O que fica

Talvez haja de facto uma misteriosa ordem das coisas que se reflicta na nossa existência. Não falo de desígnios divinos ou extraordinárias influências planetárias úteis para sedução pirosa e charlatanice sortida. Não: será mais algo que a dado momento nós atraímos por dedicarmos tanto do nosso tempo a pensar em silêncio sobre o assunto.

Explico: os meus dias mais recentes têm sido assolados por perdas mais ou menos próximas, mais ou menos públicas. O livro – extraordinário, por sinal – que me ocupa agora é Nada A Temer, de Julian Barnes, uma reflexão filosófica e autobiográfica sobre a mortalidade que deve muito a Montaigne. Há uma semana esta página falava-vos da partida de um homem livre. Senti que seria necessário fazer uma pausa nesta anatomia da perda mas não sabia como fazê-lo nem como escrevê-lo.

E de repente, lá está: a tal ordem misteriosa das coisas a entrar pelos minutos dentro. Há alguns dias fui convidado para dizer alguns poemas num jantar cujo tema era “A Noite Poética de Nova Iorque”.

Imediatamente pensei num dos autores que associo a essa cidade: Ron Padgett. Assim, ao percorrer mais uma vez os seus poemas deparei com um de que gosto muito e já não me recordava: O Agrafador (que foi traduzido de forma esplêndida pela Rosalina Marshall). Nele o poeta fala do que ficou depois da perda da mãe: roupas velhas, trocos, pratos, quase nada. E um agrafador, que o seduz. Nesse objecto, que o poeta reaprende a apreciar e a usar está a sua mãe, como uma aragem. Este poema lembrou-me outro (são melhores do que cerejas, sim), também belíssimo. Chama-se cazaquistão e foi escrito por Rosa Oliveira. A mesma perda, a mesma memória, um objecto: um casaco. O poema perde força e beleza se o truncar mas sinto necessidade, para o que aqui quero dizer, de repetir os últimos versos: “O casaco era da mãe/ A mãe estará sempre no casaco”.

Percebi: é altura de escrever e de pensar sobre o que fica, esta indizível permanência que tanto pode confortar como desesperar ou mesmo revoltar. O legado, mesmo assim, parece ser o pouco que dá sentido a este breve passeio pelo mundo. O que fica de nós – um gesto, um filho, uma obra-prima, o que for – irá sempre transcender o que ambicionamos. Essa linha invisível ajuda-nos a lidar com a ideia de finitude. E, para quem como eu prefere a herança à mudança, leva a um tipo de atitude que vai do político à escolha mais trivial ou quotidiana.

Direis: mas há quem deixe legados terríveis. Sem dúvida, e uma breve visão da história da Humanidade chega para alimentar esse cepticismo. Mas esse confronto com o horror que herdámos tem de servir para fortificar o que queremos deixar. A vida, além de despesa, é investimento. Precário, desconhecido, inseguro, de altíssimo risco – mas investimento.

Talvez a famosa lenda da morte do grande poeta chinês Li Bai (701 – 762) consiga ajudar-me a dizer o que pretendo. Segundo ela, este poeta – grande apreciador de prazeres sensuais e especialmente etílicos – resolveu percorrer o rio Yangtze, ébrio depois de uma festa. Escolheu uma pequena embarcação e olhou para o céu: estava uma noite de luar perfeita. Li Bai não terá resistido à extrema beleza da Lua e ali mesmo escreveu um poema sobre isso. Fascinado com os reflexos que a Lua projectava no rio, o poeta ter-se-á debruçado na ânsia de os recolher; caiu à água e afogou-se. A pequena embarcação seguiu o seu caminho, levando apenas o último poema que Li Bai escreveu, até gentilmente encalhar numa das margens, onde alguém o recolheu. Foi assim que o poema sobreviveu até aos nossos dias.

Parece-me uma bela metáfora para como pode ser o que fica: apaixonarmo-nos pelos dias, fazer tudo o que for possível para os tornar mais fáceis e graciosos. Assim para que no dia em que o barco seguir o seu caminho, à deriva e vazio, poder haver uma margem e alguém que possa salvar o poema.

