV+, “Ted Lasso”, premiada como Melhor Série de Comédia contra títulos como “Black-ish”, “Emily em Paris” e “The Kominsky Method”.

A produção, que conseguira vinte nomeações, levou igualmente os principais prémios de representação: o protagonista Jason Sudeikis foi Melhor Actor, Brett Goldstein foi Melhor Actor Secundário e Hannah Waddingham venceu o Emmy de Melhor Actriz Secundária.

A também nova comédia da HBO, “Hacks”, conquistou várias distinções de peso. Jean Smart venceu o Emmy de Melhor Actriz e tanto os prémios de realização (Lucia Aniello) como escrita (Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky) foram para esta série.

Na categoria de minissérie, série de antologia ou filme os prémios foram divididos entre “O Gambito da Rainha”, que conquistou o título de Minissérie do Ano e Melhor Realização (Scott Frank) e “Mare of Easttown”, que levou quase tudo na representação. A produção da HBO deu a Kate Winslet o Emmy de Melhor Actriz, a Julianne Nicholson o prémio de Melhor Actriz Secundária e a Evan Peters o Emmy de Melhor Actor Secundário. ”The Handmaid’s Tale”, da Hulu, foi uma das grandes derrotadas. O drama tinha 21 indicações e desta vez não recebeu qualquer prémio.

20 Set 2021

Cinema | Cloee Zhao é a primeira mulher asiática a ganhar um Globo de Ouro 

O filme “Nomadland – Sobreviver na América” deu, pela primeira vez, um Globo de Ouro nos EUA a uma mulher oriunda do continente asiático. Cloee Zhao, nascida na China mas a viver nos EUA há muitos anos, levou o galardão para casa. Cloee Zhao tornou-se também na primeira mulher a conquistar esta distinção desde Barbara Streisand, em 1984

 

A realizadora Chloe Zhao, nascida na China, tornou-se ontem na primeira mulher de origem asiática a obter um Globo de Ouro, nos EUA, pela realização do filme “Nomadland – Sobreviver na América”, que obteve igualmente o prémio para melhor drama. Zhao é além disso a primeira mulher a conquistar o prémio desde Barbara Streisand, com “Yentl”, em 1984, numa categoria em que apenas estas duas mulheres receberam aquela distinção.

Cloee Zhao nasceu em Pequim em 1982 mas foi criada em Inglaterra e Nova Iorque. Actualmente vive na Califórnia, EUA. O seu filme de estreia foi “Songs My Brothers Taught Me”, lançado em 2015, seguindo-se “Rider”, lançado em 2018 e premiado em Cannes. Em ambos, Cloee Zhao reinventou os célebres westerns norte-americanos.

Numa entrevista ao The Guardian, a realizadora declarou que tanto a América como a China são a sua “casa”. “Tenho família lá [na China] e foi onde nasci. Espero pelo dia em que possa ter dupla nacionalidade, porque a China não permite isso actualmente. Não posso esperar pelo dia em que possa ser cidadã de ambas as minhas casas”, acrescentou.

A 78ª edição dos Globos de Ouro, prémios de cinema e televisão da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood, distinguiram também Chadwick Boseman a título póstumo, como melhor actor dramático, numa cerimónia em que a Netflix foi a grande vencedora.

O actor, que morreu em 2020, aos 43 anos, foi premiado pelo seu papel no filme “Ma Rainey: a mãe do blues”, de George C. Wolfe.

“The Crown” arrecada 4 Globos

A plataforma de streaming Netflix, que contava com 42 nomeações, venceu a maioria dos prémios para televisão, com a série “The Crown”, que contava com seis nomeações, a obter quatro globos de ouro, incluindo o prémio para melhor série de drama. A série, que reconstitui a vida da família real britânica, recebeu ainda prémios para os actores Josh O’Connor (no papel de príncipe Charles), Emma Corrin (princesa Diana) e Gillian Anderson (Margaret Thatcher).

A popular série “Gambito de Dama” venceu na categoria de melhor minissérie, tendo a protagonista, Anya Taylor-Joy, obtido também o prémio de melhor actriz.

O filme “Mank”, de David Fincher, que liderava as nomeações na área do cinema, foi o grande perdedor da noite, não tendo conquistado qualquer prémio. “Mank” estava indicado em seis categorias, incluindo as de Melhor Drama, Realização, Argumento (para Jack Fincher, pai do realizador), e Actor em Drama, para Gary Oldman. O filme “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, também exibido pela Netflix, obteve o Globo de Ouro na categoria de melhor argumento.

Sasha Baron Cohen, que estava nomeado na categoria de melhor actor dramático pela participação no filme de Sorkin, acabaria por vencer o prémio como actor de comédia ou musical, por “Borat 2”.

“Minari” melhor filme estrangeiro

O prémio de melhor actriz num filme dramático foi para a cantora Andra Day, por “The United States vs Billie Holiday”, com a britânica Rosamund Pike a vencer na categoria de comédia ou musical por “I Care a Lot”. Jodie Foster obteve o prémio na categoria de melhor atriz secundária, pelo papel no filme “The Mauritanian”. Daniel Kaluuya conquistou o Globo de Ouro para melhor actor secundário pelo filme “Judas and the Black Messiah”.

O Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro foi para “Minari”, de Lee Isaac Chung, batendo “Another round”, de Thomas Vinterberg, “Uma vida à sua frente”, de Edoardo Ponti, protagonizado por Sophia Loren, “La llorona”, de Michael Chaves, e “Deux”, de Filippo Meneghetti.

A cerimónia realizou-se dias depois de uma investigação do jornal Los Angeles Times ter questionado a relevância e a credibilidade da Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA, na sigla inglesa) na indústria cinematográfica nos Estados Unidos.

O jornal traçou uma imagem de actuação duvidosa, proteccionista dos seus membros e desligada da realidade, revelando que há membros da associação a receberem remunerações avultadas, cuja proveniência não é transparente, e nem todos são efectivamente jornalistas.

Este ano, a associação foi amplamente criticada por ter excluído das nomeações dos Globos de Ouro várias produções que são potenciais candidatos aos Óscares, como “Da 5 Bloods – Irmãos de armas”, de Spike Lee, “Judas and the Black Messiah”, de Shaka King, e “Ma Rainey: A mãe do blues”, de George C. Wolfe.

2 Mar 2021

Produções da Netflix dominam nomeados do sindicato de actores dos Estados Unidos

As séries “The Crown” e “Schitt’s Creek”, e os filmes “Ma Rainey: A mãe do blues” e “Minari” são os mais nomeados para os prémios do Sindicato de Actores dos Estados Unidos (SAG), ontem anunciados. De acordo com o sindicato, a plataforma de ‘streaming’ e produtora Netflix é a que soma mais nomeações — trinta –, entre produções de filmes e séries.

A série anglo-americana “The Crown”, inspirada na história da família real britânica e exibida na Netflix, e a série canadiana “Schitt’s Creek”, exibida no canal CBC, somam cinco nomeações cada, incluindo o prémio de melhor elenco em série dramática e de comédia, respetivamente.

Em cinema, com três nomeações cada, surgem “Ma Rainey: A mãe do blues”, de George C. Wolfe, e “Minari”, produção entre Estados Unidos e Coreia do Sul, realizada por Lee Issac Chung.

Os nomeados dos prémios do sindicato dos atores foram anunciados um dia depois de Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood ter revelado os nomeados para os Globos de Ouro, criticados pela imprensa especializada por falta de diversidade e representatividade de atores não-brancos.

Pelo conjunto do elenco, na categoria de cinema estão nomeados “Da 5 Bloods: Irmãos de armas”, de Spike Lee, “One night in Miami”, de Regina King, “Ma Rainey: A mãe do blues”, “Minair”, assim como “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin.

Na categoria de melhor série de comédia estão nomeados os elencos de “Dead to me”, “The flight attendant”, “Dead to me”, “The Great”, “Schitt’s Creek” e “Ted Lasso”, enquanto na de série dramática competem “The Crown”, “Better cal Saul”, Bridgerton”, “Lovecraft country” e “Ozark”.

Sobre categorias individuais, de representação principal e secundária, destaque para a dupla nomeação, a título póstumo, do ator Chadwick Boseman, pela prestação em “Da 5 Bloods: Irmãos de armas” e “Ma Rainey: A mãe do blues”.

O calendário de prémios da indústria cinematográfica também foi afectado pela pandemia da covid-19, pelo que os galardões deste sindicato dos atores, considerados um dos barómetros para os Óscares, serão entregues a 4 de Abril. A cerimónia dos Óscares também sofreu alterações, com os nomeados a serem conhecidos em março, e o anúncio dos vencedores re-agendado para 25 de Abril. Os vencedores dos Globos de Ouro serão conhecidos a 28 de Fevereiro.

5 Fev 2021

Netflix and Think (III)

Devo estar a passar demasiado tempo em frente à televisão, digo a mim mesma. Mas a verdade é que consumo séries e filmes em doses contidas e planeadas, guardo-os para ver de impulso em momento de stress, de tristeza. Nunca por aborrecimento ou cansaço.

Por vezes, se for um guilty pleasure, repito a série só porque sim, como fiz com Neon Genesis Evangelion, agora disponível na Netflix e que, tal como a Sailor Moon ou Death Note, já assisti inúmeras vezes, até em línguas que não falo (saudades, parabólica). Sim, é esta a minha santíssima trindade do anime. O mesmo se passará com Six Feet Under, Breaking Bad ou The Sopranos, que decidi rever, mas a um ritmo bem mais lento. Nunca compreendo onde é que as pessoas encontram tempo para consumir fiel e vorazmente cinco séries ou mais todas as semanas, com episódios entre os trinta e os sessenta minutos, mas depois não têm tempo para mais nada, para as coisas fora da relação “ecrã e eu”. Talvez as pessoas também não entendam onde é que eu arranjo tempo para fazer as coisas que as fazem acusar frequentemente: Tu não páras!

