A mesa de pedra

Este dia 18 de Dezembro marca duas datas que os portugueses prefeririam nunca terem existido. A de 1582 é relativa ao reconhecimento oficial pelas autoridades de Macau de ser Filipe II de Espanha o Rei de Portugal. Já a de 1961 relaciona-se com a ocupação da Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu) pelo exército indiano.
Portugal, país pequeno que no século XVI tinha uma população de aproximadamente um milhão e duzentas mil pessoas, construiu um Império Oceânico, expressão de Luís Filipe Thomaz, utilizada para marcar a diferença com os impérios territoriais clássicos, tendo os monarcas portugueses começado a usar o termo de Império só nos finais do século XVIII. “O mar já não era um limite, mas, antes, o nexo essencial de união dos pontos de apoio na terra firme, (…) o próprio corpo do Império”. Segundo António Hespanha, o Império português era “fortemente marcado pela dispersão territorial” numa “descontinuidade espacial” que se estendia “por um vasto mundo que não podia dominar nem controlar se empregasse os expedientes tradicionais de administração” e por isso, “a coexistência de modelos institucionais”. Referência como nota, “No século XVII o Império holandês vai seguir o mesmo modelo, pela ocupação dos entrepostos anteriormente dominados pelos portugueses. Mas os holandeses criaram formas inovadoras, como as grandes companhias comerciais, concedendo à iniciativa privada um papel que, em Portugal, a Coroa desempenhava preferencialmente por si.”
Assim, os portugueses, os primeiros a chegar e os últimos a sair dos territórios por onde se estabeleceram além-mar, tiveram um vasto “Império onde o Sol nunca se punha, do Brasil à China, passando pela África, pela Índia e pela Insulíndia” como refere Hespanha.

Sistemas de governação

Na China, desde a dinastia Tang, havia a tradicional política de permitir aos grupos de estrangeiros a viver no território de se governarem com as suas próprias leis e costumes, se elas não fossem incompatíveis com a paz e ordem do país e foi assim que, as autoridades chinesas aceitaram a existência do Senado, criado pelos portugueses em Macau no ano de 1583. Trazia o Senado a herança do poder local originário de um conceito antiquíssimo de governação proveniente da reunião dos anciãos escolhidos pela maturidade do seu saber e ponderação e que à volta da mesa de pedra decidiam, tanto sobre questões de justiça, como tomavam as resoluções sobre os destinos da comunidade. Debatiam os problemas da povoação e da sua população, dando conselhos e explicando o porquê das decisões tomadas.
Já na Índia, os portugueses quando chegaram a Goa em 1510 encontraram um sistema de governação local na forma de gancarias. “Perde-se na noite dos tempos as origem das gancarias, associações decalcadas sobre o modelo das patriarcais e que são o maior monumento social da civilização indiana.” Jornal Heraldo, 4 de Abril de 1916, publicado em Goa.”
No livro Os Municípios de Macau de Avelino Rosa encontra-se explicado o termo , que corresponde ao município, “deriva de concilium e traduz a ideia de comunidade de vizinhos”. Quando as questões eram importantes havia que chamar os homens bons que pela sua idade, experiência e situação económica, fossem reputados, prudentes e sabedores, ou mesmo a assembleia de vizinhos, os chefes de família, que formavam o concelho propriamente dito. “Os municípios em Portugal, que parecem remontar ao século X, desempenharam um importante papel de apoio à realeza, pelo menos até meados do século XIII, quer em termos de estabilização da vida social a nível local, quer nas lutas contra a nobreza…”. “O traço mais importante da administração concelhia era o carácter autónomo da sua administração, concretizado no reconhecimento, pelo poder central, de uma certa ordem jurídica local (contida no foral e nas posturas) e na existência de magistrados eleitos pelo concelho.”

Aceitação das gancarias

A organização social que os portugueses vieram encontrar em Goa, segundo descreve o Padre A. Silva Rego na História do Padroado Português do Oriente era de uma ilha, dividida em aldeias, em que os habitantes não possuíam as terras, pois elas eram de todos. Gão, que significa aldeia, vem do sânscrito grama. Do gão derivam as palavras gãocare, membro de associação agrícola da comunidade da aldeia e gãocaria, associação de gancares, casa de sessão ou a gerência da aldeia. Gancaria é, segundo Francisco de Sousa, “o ajuntamento de todos os gancares de uma aldeia, ou pelo menos uma pessoa de cada vangor”. E continuando com Sebastião Dalgado: “É indispensável a presença de pelo menos um membro de cada vangor na gancaria, a fim de se tomar um nemo, ou assento de interesse geral”. O vangor compõe-se de um grupo de famílias que são, ou consideram-se ser, de um tronco cujas origens remontam à formação das aldeias e são eles quem tem voto nas gancarias. Em cada família é o mais velho o vangor que se acorda e assina assuntos da gancaria. “Os funcionários e artífices principais, porque se dedicavam ao bem de todos, eram pagos pelos gancares (gãocares), sendo em geral os seguintes: chefe de aldeia, escrivão guarda, brâmanes para serviço de templo e para a instrução das crianças, carpinteiro, barbeiro, alparqueiro, oleiro, lavandeiro, ourives, médico, poeta, músico e bailadeira.”
D. António de Noronha, sobrinho de Albuquerque, conquistou sem batalha a fortaleza de Hidalcão (o Palácio do Governo, actual Secretaria em Panaji, Goa) em Fevereiro de 1510. Afonso de Albuquerque tomou posse do castelo de Panjim e ao falar à população que lhe oferecia flores, disse respeitar a organização das gancarias. Quando a reconquistou em Novembro de 1510 e a escolheu depois para capital administrativa do Estado português da Índia, manteve essa promessa.
Os portugueses identificaram as comunidades da aldeia com os municípios portugueses, pois ascende a 1526 o Foral dos usos e costumes, promulgado pelo Vedor de Fazenda da Índia, Afonso Mexia, e que era como os forais de Portugal o diploma, donde constavam os direitos, privilégios e usos que o Soberano prometia guardar aos povos.
As terras das gancarias pertencem aos gancares e cada uma tem as suas leis transmitidas pela oralidade e nas reuniões dos seus membros. Para ser gancare a idade tem que ser superior aos catorze anos e só se o pai for gancare, os filhos o são. As resoluções têm que ser tomadas por vinte e cinco gancares no mínimo e o Chaudi (nome também de uma aldeia em Canacona, Goa) é o centro da comunidade das respectivas aldeias. Pela tradição eram doze membros, os mais velhos da aldeia, os representantes dos gancares, no Corpo Geral da Comunidade. Actualmente são cinco os lugares ocupados pelos eleitos por três anos, sem olhar à idade e saber.
“A terra é da comunidade, não é do Rei de Portugal”, frase que ao longo de cinco séculos os gancares foram lembrando aos governantes portugueses, quando se assistia à doação de terras a nobres e a outros reinóis que por aí se quedavam. O Rei de Portugal, na pessoa do Vice-Rei ou Governador da Índia, só tutelava as terras da Comunidade, como actualmente é o Governador de Goa o seu representante máximo. Pago pelo dinheiro das gancarias, é um cargo tutelar que alia uma protecção institucional das comunidades ao exterior, à resolução final dos problemas internos que a comunidade não consegue resolver. Como seu representante, não é gãocare. Não era o Estado quem financiava os gancares, mas ao contrário, eles remuneravam o cargo tutelar que os representava para fora da comunidade e ajudava nas questões internas, que não encontravam consenso na decisão.
Este sistema comunitário das aldeias existia antes da chegada dos portugueses e a Administração portuguesa preservou-o como “Ordenanças das cidades, vilas e aldeias e Câmaras gerais agrárias” com poder judicial e municipal. Mais tarde ficaram conhecidas como Comunidades de Goa.

O Senado

Já Macau, devido ao desejo dos mercadores portugueses contarem com um lugar permanente para esperarem a abertura da época de comerciar no porto de Cantão, foi-lhes permitido tacitamente pelos mandarins chineses aí construírem habitações permanentes, começando assim em 1557 a formação de uma povoação definitiva. Esta encontrava-se em território da China, mas os portugueses aí residentes tinham como autoridade máxima o Capitão-mor da viagem do Japão, representante do Rei e do Vice-rei ou Governador da Índia Portuguesa, quando nos meses de monção aqui esperava para seguir viagem. Nos tempos em que se encontrava fora, era Macau governada por um conselho espontaneamente formado pelos habitantes mais importantes, que em 1560, consistia num Capitão da Terra, num Ouvidor e num Bispo.
Em 1582 chegaram a Macau as notícias da derrota em Alcácer Quibir de D. Sebastião, a morte do Cardeal D. Henrique e de ser Filipe II de Espanha o novo Rei de Portugal, o que levou ainda nesse ano, a 18 de Dezembro, os residentes a terem que aclamá-lo e as autoridades da cidade a reconhecê-lo, mas com a condição desta cidade servir de intermediária obrigatória das Filipinas, nas suas relações com a China.
Segundo Montalto de Jesus, “para colocar a colónia fora dos governadores espanhóis” e “por desejo do bispo Belchior Carneiro, os colonos reuniram-se em 1583 para deliberar sobre qual a forma de governo que melhor se adaptaria às novas circunstâncias. A assembleia, presidida pelo digno prelado”, que o Padre Manuel Teixeira diz ser o Bispo D. Leonardo de Sá, “decidiu a favor de uma administração senatorial baseada nos privilégios municipais adquiridos, nos dias de antigamente, por concessão real a várias cidades de Portugal.”
Assim, para complementar a Administração de Macau, por iniciativa do Bispo D. Leonardo de Sá deu-se em 1583 a fundação do Senado, que era composto por três vereadores, dois juízes ordinários e um Procurador. O Senado governava Macau e possuía amplos poderes no político, judicial e administrativo. Era no Conselho de Homens Bons, presidido pelo Ouvidor, que ao povo competia a escolha de seis pessoas para seleccionarem os cidadãos considerados mais aptos a desempenharem estes cargos no Senado. No final de um longo processo, que deixaremos para outra altura, eram indicados os nomes dos eleitos.
Como não havia presidente no Senado, era a um dos três vereadores, com a idade de quarenta ou mais anos, que em rotação cada mês presidia às sessões e aos Conselhos Gerais. Os juízes ordinários, com mais de trinta anos de idade, decidiam sumariamente as causas civis. O Procurador era a pessoa mais importante e representava a cidade perante as autoridades chinesas, tendo-lhe em 1584 o Imperador chinês Wan Li conferido o título de mandarim de segundo grau, sendo ele até 1738 também o tesoureiro do Senado.
Se em 1616 foi designado para Macau um governador permanente, este só em 1623 apareceu para tomar posse, sendo o primeiro Francisco de Mascarenhas (1623-26). No entanto, tal como acontecia nas Comunidades de Goa com as gancarias, aos governadores de Macau nomeados por Goa apenas lhes cabia a função de comando na defesa da cidade e eram presidentes do Senado, mas sem direito a voto, o que aconteceu até 1834. A separação de Macau em relação a Goa deu-se em 1844 e Ferreira do Amaral (1846-1849) foi o primeiro governador de Macau que não foi nomeado por Goa. Já o foro, pago pelos portugueses aos chineses desde 1573 para arrendar Macau, deixou de ser pago em 1849.
Trouxemos este tema devido a hoje, 18 de Dezembro, ser uma data marcadamente ingrata para Portugal e emocionalmente triste para muitos dos que nos territórios portugueses da Índia nasceram e a tinham como pátria. Em 1961, a Índia Portuguesa (Goa Damão e Diu) foi invadida pelo exército indiano, que viera libertar dos ocupantes os territórios que faltavam recuperar à União Indiana, pois a Grã-Bretanha já tinha deixado de governar a Índia em 1947. Nesta frase encontram-se traduzidas as duas opostas visões, que dependem da perspectiva de quem fala, se pelo lado português, se pela posição indiana. A História poderia ter sido diferente, não fosse a intransigência de Salazar e Goa, Damão e Diu teriam ficado com a posição actual que rege Macau.

18 Dez 2015

Kaifeng e dez metros abaixo

Situada na província de Henan, setenta quilómetros a Leste da capital Zhengzhou, Kaifeng, a Sul do Rio Amarelo, tem uma longa História, encontrando-se no grupo das sete cidades que foram capitais da China.
A chegada a Kaifeng é no mínimo estranha. Apanho um táxi, na parte Sul da cidade onde a estação dos caminhos-de-ferro e o terminal Sul dos autocarros se encontram. Perguntando a tarifa para chegar ao hotel que trago referenciado, o motorista responde seis yuan. Lá partimos e de facto, ao chegarmos é a quantia que marca no taxímetro. Pára e quando me preparo para pagar, diz-me que o hotel está fechado. O cordão que se encontra na porta giratória leva-me a pensar que é realmente verdade, mas fico intrigado porque é que não me tinha dito mais cedo. Depois, propõe-me um hotel que é da mesma categoria e para lá nos dirigimos, tendo o complemento da viagem custado apenas mais um yuan. Até aqui tudo normal; apenas poderia ter-me avisado antes que o hotel estava fechado. Em comparação ao hotel que eu tinha indicado, cuja fachada muito rococó continha altas colunas, este onde me hospedo, apesar de ser da mesma categoria e mais discreto, é ainda mais barato, tendo um quarto de banho do tamanho do quarto. Para mais, só o soube depois, encontra-se na rua onde à noite decorre um extenso mercado, com grande quantidade de cozinhas ambulantes, que cria um espectáculo a não perder. Mais tarde, volto a passar pelo anterior hotel e percebo que tinha sido enganado pois, quando por lá chegámos, encontrava-se ele apenas em limpezas.
Enfim, tenho um quarto onde dormir e o assunto está arrumado, não fosse a tentativa que faço em perceber o porquê. Talvez o taxista tivesse comissão!
No dia seguinte comprovo essa real conclusão quando, após um novo turista ser conduzido ao quarto, o taxista sai do carro e dirige-se à recepção onde recebe uma nota de dez yuan por ali colocar mais um hóspede.
Kaifeng é uma cidade plana e por isso, interessante para ser explorada de bicicleta. A parte antiga encontra-se circundada pela muralha e espanta, pois não tem edifícios altos, sendo a maior parte das casas de dois andares. Ainda por cima as ruas e avenidas são largas, o que lhe dá um imenso Céu. Tal amplia a dimensão da sua luminosidade, o que permite à visão agarrar os edifícios escuros de madeira, que na maior parte das cidades passam despercebidos pois, ficam escondidos pela força do labor humano, que absorve toda a atenção. Assim, a cidade com um ar lavado e fresco, tornou-se um lugar muito agradável nos dias que por aqui permaneço.

Memórias dos sabores

Após percorrer para Norte metade da Rua Jiefang, com inúmeras lojas de antiguidades e livrarias, decido caminhar pelas travessas e seguir o quotidiano viver da cidade, em lugares que não se mostram aos turistas.
Abre-se Kaifeng nas suas provincianas características. O leiteiro percorre as ruas anunciado pela monocórdica sonoridade que vai repetidamente saindo de um primitivo aparelho colocado no guiador do triciclo. Na parte traseira deste, transporta as vasilhas de alumínio. É ver o rodopio das pessoas a sair apressadamente de casa, muitas vestidas como se acabassem de saltar da cama e com os jarros já cheios e o leite pago, espreitam para o fundo da travessa contígua para perscrutar se a senhora que vende o tofu se encontra por perto. Com uma imagem a lembrar as leiteiras que durante a nossa infância se colocavam na esquina da rua com o mesmo tipo de vasilhame e aí esperavam os quotidianos clientes, recordamos só faltar o padeiro na sua distribuição de casa a casa, onde colocava o pão nas sacas dependuradas na porta. E não é que poucos metros a seguir, ao olhar pela vidraça vemos sair do forno de lenha uma fornada de bolos de arroz. O aspecto é exactamente como o que tenho do tempo de criança e que desapareceu com o querer requintá-lo para melhor atrair os clientes. Como há muito não provo aquela guloseima e ainda por cima, desde que estou em viagem pela China, pão fermentado e crocante, ou bolos, é algo que não ponho a vista em cima, logo radiosamente entro pelas portadas abertas de uma casa de madeira, sem nenhum placar a indicar ser ali uma loja. Quero um bolo para comer ali e outro para levar. Dizem-me para esperar. Estranho, pois basta entregar-me o bolo; ainda por cima quentinho, que contrabalança com o vento gelado que fora sopra. Volto a pedir para me darem já um para comer e é quando recebo a explicação que falta colocar-lhe a gema por cima. Alto aí, não me vão estragar o que colocou a salivar o meu imaginário de infância, para me trazer à realidade actual. Espantada, a senhora de meia-idade tenta de novo convencer-me que o bolo fica muito melhor com a gema mas, perante a minha sofreguidão em tê-lo nas mãos, logo, ainda contrariada me o entrega. É assim que consigo de novo provar, algo que há muitos anos não tenho acesso. Foi o melhor bolo de arroz que comi!

Os judeus de Kaifeng

Sabemos estar a cidade referenciada como tendo uma população de judeus. Quando a dinastia Song do Norte (960-1127) fez de Kaifeng a sua capital, havia aqui já uma comunidade de judeus com um rabi, que segundo se crê chegaram à China como mercadores durante a dinastia Tang. Em 1163 construíram uma sinagoga em terreno oferecido pelo Imperador Xiao Zong (Zhao Shen 1162-89) que ficou conhecida como Templo da Pureza e Verdade. Foi ela destruída durante as conquistas dos mongóis e voltou a ser reconstruída em 1279, tendo em 1421 sido reparada. O número destas famílias era de dezassete, como consta numa pedra gravada em 1489 que se encontra no museu da cidade e tinham como apelidos Ai, Jin, Lao, Li, Shi, Zhang e Zao. Se no século XIII contavam com quatro mil pessoas, diminuíram para metade passados três séculos. O missionário jesuíta Mateus Ricci relatou que, quando vinha de viagem desde Beijing, tivera como companhia um judeu de Kaifeng, o que muito o admirou e por isso pediu a um seu, da Companhia de Jesus, que aí se deslocasse para averiguar.
Muitos foram os judeus que ocuparam altos cargos no exército e se distinguiram como oficiais civis, estudiosos e físicos. Em 1642 o major Zhao Chengji foi um deles, que ao comando de tropas defendeu Kaifeng do exército de Li Zicheng. Nesse ano, Li tinha-se autoproclamado Rei de Xinshun e continuava a lutar contra a dinastia Ming.
Em 1866, a comunidade não tinha rabi e as famílias judias eram muito pobres, tal como a sinagoga estava em ruínas, devido às constantes inundações. Pelos casamentos com chineses, dissolveram-se na comunidade e já no princípio do século XX tinham perdido as suas tradições e ligações religiosas. Agora, apesar de aproximadamente duzentos dos actuais habitantes ainda serem descendentes de judeus, mas não praticantes, são por vezes confundidos com muçulmanos e cristãos, que também existem em certa quantidade em Kaifeng.
Na Rua Beitu, no lugar onde se encontrava a sinagoga, está hoje o Hospital do Povo número 4.

O Parque Tei Ta

As muralhas, com que a parte antiga da cidade está cercada, foram construídas pela dinastia Song do Norte (960-1127), que fez Kaifeng a sua capital. Se junto à parte Noroeste das muralhas encontro na borda do lago Xibei uma réplica da porta Tiannan de Beijing, onde não falta o retrato de Mao Zedong por cima da encerrada entrada, tudo com um ar muito abandonado, já no canto Nordeste visito o Parque do Pagode de Ferro (Tei Ta). Aí o Pavilhão Jieyin com a estátua em bronze do Buda do Futuro feita no século V e uma pedra de Taihu enquadram-se no cenário com o alto pagode, que em descampado domina a paisagem. Construído em 1049, com uma forma esguia e octogonal, tem cinquenta e cinco metros de altura e treze andares, apresentando-se feito em tijolo vidrado com uma cor de ferro e por isso, recebeu o nome de Pagode de Ferro. Já a sua decoração, feita toda com uma graciosa figuração variada em baixos-relevos nos tijolos, contraste com o interior do pagode. Extremamente difícil de subir e só até meio, dá acesso apenas a dois postigos abertos para o exterior, de onde se pode apenas ver uma pobre paisagem, que não vale o esforço.
Regresso para o centro da cidade e primeiro vou ao Templo taoista de Yanqing, que data de 1233 e tem o Pavilhão do Imperador do Jade com um invulgar estilo de arquitectura. Depois sigo para Leste e encontro o Templo do Primeiro-Ministro (Da Xiangguo), construído em 555 e que atingiu o seu apogeu durante a dinastia Song do Norte. Com a inundação ocorrida em 1642 ficou destruído pelas águas do Rio Amarelo e só foi reconstruído em 1766. No templo, a peça que mais surpreende encontra-se num pavilhão octogonal por detrás do salão principal e é uma enorme estátua dourada da Deusa Guanyin dos mil braços.
Extenuado de um dia a percorrer a cidade, sigo para o hotel para tomar um banho e pelo caminho vou atento, para encontrar um restaurante que sorrisse aos meus olhos. Não sei se é pelo cansaço, ou não ter passado na rua certa, estou a chegar e nada registo. Ao virar para a rua do hotel, a grande animação de luzes a ocupá-la permite ver cozinhas ambulantes, umas a seguir às outras, com mesas e cadeiras onde, sentadas, muitas pessoas comem e bebem. Está encontrado o local para a refeição do dia!
Após refrescado de um dia intenso, volto ao mercado nocturno de comida e percorro as várias tendas com rodas, escolhendo umas quantas espetadas de carneiro e um pão achatado com carne dentro. Para retirar a muita poeira da garganta, uma cerveja de produção local.

Enterrado pelas inundações

Kaifeng, situada a alguns quilómetros da margem Sul do Rio Amarelo, durante a sua existência teve uma série de grandes e graves inundações. Tal levou os governantes da dinastia Ming a construírem um sistema de diques para a proteger, o que teve resultados eficazes. Mas não foi somente a vontade da Natureza que as provocou. Em 1642, encontrando-se há seis meses a cidade cercada por tropas de camponesas revoltados e liderados por Li Zicheng, na esperança de conseguir afastar os sitiantes, o governador Ming de Kaifeng ordenou a destruição das secções dos diques que a resguardavam das cheias do Rio Amarelo. Como resultado, as tumultuosas águas rapidamente avançaram sobre a cidade e perto de um quarto dos 380 mil habitantes morreram. A cidade ficou abandonada e só passados vinte anos foi mandada reconstruir pelo Imperador Kangxi.
O Rio Amarelo continuou a ser o grande problema de Kaifeng. Em 1849, a cidade, que fora capital da dinastia Song do Norte, ficou enterrada aproximadamente dez metros. Devido a isso, não existem altas construções pois, há o medo de destruir muitos dos vestígios dessa época. Apenas dois ou três edifícios públicos, como bancos e hospital, sobressaem do casario térreo.
Após voltar a passear pela Rua das Livrarias, onde muitos edifícios da dinastia Qing existem e continuam a ser preservados, alguns ainda em madeira com paredes muito ornamentadas e onde se encontram lojas de antiguidades e umas tantas livrarias, deixo o interior da parte muralhada da cidade e sigo para Sudeste, à procura do pagode Po.
Perguntando a sua localização, estranho em encontrar muitos habitantes que, apesar de não saberem falar inglês, sabem-no ler; e não são só jovens!
Como a cidade foi constantemente destruída pelas inúmeras inundações, raros são os monumentos que sobreviveram, sendo o Pagode Po talvez o único que resta da antiga cidade. O nome do pagode vinha do apelido Po, que muita gente por aqui tinha e encontrava-se este inserido no templo Tianqing.
Construído o pagode em 977, no período da dinastia Song do Norte, com uma forma octogonal teve nove andares e a altura de 73 metros. Mas o que venho encontrar é algo muito diferente. O pagode Fan, como aparece referenciado, colapsou no início da dinastia Yuan, talvez devido a mãos humanas. Está reduzido a três andares, encimado por um terraço com um pequeno pináculo, tendo as suas paredes completamente revestidas com tijolos e cada um dos quase nove mil, com uma diferente imagem budista em baixo-relevo.
Daí sigo para a estação de comboio, que se encontra próximo.

11 Dez 2015

Tentativa inglesa de ocupar Macau

macau-antigo-av-almeida-ribeiro-iiÉ pelos documentos chineses, as chapas, trocados entre mandarins chineses e a resposta do Imperador Jiaqing durante a invasão inglesa de Macau em 1808, que Marques Pereira nos apresenta a visão oficial da China sobre os invasores.

No princípio do século XIX, por três vezes a Inglaterra tentou tomar Macau, sempre com o pretexto de vir ajudar os portugueses de uma hipotética invasão dos franceses. Mas, tal como os portugueses se opunham a tal ajuda, também os chineses não viam com bons olhos esse auxílio. A 21 de Setembro de 1808, os ingleses aqui desembarcaram e os mandarins de Guangdong enviaram vários recados contra essa estadia, só entendidos quando os chineses cessaram o comércio com a Companhia Inglesa das Índias Orientais e por isso, para conseguir reatar o comércio em Cantão, os britânicos retiraram de Macau.

A 12 de Outubro de 1808, a chapa dirigida pelo mandarim da Casa Branca ao Vice-Rei de Cantão diz:

Ao presente os ingleses têm vinte e tantos navios, ou mais, bloqueando Manila, que fica distante da ilha do Ladrão quarenta e oito kings (1440 km). Portanto o expediente de cortar os víveres a Macau não é suficiente para obrigar os ingleses a ceder. Os soldados ingleses em terra são muito fracos, nada podem, mas as suas armas de fogo são em verdade terríveis. As suas bombas de ferro, de dez, três e duas mil libras de peso, são inumeráveis. Têm também muitas de bronze, e algumas montadas em carretas de rodas com seus aparelhos completos, e podem cursar até à distância de dez, a vinte lis (5 a 10 km). Além disto trazem eles espingardas, que por si mesmas dão fogo, sem ser necessário aplicar-lhes o morrão. Têm igualmente máquinas de fogo e água, e as suas bombas para acudir a incêndios podem alcançar a cem e a duzentos côvados de distância. Também trouxeram morteiros para arremessar bombas e expugnar cidades. Conduziram mais de trezentas tendas de campanha, que armaram desde S. Paulo até Patane, de sorte que estão resolvidos a não sair de Macau, e têm já segurado todos os lugares, guarnecendo-os com soldados e armas de fogo.

Além do sobredito, também tenho sido informado de como catorze reinos, que os ingleses antecedentemente dominavam, quase todos têm seguido o partido da França, e agora só restam debaixo do seu governo Malaca, Pinão e Tipú. Madrasta e Bengala, que são as duas terras principais escolhidas pelo seu rei para capitães, são comunicáveis por terra. (Archivo da Procuratura.)

Segundo Gonzaga Gomes, a 16 de Outubro, “as autoridades chinesas pediram, com insistência, ao Governo de Macau, que fizesse sair da cidade as tropas inglesas que aqui haviam desembarcado”. Cinco dias depois, “principiaram os distúrbios entre os chineses e os soldados da força inglesa. O Procurador Manuel Pereira oficiou aos mandarins de Hèong-sán e Casa Branca, pedindo providências para a repressão dos chineses. Os mandarins responderam que não eram precisas leis para castigar crimes que não deviam existir no império, que embarcassem os ingleses e tudo ficaria remediado”. Mas só a 23 de Outubro, “o Vice-Rei Chiun-Kuan, em seu nome e das mais autoridades superiores de Cantão, participou ao Imperador o desembarque das tropas inglesas em Macau, dando também conta das providências que tomara, sem resultado, para constranger o almirante Drury a pôr termo a essa ocupação.”

Pedido aos ingleses para abandonar Macau

Segundo refere Marques Pereira, cada dia que passava desde a permanência das tropas ingleses em Macau, cresciam as dificuldades e por isso, os sobrecargas da companhia inglesa (Roberts, Patle, Brameston, Helphinstone e Baring) escreveram em 29 de Outubro ao Governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, queixando-se que ele não promovia entre os habitantes de Macau a simpatia que era devida ao auxílio britânico, nem expunha às autoridades chinesas os justos motivos da ocupação. No dia 30, respondeu-lhes Bernardo Aleixo: «Entre as difculdades que vos fiz antever, citei a inevitável complicação com os chineses. Tenho conhecimento do sistema do seu governo por longa experiência adquirida na prática; sei os vínculos que os unem a esta cidade e por isso previ o mau resultado da vossa empresa. Falei-vos com franqueza, e fui considerado como desafecto aos vossos projectos. (…) O senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da vossa expedição. Se tem havido desconfiança nos mandarins, não é motivada por este governo, pois tem patenteado com franqueza a sua correspondência.»

Os sobrecargas replicaram a 31 de Outubro: «A carta de V. Ex.a encheu de mágoa os nossos corações pelas circunstâncias em que se acham os habitantes de Macau. Tudo nasceu do comportamento do Senado. Se adoptasse o nosso sistema não teria agora de ver essas lástimas. (…) Em verdade dissemos que o almirante removeria todos os obstáculos em Cantão. Assim aconteceria se o governo de Macau se unisse cordialmente com o almirante. Os esforços que V. Ex.a promete empregar em suas representações ao governo chinês são para nós de grande valor. Sabemos que hão-de produzir bom efeito. Estamos persuadidos de que só o governo de Macau pode remover as presentes dificuldades e misérias.»

Retirada inglesa

A chapa de 4 de Dezembro de 1808, enviada pelo Vice-Rei das duas províncias do Guangdong e do Guangxi ao Almirante inglês William Drury e ao primeiro sobrecarga da Companhia Inglesa, refere o despacho do Imperador Jiaqing (1796-1820) que está concebida nos termos seguintes:

«Eu o mandarim Vú, (…) por esta declaro e faço saber a todos que, constando- -me haverem entrado em Macau tropas inglesas, dei parte desse acontecimen- to a sua majestade o imperador, cujo despacho, ou decreto, que ao presente recebi, é do teor que vai ler-se: O sun-tó Vú-chiung-kuang e mandarins de Cantão me deram parte de haverem as tropas inglesas entrado sem permissão em Macau. Esses ingleses, pretextando haverem os franceses invadido e senhoreado o reino de Portugal, seu íntimo aliado, dizem que, receando que os portugueses residentes em Macau sejam atacados pelos franceses e que o seu comércio seja embaraçado, enviaram um chefe conduzindo soldados da sua nação e navios de guerra para os ajudarem a defender-se, e também para protegerem o seu próprio comércio. Nenhuma destas palavras se pode acreditar, pois nunca houve tal costume.

A tal respeito ordeno por tanto que, se os ditos soldados e navios estrangeiros tiverem já ao presente evacuado Macau, esta pendência se haja por nda; mas, se ainda não tiverem saído, logo se expeça ordem ao sun-tó Vú-chiung-kuang e mandarins de Cantão, para que enviem escolhidos mandarins de letras e de armas, que irão como delegados a Macau intimar este decreto, e os mesmos delegados rigorosamente repreendam e castiguem, segundo as leis proibitivas da celestial dinastia, com suma severidade e sem indulgência, para com este exemplo se evitarem semelhantes atentados.

Na ocorrência de inimizade entre os portugueses e franceses, ainda que eles se combatam e matem, como isto acontece fora dos limites do império, não se intromete este nas suas contendas, nem lhes vai perguntar o motivo delas. Como porém nestes anos os estrangeiros de remotas regiões andam em guerras, se os de dois reinos entre si inimigos, combatendo-se e matando-se reciprocamente, chegarem às portas deste império e solicitarem algum adjutório, ou alívio, prestar-lho-ei sem dúvida, conforme a minha costumada piedade, mas sem a menor paixão por nenhuma das partes contendentes.

O império da China, como os demais reinos estrangeiros, todos têm marcados os seus limites de território. Devem lembrar-se de que os navios da China jamais sulcam os mares em distância, desde que foram aos países estrangeiros demarcar os respectivos limites, ao passo que os navios europeus de guerra têm ousado aproximar-se a Macau, desembarcando ai os seus soldados, o que é uma ambição e cegueira extrema.

Em quanto a alegarem que vieram para auxiliar os portugueses de Macau, receando que eles sejam atacados pelos franceses, – porventura ignoram que, habitando esses portugueses o território do império, nunca os franceses se os mesmos franceses tentassem ofender as leis da celestial dinastia, nunca as mesmas leis lho perdoariam? E que não haveria indulgência alguma para com eles, antes, pelo contrário, seriam logo destacados robustos e valorosos soldados para os combater, devastar e matar? – Sabendo-se isto, por que razão se enviaram soldados para virem prestar semelhante auxílio e protecção?

Pelo que respeita ao outro motivo alegado de se achar a costa infestada por piratas, e assim desejarem fazer serviços a este império, – devem saber que a celestial dinastia não carece de tal adjutório…

Que necessidade temos pois do seu pretendido auxilio? É manifesto que a razão da sua vinda é que, tendo visto o comércio que fazem os portugueses residentes em Macau, querem aproveitar a oportunidade que lhes oferecem as suas débeis forças, e pretendem, a título de protecção, apoderar-se de aquele território, – o que é contra as leis da celeste dinastia.

Os embaixadores da Inglaterra têm trazido presentes ao imperador celeste, e sempre se têm portado com todo o respeito e veneração. Desta vez porem os ingleses tem-se comportado nesciamente, infringindo ao mesmo tempo e gravemente as ordenações.

Na verdade excederam os limites da razão. Convém portanto fazer-se-lhes saber que se arrependidos souberem temer e retirarem com a maior brevidade os seus soldados, enviando-os para a sua terra, ainda poderá ser relevada a culpa e admitir-se a continuação do comércio. Porem, se persistirem na demora, sem obediência às leis, não só continuarão a ser-lhes fechadas as escotilhas dos seus navios, mas também se lhes mandará fechar entrada de Macau, privando-os de mantimentos. Enviar-se-ão além disto numerosas tropas para os cercar e prender. Então se arrependerão sem remédio. (…)

Se vós, os chefes dos ditos estrangeiros souberdes temer e vos arrependerdes, mandando sair os soldados, poderei então dar parte ao meu grande imperador, rogando-lhe que, por muito especial graça, vos permita a continuação do vosso comércio. Mas se, pertinazes e obcecados, não mudardes de sentimentos e insistirdes na demora, não me restará então outro expediente mais do que, obedecendo ao imperial decreto, dispor e ajuntar um numeroso exército, com o qual vos mandarei cercar e prender a todos. Obedecei pois prontamente, para não vos arrependerdes depois.»

Marques Pereira refere ter achado esta tradução numa colecção particular de manuscritos, que “hoje me pertence. Ai se diz que a foi entregue em mão própria, neste mesmo dia 4 de Dezembro, em uma das ilhas deste arquipélago, vizinha de Hang-fui, ao primeiro sobrecarga da Companhia, Roberts, pelo governador da cidade de Cantão e por um mandarim militar de graduação superior, os quais todos se reuniram ali para o acto, achando-se presentes os capitães dos navios da Companhia.”

Gonzaga Gomes adita que a 17 de Dezembro o Ouvidor Arriaga conseguiu fazer reembarcar o corpo expedicionário inglês do almirante Drury. Mas segundo Montalto de Jesus: “A 18 de Dezembro o mandarim de Heangshan informou o procurador de que se à meia-noite ainda lá estivessem as tropas inglesas, o exército chinês entraria em Macau, em conformidade com o decreto imperial. O embarque, que estava então a ser feito, completou-se a 19, para alívio e alegria da cidade. Então, o mandarim insistiu na imediata partida do esquadrão. Antes de partir o contra-almirante Drury manifestou o seu reconhecimento a Lemos Faria, cujas declarações, admitia ele agora, eram verdadeiras e justas.”

A 1 de Janeiro de 1809, o Vice-Rei de Cantão fez “saber a todos os europeus que, por desembarcarem soldados ingleses em Macau, jamais se lhes devia permitir comerciar neste império. Contudo, lembrando-nos que o seu rei oferecera tributo ao nosso imperador, relevamos a ofensa que nos fizeram pela sua entrada em Macau. Agora, depois de enviarem os soldados às suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos, perdão com muita humildade, afim de se lhes permitir comerciar neste império. Conhecendo a misericórdia do nosso imperador, cedemos às repetidas súplicas das sobrecargas, deixando que desembarquem as suas mercadorias e possam vende-las nesta cidade. Devem receber esta graça como um benefício extraordinário. Vê-se que as leis chinesas têm enfraquecido com o tempo; mas no futuro haverá mais rigor. De aqui em diante, se algum europeu se atrever a quebrar as leis do império, será expulso para sempre.”

