A Exposição Industrial de Macau de 1926

A 4 de Novembro de 1926, faltando três dias para a abertura da Exposição Industrial de Macau (inaugurada a 7 de Novembro), reinava um grande optimismo sobre o sucesso do certame, que contrastava com o inicial ambiente de descrédito sobre a sua realização. No Campo de Mong-há achavam-se já montados sessenta pavilhões e o número dos expositores industriais e comerciais subia a mais de oitocentos além de vários indivíduos de Cantão e Hong Kong, inscritos como comerciantes ambulantes de curiosidades chinesas.

A ideia inicial de se realizar em Macau uma feira com produtos nacionais e estrangeiros fora do Governador Sr. Dr. Rodrigo Rodrigues (1923-24), mas só ganhou corpo com o Governador Tenente-Coronel Manuel Firmino Maia Magalhães, que tomara posse a 18 de Outubro de 1925 e foi exonerado a 19 de Junho de 1926. Em Janeiro de 1926, dera instruções à Direcção das Obras dos Portos para iniciar os trabalhos de organização duma ‘Exposição Industrial e de Estudo’ referente a Macau, a realizar em Abril desse ano no Campo do Tap Seac. Em 14 de Fevereiro foi constituída uma Comissão encarregue de levar a efeito a ‘Exposição Industrial e de Estudo’, que logo mudou a data para Setembro, devido ao curto espaço de tempo para realizar tal invento, tendo ainda sido escolhido um novo local. Seria no Jardim Vasco da Gama, alameda criada após o saneamento da extensa várzea do Tap Seac e planeado pelo Eng. Abreu Nunes. Inaugurado em 1898, era o segundo jardim público de Macau e a sua primeira ampla via pública, que muito contrastava com as restantes ruas estreitas e escuras da cidade.

Já como Exposição Industrial de Macau, a 22 de Maio, com a adesão de grande número de expositores, que subiam agora a 520, pareceu à Comissão não haver possibilidade de se realizar a feira e exposição dentro do Jardim Vasco da Gama e para que não fosse sacrificado o tamanho dos pavilhões, ficou acordado o Campo de Mong-Há. Um espaço livre de 8 hectares, compreendido entre a Rua Conselheiro Ferreira de Almeida e as avenidas Coronel Mesquita, Sidónio Pais e Horta e Costa, onde no dia 3 de Novembro de 1926 se reuniu “uma comissão de senhoras que, a convite da Comissão Organizadora, tomou a seu cargo o trabalho da disposição dos numerosos artigos nos pavilhões gerais”, como refere o jornal A Pátria, de há 90 anos. Este dá como notícia, esperar-se ainda o material da Companhia de Vaudeville de Manila, que deverá chegar a Macau na tarde do dia seguinte, estando o transporte confiado ao American Express e a montagem no recinto da exposição terá, impreterivelmente, de ficar pronta no dia da abertura da exposição. Contava para tal com uma equipa de vinte e cinco operários da Vaudeville, encontrando-se muitos dos seus artistas já em Macau.

Antecedentes

A 20 de Janeiro de 1926, a Direcção das Obras dos Portos enviou uma carta ao Director do diário “A Pátria”, F. X. dos Remédios onde se refere, “Tendo esta Direcção, de conformidade com as instruções de Sua Exa. o Governador, iniciado os trabalhos de organização duma ‘Exposição Industrial e de Estudo’ referente a esta Colónia, a realizar em Abril P.F. e que servirá de início a um futuro Museu e Exposição Permanente de todos os produtos das indústrias locais e mostruário de produtos da Metrópole e das Colónias Portuguesas e em que se reúnam todos os elementos hoje dispersos e alguns talvez desconhecidos do público, tomo a liberdade de vir pedir a V. Exa. o indispensável apoio do conceituado jornal que mui dignamente dirige, no sentido de tornar pública esta iniciativa que poderá vir a constituir um valoroso atractivo para a colónia e dela ser feita a propaganda necessária de forma a concorrerem à mesma alguns interessados. Junto a esta, envio alguns tópicos referentes à constituição da supradita exposição para melhor elucidação desse Jornal”, vem assinada por Hugo de Lacerda, Director das Obras dos Portos. Foi publicada n’ A Pátria a 26, Terça-feira, acompanhada com um estendo texto do director do jornal onde se lê, “Calorosamente aplaudimos esta ideia, como já a tínhamos aplaudido no tempo do Sr. Dr. Rodrigo Rodrigues, que tomara a iniciativa de realizar em Macau uma feira com produtos nacionais e estrangeiros. É com prazer que vemos o Governo local entrar no caminho das realizações práticas.” (…) “Desta feita teremos uma Exposição!” (…) “E Macau bem precisa disso. Estamos num tempo de utilitarismo, em que só triunfa quem tenha iniciativa e faculdades de trabalho.” (…) “Com os recursos de que dispomos, bem podemos ser um valor apreciável no movimento comercial e industrial do Sul da China. A questão é sabermos fazer uma inteligente propaganda dos nossos valores económicos…” (…) “Expor, portanto, esses produtos industriais é fazer a melhor propaganda de Macau e contribuir para criar uma atmosfera propícia a novas iniciativas. Mas não é apenas o lado industrial da exposição, que nos deve interessar. É também a parte artística e sobretudo o plano de iniciar, com os produtos da Exposição, um novo Museu. Macau, uma terra de tradições, velha de quase 4 séculos, não tem um Museu! É um vexame para nós e uma demonstração palpável de incúria e de falta de senso artístico. Particulares há, que transformaram as suas casas em verdadeiros museus de arte chinesa, e o Governo da Província nem mesmo no tempo das vacas gordas se lembrou de pôr de lado meia dúzia de patacas para ir coleccionando, pouco a pouco, tantas maravilhas artísticas, que por aí se encontram. Ainda bem que se pretende agora remediar esta falta, que de longe vem.” Já num texto à parte assinado pelo encarregado, João Barbosa Pires diz que a Exposição Industrial e de Estudo estará aberta durante um mês e será dividida em três secções (Secção Fotográfica, Secção Cartográfica, Hidrográfica e de Maquetes, e Secção Industrial), assim como as condições para o público, amador ou profissional, tomar parte na Exposição Fotográfica cujo tema é sobre tudo o relacionado com Macau.

A 28 de Janeiro foi inaugurada a Doca Seca do Través do Patane concebida pelo Almirante Hugo de Lacerda, estando inserida nas obras do Porto de Macau.

Primeira reunião da Comissão

Em conformidade com instruções do Governador, a Direcção das Obras Públicas iniciou os trabalhos da Exposição Industrial de Macau, convidando “alguns cavalheiros para tomarem parte de um Comité que se incumbiria da direcção dos trabalhos da Exposição, tendo-se este reunido no dia 14 (de Fevereiro de 1926), presidindo S. Exa. o Governador M. Maia Magalhães e encontrando-se presentes o ajudante de campo Dr. Afonso de Albuquerque, Comissário das Alfândegas, Comissário das Alfândegas, Carlos R. Cabral, Vice-Almirante, Director das Obras dos Portos, Hugo de Lacerda, Capitão de Fragata, engenheiro, José Maria Lopes, Major, Víctor de Lacerda, Chefe de desenho e propaganda, João B. Pires e o Escrivão da Capitania dos Portos, Artur Tristão Borges. Não puderam comparecer a esta reunião, por motivos justificados, o Sr. Gerente do Banco Nacional Ultramarino, M. Monteiro Lopes, Gerente da Macao Electric Lighting Co, F. J. Gellion, Comendador Lu-Lim-Ioc e o capitalista, Fong-Chioc-Lam.” Após as explicações do Governador do motivo desta e outras reuniões que se seguirão, “contando com a boa vontade de todos os cavaleiros presentes para levar a efeito a Exposição cujos trabalhos já estavam iniciados, tendente a vulgarizar a indústria local, bastante desconhecida, no momento em que Macau pretende regressar a uma vida próspera.” O Sr. Almirante Lacerda expôs as razões da constituição da Comissão da Exposição, sendo a distribuição dos lugares divulgada no que ficaria a ser a primeira Sessão da Comissão. Assim como Presidente ficava o Almirante Hugo de Lacerda, para Tesoureiro, Monteiro Lopes, para a Propaganda, Lu Lim-Ioc e na Direcção Técnica, P. da Cunha Gomes, que passado um mês e meio saiu devido ao seu retorno à Metrópole. Para o cargo da Estatística ficou Carlos Cabral, Construções, Víctor Lacerda, Iluminação, F.J. Gellion, Propaganda, Fong-Cheoc-Lam, Administração, José Maria Lopes, Cinematógrafo de Macau, Artur Borges e Secretário, João Barbosa Pires. Todos aceitaram os cargos, sendo depois “discutidos vários problemas referentes à Exposição, como é o seu carácter relativamente modesto apenas de interesse local, que por forma alguma se poderá comparar às grandes feiras internacionais”. Resolveu-se, “atendendo à necessidade de contar com largo espaço, fixar a Alameda Vasco da Gama, como local mais próprio para a realização da Exposição”.

“Apreciados os trabalhos já executados, foi notado que os expositores que se comprometeram até agora a aderirem à Exposição sobem a 150, declarando o encarregado Borges Pires, que essas adesões representam os convites feitos numa semana e numa área diminuta da Colónia, calculando deverem aderir aproximadamente 600 expositores, queixando-se, todavia, muitos deles de falta de tempo para apresentarem mostruários honrosos para as suas indústrias.”

Da inicial ideia de realizar em Maio a Exposição, por proposta do Sr. Cunha Gomes foi mudada para Setembro e aceite por todos. Também foi lançada a ideia de fazer a emissão de um selo comemorativo da Exposição para ajudar às receitas “e para não fazer qualquer exigência aos expositores a quem serão dadas todas as facilidades”. “Igualmente lembrou-se a possibilidade de etiquetas sem encargos para a Indústria de Macau, e tudo de forma a se colherem os melhores resultados quanto a elementos de estudos estatísticos.” Por fim resolveu-se marcar para o dia 15 de Março a próxima reunião.

A Pátria de 25 de Fevereiro refere terem começado já com entusiasmo as adesões de industriais e amadores fotográficos a esta Exposição. Para os interessados deverão dirigir-se ao encarregado da Direcção das Obras dos Portos, assim como, as condições para tomar parte na Exposição Industrial, que no seu primeiro artigo diz somente poderem concorrer os industriais de Macau, Taipa e Coloane, podendo expor os seus artefactos em conjunto, ou em stands próprios. A 2 de Março, constavam já mais de 160 industriais inscritos e o jornalista alvitrava “que se adie a realização para Outubro, Novembro ou Dezembro – a quadra melhor de Macau – para haver tempo suficiente para que todas as indústrias possam expor os seus produtos, alguns dos quais têm que ser feitos com muita antecedência.”

A Segunda Sessão

A 15 de Março de 1926 na Direcção das Obras dos Portos reuniu-se a Comissão encarregada dos trabalhos referentes à Exposição, onde apareceram todos os membros e foi presidida pelo Almirante Lacerda. Apresentou o Plano Geral da Exposição na Alameda Vasco da Gama, constando da disposição de 60 pavilhões particulares dos quais 20 já estavam reservados, além dos pavilhões da Comissão de stands gerais, cinematógrafo, hall de dança, buffet, etc.. O Sr. F. Gellion referiu achar inconveniente as projectadas barracas de óla, que poderiam ser motivo de incêndio, e propunha que fossem feitas de madeira. Lembrou então Victor de Lacerda a necessidade de destacar para o local da Exposição dois piquetes de bombeiros. Monteiro Lopes referiu “que sejam executados pelos encarregados destes trabalhos, alguns modelos de pavilhões que servirão de padrão, podendo ser principalmente de lona, que se presta a maior embelezamento e modelação. João Barbosa Pires contrapôs que se deveria dar a maior liberdade possível na construção dos stands, o que, “depois de ouvidos os membros chineses e devidamente discutido o assunto, ficou resolvido dar-se ampla liberdade aos concorrente para executar os pavilhões de lona, madeira, zinco, óla, devendo, neste último caso, ser construídos de madeira na parte inferior pelo menos até um metro de altura”. O Plano Geral foi aprovado depois de algumas emendas propostas por Cunha Gomes. Já Gellion perguntou se um mês não seria pouco tempo de Exposição, ao qual Barbosa Pires retorquiu que tal “teria razão de ser se não se promovessem distracções próprias das exposições”. Nessa sessão a Comissão considerou ainda “a necessidade de admitir pavilhões de comerciante que queiram expor e vender artigos por meio de entretimento, rifas, etc.,” lembrando o Presidente a vantagem de considerar em primeiro lugar os industriais a fim de se promover uma Exposição Industrial e não uma Feira; “todavia, concorda com a admissão dos particulares ou comerciantes de Macau, ou de fora, que neste caso, contribuirão com uma pequena taxa, o que é justíssimo uma vez que vão negociar”. Proposta aprovada. Por fim, tratou-se da propaganda da Exposição, para o qual o Presidente pediu a coadjuvação dos Srs Fong-Sôk-Lam e Lu-Lim-Iôc para a divulgar entra a comunidade chinesa, tendo o primeiro lembrado que se deveria enviar anúncios para a imprensa chinesa. Após o debate sobre o envio para os principais centros vizinhos do Interland é proposto que essa propaganda fique limitada aos distritos de Heong-Shang, Sun-Tak e San Hui. Devido ao adiantado da hora, foi marcada a próxima sessão para o dia 31 de Março.

4 Nov 2016

O Pirata Zheng Yi e a Senhora Zheng Yisao

Este artigo surgiu quando ao estudar o pirata Cam-Pau-Sai (nome dado pelos portugueses a Zhang Baozai), à procura dos antecedentes, encontrámos uma outra personagem, Ching Ye. Zheng Yi, em mandarim, era um pretendente a Imperador da China oriundo de uma família de Fujian, ligada logo de início à oposição Ming aos manchus e depois à dinastia Qing. Lutava no mar e em incursões às costas para restaurar a dinastia Ming dos Han e por isso, passou a ser o nosso biografado.

Os acontecimentos referentes ao período de actuação de Ching Ye e depois de Cam-Pau-Sai, onde em permeio ocorreu no ano de 1808 a tentativa de invasão de Macau pelos ingleses e sobre a qual já tratámos, trazem como antecedente a rebelião de Tay-son, aqui aprofundada por Ângela Guimarães: “Em 1773, uma família de comerciantes da província de Binh Dinh, no sul do Vietname, lançou o que ficou conhecido como a rebelião de Tay-son, pretendendo conquistar o poder à dinastia do Imperador Lee, o qual o deixava nas mãos de duas grandes famílias rivais que, desde o século XVI, dominavam o Vietname: os Nguyen no Sul, com capital em Hue e os Trinh no norte, com capital em Hanoi. Numa primeira fase, até à derrota dos Nguyen, em 1785, o Tay-son concentrou a sua atenção no sul. Logo a seguir, em fins desse mesmo ano, conseguiu expulsar os Trinh de Hanoi e instalar-se aí em 1786. O Imperador Lee pediu ajuda ao Império do Meio, de quem era tributário. Três exércitos chineses invadiram o Vietname para restaurar a dinastia Lee, mas, perante a vitória do Tay-son, o Imperador Chienlong (Qianlong) reconheceu e legitimou o Imperador Tay-son Quang Trung, como rei do Annam”. A luta do Tay-son continuou contra os Nguyen do Sul e apesar da vitória em 1789, o que levou os Nguyen, instalados agora em Saigon, a prosseguirem a luta e recuperando aos poucos o território, por fim expulsado do poder em 1802 o Tay-son.

Já em 1796, o Imperador Jiaqing (1796-1820) tinha determinado “pesadas penas para os que se dedicassem à pirataria, ao mesmo tempo que instou os Tay-Son a eliminarem os principais quartéis generais dos piratas”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues e com ele continuando, “Após 1799 as autoridades chinesas adoptaram uma política de perdão e pacificação com o intuito de proceder à anulação daquelas forças através da sua inserção na sociedade chinesa, mas, com o acentuar do declínio político-militar dos Tay-Son no Vietname nos primeiros anos do século XIX, tudo se tornou mais difícil. Com efeito, a derrota dos seus exércitos em Julho de 1802, a que se seguiu a captura de Zheng Qi, um dos principais chefes dos piratas e a destruição da sua base em Jiang Ping, provocou um recrudescimento das actividades dos piratas nas costas da província de Guangdong, em virtude de para aí se haverem retirado muitos dos piratas que perdido o apoio vietnamita, buscavam agora um local mais propício às suas actividades predadoras”.

O pirata Zheng Yi

Assim, no último decénio do século XVIII, as costas da província de Guangdong começaram de novo a ser palco das acções dos piratas, que reuniam os Toy-Son, aí actuando para a sustentação dos seus exércitos a combater no Vietname, com bandidos locais e de Taiwan.

“Uma confederação entre os salteadores consolidou a sua força e tornou-os realmente poderosos”, segundo Montalto de Jesus. “Porque os piratas se tivessem organizado numa confederação, em Julho de 1805, as suas actividades adquiriram, a partir dessa data, uma nova feição, mais organizada e sobretudo planificada em função dos interesses dos membros dessa nova entidade político-militar. Com a regularização das diversas bandeiras que haviam subsistido – das 12 iniciais persistiam agora apenas 6 e com a proibição de combates entre si, a que adicionaram o estabelecimento de regras relativas à repartição das presas, os piratas assumiam-se agora como a verdadeira força militar-naval a operar nas costas da província de Guangdong”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues, que refere o relato do inglês Glasspole, no The Chinese Repository, quando este esteve cativo junto dos piratas. Glasspole disse que nessa altura “toda a grande armada tinha no comando cinco chefes, independentes entre eles e as suas divisões distinguiam-se pelas suas várias bandeiras. A da bandeira vermelha era a maior e mais forte. Três anos depois foram eles divididos em seis esquadrões, distinguidos pelas bandeiras, vermelhas, amarelas, verdes, azuis, pretas e brancas e se cada uma operava isoladamente, em ocasiões de perigo ou em importantes acções juntavam-se”.

Chefe de uma imensa armada de piratas, que no último quartel do século XVIII infestava o Mar do Sul da China, Ching Ye nos inícios do século XIX vencera com facilidade todos os mandarins que o Vice-Rei de Cantão contra ele enviou. A costa do Sul da China e sobretudo, para maior provocação, a Boca do Tigre, entrada para Cantão no Delta do Rio das Pérolas, encontrava-se infestada de piratas devido à fraca marinha imperial, que estava “mal apetrechada, sem comandantes capazes e composta por militares onde imperava um baixo moral, rever-se-ia, ao longo dos anos, impossibilitada de se opor aos ferozes, disciplinados e adestrados piratas, acumulando com isso derrotas sucessivas”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues, que refere o crescimento contínuo das forças dos piratas, “sob o comando de Zheng Yi, possuíam já duas importantes bases, uma situada na península de Lei Zhou, ao Norte de Ainão, e a segunda, na ilha de Lantau, de onde partiam muitos dos seus ataques às costas vizinhas do burgo macaense”. A. da Silva Rego adita: “A revolta tinha dois fins conjuntos: o roubo e a extinção da própria dinastia manchu. Não ocultava Ching Yi os seus verdadeiros intuitos e, por isso, congregou à sua volta bastantes milhares de indivíduos que espalharam o terror por toda a província.”

“Uma confederação entre os salteadores consolidou a sua força e tornou-os realmente poderosos. O seu chefe, Ching Ye, aspirava a nada menos do que o poder imperial”, Montalto de Jesus.

Com Zheng Yi andava no barco a sua mulher, a senhora Zheng Yisao, que, segundo Beatriz Basto da Silva refere para o ano de 1801, “A Senhora Cheng com 26 anos casou-se com um pirata e por isso deixou de viver num Barco de Flores em Cantão. Deixou a prostituição e tornou-se a pirata Cam-Pao-Sai”, usando o que diz Dian Murray, no livro Woman and Piracy an Alternative Route to Power: “Ao deixar de ser pei-pei chai torna-se a pirata Cam-Pao-Sai”. Consultando outros historiadores, Cam-Pao-Sai não era a Senhora Cheng, mas antes um dos braços direito do chefe dos piratas Ching Ye.

Mas em 1807, Zheng Yi morreu afogado após o naufrágio do seu barco durante um tufão.

A Senhora Zheng Yisao

Após a morte do chefe carismático Zheng Yi, a liderança foi assumida pela viúva Zheng Yisao. E continuando com Montalto de Jesus: “A sua viúva, uma mulher extraordinária, assumiu então a chefia, organizou a frota, estabeleceu leis para a manutenção da disciplina, e escolheu para segundo comandante o notório Cam Pao Sai, também conhecido por Chang Pao”. José Ignácio de Andrade refere, “Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas também da sua audácia no exercício da piratagem. Assim que tomou posse do comando de tão grande poderio, dividiu-o em duas esquadras, e deu o comando delas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira (arvorando uma bandeira vermelha) e mais possante coube ao célebre Apócha, que depois se chamou Cam-pai-sai e onde sempre residiu a viúva. Apau-tai (cujo nome Montalto diz ser Kwo Po Tai) foi comandar a segunda, composta de 130 embarcações e com bandeira preta.”

E seguindo com Montalto, “Os juncos, especialmente adaptados para fins predatórios e bélicos, eram geralmente estanques, e mais velozes do que os juncos vulgares. Eram de um tipo fino e elegante, a maior parte deles entre setenta e cento e cinquenta toneladas. O maior transportava vinte ou vinte e cinco canhões, com cerca de duzentos homens armados de mosquetões, espadas curtas, vasos de barro cheios de combustível fedorento, e lanças que arremessavam como dardos. A cada junco estava acoplado um barco a remos com seis ou oito canhões giratórios, que habitualmente infestava as aldeias costeiras à noite para cobrar as contribuições. A confederação recebia tributos periódicos e em troca dava salvos-condutos que eram escrupulosamente respeitados, dizendo-se que uma vez a rainha-pirata indemnizou generosamente um barco que fora pirateado apesar de ter salvo-conduto, um caso notável de honra entre ladrões. Os chefes visitavam com as suas esquadras importantes portos, que, se não aceitassem as suas imposições arbitrárias, eram imediatamente pilhados e destruídos.”

Pirataria na Boca do Tigre

Cam-Pau-Sai era o nome dado pelos portugueses a Zhang Baozai. “Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e empreendedor, depois de ter ganhado o afecto dos seus, teve arte de dispô-los a executar qualquer empresa que imaginasse. Com efeito concebeu um projecto tão elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pretendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar Roxo para aniquilar deste modo os Turcos no Egipto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chineses e lançar a dinastia Tártara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o comércio marítimo nas costas meridionais do Império, mas também fazia desembarques no continente, e arrasava todos os lugares por onde passava”, como refere José Ignácio de Andrade.

Segundo Montalto de Jesus, na “primeira batalha contra Cam Pao Sai resultou na capitulação de uma divisão imperial de vinte e oito juncos, quinhentos canhões e oito mil homens. Os dois encontros seguintes também trouxeram desastres às forças imperiais. Uma vez, contudo, as cem embarcações do almirante Tseng puseram em fuga os piratas. Mas a sua fama cedo se perdeu. Cercado à frente e à retaguarda, foi derrotado. Depois de outro combate de duvidoso resultado, um novo almirante assumiu o comando, apenas para ser totalmente derrotado, pelo que, desesperado, se suicidou. O governo chinês procurou, então, derrotar os piratas cortando-lhes as provisões. Com este fim, a navegação nacional foi interrompida ao longo da costa infestada. Como represália os piratas perpetraram uma série de atrocidades. As forças imperiais, quando capturadas, eram estripadas vivas, uma prática que inspirava tal terror que, à simples vista dos piratas, a frota imperial fugia presa de pânico”, Montalto de Jesus.

“Sendo a cidade de Cantão a mais rica e a mais comerciante, quis embaraçar ali o negócio com os europeus. Para esse fim veio postar suas forças na embocadura do rio Tigre e em todos os canais que formam as ilhas vizinhas de Macao”, José Ignácio de Andrade e Montalto de Jesus explicita, “Só no canal de Heangshan, diz-se, caíram vítimas mais de quinze mil pessoas. Não contentes com pilhar as embarcações chinesas, os piratas atacavam também os barcos estrangeiros, atrevendo-se às vezes a ficar ao alcance das fortalezas de Macau enquanto tentavam interceptar barcos com provisões para a colónia”.

“Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da Cantão com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos Chineses, também se atreveu a insultar os navios da Europa. Vendo o Governo de Macao o risco em que ficava, rodeado de imensa força inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes; mandou a Bengala fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios dentro do porto, que os fossem acometer, chegavam quasi ao alcance da artilharia das nossas fortalezas, para embaraçarem os mantimentos, que todos os dias entram na Cidade”, segundo José Ignácio de Andrade, na Memória dos feitos macaenses contra os piratas da China.

28 Out 2016

Agitação no Oceano Pacífico

O Príncipe de Yu, cujo nome era Aisin-gioro Duoduo, famoso general manchu que ajudou à fundação da dinastia Qing em 1644, seguiu com o seu exército para Nanjing onde entrou no Verão de 1645, terminando com o primeiro regime da dinastia Ming do Sul, que teve um ano de existência. “Dois meses após a queda de Nanjing, dois outros regimes Ming do Sul emergiram, em Fujian e Zhejiang, respectivamente. Huang Daozhou e Zheng Zhilong suportavam o Príncipe de Tang (Zhu Yujian) como imperador em Fujian, e Qian Suyue e Zhang Huangyan suportavam o Príncipe de Lu (Zhu Yihai) como ‘Nacional Supervisor’ em Shaoxing, Zhejiang. Zheng Zhilong (que na semana anterior esteve em destaque) era quem tinha o real poder no regime do Príncipe de Tang, mas apenas sabia explorar as pessoas e nada mais; consequentemente não havia grande esperança. No Verão de 1646, o exército Qing atacava Fujian e Zheng Zhilong rendeu-se”, Bai Shouyi.

Após a conquista pelos manchus de Fuzhou (Fujian) em Outubro de 1646 e executado o Imperador Long Wu (Zhu Yujian, príncipe de Tang), o seu irmão mais novo, Zhu Yuyue escapando de barco chegou a Guangzhou onde fundou um estado Ming, tendo em 11 de Dezembro de 1646 ficado com o título de reinado Shao Wu. Mas Youlang também se entronizara imperador, guerreando-se ambos pelo trono, e após pouco mais de um mês, Li Chengdong, um ex-comandante da dinastia Ming do Sul que liderava um pequeno grupo de tropas Qing, aí capturou e matou Shao Wu. Sobrava Zhu Youlang, que desde 18 de Novembro de 1646 ostentava o título de Imperador Yong Li e foi para Zhaoqing (Guangdong) devido ao suporte que recebeu de Qu Shisi, Oficial Ming de alta patente que tinha a cargo a defesa de Guangdong e Guangxi. Os manchus ocuparam Cantão em Janeiro de 1647, onde se encontrava Yong Li, que fugiu para Guilin, seguindo os manchus no seu encalço. Aí, entre Março e Julho esteve cercado mas, com a ajuda de trezentos portugueses de um contingente comandado por Nicolau Ferreira, após cinco meses, os manchus retiraram-se. A desistência dos manchus de cercar Guillin, animou a revolta e sete províncias no Sul da China puseram-se à ordem de Yong Li.

O Príncipe de Yongming (Zhu Youlang), como Imperador Yong Li (1646-1662), conseguiu aguentar o regime por um período de quinze anos, devido à cooperação que lhe foi prestada pelo exército armado de camponeses e o heroísmo de alguns dos seus generais. Andando sempre em fuga, Yong Li foi capturado já na Birmânia (hoje Myanmar) em Dezembro de 1661 e morreu a 1 de Junho de 1662, sendo o quarto e último Imperador da dinastia Ming do Sul.

Tirar da costa a população

A dinastia Qing entregou um cargo da governação de Guangzhou (Cantão) a Li Chengdong, mas este, desiludido com os novos senhores da China, apoiou Yong Li colocando de novo a cidade sobre o domínio Ming. Então, os manchus aí montarem durante dez meses um cerco, que terminou em 24 de Novembro de 1650, provocando 70 mil mortos. Foi a grande machadada na resistência Ming, que na parte Oriental da China ficou confinada ao mar. Aí, o General Comandante da Armada, Zheng Chenggong, é derrotado em 1659, no estuário do Rio Yangtzé. Após esta batalha, o pirata cujos europeus chamavam Coxinga voltou a Fujian e daí partiu à frente de 25 mil pessoas para Taiwan, onde tomaram a ilha aos holandeses e para onde muitos habitantes de Fujian foram viver.

“O cerco a Nanquim, em 1659, e as vitórias no mar de Cheng Cheng Lung e de seu filho, Coxinga (Cheng Cheng Kung) amedrontaram os manchus e, analisando as possíveis causas da força rebelde, designadamente as dos meios económicos em que apoiavam o seu poderio, concluíram que eles provinham do comércio marítimo que havia muitos anos conduziam livremente entre o Japão, o Ainão (Hainan) e a costa chinesa. E também dos saques dos navios que comerciavam entre os portos da China e do estrangeiro, dos quais as armadas de Coxinga se apoderavam. Esta conclusão levou ao decreto imperial publicado na 8.ª lua de 1661 que ordenou a retirada de todas as populações de cinco províncias marítimas (entre elas a de Kwangtung, Guangdong em mandarim) para um mínimo de 30 lis da costa (cerca de quatro léguas). Criava assim a terra queimada que evitaria contactos com Coxinga, esgotando as suas possibilidades de negociar com chineses e de aliciar seguidores dos Ming. A pena para os que desobedecessem era a morte”, segundo refere Gonçalo Mesquitela.

Em 1661, a resistência dos han Ming aos manchus quebrou e os novos governantes não tinham grandes relações com o mar. Segundo Victor F. S. Sit, “Na dinastia Qing (1644-1911), a política de interdição das actividades marítimas levou à evacuação forçada das regiões costeiras. Ao longo de grande parte do período em que essa dinastia imperou, o comércio marítimo só foi permitido numa única área, a de Macau – Cantão, embora outros três portos tivessem permanecido abertos durante algum tempo. Desse modo, a enorme rede de tráfego marítimo entre a China e o ultramar, ficou praticamente extinta entre meados do séc. XVI e meados do séc. XIX. O que sobrevivia não passava de algumas actividades de comércio ilegal. Foi exactamente nessas circunstâncias que Macau emergiu como praticamente o único entreposto comercial legal entre a China e os países estrangeiros, através de Cantão”.

Renascimento de Macau

Em 17 de Abril de 1708 saiu de Macau, com destino a Manila, uma chalupa de Luís de Abreu conduzindo alguns padres dominicanos expulsos das missões da China pelo cardeal De Tournon. Ao passar na ilha dos Ladrões foi a embarcação assaltada pelos chineses, tendo acudido várias lorchas da cidade que aprisionaram os piratas.

Na dinastia Qing, em 1718 o Imperador Kang Xi (1662-1722) proibiu severamente todos os seus vassalos de usar a navegação marítima, de sorte que por força daquele Decreto se arruinou inteiramente o comércio da Holanda naquele Império; porque, como lhes não era permitido entrar nos seus portos, mandavam todos os anos a Cantão muitas Somas; que eram embarcações de comércio conduzidas pelos chineses moradores em Batávia; e como estes eram vassalos do Imperador não podiam, sob pena de morte, entrar no seu Império, se reduziu a célebre e riquíssima Companhia da Holanda a não ter géneros da China, senão pelas embarcações portuguesas de Macau. Como consequência deste édito do Imperador, o número de navios registados ou equipados em Macau aumentou de nove para vinte e três em um só ano. Esta proibição de navegação, ou antes a sua limitação a Macau, só durou até 1723. Informações de José Ignácio de Andrade. O governo chinês pensou em estabelecer um monopólio do comércio marítimo do império com o estrangeiro em Macau, enviando para lá residirem os mercadores da Companhia Inglesa que moravam em Cantão. O Senado rejeitou a proposta, segundo parece por instâncias do Bispo e clero que não viram com bons olhos o estabelecimento de tantos hereges na Cidade do Santo Nome de Deus, decisão esta que foi mui asperamente censurada pelo Vice-rei da Índia, Conde da Ericeira.