Claro que páro. Houve aquelas semanas em 2016 a que sobrevivi melhor assistindo a todos os filmes do Studio Ghibli. Contudo, nunca me deliciei a ver Friends ou achei piada a Big Bang Theory. Sou uma miúda da era Simpsons, Alf, Family Ties, Fresh Prince, Felicity, Alias, Twilight Zone, Seinfeld, X Files, Sex and the City, Darkangel (a Eleven de Stranger Things é a reencarnação de Max), Buffy, The OC, Gossip Girl, True Blood, Criminal Minds, Heroes e até Lost, antes da salgalhada em que se tornou. Terei muitas saudades de Game of Thrones, cujos livros não li, e já nem me lembro de há quantas temporadas desisti de Walking Dead, mas preferia (spoiler alert) que o Carl tivesse morrido mais cedo. Aguardo sempre com entusiasmo o regresso de Issa Rae e Insecure; vibrei com Narcos, gostei de The Bridge e Strike Back, mas só vi a primeira temporada de True Detective, que considerei perfeita. Tenho The Handmaid’s Tale na lista de leitura, porque gosto tanto de Margaret Atwood que não me atreveria a ver a série, por melhor que possa ser, sem antes passar pelo livro. Confesso ainda ter curiosidade por Big Little Lies e ter ficado impressionada com Chernobyl, ambas da HBO.

É fácil trespassar o fio que divide livros, séries e realidade, quando tudo se imita e replica. Não obstante, numa altura em que parece que já vimos tudo, e sobretudo que já vimos o melhor que nos pode ser oferecido, que fazemos bem é em repetir os clássicos confortáveis que nunca nos decepcionam, seria mais prudente dar o benefício da dúvida a quem não desiste de contar histórias e, sobretudo, de fazer História.

Voltando a When they see us e a Michael K. Williams, vemo-lo saltar graciosa, confiantemente esse fio, e mesmo esticá-lo, não tivesse sido também ele parte do elenco principal da série de culto The Wire, considerada por muitos como a melhor de sempre, longe contudo do mediatismo que a mini-série da Netflix tem tido. The Wire não teve grande audiência e ganhou poucos prémios para as nomeações que recebeu, mas era uma série rara na televisão americana, por ser composta por um elenco maioritariamente negro.

Na era das redes sociais, pejadas de opinion makers, tudo é exposto a luzes mais fortes e a audiências maiores e esperançosamente mais críticas, mas talvez por menos tempo ou com menor impacto posterior, devido ao fluxo de informação e ao défice de atenção. Outro aspecto importante em When They see us é ser dirigido por uma mulher, negra, com uma equipa de trabalho negra (imagine-se, até, com maquilhadores negros), a contar a história clássica de um nós versus um eles. Uma história que, por mais que pareça cansar, obviamente, quem vive uma vida privilegiada, por mais formas que tome no modo como é contada, ainda está longe de estar esgotada, porque ainda não estão resolvidas as questões ali retratadas. Porque é preciso falar sobre as coisas para resolvê-las. Enfrentá-las, revisitá-las sem deixar-se cegar, ultrapassá-las. O título da série quer dizer isso mesmo: olhem bem para nós, aqui estamos, não somos todos iguais, a cor não determina o carácter, isto é o que nos foi feito e isto é o que nós fizemos com isso, somos heróis, vimos de uma linhagem ancestral de contadores de histórias, e podemos finalmente contar as nossas, da nossa perspectiva, com as nossas pessoas, não só para elas mas para todos.

Sim, vi televisão durante muitos anos, mas poucas vezes me senti representada. Contam-se pelos dedos das mãos os actores negros na maioria das séries que refiro. Felizmente as coisas têm estado a mudar. Não basta ser negra ou latina para sentir empatia com When they see us, ou melhor, não é preciso sê-lo. Mas as comunidades de emigrantes, a discriminação e a violência policial estão demasiado na ordem do dia em muitos países, inclusive em Portugal, para não prestar atenção. Agora que a temos, finalmente, podemos começar a dialogar.

18 Jul 2019

Netflix and think (II)

Este ano voltei a mudar de casa e a ter uma televisão. Em criança, era uma das minhas actividades preferidas: via tudo, desde desenhos animados a notícias, enquanto sonhava fazer companhia a Pedro Pinto na CNN ou transformar-me num Thundercat. Ditava as legendas para a minha irmã quando ela ainda não aprendera a ler, e tinha de ver e descrever as cenas assustadoras quando na verdade queria tanto fechar os olhos quanto ela. Depois, deixei de ter tv durante muitos anos, fazendo zapping distraidamente quando ia a casa de alguém com a caixinha mágica, numa época em que o YouTube ocupou essa função. Subscrevi a Netflix uma ou duas vezes, há muito tempo, cancelei, e agora tenho-a na tv (ambas vinham com a casa). Normalmente percorro a oferta sem grande entusiasmo, apenas pela promessa de uma breve distracção, de não pensar para quem é viciada nesta actividade. Diz Stephen King, o autor com mais obras adaptadas a cinema e a televisão, em On Writing, que a televisão faz mal à imaginação do escritor, que deve deitá-la fora e ler em vez disso. Não é um mau conselho, e parece resultar para King, que está na televisão em vez de assistir a ela. A propósito, terminei finalmente “A sangue frio”, de Truman Capote:

