O canto da Europa desencantada (I)

“Europe is a cultural notion, not a political reality.”

George Steiner, The Idea of Europe (2004)

A Europa alimenta há décadas a ilusão de que é possível desenhar uma união perfeita sobre uma página em branco. Mas páginas em branco não existem na política. O passado não desaparece por decreto, os Estados não se dissolvem no ar e as nações não evaporam como nevoeiro ao sol. A chamada “questão alemã”, sempre presente, lembra que a história não se deixa apagar. E até o entusiasmo americano pelo europeísmo estratégico tem limites bem definidos. O sonho europeu costuma ser acompanhado de referências nobres como o verso de Montale ou o célebre “Seid umschlungen, Millionen!” literalmente “Sede abraçados, milhões!” que pertence ao poema “An die Freude” (À Alegria) de Friedrich Schiller, que Ludwig van Beethoven imortalizou na Nona Sinfonia símbolos de união, esperança e transcendência.

Mas a realidade raramente acompanha a música. Durante grande parte do século XX, a Europa avançou segundo o princípio simples de cada nação defendia os seus interesses, pela força se fosse preciso. As consequências foram devastadoras com duas guerras mundiais, destruição em massa, desconfiança generalizada e milhões de mortos. Depois de 1945, o continente estava física e moralmente arrasado. Ainda assim, um grupo de líderes acreditou que era possível romper com o passado e começar de novo. Apesar da Guerra Fria e da ameaça soviética, imaginaram uma Europa onde antigos adversários se sentariam à mesma mesa, substituindo armas por diálogo.

Esta visão é a que recebe os visitantes do Parlamentarium, em Bruxelas, onde se apresenta a narrativa fundadora da União Europeia de um novo começo, a rejeição do passado violento, a promessa de paz e prosperidade, e a ideia de uma união cada vez mais estreita construída passo a passo. O projecto europeu foi pensado como um caminho gradual de primeiro carvão e aço, depois mercados, fronteiras, moeda e, um dia, uma identidade comum. A Europa seria um abraço colectivo, o fim da história, uma comunidade que se libertaria das velhas armadilhas do nacionalismo. Mas o tempo verbal da UE é sempre o futuro. O presente não tem lugar na narrativa europeia; existe apenas como ponte para um amanhã idealizado.

É uma espécie de êxodo permanente rumo à Terra Prometida, onde tudo será melhor, mais unido e estável. O problema é que esta promessa está sempre a ser adiada. Falta uma justificação sólida para o momento actual, algo que todas as entidades geopolíticas possuem de uma história que legitime o presente. A UE não tem isso. Vive num estado de construção permanente, sem identidade consolidada. Os mitos não servem para dizer verdades; servem para criar sentido. Simplificam, destilam e inventam se necessário. Tornam familiar aquilo que é complexo e dão forma ao que é invisível com os laços que unem uma comunidade, a distinção entre “nós” e “eles” e a visão do mundo que se pretende afirmar.

Analisar estes mitos à luz da geopolítica não é decidir se são verdadeiros ou falsos, mas medir a distância entre ambição e capacidade. O mito pode mobilizar, mas também pode iludir. Pode fortalecer, mas também pode virar-se contra quem o invoca. A União Europeia não escapa a esta regra. Não é um actor geopolítico pleno, mas é um símbolo das esperanças e das confusões que atravessam o continente desde 1945 e, sobretudo, desde 1989. Hoje, a Europa voltou a ser palco da competição entre grandes potências. Mas, pela primeira vez na história, nenhum país europeu é protagonista. A promessa de paz perpétua é desmentida pelos conflitos nas periferias como a Ucrânia e Balcãs que mostram que a estabilidade não é garantida.

A promessa de prosperidade também se fragmentou. A crise financeira de 2011 expôs os desequilíbrios do euro, a falta de solidariedade entre Estados-membros e a incapacidade das regras económicas europeias para estimular o crescimento. Os Estados Unidos, antigos tutores da integração, acusam a arquitectura comunitária de gerar instabilidade na sua esfera de influência. E dentro da Europa reacendem-se falhas históricas com separatismos, tensões identitárias e disputas territoriais. Em vez de unir, a UE parece multiplicar a desunião. A distância entre mito e realidade nunca foi tão grande. O mito da UE não nasceu do nada. Enraizou-se porque correspondeu ao espírito do tempo. Entre 1914 e 1945, a Europa viveu três décadas de horror com guerras civis e mundiais, genocídios, fomes, doenças, cem milhões de mortos e cinquenta milhões de refugiados.