De desempregados a piratas

“Com efeito, a província de Guangdong assistira na segunda metade do século XVIII a um enorme surto de desenvolvimento populacional que não foi acompanhado por igual expansão dos seus recursos económicos. (…) O aumento do número de deserdados e a sua concentração junto à costa, implicou o surgimento de um vasto núcleo de indivíduos potencialmente predispostos a dedicarem-se a qualquer tipo de actividades marginais, transformando-se, por isso, num grande centro de recrutamento de populações para as esquadras de piratas que cruzavam a região”, segundo Vítor Luís Gaspar Rodrigues, que continua, “Se a estes factores adicionarmos outros, de ordem geográfica (o grande número de ilhas que bordejavam a costa e a presença de numerosos estuários de rios que permitiam um fácil refúgio a piratas e ladrões) e económica (presença de um rico e vultoso comércio operado por navios chineses e europeus, muito facilitado pelas óptimas ligações fluviais; importância de Guangdong, que se havia tornado desde 1756 no único porto do império chinês aberto às trocas comerciais com os ocidentais), teremos uma ideia aproximada das razões que conduziram a uma rápida proliferação do número de piratas nas costas sul do mar da China, com particular incidência em torno de Guangdong e Macau.”

Jorge de Abreu Arrimar refere, “É interessante ver como as relações da China com o Vietname, um país seu tributário, a leva a apoiar o imperador Lee quando este se vê confrontado com a revolta que, a partir de 1773, uma família de comerciantes da província de Binh Dinh inicia, e que ficou conhecida por revolta de Tay-son. Contra esta rebelião o imperador da China enviou ajuda militar ao imperador Lee, o qual, apesar de sérios revezes, acabaria por expulsar definitivamente do território os seguidores de Tay-son, em 1802. Ora, durante as três décadas de guerra entre os seguidores de Tay-son e os do imperador Lee, aqueles foram estabelecendo muitos laços de dependência com os piratas, que desde sempre existiam naquela região, integrando os diversos e dispersos bandos e organizando as suas forças como se fosse um exército.” E Vítor Luís Gaspar Rodrigues adita, “As acções dos piratas nas costas da província de Guangdong só passaram a revestir-se de alguma importância a partir da década de noventa (1791-1792), quando os Toy-Son (…) necessitando de debelar a grave crise económica e financeira que atravessavam, passaram a enviá-los em expedições mais ou menos regulares para o sul da China com o intuito de aí procederem à arrecadação de géneros e dinheiro ao mesmo tempo que recrutavam mais gente (…), estes raides, vitais para a sustentação dos exércitos Tay-Son, tinham lugar, em regra, por volta do quarto mês lunar, regressando ao Vietname, entre o nono e o décimo mês, depois de atingirem, nalguns casos, as províncias de Fujian e de Zhejiang onde, a exemplo do que sucedia por vezes em Guangdong, se coligavam com bandidos locais”.

Aprontar embarcações

Com grande afluência de bandidos da Cochinchina e da Formosa (como os portugueses chamavam a Taiwan), então em rebelião, sendo muitos provenientes da participação na revolta de Tay-son, os piratas ameaçavam a costa da província de Guangdong. Por isso, “Já em 1792, o mandarim de Heangshan desejou que Macau equipasse dois barcos para proteger os acessos marítimos a Cantão. A proposta foi feita em nome do bem-estar público; mas tais considerações passaram para último plano quando, em troca, Macau estipulou a restituição dos seus antigos privilégios, cuja usurpação os mandarins evidentemente preferiam ao bem-estar de uma grande população marítima sob a sua legítima jurisdição e ineficiente protecção. As negociações fracassaram face à exigência portuguesa…”, Montalto de Jesus.

“Não obstante todas estas reservas colocadas por alguns elementos presentes (do Senado), assentaram, a 16 de Fevereiro de 1792, que se aprontassem as embarcações, para o que procederam à compra da chalupa inglesa <Gustavus> por 13 mil patacas. No entanto, poucos meses depois, e quando só faltava aprestar a tripulação <declarou o mandarim que não era preciso o socorro, ficando a despesa feita e a cidade sem privilégios>”, como refere Vítor Gaspar Rodrigues, e com ele continuando, “o Senado que, em conjunto, e contra o parecer do Governador, passou a defender a manutenção de uma política não intervencionista” e convencidos das vantagens que lhes adivinham de uma presença forte de piratas nas imediações, pelos problemas que causavam à navegação chinesa, viriam a opor-se ao Governador quando este, em Dezembro de 1792, insistiu para que se armassem duas embarcações por conta da Fazenda Real para fazer uma acção de guerra”. Perante a recusa do Senado, foi o Gustavus vendido em Dezembro.

“Seis meses mais tarde, em 8 de Julho de 1793, porque as embarcações dos piratas ameaçassem já, de alguma forma, o comércio de Macau, esses mesmos cidadãos mostraram-se prontos a colaborar com os seus barcos para uma expedição proposta pelo Governador da cidade, composta por três navios destinados a andar de guarda-costa até meados de Setembro”, Vítor Luís Gaspar Rodrigues no livro Estudos de História do Relacionamento Luso-Chinês – Séculos XVI-XIX, com organização e coordenação de António Vasconcelos de Saldanha e Jorge Manuel dos Santos Alves, Colecção Memórias do Oriente, 1995, IPOR.

23 Out 2016

Piratas para restaurar a brilhante dinastia

“No século XVII a dimensão geográfica dá lugar à dimensão demográfica e com o declínio dos antigos colonizadores, outros aparecem: ingleses, holandeses e franceses. O fascínio tinha acabado e estava-se no tempo do distanciamento objectivo, devido ao avanço científico da Europa. É na crença egocêntrica de possuir uma civilização universal e com o dever de elevar todos os povos a esse estádio ‘superior’, que começa a corrida para a constituição dos impérios coloniais, com as vantagens materiais e políticas que daí decorriam”
Tien-Tse Chang, O Comércio Sino-Português entre 1514 e 1644

Os últimos imperadores Ming tão ocupados estavam com a sua imortalidade e em luxos que nem tinham tempo para os assuntos de Estado. A decadência imperou. Vivendo a população na miséria, era ainda obrigada a pagar altas rendas e taxas, o que levou, em 1627, os camponeses a revoltarem-se e a pegarem em armas para se protegerem a norte de Shaanxi, estendendo-se para Shanxi e Henan.
Em 1635, os chefes de grupos armados de camponeses reuniram-se em Xingyang, província de Henan, para planearem uma estratégia. Li Zicheng, um dos líderes, com o seu exército ocupou, em 1644, Xian e toda a província de Shaanxi, tendo aí formado o Estado de Dashun. Partiu depois para Leste e passando por Shanxi e Hebei, chegou a Beijing, levando o último imperador da dinastia Ming, Chongzhen (1628-44) a refugiar-se no Monte Wansui (Colina da Longa Vida) a Norte do Palácio Imperial. Aí ficou 43 dias, mas todos os esforços falharam e sem uma solução para a complicada situação, o imperador enforcou-se.
A China ficava sem governo imperial por alguns meses, período conhecido pelo Interregno Shun. As tropas Ming combatiam os revoltosos camponeses em muitas partes da China e uma pequena corte Ming mudou-se para Nanjing, agora com o nome de Yingtian.

O pirata Nicolau

Zheng Zhilong (1604-61), natural de Fujian, nasceu a 16 de Abril de 1604 em Nanan, Quanzhou, e tinha passado algum tempo enquanto jovem em Macau, onde chegou com 18 anos, sendo convertido e baptizado com o nome cristão de Nicolau. Ao reconhecer o bom dinheiro que se fazia no comércio juntou-se a um grupo de piratas, que atacavam sobretudo holandeses sedeados em Taiwan e mercadores chineses, fazendo ainda comércio com o Japão.
Diz o Padre Manuel Teixeira, “O pirata maroto, era este o nome que os portugueses davam a Iquan”, ou Cheng Chi-lung, que depois de regressar “à sua terra, partia para o Japão, onde se colocou ao serviço dum rico comerciante chinês, Li Han, juntando-se ali com a japonesa Tagawa.” E foi dessa relação que no Japão nasceram, em 1624, o seu filho Zheng Sen e uma filha, Úrsula de Vargas.
Em 1624, os holandeses tomaram o sul de Taiwan e Zheng Zhilong, a trabalhar para Li Dan no Japão, sabendo português, foi aí colocado pelo seu chefe como tradutor na Companhia Holandesa das Índias Orientais. Li Dan, comerciante no Japão, China e Taiwan, tratava Iquan como um filho e casou-o com a filha adoptiva. Tendo Iquan mudado os seus negócios para Taiwan, passou a trabalhar para outro pirata, Yan Siqi, altura em que a VOC começou a colocar fora da ilha todos os que lhe faziam frente. Os holandeses ainda usaram Iquan para lutar contra os espanhóis em Manila, mas este abandonou o seu trabalho de intérprete, em 1625, após a morte do seu novo chefe.
Tomando o comando, formou o grupo Shi Ba Zhi, que em Agosto desse mesmo ano, devido à morte de Li Dan, herdou os navios deste e a sua riqueza, engrossando assim o grupo, que se tornou independente. Iquan, como os holandeses lhe chamavam, passou então a só reconhecer como seu nome Zheng Zhilong e usou Taiwan, entre 1626 e 1628, como base para atacar as costas de Guangdong e Fujian, colocando aí grandes problemas à dinastia Ming. Apenas roubava e raptava governantes e ricos negociantes, mas tratava bem o resto da população, ajudando mesmo os mais carenciados, o que levou as pessoas a acreditarem mais nele do que no governo Ming.
“Em breve, comandava 400 juncos que, em fins de 1627, se elevaram a mais de 1000. Apoderou-se de Amoy, e dali dominava toda a costa entre os rios Yangtzé e o das Pérolas. O Imperador, vendo não o poder vencer, nomeou-o em 1628 comandante da frota imperial, com o grau de mandarim, na condição de limpar os mares de outros piratas, o que ele aceitou, estabelecendo em Amoy o seu quartel general”, segundo o Padre Manuel Teixeira, que prossegue: “Iquan tinha 300 negros ao seu serviço, sendo todos cristãos e escravos fugidos de Macau”.
Este historiador refere ainda uma questão conflituosa surgida entre Zheng Zhilong e os portugueses. Após a expulsão dos cristãos do Japão e tendo a sua filha aí nascida sido baptizada na fé cristã, com eles fugiu para Macau. Ao saber de tal, Zheng Zhilong enviou recado aos portugueses para que lha mandassem, visto ser sua filha, mas estes não atenderam às pretensões. E nem mesmo as terríveis ameaças lançadas sobre cercar Macau com a sua esquadra, demoveram os portugueses da decisão de não a entregar.
“A 1 de Maio de 1639, leu-se no Senado uma carta dos negociantes portugueses que se achavam em Cantão, contando o que “havia sucedido à nossa gente com os chineses da armada de Icoão, que no dito Cantão estão e do mais que tinha sucedido e do estado e aperto em que os ditos portugueses estão, assim do risco de suas pessoas, como dos cabedais dos moradores…” Por isso, o Senado elegeu dez indivíduos dos mais velhos e experimentados cidadãos desta cidade para tratar do assunto com os oficiais da Câmara, referentes à feira de Cantão. “Boxer nota que essa filha devia ser uma que casara em Macau com um português (ou macaísta), chamado António Rodrigues, filho dum cidadão chamado Manuel Belo”, e em nota o Padre Manuel Teixeira refere, após o casamento cristão em Macau de Úrsula de Vargas, filha de Nicolau I-Kuan, com António Rodrigues, foram estes viver em 1642 com o mandarim Iquan em Ankai. “Levados por esta palavra e obrigados pela grande discórdia (de lembrar ser 1642 o ano da Restauração em Macau) que havia naquela cidade de Macau entre todos e a grande fome que sobreveio, embarcaram para esta cidade de Anay, onde vivem”.

Sem soldo para comer

Macau já desde 1630 prestava ajuda à dinastia Ming, que lhe tinha aberto as portas do País do Meio, enviando um destacamento de 400 militares, assim como canhões para a ajudar a combater os manchus na Grande Muralha. Encontravam-se em Guangxi quando foram interrompidos na sua marcha, devido às intrigas dos comerciantes de Cantão junto aos mandarins provinciais. Em 1644, após a conquista de Beijing pelos manchus, as forças leais à dinastia Ming que lhes faziam resistência, voltam a pedir ajuda aos portugueses.
A China encontrava-se em guerra contra os tártaros e, aproveitando-se disso, proliferavam nos seus mares os piratas onde faziam grandes e ricas presas. Macau, sentindo-se ameaçada, levou o Senado, em sessão de 8 de Julho de 1646, a mandar equipar embarcações ligeiras, os chós, para protegerem dos ladrões os barcos de comércio da cidade. Assim partiram em perseguição dos piratas, levando-os a apressado retiro.
No entanto, ainda nesse ano em Outubro, “os soldados, com soldo em atraso, envolveram-se em desordem com os donos das lojas chinesas. O mandarim de Chinsam mandou fechar as Portas do Cerco, impedindo a vinda das provisões e veio a Macau exigir satisfações: “e para o compor foi preciso não só dar público castigo aos soldados, mas despender com ele prata”. Pouco depois, veio uma chinesa a vender comestíveis a Macau e os soldados roubaram-lhos, usando de violência. Com estas desordens, por falta de pagamentos e penúria da cidade, se pôs alguma artilharia em venda”, segundo o Padre Manuel Teixeira, que refere terem os canhões de Bocarro servido para tudo; “acudir a Goa, a Portugal, à China e às Filipinas e até pagar os soldados esfomeados…”

Fim da dinastia Ming

O general Ming, Wu Sangui, que governava a Passagem de Shanhaiguan, em 1644 acedeu aos manchus passarem pela Grande Muralha, para em conjunto com as tropas Ming combaterem os revoltosos camponeses.
As tropas manchus encontraram a China sem dinastia no Trono do Dragão há já alguns meses e assim, em 1644, ocuparam Beijing para onde mudaram a sua capital, até então em Shenyang. Daí Li Zicheng teve que partir e seguindo para Oeste até Shanxi, foi perseguido pelas unidas tropas manchus e Ming, sendo morto em Hubei com 39 anos de idade.
Foi então que muitos oficiais Ming, a cooperar com os manchus contra os camponeses, se mudaram para o lado destes, passando a combater os invasores manchus. Com a morte do último imperador da dinastia Ming em Beijing no ano de 1644, a pequena corte Ming estabeleceu-se em Nanjing e aí formou a dinastia Ming do Sul (1644-1662). Zhu Yousong, príncipe de Fu, tornou-se o Imperador Hong Guang (1644-1645) e libertou da prisão Zhu Yujian, condenado desde 1636, quando lhe fora retirado o título de príncipe de Tang.
Durou um ano essa pequena corte Ming desunida e corrupta, sendo em Junho de 1645 derrotada em Yingtian (Nanjing) pelas forças Qing e a corte dos Ming do Sul voltou a fugir, agora para Hangzhou. Aí se dividiu, parte vai para Shaoxing (Zhejiang) e outra, refugia-se em Fuzhou (Fujian), onde subiu ao trono da dinastia Ming do Sul o Imperador Long Wu (Agosto 1645 – Outubro 1646) e cujo nome era Zhu Yujian, príncipe de Tang. Pertencia à oitava geração descendente do terceiro filho do primeiro imperador da dinastia Ming e tinha a esperança de conseguir derrotar os manchus, que já tinham formado a dinastia Qing.
Zheng Zhilong era o mais poderoso aliado do Imperador Long Wu com quem tinha uma grande amizade, pois ajudara-o a chegar a imperador. Mas, em 1646, com as vitórias do exército Qing no centro da China e em Fujian, a 6 de Outubro, o Imperador Long Wu foi capturado e executado. Os manchus compraram com um cargo Zheng Zhilong e este, percebendo a definitiva derrota da dinastia Ming, aceitou. Foi levado para Beijing com a família, onde o mantiveram, procurando atrair o filho, Zheng Chenggong, que recusou abandonar os Ming e governou as costas de Fujian desde 1646.
Nos finais de 1650 era apenas ele no mar que lutava para restabelecer a dinastia. Derrotado em 1659, no estuário do rio Yangtzé, com essa batalha dá-se o fim do foco de resistência dos chineses han, pertencentes à dinastia Ming e voltando a Fujian, daí parte à frente de 25 mil pessoas para Taiwan onde, após um cerco de nove meses, tomou em Abril de 1661 a ilha aos holandeses. Em 1662, Zheng Chenggong morreu de doença aos 38 anos, mas Taiwan continuou independente com o seu filho Zheng Jin e só foi conquistada ao neto em 1683, passando para o domínio dos Qing.
Pouco nos estendemos sobre a personagem do pirata Zheng Chenggong, ou Coxinga, como é conhecido pelos europeus, pois a sua história já foi apresentada no HM, encontrando-se escondida também na divindade Zhu Da Xian. Quanto ao seu pai, Zheng Zhilong foi colocado na prisão em 1655 e morto em 24 de Novembro de 1661.
Em 1669, a VOC, cujo objectivo fora atacar os pontos-chaves do império espanhol e português, era a mais rica companhia privada do mundo com mais de 150 navios mercantes, 40 de guerra, 50 mil funcionários e um exército de 10 mil soldados.

7 Out 2016

Início da dinastia Ming e os Holandeses

“No século XIV, o vasto império chinês encontrava-se convulsionado por inúmeras revoltas, motivadas pela dissoluta existência que levava devasso Sân-Tái (Shun Di, 1333-1368), último imperador mongol da dinastia Un (Yuan)”, segundo Luís Gonzaga Gomes.
A dinastia mongol governava a China e discriminava o povo Han a tal ponto que este, já na miséria, se revoltou. Essa revolta iniciou-se no dia 15 do oitavo mês lunar de 1355, com uma mensagem no interior dos bolos lunares tradicionalmente trocados entre as pessoas a incentivar os han a pegarem em armas contra os invasores nómadas mongóis. A história da revolta dos camponeses contra a opressão dos imperadores mongóis da dinastia Yuan chegou-nos aos ouvidos em Bozhou, na província de Anhui.
Os mongóis encontravam-se com problemas desde 1328, devido a não terem regras para a sucessão dos khan (em português can ou cão), estando a corte Yuan em lutas internas. Mobilizando a população descontente, em 1351, Liu Futong conseguiu ocupar o Sul da província de Henan e o Norte de Anhui com um grande grupo de rebeldes, que usavam bandeiras vermelhas e turbantes da mesma cor. Em 1352, Zhu Yuanzhang (1328-1398) alistou-se nesse movimento, conhecido pelos Turbantes Vermelhos, que foi vencendo os exércitos do Imperador Shun, tendo em 1355 criado um governo em Bozhou.
Liu Futong (1321-1363) proclamou a nova dinastia Song em Bozhou e coroou o filho de Han Shantong (seu primeiro companheiro de luta que tinha sido capturado e morto), Han Liner como Pequeno Rei da Luz. O movimento, que contou com a ajuda da sociedade secreta daoísta do Lótus Branco, aumentou e alastrou-se tendo, depois de muitas peripécias, conquistado todo o Norte da China.

Mensagem dentro do Bolo Lunar

Zhu Yuanzhang, nascido em 1328 de uma família Han de camponeses, teve como primeiro nome Chongba. Ficou órfão ainda jovem, devido à peste que lhe levou toda a família e para sua sobrevivência, entrou no templo de Huangjue, onde se tornou monge budista. Como eram muitos a recorrer a esse estratagema, havendo pouco alimento no templo, teve que o abandonar. Vagueou alguns anos e, em 1352, juntou-se à revolta contra a dinastia Yuan, entrando no grupo chefiado por Guo Zixing. Este, vendo as qualidades e bravura de Zhu Yuanzhang, casou-o com a sua filha adoptiva, Ma. Combatiam a Norte do Rio Yangzté e após ocuparem Hezhou (Hexian, em Anhui) em 1355, Guo Zixing morreu. Como Zhu não quis ficar sobre as ordens de outros chefes, criou um grupo de guerreiros e foi combater os mongóis para Sudeste. É dessa altura a História do Bolo Lunar, que conta ter Zhu Yuanzhang um plano para atacar a dinastia Yuan e com a finalidade de informar todos os que com ele estavam nessa luta, já que os espiões mongóis se encontravam por todo o lado, escreveu alguns papéis com a mensagem dos pormenores do plano. Escondendo-as dentro dos bolos lunares, depois enviou-os aos seus homens.
Ao mesmo tempo que espalhava pela cidade servir o bolo para prevenir desgraças, passou a palavra para que quem apoiasse o movimento, dependurasse lanternas às portas de suas casas. Tudo isso ocorreu sem que os mongóis desconfiassem já que não sabiam ler chinês e a festividade era muito antiga. Quando os chineses comeram os bolos e leram as mensagens, mobilizaram-se e derrotaram os mongóis em Yingtian (Nanjing), conquistando-a em 1356 e toda a área circundante, onde fizeram a sua base. Nos doze anos seguintes prosseguiu-se a luta contra a dinastia Yuan pelo resto da China.
Bozhou caiu nas mãos dos mongóis em 1359 e Han Liner acompanhado por Lui Futong fugiram para Anfeng. Entretanto as divergências entre os chefes dos revoltosos levaram a que muitos deles procurassem, ao longo do Changjiang, criar reinos independentes.
Após a morte em combate de Lui Futong em 1363, Zhu Yuanzhang foi ajudar Han Liner e colocou-o em Chuizhou, ainda como Rei Song. Já em 1366, Zhu convidou o Rei Song para se estabelecer em Yingtian (nome que pouco depois passou para Nanjing), mas na travessia do Changjiang (Rio Yangtzé), aconteceu o naufrágio do barco que o transportava e assim morreu Han Liner. Logo Zhu Yuanzhang, mandou construir muralhas em torno da cidade, só terminada em 1386, altura em que as fronteiras dos Han deixaram de ser ameaçadas pelos mongóis.

Fundação da dinastia Ming

Em 1368, Zhu Yuanzhang ascendeu ao trono em Yingtian, mudando-lhe o nome para Nanjing, onde fez a sua capital e fundou a dinastia Ming (1368-1644), tornando-se imperador com o nome de Hong Wu (1368-1398). De salientar que Ming significa brilhante e este imperador, após a morte, ficou com o nome de Tai Zu.
“Desde a fundação da Dinastia Ming (1268-1644), que a grande preocupação era a defesa contra qualquer tentativa restauradora da dinastia derrubada, a Yuan. Por esta razão, toda a defesa militar chinesa se concentrou no Norte, nas fronteiras com os Mongóis”, segundo referem Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.
“A partir de finais do século XIV, nota-se uma evolução nestas actividades piratas, que parecem estar agora sobretudo ligadas às lutas que opunham o fundador dos Ming aos seus rivais. Alguns dos adversários de Hongwu, refugiados nas ilhas nipónicas, associam-se aí a piratas japoneses. Entre eles encontravam-se, talvez, antigos partidários de Fang Guozhen (1319-1374), personagem misteriosa que tanto combateu os ocupantes mongóis como os movimentos de resistência e que incluíra nas suas tropas contrabandistas e piratas das costas do Zhejiang”, segundo Jacques Grenet. Já Gonzaga Gomes refere: “De entre os inúmeros cabecilhas de rebeliões, celebrizou-se um famigerado pirata de nome Fóng-Kuók-Tchân (Fang Guozhen) que, conforme o valor das peitas que lhe eram oferecidas, ora se submetia a um chefe mais poderoso ora tomava o partido de outro, quando não agia por sua própria conta, sendo campo principal das suas terríveis proezas as riquíssimas regiões da costa meridional da China”. E Jacques Grenet refere: “A ameaça faz-se sentir portanto desde o início da dinastia (Ming) e é dessa época que datam as primeiras medidas de defesa: formação de uma esquadra, unificação do comando naval, fortificação das costas do Shandong, do Jiangsu e do Zhejiang. Graças a estas disposições, à actividade diplomática dos Ming no Japão e ao seu domínio dos mares, os ataques dos piratas parecem ter-se reduzido ao longo das últimas décadas do século XV”.
Já no século seguinte, Qi Jiguang (1528-1587) foi um estratega ao serviço da dinastia Ming com serviços reconhecidos contra a pirataria japonesa nas regiões costeiras de Zhejiang e Fujian.

Ingleses no Pacífico

Segundo o Padre Manuel Teixeira, que foi buscar a informação a K.R. Andrew, diz que “em Maio de 1585 foram capturados vários navios ingleses nos portos espanhóis e confiscada a carga. Ergueu-se na Inglaterra um clamor dos comerciantes pedindo reparação. A 7 de Julho, o Governo instruiu o Almirantado para examinar estas relações e passou cartas de represália aos que provassem ter sofrido perdas. Estas cartas davam licença aos prejudicados para armar navios e capturar os navios espanhóis no mar. No verão de 1585, uma hoste de aventureiros – private men-of-war or mere pirates entre os quais Sir Francis Drake – lançou-se à caça de espanhóis. De 1589 a 1591, mais de 200 navios se empregaram nesta pirataria”. Mas, já desde 1579, circulavam em águas das Molucas e Java a soldo da Rainha Isabel I (1558-1603), os corsários ingleses, Francis Drake e Thomas Cavendish, como refere Beatriz Basto da Silva e prosseguindo pela sua Cronologia, em 1592 “o inglês James Lancaster ataca navios portugueses na carreira de Malaca” e em 1596, “A rainha Isabel I de Inglaterra tenta alcançar negociações com o Imperador da China. Escreve-lhe uma carta que não chega ao destino”.
A última do ramo dos Tudors, Isabel I (1533-1603), filha de Henrique VIII e Ana Bolena, apoiou as revoltas das Províncias Unidas contra a Espanha, que tinham começado lideradas por Guilherme de Orange em 1558. A independência dos Países Baixos foi declarada em 26 de Julho de 1581, mas só reconhecida depois da Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648). De lembrar que a Armada Invencível foi derrotada em 1588, sendo a esquadra confiada a Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz mas, devido ao seu falecimento, substituiu-o o inexperiente em coisas do mar duque de Medina Sidonia, informação de Joseph Walker na Historia de España, onde refere ainda ter Francis Drake saqueado as costas do Chile e Peru, assim como Cádis.

A VOC no Pacífico

Em 1579 é formada a República das Províncias Unidas, criada por um grupo de sete províncias, entre elas os Países Baixos (Holanda e Zelândia), que se tornou independente de Espanha.
O holandês Cornelius Houtman vai a Lisboa em 1592 para recolher informações sobre as viagens marítimas portuguesas à Índia. Em 1594, um grupo de nove mercadores de Amsterdão decide unir-se e formar uma Companhia de Navegação, a Van Verre. Com quatro barcos e 249 tripulantes, no ano seguinte meteram-se no Atlântico para chegar ao Oceano Índico, usando a rota encontrada em 1488 pelos portugueses. Levaram dois anos até regressar, tendo morrido dois terços da tripulação e o apuro feito com a venda dos produtos trazidos deu apenas para pagar o investimento feito. Não fosse o êxito de terem navegado até ao Oceano Índico e a viagem teria sido um fracasso, mas com a rota da Índia aberta, logo foram criadas pelos mercadores holandeses novas companhias que se aventuraram a enviar barcos para a Ásia. “De 1598 a 1603 saíram treze frotas com destino às Índias. Muitas sofreram naufrágios desastrosos. As que conseguiram retornar tiveram lucros que alcançaram até 265%”, segundo Mauro em Expansão Europeia (1600-1870). Foi grande o sucesso e a fortuna imensa.
Os Holandeses estabeleceram-se em 1598 no Oriente e no ano seguinte apareceram na costa de Macau. Já os ingleses, vendo-se a ficar para trás, criaram em 1600 a Companhia Inglesa das Índias Orientais. Passados dois anos apareceu a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC – Vereenigde Oost-Indische Compagnie), Companhia Unida da Índia Oriental que data de 20 de Março de 1602, mas só em 1618 a sede passou para Batávia, como refere B. Basto da Silva. A VOC foi criada após terminada as gestões feitas por Oldenbarneveld e a fusão das diferentes companhias numa única, pois estas “eram concorrentes na compra de produtos na Ásia e na sua venda, na Europa”, segundo refere o brasileiro Mauro. E, terminando com António Manuel Hespanha, no livro Panorama da História Institucional e Jurídica de Macau: “No século XVII o Império holandês vai seguir o mesmo modelo, pela ocupação dos entrepostos anteriormente dominados pelos portugueses. Mas os holandeses criaram formas inovadoras, como as grandes companhias comerciais (Companhia das Índias Orientais, 1602; Companhia das Índias Ocidentais, 1621), concedendo à iniciativa privada um papel que, em Portugal, a Coroa desempenhava preferencialmente por si”.
A Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), com sede em Amesterdão, onde em 1609 é criado o Banco de Amesterdão para apoiar o comércio colonial, criou o conceito actual de acções quando em 1610 dividiu o seu capital em quotas iguais e transferíveis em Bolsa. O seu objectivo era o de excluir os competidores europeus e substituí-los nas rotas comerciais pelos três oceanos.

30 Set 2016

Negociações do Acordo para Macau

Por Carta Régia de 22 de Fevereiro de 1547, D. João III faz mercê a Leonel de Sousa de duas viagens sucessivas para a China. “Compreende-se que, desta forma, o conjunto fosse mais rendoso, dado que os contratos fechados num ano, para cumprimento no seguinte, permitiriam, por certo, condições mais favoráveis. Além disso, não se trata ainda de concessão da viagem, mas de uma nomeação para capitão-mor de viagens da coroa, com as vantagens que lhes eram inerentes, mas sob regimento do governador da Índia”, segundo Gonçalo Mesquitela. Data em que se encontravam ainda os mercadores portugueses pelos portos do litoral de Fujian e de Zhejiang, e segundo Jin Guoping e Zhang Zhengchun, no artigo Liampó reexaminado à luz de Fontes Chinesas, “O porto em questão (Liampó) é um lugarejo perdido no meio do mar, que fica a uns 30 quilómetros do Distrito Dinghai. Embora seja uma terra abandonada, só para desterrados, e com rara presença humana, com duas ilhas frente a frente, direcção leste-oeste, separadas por um canal que corre de norte para sul, a sua situação é de grande importância estratégica. Os montes que se erguem nas ilhas constituem bons abrigos. O espaço que se mede entre as duas ilhas é amplo, à volta de uns 10 quilómetros de largura”. Daqui se percebe a impunidade com que os mercadores portugueses viveram meia dúzia de anos clandestinamente numa povoação que, devido a se encontrar longe dos olhares dos mandarins de província e pelos enormes lucros, cresceu para uma cidade. Segundo estes historiadores, os documentos chineses não apresentam a versão de Fernão Mendes Pinto sobre o massacre de Liampó, chacina não relatada por Fr. Gaspar da Cruz, “que nunca foi aceite por estudiosos sérios. Sabemos que o Governador Zhu Wan caiu em desgraça e se suicidou, envenenando-se por ter mandado executar 96 pessoas em Chinchéu em 1549, sem ter autorização da Corte para tal”.
A mercê que por Carta Régia, D. João III faz a Leonel de Sousa, segundo Mesquitela, “Deve estar longe dos privilégios da futura viagem concedida por alvarás depois de 1550. Acresce que no caso de não haver viagem da coroa programada oficialmente, a mercê permitia a alternativa de ser conferida licença para a viagem, mas à custa do próprio Leonel de Sousa, em nau ou navio próprio, obedecendo também a regimento do governador da Índia”.
Leonel de Sousa (c.1500-c.1572), natural do Algarve e casado em Chaul, como refere o Padre Gaspar da Cruz, era “capitão algarvio com longos anos de serviço no Oriente,” segundo Rui Manuel Loureiro e “foi responsável pela normalização do tráfico luso-chinês, ao estabelecer com os mandarins de Cantão, em 1554, as normas que deveriam de futuro reger esse intercâmbio”.