«É certo ― replicara ele. ― Também não penso noutra coisa. E pode ser que, enquanto falo disto, descubra algo em que ainda não tivesse pensado. Um novo aspecto. (…) Que julgas tu que seria a minha vida se acaso este crime ficasse no ficheiro dos insolúveis? Daqui a muitos anos ainda eu andava a correr atrás de indícios e, de todas as vezes que surgisse na região um assassínio, lá ia eu ver se encontrava nele alguma semelhança com este. Mas não é só isto. O caso é que acabei por ter a impressão de que conheço agora melhor o Herb e a família do que eles talvez se conhecessem a si próprios. Estou obcecado com eles. E acho que isto não me passa até descobrir o que aconteceu.»

Por falar em crime, a par de Life overtakes me, uma das produções recentes na Netflix que considero mais marcantes é When they see us (Aos olhos da justiça). A série de Ava Duvernay, complementada por uma entrevista de Oprah Winfrey aos agora denominados “Exonerados 5”, conta a história verídica de cinco rapazes adolescentes acusados injustamente da brutal agressão e violação de uma desportista, Trisha Meili, em Central Park, no final dos anos oitenta. Um caso tão mediático que nem Donald Trump quis faltar à discussão, investindo em publicidade à pena de morte e prestando as declarações boçais do costume, as quais recusou alterar, mesmo após o sucesso da série e o mediatismo que este caso voltou a ter.

À entrevista faltam a vítima do crime e a promotora (ambas autoras de best-sellers do New York Times), mas já não falta toda a justiça. Não posso deixar de referir a brilhante actuação de Felicity Huffman, ao retratar alguém tão odioso como parece ser Linda Farstein de forma acutilante. Assistir a esta série, por uma vez não focada na vítima (“branca”) do crime e sim nas vítimas (“de cor”) do sistema, e consequentemente de crimes sintomáticos das suas confissões forçadas, deveria incomodar e fazer-se questionar qualquer pessoa, não apenas negras ou latinas. Servindo de bodes expiatórios de uma série de crimes semelhantes sem solução, aqueles jovens viram a sua liberdade, privacidade e integridade tiradas à força, num processo em que famílias, reputações e vidas foram severamente expostas e lesadas. O quarto episódio será talvez o mais impressionante, quando vislumbramos como foram os tempos de reclusão: as provações, as alucinações.

O que é difícil de ver torna difícil não chorar, não ter uma revolta a crescer profusamente. Porque não há filtros em When they see us, e isso é perceptível durante a entrevista a Yusef, Kevin, Raymon, Antron e Korey. Uma série que é quase um documentário, se escutarmos a confissão do actor Michael K. Williams, no papel de Bobby McCray, que era ele próprio um jovem na altura dos factos, e foi também ele vítima da agressão que lhe marcaria o rosto para sempre, numa cicatriz longa e profunda, agressão essa feita por um grupo de jovens wilding, tal como estavam os reais protagonistas no momento em que a desportista foi atacada. Wilding é calão para actividades em grupo, normalmente de jovens, em que os mesmos criam confusão, agridem e assaltam pessoas que se cruzam no seu caminho, sem razão. Há vários níveis para wildling, que pode começar como um inocente convívio, com as tropelias típicas da idade, ou escalar para algo que roça o distúrbio e a criminalidade. Williams descreve como quase perdeu a vida nesse encontro e confessa que, à luz deste caso, alterou até a maneira de vestir, para não ser conotado com este tipo de instigadores delinquentes. Esta era uma Nova Iorque mais perigosa, mais discriminatória, berço de conflitos entre minorias e polícia. Era uma Nova Iorque coberta pelo véu da ignorância a todo o custo, um véu agora menos espesso, um pouco mais levantado, mas que ainda curva o rosto e os ombros a muitos.

11 Jul 2019

Netflix and think (I)

Life overtakes me (Quando a vida nos atraiçoa), é um documentário na Netflix sobre famílias de refugiados na Suécia, cujas crianças são afectadas pela Síndrome de Resignação, também apelidada de Síndrome de Desistência. Após passarem por uma situação traumática, as crianças começam por entrar num estado depressivo que se vai aprofundando até ser atingida a catatonia. Vão gradualmente perdendo o interesse em quaisquer actividades, deixando de abrir os olhos, comer, falar, mover-se, responder a estímulos. Passam a usar fraldas e a ser alimentadas por via intravenosa pelos pais, que se tornam ainda mais cuidadores, muitas vezes auxiliados por voluntários. Não é incomum que, ao assistir ao estado de deterioração de um dos irmãos/irmãs, outra ou outras crianças da família sucumbam eventualmente à síndrome. Este sono profundo, comatoso, pode durar seis meses ou mais de dois anos, sendo por vezes reversível, não sem que antes decorra um período de tempo considerável entre o resolver da situação instável e o convencerem-se, ou melhor, serem convencidos pelo que parece ser transmitido pelos pais: o sentimento, a certeza de que tudo está bem.

