Bolsa | Mercados chineses fecham em alta com alívio após cessar-fogo

As bolsas da China continental e de Hong Kong encerraram ontem em forte alta, com ganhos até 4,79 por cento, prolongando o optimismo dos mercados após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre o Irão e os Estados Unidos.

A subida dos mercados reflecte o alívio dos investidores perante a perspectiva de uma resolução do conflito no Médio Oriente, após Teerão e Washington terem confirmado um cessar-fogo de duas semanas. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou a trégua “imediata” entre o Irão e os Estados Unidos, indicando também o arranque de negociações em Islamabade com vista a um acordo definitivo.

Em paralelo, o Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou ter adiado por esse período o ataque contra infraestruturas iranianas com que tinha ameaçado caso Teerão não reabrisse o estreito de Ormuz, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, garantiu a “passagem segura” por essa via durante as próximas duas semanas.

A reacção dos mercados chineses traduz o alívio face a um conflito que tem afectado a Ásia, devido ao impacto na energia, no transporte marítimo e nas cadeias de abastecimento. Para a China, a situação no estreito de Ormuz é particularmente sensível, já que cerca de 45 por cento das importações de gás e petróleo do país passam por essa rota.

Corrupção | Ex-subdiretor de empresa química estatal acusado de receber subornos

A Procuradoria chinesa acusou de corrupção Feng Zhibin, ex-dirigente da Sinochem, um dos maiores grupos estatais da China nos sectores químico, energético e agrícola, por alegadamente aceitar subornos de valor “excepcionalmente elevado”. Após uma investigação conduzida pela Comissão Nacional de Supervisão, um dos principais órgãos anticorrupção do Estado, Feng foi remetido ao ministério público e detido sob suspeita destes crimes.

Segundo a acusação, Feng aproveitou os vários cargos que ocupou no conglomerado estatal – entre eles subdirector-geral e director do departamento de investimentos – bem como a condição de membro do comité do Partido Comunista Chinês (PCC) na empresa, “para obter benefícios para terceiros e aceitar ilegalmente subornos de montante excecionalmente elevado”.

A Procuradoria indicou que, após deixar funções, o ex-responsável continuou a utilizar de forma ilegal a influência decorrente do seu anterior cargo, recorrendo às funções oficiais de outros trabalhadores do Estado. Além disso, enquanto dirigente de uma empresa estatal, incorreu em “negligência com fins de lucro pessoal”, abusou do poder, causou perdas significativas e provocou prejuízos “particularmente graves” aos interesses nacionais.

O caso foi remetido ao Tribunal Popular Intermédio de Daqing, no nordeste do país, depois de a procuradoria local ter formalizado a acusação.

MNE | Wang Yi de visita à Coreia do Norte

O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, visita hoje e amanhã a Coreia do Norte, visando aprofundar as relações entre os dois países vizinhos, anunciou ontem a diplomacia chinesa. Apesar das tensões bilaterais provocadas pelo programa nuclear e balístico da Coreia do Norte, Pequim continua a ser um apoio essencial, estratégico e económico para Pyongyang.

A companhia aérea chinesa Air China retomou na semana passada os voos directos entre Pequim e Pyongyang, após uma interrupção de seis anos devido à pandemia da covid-19, sinal de uma abertura gradual do país, altamente isolado, após a retoma das ligações ferroviárias entre as duas capitais em Março.

A visita de Wang Yi, a convite de Pyongyang, constitui uma etapa “importante” na manutenção e desenvolvimento das relações bilaterais, afirmou Mao Ning, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da China.

“A China está disposta a trabalhar com a Coreia do Norte para reforçar a comunicação estratégica, intensificar os intercâmbios e a cooperação e promover continuamente as relações tradicionais de amizade e cooperação”, acrescentou, numa conferência de imprensa regular.

Em Fevereiro, numa mensagem de felicitações ao líder norte-coreano Kim Jong Un após a sua reeleição à frente do partido no poder em Pyongyang, o Presidente chinês, Xi Jinping, manifestou-se disponível para trabalhar com ele para escrever um “novo capítulo” nas relações bilaterais.

A Coreia do Norte ainda não reabriu totalmente as suas fronteiras desde a pandemia. Pyongyang continua, para já, relutante em conceder vistos turísticos, sendo que as novas ligações ferroviárias e aéreas são sobretudo utilizadas por estudantes, trabalhadores e pessoas que visitam familiares.

Natação | Investigado assédio digital contra campeã olímpica

A Associação Chinesa de Natação anunciou ontem que está a investigar um caso de assédio digital contra a três vezes campeã olímpica nos saltos para a água Quan Hongchan, centrado em críticas ao seu peso.

O organismo, dependente da Administração Geral do Desporto, indicou em comunicado que iniciou diligências em conjunto com as autoridades desportivas da província de Guangdong, após detectar “violência na Internet, ataques maliciosos e informações falsas” dirigidos contra a atleta.

Segundo a nota, um centro de treino de Guangdong apresentou queixa junto da polícia, enquanto a associação assegurou que apoiará o recurso a “meios legais” para proteger os direitos dos atletas, advertindo que atuará com “tolerância zero” assim que os factos sejam confirmados.

A associação condenou ainda qualquer comportamento que afecte a saúde física ou mental dos desportistas ou prejudique a imagem da equipa nacional, criticando a influência de uma “cultura de fãs” que classificou como distorcida.

O caso surge depois de Quan, de 19 anos, ter revelado recentemente, em entrevistas, que ponderou abandonar a carreira após meses de pressão pública e críticas nas redes sociais, em particular relacionadas com o seu peso e condição física após os Jogos Olímpicos de Paris2024. “Todos os dias, chamavam-me gorda, mas eu já estava a passar fome”, relatou a atleta, admitindo mesmo que “movimentos que antes” não lhe causavam receio passaram a assustá-la, tendo mesmo sonhado que caía da plataforma.

Em paralelo, vários utilizadores nas redes sociais manifestaram apoio à atleta e apelaram a que “não se coloque demasiada pressão” e que possa “viver feliz e com liberdade”, apesar das críticas. Nos últimos anos, as autoridades chinesas têm reforçado as medidas contra o assédio a atletas na Internet.

O Rumor Que se Escuta Nos Pinhais de Shen Zongjing

Li Bai (699-762), o radioso e desventurado poeta da dinastia Tang, depois de condenado à morte por traição, acabou sendo poupado e sentenciado ao exílio para a distante Yelang, actual Tongzhi, Guizhou, mas antes de chegar recebe a notícia de que foram perdoados todos os seus delitos e por isso regressa, descendo o rio Changjiang em direcção a Dangtu (Anhui), onde o acolherá o seu tio Li Yangbing naquele que será o seu destino final.

Segundo a lenda terá morrido abraçado ao reflexo da lua nas águas do rio mas, já doente, compôs um poema cuja forma breve faz parte do que pretende dizer e omitir ao parar diante de uma famosa montanha situada a norte da cidade de Xuancheng nessa mesma Província de Anhui.

Sentado sozinho na montanha Jingting, Jingting duzuo, escreve:

Um bando de pássaros voa alto no céu,

Uma nuvem solitária flutua livre.

Olhamo-nos, a montanha e eu não nos aborrecemos,

Até que dos dois só permaneça a montanha Jingting.

Ao longo dos anos uma torrente de palavras brotou do poema tão pobre delas e da multiplicidade de interpretações, avulta uma que o toma como exemplar de uma prática do Budismo chan designada zuochan, «sentado em meditação», em que o praticante sentado, abstraído das sensações do corpo, se liberta da constante corrente dos pensamentos e entra em total comunhão com a natureza.

Na arte do pincel designada shanshui, a «pinturas dos rios e das montanhas», que também é um gesto espiritual e de harmonia com o mundo natural, pintores inquiriram montanhas como a Jingting, como forma de se juntarem ao fluxo dos que saborearam o Dao.

Como Shitao que em 1671 evocou a montanha Jingting, grandiosa e estranhamente irrequieta como o seu carácter, no tempo da grande mudança do Outono (rolo vertical, tinta sobre papel, 86 x 41,7 cm, no Museu Guimet).

Shen Zongjing (1669-1735), que além de funcionário imperial foi pintor, poeta, calígrafo e músico no tempo dos imperadores Kangxi e Yongzheng, tinha um especial apreço pelas palavras, como mostra o facto de ser um dos três autores de uma compilação de caracteres organizada como uma espécie de «dicionário de sinónimos», chamado Pianzi leibian, publicada em 1728.