20 Fev 2019

Poemas de Li Bai

DESPEDINDO-ME DE MENG HAORAN

Com uma mão, o meu velho amigo diz adeus à Torre Amarela.
Desce o rio para leste e atravessa a luz leitosa dos salgueiros de Abril.
Ao longe, a brisa apaga a solitária vela no longínquo azul,
Vejo a corrente do rio Yangtze a arrastar tudo para o céu.

 

A BELA NA ESTRADA

Altivo, o cavalo esmaga flores no seu galope.
De chicote em riste, afasto as nuvens do meu caminho.
Uma rapariga bela sorri, mostra o seu saiote que parece ouro,
E aponta ao longe o pavilhão vermelho onde se prostitui.

30 Out 2018

Poemas de Li Bai

NOCTURNO

O luar brilha aos pés da cama,
parece faíscas de geada no chão.
Levanto a cabeça e perco-me na lua.
Mas logo a deixo cair, com o peso da terra natal.


GRALHAS GRITANDO NA NOITE

Junto às muralhas da cidade,
nuvens amarelas anunciam a noite
e gralhas procuram os ninhos.
Descansando sobre os ramos,
já despidas de voo, gritam: hah, hah, hah!
E a menina do rio Qin tece um manto no tear.
Os fios das cortinas escorrem ao longo janela
e não me deixam saber o que diz a si mesma.
A tristeza interrompe-lhe o trabalho,
ali consigo e o seu coração tão longe.
Naquele exíguo quarto, onde se irá deitar só,
lágrimas caem mais que chuva.

23 Out 2018

Poemas de Li Bai

VISITA AO MONGE TAOISTA SEM ENCONTRÁ-LO

Um cão ladra para calar o som da água.
As flores do pessegueiro engordaram com a chuva.
Por vezes, muito para lá das árvores aparece um cervo.
O fluxo do riacho não deixa escutar nem os sinos do meio-dia.
O verde dos bambus selvagens corta as nuvens do céu.
A cascata voa do topo da escarpa.
Nada nem ninguém sabe para onde o monge terá ido.
Triste, abandono-me ao tronco de um pinheiro.

DESPEDIDA NA LOJA DE VINHOS EM NANJING

O vento traz as flores de salgueiro que adocicam a loja.
A jovem rapariga dá vinho a provar aos clientes,
Aos amigos que ali foram para se despedirem de mim.
Vazamos copos sem fim, até que interrompo a eternidade e lhes digo:
Ide perguntar àquele rio que desce para leste,
Se consegue percorrer maiores distâncias que a amizade.

16 Out 2018

Poemas de Li Bai

DEIXAR DE VER UM AMIGO

Montanhas verdes e azuis, por detrás dos muros do norte.
A leste, a cidade é cortada por águas puras, brancas.
É onde nos iremos separar.
Ao vento, as sementes das árvores viajam mais de mil quilómetros.
Nuvens e pensamentos, de quem se põe a caminho, nunca param.
Tão rápido acaba o dia como uma velha amizade.
Despedimo-nos como se fosse do lugar e não de nós.
Picamos os cavalos, que relincham, relincham de tão sós.

DIÁLOGO NO ALTO DA MONTANHA

Perguntas-me porque decidi viver no alto da montanha.
Sorrio, e o meu coração tranquilo não sopra uma resposta sequer.
Pétalas de pessegueiro dançam as suas pequenas mortes nas águas do rio.
Aqui não existe erro, tudo é diferente dos homens, até o céu e a terra.

9 Out 2018

Poemas de Li Bai

A primeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais.

 

TANTA ANGÚSTIA

 

Tanta angústia que sinto

Por não conseguir chegar à capital, a Chang’an.

Os insectos tecem o Outono, cantando na margem dourada do lago,

A geada transforma o frio em cor na minha esteira de bambu,

A candeia ameaça apagar-se e acende ainda mais o que sinto.

Afasto a cortina da lua, suspiro longamente em vão.

A beleza floresce longe de mim, para além das nuvens.

Por cima um céu infinito de noite escura

E em baixo as águas verdes, inquietas.