Recusadas as viagens em nau da coroa

“D. Afonso de Noronha, alegando que D. João III não mandara que a Leonel de Sousa fosse dada nau, pois se o mandasse ele daria, nem sequer ordenou que lhe fosse dado o ‘favor’ para a sua viagem que diz ter sido dado a D. Francisco Mascarenhas e António Pereira. Assim , diz ele mais tarde numa carta”, como refere Gonçalo Mesquitela, que continua, “A mercê real de mera licença não era pois uma garantia de concessão de viagem, como se vê.
Leonel de Sousa, vendo que eram recusadas as viagens em nau da coroa, teria conseguido emprestado um terço do espaço de uma nau de mercadores e nela estaria em Sanchoão naquele ano de 1555”. Luís Gonzaga Gomes corrige essa data e refere que “Leonel de Sousa, Capitão-Mor da Viagem do Japão, capitaneando uma esquadra de 17 navios fundeados na Ilha de Sanchoão, desde fins de 1553, escreveu (em 15 de Janeiro de 1556) ao Infante D. Luís, irmão de D. João III, comunicando-lhe que conseguiu assentar com Vam-pé, Segundo Inspector das Costas, um convénio, pelo qual os portugueses foram autorizados a estabelecerem-se em Macau e a construírem habitações em terra”.
“Nos portos da China, que encontrou ‘todos cerrados’, as armadas impediam ‘fazer fazenda’. Devia no entanto, ter feito uso da mercê real, pois afirma que, perante a situação encontrada e os avisos de que poderia vir a haver ataques da armada imperial, . Note-se que se queixa de que não lhe foi dado mais que a licença e os trabalhos de capitão”, isto é, as credenciais e o regimento que lhe davam os poderes de capitão-mor.
“A iniciativa partira do Aitão de Cantão e as negociações não devem ter sido fáceis, mais por questões formais, e legais, do que pela vontade mútua de se encontrar solução”, segundo Mesquitela, que continua, “Acautelada a segurança dos navios e pessoas portuguesas que com ele iam, e recomendado que não provocassem fosse o que fosse que pudesse ‘alevantar a terra’, receoso, portanto, de que a tolerância nas ilhas tivesse sofrido alteração, iniciou as aproximações com o Aitão para negociações”. (…) “Veio visitar os navios um dos chineses, que estava eleito para Aitão. Devem ter inquirido cuidadosamente dos poderes que trazia para com ele poderem negociar. (…) .”
Satisfeita esta condição,’assentarem que era Capitão de Sua Alteza’, tiveram com Leonel de Souza .
G. Mesquitela refere ser o primeiro ponto difícil das negociações, a proibição imperial de negociar com os Fu Lan Ki, questão resolvida do modo mais inesperado para mentalidades ocidentais. “Assim para fazerem esta paz nos mudaram o nome de Franges que nos dantes chamavam a portugueses de Portugal e de Malaca (…) e passamos então a ser os Fan Ian, ‘os homens do Ocidente’, deixando de ser os Franges, ou Fu Lan Ki, nome que ainda hoje se mantém na proibição do Édito Imperial de 1522.
Ficava o outro ponto: a taxa dos direitos a pagar. O Aitão oferecia a aplicação da mesma taxa que era aplicada aos navios e mercadores do Sião, país tributário, a de 20 por cento. Os de Sião, navegam na China por privilégio d’ El Rei. Leonel de Souza não aceitou mais que 10 por cento. A maior dificuldade estava em que a alteração da taxa só podia ser concedida por Pequim, o que significava só se poder resolver o caso – e o acordo – no ano seguinte, e então, só Deus saberia se seria conseguido. O Aitão rodeou então a questão. O problema seria posto a Pequim para que tivesse decisão definitiva, como aliás veio a ter, aprovando a taxa de 10 por cento, a partir do ano seguinte. E, neste ano, pagariam os 20 por cento, mas apenas sobre metade das mercadorias. Assente a solução, o Aitão pediu a Leonel de Sousa que ‘mandasse fazer bom agasalhado dos mandarins que são como Desembargadores que os vissem fazer (os direitos) aos navios e que não olhasse que eram chineses senão as divisas e Armadas do Estado d’El Rey que traziam’ a fim de não se repetirem as causas que inicialmente tinham levado a perder as boas relações com os portugueses”.

Simão de Almeida

O Capitão-mor Leonel de Sousa e o haidão Wang Bo, (subintendente dos Assuntos de Defesa Costeira) realizaram o assentamento de 1553-1554, um acordo que permitia aos portugueses autorização para terem um lugar temporário, do qual dependia a viagem ao Japão e de onde se conseguia assegurar o comércio pacífico com a China. No Kwang Tung Chi, a História de Guangdong refere que “Ting Yi Chung, juiz do crime, se opusera à presença de navios estrangeiros no Kwang Tung, continua referindo que Wong Pak (Wang Bo) não teve sucesso quando tentou convencê-lo a permitir barcos europeus em águas chinesas. Pouco depois, porém, foi promovido ao posto de Comissário da Administração Civil, o que lhe deu a necessária autonomia para decidir conforme entendesse. E o cronista do Kwang Tung Chi indica claramente que um funcionário de alto grau permitiu aos portugueses que ancorassem em portos chineses”, segundo Mesquitela, que refere a seguir, ”Ainda Wong Pak nos aparece nesse ano de 1554 como nomeado pelo comandante-em-chefe do Kwang Tung, Pau Chan In, juntamente com Wong Pui e Mak Mang Yeung e outros, para capturarem os piratas Ah Pat que, com outros, infestava as águas do Kwang Tung.
Com esse acordo tornou-se possível aos portugueses ir a Cantão e ali legalmente negociar. Valeu-se Leonel de Sousa, como intermediário, de “um Simão de Almeida, homem honrado e cavaleiro”, que na China tem feito muita diligência, com “desejos de servir Sua Alteza. Por algumas obrigações do seu serviço que lhe pus diante foi sempre honradamente e veio à sua custa e até do que gastou. Soube que dera algumas dádivas a pessoas e oficiais do Aitão com quem negociou mais breve do que eu pudera fazer sem isso. Nem eu servira Sua Alteza como o servi se não fora sua ajuda e Conselho, porque eu tinha pouco cabedal para suprir, mais do que supri nem ele o quis de mim e disse sempre que se nisso servia a Sua Alteza, que dela queria o galardão e não doutrem”. Por estas razões, Leonel de Sousa recomenda Simão de Almeida para mercês reais “porque não é de Sua Alteza por exemplo dos que se acharem em partes tão remotas, que folgue de servir Sua Alteza com pessoas e fazendas como ele fez”.
Assim terá sido Simão de Almeida quem preparou Leonel de Sousa, para cuidadosamente observar os costumes chineses e as suas cortesias e .
Nas despedidas, o haidão chamou ainda a atenção a Leonel de Sousa, pois mercadores não negoceiam com as armas na cinta, que eles muito nos estranham e que assim lhes é muito defeso nas Cidades, que ninguém traz senão os que defendem na terra e guarda dos Oficiais”.
Nas feiras de Cantão, realizadas normalmente em Março e em Setembro, os comerciantes portugueses passaram a abastecer-se de seda que, depois de vendidas, tanto no Japão como na Europa, davam lucros astronómicos. A mercantil Companhia da Índia Portuguesa, fundada em 1549 com capitais da Coroa, passou a enviar ao Japão a Nau da Prata, como também era chamada a Nau do Trato (trato significava comércio). Era o capitão-mor dessas viagens, o representante em Macau do Rei e do Vice-Rei ou Governador da Índia Portuguesa, quando nos meses de monção, aí se encontrava à espera para seguir viagem. A monção no Mar de Bengala acontecia em Dezembro/Janeiro e no Pacífico em Junho/Julho, tendo as viagens isso em atenção.
Luís Gonzaga Gomes refere, a 15 de Janeiro de 1556 o “Governador da Índia, D. Francisco Barreto, iniciador do assentamento de paz entre os portugueses e os chineses, numa carta em que pedira que lhe fossem concedidas três viagens do Porto Pequeno de Bengala, em navio de sua Alteza, diz: ”. Mas, segundo refere o próprio Leonel de Sousa, .
Leonel de Sousa foi dos primeiros capitães-mor da povoação de Macau, quando em 1557, por duas vezes, aqui esteve com a nau ancorada, desde Julho de 1557 até chegar a monção em Junho do ano seguinte. Substituiu como capitão-mor Francisco Martins, que em Junho desse ano seguiu para o Japão.

9 Set 2016

Amotinadas tropas em Zhelin

Estabelecidos os portugueses em Macau pelo acordo de 1554, entre o Capitão-mor Leonel de Sousa e o mandarim Wang Bo (subintendente dos Assuntos de Defesa Costeira), como base temporária para comercializarem, passou a permanente estadia em 1557. Levado de Shanghuan para Goa o corpo de S. Francisco Xavier, perdeu a ilha o comercial interesse para Lampacau que, como porto de veniaga, só deixou de o ser para os portugueses em 1561/62.
A rápida ascensão de Macau resultou “tanto da decisão chinesa de transferir o centro do comércio externo de Cantão, como da interdição imposta aos súbditos chineses de se deslocarem ao estrangeiro”, como indica Tien-Tsê Chang em O Comércio Sino-português entre 1514 e 1644, onde mais à frente refere, “Seguindo a tradicional política de permitir aos estrangeiros que viviam em grupo na China que mantivessem as suas estruturas de governo, de acordo com as suas leis e costumes conquanto estes não se mostrassem incompatíveis com a paz e a ordem da China, as autoridades cantonenses (se bem que de início não de um modo explícito) deram autorização para que os portugueses se governassem a si próprios. Sob a influência de alguns membros mais proeminentes da jovem colónia formou-se, em 1560, um governo rudimentar que consistia num Capitão da Terra, num Ouvidor, cujo poder era o mesmo dum Juiz de Paz, e num Bispo”. Assim com Macau, as autoridades chinesas colhiam “os benefícios do comércio externo sem permitir que os estrangeiros se deslocassem a Cantão ou que os chineses saíssem do país. Aqui, mesmo às portas de Cantão, erguia-se uma comunidade de estrangeiros que, de muito bom grado, levava o que a China tinha para oferecer aos outros países e trazia tudo o que ela precisava de fora, em termos que lhe eram satisfatórios”, segundo Tien-Tsê Chang.
Entre 1558 e 1560 Diogo Pereira é “Capitão de terra nomeado pela população, governando com dois homens-bons, sem prejuízo para o Capitão da Viagem ao Japão, que se sobrepõe enquanto permanece em Macau, e sempre na dependência do Vice-Rei da Índia”, segundo Beatriz Basto da Silva, que refere, “No período entre 1560 e 1564, sensivelmente, o poder português em Macau é alvo de uma luta civil entre moradores e mercadores, sendo que a família-empresa, (como lhe chama L. F. Barreto), de Diogo Pereira se encarrega de organizar o sistema de pagamento alfandegário que Guangdong aceita. É a família Pereira que aproveita o assentamento de Leonel de Sousa e o faz evoluir no quadro do triângulo mercantil Ocidente-China-Japão”. E seguindo pela História de Macau de Gonçalo Mesquitela, “…nas instruções que D. Francisco Coutinho, conde de Redondo, leva ao partir para a Índia, como vice-rei, constava a de que tornasse a mandar Diogo Pereira por Embaixador e Capitão da China, com o presente necessário à Embaixada para a qual trazia de Portugal algumas peças de muita estima. Chegado a Goa em Setembro de 1561, verificou que Diogo Pereira estava na China. As instruções eram tão precisas que o conde de Redondo, logo na monção seguinte, em Abril (1562) mandou fazer prestes um galeão cujo comando confiou ao cunhado de Diogo Pereira, Gil de Góis” (…) “Chegados a Macau em 24 de Agosto de 1562, Diogo Pereira escolheu a capitania-mor (da Cidade do Nome de Deus no Porto de Amacau), passando a embaixada a Gil Góis”. Já com a embaixada recusada pelos mandarins, foi Diogo Pereira eleito a 23 de Agosto de 1562, “não oficialmente, para Capitão de Terra”, cargo abolido no ano seguinte pelo Vice-Rei da Índia. “Isto não implicou, porém, que Diogo Pereira continuasse a ser chefe da comunidade, tal era o seu prestígio”.

Rebelião de tropas chinesas

“Uma rebelião interna nas costas da China, em Guangdong ocorreu em Abril de 1564, questões de salário fizeram amotinar as tropas em Zhelin e estas, unidas a traficantes de sal e piratas de Hainan, moveram corso no litoral e saque a Cantão. A resolução de tão grave perturbação coube à conjugação de esforços das autoridades militares de Guangdong e à artilharia naval dos portugueses de Macau. A vitória foi alcançada a 7 de Outubro seguinte”, segundo Beatriz Basto da Silva e os historiadores Jin Guo Ping, Wu Zhiliang e o padre Manuel Teixeira complementam, após o general cantonense Tang Kekuan vir a Macau pedir ajuda militar portuguesa para reprimir o motim dos marinheiros de Zhelin. “E foi este acontecimento que implicitamente outorgou a posse de Macau aos portugueses, já que nenhum documento (chapa imperial) regista um tratado para conceder a posse”. “Os chineses apenas podiam permanecer durante o dia no território de Macau, devendo regressar às terras de origem ao anoitecer,” Beatriz Basto da Silva e continuando, assim é de 1564 “o primeiro acontecimento documentado em que as autoridades chinesas se referem ao ‘estatuto’ de Macau”, como Beatriz Basto da Silva cita da fonte Fok Kai Cheong, referindo este também para esse ano “um pormenorizado Memorial feito pelo Censor Provincial de Guangdong/Guanxi, Pang Shangpeng, para informar a autoridade imperial sobre Macau”.
Gonçalo Mesquitela, sobre os factos “situados em 1564, 43.º ano do imperador Chia Ching refere que em Sam Moon e Che Ham, no Distrito de Tung Koon, perto de Cantão, houve um sério problema de pirataria. Citando o relatório de um tal Chan Yet Cheng dirigido a Ng Kwei Fong, comandante das forças, acerca do sucesso dos seus esforços para erradicar a área dos ladrões do mar japoneses mancomunados com foragidos chineses, diz: «Em Chiu Chow havia centenas de soldados cujo dever era o guardar os seus postos avançados, mas deitaram fora os seus elmos e rebelaram-se contra o governo. Embarcaram em barcos que tomaram e assaltaram o que encontravam. O assunto foi exposto à Corte e os mandarins, depois de discutido o assunto, dedicaram atacar os bandidos que cometiam depredações e roubavam o povo, fugindo depois. Falhando vários ataques, eles foram criando mais forças e a população de Cantão começou a desesperar… o povo não sabia como lidar com a situação e muitos dos letrados e funcionários expressavam o desejo de se retirarem para outros sítios. Se os piratas não fossem suprimidos toda a Província teria sido atirada para uma situação caótica…» Sobre o mesmo assunto, o autor referido (Chou Chien Lien), cita um memorial de Yue Tai Yan, intitulado Medidas para suprimir os bandidos: «Os preparativos para o ataque aos bandidos levaram mais de dez dias. Entre os barcos de Macau de Hueng Chan, seleccionei certo número de antigos e cansados, incluindo embarcações pertencentes a Lam Wung Chung. Estrangeiros ofereceram-se para auxiliar e se a sua ajuda se revelasse eficaz, o seu chefe seria recompensado amplamente, embora não haja decreto imperial autorizando-o a pagar tributo. Logo que os barcos se aprontaram eles serão distribuídos entre as embarcações de Macau e os barcos de Pak Sek de Nam Tau. Indicarei então a data para a reunião das embarcações e será lançado a seguir o ataque aos piratas.» Descreve a seguir a batalha de Sam Moon, na qual Diogo Pereira venceu” os piratas.

Situação caótica

É do Padre António Franco a descrição desta crise, retirado de Gonçalo Mesquitela: “Pouco antes, tinham-se verificado intensos ataques japoneses à costa do Kwangtung (Guangdong). Retirados os wako, as tropas chinesas que para ali tinham sido destacadas, revoltaram-se por não serem pagas e saltaram em terra nos subúrbios de Cantam e os saquearam à vista dos mandarins que tendo gente prestes, o não o puderam remediar. Depois disto, os amotinados tomaram e fortificaram um porto distante uma jornada de Cantão. Armaram novos juncos e dedicaram-se à pirataria. Nas suas expedições destruíram os lugares marítimos e a gente era obrigada a meter-se por terra dentro. Macau estava também arriscada”. (…) Diogo Pereira não deixou perder a ocasião que in extremis se lhe deparava. Certo de que os portugueses bateriam os piratas se os atacassem, “mandou um criado seu a Cantão para, da sua parte, prometer ao general de armas de Cantão ajuda contra os piratas. Tudo isto fez sem consultar João Pereira, o capitão-mor. Por isso, ao regressar o criado com a resposta do mandarim de , criou-se forte tensão. O criado revelou a missão a que fora e o capitão-mor irou-se porque Diogo Pereira oferecera o auxílio de tropas comuns que não estavam sob o seu comando, mas que dependiam do capitão.” (…) “Mas a situação era tão grave e o auxílio tão necessário que, pouco depois, entrou um mandarim principal, pedindo auxílio, em nome do general de armas. Todos os portugueses concordaram, então, em atacar os piratas que também lhes eram daninhos e porque estavam em terras da China. . Armaram-se 300 portugueses decididos, passaram a sua artilharia para os juncos dos chineses, para melhor enganarem os piratas. Formaram duas esquadras, uma sob o comando de Luís de Mello e outra de Diogo Pereira, simples moradores que chamaram a si a despesa da campanha. Nota-se como foi evitada a presença ostensiva de forças do capitão-mor representativas da Coroa.
Adoptaram o plano do general de armas de Cantão, que era o de Diogo Pereira se colocar na saída do estreito enquanto Luís de Mello ia atacá-los.” E prosseguindo o relato de Mesquitela, “Os piratas, ao verem aproximar-se os juncos, tomaram-nos mais como presas do que como inimigos e prepararam-se para os abordar. Luís de Mello, .
A actuação dos portugueses impressionou fortemente o governador de armas. Mas outro conflito se ia originando quando pediu que lhe fossem entregues os juncos cativos. Os nossos recusaram-se a entregá-los. A situação foi salva a tempo por Luís de Mello e Diogo Pereira que, diplomaticamente, explicaram ao general que os portugueses eram tão disciplinados que só aos seus capitães obedeciam. O general chinês subtilmente retorquiu: ”, segundo refere Gonçalo Mesquitela, que usou as informações do Padre António Franco para a descrição desta crise.
Terminava assim tão grave perturbação criada desde Abril de 1564 pela rebelião interna na marinha imperial estacionada em Zhelin nos arredores de Cantão e a resolução coube à conjugação de esforços das autoridades militares de Guangdong e à artilharia naval dos portugueses de Macau, que a 7 de Outubro alcançaram em Dongguan uma vitória sobre os rebeldes.
O general de armas chinês ficou tão afeiçoado a Diogo Pereira que autorizou os portugueses a irem a Cantão tratar de negócios.

2 Set 2016

Estratégia chinesa para Macau

“Desde a fundação da Dinastia Ming (1368-1644), que a grande preocupação era a defesa contra qualquer tentativa restauradora da dinastia derrubada, a Yuan. Por esta razão, toda a defesa militar chinesa se concentrou no Norte, nas fronteiras com os Mongóis”, segundo Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.
A afirmação da dinastia Ming além-mar levou o Imperador Yong Le a enviar emissários ao Oceano Índico e para isso, promoveu as expedições marítimas comandadas pelo Almirante Zheng He, cortadas que estavam as fronteiras terrestres. Após o regresso da sétima e última viagem transcontinental da armada, que partira em 1431 comandada por Zheng He e que sem ele chegou dois anos depois, a dinastia Ming destruiu os barcos de navegação marítima e retirou-se para o interior, usando as águas do Grande Canal para o transporte das mercadorias.
Assim, a China, sem interesse no comércio exterior, após 1433 voltou a fechar para o interior e desprotegeu as costas marítimas, passando a pirataria a dominar os mares. Segundo Rui Manuel Loureiro, por volta de 1430 a dinastia Ming desencorajava “abertamente quaisquer ligações marítimas de chineses com o estrangeiro, instituindo penas severas para os infractores, que no entanto, nunca deixaram de se multiplicar”.
Toda a documentação oficial relacionada com as expedições marítimas do Almirante Zheng He, para que não servisse de estímulo a outras aventuras semelhantes, foi então destruída. 19816P14T1
Com a saída dos chineses do mar, o comércio ficou nas mãos dos muçulmanos que passaram a controlar todo o Índico e o Sudoeste do Pacífico. Cem anos depois, apareceram os barcos dos europeus que começam a dominar os Oceanos, devido às invenções e conhecimentos náuticos adquiridos aos árabes e muçulmanos, que por sua vez tinham aprendido com os chineses. Interessante é constatar que com cem anos de antecedência, o Almirante Zheng He elegeu como portos estratégicos, Malaca, Ormuz e Adem, os mesmos que inicialmente Afonso de Albuquerque tinha planeado para controlar o comércio no Oceano Índico.

Um problema diplomático

De Malaca se abriu o Oceano Pacífico aos portugueses, que como novos mercadores entraram a comercializar. Após a primeira visita à China em 1513 por Jorge Álvares, apresentaram-se os portugueses numa embaixada em 1517, à frente da qual seguia o boticário Tomé Pires, mas como a entrada neste país só era permitida aos países e reinos tributários, facilitando na burocracia o embaixador chegou à terra chinesa como proveniente de Malaca. Tal era verdade porque os portugueses expulsaram o Sultão de Malaca, Mamude Xá, o verdadeiro tributário da China e cujos antepassados em 1409 se colocaram debaixo da protecção dos imperadores chineses da dinastia Ming, para conterem os ataques do reino do Sião (Siam). Malaca era após as viagens de Zheng He o único porto onde os chineses se forneciam de mercadorias do Índico. Tomé Pires e os seus companheiros guiados pelos intérpretes malaios, que reconhecendo o terreno souberam chegar à capital, foram desmascarados em Beijing como impostores pelos enviados do Sultão. Mas faleceu em 20 de Abril de 1521 o ainda jovem Zheng De e a China parou pela morte do Imperador. No Sul da China, os mercadores portugueses desrespeitando e não acatando a suspensão obrigatória de todas as actividades, provocaram ao largo do porto de Tunmen em Setembro de 1521 a primeira batalha naval entre portugueses e os chineses. Ocorreu muito devido à imagem de pirata que Simão de Andrade aí deixara e levou à prisão de muitos portugueses. Ficava irremediavelmente perdido o primeiro esforço dos portugueses ao serem banidos das terras chinesas.
A China, um país que nunca se interessou pelo comércio, tendo em baixo nível social a quem ele se dedicava, por um édito imperial de 1525 promoveu a destruição de todos os barcos que navegassem no mar e o aprisionamento dos mercadores que tivessem intenções de comercializar com outros países, ficando apenas os barcos e a indústria naval ligada à navegação pelos rios.

Do Liampó a Chincheu

“Sem embargo das sobreditas leis, não deixam alguns chineses de navegar para fora da China a tratar; mas estes não tornam mais à China. Destes vivem alguns em Malaca, outros em Sião, outros em Patane, e assim por diversas partes do Sul estão espalhados alguns destes que saem sem licença. Pelo que destes que já vivem fora da China, alguns tornam em seus navios a navegar para a China debaixo do amparo dos portugueses. E quando hão-de despachar os direitos de seus navios, tomam um português seu amigo a quem dão algum interesse, para que em seu nome lhe despachem os direitos. Alguns chineses, desejando ganhar o remédio para sua vida, saem muito escondidos nestes navios destes chineses a contratar fora, e tornam muito escondidos que o não saibam nem seus parentes, porque se não divulgue e não incorram na pena que os tais têm”, segundo refere Gaspar da Cruz.
Com os mares despovoados de embarcações chinesas, os chineses ultramarinos encaminharam então os portugueses “a que fossem a Liampó fazer fazenda, porque não há naquelas partes cidades nem vilas cercadas, senão muitas e grandes aldeias ao longo da costa, de gente pobre, a qual folgava muito com os portugueses, porque lhes vendiam seus mantimentos, com que faziam seu proveito. Nestas aldeias eram estes mercadores chineses que com os portugueses navegavam aparentados e por serem conhecidos recebiam ali por sua causa melhor os portugueses, e por eles negociaram com os mercadores da terra trouxessem suas fazendas a vender aos portugueses”, do Tratado das Coisas da China, do dominicano Frei Gaspar da Cruz. Já Fernão Mendes Pinto refere, terem-se “chegado a António de Faria os quatro principais do governo daquela povoação ou cidade de Liampoo, como os nossos lhe chamavam, que eram Mateus de Brito, Lançarote Pereira, Jerónimo do Rego e Tristão de Gaa”. Segundo Rui Loureiro, “Os portugueses, na realidade, mantiveram um estabelecimento mercantil nas ilhas de Shuang-hsü” (…) e esta povoação de Liampó, “como outras que surgiam ao longo da costa chinesa, era frequentada por navegadores de outras procedências, e normalmente siameses, léquios, chineses e japoneses. Não eram invulgares os conflitos com as populações ou com as autoridades chinesas dessas regiões, a propósito de questões mercantis.”
Moltalto de Jesus refere, “Depois da destruição de Liampó, os portugueses asseguraram uma base em Chincheu, perto de Amoy (hoje Xiamen), por meio de pesados subornos. Também aí (actual Zhangzhou) a mesma horrível sorte os alcançou, dois anos mais tarde (1549), segundo Mendes Pinto, em consequência de uma disputa pelos bens de um arménio morto. Um administrador oficial, Aires Botelho de Sousa, com fama de homem sem princípios e ganancioso, tomou como fazenda parte dos bens e algumas mercadorias que dois comerciantes chineses diziam suas e que, como não lhes fossem restituídas, se queixaram aos mandarins – que imediatamente proibiram as relações dos nativos com os portugueses, racionando o fornecimento de provisões. Levados pela fome, passaram a região a pente fino. Isto terminou em escaramuças que levantaram o distrito inteiro contra eles. Enquanto um exército acabava rapidamente com os portugueses, uma frota deitou fogo aos seus barcos; e de quinhentos portugueses apenas cerca de trinta escaparam a uma morte atroz”. (…) “Com estas horríveis hecatombes a China queria, evidentemente, impedir os portugueses de frequentarem as suas costas inóspitas. No entanto, nada intimidou estes esforçados navegadores. Os proscritos dirigiram-se agora para Sanchuan”, e pela frequência dos portugueses em peregrinação ao local onde morrera o Padre S. Francisco Xavier, os chineses em 1554 os impediram de voltar a frequentar essa ilha e para Lampacao os desviaram.

Plano para Macau

“O perigo em que esteve a Corte (com o incidente de Gengxu, protagonizado por Altan, em 1550, quando contornando a Grande Muralha, chegou ao pé de Pequim ameaçando tomar a cidade e saqueando os subúrbios do Noroeste) levou os Ming a reorganizar a defesa militar (…) e para fazer frente a outras rebeliões das minorias nacionais chinesas, tornou-se urgente resolver o problema de Macau. A situação no litoral do Sul também não era nada optimista. Em 1552, a do Distrito de Huangyan caiu na mão de piratas japoneses, o que ficou conhecido na história como Renzi zhi bian (Incidente do ano Renzi, 1552). Foi um tremendo abalo para a Administração Ming. Eis o pano de fundo do entre Leonel de Sousa e Wang Bo. A invasão de Pequim em 1550 e Renzi zhi bian são as chaves para perceber a viragem da atitude chinesa, decidida por Pequim e executada por Guangdong, para com os Portugueses, que já tinham sofrido grandes reveses à mão de Zhu Wan, em Liampó e Chincheo respectivamente em 1548 e 1549. As campanhas expedicionárias de Zhu Wan contra os Portugueses conseguiram algumas vitórias militares, mas não resolveram o problema da pirataria, nem conseguiram acabar com a presença portuguesa”, segundo referem Jin Guo Ping e Wu Zhiliang: “Em termos globais, o poder militar chinês era superior ao dos Portugueses que frequentavam o litoral chinês”.
“Macau começou a ser (em 1557) um entreposto para o comércio português entre Malaca e o Japão”, como refere Rui Loureiro e continuando com Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, “o desenvolvimento desse comércio traria, mais cedo ou mais tarde, a praga da pirataria a Macau e a Guangdong. Após a repressão de alguns grupos de piratas chineses nas águas de Guangdong e instalados os Portugueses em Macau, as autoridades de Guangdong começaram a tentar resolver o problema dos Japoneses. Antes de mais, uma autorização de residência concedida aos Portugueses em Macau poderia obrigá-los a não se associarem publicamente aos piratas japoneses. De facto, sem os fixar num lugar, como se poderia sujeitá-los à legislação chinesa? Mais tarde, seriam tomadas medidas legais para proibir os Portugueses de ter Japoneses ao seu serviço. Através desta medida de acomodação dos Portugueses em Macau, foram conseguidas, a nível militar, duas vitórias: a rápida repressão dos piratas chineses e o impedimento de qualquer ligação pública entre os Portugueses e os piratas japoneses”.

19 Ago 2016

Fim do Liampó português em Shuangyu

Em Liampó, António de Faria, segundo Fernão Mendes Pinto, “Depois de ser desembarcado em terra, e lhe serem dados os parabéns da sua chegada, o vieram ali visitar todos os mais nobres e ricos, os quais por cortesia se prostravam por terra, em que houve alguma detença”. (…) “Daqui o levaram para a igreja por uma rua muito comprida fechada toda de pinheiros e louros, e toda juncada, e por cima toldada de muitas peças de cetins e damascos. E em muitas partes havia mesas em que estavam caçoulas (vasos de barro para cozinha, ou vaso de porcelana para queimar perfumes) de prata com muitos cheiros e perfumes, e antremeses de invenções, muito custosos.
E já quase no cabo desta rua estava uma torre de madeira de pinho toda pintada a modo de pedraria, que no mais alto tinha três curucheos, e em cada uma grimpa dourada com uma bandeira de damasco branco, e as armas reais iluminadas nela com ouro. E numa janela da mesma torre estavam dois meninos e uma mulher já de dias chorando, e em baixo ao pé dela estava um homem feito em quartos, muito ao natural, que dez ou doze castelhanos estavam matando, todos armados, e com suas chuças (chuço é uma haste de pau com choupa de ferro, afiado na extremidade superior) e alabardas tintas em sangue, a qual coisa, pelo grande fausto e aparato com que estava feita, era muito para folgar de ver. E a razão disto dizem que foi porque dizem que desta maneira ganhara um Foão de quem os verdadeiros Farias descendem, as armas da sua nobreza nas guerras que antigamente houve entre Portugal e Castela.
Neste tempo, um sino que estava no mais alto desta torre como de vigia deu três pancadas, ao qual sinal se quietou o tumulto da gente, que era muito grande. E ficando tudo calado, saiu de dentro um homem velho (idoso) vestido em uma opa de damasco roxo, acompanhado de quatro porteiros com maças prata. E fazendo um grande acatamento a António de Faria, lhe disse com palavras muito discretas quão obrigados todos lhe estavam pela grande liberalidade que usara com eles e pela grande mercê que lhes fizera em lhes restituir suas fazendas, pelo qual todos lhe ficavam dali por diante por súbditos e vassalos, com menagem dada de seus tributários em quanto vivessem. E que pusesse os olhos naquela figura que tinha junto de si, e nela, como em espelho claro, veria com quanta lealdade os seus antecessores de quem ele descendia ganharam o honroso nome da sua progénie (descendência, geração), como era notório a todos os povos de Espanha. Donde também veria quão próprio lhe era a ele o que tinha feito, assim no esforço que mostrara, como em tudo o mais que usara com eles. Pelo qual lhe pedia em nome de todos, que em começo do tributo a que por razão de vassalagem lhe estavam obrigados, aceitasse por então aquele pequeno serviço que lhe oferecia para murrões (morrão é um pedaço de corda enleada com que se põe fogo às peças) dos soldados, porque a mais dívida protestavam de lha satisfazerem a seu tempo. E com isto lhe apresentou cinco caixões de barras de prata em que vinham dez mil taéis.
António de Faria lhe agradeceu com muitas palavras as honras que até então lhe tinham feitas e o presente que lhe ofereciam, porém por nenhum caso lho quis aceitar por muito que todos nisso insistiram”, Fernão Mendes Pinto na Peregrinação. Segunda-feira, 14 de Maio de 1542 zarpou de Liampó António de Faria.