Uma pintura que fez em 1705 (rolo vertical,tinta sobre papel, 144,6 x 49,6 cm, no Instituto das Artes de Minneapolis) tem um título que se lê como um verso ou um vaticínio: O múrmúrio do vento nos pinheiros ecoa a melodia da Primavera. Nela, em baixo à direita, por uma ponte vem caminhando um homem, subindo o olhar pela montanha dois homens sentados conversam até que o olhar sobe até ao alto da montanha tocando o céu. Será a visualização de um caminho descrito como chenghuai weidao, «purificando a mente para saborear o Dao», como quem sabe que tudo passará, até nós que usufruímos da consolação da sua beleza mas ela, a montanha, permanecerá inspirando outros.

Daniel Pires recupera em livro legado de Bartolomeu de Gusmão

O livro “Obra de Bartolomeu de Gusmão”, do investigador Daniel Pires, que recupera documentos tidos como destruídos do inventor humanista português, foi apresentado ontem em Lisboa. Na personalidade de Bartolomeu de Gusmão, que inventou a primeira passarola voadora “convergiam o idealismo, a procura da transcendência, o visionarismo, a erudição, a criatividade e o espírito científico”, defende o investigador Daniel Pires.

“Obra de Bartolomeu de Gusmão”, editado pela Imprensa Nacional, reúne a obra do inventor do primeiro aeróstato operacional, que concebeu em 1709, 74 anos antes dos irmãos Montgolfier, e que registou outros inventos, nomeadamente instrumentos matemáticos.

“Um autor polígrafo”

Natural da vila de Santos, no Brasil, onde nasceu em 1685, Gusmão morreu em Toledo, em Espanha, aos 38 anos, procurando fugir do Tribunal da Inquisição.

Bartolomeu de Gusmão é “um autor polígrafo, que cultivou a poesia, a reflexão filosófica, a ciência, a oratória sacra, o ensaio histórico, a jurisprudência e a decifração de códigos secretos”, nomeadamente dos documentos diplomáticos, disse à agência Lusa Daniel Pires. O seu espólio foi queimado por ordem da Inquisição, que impôs a proibição, durante um século, de o seu nome ser pronunciado.

Daniel Pires explicou que recuperou praticamente toda a obra do erudito, “porque naquela época era comum escreverem cartas aos amigos e familiares”, e foram estas as fontes que usou para recuperar os documentos. A investigação levou cerca de dois anos, contou. A obra, de 260 páginas, “traz à colação múltiplos inéditos, exumados da poeira dos arquivos nacionais e estrangeiros”.

“Faz-se, assim, justiça a um visionário, intelectual multímodo, humanista e arauto do porvir”, realça a Imprensa Nacional em comunicado.

Daniel Pires é licenciado em Filologia Germânica e doutorado em Cultura Portuguesa. Foi leitor de Português nas Universidades de Glasgow, Macau, Cantão e Goa e professor cooperante em São Tomé e Príncipe e Moçambique. É um dos fundadores do Centro de Estudos Bocageanos, que dirige desde 1999, e autor de diversas obras sobre Camilo Pessanha, Venceslau de Moraes, Raul Proença, Padre Malagrida e Marquês de Pombal.

O investigador redigiu o Dicionário de Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, o Dicionário de Imprensa do Antigo Regime (1701-1807) e o Dicionário Cronológico de Imprensa de Macau — Século XIX. Pela Imprensa Nacional, publicou a Obra Completa de Barbosa do Bocage, em quatro volumes. Em Maio, Daniel Pires conta publicar, também pela IN, a biografia de Bartolomeu de Gusmão.

FRC | Inaugura hoje mostra de fotografia em torno da existência

É hoje inaugurada, na Fundação Rui Cunha (FRC), a partir das 18h30, mais uma exposição de fotografia, intitulada “VANITAS – Reflections on Transience and Legacy”. O evento reúne, segundo uma nota da FRC, trabalhos de vários artistas que, através da fotografia, poesia e pintura tradicional chinesa, evocam temas como a tristeza, o anseio e a transitoriedade da vida.

Apresentam-se trabalhos de seis fotógrafos e artistas locais, nomeadamente Carmen Serejo, Gonçalo Lobo Pinheiro, Francisco Ricarte, João Palla, Sara Augusto e Shee Va, que exploram o conceito de “Vanitas”, como símbolo “da impermanência da vida, a futilidade do prazer e a inevitabilidade da morte”, servindo este exercício para “lembrar que a ambição e os desejos terrenos são transitórios”.

Há, na exposição, imagens do túmulo de Camilo Pessanha no cemitério de S. Miguel Arcanjo, ou ainda uma interpretação da impermanência dos ritos egípcios da morte numa exposição recente. É também sublinhada a relevância do Cemitério de Sta. Cruz, em Timor-Leste, pela tristeza das perdas ali ocorridas e como símbolo de identidade nacional, por exemplo.

Esta mostra integra também trabalhos de artistas ligados à Associação para a Promoção da Cultura e Arte de Caligrafia e Pintura “Uma Faixa, Uma Rota” de Macau, sendo explorado o conceito de “Vanitas” como “forma de expressão alegórica que procura representar um ideal superior”. A mostra pode ser vista até ao dia 18 deste mês.

Não falta também a celebração da poesia, sendo lançado numa data posterior, nomeadamente a próxima segunda-feira, 13 de Abril, o livro “A Oriente do Silêncio e outros Poemas”, de Rui Rocha. Nesta obra é introduzida uma poética da morte e tradição chinesa com origem no budismo Chan (Zen).

Casa de Macau | A vida de Gonzaga Gomes nos livros e a ligação à União Nacional

Foi na Casa de Macau em Lisboa, esta terça-feira, que se recordou o professor, sinólogo, jornalista e tradutor Luís Gonzaga Gomes, que deixou uma extensa obra em português sobre Macau e, sobretudo, sobre os chineses. Jorge Rangel lembrou a sua ligação à União Nacional e histórias de infância com esta figura histórica, enquanto António Aresta, autor e ex-docente, defendeu a reedição total da obra completa desta personalidade macaense

Fotos: Armando Cardoso

Depois de Luís Gonzaga Gomes, falecido em 1976, ter sido lembrado na última edição do Festival Literário Rota das Letras, foi a vez de a Casa de Macau em Lisboa lhe prestar homenagem por ocasião dos 50 anos da morte desta personalidade macaense ligada às artes, letras e música, que deixou vasta obra e procurou aprofundar as relações entre chineses e portugueses, traduzindo muitas coisas do chinês ou escrevendo sobre a cultura do país do Meio. Luís Gonzaga Gomes dá mesmo nome a uma escola, a Escola Secundária Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.

A sessão na Casa de Macau contou com Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), que recordou histórias de infância com Gonzaga Gomes: primeiro a ter aulas de violino ainda criança na sua casa, bem perto da zona do Tap Seac; e depois como seu aluno no liceu.

“Ele tinha uma irmã, Margarida Gomes, que foi minha professora de violino. Eu morava num edifício onde fica agora o Arquivo Histórico de Macau, era ali a casa dos meus avós. Treinava quatro vezes por semana, todas as tardes, e era ainda um miúdo quando, com sete ou oito anos, ia com o meu violino, que pesava bastante. Ia para um bairro muito simpático, com oito vivendas, e numa destas estava Luís Gonzaga Gomes com a irmã, ele solteirão, ela solteirona.”

As conversas entre o pequeno Rangel e Gonzaga Gomes aconteciam enquanto o primeiro esperava pela lição, onde levaria com a varinha nos dedos sempre que se enganava nas notas musicais. “Era uma figura notável desde miúdo. Aprendi muito com o Gonzaga Gomes. Foi um privilégio notável”, adiantou Jorge Rangel.

Nos tempos em que se podia jogar à bola junto ao Tap Seac, “onde, de vez em quando, passava um carro”, Jorge Rangel cresceu e recorda destes tempos um Gonzaga Gomes “fechado, reservado, que só se abria quando confiava no seu interlocutor”.

“Admirava a sua colecção de arte chinesa, a sua colecção de música. Tinha uma sala só para ouvir música, o que era raro na altura, ter tanta música em casa. Ele tinha um ouvido extraordinário e conversávamos muito sobre arte chinesa, música e a memória de Macau.”

Apesar de só ter o equivalente ao nono ano dos liceus, Luís Gonzaga Gomes foi professor do liceu, tendo dado aulas a Jorge Rangel. Novamente a relação, já na qualidade de professor-aluno, floresceu nos corredores da escola, por onde a conversa floresceu.

“O Gonzaga Gomes tinha habilitações formais ao que hoje é 9.º ano. Era um ‘self made man’, um homem que estudou muito. Leu muito, e com estas habilitações foi professor de liceu”, disse. Jorge Rangel deixou Macau no seu sétimo ano para estudar fora e, quando regressou, já Luís Gonzaga Gomes estava no fim da vida. Mantiveram correspondência.

A ligação “natural” à União Nacional

O presidente do IIM não deixou de destacar, na sessão, a ligação de Gonzaga Gomes à União Nacional, partido único do regime do Estado Novo, que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974 e, por extensão, a todas as colónias.