Quarenta anos após este episódio, os ingleses vieram fazer guerra à China, ficando ela conhecida pela I Guerra do Ópio.

4 Dez 2015

Cidade Ligada ao Grande Canal

Na província de Jiangsu, numa viagem de uma hora de autocarro desde Suzhou, chego a Wuxi. A noite já tomava conta da cidade, quando procurei um hotel nas imediações da praça onde se encontra a estação de autocarros e do comboio, ambas próximas uma da outra. Questionando sobre alojamento ali próximo, falam-me de uma pensão para a juventude, o que até então nunca tinha experimentado, já que estas, só apareceram na China nos finais do século XX. Pouco andei para aí chegar. O quarto é rudimentar, mas resolvi ficar, apesar de por aquele dinheiro poder usufruir de um bom quarto, num normal hotel e por um pouco mais, ter quarto de banho no quarto. Estou na avenida principal da cidade de Wuxi e para além de muitos centros comerciais com lojas de roupa de marca estrangeira, apenas encontro dois locais de comida rápida, muito plastificada no seu aspecto. Como mau sinal, à entrada de um deles, alguém tinha “deitado carga ao mar”, o que me retira logo a vontade de comer, apesar de prontamente ter sido limpo o chão. Assim, procuro uma pastelaria e após comprar algo para afagar o estômago, recolho à pensão. Sentado na sala de convívio onde a televisão se encontra ligada, na companhia de outro hóspede, empurro umas buchas com água quente enquanto converso com esse jovem chinês, que ali vive há um mês. Tinha arranjado trabalho na cidade, depois de formado em Engenharia nos Estados Unidos da América e agora ganha currículo e dinheiro, enquanto tenta perceber qual será o negócio a investir. Sugiro-lhe pensar em algo ligado ao ambiente, como reciclagem do lixo ou limpeza de água, já que olhando os últimos anos, por aí será seguramente uma das necessidades básicas e um negócio promissor.
A noite foi de um longo pesadelo, muito devido aos mosquitos e só com a luz acesa consigo ter sossego. Às seis e meia da manhã deixo um dos locais de hospedagem onde passei uma das piores noites de sono que tenho memória. Com a mochila às costas, algo que deixou de estar em moda, mas que dá muito jeito pois, deixa-nos as mãos livres, sigo caminho para a estação. A vontade é de apanhar um transporte e prosseguir viagem para outra cidade, de tão mal-humorados que estou. Mas pensando a razão da visita, que traz o lago Tai como um dos lugares a não perder, deixo a mochila guardada na estação dos caminhos-de-ferro.
Partir ou ficar mais uma noite, só terá resposta depois, pois aguardo que a cidade me surpreenda e traga vontade para a explorar. Agora quero saber como chegar ao Lago Tai. A sorte parece estar do meu lado. Há um autocarro directo para o Taihu (hu=lago) a partir da praça defronte à estação. O preço do bilhete é de dois yuan para fazer os cinco ou seis quilómetros de viagem. Rumando para Sudoeste, o autocarro atravessa as pontes sobre os canais e é quando percebo a razão de tantos mosquitos.

Uma viagem pela memória

Na primeira estadia em Wuxi, fora-me indicado para pernoitar o hotel da Universidade, situado junto ao lago Tai, pois decorria um período de festas e não havia um só quarto livre na cidade.
Enquanto vamos torneando, recordo a viagem no autocarro número 2 feita há dez anos a caminho da Universidade. Wuxi converteu-se numa pretensa cidade moderna, cheia de prédios e centros comerciais, perdendo o cariz que tinha outrora com a sua atraente e antiga arquitectura. Poderia compreender que nessa altura muitas das casas não tinham condições de habitabilidade mas, poder-se-ia ter recuperado Wuxi com outro tipo de matriz. Agora a cidade está igual a tantas outras espalhadas pela China. Atravessando pontes, revejo os canais anteriormente visitados e constato terem perdido a sua grande animação. As margens estão agora limpas dos barcos que ali estiveram estacionados durante anos a servir de habitações e armazéns. Actualmente, pelos canais apenas navegam alguns cargueiros e a vida nos canais já não se distingue da existente em outras partes do Grande Canal.
Fora próximo da Universidade que, de barco, dera uma pequena volta pelos recantos do lago Tai, quando o turismo ainda estava maioritariamente virado para os estrangeiros e poucos eram os chineses que tinham hipóteses de usufruir o encanto das paisagens do seu país. Tivera a companhia de um grupo de reformados chineses e deliciosamente o pequeno barco foi passando tranquilamente por campos de milho, arrozais e fábricas, muitas delas abandonadas, talvez para serem reestruturadas pois, nessa altura, começava a reforma industrial com a vinda de muitas empresas de Singapura e de Hong Kong. Poderia ser também para as retirar daquele idílico local e assim vocacioná-lo para o turismo.
Connosco viajou um professor de História que se tinha reformado e me foi contando as origens da cidade.
Estava-se no século XI a.n.E., quando, nos finais da dinastia Shang (1600-1046 a.n.E.), Tai Bo e Zhong Yong, dois príncipes irmãos do Rei Tai (Gugong Tanfu) do reino de Zhou, ao emigrarem do Noroeste da China para junto do Rio Yangtzé, fundaram Gouwu, ou simplesmente reino Wu. Já com a dinastia Zhou no poder, fizeram do local de Wuxi a sua capital, com o nome de Youxi, que significava local com estanho. Zhong Yong encontra-se sepultado no monte Yu, junto ao lago Shang, em Changshu, a Norte de Suzhou, que nessa altura se chamava Wu. Já Tai Bo tem um pavilhão em sua honra, próximo da cidade, em Meicun, local onde se fez a cidade, cujo nome de então era Meili.
A cidade ganhou tanta projecção que mais tarde, no Período dos Reinos Combatentes, aqui aconteceram muitas batalhas entre os reinos de Yue e Wu.
Em 584 a.n.E., o reino de Wu, aprendendo a atirar com o arco e a usar cavalos e carroças para a guerra com o reino Jin, foi construindo aos poucos a sua força, ao mesmo tempo que entrava em contacto com os reinos do Norte. Wu era um pequeno reino em Jiangnan em torno da capital Youxi (Wuxi), mas em 514 a.n.E., Wu, a actual Suzhou mudou o nome para Helu e após grandes obras, mandadas fazer por ordem do Rei He Lu, tornou-se capital do reino.
Um general do reino Chu, Huang Xie, foi enviado para reconstruir a cidade de Youxi, destruída pelas constantes batalhas. O nome de Wuxi (sem estanho) aparece na dinastia Han, quando o país estava reunificado e significa que o estanho tinha acabado. Ganhou importância na dinastia Tang devido à existência de Jiangyin, um porto fluvial do Grande Canal, ficando desde então ligada a este enorme corredor de água.
Na vizinhança de Wuxi e Suzhou, o grande lago Tai (Taihu), um dos cinco, talvez o terceiro maior lago de água doce da China, com uma área de 2400 m², uma profundidade de dois metros e quarenta e oito ilhas, estava já ligado no século V a.n.E. ao Changjiang, como os chineses chamam ao Rio Yangtzé.
As duas horas de passeio pelo lago Tai tinham deixado na memória a vontade de voltar e saber o que aí tinha sido realizado.

O Lago Tai

Agora aqui estou, seguindo no autocarro número 1, atravessando extensos lençóis de água para ser depositado à entrada de um parque de estacionamento onde, mudando para o autocarro do recinto, sou levado ao Parque da Cabeça de Tartaruga. Pelo número de autocarros com excursões e de pessoas que esperam em fila para comprar o bilhete de entrada, percebo que as memórias que trago estão muito longe do tempo.
Nestes últimos vinte anos, o turismo foi uma das indústrias que mais rapidamente se desenvolveu na China, sendo actualmente o primeiro país da Ásia em número de visitantes. Os chineses tornaram-se turistas no seu próprio país e têm vindo exponencialmente a aumentar. A China está a renovar as suas estruturas turísticas e a diversificá-las e por todo o lado se percebe a atenção que está a ser dada a esse sector, ligando-a com a renovação dos transportes, da parte hoteleira, dos templos e parques.
Pago a entrada para ter acesso a uma península, onde como Paraíso se esquece o mundo deixado para trás, que foi local visitado por imperadores e desde 1918 criado como parque. Encontro-me no Promontório da Cabeça de Tartaruga (Yuantou Zhu) aberto todos os dias das sete da manhã às cinco da tarde.
Os pessegueiros e ameixoeiras floridos com brancas e lilases flores envolvem pontes e rochas numa formação de jardim natural onde não falta a criação humana entrosada na natureza, assim como um templo budista.
Os barcos que antigamente enchiam as águas do lago começaram a rarear e agora, com as antigas velas em leque e feitas com bambu, poucos são os que ainda aqui navegam. Logo à entrada de Yuantou Zhu, um estaleiro prepara uma nova embarcação a imitar as antigas, mas transformada para acolher os turistas que se deliciam pelas águas do lago e vão em visita à Ilha de Sanshan.
Uma pequena embarcação a remos aproxima-se da margem do cais e um casal idoso tenta vender o peixe fresco, acabado de pescar.
Taihu é famoso pelas esculturas naturais de pedra, que nas suas águas longamente foram esculpindo. Actualmente, nas margens do lago encontram-se muitos depósitos dessas pedras que são colocadas dentro da água para serem corroídas e ganharem as formas abstractas com que são reconhecidas.
Após horas pelas margens do lago, resolvo sair por outra das pontes, que me leva até onde na primeira vez andei.
Falam-me numa plantação de amoreiras na parte Nordeste do lago, que é fertilizada com os excrementos dos peixes e caranguejo. Passeando, chego a uma parte lodosa, devido à descida do nível das águas e me deixa muito longe dela. Já os velhos barcos de recreio, agora encalhados, indicam terem as águas do lago recuado muito. Estátuas gigantes de caranguejos estão dispostas num relvado envolto por árvores. Não são as amoreiras que pretendia encontrar, mas o terreno serve na perfeição como habitat dos caranguejos.
Parece prepara-se aí já algo, pois está a ser dragada o terreno agora seco junto a alguns restaurantes, também a serem remodelados. Lembro-me de ter provado há dez anos esses famosos caranguejos, que fazem as delícias nos restaurantes de Shanghai.
Ao fim da tarde volto a Wuxi e com a cidade sem o antigo carisma, sobretudo vivido ao longo do Grande Canal, recolho a bagagem e sigo viagem a caminho de Yixing, no outro lado do lago Tai e famoso por ser um local de artistas que trabalham o barro fazendo artísticos bules de chá.

29 Nov 2015

Guia é o melhor circuito do mundo – ao volante com André Couto

“Cada piloto que correu em Macau diz que a Guia é o melhor circuito do mundo”, assim refere André Couto, vencedor no ano 2000 do Grande Prémio de Macau de F3 e o mais acarinhado piloto da população de Macau afecta ao automobilismo pois, foi o único residente a vencer esta prova no Circuito da Guia. Quem concorda plenamente com André Couto é Edoardo Mortara, que adita ter já corrido nos mais famosos circuitos do mundo como o Mónaco, Monza e SPA, mas para ele esta é a melhor pista do mundo. E continuando com o primeiro piloto a vencer por duas vezes a fórmula 3 do G.P. de Macau e que desde 2009 tem a volta mais rápida ao circuito com 2 minutos 10,732 segundo: “nenhum piloto chega a Macau com melhor conhecimento do circuito que os outros pois, facilmente pode ser apanhado desprevenido por troços de estrada refeitos.”
O desafio é grande na preparação de um carro para conduzir num circuito urbano misto, de zonas rápidas e planas, com outras lentas, a contornar as encostas de montes. Segundo André Couto, o Circuito da Guia tem duas partes distintas: “as zonas sinuosas das colinas e as zonas baixas de alta velocidade” e “em Macau é fundamental ter um bom motor uma vez que as altas velocidades são muito importantes e na zona das subidas (na secção superior) foi onde ganhei parte do tempo.”
Com uma enorme experiência no desporto automóvel, André Couto, nascido em Lisboa a 14 de Dezembro de 1976, veio de Portugal com a família e chegou a Macau com quatro anos. Tendo começado no karting, onde se sagrou campeão nas Filipinas em 1994, foi no ano seguinte correr para a Europa na fórmula Opel Lotus, competição realizada com carros iguais onde, no circuito de SPA-Francorchamps na Bélgica, em equipa com Manuel Girão, venceu a Taça das Nações. Em 1996 estava já no campeonato alemão de F3, seguindo para o italiano no ano seguinte. Participou por seis vezes no Grande Prémio de Macau de F3, onde venceu no ano de 2000, tornando-se o primeiro campeão local da História. Venceu ainda os 1000 km de Suzuka em 2005 e este ano, 2015, sagrou-se campeão no Japão da série Super GT.

Dia de treinos e de qualificações

Chegados à sexta-feira, o circuito traçado pelas ruas e avenidas da cidade fecha ao trânsito às seis da manhã para se realizar a limpeza total e a vistoria das vias usadas nas corridas. Sem ter terminar o mês de Outubro, já partes do traçado fora asfaltado e colocadas a maioria das barreiras metálicas ao longo da pista. Esse trabalho, que chegou a ser feito à noite, é actualmente realizado durante o dia para não incomodar o sono dos residentes. Deixam-se para serem fechadas nos dias que precedem o Grande Prémio as entradas de ruas importantes para o quotidiano trânsito, tal como a colocação das pilhas de pneus e os longos cilindros feitos de rota de protecção às curvas mais perigosas, assim como a montagem da passagem superior para peões em frente à Curva de S. Francisco.
Desde que o Grande Prémio de Macau começou, o circuito manteve-se sempre o mesmo percurso, apenas com poucas transformações. Aqui deixamos a descrição do traçado apresentado do 1.º Grande Prémio de Macau. Com partida do Porto Exterior, frente à Ponte 2 da Capitania dos Portos, seguindo pela Estrada de S. Francisco, Estrada dos Parses, Cacilhas, Ramal dos Mouros, D. Maria, Rua dos Pescadores, Macau-Seac, vindo a acabar na Avenida Oliveira Salazar, no ponto da partida. Esta fidelidade a um traçado romântico de tempos antigos, que desperta uma emoção inigualável e apenas tem comparação com o do Mónaco, traz o fascínio a pilotos e equipas.

Uma volta com André Couto

Devido à enorme experiência de André Couto no Circuito da Guia, tanto na condução de um F3, como em Carros de Turismo, onde vem correr todos os anos, aproveitamos aqui para, usando as suas palavras registadas num placard que encontramos no edifício do Grande Prémio durante as provas de 2013, nos servir como condutor cicerone e dar uma volta ao circuito.
Saindo da zona do ‘pit lane’, as máquinas aproveitando a parte plana e rápida do circuito vão acelerando pois a curva do Mandarim é suave e não traz grandes problemas. Segundo André Couto:

“A Curva do Mandarim Oriental para os F3 é fácil podendo inclusivamente passar dois carros ao mesmo tempo. Mas com os Carros de Turismo é a curva mais difícil do circuito. Chega-se em sexta velocidade, com estabilidade e a cerca de 240 km/h, é preciso travar para reduzir um pouco a velocidade e aumentar o peso na frente da viatura, para ter um bom controlo na curva. Não é preciso reduzir. Não é de forma alguma plana para carros de Turismo e tem de se travar um pouco antes de virar, caso contrário, perde-se o controlo. O carro foge com facilidade, sendo empurrado para fora. Quando se sai, o carro passa realmente muito perto do muro.”

Ganhando cada vez mais velocidade e já de frente para o Hotel Lisboa, aparece a apertada curva e as travagens nos limites, deixam as marcas dos pneus no asfalto. A bancada, nessa curva de ângulo recto, permite aos espectadores delirarem com a visão do espectáculo e não há prova alguma em que não haja emoção. Impressionante é o trabalho rápido com que a pista é desimpedida e limpa, muitas vezes permitindo não interromper a corrida.

“A famosa Curva do Lisboa é uma curva com 90° e chega-se lá a alta velocidade. Entre a linha de Partida/Chegada e o Lisboa são cerca de trinta segundos em F3 com rotação máxima, o que é muito importante para o motor. É um pouco menos rápido em Carros de Turismo, pois é preciso usar o travão no Mandarim. Reduz-se da velocidade máxima para segunda, fazendo uma travagem brusca.”

A pista afunila na pequena recta da Avenida de Lopo Sarmento de Carvalho e com a Curva de S. Francisco, semelhante à anterior, entra-se para a zona montanhosa, que engloba três das sete colinas da cidade.

“Depois é necessário engrenar a terceira velocidade para fazer a Curva de São Francisco. É importante ir o mais rápido possível para nos mantermos em altas rotações até à colina. Pode realmente ganhar-se tempo, se se estiver empenhado e acelerar ao máximo.”

A Estrada de S. Francisco começa na confluência entre a Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues e a Rua da Praia Grande, em frente das avenidas de Lisboa e de Lopo Sarmento de Carvalho, e termina na Estrada dos Parses.
Subindo a encosta pela Estrada de S. Francisco, após passar entre o Miradouro de Nossa Senhora da Saúde, à direita, e o edifício do Hospital de S. Januário, esta muda de nome e fica a ser a Estrada dos Parses. Como continuação da Estrada de S. Francisco, a Estrada dos Parses termina em frente da Estrada do Engenheiro Trigo, entre a Calçada da Vitória e a Estrada de Cacilhas. Com outra curva de 90 graus, conhecida pela Curva da Maternidade, entra na Estrada de Cacilhas, onde está o miradouro de Nossa Senhora do Mar, onde se entra no Monte da Guia pela vertente Sueste.

“Antes da Curva da Maternidade, está-se a cerca de 200 km/h, muito rápido e na quinta velocidade. No momento em que se tem de pôr o pé nos travões, está-se no cume de uma elevação e o carro no ar. É uma zona de travagem muito difícil, onde é fácil perder controlo do carro e cometer um erro. Na Curva da Maternidade tem de se reduzir para segunda para as curvas mais lentas, normalmente mais propícias para desvios de direcção.”

Começa aí a Estrada de Cacilhas, que já foi conhecida pelo nome de Estrada da Solidão, por haver na margem esquerda da via uma fonte com esse nome, tendo esta três curvas rápidas conhecidas pelos esses da Solidão.

“Depois, a descida em direcção aos esses da Solidão. Há três curvas muito interessantes em terceira, com um grande muro mesmo ali. Muito agradável para conduzir. É difícil, mas o piloto pode aqui fazer a diferença. Aceleramos à saída em terceira e seguimos para a próxima curva na mesma velocidade, rápido à entrada e saída. Na saída da curva, não se deve ficar muito longe da parede, pois estamos a ir para a parte mais acelerada da colina.”

A ligar o Monte da Guia e a Colina de D. Maria II está o Ramal dos Mouros e a meio desta rua, cortando outra vez para a direita, passa-se para a Estrada de D. Maria II, que contorna a colina com a curva com o nome de uma Rainha de Portugal, D. Maria da Glória, que reinou entre 1834 até 1853 com o cognome A Educadora.

“A abordagem da Curva Dona Maria, a descer chega-se a uma velocidade de 200 km/h, pisa-se os travões e reduz-se para a segunda velocidade. Se travarmos muito tarde, vamos definitivamente em frente e batemos. Nesta zona tem de se fazer tudo mais cedo do que se pensa que é possível, antes de se abordar o pequeno salto. Se reduzimos ou travamos tarde de mais, uma vez que o carro está no ar, não se consegue fazer mais nada.”

Chega-se à parte mais estreita e lenta do circuito, o gancho, que numa rotação de 180 graus, dá entrada para a Rua dos Pescadores, para de novo chegar à parte rápida do circuito, construído sobre o aterro do Porto Exterior.

“Então chegamos à Curva do Gancho MELCO. Não é muito difícil, mas é uma viragem muito técnica. Chega-se muito rápido e tem de se reduzir rapidamente para primeira. À entrada da curva, todos os carros fazem mais ou menos o mesmo. Mas à saída, assim que podemos, aceleramos ao máximo para atingirmos maior velocidade. Pode-se ganhar ou perder meio segundo entre a zona da Melco e a linha de partida/chegada. Vamos da primeira à quinta velocidade para, o mais rápido possível, se ter o máximo da potência à saída. O piloto precisa de pensar nas duas curvas, mas se o carro é veloz e nervosos, tudo será mais fácil. São rectas grandes e longas. Aqui há tempo para respirar novamente, já que se pode seguir a direito em quinta velocidade até aos Pescadores, onde entras em terceira e, usualmente, a pista tem muitos ressaltos.”

A Rua dos Pescadores em descida, após duas rápidas curvas, continua numa recta até à Curva R e daí, já na Avenida da Amizade chega-se à recta da meta.

“A saída dos Pescadores é importante para se ganhar mais velocidade de ponta até à curva, onde se chega na quinta velocidade e, à curva em terceira. A velocidade máxima da Curva R até ao Mandarim, no caso de Carros de Turismo (ou Curva do Lisboa em F3) depende muito da velocidade à saída daquela curva. Depois desse cotovelo, é tudo recta e, por isso, o carro e o piloto que sair dessa curva mais rápido pode atingir uma velocidade de ponta – consegue ser cinco quilómetros mais rápido.”

Com o segundo dia de treinos realizados, regressam os carros às boxes. Meia hora após a realização da última prova do dia, volta o trânsito da cidade a poder usar as ruas e avenidas do circuito.

20 Nov 2015

O primeiro Grande Prémio de Macau

Por iniciativa de três residentes de Macau, Fernando de Macedo Pinto, Carlos Humberto da Silva e Pires Antas, na Primavera de 1954 ficou resolvido realizar-se uma corrida entre amigos. Mas à ideia inicial de uma prova de regularidade-velocidade veio-se juntar, pelo entusiasmo de Paul du Toit ao ver a qualidade do traçado do circuito e a parecença com o do Mónaco, a realização de uma corrida de velocidade. Colocada como primeira hipótese, uma prova de resistência de 24 horas, tipo Le Mans, mas por não haver carros suficientes, pensou-se depois numa corrida de duas horas, o que não despertava grande interesse devido às grandes despesas na vinda dos carros de Hong Kong. Paul du Toit conseguiu convencer a organização a pensar na realização de um Grande Prémio de carros e garantiu que, caso viesse a materializar-se esse projecto, só de Hong Kong viriam pelo menos vinte concorrentes com os seus respectivos carros. Carro vencedor de Ed Carvalho Museu GP
O programa foi apresentado por Carlos H. da Silva em 17 de Julho de 1954, na conferência de imprensa no café do Hotel Riviera. Além de falar na prova de regularidade-velocidade para comemorar a criação da Delegação de Macau do Automóvel Clube de Portugal, foi ainda referida a realização do Grande Prémio de Macau. Na reunião encontravam-se ainda outros quatro entusiastas do automobilismo, Srs. Capitão Júlio Augusto da Cruz, Capitão-Tenente Pires Antas, Agente Técnico Macedo Pinto e Dr. António Nolasco da Silva, os fundadores da Delegação de Macau do A.C.P.
Uma semana depois, já se explicitava ser uma corrida de velocidade, tipo Le Mans reduzido e o vencedor absoluto era quem fizesse o maior número de voltas ao circuito, durante quatro horas consecutivas. A corrida, denominada Grande Prémio de Macau, realizar-se-ia a 31 de Outubro, sendo o circuito, então descrito com 3,9 milhas, denominado Circuito da Guia. Como estes cinco organizadores não poderiam, só por si, dar conta do recado, solicitava-se aos desportistas e entusiastas por automobilismo, que viessem colaborar para as funções de juízes, fiscais, directores, adjuntos, etc..

Regulamentos para a corrida

De tal maneira foi grande a receptividade a nível regional que, todos os quartos dos hotéis da cidade nos finais de Setembro estavam já reservados para o fim-de-semana das corridas. Por isso, no início de Outubro, apareceram nos jornais de Macau anúncios solicitando a quem tivesse quartos de casal e singulares para alugar nos dias 29, 20 e 31, que contactasse com o Dr. António Nolasco.
Os regulamentos da prova, divulgados no princípio de Outono, referiam que para a prova do Grande Prémio poderia participar qualquer Carro de Turismo, de fabrico corrente, ou qualquer carro de desporto ou especial, entendendo-se por carro de desporto, o que é vendido pela fábrica sob tal rubrica, com ou sem modificações introduzidas pela mesma fábrica e por carro especial, um carro de fabrico corrente modificado pelo concorrente da forma que melhor entender para melhorar o seu rendimento. As viaturas seriam divididas pela sua cilindrada. As inscrições gratuitas para o Grande Prémio deveriam dar entrada até ao dia 11 de Setembro, mas de 12 a 22 de Setembro seria de $50,00. Só era permitido usar gasolina 85/90 octanas.
Os condutores eram prevenidos de que lhes estava vedado qualquer auxílio prestado por estranhos, sob pena de desclassificação. As viaturas seriam devidamente inspeccionadas pelo Clube, podendo exigir aos concorrentes que obedecessem aos requisitos julgados indispensáveis, sendo excluído das provas quem não obedecesse. Seriam permitidos dois corredores por cada viatura.
O percurso com partida do Porto Exterior, frente à Ponde N.º 2 da Capitania dos Portos, seguia pela Estrada de S. Francisco, Estrada dos Parses, Cacilhas, Ramal dos Mouros, D.ª Maria, Rua dos Pescadores, Macau-Seac, vindo a acabar na Avenida Oliveira Salazar, no ponto da partida.

Locais para assistir às provas

Ao longo do mês de Novembro, nos jornais apareceram avisos a proibir as pessoas de atravessarem a pista do circuito durante as horas de treino e das corridas, a não ser pelas pontes. Pedia-se a quem tivesse cães, porcos, cabritos, para evitarem a todo o transe que os mesmos atravessassem a pista, porque poderiam ser igualmente a causa de desastres de funestas consequências. A entrada dos espectadores far-se-ia por uma única via, situada junto da Calçada de S. Francisco onde funcionariam as bilheteiras, devendo os espectadores atravessar uma ponte dupla construída para esse fim. Havia duas outras pontes mais pequenas, uma junto do Ramal dos Mouros, para uso da unidade militar ali aquartelada e outra, junto do posto central, para uso dos comissários e director de corrida. Na Avenida Dr. Rodrigo Rodrigues, já dentro da pista e sem perturbar o movimento no circuito, circulariam cem triciclos para uso exclusivo dos espectadores.
Em frente ao posto náutico (antigo pavilhão da Pan-Americana, hoje ao lado do Hotel Casino Waldo) foram construídas quatro bancadas, cada uma para quinhentas pessoas, sendo duas delas pagas pelo Sr. Ho Yin. Os bilhetes começaram a ser vendidos no dia 25 de Outubro na Firma H. Nolasco & Cia., Hotel Riviera e Pousada Macau. Na bancada central, o preço era de $7,50 e nas laterais de $5,00. Havia ainda, no recinto do Clube Náutico, por acordo com a Comissão do G.P., cadeiras a $2,50 cada uma, com mesa e $1,50 sem mesa, tendo os sócios entrada livre no Clube. Em toda a extensão dos terrenos conquistados ao mar no Porto Exterior, desde S. Francisco até as bancadas, havia lugares para peões, ao preço de $0,50 por pessoa. Junto das bancadas vendia-se farnéis com sanduíches, bolos, fruta e bebidas, a preço acessível.
Entre a bancada central e a primeira bancada lateral funcionavam os poços dos automóveis, para os mecânicos ali fazerem os consertos, colocar combustível e outras beneficiações nos carros das provas durante as corridas. Para os representantes da Imprensa estavam reservados lugares junto ao Posto Central, podendo eles e os fotógrafos, quando munidos dos emblemas, servir-se da ponte levantada junto do posto e destinada aos juízes das provas. O posto central, instalado junto do local da partida, era onde os locutores davam ao público todos os pormenores segundo o andamento das corridas, existindo aí o quadro com a classificação dos corredores. À volta de todo o circuito havia ainda quatro postos de ambulância, nove de remoções, quatro de socorros (incêndio), dez postos sinaleiros e treze de telecomunicações, ligando estes directamente ao posto central, onde se encontravam os comissários, o director de corrida e outros juízes de provas.
No dia 28 de Outubro, chegaram de Hong Kong os primeiros cinco carros participantes nas corridas e os restantes vieram no dia seguinte.

O Primeiro Grande Prémio de Macau

Chegava o tão desejado 31 de Outubro de 1954. Os treinos tinham-se efectuado no dia anterior, pela manhã entre as 8 horas e as 9:30, pois foram adiados uma hora, e na parte da tarde, quinze minutos após terminada a prova de regularidade-velocidade, realizaram-se durante mais uma hora e meia. Dos vinte e cinco concorrentes que se tinham inscrito, três tinham desistido, um outro encontrava-se em Inglaterra e o quinto, de Hong Kong, sofrera um grave desastre. Assim, no primeiro dia de treinos, no sábado 30 de Outubro, estiveram vinte pilotos mas, devido a três deles sofrerem acidentes, ficaram dezassete para realizar os treinos do dia seguinte. Eram eles, conforme a ordem que observariam na partida, na categoria de carros de desporto ou especiais: Pennels, número 9, num Austin Healy 100; com o n.° 7, Bell num Morgan; seguiam-se os concorrentes a pilotar um Triumph TR2: Reginaldo Rocha n.° 14, Lauder n.° 10, Paul du Toit n.° 8 e Eduardo de Carvalho n.° 5; a correr num M.G. Special, Macedo Pinto n.° 11. Já na categoria de carros de turismo: White n.° 25 e Wilson n.° 2 pilotavam um Riley 2 ½; a conduzir um Ford Zephyr estavam Ferry n.° 18, Roseveare n.° 12 e Fong n.° 3; Reynolds n.° 17 guiava um Citroën e Rediern Steane n.° 26 um Hilman; Astwood n.° 20, Robert Ritchie n.° 19 e Wen Lenard n.° 4, conduziam um Fiat 1100. Todos os corredores tinham que completar pelo menos uma volta em treino oficial, conduzindo o carro da prova em que se inscreveram. Já nos treinos dessa manhã, realizados das 8 às 9 horas, mais dois carros ficavam pelo caminho. gp1954
A prova, anunciada para começar ao meio-dia, era aguardada com enorme interesse por milhares de espectadores. Meia hora antes de começar, estavam pilotos e viaturas no parque automóvel e por ordem do juiz de partida, foram colocados os quinze carros nas suas posições. Primeiro os carros de desporto e depois os carros de turismo, seguindo a ordem da cilindrada, mas todos paralelos uns aos outros e com a frente voltada para o mar.
Com os concorrentes de pé em frente aos carros respectivos, pois a largada era tipo Le Mans onde todos partiriam em simultâneo, após os intervalados três sinais, de minuto a minuto, dados pela sereia para iniciar a prova de quatro horas o Governador baixou a Bandeira Nacional, dando a partida.
O vibrante relato foi narrado no Clarim de 4 de Novembro por S.F.: “Ao sinal de largar, correram todos para os carros, uns saltando para dentro destes, outros, abrindo rapidamente a portinhola ao mesmo tempo que punham o motor a funcionar. Esta emocionante partida valeu por todo o resto da prova.”
Com uma rapidez de relâmpago, o corredor G. J. Bell, num Morgan de 2088 c.c., em menos de 30s já se encontrava no circuito. A seguir, largaram dois carros de turismo, depois o Triumph de Carvalho, seguido de mais dois outros da mesma marca. O Austin conduzido por R. Pennels, o carro mais potente da prova, com 2660 c.c., perdeu imenso tempo na largada, assim como o M. G. Special do único corredor de Macau, Macedo Pinto, que, segundo contou depois, no meio da excitação se esquecera de destravar o carro.
O Morgan, rapidíssimo, tomou logo a dianteira, fechando a primeira volta com quase um terço do percurso de avanço sobre o segundo. Porém, antes de fechar a 5.ª volta, ao passar junto da guarita que fica na curva do reservatório de água, saiu-lhe uma roda ao carro, vindo a ficar inutilizado para o resto da prova. Bell, contudo, nada sofreu pois, a viatura, apesar da velocidade que trazia, vinha encostada ao muro do Porto Exterior, tendo o condutor a presença de espírito de não largar o volante e conduzir o carro travado até parar completamente, mas já na rampa que desce para a água. Numa excelente prova de desportivismo e cavalheirismo, Paul du Toit, ao passar junto da bancada central, antes da sua 5.ª volta, abrandou a marcha para dizer à esposa de Bell que estava tudo bem e nada acontecera ao marido. Com isto, Toit perdeu uns quarenta segundos e para a sua frente passaram alguns concorrentes.
A prova continuou com o Austin de Pennels na dianteira, seguido dos Triumph. Atrás vinham os carros de turismo comandados por Ritchie e entre eles, o MG de Macedo Pinto. Contudo, à 8.ª volta Pinto achava-se à frente de todos os carros de turismo. À 11.ª volta, Pennels parou o Austin junto dos poços, para substituir uma roda. Passou então a comandar o Triumph n.° 5 de Carvalho, seguido por Toit n.° 8 e Rocha n.° 14. Atrás, vinha Pinto n.° 11 e Ritchie n.° 19, estando os restantes mais atrasados, com Lenard n.° 4 na cauda.
Tendo completado a 14.ª volta, o Austin de Pennels sofreu um acidente perto da ponte em frente ao Quartel de S. Francisco e ficou inutilizado para o resto da prova. Valeu a perícia do condutor que, com presença de espírito conseguiu, após manobras dificílimas, tirar o carro da direcção da área onde se encontravam dezenas de espectadores, acabando por embater contra um poste.
No circuito havia agora treze carros. Entre o n.° 5 de Carvalho e o n.° 8 de Toit travava-se luta tremenda para conquistar o comando. O n.° 5, não largava a dianteira, nem o n.° 8 o seu intento de o ultrapassar. Luta que manteve a assistência emocionada. Entretanto, Pinto, n.° 11, prosseguia na prova com uma grande regularidade e perdendo sempre terreno seguia o Triumph de Rocha n.° 14. Atrás, vinha Ritchie sempre fugindo dos restantes. Entre estes, salientam-se o Fiat 1100 de Astwood e o Hillman de Steane n.° 26.
A cerca de duas horas da prova, o efectivo dos carros em competição baixou para doze, em virtude da desistência do n.° 25, um Riley conduzido por A. White, o qual teve uma avaria mecânica, depois de completadas vinte voltas.
Até ao fim da prova não se registou mais nenhuma desistência nem acidente. Digna de menção foi a perícia do Capitão J. Ferry, n.° 18, num Ford Zephyr, que fez as últimas trinta voltas sem travões no carro, continuando a prova sempre na mesma cadência. De todos os carros, os únicos que não pararam nenhuma vez junto dos poços foram os três conduzidos pelos portugueses, Eduardo de Carvalho, Reginaldo da Rocha e Macedo Pinto.
Esta descrição foi baseada, com ligeiras diferenças, do que o repórter S.F. fez da prova e seria uma falta ficar esquecida, de tão viva é a sua narração.
Ao fim de 4 horas 3 minutos e 19,1 segundos de prova, a bandeira de xadrez foi mostrada à passagem do Triumph TR 2, n.° 5, conduzido pelo português Eduardo de Carvalho. Estava encontrado o vencedor absoluto do 1.° Grande Prémio de Macau, que, após a volta de consagração, recebeu a taça das mãos de Sua Exa. o Governador, que a mandara fazer em Lisboa e custara cerca de $1200. Já a casa “Omega”, ofereceu-lhe um relógio de mesa. Tinha sido esta marca a emprestar os cronómetros usados nas provas.

Classificação por categorias

Assim, nos carros de desporto ou especiais, o primeiro lugar foi do português Eduardo de Carvalho que deu 51 voltas, cobrindo a distância de 319,77 km em 4 horas 3 minutos e 19,1 segundos, à velocidade média horária de 49 milhas. A velocidade máxima foi de 95 milhas atingida entre o reservatório e as bancadas e a mínima, 10 milhas, na curva entre Dona Maria e a Rua dos Pescadores.
Em segundo ficou Paul du Toit, num “Triumph TR 2”, com 51 voltas em 4 h., 4m., 46 s., à velocidade média horária de 48,8 milhas, gastando mais 1 minuto e 27 segundos que o vencedor. Em terceiro, Reginaldo da Rocha, em “Triumph TR 2”, com 50 voltas em 4 h. 1m. 55,5s., à velocidade média horária de 48,4 milhas. Em quarto lugar, o único macaense que correu no 1.º Grande Prémio de Macau, Fernando Macedo Pinto, no seu MG Special de 1100 c.c., com 48 voltas feitas em 4h. 3,4 s., à velocidade média horária de 46,8 milhas, apesar de ter um carro com muito menos potente, 47 cavalos; teve como mecânico Joaquim Vale.
Já nos Carros de Turismo, o primeiro na Classe B, para carros com cilindrada entre 750 a 1100 cc., foi Robert Ritchie em Fiat 1100, com 48 voltas, em 4h. 1m., 57,6 s., à velocidade média horária de 46,4 milhas. Na Classe D (de 1501 a 2000 cc), o primeiro foi D. N. Steane, em Hillman, com 46 voltas, em 4h. 1m. 29s. à velocidade média horária de 44,6 milhas. Na Classe E (de 2001 a 3000 cc), ficou em primeiro K.O. Mak num Ford Zodiac, com 45 voltas em 4h. 01m. 56s., à velocidade média horária de 43,5 milhas.
Foi tal o entusiasmo com estas corridas, que nunca mais se deixou de realizar o Grande Prémio de Macau.