Expulsar os piratas

Em Shuangyu, este porto de Liampó temporariamente nas mãos dos portugueses, pois feito sem permissão do governo chinês, terminou em 1548-49 quando foi destruído. Tal se deveu, segundo Fernão Mendes Pinto, a Lançarote Pereira que praticou as brutalidades que originaram a destruição da colónia portuguesa de Liampó. Já Gaspar da Cruz atribui aos “chineses que andavam entre os portugueses, e alguns portugueses com eles, vieram-se a desmandar, de maneira que começaram a fazer grandes furtos e roubos e a matar alguma gente”. Anota Rui Manuel Loureiro, “Os portugueses, de facto, deverão ter cometido algumas depredações no litoral de Liampó, em circunstâncias ainda mal esclarecidas, mas que parece terem estado ligadas a roubos cometidos por intermediários chineses”. E seguindo com Gaspar da Cruz, “Foram os males em tanto crescimento e o clamor dos agravados foi tão grande, que chegou não somente aos loutiás grandes da província mas também a el-rei. O qual mandou logo fazer uma armada muito grossa na província de Fuquiem, para que lançassem todos os ladrões da costa, principalmente os que andavam em Liampó, e todos os mercadores, assim portugueses como chineses, entravam na conta dos ladrões.”
Segundo João de Deus Ramos, “Em 1547 Zhu Huan foi nomeado Vice-Rei das duas províncias de Fujian e Zhejiang, e deu mostras de ser forte ânimo no rigoroso cumprimento das proibições em vigor quanto ao comércio com os estrangeiros. Conseguiu assim criar as mais fortes inimizades em todos os sectores da população que beneficiava daquele comércio”. Já Rui Loureiro refere que “a corte imperial chinesa despachou para as províncias meridionais de Fukien e Chekiang, o vice-rei Chu Wan em 1548, com o encargo de debelar o surto de pirataria que afectava aquelas regiões”.
“A 14 de Maio de 1548, Zhu Wan preparou o estratagema para atacar o Porto de Shuangyu (Liampó dos portugueses). Deu ordens ao Comandante Regional Lu Tang para com o Comandante Wei Yigong, ambos de Fujian, seguirem e aí esperar a melhor oportunidade de em conjunto começarem o combate. A vitória na batalha naval foi conseguida em Jiushan. A destruição de Liampó só aconteceu mais tarde”, segundo Deus Ramos. Já Victor F. S. Sit refere, “Em 1547, Zhu Wan, o chefe militar de Zhejiang, deu uma tremenda derrota aos navios portugueses em Shuangyu, mandou incendiar as mil casas que havia na ilha e todos os barcos utilizados no comércio ilegal e mandou encerrar o porto. Os portugueses tiveram que fugir para o Sul, acabando por chegar a Sanchoão (Shangchuan) e a Lampacau (Langbai), ilhas da província de Guangdong. A ilha de Sanchoão (Shangchuan) acabou por ser o último ponto de paragem dos portugueses antes de se estabelecerem em Macau”.

Fim do estabelecimento provisório

O segundo período de contactos na China, entre portugueses e chineses, acabou com a batalha de Zoumaxi (走马溪, Ribeira de Cavalos Galopantes) em 1549, período que podemos designar como “Entre Chincheo e Liampó”, segundo Revisitar os Primórdios de Macau.
Gaspar da Cruz conta: “Fazendo-se prestes a armada, saiu-se ao longo da costa do mar. E porque os ventos lhe não serviam já para poder ir a Liampó, foram para a banda do Chincheo, onde achando navios de portugueses começaram a pelejar com eles, e de nenhuma qualidade deixavam de vir nenhuma fazenda aos portugueses”. Já Rui Loureiro refere: “Ao contrário do que afirma Fr. Gaspar, a armada chinesa, a instâncias de Chu Wan, atacou na realidade o entreposto de Liampó em 1548, interrompendo o intenso tráfico ilegal que os estrangeiros ali realizavam. Depois do assalto a Liampó, o comissário imperial Chu Wan desencadeou uma violenta campanha contra a navegação estrangeira na região de Chinchéu, onde os portugueses se tinham entretanto refugiado”.
E seguindo com Gaspar da Cruz, “Estiveram assim muitos dias pelejando (os portugueses) às vezes para verem se podiam ter remédio para fazerem suas fazendas. Passados muitos dias e vendo que não tinham remédio, determinaram de se ir sem ela(s). O que sabendo os capitães d’armada, mandaram-lhe(s) de noite muito secretamente um recado, que se queriam que lhe(s) viesse fazenda, que lhe(s) mandassem alguma coisa. Folgando muito os portugueses com este recado, fizeram-lhe(s) um grosso e honrado presente e mandaram-lho de noite, por assim serem avisados. Dali por diante vieram-lhe(s) muitas fazendas, fazendo os loutiás que não atentavam nisso e dissimulando com os mercadores. E assim desta maneira se fizeram as fazendas aquele ano, que foi de 1548”.
João de Deus Ramos, “No ano seguinte deu-se um acontecimento que ficaria conhecido pelo , bem demonstrativo de que a fase do conflito e do comércio ilícito entre portugueses e chineses estava a chegar ao seu termo.
Já se viu como o Vice-Rei Zhu Huan ganhara a maior impopularidade ao querer impor com rigor as proibições do comércio com os estrangeiros. Em 1548 a frota de Diogo Pereira dirigiu-se à China. Determinou que as mercadorias que levava fossem transportadas em dois juncos chineses. Depois de alguns recontros violentos que determinaram a sua partida, deixou no entanto ficar os juncos, comandados por Fernão Borges e Lançarote Pereira, acompanhados de trinta portugueses e mais gente, na expectativa de ainda fazerem algum negócio. As forças navais chinesas não perderam tempo em apresá-los, matando alguns dos nossos e fazendo prisioneiros outros. Mas os tempos eram diferentes, e em vez de vir de Pequim a confirmação de sentenças, como acontecera trinta anos antes, foi despachado um Comissário Imperial para investigar o caso. Considerou que os portugueses não eram culpados dos crimes de que os acusavam, mas apenas pacíficos mercadores. Lê-se num documento da época: […], Carta de Afonso Ramires. O Vice-Rei Zhu Huan suicidou-se, e outros oficiais foram executados.
Terminava o período do conflito e do comércio ilegal, estava criado o ambiente, e as condições de parte a parte, para o surgimento de Macau.”
“Em 1549, foram expulsos das terras de Chincheo e, entre 1550-1553 fixaram-se sucessivamente em Sanchoão, Lampacau e depois Macau.” (Wu Zhiliang, História do Desenvolvimento Político de Macau, 1999).
E terminamos no Cap LXII da Peregrinação, em que Fernão Mendes Pinto refere de um episódio de 1540/1, “E chegando à vista do junco, (António de Faria) mandou que a lorcha se passasse da outra banda, por que abalroassem ambos juntamente, e que ninguém disparasse nenhum tiro de fogo, por que não sentissem os juncos da armada que estavam dentro no rio o tom de artilharia, porque acudiriam a ver o que era. Tanto que as nossas embarcações chegaram ao lugar onde estava surto o junco, ele foi logo abalroado sem nenhuma detença, e saltando dentro vinte soldados se senhorearam dele sem contradição alguma…” Esta frase descontextualizada das circunstâncias e sem os antecedentes, remete no entanto os portugueses à actividade de pirataria, mas neste episódio aconteceu atacar um barco amigo.
Segundo Bento de França nos “Subsídios para a História de Macau “nos finais de 1556 navegava por aquelas costas um terrível pirata, Chan-si-lau a quem os portugueses, para agradar ao mandarim local, deram caça e acabaram com o seu reinado”. Era já Macau local usado pelos portugueses para esperar os tecidos de seda vindos de Cantão.

12 Ago 2016

Inícios de Liampó português

“A Dinastia Ming, que sucedeu à mongol dos Yuan, foi a última dinastia imperial de origem chinesa, uma vez que a que lhe sucedeu era proveniente da Manchúria. Os Ming quase coincidem no tempo com a Dinastia de Avis, pois ocuparam o Trono do Dragão de 1368 a 1644″, segundo uma nota de João de Deus Ramos. A China, encerrada aos estrangeiros em 1521, devido ao falecimento do Imperador Zhengde e a consequente suspensão obrigatória de todas as actividades, manteve os portos fechados com o Imperador Jiajing (1522-66) e por édito imperial de 1525, deixou de haver marinha mercante chinesa nos mares.
As costas passaram a estar cheias de piratas japoneses e portugueses, na altura os únicos europeus, à procura das apetecíveis mercadorias chinesas.
“Sendo a área normal do comércio externo o porto de Cantão, é natural que, depois do ocorrido de 1517 a 1523, o policiamento marítimo e terrestre nessa zona fosse mais apertado”, segundo refere Gonçalo Mesquitela. “Após os conflitos armados luso-chineses, ocorridos entre 1521 e 1522, nas águas de Tunmen, a Corte de Pequim decretou o encerramento dos portos cantonenses. Inicialmente, (…) as autoridades de Cantão recusavam (os portugueses,) os de Aname e Malaca. Desde que os mais variados bárbaros de Aname e Malaca foram recusados, eles iam fazer comércio clandestino às águas da prefeitura de Zhangzhou (漳州, Chincheo) fazendo com que a província de Fujian (福建) lucrasse com isso, deixando o mercado cantonense numa situação paupérrima” segundo Revisitar os Primórdios de Macau para uma nova abordagem da História de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang e continuando, “O encerramento total dos portos cantonenses provocou danos insuportáveis à economia de Cantão…”, (…) “As receitas locais caíram a pique. A ordem económica local e de uma boa parte do Centro e Sul da China estava afectada e desequilibrada. A situação financeira de Cantão era de tal maneira caótica que nem conseguiam pagar os soldos e os vencimentos da função pública. Esta situação dramática levou o vice-rei Lin Fu a moralizar a Corte Central em 1529, apelando à revogação das proibições marítimas impostas a Cantão. O memorial ao Trono foi favoravelmente despachado e restabelecido o sistema tributário em Cantão, mas os portugueses continuavam proibidos de vir às águas de Cantão. No entanto, alguns, após uma década de ausência do litoral cantonense, começaram a voltar ao negócio da China, a título individual e integrados em grupos tributários de alguns países do Sudeste Asiático, principalmente disfarçados de siameses.”

Juncos à China, a provar se queria ter trato

“A partir de finais da segunda década do século (XVI), embora mantendo-se fechados os portos e em vigor as ordens de expulsão dos portugueses, começam a desenhar-se tréguas na violência e a virem à superfície novas convergências de interesses, pois para ambas as partes o trato tinha os maiores aliciantes. Com a passagem dos anos foram crescendo estes contactos à margem das directivas oficiais, cada vez mais esquecidas”, segundo João de Deus Ramos.
A reabertura do porto de Cantão só veio a ocorrer em 1530, ficando a proibição restrita aos portugueses, na altura os únicos europeus. Por isso, “Começa então a notar-se o desvio da área comercial externa mais para o norte, nas costas da China Central, ao longo de toda ela. Mas também, por certo, ainda ao largo de Cantão”, segundo Gonçalo Mesquitela. Já Beatriz Basto da Silva, refere, “O Ming-Shi admite que, a partir do ano 1527, há comércio entre portugueses e o Fuquiam (Fujian). Em Fuquiam irão aparecer as primeiras sociedades de moradores casados com asiáticas não forçosamente chinesas, mas em harmonia de convivência com comunidades chinesas”.
Foram os chineses ultramarinos que introduziram aos portugueses o litoral de Fujian e Zhejiang, para aí se estabelecerem.
“No primeiro quartel do século XVI, Portugal estava forte dos sucessos da gesta ultramarina, habituado a vencer, dominar, impelido pela dinâmica religiosa e económica da expansão. A China, nesse tempo, vivia ainda a pujança da dinastia Ming”, segundo João de Deus Ramos.
“Do lado português, as viagens sucedem-se neste plano clandestino mesmo para os chineses. Há licenças oficiais portuguesas nesta época para a viagem à China Conhecem-se: a de 1532”, proibida pelo governador ao chegar a Goa, a de 1533, concedida a Manuel Godinho, que por indicação de Estevão da Gama (ou Paulo da Gama, Capitão de Malaca como refere J. M. Braga) conseguiu “as pazes com os reis de Pão (Pahang) e de Patane, que durante quinze anos faziam guerra a Malaca. Estas pazes foram causa de tornarem a tratar na China, de que se descobriram pelos nossos mais de 50 portos melhores que os de Cantão. Segundo ainda o mesmo autor (Castanheda), em 1535 D. Estevão da Gama mandou Henrique Mendes de Vasconcelos a Patane trazer Francisco Barros de Paiva que lá estava e para ordenar que dali fosse um junco à China, a provar se queria ter trato como tiveram em tempo passado. Foi Henrique Mendes num navio dos nossos. Seguem-se as licenças, de 1538, a Fernão Anrique, em 1543 a Jerónimo Gomes, e, em 1544, a Alonso Henriques de Sepúlveda. E quantos outros portugueses por ali teriam navegado, ligados a comerciantes chineses ou arriscando a sorte, muitas vezes adversa…”, segundo escreve Gonçalo Mesquitela.
Encobertamente feitas as fazendas em Liampó, sem nunca el-rei ser sabedor deste trato, “sucederam as contratações de maneira que começaram os portugueses a invernar nas ilhas de Liampó e estarem nelas tanto de assento e com tanta isenção que lhes não faltava mais que ter forca e pelourinho”, segundo o Padre Gaspar da Cruz. Seguindo com João de Deus Ramos, “Os portugueses apelidados de piratas e a eles não poucas vezes associados, iam alimentando um crescente comércio ilícito que tinha o apoio nas classes que dele beneficiavam. Através destas iam conseguindo a tolerância, quando não a conivência, das próprias autoridades locais”.
Este é o segundo período do relacionamento entre portugueses e chineses, “e podemos designá-lo como Entre Chincheo e Liampó”, segundo Revisitar os Primórdios de Macau. O primeiro ocorrera desde a chegada de Jorge Álvares à China em 1513 até aos dois conflitos navais no Rio das Pérolas ganhos pelos chineses aos portugueses em 1521 e 1522. Iniciava-se um novo ciclo, passando os Portugueses a frequentar o litoral de Fujian e Zhejiang e que terminou em 1549.

Rei dos mares

Escondido numa baía de uma ilha em frente à cidade de Ningbo, o povoado feito pelos comerciantes portugueses com a ajuda das famílias locais chinesas e em conivência com os oficiais menores, teve o seu quotidiano relatado por Fernão Mendes Pinto na Peregrinação entre os capítulos 67 a 70. Aí se conta a história do Capitão António de Faria às portas de Liampoo, em 1541 e como antecedente, ter ele e o seu grupo resgatado da prisão em Nouday “cinco portugueses, residentes em Liampó, que viajaram num barco cujas amarras se quebraram com o temporal e fora dar à costa e à sua vista se fizera em pedaços na praia e de toda a gente se não salvaram mais que treze pessoas, cinco portugueses e oito moços cristãos, os quais a gente da terra levou cativos para um lugar que se chamava Nouday”, da Peregrinação.
António de Faria, segundo Fernão Mendes Pinto, foi levar os portugueses libertados por ele dessa prisão chinesa a Liampó, onde viviam e por isso muito bem recebido. Já o rei dos mares, António de Faria tinha derrotado o famoso corsário Coja Acém, terror da costa chinesa, história contada na semana passada. E continuando na Peregrinação, “Por entre estas duas ilhas a que os naturais da terra e os que navegam aquela costa chamam as portas de Liampoo vai um canal de pouco mais de dois tiros de espingarda de largo, com fundo de vinte até vinte e cinco braças, e em partes tem angras de bom surgidouro, e ribeiras frescas de água doce que descem do cume da serra, por entre bosques de arvoredo muito basto de cedros, carvalhos e pinheiros mansos e bravos, de que muitos navios se provêm de vergas, mastros, tabuado e outras madeiras, sem lhe custarem nada.
Surgindo António de Faria nestas ilhas uma quarta-feira pela manhã, Mem Taborda e António Anriquez lhe pediram licença para irem diante dar recado à povoação de como ele era chegado, e saber as novas que havia na terra, e se se dizia ou soava por lá alguma coisa do que ele fizera em Nouday porque se a sua ida lá prejudicasse em alguma coisa à segurança e quietação dos portugueses, se iria invernar à ilha de Pulo Hinhor como levava determinado…”
Estava-se em Dezembro de 1541 e “os seis dias que António de Faria aqui se deteve, como lhe tinham pedido os de Liampoo, esteve surto nestas ilhas. No fim do qual tempo, um domingo antemanhã, que era o tempo aprazado para entrar no porto, lhe deram uma boa alvorada (…). E sendo pouco mais de duas horas antemanhã, com noite quieta e de grande luar, se fez à vela com toda a armada (…). E sendo já manhã clara acalmou o vento pouco mais de meia légua do porto, a que logo acudiram vinte lanteás de remo muito bem equipadas, e dando toa a toda a armada, em menos de uma hora a levaram ao surgidouro.
Porém antes que ela lá chegasse vieram a bordo de António de Faria mais de sessenta batéis e balões e manchuas com toldos e bandeiras de seda, e alcatifas ricas, nas quais viriam mais de trezentos homens, vestidos todos de festa, com muitos colares e cadeias de ouro, e suas espadas, guarnecidas do mesmo, em tiracolos, ao uso de África. E todas estas coisas vinham feitas com tanto primor e perfeição que davam muito gosto e não menos espanto a quem as via.
Desta maneira chegou António de Faria ao porto, no qual estavam surtas por ordem vinte e seis naus e oitenta juncos, e outra muito maior soma de vancões e barcaças amarradas umas ante outras, que em duas alas faziam uma rua muito comprida, enramados todos de pinho e louro e canas verdes, com muitos arcos cobertos de ginjas, peras, limões e laranjas, e de outra muita verdura, e de ervas cheirosas, de que também os mastros e as enxárcias estavam cobertas.
António de Faria, depois de estar surto junto de terra no lugar que para isso lhe estava aparelhado, fez sua salva de muita e muito boa artilharia, a que todas as naus e juncos e as mais embarcações que trás disse, responderam por sua ordem, que foi coisa muito para ver, de que os mercadores chineses estavam pasmados. E perguntavam se era aquele homem, a que se fazia tamanho recebimento, irmão ou parente do nosso rei, ou que razão tinha com ele. A que alguns cortesãos respondiam que não, mas que verdade era que seu pai ferrava os cavalos em que el-rei de Portugal andava, e que por isso era tão honrado que todos os que ali estavam podiam muito bem ser seus criados e servi-lo como escravos. Os chineses, parecendo-lhe que podia ser aquilo assim, olhavam uns para os outros a maneira de espanto, e diziam:
– Certo que muito grandes reis há no mundo de que os nossos antigos escritores não tiveram nenhuma notícia para fazerem menção deles nas suas escrituras! E um destes reis de que mais caso se devera de fazer parece que deve ser o destes homens, porque segundo o que dele temos ouvido é mais rico e mais poderoso e senhor de muito maior terra que o Tártaro nem o Cauchim, e quase que se pudera dizer, se não fora pecado, que emparelhava com o Filho do Sol, Lião coroado no Trono do Mundo. Numa lanteá se embarcou “António de Faria, e chegado ao cais com grande estrondo de trombetas, charamelas, atabales, pífaros, tambores e outros muitos tangeres de Chineses, Malaios, Champás, Siames, Bornéos, Léquios e outras nações que ali no porto estavam à sombra dos Portugueses, por medo dos corsários de que o mar andava cheio, o desembarcaram dela em uma rica cadeira de estado, como chaem do governo, dos vinte e quatro supremos que há neste império. A qual levavam oito homens vestidos de telilha, com doze porteiros de maças de prata, e sessenta alabardeiros com panouras e alabardas atauxiadas de ouro, que também vieram alugadas da cidade, e oito homens a cavalo com bandeiras de damasco branco, e outros tantos com sombreiros de cetim verde e carmesim, que de quando em quando bradavam à charachina, para que a gente se afastasse das ruas”, Fernão Mendes Pinto.
Entende-se tão pomposa recepção a António de Faria, pois libertara das masmorras residentes da cidade, e pelo relato apreende-se a riqueza não só cultural, como material, com que já aí se vivia. E ainda os mercadores portugueses não tinham chegado às ilhas do Japão. Quando tal aconteceu em 1542, segundo Beatriz Bastos da Silva, foi “inaugurado o comércio português de Liampó, 30° Lat. N, com o Japão. O entreposto de Liampó já era florescente há algum tempo. O comércio do Japão veio, entretanto, a enriquecer Liampó de forma rápida. Tinha duas igrejas, uma câmara, dois hospitais, mais de mil edifícios particulares, auditores, juízes, procuradores e outros ofícios públicos usuais em Portugal. Crescimento daí decorrente para Liampó (na boca do rio Fu-Chan). Feitorias de carácter precário (Chincheo, Lampacau), sem contratos, mas já cheias de pormenores administrativos portugueses, embora localmente estivessem sujeitas à China. (Ljungstedt, Andrew – An historical sketch of the Portuguese)”.

5 Ago 2016

Ningbo e a cidade de Liampó

Na província de Zhejiang encontramos a cidade de Ningbo, situada no Delta do Rio Yangtzé. Com uma estratégica posição na costa marítima a meio da China, usufrui de três portos, o Beilun banhado por um canal de águas profundas, o Zhenhai e o antigo porto de Ningbo, equipado para petroleiros e outros navios de grande porte.

Se a razão da visita é ser Ningbo a última cidade do Grande Canal e encontrar-se na lista das cidades chinesas ligadas à antiga Rota Marítima da Seda, confesso trazer a curiosidade desperta pela Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e Tratado das Coisas da China do Frei Gaspar da Cruz, cujas informações recolhidas em meados do século XVI, me colocavam a imaginação às voltas ao pretender entender como seria Liampó, “estabelecimento mercantil nas ilhas de Shuang-hsü”, como o classifica Rui Loureiro numa das notas redigidas no Tratado das Coisas da China. Por isso, aqui não vamos escrever sobre a actual Ningbo e seus arredores, nem da cidade esplendorosa desde a dinastia Tang até à Song do Norte, que com o nome de Mingzhou foi um dos principais portos da costa chinesa, o que continuou na dinastia mongol dos Yuan. Com a abertura dos caminhos terrestres, a cidade começou a perder importância e caída no esquecimento, quando em meados da dinastia Ming, o , dominicano Frei Gaspar refere, os portugueses “a invernar nas ilhas de Liampó e estarem nelas tanto de assento e com tanta isenção que lhes não faltava mais que ter forca e pelourinho”.

Tal estabelecimento inicial dos mercadores portugueses em Liampó terá ocorrido em 1540 e segundo Rui Loureiro, Liampó tanto designava nas nossas fontes quinhentistas a cidade de Ningpo e área circundante, como o estabelecimento português que floresceu entre 1540 e 1549 em Shuang-hsü, uma das ilhas do arquipélago de Chu-san, no litoral fronteiro a Ningpo.

Complementa Victor F. S. Sit, ” Em Shuangyu, os portugueses envolveram-se com piratas chineses e japoneses (wokou) em negócios ilícitos de elevados lucros, dando, assim, origem a uma colónia portuguesa, a segunda maior da Ásia, de importância apenas inferior à de Malaca. Lá viviam 10 mil comerciantes, entre os quais 1200 portugueses. Havia mil casas, uma municipalidade, uma assembleia, um tribunal, várias igrejas e um hospital. Esta povoação mais parecia um estado dentro da China”.

A muy nobre e sempre leal cidade de Liampó

Ainda antes do estabelecimento em Macau dos portugueses, segundo Montalto de Jesus refere, “da leitura de outro relato contemporâneo, a famosa Peregrinação de Mendes Pinto, ressalta que Liampó foi sempre considerada como a mais bonita, a mais rica e a melhor abastecida colónia que os portugueses tiveram na Ásia – um município oficializado como cidade portuguesa e intitulado, nos testamentos e escrituras, Esta muy nobre e sempre leal cidade de Liampó, pelo Rey nosso Senhor, como se se situasse em Portugal. A colónia atingiu o auge da sua prosperidade depois da descoberta do Japão (ocorrida entre 1542 e 1543). O comércio, calculado em mais de três milhões de cruzados de ouro, rendia três ou quatro vezes o capital investido. A comunidade era de mil e duzentos portugueses e mil e oitocentos orientais, que por ali prosperavam sem ser molestados pelos piratas. Ao Sul, no entanto, os portugueses eram muitas vezes vitimados e o comércio entre Malaca e Liampó disso se ressentia fortemente. Certa vez calhou a António de Faria, que arruinado resolveu vingar-se. Com o apoio dos seus companheiros equipou uma expedição contra o seu saqueador, o famoso corsário Coja Acém, terror da costa chinesa. A partir do Sião, Faria esmagou muitos piratas poderosos – e uma das vitórias impressionou tanto os chineses que estes lhe enviaram uma deputação, oferecendo-lhe um tributo de vinte mil taéis e solicitando a sua protecção como rei dos mares. Ele de boa vontade aceitou e emitiu salvos-condutos, pondo como condição que os portugueses fossem tratados de forma fraternal pelos chineses sempre que se encontrassem.” (…) “a expedição teve a seguir a fatalidade de naufragar numa ilha deserta – e a perseguição teria terminado aí não fosse o apresamento de um barco que casualmente lá aportou para se restabelecer de água. Então, com a frota de um pirata chinês, Faria terá eventualmente conseguido alcançar, derrotar e matar Coja Acém e a sua horda, não dando quartel nem aos feridos e doentes encontrados em terra. A frota vitoriosa, carregada de ricos espólios, perdeu-se parcialmente num tufão”. Tal terá ocorrido por volta de 1541 e é preciso lembrar que por essa altura, e desde 1521, após a primeira das duas batalhas navais ocorridas entre navios mercantes portugueses e a armada chinesa, as autoridades chinesas decretaram a expulsão dos portugueses e por isso, eram estes ali considerados piratas.

Os piratas japoneses

Tributários da China no século V a.n.E., durante a dinastia Zhou do Leste, os japoneses ao longo dos tempos até à dinastia Ming continuaram a receber do erudito país constantes influências, tanto culturais como religiosas, de onde lhes veio na dinastia Tang, o Budismo, o modelo com que estruturaram a sua hierarquia Imperial, a arquitectura das casas e muitas outras influências. Já na dinastia Yuan, por os japoneses não quererem em 1266 ser tributários da dinastia mongol, em 1274 e 1281 foram invadidos pelas tropas de Kublai Khan. Nessas duas vezes, na primeira invasão os 30 mil mongóis e coreanos foram repelidos por uma tempestade e na última, com 140 mil soldados, “ao fim de dois meses de luta, nova tempestade – Kamikaze, vento divino – dispersa a frota invasora. Novamente Kubilay se prepara para tomar as ilhas, organizando um quartel-general para o ataque em 1293. A sua morte em 1294 susta esta tentativa. O regente dos Hojo, mantém, no entanto, o alerta militar até 1314”, segundo Gonçalo Mesquitela. Estas tentativas mongóis de invasão levaram os japoneses à construção de embarcações, ficando assim guarnecida a capacidade marítima do Japão. Anteriormente e desde longo tempo, “o comércio exterior japonês estivera entregue a navegadores coreanos e chineses. A ameaça mongol, como dissemos, desenvolveu a classe marítima nipónica. Nas décadas que se lhe seguiram, instituíram-se numerosas comunidades japonesas na costa, (…), aventurando-se depois no mar da China”, como refere Mesquitela. E com ele continuando, “Nos princípios do século XIV, os japoneses começaram as actividades de pirataria e saque das costas, tendo daí advindo para estes barcos japoneses o nome de Wako, oriundo da bandeira invocadora do deus da Guerra que ostentavam. Este carácter de pirata resultava também da clandestinidade a que as autoridades da Coreia e da China obrigavam o comércio marítimo, considerado indesejável, pelo que o pretendiam suprimir ou, pelo menos, restringir fortemente”.

Logo desde o início da dinastia Ming, em 1373 o Imperador Hong Wu (1368-1398) “mandava ao Japão dois monges como seus enviados, pedindo que cessassem as actividades Wako contra a navegação e as costas chinesas”, Mesquitela e continuando com a sua ideia, em 1401 o Japão tornou-se de novo tributário da China, prometendo acabar com os wako a troco de uma viagem de dez em dez anos. Nesse decénio houve seis. “Com um acordo comercial mais liberal, recomeçou o comércio em 1432, sob a mesma base de uma embaixada decenal, mas com mais navios”. Por essas ligações de barco receberam então os japoneses a influência chinesa nas artes e na técnica.

Navegação marítima interdita

Após a chegada da última das sete viagens do Almirante Zheng He, em 1433 o Imperador Ming, Xuande (Zhu Zhanji, 1425-35), “desencorajara abertamente quaisquer ligações marítimas de chineses com o estrangeiro, instituindo penas severas para os infractores, que, no entanto, nunca deixaram de se multiplicar”, segundo Rui Manuel Loureiro. E continuando com Frei Gaspar: “E ainda ao longo da costa, nem de uma parte para outra na mesma China, lhe é lícito ir sem certidão dos loutiás da terra donde partem, na qual se relata para onde vai e o negócio a que vai, e os sinais de sua pessoa e a idade que tem. Se não leva esta certidão é degradado para as partes fronteiras”. (Existiam os passaportes internos para os chineses viajarem dentro na China). “O mercador que leva fazenda leva certidão da fazenda que transporta e como pagou direitos dela. Em cada alfândega que há em cada província paga uns direitos, e não os pagando, perde a fazenda e degradam-no para as partes fronteiras.

Sem embargo das sobreditas leis, não deixam alguns chineses de navegar para fora da China a tratar; mas estes não tornam mais à China. Destes vivem alguns em Malaca, outros no Sião, outros em Patane e assim por diversas partes do Sul estão espalhados alguns destes que saem sem licença. Pelo que destes que já vivem fora da China, alguns tornam em seus navios a navegar para a China debaixo do amparo dos portugueses. E quando hão-de despachar os direitos de seus navios, tomam um português seu amigo a quem dão algum interesse, para que em seu nome lhes despache os direitos. Alguns chineses, desejando ganhar o remédio para sua vida, saem mui escondidos nestes navios destes chineses a contratar fora e tornam mui escondidos que o não saibam nem seus parentes, porque se não divulgue e não incorram na pena que os tais têm. Pôs-se esta lei porque achou el-rei da China que a muita comunicação das gentes de fora lhe podia ser causa dalguns alevantamentos, e porque muitos chineses, com achaque de navegarem para fora, se faziam ladrões e salteavam as terras de longo do mar”, segundo escreveu o Frei Gaspar da Cruz.

Foi após os problemas ocorridos entre 1521 e 1522 e sobretudo pelos desmandos de Simão de Andrade, que levaram à expulsão dos navegantes portugueses da costa chinesa, que estes chineses a viver fora da China os encaminharam “a que fossem a Liampó fazer fazenda, porque não há naquelas partes cidades nem vilas cercadas, senão muitas e grandes aldeias ao longo da costa, de gente pobre, a qual folgava muito com os portugueses, porque lhes vendiam seus mantimentos, com que faziam seu proveito. Nestas aldeias eram estes mercadores chineses que com os portugueses navegavam aparentados e por serem conhecidos recebiam ali por sua causa melhor os portugueses, e por eles negociaram com os mercadores da terra trouxessem suas fazendas a vender aos portugueses. E como estes chineses que andavam entre os portugueses eram os que terçavam (interceder a favor) entre os portugueses e os mercadores da terra nas compras e vendas, tinham deste negócio mui grande proveito. Os loutiás pequenos de longo do mar recebiam também mui grandes proveitos deste trato, porque recebiam grossas peitas de uns e doutros, pelos deixarem contratar e lhes deixarem trazer e levar as fazendas. Pelo que esteve este trato entre eles muito tempo encoberto d’el-rei e dos loutiás grandes da província.

Depois de se haverem feito por algum tempo assim encobertamente as fazendas em Liampó, foram-se pouco a pouco estendendo os portugueses e começaram a ir fazer fazenda ao Chincheo e às ilhas de Cantão. E também já outros loutiás, pelas peitas, os iam consentindo por todas as partes, pelo que chegaram alguns portugueses com a contratação até além de Nanquim, que é já muito longe de Cantão, sem nunca el-rei ser sabedor deste trato. Sucederam as contratações de maneira que começaram os portugueses a invernar nas ilhas de Liampó”, Tratado das Coisas da China de Frei Gaspar da Cruz.

