APN | Reafirmado princípio “uma só China”

A China reafirmou ontem o compromisso com o princípio de “uma só China” e garantiu que irá combater as forças separatistas que promovem a “independência de Taiwan”, afirmou o primeiro-ministro chinês, Li Qiang.
As declarações foram feitas durante a apresentação do relatório anual de trabalho do Governo na sessão da Assembleia Popular Nacional (APN), o órgão legislativo chinês, inaugurada ontem no Grande Palácio do Povo, em Pequim.
Li sublinhou que Pequim continuará a avançar na “reunificação nacional” e a aplicar “de forma aprofundada a estratégia geral do Partido [Comunista] para resolver a questão de Taiwan na nova era”.
Segundo o relatório apresentado à ANP, o Governo chinês actuará de acordo com o princípio de “uma só China” e com o chamado Consenso de 1992, ao mesmo tempo que se oporá ao que classificou como “interferência de forças externas”.
O chefe do Executivo acrescentou que Pequim pretende promover o “desenvolvimento pacífico das relações entre os dois lados do estreito” e incentivar intercâmbios, cooperação e integração entre Taiwan e o continente.
A questão de Taiwan continua a ser uma das principais fontes de tensão na região. No mês passado, Pequim acusou o líder taiwanês de ser um “instigador de guerra”, após William Lai Ching-te ter alertado para o impacto regional que poderia resultar de um eventual controlo chinês da ilha.
Analistas taiwaneses citados por órgãos de comunicação locais consideram, contudo, pouco provável uma acção militar chinesa a curto prazo, tendo em conta o actual contexto internacional, marcado também pelas tensões relacionadas com o conflito no Irão.
Segundo esses especialistas, Pequim continua a manter como objectivo oficial a chamada “reunificação pacífica”.

Economia | Fixada meta de crescimento entre 4,5% e 5% para 2026

A China estabeleceu ontem uma meta de crescimento económico entre 4,5 por cento e 5 por cento para este ano, ligeiramente abaixo dos objectivos definidos nos últimos anos, num contexto marcado pela prolongada crise no sector imobiliário e por incertezas externas.
A meta foi anunciada pelo primeiro-ministro chinês, Li Qiang, durante a apresentação do relatório de trabalho do Governo na sessão de abertura da Assembleia Nacional Popular (ANP), o órgão máximo legislativo da China.
O relatório estabelece o objectivo de crescimento nesse intervalo, acrescentando que o Governo procurará “alcançar melhores resultados na prática”.
“Embora reconheçamos as nossas conquistas, também temos plena consciência das dificuldades e desafios que enfrentamos”, afirma o relatório.
Nos últimos três anos, Pequim fixou metas de crescimento de “cerca de 5 por cento”. Em 2025, a economia chinesa registou uma expansão de 5 por cento.
Ao estabelecer um intervalo entre 4,5 por cento e 5 por cento, o Governo procura dar maior margem de manobra para ajustar as políticas económicas ao longo do ano.
O documento destaca o aumento dos riscos geopolíticos e assinala que o comércio livre está sob forte ameaça. As exportações chinesas para os Estados Unidos foram afectadas pelas tarifas impostas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, embora a China tenha expandido as vendas para outras regiões do mundo.
No plano interno, o relatório sublinha um desequilíbrio “acentuado” entre uma oferta forte e uma procura fraca, bem como o desafio de fazer a transição da economia para novos motores de crescimento.
“Internamente, ainda enfrentamos diversos problemas e desafios, tanto antigos como novos”, acrescenta o documento.
“Ao propor estas metas, tivemos em conta a necessidade de deixar algum espaço para ajustes estruturais, prevenção de riscos e reformas no primeiro ano deste período do plano quinquenal, de modo a estabelecer uma base sólida para alcançar melhores resultados nos próximos anos”, refere o relatório.

Outros planos
A sessão anual da ANP, que reúne cerca de 3.000 delegados e é considerada o principal evento político anual do país, deverá também aprovar um plano quinquenal que definirá as prioridades políticas e económicas da China até 2030.
O documento inclui também compromissos para reforçar a economia doméstica e, ao mesmo tempo, avançar com as ambições do Presidente chinês, Xi Jinping, de transformar o país num líder global em tecnologia.

Música | Recital de piano “A Vida em Poesia” amanhã na FRC

A Fundação Rui Cunha (FRC) acolhe amanhã à tarde, a partir das 17h, o recital de piano “A Vida em Poesia”, uma apresentação “entre performance intimista e o teatro de rua, com a dupla de artistas Sofia da Mar (Andreia Correia) e Barqueiro de Oz (Rui Filipe).
Segundo a organização do concerto, o recital assenta num “conceito que cruza a música e a poesia, a dança e o teatro, o encontro e a diversão, em doses leves de humor, charme e tentação”.
O público de Macau poderá apreciar composições musicais e textos originais, “com sonoridades e palavras influenciadas pelos quatro cantos da diáspora portuguesa”. A performance protagonizada pela dupla Sofia da Mar e Barqueiro de Oz estreou em Portugal no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores no passado dia 13 de Fevereiro.
“A Vida em Poesia” é um encontro íntimo entre palavra e música, onde cada verso respira e cada nota acende memórias. Um espectáculo que abre janelas dentro de nós, guiando o público por sentimentos profundos, humor subtil e momentos de pura beleza. Entre piano, voz e silêncio, a poesia ganha corpo e a vida revela-se em gesto, ritmo e emoção. Uma celebração sensorial do que somos e do que ainda podemos sentir”, revelam os artistas, citados por um comunicado da FRC.
A entrada é livre.

Trio musical toca em Hong Kong em busca de novo público para o patuá

Um trio que compõe músicas originais em patuá vai amanhã dar em Hong Kong o primeiro concerto fora de Macau, para tentar criar um novo público para o dialecto crioulo de origem portuguesa.
Há cerca de seis anos, o engenheiro civil Delfino Gabriel começou a tentar fazer músicas em patuá. “Eu sou macaense e pai de duas crianças. Por isso, acho necessário promover e mostrar-lhes as suas raízes, que não é só a gastronomia macaense”, diz Gabriel. “Na maior parte das vezes, escrevia em português e depois pedia ajuda a bons amigos que têm talento para o crioulo. Ensinaram-me e tentaram traduzir para mim”, explica Gabriel.
Depois de lançar vários trabalhos a solo, o cantor criou há dois anos o trio Gabriel & Friends, com Water, um multi-instrumentalista local, e Halen Mory Woo, um percussionista de Hong Kong. “Quando nos conhecemos, foi amor à primeira vista, porque partilhamos a mesma paixão por fazer música original com instrumentos invulgares – handpan, jambé, kora – tudo ‘champurado’ [‘misturado’ em patuá]”, defende Gabriel.
O trio Gabriel & Friends passou em Outubro pelo palco do Festival da Lusofonia de Macau.
Para 2026, o objectivo é ir além de Macau, a começar amanhã, no Museek Studio, em Hong Kong, um espaço que acolhe concertos de música alternativa, com um máximo de 25 espectadores. “O dono ficou muito interessado quando ouviu falar de música em patuá e ele apoia muito este tipo de partilha cultural”, diz Halen, que dá aulas na Universidade de Macau.

Por outro caminho
“O Gabriel está a tentar não apenas preservar a língua, mas também promovê-la. Só que em vez de uma palestra, com um ‘Power Point’, apresentamos o patuá com música”, disse o percussionista.
“As canções tradicionais são muito interessantes. Inspirei-me na Tuna Macaense. Mas estamos a tentar fazer algo diferente, novo, música pop alternativa”, explica Gabriel.
O cantor acredita que pode “atrair um novo público” para o patuá, algo que já tem feito também através das actividades da Associação de Estudos da Cultura Macaense. “Muitos dos estudantes [vindos da China continental] consideram a cultura macaense em geral muito interessante”, diz Gabriel, que trabalha a tempo inteiro na Universidade de Macau.
Gabriel sublinha que o Governo da região chinesa tem “apoiado muito” os esforços para preservar o patuá e sonha com um futuro em que o crioulo seja “como o pastel de nata de Macau”. “Não apenas um património que possa ser passado de geração em geração, mas também algo que, quando um turista vem cá, sabe que existe o patuá, como um símbolo de Macau”, explicou o macaense.