13 Nov 2015

O Fim da dinastia Song do Sul

Na Batalha Naval de Yamen, na embocadura de um dos ramos do Rio Oeste, próximo de Macau, foi onde a dinastia Song do Sul teve o seu fim, corria o dia 19 de Março de 1279. Os duzentos e cinquenta sobreviventes partindo por terra, foram-se refugiando nas aldeias próximas e o que restou desse grupo chegou a Haojing, onde se estabeleceu.

Em 1206, surgiu Tai Zu no trono da tribo dos mongóis, que deu o nome ao povo. Tai Zu subordinou todas as outras tribos e através duma assembleia do povo, tornou-se Gengis-Khan. Começou em 1211 a invasão da China, conseguindo atravessar a muralha em 1213, conquistando Beijing dois anos mais tarde. Os mongóis usavam uma táctica de guerra revolucionária (estudada mais tarde por Napoleão) e que consistia em ataques aos flancos, centralização e fuga fingida, o que originava massacres. Após terminarem com a dinastia Jin em 1234, passam no ano seguinte a atacar os Song do Sul, que era uma dinastia virada para as artes e letras e que dava reduzida atenção e importância à parte militar.

A dinastia Song do Sul durou até à conquista dos mongóis em 1279, apesar da sua capital Lin’an ter caído em 1276. Lin’an, a actual cidade de Hangzhou, capital da província de Zhejiang foi durante 149 anos a capital da dinastia Song do Sul (1127-1279).

A fuga da corte Song do Sul

Em 1274, uma força mongol de duzentos mil homens, comandada por Bayan, entrou por terra e pelas águas do Grande Canal no território Song do Sul. No ano seguinte, após a Batalha de Wuhu, as forças Song do Sul comandadas por Jia Sidao foram vencidas. Em 1276, os mongóis marchavam sobre Lin’an, a capital dos Song do Sul e ocuparam-na. Zhao Xian, que em 1274 se tornara com cinco anos o Imperador Gong, foi em 1276 levado como prisioneiro para Norte, onde entrando num mosteiro se tornou monge.

O que restava da realeza Song do Sul, Duan Zong e o seu irmão mais novo Zhao Bing acompanhados pela Imperatriz Yang conseguiram escapar e acompanhados por pessoas da corte, militares, oficiais e civis fugiram para Sul, em direcção a Fujian, tendo como destino final a Ilha de Hainan. O inicial grupo ao longo do caminho foi engrossando com os familiares dos mandarins e com muitos dos que trabalhavam ao serviço dos Song do Sul, cujo território se estendia pelo Sudeste, pelas actuais províncias de Fujiam, Guangdong e Hainan. Também receando as represálias dos mongóis, na passagem por Fujian, muitos oficiais naturais desta província e suas famílias, se juntaram à corte fugitiva. Assim o grupo atingiu o meio milhão de pessoas.

Em Fuzhou, Duan Zong com sete anos tornou-se o Imperador Zhao Shi (1276-1278). Por aí devem ter passado mais de um ano já que as datas só nos falam desta corte fugitiva no ano de 1278.

Chegados a Quanzhou, tentaram alugar barcos para continuarem viagem, agora por mar até Leizhou, junto à Ilha de Hainan e onde se preparavam para estabelecer a corte. No entanto, o muçulmano árabe mercador Pu Shougeng, muito provavelmente nativo da China, que era também o oficial que administrava os barcos naquele porto, percebendo que cairia em desgraça perante os mongóis, que já se preparavam para ocupar os destinos da China, ou porque aqueles barcos lhe faziam falta para as suas marítimas viagens comerciais, não os cedeu. Por isso, os navios foram tomados pela força.

No mar, já em frente da província de Guangdong, foram apanhados por um tufão e apesar de muitos naufragarem, outros conseguiram chegar a porto seguro. O imperador que tinha sobrevivido, foi em terra acometido de uma doença súbita e morreu no Delta do Rio das Pérolas, em Lantou (hoje território da Região Administrativa Especial de Hong Kong e onde foi construído o novo aeroporto). Assim, com cinco anos Zhao Bing em 1278 subiu ao trono da dinastia nómada dos Song do Sul, tornando-se o nono e último imperador da dinastia Song do Sul, como Bing Di (1278-1279).

Com os barcos que sobraram, o novo imperador acompanhado pelos seus tutores e oficiais zarparam para um local mais seguro. De novo navegando pelo mar, chegavam ao Sul do actual concelho de Xinhui, no distrito de Jiangmen (porta do rio) província de Guangdong, quando viram a enorme armada mongol que vinha no seu encalço. Para se esconderem, entraram por um dos ramos do Rio Xi (Oeste) e encontravam-se na foz do afluente Rio Tan, em frente ao Forte de Yamen, quando foram alcançados pela armada mongol.

O Forte de Yamen está situado a Leste do Monte Ya e com o Monte Tangping a Oeste formam como que uma entrada e por isso o nome de Yamen (Entrada dos Penhascos). Foi o forte construído ao nível da água, entre os anos de 1131 e 1162, durante a dinastia Song e reconstruído em 1809, tendo na I Guerra do Ópio albergado as tropas de Lin Zexu.

Os barcos que transportavam o restante da corte nómada foram apanhados pela armada mongol na baía em frente ao Forte Yamen e aí se desenrolou a batalha naval, que durou vinte e dois dias e envolveu mil barcos.

A Batalha de Yamen

Após quase três anos passados e mais de metade dos que tinham fugido de Lin’an terem morrido, as forças navais mongóis partem em perseguição da nómada corte Song do Sul. O General Zhang Hongfan, um antigo oficial Song que se tinha colocado ao serviço dos mongóis, comandava um exército de vinte mil homens, enquanto o oficial Song Zhang Shijie se encontrava à frente de duzentas mil pessoas, sem alguma disciplina, nem treino militar ou marítimo.

Por não possuir grande experiência em combates navais, Zhang Shijie, o comandante da dinastia Song do Sul, saindo do mar entrou pelo Rio Tan e foi alcançado em frente à povoação de Yamen. Sem espaço de manobra, colocou a sua frota de maneira a que os barcos dos mongóis os cercaram e sem possibilidade de desembarcarem para terra, nem fugirem, estavam a ser rapidamente derrotados.

Zhang Shijie retirou-se com dez barcos, para os conseguir posicionar e manter o poder de combate, mas já era tarde. Vendo a derrota iminente, o oficial superior Lu Xiufu pegou no Imperador Zhao Bing e saltou para a água, fugindo assim de serem capturados pelos mongóis, preferindo a morte por afogamento, tal como fez a Imperatriz Yang.

Em 19 de Março de 1279 as forças dos Song do Sul estavam aniquiladas.

Zhang Shijie, ao regressar ao grupo dos seus barcos, já derrotados, encontrou o corpo da mãe do imperador a boiar na água, já sem vida. Mais tarde, Zhang foi apanhado por uma tempestade e morreu também afogado.

A área desta batalha situa-se entre a aldeia Guanchong e o Norte do Lago Yinzhou, a Sul do Monte Yamen. Aí, se encontra o túmulo da mãe do Imperador Bing e uma pedra, cuja lenda diz marcar o local onde Lu Xiufu e o imperador saltaram para a água. Visitámos o templo em 2005 e nessa altura encontrava-se em profundo restauro. O altar, com a estátua da imperatriz-mãe e o túmulo, estava coberto por um plástico para a tinta com que se decorava os tectos nele não pingasse. O recinto do templo, que até aí tinha sido de pequenas dimensões, estava a ser ampliado e arranjado para receber grande quantidade de turistas.

Visitado o templo, vamos à procura de um rochedo cuja lenda diz marcar o local onde Lu Xiufu e o imperador saltaram para a água e onde o comandante da armada mongol, o general Zhang Hongfan mandou gravar algumas palavras sobre a vitória das forças de Kublai-Khan.

Perguntando o local dessa pedra, que assinala o fim da dinastia Song do Sul, indicam-nos a uma distância de cinco quilómetros do forte e a dois do templo, mas como as estradas se bifurcam é difícil encontrar o local. Estamos perto, quando a estrada dá para um portão. Guardado por soldados, não nos deixaram entrar no recinto onde a rocha se encontra, por ser uma base naval da marinha chinesa, logo vedada ao público. Assim seguimos para a visita do Museu comemorativo desta batalha, situado na outra margem do rio.

Depois da Batalha de Yamen, que marcou o fim da dinastia Song do Sul, o que sobrou desse grupo, cerca de duzentas e cinquenta pessoas, daí fugiu e foi-se escondendo, criando aldeias, sendo uma delas Haojing, nome talvez proveniente de haver muitas vieiras (hao, 蠔) nas límpidas águas que refletiam como espelho (jin, 鏡), era como na altura se chamava Macau.

Assim, em 1279 esse grupo estabeleceu-se na parte Norte da península de Haojing e dedicou-se à agricultura, construindo as suas casas na encosta Sul da colina de Mong-Há (que significa olhar para baixo).

Conta-nos Ana Maria Amaro, que os fundadores de Mong-há-tchún deram ao lugar o nome de Monte Dourado, devido ao local ser de rochas graníticas. Os primeiros habitantes da zona foram indivíduos de apelido Kái, Lou, Pou, Tin, Hó e Sam, seguidos pelos Hói, Tcheong, Lam e Tchan, o que corresponde a serem provenientes de diferentes famílias e algumas da província de Fuquiam, o que poderá confirmar a história anterior.

A península era seguramente ponto de passagem e de encontro para pescadores e mareantes e aí existia, não se sabe desde quando, uma pequena povoação de pescadores e mareantes na parte Sul junto ao Templo da Barra e dedicado à deusa Mãe A-Má. Podia ser a família Kái, que vivia afastada do Monte Mong Há e se dedicava à pesca. As suas casas, situadas na parte Oeste da Colina da Penha, ficavam assim abrigadas das intempéries.

Assim, quando os portugueses chegaram à península de Haojing e colocaram as suas mercadorias a secar, encontraram na zona de Mong Há, um dos dois povoados existentes. Eram os descendentes da dinastia Song do Sul, que aproximadamente há 250 anos aqui viviam.

30 Out 2015

Da Ordem do Templo à de Cristo

Para complementar os dois anteriores artigos, “O Lavrador do Mar Português” e “Por Cima do Hábito, a Armadura”, seguimos com o episódio da passagem dos Templários para a Ordem de Cristo durante o reinado de D. Dinis.
Para situar o período em que D. Dinis viveu, no ano do seu nascimento, 1261, os bizantinos reconquistaram Constantinopla aos Cruzados. A cidade fora saqueada e tomada em 1204 durante a IV Cruzada, desviada do Egipto pelo Doge de Veneza, tornando-se a capital do Império Latino. Os gregos, com a ajuda dos genoveses, em 1261 restauraram o Império Bizantino.
Em 1276, o português Pedro Hispano foi eleito Papa e tomou o nome de João XXI, mas a 20 de Maio do ano seguinte faleceu em Viterbo, devido aos ferimentos provocados pelo desabamento de uma parte do palácio pontifício. Castelo de Tomar
Já na China, em 1276 os mongóis marcharam sobre Hangzhou, a capital da dinastia Song do Sul e ocuparam-na, levando para Norte como prisioneiro Gong Di, que em 1274 com cinco anos se tornara o Imperador Zhao Xian. O restante da corte fugiu para Sul e durante essa viagem foram sagrados dois novos imperadores, os últimos da então nómada dinastia Song do Sul. Perseguida pelos mongóis, veio a dinastia terminar em 1279 na batalha naval de Yamen, embocadura do Rio Xi próximo de Macau. Assim, no primeiro ano do reinado de D. Dinis, 1279, na China subia ao trono o mongol Kublai Khan, que se tornou o primeiro imperador da dinastia Yuan com o nome Shi Zu (1279-1294). Passaram os mongóis a dominar e unificaram um vasto território, que ia do Pacífico à fronteira com a Europa. Andava o mercador veneziano Marco Polo pela China para em nome de Kublai Khan investigar e fazer-lhe relatórios do que via.
Já na Europa e ainda durante o reinado de D. Dinis, a 18 de Julho de 1290 Eduardo I promulgou o decreto que consagrou a expulsão dos judeus da Inglaterra e dezasseis anos depois, em 1306 foram eles expulsos de França.
Em 1291 era fundada a Confederação Helvética, com a união de Uri, comunidade livre do vale de Schwyz e Nidwalden.
Em Portugal, a Ordem de Avis foi por bula papal criada em 1319, mas a independência desta Ordem em relação a Calatrava só se deve ter consumado no reinado de D. João I.

Para D. Dinis chegar ao poder

Em 1279 morreu o Rei Afonso III e o seu filho D. Dinis ficou com a coroa de Portugal, apesar das lutas que seu irmão D. Afonso lhe moveu e de todos os entraves colocados pelo clero. Seguimos agora narrando um pouco sobre os factores e acasos que levaram D. Dinis a ser rei. De salientar os muitos D. Afonsos que nesta história vão aparecendo e que justificam a razão da primeira dinastia de Portugal ser denominada Afonsina.
Após a morte em 1248 do Rei D. Sancho II e como não deixara filhos, o seu irmão D. Afonso de Bolonha (1210-1279), que desde 1245 era regente de Portugal, foi aclamado rei. Segundo filho de D. Afonso II, aos dezasseis anos a tia materna D. Branca de Castela, rainha de França, mandou-o chamar para viver na corte de Luís IX, onde foi armado cavaleiro. Em 1238 casou com a Condessa D. Matilde de Bolonha, tornando-se por isso conde e vassalo do rei de França, a quem acompanhou em 1243 na Batalha de Saintes contra Henrique III de Inglaterra, distinguindo-se como cavaleiro.
D. Afonso III, que reinaria de 1248 a 1279 com o cognome O Bolonhês, organizou o reino na parte económica, política, administrativa e social. Em 1253 casou-se com D. Beatriz de Gusmão, filha bastarda de Afonso X, apesar de D. Matilde ainda se encontrar viva. Esse casamento de oportunidade veio resolver o conflito sobre a posse do Algarve, que o Rei de Castela Afonso X considerava por direito pertencer-lhe. Tal casamento, só mais tarde veio a ser conhecido pela primeira esposa D. Matilde, que recorreu à cúria pontifícia para que fosse anulado, por bigamia do rei “e por existir um parentesco em quarto grau entre os cônjuges, o que também contrariava o estipulado pelo direito canónico”, segundo Bernardo Vasconcelos e Sousa. Por tal, desde 1254 encontrava-se D. Afonso III sobre forte pressão de ser excomungado por quem anteriormente lhe entregara a governação de Portugal, tendo o Papa Alexandre IV lançado o interdito sobre o reino.
D. Afonso, Conde de Bolonha, do primeiro casamento com a Condessa Matilde não tivera descendência e após repudiá-la, já como rei teve de D. Beatriz sete filhos, entre os quais D. Branca (1259), D. Fernando nascido em 1262, mas que morreu ainda nesse ano, D. Dinis (1261), D. Maria e D. Afonso (1263).
“Só após a morte de Matilde em 1258, os bispos portugueses solicitaram ao papa o levantamento da sanção, que viria a ter lugar e a permitir a legitimação do casamento de Afonso III com Beatriz de Castela, em 1263”, como esclarece Bernardo Vasconcelos e Sousa. Assim, desses filhos do segundo casamento, só os nascidos após 1263 eram legítimos. Por tal razão, D. Afonso considerava-se com direito ao trono de Portugal e não D. Dinis, que à nascença era ainda bastardo, logo sem grandes hipóteses de vir a ser rei. Sendo o Infante D. Afonso o primeiro filho legítimo deveria ser ele o herdeiro da coroa. No entanto, foi D. Dinis que ficou rei desde 1279, apesar das lutas que seu irmão D. Afonso lhe moveu e de todos os entraves colocados pelo clero.
“O reinado de D. Dinis, entre os anos de 1279 e 1325, representa o grande impulso para a formação da consciência nacional, que se complementa nos finais do século XIV. O chamado valorizou a agricultura, com a secagem de pântanos e a plantação de pinhais na Estremadura; a marinha, com a renovação da esquadra de guerra e medidas em prol do comércio externo; e a cultura, com a criação do Estudo Geral de Lisboa, nos anos de 1288-1290, que foi o primeiro tronco da Universidade Portuguesa” Portugal e o Mundo de Joaquim Veríssimo Serrão.

O fim da Ordem do Templo

Foi com D. Dinis que ocorreu a passagem dos bens dos Templários para a Ordem de Cristo, tal como este rei tentou “tornar independentes de províncias não portuguesas as ordens militares que existiam no nosso país, excepto a do Hospital (a de Avis já era propriamente portuguesa, apesar de seguir a regra de Calatrava)”, como refere José Matoso.
A Ordem militar do Templo fora fundada em Jerusalém no ano de 1119 com a finalidade de defender a Terra Santa e os peregrinos que visitavam o Santo Sepulcro. Em 1128, no Concílio de Troyes foi-lhes dado o manto branco, sendo acrescentada a cruz vermelha. Como na Península Ibérica também se realizava a reconquista cristã, esta Ordem, para além das outras referidas no artigo anterior, colaborava com os monarcas cristãos do extremo ocidental da Europa. Desde 1128, D. Teresa ofereceu-lhes o castelo de Soure e muitos outros bens mas, o empenho desta Ordem foi diminuto, tendo mesmo sido derrotada em 1144 próximo do seu castelo. Só após a conquista de Lisboa e Santarém se empenharam, talvez pela oferta dos direitos eclesiásticos desta última cidade. Tendo-lhes sido entregue “um vasto território em volta de Tomar, os Templários começaram a edificar vários castelos na fronteira do Tejo e a recrutar cavaleiros de origem portuguesa, que organizaram com maior cuidado as actividades militares, o que levou o rei a conceder-lhes novas terras e privilégios, no momento mais intenso da Reconquista” José Matoso. Devido a problemas com o Bispo de Lisboa, os Templários cederam os direitos eclesiásticos de Santarém “em troca de extenso território em torno do castelo de Cera, onde, em 1160, começaram a construir o castelo de Tomar”. Já em 1157 tinha sido nomeado como mestre procurador o português Gualdim Pais, que até 1195 governou a Ordem e além de mandar construir os castelos de Pombal, Tomar, Almourol, Castelo de Zêzere, Idanha e Monsanto, “deu foral a Redinha, e à maioria das povoações fundadas em torno dessas fortalezas, assegurando assim a exploração agrícola nos mesmos lugares e a fixação de povoações que podiam resistir eficazmente aos ataques muçulmanos” Matoso. Por tal, a Ordem do Templo tinha em Portugal inúmeros privilégios, assim como lhe foram doados para defender e consolidar amplos senhorios nas áreas conquistadas.
A história que pretendemos narrar, começou depois de 1291, após a queda de Acre, o último reduto cristão na Palestina, tendo por isso a Ordem do Templo abandonado o Próximo Oriente. A sua sede passou para o Chipre e o Rei Filipe IV de França convidou o Grão-Mestre da Ordem, Jacques de Molay, a instalar-se próximo de Paris, para onde foi levado o espólio templário.
Quando os Cavaleiros Templários, de alto valor militar, regressaram aos seus países de origem, tornaram-se uma fonte de preocupação para esses monarcas. Também a Ordem, para além de ter importantes fortalezas por toda a Europa, possuía muitas riquezas, fazendo empréstimos aos senhores de terra e aos monarcas europeus nas frequentes crises financeiras que sofriam. Por tudo isso, a Ordem do Templo estava em condições de vir a ser perigosa para a organização social da época. De salientar que o Rei Filipe IV (1285-1314), o Belo, era um dos muitos devedores insolventes da Ordem e pretendia, além disso, apoderar-se dos seus bens. Assim, num acordo secreto com Clemente, ainda este não era Papa, o rei planeou extinguir a Ordem do Templo, pois com as finanças reais muito em baixo, não conseguia pagar o grande empréstimo de dinheiro que os Templários lhe tinham feito, estando o prazo a terminar. Por interesses estratégicos, o Papa francês Clemente V foi coroado em Lyon a 5 de Junho de 1305, deixando-se ficar em França por não ter apoio em Roma e em 1309 instalou-se em Avignon, controlando assim Filipe IV a Cúria romana.
Decidido a suprimir a Ordem do Templo, o rei de França inventou e empolou uma série de crimes, como idolatria, blasfémia e sodomia, fazendo com eles uma acusação ao Papa. Assim, no dia 13 de Outubro de 1307, com um mandato da Inquisição apareceu à mesma hora a polícia real em todas as sedes da Ordem e em nome do Rei Filipe IV e do Papa Clemente V prenderam os Cavaleiros do Templo franceses. Perto de dois mil Templários foram sujeitos à tortura, tendo muitos morrido e outros terminado na fogueira.
Em 22 de Novembro de 1308, o Papa enviou por carta uma Bula a todos os reis e príncipes europeus, ordenando a prisão dos Templários e o confiscar dos seus bens, assim como estes fossem julgados por um tribunal provincial. Dessas inquirições, todas as comissões se manifestaram a favor da inocência e apenas a francesa os acusou. Mas no Concílio de Vienne (1312) em França, Filipe IV obrigou o Papa a abolir a Ordem.
Com a extinção da Ordem do Templo em 3 de Abril de 1312, muitos dos seus bens em toda a Europa foram para a Ordem dos Hospitalários e outro clero. Em Itália, em Nápoles e Piemonte foram perseguidos, na Sicília absolvidos. Na Alemanha fundaram a Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, sendo os bens também distribuídos aos senhores feudais. Na Inglaterra foram absolvidos e os bens ficaram para a Coroa.
A 18 de Março de 1314, o Grão-Mestre dos Templários após a leitura pública que o acusava a ele e aos da Ordem de “blasfémia e heresia”, lançou, já envolto em chamas, ao Rei e ao Papa a sentença de comparecerem, com ele, dentro de um ano, perante o Tribunal divino. O Papa Clemente V morreu no mês seguinte e o Rei Filipe IV em Novembro desse mesmo ano.

A criação da Ordem de Cristo

Com uma sequência diferente José Matoso refere: “Em 1307, as acusações suscitadas por Filipe, o Belo, contra os seus membros levaram Clemente V a mandar celebrar na Hispânia um concílio que averiguasse as suas responsabilidades efectivas. Os padres reunidos em Salamanca (…) concluíram pela sua inocência. Apesar disso, o papa mandou sequestrar os seus bens na Península, e alguns eclesiásticos, como os Cónegos Regentes de Santa Cruz e o bispo da Guarda, quiseram apoderar-se deles. O rei não consentiu (1308), mas depois instaurou um processo judicial com o objectivo de os incorporar na coroa, obtendo sentença favorável em 1310. Neste mesmo ano reuniu-se novo concílio em Medina del Campo, e a seguir um outro em Salamanca, tendo este a presença de prelados portugueses”.
Assim, em Portugal no dia 27 de Novembro de 1309 todos os bens reverteram para a Coroa. O clero reclamava um dote para si e então, D. Dinis, aliando-se com Fernando IV de Castela, fez a Convenção de Salamanca, em Janeiro de 1310, na qual mais tarde o Reino de Aragão entrou, para conseguirem manter os bens da Ordem dos Templários na Coroa, ainda que o Papa ordenasse o contrário. Já no Concílio de Vienne (1312) o pontífice permitia que os domínios da Ordem na Hispânia não tivessem que ser entregues aos Hospitalários. Isabel Morgado Silva refere: D. Dinis, “mais preocupado com a aplicação dos bens templários existentes no seu território a favor de uma entidade não nacional, a Ordem do Hospital do que com o próprio processo desencadeado contra a Ordem de Templo, fundamenta a necessidade da criação de uma milícia – à qual seriam entregues os bens do Templo – na guerra santa e justa.” “Manobra de grande habilidade político-diplomática”.
Dante, na Divina Comédia, escrita entre 1302 e 1321, condenou os reis da Península Ibérica por estes se terem apoderado e tomado para si os bens da Ordem. Mas o que Dante desconheceu foi o trabalho de D. Dinis na transposição do legado dos Templários para a nova Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo formada em 1315 e institucionalizada a 14 de Março de 1319 pela bula Ad ea quibus do Papa João XXII, “atribuindo-lhe a regra de Calatrava, sujeitando-a à jurisdição espiritual do abade de Alcobaça e colocando a sua sede em Castro Marim. Em Novembro desse mesmo ano, foi eleito o primeiro mestre e em 1321 foram aprovados os primeiros estatutos. O rei seguia, assim, o exemplo do de Aragão, que, com o património dos templários valencianos, criou a Ordem de Montesa, embora entregasse o restante do património aragonês aos Hospitalários. O rei de Castela incorporou na coroa a maioria dos domínios dos extintos cavaleiros do Templo. Como se vê, D. Dinis seguiu em todos estes passos uma política de nacionalização extremamente coerente e de tal modo determinada que se pode considerar como precursora de processos de concentração das forças políticas nacionais usados depois pelas monarquias da segunda metade do século XV”, José Matoso.
Entre 1319 e Fevereiro de 1324 ocorreu em Portugal uma intermitente guerra civil, muito devido à revolta do Infante D. Afonso (o futuro Rei Afonso IV) contra o seu pai D. Dinis, pois considerava estar a ser preterido na sucessão do trono pelo irmão bastardo D. Afonso Sanches. Como D. Dinis durante todo o seu reinado tinha combatido o partido senhorial da alta nobreza, esta juntou-se a D. Afonso, acabando o rei por ceder a várias das suas exigências.
Com a morte de D. Dinis em 1325, sucedeu-lhe o filho como Rei D. Afonso IV (1291-1357), que reinou de 1325 a 1357 com o cognome O Bravo.

23 Out 2015

Por cima do hábito, a armadura

Foi com a ajuda das Ordens religiosas e militares, tanto internacionais, como originárias da Península Ibérica, que os primeiros reis da primeira dinastia portuguesa, a Afonsina, conseguiram a conquista do seu território.
Com o sucesso da pregação de Maomé, que veiculava a ideia da conquista guerreira ao serviço da fé, após a morte do profeta em 632, rapidamente os exércitos do Islão se expandiram e em menos de um século os seus domínios iam da Península Ibérica à Índia. Jerusalém, a cidade santa para judeus e cristãos, foi tomada pelos árabes logo em 638 e os peregrinos cristãos, que desde o século II aí visitavam o Santo Sepulcro, vêem-se impedidos de lá chegar. Em Damasco, tomada aos bizantinos em 636, foi fundada a dinastia dos Omíadas em 661 e o seu exército varreu em guerra santa do Mediterrâneo Oriental à costa do Norte de África, entrando na Península Ibérica em 711, onde encontrou o reino visigótico em conflitos internos. Por isso, foi fácil ao chefe berbere Tariq avançar e em três anos conquistar quase toda a Península. Em 719 estavam já os muçulmanos instalados no território franco, em Narbona e só na Batalha de Poitiers, em 732, o avanço desse exército árabe e berbere foi interrompido por Carlos Martel. Recuaram então os árabes, ficando a ocupar quase toda a Península Ibérica, com excepção do pequeno reino cristão das Astúrias, na Cantábria.
Por essa altura, em Damasco desenrolava-se o conflito entre os Omíadas e os Abássidas e com o triunfo em 750 desta última dinastia, o príncipe omíada destronado, Abderraman (Abd al-Rahman) refugiou-se na parte mais Ocidental do seu antigo território. Nascia assim em 756, mas ainda dependente de Damasco, o emirado de al-Andalus na Península Ibérica, para onde o emir trouxe a organização política do califado sírio, fazendo a sua capital em Córdova. Foi uma época de paz na Península Ibérica, em que a maior parte dos seus habitantes se converteu ao Islão, possibilitando assim um esplendor cultural sem precedentes. No ano de 929 tornou-se o Califado de Córdova independente de Damasco e por volta do ano 1000 era já um poderoso Estado militar que se estendia até ao Magrebe, sendo Córdova o centro espiritual, económico e cultural da Península Ibérica. Mas nos trinta anos seguintes, o Califado entrou em guerra civil, até que em 1031 se desmembrou e as poderosas cidades de al-Andalus tornaram-se independentes, formando os pequenos reinos de taifas, sendo os mais poderosos os de Sevilha, Granada e Saragoça. Estes reinos muçulmanos não se importavam de se ligar com os cristãos para se guerrearem entre si e desunidos, perderem muito do poder, sendo importantes cidades tomadas pelos cristãos. O alerta chegou quando os castelhanos lhes reconquistaram Toledo em 1085. Os almorávidas (1056-1147), reformadores berberes provenientes de onde hoje é a Mauritânia, começaram por dominar o Norte de África e três anos depois, atravessavam o Estreito e conquistaram aos taifas, quase sem resistência, as cidades de Granada, Córdova, Sevilha, Badajoz, Valência e Saragoça. Ficava al-Andalus integrada de 1089 a 1145 no Império africano dos almorávidas, com a capital em Marraquexe. Daí partiam grandes e ferozes exércitos muçulmanos para em guerra santa combater os reinos cristãos da Península Ibérica, que passaram a contar com a ajuda das ordens militares criadas em Jerusalém. Entraram os almorávidas em decadência e foram substituídos pela dinastia dos Almóadas (1145-1230), também provenientes do Norte de África, que fortificaram as suas praças na al-Andalus, fazendo de Sevilha o seu centro. Não fosse o pequeno reino nasrides de Granada, Estado vassalo de Castela e que se perpetuou entre 1230 a 1492, teria a história dos muçulmanos da Península Ibérica terminado quase três séculos antes.

As Cruzadas

Na Europa do século XI, o Papa passou a ter um papel fundamental nas investiduras das lideranças temporais dos países e organizou as Cruzadas com o objectivo de reconquistar e defender a Terra Santa. A primeira Cruzada foi proclamada pelo Papa Urbano II no Concílio de Clermont em 1095, após o Império Bizantino ter sido repelido em 1071 para Ocidente da Ásia Menor e o imperador feito prisioneiro, ficando assim a Igreja do Oriente ameaçada pelos turcos Seldjúcidas. Nessa Cruzada foi Jerusalém reconquistada em 1099, sendo então fundado o reino latino de Jerusalém, aproveitando-se os confrontos na Síria entre os fatimitas e os Seljúcidas mas, com a fundação da dinastia Aiúbidas (1169-1260) por Saladino, este retomou em 1187 a Cidade Santa.
As duas primeiras ordens militares que chegaram a Portugal, os Templários e os Hospitalários, tinham sido criadas na Palestina para defenderem os peregrinos cristãos durante as suas visitas ao Santo Sepulcro em Jerusalém, na Terra Santa, a qual se encontrava nos domínios dos maometanos. Por essa altura a Península Ibérica albergava reinos governados por partidários de Maomé e por isso, era também necessária aí a ajuda para a Reconquista cristã.
“A difusão das ordens militares em Portugal contribuiu seriamente para a estruturação mais firme da nobreza. Porque lhe forneceram um modelo de vida militar profissionalizada e inspirada por um ideal, porque se tornaram uma das formas mais fáceis e mais directas de absorver os excedentes demográficos da nobreza, desde o momento em que esta começou a adoptar esquemas linhagísticos, porque foram rapidamente utilizadas pelo rei para a defesa eficaz da fronteira meridional e mantinham, portanto, uma relação com o poder político que se podia articular facilmente com aquela que a nobreza mantinha também com a corte. Apesar de penetrarem muito cedo no nosso país, o seu sucesso nos meios aristocráticos não foi rápido nem fácil. Em primeiro lugar, porque as próprias ordens de origem estrangeira, criadas em função da guerra santa na Palestina não estavam, nessa altura, muito interessadas na cruzada peninsular. Em segundo lugar, porque, ao entusiasmo de D. Teresa, dos magnates portugueses e do infante D. Afonso, para com os Templários e Hospitalários, não corresponderam da parte deles resultados visíveis, do ponto de vista militar”, como escreve José Matoso. Assim o recrutar combatentes para ir em auxílio dos cristãos de rito latino que se tinham conseguido fixar na Terra Santa, permitia “canalizar para fora da Cristandade a agressividade dos cavaleiros sem herança, excitando-lhe, ao mesmo tempo, os sentimentos da própria identidade religiosa, deviam ter propósitos mais acentuadamente políticos.”
Os Templários, ordem exclusivamente militar, foram constituídos em 1119 por Hugo de Payens, Godofredo de Saint-Omer e mais sete cavaleiros franceses, após fazerem os votos de pobreza, castidade, obediência e o de proteger os peregrinos que a Jerusalém se dirigiam. Obtiveram aprovação em 1128 no Concílio de Troyes, recebendo a regra de Cister e ficaram instalados no local do antigo Templo de Salomão, que o rei Balduíno II lhes cedeu e por tal, ficaram conhecidos por Cavaleiros do Templo.
Em Portugal, os Cavaleiros Templários apareceram talvez ainda antes da doação que a Condessa Dona Teresa lhes fez em Março de 1128 da vila de Soure e das terras entre Coimbra e Leiria. Mas mostraram-se pouco empenhados na defesa da fronteira como demonstra a derrota que sofreram em 1144 junto a Soure.
A Ordem dos Hospitalários foi criada em Jerusalém, anos depois de um hospital destinado aos peregrinos ter aí sido edificado em meados do século XI e onde mais tarde passou a existir a Congregação de São João Baptista, ou Ordem do Hospital, aprovada em 1113 pelo Papa Pascoal II. O fundador foi Gerard de Martigues e o seu sucessor, Raimundo de Puy, “alargou-lhe o âmbito com a imposição de serviços de carácter militar. Assim nasceu e se desenvolveu a Ordem dos Hospitalários, ou Cavaleiros de São João de Jerusalém, confirmada em 1184 pelo pontífice Lúcio III”, como refere João Amaral. Vindos de Castela, os primeiros Hospitalários, segundo José Matoso, “apesar da doação do rico mosteiro beneditino de Leça do Balio, provavelmente no ano de 1128, das aquisições que a mesma Ordem fez entre nós ainda antes de 1132, e até dos privilégios que Afonso Henriques lhes concedeu em 1140, não consta que os cavaleiros de S. João tivessem sequer tentado constituir uma milícia e colaborar eficazmente na Reconquista, antes de 1147.” D. Afonso Henriques foi ajudado pelos cruzados ingleses na conquista de Lisboa em 1147.