“[Gonzaga Gomes] só me falou com muito entusiasmo da sua ligação ao Rotary Clube de Macau, o que é curioso, porque ele não se meteu muito na política, embora tenha sido vogal na União Nacional. Não há que ocultar estas coisas e ele assumiu, com toda a convicção, a sua participação em tudo.”

Jorge Rangel destaca, aliás, que apoiar o regime salazarista e, depois, marcelista fazia parte de ser macaense, do sentido de pertença a Portugal.

“Ele não tinha complexo nenhum e assumiu tudo com a maior abertura. É um aspecto que vale a pena referir e acentuar, porque vejo algumas biografias dele que, sem razão, tentam ocultar alguns aspectos que hoje seriam menos compreensíveis.”

Assim, na visão de Jorge Rangel, “há um tempo de Portugal que passou, são tempos diferentes”. “Para as pessoas que estavam em Macau, naquele tempo, tudo o que eram instituições de Portugal eram valorizadas, e os dirigentes políticos eram respeitados tal como eram. Era assim que, em Macau, sentíamos Portugal”, acrescentou.

Jorge Rangel deu mesmo o exemplo da sua pertença à Mocidade Portuguesa, a que “pertenceu muito activamente”. “Desde miúdos que nos era incutida esta ideia de que Portugal era representado por senhores maiores, mortos ou vivos, e representado por instituições ligadas ao Estado, que já existiram e que continuavam a existir, e foi assim até 1974. Não há que ocultar nada sem nenhum receio e com toda a convicção aquilo em que acreditámos nos nossos anos de juventude.”

Neste contexto, “Luís Gonzaga Gomes habituou-se a ver Portugal à distância, mas sentiu tudo, com toda a sua multiplicidade, no pensamento e sentimento, sempre ligado a Portugal, apesar de ser um grande promotor da relação luso-chinesa”.

Reedição necessária

António Aresta, antigo docente de Filosofia em Macau e autor de diversas obras sobre Macau, nomeadamente “Figuras de Jade”, que já vai no quarto volume, falou de Gonzaga Gomes como alguém muito focado no estudo, trabalho e pensamento, a quem sobrou pouco tempo para períodos de lazer. “Luís Gonzaga Gomes é uma personalidade que me fascina, uma pessoa misteriosa”, disse o autor de “uma pequena biografia sobre o seu pai, Joaquim Gomes, professor primário que era uma pessoa exuberante, um bom vivão”.

O filho saiu bem mais discreto. “Parece que Gonzaga Gomes não herdou esta faceta de bom vivão do pai, tendo ficado uma pessoa muito austera, muito fechada em si mesma, estudiosa, uma personalidade que dá gosto de estudar. Pergunto se ele teve tempo para viver, pois só estudou.”

Porém, o trabalho intenso de Gonzaga Gomes “não o fechou do espaço de sociabilidade com as comunidades macaense e portuguesa”, pois “pertenceu a todas e mais algumas associações de Macau, como clubes ou círculos culturais”. António Aresta deixou ainda um repto: a reedição da obra completa de Luís Gonzaga Gomes. “Era preciso planear a organização da sua obra completa, pois temos edições avulso, já esgotadas.”

ZAPE | Mais de 120 lojas fecharam as portas após fim dos casinos-satélite

Após quatro meses desde o encerramento dos casinos-satélites, mais de 120 lojas na Zona de Aterros do Porto Exterior (ZAPE) fecharam as portas. Os dados forma compilados pela Associação Industrial e Comercial da ZAPE, e citados pelo Canal Macau, significando a perda de 22 por cento de todos os estabelecimentos comerciais naquela zona da cidade.

“Temos agora mais de 580 lojas na ZAPE e a taxa de desocupação chegou aos 22 por cento. É um número bastante elevado. Se a taxa de desocupação continuar a subir vai enfraquecer a confiança dos comerciantes desta zona, assim como criar uma grande pressão mental e um peso nos ombros dos proprietários das lojas da zona”, afirmou Wu Kam Hon, presidente do Conselho Fiscal da associação, em declarações à TDM.

Face à onda de encerramentos, a associação espera apoios do Governo para apoiar a reconversão da zona comercial, uma vez que o problema não é entendido como tendo uma resolução rápida. Wu Kam Hon explicou que para se desenvolver a economia nocturna naquele local é necessário um prazo de dois a três anos.

Com este objectivo, Wu Kam Hon defende a criação de esplanadas na ZAPE por parte dos vários negócios, para criar “uma característica única na restauração da zona”.

Consumo | Inflação e habitação baixam no índice de confiança

O mais recente Índice de Confiança de Consumidores da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau revela uma quebra em termos trimestrais, destacando-se a menor confiança nas áreas do emprego ou habitação. Analistas pedem a atenção do Governo na elaboração de políticas de garantia dos rendimentos da população

O Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST, na siga inglesa) acaba de publicar o mais recente Índice de Confiança dos Consumidores relativo ao primeiro trimestre deste ano, revelando-se uma ligeira queda desta confiança em termos trimestrais.

O Índice foi, assim, de 96,78 pontos, verificando-se uma redução de 0,77 pontos em comparação com o trimestre anterior, de 2025. Mostra, segundo um comunicado da MUST, que o nível de confiança dos consumidores locais sofreu “uma redução de forma moderada”; verificando-se uma “confiança fraca e pouco restringida”. Significa isto que “os residentes mantêm uma perspectiva prudente” face à economia.

O Índice vai de 0 a 200, sendo que 0 representa “total falta de confiança”, 100 representa “mais ou menos confiança, sem sentimento” e 200 representa “total confiança”. Ou seja, um critério que fique abaixo de 100 indica “falta de confiança”, enquanto acima de 100 significa “ter confiança”.

Foram analisadas seis categorias, tendo-se registado três subidas e três quebras. Nas subidas, destaca-se a compra de habitação, que ficou nos 106,24 pontos, um aumento de 2,47 por cento em termos trimestrais, já que no último trimestre de 2025 o Índice neste campo foi de 103,68.

No que diz respeito à confiança na economia local, o Índice ficou nos 91,15 pontos, aumentando 0,39 por cento em comparação aos 90,80 pontos do trimestre anterior. Os pontos no investimento de acções foram de 110,57 mais 0,38 por cento em termos trimestrais, quando se registaram 110,15 pontos.

Emprego em queda

Um dos três critérios que baixou foi a confiança no emprego, registando-se, no primeiro trimestre deste ano, 89,62, uma redução de 0,72 por cento em comparação com 90,27 no trimestre anterior. Os pontos registados no Índice para os padrões de vida foram de 95,79 por cento, menos 4,80 por cento em comparação com os 100,62 pontos do último trimestre de 2025. Os pontos nos preços, ou seja, ao nível da inflação, foram de 87,29 por cento, menos 2,81 por cento em comparação com os 89,81 pontos do trimestre anterior.

Segundos analistas que realizaram o Índice, estes resultados demonstram que os residentes ainda têm dúvidas sobre o panorama macroeconómico local e a estabilidade dos seus rendimentos, o que afecta a recuperação da confiança ao nível do consumo.

Na mesma nota da MUST, são também destacadas questões que influenciam estes dados, como “as mudanças no ambiente externo que continuam a aprofundar-se, o ritmo de crescimento económico global com sinais de fragilidade” ou ainda “as disputas geopolíticas e os conflitos económicos e comerciais que ocorrem frequentemente”.

É destacado ainda que “o desempenho económico das principais economias apresenta tendências divergentes”, existindo “incerteza quanto às tendências da inflação e ajustamentos da política monetária”. Além disso, a “economia da China, em geral, opera de forma estável e com progressos constantes, mas ainda enfrenta múltiplos problemas e desafios, tal como a oferta forte e a procura fraca e impactos externos”, é referido.

Para Macau, a equipa conclui que é necessário continuar a observar a evolução em termos de emprego, dos preços e dos rendimentos dos residentes, para que a confiança dos consumidores possa atingir gradualmente um nível mais neutro. O estudo para o Índice foi realizado entre 1 e 16 de Março deste ano, tendo sido recolhidos 807 inquiridos dos residentes locais com idades acima de 18 anos.

Local de Espectáculos | Mais um concerto ao ar livre anulado

Em pouco mais de um ano, o Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau registou o quinto espectáculo cancelado. Desta vez, o evento que fica por realizar é o espectáculo Dauntless que tinha previstos concertos de artistas do Interior e da Coreia do Sul

O espectáculo Dauntless, que estava agendado para esta sexta-feira e sábado no Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau, foi cancelado. O anúncio foi feito através da plataforma de entretenimento Damai, controlada pelo grupo Alibaba, onde os ingressos se encontravam à venda.