Rota das Letras | Fim-de-semana com cinema, poesia, música e passeios históricos

Depois das sessões inaugurais de ontem, o festival literário Rota das Letras entra hoje em velocidade cruzeiro, com um cartaz variado e intenso em termos de agenda até domingo.
As “festividades” de hoje arrancam às 17h30 na Casa Garden com a apresentação “Desenhar o Mundo”, uma palestra conduzida pelo cartoonista Guy Delisle sobre a intersecção entre banda desenhada, cultura e humanismo. O cartoonista canadiano conta na bagagem várias novelas gráficas que, além da ficção, retratam realidades que marcam a actualidade internacional, como “Shenzhen: A Travelogue from China”, “Pyongyang: A Journey in North Korea” ou “Jerusalem: Chronicles from the Holy City”.
Às 19h, também na Casa Garden (que acolhe todos os eventos de hoje), será a vez de António Cortez e Alice Neto de Sousa terem um “Diálogo Poético Intergeracional: Palavras de Ferem e Curam”. À mesma hora, também na Casa Garden, é apresentado o livro “Posse e Paixão: Um Guia para Colecionadores de Arte” de Konstantin Bessmertny.
Entretanto, o jardim da Casa Garden, a partir das 20h, será palco para uma performance de música e poesia de Tim Yiu e 45 minutos depois as palavras vão soar mais alto com “Línguas em Harmonia”, que irá contrapor leituras e português, chinês e inglês, por Tim Yiu, Kam Un Loi, Si Tou Chi U, Alice Neto de Sousa e António Cortez.

Letras a pé
O programa de amanhã começa às 11h com um passeio com história conduzido por Christopher Chu e Maggie Hoi, que irão levar a literatura para a rua sobre o tema “Camilo Pessanha e as suas estórias de Macau: Anos Ímpares”. Os interessados em seguir os passos de Pessanha e desvendar os segredos que Macau esconde têm como ponto de encontro o Edifício Si Toi (Praia Grande) às 11h.
O programa de sábado prossegue às 15h na Casa Garden com a palestra “Nostalgia e Modernidade na Literatura de Macau”, que propõe uma “reflexão sobre a escrita numa cidade moldada pela fusão Oriente-Ocidente”. O evento será conduzido por Cheung Wai-man e Rai Mutsu. À mesma hora, noutra parte da Casa Garden, a literatura policial será o foco com a apresentação de Adam Sisman sobre John Le Carré na palestra “O Espião e o Biógrafo”. Uma hora depois, a organização do festival propõe um mergulho num dos mestres contemporâneos do thriller literário, Xiao Bai, numa palestra conduzida pelo próprio autor.
Às 16h, segue-se um dos momentos altos do programa do Rota das Letras deste ano com “Meio Século de Luz e Memória”, uma palestra que irá iluminar os pontos fundamentais da trajectória artística de Carlos Marreiros.
A agenda da tarde de sábado prossegue com uma narração sobre a crise planetária “Clima, Ficção e o Impensável” pelo escritor indiano Amitav Ghosh. O autor apresenta no domingo, às 18h30 na Casa Garden uma palestra que tem como foco principal a trilogia de livros que escreveu sobre as implicações do comércio do ópio, tendo como ponto de partida o centro histórico de Macau.

Vampiros, sorte e azar
Outro dos momentos de destaque da programação de amanhã gira em torno do filme “Ballad of a Small Player”, que tem Macau como pano de fundo de um drama, com toques de comédia, que ilustra a vida de um jogador que se perde entre as mesas dos casinos e a fantasmagoria da região.
Amanhã às 18h30, no local que concentra as actividades deste ano do Rota das Letras, o autor do livro que deu origem ao filme, Lawrence Osborne, e o realizador Edward Berger protagonizam uma palestra onde se vão desvendar os segredos da adapção da estória de “Lord Doyle” das páginas para os ecrãs. O filme, que estreou em Outubro do ano passado, será exibido também amanhã às 21h15 no Cinema Alegria. Os bilhetes custam 100 patacas.
No domingo, o dia começa às 11h com mais passeio com história guiado por Christopher Chu e Maggie Choi intitulado “Camilo Pessanha e as suas estórias de Macau: A Sociedade dos Poetas Mortos”. O ponto de partida do passeio é a estátua do poeta simbolista no Jardim das Artes, na Rua Cidade de Sintra.
À tarde, a acção retorna à Casa Garden, com o workshop “Nushu. Aprender a Escrever a Linguagem Secreta das Mulheres”, conduzido por Shengwen Pan a partir das 14h30. Meia hora depois, noutra zona da Casa Garden, André Lai, Daniel Lai, Justin e Florita Alves vão discutir os sabores e aromas locais na palestra baseado no livro “Recitas com Esperança.
Também às 15h, é apresentado o livro “Crónicas da Carris e da Mesquita ao Nam Vam”, de Ana Paula Barros.
Entre as 16h e as 17h seguem-se uma série de palestras. “Visões do Futuro da Humanidade”, que apresentará uma perspectiva feminina sobre o panorama da ficção científica chinesa por Gu Shi. Para os fãs da literatura de horror, também às 16h de domingo está marcada uma conversa sobre o “género vampírico”, focado nas obras de John Polidori e Sheridan Le Fanu, e o seu impacto na literatura de terror. A sessão terá como anfitrião o professore e autor Nick Groom.
Às 17h, será a vez de um dos mais destacados convidados internacionais do Rota das Letras deste ano. O autor argentino Hernan Diaz, que ganhou o Pulitzer para Ficção em 2023, com o livro “Trust”, irá falar sobre os limites da verdade e da ficção nos corredores do poder e da riqueza.
Domingo será também um dia de cinema, com a projecção de “Hidden Letters”, de Violet Du Feng, às 17h15 no auditório da Casa Garden. O mesmo local irá receber o filme “Mulheres do Mar”, de Raquel Martins, a partir das 19h30.

Burla | Homem engana mulher com negócio fictício

Um homem foi detido, depois de ter burlado uma mulher de Hong Kong, num valor de aproximadamente 320 mil patacas. O caso foi divulgado ontem pela Polícia Judiciária (PJ).
Segundo os contornos, citados pelo jornal Ou Mun, a primeira vez que o residente comprou um carro usado para a vítima, que depois o revendeu, foi em 2024, sem que tivesse havido qualquer tipo de problemas.
Por esse motivo, a mulher voltou a recorrer ao suspeito, em Março do ano passado, uma vez que queria expandir o seu negócio de compra de carros usados para revenda. A vítima pediu ao agora detido que lhe comprasse mais dois carros por 531 mil dólares de Hong Kong (HKD), e entregou-lhe uma caução de 50 mil HKD.
Todos os procedimentos de compra das viaturas foram efectuados pelo suspeito, dado que a vítima se encontrava fora de Macau. Com base na relação de confiança, o suspeito pediu à vítima que fizesse o pagamento das duas viaturas, depois de criar um grupo de conversação numa aplicação online, onde também se encontraria um outro homem, apresentado como o vendedor. A mulher aceitou fazer logo o pagamento de 311 mil HKD, equivalente a 350 mil patacas.
Todavia, a mulher nunca recebeu as viaturas, e com o passar do tempo, questionou o residente, que acabou por lhe dizer que o outro homem tinha perdido todo o dinheiro no jogo e não queria entregar as viaturas.
Sem carros, o suspeitou perguntou então à mulher se ela queria apresentar queixa, e mostrou-se disponível para tratar de tudo. A vítima concordou, mas de seguida o residente deixou de estar contactável, o que levantou suspeitas. A mulher acabou por apresentar queixa, e o homem foi detido na quarta-feira, ao entrar em Macau pela Ponte de Hong Kong-Zhuhai-Macau. A polícia suspeita também que no momento da detenção o homem estava na posse de um telemóvel de 19 mil patacas, que se acredita ter sido furtado.

CCAC | Investigado motorista do TUI por alegada burla

Um motorista do Gabinete do Presidente do Tribunal de Última Instância (GPTUI) está indiciado pela prática de burla num valor superior a 120 mil patacas, com o caso a ser encaminhado para o Ministério Público (MP). A informação foi divulgada ontem pelo Comissariado contra a Corrupção (CCAC), depois de ter recebido uma denúncia contra o motorista.
Segundo a investigação preliminar do CCAC, o motorista fez o pedido de subsídio de família, apesar de saber que os rendimentos do agregado familiar ultrapassavam os limites para se aceder a este apoio social previsto para os funcionários públicos.
“Na sequência da investigação, o CCAC descobriu que o motorista em causa vivia com a sua mulher e os seus sogros há muitos anos, tendo pleno conhecimento de que o seu sogro trabalhava a tempo inteiro e auferia uma remuneração mensal fixa, que os sogros recebiam Pensão para Idosos, e que o montante total do rendimento anual per capita de ambos já ultrapassava o limite máximo fixado para poder requerer o subsídio de família”, foi comunicado. “Ainda assim, o motorista em causa entregou ao serviço a que pertence o ‘pedido de subsídio de família’, entre outros documentos, com informações falsas. No total, esta burla em subsídios de família atingiu mais de 120 mil patacas”, foi acrescentado.
Quando os funcionários públicos têm familiares a seu cargo e estes familiares auferem rendimentos anuais inferior a 56.400 patacas (média de 4.700 patacas por mês), os funcionários podem pedir o subsídio de família, que actualmente corresponde a um valor mensal de 940 patacas, por cada um dos familiares. Por ano, o subsídio pode chegar assim a um total de 11.280 patacas, por cada familiar.
Segundo o CCAC, o motorista terá assim prestado informações falsas para aceder aos subsídios, recendo mais de 120 mil patacas de forma indevida.