Ordens militares da Península Ibérica

Em 1170 apareceram em Portugal as Ordens de Calatrava e de Santiago, estas originárias da Península Ibérica. A Ordem de Santiago foi fundada em 1170 por Pedro Fernandez e recebeu a regra de Santo Agostinho. “Entrou logo em Portugal, datando de Junho de 1172 a primeira doação que Afonso Henriques lhe fez, da Arruda dos Vinhos, na Estremadura. Palmela, por cujo nome viria a ser conhecida, foi-lhe doada em 1186”, segundo Oliveira Marques.
O Rei D. Afonso II (1211-1223), cujo cognome é o Gordo, usou a estratégia de proteger as fronteiras entregando os domínios conquistados às ordens militares para assegurarem a sua defesa e como base para investidas. Com a linha do Tejo como fronteira segura, em 1211 o Rei D. Afonso II doou Avis no Alentejo aos frades de Évora da Ordem de Calatrava com o dever de construírem um castelo. Aí o mestre D. Fernando Enes começou a construção do mosteiro fortificado, que anos depois se tornou sede da Ordem de Avis, no tempo do mestre D. Fernão Rodrigues Monteiro. Devido aos avanços no Alentejo, os freires de Évora da Ordem de Calatrava ficaram com um domínio de grande importância, mudando por isso para a Ordem de Avis. No entanto, desconhecesse a data da criação da Ordem de Avis que, no reinado de D. Afonso Henriques, existia como associação conhecida pelo nome de Freire de Évora, e sabe-se que se integravam na Ordem da Calatrava, existente em Castela, que ficou com o direito de visitar a ordem portuguesa. A independência da Ordem de Avis em relação a Calatrava deve ter-se consumado só no reinado de D. João I.
A Ordem religiosa e militar espanhola de Calatrava surgira na Nova Castela, em 1158 para combater os mouros. Substituiu os Templários pois, devido à posição arriscada no final do ano de 1157, estes tinham abandonado o Castelo de Calatrava sobre o Rio Guadiana, que lhes fora confiado por volta de 1150 pelo Rei de Castela Afonso VII para o defenderem. Em 1164, o Papa confirmou a Ordem de Calatrava e por isso, muitos cavaleiros e monges rapidamente engrossaram o seu número. A posição de Badajoz superintendia militarmente em todo o território ocidental de al Andaluz e daí “partiam incursões que podiam penetrar no vale do Tejo e ameaçar as praças conquistadas por Afonso Henriques.” E continuando com José Matoso: “Os propósitos guerreiros dos Almóadas manifestaram-se também pelo facto de em 1175 terem resolvido restaurar Beja, ainda desmantelada depois das incursões de Geraldo, Sem Pavor. Consolidavam assim uma importante posição militar face a Évora. Foi talvez este acontecimento o que levou Afonso Henriques ou Sancho I a incentivarem a fundação em Évora de uma nova ordem militar portuguesa.” “A criação da ordem de Évora inclui-se entre as medidas defensivas que foi necessário tomar contra o recrudescimento da agressividade muçulmana. Foi seu fundador Gonçalo Viegas de Lanhoso…”.
A partir de 1170, os Templários foram reforçados para lá do Tejo pelos cavaleiros de Évora, como acima fizemos referência. Os freires de Évora, ainda não estavam filiados em Calatrava, cujos costumes viriam em breve a adoptar. Já D. Sancho I fez importantes concessões às ordens militares, beneficiando em 1187 os freires de Évora, que viram aumentar ainda mais os seus domínios no reinado de D. Afonso II. Com a entrega da zona de Avis, para onde passou a sede da Ordem dos freires de Évora da Ordem de Calatrava, esta passou a ter o nome de Ordem de Avis. Em 1216, por uma bula do Papa Inocêncio III, este “assegurou ao bispo de Évora a jurisdição sobre todo o território povoado por cristãos entre os limites da sua diocese e os infiéis, o que significa que a ocupação ia avançando em direcção ao Baixo Alentejo, talvez por iniciativa das ordens militares” como refere José Matoso.
As conquistas de Aljustrel em 1234, Mértola em 1238, Cacela em 1239, Tavira e Paderne em 1242, foram realizadas pela Ordem de Sant’Iago, sob a chefia de Paio Peres Correia.
Segundo refere Oliveira Marques, se as grandes doações territoriais começaram logo no tempo de D. Teresa e D. Afonso Henriques, só com D. Sancho II o património das várias ordens ficou definitivamente constituído e consolidado.
Foi no reinado de D. Afonso III (1248-1279) que terminou a conquista de Portugal com a tomada de Faro, Albufeira, Porches e Silves em 1249. Essa expedição ao Algarve, para conquistar as últimas cidades e castelos nas mãos dos mouros, realizou-se muito rapidamente, pois o poder muçulmano estava já muito debilitado.
Ficava assim a zona pré-destinada ao território português toda reconquistada, tendo as Ordens religiosas e militares sido fundamentais para que tal acontecesse. Podiam agora esses cavaleiros, normalmente os filhos que não tinham direito às heranças de família por não serem os primogénitos, despir as armaduras, ficando apenas com o hábito de monges.

16 Out 2015

Notícia da explosão antes dela ocorrer

No início de Outubro de 1850, o Tenente Luís Maria Bordalo em Macau acabava de receber uma carta do irmão, escrita em Lisboa entre finais de Agosto e princípios de Setembro. Francisco Maria Bordalo mostrava-se preocupado pois na capital corria o rumor sobre uma explosão na fragata D. Maria II estacionada em Macau. Perguntava-lhe pela saúde, como desejo de resposta ao acontecimento que escutara. Estranha história a que leu sobre tais rumores e logo na fragata D. Maria II em que andava embarcado.
Os territórios portugueses do ultramar eram desde há muito cobiçados por holandeses, ingleses e franceses e como elemento dissuasor, em meados do século XIX foram “estabelecidas as estações navais, isto é, agrupamentos de um ou mais navios cujas missões eram coordenadas pelo comandante do navio mais antigo e que permaneciam na área durante um período prolongado”, como explica Rodrigues da Costa. Já Luís Gonzaga Gomes referia que a 10 de Setembro de 1850, a estação naval compunha-se da fragata D. Maria II e das corvetas à vela Iris e D. João I, tendo os três navios 559 praças de guarnição.
Esta imponente fragata, construída por volta de 1810 em madeira teca, fora comprada à Inglaterra em 1831 pelo Rei D. Pedro IV. Tinha então o nome de Ásia, sendo também na mesma altura adquirido o navio Congress. Mudaram ambos o nome, ficando a fragata a chamar-se D. Maria II, nome da filha de D. Pedro e que seria coroada a 15 de Setembro de 1834, passando o Congress a ter o nome de Rainha de Portugal.
Estes dois navios eram os principais da esquadra liberal e a fragata D. Maria II estivera nos momentos decisivos da restauração do regime liberal, em 1832. Primeiro, na Ilha Terceira nos Açores, depois no desembarque das tropas liberais de D. Pedro na Praia do Mindelo para irem ocupar a cidade do Porto e por fim, nos bloqueios do Tejo. Após terminada esta guerra entre D. Pedro e D. Miguel, ambos filhos de D. João VI e com a nova Constituição Setembrista de 1838, que representou a primeira tentativa de reconciliação entre as duas posições constitucionais antagónicas (a democrática de 1822 e a realista de 1826), a fragata fez três viagens até à Índia. Entre 1846 e 1847 participara nos combates contra a Junta Revolucionária de tendência miguelista.
Voltou a fragata à Índia em 1849 sendo então comandada pelo Capitão-tenente Francisco de Assis e Silva. Estando em Goa, foi requisitada para Macau onde a 22 de Agosto de 1849 o Governador Ferreira do Amaral tinha sido assassinado. Aqui chegada a 3 de Junho de 1850, a fragata D. Maria II com os seus quarenta e dois canhões integrou a Estação Naval de Macau, conjuntamente com as corvetas à vela Iris e D. João I.

Explosão na Fragata

Francisco Maria Bordalo, no seu livro ‘Um passeio de sete mil léguas’ descreve que: “Em mais de metade do seu curso ia o dia 29 de Outubro de 1850. Um formoso sol alumiava a enseada da Taipa, onde se baloiçavam dois vasos de guerra, vistosamente adornados de flâmulas e galhardetes, trajando suas melhores galas, e saudando com o ribombo do canhão o aniversário de um rei filósofo e artista. Acabavam de soar duas horas e meia nos sinos das embarcações, quando uma delas se ergueu com todo o seu peso sobre o dorso das águas, despedaçou-se com um estampido medonho, e de entre colunas de fumo e fogo arrojou para longe de si madeiros, canhões, ferragem e cordoalha…”
Ocorreu essa violenta explosão na fragata portuguesa D. Maria II, fundeada na Taipa, em frente de Macau, onde se encontrava ancorada no dia do aniversário do Rei D. Fernando (segundo marido da Rainha D. Maria II), quando estava em vésperas de largar para a Índia. Explosão Fragata D Maria II
“Da corveta americana Marion, que ali se encontrava também ancorada, correndo grande risco, acudiram com destemida coragem os seus oficiais e marinheiros, porém, apenas puderam recolher os restos mortais de algumas das vítimas” Luís Gonzaga Gomes. A corveta Marion escapou com muita sorte ao iminente perigo pois, estava fundeada a pouca distância da fragata e viu passar a artilharia desta entre os seus mastros, ficando apenas com cabos cortados e um ferido. Os marinheiros da corveta, ainda havia pequenas explosões e já arriscando as suas vidas, prestavam socorro, conseguindo retirar dez homens do que restava da fragata, encontrando-se todos muito feridos.
Carlos José Caldeira, no seu livro ‘Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa’, refere encontrar-se no palácio episcopal quando escutou um grande estrondo e detonação que abalou a cidade quebrando vidraças, “indo às janelas que deitavam para a Taipa, vi uma espessa e negra nuvem de fumo na direcção em que estava a fragata, e quando foi correndo vagarosamente com o vento, apareceu apenas uma parte da popa do navio, que daí a pouco começou a arder. Corri à Praia Grande e encontrei o ajudante do governador Leite a embarcar numa lorcha para o lugar do desastre; acompanhei-o, e presenciámos ainda no caminho duas explosões parciais. Fomos os primeiros que de Macau chegámos a bordo da Marion, e vi o mais doloroso espectáculo que jamais presenciei. Os corpos de dez homens desfigurados, e com os membros quase todos despedaçados, jaziam no convés banhado de sangue, dando os mais lamentosos gritos; era uma cena de cortar o coração. Tinham sido tirados dos restos da fragata, ou do mar pelos escaleres da Marion; entre eles havia o tenente mouro ou lascar Vsangi, e o guarda-marinha João Bernardo da Silva Pereira, que estava de quarto, e que morreu à minha vista em tormentos horríveis.
Daí a pouco chegaram os escaleres da Íris e da D. João, e o próprio comandante da estação, e em seguida foram os feridos conduzidos para o hospital em terra, onde depois todos vieram a morrer, à excepção de um grumete português.”
Segundo o que conta Marques Pereira, pereceram “cento e oitenta e oito vidas da guarnição, proximamente quarenta de chineses que estavam a bordo, ou junto do navio, e de três marinheiros franceses, presos. Escapou vivo da catástrofe só um grumete, chamado Barbosa”. Manuel Teixeira refere que os três marinheiros da galera francesa Chilli estavam na fragata detidos. “Dos salvados porém viveram cinco, sendo deste número dois chinas dos trinta que, se supõem, estavam a bordo, e nas embarcações que se achavam atracadas à fragata, os quais, com a única excepção daqueles dois, pereceram todos.”
Por se encontrarem em terra, da guarnição escaparam à explosão trinta e seis praças e entre eles o segundo-tenente João Maria Celestino e o Aspirante Francisco Assis da Silva, filho do Comandante, que doente estava no hospital.
À noite, a parte da fragata à tona continuava numa grande fogueira de madeira teca no “meio da água, como luz sinistra, ou tocha funerária ardendo sobre o sepulcro de tantas vítimas” na escuridão de um episódio de má memória.

O suspeito responsável pela explosão

Se a maior parte dos corpos ficaram despedaçados pela explosão e desapareceram nas águas, setenta e um cadáveres foram sepultados, sendo oito provenientes dos que tinham sido salvos pela corveta americana Marion, mas desses, apenas sobreviveram dois chineses.
O cadáver do Comandante, o Capitão Tenente Francisco de Assis e Silva, foi encontrado dois dias depois, sendo sepultado no Cemitério de S. Paulo com todas as honras que lhe eram devidas.
Segundo o Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor de 16 de Novembro de 1850: “Impossível é explicar a causa da horrível catástrofe. Sendo bem sabida a severa disciplina, e a boa ordem que o Comandante Assis mantinha a bordo do seu navio, não se pode atribuir aquele desastroso acontecimento a algum descuido havido na ocasião da Salva, que nesse dia se fez a bordo; muito especialmente se nos lembrarmos que a explosão teve lugar duas horas depois não se tendo observado sinal ou indício algum de incêndio a bordo, nem de bordo da Corveta Americana Marion, que estava fundeada mui próximo da fragata, nem do posto da Taipa; o que faz crer que a explosão foi efeito de fogo lançado no paiol da pólvora; mas como, ou por cuja agência, só Deus sabe, e é possível que nunca venha a descobrir-se.”
Assim, a causa da explosão no paiol onde se encontravam trezentos barris de pólvora deveu-se a alguém ter aí posto fogo. Carlos José Caldeira no seu livro diz: “A fragata foi destruída pela explosão do paiol da pólvora, onde se levou fogo de propósito, ou por descuido; pelo que disseram os que sobreviveram algum tempo a esta catástrofe, torna-se provável a primeira hipótese: o fiel da artilharia era um conhecido malvado, bêbedo relaxado, e tinham-se-lhe ouvido ameaças de praticar tal atrocidade, por ocasião de receber alguns castigos; naquele mesmo dia antes da salva, parece que o próprio comandante lhe puxara pelas barbas, por alguma falta no serviço.”
Carlos José Caldeira refere: “O grumete português Barbosa, único que sobreviveu a esta espantosa catástrofe, foi por uma leve falta chibatado a bordo da D. João pouco tempo depois de restabelecido, e daí a pouco desertou do serviço. Teve razão de fugir por tal acto de barbarismo, ou de inadvertência.”

Um estranho enigma

O texto oficial que narra o acontecimento apareceu no Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor de 15 de Fevereiro de 1851 e terá sido escrito por Carlos José Caldeira, na altura responsável pela redacção do Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor, como refere Rogério Beltrão Coelho na Revista Macau de Janeiro 98 ao falar do Livro “Memória de 1850” de Carlos José Caldeira editado em 1997 pela Quetzal.
Nesse Boletim do Governo lê-se uma notícia do Friend of China de 22 de Janeiro de 1851 onde se refere o seguinte: “Cinco dias antes da explosão da Fragata D. Maria II, na Taipa, uma nau Turca de primeira ordem, com 104 canhões e 700 homens e o Vice-Almirante a bordo, voou pelos ares em Constantinopla. O Malta Times de 12 de Novembro refere que a nau se denominava Neiri Cheykit e que além dos 700 homens da tripulação havia a bordo 200 recrutas de outros navios. O Sultão tinha tido grande desgosto com este desastre e com a sua liberalidade costumada, mandara 100 000 piastras do seu bolsinho para distribuir entre as viúvas e os órfãos da tripulação e tinha ordenado que de todos se fizesse uma relação com o fim de lhes conceder pensões. Nesta catástrofe se perdeu a flor da oficialidade da Marinha Otomana.”
Segue-se outra notícia do China Mail de 23, o Daily News de 20 de Novembro, diz: “Notícias recebidas pela mala da Índias Ocidentais nos referem o facto que no dia 24 de Agosto de 1850 a bordo do navio de guerra inglês Sieift, tendo sido repreendido por negligência nas suas obrigações o Fiel de artilharia Villiam Muir, dirigiu-se este ao fogão da proa, acendeu um murrão e foi descoberto pelo cabo do destacamento no acto de entrar no paiol, com a intenção de fazer voar o Navio.”
E continuando no Boletim do Governo: “São bem singulares as circunstâncias deste facto, pela semelhança que apresentam, com as que provavelmente precederam a explosão da Fragata D. Maria 2a., segundo a conjectura mais provável que pode explicar aquele terrível sucesso e que o atribui ao Fiel da Artilharia da mesma Fragata que, além do seu péssimo carácter, também fora repreendido asperamente depois da salva ao meio-dia de 29 de Outubro. Custaria até aqui conceber tanta maldade no coração de um homem, mas o acontecimento referido, mostra bem que há na espécie humana monstros capazes das mais horríveis acções. Virá aqui a propósito referir outra extraordinária coincidência relativa ao mesmo sucesso.”
Voltemos à carta de Lisboa recebida pela mala que chegou a Macau nos inícios de Outubro de 1850, quase meio mês antes da explosão acorrer. Quando o Tenente Luís Maria Bordalo leu o que seu irmão Francisco escrevera sobre os rumores que circulavam em Lisboa, por ser muito singular o dito oficial mostrou a alguns dos seus camaradas, pois falava da notícia de uma explosão na fragata D. Maria II. Estranho quando só dois meses depois tal se veio a verificar a 3600 léguas de distância, tendo o Tenente Luís Maria Bordalo morrido na explosão.
Na ilha da Taipa, junto à fortaleza, encontra-se escrito em português e chinês um memorial às vítimas da explosão da fragata D. Maria II erecto em 1851. No entanto, todas as datas em ambas as línguas, que na pedra granítica foram gravadas, estavam erradas e após terem sido emendadas muito mais tarde, não se conseguem agora ler com nitidez.

28 Set 2015

Migração questão milenar

“JHA is a fragmented policy field that responds to different policy-making rules (intergovernmental and supranational. The development of a JHA external dimension is dependent upon two variables: states’ preferences and historical legacies. The different combination of those variables border management, counter-terrorism and rule of law promotion leads to different patterns and trends. The most general trend identified is that the JHA external dimension, applied to the Mediterranean region, is more dependent upon institutional processes (historical legacies and Member states’ preferences) than upon ideational elements. Contrary to widespread belief, the development of a JHA external dimension started well before 9/11 and was the result of various institutional factors, in particular path-dependency and states’ preferences.”
The Mediterranean Dimension of the European Union’s Internal Security
Sarah Wolff

Amaior parte das vezes por necessidade, outros obrigados por outros conflitos e guerras, e umas quantas mais pelo desejo de alargar o seu poder, há milhares de anos o ser humano tem emigrado, ou foi deslocado pela força para novos locais ou países, sendo um fenómeno que se repete actualmente, com o fluxo descomunal de cidadãos provenientes de África e do Médio Oriente para a Europa.
As previsões da “Organização Internacional para as Migrações (OIM) ”, calculam que mais de quatrocentas e trinta mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo para a Europa, desde o início do ano, e cerca de duas mil e oitocentas pessoas morreram ou desapareceram nessa tentativa, e cujo número aumenta diariamente.
As previsões podem estar muito aquém do número real, pois milhares de pessoas têm atravessado as fronteiras a pé, provenientes da Síria, Iraque, Afeganistão, Irão e Paquistão à procura de um futuro melhor para si e suas famílias e, muitas das vezes fugindo de conflitos, perseguições e da crise económica. Assim aconteceu na antiguidade com grandes migrações, e movimentos de deslocamento relativamente recentes como as duas grandes guerras mundiais ou a crise dos refugiados na antiga república da Jugoslávia, em que desenraizados carregando nas costas os seus poucos pertences, se sujeitaram a caminhadas enormes de centenas ou milhares de quilómetros.
O Alto-comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) estima que existem cinquenta milhões de vítimas de deslocação forçada, incluindo refugiados, requerentes de asilo, apátridas e deslocados internos. As primeiras migrações deram-se há milhares de anos de África para a Europa e Ásia, assim como, deste último continente para a América, através do Estreito de Bering, aproveitando o congelamento do mar e o menor nível das águas.
É de considerar os povos asiáticos que povoaram partes da Europa. Há mais de dois milénios, indo-europeus que inicialmente podem ter vindo de regiões da Ásia estenderam-se pelo centro e sul da Europa e assim nasceu o mundo greco-latino, embora para o Ocidente foram outros, conhecidos como celtas e germânicos.
Os povos gregos e fenícios habitaram extensas terras do norte da África e outras regiões no território europeu e fundaram as “polis”, termo que passou a denominar as primeiras cidades antigas. Ainda existem alguns indícios, de que os Vikings, povos do norte da Europa, pudessem ter chegado ao que é actualmente a América do Norte, muito antes de Cristóvão Colombo, e dessas supostas viagens não existem indicações de que tal facto, tenha criado uma migração, como aconteceu depois da primeira viagem dos genoveses em 1492.
Os “Descobrimentos” deram lugar a um grande movimento migratório dos países europeus, liderados por Portugal, Espanha e Inglaterra para o “Novo Mundo”. A extensão do território americano e a sua imensa riqueza natural, também, deram origem à chegada de todo o tipo de europeus que não vieram necessariamente com boas intenções, como ficou provado pela devastação de muitos povos da América Central e do Sul.
O capítulo mais vergonhoso da humanidade, após a descoberta da América, foi o tráfico de negros de África para trabalhar e explorar os recursos naturais do novo continente, uma vez que a subjugação dos povos indígenas não foi suficiente para fornecer mão-de-obra para a grande quantidade de trabalho existente.
A escravidão que se deu, desde 1500 até 1850, fez chegar doze milhões de negros ao continente americano. Ainda que o descobrimento da América tenha gerado vagas sucessivas de emigrantes europeus, o grande fluxo de pessoas em busca de outras oportunidades no “Novo Mundo”, ocorreu depois de 1800 e não conseguiu parar até à primeira metade do século XX.
Estima-se que em quase um século e meio vieram para a América cinquenta e cinco milhões de pessoas. Aos Estados Unidos, desde o final do século XIX chegaram mais de um milhão de emigrantes por ano, particularmente ingleses, irlandeses, italianos, austríacos e gregos que se instalaram inicialmente na costa leste e centro do país, embora muitos tenham atravessado o país para Ocidente, onde a corrida ao ouro durou várias décadas.
A primeira e a segunda Guerra Mundial foram, por causa do seu impacto e brevidade, as duas fontes de deslocação e migração dentro da Europa e de outros continentes por comunidades expulsas. Os movimentos que foram criados pelos dois conflitos e que também incluía a redefinição das fronteiras de muitos países são estimados em quarenta e cinco milhões de pessoas.
A Guerra Civil espanhola foi um conflito que resultou no exílio de mais de um milhão de pessoas que foram principalmente para a América e, em menor grau para outros países europeus. A independência, e posterior divisão do subcontinente indiano, levou ao deslocamento de mais de quinze milhões de pessoas, principalmente por motivos religiosos, dois anos após o término da II Guerra Mundial.
A guerra de três anos e a posterior divisão da Coreia em duas, em 1953, foi também motivo de deslocamento de aproximadamente quatro milhões de pessoas. Os conflitos nos Balcãs, que ocorreram na década de 1990, através de um conjunto de guerras étnicas e religiosas, e que causou a fragmentação da República da Jugoslávia, deixaram quatro milhões de pessoas deslocadas. A África foi assolada por vários conflitos que ocorreram no Sudão, Libéria, Ruanda, Serra Leoa, Tanzânia, Guiné e Etiópia, dos quais resultaram dez milhões de refugiados e pessoas deslocadas.
O “Conselho Europeu para a Justiça e Assuntos Internos” reuniu-se em Bruxelas, a 14 de Setembro de 2015, para debater a actual crise de migração, sabendo que a União Europeia (UE) se encontra profundamente dividida quanto à gestão da maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial. A Alemanha tinha anunciado que iria proceder à reinstalação dos controlos na sua fronteira sul com a Áustria.
A Áustria, de seguida instalou o mesmo procedimento na sua fronteira com a Hungria e a Eslováquia. A Holanda reforçou os seus controlos e a Polónia e a Bélgica estudam semelhantes medidas. Os ministros do Interior e da Justiça da UE, perante este trágico cenário não conseguiram chegar a um acordo sobre a distribuição de cento e vinte mil refugiados, que seriam adicionados aos quarenta mil que tinham sido aceites em Maio de 2015, dado não ter havido unanimidade, porque a Hungria, Eslováquia, Polónia, República Checa e Letónia, recusaram a proposta.
A Presidência do Conselho concordou que antes da realização de uma cimeira de líderes, existiria uma nova reunião a 8 de Outubro de 2015, na qual se poderia votar por uma decisão que não carecia de unanimidade, e o grupo de Estados-membros que se recusaram a aceitar a proposta apresentada, não constituem uma maioria que impeça a aprovação das medidas postas a discussão.
Os ministros apenas aprovaram um conjunto de medidas, a maioria quanto ao encerramento de fronteiras e impedimento da chegada de mais refugiados, sendo um dos principais pontos de consenso, a construção de centros de retenção na Grécia e Itália e a detenção de quem pise solo europeu, para separar os refugiados com direito a asilo dos emigrantes económicos. É de recordar que entre os refugiados se encontram muitos terroristas do estado islâmico, que as autoridades europeias se recusam a aceitar, apesar dos avisos de todos os quadrantes, incluindo do Papa Francisco.
Os emigrantes económicos estão sujeitos à repatriação. A Alemanha quer incluir na lista dos países donde provêem os refugiados com direito a asilo, o Iraque, dado ter mais de três milhões de pessoas deslocadas internamente, e trezentas e setenta mil refugiados no exterior, sendo lar de duzentos e cinquenta mil refugiados sírios, e ter mais de oito milhões de pessoas a precisar de assistência humanitária e o estado islâmico controlar quase um terço do território.
A Turquia não estaria em princípio na lista dada a situação dos curdos. Além disso, não haveria nenhuma distribuição dos refugiados na Europa até os centros de retenção estarem a operar e as fronteiras externas estarem mais cerradas. A Itália solicitou que a “Frontex”, a agência de controlo da fronteira europeia, seja responsável pelo repatriamento de emigrantes sem direito de asilo e que sejam financiados com fundos comunitários.
Os ministros também estudaram a criação de mais campos de refugiados na África e no Médio Oriente para declarar que quem se encontre nesses campos não estaria em perigo e, logo, não tem direito de asilo. Além disso, concordaram em aumentar os fundos europeus para o “ACNUR” com o fim de melhorar a vida em campos de refugiados nos países vizinhos da Síria, Turquia, Líbano e Jordânia. 22915P18T1
A Turquia podia cooperar impedindo a saída de barcos das suas costas. A UE aprovou a segunda fase da operação militar EUNAVFOR Med, destinada a combater militarmente as máfias de traficantes de pessoas no Mediterrâneo. A primeira fase que se iniciou há quatro meses, apenas realizou a vigilância área e marítima, enquanto a segunda fase terá por objectivo deter os traficantes de pessoas e desmantelar o seu modelo económico.
A missão só actuará em águas internacionais em virtude da ONU se negar a fazer aprovar uma resolução que permita ao dispositivo europeu a entrada em águas territoriais da Líbia. A hipotética terceira fase incluiria a inutilização nos seus portos, por meios militares, das embarcações que servem de transporte a emigrantes e refugiados desde a Líbia até Itália, mas para ser activada carece de um pedido expresso do governo líbio ou de uma resolução da ONU.
As questões relacionadas com a migração serão objecto de novo debate no Conselho JAI de 8 de Outubro de 2015 e no Conselho Europeu, de 15 e 16 de Outubro de 2015. A cimeira especial sobre a migração, realizar-se-á, em La Valetta, a 11 e 12 de Novembro de 2015.
Em Setembro de 2010, Kadafi ameaçou a UE de que a Europa se tornaria um continente negro se não lhe fossem pagos cinco mil milhões de euros por ano para parar a vaga de emigrantes de África para a Europa. Esta anedota, que agora pode ser meditada a partir da perspectiva da guerra na Líbia, é realmente triste e sintomática das contradições das políticas da UE para a região ao longo dos últimos anos.
O espírito positivo inicial do “Processo de Barcelona” foi ultrapassado por preocupações da “realpolitik” que levaram os europeus a ser menos contundentes sobre a promoção de princípios normativos, tais como a democratização. Em vez disso, parece que as preocupações da migração, controlo de fronteiras e segurança interna da UE tomaram precedência sobre a promoção do Estado de direito e da democratização.
Talvez tenha chegado a hora de rever a política externa e de segurança da UE para a região e investigar como as políticas JAI não só devem servir a segurança interna da Europa, mas também poderem contribuir para a segurança dos cidadãos da região. O objectivo de acelerar a liberdade, segurança e justiça na região é mais do que nunca desejável.

22 Set 2015

李渔 LI YÜ, ESCRITOR DE ÓPERAS

Li Yϋ (李渔), nome artístico de Xianlü (1611-1680), foi um escritor dramaturgo que se dedicou aos romances, como o livro erótico chinês, Rou Pu Tao, (肉蒲团) e cujas peças para teatro foram representadas pela Companhia de Ópera por si criada.
Apesar de a família ser de Zhejiang, nasceu na aldeia de Rugao, hoje prefeitura de Nantong província chinesa de Jiangsu, onde o pai tinha um pequeno negócio de produtos de medicina e a mãe trabalhava como empregada de limpeza. Levava já onze meses na barriga e após três dias e noites de dores sem conseguir dar à luz, no sétimo dia da oitava Lua passou em frente a casa um ancião. Chamado pela tensão que dentro de portas se desenrolava, encontrou um lugar não propício para aquele novo Ser nascer e assim, transportando a grávida para o Templo dos Antepassados da aldeia, logo facilmente chegou a criança ao mundo.
O ancião chamou-lhe Xianlü (仙侣, o que acompanha o Imortal) e para seu destino o nome (号, hao) de Tiantu (天徒, Estudante do Céu).
Com o nome de nascimento Xianlü e de cortesia Li Weng, reinava ainda a dinastia Ming quando foi fazer os iniciais exames imperiais, depois de a mãe, seguindo os passos da progenitora de Mêncio, por três vezes ter mudado de casa para o ambiente a rodear o filho lhe ser propício aos estudos. E foi, pois como estudante, ao passar a morar já na cidade em frente à biblioteca, dedicou-se a sorver conhecimentos a esses livros. Mas, com o falecimento do pai tiveram que regressar à aldeia, onde aos dezanove anos se casou. Cinco anos depois, em 1635, foi a Jinhua fazer os exames preparatórios para poder participar nos Exames Imperiais (Keju) na categoria Gongju. Nesses exames locais, denominados Tongshi, ficou Xianlü aprovado, tomando o título de Xiucai e com a possibilidade de ir à capital da província realizar os Exames Imperiais. Assim em 1639, encontrava-se em Hangzhou cheio de expectativas, quando entrou confiante no enorme recinto para fazer o Exame Provincial (Xiangshi), que lhe daria o título oficial de Juren. Falhou! Voltou em 1642, no que viriam a ser os últimos exames da dinastia Ming, mas no caminho para a capital da província de Zhejiang soube que o exército manchu acabava de atravessar o Rio Yangtzé e por isso regressou à aldeia.
Com o destino traçado, resolveu ficar por Rugao e aí criar o seu jardim Yi, onde planeou passar o resto da vida e dedicar-se exclusivamente à literatura. bnr-2
A ilusão da carreira burocrática ficara para trás com a queda da dinastia Ming em 1644 e a mudança para a dinastia Qing não lhe dava possibilidades de ser admitido nos exames seguintes, que o conduziriam às posições de hierarquia de governação, acessíveis a partir de então quase só para os manchus.

Escrever sem ganhar dinheiro

Crendo ter um lugar para toda a vida na aldeia, pois era um camponês que sabia ler e escrever e com os seus conhecimentos ajudava a resolver muitos dos problemas que aí surgiam, os anos foram passando e com ele gastando o original, apesar de manter as mãos a trabalhar a terra, plantando o seu jardim Yi. Reconstruiu a sua casa, decorando-a e ter-se-á divertido a escrever sobre esse assunto.
Mas eis que em 1648, ou em 1651, após uma controvérsia com uma aldeia vizinha, resolveu partir e ir com a família viver para Hangzhou. Aí descobriu pessoas que gostavam de assistir aos inventos que surgiam ao redor das mesas de chá onde se escutavam com grande atenção e entusiasmo histórias contadas em actuações teatrais de poucos adereços, mas explicadas requintadamente em gestos e voz. O ambiente cultural fervilhava em espectáculos, sobretudo de vários tipos de Ópera que dinamizavam a cidade. Apercebendo-se ser ali o lugar e inspirado por aquele estar, viu a possibilidade de poder fazer o que mais gozo lhe dava e ainda conseguir mostrar o seu talento. Escreveu muito entre 1651 a 1661, no período em que viveu em Hangzhou, sendo o livro Doze Mansões (十二楼, Shi Er Lou) editado por essa altura. Tornou-se também um dos primeiros escritores a vender as suas histórias, para depois serem contadas, ou em letras adaptadas às peças de Ópera. Assinava a obra com o nome de Li Yü e já tinha escrito seis letras de Ópera e duas pequenas histórias, que toda a gente muito apreciou.
A fama crescia e mal acabava de escrever uma história, após ser impressa em Hangzhou, logo era reproduzida e enviada pela China, onde em algumas cidades eram impressas e vendidas sem que Xianlü ganhasse mais algum dinheiro com o que fazia. Chengdu-opera-sichuan-actores-d04
Percebendo ser Nanjing onde os seus escritos estavam avidamente a ser copiados e muito difundidos, para aí se mudou e passou vinte anos, os melhores e os mais penosos da sua vida.
Já estabelecido em Nanjing, Li Yü em 1657 terminou o livro erótico chinês, Rou Pu Tao, (肉蒲团), sobre o qual escrevemos na semana passada.
Viajava frequentemente por toda a China, estaria ele talvez ligado a algum grupo de Ópera que percorria o país em digressões. Foi em duas dessas viagens de 1667, já com grande fama de escritor, que a sua vida mudou de rumo ao lhe serem entregues, para suas estudantes, duas jovens raparigas de treze anos. Se ainda até 1668 vai a Hangzhou visitar a esposa, só dez anos depois lá voltou.
Consagrado como escritor e criador de óperas, entrava num novo processo e começou a rever a grande quantidade de letras de Ópera por ele escritas. Entre elas escolheu dez, fazendo um livro a que chamou Li Weng Shi Zhong Qü (笠翁十种曲) e quando em 1668 foi editado, rapidamente se tornou o primeiro em vendas.
Li Yü comentava sobre as suas peças dizendo: “Óperas são para as pessoas ficarem alegres, para quê pagar para as fazer chorar! O que escrevo é para fazer as pessoas rir e espero que todos os que lêem os meus livros atinjam Milafo (Buda Sorridente).”

Companhia de Ópera Família Li

A viver em Nanjing, numa das suas inúmeras viagens, em 1667, Li Yü, já com a idade de cinquenta e seis anos, passou por Linfeng onde um oficial local lhe entregou uma miúda de treze anos, QiaoJi, recomendada pela sua inteligência, pois logo na primeira semana de aulas absorvera o que a professora lhe tinha para dar durante todo o ano e assim, ao chegar às mãos do mestre já vinha prendada pela belíssima voz e representava-se como uma verdadeira senhora.
Meses depois, ao viajar por Langzhou, um amigo ofereceu-lhe uma outra rapariga, WangJi também com uma excelente voz e da mesma idade.
Reconhecendo haver qualidade nas suas estudantes e escrevendo letras de Ópera, nada melhor do que as preparar para a interpretação das suas obras expressamente criadas para elas, o que veio a originar a Companhia de Ópera Família Li.
De 1667 a 1672, as duas jovens viveram dos treze aos dezanove anos com Li Yü e de suas estudantes, passaram a interpretar em palco as obras do mestre. QiaoJi realizava na perfeição o papel de senhora, representando WangJi o masculino, algo contrário ao que ocorria nos palcos de Ópera chinesa pois, o normal era os homens a desempenhar os papéis femininos. O envolvimento do trio gerou um laço familiar entre eles e de professor e actrizes tornaram-se amantes. Período de uma grande criatividade, de muita obra e actuações, sempre em digressões extremamente desgastantes, como a ocorrida em 1670 entre Fujian e Guangdong. Ressentindo-se do prolongado esforço, em 1672, as jovens, uma a seguir à outra, adoeceram e falecerem ambas com dezanove anos.
De forma fulminante terminava assim um período intenso de ‘criactividade’, ficando Li Yü completamente destroçado. Ainda em 1672, com sessenta e um anos fez amizade com Pu Song Ling (蒲松龄), cuja idade andaria pelos trinta e já escrevera o livro Liao Zhai Zhi Yi (聊斋志异). Relacionava-se também com o avô de Cao Xue Qin, sendo o neto quem viria a escrever o Romance Mansão Vermelha.
Li Yü ainda tentou manter a sua Companhia de Ópera, mas fechou-a em 1673, tendo no entanto nesse Verão recebido um convite do Governador da província de Shanxi para fazer representações na capital, Taiyuan. Período em que viajou até Pequim, tendo de vender a residência que tinha em Nanjing no ano de 1674.
Xianlü voltou no Verão de 1677 para Hangzhou, fugindo das memórias daqueles tempos de Nanjing, trazendo a finalidade de ir ajudar os seus filhos a entrar nos exames imperiais e aqui veio a falecer em 1680.

Que personagem era Li Yü?