Num comunicado, os organizadores, que nunca surgem identificados pela Damai, justificam a decisão de cancelar o espectáculo com “circunstâncias imprevisíveis”. A expressão tem sido utilizada para explicar os cancelamentos de espectáculos com artistas do Japão no Interior e em Macau, mas não se aplica neste caso.

O espectáculo tinha no cartaz principalmente artistas do Interior, de Taiwan e da Coreia do Sul, como WayV, grupo pop do Interior que inclui como membro o artista de Macau Hendery, o rapper Gali, a banda de rock Forgotten Club, a cantora Liu Xin, e os cantores sul-coreanos Zico, Kang Seung-Yoon e Wendy.

“Desde o início dos preparativos para o concerto, temos trabalhado incansavelmente para levar por diante todos os aspectos do evento, e estávamos ansiosos por nos encontrarmos com todos os fãs de música de Macau”, pode ler-se na mensagem divulgada na plataforma do Interior. “Estamos cheios de pesar e remorso por não termos cumprido a nossa promessa e por termos desiludido as expectativas de todos. Apresentamos as nossas mais sinceras desculpas a todos os fãs de música que têm acompanhado e aguardado ansiosamente este concerto”, foi acrescentado.

Inicialmente previsto para 10 e 11 de Janeiro, este espectáculo tinha sido adiado uma vez, para este fim-de-semana. Agora, a organização optou por não o realizar de todo e promete reembolsar as pessoas que compraram bilhetes. Os preços variavam entre as 600 patacas e 4.000 patacas. Apesar do cancelamento, os organizadores não identificados elogiaram a postura do Governo de Macau.

Soma e segue

Desenvolvido para receber espectáculos com grandes audiências, o Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau tem capacidade para 50 mil pessoas, mas a exploração pelo Instituto Cultural tem ficado marcada por vários cancelamentos. Logo em Março do ano passado, um evento que tinha o IC como principal organizador foi cancelado. O evento tinha como objectivo testar o funcionamento do espaço com uma audiência de 20 mil pessoas.

Em Junho, houve um novo cancelamento com o espectáculo S2O Songkran Music Festival, que estava previsto para os dias de 6 e 7 de Setembro. O cancelamento aconteceu ainda em Junho, com meses de antecedência. Em meados Novembro, o concerto dos Black Eyed Peas, agendado para o dia 21 desse mês, foi igualmente cancelado. Também o espectáculo Estrelas de Kpop foi adiado, por essa altura, embora fosse concretizado mais tarde.

Em Fevereiro deste ano, nova polémica quando o espectáculo Show! Music Core in Macau, agendado para 7 e 8 desse mês foi cancelado. A polémica deveu-se a num ambiente de trocas de acusações entre os organizadores locais, os promotores sul-coreanos e notícias na Coreia do Sul a indicar que as autoridades de Macau não iam permitir a actuação dos artistas japoneses que integravam os grupos coreano, devido à nova política do Interior face ao Japão, relacionadas com as declarações da primeira-ministra japonesa sobre a intervenção num conflito entre o Interior e Taiwan.

Com os espectáculos a serem cancelados frequentemente, o Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau tem sido transformado numa zona de entretenimento para a população, com a montagem de campos de basquetebol e outros equipamentos para crianças.

CCP | Problemas de representação em Macau chegam a Lisboa

Rui Marcelo acusou Rita Santos de utilizar figurantes que se fizeram passar pelo próprio e pela conselheira Marília Coutinho, durante uma fotografia exibida numa produção de uma televisão chinesa. Também o deputado José Pereira Coutinho é visado pelas queixas, uma vez que terá estado envolvido na marcação de uma reunião informal

As desavenças na secção local de Macau do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) chegaram a Lisboa e foram alvo de debate numa reunião do Conselho Permanente, realizada a 6 de Março. Segundo a acta da conferência, citada em primeira mão pelo Canal Macau, o conflito sobre quem tem poderes para representar o conselho está a colocar de um lado Rui Marcelo e do outro Rita Santos.

O assunto surge identificado na acta da reunião como “problemas internos e de representação” da secção de Macau/China/Conselho Regional da Ásia e Oceânia, e Rui Marcelo é citado como expondo vários problemas de representação, em que Rita Santos e José Pereira Coutinho, deputado de Macau que não faz parte do órgão, terão actuado em nome do conselho, sem autorização.

Entre os casos que surgem como exemplos de problemas de representação, Rui Marcelo indica um episódio em Fevereiro deste ano, com a utilização de figurantes. Segundo o conselheiro, Rita Santos participou na produção de um vídeo para uma televisão chinesa usando dois figurantes para fingirem numa fotografia oficial serem Rui Marcelo e Marília Coutinho, os outros dois membros efectivos do conselho, sem qualquer autorização. A acusação, segundo a acta da reunião, não foi desmentida pela conselheira.

Antes, a 29 de Janeiro, Rita Santos, em parceria com José Pereira Coutinho, terá convocado uma “reunião informal” do conselho, só com a presença dos membros suplentes e de um advogado.

Deputado bem informado

Também em Fevereiro, o deputado José Pereira Coutinho é acusado de ter anunciado à TDM que uma “missão da CCP” ia a caminho de Portugal para se reunir com as autoridades, sem que o “Círculo da China tivesse sido consultado ou tivesse conhecimento oficial” da missão.

Entre outras queixas, Rui Marcelo denuncia igualmente que Rita Santos terá enviado um e-mail com “alegações graves sobre um acordo verbal para a devolução de lugares no CP [Conselho Permanente] e na presidência do CRAO [Conselho Regional da Ásia e da Oceânia]” e a questionar “a legalidade dos mandatos do Conselho Rui Marcelo”. Rui Marcelo contesta qualquer acordo verbal, por não haver registo escrito e porque considera que a lei não permite que lugares eleitos sejam cedidos.

Rita Santos era até Setembro de 2024 membro do Conselho Permanente do CCP e presidente do CRAO. No entanto, suspendeu as funções nesse mês, com a justificação de que ia dedicar-se à eleição do Chefe do Executivo, uma participação negada pela candidatura de Sam Hou Fai, e para se focar nas eleições legislativas de Macau de 2025. Rita Santos acabaria por abdicar de participar na lista ligada à Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau, depois do Ministério Público de Macau ter confirmado a colaboração com as autoridades de Portugal numa investigação sobre fraude eleitoral. Na altura, Rita Santos justificou a desistência das eleições com a pretensão de dedicar mais tempo à família e, meses depois, a investigação criminal acabou arquivada.

Ataques dos jornalistas

Por sua vez, Rita Santos respondeu às várias acusações ao indicar que a “ATFPM sempre deu apoio logístico ao CCP durante 23 anos, incluindo nas eleições, e que o espaço foi sempre utilizado, com conhecimento de todos”. A conselheira considerou ainda que a utilização de papel timbrado e a emissão de cartas assinadas pelos conselheiros suplentes é uma prática de sempre.

Em relação aos outros assuntos em que foi visada, Rita Santos optou por focar ser alvo de ataques da imprensa em Macau e que Rui Marcelo conhece essas circunstâncias. A conselheira afirmou ainda ser vítima dos ataques porque “a maioria dos jornalistas” é “filiada ao Partido Socialista (PS)” e ela apoiou “o Partido Social Democrata (PSD), nas últimas eleições”.

Nas declarações prestadas durante a reunião, Rita Santos afirmou ainda não ter o desejo de “prolongar a polémica” e apelou “à restauração da harmonia entre os membros do Círculo da China”.

O HM contactou o conselheiro Rui Marcelo que recusou comentar o conteúdo da acta, por considerar que se tratam de “assuntos internos”. Por sua vez, tanto Rita Santos como José Pereira Coutinho mostraram-se incontactáveis.

Relatório | Queixas contra autoridades policiais aumentaram 20%

O número de queixas contra as autoridades policiais de Macau aumentou 20 por cento em 2025, uma subida atribuída pelo Governo ao elevado número de visitantes da cidade. Segundo um relatório da Comissão de Fiscalização Disciplinar (CFD), foram recebidas 132 queixas, mais 22 (mais 20 por cento) do que em 2024 e mais 44 (mais 37,5 por cento) face a 2023.

O Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) concentrou o maior número de queixas (105), sobretudo relacionadas com a actividade policial (46) e a aplicação da lei de trânsito (42). Seguiram-se a Polícia Judiciária (PJ) e os Serviços de Alfândega (SA).

No entanto, para as autoridades, este aumento deve-se ao “crescimento do número de visitantes em Macau”, que atingiu 40,69 milhões em 2025, mais 14,7 por cento do que no ano anterior, com a CPSP a interagir mais frequentemente com os turistas que visitam a cidade diariamente.

Segundo a CFD, os números devem ser interpretados “em função das funções exercidas e da frequência de interação com os cidadãos”, não podendo ser entendidos isoladamente como “indicador da qualidade global do desempenho institucional”.