Cinco anos de prisão
O caso foi encaminhado para o Ministério Público, sendo o homem indiciado pelo crime de burla de valor elevado. O Código Penal prevê uma pena que pode chegar aos cinco anos de prisão para este crime ou uma multa de 600 dias. Considera-se existir uma burla de valor elevado, quando o dinheiro obtido ultrapassa as 30 mil patacas, mas fica abaixo das 150 mil patacas.
No comunicado em que divulgou a investigação, o CCAC defendeu também que “o subsídio de família destina-se aos trabalhadores da função pública e tem como objectivo suportar as despesas com a vida dos seus familiares”. “Os trabalhadores da função pública devem declarar a situação real de forma verdadeira e precisa, e receber os subsídios de acordo com os requisitos exigidos, não devendo correr riscos e prestar falsas declarações para obter vantagens económicas indevidas”, foi deixado como aviso.

Telecomunicações | Pedida maior protecção de consumidores

O Centro da Políticas da Sabedoria Colectiva defende que o mercado das telecomunicações está a caminhar para um duopólio, pelo que apela às autoridades para reforçarem a regulamentação e protegerem os consumidores. A mensagem foi deixada por Loi Man Keong, vice-presidente da associação ligada aos Moradores, na sequência da aquisição da Hutchison Telecom (Macau) pela Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM).
Segundo Loi Man Keong, citado pelo jornal Ou Mun, as novas alterações deixam essencialmente o mercado de Macau com dois agentes, a CTM e a China Telecom, pelo que este cenário “levanta inevitavelmente preocupações sobre o ambiente competitivo na indústria e as práticas ao nível dos preços”. O dirigente associativo espera assim que o Governo vá “reforçar a supervisão do mercado, de forma a proteger os direitos dos consumidores”.
Apesar das preocupações, Loi Man Keong considera positiva a aquisição da Hutchison Telecom (Macau), que se fazia representar pela marca 3. Para Loi, esta operadora adoptou, nos últimos anos, uma “postura passiva e negativa” no que diz respeito à implementação do serviços de 5G, pelo que a qualidade e cobertura dos serviços ficava muito abaixo do que seria expectável. “Muitos dos clientes não conseguiram mudar de operadora, devido às obrigações contratuais. Mas com esta aquisição, os problemas sentidos pelos clientes da Hutchison talvez melhorem”, apontou Loi.
Esta é a segunda operadora a sofrer alterações desde 2024. No final desse ano, a operadora SmarTone (Macau) deixou o mercado, com os seus clientes a serem transferidos para a CTM. Agora, a operadora detida maioritariamente pelo grupo estatal chinês CITIC adquire também a Hutchison Telecom (Macau). Os detalhes do negócio não foram revelados publicamente, apesar de os rumores terem começado a circular nos últimos dias.

Mercado pequeno
Sobre as alterações no mercado das telecomunicações nos últimos anos, Loi Man Keong apontou como motivos a “pequena dimensão” do mesmo.
O dirigente associativo indicou também que a principal fonte de receitas das operadoras de telecomunicações são os serviços cobrados aos turistas em Macau, que utilizam dados móveis, pelo que o volume dos clientes e utilização da rede pelos residentes é considerada reduzida. Por este motivo, Loi indica que não há muitas empresas em investir na RAEM.
Neste cenário, Loi defendeu que o Executivo faça um aumento do investimento em infra-estruturas de telecomunicações, e mais obras, para que as operadoras possam optimizar os serviços, ao mesmo tempo que se reduzem os custos de entrada no mercado e de operação.

Veio para ficar
Por sua vez, o Governo da RAEM, através da Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações (CTT), garante que a Hutchison Telecom (Macau) vai manter-se no mercado, apesar de ter os mesmos accionistas que a CTM. “Esta transmissão de participações sociais envolve, essencialmente, uma alteração dos accionistas da Hutchison, que continua a operar a sua rede e a prestar serviços”, foi apontado. “Por outras palavras, actualmente, o mercado continua a contar com três operadoras de telecomunicações móveis, e o Governo continua a fiscalizar, rigorosamente, o cumprimento, por parte da Hutchison, das suas obrigações constantes da licença, garantindo a prestação dos serviços de telecomunicações móveis estáveis aos utilizadores”, foi explicado.
Por outro lado, os CTT garantem que nos “diplomas legais e licenças vigentes, encontram-se estabelecidas normas relativas a práticas concorrenciais das operadoras, proibindo actos que falseiem a igualdade de condições de concorrência ou que se traduzam em abuso de posição dominante”.
Finalmente, o Governo prometeu até ao final do ano uma proposta Lei das Telecomunicações, que está a ser adiada há vários anos.

Consulado de Moçambique recebeu 79 mil patacas para vítimas de cheias

O cônsul-geral de Moçambique em Macau, Rodrigues Muêbe, disse ontem à Lusa que já recebeu mais de 79 mil patacas numa campanha de recolha de donativos para as vítimas das inundações. Na quarta-feira, o diplomata recebeu 45 mil patacas, um valor angariado entre os 19 mil membros da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau.
No final de Janeiro, o Consulado-Geral de Moçambique na RAEM apelou à recolha de donativos, monetários e em espécie, para as vítimas das inundações que afectaram o país lusófono africano Desde então, a representação diplomática recebeu também 18 mil patacas da Associação de Desenvolvimento de Profissionais Internacionais de Turismo de Macau, assim como 16 mil patacas em “donativos de anónimos”, disse Muêbe.
Os donativos monetários serão aceites, até ao final de Maio, nas contas do consulado no Banco Nacional Ultramarino (BNU).
Já os donativos em espécie, serão encaminhados para um ponto de recolha em Guangzhou, de onde será “mais fácil” o transporte para Moçambique, explicou Muêbe. O cônsul acrescentou que recebeu uma oferta de ajuda da Cruz Vermelha de Macau e que está em contacto com a organização humanitária para coordenar o transporte dos donativos para Guangzhou.
Também a Escola Portuguesa de Macau realizou, entre os alunos e professores, uma campanha de recolha de artigos, que deverão ser doados, com o apoio do Consulado-Geral de Portugal, na próxima semana, referiu Muêbe.
O consulado tinha lançado um apelo ao “apoio humanitário e solidário junto das instituições público-privadas, associações e pessoas de boa vontade de Macau e da região da Grande Baía”.

Números da calamidade
O consulado pediu apoio monetário ou na forma de “roupas, materiais de higiene, medicamentos, alimentos não perecíveis, material didáctico, utensílios domésticos [e] material de produção agrícola”.
O objectivo é “ajudar as vítimas das cheias e inundações a erguerem as suas vidas”, perante uma “situação que decorre dos efeitos das mudanças climáticas”, lamentou a representação diplomática moçambicana.
Moçambique já recebeu 17,5 milhões de euros e 6,7 mil toneladas de produtos diversos para apoiar vítimas das inundações, anunciou na terça-feira o Governo de Maputo.
O número total de mortos na actual época das chuvas em Moçambique subiu para 262, com registo de quase mil pessoas afectadas, desde Outubro, segundo a actualização de terça-feira pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).