Escreveu no livro erótico chinês, Rou Pu Tao (肉蒲团): “Portanto, se Mencius tivesse assumido a atitude de um conselheiro severo, se houvesse levantado a voz, e, com uma expressão solene, lhe dissesse:
Se acaso Mencius tivesse falado nestes termos, o príncipe tê-lo-ia escutado em silêncio por uma questão de delicadeza não faria comentários. Porém, de si para si, desculpar-se-ia, pensando: . E faria orelhas moucas às palavras do mestre. baishe-2
Mas que fez Mencius? Evitando assumir ares pedantes, referiu-se com ironia às fraquezas do príncipe. Em tom de conversa afável, falou-lhe de um caso idêntico da história, ou seja, o do príncipe Tan-fu (Rei T’ai, bisavô do duque Wu), que padecia de uma atracção semelhante pelas mulheres. Descreveu-lhe um episódio divertido da história galante, no qual se conta que o príncipe Tan-fu (c. 1250 a.C.) necessitava a tal ponto de companhia feminina que não podia passar sem ela por mais de um quarto de hora. Este príncipe, até mesmo no meio dos maiores perigos, quando fugia a cavalo diante do inimigo, queria levar consigo a favorita na mesma sela. Com isto conseguiu não só que o príncipe lhe prestasse atenção, mas ainda que o escutasse com o maior interesse. Esperava, sem dúvida, ouvir que um homem dissoluto a ponto de não ser capaz de passar sem mulheres, nem mesmo durante um quarto de hora, e que levava consigo a favorita enquanto fugia à frente do inimigo, tivera um mau fim e perdera o trono e ao mesmo tempo a vida. Mas nada disso; o que ouviu foi que este príncipe, em vez de se entregar unicamente aos prazeres do leito, ajudava o povo a partilhar os mesmos prazeres. Fazia tudo quanto estava ao seu alcance para promover os casamentos em todo o país, e tratava de investigar se havia alguma rapariga solteira e abandonada nas casas dos seus vassalos, ou se existiam homens celibatários em idade de casar. Sempre que celebrava uma festividade no palácio com as suas esposas, queria que o povo se divertisse também, partilhasse o seu contentamento, e, nesse sentido, organizava festas populares. Por isso se tornou para o seu povo uma verdadeira , um promotor da alegria de viver, pondo em prática o velho preceito de governar estabelecido pelo filósofo Kuan-tzu [Kongzi em mandarim, ou Confúcio para o Ocidente] (sétimo século a.C.); “.
Para que todos os homens pudessem ser bafejados por uma felicidade idêntica, os governantes deviam tomar o terceiro lugar a seguir ao Céu e à Terra. O governante é como o Céu que abriga todos os mortais. É como a Terra que os mantém a todos. Um governo egoísta conduz à anarquia.
Quem, entre os povos, poderia deixar de bendizer e exprimir a sua gratidão para com um tal príncipe? Quem ousaria censurá-lo pelas suas fraquezas e acusá-lo de injustiça? Assim falou Mencius.” citado da versão portuguesa do livro erótico chinês Jou Pu Tuan, escrito por Li Yϋ (1611-1680) e traduzido por Maria Isabel Braga, que saiu na Editora Livros do Brasil, Lisboa em 2002.
E foi com esta fórmula que Li Yü desenvolveu a picante história erótico no seu livro Rou Pu Tao, (肉蒲团) cuja tradução livre significa Macio Tapete de Carne.

18 Set 2015

Mendes Pinto encontra pertences da 1ª Embaixada

Regressamos ao continente chinês e pelas províncias de Fujian, Zhejiang e Jiangsu, vamos acompanhar Fernão Mendes Pinto no que, muitas vezes na primeira pessoa, descreve na Peregrinação.
Os tempos ainda não vão longe desde que os portugueses ficaram proibidos de entrar na China, corria o ano de 1521 e pelo qual a segunda embaixada portuguesa ao Celeste Império e também o Embaixador Tomé Pires sofreram pesados castigos. Ainda na dinastia Ming reinava o nosso conhecido Imperador Jiajing (1522-66), que começou a governar logo em 1521, após o falecimento do Imperador Zhengde, o que contactara pessoalmente em Nanjing com a primeira embaixada portuguesa.
Agora, Fernão Mendes Pinto seguindo com mercadores portugueses, embarcados iam fazer o trato no mar, mas, naufragando, são aprisionados como foras de Lei e conduzidos pelo interior da China a caminho de Beijing, para serem julgados. Já o relato do que ocorreu em 1541, quando o grupo do Capitão António de Faria, em que pela escrita Fernão Mendes Pinto vai integrado, seguia para “Nouday a tentar resgatar cinco portugueses, residentes em Liampó, que viajaram num barco cujas amarras se quebraram com o temporal e fora dar à costa e à sua vista se fizera em pedaços na praia e de toda a gente se não salvaram mais que treze pessoas, cinco portugueses e oito moços cristãos, os quais a gente da terra levou cativos para um lugar que se chamava Nouday” Peregrinação. Xhuzhou
Com as costas marítimas de Guangdong fechadas, os imensos interesses dos comerciantes, tanto portugueses como dos chineses, subornando os mandarins, muitos para pagarem os ordenados aos seus funcionários, levaram a que os portos de comércio fossem desviados para Norte, para a província de Fuquiam (Fujian, 福建). Em Zhangzhou (漳州, Chincheo), na baía de Amoy (actual Xiamen) e em Liampó, próximo de Ningpo (actual Ningbo), na província de Zhejiang, fizeram os mercadores portugueses os seus portos, conseguindo os produtos chineses, como a seda e porcelana e por troca, a prata vinda do Japão.
Como diz Montalto de Jesus: “Segundo o Tratado da China, de Gaspar da Cruz, os chineses que emigraram em contravenção às suas leis dependiam dos portugueses para manter a comunicação com a China, forneciam-lhes guias e auxiliares, e, depois do imbróglio (com Simão) de Andrade, levaram-nos a Liampó (Ningpo), onde os mandarins, largamente subornados, faziam vista grossa ao comércio proibido, que, com o passar do tempo, se estendeu a Chincheu, chegando a restabelecer-se às próprias portas de Cantão.”
Esse segundo ciclo dos portugueses na China foi brilhantemente descrito in loco por Fernão Mendes Pinto na Peregrinação e à medida que os documentos chineses tem sido traduzidos a credibilidade deste livro de viagens aumenta.
São desse período os relatos da Peregrinação que se interligam com a história de Tomé Pires, o primeiro Embaixador português à Corte Imperial chinesa que, desacreditado, foi preso e mais tarde abandonado no interior do país. Estava Pires proibido de sair da China, até Malaca ser entregue ao seu dono, o Sultão tributário do Império Celeste. Já mais de quinze anos tinham passado desde 1524, quando as últimas notícias sobre Tomé Pires chegaram a Malaca e falavam sobre a sua morte.
O primeiro relato na Peregrinação que refere o nome de um tal Tomé Pires ocorreu em 1541 em Nouday, na altura em que o grupo do Capitão António de Faria, onde Fernão Mendes Pinto parece ir integrado, seguia para tentar resgatar cinco portugueses que aí estavam presos.
Já uma segunda história, para um próximo artigo, ocorreu dois anos depois, em 1543 e desenrolou-se em Sampitay, conhecida por Pizhou (邳州) e situada a Leste de Xuzhou, a Norte da província de Jiangsu, no percurso do Grande Canal e onde Fernão Mendes Pinto ficou a saber ter Tomé Pires aí vivido até cerca do ano de 1540.

Couraças de veludo roxo de cravação dourada

História contada do capítulo LXIII ao LXV da Peregrinação, tendo como resumo do capítulo LXIII: Como António de Faria teve novas dos cinco portugueses que estavam cativos, e do que fez sobre isso. No Capítulo LXIV: Como António de Faria escreveu uma carta ao mandarim de Nouday sobre o negócio destes cativos, e a reposta que teve dela, e o que ele fez sobre isso e no LXV: Como António de Faria cometeu a cidade de Nouday e o que lhe sucedeu. É neste capítulo que estão duas passagens interessantes, para além dos preliminares da história contada nos capítulos anteriores, mas que aqui não cabem.
Assim passamos a transcrever o capítulo LXV: “Ao outro dia quase manhã clara António de Faria se fez à vela pelo rio acima com os três juncos e lorcha, e com as quatro barcaças que tinha tomado, e foi surgir em seis braças e meia pegado com os muros da cidade. E amainando as velas sem salva nem estrondo de artilharia, pôs bandeira de veniaga ao costume dos Chineses, para que com as mostras destas pazes lhe não ficassem nenhuns comprimentos por fazer, ainda que sabia que, segundo isto da parte do mandarim estava danado, que nenhuma coisa daquelas lhe havia de aproveitar.
Daqui lhe tornou a mandar outro recado, com promessa de mais interesse pelos cativos e cumprimentos de muitas amizades, a que o perro se indignou de tal maneira que mandou aspar o coitado do chinês, e mostrá-lo do muro a toda a armada, com a qual vista António de Faria acabou de perder as esperanças que ainda alguns lhe faziam ter. E crescendo com isto a cólera aos soldados, lhe disseram que, pois tinha assentado de sair em terra, não esperasse mais, porque seria dar tempo aos inimigos para ajuntarem muita gente.
Ele, parecendo-lhe bem este conselho, se embarcou logo com todos os que estavam determinados para este feito, que já estavam prestes para isso, e deixou recado nos juncos que não deixassem nunca de tirar aos inimigos e à cidade, onde vissem maiores ajuntamentos de gente, porém isto havia de ser enquanto ele não andasse travado com eles. E desembarcando abaixo do surgidouro obra de um tiro de berço sem contradição nenhuma se foi marchando ao longo da praia para a cidade, na qual já a este tempo havia muita gente por cima dos muros, com grande soma de bandeiras de seda, capeando, com muitos tangeres e grandes gritas, como gente que estribava mais nas palavras e nas mostras de fora que nas obras.
Chegando os nossos a pouco mais de tiro de espingarda das cavas que estavam por fora do muro, nos saíram por duas portas obra de mil até mil e duzentos homens, segundo o esmo de alguns, dos quais os cento até cento e vinte eram de cavalo, ou, para melhor dizer, de sindeiros bem magros. Estes começaram a escaramuçar de uma parte para outra, e o fizeram tão bem e tão despejadamente que as mais das vezes se encontravam uns com os outros, e muitas delas caíam três, quatro no chão. Por onde se entendeu que devia de ser gente do termo, que era ali vinda mais por força que por sua vontade.
António de Faria esforçou alegremente os seus para a peleja, e, fazendo sinal aos juncos, esperou os inimigos fora no campo, parecendo-lhe que ali se quisessem averiguar com ele, segundo a fonfarrice das suas mostras prometiam. Eles, tornando de novo à escaramuça, andaram um pedaço à roda, como que debulhavam calcadouro de tribo, parecendo-lhes que só aquilo bastava para nos desviarem do nosso propósito. Porém, vendo que nós não voltávamos o rosto como lhes pareceu, ou porventura desejavam, se ajuntaram todos num corpo, e assim juntos e mal concertados se detiveram um pouco sem virem mais por diante.
O nosso capitão, vendo-os daquela maneira, mandou disparar a espingardaria toda junta, a qual até então estivera sempre quieta. E prouve a Deus que se empregou tão bem que dos de cavalo, que estavam na dianteira, mais de metade vieram logo ao chão. Nós, com este bom prognóstico, arremetemos todos a eles, bradando sempre pelo nome de Jesus, e quis Ele por sua misericórdia que os inimigos nos largaram o campo, fugindo tão desatinadamente que uns caíam por cima dos outros, e chegando a uma ponte que atravessava a cava, se embaraçaram de maneira que nem podiam ir para trás nem para diante.
Nesta conjunção chegou a eles o corpo da nossa gente, e os trataram de maneira que mais de trezentos ficaram logo ali deitados uns sobre os outros – coisa lastimosa de ver – porque não houve nenhum que arrancasse espada.
Nós, com o fervor desta vitória arremetemos logo à porta, e nela achámos o mandarim com obra de seiscentos homens consigo, o qual estava em cima de um bom cavalo, com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um Tomé Pires que El-rei dom Manuel, da gloriosa memória, mandara por embaixador da China, na nau de Fernão Peres de Andrade, governando o estado da Índia Lopo Soares de Albergaria.
O mandarim, com a gente que tinha consigo, nos quis fazer rosto ao entrar da porta, com que entre eles e nós se travou uma cruel briga, em que por espaço de quatro ou cinco credos se iam eles já metendo connosco com muito menos medo que os outros da ponte, se um moço nosso não derrubara o mandarim do cavalo abaixo com uma espingardada que lhe deu pelos peitos. Com que os chineses ficaram tão assombrados que todos juntamente voltaram logo as costas, e se começaram a recolher sem nenhuma ordem pelas portas dentro, e nós todos, de volta com eles, derrubando-os às lançadas, sem nenhum ter acordo de fechar as portas. E levando-os assim, como a gado, por uma rua muito comprida, vazaram por outra porta que ia para o sertão, pelo qual se acolheram todos sem ficar nem um só.
António de Faria, recolhendo então a si toda a gente, por não haver algum desmancho, se fez todo num corpo, e se foi com ela à chifanga, que era a prisão onde os nossos estavam (cinco portugueses e oito moços cristãos), que em nos vendo deram uma tamanha grita de – – que fazia tremer as carnes. E mandou logo com machados quebrar as portas e as grades, e como o desejo e o fervor disto era grande, em um momento foi tudo feito em pedaços, e os ferros com que os cativos estavam presos logo tirados, de maneira que em muito breve espaço os companheiros todos estavam soltos e livres.
E foi mandado aos soldados e à mais gente da nossa companhia que cada um por si apanhasse o que pudesse, porque não havia de haver repartição nenhuma, senão que o que cada um levasse havia de ser tudo seu, mas que lhes rogava que fosse muito depressa, porque lhes não dava mais espaço que só meia hora muito pequena. A que todos responderam que eram muito contentes.
Então se começaram logo uns e outros a meter pelas casas, e António de Faria se foi às do mandarim, que quis por seu quinhão, onde achou oito mil taéis de prata somente, e cinco boiões grandes de almíscar, que mandou recolher. E o mais largou aos moços que iam com ele, que foi muita seda, retrós, cetins, damascos e barças de porcelanas finas, em que todos carregaram até mais não poderem, de maneira que as quatro barcas e as três champanas em que a gente desembarcara por quatro vezes se carregaram e descarregaram nos juncos, em tanto que não houve moço nem marinheiro que não falasse por caixão e caixões de peças, afora o secreto com que cada um se calou.
Vendo António de Faria que era já passada mais de hora e meia, mandou com muita pressa recolher a gente, a qual não havia coisa que a pudesse desapegar da presa em que andava (e na gente de mais conta se enxergava inda isto muito mais). Pelo qual, receoso ele de lhe acontecer algum desastre, por se já vir chegando a noite, mandou pôr fogo à cidade por dez ou doze partes, e como a maior parte dela era de tabuado de pinho e de outra madeira, em menos de um quarto de hora ardeu tão bravamente que parecia coisa do inferno.
E retirando-se com toda a gente para a praia se embarcou sem contradição nenhuma, e todos muito ricos e muito contentes, e com muitas moças muito formosas que era lástima vê-las ir atadas com os murrões dos arcabuzes, de quatro em quatro e de cinco em cinco, e todas chorando, e os nossos rindo e cantando.” Texto da Peregrinação.
Fernão Mendes Pinto, que tinha chegado à Índia em 1537, durante a sua estadia no Oriente esteve desde 1541 e durante dois anos, a viver como alevantado em Martabão, no reino de Pegu, onde serviu no exército do Rei da Birmânia. Ora como se pode constatar, não terá sido Mendes Pinto a assistir ao episódio narrado por ele na primeira pessoa, pois só em 1543 consta ter entrado pela primeira vez na China. Mas tal data é desfeita pois Fernão Mendes Pinto e seus companheiros em 1542, após o barco naufragar na enseada de Nanquim e de muitas peripécias, seguiam pelo interior até Pequim fazendo-se passar por mercadores do Sião, mas acabaram presos. É o problema das datas, esse que prejudica a credibilidade da Peregrinação.
Proibidos de entrar em território chinês, os mercadores portugueses aventuravam-se agora pelo Mar do Leste da China a fazer comércio e a percorrer os seus portos clandestinos escondidos nas recortadas costas das províncias de Zhejiang e Fuquiam. Período de uma intensa pirataria pelas costas chinesas, pois a China contava com uma diminuta armada de guerra para o mar que tinha. Estava-se a meio da governação da dinastia Ming e os efeitos das sete viagens marítimas do Almirante Zheng He, que trouxera um desgaste económico ao país, ainda se faziam sentir. Dinheiro do comércio era o que a China precisava para pagar aos seus funcionários.

28 Ago 2015

A conquista de Ceuta foi há 600 anos

Passam hoje seiscentos anos da conquista de Ceuta pelos portugueses, que ocorreu a 21 de Agosto de 1415 e poucos dias após essa vitória sobre os mouros, o Rei D. João I aí armou cavaleiros os seus filhos, o príncipe herdeiro D. Duarte e os infantes D. Pedro e D. Henrique. Esta conquista foi considerada por Joaquim Veríssimo Serrão e muitos outros historiadores como o primeiro marco da expansão portuguesa.
Ceuta situada entre dois mares, olhando de frente para Gibraltar, segundo Gomes Eanes de Zurara era a chave de todo o Mediterrâneo. À entrada do Mar Mediterrâneo, era “ponto de confluência das rotas das caravanas no Saará Ocidental, na Baixa Idade Média e urbe vigilante da mais importante rota marítima da Europa de então, a que ligava o Mediterrâneo às costas atlânticas, que conduziam ao canal da Mancha e ao Mar do Norte” como nos foi apresentada na Exposição Temporária na cidade do Porto ‘Ontem Ceuta – 600 Anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo’. Já Luís Filipe Thomaz, referenciando Jaime Cortesão no livro ‘De Ceuta a Timor’ escreve: “a chave de dois universos mercantis, o mediterrâneo e levantino e o magrebino e sudanês. Para além do seu valor como escala de comércio há, porém, que não esquecer o seu valor estratégico, como testa de ponte para a conquista de Marrocos, ou mesmo para a de Granada e como base o corso marítimo”.
Afastada a guerra com Castela, após a vitória em Aljubarrota a 1385 e o Tratado de Paz de Ayllón em 1411, ficavam os nobres e as classes emergentes portuguesas sem lugar para mostrar a sua valentia e por actos heróicos ganhar acesso a terras e títulos e assim serem armados cavaleiros, num acto medieval da nobreza. Precisavam de guerras, onde se enriquecia pelas pilhagens, ou despojos e se adquiriam títulos de cavaleiros.
Já com o território possível conquistado, a Portugal só sobrava o mar. Por isso, nada melhor que ir ao terreno muçulmano, no outro lado da entrada do Mediterrâneo, conquistar as praças marroquinas do Norte de África. Essas conquistas por parte dos portugueses, indirectamente desanuviariam o Reino de Castela da pressão que lhe fazia o islâmico Reino de Granada, ainda no interior da Península Ibérica.
D. João I, o Rei de Boa Memória, reinou desde 6 de Abril de 1385 a 14 de Agosto de 1433 e foi o primeiro de uma nova dinastia, a de Avis, em que a família real portuguesa se ligava à da realeza inglesa. Do casamento entre D. João I e Dona Filipa de Lencastre nasceu a Ínclita Geração, com novos horizontes e atenta ao que se passava pelo mundo, sendo com ela que se deu o início da expansão marítima portuguesa.

Ceuta de portas abertas

Em 1410, Portugal encontrava-se próximo de celebrar um tratado de paz com Castela e nesse ano “teve D. João I o propósito de organizar umas festas reais para armar cavaleiros os três filhos mais velhos: o príncipe herdeiro D. Duarte, com 19 anos, e os infantes D. Pedro e D. Henrique que contavam, respectivamente, as idades de 18 anos e 16 anos.” E continuando com Veríssimo Serrão: “Mas tendo notícia do projecto objectaram os infantes que não queriam aceitar o grau de cavalaria numa cerimónia festiva, mas em luta contra os Mouros em África.”
Com a Paz de Ayllon de 1411, segundo Veríssimo Serrão, os portugueses prestaram ajuda militar à coroa de Castela, em guerra contra Granada e D. João I teve a garantia de poder organizar a expedição a Marrocos, sem receios de uma invasão de Castela.
A empresa de conquistar Ceuta começou a ser planeada em 1409 e “Pressionado pelos seus filhos e pelo vedor da sua fazenda João Afonso, D. João I, que aspirava desde algum tempo a realizar uma expedição a Marrocos, voltou então os olhos para a cidade de Ceuta. Mais arriscada do que a de Granada, porque cortada da retaguarda cristã, a conquista de Marrocos servia melhor (…) a política de afirmação e de prestígio dinástico que a nova casa real, maculada de bastardia, projectava conduzir; para ali se poderia exportar também a nobreza excedentária, conservando-a muito embora sob a suserania portuguesa. Aparentemente a maioria dos membros desta preferia o empreendimento de Granada; mas a recusa castelhana não lhe deixava outra alternativa”, como refere Luís Filipe Thomaz na sua obra ‘De Ceuta a Timor’.
Só foi comunicada à Alta Nobreza do Reino a empresa de conquistar Ceuta no Conselho Régio de Torres Vedras em 1414. Informação do Guia da Exposição Temporária na cidade do Porto ‘Ontem Ceuta – 600 Anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo’ e com a qual seguirei para relatar esse episódio, descrito por Gomes Eanes de Zurara na ‘Crónica da Tomada de Ceuta’.
Em Lisboa, a Peste Negra em 19 de Julho de 1415 levava deste mundo a Rainha Dona Filipa de Lencastre, o que devido ao luto fez adiar o início da empresa para a qual chegavam barcos e homens de Castela, da Biscaia, da Flandres, da Alemanha, da Bretanha e da Inglaterra. Os preparativos no Porto desenvolveram-se sob a orientação do Infante D. Henrique, aí nascido há vinte anos e devido ao seu sucesso no desempenho conseguido com o envio para Lisboa de mais de setenta naus e barcas, “uma frota bem preparada, como por homens que tem vontade de me servir” segundo palavras de D. João I, terá desde logo se posicionado como um excelente dinamizador de uma empresa maior já planeada pelo menos desde D. Dinis, quando este rei da primeira dinastia mandou plantar pinhais de verde pinho, investiu na construção naval, abriu a Universidade e transformou os Templários na Ordem de Cristo.
A 25 de Julho partiu de Lisboa a galera real com D. João I e a fina flor portuguesa, onde não faltavam Nuno Álvares Pereira e os três filhos mais velhos do rei, incluindo o próprio príncipe herdeiro, D. Duarte. A armada tinha aproximadamente duzentos barcos (cinquenta e nove galés, trinta e três naus e cento e vinte pequenas embarcações) e cerca de vinte mil homens. Foi só na escala em Lagos que “numa solene pregação é dado conhecimento público do destino da empresa”.
Navegando pelas águas do Atlântico, fazendo escala em Faro e em Tarifa, a frota ficou dispersa ao ser atingida por um temporal e veio a reunir-se na Baía de Algeciras. A 13 de Agosto tem à vista a península de Ceuta e o Mediterrâneo para Leste. Todas as embarcações sob o comando de D. João I e D. Pedro colocaram-se em frente à Praia de Santo Amaro, onde no dia 21 fundearam. Tal levou a população da cidade a correr para esse lado, enquanto do lado oposto, pela ainda aberta porta de Fuente Cabalo conseguiram entrar, sem grande resistência para o interior da fortaleza, os que vinham com D. Henrique e D. Duarte. “Logo no instante em que Vaz de Almada hasteou a bandeira de São Vicente na Torre da Vela, nos arredores do que é hoje a Porta Califal, os assaltantes tomaram posse da cidade” como refere Gabriel Fernandez Ahumada em ‘Desembarque dos Príncipes’.

A Mesquita Alhama passa a igreja

Nesse próprio dia, 21 de Agosto de 1415, os portugueses sem dificuldade submeteram a praça marroquina de Ceuta, abrindo assim no Norte de África, um novo destino para Portugal.
“Poucos dias depois, na antiga mesquita, já consagrada como templo cristão, o rei arma cavaleiros os seus filhos e, sucessivamente, também vários participantes na empresa. Nomeado capitão da praça D. Pedro de Meneses, o monarca regressa à Península a 2 de Setembro”, segundo Luís Adão da Fonseca, Comissário da Exposição Temporária ‘Ontem Ceuta – 600 Anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo’. E continuando com Gabriel Fernandez Ahumada, no Guia da Exposição Temporária: “Os dias 22 e 23 de Agosto foram dedicados à consolidação e limpeza dos subúrbios que havia dentro da zona conquistada, isto é, estes foram saqueados e os habitantes que ainda restavam foram expulsos; tudo isto foi feito com uma grande violência, espalhafato e falta de previsão, uma vez que foram destruídas casas e foram derramados grão, azeite e outros produtos que teriam dado muito jeito às tropas que ficaram a proteger a cidade.
No dia 24 procedeu-se à limpeza da Mesquita Alhama, foram pendurados dois sinos que tinham sido subtraídos numa razia que teve lugar na vila de Lagos e foi transportado da Galera Real um altar para a solene cerimónia de armar os Infantes cavaleiros no dia seguinte.” E recorrendo ainda à informação dos textos da exposição, no dia seguinte, domingo, dia 25 de Agosto, o monarca mandou aí colocar a imagem que trouxera de Nossa Senhora do Vale e celebrar uma missa solene, tendo feito o Frei João Xira um longo sermão. Finda a “cerimónia religiosa, foram armados cavaleiros os três Infantes e o conde de Barcelos, e muitos outros. Vale a pena recordar o comentário de Zurara a respeito do monarca: “. “Todos (em palavras de Zurara) vestidos mui ricamente por honra de tamanha festa.” E regressando a Gabriel Fernandez Ahumada: “entre os dias 26 a 31, após a demolição das casas anexas à muralha do Frente de Terra, que estavam a obstaculizar a visão do inimigo, o Rei iniciou a fase de consultas para designar um capitão de praça que ficasse em Ceuta à frente das forças militares, constituídas por dois mil e setecentos homens e duas embarcações que deveriam ser capazes de resistir a qualquer ataque por terra e por mar.” Dom Pedro de Meneses era Alferes do Infante D. Duarte e ofereceu-se como voluntário para ser Governador, cargo que ocupou durante vinte e dois anos, até à sua morte, a 22 de Setembro de 1437.
Ainda em 1415, ligado à empresa de tomar o lugar dos muçulmanos, dá-se o início do Padroado, que foi confiado à Ordem de Cristo e não a Portugal, sendo o Vigário de Tomar, Prior-mor da Ordem de Cristo, o primeiro a dirigir o Padroado. Logo a seguir à conquista, o Rei D. João I solicitou ao Papa a criação em Ceuta de um bispado, o que foi aceite em 1420, altura em que se ergueu a Sé, ficando como primeiro bispo, o Frei Aimaro de Aurillac, franciscano inglês trazida pela Rainha Dona Filipa de Lencastre. “De facto, (já) em 1299, o papa criava, simbolicamente, um bispado em Marrocos, atribuindo o direito da apresentação alternativamente aos reis de Castela e Portugal” de Filipe Thomaz como informação de A. Dias Dinis.

Um flash ao momento

Com a tomada de Ceuta dava-se o primeiro passo para encontrar um caminho alternativo à rota do Mediterrâneo, controlada pelos mamelucos que governavam o Egipto e venezianos, que iam buscar as mercadorias a Alexandria e as distribuíam pela Europa. Ao Egipto chegavam os apetecíveis produtos da Ásia, via Mar Vermelho, vindos pelo Oceano Índico.
No outro lado do mundo, na China durante esse período, o Imperador Yongle (1403-1424) enviara o Almirante Zheng He para divulgar, aos países tributários e amigos, a chegada ao Trono do Dragão da nova dinastia Ming. Essas embaixadas chinesas foram realizadas de 1405 a 1433, em sete expedições marítimas ao Sudeste Asiático, à África Oriental e ao Mar Vermelho. Só para se ter uma noção, quando ocorreu a conquista de Ceuta, acabava de chegar a Nanjing a quarta viagem, realizada desde Dezembro de 1413 até Julho de 1415 e que vinha de Mogadíscio, na África Oriental.
“A afirmação política da dinastia de Avis, junta ao ideal da Cruzada, foi determinante no objectivo da empresa. Mas outras causas, sociais, económicas e marítimas, têm sido apontadas na génese da Expansão: a posse de Ceuta como zona cerealífera, para ocorrer aos défices frumentários da Metrópole; a conquista de uma base naval para impedir os ataques da pirataria mourisca ao Algarve; a aproximação, por meio de Ceuta, Argel e Tunes, das fontes auríferas do Sudão; e a necessidade de obter um campo de luta em Marrocos, para ocupar a nobreza ociosa desde a paz com Castela”, segundo refere Joaquim Veríssimo Serrão.
Com a conquista de Ceuta em 1415, o Infante D. Henrique, já armado cavaleiro, dava início à empresa de tomar o lugar dos muçulmanos no Norte de África, em território marroquino, ficando “desde 1416 encarregue da defesa e provimentos de Ceuta, o que implicava o controlo da actividade corsária portuguesa na área do Estreito.” E continuando com Luís Filipe Thomaz: “De 1415 a 1422, (…) a armada tem por base Ceuta e actua (provavelmente com galés) na zona nevrálgica do Estreito, fazendo guerra do corso à navegação muçulmana e provavelmente periódicos ataques às costas de Granada e da Barbaria.”
Ceuta só deixou de ser portuguesa pois a Espanha não a entregou após o Tratado de Lisboa de 1668, que reconhecia aos portugueses a sua independência perdida em 1580.

21 Ago 2015

Mendes Pinto encontra a filha de Tomé Pires

Adesajustada política de D. Manuel para os Mares da China, como ficou bem provado com Simão de Andrade “habituado ao autoritarismo com que os Portugueses se haviam imposto por todo o Índico, não se adaptou às práticas locais, nem se apercebeu de que estava num país assaz peculiar, tanto de um ponto de vista cultural como do político e, por isso mesmo, incomparável a outras regiões asiáticas onde já servira o rei” como refere João Paulo Oliveira e Costa e com ele continuando: “Assim que chegou à orla do Império do Meio, Simão de Andrade cometeu um erro que originou o primeiro equívoco grave nas relações com as autoridades locais”, “resolveu defender-se em terra: ergueu para isso um fortim na ilha de Tamau, sem que os governantes chineses fossem ouvidos. Detentor de toda a autoridade no ilhéu onde se fortificara, o capitão enforcou aí um dos seus marinheiros, facto que fez crescer ainda mais a indignação e a preocupação dos chinas. Com as relações já tensas, Simão impediu que comerciantes de outras nações vendessem as suas fazendas e autorizou os seus homens a comprar moços e moças filhos de gente honrada” e João de Barros acrescenta: “Simão de Andrade personificava as virtudes e os defeitos do optimismo manuelino”.

Desmandos em Tamão e no vizinho mar de Tunmen de Simão de Andrade, aliados com o de mercadores portugueses terem batido num mandarim, foi o rastilho que estourou com Duarte Coelho a abrir fogo na batalha naval de 1521. Estas as grandes causas do malogro das duas primeiras embaixadas à China, a de Tomé Pires e a seguinte, em 1522 com Martim Afonso de Melo Coutinho como Embaixador e daí, “todas as desgraças que os portugueses sofreram na China nos mais de trinta anos seguintes, até ao aparecimento de Leonel de Sousa, que fez o assentamento de 1553-1554, em Kuóng-Hoi, com o Intendente Marítimo, Van-Pé (o haidao Wang Bo, subintendente dos Assuntos de Defesa Costeira que deu uma autorização de estadia temporária) – título que nos facultou o estabelecimento em Macau” A. Cortesão.

A suspensão obrigatória de todas as actividades da vida chinesa após a morte do Imperador Zhengde, não tinham sido respeitadas pelos comerciantes portugueses que se encontravam em Cantão, o que levou à expulsão dos bárbaros do país após duas batalhas navais e “como consequência, a proibição dos navios portugueses não poderem aportar em Cantão, nem estabelecer relações diplomáticas e comerciais com a China, fez os portugueses juntarem-se aos japoneses na pirataria pelas baías da costa de Fuquiam e Zhejiang, trocando a prata e outros produtos por seda com os contrabandistas chineses” A. Cortesão.

Havia ainda mercadores portugueses que entravam na China disfarçados e misturados com os comerciantes das embaixadas dos países do Sudeste Asiático. Fernão Mendes Pinto e seus companheiros em 1542, após o barco naufragar na enseada de Nanquim e de muitas peripécias, seguiam pelo interior até Pequim fazendo-se passar por mercadores do Sião, mas acabaram presos.

Já em 1525 um édito imperial decretara o fim da marinha mercante chinesa nos mares da China, tendo por isso alguns chineses emigrado e desrespeitando as leis tornaram-se mercadores renegados, dependendo dos portugueses para manter os contactos com os familiares e no comércio com os conterrâneos. Com estas amizades feitas, esses chineses ultramarinos forneciam aos portugueses guias e após o imbróglio com Simão de “Andrade, levaram-nos a Liampó (Ningpo), onde os mandarins, largamente subornados, faziam vista grossa ao comércio proibido, que, com o passar do tempo, se estendeu a Chincheu (Zhangzhou), chegando a restabelecer-se às próprias portas de Cantão”, como refere Montalto de Jesus citando Gaspar da Cruz.

As costas passaram a estar cheias de comerciantes piratas japoneses e portugueses à procura dos apetecíveis produtos chineses, pois proibido pela dinastia Ming o comércio marítimo com outros países e a China sem esquadras para patrulhar a longa costa. Mas os lucros em prata eram muitos e estas enseadas de Fujian e Zhejiang foram bons locais para as trocas entre chineses e portugueses.

Tomé Pires está morto ou vivo?

Montalto de Jesus refere que as “Cartas de Cantão que chegaram, anos depois, às mãos dos portugueses revelaram os sofrimentos atrozes da embaixada na prisão, onde roubaram a Pires os presentes reais recusados, assim como uma quantidade de almíscar, ruibarbo, damasco, cetim, ouro e prata que ele trazia consigo para fins comerciais. Era crença geral que, por fim, a desgraçada embaixada teria morrido na prisão.” Armando Cortesão complementa: “A carta de (o persa convertido Cristóvão) Vieira, concluída provavelmente em Novembro de 1524, diz que, de todos os companheiros de Tomé Pires, apenas ele e Vasco Calvo se encontravam vivos, na cadeia de Cantão, e à primeira vista dá a impressão de que Pires falecera em Maio desse ano. Esta passagem, que levou Barros, e todos os que, depois dele, mais ou menos levemente se têm referido ao assunto, a declarar que de facto Pires faleceu então na cadeia, é muito confusa e susceptível de várias interpretações. E aquela não é a interpretação que se coaduna com outros elementos de informação conhecidos.”

“Na verdade, Vieira não diz que Pires morreu na prisão, o que, no caso afirmativo, não deixaria de mencionar; a informação foi-lhe provavelmente dada pelos chineses, que teriam interesse em o enganar. Castanheda, que, nessa ocasião, se encontrava na Índia, diz que o Rei da China . Porém, Gaspar Correia, que, durante quase todos esses anos, também esteve na Índia, diz positivamente que o Rei da China . Isto é ainda confirmado por um antigo documento chinês, citado por W. F. Mayers, em que este assunto é referido, no qual se diz que a embaixada de Pires foi enviada sob prisão de Pequim a Cantão e os seus homens expulsos para além das fronteiras da província.

Por onde andava Tomé Pires

Ora, Fernão Mendes Pinto escreve, na Peregrinação, que, ao passar, em 1543, pela povoação de Sampitay, na margem do Grande Canal, quando seguia preso de Nanquim para Pequim, encontrou aí uma mulher cristã que, depois de lhe mostrar a cruz que tinha tatuada no braço e o convidar e a seus companheiros portugueses para sua casa, lhes disse “que se chamava Inês de Leiria, e que seu pai se chamara Tomé Pires,”…”E que a seu pai lhe coubera em sorte ser seu degredo para aquela terra, aonde se casara com sua mãe, por que tinha alguma coisa de seu, e a fizera cristã, e sempre em vinte e sete anos que ali estivera casado com ela, viveram ambos muito catolicamente, convertendo muitos gentios à Fé de Cristo, de que ainda naquela Cidade havia mais de trezentos, que ali em sua casa se ajuntavam sempre aos domingos a fazer doutrina” A. Cortesão. E com ele continuando, Fernão Mendes Pinto “confirmou tudo isto numa declaração escrita, ainda hoje existente, que, em 1582, fez a uns jesuítas que o visitaram em Almada”. Também Cristóvão Vieira na sua carta diz: “as mulheres dos línguas, assim as de Tomé Pires, que ficaram em esta cidade o ano presente (1524) foram vendidas como fazenda de traidores, aqui ficaram em Cantão espalhadas”. De onde A. Cortesão depreende “o facto de Pires ter, pelo menos, uma mulher chinesa, ao que parece, a mãe de Inês de Leiria, de que nos fala Fernão Mendes Pinto.