Os pais parecem ter substituído o príncipe nas histórias de encantar. A deportação é o monstro/bruxa e o passaporte ou autorização de residência o beijo que quebra o feitiço. Há uma série de crianças e jovens adormecidos, esperando a salvação do asilo, a sua transformação de refugiados em cidadãos. Na sua obra-prima, A sangue frio (D. Quixote, tradução de Maria Isabel Braga, 2006), Truman Capote descreve como a tragédia que dilacerou a mais bem-amada família de Holcomb afectou gravemente quem teve o mínimo contacto quer com a família Clutter, quer com os despojos do seu brutal desaparecimento:

“A mulher de Dewey passou pelo sono mas acordou ao senti-lo saltar da cama para atender mais uma vez o telefone. Ouviu também, no quarto onde dormiam os filhos, os soluços de um dos rapazinhos que chorava. «Seria o Paul?» Ele não era rabugento nem chorão, nunca! (…) Porém, nesse dia ao almoço desatara em soluços. A mãe não precisara de lhe perguntar a razão; sabia que, muito embora ele compreendesse vagamente o motivo de toda aquela confusão à sua volta, sentia-se inseguro ante as enervantes chamadas telefónicas, os estranhos que entravam em casa, os olhos fatigados e cheios de preocupação do pai.”

Situações de racismo na escola (falamos de famílias arménias ou yazidi, por exemplo), criminalidade testemunhada (agressões e homicídios, as causas da fuga dos pais) parecem ser as causas traumáticas que iniciam este processo de fuga à realidade em crianças anteriormente activas e aparentemente saudáveis. Testes de reacção à dor e ao frio são executados regularmente, sem grande novidade. Ainda há muito para descobrir e confirmar relativamente a esta condição. Como em tudo, há quem questione se se trata de uma doença verdadeira, se os pais não estarão a envenenar os filhos, se não será uma estratégia para conseguir protecção e segurança, ou apenas mais uma distracção dos verdadeiros problemas quer dos suecos quer dos refugiados que acolhem. Ainda considerada uma condição rara e quase exclusiva à Suécia, sem razão aparente, certo é que existem relatos de algo semelhante nos campos de concentração Nazi. Detidos, migrantes, refugiados: esta condição começa a verificar-se também em crianças na Austrália. Quão contagiosos são a tristeza, o medo, o desespero, a falta de esperança? Quão sensíveis são estas crianças à verdade, de tal forma que já não basta ver ou ouvi-la, é fundamental senti-la?

Entre a tristeza dilacerante e o pós-terror, é comovente e duro assistir ao definhar de qualquer forma de vida, sobretudo a que é mais promissora, mais cheia de energia, normalmente mais adaptável a mudanças. A perda das funções motoras e biológicas acompanha a perda da inocência. Recordemos o quadro Sleeping, de Paula Rego (1986), exemplo dessa quase imperceptível diferença entre perigo e paz. Crianças dormem junto a um arado, vigiadas por um pelicano (símbolo cristão do sacrifício de Cristo, da sua ressurreição e da de Lázaro). Duas crianças estão acordadas, uma enfrentando a ave e a outra virando costas às que dormem, encostada a uma árvore. Observamos ainda uma tartaruga, símbolo de imortalidade, de concentração, de regresso ao estado primordial.

Até onde vamos para sobreviver? Além-fronteiras, fisicamente. Ao mais fundo de nós, mentalmente. Até onde tivermos de ir. Até onde nos levarem. Até não podermos mais. Somos, verdadeiramente, onde os nossos limites podem chegar. Na cama ou acompanhando a família em passeios e refeições, em cadeiras de rodas, a estes jovens são-lhes lidas histórias, cantados os parabéns, exercitados os músculos, escovados os dentes, afagados os cabelos. Só faltava aparecer Thom Yorke declarando I’ll take a quiet life, pedindo No alarms and no surprises, please. Bem que mereciam.

4 Jul 2019

Actor portugues Nuno Lopes integra nova série de “La Casa de Papel”

O actor português Nuno Lopes vai integrar o elenco da nova série do criador de “La Casa de Papel”, Álex Pina, intitulada “White Lines”, também com selo da Netflix, foi ontem anunciado.

Nas redes sociais, o próprio actor partilhou um texto da agência Subtitle Talent que anunciava que o português será um dos protagonistas da nova série, com 10 episódios, escrita por Pina e produzida pela Left Bank, a mesma empresa por trás de “The Crown”.

Segundo a mesma publicação, o elenco da série, que já está em processo de filmagens, vai incluir também Laura Haddock, Marta Milans, Juan Diego Botto e Daniel Mays. De acordo com a Deadline, “White Lines” vai ser falada em inglês e filmada até Outubro, nas Ilhas Baleares, em Espanha.