DSEDT | Macau alarga a Espanha concurso para tecnológicas

O Governo de Macau anunciou ontem que vai abrir portas a ‘startups’ de Espanha na sexta edição do concurso de inovação e empreendedorismo que até agora estava reservado para tecnológicas de Portugal e Brasil.
Representantes da Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) de Macau estiveram na exposição de tecnologia Mobile World Congress (MWC), que arrancou na segunda-feira em Barcelona.
De acordo com um comunicado, a DSEDT aproveitou a presença na MWC para promover o novo modelo da competição junto de plataformas e empresas de inovação tecnológica espanholas.
A ‘startup’ brasileira de biotecnologia Hilab venceu a última edição do concurso, realizada em Junho, na qual foram distinguidas outras seis empresas portuguesas e brasileiras, abrindo as portas a apoios e financiamento e ao mercado chinês.
A Hilab, com um capital de 200 milhões de patacas, dinheiro angariado de 125 milhões de patacas e à procura de contactos, oportunidades de negócio, de financiamento e de expandir-se na China, foi fundada em 2016.
A ‘startup’ desenvolveu um dispositivo de diagnóstico portátil que fornece resultados de qualidade laboratorial.
De acordo com informação da Hilab, o dispositivo requer “apenas algumas gotas de sangue” e pode “realizar 25 tipos de exames, cobrindo 85 por cento dos diagnósticos médicos mais solicitados”.
Um painel de investidores, académicos e especialistas em finanças seleccionou em segundo lugar outro projecto brasileiro, Klike.AI LLC, uma plataforma de análise de marketing alimentada por inteligência artificial, e em terceiro ficou a ‘startup’ portuguesa OWLplaces, especializada em inteligência artificial e análise de dados geoespaciais

Outras prioridades
O actual líder do Governo de Macau, Sam Hou Fai, que tomou posse em Dezembro de 2024, apontou como prioridade a promoção dos serviços financeiros e comerciais entre a China e os países hispânicos.
A China estabeleceu a RAEM como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003 e, nesse mesmo ano, criou o Fórum de Macau.
O organismo integra, além da China, os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e, desde 2022, Guiné Equatorial.
Num fórum integrado na MWC, o subdirector da DSEDT, Chan Chou Weng, apresentou o projecto do Parque Industrial de Investigação de Desenvolvimento das Ciências e Tecnologias de Macau.
O Governo prevê investir 18,1 mil milhões de patacas na construção do parque, que deverá ficar concluído até 2029.

APN | Li Qiang garante que Pequim irá apoiar a integração da RAEM

Durante a apresentação de ontem do relatório de trabalho do Governo Central, o primeiro-ministro, Li Qiang, reiterou que irá “apoiar uma melhor integração das Regiões Administrativas Especiais na conjuntura do desenvolvimento nacional e na prestação de serviços ao país”, indicou ontem o Gabinete de Comunicação Social. O governante afirmou ainda que a aposta para Macau e Hong Kong passa por potenciar as vantagens únicas e o papel importante de apoio ao país na interligação com o mundo, mas também impulsionando a prosperidade e estabilidade a longo prazo das duas regiões administrativas especiais.
O mesmo comunicado salienta que o Sam Hou Fai, que assistiu ontem à apresentação de Li Qiang no Grande Palácio do Povo em Pequim, “aprendeu e compreendeu profundamente o espírito importante e as políticas principais”.
O Chefe do Executivo indicou ainda que “a RAEM está confiante e tem capacidade para aproveitar bem as oportunidades geradas pelo desenvolvimento do país, criar uma nova conjuntura do desenvolvimento de maior prosperidade e estabilidade em Macau e escrever um novo capítulo para a implementação com sucesso do princípio ‘um país, dois sistemas’ em Macau.
Sam Hou Fai garantiu também que Macau irá continuar a zelar pela defesa de ‘um país’ e aproveitar as vantagens dos ‘dois sistemas’, defendendo “com firmeza a soberania, a segurança e os interesses do desenvolvimento nacional”.

Turismo | Pedida maior capacidade nas fronteiras e análises de consumo

Apesar de os números de turistas que visitaram Macau durante os feriados do Ano Novo Lunar terem batido todos os recordes, a economia comunitária e o comércio dos bairros residenciais não foi beneficiada. Este tem sido um dos paradoxos económicos do território, que vive a duas velocidades, que teima em não ser resolvido e que foi tema ontem de uma palestra do Centro da Política da Sabedoria Colectiva, conduzida pelo deputado Ngan Iek Hang.
O legislador eleito pela lista dos Moradores enalteceu os esforços do Governo na organização de actividades nos bairros fora dos circuitos turísticos, mas apelou a que estes eventos e atracções sejam mais publicitados nas redes sociais chinesas. A promoção é importante para permitir aos visitantes planearem o percurso pela cidade, criando alternativas aos pontos mais conhecidos.
O deputado defende também que os postos fronteiriços devem reforçar a sua capacidade para conseguirem processar o volume crescente de travessias, em especial nas Portas do Cerco, Qingmao e Hengqin.

Fazer mais e melhor
Em relação ao consumo de turistas nos bairros residenciais, Ngan Iek Hang recordou que o Governo lançou vários programas, como as lojas com características próprias, que não surtiram o efeito desejado. Apesar disso, defende que são precisas mais medidas e empenho dos comerciantes para atingir os objectivos desejados.
Porém, o legislador entende que o Governo deveria analisar detalhadamente as tendências de consumo nas lojas e restaurantes dos bairros, de forma a elaborar medidas precisas que correspondam ao desenvolvimento económico dessas zonas da cidade.
Os transportes e ligações entre as várias zonas da cidade são outro ponto que pode ser melhorado. “Nos próximos feriados, deveríamos reordenar as carreiras de autocarro e melhorar as condições pedestres, permitindo aos visitantes conhecerem as proximidades de zonas como NAPE e Horta e Costa”, afirmou, exemplificando a possibilidade de publicitar percursos que podem ser feitos a pé, usando o Túnel da Guia e pela zona do Conselheiro Ferreira de Almeida.
A palestra que decorreu ontem teve como convidado o presidente da Federação da Indústria e Comércio de Macau Centro e Sul Distritos, Lei Cheok Kuan, que enalteceu o trabalho de comunicação feito pelo Governo no caso da zona pedonal na Rua de Nossa Senhora do Amparo. O responsável indicou que 98 por cento dos comerciantes da zona reportaram melhorias nos negócios durante os feriados do Ano Novo Lunar, algo que não se verificou no ano anterior.

Eventos “três regiões”: do pioneirismo à institucionalização

Por Manuel Silvério – ex-presidente do Instituto do Desporto e co-fundador do Comité Olímpico de Macau

 

A interpelação escrita do Deputado Leong Sun Iok levanta um ponto oportuno e, sobretudo, concreto: como transformar as experiências recentes — em particular a prova de ciclismo que ligou Macau, Hong Kong e Guangdong — em vantagens institucionalizadas, capazes de reforçar a cooperação regional e consolidar Macau como Cidade do Desporto.

O mérito desta posição está também no perfil de quem a coloca. Leong Sun Iok é um deputado jovem, próximo do terreno, que acompanha atletas e praticantes com regularidade. E não é indiferente que esteja ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), uma instituição com fortes tradições sociais e desportivas, onde muitos jovens — e também praticantes “anónimos” — encontraram, ao longo de décadas, espaço para treinar, competir e criar hábitos de vida activa. Basta recordar o emblemático Campo dos Operários, no coração da cidade, junto à Escola Portuguesa, onde hoje se ergue o Grand Lisboa — um símbolo de como Macau mudou, mas onde a memória desportiva permanece.

A questão central é simples: as experiências pioneiras são importantes, mas o que conta é o que fica depois. E é aqui que a pergunta do deputado é decisiva: ao introduzir ou acolher eventos internacionais no futuro, haverá condições para aproveitar a experiência adquirida nos Jogos Nacionais? Haverá um mecanismo que facilite autorizações e coordenação com Guangdong e Hong Kong?

 

O que o Governo pode vir a fazer “a seguir” (previsão realista)

Sem adivinhar demais, há um conjunto de passos que, de forma realista, o Governo poderá tomar para transformar estas experiências em capacidade permanente:

  • ⁠Criar um grupo de trabalho interdepartamental (segurança, trânsito, turismo, desporto, assuntos fronteiriços e saúde), com reuniões regulares e um método de decisão claro.
  • Estabelecer um “canal verde” para eventos “três regiões”, com critérios definidos, prazos fixos e um circuito administrativo previsível.
  • ⁠Consolidar um calendário anual ou plurianual com 1–2 eventos âncora (por exemplo, uma prova de ciclismo transfronteiriça e uma meia maratona/corrida com passagem de fronteira).
  • Reforçar a cooperação com Guangdong e Hong Kong em formato técnico, não apenas político: protocolos operacionais, planos de contingência e articulação entre equipas no terreno.
  • ⁠Assegurar parceiros com capacidade operacional e patrocínio, incluindo uma participação robusta do sector privado, quando isso aumentar eficiência e escala.

O risco é conhecido: tudo ficar por “boa intenção” se não houver um dono do processo — uma entidade líder — e metas de execução com responsabilização.