Pode, pois, reconstituir-se o que provavelmente se passou. Quando Pires, viajando pelo Grande Canal, quer na ida para Pequim, quer no regresso, parou em Sampitay, conheceu a mãe de Inês de Leiria, possivelmente, dama de certos meios e categoria, como cabia a um embaixador, com quem se juntou ou casou à maneira da terra. De modo que a venda da dama “como fazenda de traidores”, em Cantão, não teria tido para ela graves consequências, se é que foi abrangida em tal operação. Pelo que dizem Castanheda e, sobretudo, Gaspar Correia e o referido documento chinês, e Mendes Pinto confirma, se vê que Pires foi desterrado de Cantão, o que Vieira e Calvo não sabiam à data das suas cartas. Talvez nessa altura Inês de Leiria já tivesse nascido, ou estivesse para nascer, e é perfeitamente natural que Pires houvesse seguido com a filha e sua mulher para Sampitay, a terra em que esta tinha casa e bens” Armando Cortesão, que identifica “a Sampitay de Fernão Mendes Pinto, que então se chamaria Hsim (ou Sun) P’ei t’ai (segundo a grafia inglesa de nomes chineses) com a moderna povoação de P’i chou, ou P’ei chou, hoje, a uns nove quilómetros a nordeste do ponto mais perto no Grande Canal (cujo curso em certos sítios também variou muito durante os séculos), em latitude 34º 25′ N e longitude 118º 6′ E.” Conhecida actualmente por Pi Zhou, 邳州, era Sampitay denominada Pi Xian (邳县) em mandarim e situa-se a Leste de Xuzhou e ao Norte da província de Jiangsu.

Segue-se um elogiar de Armando Cortesão: “A descrição de Pinto carece de ajuste, num ou noutro ponto, o que não deve surpreender quando se considere que Inês de Leiria lhe falou em chinês, língua que ele decerto conhecia mal, que escreveu de memória quando, pelo menos, uns vinte e seis anos haviam já decorrido sobre os acontecimentos, e que a Peregrinação só foi publicada trinta e um anos depois da sua morte, com as introduzidas por Francisco de Andrade, para que Inquisição a deixasse dar à estampa.”

O que teria sido a Suma Oriental se…

Pela Peregrinação concluída em 1580, mas só editada em 1614, não se fica a conhecer o ano em que faleceu Tomé Pires, mas pela descrição que Inês de Leiria fez a Fernão Mendes Pinto se deduz ter sido por volta de 1540 e que da sua casa em Sampitay foram apreendidos papéis por ele escritos.

Com os portugueses proibidos de entrarem na China, difícil terá sido a Tomé Pires em Sampitay ter feito chegar a Malaca o que escreveu nos últimos quinze anos da sua vida. Por Gaspar Correia ficamos a saber que Tomé Pires a D. Duarte de Meneses, Governador das Índias entre Janeiro de 1522 e Dezembro de 1524. Mas até esse desapareceu, tal como tudo o resto que Tomé Pires escreveu na China. Seguramente uma grande perda para a História, Geografia e Botânica do século XVI, perante o que na Suma Oriental nos é permitido imaginar poderem ter sido essas informações.
“Depois duma mocidade cheia de esperança e de uma fecunda passagem de cinco anos pela Índia e Malaca – em que acumulou muito saber e não pouco cabedal, em cargos modestos mas que lhe permitiram grandes possibilidades de exploração e ao conhecimento do tão diferente e variado mundo oriental, com que os portugueses apenas vinham de entrar em contacto – o simples boticário achou-se, de repente, guindado a embaixador, para afinal vir a morrer ignoradamente, depois de tanta desilusão, ignomínia e sofrimento, perdido e esquecido numa terriola qualquer dessa China imensa, cujo mistério e riqueza tanto o haviam seduzido.

O nome de Tomé Pires é mais um a inscrever entre os de tantos dos seus compatriotas que pagaram o mais alto preço pela honra de bem servir a Pátria e a Humanidade”. Londres, Abril de 1945, Armando Cortesão.

Foi para comemorar os quinhentos anos do manuscrito Suma Oriental que, sobre a base do trabalho de Armando Cortesão e documentos dos arquivos chineses que têm visto tradução em português e transmitidos por muitos dos actuais historiadores de quem me socorri, fizemos esta longa viagem pelo percurso de Tomé Pires, esperando ter ficado o leitor, que acompanhou os episódios desta aventura, com uma visão sobre a acção e as dificuldades dos portugueses no primeiro período de relacionamento com a China, entre 1513 e 1522.

9 Ago 2015

Festa dos Tabuleiros em Tomar

As Festas do Espírito Santo em Tomar são conhecidas por Festas dos Tabuleiros e realizam-se de quatro em quatro anos, tendo em 2015 ocorrido entre os dias 4 e 12 de Julho.
Estas festividades foram criadas pela Rainha S. Isabel e o seu marido o Rei D. Dinis, que ao colocarem a “coroa fechada e encimada por uma pomba branca no homem de baixa condição, no pobre, ou na criança, os tornou Imperadores do Espírito Santo.” Era a preparação para a Terceira Idade do Mundo, como António Quadros refere no seu livro Portugal, Razão e Mistério.
“O ritual e as festas tal como se realizavam, a correlação das crenças e das ideias, das classes e das forças, nesse éon de fidelidade, não à palavra dos bispos, mas ao Evangelho Eterno.” “Profetizado por S. João no Apocalipse: vi, depois, outro anjo a voar no mais alto do Céu, o qual tinha um evangelho eterno para anunciar aos habitantes da Terra, a toda a nação, tribo, língua e povo”. E continuando com António Quadros: “Ao criar as Festas do Espírito Santo (D. Dinis) legou a Portugal um sentir solidário ao qual está ligado o Quinto Império. Deu alma a essa força fazendo coroar de rei, um dia por ano, uma criança ou uma pessoa do povo. Trovando em cantigas de amigo, vai dotar Portugal dos meios que permitiram a fantástica aventura que foi navegar em conquistas de espaço e avançar até ao Homem Moderno.”
Conhecida no início pelas Festas do Império, Tomar, a cidade dos Templários aos quais a Ordem de Cristo sucedeu, celebrou-as logo desde o século XIV, mas com o passar dos tempos a tradição foi-se perdendo e transformada “só resta já o folclore dos coloridos Tabuleiros” como Amorim Rosa na sua História de Tomar de 1965 escreve. E com ele prosseguindo: “Iniciada pelo baptismo dos catecúmenos em Sábado Santo, no Domingo de Páscoa reuniam em cada lugar ou sesmo os recém-baptizados e os velhos cristãos sob a égide do Chefe da Festa, eleito no ano anterior. Porque o Imperador, os Reis, Mordomos ou Vereadores, e o alferes (porta-bandeira do Espírito Santo) parece que eram eleitos no Pentecostes transacto.
Durante os cinquenta dias que medeiam entre a Páscoa e o Pentecostes, as Coroas e o Pendão do Divino Paráclito saíam a dar uma volta pela área, sesmo ou vila, cada domingo, e depois o Pendão do Espírito Santo e as Coroas eram guardadas durante a semana em casa de cada mordomo, saindo em festa de Saída das Coroas e recepção em casa do feliz mordomo da semana seguinte, a quem tão alta distinção era dada. Em dia, ou véspera da Pentecostes, em procissão, cada grupo levava as suas oferendas de pão em seus tabuleiros, envergando as moçoilas as suas túnicas brancas vestidas no Sábado Santo e despidas no Domingo – Pascoela. Junto com a carne e o vinho, fornecidos pelo Imperador, Mordomos ou vizinhos mais abastados, e géneros adquiridos com as esmolas recolhidas durante os domingos da Saída das Coroas, o pão era levado à Igreja Paroquial, para ser solenemente bento pelo pároco. De início, normalmente, cada freguesia tinha mais de um grupo. Depois nesse domingo da Quinquagésima, realizava-se um ágape de todos os cristãos do Grupo, onde comiam e bebiam o pão, a carne e o vinho benzidos, e elegiam um pobre ou um menino como Imperador da Festa e os dois Reis Mordomos para o ano seguinte, que coroavam com as coroas encimadas pela alva pomba, símbolo do Espírito Santo, cujo dia era, num gesto de humildade, igualdade, caridade e amor cristãos.
Com os tempos os grupos aumentaram, acabaram por reunir-se por freguesias (e já nos nossos dias no Concelho) e, na impossibilidade prática de realizar a refeição comunitária, voltou-se à fórmula inicial do BODO, onde a cada um se dava a pesa, ou seja, uma ração de pão, carne e vinho bentos, que cada família comia respeitosamente em sua casa”.

Os cortejos

A Festa dos Tabuleiros, uma das componentes da antiga procissão do Império, acontece no fim do Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa. São setenta dias de festa que culmina no domingo da Sétima Semana com a Sopa do Espírito Santo.
O Cortejo dos Tabuleiros realizou-se na tarde do Domingo, dia 12 de Julho de 2015, mas já durante a manhã ocorrera a Procissão da Coroa e Pendões do Espírito Santo, tendo-se realizado uma missa na Igreja de S. João Baptista, situada na Praça da República. Às quatro da tarde, foi então a vez do Cortejo dos Tabuleiros sair da mata dos Sete Montes, onde estiveram em exposição.
Os tabuleiros, com a altura das mulheres que os transportam sobre a cabeça, pesam entre dezoito e vinte e cinco quilos e actualmente a sua estrutura é constituída por quatro varas na vertical onde estão enfiados de cinco a sete pães, cada um com quatrocentos gramas e enfeitados com flores, verdadeiras ou de papel. Todos os tabuleiros têm uma coroa a encimá-lo e no topo desta apresenta-se a pomba branca do Espírito Santo, ou a Cruz de Cristo. Nesses tabuleiros eram originariamente levadas as oferendas ao Espírito Santo, mas, desde meados do século XX ficaram transformados num produto folclórico essencialmente ligado à promoção turística. E o resultado é a avalanche de turistas que encheram Tomar, apercebendo-se haver entre eles muitos estrangeiros.
Durante quase quatro horas o Cortejo dos Tabuleiros percorreu as ruas ornamentadas da cidade, capital dos Templários portugueses. A meio caminho do percurso entrou este na Praça da República e aí os tabuleiros foram retirados da cabeça das mulheres com a ajuda do par masculino, que a acompanha, para descansar daquele enorme peso. Reposta a energia e escutadas as palavras do prelado, com o tabuleiro de novo na cabeça, seguiu-se a bênção deles, que voltaram a circular pelas ruas cheias de pessoas, que durante horas esperaram ao Sol escaldante para ver passar o cortejo.
No final do cortejo seguiam três carroças puxadas cada por uma parelha de bois e onde se encontravam sentadas em cada uma três crianças. Como nos prospectos distribuídos no Turismo nada referem sobre a História destas festas, vemo-nos obrigados a recorrer ao que diz Maria Micaela Soares sobre o Imperador: “No primeiro ano é coroado; no segundo, imperador; e no terceiro vai entregar a bandeira.” Assim “a mesma criança figura portanto em três festas, a não ser que por qualquer motivo o não possa fazer”. No entanto, nenhuma destas crianças vinha coroada.
Já sobre a tourada, que no final servia para com a morte do touro, a carne ser consumida no Bodo, nada aparece no cartaz das festas.

O joaquimita

Joaquim de Flore, nascido em Celino, na Calábria em 1132, como pajem de Rogério de Sicília foi à Terra Santa e quando regressou entrou para a Abadia Cisterciense de Sambuccino, onde mais tarde foi Prior e Abade. Período em que a Ordem de Cister relaxava as suas regras feitas por S. Bernardo no século VI, Joaquim recusou voltar ao rigor das regras anterior e por isso, em 1192 esteve na origem da congregação “de Flore”, em San Giovanni que quatro anos mais tarde foi aprovada pelo papa Celestino III. Movimento espiritual que lhe deu o título de Bem-Aventurado, mas pelo qual mais tarde Roma o condena como ortodoxo herético. A obra de Joaquim de Flore compreende: “Concordia dos dois testamentos”, “Comentários do Apocalipse” e “Dez cordas do Saltério”.
Um século depois, nos finais do XIII, o monge Liberatus publicou “Vaticina Joachimi”, as profecias de Joaquim que eram escutadas com sucesso até ao século XVI. Em 1595, o beneditino Arnold de Wion publicou “Lignum Vitae” “A Árvore da Vida” que anunciava a destruição de Roma e o Juízo Final no fim de 111 Pontificados.
D. Dinis, em conjunto com D. Isabel trouxeram para Portugal a trindade joaquimita dos franciscanos espirituais e numa consciente acção de planeamento, povoou, plantou, cantou o encanto do Ser Humano em quem investiu, em vez das catedrais góticas.
“Para os Franciscanos espirituais dos séculos XIII, XIV, o Abade Joaquim tinha sido o novo S. João Baptista, anunciando o novo Cristo de uma Idade onde já não haveria lugar para a Igreja clerical.”
“…compreender-se-á por que julgamos ser a Festa do Império, no seu protocolo, uma manifestação ritual concebida como anúncio e preparação para a Idade do Espírito Santo, Terceira Idade do Mundo. Dest’ arte a Festa do Império constitui o paradigma simbólico e ritual do projecto áureo português, projecto religioso universal através da iniciativa dionisíaca, que irá guiar e iluminar singularmente a história nacional no seu período mais fecundo e criacionista, que será ferozmente combatido pelos ventos da Contra-Reforma, chegados até nós no tempo de D. João III e dos Filipes, mas que perdurará no destino lusíada até aos dias de hoje, nos nossos mitos do Encoberto e do Quinto Império, nas festas do Espírito Santo e nas comunidades espalhadas pelo mundo, pela nossa memória inconsciente e no saudosismo poético e literário, persistente no nosso pensamento.” Palavras retiradas do livro “Portugal, Razão e Mistério” de António Quadros em cortadas citações, para atingir a ideia que gostaríamos de transmitir.

4 Ago 2015

Os interesses da embaixada

Se Duarte Coelho foi um dos responsáveis pelo início das hostilidades navais com os chineses, apesar de Joaquim Veríssimo Serrão dele dar uma imagem de homem honrado e ilustre diplomata, anteriormente, já Simão de Andrade, sem tacto diplomático, “cometeu um erro que originou o primeiro equívoco grave nas relações com as autoridades locais”, como refere João Paulo Oliveira e Costa, e, “após os conflitos armados luso-chineses, ocorridos entre 1521 e 1522, nas águas de Tunmen, a Corte de Pequim decretou o encerramento dos portos cantonenses. Inicialmente, (…) as autoridades de Cantão recusavam (os portugueses,) os de Aname e Malaca. Desde que os mais variados bárbaros de Aname e Malaca foram recusados, eles iam fazer comércio clandestino às águas da prefeitura de Zhangzhou (漳州, Chincheo) fazendo com que a província de Fujian (福建) lucrasse com isso, deixando o mercado cantonense numa situação paupérrima” segundo Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, “O encerramento total dos portos cantonenses provocou danos insuportáveis à economia de Cantão, que tem sido, desde as dinastias Tang (唐, 618-907) e Song (宋, 860-1279), um importantíssimo empório para o comércio externo chinês. As receitas locais caíram a pique. A ordem económica local e de uma boa parte do Centro e Sul da China estava afectada e desequilibrada. A situação financeira de Cantão era de tal maneira caótica que nem conseguiam pagar os soldos e os vencimentos da função pública. Esta situação dramática levou o vice-rei Lin Fu a moralizar a Corte Central em 1529, apelando à revogação das proibições marítimas impostas a Cantão. O memorial ao Trono foi favoravelmente despachado e restabelecido o sistema tributário em Cantão, mas os portugueses continuavam proibidos de vir às águas de Cantão. No entanto, alguns, após uma década de ausência do litoral cantonense, começaram a voltar ao negócio da China, a título individual e integrados em grupos tributários de alguns países do Sudeste Asiático, principalmente disfarçados de siameses.”

Com os dois conflitos navais no Rio das Pérolas ganhos pelos chineses aos portugueses, em 1522 terminou “o primeiro período que começara com a chegada de Jorge Álvares à China em 1513”. Iniciava-se um novo ciclo “em que os Portugueses começaram a frequentar o litoral de Fujian e Zhejiang e que acabou” em 1549 “e podemos designá-lo como Entre Chincheo e Liampó” Revisitar os Primórdios de Macau.

O antigo Sultão de Malaca

“As petições do enviado do antigo sultão de Malaca, ferozmente anti-portuguesas, encontraram um renovado acolhimento na corte imperial, onde foram analisadas pelo libo (Rui Manuel Loureiro, Cartas dos cativos de Cantão: O libo de Cristóvão Vieira corresponde ao Tribunal do Ritos pequinense, que estava encarregado de organizar o protocolo das missões tributárias (Hugh b. O’Neill, Companinon to Chinese History). A partir das informações, algo confusas, do prisioneiro português, pode deduzir-se que em finais de 1521 a missão de Tutão Mafame rumou novamente a Pequim, onde pôde apresentar as suas razões em audiência imperial. O embaixador malaio queixava-se da abusiva conquista de Malaca pelos portugueses, pedindo a intervenção militar do Filho do Céu para repor a legalidade, ao mesmo tempo que denunciava a embaixada de Tomé Pires como missão de espionagem. Subsequentemente, os malaios foram reenviados para Cantão, com a promessa de que brevemente [lhe mandariam o despacho]”. E continuando no Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang: “A decisão imperial, com efeito, não tardou, após o lipu ter deliberado que [a terra dos franges devia ser cousa pequena chegada ao mar], uma vez que [depois que o mundo é mundo nunca viera a terra da China embaixador de tal terra].

O Imperador Jiajing (1522-66) ordenou, em primeiro lugar, que a carta do monarca português fosse queimada. Depois, o presente trazido por Tomé Pires devia ser recusado. Em terceiro lugar, o embaixador e os membros da sua comitiva deviam ser aprisionados e mantidos como reféns. Ou seja, a China não reconhecia a missão portuguesa como embaixada tributária formal. Finalmente, as autoridades provinciais deveriam escrever a el-Rei D. Manuel e ao seu representante em Malaca, com instruções peremptórias para que esta cidade fosse devolvida ao seu legítimo soberano. Após a entrega da praça ao antigo sultão, Tomé Pires e os restantes prisioneiros seriam libertados. Caso o Rei Venturoso desrespeitasse as decisões imperiais, realizar-se-ia um novo conselho. Entretanto, os navios portugueses deveriam ser rigorosamente impedidos de visitar portos chineses. (Rui Manuel Loureiro, Cartas dos cativos de Cantão. Para T’ien-Tsê Chang, a conquista portuguesa de Malaca, que viera perturbar o equilíbrio político-militar no Sudeste Asiático, foi o factor determinante no fracasso da embaixada de Tomé Pires (Malacca and the failure)” Rui Manuel Loureiro.

“Com a denúncia dos emissários do desapossado sultão de Malaca, ficou apurado o facto – já tão bem conhecido pelas autoridades de Cantão como pelas centrais, mas omitido de propósito pelos mandarins e eunucos junto do Imperador – de que eram mandados pelo país Folangji, que conquistara a cidade, tributária da China. Mesmo assim, a Corte só mandou executar os intérpretes sob a acusação de terem trazido à China estrangeiros e não maltrataram os membros não asiáticos da embaixada” Revisitar Os Primórdios de Macau. E ainda desse livro: “Quanto aos contactos com a Corte, (…) foi Ning Cheng, quem fez este favor aos Portugueses porventura em troca de algum presente ou suborno”.

Sem ordem de prisão

Encontrava-se desde 22 de Setembro de 1521 Tomé Pires e os restantes membros da sua comitiva em Cantão, mas só a 14 de Agosto de 1522 foram formalmente acusados de entrarem em território chinês sob falsos pretextos. Altura em que decorriam nos mares de Cantão os confrontos entre a armada chinesa e os navios de Martim Afonso de Melo Coutinho.

“Quanto à rejeição da embaixada, inicialmente, quando os Portugueses foram mandados de volta a Cantão, não houve ordem de Pequim para deter a embaixada em Cantão, como bem elucida um trecho do diário de Yang Tinghe, o ministro mais influente dessa altura: (…) quanto aos bárbaros de Folangji, mandem-nos sob escolta de volta para Cantão, onde ficarão à espera de novas ordens de Baofang (Casa de Leopardo). Esta ordem foi dada como correspondendo à vontade expressa pelo Imperador Zhengde no seu testamento, mas a verdade é que foi preparada postumamente por Yang Tinghe que exerceu a regência durante a sucessão, juntamente com a Imperatriz-Mãe.

Pelas fontes chinesas, sabemos que no momento do falecimento do Imperador Zhengde, o quase regente Yang Tinghe, por uma questão de segurança da capital, tomou muitas medidas, das quais algumas implicavam o repatriamento de embaixadas, tais como as de Qomul, Turfan e a de Portugal, que se encontravam em Pequim, além da execução do eunuco Jiang Bin, entre outros protegidos do Imperador Zhengde. Como o falecido Imperador não deixou descendentes, o vácuo do poder poderia dar lugar a uma renhida luta pela sucessão entre os diferentes ramos da casa imperial, como costumava acontecer nestes casos. Assim sabemos que o principal motivo do reenvio da Embaixada de Tomé Pires para Cantão se ficou a dever a uma questão de segurança nacional.”

“A questão é que a vinda da Embaixada de Tomé Pires para Cantão terá sido interpretada pelas autoridades provinciais como um claro sinal de rejeição dessa missão. Para esconder a sua cooperação e participação neste processo passível de ser considerado como uma fraude, uma irregularidade que poderia custar a carreira e até mesmo a própria vida a essas mesmas autoridades, caso fosse descoberta, houve, pois, todo o interesse em silenciar o caso. Entretanto, chegou de Pequim a ordem de deter a embaixada, tomando os seus membros como reféns até à desocupação de Malaca. Daí que, como nos informa Cristóvão Vieira, as autoridades de Cantão passassem a perseguir implacavelmente os Portugueses com todas as acusações possíveis e imagináveis e com todos os meios ao seu alcance” Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.

O presente real

Quanto aos presentes destinados ao Imperador chinês, pelas fontes portuguesas, sabemos que o embaixador Tomé Pires os levou; todavia, até agora não foi possível localizar nenhuma lista, embora haja muitas referências a eles. O que levou Rui Loureiro a colocar estas questões: “O presente para o Imperador nunca é descrito na documentação quinhentista. Por mero lapso? Ou talvez porque a missão de Tomé Pires não tinha o estatuto oficial de embaixada e, como tal, o presente que transportava não era significativo?”

De novo no Revisitar os Primórdios de Macau de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang: “Em nosso entender, dado que a primeira missão diplomática portuguesa junto da Corte chinesa foi uma iniciativa lisboeta e o embaixador seleccionado e nomeado pelo vice-rei da Índia, o presente destinado ao Imperador da China foi preparado in loco e de modo improvisado. Talvez esta tenha sido a razão da insignificância dos presentes. No entanto, a pobreza da oferta leva-nos a crer que a primeira missão diplomática portuguesa teria mais por objectivo um reconhecimento do terreno do que apresentar-se como uma embaixada propriamente dita, como nos revela António Galvão: ” Revisitar os Primórdios de Macau. E nele continuando: “Ora, também este documento chinês tem esse mérito: o de preencher uma lacuna multissecular na historiografia portuguesa das relações luso-chinesas. Analisando o conteúdo da lista, não podemos dizer que fossem presentes preciosos em extremo. No entanto, não eram de preço menor. Para isso, é interessante ver as componentes desta relação.

O objecto que lidera o inventário é o coral em rama, que era muito apreciado na China imperial”. Mas, como objecto de maior valor que vinha no presente, para além de alguns tecidos e vidros, “os portugueses incluíram um espadagão de três gumes e outro terçado de ferro, uma escolha diplomática prudente a substituir as armas de fogo, que tanto poderiam causar admiração como suspeita.”

A observação de que “o cabecilha costumava ler livros” confirma que Tomé Pires era um homem culto e amigo da leitura” Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.

31 Jul 2015

Regresso de Tomé Pires a Cantão

Aturbulência já andava no ar desde Nanjing e quando a Embaixada chegou a Beijing, o problema das credenciais e da própria legitimidade da embaixada, no contexto do sistema tributário chinês, tornaram o ambiente hostil para Tomé Pires e a sua comitiva. E seguindo com Rui Loureiro: “Os mal-entendidos desencadeados pela disparidade entre as duas cartas são conhecidos sobretudo graças à missiva de Cristóvão Vieira. Contudo, talvez valha a pena chamar a atenção para uma outra versão, de origem chinesa, dos mesmos acontecimentos. De acordo com documentos coevos, o jurubaça principal da embaixada portuguesa, um chinês que dava pelo nome de Huo-che Ya-san (Huozhe Yasan), estabelecera excelentes relações com as autoridades provinciais, logo após o desembarque no porto de Cantão. Por sua própria iniciativa, e graças a uma generosa distribuição de dádivas, conseguira obter autorização imperial para Tomé Pires visitar Pequim como enviado do rei de Malaca. Porém, após a chegada à capital, o seu astucioso plano seria desmascarado pelo enviado do verdadeiro rei de Malaca, que chegou à corte chinesa quase na mesma altura.” O “jurubaça grande falleceo de doença”, enquanto decorriam as averiguações. Mas os restantes línguas, como resultado do inquérito imperial, foram decapitados em Pequim, acusados de “saírem fora da terra” e de trazerem “portugueses a terra da China”.
O falecimento do Imperador Zhengde precipitou os acontecimentos e não fosse o novo Imperador Jiajing (1522-66, que começou a governar logo em 1521, mas o ano de início de governação só conta após o novo ano chinês) a anular a intenção dos mandarins da corte de Beijing em executar Tomé Pires, tinha a História da primeira Embaixada terminado na capital chinesa.
Devido à suspensão obrigatória de todas as actividades após a morte do Imperador, Tomé Pires foi mandado sair de Pequim e regressar a Cantão, com os presentes que trouxera. Se o pseudo-embaixador Yasan tinha sido desmascarado e falecido por doença, agora o verdadeiro Embaixador dos folangji, Tomé Pires e os seus companheiros partiram em 22 de Abril. Data mais plausível que a de 22 de Maio, pois se o mau ambiente que os portugueses viviam já em Beijing durante o período de doença de Zhengde, após o falecimento do Imperador não permitia longas demoras e assim, dois dias depois deixaram a capital, a caminho do porto por onde tinham entrado na China. Foram conduzidos vagarosamente para Guangzhou, onde chegaram a 22 de Setembro de 1521. “Ao mesmo tempo, foram de Pequim mandadas instruções, por via rápida, para que, quando o Embaixador e os seus companheiros chegassem a Cantão, fossem presos, e que só depois dos portugueses terem evacuado Malaca e esta sido entregue ao seu legítimo rei, vassalo do Imperador da China, seriam aqueles postos em liberdade” A. Cortesão.

Hostilidade em Cantão

Apenas duas semanas antes da entrada em Guangzhou de Tomé Pires, tinham das redondezas fugido para Malaca três barcos portugueses, que participaram na primeira batalha entre chineses e portugueses em frente ao porto de Tunmen e só ajudados por uma tempestade providencial se salvaram de ir engrossar o número de portugueses nas cadeias chinesas.
“O embaixador (Tomé Pires) levado à presença das autoridades de Cantão e solicitado a escrever para Malaca, de acordo com a vontade do imperador, altivamente, como se sabe por uma carta de Cristóvão Vieira, recusou. Pela mesma fonte de informação sabemos que todos estiveram perante o puchanchi (tesoureiro provincial), de joelhos, durante umas longas quatro horas.” E continuando com Luís de Albuquerque: “.
É de crer que grande parte destes artigos apreendidos pelos chineses pertencesse a Tomé Pires, que já era rico antes de ir à China e decerto não deixou de procurar aumento à sua riqueza.”
“Vieira diz ainda que, na presença de Pires, arrolaram a fazenda confiscada, tendo o presente de D. Manuel ficado à guarda do Puchanchi” L. Albuquerque.

Para agravar a situação

A 4 de Agosto de 1522, chegara a Tamão a frota de seis velas comandada por Martim Afonso de Mello Coutinho trazendo como missão desde Lisboa consolidar a amizade que se julgava já estabelecida entre portugueses e chineses e conduzir um novo embaixador, pois tinha como certo que nessa altura Tomé Pires estaria de regresso. Ao contrário do que em Cochim fora informado por Simão de Andrade, em Malaca soube que em vez de se ter feito amizade com a China, ocorrera em 1521 uma batalha naval, de onde os portugueses saíram derrotados. Martim Afonso de Melo Coutinho “não obstante, decidiu continuar viagem, acompanhado por outro navio e um junco com Ambrósio do Rêgo e Duarte Coelho, que relutantemente, e apenas sob pressão de Jorge de Albuquerque, ao tempo Capitão de Malaca, consentiram em voltar à China, onde, no ano anterior, como vimos, tinham estado em sérios apertos. Coutinho partiu de Malaca com seis velas, em 10 de Julho e chegou a Tamão em Agosto de 1522″ A. Cortesão.
Em Malaca, sobre as andanças da Embaixada de Tomé Pires nada se sabia apesar de, pelos factos ocorridos no ano anterior, poucas esperanças havia de ter sido realizada com êxito. Não imaginava Martim Afonso de Melo Coutinho estar Tomé Pires e os que sobravam dos seus acompanhantes presos ali próximo, em Cantão.
Entrou Martim Afonso de Melo Coutinho a 4 de Agosto de 1522 com os seus barcos no porto de Tamão tão confiadamente, como se as instruções de D. Manuel para conseguir a amizade do Rei da China e estabelecer ai uma fortaleza, por si só valessem como lei. Foi no pior momento porque em terra, os chineses tinham Tomé Pires e seus companheiros, como ladrões e espiões. E com Luís Gonzaga Gomes seguimos: ” Os chineses, que se encontravam ainda excitados com a embaixada de Tomé Pires, receberam tão mal os portugueses que se travou uma rija batalha naval, no porto de Tamão, onde Martim Afonso de Melo Coutinho tinha entrado, descuidadamente, e donde conseguira escapar, a coberto da luta sobre humana travada pela barco de Pedro Homem que, obrando prodígios de incomparável valor, conseguiu atrair sobre si toda a atenção dos chineses até ser derrubado por um tiro.” “Os portugueses sofreram muitas baixas, perderam dois dos navios e o junco e, depois de vãos esforços para restabelecer relações com as autoridades cantonesas, regressaram a Malaca em meados de Outubro do mesmo ano.”
“Com tudo isto a situação de Pires ainda se tornou pior, se é possível. Os mandarins de novo lhe ordenaram que escrevesse uma carta ao Rei de Portugal, a qual o embaixador Tuam Hasam Mudeliar levaria a Malaca, a fim de que esta e o seu povo pudessem voltar ao antigo senhor; se não viesse resposta satisfatória, o embaixador não voltaria. Os portugueses receberam na cadeia uma minuta em chinês, da qual escreveram três cartas, a El-Rei D. Manuel, ao Governador da Índia e ao Capitão de Malaca, que foram entregues às autoridades de Cantão em 1 de Outubro de 1522. O embaixador malaio, como é fácil de compreender, não mostrou interesse especial em servir de correio de tais missivas, nem era fácil encontrar quem se quisesse encarregar de missão tão contingente.
Por fim, um pequeno junco com quinze malaios e quinze chineses partiu de Cantão em 31 de Maio de 1523 e alcançou Patane, na costa nordeste da Península Malaia. As cartas foram, segundo parece, às mãos do ex-rei de Malaca, grande intriguista, que se refugiara na próxima ilha de Bintang, e a quem não faltavam motivos para odiar os portugueses e, talvez mesmo, Pires em especial; mas nunca chegaram ao seu destino. Contudo, Ambrósio do Rêgo, que, nessa altura, tinha ido a Patane, soube, por um intérprete que costumava servir entre portugueses e chineses, quando estavam em paz, que Tomé Pires e alguns dos seus companheiros ainda se encontravam vivos em Cantão” A. Cortesão.

O fim trágico dos mercadores

Como Armando Cortesão refere: “Os mais importantes documentos para a história de Tomé Pires e sua Embaixada, depois do desembarque em Cantão, constam de duas cartas de Cristóvão Vieira e Vasco Calvo, escritas dessa cidade em 1524, das quais Barros se aproveitou largamente nas Décadas.”
Voltando a Luís de Albuquerque: “A partir daqui, as notícias sobre o destino dos prisioneiros são escassas, em alguns casos confusas, senão até contraditórias. No final de 1523, Ambrósio do Rego trazia a Malaca a notícia de que ainda viviam entre oito e treze cativos, contando-se Tomé Pires entre os sobreviventes; aos da embaixada ter-se-ão juntado, portanto, os prisioneiros das armadas a que os chineses deram batalha no porto de Tamão (que ocorreu no porto de Tunmen), nomeadamente Vasco Calvo. Todavia, se acreditarmos na carta de Vieira, seria de vinte e três o número de presos; de facto, ele relata que no dia 6 de Dezembro de 1522
Já A. Cortesão complementa: “Os mandarins enviaram um relato ao Imperador, o qual confirmou as sentenças. .
Cristóvão “Vieira menciona outros juncos que, por esse tempo, chegaram à China com portugueses, tendo sido todos atacados e as tripulações chacinadas. Do navio de Diogo Calvo ficaram presos, além de Vasco Calvo, sete outros portugueses e quatro servidores, os quais escaparam à matança por dizerem que pertenciam à Embaixada de Tomé Pires. Mas muitos outros morreram nas prisões, depois de expostos com letreiros onde se dizia que iam morrer por serem , quando não eram assassinados com uma pancada de malho na cabeça, ou espancados até expirar” A. Cortesão.
Cristóvão Vieira, na sua longa carta escrita provavelmente em Novembro de 1524 no cativeiro e que conseguiu através de chineses fazer chegar às mãos dos portugueses, diz que só ele e Vasco Calvo se encontravam vivos na cadeia de Cantão e assim, todos os que a leram pensaram que Tomé Pires tinha morrido na prisão. Mas seria isso verdade?

24 Jul 2015

A segunda embaixada portuguesa à China

“A 10 de Julho de 1522 saiu do porto de Malaca para a China, Martim Afonso de Mello Coutinho, com seis navios, de que eram capitães ele e Vasco Fernandes Coutinho e Diogo de Mello Coutinho, seus irmãos, com Pedro Homem, Duarte Coelho e Ambrósio do Rego” segundo refere Marques Pereira. E com ele continuando: “Esta expedição, ordenada por el-Rei D. Manuel, é considerada pelos historiadores como a segunda embaixada de Portugal a este império” (à China). “Em 1521 D. Manuel procurava controlar o comércio com a China tendo concebido duas rotas para a pimenta, uma entre Cochim e Lisboa e outra entre Pacém e Cantão”. Já João Paulo Oliveira e Costa assinala: “Quando morreu, a 13 de Dezembro de 1521, D. Manuel I estava certamente convencido de que a influência portuguesa se estendera definitivamente até à Ásia Oriental. Mas quando o soberano despachava as armadas no seu reino do Extremo Ocidente, os acontecimentos precipitavam-se no Extremo Oriente; a política manuelina caminhava aí para o fracasso”.
A frota partira de Lisboa para a Índia a 5 de Abril de 1521 e como Embaixador do Rei D. Manuel à China ia Martim Afonso de Melo, o qual era fidalgo da sua casa e tinha o porte e entendimento para esta negociação. Fora nomeado para, após findar o trabalho de Embaixador, ser Capitão da fortaleza a edificar na costa chinesa, sem estar sobre a alçada da Índia, pois levava poderes semelhantes aos desses governantes. Para consolidar e aumentar os conhecimentos da construção naval que Fernão Peres de Andrade tinha trazido da China, pretendia-se aí construir um navio, para o qual seguia Manuel Mendes de Vasconcelos como capitão dessa futura embarcação. “A bordo da nau Conceição ia Martim Afonso de Melo e estava acompanhado pelos seus irmãos, Vasco Fernandes Coutinho e Diogo Melo (nomeado para feitor dessa fortaleza), um cunhado, Simão de Miranda e muitos criados que há muito serviam na família”, como escreve Marques Pereira.
Em Chaul, na Índia, Martim Afonso de Melo encontrou-se com Simão de Andrade, que deixara “a orla costeira chinesa, na monção de 1520, sem que se agudizasse a reacção chinesa, o que só aconteceu alguns meses depois” logo, “desconhecedor dos eventos ocorridos depois da sua partida”. E continuando com João Paulo Oliveira e Costa: “Simão de Andrade, certamente entusiasmado com o negócio que realizara e com a forma autoritária como se impusera, transmitiu na Índia a Martim Afonso de Melo uma imagem optimista da situação. E Martim Afonso seguiu viagem disposto a construir a primeira fortaleza na China, conforme lhe ordenara o rei” e esperava vir a encontrar Tomé Pires já regressado a Cantão.