Um céu maior que o mundo, um caminho sem fim, a amargura espanca-me.

Uma montanha intransponível impede-me de alcançar o sonho.

Tanta angústia, ou essa coisa que sinto,

Arruína qualquer coração.

 

 

SOZINHO OLHANDO A MONTANHA

 

Os pássaros levam as suas asas para longe

E deixam no céu apenas uma nuvem, que também se afasta.

Ficamos sós, a montanha e eu,

Olhando-nos frente a frente neste sem fim.

 

19 Set 2018

Poemas de Li Bai

Aprimeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais.

 

A FLAUTA DE BAMBU NA NOITE DE PRIMAVERA EM LUOYANG

De quem é este coração, que sopra implacável a flauta de jade?

Alaga por toda a aldeia de Luoyang o doce vento da Primavera

E prende-me aos ramos de uma canção antiga, “O salgueiro que se parte”.

Fico sem quaisquer forças para não pensar na terra onde nasci.

 

DESCENDO A MONTANHA ZHONGNAN
E FICAR A BEBER COM UM AMIGO A MEIO DA NOITE

Com o sol em declínio e a lua a seguir os meus passos,

Desço a montanha azul.

Olho para trás, para tudo o que já fiz,

E só vejo sombras de muitas sombras.

Junto ao conhecido portão coberto de flores

Os filhos de um velho amigo chamam-me.

No estreito e longo caminho verde de bambus

A minha roupa agarra-se às silvas, não quer que eu siga.

Mas é uma alegria poder descansar

E beber o precioso vinho do meu amigo.

Cantamos, afinados pelo vento que faz vibrar os pinheiros,

Até que as estrelas brilhantes não passem de recordações.

Mais bêbados e mais alegres que qualquer coração apaixonado,

Esquecemo-nos de nós, do mundo e de tudo a que se possa dar importância.

11 Set 2018

Poemas de Li Bai

Aprimeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais.

 

ENTRETENDO-ME

É impossível não olhar o vinho, e a noite cai sem que me dê conta.

Ao descer do céu, as folhas cobrem-me as vestes.

Ergo-me bêbado e vou até à lua, no riacho.

Ao longe os pássaros, não se vêem pessoas.

 

BEBENDO COM UM AMIGO

Bebemos entre as resplandecentes flores da encosta.

Um copo, dois copos, e muitos outros se seguiram.

Bêbado deixo-me dormir e tu partes.

Traz amanhã uma guitarra para abraçarmos, se quiseres.

 

AMOR POR NADA

Quão bela é, ao afastar as cortinas da janela.

Mas demora-se e vejo as rugas que lhe cavaram a testa

E as cicatrizes das lágrimas, que dia a dia lhe cortaram o rosto.

Quem será o homem com quem ela troca amor por nada?

4 Set 2018

Poemas de Li Bai

 

 

Aprimeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais.

 

Ao acordar bêbado num dia de Primavera

 

Se viver a vida não passa de um grande sonho,

Para quê desperdiçá-la em canseiras, preocupações?

Acendam-se os dias com um copo na mão!

Fiquemos deitados à sombra de uma árvore,

A dormir uma sesta no jardim

Acorde-se quando pousar um canto de pássaro sobre as flores!

Ao perguntar que dia é hoje,

Respondam-me que é Primavera, tempo dos papa-figos.

E suspiro, pois é isso mesmo que sinto!

Sirvo-me de mais vinho

E canto uma longa canção, à espera do luar.

Caído de mim abaixo, esqueço amizades, esqueço amores.

 

Para Du Fu, que vive ao sul na cidade de Shaqiu

 

Que vim fazer aqui,

Porque me pousam nos olhos as paredes da cidade de Shaqiu?

À sua entrada, os guardiões são árvores de barba branca.

Vejo o poderoso sol desmaiar na sonoridade fria do Outono.

O famoso vinho de Lu não me acende as faces,

As belas canções de Qi não derretem este coração gelado.

A falta que sinto de ti, como a corrente forte do grande rio Wen,

Arrasta tudo o que sou até ao sul.

28 Ago 2018