Em 1542/3 chegaram os portugueses ao Japão e “Liampó tornou-se numa importante base comercial para os Portugueses nas viagens para o Japão, que aí desafiavam todas as ordens proibitivas em vigor para o comércio externo. Um incipiente comércio popular, no dizer dos governantes, e o comércio clandestino, agravaria ainda mais o problema da pirataria japonesa”, segundo referem Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.

29 Jul 2016

A população do mar e navegações | Piratas versus corsários

Houve já na História os Povos do Mar, indo-europeus que devido à fome emigraram para o Próximo Oriente à conquista de terras férteis e no século XII a.n.E. o devastaram, sendo apenas derrotados pelos exércitos e forças navais do Faraó Ramsés III. Daqui se subentende a antiguidade do uso de embarcações para transporte.

O nómada estar pelas águas vivendo em barcos, transforma a frota numa povoação e crescendo em número de embarcações compõem-se em armada, tornando-se assim uma cidade flutuante. E no início, tudo tinha partido do ver uma folha, ou um tronco, a flutuar levando algo em cima.

Nessa ondulante sedentarização, de quem se viu pelas costas marítimas a retornar às oceânicas águas, cativando muitos a embarcar, primeiro como pescadores ou, depois de uma vida de pobreza no campo, seguirem como marinheiros, aventureiros e soldados, nos barcos do comércio. Muitos, degredados pelos sedentários, que os expulsavam das suas terras, eram embarcados para longínquas ilhas e pelas revoltas no mar se tornaram piratas e fizeram da água a sua terra.

Com espelho no que acontecia em Portugal, segundo Oliveira Marques, “Em finais de Trezentos, a estrutura naval portuguesa acusava algumas centenas de marítimos, entre quadros e pessoal subalterno, possibilitando o lançamento das mais variadas empresas: guerra ofensiva, guerra defensiva, fossados de mar, corso, pirataria, empreendimentos comerciais, etc.”. O mesmo historiador refere ser o pirata “um fora de lei, um bandido do mar”, ao passo que o corsário “recebia autorização régia ou senhorial para atacar o adversário, pagando uma percentagem ao seu senhor, a quem muitas vezes a embarcação pertencia”, mas na prática ambas se confundiam com frequência.

E onde há comércio marítimo existem piratas, sendo a pirataria um fenómeno muito antigo espalhado por todas as costas do mundo. O andar ao corso, muitas vezes patrocinado pelos governos, outras contra esses, em actos de pirataria assaltavam os barcos para aumentarem a sua frota naval, ficar com a mercadoria e vender os homens como escravos, ou resgatados por muito dinheiro e interesses. A técnica de acostagem desenvolvida pelos piratas, mostra serem os barcos a primeira necessidade aos que expulsos para fora da sedentária sociedade, vão embarcados para o exílio e devido às insubordinação e revoltando-se tornam-se fora de lei. Acto que muitos mercadores e os roubados, sem produtos para trocar, recorreram e reconfortados com os fabulosos ganhos, entre si recriaram uma sociedade com as suas leis e princípios. Juntavam-se em torno de um líder, e normalmente o chefe dos piratas é quem nunca se rende e luta até ao fim. Interiormente traz nele uma revolta, ou um objectivo político para reconquistar o trono e nesse ideal consegue por a acreditar a terra da água e daí se faz a ética entre piratas. Ou como refúgio do fugir, que deu em estar, o nómada dos homens do Mar.

A Rota Marítima

Pelos Caminhos Terrestres para Oeste, abertos no século II a.n.E. desde Chang’an (Xian, Shaanxi), ou dois séculos antes, de Sichuan pelos do Sudoeste, via Norte da Índia, os produtos, como a seda, chegavam à Ásia Central, onde os partos depois os vendiam aos romanos. Mas quando estes dois caminhos terrestres ficavam interrompidos, rejuvenescia a movimentação pela água e o comércio marítimo ganhava grandeza.

Se no início, pelos portos de proximidade os produtos eram trocados e levados depois para paragens cada vez mais longínquas, atravessando do Pacífico para o Índico chegavam ao Mar Arábico. Usando a Rota do Incenso daí eram transportados por terra para o Mediterrâneo, o mar do Império Romano. Estonteados com tais produtos, para fugir aos partos, vão os romanos, com a ajuda do saber grego nos conhecimentos fenícios, navegar pelo Mar Vermelho e entrando directamente no Oceano Índico, usando as monções cruzaram-no até ao Sul do Subcontinente Indiano, onde, em contacto directo no século II comercializaram com juncos de mercadores chineses. Estes, navegando em sentido contrário, provinham do Pacífico, e em trato se fizeram as transacções; marfim, vidro, prata, ouro e pedras preciosas, trocadas por laca, seda,…

Este período narrado corresponde na China às dinastias Zhou do Leste, Qin (221-206 a.n.E.), Han (206 a.n.E.-220) e ao Reino Wu (229-280), até que em meados da dinastia Tang (618-907), devido ao fecho dos caminhos terrestres para Oeste, investiu-se na abertura de estaleiros navais e portos ao longo da costa chinesa onde chegavam cada vez mais comerciantes árabes, persas, indianos e de toda a costa e ilhas do Sudeste do Oceano Pacífico.

Com o comércio marítimo em geométrico incremento, os piratas infestavam o mar ao redor de Lin’an (Hangzhou) quando em 1138 para aí se mudou a dinastia Song do Sul (1127-1279). Contava-se agora com a bússola marítima para navegar sem terra à vista e novos juncos, produto do desenvolvimento na construção naval, sendo criada uma poderosa força naval imperial, que patrulhava as costas, servindo muitos outros barcos para serem fretados pelos mercadores estrangeiros, fazendo assim o transporte via marítima dos produtos adquiridos na China até ao Golfo Pérsico.

Com os mongóis, a paz voltou a abrir os Caminhos Terrestres do Oeste e pelos portos muitas famílias Han fugindo, emigraram para as costas do Oceano Índico, sendo nas administrações provinciais e locais substituídas por uigures e estrangeiros. Como o povo mongol não é do mar, quem tomou conta oficial dos barcos e do comércio pelas costas marítimas foram os persas e árabes, crentes do Islão.

Navegações transoceânicas

Já o primeiro imperador da dinastia Ming (1368-1644) investindo nos camponeses, retirou durante trinta anos a China do mar e proibiu todas as embarcações de saírem do país. Desde a fundação desta dinastia Han “a grande preocupação era a defesa contra qualquer tentativa restauradora da dinastia derrubada, a Yuan e por esta razão, toda a defesa militar chinesa se concentrou no Norte, nas fronteiras com os Mongóis”, segundo Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.

Com o fim da dinastia dos mongóis, a China perdeu a estrada que a ligava pelo continente euro-asiático ao outro lado do mundo. E foi mais uma vez pelas rotas marítimas, que também a dinastia chinesa Ming conseguiu reabrir-se ao mundo entre 1405 e 1433. Directamente, sem terra à vista, usando a bússola marítima navegou milhares de milhas náuticas até à costa Leste de África. Às ordens de Yong Le (o Imperador Zhu Di, o terceiro da dinastia Ming) ocorreram seis, das sete viagens marítimas transcontinentais da armada do Almirante Zheng He, eunuco muçulmano que para a primeira viagem contou com uma tripulação de 27800 homens, distribuída por sessenta e dois grandes juncos, os barcos do Tesouro e 255 embarcações mais pequenas, transportando mais de um milhão de toneladas de mercadoria, desde tecidos de seda, porcelana, chá e moedas de cobre. Entre essas trezentas embarcações havia barcos jardins onde as hortas eram cuidadas para fornecer alimentos frescos à tripulação imperial. Era uma visita de anúncio da nova dinastia na China aos tributários reinos e países suseranos, que se reconheciam vassalos pelo poder da erudição e qualidade artística dos produtos chineses.

Apesar de haver algumas comunidades chinesas espalhadas até à Índia, Rui Manuel Loureiro refere que por volta de 1430, a dinastia Ming desencorajou “abertamente quaisquer ligações marítimas de chineses com o estrangeiro, instituindo penas severas para os infractores, que no entanto, nunca deixaram de se multiplicar”.

Após as Sete Viagens Transcontinentais do Almirante Zheng He, a dinastia Ming voltou a fechar-se para o interior e abateu a sua armada costeira. Desprotegidas as costas marítimas, os mares da China voltaram a encher-se de piratas ainda antes dos portugueses entrarem no Oceano Pacífico.

A questão de Macau

Os portugueses chegaram à China em 1513 e vieram integrados como mercadores tributários provenientes de Malaca, suseranos do Imperador da China, enquanto era sultanato. Episódio, que mais tarde actuará como lenha para a Embaixada de Tomé Pires, aliado aos desmandos de alguns portugueses, que sem se importar onde se encontravam, como piratas actuavam e assim engrossavam com os wako (piratas japoneses) a pirataria do Mar do Sul da China. Após duas batalhas navais em que os barcos portugueses são derrotados pelos chineses, fica-lhes interdita Cantão, local das feiras de seda.

Segundo Victor F. S. Sit, “Em 1522, o governo da dinastia Ming voltou a decretar a interdição do comércio marítimo. Foram fechados os portos, destruídos os navios e proibidas quaisquer saídas ao mar.”

Nos primeiros anos da década de quarenta do século XVI, completamente fora de lei passaram os portugueses a navegar pelo Mar do Leste e aí, entre Zhejiang e Fujian, encontravam-se a negociar as sedas com os chineses e a transaccioná-la por prata aos japoneses, tendo a 23 de Setembro de 1543 os portugueses chegado pela primeira vez ao Japão, mais propriamente a Tanegashima.

Desde 1550, o comércio português com o Japão tornou-se monopólio régio, feito pela Nau Preta, assim conhecida pelos japoneses. Para aí se realizava a viagem da Nau do Trato a partir de Goa, via Malaca e nas ilhas da província de Guangdong abastecia-se de seda. Trato ainda fora de lei, com chineses pelos deltas dos rios Xi e Zhu, ou nas ilhas de Sanchoão (Shangchuan) e como entreposto último, Lampacau (Langbai) de onde os mercadores portugueses se mudaram definitivamente para Macau em 1557. Já com a feira de Cantão aberta aos portugueses, chegava a seda a Macau e em preciosos tecidos era daí embarcada, para o Japão, ou Portugal.

Assim “Macau começou a ser (em 1557) um entreposto para o comércio português entre Malaca e o Japão”, como referem Jin Guo Ping e Wu Zhiliang: “o desenvolvimento desse comércio traria, mais cedo ou mais tarde, a praga da pirataria a Macau e a Guangdong. Após a repressão de alguns grupos de piratas chineses nas águas de Guangdong e instalados os Portugueses em Macau, as autoridades de Guangdong começaram a tentar resolver o problema dos Japoneses. Antes de mais, uma autorização de residência concedida aos Portugueses em Macau poderia obrigá-los a não se associarem publicamente aos piratas japoneses. De facto, sem os fixar num lugar, como se poderia sujeitá-los à legislação chinesa? Mais tarde, seriam tomadas medidas legais para proibir os Portugueses de ter Japoneses ao seu serviço. Através desta medida de acomodação dos Portugueses em Macau, foram conseguidas, a nível militar, duas vitórias: a rápida repressão dos piratas chineses e o impedimento de qualquer ligação pública entre os Portugueses e os piratas japoneses”.

22 Jul 2016

A Bolsa no comércio marítimo português

No artigo O Lavrador do Mar Português, publicado neste jornal no dia 9 de Outubro de 2015, tratamos sobre a navegação portuguesa, desde o primeiro rei de Portugal até D. Dinis. Agora aqui completamos esse assunto, levando a História até ao final da dinastia Afonsina, apresentando quem preparou a entrada dos portugueses no Oceano Índico.
Segundo Vitorino Nemésio: “Desde o século XII havia trocas com Bruges, e logo com centros de vulto espalhados por França e Inglaterra. D. Sancho I recebia direitos de panos descarregados no Porto, e, pelo menos um século depois, a seda e o linho abretanhado, os bordados a ouro e as plumas ocupavam os almotacéis (oficiais que fiscalizavam a venda nos mercados). Os mercadores portugueses gozam de isenções especiais em portos do Norte da Europa, e em Maio de 1293 têm regiamente confirmada a sua primeira bolsa. Cada armador que tivesse navio a largar para Inglaterra, Flandres, Normandia ou Bretanha contribuía para um duplo depósito em numerário em Portugal e em Flandres, a fim de cobrir pleitos, perdas e outros percalços. Com isto a construção naval desenvolve-se”.
Depois de um território continental conquistado e dos problemas nacionais resolvidos, Portugal rumou para o mar, enquanto os seus vizinhos ainda separados em reinos cristãos (Astúrias, Leão, Narrava, Castela e Aragão) continuavam na árdua tarefa de expulsar os mouros da Península Ibérica, luta por vezes interrompida para se guerrear entre eles.

Almirantado

“A conquista de Marrocos constituiu, sem qualquer dúvida, o primeiro projecto expansionista português, uma vez terminada em 1250 a reconquista do Algarve, de que era o prolongamento natural” como Luís Filipe Thomaz na sua obra De Ceuta a Timor escreve a partir do que diz o Padre A. J. Dias Dinis. Ainda “em meados do século XIII já se documenta em Lisboa o e a existência de mestres e carpinteiros navais”, adita Vitorino Nemésio.
“Em finais de Trezentos, a estrutura naval portuguesa acusava algumas centenas de marítimos, entre quadros e pessoal subalterno, possibilitando o lançamento das mais variadas empresas: guerra ofensiva, guerra defensiva, fossados de mar, corso, pirataria, empreendimentos comerciais, etc.” como refere Oliveira Marques. Segundo Luís de Albuquerque, foi estabelecido em 1293 o “contrato entre os mercadores e confirmado por D. Dinis, criando como que um banco de comércio para apoio das relações, que eles mantivessem com os entrepostos comerciais de além-mar.
“Um dos sinais da importância crescente da guerra marítima foi a organização do almirantado, cujas primeiras notícias remontam a 1288, com um tal Domingos Martins à sua cabeça. De 1307 a 1316 foi almirante Nuno Fernandes Cogominho,” como refere Oliveira Marques e Maria Fernanda Espinosa Gomes da Silva adita, “tendo morrido Nuno Fernandes Cogominho, primeiro detentor do título de almirante-mor”, “a escolha recaiu em Manuel Pessanha, homem de grande experiência marítima e também comercial, pois as duas actividades estavam, para um italiano do século XIV, naturalmente ligadas. O novo almirante possuía úteis conhecimentos, não só em Itália, como em Inglaterra, onde, ao serviço de Eduardo II se encontravam dois seus irmãos, Leonardo e António.” O acordo com D. Dinis “consignava a hereditariedade do cargo na família Pessanha. Quando deixasse de haver sucessor legítimo e apto para o ofício, este voltaria à coroa.” Assim em 1 de Fevereiro de 1317, o genovês Manuel Pessanha (Pezagno) foi contratado pelo Rei D. Dinis como Almirante mor para reorganizar por completo a frota da “marinha portuguesa, convertendo-a em instrumento eficaz de guerra no mar”, Oliveira Marques. “Por outro lado, os vassalos corsário e todos os outros alcaides e arrais das galés existentes passavam a ficar sob as ordens do Almirante”, segundo António Borges Coelho.
Em 1325 morreu D. Dinis e sucede-lhe o filho D. Afonso IV, com o cognome O Bravo, que reinou entre 1325 a 1357. Altura em que se estabelecem “em Lisboa permanentemente mercadores florentinos, genoveses, prazentins, milaneses, escorcins, catalães, biscainhos e ingleses”, segundo António Borges Coelho.
O genovês Manuel Pessanha serviu também como Almirante no início do reinado de D. Afonso IV, sendo preso pelos castelhanos, conjuntamente com o seu filho primogénito Carlos em 1337, num combate naval junto ao Cabo de S. Vicente. Foram libertados dois anos mais tarde, quando Portugal e Castela fizeram as pazes, tendo Afonso XI de Castela solicitado em 1340 o auxílio naval português contra os mouros em Cádis, onde os cristãos derrotaram uma armada de oitenta galés dos reis muçulmanos de Granada e Marrocos. De salientar que o Almirantado foi concedido sem interrupção aos membros da família Pessanha até ao reinado de D. Afonso V, apesar de como refere Maria Fernanda Espinosa Gomes da Silva se saber “que pelo menos desde o reinado de D. João I, os almirantes não mantinham os vinte genoveses estabelecidos, pelo que o rei se declarava desobrigado da tença de 300 000 libras que então lhe era reclamada”.

Início dos Descobrimentos

Segundo uma carta de 1341 ao Papa Clemente VI, o Rei D. Afonso IV diz ter enviado uma esquadra (capitaneada por Nicolau de Recco) a explorar as Ilhas Canárias em 1336, marcando essa data o início das descobertas portuguesas. Tal iniciou um longo diferendo com Castela. Refere Vitorino Nemésio, “O incremento da vida marítima acentua-se com as pretensões de D. Afonso IV às Canárias”.
A 30 de Outubro de 1340, ocorreu a Batalha do Salado onde os merinidas de Marrocos e de Granada são derrotados pelo Rei de Castela e Leão, Afonso XI e o de Portugal, Afonso IV, que uniram esforços, tendo sido a última tentativa de os mouros reconquistarem a Península Ibérica. No ano seguinte, o Papa Bento XII elogiava “a gente portuguesa . É tão competente que em Julho desse mesmo ano (1341) uma armada florentina, genovesa, castelhana e portuguesa partia de Lisboa em direcção às Canárias aprisionando alguns habitantes e apropriando-se de peles de cabra, cebo, óleo de peixe e pau vermelho para tingir”, como refere António Borges Coelho.
O Rei D. Pedro I (1357-1367), o Justiceiro, em 1363 investiu o seu filho bastardo D. João, futuro D. João I, como Mestre da Ordem de Avis, criada por bula papal em 1319. Com as providências oficiais de D. Fernando, houve o incremento da vida marítima, “de uma maneira economicamente orgânica” como refere Vitorino Nemésio. “É ele que destina gratuitamente as madeiras reais para os navios de certo bojo, ele que isenta de impostos a entrada de material, as encomendas de navios no estrangeiro, as cargas da primeira viagem e metade das da volta; ele enfim que, com pequenas ressalvas, dá ao serviço náutico o mesmo valor do serviço militar e favorece as parcerias de investimento naval.”
A importância dos homens do mar para o Rei D. Fernando (1367-1383) está bem explícita na lei de 6 de Junho de 1377 pois, “outorga aos mercadores de Lisboa que quiserem fazer naus de 100 tonéis para cima, importantíssimos privilégios que estenderá depois aos armadores de Lisboa e Porto que construam navios com mais de 50 tonéis. Podiam talhar madeira nas matas reais de graça e sem embargo. A madeira, ferro e fulame importado ou os navios comprados não pagam dízima. Concede-lhes os direitos da primeira carregação para o estrangeiro e metade da dízima de todos os panos e mercadoria que tragam de Flandres ou França na primeira viagem de retorno”, segundo António Borges Coelho.

A burguesia mercantil

“A bolsa de mercadores protegida por D. Dinis é por D. Fernando alargada ao seguro marítimo na Companhia das Naus, com peritos da régia confiança propostos ao seu bom funcionamento e uma bolsa em Lisboa e outra no Porto para arrecadarem as percentagens devidas sobre os fretes. Assim se reparavam naufrágios e avarias, tanto de temporais como de corso. Os segurados ficavam inclusivamente protegidos contra execuções iníquas, sujeitando-se os próprios navios da Coroa ao pacto comum.
Do acréscimo desta actividade resultou uma burguesia mercantil progressivamente poderosa. É ela que aconselha D. Afonso IV na legislação tributária; é dela que saem alguns enviados a Inglaterra no tempo de D. Dinis e depois, para concertarem partes comerciais desavindas e esboçarem convénios de trocas, como o tripeiro Afonso Martins Alho, que prepara o primeiro tratado com a Inglaterra, firmado a 20 de Outubro de 1353. Enfim, a revolução de 1383, triunfante com o Mestre de Avis, consolida o papel da burguesia mercante nos negócios do Estado”, Vitorino Nemésio.
Segundo refere Artur Teodoro de Matos, o prejuízo que a conquista de Ceuta trouxe para o grupo mercantil foi grande. “Aliás, tal asserção é também reforçada por Zurara quando diz que o rei, para financiar a empresa, se apropriara de navios e mercadorias disponíveis e explorara, por dois anos, o comércio com a Inglaterra e a Flandres”.
Nos dez anos de regência de D. Pedro II (1439-1449), voltou-se a investir na navegação, atingindo-se o Cabo Branco e o Golfo de Arguim, onde os portugueses fizeram uma feitoria.

15 Jul 2016

Vasco da Gama parte para a Índia

Hoje, dia 8 de Julho, comemora-se a partida de Vasco da Gama para a Índia ocorrida em 1497.
No ano em que Bartolomeu Dias partia por mar, para desfazer “as ideias de Ptolomeu, que concebia o Atlântico e o Índico como mares interiores e sem qualquer comunicação entre si”, segundo refere Luís de Albuquerque, saía a 7 de Maio de 1487 de Santarém, Pêro da Covilhã. Se com a missão cumprida Bartolomeu Dias chegou a Lisboa em Dezembro de 1488, também Pêro da Covilhã, com todas as informações registadas, entregou-as em 1491 no Cairo ao mercador José de Lamego, que logo seguiu para Portugal levando-as em carta ao Rei D. João II. Desta constava o relato sobre os portos das especiarias por ele visitados, as técnicas de navegação no Oceano Índico e as rotas dos barcos comerciais muçulmanos com quem seguiu até Sofala. Confirmava que contornando a África se poderia chegar à Índia e não poder ser o Preste João outro que não o rei da Abissínia.
Em 1492, com essas informações de Pêro da Covilhã sobre o Mar Arábico e comércio muçulmano entre o porto de Sofala e a Índia, e após a viagem de Bartolomeu Dias, para se atingir a Índia faltava apenas a navegação entre o Rio do Infante e Sofala.
A Espanha começara em 1479 com o casamento do Rei Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os mais poderosos reinos católicos da Península Ibérica. Entretanto, o genovês Cristóvão Colombo, que estivera sempre ao serviço da marinha portuguesa e expusera o seu projecto ao Rei D. João II, mas face à recusa, ofereceu os seus préstimos aos Reis Católicos. Conquistada Granada aos muçulmanos Omíadas em 1492, partiu Cristóvão Colombo ao serviço de Espanha e navegando para o Ocidente, chegou ainda nesse ano à América Central, anunciando no regresso ter chegado às Índias. Era sim um novo mundo, até então desconhecido para os europeus.
Em 1493, o Papa Alexandre VI estabeleceu um meridiano a Ocidente de Cabo Verde cabendo a Portugal as descobertas a Leste do mesmo e a Castela as de Oeste. D. João II assentou directamente com os Reis Católicos o meridiano a dividir as zonas de influência dos dois povos peninsulares, desviando-o mais para Oeste de Cabo Verde, o suficiente para abranger no espaço português o nordeste do Brasil. Em 1494, com esta linha divisória, foi assinado o Tratado de Tordesilhas.
À caravela juntou-se em 1497 a nau e mais tarde o galeão. Segundo Veríssimo Serrão, “Como a estrutura da caravela não garantia o êxito de uma viagem de tamanho alcance, deu-se preferência a embarcações de maior equilíbrio e robustez para vencer as intempéries do oceano. Por isso se utilizaram naus de três mastros, com a vela triangular na mezena e pano redondo com duas quadrangulares nos mastros do meio e da proa. Tratava-se de uma inovação náutica que assegurava melhor os objectivos científicos que a viagem pressupunha”.

Vasco da Gama parte para a Índia

No prosseguimento das viagens encetadas, D. João II escolhe Estêvão da Gama para chefe da expedição por via marítima para a Índia. A 25 de Outubro de 1495 morreu o Rei e a 27 do mesmo mês subiu ao trono D. Manuel I, que decidiu continuar com o plano dos Descobrimentos. Tendo, entretanto, falecido Estêvão da Gama o rei encarregou Vasco da Gama, filho de Estêvão.
Veríssimo Serrão refere, ” Entregando a chefia da frota de 1497 a Vasco da Gama, a coroa nomeava pela primeira vez um fidalgo da Casa Real, a quem concedia um estatuto idêntico ao de embaixador extraordinário. O comandante nascera em Sines pelo ano de 1469, sendo o terceiro filho de D. Estêvão da Gama e, dado da maior importância, um homem da criação do rei D. Manuel I quando era ainda duque de Beja. Vasco da Gama substituía assim o progenitor, a quem o rei D. João II pouco antes de morrer dera o encargo de chefiar a grande expedição. Mas tanto a morte do Príncipe Perfeito como a do alcaide-mor de Sines tornaram inviável o projecto que D. Manuel I se apressou a executar”.
Vasco da Gama partiu a 8 de Julho de 1497 da praia do Restelo (Lisboa) com uma armada de quatro naus, após ter assistido junto com outros comandantes, tripulação, rei, fidalgos e povo a actos religiosos na ermida de Santa Maria de Belém.
“A frota era constituída pelas seguintes embarcações: a nau capitã S. Gabriel, onde embarcou Vasco da Gama; a S. Rafael, do comando de seu irmão Paulo da Gama, ao que se crê, com responsabilidades idênticas de mando; a Bérrio, confiado ao experiente nauta Nicolau Coelho; e um pequeno navio de mantimentos. Com um total de 148 homens, faziam parte da guarnição os pilotos Pêro de Alenquer e Álvaro Velho, homens adestrados na navegação atlântica, sendo também acompanhada por Bartolomeu Dias…”, V. Serrão.
Como rota habitual a frota passou pelas Canárias e em Cabo Verde, desembarcaram na ilha de Santiago, a 27 de Julho. “Ali fizeram aguada, repararam as velas e tomaram mantimentos (carne, água e lenha) para troço seguinte da viagem, porventura o mais decisivo para o êxito da expedição”. V. Serrão. Uma semana depois, saindo de Cabo Verde, a armada aproximou-se da Serra Leoa, para apanhar os ventos alísios adequados à navegação com naus. Aí se separou a caravela comandada por Bartolomeu Dias, que se dirigia a São Jorge da Mina, onde existia uma fortaleza e feitoria para comércio com as gentes da região.

O caminho marítimo para a Índia

A frota “seguiu, a 3 de Agosto, uma rota nunca antes praticada ou de que, a ter havido experiências anteriores, não chegaram quaisquer provas. (…), a armada tomou o caminho ainda hoje conhecido por , embrenhando-se por meio do Atlântico para evitar as correntes desfavoráveis do oceano. Três meses ficaram as quatro naus sem contacto com a terra, aproximando-se da costa brasileira e, descendo mais para o Sul, para tentar que os ventos do oeste as conduzissem à costa africana”. O almirante Gago Coutinho “definiu essa travessia como , o que punha a navegação portuguesa, prestes a abrirem-se as portas do século XVI, na vanguarda técnica da ciência naval.
O encontro com o litoral africano deu-se a 4 de Novembro, 120 dias passados sobre a partida do Tejo, quando Vasco da Gama ancorou na baía de Santa Helena, 30 léguas a norte do cabo da Boa Esperança. Ali fizeram a aguada e três semanas depois passavam, sem qualquer perigo, a ponta meridional da África. Dali seguiram para o rio de João Infante, limite da viagem que Bartolomeu Dias realizara um decénio antes. Mas já então escasseavam os mantimentos, começando alguns nautas a sofrer os efeitos do mal do escorbuto”, V. Serrão. Mas segundo Carlos Carrasco, “A 7 de Novembro alcançaram a baía de Santa Helena, já próximo do cabo, onde fundearam no dia seguinte. A 16 partiram e seis dias depois, após duas tentativas frustradas, passaram o cabo da Boa Esperança, fundeando na angra de S. Brás, onde destruíram o navio dos mantimentos, divididas que foram as suas reservas”.
Vasco da Gama só em 22 de Novembro de 1497 dobrou o Cabo de Boa Esperança e a 25 de Dezembro aportou no Sul da costa oriental africana tendo atribuído o nome de Natal àquela zona. Em 6 de Janeiro de 1498 descobriu Angra dos Reis e a 11 de Janeiro “a expedição ancorou no rio baptizado por Cobre, onde os nativos lhe fizeram tal acolhida que a terra passou a chamar-se da Boa Gente, que hoje corresponde a Inhambane. Onze dias depois chegavam ao rio dos Bons Sinais, mais tarde Quelimane, onde Vasco da Gama mandou colocar um padrão com o nome de São Rafael. A esquadra passou depois ao largo de Sofala e na quinta-feira 1 de Março avistou a terra e ilhas de Moçambique. O comandante esperava poder ali receber o apoio de um piloto para o ajudar na travessia do Índico. Mas os dois que foram indicados a Gama fugiram da armada no dia 7 de Abril, quando ela ancorou no porto de Mombaça. Também nesta cidade não se tornou possível obter a indispensável colaboração náutica, pois o piloto negro escolhido para o efeito concebeu o projecto de afundar a esquadra portuguesa”, segundo refere V. Serrão.
Chegados à Ilha de Moçambique a 2 de Março, atingiram Mombaça a 7 de Abril e Melinde a 13, ou no sábado 14. Nas primeiras duas cidades sofreram ciladas enquanto em Melinde foram bem recebidos. Segundo V. Serrão, o monarca de Melinde “foi ao ponto de colocar à disposição de Vasco da Gama o famoso Ibn-bem-Madjid, piloto árabe com larga experiência em rotas do oceano Índico. Era a estação oportuna para concluir a ligação com o Malabar, devido à monção de sudoeste que então se fazia sentir de apoio à navegação. O autor do Roteiro Antónimo esclarece: A travessia fez-se sem qualquer dificuldade, sempre com o vento à popa na direcção de sudoeste para nordeste. Tendo deixado Melinde a 24 de Abril, bastaram 23 dias de travessia para a frota, a 18 de Maio, avistar a terra da Índia”. Estava aberto o tão desejado caminho marítimo para a Índia, ligando-se pela Rota do Sul a Europa Ocidental com a Ásia.
A Calecut chegou Vasco da Gama a 20 de Maio de 1498, e foi inicialmente bem recebido pelo Samorim, a quem entregou as cartas do Rei de Portugal (D. Manuel I). Porém, este, influenciado pelos rumes (turcos), mudou de comportamento e começou a hostilizar os portugueses. Gama, não tendo meios militares para ripostar, levantou ferro a 29 de Agosto, ergueu depois um padrão entre Banacor e Baticala, fundeou em Angediva e a 15 de Outubro rumou para Lisboa. “Com dificuldades na travessia do Índico e durante a qual a nau S. Rafael (que teria sofrido um rombo) teve de ser destruída em Mombaça, . Já em Cabo Verde, Vasco da Gama, tendo o irmão doente, fretou uma caravela com que chegou aos Açores, falecendo Paulo da Gama na Ilha Terceira”, Carlos Carrasco.
Para transmitir a boa nova do caminho marítimo, Vasco da Gama enviara à frente a Bérrio sob o comando de Nicolau Coelho, que chegou a 9 de Julho de 1499. Amargurado com a morte do irmão e após o ter sepultado naquela ilha, Vasco da Gama partiu a 29 daquele mês e chegou a Lisboa a 18 Setembro, tendo sido recebido solenemente com as maiores honras e toda a pompa pelo Rei D. Manuel e sua corte, para o cumular de honras e benefícios.
“O carregamento de especiarias cobriu largamente os custos da expedição. Tinha-se aberto para a coroa portuguesa a época do monopólio do comércio oriental”, segundo Veríssimo Serrão e Oliveira Marques complementa, “Na primeira expedição de Vasco da Gama à Índia, em 1497-1499, morreram 63 % dos tripulantes: de 148 só voltaram 55”.
No Restelo, de onde Vasco de Gama partiu, ficou a assinalar o evento o Mosteiro dos Jerónimos mandado construir pelo rei em honra de Nossa Senhora de Belém.