As queixas recebidas resultaram em 10 processos, dos quais sete originaram sanções para os agentes envolvidos. O número de processos igualou o de 2022 e ficou ligeiramente acima da média anual de oito registada entre 2021 e 2025. Entre 2021 e 2024, tinham sido instaurados 30 processos, com aplicação de sanções em 24 casos.

Do total de 132 queixas recebidas em 2025, 108 foram integralmente processadas. As restantes 18 (16,7 por cento) continuam em apreciação devido à sua complexidade ou por terem dado entrada no final do ano, transitando assim para este ano.

Hengqin | Jorge Rangel diz que “Macau está a integrar-se rapidamente”

O presidente do Instituto Internacional de Macau, Jorge Rangel, e antigo secretário adjunto, defendeu em Lisboa que “Macau está a integrar-se muito rapidamente” no país, e que “tudo o que queríamos conservar e manter, o vamos fazendo com muita dificuldade”

Jorge Rangel, antigo secretário adjunto na administração de Rocha Vieira, e actual presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), defendeu esta terça-feira, num evento em Lisboa, que “Macau está a integrar-se rapidamente” e que o passo seguinte é Hengqin, embora nem todos queiram mudar-se.

“A China sempre soube jogar com o tempo para crescer muito depressa, e Macau está a mudar depressa. É preciso ter isto em conta, e tudo aquilo que queríamos conservar e manter vamos fazendo com muita dificuldade”, destacou.

Jorge Rangel lembrou que “a palavra de ordem” no último Plano Quinquenal chinês, apresentado na Assembleia Popular Nacional, em Pequim, e “uma das prioridades” foi “acelerar a integração de Macau na zona vizinha de Macau, Hengqin, a ilha da montanha”. O responsável destacou que lá “existe um grande complexo habitacional, com edifícios e escritórios, completamente vazios, onde pouca gente quer estar”.

“Estão a tentar estimular as pessoas a ir para lá, mas a alma ainda está do outro lado. A directiva é esta: rapidamente e em força para Hengqin, passe a expressão. É uma batalha muito difícil, para nós e para a comunidade”, referindo-se à comunidade macaense.

A diluição inevitável

No mesmo evento, que visou homenagear Luís Gonzaga Gomes a propósito dos 50 anos da sua morte, na Casa de Macau em Lisboa, Álvaro da Rosa, dirigente da Fundação Casa de Macau, lembrou que “a nossa comunidade [macaense] está a diminuir”.

“Os macaenses de Macau estão a diluir-se na comunidade chinesa, por motivos óbvios. Aqui em Portugal as nossas famílias são portuguesas, não falamos patuá, não comemos comida macaense, pelo que nos estamos a diluir na sociedade onde estamos. As outras comunidades macaenses fora de Portugal, nos EUA ou no Canadá, também estão a diluir-se na sociedade. Somos, portanto, cada vez menos”, rematou.

Presidente da Assembleia da República faz visita oficial a China e Macau até sábado

O presidente da Assembleia da República realiza até sábado uma visita oficial à China, que inclui encontros com as autoridades chinesas em Pequim e com as comunidades portuguesas em Xangai, Macau e Hong Kong.

De acordo com uma nota do gabinete de José Pedro Aguiar-Branco, esta deslocação acontece a convite do presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional da República Popular da China, Zhao Leji, feito durante a visita que fez a Portugal em novembro de 2024 e enquadra-se no memorando de entendimento assinado em julho de 2017 pelos presidentes dos dois parlamentos de então.

A última visita oficial de um presidente da Assembleia da República à China teve lugar em 2018 (quando o socialista Ferro Rodrigues ocupava o cargo) e a delegação portuguesa vai integrar deputados do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-China de vários partidos: Hugo Carneiro (PSD), Paulo Núncio (CDS-PP), Edite Estrela (PS), Felicidade Vital (Chega) e Paula Santos (PCP).

Na quarta-feira, 8 de Abril, estão previstos encontros de Aguiar-Branco com o vice-presidente da República Popular da China, Han Zheng, e com o presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional da República Popular da China, Zhao Leji, seguido de um jantar oficial.

Na quinta-feira, em Xangai, o presidente da Assembleia da República participa num almoço com membros da comunidade portuguesa, visita o Centro de Arte Fosun, um centro de exposições de planeamento urbano e encontra-se com as autoridades locais e com a presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional deste município, Huang Lixin.

O programa de sexta-feira e sábado será já em Macau, onde Aguiar-Branco visitará o stand de Portugal na Exposição Internacional de Turismo (MITE) e terá encontros com o chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Macau e com o presidente da Assembleia Legislativa deste território.

Ainda na sexta-feira, Aguiar-Branco irá à Escola Portuguesa de Macau e, no sábado, visitará alguns locais emblemáticos da presença portuguesa nesta região, cuja administração passou de Portugal para a China em 1999: a Santa Casa da Misericórdia, as ruínas da Catedral de São Paulo, a Livraria Portuguesa e o Consulado Geral. Encontros com a comunidade portuguesa, incluindo a comunidade jurídica, e a inauguração de uma exposição alusiva ao 25 de Abril, intitulada “As artes estão na Rua” completam o programa em Macau.

Na tarde de sábado, Aguiar-Branco e a delegação portuguesa visitam ainda na Região Administrativa Especial de Hong Kong a exposição “Estórias lusas”, sobre a presença portuguesa neste território, e encontram-se com membros da comunidade lusa que vivem nesta antiga colónia britânica.

Taiwan | Líder da oposição numa “viagem pela paz”

A líder da oposição em Taiwan, Cheng Li-wun, iniciou ontem uma visita à China a convite do Presidente chinês, Xi Jinping, numa deslocação que descreveu como uma “viagem pela paz”.

A visita, a primeira de um líder da oposição taiwanesa à China em cerca de uma década, ocorre antes de um encontro previsto para Maio, em Pequim, entre Xi Jinping e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Antes de partir de Taipé, a presidente do Kuomintang (Partido Nacionalista) afirmou aos jornalistas que Taiwan deve envidar todos os esforços para evitar a guerra e aproveitar todas as oportunidades para promover a paz.

“O objectivo desta visita à China continental é precisamente mostrar ao mundo que não é apenas Taiwan que deseja unilateralmente a paz”, afirmou Cheng Li-wun. “Creio que, através desta viagem pela paz, todos poderão ver ainda mais a sinceridade e determinação do Comité Central do Partido Comunista da China em resolver quaisquer divergências entre as duas partes através do diálogo e do intercâmbio pacífico”, acrescentou.

“Ninguém deseja que a ilha se transforme num campo de batalha; todos aproveitariam qualquer oportunidade para evitar que a guerra a atinja: preservar a paz é preservar Taiwan”, afirmou ainda Cheng, em declarações recolhidas pela agência CNA na sede do seu partido em Taipé.

Dezenas de apoiantes e opositores concentraram-se no aeroporto de Taipé, entoando palavras de ordem e exibindo cartazes. A líder da oposição, de 56 anos, visitará a província oriental de Jiangsu, Xangai e Pequim entre 07 e 12 de Abril e, segundo a imprensa de Taiwan, tem previsto reunir-se no dia 10 com Xi, um encontro que ainda não foi confirmado por nenhuma das partes.

Médio Oriente | Seul envia representante para garantir abastecimento energético

O chefe do gabinete presidencial sul-coreano, Kang Hoon-sik, deslocou-se ontem ao Médio Oriente e Ásia Central para garantir o abastecimento energético, no quadro da guerra contra o Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz.

Kang explicou numa conferência de imprensa em Seul que a sua delegação vai ao Cazaquistão, Omã e Arábia Saudita para garantir importações adicionais de petróleo e nafta, face às dificuldades logísticas decorrentes do conflito no Médio Oriente.

A Coreia do Sul importa do Médio Oriente cerca de 70 por cento do petróleo bruto que consome, e mais de 95 por cento deste volume transita por Ormuz. O país asiático elevou recentemente para o nível 3, o segundo mais alto, o seu alerta devido à crise de segurança energética.

Kang explicou que 54 por cento da nafta que a Coreia do Sul consome também é importada da região, sublinhando a urgência de garantir rotas alternativas de abastecimento. O responsável destacou o acordo recente em que os Emirados Árabes Unidos (EAU) se comprometeram a fornecer 24 milhões de barris de petróleo bruto a Seul.

Além disso, indicou que o Governo está a trabalhar para garantir a segurança de 26 navios sul-coreanos que permanecem nas proximidades do estreito de Ormuz, coordenando medidas com companhias marítimas e parceiros internacionais para facilitar a sua passagem segura.

Além disso, as autoridades de Seul estão a ponderar enviar cinco navios com bandeira sul-coreana para a cidade saudita de Yanbu, na costa do Mar Vermelho, o que permitiria evitar a passagem pelo Estreito de Ormuz.

