Literatura | Livro sobre obra de Rodrigo Leal de Carvalho apresentado amanhã

Decorre amanhã, no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), a apresentação da obra que olha à lupa a escrita de Rodrigo Leal de Carvalho, autor profundamente ligado a Macau. “Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra”, de Dora Gago e Anabela Freitas, pretende “relançar o debate sobre a obra romanesca” do autor, que também foi juiz

“Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua Obra” é o nome do livro da autoria de Dora Gago e Anabela Freitas que é apresentado amanhã no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), a partir das 15h. Segundo um comunicado da editora, Letras Lavadas, trata-se de uma edição que visa “redescobrir Rodrigo Leal de Carvalho” e lançar o “debate sobre a sua obra romanesca”. A apresentação estará a cargo de Ana Paula Laborinho.

Segundo a mesma nota, a obra “propõe uma revisitação crítica ao percurso literário de Rodrigo Leal de Carvalho, autor que publicou os seus oito romances já depois dos cinquenta anos e que, apesar de ter conquistado leitores atentos e o reconhecimento de vários críticos, não obteve a visibilidade mediática proporcional ao mérito da sua escrita”.

Todas as obras do autor foram editadas pela Livros do Oriente, fundada por Rogério Beltrão Coelho, destacando-se títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”. No caso do livro apresentado amanhã, Dora Gago e Anabela Freitas “analisam a recepção da sua obra e destacam a singularidade da voz literária” de Leal de Carvalho, nascido nos Açores.
Propostas aos leitores

Este livro “conduz o leitor ao universo romanesco de um escritor terceirense que mergulhou profundamente na complexidade de um território distante, transformando-o em matéria narrativa rica e envolvente”. Desta forma, o que as autoras propõem são leituras que “oferecem novas perspectivas sobre a obra do autor e incentivam a redescoberta de um nome que merece maior presença no panorama literário contemporâneo”.

Este é um livro que traz “um contributo relevante para o estudo da literatura produzida no espaço lusófono e para a valorização de um autor cuja obra continua a despertar interesse e a justificar novas abordagens críticas”, refere a editora.

Rodrigo Leal de Carvalho faleceu em Janeiro deste ano aos 93 anos, tendo sido, mais do que escritor, juiz, Procurador da República e Presidente do Tribunal de Contas de Macau. Nascido na Praia da Vitória, na ilha Terceira, Açores, em 1932, Leal de Carvalho formou-se em Direito na Universidade de Lisboa, em 1956, ingressando de seguida na magistratura.

O juiz começou por trabalhar como delegado-interino na ilha do Pico, mas em 1959 foi para Macau, onde viria a viver boa parte da vida, com passagens por Lisboa e pelas então colónias portuguesas da Guiné, Angola e Moçambique.

Já depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, Leal de Carvalho regressou mais uma vez a Macau, em 1976, como Procurador da República.

Em 1995, foi nomeado juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e, no ano seguinte, liderou a comissão que organizou as últimas eleições para a Assembleia Legislativa de Macau sob administração portuguesa. Já em 1996, tornou-se presidente do Tribunal de Contas de Macau, posto que ocupou até às vésperas da transferência da administração da região para a China, em 1999.

Foi em Macau que Leal de Carvalho se estreou como romancista, em 1993, com a publicação de “Requiem por Irina Ostrakoff”, livro que lhe valeu o prémio do Instituto Português do Oriente, no ano seguinte, e que acabou por ser traduzido para chinês, em 1999, e para búlgaro, em 2002.

Seguiram-se os romances “Os Construtores do Império” (1994), “A IV Cruzada” (1996), “Ao Serviço de Sua Majestade” (1996) e “O Senhor Conde e as suas Três Mulheres (1999)”. Já regressado a Portugal, o juiz continuou a escrever sobre a região chinesa, nomeadamente em “A Mãe”.

Leal de Carvalho publicou ainda “O Romance de Yolanda” (2005), a história de uma macaense que aceita casar-se com um milionário filipino perseguido pela polícia para este obter nacionalidade portuguesa. O último livro do autor foi “As Rosas Brancas de Surrey” (2007). Com Lusa

22 Mai 2026

Literatura | Beltrão Coelho lamenta falta de visibilidade de Leal de Carvalho

Rodrigo Leal de Carvalho, juiz e escritor falecido em Janeiro aos 93 anos, “foi sempre preterido em termos oficiais” em Macau, segundo Rogério Beltrão Coelho, que publicou a maioria das obras de Leal de Carvalho com a Livros do Oriente. Num colóquio online, Beltrão Coelho denunciou a dificuldade de criar, ou manter presentes, livros de Macau em Portugal

Decorreu na terça-feira o “Congresso de Homenagem a Rodrigo Leal de Carvalho”, juiz do Supremo Tribunal de Justiça e escritor recentemente falecido, aos 93 anos. O evento, online, foi promovido no âmbito do Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, ligado a dois centros de investigação da Universidade Nova de Lisboa.