Se Macau quer realmente ganhar escala e relevância regional através do desporto, o caminho passa menos por anúncios e mais por mecanismos, prazos, liderança e execução. A interpelação do Deputado Leong Sun Iok, neste sentido, é um bom ponto de partida para fazer a pergunta certa — e, sobretudo, para exigir respostas operacionais.

A Geopolítica do Ponto de Ignição

“Power is never silent; when diplomacy fails, it speaks in the language of escalation.”

Robert D. Kaplan

 

A relação triangular entre os Estados Unidos, Israel e a República Islâmica do Irão constitui, desde o final da década de 1970, um dos eixos estruturantes da política internacional no Médio Oriente. A sua evolução ao longo de quase meio século revela um padrão de antagonismo persistente, moldado por factores ideológicos, estratégicos, securitários e civilizacionais que se reforçam mutuamente. A partir de 2020, e com maior intensidade após 2022, este antagonismo adquiriu uma dimensão sistémica, na medida em que passou a intersectar rivalidades globais mais amplas nomeadamente a competição estratégica entre os Estados Unidos, a China e a Rússia e a influenciar directamente a estabilidade dos mercados energéticos, a arquitectura de segurança regional e a própria credibilidade das normas internacionais relativas à proliferação nuclear.

A génese deste conflito remonta à Revolução Iraniana de 1979, que derrubou o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado central de Washington, e instaurou uma república teocrática baseada numa ideologia revolucionária xiita. A crise dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerão, que se prolongou por 444 dias, cristalizou uma percepção de hostilidade irreconciliável entre os dois Estados. A crise dos reféns deixou uma marca indelével na percepção mútua, consolidando a imagem dos Estados Unidos como o “Grande Satã” na doutrina revolucionária iraniana. Esta ruptura não foi apenas diplomática, pois representou uma reconfiguração profunda da ordem regional, ao substituir um pilar próocidental por um regime que se via como vanguarda de uma revolução antiimperialista e antisionista.

Para Israel, a ascensão da República Islâmica constituiu uma ameaça existencial. Até então, o Irão do Xá funcionava como um contrapeso estratégico ao nacionalismo árabe e às ambições regionais do Iraque. A partir de 1979, Israel passou a enfrentar um Estado que não apenas rejeitava a sua legitimidade, mas que se comprometia ideologicamente com a sua eliminação. O surgimento de uma República Islâmica abertamente antisionista representou uma ameaça existencial, alterando de forma permanente os cálculos de segurança israelitas. Esta percepção tornouse ainda mais aguda com o apoio iraniano a actores não estatais como o Hezbollah no Líbano e, mais tarde, a grupos palestinianos como o Hamas e a Jihad Islâmica.

A política externa iraniana, especialmente sob lideranças de linha dura, assenta numa visão ideológica que considera ilegítima a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Esta visão sustenta a construção do chamado “Eixo da Resistência”, uma rede de actores estatais e não estatais que inclui o Hezbollah, milícias xiitas no Iraque, grupos armados na Síria, os Houthis no Iémen e facções palestinianas. O objectivo desta rede é projectar influência, criar profundidade estratégica e aumentar os custos de qualquer acção militar contra o Irão. A lógica subjacente é clara pois ao dispersar o campo de batalha por múltiplos teatros, Teerão procura compensar a sua inferioridade convencional face aos Estados Unidos e a Israel.

Do lado israelita, a estratégia de segurança nacional assenta em três pilares com a manutenção de uma vantagem militar qualitativa, a prevenção de que qualquer rival regional adquira armas nucleares e a capacidade de realizar operações preventivas para neutralizar ameaças emergentes. Esta doutrina, desenvolvida desde a década de 1960, foi reforçada após a guerra de 1973 e consolidada com o ataque preventivo ao reactor nuclear iraquiano em Osirak, em 1981. A partir dos anos 2000, com o avanço do programa nuclear iraniano, Israel passou a considerar o Irão como a principal ameaça estratégica, e a possibilidade de Teerão atingir capacidade nuclear latente tornouse a derradeira linha vermelha.

Os Estados Unidos, por sua vez, desempenham um papel ambivalente. Enquanto potência global, Washington procura garantir a estabilidade das rotas energéticas, conter a proliferação nuclear e preservar a sua credibilidade como garante de segurança dos seus aliados regionais. Contudo, desde a invasão do Iraque em 2003, a política americana no Médio Oriente tem sido marcada por tensões internas entre tendências intervencionistas e isolacionistas. A retirada do acordo nuclear (JCPOA) em 2018, seguida de anos de sanções económicas e confrontos indirectos, contribuiu para um ambiente de desconfiança profunda entre Washington e Teerão.

Entre 2020 e 2025, a região assistiu a uma intensificação da chamada “guerra na zona cinzenta”, caracterizada por ataques cibernéticos, sabotagem industrial, operações clandestinas e confrontos através de proxies. Esta fase pode ser considerada como um período em que o conflito permanece sobretudo na sombra, com ambos os lados a procurarem infligir custos sem ultrapassar o limiar de um confronto directo. Esta dinâmica reflecte uma lógica de dissuasão mútua, pois cada actor procura evitar uma guerra aberta, mas também evitar parecer fraco perante os seus adversários e as suas audiências internas.

A partir de 2024, vários factores contribuíram para aumentar o risco de escalada. Em primeiro lugar, o programa nuclear iraniano avançou significativamente, aproximandose de níveis de enriquecimento e de capacidade técnica que, segundo avaliações ocidentais, poderiam permitir um breakout rápido. Em segundo lugar, a crescente assertividade do Hezbollah e das milícias iraquianas aumentou a pressão sobre Israel e sobre as forças americanas na região.

A partir de meados de 2025, sinais de deterioração acelerada tornaramse evidentes. Israel intensificou operações clandestinas contra cientistas e instalações iranianas; o Irão respondeu com ataques cibernéticos e com o reforço das capacidades militares do Hezbollah. No Golfo, incidentes envolvendo navios comerciais e drones aumentaram a tensão entre Teerão e Washington. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, apesar de esforços de aproximação diplomática ao Irão, continuaram profundamente preocupados com o expansionismo iraniano e com a possibilidade de uma corrida armamentista regional.

Neste contexto, o final de Fevereiro de 2026 surgiu como um ponto de inflexão. A combinação de avanços no programa nuclear iraniano, ataques de proxies contra interesses americanos e receios israelitas de que a janela para uma acção preventiva estivesse a fecharse criou um ambiente em que a dissuasão começou a falhar. A teoria da dissuasão ensina que esta falha ocorre quando a ameaça de punição deixa de superar o benefício percebido da acção agressiva. No caso iraniano, a percepção de que a obtenção de capacidade nuclear latente poderia garantir a sobrevivência do regime tornouse um incentivo poderoso para resistir à pressão ocidental.

 

(Continua)

CCPPC | Aberta principal reunião política anual

A China deu ontem início à sua principal reunião política anual com a abertura da sessão da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), o órgão consultivo que antecede a inauguração, na quinta-feira, da Assembleia Nacional Popular, órgão legislativo.

O Presidente chinês, Xi Jinping, participou na sessão inaugural realizada no Grande Palácio do Povo, em Pequim, acompanhado por outros membros da liderança do Partido Comunista Chinês (PCC). Durante a reunião foram aprovados os trabalhos da agenda e Wang Huning, considerado um dos principais ideólogos do regime e próximo de Xi, apresentou o relatório de actividades do comité permanente do órgão consultivo.

A abertura das chamadas “Duas Sessões”, o maior evento político anual da China, ocorre no início do 15.º Plano Quinquenal (2026-2030), que definirá as prioridades económicas e estratégicas do país para os próximos cinco anos.

Amanhã, o primeiro-ministro, Li Qiang, deverá anunciar a meta de crescimento económico para 2026, que, segundo analistas, poderá situar-se entre 4,5 por cento e 5 por cento.

A reunião anual decorre também após a expulsão, nas últimas semanas, de vários altos responsáveis militares tanto da Assembleia Nacional Popular como do próprio órgão consultivo, no âmbito da campanha anticorrupção que tem reduzido a cúpula das forças armadas.

O orçamento da Defesa, que na sessão do ano passado aumentou 7,2 por cento em termos homólogos, e as mensagens políticas dirigidas às Forças Armadas deverão igualmente concentrar parte da atenção durante os debates.

 

Tensões globais

A sessão realiza-se ainda num contexto de tensões internacionais crescentes, após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, e antes de uma visita prevista do Presidente norte-americano, Donald Trump, à China, ainda não confirmada oficialmente por Pequim.