8 Jul 2016

Do Atlântico Fenício ao Cabo das Tormentas

A porta do Oceano Atlântico para o Índico foi reaberta em 1488 por Bartolomeu Dias, que lhe chamou Cabo das Tormentas. Passado doze anos, o destino deu-lhe razão! Aí morreu em 1500, aquando da sua viagem na frota de Pedro Álvares Cabral, já o nome tinha sido mudado por D. João II, para Cabo da Boa Esperança. Foi com muitas mortes que se aprendeu os tempos certos de entrada no Oceano Índico, após a aprendizagem feita no revoltoso Atlântico.
Segundo Joaquim Veríssimo Serrão em Portugal e o Mundo: “As frotas que iam regularmente a devassar o Atlântico, para a descoberta de novas ilhas e terras, tinham como capitães homens adestrados nos caminhos do oceano, portanto técnicos da ciência naval que cumpriam missões de carácter exploratório marítimo. Assim sucedeu com os maiores nomes da navegação quatrocentista de Portugal, desde Gil Eanes, descobridor do cabo Bojador, a Nuno Branco, que atingiu, pela primeira vez, o cabo Branco; desde João de Santarém e Pêro Escobar, que descobriram o arquipélago de São Tomé e Príncipe, a Rui de Sequeira a quem se deve a abordagem ao cabo Catarina; desde Diogo Cão, que chegou ao rio Zaire e atingiu o litoral de Angola, a Bartolomeu Dias, protagonista da temerária empresa de ultrapassar o cabo da Boa Esperança. Eram todos comandantes de navios e experientes na arte náutica, a quem a coroa atribuía o encargo de avançar o processo dos Descobrimentos, no que se atribui ao infante D. Henrique, o primeiro orientador da expansão atlântica”.
Partira Bartolomeu Dias de Lisboa em 1486 e no Sul do continente africano sofreu um violento temporal, andando à deriva com o mar encapelado e ondas alterosas. Procurou costa para Leste, mas só encontrou mar. Rumou para Norte e descobriu terra, navegando depois pela costa Oriental de África até ao chamado Rio do Infante. Devido ao temporal sofrido apelidou-se aquele promontório de Cabo das Tormentas. Bartolomeu Dias só chegou a Lisboa em Dezembro de 1488.

Os Fenícios pelo Atlântico

Os fenícios navegavam por todo o Mar Mediterrâneo no século X a.C., tendo-se aventurado depois pelo Oceano Atlântico. O rei fenício Hirão estabeleceu um acordo com Israel, para desenvolver o comércio. Assim, o auxílio a Israel com conhecimentos técnicos permitia aos fenícios o acesso ao Mar Vermelho. Com madeiras de cedro vindas da Fenícia (actual Líbano), construíram-se barcos de longo curso que, do porto de Asiongáber (talvez a actual cidade de Elath), no Golfo de Áqaba, partiram para expedições comerciais.
Os fenícios descobriram a utilidade da Estrela Polar para a navegação. Consta que no século VIII a.C., deram a volta a África, de Oriente para Ocidente, ao serviço do faraó Necao II. Descrita no século seguinte por Heródoto, a viagem que durou três anos, fez-se navegando para Sul ao longo da costa Oriental de África e regressou ao Egipto pelo Mediterrâneo. Com o tempo esta viagem perdeu-se da memória. O mesmo aconteceu ao navegador cartaginês, Hanon, que segundo Bartolomeu de Las Casas, transpôs o Cabo Hespéridas, mas outras fontes revelam que essa expedição de sessenta barcos, iniciada em 470 a.C. (ou 520 a.C.), teria saído de Gibraltar e desta vez pelo Ocidente navegou para criar colonatos pela costa Ocidental de África. Fundaram um entreposto na foz do Rio do Ouro, mas ao atingir as costas do actual país Camarões, aí encontraram um mar de fogo e por isso, não prosseguiram.
Os cartagineses visitavam com regularidade as costas da Península Ibérica e a céltica, indo à Cornualha para adquirir estanho. Já os gregos, para além do Mediterrâneo, tinham relações com os povos do Oceano Índico através do Mar Vermelho e da Península Arábica.
Alexandre da Macedónia usou os fenícios quando ocupou a Mesopotâmia e os conhecimentos marítimos deles para estabelecer colónias no Golfo Pérsico e em 323 a.n.E., quando morreu, o seu legado manteve-se Selêucida pela Ásia Central e no Egipto, com a dinastia dos Ptolomeus. A Ásia Central apresentava-se dividida, com os partos a separarem-se logo em meados do século III a.n.E. e no Oriente, com o reino da Báctria.
É com este panorama que no século II os chineses e romanos vão procurar encontrar-se pelo mar. Os romanos chegavam à China e os chineses andavam pela Pérsia a procurar conhecer os caminhos pelo mar para atingir o Mediterrâneo.
Assim, mais de dois mil anos antes da viagem de Bartolomeu Dias, já os fenícios tinham dobrado o Cabo que trouxe a Esperança aos portugueses. Daqui se percebe o legado dos fenícios para a navegação do Atlântico.

Preparação para navegar no Índico

Corria o ano de 1291, em Portugal reinava D. Dinis (1279-1325), O Lavrador, quando dois irmãos genoveses, Ugolino e Vadino Vivaldi, partiram no mês de Maio em uma ou duas galés de Génova no Mar Mediterrâneo. Tendo o promotor da viagem “Tedisio Doria, pertencente à burguesia endinheirada genovesa, que contraiu empréstimos avultados, já que se previa para a expedição um prazo de anos. Sabe-se que a viagem, depois de escalas em Maiorca e Ceuta, prosseguiu para sul, para lá do estreito de Gibraltar, até aproximadamente à latitude do cabo marroquino de Rhir (Guer), um pouco a norte de Agadir. Contudo, a partir daí, tudo se desvanece em conjecturas”, segundo A. H. de Oliveira Marques. Já outras fontes referem terem eles se aventurado a navegar pelo Atlântico, fizeram escala nas Canárias e seguindo para Sul, na tentativa de dobrar o continente africano e chegar à Índia, desapareceram. Estava na memória ainda fresca esta viagem, que o Rei D. Dinis seguramente tomara conhecimento e por isso, a organização do almirantado, cujas primeiras notícias remontam a 1288, com um tal Domingos Martins. Em 1317, o genovês Manuel Pessanha (Pezagno) foi contratado por D. Dinis como Almirante mor para reorganizar por completo a frota da marinha portuguesa.
Após a morte deste rei em 1325, sucedeu-lhe o seu filho D. Afonso IV, que governou Portugal entre 1325 a 1357. “Entre 1329 e 1336 os Portugueses, quer por iniciativa régia quer por resolução do almirantado, organizaram uma primeira expedição que alcançou o arquipélago das Canárias, visitando, pelo menos, Lanzarote e Fuerteventura com as ilhotas adjacentes”, segundo A. H. de Oliveira Marques que refere: “O arquipélago das Canárias era conhecido desde longa data, tendo sido povoado talvez em finais do IV milénio a.C. a partir de África, por povos etnicamente aparentados com os Berberes, a que se seguiram outras vagas de invasores nos III e II milénios a.C.. Depois, tanto Fenícios quanto Gregos e Romanos o devem ter conhecido e eventualmente escalado, atribuindo-lhe a designação de Ilhas Afortunadas (Fortunatae Insulae), com que passou à lenda”. O Rei D. Afonso IV diz ter enviado uma esquadra capitaneada por Nicolau de Recco a explorar as Ilhas Canárias em 1336, marcando essa data o início das descobertas portuguesas.
Os barcos usados pelos portugueses nas suas viagens marítimas foram evoluindo e se até 1436 se navegava em galés, nessa data apareceu a caravela, uma invenção portuguesa, produto de muito estudo e prática passada no mar, que permitiu navegar no alto-mar e em todos os oceanos. Era a embarcação mais adequada devido a ser ligeira com pequena calagem e facilidade de manobra, que não precisava de um grande número de homens.

Pêro da Covilhã e o Mar Arábico

Reinava já D. João II (1481-1495), quando este rei convocou Pêro da Covilhã dando-lhe uma secreta missão. Constava em ir até à Índia, saber de onde vinham as especiarias, de conhecer os métodos de navegação usados no Mar Arábico, as rotas comerciais muçulmanas e as ligações com a costa Oriental de África. Afonso Paiva, que acompanharia Pêro da Covilhã até ao Egipto, levava como missão entrar na Abissínia e encontrar-se com o Preste João.
Saíram de Santarém a 7 de Maio de 1487, ano em que Bartolomeu Dias partia por mar para dobrar o Cabo das Tormentas. Passando por Lisboa seguiram por terra até Barcelona, depois foram a Nápoles e daí continuaram até à ilha de Rhodes. Entraram disfarçados em território islâmico. Pêro da Covilhã falava árabe por ter vivido em Sevilha durante a sua juventude e o seu conhecimento da cultura muçulmana aliado ao aspecto físico, semelhante aos homens do Norte de África, permitiu-lhe confundir-se com os povos que a partir daí foi visitando. Disfarçados de mercadores de mel entraram em Alexandria, onde adoeceram e só de lá saíram quando se restabeleceram. Depois seguiram para o Cairo, onde Pêro da Covilhã encontrou comerciantes de Tremezém seus conhecidos, com quem continuaram viagem, já no ano de 1488 pelo Suez, até à cidade de Toro (ou Tur), na costa ocidental da península do Sinai. Daí atravessaram o Mar Vermelho e chegaram a Suaquém, na costa africana. No Verão de 1488, em Adém, Pêro da Covilhã separou-se de Afonso Paiva, com quem combinou uma data para se voltarem a encontrar no Cairo, quando cada um tivesse acabado de executar a sua missão.
Agora sozinho, Pêro da Covilhã foi o “primeiro” português a visitar a Índia. Desembarcou em Cananor, a terra do gengibre. Passou depois por Calicute, de onde eram exportadas a pimenta e outras especiarias para a Europa, nos barcos muçulmanos. Em 1489 vai a Goa, daí partindo pelo Mar Arábico até Ormuz, talvez integrado numa hajj, peregrinação a Meca. Nos finais de 1489 estava em Sofala, com mercadores muçulmanos e ficou a conhecer o local mais distanciado nas costas Orientais de África onde os barcos muçulmanos chegavam para comerciar. Era o primeiro europeu a visitar Sofala.
Com tudo registado e a missão cumprida, Pêro da Covilhã voltou a Adém em 1489 e no ano seguinte estava em Toro, chegando de novo ao Cairo em 1491, onde tinha combinado encontrar-se com Afonso Paiva. Aí ficou a saber, por dois emissários que D. João II tinha enviado à sua procura, da morte do companheiro. Entregando o que registara da sua viagem pelo Mar Arábico, desde Sofala, na costa Oriental de África, até ao Sul da Índia, partiu depois para a Etiópia, a fim de concluir a missão que o rei de Portugal dera a Afonso Paiva, mas daí, onde de novo se casou, nunca mais saiu.
Assim, para se atingir a Índia faltava a navegação entre o Rio do Infante e Sofala, apesar de constar que após 1488 e depois da viagem de Bartolomeu Dias ter passado o Cabo das Tormentas e chegado à costa Oriental da África, outras tinham sido secretamente realizadas, tendo conseguido viajar ainda mais para Norte. Sobre o Mar Arábico, D. João II tinha já desde 1492 as informações de Pêro da Covilhã sobre o comércio entre o porto de Sofala e a Índia.

1 Jul 2016

Especial 24 de Junho | A mãe de todas as batalhas

Decidiu-se nesse dia a sorte deste território. Para o bem e para o mal. Os holandeses perderam. E lá se foram as socas, o calvinismo e as tulipas. Ficou o vinho, o bacalhau, os jesuítas e o macaense. Foi um milagre

Para falar do dia 24 de Junho de 1622, ninguém melhor que C. Boxer com esta excelente síntese: “A ideia dum ataque holandês contra Macau datava já de muito antes de 1622. Pondo de parte as visitas hostis feitas por naus ou galeões holandeses em 1601, 1603 e 1607, que não eram, afinal, destinadas para ocupar a colónia à mão armada, a malograda tentativa de 1622 tinha a sua origem no estabelecimento dos holandeses no Japão, doze anos antes.”

A Companhia Holandesa das Índias Orientais, a VOC (Verenigde Oost-Indische Compagnie) foi criada em 1602, dois anos depois de formada a Companhia Inglesa das Índias Orientais e tinha sede em Amesterdão, onde em 1609 foi criado o Banco de Amesterdão para apoiar o comércio colonial. A Companhia cria o conceito actual de acções quando em 1610 divide o seu capital em quotas iguais e transferíveis em Bolsa. O objectivo era excluir os competidores europeus daquela rota comercial e o alvo eram então os portugueses, que se encontravam sob domínio espanhol e eram detentores dos melhores portos estrategicamente colocados na Rota Marítima da Seda. Entre 1609 e 1621, houve um período de tréguas entre holandeses e a Espanha, embora mal guardadas no Oriente, pois nunca os holandeses abandonaram a ideia de conquistar Macau. Quando os doze anos de tréguas expiraram em 1621, o então Governador-Geral holandês em Batávia, o celebrado Jan Pieterszoon Coen, resolveu fazer uma grande expedição, destinada a pôr termo à questão, pela tomada da Cidade de Santo Nome de Deus na China.

A Macau chegava a seda crua comprada na feira de Cantão e tão necessária aos holandeses para conseguir no Japão substituir os mercadores portugueses. Por isso era local apetecível e preferencial para dominar o Mar da China, pois Malaca, praça que controlava a passagem dos barcos do Índico para o Pacífico, estava bem fortificada com a Famosa. As praças portuguesas estavam todas em sobressalto com a possível chegada das armadas, ou inglesas ou holandesas.

Invasão Holandesa, petisco na mesa

Sabiam os holandeses que se conseguissem conquistar Macau, acabavam com a presença portuguesa no Extremo Oriente, ficando ainda numa posição privilegiada para interceptar os juncos chineses que navegavam para Manila, nas Filipinas. Através de uma carta conseguida durante a tomada de um barco português, sabia-se a cidade mal guarnecida tanto de homens, como deficitária em fortificações. A maioria dos homens de Macau encontrava-se na feira de Cantão e restavam na cidade apenas cinquenta mosqueteiros e uns cem moradores capazes de pegar em armas.

A esquadra holandesa foi organizada em Batávia para atacar Macau, sendo constituída por oito navios e mil tripulantes e capitaneada pelo Almirante Reijersen. Após partir desse porto a 10 de Abril de 1622, a ela se reuniram os barcos a viajar pelas águas do Mar da China e quando chegou à vista de Macau em 21 de Junho de 1622 a armada holandesa, composta por treze navios, encontrou as quatro naus vindas de Manila, onde participavam no bloqueio. Os dois barcos ingleses não chegaram a intervir na conquista de Macau, devido à carta de Coen a avisar que os ingleses apenas poderiam dar apoio no mar, mas nunca desembarcar em Macau e em tempo algum lhes fosse permitida a participação na construção da fortaleza que, após a conquista, os holandeses deveriam aí erguer. Como traziam já à partida a vitória assegurada, recusaram aos ingleses a participação no assalto à cidade, tendo estes se retirado antes do início dos combates.

O reconhecimento da península de Macau foi feito por três espiões e no dia seguinte, a 23 de Junho por Reijersen, que desde o barco analisou a cidade e vizinhança. Resolveu desembarcar no dia 24 na praia de Cacilhas, o ponto mais favorável. Ainda nessa tarde, três dos navios holandeses travaram um renhido duelo de artilharia com o baluarte de São Francisco. Dos barcos gritavam dizendo aos do baluarte que no outro dia seriam senhores de Macao. Retirando-se ao pôr-do-sol, houve nessa noite grandes festas nos barcos holandeses, o que levou o Capitão-mor Lopo Sarmento de Carvalho, a quem estava entregue o governo militar da cidade, mandar aos dos nossos baluartes responder com idênticos festejos de vitória.

A batalha decisiva

Ao romper do dia de São João Baptista, de 24 de Junho de 1622, duas horas depois do nascer do sol, saíram das naus da armada holandesa trinta e duas lanchas, transportando a força de desembarque até à praia de Cacilhas. Entretanto, duas naus holandesas começaram um intenso bombardeamento ao baluarte de São Francisco, ao que a guarnição do forte respondeu.

Espreitando por detrás de um pequeno banco de areia, preparado para a defesa da praiazinha de Cacilhas, estava António Rodriguez com 60 portugueses e 90 filhos da terra. Desembarcaram sem dificuldade os oitocentos homens das forças holandesas, sendo duzentos japoneses, índios e malaios holandeses e, formando os seus esquadrões em terra, marcharam para o entrincheiramento dos portugueses, havendo grandes cargas de mosqueteria de parte a parte.

O Almirante Reijersen, ainda mal tinha pisado terra, foi ferido por uma bala de mosquete na barriga, tendo de ser levado logo para o barco. Sem outras baixas de ambos os lados, foi conquistada a enseada, após os homens de António Rodriguez recuarem e logo em formação os holandeses continuaram o seu avanço, sob o comando do veterano capitão Hans Ruffijn. Na praia deixaram duas companhias para cobrir a retirada, e seguiram pela campina que torneava a Colina de Nossa Senhora da Guia.

Foi então que da fortaleza de S. Paulo, ainda por acabar, os padres jesuítas atiraram três bombardas, tendo uma bala acertado no barril de pólvora de um dos barcos, que se encontrava no meio do esquadrão. Tiro fatal, para o sucesso do dia, foi calculado pelo grande matemático padre italiano Jerónimo Rho S.J., chegado a Macau nesse mesmo ano. Com o inesperado estrondo nas bandas da sua esquadra, os holandeses pararam e perdida a confiança ao olhar para um bambual pensaram estar perante uma cilada. Então decidiram pelo lado do Oriente ocupar a Colina da Guia, que dominava sobre a cidade e praia de Cacilhas. Mas aí, na ermida encontrava-se Rodrigo Ferreira com oito portugueses e até vinte topazes e cativos, que lhes foram dando cargas e os fizeram parar. Apercebendo-se das intenções, João Soares Vivas com 50 mosqueteiros e Lopo Sarmento de Carvalho, que vinha carregando desde a parte da cidade, aí chegaram para ajudar.

Com o cume do monte ocupado pelos portugueses, o esquadrão inimigo de oitocentos mosqueteiros então capitaneados por Ruffijn, ficou em posição desprotegida e quando este capitão caiu em combate, os holandeses desordenados puseram-se em fuga, tratando só de salvar as vidas. Com o ânimo empolgado, o povo aproveitando a debandada perseguiu-os com tanto ímpeto que os fazerem embarcar a nado, mesmo às companhias que na praia ficaram. Deixaram mortos no campo, na praia e afogados no mar até 700 homens e por despojo oito bandeiras, um canhão, cinco tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, de que até ao seguinte dia só viverão sete.

Logo após a vitória, no próprio local da batalha, os vencedores deram a liberdade aos seus cafres, em prémio da sua lealdade e coragem. Os moradores acorreram à Sé, onde se celebraram solenes ofícios em acção de graças pela vitória que acabavam de obter. Aí, nessa altura, o Senado e o povo prometeram idêntica comemoração todos os anos na véspera de São João, voto que foi escrupulosamente cumprido até agora e assim, o dia de S. João Baptista é festejado em Macau na Calçada da Igreja de S. Lázaro.

24 Jun 2016

O respirar de Portugal como território

O Bispo Idácio de Aquae Flaviae no século V mencionou a povoação de CALE, como o castro chamado Portucale, aparecendo documentalmente pela primeira vez este nome e onde não se faz referência a nenhum burgo ou povoação na margem direita e fronteira a Portugal. No concílio em Lugo, no ano de 568, Portugal, o Castelo antigo dos romanos, ficava sujeita à “Sé de Coimbra, a qual, jamais, superintendeu em igrejas além da margem esquerda do Douro”, Resenha Histórica de CALE, Vila de Portugal e Castelo de Gaia, na separata de Comunidades Portuguesas de 1970, onde não aparece o autor.
No século III fora constituída a província romana de Gallaecia et Asturica na Península Ibérica, tendo em 409 os Suevos ocupado a Galiza, onde estiveram até 585, e a Lusitânia passava em 409 para os Alanos, que oito anos mais tarde, em 417, foram derrotados pelos Visigodos.
Os suevos destruíram Conímbriga em 468, ano da morte do Bispo Idácio, o que faz Aeminium, situada na Via Olisipo-Bracara Augusta e a ocupar a Colina da Universidade, onde se situava o forum, ficar capital da região, ascendendo no século VI a sede do bispado de Conímbriga, ficando assim com esse nome.
Os Visigodos, povos germânicos cuja civilização era dominada pela guerra e armas, aos poucos expulsaram do Norte da Península Ibérica os Suevos e as tropas Romanas, ficando os únicos senhores dos territórios da actual Espanha e Portugal. O rei visigodo Leovigildo (569-586) realizou a unificação peninsular, vencendo em 586 os suevos e os bizantinos ficaram reduzidos a uma estreita franja do litoral Mediterrâneo. Este rei visigodo dividiu o reino em seis províncias e centralizou os serviços reais em Toledo.
Mas em 711, toda a Península Ibérica caiu em poder muçulmano.
A reconquista do Portus aos mouros em 868 pelo conde Vimara Peres, referida no Códice de Lorvão, Liber Testamentorum, antecedeu a de Braga e seguiu-se à conquista e despovoamento de Coimbra, cujos habitantes vieram repovoar a parte sul do Rio Douro.
“Não muito tempo depois, foram enviados outros condes ou os seus delegados para reorganizarem novos territórios, como os de Braga, Orense, Chaves, Emínio (ou seja, Coimbra), Viseu e Lamego. Conhecemos o nome do conde Odoário, que tomou conta de Chaves, e o conde Hermenegildo Guterres, que ocupou Coimbra em 878”, e prosseguindo com José Matoso, “Reconstituíam-se assim as bases nucleares da rede administrativa na antiga província da Galécia e ocupavam-se algumas das cidades do Norte da Lusitânia, que outrora tinham pertencido ainda ao reino suevo”.
“Transferida a corte régia para a cidade de León no início do século X, o agora reino de Leão (910-1037) foi-se expandindo e organizando muito para além dos limites asturianos iniciais. Em termos políticos, administrativos e militares o seu território dividia-se em condados, à frente dos quais se encontrava um conde (comes), com poderes delegados pelo rei. Isso mesmo ocorreu em Portucale, aí se formando um condado à frente do qual estiveram membros de uma mesma família, descendentes de Hermenegildo Gonçalves e de Mumadona Dias (926-968?), até 1071”, citado de Bernardo Vasconcelos e Sousa.

Doações do Rei ao Bispo de Coimbra

O segundo Rei de Leão, D. Ordonho II (914-924), que no ano de 913 realizou uma incursão com um grande exército até Évora, provavelmente fazendo pilhagens em grande escala, veio em 922 a Portugal e daqui em barcos foi até Crestuma, a fim de visitar o Bispo de Coimbra, D. Gomado, que se encontrava no seu Mosteiro. Seguindo a Resenha Histórica de CALE, “Estando o bispo no seu convento, veio o Rei (Ordonho) a Portugal, e mandou dizer ao próprio bispo que viesse ter, com ele, Rei. O mesmo bispo não saiu do seu convento, como manda a regra. E o próprio rei, para lhe fazer mercê, e a rainha, armou navios em Portugal (Gaia) e, com os seus condes Lucido, Vimarano e Rodrigo Luci, foram em barcos à ermida do bispo, visitar o dito e fazer oração naquele lugar santo. Fizeram solenes festas em honra do bispo e de seus frades e sorores e permaneceu com sua comitiva no próprio mosteiro. Ainda naquele dia, o rei, com a sua comitiva reuniu em concílio, Mauro, os frades e a abadessa Elvira e se informou sobre a vida dos confessores e da congregação, onde eram servos pacientes no mesmo lugar. O rei e a sua comitiva decidiram oferecer-lhes a vila de Fermedo com os seus antigos limites. E deu-lhes o rei a navegação e portagem do rio Douro, no dia de sábado, do porto de qualquer rio e por todos os seus portos até à Foz do rio Douro, onde entra no mar, quanto o Senhor der naquele dia para remédio de suas almas e para as de sua geração. E no mesmo concílio, Lucido Vimarano deu vilas e igrejas ao mesmo mosteiro, na margem do rio Douro e outra, na margem do Mondego, creio, doada pelo Rei, que ali mesmo ofereceu-lhe muitas outras terras, tanto a Norte como a Sul do Rio Douro.
Verifica-se, pois, em face do documento da doação feita no ano de 922, pelo monarca de Leão, D. Ordonho II (914-924), que, naquela época, existia a povoação Portugal, a qual, entre as outras terras, foi doada àquele prelado, o Bispo de Coimbra, D. Gomado. Segundo a Resenha, “A Vila de Portugal estava dividida, pelos seus antigos termos, com a Vila de Mafamude e daí, pelo monte, desde o termo de Coimbrões, até Gaia. Aquela foi metade de seus parentes, Fulderon e Palma, e a outra metade a comprou por seu preço e suas cartas”.
Do Livro Preto da Sé de Coimbra, “Não, sofre dúvida e pelo contrário é bem manifesto e conhecido de muitos, que por ordem de Deus e para remédio da sua alma, o próprio Rei Ordonho deu ao grande Gomado o episcopado da Sé de Coimbra, com a sua diocese, como a obtiveram os outros bispos que antes dele tiveram o episcopado, por muitos anos, até Portugal. E, depois de algum tempo, foi o bispo à corte; e, ante o rei, despediu-se e deixou o grande episcopado para entrar no convento. E o próprio bispo procurou uma ermida, e a encontrou no lugar de Crestuma, junto àquela foz em que o rio cai do Douro. E entrou nela por mão de Arias Abederahemem e de Mauro, confrades, e de Elvira, abadessa, para ali passar a vida religiosa, e onde repousasse, à sua vontade, seu corpo, no lugar em que são venerados Santo Estevam, São Martinho, Santa Marinha, Santa Maria Virgem e São Salvador; e onde, na mesma ermida, estão sepultados companheiros mártires. E o mesmo bispo adquiriu o termo da mesma vila e do próprio mosteiro, de Crestuma, cujas demarcações do grande centro se estendia à margem direita e esquerda do rio Douro no ano de 922.
Fruela II (924-925) pouco tempo reinou e sucedeu-lhe D. Afonso VI (925-931), o Monge, que reconduziu no mesmo cargo (Bispo de Coimbra), D. Sisnando. Já toda a região entre os rios Mondego e Douro, era conhecida e designada como território portugalense e, também, como território de Portugal, consoante se comprova com bastantes documentos de escrituras de doações espécies, inseridos no Porto Mon. Hist. Dip. et Chart”.

Os normandos na Península

O Rei Ramiro II (931-951) de Leão protagoniza uma história, cerca de 932 com o mouro Al Boazar al Bucadan, emir de Gaia. Época já do Califado de Córdoba, da dinastia dos Banu Umayya (Omeya) (912-1031) cujo seu primeiro califa foi Abd al-Rahman III al-Nasir (912-961). Cristãos e muçulmanos mantinham uma boa convivência realizando festas e torneios em que participavam cavaleiros de ambas as fés. Certa vez, em 932, D. Ramiro II disfarçado de trovador numa dessas festas, raptou a irmã do emir, Zahara e converteu-a em cristã. Quando Al Boazar soube, resolveu fazer o mesmo e disfarçado também de trovador vai a Leão e rapta a esposa de Ramiro, D. Urraca. Esta enamorou-se verdadeiramente pelo emir muçulmano e com ele ficou a viver em Gaia. Só muito mais tarde o Rei Ramiro ficou a saber do paradeiro da sua esposa e chegado a Gaia, disfarçado entrou no castelo e após um enredo de filme, conseguiu-o conquistar num ataque surpresa. Aqui a lenda reconstituída pelo brazão da cidade, que tem um corneteiro no castelo. Entre duas colinas na margem esquerda do Rio Douro, reconhecidas como Castelo de Gaia (Gaia) e Serra do Pilar (Vila Nova), ficava a vila denominada Portugal.
Segundo José Matoso, “Os principais factores desta multiplicação da violência foram, em primeiro lugar, as incursões normandas, que se iniciaram já em meados do século IX, se intensificaram entre os anos de 961 e 971, e se prolongaram depois durante dezenas de anos, até meados do século XI. Os Normando trouxeram a insegurança a toda a antiga Galécia, penetrando ao longo dos rios, roubando, incendiando e matando sem dó nem piedade, e obrigando todos os chefes militares e eclesiásticos a organizar a defesa e a construir novas fortificações. Em segundo lugar, as revoltas de vários condes e magnatas contra os reis de Leão, ao longo da segunda metade do século X, e as guerras civis entre os pretendentes ao trono, que se intensificaram entre 953 e 960. Estas lutas atingiram o nosso território com as revoltas do conde Gonçalo Mendes de Portucale contra o rei de Leão, por volta de 962, e do conde Gonçalo Moniz de Coimbra, algum tempo depois” e cujos seus descendentes, depois vieram a colaborar activamente com Almançor, tendo com ele participado nas pilhagens a Santiago de Compostela, que foi incendiada.

Reino de Castela e Leão

“Não foram só os delegados régios asturianos e depois leoneses que impuseram uma certa organização às comunidades humanas do território português. O clero monástico e diocesano também contribuiu para isso”, segundo Matoso, mas refere que, “a vigilância episcopal sobre as igrejas paroquiais devia ter sido quase inexistente, antes da restauração definitiva destas dioceses (Porto Coimbra, Viseu e Lamego), nos séculos XI e XII”.
No reinado de Ramiro III (966-985), refere Matoso, “A partir de 978, prevaleceu de novo a guerra externa, com os violentos e destruidores ataques de Almançor, o hachib do califa Hisham II, às principais cidades dos reinos cristãos. Estes ataques atingiram o nosso território com a sua conquista de Coimbra, em 987, e com a sua grande expedição a Santiago de Compostela, em 997, com o apoio de vários magnates portugueses. Esta fase da guerra cessou praticamente com a morte de Almançor e pouco tempo depois, em 1008, com a morte do seu filho Abd al-Malik”. A assinalar, como caso curioso, o conflito sobre a tutela do condado de Portucale entre Afonso V e o conde Sancho Garcia de Castela ter sido arbitrado por Abd al-Malik. Ainda anteriormente, Bermudo II (985-999, o Gotoso) foi reconhecido no ano 982 Rei da Galícia e do Norte de Portugal.
“O reino de Leão estava profundamente desorganizado e foi necessário ao rei Afonso V (999-1028, o Nobre) reunir uma grande cúria na cidade de Leão” segundo refere Matoso, que segue, “o chamado Concílio de Leão de 1017, cujas decisões foram promulgadas em 1020 e que emitiram numerosas prescrições com o evidente intuito de reordenar uma sociedade perturbada por transformações profundas. Nesse ano de 1017, os Portucalenses davam provas da sua capacidade de reacção, pois o conde Mendo Luz (…) estabeleceu a sua autoridade efectiva sobre a região do Vouga e da Terra de Santa Maria”.
O Rei D. Fernando I (1035-1065), o primeiro do Reino de Castela e Leão (1035-1157), com as suas agressivas campanhas, fez a ocupação definitiva de Coimbra e “só a partir de então a fronteira se deslocou de maneira decisiva para além do vale do Douro e se iniciaram expedições de grande envergadura com o propósito de ocupar definitivamente as principais cidades do território andaluz e os seus respectivos alfozes. Se os primeiros reis asturiano-leoneses sempre se haviam ocupado intensamente da guerra, é duvidoso que se considerassem investidos na missão de recuperar para o Cristandade a maior extensão possível da Hispânia islâmica e tomassem tal missão como o mais importante dos seus deveres”. Coimbra, que caíra em poder muçulmano no ano de 711, fora em 878 reconquistada pelo Conde Hermenegildo Mendes, mas logo aí apareceu em 987 o Almançor a caminho da Galiza, que varreu com o seu grande exército os cristãos que se aventuraram a instalar a Sul do Rio Douro.
O Rei D. Fernando, o Magno, após reconquistar Coimbra em 1064, deu ao conde D. Sisnando a mesma jurisdição territorial, da Sé de Coimbra, que governava, eclesiasticamente, em todas as terras desde o Mondego a Portugal, e entregou-lhe o governo da cidade de Coimbra. Já os combates para Sul do Rio Douro iam fazendo variar o tamanho do condado de Portugal à medida dos avanços e recuos dos cristãos e partindo das margens desse rio variava o território nos seus limites até Coimbra.
Afonso VI (1072-1109) reinava Leão, Castela, Galiza e Portucale, quando em 1073 dividiu o seu reino pelos filhos. Em 1096, após o conde D. Henrique (sobrinho do Conde de Borgonha e do monge Hugo, o Abade dos Abades da comunidade do mosteiro de Cluny) casar no ano anterior com D. Teresa, filha ilegítima de Afonso VI, este Rei de Castela e Leão (1035-1157) incumbiu-o como seu vassalo da governação da Galiza, esta dividida em Condados, sendo um deles o Condado Portucale.
Pelo que acima ficou registado, a terra entre os rios Douro e Mondego era já conhecida como território portugalense e de Portugal, muitos anos antes da fundação da nacionalidade portuguesa. Tal é corroborado por Alexandre Herculano, que refere estar demonstrado, por autênticos documentos, que a região entre Coimbra e a margem esquerda do Douro, era conhecida e designada como território de Portugal e também que a margem direita do rio Douro limitava a Galiza, antes da fundação da nacionalidade portuguesa. «É vulgarmente sabido que desta povoação veio o nome do nosso país».