Na sessão, Rogério Beltrão Coelho, editor da Livros do Oriente e responsável por grande parte da edição dos romances de Leal de Carvalho, destacou o facto de ser quase “a primeira vez, em 15 anos de actividade ligada ao autor, que o editor é chamado a participar” e a falar sobre a obra deste autor que viveu em Macau no âmbito da sua actividade jurídica, mas sobre o qual deixou obra literária importante.

Rogério Beltrão Coelho, que editou, com a Livros do Oriente, títulos como “A Mãe” ou “Requiem por Irina Ostrakoff”, destacou que este romance daria “um filme extraordinário”, mas essa ideia “nunca foi sugerida por ninguém, nem pelos serviços oficiais, que nunca fizeram a abordagem para esse projecto”.

Beltrão Coelho lamenta mesmo que o Instituto Cultural (IC) não tenha dado a devida atenção a Leal de Carvalho e que se tenha imiscuído, muitas vezes, nas tarefas que cabe ao editor de um escritor.

“Houve, durante uns 15 anos, uma oposição sistemática dos serviços públicos, que queriam chamar a si uma actividade que, à partida, pode ser oficial com algumas condições, como é o caso da Imprensa Oficial, mas que em Macau tem uma componente comercial e de divulgação que os serviços públicos não podem fazer. E o doutor Leal de Carvalho foi sempre preterido em termos oficiais durante os anos em que esteve em Macau. Respeitavam-no, ninguém dizia que não era bom [escritor], mas foi sempre preterido. Ainda bem que se está agora a falar nele, e a ser reavivado”, disse.

O fundador da Livros do Oriente diz ter “sofrido por não dar a Rodrigo Leal de Carvalho a posição que ele, de facto, merecia”. “Fizemos [Livros do Oriente] tudo o que estava ao nosso alcance, e deu até certo ponto, mas não deu tudo o que gostaria que tivesse dado”, acrescentou.

Beltrão Coelho referiu os tempos em que o IC, nos anos 80, “produzia livros sem revisão prévia” que, “depois de impressos, e com gralhas, iam para o lixo e faziam-se outros, porque havia dinheiro”.

“Portanto, o Instituto Cultural não estava vocacionado para ser editor, mas para regular a actividade, criar condições para as editoras produzirem, criar prémios literários. Mas chamava a si tudo isso [tarefas do editor], inclusivamente as feiras do livro fora de Macau, em que o Instituto Cultural ia sem convidar ninguém.”

Nas palavras de Rogério Beltrão Coelho, que falou na apresentação “As publicações de Rodrigo Leal de Carvalho em Macau”, a Livros do Oriente “foi, seguramente, a editora que produziu, sem exagero, 90 por cento da ficção de Macau nos anos 90 e que tem mais de 14 autores de ficção e 9 de poesia editados”.

Ainda sobre a ligação do IC com editores e livreiros, Beltrão Coelho recorda que nem sempre beneficiaram da divulgação da literatura que se fazia no território, pois “de cada vez que alguém chegava a Macau e perguntava o que se passava em termos literários, o caminho indicado era apenas um [o próprio IC]”, e que “nunca ninguém foi encaminhado para a Livros do Oriente”.

Uma “ligação visceral”

Foi em 1992 que Beltrão Coelho travou contacto com Rodrigo Leal de Carvalho, quando este foi colocado em Macau, sendo um “dos mais discretos magistrados” do território, no papel de Procurador-geral Adjunto. Foi aí que o editor teve conhecimento da escrita de “Requiem por Irina Ostrakoff”, editado em Janeiro de 1993.

Leal de Carvalho ainda pensou em usar um pseudónimo, mas foi o seu nome verdadeiro que foi dado à estampa. “Estávamos perante o que se poderia classificar de romance histórico, romance-saga ou romance psicológico, no qual eram intersectados acontecimentos históricos ocorridos nos espaços geográficos onde os protagonistas iam vivendo entre as décadas de 20 e 50 do século XX. Tudo com uma rara qualidade literária cuja publicação se impunha”, disse Beltrão Coelho.

“Requiem por Irina Ostrakoff” foi um sucesso, com três edições, “uma situação excepcional em Macau”, e foi “a única obra de ficção distinguida em 1994 com um galardão literário – o prémio IPOR [Instituto Português do Oriente] – nos últimos 25 anos de administração do território”.