Óbito | Faleceu Un Chi Iam, pintora e esposa de Mio Pang Fei

Morreu, no último sábado, a pintora e professora universitária Un Chi Iam, viúva do já falecido artista e pintor Mio Pang Fei, um dos grandes nomes da arte contemporânea de Macau.

Segundo uma nota enviada às redacções pela filha do casal, Cristina Mio U Kit, Un Chi Iam nasceu em Xangai em 1938, tendo-se mudado para Macau em 1983. Possuía um mestrado em Belas-Artes pelo Instituto de Arte de Nanjing, tendo-se dedicado, tal como o marido, às artes plásticas e também ao ensino.

Un Chi Iam foi editora de arte da Revista de Cultura do Instituto Cultural de Macau e professora de pintura Chinesa na Academia de Artes Visuais de Macau e no Instituto Politécnico de Macau.

Foi ainda membro fundadora do Círculo dos Amigos da Cultura de Macau, bem como “líder activa” em associações locais. No que diz respeito a exposições realizadas, Un Chi Iam fez três exposições individuais, participou em três Bienais de Macau e em mais de 60 exposições colectivas internacionalmente.

Além disso, foi uma pintora distinguida pelo seu trabalho, tendo recebido “vários prémios de destaque em pintura Chinesa”. Segundo a mesma nota, “a sua obra combinava a tinta tradicional chinesa com influências modernas e ocidentais, incorporando selos, gravura e outras técnicas chinesas”, a fim de “expandir a linguagem da pintura chinesa contemporânea”.

A falecida pintora é recordada “como uma inovadora e uma professora dedicada”, com a sua influência a perdurar “através dos seus alunos, publicações e das instituições que ajudou a construir”.

Casal de eleição

Ao lado de Un Chi Iam esteve sempre Mio Pang Fei, também natural de Xangai e cuja vida e obra mereceu, em 2014, um documentário da autoria de Pedro Cardeira. Sendo um dos nomes mais importantes da arte contemporânea chinesa, Mio Pang Fei foi tido como uma referência para muitos, a começar pelo facto de, no início da carreira, se ter interessado pela arte contemporânea ocidental, que no país era tida como anti-revolucionária.

Nos anos da Revolução Cultural Mio Pang Fei teve de enveredar pela arte tradicional chinesa e caligrafia, mais política e socialmente aceites, tendo sido perseguido pelo maoísmo, detido e condenado a trabalhos forçados. No início dos anos 80, escapou para Macau e, no território, pôde continuar a arte que queria desenvolver e uma nova vida.

Mio Pang Fei criou o chamado Neo-Orientalismo, com uma mistura entre as artes que realizou toda a vida: a tradicional chinesa e a ocidental, mais contemporânea e com um outro olhar. O artista faleceu em 2020.

Zaratrustra

Nós deixamos quase sempre a nossa pátria por volta dos trinta anos, ou seja, deixamos a vida primeira rumo à nossa própria identidade, vamos para a nossa montanha e daí recomeçamos qualquer coisa de inaugural que tem a ver com o ciclo de Saturno simbolicamente referenciado como a morte do pai. São vinte e oito anos este ciclo, mas trinta anos é a sua consumação talvez mais precisa. A vida que se deseja liberta deve ter nesta altura todas as prerrogativas que a façam manter-se livre, autónoma, e quiçá até esquecida da natureza primeira. Por estes anos não só a morte do pai é um imperativo como o amor vindouro um vasto sortilégio.

Comecemos então a labuta para subir a montanha, a solidão que percorreria muito mais tarde Moisés, e ainda mais tarde Jesus, trilhando os caminhos do Bode. O pai das religiões monoteístas imprimiu este tema da montanha como se de uma profecia eterna se tratasse, e assim se quedou intacta até aos dias de hoje como se o caminho que rasura o sopé da primeira condição desaparecesse bem alto entre as nuvens que o solo não vê. A Pérsia está repleta dos melhores poetas que o mundo viu, e tanto foi assim, que nos confins distantes do seu império eles oravam a eles como se identidades sagradas se tratassem. Ao tempo de Ciro o Grande. O que andam os bárbaros a fazer nesta terra puxada a cavalos de fina raça, em completa oposição ao blasfemo oratório de uma Casa Branca em torno do chefe? É uma heresia e também um erro de cálculo gigantesco, e o facto de se aqui chegar desta maneira revela o abismo no qual andamos metidos.

E Zaratustra, depois de uma década passada na montanha, chega à idade de quarenta anos, o temível numérico que desenvolve quarentenas, quaresmas e travessias, é um homem nascido de si e da sua solidão guiando o ciclo do sol antes que a noite total se implementasse (são ainda os velhos cultos de Mitra alinhados com a lonjura da sua existência) e ei-lo então no caminho inverso. Vai descendo, um Moisés futuro em estupefação com o que o espera cá em baixo, e um anjo o questiona;- vais ter com os homens? Não te esqueças de levar o chicote- Por essa altura é apoiado por uma rainha e um seu governante se faz adepto do Zoroastrismo, a sua missão tomava outra década e deu-lhe o destino então setenta e sete anos e quarenta dias. Muitos creem que ele já tinha existido há seis mil antes atrás muito antes da invasão de Xerxes à Grécia, mas seja como for, nada se perde por um milénio a mais ou um milénio a menos nesta prodigiosa fase da civilização. Este ritmo do descer e subir já tinha sido aplacado para dar a Jacob um sonho, e depois lutar com um anjo onde viria a ficar cocho, mas de Zoroastro ninguém mencionou nenhuma alucinação nem um mínimo sinal de que tivesse sido manco.

No Zaratustra de Nietzsche há um poema evocativo que nos interpela na voz grave da consciência: / escreve com o teu sangue que jamais amei aqueles que o fazem ociosamente…/vede como me sinto livre, vede como me sinto leve/ Vede voo, vede sobrevoou… Vede! Há em mim um deus que dança.

Andamos ameaçados com terceiras, quartas e quintas guerras mundiais, estamos espiritualmente em guerra, quem retomar o caminho das montanhas que pergunte o que significa matar anciãos de longas barbas, que o fim de tudo começa com outras guerrilhas onde passamos incólumes como se nada de extraordinário estivesse a acontecer. O feitiço do feiticeiro que mata meninas com o urro inicial deixando as listas de canibais ao deus dará, numa arrepiante manifestação ressuscitada de Baal.

Zaratustra ainda existe para nos lembrar da fronteira entre o homem e a besta, foi convocado à luz da nossa humanidade para pôr também fim a todos os cultos sacrificiais, e foi um pai de Abraão na sequência de acabar de vez com o massacre dos inocentes. Um poeta persa disse que os homens opõem resistência às coisas porque eles não as conhecem, Abu Hamid al- Ghasali, o que inspirou Saint- Exupéry a dizer outra; os homens amam a Terra porque esta lhes resiste.

O que poderemos nós fazer no meio de tudo isto, e quem nos virá libertar destes “salvíficos”? Tu conheces o tempo, vem salvar-nos.

Primeira prova do “Arrive and Drive” da Ásia-Pacífico será em Coloane

Este ano, a FIA lançou novos campeonatos regionais e internacionais no formato “Arrive and Drive”, ou “chave na mão” na designação portuguesa, com o objectivo de aumentar a acessibilidade e a participação de jovens pilotos nas competições de karting. O Campeonato da FIA de Karting “Arrive and Drive” da Ásia-Pacífico, na sua primeira edição, será composto por três rondas, estando a primeira jornada marcada para o Kartódromo de Coloane.

Neste modelo “Arrive & Drive”, os pilotos não necessitam de levar o seu próprio kart nem de integrar uma equipa técnica, uma vez que a organização fornece todo o equipamento necessário, incluindo karts totalmente padronizados do OTK Group, motores e pneus iguais para todos, bem como assistência técnica, preparação e manutenção do material. Desta forma, os participantes apenas têm de comparecer no circuito e competir, o que contribui para reduzir significativamente os custos e diminuir as diferenças técnicas entre concorrentes.

O campeonato é composto pelas categorias Júnior (12–14 anos, pilotos nascidos entre 2012 e 2014) e Sénior (14–18 anos). Com esta iniciativa, a FIA pretende reduzir as barreiras financeiras no karting internacional para os pilotos mais jovens, aumentar a participação de competidores provenientes de países com menos recursos, assegurar condições de competição mais equilibradas — numa altura em que os custos da modalidade têm vindo a aumentar significativamente — e identificar e desenvolver novos talentos para o automobilismo.

Depois do primeiro anúncio em Dezembro passado, o calendário do Campeonato da FIA de Karting “Arrive and Drive” da Ásia-Pacífico foi finalmente ratificado no último Conselho Mundial da FIA e será disputado em três eventos. A primeira prova está agendada para o Kartódromo de Coloane, que este ano celebra o seu trigésimo aniversário, entre 19 e 21 de Junho.