17 Jun 2016

Portugal existe desde o século V

O remoto nome poético das Curvas (Cale) do Rio ligadas ao porto, de onde provém o Condado Portucalense, criado sem independência em 1097, coloca-nos em questão o existir já no século V, na margem esquerda do Rio Douro, uma vila cujos romanos davam o nome de Cale, sendo esta conhecida desde então pelo nome de Portugal. No actual concelho de Gaia, confrontando com Mafamude e Coimbrões, tem a povoação de Portugal a sua História associada à representação da formação de um território, feito por conquistas, povoamento e conversões. De povoação, a território elasticamente expandido desde o Rio Douro até Coimbra, qual respiração tinha Portugal no Mosteiro de Crestuma o seu centro de poder de condado no início do século X, então integrado no reino de Leão (910-1037). A Galiza estava dividida em diversos condados, sendo um deles o Condado de Portucale, o único situado para Sul do Rio Douro. Pouco mais de um século faltava para como país aparecer Portugal.

Aprendemos na escola que a palavra Portugal vem da junção de Porto Cale, de onde foi formado o Condado Portucalense. Para a palavra , todos sabemos significar local de costa onde as embarcações se abrigam e dá passagem para terra; já para , o dicionário refere vir do latim canale, que significa rego de água. No entanto, no tempo de Jesus, Estrabão, que percorreu a Península Ibérica nos primeiros anos da era de Cristo, mencionava Cale, assim chamada pela sinuosidade de curva, porque as curvas dos rios costumavam assim chamar-se na linguagem dos lugares.

Também por essa altura, segundo Plínio, no século I os túrdulos encontravam-se na cale do Rio Douro e fala deles como estando ainda espalhados por todo o litoral Atlântico, do Douro ao Anas (Guadiana), sendo da sua autoria a estruturação viária pelo litoral, que atravessa o território de Norte a Sul e perdura há dois mil anos. Estrebão refere-se a eles como os túrdulos antigos (turduli veteres), com escrita própria e leis registadas em verso, eram descendentes dos tartéssios.

Império Romano na Península

“Em tempos remotíssimos, o rio Douro, pela sua margem esquerda, limitava a antiga Lusitânia; e nas eminências presentemente denominadas Serra do Pilar e Castelo, existiram castros em épocas passadas. Com efeito, no antigo monte da Meijoeira – a actual Serra do Pilar – foram achadas moedas gregas do século III a.n.E. e comprovam, que, em tão importante cerro, existiu um castro helénico. Mais a poente, no sítio denominado Castelo, também existiu um Castro, onde, mais tarde, os romanos levantaram uma fortaleza e, consequentemente, fundaram uma povoação a que deram o nome de CALE. Esta povoação foi-se tornando muito florescente, não só por estar próxima à foz dum rio importante, como também pela pequena enseada, que lhe servia de porto.

Calçada romana

Quando estes povos construíram a estrada de Lisboa para o norte, com terminus em Braga, o porto de CALE, ficou a constituir o ponto obrigatório da passagem dos viandantes que, do sul, pretendessem seguir para as terras Minho-Galaicas; e aos que, destas, desejavam ir para as terras situadas entre os rios Douro e Tejo.

Naqueles tempos, na margem direita, e fronteira a Cale não havia nenhuma povoação, consoante se prova com o Itinerário de Antonino (livro elaborado no século II)”. Estava a Península Ibérica dividida em três províncias separadas: Lusitânia (a Oeste), Baética (a Sul), Tarracones (no Leste e Norte). O actual território de Portugal correspondia a uma boa parte da província romana de Lusitânia, nos territórios entre Douro e Minho e governada desde Eremita Augusta, agora Mérida em Espanha, e alguns dos territórios da Boetica habitados pelos celtibérios. Os Romanos dominaram a Península Ibérica até ao século V da era cristã, altura da sua decadência, coincidente com a chegada dos Bárbaros a invadir as terras Ocidentais.

No século V, o Bispo Idácio de Aquae Flaviae (Chaves) na sua Crónica falava do porto de Calem e dizia que Braga era a cidade mais ao Sul do reino da Galécia, que terminava no Douro. Reino criado no século III, era dividido pelo Rio Minho, tendo a Norte os lucenses e a Sul, os bracarenses. Os restantes dois reinos da Península Ibérica eram a Bética, a Leste do Guadiana (Anas) e a Lusitânia, do Douro ao Guadiana.

Da Resenha Histórica de CALE Vila de Portugal e Castelo de Gaia, na separata de Comunidades Portuguesas de 1970, onde não aparece o autor, diz-se, “O mesmo Idacio (c.395-468), quanto à povoação de CALE, mencionou-a, como o Castro chamado Portucale. Pela primeira vez, entre os mais antigos documentos, aparece o nome de Portucale, dado por este cronista, à povoação de Cale.

Idacio, que viu Cale, antepôs-lhe, ao designá-la, o substantivo porto, alatinando para portu, bem certamente pelo facto de, naquele tempo, o porto de Cale ser muitíssimo conhecido.

Na margem direita e fronteira a Portugal, continuava a ausência de qualquer burgo ou povoação, porquanto, se existisse, não deixaria de ser referida por este cronista, consoante o fez sobre Castrum Novum, que verificou existir no cerro de Penaventosa, do Porto.

Visigodos e o Reino das Astúrias

Os visigodos, vindos das margens do Danúbio e do Mar Negro, atravessaram a Europa e chegaram à Península Ibérica em 412. Como tropas federadas ao serviço de Roma vieram para expulsar os alanos, suevos e vândalos, que tinham acabado de ocupar a Península Ibérica. Após dominar toda a Espanha, este povo germânico pela força das armas em 476 tomou Roma, acabando com o Império Romano do Ocidente, tendo promulgado a “Lex Romana Visigo-thorum” em 506. “Em Lugo, no ano de 568, realizou-se um concílio, que determinou quais as igrejas que ficavam a pertencerem à Sé de Coimbra: «a Sé Conimbricense tenha a mesma Coimbra, Eminio, Selio, Roma, Antuana e Portugal – o Castelo antigo dos romanos>, segundo Pinho Leal. Por este documento, comprova-se que a povoação de CALE, ou Portugal, estava sujeita, eclesiasticamente, à Sé de Coimbra, a qual, jamais, superintendeu em igrejas além da margem esquerda do Douro”, Resenha Histórica de CALE.

Entre 568 e 586, o rei visigodo Leovigildo expulsou os funcionários imperiais e procurou unificar a Península. Foi o fim do Império Romano na Península Ibérica.

Mas no início do século VII, o reino Visigodo (410-711) entrou em crise, com rebeliões a Norte, nas Astúrias e com os bascos, encontrando-se o Sul sob domínio bizantino.

Batalha de Guadalete (31 de Julho de 711)

Em 711, acabou a guerra civil no reino visigodo, já que, com a chegada à Ibéria do exército muçulmano comandado por Tariq ibn Ziyad, numa só batalha deu-se a decapitação do reino visigodo. Pelágio, um príncipe godo, refugiou-se nas montanhas das Astúrias, e resistindo daí com um grupo de cristãos lutou entre 718 a 725 contra os maometanos. Refere Bernardo Vasconcelos e Sousa: “Tradicionalmente, a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos na Batalha de Covadonga, no ano de 722, foi considerada como o início da chamada Reconquista, isto é, do processo militar pelo qual os cristãos recuperaram os territórios ocupados pelos seguidores do Islão. Mas mais do que um decisivo confronto bélico já no contexto de uma reconquista, Covadonga foi um recontro entre tropas muçulmanas que haviam penetrado na região montanhosa da Cantábria e uma força constituída por naturais daquela zona que reagiram para defenderem a sua autonomia, sob o comando de Pelágio, um membro da nobreza goda. A apropriação ideológica desta vitória, feita bastante mais tarde pelos clérigos asturianos, acabaria por conferir à batalha a importância de um facto transcendente, associado ao que se considerava ser a missão da monarquia asturiana, de libertação e de salvação de uma Hispânia que tombara perante os inimigos da fé cristã”. E nos três séculos seguintes a progressão dos Cristãos concentrados nas Astúrias reduziu o território dos Mouros, com isto surgiu os reinos de Oviedo, Leão, Galiza e Castela que ocuparam os territórios da antiga Lusitânia.

Portugal no Reino das Astúrias

O porto de Calem no século V foi referido pelo Bispo Idácio de Aquae Flaviae (Chaves), que diz ser Braga a cidade mais a Sul do reino da Galécia, que terminava no Douro. Rio, obstáculo de difícil atravessar, era por isso de fronteira. A localização desse porto gera assim controvérsia, pois sem haver ainda na margem direita, o que viria a ser a cidade do Porto, pugna a margem esquerda do Rio Douro e próximo da foz, o lado de Gaia, o povoado mais antigo dessas cales, Portugal.

Em 711 o último rei visigodo, Rodrigo (Roderico 710-711), tentou repelir a invasão muçulmana mas foi derrotado. Avançaram estes para Córdoba e Toledo, a capital visigoda, cercaram Mérida, que caiu em Junho de 713 e na Primavera seguinte, um exército muçulmano comandado por Musa ibn Nusair marchou para Saragoça, León e Astorga e dois anos depois caía Évora, Santarém e Coimbra. Em 716, após cinco anos, os muçulmanos tinham conquistado e ocupado toda a Península Ibérica, ficando sob domínio cristão apenas as Astúrias no Nordeste, na região montanhosa da Cantábria.

O Reino de Astúrias (718-910) teve como primeiro chefe Pelágio (718-737), um nobre visigodo que em 725 e após a batalha de Covadonga, fundou esse pequeno reino. O terceiro rei das Astúrias, Afonso I (739-759), o Católico, reconquistou terras até ao Douro. Sucedeu-lhe Fruela I (757-768) que valorizou as terras galegas, mas a região para Sul do Rio Minho até ao Douro ficou esquecida e entregue a si própria. De salientar como refere Matoso, “que a expansão asturiana para a Galiza não foi, de modo algum, um movimento pacífico e que os chefes galegos que dominavam a região aceitaram com dificuldade a nova ordem política”.

“No século oitavo vieram os árabes dominar uma grande parte da península ibérica; e, da sua permanência nas terras da antiga CALE ou Portugal, há a citar-se os nomes de Mafamude (freguesia), Almeára e Aldariça, povoações das freguesias de Canidelo e Santa Marinha e perto do oceano Atlântico, estabeleceram uma almenára – hoje lugar de Almeára – onde, de noite, acendiam fogueiras para guia das embarcações”, segundo José Matoso.

Quanto à povoação Portugal, os maometanos também não substituíram a sua antiga designação, apesar de nela residirem as autoridades que superintendiam no governo das terras sob a sua jurisdição. A vila de Portugal estava separada a Poente da vila de Mafamude e daí pelo monte abaixo, desde o termo Norte de Coimbrões (de fundação anterior à romana) até Gaia. Quanto ao nome de Mafamude é de origem árabe e supõe-se advir dos finais do século VIII, quando Afonso II realizou “uma expedição que chegou até Lisboa em 798 e acolheu no seu reino o caudilho Mahamud, natural de Mérida, que se tinha revoltado contra o emir. Há quem pense que ele se fixou em Mafamude,” da História de Portugal coordenada por José Matoso.

É com o Rei Afonso II (793-842), o Casto, que começou verdadeiramente a luta com o Islão, ocorrendo o assalto a Lisboa com a ajuda dos francos. O reino das Astúrias, com o seu centro político mais importante em Oviedo, valoriza as terras entre Douro e Minho, iniciando os asturianos “a actividade repovoadora na bacia do Douro, então uma espécie de no que respeitava ao controlo por parte de cristãos ou de muçulmanos”, segundo Bernardo Vasconcelos e Sousa. Mas com o Rei Ramiro (842-850) de novo, as terras entre Douro e Minho são esquecidas, ficando entregues aos chefes locais.

Ordonho I (850-866) fez a Galiza prosperar, havendo pela primeira vez uma efectiva incursão ao que virá a ser território português, “durante o qual se repovoou a cidade de Tui, antiga sede episcopal, com jurisdição até ao rio Lima. Aqui, os representantes régios tinham não só de tentar impor a sua autoridade, mas também de reprimir novos ataques normandos, a que acresciam agora, no litoral, os roubos e destruição de piratas sarracenos, mencionados pela primeira vez por esta época”, José Matoso.

Segundo Vasconcelos e Sousa, “No reinado de Afonso III (866-910, o Magno), os cristãos chegaram à linha do Rio Douro, sendo um dos mais importantes marcos desse avanço a tomada e o povoamento de Portucale, em 868, por Vímara Peres. Com centro em Portucale, junto à foz do Rio Douro, viria a constituir-se, a partir de finais do século IX, uma entidade político-administrativa cuja área se estendeu de sul do Rio Minho até à chamada Terra de Santa Maria, já a Sul do Douro”.

10 Jun 2016

A armada inglesa no Mar da China

Em Londres, um dos mais antigos pioneiros do comércio livre britânico em Cantão, o escocês William Jardine, fundador da firma Jardine, Matheson & Co. e que desde 1820 continuamente residiu em Cantão até 31 de Janeiro de 1839, conseguiu do governo britânico o auxílio económico e militar aos grupos de comerciantes ligados ao lucrativo negócio do ópio. Segundo Fernando Correia de Oliveira, “O parlamento inglês, sem declarar a guerra à China, aprovou o envio de uma esquadra de 16 navios para a zona de Guangzhou”. Assim, em Abril de 1840 partiu para o mar da China o Almirante George Elliot comandando os navios de guerra e quatro mil tropas, tendo essa armada chegado a 21 de Junho às costas da província de Guangdong. De referir ser um dos protagonistas desta história, Charles Elliot primo de George Elliot, que de Julho a Novembro de 1840 esteve na China como representante da Coroa Britânica e superintendeu no lugar de Charles, voltando depois este ao cargo de plenipotenciário.
Lin Zexu preparara-se para a chegada da armada britânica, mas sem grande frota e moderna como era a inglesa, suportava-se em fortalezas que mandara fazer ou reconstruir pela costa de Guangdong.
Os chineses a 9 de Junho de 1840 tentam por meio de jangadas incendiadas, destruir a “esquadra inglesa, surta no rio de Cantão”, como refere Marques Pereira, e a 21 de Junho, “achando-se em número de quinze navios de guerra a esquadra inglesa nas águas da China, Sir Gordon Bremer, chegado na véspera no Wellesley, anuncia o bloqueio de Cantão”.
Navegando pelo Zhujiang (Rio da Pérola) estalou a guerra, combatendo os ingleses pelo direito de vender o ópio na China. Segundo Alfredo Gomes Dias, em Junho ocorreu a “Publicação das exigências que a Grã-Bretanha faz à China onde se destaca a abertura de portos e liberalização do comércio internacional, estabelecimento de relações directas com o governo de Pequim e a possibilidade de os ingleses se fixarem nos portos”. Refere ainda este historiador que também de Junho é o “Édito do delegado imperial Lin exortando o povo chinês a aniquilar os demónios estrangeiros”.

A esquadra inglesa ruma a Norte

Lin Zexu, que tinha tomado medidas de preparação contra a chegada da armada britânica, dispondo de um exército conjugado com a população de Guangzhou e de toda a província, repeliu os ingleses. Estes, a 30 de Junho de 1840 navegaram com a sua esquadra de Cantão para o Norte da China.
A 2 de Julho, “Tendo entrado em Amoy (hoje Xiamen, a Sul da província de Fujian) o navio de guerra inglês Blonde, portador de uma carta do comandante da esquadra britânica para o almirante chinês que então ali estacionava, os chineses impedem que chegue a terra o escaler do mesmo navio, e fazem-lhe fogo, não obstante levar bandeira branca. O comandante inglês destrói alguns juncos de guerra e o forte que dera os tiros, e sai do porto”, segundo M. Pereira.
Seguiu a esquadra inglesa ao longo da costa marítima que banha as províncias de Fujian e Zhejiang onde, em frente a Ningbo, ocupou Dinghai. Alfredo Dias refere ter sido a 15 de Julho que “as forças navais britânicas atacam certos pontos de Zhoushan ocupando-a em seguida”. Já segundo Marques Pereira, tal aconteceu a 5 de Julho de 1840, sendo Elliot quem pela primeira vez tomou a cidade de Tinghai (Dinghai), na ilha de Chu-san (Zhoushan). Dinghai, a Norte de Ningbo província de Zhejiang, já em 1793 fora pedida à corte do Imperador Qianlong pelo Lorde Macartney, durante a primeira embaixada inglesa à China. Quarenta e sete anos depois, os ingleses tomaram a cidade de Dinghai, onde poderão residir e fazer o seu porto, armazenar mercadorias e reparar os barcos.
Após cinco dias de terem tomado Dinghai, os ingleses a 10 de Julho bloqueiam o Rio Yangtzé, chamado de Changjiang, Rio Longo a dividir nas suas direcções a meio a China, e onde Nanjing (a antiga capital do Sul) se encontrava.
Para Norte, um mês depois, a 11 de Agosto, seguiam a bordo do vapor Madagascar “os dois plenipotenciários ingleses, Elliot, cujo intento de exigirem comunicação directa com o gabinete de Pequim foi artificiosamente logrado por Ki-chen, então governador da província de Peh-tchi-ly (Zhi Li), com a promessa de que lhes viria dar satisfações a Cantão”, como refere Marques Pereira.

Guerra na vizinhança de Macau

Pela necessidade do Procurador José Vicente Jorge reclamar providências junto às autoridades chinesas, logo a 29 de Fevereiro, por “cinco ou seis desordeiros chineses terem agredido pessoas que passavam na Rua do Tronco e apedrejado a cadeia”, apontamento de Alfredo Dias, de onde se poderá induzir os distúrbios velados que também dentro da cidade iam ocorrendo, devido à indignação popular chinesa ao ver cair (desmoronar) o Céu.
A 19 de Agosto de 1840, Marques Pereira refere que, “as corvetas inglesas Hyacinth e Lane atacam as forças chinesas estacionadas junto da Porta do Cerco, matando-lhes aproximadamente sessenta homens”, apesar de Alfredo Dias dizer que estas duas corvetas inglesas atacaram, nas proximidades de Macau, navios chineses. Gonzaga Gomes conta, “Ao meio dia, uma força britânica, composta dos navios de guerra Lane e Hyacinth, o cutter Louisa, e o vapor Enterprise, rompeu vivo fogo contra uma bateria chinesa, postada na praia, junta do lado norte da barreira ou muro do limite de Macau, e que dispunha de 17 canhões que foram reduzidos ao silêncio bem como outros que havia para aquele lado, num total de 27. Uma hora depois, desembarcaram 380 marinheiros e soldados, comandados pelo capitão Mee, com uma peça, os quais puseram em completa fuga os chineses, continuando o fogo dos navios, que dispararam não menos de 600 tiros. Diziam alguns que as forças chinesas, em diferentes posições, deveriam ser constituídas por cinco a seis mil homens. Os ingleses, tendo encravado a artilharia chinesa e queimado as barracas dos soldados juntas à barreira, voltaram pelas 19 horas, para as suas embarcações”.
A 30 de Agosto de 1840 realiza-se a Conferência, perto de Tien-tsin (Tianjin), entre o plenipotenciário inglês Elliot e Ki-chen (Qi Shan), governador da província de Peh-tchi-ly, como refere Marques Pereira, mas, só a 16 de Setembro foi o oficial manchu Qi Shan (1786-1854), até então Governador de Zhi Li (Shandong e Henan), ocupar o lugar de Comissário Imperial, substituindo Lin Zexu, que a 3 de Outubro de 1840 deixou de ser Vice-Rei de Liangguang.

Qi Shan substitui Lin Zexu

No entanto, ainda em 5 de Setembro de 1840, o Edital do superintendente geral das alfândegas de Cantão, por apelido Iú, ordenou a apreensão de quaisquer mercadorias destinadas aos europeus e prometeu prémio aos apreensores, visto achar-se suspenso o comércio, como refere Marques Pereira.
A 16 de Setembro é nomeado comissário imperial Qi Shan (Ki-chen) para tratar, em Cantão, com os europeus. Local onde a 27 de Setembro era recebido um decreto imperial, desautorando o Vice-Rei e Comissário Lin Zexu, nos termos seguintes:
Oito dias depois, a 4 de Outubro “Alguns navios da esquadra inglesa, que fora ao norte em Agosto, sobem ao golfo de Liau-tung, e fundeiam neste dia junto à extremidade oriental da Grande Muralha da China. Foi a primeira vez que, dessa parte, se viu o célebre monumento devassado por europeus”, segundo M. Pereira. Liaoning (Liau-tung), província situada no Nordeste da China de onde eram provenientes os manchus, então a reinar na China como dinastia Qing, é banhada pelos golfos da Coreia e de Liaodong. Apesar disso, os manchus não sentem ligações ao mar, sendo na altura deles que os ingleses descobriram as anteparas aos barcos chineses e ao passar a usá-las nos seus, chegavam agora com um enorme avanço no poderio tecnológico, aliado à psicologia do fogo.
Se os primeiros imperadores da dinastia Qing mostraram interesse pelas novas invenções europeias do século XVI e trazidas à Corte pelos Jesuítas, os seguintes governantes manchus, alheados do mundo científico que então na Europa se reorganizava, artisticamente descoraram estar a par desses conhecimentos, sem os brados dos eruditos da Corte se fazerem ouvir. Pelo lado britânico, e numa curiosidade investida em interesses mercantis, conseguiam-se os segredos dos produtos, esses que os tinha levado ao Extremo Oriente.
De salientar ser Lin Zexu conhecido como o primeiro chinês na História Moderna da China “a abrir os seus olhos para ver o mundo”, sendo um dos primeiros a opor-se à política de fechar a China em si mesmo. Procurando conhecer o pensamento e as tecnologias Ocidentais, mandou traduzir os tratados estrangeiros sobre a produção de armas e barcos e para melhor resistir às incursões britânicas, saber o que escreviam nos jornais tanto de Londres, como da Austrália, de Singapura, da Índia, assim como os de Macau.
É de 23 de Outubro de 1840 o “Memorial de Lin ao imperador justificando as suas acções e o pouco êxito alcançado na repressão ao tráfico do ópio e onde solicita a rejeição às exigências britânicas”, como refere Alfredo Dias.
Marques Pereira dá para 1 de Novembro de 1840 a “Proclamação do comissário imperial chinês, I, aos habitantes da cidade de Ting-hai, sobre a ocupação da ilha de Chu-san pelas tropas inglesas. Dinghai, na ilha de Zhoushan, ficava assim oficialmente reconhecida como na dependência inglesa.

Armistício de dois meses

A 5 de Novembro de 1840 os chineses pedem um armistício ao Almirante Elliot, que foi concedido no dia seguinte e prolongou-se até 6 de Janeiro de 1841. Alfredo Dias escreve para a data de 6 de Novembro de 1840, “Memorando do contra-almirante e comandante em chefe George Elliot noticiando, pela primeira vez desde o início da guerra, uma trégua entre os dois países, enquanto ele e o delegado imperial se mantêm em negociações” e com ele continuando, a 20 de Novembro “os britânicos regressam a Macau”. No dia seguinte, “Os fortes chineses de Tchuen-pi fazem fogo sobre o vapor inglês Queen e o almirante Elliot exigiu e obteve imediata satisfação por essa ofensa”, segundo Marques Pereira, que diz ter a 28 de Novembro, o comissário Qi Shan chegado a Cantão, mas no dia seguinte, “o Almirante Elliot resigna o comando da esquadra inglesa na China”.
A 6 de Dezembro, segundo Alfredo Dias, “Ofício do comissário imperial Ke Shen (Qi Shan) ao Tao-tai onde se adverte que a vinda dos ingleses para a província onde Macau se encontra situada não deve ser hostilizada pelas guarnições chinesas sem que para isso haja motivo”. Uma semana depois, datada de 13 de Dezembro de 1840 a “Carta do comissário Ki-chen ao imperador, declarando o procedimento que entendia dever ter com os ingleses. – Diz assim: “, como refere Marques Pereira. Mas percebe-se que tal não trouxe frutos pois as autoridades de Cantão pelo Édito de 6 de Janeiro de 1841, ordenam “que todos os ingleses fossem mortos e os seus navios destruídos em toda a parte onde se vissem. Esta medida, decretada em meio do armistício que o almirante Elliot concedera desde 6 de Novembro anterior, deu lugar à imediata continuação da guerra e à tomada, logo no dia seguinte, dos fortes de Tchuen-pi e Tai-cok-tau”.

27 Mai 2016

Acontecimentos de 4 de Fevereiro

Em Londres encontrava-se o escocês William Jardine, para conseguiu do governo britânico o auxílio militar aos grupos de comerciantes ligados ao negócio do ópio na China.
Já no Celestial Império, a 23 de Janeiro de 1840, os súbditos britânicos obrigaram os portugueses a ter de os aceitar em Macau para aí residirem e armazenarem as mercadorias e como convidados, aí deixaram as suas famílias, enquanto continuavam nos seus actos de pirataria na embocadura do Zhijiang. Nessa constante provocação ao poder chinês, segundo Alfredo Gomes Dias refere, “Os acontecimentos de 4 de Fevereiro, provocados pela entrada no porto de Macau da corveta Hyacinth, sob as ordens do capitão inglês Smith, constituem um exemplo da prática política britânica dominante naquela região e naquele tempo e permitem fazer uma primeira aproximação às posições da diplomacia do Estabelecimento ao longo do conflito sino-britânico”.
“À falta de expressas e adequadas instruções do Governo de Lisboa, o Governo de Macau viu-se obrigado a manter contactos com as autoridades locais de Cantão, num esforço de ganhar tempo junto dos ingleses. A Inglaterra, nada satisfeita com esta atitude do Governo de Macau, chegou a acusar os portugueses de hostilidade para com o seu aliado. A recusa de autorização de ancoragem do navio inglês Hyacinth, que já entrara no Rio em 4 de Fevereiro de 1840, levou Londres a protestar energicamente junto de Lisboa, o que colocou o Governo Português em maus lençóis.” E continuando com Wu Zhiliang, “As autoridades de Macau, pobres em recursos, não tinham a coragem de exceder muito na sua atitude para com os ingleses para evitar qualquer possível vingança britânica, o que os levou a não pensar na possibilidade de expulsar os ingleses que ainda se encontravam em Macau. Face a esta situação, o Comissário Imperial Lin Zexu mandou suspender o comércio com Macau deixando a população macaense numa enorme perturbação”. Comércio que só foi restabelecido a 9 de Março, após as autoridades portuguesas, em observância da ordem do Comissário Imperial, terem ordenado aos ingleses que saíssem de Macau e logo no mês seguinte chegaram duzentos efectivos chineses, que aqui ficaram aquartelados. Ideias e citações retiradas do livro Segredos da Sobrevivência – História Política de Macau escrito por Wu Zhiliang e onde se refere: “Durante este tempo, Charles Elliot amadurecia a sua ideia de ocupar Macau, e cada vez com mais pormenores. Acabou mesmo por apresentar, em 9 de Abril, o referido projecto de ocupação militar. Devido às drásticas mudanças da situação, as forças inglesas avançaram para Norte e sitiaram-se na Cidade de Cantão. Deste modo, o foco do conflito sino-britânico deslocou-se de Macau, mas nem por isso os portugueses podiam estar mais tranquilos. Em 23 de Junho, Charles Elliot escreveu uma carta ao Governador de Macau”, onde expõe as condições em que Macau fica posicionada, amparada pelos ingleses e sobre o seu domínio.
Sendo Macau uma Cidade de Guarnição, sem consentimento do Governador e do Leal Senado não era possível aos ingleses desembarcar aí tropas, pois tal procedimento era contrário a todos os tratados e estipulações entre Inglaterra e Portugal e violava os direitos de uma nação independente. Mas como remata Wu Zhiliang, os ingleses estavam em vias de perder o interesse por Macau.

Correspondência trocada no dia

A 4 de Fevereiro de 1840, os ingleses forçaram a entrada do porto de Macau, sem dar conhecimento ao Governador Acácio da Silveira Pinto (1837-1843), após Elliot receber uma resposta negativa à pretensão de ter uma guarda para proteger a sua pessoa e bens britânicos. E aqui seguiremos com o que refere Alfredo Gomes ao citar, as cartas trocadas no dia 4 de Fevereiro, assim como passagens do Ofício n. 123 de 3 de Abril de 1840, do Governador Adrião Acácio da Silveira Pinto para o Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. É deste documento, retalhando-o e entrosando com as cartas inglesas, que temos o relato dos acontecimentos desse dia 4 pela visão do Governador de Macau. ; (…) (…)
Segundo escreve Alfredo Dias, “No primeiro ofício que o comandante dos navios britânicos na China, capitão H. Smith, enviou a Silveira Pinto são adiantados os motivos que levaram as forças inglesas a tal acção. Centravam-se na defesa de pessoas e bens britânicos presentes na Cidade ameaçados todos os dias pelos editais chineses. Tudo isto em nome da neutralidade que Macau desejava salvaguardar: “.
Nesse dia o Governador de Macau encontrava-se adoentado,

Assegurar a neutralidade de Macau

Assim o Protesto, “feito e expedido em Sessão do Leal Senado do Santo Nome de Deus de Macau, sob selo do mesmo, aos 4 de Fevereiro de 1840” diz, ; (…) .
“Perante esta reacção violenta do governador de Macau, o comandante H. Smith muda de tom e, no seu segundo ofício, começou logo por chamar a atenção de Silveira Pinto para os incómodos que os ingleses têm sofrido: <... e peço licença para perguntar a V. Exa. se estais inclinado para dar protecção aos Súbditos de S. Majestade Britânica, agora residentes sob a Bandeira de Portugal, ou se vos permitireis que eles sejam incomodados de modo como o têm sido nestes últimos meses>“. E continuando com Alfredo Dias, que refere “a agressividade de uma pergunta que tinha por fim chamar a atenção da autoridade máxima da Cidade para com os seus deveres” e a resposta, num discurso mais firme e incisivo, enviada pelo governador A. A. da Silveira Pinto a este segundo ofício do capitão inglês. “Salientou os dissabores que a Cidade tem sofrido devido à presença inglesa, acabando por concluir que os súbditos britânicos eram livres de partir caso não se sentissem seguros sob a protecção portuguesa”.