A sombra de Simão de Andrade

Encontrava-se o Embaixador Tomé Pires em Beijing desde meados de 1520, ou Janeiro de 1521 como as fontes portuguesas indicam, à espera de ser recebido pelo Imperador Zhengde. Os memorandos que iam aí chegando relatando os distúrbios provocados por Simão de Andrade e os seus homens em Tamão, assim como a conquista de Malaca pelos portugueses, um porto tributário da China, colocaram em maus lençóis a Embaixada. Com o falecimento do Imperador Zhengde em 20 de Abril de 1521, logo foi esta obrigada a sair da capital, devido à suspensão obrigatória de todas as actividades e regressar a Guangzhou. Numa viagem muito lenta, só lá chegaram a 22 de Setembro de 1521, permitindo aos mensageiros da corte de Beijing muito antecipadamente entregar as instruções para o governo de Guangzhou, mas não trazendo ordem para prender a Embaixada.
Os anteriores desmandos de Simão de Andrade, de pura pirataria, criaram o primeiro equívoco grave nas relações com as autoridades locais, trazendo-lhes graves problemas pois tinham sido responsáveis pelo arranjar de uma solução forjada para a Embaixada de Tomé Pires ter podido seguir até Beijing. “A complexidade da questão deve ter beneficiado Simão de Andrade que, assim, não foi imediatamente atacado por forças imperiais, mantendo a prática dos abusos” como refere Gonçalo Mesquitela e com ele continuando: “O simples facto de tais factos sucederem implicava uma imensa responsabilidade das autoridades respectivas que, antes de um acto de força, a autorizar ou ordenado por Pequim, eram os primeiros a estar interessados em resolver a situação…”

A primeira batalha entre portugueses e chineses

Simão de Andrade deixou por volta de Setembro de 1520 a orla costeira chinesa sem ter esperado pelo regresso do Embaixador Tomé Pires, que por essa altura estaria na capital da China. Se a embaixada passou em Beijing quase um ano, ou apenas três meses, não há até agora como confirmar, e por morte do Imperador Zhengde teve que daí sair a 22 de Abril de 1521, só chegando a Guangzhou em 22 de Setembro de 1521, como diz A. Cortesão.
“Entretanto, antes de Tomé Pires chegara a Cantão Diogo Calvo, com alguns navios” segundo L. Albuquerque, mas Cortesão diz que chegou “a Tamão a nau Madalena, pertencente a D. Nuno Manuel, a qual viera de Lisboa sob o comando de Diogo Calvo. Outros navios se lhe tinham junto em Malaca, entre eles, um de Jorge Álvares que, no ano anterior, não pudera ir com a esquadra de Simão de Andrade por o seu junco ter aberto uma veia de água. Quando (entre finais de Maio e Junho) em Cantão foram recebidas as instruções enviadas de Pequim contra os portugueses, juntamente com a notícia da morte do Imperador, os chineses imediatamente se apoderaram de Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, e de outros nossos compatriotas que se encontravam comerciando na cidade” A. Cortesão. E prosseguindo com este venerável historiador investigador: “Além de apreenderem alguns dos navios portugueses, os chineses, com uma grande armada de juncos, bloquearam a Madalena e outros navios nossos que se encontravam em Tamão, entre os quais dois juncos que, em 27 de Junho de 1521, haviam aportado com Duarte Coelho. Poucas semanas depois chegou Ambrósio do Rêgo, com dois outros navios”.
Luís Gonzaga Gomes refere: “Em 27 de Junho de 1521, Duarte Coelho chegou a Tamão, num junco, acompanhado doutro, pertencente aos moradores de Malaca, ambos fortemente armados. Ao saber do ânimo predispostamente hostil em que os chineses se encontravam contra os nossos, Duarte Coelho pretendeu sair, mas, verificando que os juncos que se encontravam no porto não possuíam armamento suficiente para repelir uma agressão, deixou-se ficar, para os ajudar a escapar e principalmente, pelo facto de Jorge Álvares, seu íntimo amigo, se encontrar tão doente, que veio a falecer, onze dias após a sua chegada…”
Segundo uma nota de João Paulo Oliveira e Costa: “Foram precisamente Ambrósio do Rego e Duarte Coelho que abriram as hostilidades junto a Cantão”.
E regressando ao que diz A. Cortesão: “Tantos eram já os tripulantes portugueses mortos em combate, ou aprisionados e depois chacinados, que nessa altura já não havia bastantes para todas as embarcações, de modo que Diogo Calvo, Coelho e Rêgo resolveram abandonar os juncos a fim de melhor guarnecer os três principais navios. Assim se fizeram à vela em 7 de Setembro, mas logo foram atacados pela esquadra chinesa. Contudo, conseguiram escapar, graças a um tufão providencial (, segundo Barros opina) que dispersou os juncos inimigos, aportando a Malaca em Outubro de 1521.” 17715P12T1
João Paulo Oliveira e Costa diz: “No ano de 1521, as águas de Cantão só foram visitadas por mercadores privados e pelos navios da feitoria de Malaca.”
Algo estranho são os cerca de setenta dias de perseguição das autoridades chinesas a estes mercadores até eles fugirem. Como conseguiu Duarte Coelho sepultar Jorge Álvares a 8 de Julho de 1521 em Tamão, onze dias depois da refrega? Questões que não vimos explicadas!
Segundo L. Albuquerque: “Duas semanas depois da partida destas naus, Tomé Pires e os seus companheiros chegaram a Cantão. Estavam irremediavelmente entregues à sua trágica sorte.”
“Do navio de Diogo Calvo ficaram presos, além de Vasco Calvo, sete outros portugueses e quatro servidores, os quais escaparam à matança por dizerem que pertenciam à Embaixada de Tomé Pires” A. Cortesão.

O triste fim da Segunda Embaixada

Voltamos agora à segunda Embaixada, com que iniciamos este artigo e que, de Lisboa fora enviada à China a 5 de Abril de 1521 pelo Rei D. Manuel.
Um ano após Martim Afonso de Melo Coutinho ter saído de Lisboa “com a missão de consolidar a amizade que julgava já estabelecida entre portugueses e chineses, e conduzir novo embaixador, pois tinha como certo que nessa altura Tomé Pires estaria de regresso” segundo A. Cortesão, de Cochim partiu em Abril de 1522 com quatro barcos e em Pacém carregou pimenta, tendo chegado a Malaca em Julho. Nessa praça, Martim Afonso de Melo tomou conhecimento dos incidentes ocorridos no Verão do ano anterior em Cantão. Acautelado em Malaca, aí reforçou a sua armada e juntou o junco comandado por Duarte Coelho e o barco Santiago capitaneado por Ambrósio do Rego (que já tinha sido feitor e provedor da Fazenda em Malaca), os mesmos que abriram as hostilidades contra os chineses em 1521 nas águas em frente ao porto de Tunmen.
Saiu a frota de Malaca no dia 10 de Julho de 1522 para a ilha de Tamau (Lantau). Levava Martim Afonso de Melo Coutinho ordem do Rei D. Manuel (que já tinha morrido a 13 de Dezembro de 1521 e agora era D. João III o Rei de Portugal) para ir “ao porto de Tamou, e procurando amizade com o rei daquela grande província, a China, edificar nele, ou noutro lugar que mais acomodado parecesse, uma fortaleza em que ele ficasse por capitão. Facilitava o negócio ter mandado Fernão Peres de Andrade um embaixador ao mesmo rei, que foi Tomé Pires; e não havia até então novas do que mal lhe saíra a jornada” segundo refere o Frei Luís de Sousa, nos Annaes de D. João III.
A 4 de Agosto de 1522 chegou Martim Afonso de Melo “à ilha de Tamou (Tamão), e entrou no porto acompanhado de Diogo de Melo, e Pedro Homem, com tanta confiança e descuido, como se entrara na barra de Goa. E foi na pior conjunção que pudera ser, porque em terra nadavam os chineses encarniçados na prisão do embaixador Tomé Pires e seus companheiros, e muito mais no roubo de seu fato e fazenda, que era muita e boa; e no mar corria a costa uma armada grossa da mesma província, por ser monção em que acudiam àquele porto navios de várias nações a fazer seu trato.” E continuando com Frei Luís de Sousa: “Procurou Martim Afonso tomar língua da terra; mandou um barco e outro ao general da armada. Não lhe tornando nenhum, entendeu que estava tudo de guerra, e que fizera erro em se meter no porto. Determinou sair-se ao mar largo. Não esperavam mais os chineses que ver o movimento que fazia. Tanto que viram que os nossos se faziam à vela, foram sobre eles com todo seu poder, disparando muita artilharia. Era o partido muito desigual, e acrescentou a desigualdade um desastre; deu fogo na pólvora do navio de Diogo de Melo, voaram as cobertas para o céu, e foi toda a gente ao mar, uns mortos, outros nadando. Era Pedro Homem tão animoso que lhe não tolheu a vista de tantos inimigos mandar alguns homens no batel a ver se podia salvar Diogo de Mello e foi parte a falta deles para ser acometido com mais ousadia dos chineses, e com menos dificuldade entrado. Era Pedro Homem de corpo agigantado, e de forças e ânimo igual. Pelejou de maneira, que se o não acabara um tiro de fogo, contra quem não valem forças nem esforço, pudéramos dá-lo por vencedor de um exército inteiro. E isto é certo, que tiveram tanto que fazer os chineses com ele só, e com o seu navio, que isso valeu a Martim Afonso para não se entenderem com ele. Assim vendo que não tinha outro remédio, (Martim Afonso de Melo) se fez à vela para donde viera, e chegou a Malaca em meados de Outubro do mesmo ano; e daí se passou à Índia na monção. E deste modo se malogrou também a segunda embaixada portuguesa à China.” Annaes de D. João III.
Jorge dos Santos Alves resume: “Nas duas semanas que se deteve naquela zona, os navios de Martim Afonso enfrentaram dezenas de juncos” e “incapazes de manter os adversários à distância sofreram a abordagem e então os combatentes portugueses foram literalmente submersos por vagas sucessivas de assaltantes.” “A armada chegou à China a 4 de Agosto de 1522, mas só se deteve aí 14 dias, retirando-se de seguida, deixando para trás dois navios afundados e um grande número de mortos, entre eles Diogo de Melo e Pero Homem.”
Num ápice de um ano, tinham falhado as duas primeiras embaixadas portuguesas ao Império do Meio e os chineses vencido duas batalhas navais.

19 Jul 2015

A embaixada portuguesa em Pequim

Sem ter sido formalmente recebida em Nanjing pelo Imperador Zhengde (1505-21), a primeira Embaixada portuguesa à China seguiu para a capital Beijing por ordem do soberano chinês, onde se deveria realizar o acto protocolar da entrega dos presentes e da carta enviada pelo Rei de Portugal D. Manuel.
Tomé Pires, que escrevera sobre a China sem a ter visitado, teria nesse momento um manancial de informações para aditar na sua Suma Oriental após ter percorrido Tamão (cuja localização tem adeptos na hoje conhecida por Ilha Lin Tin ou, segundo as actuais informações baseadas em documentação chinesa, a Ilha de Dayushan, actual Lantau), Nantó (Nantou, 南头, pequena vila na área de Nanshan, hoje pertencente a Shenzhen), Cantão (Guangzhou, 广州), Nanhsiung (Nanxiong南雄), Passo de Meiling (Meiguan, 梅岭关), Nan’an (南康), Kanchou (Ganzhou 赣州), Kian (Ji’an 吉安), Linkiang (Linjiang临江), Nankang (Nanchang, 南昌) e navegado do Rio Zhang (章江) ao Kuangkiang (Ganjiang 赣江), na cidade de Jiujiang (Kiukiang, 九江) desaguou no Rio Yangtzé (Changjiang, 长江) por onde seguiu para Nanquim (Nanjing, 南京, nessa altura denominada Yingtian) e onde o Imperador chinês se encontrava.
A outra metade do percurso que a Tomé Pires faltava realizar foi feito pelo Grande Canal (DaYunHe, 大运河) seguindo de barco a Embaixada até à capital Pequim (Beijing, 北京), onde chegou no ano de 1520, ou em Janeiro de 1521. É de salientar que os historiadores de Macau como Marques Pereira, Luís Gonzaga Gomes e Beatriz Basto da Silva referem a data de 11 de Janeiro de 1521 para a entrada em Pequim do primeiro Embaixador de Portugal à China. Já Rui Loureiro propõe ter ocorrido em finais de 1520, ou talvez como diz Paul Pelliot, em Agosto de 1520, pois as fontes chinesas afirmam que a embaixada portuguesa permaneceu em Pequim quase um ano.
Armando Cortesão diz: “Não consta ao certo quando Pires partiu de Nanquim, nem quando chegou a Pequim. Sabe-se apenas que, depois de ter navegado mais de mil quilómetros ao longo do Grande Canal, já se encontrava na capital quando o Imperador lá chegou, em Fevereiro de 1521”.
Há também informações contraditórias acerca de ter Tomé Pires vindo de Nanjing integrado, ou não, na comitiva imperial durante a viagem para Beijing. No Revisitar os Primórdios de Macau a nota 92 refere: “Tomé Pires chegou, na comitiva imperial, a 18 de Janeiro de 1521”. Já Rui Loureiro revela: “O imperador chinês partira de Nanquim na mesma altura que a embaixada, mas detivera-se numa pequena cidade dos arredores de Pequim, onde assistiu à execução do príncipe revoltado: ” Cartas dos Cativos de Cantão. Assim, em Janeiro de 1521, o Imperador Zhengde encontrava-se em Tongzhou, a vinte quilómetros para Leste do Palácio Imperial em Beijing e foi durante a estadia nesta pequena localidade que recebeu vários memorandos sobre os portugueses.

Memorandos contra os portugueses

Onde terá o Imperador Zhengde recebido os memorandos, é ponto onde não há consenso pois, Rui Loureiro refere que o imperador os recebeu (em Tongzhou) numa pequena cidade dos arredores de Pequim e Armando Cortesão diz que o Imperador recebeu em Nanquim o embaixador do Rei de Malaca, Mamude Xá “e a carta que trazia. Ao mesmo tempo, chegou-lhe outra carta de dois mandarins de Pequim e ainda outra dos de Antão, acumulando queixas contra os portugueses, principalmente por causa dos desmandos de Simão de Andrade. Não admira, por isso, que a embaixada portuguesa fosse mandada seguir para Pequim sem ser recebida.”
Malaca desde 1409 pusera-se debaixo da protecção dos imperadores chineses da dinastia Ming para conter os ataques do reino de Sião. Assim, “quando os portugueses a tomaram por Afonso de Albuquerque, em 1511, Malaca era tributária do Imperador da China. O Rei de Malaca, Mamude Xá, que fugiu quando da conquista da cidade, ficou sempre inimigo figadal dos portugueses e enviou um embaixador, Tuam Hasam Mudeliar (o , de Barros) a queixar-se ao seu suserano contra os portugueses, , que tinham tomado o seu reino, e a pedir o auxílio que, como vassalo, lhe era devido” A. Cortesão. Rui Loureiro complementa: “Alegando a sua condição formal de tributário do Celeste Império, o soberano malaio solicitava ajuda contra a ocupação portuguesa do seu estado: (referido nas Cartas dos Cativos de Cantão). Ao mesmo tempo, tentava lançar o descrédito sobre a embaixada lusitana, alegando que Tomé Pires e que os portugueses eram encapotados, que vinham tentar ocupar o território chinês, tal como anteriormente tinham conquistado Malaca”.
Para além da pressão dos mensageiros malaios na corte imperial, que narravam histórias terríveis sobre os portugueses, outros dois memorandos, de teor muito semelhante, foram enviados de Beijing e de Guangzhou ao imperador e vinham reforçar o mau carácter dos portugueses que andavam pela costa Sul da China. 8 hM Beijing Cidade Proibida
Como o memorando de Beijing traz o relatório das queixas enviadas de Cantão, ficamo-nos assim pelo que veio dessa metrópole meridional acerca do comportamento abusivo dos folangjis da expedição de Simão de Andrade. “Os funcionários cantonenses descreviam todas as arbitrariedades cometidas pelos portugueses, desde a recusa de pagarem direitos alfandegários até à construção não autorizada de uma fortaleza, passando pela agressão a um mandarim e pelo rapto de crianças.” E continuando com Rui Loureiro, sugeriam “ao imperador que não recebesse a missão chefiada por Tomé Pires, pois os ocidentais, sob disfarce de embaixada legítima, vinham apenas , para depois as ocuparem.”
Tais memorandos parecem não ter surtido os efeitos esperados no Imperador Zhengde, pois adoptou uma posição conciliadora, atribuindo os conflitos a segundo Cristóvão Vieira, nas Cartas dos Cativos de Cantão.

Ambiente desfavorável em Pequim

Enquanto a Embaixada de Tomé Pires esperava em Beijing pelo regresso do Imperador Zhengde, que apenas ocorreu em Fevereiro de 1521, segundo o que refere Luís de Albuquerque: “o ambiente criado na corte para a recepção do embaixador não seria, por consequência, dos mais favoráveis. Para o agravar surgiram ainda mais alguns equívocos e o presente deve ter sido considerado mesquinho. Já A. Cortesão diz: “Quando o Imperador chegou à capital, Pires entregou na corte três cartas de que era portador: uma do Rei D. Manuel, para ser aberta apenas na presença do Imperador, outra de Fernão Peres de Andrade e a terceira dos governadores de Cantão. Esta última tinha sido escrita quando os Governadores estavam ainda sob a boa impressão deixada por Andrade. Mas a carta deste (Fernão Peres de Andrade) foi, em Cantão, traduzida pelos intérpretes chineses, segundo o estilo da terra, os quais, entre outras coisas, escreveram que o Rei de Portugal desejava ser vassalo do Rei da China, etc. Tomé Pires nada sabia, claro está, do teor da fantástica tradução. Quando a carta selada de D. Manuel foi aberta no palácio imperial e traduzida, verificou-se que o seu espírito era, naturalmente, por completo diferente do que os intérpretes tinham escrito em nome de Andrade. Montalto de Jesus explica: “Acostumada como estava, a corte de Pequim, a receber apenas embaixadas tributárias, o teor altivo da carta de D. Manuel foi considerado derrogatório para com o Filho do Céu. Outra carta de Fernão Peres de Andrade foi falseada pelos intérpretes em Cantão e transformada numa petição de vassalo”. E continuando com A. Cortesão: “Os intérpretes aceitaram a responsabilidade pela deturpação, explicando que assim haviam feito com o melhor intuito, para adaptá-la ao costume da terra. Foram presos, tendo sido aberto um inquérito”.
Montalto refere ainda: “uma nota do Vice-Rei de Cantão informava que Andrade pedira autorização para estabelecer uma feitoria em Cantão e que, difíceis de contentar, os conquistadores de Malaca eram muito presunçosos no tocante a honrarias. O conselho imperial, reparando na disparidade dos termos destas cartas, declarou Pires um impostor e um espião”, ficando “os membros da Embaixada proibidos de se aproximar do Palácio Imperial para fazer a costumada reverência” como anota Cortesão e com ele continuando: “Cristóvão Vieira descreve essa prática imposta aos embaixadores que iam à corte chinesa: .
O Imperador ter desculpado os portugueses não caiu bem aos já “irritados mandarins, e mais acusações eram trazidas contra Pires e seus companheiros. E se algumas delas eram verosímeis – como o caso sucedido a uma mandarim que as autoridades de Cantão, em 1520, mandaram a Tamão cobrar quaisquer direitos dos portugueses e que, segundo Vieira, depois se queixou de (isto é, os portugueses) – outras eram puramente fantásticas.
Barros conclui assim o capítulo da Década III, em que se refere a tudo isto: . T’ien-Tsê Chang, escritor chinês moderno, conta que alguns historiadores chineses de então chegam ao ponto de dar pormenores do preço pago pelas crianças e até do processo usado pelos portugueses para as assar” Armando Cortesão.

Morte do Imperador

Faleceu em 20 de Abril de 1521 o ainda jovem Imperador Zheng De, que de nascença se chamava Zhu Houzhao e ficou com o nome póstumo de Yi Di e o nome de Templo Wu Zong (1505-21). Nascido em 26 de Outubro de 1491 era o filho mais velho do Imperador Hongzhi e como bom estudante, esperava-se que se tornasse um brilhante soberano. Subiu ao trono a 19 de Junho de 1505, tendo como nome de Era, Correcta Virtude. Sendo do signo astrológico do zodíaco chinês Porco, preferiu delegar aos eunucos do palácio a governação do país e viver ‘liberta-mente’ nos seus palácios fora da Cidade Proibida (Gugong), assim como andar em constantes viagens pelo país. Gostava de conviver com estrangeiros e convidou muitos muçulmanos para o servirem como conselheiros. Demonstrou ser um bom militar, pois pessoalmente comandou uma expedição contra os mongóis e vencendo-os, estes durante muitos anos deixaram de invadir as fronteiras Norte da China. Na viagem de regresso de Nanjing, após a sua campanha contra o revoltoso Príncipe de Ning, o Imperador encontrando-se no barco a lançar uma rede de pesca, caiu à água do Grande Canal e adoeceu. Ainda passou por Tongzhou, onde julgou e sentenciou à morte o rebelde Zhu Chenhao, a quem tinha vencido em Nanjing. Três meses após a sua chegada a Beijing, o Imperador faleceu de doença contraída pelas águas do Grande Canal, havendo quem diga ter sido envenenado, pois era de fácil recuperação essa maleita.
Segundo o costume, em virtude do falecimento do Imperador Zhengde (正德), a embaixada de Tomé Pires “foi convidada a sair da capital, para seguir para Cantão, onde deveria aguardar a boa ou má disposição do novo imperador em o receber” Luís Gonzaga Gomes.
Como todos os filhos do Imperador Zheng De não tinham passado da tenra idade, o seu sucessor foi o primo Zhu Houcong, que governou a China entre 1521 e 1566 como Imperador Jiajing (1522-66) e seguindo com A. Cortesão: “Shih-tsung (Jiajing) contava apenas catorze anos. Os mandarins passaram então a dominar em absoluto. Da pouca conta em que os portugueses eram tidos nos diz Vieira, ao explicar a dureza com que foram recebidos em Pequim e o mais que depois lhes sucedeu: . Alguns dos mandarins declararam que a Embaixada não era genuína e desejavam que Pires e seus companheiros morressem como espiões. Salvou-os nessa ocasião o privilégio diplomático. Mas o intérprete principal Hoja Yasan (desmascarado como falso embaixador) e os outros quatro foram .”
Montalto de Jesus diz: “O imperador morreu durante esta crítica conjuntura e o seu sucessor, anulando a intenção da corte de executar Pires”, foi a Embaixada “então mandada sair da capital e regressar a Cantão, com os presentes que trouxera para o Imperador, os quais foram recusados. Pires e os seus companheiros partiram de Pequim em 22 de Maio e chegaram a Cantão em 22 de Setembro de 1521, tendo durante a viagem falecido Francisco de Budoia” A. Cortesão, mas a data de partida de Beijing registada em Wuzong Shilu (Crónica Verídica do Imperador Wuzong) é 22 de Abril, como no Revisitar os primórdios de Macau é explicado, sendo também daí o que é dito dentro dos parênteses do parágrafo anterior.
“Ao mesmo tempo, foram de Pequim mandadas instruções, por via rápida, para que, quando o Embaixador e os seus companheiros chegassem a Cantão, fossem presos, e que só depois dos portugueses terem evacuado Malaca e esta sido entregue ao seu legítimo rei, vassalo do Imperador da China, seriam aqueles postos em liberdade” A. Cortesão.
Durante o período em que a Embaixada de Tomé Pires viajava de Guangzhou para Nanjing e daí para Beijing, até ao seu regresso a Guangzhou, muita coisa ia acontecendo na costa Sul da China. A imagem de pirata que Simão de Andrade aí deixara e o não acatar, pelos mercadores portugueses, a suspensão obrigatória de todas as actividades após a morte do Imperador, levou a que em Setembro de 1521 ocorresse ao largo do porto de Tunmen a primeira batalha naval entre portugueses e os chineses.

12 Jul 2015

Dois embaixadores no encontro com o imperador em Nanjing

Até chegar a Nanjing tinha Tomé Pires como Embaixador viajado já durante dezassete meses desde Cochim, na Índia, a Tamão (屯门, actual Lin Tin) na China, onde esperou de 15 de Agosto de 1517 até finais de Setembro para ser desembarcado em Cantão (广州). Aí, numa longuíssima e desesperante demora para seguir até Pequim (北京), esteve à espera mais de dois anos e meio, sendo a viagem constantemente adiada.
Em 1518, Fernão Peres de Andrade, desembarcada a Embaixada e antes de partir rumo a Portugal, disse aos Governadores de Guangzhou que, no ano seguinte, outro Capitão português viria recolher o Embaixador. Mas, quando em Agosto de 1519 Simão de Andrade chegou à China, com essa finalidade, encontrou ainda Tomé Pires em Cantão sem daí ter saído. Por isso, Simão que “era um homem assomadiço e impaciente e sem grande sensibilidade para levar em conta os costumes e as etiquetas daqueles com que era obrigado a negociar”, como o define Luís de Albuquerque, “sentiu como se fosse uma afronta” e andou por Tamão a maltratar os chineses, enquanto aguardava pela Embaixada que, no entretanto, iniciara a viagem à Corte do Celeste Império.
Com Tomé Pires tinham ficado em Cantão cinco portugueses, Duarte Fernandes, Francisco de Budoia, Cristóvão de Almeida, Pedro de Faria e Jorge Álvares, o persa de Ormuz já lusitanizado Cristóvão Vieira, mais doze moços servidores e cinco intérpretes, sendo Yasan o principal. No entanto, para além de Cristóvão Vieira, Francisco de Budoia e Duarte Fernandes não consegui descobrir quem mais dos portugueses seguiu com Tomé Pires na viagem de Cantão a Pequim, sabendo ter Jorge Álvares voltado a Malaca a 23 de Janeiro de 1520, onde se distinguiu nas lutas contra o Rei de Bintão, ficando-se pela região do Sudeste da Ásia, mercadejando de Malaca ao Mar do Sul da China.
Só em 23 de Janeiro de 1520 Tomé Pires, acompanhado pelo seu séquito, iniciou a etapa até Pequim (北京), para se encontrar com o Imperador e entregar-lhe o presente e a carta do Rei D. Manuel.
O percurso até Nanjing, onde chegaram em Maio de 1520, foi feito na sua maior parte de barco, pelos canais e rios que abundam pelo Sul da China, sendo apenas a passagem montanhosa, que separa as províncias de Guangdong, Jiangxi e Fujian, feita em liteira, a cavalo e a pé. Nessa travessia faleceu Duarte Fernandes, que já vinha adoentado. Rui Loureiro, complementando com o que vem nas Cartas dos Cativos de Cantão: “Apesar de se elevar a cerca de três mil metros de altitude, a serra era provida de caminhos calcetados, embora muito íngremes e trabalhosos, que provocaram a admiração dos portugueses. Assim, foi possível atingir Wan’an, do outro lado deste maciço montanhoso, já na província de Jiangxi, num curto espaço de tempo, utilizando mulatos e asnos, para aí retomar a rota fluvial.” Ora esse caminho, já por nós realizado, para se chegar à Passagem de Meiling (Meiguan, 梅岭关) não tem que se subir mais de quatrocentos metros de altitude, sendo ele ainda calcetado e do outro lado, encontra-se não Wan’an, que dista dali algumas centenas de quilómetros, mas sim a vila de Dayu (大余), conhecida na altura da dinastia Ming por Nan’an (南安) e banhada pelo Zhangjiang (章江). E seguindo com Armando Cortesão: “Assim, ao chegarem a Nan’an, junto a um subafluente do Kuangkiang (赣江, Ganjiang) que, após uns seiscentos quilómetros de percurso, vai desaguar no grande Yangtzé (长江, Changjiang), de novo embarcaram, passando pelas cidades de Kanchou (赣州, Ganzhou), Kian (吉安, Jian), Linkiang (临江, Linjiang), Nanchang (南昌) Nankang e Kiukiang (九江, Jiujiang) junto já da confluência. Depois, seguiram pelo Yangtzé abaixo, durante mais uns quinhentos quilómetros até Nanquim, onde chegaram em Maio de 1520”. Como tivemos ocasião de mostrar num artigo passado, a povoação de Nankang situa-se entre Dayu e Ganzhou, mas, pela posição colocada na citação acima reproduzida de A. Cortesão, ela é o nome cantonense de Nanchang (南昌), a capital da província de Jiangxi. Aí Tomé “Pires fez observações de latitude, uma das quais em Nanchang, que indicou encontrar-se entre 28º e 29º N (latitude exacta, 28º 30′ N). Outra latitude que se sabe ele ter observado foi a de Pequim, a que atribuiu 38º ou 39º (latitude exacta, 39º 54′)” A. Cortesão.

Em Nanjing com o Imperador

Após três meses de viagem, quando a Embaixada portuguesa chegou a Nanjing “o imperador Zhengde encontrava-se então nessa cidade, onde dirigia pessoalmente as operações militares contra um príncipe que se revoltara” como refere Rui Loureiro, que numa nota, usando Paul Pelliot diz, esse príncipe de Ning era Zhu Chenhao e tinha-se rebelado contra a autoridade imperial em 1519, atacando Nanjing, revolta que foi rapidamente controlada. A História da China refere que a rebelião iniciara-se em 10 de Julho de 1519, quando à frente das tropas, o Príncipe Ning partiu da sua capital Nanchang para atacar Nanjing, mas foi derrotado pelo oficial militar local Wang Shouren. O Imperador Zhengde, ao chegar, ficou frustrado por não ter sido ele a liderar as tropas na vitória, como ocorrera em 1518 na expedição ao Norte da China, onde, nomeando-se General Zhu, cercou Yingzhou e numa batalha derrotou os mongóis, o que levou a um longo período sem estes voltarem a invadir a China. Agora a solução encontrada pelos seus ajudantes foi libertar o Príncipe Ning para depois ser o imperador a capturá-lo, o que veio realmente a acontecer.
No Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, numa nota lê-se: “Aconteceu que o bárbaro Folangji chamado de Jiabidanmo (capitão-mor) e uns trinta acompanhantes vieram apresentar os seus tributos. Ao chegarem a Nanquim, encontraram Jiang Bin, que comandava as quatro forças de elite na protecção pessoal de Sua Majestade. Este apresentou o Hoja Yasan a Sua Majestade. Sua Majestade gostou do Hoja Yasan e deixou-o ficar na sua companhia.”
Ora Hoja Yasan (Huozhe Yasan) era o intérprete principal do grupo de cinco que vinham de Malaca com Tomé Pires integrados na Embaixada. Quando esta fora recebida em Cantão “tratava-se de uma embaixada mandada pelo país Folangji para apresentar os seus tributos”, mas “como Portugal não constava da lista dos países tributários da China, não podia sequer, em princípio, ser aceite em Cantão para iniciar o processo burocrático de obtenção de autorização para ir à capital imperial”. Como em 1511 os portugueses tinham conquistado Malaca, “a solução encontrada terá sido esta: comunicar a Pequim a vinda desta embaixada como se fosse uma missão de Malaca, um país tradicionalmente tributário da China. Só com esta fraude, talvez sugerida ou mesmo preparada pelas próprias autoridades de Cantão, haveria legitimidade para se conseguir a autorização central para a ida da Embaixada de Tomé Pires a Pequim.” E continuando no Revisitar os Primórdios de Macau: “Neste processo intervêm duas figuras centrais: o famoso jurubaça Hoja Yasan”, natural de Fuliang (Jingdezheng) de Jiangxi e “o eunuco Ning Cheng, que apresentou, muito provavelmente, o jurubaça Yasan a Jiang Bin, o eunuco favorito do Imperador Zhengde. A partir daí, o Yasan, um simples intérprete contratado pelos Portugueses passou a figurar nas fontes chinesas como sendo o embaixador, já que a fisionomia dos Portugueses não correspondia em nada à dos de Malaca, familiar aos mandarins centrais. E assim, paradoxalmente, a primeira embaixada portuguesa seguiu para Pequim com um embaixador chinês. Precisamente por esta razão, não há, na carta de Cristóvão Vieira – que era membro da Embaixada de Tomé Pires – nenhuma referência à actuação de Tomé Pires durante a sua estada em Nanquim e mais tarde, em Pequim, já que talvez Tomé Pires e os outros portugueses que foram às duas capitais tivessem sido aceites como acompanhantes de Yasan, que naqueles termos se fazia passar pelo embaixador perante as autoridades centrais.”
O embaixador do antigo sultão de Malaca encontrava-se já em Nanjing quando a Embaixada portuguesa aí chegou mas, sem conseguir ser recebido pelo Imperador chinês, dirigiu-se para a capital. Esta informação de Rui Loureiro é contrária à de Armando Cortesão que diz: “O Imperador recebeu em Nanquim este embaixador e a carta que trazia. Ao mesmo tempo, chegou-lhe outra carta de dois mandarins de Pequim e ainda outra dos de Cantão, acumulando queixas contra os portugueses, principalmente por causa dos desmandos de Simão de Andrade. Não admira, por isso, que a embaixada portuguesa fosse mandada seguir para Pequim sem ser recebida.” 7 hM Nanjing

O Imperador visita os portugueses

“O Imperador Wu-tsung estava em Nanquim, mas não quis receber aí o embaixador português, mandando-lhe recado para que seguisse para Pequim e lá aguardasse a sua chegada”, mas tal informação de A. Cortesão, pelo que em seguida se relata, cria algumas dúvidas. Rui Manuel Loureiro refere que: “De Nanquim, os portugueses escreveram pela segunda vez para Cantão, afirmando que se tinham avistado com o imperador, notícias estas que chegaram às mãos de Simão de Andrade antes da sua partida para Malaca” e A. Cortesão complementa: “Em 2 de Agosto foram escritas cartas, ao que parece, ainda de Nanquim, depois entregues a Jorge Botelho e Diogo Calvo, em Tamão (são elas que relatam o convívio do Imperador com os membros da Embaixada fora do protocolo).” Algo de muito surpreendente o que nessas cartas é referido como tendo ocorrido em Nanjing e que, por ser fora do restrito protocolo chinês e ter quebrado todos os hábitos diplomáticos, causa grande perplexidade. O embaixador fora extremamente bem recebido pelo Imperador Zhengde (1505-21) e que . O Imperador, que segundo o costume chinês nunca saía dos seus aposentos, tinha ido repetidamente visitar os portugueses, chegando mesmo a jogar com Tomé Pires às távolas. No Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang lê-se: “Mais surpreendente ainda é o facto de que o Imperador Zhengde encontrou-os pelo caminho da sua inspecção e foi visitá-los à pousada onde estavam”. “Sua Majestade dignou-se ir pelos seus próprios pés imperiais ter com ele(s) diariamente.” “Tudo isto poderia parecer impossível do ponto de vista da aplicação rigorosa do protocolo dos Ming; contudo, com este Imperador, que gozava da fama de ser liberal e libertino, não havia nada impossível, se considerarmos também que os Portugueses eram apadrinhados por Jiang Bin, que era, nessa altura, o primeiro favorito do monarca.”
“O soberano chinês ordenou que a embaixada seguisse para Pequim, onde seria formalmente recebida” Rui Loureiro e Armando Cortesão refere: “Não consta ao certo quando Pires partiu de Nanquim, nem quando chegou a Pequim. Sabe-se apenas que, depois de ter navegado mais de mil quilómetros ao longo do Grande Canal, já se encontrava na capital quando o Imperador lá chegou, em Fevereiro de 1521.”
No Revisitar os Primórdios de Macau: “As fontes chinesas dão-nos uma ideia de que a integração de alguns membros da embaixada portuguesa no séquito de Zhengde foi um favor imperial conseguido pela intervenção de Jiang Bin…” mas parece que se tratava “de uma prática comum o Imperador Zhengde levar na sua comitiva um número reduzido de membros das embaixadas que se encontravam na China. Esta informação leva-nos a deduzir que parte da embaixada de Tomé Pires ficou com o Imperador Zhengde em Nanquim e a outra seguiu para Pequim. Dos que ficaram em Nanquim, um era sem dúvida, o Yasan, pois nas fontes chinesas há muitas referências ao facto de o Imperador Zhengde, como passatempo, aprender o português com ele”.
Numa nota do Revisitar os Primórdios de Macau refere-se que “Tomé Pires chegou, na comitiva imperial, a 18 de Janeiro de 1521” a Pequim. Já numa outra nota, desta vez do livro Nas Partes da China de Rui Manuel Loureiro diz “Paul Pelliot, recorrendo a fontes chinesas que afirmam que a embaixada portuguesa permaneceu em Pequim quase um ano, coloca a chegada de Tomé Pires à capital em Agosto de 1520. Esta datação é pertinente, pois os portugueses chegaram a Nanquim em Maio, e três meses seriam mais do que suficientes para a viagem entre esta última cidade e Pequim”.
Do Rio Yangtzé até à capital a viagem foi realizada de barco pelo Grande Canal (大运河), passando por Sampitay, conhecida por Pizhou (邳州) e situada a Leste de Xuzhou, chegando a Embaixada por fim a Pequim (北京).