Países destruídos, fronteiras redesenhadas e identidades esmagadas. As potências europeias, que durante séculos dominaram o mundo, tinham-se autodestruído. O ano de 1945 marca o fim da sua supremacia global. O trauma foi profundo a nível filosófico, cultural e psicológico. Era preciso reconstruir não só cidades, mas também auto-estima. A Europa precisava de acreditar novamente em si. E metade do continente recebeu essa oportunidade, sob tutela americana. A integração europeia surgiu como resposta a duas pressões, a pressão externa dos Estados Unidos, que exigiam união contra a União Soviética, e a pressão interna de sociedades cansadas de nacionalismos e elites intelectuais desconfiadas do Estado. Konrad Adenauer dizia que “As pessoas precisam de uma ideologia, e essa ideologia só pode ser europeia.”

Era uma forma de oferecer esperança, sobretudo vindo de um país marcado pela culpa histórica. A ideia de uma união cada vez mais estreita teve três funções essenciais de restabelecer a sensação de superioridade europeia, agora sob a forma de exemplo moral para o mundo; compensar a perda dos impérios coloniais, recolhendo os “fragmentos dos impérios falhados”, como observa Timothy Snyder e tranquilizar o medo do declínio económico, que cresceu após o fim da Guerra Fria e a ascensão da Ásia. Era uma utopia literalmente, um “não lugar” construída para dar sentido a um continente traumatizado. O mito europeísta foi útil, necessário e até inspirador. Mas hoje revela desgaste. A Europa vive entre promessas adiadas, identidades incompletas e contradições internas. A distância entre o que a UE diz ser e o que consegue fazer nunca foi tão grande. O mito não desapareceu mas não basta para orientar o futuro.

A ideia de uma união cada vez mais estreita na Europa traz consigo outra ambição a de ser também cada vez mais ampla, quase universal. Daí a pretensão de falar em nome da humanidade, reflectida no hino escolhido pela União Europeia, a Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven, talvez a mais elevada composição musical alguma vez escrita. No texto de Schiller lêse que “Todos os homens se tornam irmãos onde repousa a tua asa suave”. Beethoven provavelmente pretendia dedicar esta mensagem aos povos alemães, ainda divididos no início do século XIX, que deveriam abraçarse na unidade e, através da nação, alcançar um patamar mais avançado da humanidade.

Era uma aspiração iluminista e tipicamente alemã, que reconhecia a nação na sua cultura e, em particular, na música clássica. Mas esse ecumenismo é insuficiente para fundar uma colectividade política. Um mito e os seus instrumentos precisam de delimitar e de traçar fronteiras simbólicas. A América pode permitirse um universalismo desmesurado, sustentado por um primado global ainda inatacável. Os Estados europeus, enfraquecidos e com margem de manobra reduzida, não dispõem desse luxo. O ecumenismo gera curtocircuitos na relação com o outro, criando uma tensão constante entre o desejo de alargamento ilimitado e a necessidade de diferenciarse. Para os euro-entusiastas, esse atrito não existe pois qualquer povo poderá integrar a família europeia quando estiver pronto para ser como nós. Mas esta visão contém paternalismo disfarçado, sobretudo em relação aos países balcânicos ou da Europa centrooriental.

E também conduz a confusões, de como observar as categorias mutáveis da política em vez das estruturais da geopolítica, na ilusão de que uma mudança de regime altera a natureza das coisas, erro evidente na convicção de que o problema da Turquia é apenas Erdoğan. Armadas destas ideias, as colectividades europeias saíram da história. Em parte porque não podiam cuidar da sua segurança tanto a oeste como a leste da cortina de ferro eram as superpotências que assumiam essa função. Em parte porque, na metade ocidental, os americanos impuseram a economia como único horizonte possível de afirmação, o único instrumento de legitimação e de construção comum. E em parte porque as sociedades europeias se convenceram de que era possível renunciar à violência inerente a qualquer projecto de poder.

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