A sinopse, divulgada também pela publicação especializada Variety, revela que o enredo parte da descoberta do corpo de um DJ de Manchester, 20 anos depois do seu desaparecimento em Ibiza.

“Quando a sua irmã regressa à ilha espanhola de Ibiza para descobrir o que aconteceu, a sua investigação leva-a a um mundo de discotecas, mentiras e encobrimentos”, adianta a Deadline.

Segundo a Variety, “White Lines” resulta de um acordo assinado entre a Netflix e Álex Pina, após o sucesso de “La Casa de Papel”. Nuno Lopes, 41 anos, destacou-se no filme “São Jorge”, de Marco Martins, com o qual recebeu o prémio de melhor actor no festival de Veneza, em 2016. O filme foi o candidato português a uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro, não tendo sido nomeado.

14 Jun 2019

As Conquistas de Roma

A Netflix é o Uber do cinema. E um filme como o tão badalado “Roma” é o primeiro passo desta revolução, a qual, como sempre acontece, vai causar enorme destruição antes de triunfantemente se afirmar.

“Aconteceu no Oeste” é uma caubóiada com todos os matadores, moscas e balas. Estreado em 1969, bem depois da missa do 7º dia pelo western, sob a batuta de uma banda sonora palpável o filme é uma voluta absolutamente ornamental, todo ele forma e feitio, que aos apocalípticos pareceu uma espoliação quase paródica e amaneirada do género e aos integrados uma divertida homenagem a ele. Sergio Leone queria fazer – e fez – prova de que o cinema tinha qualidades inalcançáveis à TV e enquadramento após enquadramento até os espectadores do primeiro balcão tinham de rodar a cabeça para ver um dos duelistas quase no Marquês de Pombal e o outro com os pés já nos Restauradores, na ponta oposta do ecrã.

Quando no clarear da década de 80 o vídeo se propalou por esses lares afora, era o cinema que ele metia dentro de casa. Com o vídeo o pessoal libertava-se da cadência imposta pela distribuição cinematográfica – se viste, viste, se não viste, azar… – e dos critérios de exibição das TVs. Havia tanta coisa que se queria rever ou se havia perdido aquando da sua estreia e agora estava domesticamente ao alcance do comum dos mortais.

Sucedeu então que “Aconteceu no Oeste” voltou à baila. Como enfiar aquele Rossio visual na Betesga do televisor? Assim se fez uso de uma técnica apelidada de “pan e scan” que basicamente rodava o olhar, como um movimento de câmara, dentro do que fora um enquadramento original imóvel. Isto era grande aleivosia, pois alterava a forma, a linguagem e, a limite, a tensão dramática das cenas. Famosa ficou uma exibição televisiva de “Aconteceu no Oeste” que não lhe tendo sido aplicado este método de abastardamento visual, na cena do duelo só se via, se tanto, a ponta do nariz dos actores, com a imagem centrada no cenário que Leone pusera ao meio entre eles. Ou seja, não se via nada do que se passava.

Tornando-se o vídeo e a expansão da televisão essenciais à carreira dos filmes, cuja esperança de vida comercial praticamente triplicou, bem depressa produtores e cineastas perceberam a conveniência de enquadrar as imagens ao centro. Por mais independente, artístico ou de autor que seja a fita, é no miolo da imagem que nela tudo acontece. Não há nada de novo nesta conformação da forma, ou seja, da “arte”, à difusão, quer dizer, às “conveniências” – já McLuhan havia ajuizado que “o meio é a mensagem” sem que alguma vez fosse desmentido.

E dos finais da década de 80 em diante assim ficaram as coisas que a Netflix veio agora bulir.

Anunciar “Roma” com as parangonas que aos filmes pertencem por direito adquirido e neste caso com Leão de Ouro em Veneza e tudo, e estreá-lo na internet, é desfaçatez tão grande e ousada como apontar uma pistola à cabeça da indústria de distribuição cinematográfica. É todo uma fileira industrial que está posta em causa, cidadela incólume desde os anos 50, mesmo com os ferozes assaltos da televisão, contra os quais nunca falhou em dar resposta. Televisão essa que a Netflix já pôs em frangalhos bem à vista de toda a gente e que anda à procura do seu futuro sem saber se o encontra.

Que tenha sido “Roma” a arma de arremesso é coisa de espantar. Porque diabo a Netflix elegeu um filme a preto e branco, passado nos anos 70, no seio de um lar na Cidade do México? Haveria obra menos provável para ir à conquista dos públicos?

Na verdade é um golpe de génio. As salas de cinema oferecem um espetáculo desolador a quem tiver mais do que 16 anos e já não tem paciência para os pulos e correrias dos ridículos heróis da Marvel, sempre vestidos de leggins e a discorrerem inanidades.