Destaque
O Imperador, que segundo o costume chinês nunca saía dos seus aposentos, tinha ido repetidamente visitar os portugueses, chegando mesmo a jogar com Tomé Pires às távolas

“Com este Imperador, que gozava da fama de ser liberal e libertino, não havia nada impossível, se considerarmos também que os Portugueses eram apadrinhados por Jiang Bin, que era, nessa altura, o primeiro favorito do monarca.”
Jin Guo Ping e Wu Zhiliang em “Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História”

3 Jul 2015

Ancestral génese e espírito da China

Quando em Macau, na Casa Lou Kau encontramos o artesão chinês natural de Huaiyang, Sr. Xu Shuzhang, a pintar figuras estilizadas de barro, logo veio à memória as rústicas pequenas esculturas, que adquiri há vinte anos em frente ao Templo mausoléu de Tai Hao, dessa mesma cidade da província de Henan. Em Huaiyang, considerada a primeira cidade do mundo, celebrava-se então o aniversário de Fu Xi, cujo nome como divindade é Tai Hao. A feira, que ocupa toda a área entre o templo, o Rio Cai e o lago, é uma das mais antigas realizadas na China e foi aí que as comprei a um agricultor, habitante nas redondezas que andava com um cesto cheio dessas pequenas esculturas. São trabalhos com características de uma pureza infantil, de figuras com formas amórficas muito diversas, que logo nos transportaram para uma mitológica história registada há mais de dois mil anos.
Nu Wa, após o dilúvio e separada do seu irmão e companheiro Fu Xi, solitariamente vagueava pelo mundo onde não havia viva alma, já que todos os outros seres humanos tinham perecido, afogados nas turbulentas águas que subitamente tinham inundado a Terra. Quando tudo voltou ao normal, Nu Wa vagueava na esperança de encontrar alguém, mas apenas se deparava com uma imensa desolação. Sentindo-se muito só, ao ver-se reflectida nas águas do rio, pegou num bocado de lama e começou a moldá-la à sua imagem. Pousando-a, esta figura adquiriu vida e contente com a sua criação, continuou a modelar mais e mais criaturas. Resolveu assim povoar o mundo, mas percebeu que a sua tarefa era imensa e nunca mais terminaria. Então, decidida a usar os seus poderes sobrenaturais, pegou num ramo de vime e passando-o pela lama fê-lo girar no ar e os salpicos ao tocar o chão transformaram-se em novos seres humanos. Percebendo o efémero das suas criações resolveu dividi-los entre homens e mulheres e assim, com um aparelho reprodutivo, puderam estes perpetuar a espécie humana e daí surgiu de novo a humanidade.
Na feira, que para além do lado comercial tem uma parte de diversão, encontramos ainda os famosos tigres (ou seriam cães?) feitos pelos aldeãos com um tecido cor de laranja e ornamentados com pinturas. Pareciam uma produção actualizada com um novo desenho escultural, quando comparados com os pequenos objectos feitos de barro e pintados com fundo preto, de onde sobressaíam as cores vivas que lhes davam as feições. Entre a multidão, poucos eram já os camponeses, com cestas cheias, a vender estas pequenas esculturas e para chamar a atenção, iam com eles na boca usando-os como apitos. São os ‘Cães do Mausoléu’, que por terem formas amórficas muito diversas, revelam ser provenientes de uma figuração muito antiga.
Os Cães do Mausoléu, ou Cão de Argila, também conhecido por Cão Ling é o nome que em Huaiyang se dá a estas figuras no seu todo, não importa a representação que têm. Está relacionado, segundo o conhecimento popular, com o nome de Fu Xi, em cujo primeiro caractere (伏) existem dois radicais, um de homem (人) e outro de cão (犬). Segundo especulações de alguns estudiosos, a tribo de Fu Xi tinha como totem o cão e após o seu chefe deixar esta vida, os cães tornaram-se as divindades que guardam o mausoléu, que Confúcio passado dois mil anos confirmou estar ali enterrado o corpo do inventor dos trigramas. IMG_2980

Património Imaterial de Henan

Macau recebe a Mostra de Património Cultural Imaterial da Província de Henan entre 13 a 28 de Junho. Visitar esta província, situada na parte média do Huang he, ou Rio Amarelo, é como entrar pelas primeiras páginas do Livro da História da China. Henan, que significa a Sul do Rio, é um dos berços da civilização chinesa, tendo nela vivido ilustres personagens como Fu Xi, o primeiro Ancestral da Civilização Chinesa e Nu Wa, ambos considerados os primeiros seres humanos, o pai e mãe do povo chinês, assim como Sui Renshi, o primeiro a fazer fogo e foi onde nasceu o Imperador Amarelo, Huang Di que, unindo as tribos, criou o povo chinês. Albergou as capitais dos Soberanos Zhuan Xu e Di Ku e das três pré-dinastias chinesas, a Xia, a Shang e a Zhou. Lao Zi, fundador do Daoismo filosófico, aqui viveu tal como Zhuang Zi, Hua Mulan – heroína do tempo da dinastia do Norte (386-581) e tantas outras personagens famosas da História da China.
Com toda esta herança cultural, fundadora de uma das mais brilhantes e ancestrais Civilizações, teve Macau o privilégio de assistir nas Ruínas de S. Paulo, a um espectáculo que ocorreu nos dias 13 e 14 de Junho. Durante uma hora actuaram os Tambores de Kaifeng, uma sessão de Tai Chi Chuan e do Kungfu de Shaolin, não fosse esta a província de origem do boxe Shaolin e do boxe Taichi, dois dos boxes tradicionais chineses representados no Wushu, as Óperas Yu e Qu (Melodia Yu: Quhu, Shuixiu), a Dança Huatiao de Gushi e as dezoito Músicas de Gongos e Tambores. Até ao dia 27 de Junho podem ainda ser vistas na Casa de Lou Kau, durante a manhã, a Arte do Corte de Papel e a Escultura em Argila (Cão em Argila de Huaiyang) e à tarde, as Xilogravuras de Ano Novo de Zhuxianzhen e a Arte das Lanternas de Bianjing. Já durante os dois fins-de-semana em que a mostra se encontra em Macau, a Casa do Mandarim recebe individualmente, em cada um dos dias, os quatro artistas que durante a semana se apresentam na Casa de Lou Kau. Estes são quatro elementos representativos do Património Imaterial da China, sendo as Xilogravuras de Ano Novo de Zhuxianzhen, que tiveram origem na dinastia Song do Norte, o protótipo entre os vários estilos de xilogravura da China. Já as Lanternas Zhang de Bianjing têm sido fabricadas desde as dinastias Sui e Tang, tornando-se muito populares no período Song e estão associadas à boa fortuna. Quanto à arte do corte de papel de Yuxi, que faz uso da cor negra para conferir elegância, “está presente em diversos contextos quotidianos, incluindo em casamentos e comemorações de aniversários, quando se roga por bênçãos e por chuva, ou para evitar forças malignas” como é explicado num painel sobre essas exposições. Por fim, as esculturas em argila denominadas por Cão de Argila de Huaiyang, “abrangem temas variados, caracterizando-se pelas suas formas tradicionais e cariz enigmático. Acredita-se também que estas esculturas serão objectos simbólicos que representam as oferendas feitas em honra dos antepassados humanos e no contexto do culto genital, bem como no âmbito de práticas totémicas. Existem mais de duzentas formas de diversos animais nesta arte escultórica, incluindo macacos com rosto humano, macacos em corpete, bem como Sibuxiang”, escultura que por misturar diferentes figuras não se parece com nenhuma e numa metamorfose cria uma nova figuração, desassombradamente moderna.

O artesão Xu Shuzhang

Na Casa de Lou Kau, encontramos o artesão Xu Shuzhang a pintar as suas figuras de barro, representativas do Cão Ling, que apenas se encontram na cidade de Huaiyang. É reconhecido como o último dos artesãos que trabalham nessas esculturas e por isso, representa Henan nas muitas exposições levadas a cabo por toda a China. E foi durante essas viagens, que percebendo haver pouca procura, tentou inovar e assim, em 2007, apareceu com uma nova figuração, mais atractiva para os actuais tempos. Sendo o único artesão que se encontra no activo a modelar e decorar tais figuras, foi-lhe outorgado em 2010 o título de Património Imaterial da província de Henan. IMG_3016
Xu Shuzhang trabalha no barro desde criança, actividade que a sua família há oito gerações se dedica durante o período de interregno agrícola, ou após a labuta no campo, aproveitando essas horas de lazer para modelar as pequenas esculturas. Essas peças são feitas de argila retirada do que após as cheias do Rio Amarelo ficou depositado por baixo dos seixos. Barro de uma qualidade que não se encontra em mais lado nenhum tem vindo gradualmente a diminuir de quantidade. Após modelado, vão estas pequenas esculturas para um compartimento a fim de secarem, sendo depois revestidas a tinta preta. Em seguida são pintadas com cinco diferentes cores: vermelho, amarelo, branco, azul e verde, mas como afirma, os pigmentos usados antigamente já não se conseguem encontrar e por isso, agora pinta com tinta acrílica.
Sendo actualmente o único artesão no activo a modelar e decorar tais figuras, foi-lhe em 2010 outorgado o título de Património Imaterial da Província de Henan e por isso, tem viajado ao longo da China mostrando a sua arte, como único representante da herança cultural transmitida desde Nu Wa.
Ao apresentar-lhe as esculturas antigas por nós compradas na feira de Huaiyang, os seus olhos brilharam pois confessou não mais existir quem as faça e por isso, são peças museológicas. Confessa que em sua casa tem uma grande variedade delas guardadas, que poderiam servir para criar um museu. Inspiradas no mito de Nu Wa, desde tempos imemoriais os camponeses de Huaiyang modelavam estas figuras, transmitindo nessa primitiva arte, de formas difusas e coloridas com elementos de uma simbologia já quase indecifrável, uma ancestral herança. Pegando numa das esculturas que trazemos, mostra-nos a cabeça, que diz ser de macaco e apontando os três pontos revela estarem estes ligados ao sexo, que a figura representa. Depois explicou as linhas yang e yin que ali estavam pintadas e o tempo rapidamente se escoou no deslindar da simbologia das figuras que trouxéramos de Huaiyang.

28 Jun 2015

De Guangzhou até Nanjing com Tomé Pires

“Apesar de os Governadores de Cantão terem comunicado a Fernão Peres de Andrade, em 1518, que a embaixada fora aceite pela Corte Imperial, Tomé Pires aguardou quinze meses em Cantão” Gonçalo Mesquitela. A razão devia-se a Portugal não pertencer aos países tributários da China e por tal, para ser aceite em Cantão e obter autorização para ir à capital imperial, era necessário encontrar uma solução. Para ultrapassar tais impedimentos, os Governadores de Cantão aceitavam o Embaixador Tomé Pires como sendo oriundo de Malaca. Depois, já em Cantão, Fernão Peres terá ditado uma carta aos intérpretes, que a adaptaram com os termos tradicionais da diplomacia chinesa. Ficavam assim resolvidos os entraves iniciais para a Embaixada ser aceite em Cantão e poder seguir até Pequim.

Fernão Peres de Andrade, antes da partida da sua frota para Portugal, disse aos Governadores de Cantão que, no ano seguinte, outro Capitão português iria com uma armada buscar o Embaixador. Fernão Peres chegou à Índia em finais de 1518 e o novo Governador das Índias, Diogo Lopes de Sequeira, que tomou posse em 27 de Dezembro, nomeou o sobrinho António Correia para ir com uma esquadra à China e trazer de volta Tomé Pires e seus companheiros. Mas o então Capitão do Mar, Simão de Andrade tinha escrito de Malaca em 10 de Agosto de 1518 ao Rei D. Manuel enumerando os bons serviços prestados. Segundo João Paulo Oliveira e Costa, Simão servira “a Coroa na Índia desde 1504, quando acompanhou Duarte Pacheco Pereira na defesa de Cochim contra as investidas do samorim de Calecut. Nos vinte anos que se seguiram, participou na maior parte das campanhas militares que levaram à criação do futuro Estado da Índia. Afonso de Albuquerque, por exemplo, cita-o sempre entre os combatentes mais aguerridos e os conselheiros mais temerários”. Fora um dos heróis da tomada de Malaca em 1511 conjuntamente com o seu irmão Fernão Peres. Pedia ao Rei para ser nomeado para um cargo mais importante. O Rei sabendo já do êxito da visita de Fernão Peres de Andrade à China, acedeu e enviou a Simão de Andrade um alvará autorizando a sua ida como Capitão duma esquadra, quando seu irmão regressasse. Assim, Simão de Andrade com o alvará real foi enviado à China em lugar de António Correia, que parecia um homem muito mais qualificado para tal missão. Esta substituição revelou-se fatal tanto para a Embaixada de Tomé Pires, como foi causadora das desgraças que os portugueses sofreram na China durante os trinta anos seguintes. Contrastando com seu irmão Fernão, Simão de Andrade era homem de pouco tacto, caprichoso, violento, de um espírito conflituoso e muito cioso da sua posição social, características que os cronistas fazem salientar.

Em Abril de 1519 partiu de Cochim para Malaca a esquadra comandada por Simão de Andrade e para além da sua nau, outros juncos acompanhavam-na cujos capitães eram “Jorge Botelho, Álvaro Fuzeiro, Jorge Álvares e Francisco Rodrigues (o cartógrafo),” segundo refere Gonçalo Mesquitela, que continua: “No entanto, Jorge Álvares ficou retido em Malaca por o seu junco ter aberto um veio de água, só conseguindo partir para a China no ano seguinte, com Diogo Couto.” Mas Armando Cortesão diz que à nau de Simão de Andrade só em Malaca se juntaram os três juncos. A pequena frota capitaneada por Simão de Andrade chegou a Tamão (que João de Barros chama Tumon, a actual Lin Tin) em Agosto do mesmo ano e “aí se instalou mas, devido à sua prepotência destruiria o trabalho pacientemente realizado por Fernão Andrade, criando uma situação muito embaraçosa na China para todos os portugueses” Gonçalo Mesquitela.

“Simão de Andrade julgava, não sem razão, que quando chegasse a Tamão acharia Pires já de regresso de Pequim. Em vez disso, verificou que o Embaixador nem sequer tinha ainda partido de Cantão. Pires devia estar muito aborrecido com as insuportáveis demoras chinesas e certamente se queixou ao Capitão português. Acostumado ao prestígio e respeito então desfrutados pelos portugueses no Oriente, (Simão de) Andrade deve ter-se ressentido com tal procedimento, tomando-o como afronta ao brio lusitano. É natural que grande fosse a sua indignação e irritação. Isso, sem dúvida, contribuiu para os lamentáveis desmandos que cometeu – circunstância em que não atentaram tanto os historiadores do passado como os do presente, embora essencial ao juízo deste muitas vezes discutido ponto da história” Armando Cortesão.

Fernão Peres com o Rei D. Manuel

Após ter chegado ao Oriente como um dos Capitães da armada de 1505, Fernão Peres de Andrade, destacou-se nas campanhas contra Mombaça, Calecut, Cochim, Ormuz, Goa e Malaca e ainda, em 1513 na conquista da fortaleza de Upi, na Costa do Malabar, Índia.

Apesar dos seus vinte e seis anos, Fernão Peres era já um veterano da Índia, onde servira a Coroa entre 1505 e 1513, enchendo-se de prestígio, primeiro sob o comando de D. Lourenço de Almeida, depois com D. Francisco de Almeida e por fim sobre a alçada do Governador Afonso de Albuquerque, que o deixou em Malaca como Capitão-mor do mar para defender a cidade recém-conquistada. Fernão regressou a Portugal onde esteve entre o Verão de 1514 e a Primavera de 1515, tendo a oportunidade de explicar ao Rei D. Manuel a importância do mercado chinês. Voltou Peres de novo ao Oriente, agora como comandante dum dos dezassete barcos da esquadra de Lopo Soares de Albergaria com duas missões, a de explorar o Golfo de Bengala (que não teve tempo de realizar) e de se dirigir a Cantão para deixar o Embaixador português, por ele escolhido na Índia, ao Imperador do Celeste Império. Tendo ficado catorze meses na China, aí deixou boas relações e uma boa imagem dos portugueses, causando um excelente efeito os pregões lançados na cidade antes de partir para, se qualquer chinês tivesse recebido agravo de algum português ou algo lhe fosse devido, se lhe queixasse a fim de receber reparação ou pagamento.

Saindo de Tamão em Setembro de 1518, Fernão Peres de Andrade chegou a Malaca onde “foi bem recebido e melhor festejado, assim pela riqueza que trazia a sua armada e provimento de munições de toda a sorte contra o Rei de Bintão. Resolvidas as coisas da guerra contra a sagacidade daquele rei, se partiu Fernão Peres com D. Aleixo de Menezes, capitão daqueles mares, e chegaram ambos a Goa a tempo que já tinha acabado seu governo o Governador Lopo Soares” Gonçalo Mesquitela.

Demorou-se na Índia um ano, partindo em Janeiro de 1520 para Lisboa, onde chegou em Julho. Damião de Góis diz: <por a cidade de Lisboa estar tocada de peste, se foi (Fernão Peres) a Évora, onde então El-Rei estava com a Rainha D. Leonor, sua derradeira mulher, dos quais foi mui bem recebido, e El-Rei lhe perguntava muitas vezes pelas coisas da China, e das outras províncias daquela região, ouvindo-as com muito gosto, porque de seu natural era curioso de saber o que passava pelo mundo, para disso tomar o que mais cumprisse ao governo de seu Estado, Reinos e Senhorios>. “Isto mostra o interesse que as minuciosas notícias da China – trazidas directamente por Andrade e seus companheiros – despertaram em Portugal e explica como os cronistas tiveram tanto material para as suas extensas descrições de Cantão, chegada de Pires e tudo o que se passou com Andrade e a sua esquadra” A Cortesão. E João Oliveira e Costa refere: “O sucesso da viagem de Fernão Peres de Andrade entusiasmou, certamente, D. Manuel I. O monarca via, assim, coroados de êxito os esforços de mais de uma década, para levar os seus súbditos até aos limites do espaço que lhe cabia segundo o tratado de Tordesilhas.

A partir de 1519, o rei promoveu um novo surto expansionista no Oriente, a que não escapou a China; convicto de que se conseguiria estabelecer um acordo com os chineses, D. Manuel concebeu para o mar da China o mesmo modelo de fixação que já resultara noutras regiões do Oriente.”…”estabelecimento de uma feitoria no Celeste Império, criação de uma armada da China e de outra para fazer a viagem entre Samatra e Cantão, construção de navios e de uma fortaleza na própria China.”

A razão da demora

Simão de Andrade chegou a Tamão em 1519, para recolher de volta a Embaixada, mas Tomé Pires ainda se encontrava em Cantão. Segundo a leitura de Wu Zhiliang, após consultar um documento coreano, a morosidade burocrática de três anos do Tribunal dos Ritos, cujo responsável era natural de Cantão e hostil aos portugueses, foi propositada. Uma das razões foram as palavras irreverentes sobre a pousada oficial que os portugueses acharam pouco digna para albergar a embaixada, o que deixou o Tribunal dos Ritos ofendido e por isso, atrasou o despacho para a sua recepção.

Referindo-se às demoras impostas a Tomé Pires e sua Embaixada, João de Barros comenta: <É tanta a majestade deste Príncipe (o Rei da China), e os negócios desta qualidade são tão vagarosos, principalmente quando gente estrangeira há-de ir a ele, por tudo ser resguardos, e cautelas, que há mister muita paciência quem houver de esperar seus vagares>. Paciência não era a principal virtude de Simão de Andrade, e ele cometeu vários actos que as autoridades chinesas consideraram que infringiam as suas leis, tais como a construção dum forte de pedra e madeira em Tamão, sob pretexto de defesa contra os piratas, e o levantamento duma forca em que um marinheiro foi executado.

Sobre o comportamento bárbaro de Simão de Andrade pesavam, a construção de uma fortaleza sem qualquer permissão da parte chinesa, ter roubado os mercadores que foi encontrando, ter matado um marinheiro e raptado crianças. Tais acções levaram os chineses a ficarem alarmados, tanto com a força das armas, como com o carácter velhaco dos portugueses e por isso passaram a olhá-los como “fan kwei” (em mandarim feng gui 疯鬼) – diabos estrangeiros. Não sabemos se estes e outros actos mais repreensíveis foram praticados antes de Pires ter partido de Cantão, mas sem dúvida tiveram a mais desastrosa repercussão em acontecimentos futuros.

Viagem até Nanjing

A embaixada de Tomé Pires só em 23 de Janeiro de 1520 iniciou a viagem até Beijing (北京, Pequim). No entanto, a meio caminho, em Nanjing (南京, conhecida pelos portugueses por Nanquim) encontraram-se com o Imperador, nessa altura Zhengde (1505-21).

De Cantão, Tomé Pires e o seu séquito partiram rio acima em três galés chinesas movidas a remos “com toldos de seda e desfraldando bandeiras portuguesas” segundo A. Cortesão, mas Rui Loureiro diz serem as bandeiras da Embaixada imperiais e representavam um dragão, que João de Barros chama “um leão rompente”. Continuando com A. Cortesão: “Ao chegarem ao sopé da serrania Norte da província de Kuantung (Guangdong), deixaram as galés e seguiram em liteiras, a cavalo e a pé, através do Passo de Meiling (Meiguan, 梅岭关), provavelmente de Nanhsiung (Nanxiong南雄) para Nan’an (南安).”

Segundo Rui Loureiro: “a missão portuguesa apenas teve de desembarcar em Nanxiong, para a travessia das serras de Nanling, a que Barros chama Malenxam, que se estendem na fronteira entre as províncias de Guangdong, Jiangxi e Fujian. Daqui, Tomé Pires escreveu pela primeira vez a Simão de Andrade por um mensageiro chinês, comunicando-lhe os sucessos da jornada.” A. Cortesão refere que: “Durante a travessia das montanhas morreu Duarte Fernandes. Seguiram então para o norte, em direcção a Nanquim, mas não se sabe exactamente o caminho tomado. É de supor que a embaixada tenha feito percurso idêntico ao de outros viajantes europeus posteriores, como o padre Ricci, em fins do século XVI”.

Essa jornada, após atravessada a passagem de Meiling e já em Nan’an, que hoje é a vila de Dayu (大余), de novo se voltava a embarcar e navegando primeiro pelo Zhangjiang (章江) passando por Nankang (南康) chegava-se a Ganzhou (赣州), onde o rio desaguava no Ganjiang (赣江), que era um afluente do Yangtzé (长江, Changjiang). Ao longo do percurso atravessava as povoações de Wan’an (万安), Ji’an (吉安), Linjiang (临江, hoje conhecida por Zhangshu), Nanchang (南昌) e entrando pelo Lago Poyang (鄱阳湖) chegava à cidade de Jiujiang (九江), já banhada pelo Changjiang, o terceiro rio mais longo do mundo. Daí era só seguir navegando pelo Rio Yangtzé (nome por que é conhecido o Rio Chang pelos ocidentais) uns quinhentos quilómetros, para chegar a Nanjing. A Embaixada portuguesa levava já mais de três meses desde que saíra de Guangzhou, quando chegou em Maio de 1520 a Nanjing.

22 Jun 2015

A espera em Cantão de Tomé Pires

Numa viagem normal, em condições favoráveis, desde Cochim até à costa chinesa demorava-se quatro meses, mas esta, que trazia o Embaixador Tomé Pires, levava já mais de dezassete meses quando, em 15 de Agosto de 1517, a frota comandada por Fernão Peres de Andrade chegou a Tamão (Lin Tin). Aí, os primeiros contactos com os chineses foram através do Pio de Nantó, tendo os portugueses que ficar mais de um mês em Tamão à espera pela permissão para seguir até Cantão. Segundo Gonçalo Mesquitela, os portugueses chamavam a esta ilha de Tamão, Beniaga, que significa mercadoria, e a causa por “esta ilha ser assim chamada é porque todos os estrangeiros que vão à Província de Cantão, é a marítima mais ocidental que o Reino da China tem, a ela por ordenanças da terra hão-de ir por estar por espaço de três léguas da terra firme e ali provém os navegantes do que vão buscar” como refere João de Barros. Beatriz Basto da Silva explica que o termo de Ilha de Veniaga só foi usado pela primeira vez em 1525, referindo-a como a ilha de encontro comercial de mercadores portugueses e chineses e é uma expressão propositadamente vaga, tal como “a designação de ‘ilha do encontro’, já que podia não ser a mesma em cada ano, como convinha ao comércio clandestino que então se praticava na China meridional”, sendo Tamão, (Tunmen em mandarim), nesse ano de 1517 a Ilha da Veniaga. E continuando com Mesquitela: “A três léguas da ilha da Veniaga está outra em que vive o almirante ou capitão-mor do Mar, na vila de Nantó (Nantou encontra-se na área de Nanshan, em Shenzhen). Logo que chegam estrangeiros a Veniaga faz saber aos regedores de Cantão quais são e que mercadorias trazem e quais querem comprar”…”Informado disto por Duarte Coelho, mandou Fernão Peres recado ao capitão da armada chinesa, fazendo-lhe saber quem era e que vinha com uma embaixada d’el-rei D. Manuel de Portugal, seu Senhor, a el-rei e que por vir em paz e não em guerra, não respondera nas palavras de Barros. Ao que o capitão (chinês) respondeu manifestando-lhe muito boas vindas e que pelo navio de Duarte Coelho, chegado dois dias antes, soubera, que a sua armada tinha partido de Malaca; e que pelos chineses que ali iam tinha também notícias da verdade e cavalheria dos Portugueses. Que folgava com a paz e que guardasse os costumes da terra, que ele primeiro ia mandar recado aos regedores de Cantão, e o que respondessem, isso fariam.” Mas os dias iam passando e a resposta não aparecia e então “Fernão Peres insistiu por mensageiro junto do Almirante do Mar, o Pio, tendo como resposta, dada nos mais amáveis termos, que os regedores de Cantão ainda não tinham comunicado a sua decisão.” E continuando com João de Barros: “Sobre este negócio houve tantos recados de parte a parte que enfadado Fernão Peres desta dilação, mandou tirar do porto da ilha alguns navios para se pôr em caminho e com os pilotos chineses que trouxera de Malaca, meteu-se em Cantão.”

“Enquanto Fernão Peres subia o Rio das Pérolas até à cidade de Cantão, parte da armada permanecia próximo da foz, sob o comando de Simão de Alcáçova; João de Barros relata-nos que este grupo de navios foi atacado por piratas, mas não se refere a baixas avultadas; ter-se-á tratado de uma simples escaramuça…” refere João Oliveira e Costa.

A instrução protocolar

Em finais de Setembro de 1517, os barcos que transportavam a Embaixada Portuguesa ao Imperador do Celeste Império entraram em Cantão. “Desfraldando bandeiras e salvando com toda a artilharia, os navios portugueses lançaram ferro em frente do cais principal da cidade” A. Cortesão.

Como os três governadores de Cantão, o Tutam, o Concam e o Chumpim, se encontravam ausentes da cidade foi com o Puchanchi, o haidao interino Gu Yingxiang, que os portugueses primeiro trataram. Gu Yingxiang não os recebera, sendo toda a comunicação feita por intermédio do intérprete chinês”, como está referido no Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang. Aí se diz que, devido ao haidao Wang Hong se encontrar fora numa missão oficial a Pequim, Gu Yingxiang nessa altura substituía-o na repartição do Haidao (Circuito da Defesa Marítima).

“Logo o Puchanci, a mais alta autoridade que no momento se encontrava em Cantão, mostrou o seu desagrado contra o que dizia ser uma violação dos direitos da terra por parte dos portugueses, que demais tinham chegado sem consentimento oficial. Respondeu Andrade que o salvar da artilharia e desfraldar de bandeiras era devido à sua ignorância, apenas significando uma marca de respeito, e, quanto a vir sem licença, explicou que o Pio acabara por lha dar e fornecer pilotos” Armando Cortesão.

Resolvido este pequeno problema, muitos outros foram ocorrendo. Para João de Barros: “A ida dos três governadores fora da cidade, segundo depois pareceu, foi mais artifício para Fernão Peres ver a majestade e pompa de suas pessoas quando entrassem nela, que alguma outra necessidade; e ainda para ver os graus da precedência de cada um e a diferença que a cidade fazia no seu recebimento, vieram um e um, tomando dia próprio para isso.”

“Foi então arranjada uma entrevista com os portugueses. Andrade, que até aí tinha proibido o desembarque de qualquer português ou a entrada de chineses nos navios, enviou a terra o feitor (Giovanni da Empoli), . O feitor disse aos Governadores como o Rei D. Manuel de Portugal, desejando relações de amizade com tão grande Príncipe como era o Rei da China, enviara aqueles navios, sob o comando do seu Capitão Fernão Peres de Andrade, conduzindo um Embaixador e presentes para serem entregues aos Governadores de Cantão, que os enviariam à corte” A. Cortesão e com ele continuando, “No fim de Outubro de 1517, foi Tomé Pires desembarcado por Andrade, . O presente para o Imperador, que só na sua presença deveria ser aberto, foi fechado na mesma casa e a chave entregue a Pires” Armando Cortesão. O encontro entre os governantes da cidade e o Embaixador Tomé Pires decorreu na Mesquita Huaisheng, que continua hoje a existir na Rua Guangta, no centro de Cantão.

Ainda antes disso, o haidao interino Gu Yingxiang “imediatamente mandou comunicar tudo e Ning Cheng, eunuco dos Três Salões e Guo Xun, o marquês Wuding, à altura no cargo de Zongbing acorreram ao aviso. O cabecilha (Tomé Pires) saiu de longe para os receber mas não lhes fez genuflexões. O Censor Metropolitano e Grande Coordenador Chen Jin (o Tutão) chegou mais tarde sozinho e mandou dar vinte bastonadas no intérprete, dizendo ao Superintendente do Comércio Marítimo: . No primeiro dia, começaram a fazer genuflexão com a perna esquerda, no segundo dia conseguiram fazê-la com a perna direita, e só no terceiro dia aprenderam a bater a cabeça no chão” Revisitar os Primórdios de Macau.

Fernão Peres deixa Pires em Cantão

[quote_box_right]O encontro entre os governantes da cidade e o Embaixador Tomé Pires decorreu na Mesquita Huaisheng, que continua hoje a existir na Rua Guangta, no centro de Cantão[/quote_box_right]

“Embora a comitiva ficasse alojada num edifício próprio, especialmente destinado às missões estrangeiras, as despesas da estada corriam por conta dos portugueses, como expressamente exigira Fernão Peres” assim diz João de Barros na Ásia, segundo Rui Manuel Loureiro e com ele continuando: “Durante longos meses, os portugueses estiveram ancorados diante da grande metrópole da província de Guangdong, efectuando proveitosos negócios e colhendo amplas notícias sobre a realidade sínica, por ocasião de sucessivas visitas à cidade e de múltiplos contactos com a população local e com os mandarins cantonenses. Entretanto, um navio capitaneado por Jorge Mascarenhas explorou demoradamente o litoral chinês até às imediações de Amoy”. E Beatriz Basto da Silva complementa “entre saguates (presentes destinados a predispor bem um interlocutor, costume muito comum então no Oriente, especificamente na China), deixou sementes de bom entendimento”.

Por outro lado, segundo João Oliveira e Costa: “o êxito desta armada deveu-se em grande parte ao tacto do capitão-mor (Fernão Peres de Andrade), que procurou respeitar todas as práticas locais. Num país com um poder fortemente centralizado, como era a China dos Ming, que contrastava com a situação política do resto do continente asiático, os Portugueses não podiam ofender as autoridades de uma cidade, pois se tal acontecesse não seriam bem aceites em todos os outro portos do Celeste Império. Não era possível repetir aqui o que acontecera na Índia e na África Oriental…”

Rui Loureiro refere que: “De acordo com documentos coevos, o jurubaça principal da embaixada portuguesa, um chinês que dava pelo nome de Huo-che Ya-san (Huozhe Yasan), estabelecera excelentes relações com as autoridades provinciais, logo após o desembarque no porto de Cantão. Por sua própria iniciativa, e graças a uma generosa distribuição de dádivas, conseguira obter autorização imperial para Tomé Pires visitar Pequim como enviado do rei de Malaca.”

“Depois de declinar convites para ir a terra, Andrade despediu-se dos Governadores, por lhe ter chegado notícia de que os navios que deixara em Tamão tinham sido atacados pelos piratas, e também porque uma parte da sua gente dos navios de Cantão estava adoecendo com febres e disenteria, doença que já vitimara nove homens, entre os quais Impole (o feitor da armada). Desta vez, os chineses prestaram todo o auxílio na reparação dos navios.” E seguindo ainda com A. Cortesão: “Após algum tempo em Tamão, recebeu Andrade notícia (aliás, falsa) de que os Governadores de Cantão já tinham ordem da corte para enviar a Embaixada. Mandou então lançar pregões para se qualquer chinês tivesse recebido agravo de algum português ou algo lhe fosse devido, se lhe queixasse a fim de receber reparação ou pagamento, o que causou excelente efeito. E, assim, partiu em Setembro de 1518, depois de se ter demorado quase catorze meses na China, chegando a Malaca , conforme comenta Barros”, que adita ter Fernão Peres nesta estadia aprendido dos chineses algumas técnicas de construção naval, que introduziu nos navios portugueses e passaram a ser, nestes, de uso corrente.

A longa espera em Cantão

5 HM Mesquita em Canta¦âo

Com Tomé Pires, segundo João de Barros, ficaram em Cantão sete portugueses mas, Cristóvão Vieira informa que foram Duarte Fernandes, Francisco de Budoia, Cristóvão de Almeida, Pedro de Faria e Jorge Álvares, todos portugueses, <eu, Cristóvão Vieira, pérsio de Ormuz, doze moços servidores e cinco jurabaças> (intérpretes). Eram, pois, cinco portugueses, um persa lusitanisado e dezassete outros.

Duarte Coelho foi enviado pelo capitão-mor D. Jorge de Mascarenhas para Malaca com a informação de o Embaixador Tomé Pires ter sido bem recebido em Cantão mas, quando aí chegou em Março de 1518, Duarte Coelho logo mandou avisar Fernão Peres de Andrade que a praça estava a ser atacada pelo Rei de Bintão. Já com a informação que chegara instruções do Imperador da China para lhes enviar o Embaixador português, os navios sob o comando de Fernão Peres largaram de Tamau em finais de Setembro de 1518, chegando no mês seguinte a Malaca. Ainda antes de partir, Fernão Peres de Andrade disse aos Governadores de Cantão que, no ano seguinte, outro Capitão português iria com uma armada buscar o Embaixador.
No entanto, Tomé “Pires e o seu séquito ainda tiveram de esperar mais de quinze meses em Cantão antes de partirem para Pequim. Só depois de três recados transmitidos à corte e de terem vindo de lá outros três recados para os Governadores, pedindo mais pormenores sobre os portugueses, etc., chegou enfim ordem para a Embaixada seguir” A. Cortesão. Já Beatriz Basto da Silva diz que: “Tomé Pires aguardou viagem em Lantao” onde os visitantes ficaram em “prisão preventiva”, enquanto não chegava autorização imperial a Cantão.

Assim, por questões de ordem diplomática, a embaixada teve que esperar até 1520 para que fosse permitido a Tomé Pires ir até Pequim entregar os presentes e a carta que trazia do Rei de Portugal D. Manuel ao Imperador da China, nessa altura Zheng De (1505-21) da dinastia Ming, cujo nome de Templo é Wu Zong.

12 Jun 2015