Depois da prova em solo de Macau, a competição prossegue, de 24 a 26 de Julho, no Circuito Internacional de Karting de Zhuzhou, no Interior da China. A terceira e última jornada, marcada para 11 a 13 de Setembro, será realizada na Madras International Karting Arena, na Índia. As inscrições para o campeonato encontram-se abertas até 27 de Maio, permitindo a participação de pilotos individuais sem necessidade de nomeação pelas respectivas autoridades desportivas nacionais.

Como prémio, os melhores classificados nas categorias Júnior e Sénior qualificam-se directamente para a Taça do Mundo da especialidade, tendo assim a oportunidade de assegurar um lugar no prestigiado “FIA Karting Shootout”.

FIA mais perto

A primeira edição da Taça do Mundo da FIA de Karting “Arrive & Drive” realizou-se em Novembro do ano passado, na Malásia, precisamente no fim-de-semana do Grande Prémio de Macau. Numa iniciativa pouco habitual, mas digna de registo, a RAEM fez-se representar no evento pelo piloto de 14 anos Chong Ian Ip e a supervisão de João Afonso, o piloto com mais títulos conquistados no karting de Macau. Na categoria Júnior, a prova reuniu mais de cinquenta participantes provenientes de todo o mundo, tendo Chong terminado na 19.ª posição na Final do Grupo B.

A presença de mais esta competição da FIA em Macau não é fruto do ocaso e segue a linha da proximidade entre a federação internacional e o Associação Geral Automóvel Macau-China (AAMC). A Assembleia Geral Extraordinária da FIA será novamente organizada em Macau a 26 de Junho. O encontro será novamente promovido pela AAMC e faz parte da semana das conferências da FIA que também se realizarão no território.

Combustíveis | Aumento dos preços limitado a metade do valor de mercado

A China vai continuar a limitar praticamente a metade o aumento no preço dos combustíveis, prolongando as medidas anunciadas em Março para tentar atenuar o impacto da subida do preço do petróleo.

Segundo indicou ontem num comunicado a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR, principal órgão de planeamento económico do país), os preços da gasolina subirão 420 yuan por tonelada, quando deveriam subir 800 yuan, na sequência das “consideráveis” flutuações no mercado.

O preço do gasóleo subirá 400 yuan por tonelada, em vez dos 770 yuan do cálculo padrão. “Para mitigar o impacto dos preços internacionais crescentes do petróleo bruto no mercado nacional, o Governo continua a aplicar medidas de controlo sobre os preços dos derivados do petróleo”, indica a instituição no seu portal.

A 23 de Março, a CNRD anunciou que limitaria os aumentos a 1.160 e 1.115 yuan para a gasolina e o gasóleo, em vez dos 2.205 e 2.120 yuan que teria de aplicar face à escala do preço do petróleo. No comunicado de ontem, o responsável pelo planeamento económico exige que as grandes petrolíferas estatais “organizem a produção e o transporte” de produtos refinados para “garantir o abastecimento estável” e insta-as a “aplicar rigorosamente” os referidos controlos de preços.

O comunicado adverte de “penas severas” contra quem infringir estas medidas e pede a todas as autoridades do país que “reforcem a supervisão e a inspecção do mercado”.

Perante o bloqueio “de facto” do estreito de Ormuz, por onde passa 45 por cento do petróleo que importa, a China registou um dos maiores aumentos recentes nos preços dos combustíveis, o que levou os reguladores a intervir para limitar o seu impacto sobre os cidadãos.

Ucrânia | Pequim e Kiev acordam requisitos para exportação de farinha de trigo

China e Ucrânia assinaram na segunda-feira um protocolo sobre requisitos sanitários, de inspecção e de quarentena para a exportação de farinha de trigo ucraniana para o mercado chinês, num novo passo na cooperação agroalimentar entre os dois países.

O acordo foi assinado na segunda-feira pelo embaixador da China na Ucrânia, Ma Shengkun, e pelo chefe do Serviço Estatal da Ucrânia para a Segurança Alimentar e Protecção do Consumidor, Serhii Tkachuk, informou ontem a embaixada chinesa em Kiev, através da sua conta oficial na rede social WeChat.

De acordo com a embaixada chinesa, Ma Shengkun avaliou positivamente a cooperação agrícola entre Pequim e Kiev, afirmando que a assinatura do protocolo “vai ampliar ainda mais a cooperação comercial em produtos agrícolas entre os dois países” e enriquecer o conteúdo da parceria estratégica bilateral.

Na reunião participou também a vice-ministra ucraniana da Economia, Ambiente e Agricultura, Iryna Ovcharenko, que indicou que a China é o principal parceiro comercial da Ucrânia e um “destino importante” para as exportações agrícolas ucranianas, manifestando confiança de que o protocolo “impulsionará um novo crescimento” do comércio bilateral neste sector.

Energia | Xi pede novo sistema energético e reforço da segurança

O Presidente chinês, Xi Jinping, defendeu ontem a construção de um “novo sistema energético” e o reforço da segurança energética do país, num contexto de perturbações no fornecimento de combustíveis fósseis, causado pelo conflito no Médio Oriente.

Sem referir directamente a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão, Xi sublinhou que a China deve “acelerar o planeamento e a construção de um novo sistema energético” e reforçar a segurança, numa fase em que Pequim aposta na diversificação das fontes de abastecimento, noticiou a televisão estatal CCTV.

O chefe de Estado apelou ao desenvolvimento “activo, seguro e ordenado” da energia nuclear e ao reforço de um sistema integrado de produção, fornecimento, armazenamento e comercialização de energia. As declarações surgem após semanas de instabilidade no Médio Oriente, onde a guerra envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos tem afectado o tráfego marítimo e pressionado o preço do petróleo, devido ao bloqueio de facto do Estreito de Ormuz.

Segundo a CCTV, nos primeiros meses do novo plano quinquenal aprovado em Março, que orienta a segunda maior economia mundial nos próximos cinco anos, a China tem acelerado a construção de infraestruturas energéticas de nova geração, com o objectivo de reforçar a cadeia de abastecimento e promover um desenvolvimento mais verde e de baixas emissões.

No final de Fevereiro, a capacidade instalada de energia eólica e solar atingia 1.880 milhões de quilowatts, um aumento de 28,8 por cento em termos homólogos, enquanto a produção eléctrica a partir de fontes renováveis já representa cerca de 40 por cento do total nacional.

Xi Jinping salientou recentemente que o carvão continua a ser a “base energética” da China, devendo desempenhar um papel de suporte.

Impacto global

O conflito, em escalada desde finais de Fevereiro, tem incluído ataques a infraestruturas energéticas e afectado o tráfego no Estreito de Ormuz, por onde, em circunstâncias normais, transita cerca de 20 por cento do petróleo mundial e aproximadamente 45 por cento das importações chinesas de petróleo e gás.

A guerra já teve impacto directo na China, ao aumentar os custos energéticos e logísticos, levando mesmo as autoridades a intervir temporariamente nos preços internos dos combustíveis. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês indicou recentemente que alguns navios chineses conseguiram atravessar o estreito após coordenação com as partes envolvidas.

Pequim tem condenado repetidamente os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, ao mesmo tempo que sublinha a necessidade de respeitar a soberania dos países do Golfo, com os quais mantém estreitas relações políticas, comerciais e energéticas.

Ponto de Convergência: Clássicos, Esquecimento e Renascimento no 15.º Festival Literário de Macau

O Festival Literário de Macau através da perspectiva de Harold Bloom

Por Lam Kongchuen

O famoso crítico literário Harold Bloom, nas suas reflexões sobre a relação entre a literatura e a cidade, nunca considerou a cidade simplesmente como um pano de fundo para a literatura. Para ele, as grandes cidades — Alexandria, Londres, Paris, Nova Iorque — remodelam com uma força irresistível cada escritor que entra no seu espaço. A cidade impõe uma «ansiedade de influência», obrigando os criadores posteriores a procurar a sua própria voz à sombra dos clássicos. Se Bloom ainda estivesse vivo, talvez entrasse com um olhar diferente na 15.ª edição do «The Script Road — Festival Literário de Macau». Este grande evento cultural, que estabelece pontes entre o Oriente e o Ocidente, Portugal e a China, a tradição e a contemporaneidade, ilustra precisamente uma teoria central à maneira de Bloom: quando um festival literário tem como objetivo o «intercâmbio» e o «diálogo», estará a mobilizar a essência da literatura?