Ou seja, hoje as classes médias urbanas só saem de casa para ir jantar fora. Já antes, vai fazer agora 20 anos, um canal como a HBO lhes afagara o córtex e o gosto com uma série improvável e bastante incomum como “os Sopranos.” Ora aí estava algo que um canal aberto não ousaria transmitir e que não se dirige nem aos miúdos nem aos básicos. De modo que a Netflix, há-de ter feito o trabalhinho de casa e posto o marketing a peneirar estudos e estatísticas de modo a concluir que meter dentro de casa filmes diferentes, menos aparvalhados, com algum sentido, talvez devolvesse o interesse pelo cinema de cartaz.

Há ainda um aspecto nada despiciendo a destacar em “Roma.” De um ponto de vista estético é absolutamente televisivo, embora haja quem ache que a textura e os pormenores que enriquecem a imagem sejam mais bem apreciados no grande ecrã. O que a exuberância visual de um filme feito para ver em casa prova é precisamente o contrário: o triunfo do digital – ver um filme em ecrã HD, ali na sala de estar, é quase tão bom como ir a o cinema.

21 Dez 2018

Novo filme de Orson Welles disponível no Netflix

Quase meio século depois de ser rodado, “The Other Side of the Wind” estreia em simultâneo nas salas de cinema e nas salas de quem tem Netflix. A derradeira película de Orson Welles é uma deslumbrante dissertação experimental que resgata a verdadeira essência do cinema

 

“Tal como eu e Deus… quem será capaz de nos distinguir?”, atira John Huston para a câmara, enquanto interpreta o papel de Jake Hannaford no filme “The Other Side of the Wind”. Uma citação grandiosa ao estilo de Orson Welles, o realizador que 33 anos depois de ter morrido estreia a sua derradeira obra nas salas de cinema e numa plataforma inimaginável na altura da rodagem: o Netflix.

Corria o ano de 1970, quando o actor e realizador Peter Bogdanovich atendeu o telefone para ouvir uma voz rouca perguntar-lhe que planos tinha para quinta-feira. Do outro lado da linha estava o autor de Citizen Kane com uma proposta irrecusável: Passar pelo estúdio, na tal quinta-feira, onde Orson Welles começava o seu derradeiro filme, uma produção que estimava apenas demorar algumas semanas a filmar.

Cerca de 48 anos depois, “The Other Side of the Wind” foi exibido pela primeira vez no Telluride Film Festival, juntamente com dois documentários que retratam a tarefa hercúlea que foi acabar o obra de uma das maiores figuras da sétima arte. “É triste porque o Orson não está aqui para vê-lo, ou talvez esteja”, disse Bogdanovich aquando da estreia do filme.

Caracterizado como uma das películas mais famosas que jamais seria exibida, a produção do filme esbarrou em inúmeros obstáculos. Em primeiro lugar a morte de Welles, seguido de inúmeras batalhas de direitos de autor e dificuldades para financiar o resto da produção.

Entretanto, no meio de um mar de dificuldades, o influente produtor Frank Marshall decidiu pegar no projecto que se resumia a mais de 100 horas de material filmado. Durante décadas, as bobines esquecidas num armazém em Paris alimentaram lendas cinematográficas que apenas gigantes vultos, como Orson Welles, conseguem criar.

Mosaico experimental

Os brutos deixados por Welles são filmagens feitas em diversos formatos. Cores, preto e branco, 35 milímetros, 16 milímetros e Super 8, são os vários moldes que resultariam na heterogénea experiência visual que é “The Other Side of the Wind”.

O filme recorda a faceta polarizadora de Orson Welles, que tradicionalmente teve o dom de dividir crítica e público quanto à apreciação das suas obras. John Hudson é o protagonista da obra, representando um realizador excêntrico que morre após a sua festa de aniversário. O personagem encerra as dicotomias do próprio Welles, oscilando entre a destruição e a criação como um pêndulo de engenho fílmico fora dos parâmetros da normalidade. O resultado é um filme com duas horas.

O papel desempenhado por Hudson vive também dividido entre a egomania e a autocomiseração, atraindo a atenção de todos os que orbitam em seu redor com um carisma digno de Ernest Hemingway (aliás, o personagem intitula-se o Hemingway da cinema). “The Other Side of the Wind” é uma colagem das supostas filmagens de convidados da festa, presságio da cultura da câmara omnipresente dos dias de hoje, que segue o ritmo alucinado entre o bebop e o swing. O filme é uma corrida frenética, um sonho febril repleto de freaks e figuras que não pertencem ao mundo politicamente correcto que vivemos.

O derradeiro filme de Orson Welles é uma obra para absorver, para experimentar, para ser vivida com todos os excessos que merece. Não é para ser compreendida ou explicada. A tempos demasiado caótica e sinuosa, a última obra de Welles é uma aventura experimental e um testemunho de uma época que passou. “The Other Side of the Wind” marca o fim da carreira de um dos maiores cineastas de sempre. Se o desfecho é agradável ou não, depende da percepção de cada um. Nas palavras do próprio Welles, “se queres um final feliz, isso depende onde paras a história”.