Nos primeiros contactos com a imprensa local, alguns membros do órgão consultivo destacaram temas como a modernização industrial e tecnológica.

O presidente da fabricante automóvel Geely, Li Shufu, apelou, em declarações citadas pelo jornal The Paper, a evitar a “competição sem sentido” no sector dos veículos eléctricos, enquanto outros delegados sublinharam avanços na tecnologia quântica e a necessidade de acelerar a regulação de veículos autónomos e da robótica humanoide.

Durante a sessão do órgão legislativo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, deverá realizar a sua habitual conferência de imprensa anual, um evento frequentemente utilizado para antecipar o tom da diplomacia chinesa num contexto internacional cada vez mais volátil.

Arte sem fronteiras | Abertas inscrições para “Oficinas para Crianças”

Estão abertas até 22 de Março as inscrições para participar em sete sessões de oficinas artísticas, destinadas a crianças e jovens dos 4 aos 16 anos, do programa “Arte Sem Fronteiras – Oficinas para Crianças” que se realiza entre Abril e Junho no Museu de Arte de Macau (MAM).

As actividades são exclusivas para os “Amigos do MAM”, ou seja, é preciso aderir ao clube. As inscrições nas oficinas e a adesão aos “Amigos do MAM” podem ser feitas na Conta Única de Macau. Cada oficina tem a duração de 12 horas e custa 240 patacas. Os lugares que vão acolher estas actividades são o Espaço Zero, no MAM e o Quadrado de Arte no Museu das Ofertas sobre a Transferência de Soberania de Macau.

O Instituto Cultural aponta que a organização destes eventos tem como intuito incentivar os mais novos “a observar e a imaginar a estética tradicional, bem como a desenvolver a prática criativa na arte contemporânea através de diversas formas de expressão, permitindo-lhes vivenciar as infinitas possibilidades da arte”.

Em articulação com o tema da exposição dedicada à pintura de paisagens das dinastias Ming e Qing, esta série de oficinas levará crianças e jovens de diferentes idades “numa viagem artística através dos tempos, seguindo o rasto dos antigos mestres da pintura chinesa”.

A “Pintura e Imaginação – Oficina Criativa de Arte Para Crianças”, conduzida em cantonense ou inglês (num total de cinco sessões), foi pensada para crianças com idades entre os 5 e 10 anos e terá como tema paisagens naturais que serão reinterpretadas através de pinturas com tinta-da-china e colagens.

Já a oficina “Pintura de Paisagens Imaginárias – Oficina Criativa para Jovens”, destina-se a adolescentes dos 11 aos 16 anos. Finalmente, será organizada uma oficina para pais e os mais novos, entre os 4 e 6 anos.

IC | Abril terá festival de comédia, promoção da leitura e carnaval do desporto

Com o Desfile Internacional de Macau marcado para o fim do mês, Macau prepara-se para organizar em Abril uma série de eventos, incluindo a terceira edição do Festival Internacional de Comédia de Macau, com actividades na RAEM e em Hengqin. O Instituto Cultural está também a preparar para Abril o mês da leitura

Apesar de a procissão de Março ainda ir no adro, o Instituto Cultural (IC) está a tratar dos “eventos de grande escala” que vão mexer com a agenda cultural de Macau em Abril, cartaz que esteve em cima da mesa na reunião do Conselho Consultivo para o Desenvolvimento Cultural, que se realizou na terça-feira.

No próximo mês, será organizado a terceira edição do Festival Internacional de Comédia de Macau, com uma extensão a Hengqin, cumprindo o “formato ‘Um Festival, Dois Locais’”. Ainda longe de apresentar o cartaz, o IC aponta que o festival de comédia será um “evento de nível internacional” que irá enriquecer culturalmente a Zona da Grande Baía e “promover o intercâmbio cultural regional”.

Cumprindo o objectivo de aproveitar o desporto para criar atracções culturais e turísticas, o IC irá lançar em Abril o “Carnaval Desportivo e Cultural”, que irá proporcionar “experiências com temas culturais e desportivos realizadas em sítios do Património Mundial e em comunidades”.

O evento irá incluir a tradicional Regata de Barcos-Dragão.

Numa outra vertente, o IC irá apostar na promoção da literacia, designando Abril como o “Mês de Leitura Conjunta em Toda a Cidade de Macau”, em colaboração com a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude, o Instituto de Acção Social e organizações civis. Como tal, será organizada “uma série de actividades de promoção da leitura durante o mês de Abril, com o objectivo de criar um bom ambiente de leitura para todos e aprofundar a construção de uma ‘Cidade de Leitura’, aponta o IC.

Importa salientar que o mês da leitura segue iniciativas nacionais e internacionais, com a designação do Governo Central da quarta semana de Abril de cada ano como “Semana da Leitura para Todos”, além da celebração do Dia Mundial do Livro a 23 de Abril.

 

Fazer o futuro

Outro dos pontos discutidos na reunião em termos de eventos, foi o Desfile Internacional de Macau 2026, que aproveita “a singularidade da fusão entre Oriente e Ocidente” do território. O desfile, que se realiza no dia 29 de Março, tem este ano o tema “A Rota Marítima da Seda como uma ponte para o intercâmbio cultural”. O evento irá reunir “grupos artísticos de todo o mundo e artistas locais que irão dançar e cantar com trajes deslumbrantes pelas ruas movimentadas, exibindo o carácter único do Centro Histórico de Macau”, prevê o IC.

A ordem de trabalhos da reunião incluiu ainda a apresentação do “Programa de Formação de Jovens Músicos de Macau” organizado pela Sociedade Orquestra de Macau, que tem como objectivos formar talentos musicais e proporcionar uma plataforma para a participação em orquestras profissionais.

O programa de formação pretende também aumentar as oportunidades de emprego de talentos musicais de Macau em orquestras profissionais, através do estudo de instrumentos ocidentais ou de música tradicional chinesa, contribuindo para a construção de uma reserva de talentos artísticos locais.

Irão | Petróleo e fecho do Estreito de Ormuz inflaciona produtos lusos

Sequelas da guerra no Irão vão fazer-se sentir nos preços de produtos importados da Europa, incluindo de Portugal. O transporte marítimo de carga poderá demorar mais de três meses, quando no passado bastava apenas um mês. A Associação dos Fornecedores de Macau alerta ainda para a subida do preço do petróleo e o fecho do Estreito de Ormuz

 

Além do sangue derramado no Médio Oriente, a ofensiva nos Estados Unidos e Israel contra o Irão, e a resposta de Teerão terá repercussões na economia global, com Macau a não ficar imune, apesar das lições aprendidas durante a pandemia.

O presidente da Associação da União dos Fornecedores de Macau, Ip Sio Man, prevê que os preços de produtos importados vão subir, com particular incidência sobre as trocas comerciais entre a Europa e a Ásia através de transporte marítimo. Em declarações ao jornal Ou Mun, o representante afirmou que a guerra no Médio Oriente e o encerramento do Estreito de Ormuz à navegação irá atrasar ainda mais os transportes marítimos de carga que alimentam as relações comerciais entre a Europa e a Ásia.

O responsável indica que antes das tensões no Mar Vermelho, provocadas pelo bloqueio dos Hutis do Iémen em resposta ao genocídio em Gaza, o transporte de navios de carga entre a Europa e Ásia já havia aumentado de um para dois meses. Com a nova ofensiva e o encerramento do Estreito de Ormuz, o transporte pode ultrapassar os três meses.

Entre os produtos importados por Macau que podem ser mais afectados, Ip Sio Man destacou o vinho, azeite e produtos enlatados portugueses.

Contentores e prateleiras

O efeito económico do conflito irá também fazer-se sentir no aumento do preço do petróleo, que por sua vez vai empurrar a inflação dos custos de transporte. O dirigente associativo aponta que actualmente um contentor de carga custa 10 mil patacas, mas que esse valor irá subir de certeza, acrescido pelos receios de volatilidade cambial.

Todas estas condicionamentos vão fazer-se sentir ainda antes dos produtos chegaram às prateleiras dos supermercados e superfícies comerciais. As demoras no transporte obrigarão comerciantes a alargar o inventário e o ciclo de armazenamento poderá passar de dois a três meses para um período que pode chegar a meio ano. Esta disrupção resultará no aumento dos custos de armazenamento.

Face a todos estes factores, Ip Sio Man conclui que é inevitável o aumento dos preços dos produtos importados. Recorde-se que no ano passado, o índice de valor unitário das exportações subiu 1,9 por cento em termos anuais, naquela que foi a subida mais alta dos últimos 12 anos.