Beltrão Coelho recordou a “ligação profunda e visceral a Macau” que Leal de Carvalho manteve nos sete livros seguintes editados por si. “Inteligentemente, e felizmente para nós, leitores, é sempre uma ligação apaixonada e irónica, sem deixar de exercer suficientemente a crítica a Macau, às suas gentes e etnias. Macau é a dama pela qual luta e sofre, numa adesão total quase carnal. A tudo isso se pode acrescentar uma extraordinária capacidade de recriar ambientes e passá-los vivos, quase interactivos, usando uma linguagem moderna para quem o lê, o que não acontece só com Macau”, recordou.

Beltrão Coelho lembrou ainda a personalidade de Leal de Carvalho, um autor “teimoso” com algumas escolhas e ideias, e que, no território, “cedo engajou a simpatia das elites, e não só, de Macau, passando a figura omnipresente nas actividades culturais do território”, embora fosse “formal e discreto como entendia ser exigência do seu estatuto”.

“Ninguém alguma vez imaginou que pudesse ser autor de uma obra como ‘Irina’, não pela qualidade da escrita, que se podia adivinhar pela muito elevada cultura que lhe se conhecia, mas pelo comportamento conservador, reservado e até tímido.”

Foi também destacada a edição de “As Rosas Brancas do Surrey”, em Dezembro de 2007, livro que começou a ser publicado em formato folhetim no jornal Ponto Final em 2005.

Um “percurso inédito”

Para Rogério Beltrão Coelho, “toda a obra de Leal de Carvalho fez um percurso inédito em Macau”, com títulos “a serem, quase sempre, os mais procurados no que se refere à literatura de Macau e que, durante os anos 90, antes do colapso das grandes distribuidoras em Portugal, estiveram acessíveis nas livrarias do país” e até na Feira do Livro de Lisboa.

Beltrão Coelho deixou no ar a possibilidade de Rodrigo Leal de Carvalho ser “o mais importante escritor que se refere ao Extremo Oriente, na senda de William Somerset Maugham, Joseph Conrad ou Rudyard Kipling”, sem desprimor para autores como Maria Ondina Braga ou Venceslau de Morais.

Quem o leu, de Macau, e “os macaenses liam-no muito”, encontraram nos seus livros “as histórias que eles próprios conheciam e que estavam ali relatadas, embora de forma ficcionada”. “Mas sabiam quem eram os personagens – alguns deles extremamente irónicos, sobretudo nas críticas que fazia à incapacidade da administração portuguesa que ‘reinava’ em Macau”. “Era um homem notável e, sobretudo, com uma educação e delicadeza… só tinha amigos e admiradores em Macau”, frisou.

O fim da livraria

Ainda sobre a dificuldade de distribuição, ou da existência, de obras sobre Macau em Portugal, Rogério Beltrão Coelho lamentou o encerramento, no período da covid-19, da livraria que funcionava na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, e que anualmente se fazia representar na Feira do Livro de Lisboa.

“Tínhamos uma livraria na delegação de Macau e a primeira coisa que se fez foi acabar com isso. Não havendo livros em mais lado nenhum, encaminhavam-se as pessoas para aquele sítio. Hoje não há nenhum local com livros de Macau, e como é um tema que não é muito generalista, as livrarias não aceitam [as obras]. Não é fácil [a distribuição]”, salientou.

Beltrão Coelho destacou que em 1999, aquando da transferência da administração portuguesa de Macau para a China, a Livros do Oriente propôs oferecer dois exemplares de cada uma das edições às bibliotecas portuguesas, o que aconteceu. “Verificou-se, e hoje verifica-se dez vezes mais, que as bibliotecas recusavam porque não era tema que lhes interessasse, ou não tinham espaço”. Além disso, fazer reedições “não é fácil” por não haver “mercado”. O fundador da Livros do Oriente deixou a sugestão de digitalizar algumas obras e colocá-las na Biblioteca Nacional.

O congresso desta terça-feira contou ainda com a apresentação do livro “Dois Olhares sobre a Obra de Rodrigo Leal de Carvalho”, edição deste ano de Dora Nunes Gago e Anabela Freitas. Pedro D’Alte, da Universidade Politécnica de Macau, falou do lugar da mulher nas obras do romancista, enquanto que o tradutor David Brookshaw protagonizou a apresentação “Macau como destino, Macau como lugar de passagem. As ironias do destino na obra de Rodrigo Leal de Carvalho.” Mónica Simas, Dora Nunes Gago e Ana Paula Laborinho foram outras intervenientes no congresso.

30 Abr 2026