15 Nov 2018

Óscares: Documentário “Ícaro” dá à Netflix primeiro galardão por longa-metragem

O documentário “Ícaro” venceu o Óscar para melhor documentário, na 90.ª cerimónia dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, sendo a primeira longa-metragem da Netflix a conquistar tal galardão.

Em 2017, o documentário “Os Capacetes Brancos”, também da Netflix, venceu o Óscar para melhor curta-metragem documental, tendo a empresa de ‘streaming’ já tido nomeações para melhor documentário nos cinco anos anteriores.

“Ícaro”, de Bryan Fogel, foi comprado pela Netflix no festival de Sundance, no ano passado, e conta a história de “um ciclista norte-americano [que] é envolvido num escândalo de ‘doping’, em que está implicado um cientista russo a quem Putin quer silenciar”.

No discurso de aceitação do Óscar, Fogel dedicou o prémio ao médico Grigory Rodchenkov, fonte principal do documentário, que “transforma a sua história de uma experiência pessoal num ‘thriller’ geopolítico que envolve urina falsificada, mortes por explicar e o maior escândalo desportivo da história”, segundo a sinopse existente no iMDB.

Fogel disse esperar que “Ícaro” seja uma chamada de alerta para a Rússia, mas que, além disso, sirva de aviso sobre “a importância de dizer a verdade, hoje mais do que nunca”.

“Ícaro” tinha como adversários “Abacus: Small Enough to Jail”, “Olhares, Lugares”, de Agnès Varda, que, aos 89 anos, marca presença na cerimónia dos Óscares como a nomeada mais velha dos prémios, o sírio “Last Men in Aleppo” e “Strong Island”.

5 Mar 2018

Okja: o E.T. boçal da Coreia do Sul

Quando o filme mais recente de Bong Joon-ho acabou de ser exibido na última edição do Festival de Cinema de Cannes, a audiência aplaudiu de pé, mas quando o logo da produtora, a Netflix, apareceu no ecrã foi recebido com vaias. Okja é um filme maravilhoso e a primeira obra-prima da Netflix.

A história começa com uma apresentação encantatória da personagem que dá nome ao filme. Quem é Okja? Lucy Mirando (Tilda Swinton), uma entusiasmadíssima mulher de negócios, está ansiosa por contar a história. Lucy recorre a uma apresentação multimédia, para revelar aos jornalistas e aos accionistas da sua multinacional uma descoberta fantástica: uma nova estirpe de porco, um “super-porco”. Uma criatura estranha e gigantesca é apresentada como o futuro da culinária. Resultado de experiências genéticas, este enorme animal tem também um temperamento dócil e representa sobretudo uma enorme fonte de alimento. Mas a multinacional mente sobre a origem deste animal e alega que pertence a uma nova espécie encontrada no Chile, em estado selvagem.

Okja, uma fêmea premiada, é enviada para uma quinta na Coreia do Sul, no âmbito de um programa global desenhado para encontrar o melhor habitat para a espécie. Neste cenário a nossa “porquinha” vai deambular pelas montanhas durante 10 anos, comer o pasto e tornar-se a companheira inseparável da pequena Mija (Ahn Seo-hyun), neta do fazendeiro. E, neste panorama bucólico, vemos Mija e a sua gigantesca amiga passeando de cá para lá, sob o olhar protector do avô (Byun Hee-bong). No entanto, fica claro desde o início, a realidade vai entrar em cena e, quando entra, magoa.

Okja é uma espécie de E.T., mas mais boçal e, imaginando que o E.T. tinha corrido o risco de se tornar num produto para consumo alimentar das massas. Este filme fala-nos da perda da inocência, mas mais importante do que isso, fala-nos sobre o valor da inocência. A força do filme de Bong está na pureza do espírito de Mija, que pode servir de lição para muitos de nós (especialmente para os consumidores de carne).

Okja é, evidentemente, um ícone—os espectadores já sabem isso antes de lhe terem visto o focinhito. É um símbolo que representa todos os animais criados em quintas industriais, onde acontecem as maiores desumanidades, decorrentes da produção em massa e do comércio global. Mas o amor que Mija sente por ela não é superficial, nem se apaga facilmente. Mesmo a multinacional que a fabricou compreende o valor comercial deste afecto—e é por isso que Lucy tenta apresentar Okja como um animal doméstico, igual aos outros, de modo a que clientela não tenha medo de fritar o seu toucinho geneticamente modificado para o pequeno almoço.

Okja é o primeiro filme de Bong Joon-ho a participar num dos mais importantes Festivais de Cinema europeus. Bong não foi “acarinhado” pelo júri do Festival porque os seus filmes são considerados “comerciais”: o que ele faz é para ser visto e apreciado por grandes audiências. Inicialmente Okja não foi aceite para concorrer à Palma d’Ouro. Depois, Okja foi exibido na Netflix e acusado de ter um “problema de identidade”. Tudo isto não passa de um sintoma do eterno conflito entre a liberdade criativa e os diversos poderes instalados.

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5 Jul 2017