Também a guerra tarifária entra nestas contas. Ip Sio Man afirma que os custos de produção interna nos Estados Unidos aumentaram com as tarifas de Donald Trump, elevando a pressão sobre as indústrias de manufactura a nível global e tornando mais caro o comércio internacional e as importações.

Porém, o responsável realça que os produtos europeus representam uma fatia relativamente pequena no mercado de Macau, excluindo nos bens de luxo e dos produtos lácteos (que ocupam o segundo lugar em termos de local de origem).

Em relação a este panorama, Ip Sio Man afirma que na sequência da pandemia da covid-19, muitos fornecedores locais se viram forçados a descentralizar as cadeias de fornecimentos, procurando fontes produtoras mais próximas.

Por isso, apesar de manterem as fontes dos produtos europeus, os fornecedores de Macau passaram a comprar mais produtos lácteos na Austrália, Nova Zelândia e Interior da China, suavizando o impacto da cadeia logística europeia.

Combustíveis | Portal mostra preços com tendências opostas

A informação do portal do Conselho dos Consumidores sobre os veículos apresenta preços que passam meses sem serem actualizados. Porém, os três combustíveis para veículos que permitem fazer comparações com os dias antes e durante a guerra no Irão mostram variações para todos os gostos

 

Na sequência dos bombardeamentos do Irão pelos Estados Unidos e Israel, o preço do petróleo está aumentou. No entanto, a pouca informação disponível no portal do Conselho dos Consumidores (CC) sobre os combustíveis mostra um mercado com variações opostas.

Apesar de disponibilizar dados sobre os preços dos combustíveis, o Conselho dos Consumidores indica que a actualização é realizada de forma irregular. Por isso, dos 11 combustíveis apresentados no portal, apenas é possível realizar a comparação de três tipos, tendo em conta o preço na semana anterior aos bombardeamentos e nos dias seguintes. Nos restantes casos, os preços não são actualizados há meses ou semanas.

No caso da gasolina sem chumbo vendida pela Nam Kwong Oil, o preço actualizado a 28 de Fevereiro, um sábado, mostrava que o litro estava a ser vendido por 14,20 patacas. Este é o preço sem qualquer desconto e aplicado em todos os pontos de abastecimento da marca no território. Porém, com descontos, o preço poderia baixar para 12,50 patacas por litro. A actualização do preço no dia de ontem, 4 de Março, mantinha o preço original em 14,20 patacas por litro. Porém, a promoção especial de quarta-feira da gasolineira permitia pagar apenas 11,82 patacas.

Os restantes preços da gasolina sem chumbo das marcas Shell, Esso e Caltex foram actualizados anteontem e ontem. Porém, as actualizações anteriores tinham sido feitas a 15 de Dezembro, 24 de Outubro e 6 de Julho, respectivamente, pelo que não é possível fazer comparações. No caso da Total, ontem ao meio-dia, o preço não era actualizado desde 11 de Julho.

 

Sobe e desce

Em relação à gasolina premium, os preços registaram movimentações opostas. Segundo o portal do CC, apenas estão disponíveis no mercado duas marcas: Shell e Esso. No caso da primeira, a 26 de Fevereiro, quinta-feira, o preço original do combustível, isto é, sem descontos, em todos os oito postos era de 16,61 patacas por litro. No entanto, a actualização de ontem mostra uma redução do preço do litro de 8,2 por cento, para 15,25 patacas por litro.

No caso da Esso, no dia 25 de Fevereiro a gasolina premium ficou mais cara. O preço a 25 de Fevereiro era de 16,50 patacas por litro e subiu para 16,90 patacas por litro no dia de ontem, um aumento de 1,8 por cento, ou 40 centavos.

O portal mostra também que não é possível fazer nenhuma comparação das movimentações do preço do diesel. Segundo a informação oficial existem cinco marcas no mercado, Total, Shell, Esso, Caltex e Nam Kwong Oil. Os preços da Shell e Catelx foram actualizados na terça-feira para valores entre 16,76 patacas por litro e 14,06/15,25 patacas por litro. Contudo, as actualizações anteriores destes preços tinham acontecido a 15 de Julho e 6 de Julho, respectivamente.

Rendas | JLL espera estabilização dos preços

Depois dos preços terem caído “acentuadamente” no ano passado, a imobiliária JLL aponta que as rendas devem estabilizar ao longo do ano, tanto ao nível da habitação, como dos espaços comerciais

 

Uma previsão de mercado divulgada ontem pela consultora imobiliária JLL aponta que as rendas de habitação e de espaços comerciais em Macau deverão estabilizar este ano, mesmo com o valor patrimonial ainda sob pressão.

Num relatório, a empresa indica que os preços residenciais, que caíram acentuadamente em 2025, deverão manter-se estáveis em 2026, após as medidas governamentais para aliviar os encargos hipotecários, incluindo isenção de imposto de selo e flexibilização dos rácios de empréstimo sobre o valor da propriedade.

Os bancos também reduziram as taxas de juro no final do ano passado, ajudando a sustentar a procura.

“Os promotores imobiliários reduziram preços para impulsionar vendas no ano passado e, com políticas de apoio agora em vigor, o mercado residencial deverá estabilizar a curto prazo”, disse o director sénior de Avaliação e Risco da JLL em Macau, Mark Wong.

“Mas a procura limitada a longo prazo e a ausência de grandes projectos de infra-estruturas continuarão a pesar sobre o sector”, acrescentou, de acordo com o relatório.

Os dados mostram que o valor patrimonial da habitação caiu 16,5 por cento em 2025, enquanto o dos imóveis de luxo recuou 14,7 por cento. As rendas das unidades convencionais desceram 10,3 por cento, embora as rendas das residências de gama alta tenham subido 1,1 por cento. A JLL prevê que tanto rendas como valores patrimoniais se mantenham estáveis em 2026.

O mercado de escritórios também enfrentou dificuldades no último ano, com rendas gerais a caírem 3,4 por cento e valor patrimonial a recuar 7,9 por cento. A taxa de desocupação subiu para 15,3 por cento, reflectindo a fraca procura.

 

Valor patrimonial a cair

A JLL – lê-se ainda no relatório – espera que as rendas estabilizem em 2026, embora o valor patrimonial possa cair até 5 por cento.

O sector retalhista registou igualmente pressões, com as vendas totais a caírem 5,4 por cento entre Janeiro e Setembro do ano passado. As rendas recuaram 0,9 por cento em 2025. Embora as zonas turísticas comecem a atrair novamente investidores, as lojas de bairro continuam sob pressão devido às elevadas taxas de incumprimento de empréstimos.

A JLL prevê que os valores patrimoniais do retalho possam cair mais 5 por cento este ano.

A economia de Macau mostrou sinais de resiliência em 2025, com o produto interno bruto (PIB) a crescer 4,7 por cento para 415,32 mil milhões de patacas e as receitas do jogo a subirem 9,1 por cento para 247,4 mil milhões de patacas. Já as receitas do jogo do segmento VIP aumentaram 24,1 por cento para 67,98 mil milhões de patacas.

As entradas de visitantes cresceram, no ano que passou, 14,7 por cento, para 40 milhões, impulsionadas sobretudo por turistas do Interior.

Apesar da recuperação do turismo e do jogo, Wong alertou para desafios estruturais persistentes.

“O crescimento económico regressou aos níveis pré-pandemia, mas os motores concentram-se apenas em algumas indústrias”, afirmou. “O sentimento no mercado comercial é fraco e o encerramento dos casinos satélite continuará a representar desafios”, disse.

IPIM | Feira comercial para países de língua portuguesa em Outubro

O Governo anunciou ontem que vai organizar em Outubro uma feira comercial dedicada apenas aos países de língua portuguesa, em vez do habitual evento que reunia empresas da China e dos mercados lusófonos.

O Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM) lançou um concurso para a coordenação da Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa (Macau) 2026 (PLPEX), marcada para entre 21 e 24 de Outubro. No caderno de encargos prevê-se que a PLPEX ocupe uma área seis mil metros quadrados, com cerca de 200 stands para expositores “em consonância com o posicionamento de Macau enquanto plataforma sino-lusófona”.

A feira tem como meta atrair pelo menos 200 expositores, destes, 10 por cento devem ser empresas locais, 10 por cento de Espanha e 80 por cento dos mercados lusófonos, “sendo obrigatório atrair a participação de empresas de todos os nove países de língua portuguesa”.