1/ A Sombra de Pessanha

A homenagem prestada neste festival ao centenário da morte do poeta português Camilo Pessanha oferece o texto mais rico para uma leitura à maneira de Bloom. Pessanha, um poeta simbolista que passou os últimos 30 anos da sua vida em Macau, cuja obra «Clepsidra» é aclamada como uma das mais requintadas da língua portuguesa, ocupa, no entanto, uma posição especial em ambas as tradições culturais. Visto através de Bloom, Pessanha é precisamente aquele «fraco forte» — na tradição clássica portuguesa, herdou a ansiedade de Pessoa; em Macau, enfrentou uma tradição literária chinesa que ainda não o tinha totalmente absorvido.

A nova obra de Yao Feng, “Encontro dos Extremos”, narra a história do intercâmbio literário entre Portugal e a China; esta narrativa do «encontro» é precisamente o mito que Bloom sempre procurou desconstruir. Para Bloom, o verdadeiro encontro literário nunca é um diálogo moderado, mas sim um confronto direto com a interpretação errada, a competição e a superação. A poesia de Pessanha merece ser celebrada não porque ele tenha conseguido «intercambiar» algo, mas porque criou, na franja entre duas tradições, uma ansiedade única — uma voz que não é nem totalmente portuguesa, nem totalmente macaense.

O passeio histórico «Nas Pegadas de Pessanha», organizado pelo Festival de Literatura de Macau, foi conduzido pelo escritor Christopher Chu. Esta peregrinação espacial, se analisada pela perspectiva de Bloom, não é apenas uma reminiscência do passado, mas um ritual através do qual um «tardio» tenta aliviar a sua ansiedade de influência, revisitando as pegadas físicas de um clássico. A questão é: quando caminhamos pelas ruas por onde Pessanha passou, estamos a dialogar com ele ou apenas a procurar consolo para o nosso atraso?

2/Livros de Mulheres e Linguagem Secreta

Em 1973, Bloom publicou “A Ansiedade da Influência”, que «abalou os nervos de todos», mas a sua teoria da formação clássica tem sido há muito acusada pelas críticas feministas de ser cúmplice do patriarcado — os «poetas dominantes» aos seus olhos são quase exclusivamente homens, e a «ansiedade da influência» que descreve é uma competição de masculinidade. No entanto, o foco deste festival literário na «escrita feminina» oferece precisamente uma alternativa à análise de Bloom.

O documentário de Feng Du, “The Whisperers”, narra a história de «Nüshu», uma escrita exclusiva para mulheres de Jiangyong, na província de Hunan — um alfabeto criado por mulheres para escapar à compreensão masculina, escrito em leques dobráveis e bordado em lenços, que se desenvolveu como forma de poesia e de expressão de afecto. Se Bloom tivesse assistido a esta secção, talvez tivesse revisto a sua teoria: não se trata de uma tradição feminina excluída da literatura clássica que está a ser «recuperada», mas sim de uma manifestação paralela à literatura clássica. A própria existência do «Nüshu» é um protesto silencioso contra a literatura clássica dominante (seja em chinês ou em português) — não procura o diálogo, cria o seu próprio espaço.

O Festival de Literatura organizou o workshop de «Nüshu» e a exibição no mesmo dia, coincidindo com o Dia Internacional da Mulher. Esta lógica curatorial tenta apresentar a «narrativa feminina» como uma unidade temática. Mas uma crítica ao estilo de Bloom salientaria: a verdadeira tradição literária feminina não precisa de ser «tematicizada»; o que precisa é de ser reconhecida como um sistema clássico completo, dotado de competição interna e de tradição. Quando a literatura feminina é trazida das aldeias de Hunan para o recinto do Festival Literário de Macau, corre o risco de ser transformada numa peça de exposição de «diversidade cultural», em vez de uma tradição literária viva, que continua a gerar inquietação.

3/ Macau como texto urbano: do ponto de convergência ao campo de irradiação

Esta edição do Festival Literário enfatiza uma palavra-chave: Macau como «ponto de encontro das culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente». Por trás desta formulação está aquilo a que Bloom chamaria de «ilusão académica» — como se o encontro entre culturas pudesse ser harmonioso, complementar e mutuamente enriquecedor, sem distinções.

No entanto, Bloom lembra-nos que o verdadeiro espaço literário urbano nunca é um ponto de encontro, mas sim um campo de batalha. A Paris do século XX não foi grande por ter permitido o «encontro» entre Hemingway e Joyce, mas porque obrigou cada um a procurar a sua própria voz à sombra dos outros. Da mesma forma, o potencial literário de Macau não reside na sua capacidade de «ligar» a China e o mundo lusófono, mas sim na sua capacidade de se tornar um local onde surgem novas ansiedades, novas interpretações erradas e novos clássicos.

A exposição do arquiteto José Maneiras — uma retrospectiva sobre este arquiteto macaense que projetou o Complexo de São Francisco — oferece uma metáfora espacial. A arquitetura é a manifestação mais física do clássico: um edifício ergue-se ali, e os arquitetos que se seguem têm de decidir se o imitam, o destroem ou estabelecem um diálogo silencioso com ele. O colóquio organizado pelo Festival de Literatura procura «homenagear o seu contributo para a paisagem urbana», um ritual de canonização. Mas Bloom questionaria: quem é o «poeta dominante» do mundo da arquitetura de Macau, capaz de reinterpretar José Maneiras e, a partir daí, criar uma nova linguagem urbana?

4/Manifestações Multidisciplinares

O cartaz desta edição do Festival de Literatura é verdadeiramente estrelado: o vencedor do Prémio Pulitzer Hernán Díaz, o romancista Amitav Ghosh, os mestres da literatura chinesa Bi Feiyu e Xiao Bai. Ao mesmo tempo, o evento estende-se ao cinema (A Mulher do Mar), ao teatro (a versão portuguesa de À Primeira Vista), à música (o concerto de Rodrigo Leão) e às artes visuais. A literatura manifesta-se em múltiplos domínios. Por um lado, há um esforço para alargar o público da literatura; por outro, à medida que o festival literário se torna cada vez mais um evento público, a autonomia da literatura é amplamente mobilizada, expandida e difundida. «À Primeira Vista» é uma excelente peça teatral, e a actriz Margarida Vila-Nova regressará a Macau para a apresentar. A peça, da autoria da dramaturga australiana Suzie Miller, já foi apresentada em Londres, Nova Iorque e cerca de trinta cidades em todo o mundo, incluindo Xangai e Hong Kong. A sua versão produzida em Portugal está em sintonia com o cerne do «Festival de Literatura de Macau». O concerto do músico português Rodrigo Leão tornou-se um capítulo à parte no intercâmbio literário sino-português.

Bloom passou a vida a defender a autonomia estética — ele considerava que o valor da literatura não reside na sua correção política, representatividade cultural ou utilidade social, mas sim na intensidade da sua imaginação única e irredutível. Desta perspetiva, os dois encontros dedicados à poesia no festival, sendo o último deles o ponto alto de todo o evento, constituem o momento mais «bloomiano». A poesia — esse meio que possui, por natureza, as características de «transdisciplinaridade» e «intercâmbio», mas que, ao mesmo tempo, é o mais obstinadamente fiel à própria linguagem — foi colocada no final, como se fosse uma reflexão no desfecho de toda a celebração literária. Bloom diria: é aqui que o festival literário, ao chegar ao fim, recomeça, tal como o mar começa no fim da terra.

5/ Assim, a literatura imortal

«A Imortalidade da Palavra», este nome em si está repleto da ironia bloomiana. O que é a imortalidade? Para Bloom, a imortalidade não é ser lembrado, mas sim gerar ansiedade de forma contínua — fazer com que os escritores posteriores não consigam dormir à noite por causa da tua existência, fazer com que os leitores sintam, perante as tuas palavras, os limites e a transcendência da linguagem.

A «ponte cultural» que o Festival de Literatura de Macau procura construir tem a sua necessidade e valor, especialmente numa cidade ainda marcada pela intersecção e coexistência de uma história diversificada, da política linguística e da identidade. Mas Bloom lembrar-nos-ia: o significado da ponte não reside em tornar esta margem e aquela margem idênticas, mas sim em tornar as diferenças atravessáveis, confrontáveis e passíveis de interpretação errada. A imortalidade de Pessanha não se deve ao facto de ter conseguido transmitir alguma informação entre Portugal e a China, mas sim ao facto de a sua poesia se recusar a ser totalmente absorvida por qualquer tradição — o que ele deixou em Macau não foram vestígios de uma convergência, mas sim marcas de ansiedade. É a ansiedade contínua que traz novos impulsos à criação literária.

Ao sairmos da Fundação Oriente, encerrando este banquete literário de onze dias, a verdadeira questão não é «quanto trocámos», mas sim «se gerámos uma nova ansiedade» — uma ansiedade capaz de impulsionar uma nova geração de escritores e artistas de Macau a criar, à sombra de Pissarro, das Mulheres-Livro, de Masua e de todos esses clássicos, uma linguagem literária própria, forte e inquietante. Só assim Macau poderá, no sentido literário, tornar-se verdadeiramente «imortal».