O sector agrícola deve representar pelo menos 30 por cento de todos os expositores, o comércio electrónico transfronteiriço 20 por cento e a economia azul, ligada ao mar, pelo menos 10 por cento, refere-se no caderno de encargos. A organizadora da PLPEX deve ainda criar uma campanha de promoção da feira em Portugal e Espanha.

A Lusa questionou o IPIM sobre se a nova feira irá substituir a Exposição Económica e Comercial China-Países de Língua Portuguesa (C-PLPEX), que foi organizada em Outubro de 2025, em paralelo com a Feira Internacional de Macau (MIF, na sigla em inglês), mas não obteve qualquer resposta.

Não-Residentes | Ip Sio Kai quer Governo a facilitar novas contratações

O deputado defende que a economia está em expansão e que as empresas encontram condicionamentos. Por isso, Ip defende a facilidade da contratação de não-residentes a pensar nas empresas que vencem os concursos públicos

 

O deputado Ip Sio Kai defende a facilitação dos mecanismos para a contratação de trabalhadores não-residentes, a pensar nas adjudicações de contratos públicos. A posição do também vice-Director-Geral da Sucursal de Macau do Banco da China e presidente da Associação de Bancos de Macau foi tomada através de uma interpelação escrita.

Apesar de justificar a interpelação com os constrangimentos à expansão das empresas locais, Ip Sio Kai relaciona principalmente o problema da falta de mão-de-obra com os contratos públicos e as autorizações de contratação de trabalhadores não-residentes.

Nestes casos, o legislador aponta que as autorizações de trabalho só podem ser pedidas após a apresentação dos contratos das adjudicações públicas. Todavia, os concursos públicos são tidos como processos “lentos” e as contratações de não-residentes “demoram cerca de três meses”. Por isso, Ip Sio Kai explica que há sempre o risco dos contratos para as obras exigirem um início imediato, sem que haja mão-de-obra disponível, o que coloca “pressão sobre o cumprimento desses contratos”.

Face ao problema, Ip pretende saber se o Governo vai criar um mecanismo de aprovação condicional da contratação de não-residentes, em que as autorizações são aprovadas previamente, mas apenas confirmadas após a adjudicação de obras ou outros trabalhos. “Isso permitiria às empresas apresentar candidaturas de trabalhadores não-residentes antes de garantir formalmente a adjudicação. Com base em projecções comerciais razoáveis, as autoridades informariam primeiro as empresas sobre o número de trabalhadores não-residentes que poderiam ser aprovados caso ganhassem a adjudicação”, defendeu.

 

Áreas estratégicas

Ip Sio Kai pede também que a política de autorização de contratação de não-residentes se torne mais clara e sejam identificadas áreas em que os procedimentos são mais simplificados.

O deputado quer assim saber se vão ser publicadas “categorias de profissões mais susceptíveis” de verem os pedidos aprovados rapidamente. O membro da Assembleia Legislativa argumenta que uma publicação deste género iria “aumentar a confiança da indústria nas políticas relativas aos trabalhadores não-residentes, dada a persistente escassez de mão de obra local ou a baixa disponibilidade para trabalhar em determinadas profissões”.

Ao mesmo tempo, o deputado pede maior flexibilidade em relação às quotas de trabalhadores não-residentes que não são utilizadas durante um certo período tempo. Actualmente, se as empresas obtêm uma quota mas não a utilizam durante o prazo de seis meses, ou seja, não contratam o trabalhador não-residente, a quota é cancelada. Ip Sio Kai defende que este prazo deve ser aumentado, devido à “intensificação da concorrência regional”.

Ensino | China prepara lei que impõe mandarim como principal língua

A China prepara-se para aprovar uma lei que tornará o mandarim a principal língua de ensino para minorias étnicas.

Segundo o jornal britânico Financial Times, o projecto de Lei para a Promoção da Unidade e do Progresso Étnicos deverá ser aprovado esta semana durante a reunião anual do parlamento chinês, a Assembleia Popular Nacional.

O diploma estabelece que o mandarim passará a ser a principal língua de instrução nas escolas e universidades frequentadas por minorias, permitindo que línguas como o tibetano, o uigur ou o mongol sejam ensinadas apenas como segunda língua, deixando de poder ser usadas em disciplinas centrais.

O texto prevê igualmente acções legais contra indivíduos ou organizações, dentro ou fora da China, que “minem a unidade nacional” ou incitem ao “separatismo”, e afirma que a unidade étnica “não deve ser interferida por forças externas sob o pretexto de etnia, religião ou direitos humanos”.

Analistas citados pelo jornal consideram que a nova lei representa uma mudança estrutural na abordagem do Estado às minorias.

Para críticos, a legislação integra um esforço mais amplo de assimilação cultural que tem vindo a intensificar-se sob a liderança de Xi Jinping, num país onde a maioria Han representa cerca de 90 por cento da população de 1,4 mil milhões de habitantes, mas que reconhece oficialmente 56 grupos étnicos e diversas línguas com sistemas de escrita próprios.

Neil Thomas, investigador do Centro de Análise da China da Asia Society, afirmou que a lei “expandirá a base legal para restringir actividades religiosas, culturais e políticas entre grupos minoritários”.

Wang Yanzhong, investigador ligado à Academia Chinesa de Ciências Sociais, defendeu que o diploma visa fornecer salvaguardas legais ao trabalho do Partido Comunista em matéria étnica e contribuir para “manter a segurança e estabilidade das regiões fronteiriças e das áreas étnicas”.

O académico sustentou ainda que o mandarim oferece maiores vantagens educativas e profissionais, argumentando que o número de falantes de línguas minoritárias está a diminuir nas gerações mais jovens.

China / EUA | Reforço de investimento antes de chegada de Trump

China e Estados Unidos estão a discutir formas de reactivar o investimento recíproco como parte dos preparativos para a prevista visita do Presidente norte-americano a Pequim, avançou ontem o jornal de Hong Kong South China Morning Post.

Citando fontes anónimas, o jornal referiu que a assinatura de acordos na área do investimento poderá ser um dos poucos resultados tangíveis da deslocação, anunciada por Washington para 31 de Março a 02 de Abril, mas ainda não confirmada oficialmente por Pequim.

A incerteza em torno da visita e dos possíveis resultados aumentou nos últimos dias, após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, país do qual a China é o principal parceiro comercial e maior comprador de petróleo, além de um dos seus mais importantes apoios diplomáticos.

Segundo o jornal, embora ainda não existam acordos específicos, tanto Pequim como Washington manifestaram interesse em estruturas como empresas conjuntas com modelos claros de governação, acordos de licenciamento ou formatos com menor exposição em matéria de propriedade intelectual, susceptíveis de resistir ao escrutínio político e regulatório.

Uma das fontes citadas aponta como “modelo possível” o acordo alcançado em 2023 entre a Ford e a chinesa CATL, maior fabricante mundial de baterias para veículos eléctricos, que permitiu à empresa norte-americana licenciar tecnologia de baterias de fosfato de ferro-lítio para utilização nos Estados Unidos. Entre os pontos de fricção, os representantes norte-americanos terão insistido na necessidade de melhorar o acesso ao mercado chinês, onde empresas estrangeiras denunciam há anos tratamento desigual.

Pequim pediu maior protecção para os seus investimentos face a perdas e retiradas motivadas por maior escrutínio e por tarifas, abordando também as ofertas públicas iniciais de empresas chinesas nos mercados norte-americanos.

Os Estados Unidos têm sido tradicionalmente um dos principais destinos do investimento externo chinês, que atingiu um máximo de 17 mil milhões de dólares em 2016, recuando para cerca de 6,6 mil milhões de dólares em 2024. No total, a China investiu mais de 90 mil milhões de dólares na maior economia mundial.

Segundo dados divulgados por Pequim, o investimento norte-americano na China caiu 18,5 por cento em 2024, para cerca de 2,7 mil milhões de dólares. De acordo com uma das fontes, foi transmitido que o investimento chinês é bem-vindo, desde que em sectores considerados não sensíveis. Contudo, para que tal se concretize, seria necessário “mudar a narrativa” e atenuar o discurso da “ameaça chinesa” dominante nos Estados Unidos.

Nova ronda

Na semana passada, o ministério do Comércio chinês anunciou a realização de uma sexta ronda de negociações comerciais com Washington. Embora a data e o local não tenham sido confirmados, espera-se que as conversações sirvam de antecâmara à visita de Trump.

O South China Morning Post referiu ainda que a deslocação poderá permitir prolongar a trégua comercial de um ano acordada em Outubro entre Trump e o Presidente chinês, Xi Jinping, que ajudou a aliviar temporariamente as tensões geradas pela escalada tarifária iniciada após o regresso do republicano à Casa Branca.