Lin Zexu nomeado Vice-Rei

“Mas a correspondência trocada entre as autoridades administrativas de Macau e o comandante naval britânico naquele dia 4 de Fevereiro não ficou por aqui. Um terceiro ofício, agora mais calmo e conciliador foi enviado a Silveira Pinto, onde se questionava o vigor das autoridades de Macau perante o poder imperial chinês e, simultaneamente, anunciava a retirada da corveta do porto, colocando-se às ordens do governador caso este julgasse o seu auxílio necessário”, como refere Alfredo Dias.
Assim o Governador de Macau, trabalhando em colaboração com o Leal Senado, a 4 de Fevereiro de 1840 conseguiu manter a neutralidade da Cidade no conflito sino-britânico. “Finalmente, o governador responde ao capitão H. Smith anunciando a retirada das forças chinesas que se encontravam junto ao Pagode da Barra, prova de que o governo de Macau soube levar à prática a sua política de neutralidade” e no dia seguinte (passado vinte e quatro horas) “verificou-se a retirada da corveta Hyacinth tal como o comandante inglês tinha prometido”, Alfredo Dias. E com ele continuando, a 20 de Março abre o porto de Macau, por Edital chinês.
Ainda no Ofício de 3 de Abril de 1840, do Governador Silveira Pinto para o Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, encontram-se outras informações relevantes como,

20 Mai 2016

Declínio do porto de Macau

Como prova das boas relações existentes entre as autoridades portuguesas e chinesas, a visita a Macau do Comissário Imperial Lin Zexu acompanhado pelo Vice-Rei de Liangguang (Guangdong e Guangxi), Deng Tingzhen, a 3 de Setembro de 1839 e também do Hopu de Cantão, chefe das alfândegas chinesas naquela província, de 5 a 8 de Setembro. Wu Zhiliang refere que “Na véspera da visita de Lin Zexu a Macau, corriam, por todo o lado, rumores de que as forças militares da China atacariam Macau para expulsar os ingleses. Aproveitando-se desta circunstância, Charles Elliot propôs ao Governo de Macau o auxílio militar britânico”, e , que Silveira Pinto delicadamente recusou. Dias antes, em finais de Agosto, os súbditos britânicos tinham saído da cidade, mas, após uma breve estadia em Hong Kong, regressaram a Macau a 23 de Janeiro de 1840, apesar de ser um acto nada conveniente para os portugueses, que não tinham força suficiente para não o permitir.
Os ingleses, após serem expulsos de Cantão pelos chineses, nada tinham a perder e refugiados em Hong Kong, agora sem víveres, sentiam o cerco apertar-se e por isso, daí remeteram um novo pedido no dia 12 de Dezembro de 1839 ao Governador de Macau para poderem regressar a essa cidade e aí residirem. Não obtiveram tal permissão, pois Silveira Pinto não aceitou. Com Alfredo Gomes Dias seguimos, “as autoridades britânicas decidem então forçar a entrada no porto de Macau utilizando para o efeito a corveta Hyacinth, largada a partir da fragata Volage fundeada na rada de Macau. São os acontecimentos de 4 de Fevereiro” de 1840.
Lembrava Março de 1839 em Cantão; “Entrando de imediato em acção, Lin começou a confiscar milhares de quilos da droga e de cachimbos de ópio, prendendo mais de 1600 chineses. Quanto aos estrangeiros, começou por tentar demovê-los, através de didácticas chamadas de atenção no capítulo da ética. Mas essa técnica persuasiva não resultou e Lin, furioso, decretou, em Março de 1839, um bloqueio completo à comunidade estrangeira em Guangzhou. O cerco só foi levantado quando Lin, que passou a viver num barco, para melhor vigiar os estrangeiros, obteve mais de 20 mil cestos de ópio, a totalidade da mercadoria que então se encontrava nas feitorias de Guangzhou. Em Abril, numa acção espectacular, todo esse ópio foi lançado ao rio da Pérola”, segundo Fernando Correia de Oliveira, no livro 500 Anos de Contactos Luso-Chineses editado em 1998: “O principal negociante inglês, William Jardine, fundador da casa comercial que ainda hoje existe em Hong Kong, foi de imediato a Londres pedir auxílio económico e militar. O parlamento inglês, sem declarar a guerra à China, aprovou o envio de uma esquadra de 16 navios para a zona de Guangzhou”.

Forçar a entrada em Macau

Segundo Marques Pereira, no Decreto de 5 de Janeiro de 1840, o Imperador Daoguang (1821-1850) proibira o comércio com a Inglaterra e a 8 de Janeiro, o comandante do navio de guerra inglês Volage anunciava para o dia 15 o bloqueio do porto de Cantão. A 23 de Janeiro “os ingleses desembarcaram em Macau passando a residir nesta cidade”, segundo Alfredo Dias.
Ao fim de uma semana de estadia britânica em Macau, a 31 de Janeiro de 1840 o novo “Procurador José Vicente Jorge entrevista-se com o Tou-T’ói, pelas 15.30 horas, no Hopu de Macau. O Tou-T’ói veio com o fim de exigir a expulsão do capitão Elliot e dos ingleses residentes em Macau, apoiado com mil homens que, a pedido dos mandarins, ficaram retidos na Casa Branca, dizendo que tal tropa se destinava a proteger os portugueses. Ofereceu-se, porém, para prorrogar a publicação do edital dos Suntós dos dois Kuongs e de Cantão, que ordenava a ele, Tou-T’ói, que viesse, à testa da tropa, prender os ingleses, e ao ajudante-geral Kuam-Chon-Hiae que seguisse com mais mil homens para se juntarem aos mil de Tou-T’ói, a fim de promover o encerramento das alfândegas, a suspensão do comércio português e o isolamento de Macau, bem como a retirada de todos os chineses, dentro de cinco dias, pois a cidade seria invadida. O procurador não cedeu ante a intimidação do enviado chinês”, segundo Luís Gonzaga Gomes.
Já Alfredo Dias refere que, a 1 de Fevereiro há a “Proclamação imperial onde se pretende sossegar as comunidades chinesas e estrangeiras em Macau afirmando que pretendiam apenas cercar e prender os ingleses”. Marques Pereira diz que no dia seguinte, o comissário imperial chinês, Lin, dirige de Cantão, pelo navio Thomas Coutts, uma carta à rainha de Inglaterra (Victória), criminando a insistência dos seus súbditos em trazerem ópio à China, e em espalharem entre a população essa droga nociva, a despeito das justas leis do império contra semelhante contrabando. Esta carta foi, pelo mesmo comissário, mandada publicar em todos os distritos do sul da China.
A 4 de Fevereiro de 1840, segundo Montalto de Jesus, “Tendo começado as hostilidades, o barco Hyacinth forçou o caminho pelo Porto Interior de Macau. Isto provocou um veemente protesto do governador Silveira Pinto, que responsabilizou o governo inglês pelas consequências. Foi salientado que, mesmo sob a aparência de protecção, tal caminho não tinha sido seguido pelo contra-almirante Drury. O Capitão Smith acabou (no dia seguinte) por retirar o Hyacinth, na condição de serem tomadas medidas enérgicas para fazer retirar as tropas chinesas das proximidades da colónia”.

O comércio do chá em Macau

A 6 de Fevereiro de 1840, Lin Zexu foi nomeado Vice-Rei de Liangguang e no dia 11, “Edital publicado em Cantão mandando fechar o comércio em Macau e destruir a Cidade por as autoridades portuguesas permitirem aí a presença de Elliot”, e continuando com Alfredo Dias, a 19 de Fevereiro, “O procurador José Vicente Jorge responde às autoridades chinesas que exigiam a expulsão dos ingleses de Macau dizendo que a Cidade estava preparada para repelir qualquer ataque ou violência da parte dos Chineses”.
Esta mudança de discurso do Procurador de Macau contrariava o que José Baptista de Miranda e Lima em Setembro de 1839 anunciara a Lin Zexu (1785-1850), a neutralidade de Macau na disputa entre a Inglaterra e a China. As palavras do novo Procurador, sem força para contrariar os ingleses, quebravam tal promessa e assim, terminava o período de paz e de comércio que a 29 de Setembro de 1839 o Governador Silveira Pinto referia num ofício ao governo de Lisboa, comunicando a abertura do comércio em Macau, fechado desde Março. Esse bom relacionamento comercial pode-se constatar na resposta dada a 27-12-1839 pelo Superintendente Geral da Alfândega de Cantão ao pedido feito pelo Procurador, permitindo o aumento da exportação de chá para Macau e ordenando ao mandarim de Hèong-Sán que consultasse o Hopu de Macau sobre a conveniência ou inconveniência da entrada dos navios vindos de Portugal, em Vampu (Huangpo); que não fosse permitido aos navios de Macau ficarem fora do porto de Cantão e que, quanto à gravação dos números nos barcos de Macau, continuasse a ser observado o que se encontra prescrito no respectivo regulamento”.
Já como consequência das palavras de 19 de Fevereiro de 1840 do Procurador às autoridades chinesas, vemos na semana seguinte, a 26, “o Procurador do Senado, José Vicente Jorge, reclama(r) junto das autoridades chinesas contra a redução do fornecimento de chá, cuja exportação por navios portugueses era de 6000 picos líquidos, por ano”, segundo Gonzaga Gomes
Não esquecer que, “Por meados do século XVIII, os comerciantes independentes de Macau foram contratados para fornecerem chá da China à EIC, em Madrasta, tal como acontecia com a VOC, em Batávia, à qual também forneciam o chá”, como lembra Leonor Seabra. Estas companhias (inglesa e holandesa) importavam o chá da China e, depois de preparado, vendiam-no para a Europa, sendo em Macau o chá apenas manufacturado e não cultivado, e era essa a principal indústria da cidade. Ressoam as palavras de Sir George Staunton no ano de 1797 pela defesa da estrangulação do pobre marinheiro inocente com o seguinte argumento: “Mas abstraindo de qualquer ideia de lucro, é sabido que um dos principais géneros trazidos da China, e que em nenhum outro país se pode encontrar, é hoje um objecto de necessidade para quase todas as classes da sociedade na Inglaterra. Em quanto pois se não puder ir buscar a outra parte chá de tão boa qualidade e por tão baixo preço como o da China, será forçoso trazê-lo de Cantão e não desprezar precaução alguma para o poder obter”.

Subscrição para presentear o mandarim

Mandado fechar o comércio em Macau no dia 11 de Fevereiro de 1840, pelo Edital do Comissário Imperial Lin Zexu publicado em Cantão, “Por abrigar senhoras e crianças inglesas em Macau, os portugueses foram afastados do comércio de Cantão”, segundo Montalto de Jesus. O comércio em Macau foi restabelecido a 9 de Março pelo Comissário Imperial Lin Zexu, como diz Wu Zhiliang e no dia 20 para Alfredo Dias, “Edital chinês abre o porto de Macau”.
Ainda no Edital de 11 de Fevereiro de 1840, em nome do comissário imperial, um édito especial do mandarim de Chinsan ordenou, então, a prisão de Elliot, expressando considerável espanto pela sua tentativa arbitrária de excluir as embarcações americanas de Macau”, segundo Montalto de Jesus.
Marques Pereira regista dos Archivos da Procuratura o dia 1 de Março de 1840, quando se fez a “subscrição promovida entre os macaenses a fim de presentearem o mandarim Pang, que se retirava para Cantão, depois de exercer nesta colónia o cargo de So-tam”. Alfredo Gomes Dias complementa, “Os macaístas quotizam-se para oferecerem um presente, em sinal de muito respeito e amizade, ao mandarim, que se retirara para Cantão depois de ter exercido o cargo de Tso-tang em Macau”. Luís Gonzaga Gomes refere para 3 de Março o “Edital do Tou-T’ói, declarando ter intercedido pela reabertura do comércio em Macau, que fora fechado, em consequência da guerra com os ingleses”.
Muito mais tarde, já com o resultado definido da primeira Guerra do Ópio, faltava apenas saber por quanta prata, a 18-12-1841 “O Procurador do Senado, de apelido Carneiro, reclamou junto do Hopu Grande de Cantão contra o facto de os anistas (mercadores) de Cantão anteporem dificuldades à livre exportação do chá, tanto mais que os moradores de Macau, conformando com as ordens imperiais, deixaram de comerciar em ópio e pediu que fosse permitida a livre exportação do referido artigo, para esta cidade, sem embaraço algum. Encontrava-se o chá como um exclusivo chinês quando, após a I Guerra do Ópio (1839-1842), a pedido da Companhia da Índia Oriental o escocês Sr. Robert Fortune, do Chelsea Physic Garden, veio à China como botânico para estudar sobretudo os segredos da planta do chá. Aí regressou pela terceira vez em 1848 e clandestinamente entrou nas montanhas de Wuyi em Fujian e com a ajuda do seu criado chinês, fazendo-se passar por mandarim, visitou clandestinamente um dos locais de produção e manufactura do chá, que o esclareceu sobre a planta e as técnicas. Robert Fortune “enviou para a Índia umas vinte mil plantas de chá que arranjou na China Central, com toda a informação pormenorizada sobre tal indústria. Como por mágica da lâmpada de Aladino, uma grande fonte de riqueza foi assim transplantada da China para a Índia e o Ceilão, assim como para Java”, segundo Montalto de Jesus, que refere ter a sorte do chá da China ficado assim selada. E em 1866, já os ingleses importavam chá (4%) da Índia.
Remata Alfredo Dias, “A partir de meados de 1840, conforme a guerra se afastava mais para norte também a importância política de Macau foi diminuindo. Deste modo, ao longo do tempo que durou o conflito, as autoridades do território aperceberam-se gradualmente de que a realidade política da região em que Macau se inseria estava a mudar radicalmente, a uma velocidade que lhes era difícil de acompanhar. As forças imperiais davam provas da sua incapacidade de se oporem aos desígnios britânicos e, por outro lado, os ingleses demonstravam toda a sua capacidade de iniciativa económica e política, consentânea com o seu estatuto de grande potência mundial”.

13 Mai 2016

Lin Zexu visita Macau

No anterior artigo procuramos a data do início da Guerra do Ópio pelos episódios que ocorreram durante o ano de 1839. Se até 18 de Março, os chineses tentaram por palavras convencer os ingleses a deixarem de trazer ópio para a China, ilegalizado já há muito tempo, por Édito dessa data o Comissário Imperial Lin ordenou que lhe fosse todo entregue. Assim fez o capitão Elliot, ao ópio armazenado nos cascos dos navios ao largo de Lintin. No dia seguinte, o exército chinês cercou as feitorias e proibiu todos os residentes estrangeiros de daí saírem e só a 24 de Maio os negociantes ingleses, com promessa escrita de nunca mais voltarem à China, partiram de Cantão para Macau, acompanhados pelo superintendente do comércio britânico na China, Charles Elliot.
Outro momento referido para o início da Guerra do Ópio ocorreu entre 3 e 25 de Junho de 1839, quando Lin Zexu, como Qin Chai Da Chen, mandou queimar as caixas de ópio em Humen, província de Guangdong. Sendo ainda outra das datas, a relacionada com a recusa dos ingleses de entregar um dos seus marinheiros que, nos distúrbios entre marinheiros ingleses e americanos e alguns chineses, assassinara em Kowloon o nativo Lin-uei-hi. Como represália, no Edital de 15 de Agosto de 1839 o Vice-Rei de Cantão proibiu qualquer espécie de alimentos aos ingleses residentes na China. No dia seguinte, Lin Zexu e o Vice-Rei Deng Tingzhen, entraram no distrito de Xiangshan e imediatamente foi declarado o bloqueio a Macau para forçar os ingleses a deixarem esta cidade.
O Comissário Imperial Lin prevenia os portugueses dos perigos que corriam ao abrigar na cidade ladrões ingleses e proibiu o fornecimento de provisões, assim como de mão-de-obra chinesa, aos residentes ingleses em Macau. Já as autoridades chinesas contavam com a lista da população aí residente e o Comissário Lin ordenou ao Procurador de Macau para investigar onde se encontravam os traficantes, dizendo que viria para deles tratar quando terminasse de colectar o ópio em Humen. E por isso, a 26 de Agosto, após uma reunião dos súbditos ingleses residentes em Macau, por conselho do superintendente do comércio inglês na China Charles Elliot, decidiram retirar-se para Hong Kong. Segundo Montalto de Jesus, “Silveira Pinto declarou que, apesar da provação, nunca pressionaria os ingleses a deixar a colónia e, embora consciente das poucas forças à sua disposição para repelir um esmagador ataque chinês, prometeu defendê-los até ao fim no caso de eles ficarem. Mas eles preferiram partir para o ancoradouro de Hong-Kong, e enquanto embarcavam, a guarnição, com Silveira Pinto no seu uniforme militar, esteve presente para impedir um receado ataque chinês”.
Em Cantão, no último dia de Agosto as autoridades da cidade fizeram uma proclamação ao povo, chamando-o às armas contra os ingleses. Assim 31 de Agosto poderá também ser outra data para o início da I Guerra do Ópio.
“Mal tinha terminado a provação de Macau quando, num despacho datado de 1 de Setembro de 1839, Elliot informou Silveira Pinto de que o barco Volage tinha ordens para cooperar na defesa da colónia contra a agressão chinesa. Foi também oferecida a assistência de oficiais e civis ingleses em Hong-Kong e a protecção portuguesa foi mais uma vez solicitada. Ao propor o regresso dos ingleses a Macau, Elliot contradisse formalmente um rumor chinês, segundo o qual a sua retirada tinha sido devido à pressão dos mandarins. A razão, declarou, era porque tinha querido comprometer a colónia sem nenhuma força à mão. Já não era esse o caso: oitocentos mil homens podiam ser imediatamente colocados à disposição do governador.
Mas a situação era delicada; e embora desconhecedor da pretensão de anexação de Macau, Silveira Pinto reiterou que, na ausência de ordens expressas e definitivas do seu governo em sentido contrário, não podia deixar de manter uma estrita neutralidade”, Montalto.
Continuaremos aqui a usar sobre este assunto o que Marques Pereira escreveu nas Ephemérides e Luís Gonzaga Gomes na sua Cronologia, acompanhando com o que Montalto de Jesus apresentou no Macau Histórico.

No Templo de Lin-Fong

Em viagem de inspecção a Macau, o Comissário Imperial Lin Zexu acompanhado por Deng Tingzhen, Vice-Rei de Guangdong e Guangxi, vieram de Qianshan no vigésimo sexto dia da sétima Lua do 21º ano do reinado de Daoguang (1839) e, acompanhados por centenas de soldados, chegaram a Guanzha. Essa barreira conhecida pelos portugueses por Porta do Cerco, foi construída como uma delimitação de fronteira pelos chineses em 1573, ano do começo do pagar foro, que se estendeu até 1849. Montalto de Jesus ao referir-se às Portas do Cerco construídas pelos chineses diz: “No istmo, entre a península da Macau e o continente, os chineses construíram então um muro-barreira com um portão, onde um mandarim e uma esquadra de soldados impediam aos estrangeiros a passagem para o continente, exceptuando aqueles a quem o mandarim fornecera um passaporte. A barreira foi construída, em 1573, claramente como uma delimitação de fronteira, mas servia também para controlar o aprovisionamento da colónia, embora o objectivo declarado fosse apenas o de evitar a incursão dos negros fugitivos de Macau. O portão-barreira, conhecido pelos portugueses como Porta do Cerco, era aberto periodicamente para abastecer a colónia de provisões, numa feira, celebrada num espaço cercado para além da barreira, após a qual esse portão era fechado e selado com seis papéis carimbados. Sobre o portão havia uma inscrição chinesa: “.
Ainda antes do amanhecer do dia 3 de Setembro de 1839, nessa Porta, de Guanzha, do lado da península de Macau, à espera do Comissário Imperial Lin Zexu estavam o Procurador [e não o então Governador português, Adrião Acácio da Silveira Pinto (1837-1843)], o sub-Prefeito e o Magistrado da cidade, assim como um oficial chinês. Com estes representantes de Macau encontrava-se uma guarnição de cem soldados alinhados ao longo dos dois lados da rua e três bandas de música.
Às oito horas da manhã, a comitiva chinesa passou por Guanzha, a porta que fazia de fronteira, e após as boas vindas e uma salva de dezanove tiros de canhões proveniente das fortalezas de Macau, seguiram em cortejo ao som de música para o Templo de Lianfeng. Conhecido por Pagode Novo, o agora Lin-Fong Miu, era o lugar de hospedagem dos mandarins superiores que vinham a Macau.
Estava um dia límpido e o percurso foi feito rapidamente, pois era curta a distância da Guanzha ao Pagode da Porta do Cerco, como também era chamado este templo devido à proximidade com a fronteira.
Batendo nos gongos e transportando bandeiras, uma divisão das tropas chinesas antecedia o Comissário Imperial transportado na cadeirinha por oito chineses e um português como guarda de honra para o servir. A seguir, uma pequena divisão de tropas nativas, que antecedia o Vice-Rei de Liangguang (Guangdong e Guangxi) acompanhado por outros oficiais e mais tropa. Se ao longo do trajecto muitos eram os espectadores, habitantes nas aldeias da península de Macau existentes fora dos muros da cidade cristã, uma multidão aglomerava-se, sobretudo em redor do pátio do templo, tanto na parte exterior como no interior, onde estacionou o cortejo.
Recebidos por oficiais a aguardá-los à entrada do edifício do templo, foram logo as entidades chinesas conduzidas ao interior para se refrescarem. Aí se efectuou a reunião entre o Comissário Imperial e o Procurador.
O Procurador era a pessoa mais importante de Macau e representava a cidade perante as autoridades chinesas e sendo ele Superintendente dos Estrangeiros, tinha o grau de mandarim outorgado pelo Imperador Wan-Li (1573-1620).
Era então Procurador de Macau José Baptista de Miranda e Lima, poeta e professor régio, que estava sentado de frente para o Comissário Imperial Lin Zexu e entre eles, um intérprete português. No interior do templo, pequenos destacamentos com cerca de vinte soldados chineses armados e usando diferentes uniformes e bandeiras.
Lin Zexu declarou a Miranda e Lima a proibição do armazenamento e comércio de ópio dentro da cidade e se fosse encontrado algum estrangeiro com essa substância, deveriam reportar às autoridades chinesas e prenderem-no. Em nome de Macau, o Procurador concordou e prometeu cooperar com o Governo do Império Celeste, aceitando ficarem os portugueses neutrais no conflito sino-britânico e não permitir às forças invasoras inglesas usarem como base Macau durante o conflito. Por fim, Lin Zexu lembrou que os portugueses estavam em território chinês, pois tinham alugado Macau aos governos imperiais Ming e Qing.
Após esta reunião de meia hora, o Comissário Lin ofereceu, aos oficiais, seda, leques, chá e açúcar-cande e aos soldados, quatrocentos yuan de prata, vacas, ovelhas, farinha e vinho, após o que foi fazer sacrifícios no altar de Tian Hou (a deusa dos mareantes e conhecida localmente por A-Má) e Guan Di (Deus da Guerra e da Riqueza, representado por Guan Yu, um guerreiro do Período dos Três Reinos e conhecido em cantonense por Kwan Tai).

Às voltas em Macau

Eram nove horas da manhã quando saindo do Templo de Lin Fong, foi o Comissário dar uma volta pela cidade a inteirar-se da cultura portuguesa e a maneira de viver da cidade, assim como para inspeccionar alguns locais e ver se as suas ordens estavam a ser cumpridas.
Passando pela aldeia do Patane e junto à praia com esse nome, subiu até Baige Cao (hoje Jardim de Camões) e pela Porta de S. António entrou na cidade cristã, sendo saudado com uma salva de tiros pelos canhões da Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de S. Paulo. Continuando pela longa rua até ao porto interior, passou pela Alfândega chinesa e depois junto das igrejas de S. José e S. Lourenço, chegando ao templo próximo da Fortaleza de S. Tiago da Barra. Daí retornou e seguindo pela Calçada do Bom Jesus (Gaolou) e Fonte do Lilau (o poço Yapo) de novo cruzou S. Lourenço e desceu por uma viela para a Praia Grande. Percorrendo-a, ao chegar à Rua do Campo foi até à Porta de S. Lázaro, de onde voltou pela Rua do Hospital, hoje Rua Pedro Nolasco da Silva (conhecida também por Rua das Mariazinhas). Contornando a Colina da Nossa Senhora do Monte, passou por Yingdi (S. Domingos), seguiu por Yingdi (Rua dos Mercadores) e Guanqian (Rua dos Ervanários) e saiu da cidade pela Porta de S. António, onde foi saudado com 21 tiros de canhão, segundo referencia o Chinese Repository, de onde retiramos algumas destas informações, refeitas pelo que se pode encontrar no Museu de Lin Zexu, situado ao lado do Templo de Lin Fong e de fontes chinesas. De lembrar que estas duas Portas da cidade davam para as várzeas, cultivadas pelos chineses das aldeias fora da muralha, mas ainda na península de Macau.
Neste passeio pela cidade cristã e seus limites, algumas casas foram vistoriadas. Os habitantes chineses ergueram em muitos locais do percurso uma série de arcos do triunfo, assim como, fora das suas residências e lojas colocaram mesas com vasos de flores, demonstrando gratidão pela visita do Comissário Imperial.
Lin Zexu e o Vice-Rei de Liangguang Deng Tingzhen apenas ficaram três ou quatro horas em Macau, pois, segundo o que lemos no Museu de Lin Zexu (que não refere a hora de entrada na península de Macau), ao meio-dia desse dia o Comissário retornou para Qianshan, sendo acompanhado pelos portugueses até Guanzha.

2 Mai 2016

O cerco das Feitorias e a queima do ópio

Tal como nos dois anteriores artigos, que tratavam sobre os antecedentes da Guerra do Ópio, onde como figuras principais aparecem Charles Elliot, o superintendente do comércio inglês na China e o Comissário Imperial Lin Zexu, o texto hoje aqui publicado está também baseado no que Marques Pereira e Luís Gonzaga Gomes escreveram sobre o assunto. Mas conta agora com mais uma fonte, Montalto de Jesus, que só começou a apresentar este período, no seu Macau Histórico, no momento em que na última semana deixamos a história, o dia 18 de Março de 1839. Num édito com essa data, o Comissário Imperial Lin Zexu, na qualidade de Qin Chai Da Chen, ordenou que lhe fosse entregue sem demora todo o ópio existente em navios. Esta é uma das datas para o início da Primeira Guerra do Ópio.
O mandarim Lin Zexu, que em 1836 advogara a proibição do ópio, foi apontado no dia 15 da décima primeira Lua do 18º ano do reinado de Daoguang (Dezembro de 1838, ou Janeiro de 1839) para o cargo de comissário imperial, quando o Imperador se decidira pela proibição do consumo e tráfico de ópio, “embora os funcionários de alfândega fossem todos contra esta drástica medida”, como refere Montalto. Sabendo-se a data, pelo calendário lunar, de quando em Pequim foi nomeado Lin Zexu como Comissário Imperial para em Cantão tratar com os europeus, esta, pelo calendário solar corresponderá a 3 de Janeiro de 1839, para Marques Pereira e Alfredo Gomes Dias, apesar de haver quem dê o dia 6 de Janeiro. Já quanto à chegada do comissário imperial a Cantão, não há dúvidas, foi a 10 de Março de 1839.
“Investido de plenos poderes para esmagar o mal, este estadista, o alto comissário imperial Lin, primeiro despertou nos mandarins o seu sentido do dever. Compete-vos governar o povo! Julgar os seus crimes e aplicar-lhes os castigos. Deixai-me perguntar-vos, supondo que fôsseis chamados a julgar os , por que lei ou estatuto os julgaríeis? Num apelo eloquente à rainha Vitória, que se presume nunca chegou ao seu destino, Lin queixosamente expôs que nos caminhos do Céu não existe parcialidade, e não é permitida sanção para lesar os outros em proveito próprio. Foi proposto erradicar o mal com medidas concertadas: a China proibiria o uso do ópio e a Inglaterra suspenderia o seu cultivo e a sua manufactura. Ao justificar a atitude da China, Lin anunciou as medidas drásticas a serem postas em vigor, não fosse alegado como desculpa não ter sido feito um aviso prévio. No édito aos estrangeiros de todas as nações, Lin perguntou: Porque trazeis para o nosso país o ópio que não usais no vosso próprio país, com isso defraudando os homens dos seus bens e causando dano às suas vidas? Acho que com esta coisa tendes seduzido e enganado o povo da China durante dezenas de anos, e inúmeros são os tesouros indevidos que adquiristes. Ao proclamar as extremas penalidades da lei agora em vigor, Lin exortou os mercadores estrangeiros a entregar quanto ópio possuíssem, em troca do que o imperador lhes concederia grandes favores”, Montalto de Jesus. No entanto, Marques Pereira data a carta à Rainha Vitória em 2 de Fevereiro de 1840.
Desde a chegada do Comissário Lin Zuxe, Charles Elliot optara por uma atitude resistente, mas a 18 de Março de 1839, por Édito, o Comissário Lin ordenou que lhe fosse entregue sem demora todo o ópio existente nos navios. O Capitão Elliot assim o fez, levando mais de vinte mil arcas, avaliadas em seis milhões de dólares e que se encontravam armazenadas nos cascos dos navios ao largo de Lintin.

Cerco às feitorias

No dia seguinte, 19 de Março, Lin Zexu (Lint-sih-siu) mandou o seu exército cercar as feitorias e proibiu todos os residentes estrangeiros de daí saírem, sendo por ordem do Vice-Rei de Cantão, dois dias depois, interceptada toda a correspondência com as feitorias.
Elliot, vendo o caso mal parado, enviou a Macau uma nota datada de 22 de Março pedindo ao Governador a protecção dos residentes ingleses da cidade. Recebeu de Silveira Pinto a promessa dessa protecção, com excepção dos que estivessem comprometidos no tráfico proibido.
Dois dias depois de estarem presos na feitoria, a 23, o Capitão Elliot resolveu ir juntar-se aos seus compatriotas encerrados no seu interior e assim, a 24 de Março atravessou o cerco e ficou também prisioneiro.
Interessante é ler o que o Capitão Elliot escreveu ao Lorde Palmerston: “Se os meus sentimentos pessoais tivessem a menor influência nos assuntos importantes de natureza pública, segura e justamente diria que nenhum homem tem maior abominação pela desgraça deste tráfico forçado na costa da China do que o humilde indivíduo que assina este despacho. Vejo pouca diferença entre isto e a pirataria. Contudo, o peso de três milhões de libras esterlinas para o tesouro público da Índia sobrepôs-se a todas as outras considerações, embora fosse óbvio que, se não fosse pelo escoamento financeiro que o ópio impunha à China, o comércio externo prosperaria consideravelmente e a China estaria mais receptiva aos estrangeiros em geral.”
A 25 de Março os negociantes estrangeiros detidos nas feitorias de Cantão prometeram, sob penhor de avultada quantia de dinheiro, nunca mais negociarem em ópio com súbdito algum do Imperador da China e Elliot, no cargo de chefe superintendente do comércio inglês na China desde 1836, pediu passaportes para se retirar com todos os residentes ingleses. As autoridades chinesas recusaram e exigiram a entrega de todo a ópio guardado nos navios de depósito, como Marques Pereira refere citando a Chronology of Affairs in China. No dia seguinte repetiu-se a intimação de Lin para a entrega de todo o ópio existente em Cantão e nos navios de depósito. O capitão Elliot publicou um edital ordenando a todos os ingleses, em nome de governo de sua majestade britânica, a imediata obediência à mesma intimação e declarando-se responsável pela menor falta no cumprimento dela.
A 27 de Março, o Comissário Imperial chinês fez queimar publicamente 20 289 caixas de ópio, confiscadas aos ingleses, tendo supervisionado pessoalmente a sua destruição. A seguir, aos comerciantes apanhados com ópio, o comissário Lin fê-los prometer solenemente nunca mais importarem a droga. Mas, como Montalto refere, “apenas uma firma manteve a palavra até ao fim, Wetmore & Co., uma firma americana; e também por algum tempo, Dent & Co.. Entre o grupo de importadores estavam os fundadores da Jardine Matheson & Co., que em vinte anos tirou três milhões de libras esterlinas do tráfico de ópio em Cantão”.
“No seu muito autoritário despacho de 13 de Abril de 1839, Elliot colocou todos os súbitos, barcos e bens ingleses em Macau sob a protecção portuguesa; e em troca, ofereceu todo o crédito pretendido para uma eficaz defesa da colónia e do porto da Taipa; para o equipamento de embarcações da guarda costeira e, caso necessário, para reforçar e prover a colónia através de apelo imediato a Manila, ficando as condições de qualquer assistência mutuamente prestada para serem ajustadas pelos respectivos governos, e sendo todos os súbditos ingleses em Macau postos sob as ordens do governador para este o desejasse, defenderem os direitos da coroa, das vidas e dos bens portugueses.” E continuando em Montalto, “O governador Silveira Pinto explicou, em resposta, como a sua muito especial posição lhe impunha o sagrado dever de observar uma estrita neutralidade”, reiterando a protecção às “vidas e bens dos súbitos ingleses, com a única excepção aos que estivessem relacionados com o proibido comércio do ópio.”
“Elliot advogou então a anexação de Macau; no seu despacho a Lorde Palmerston, então secretário de Estado para os Assuntos Exteriores, datado de 6 de Maio de 1839, pretendeu ser a segurança de Macau de importância secundária para o governo português e de necessidade indispensável para os ingleses, particularmente nessa crise; e, consequentemente, exigiu disposições imediatas, quer para a cedência dos direitos portugueses em Macau quer para a eficaz defesa do local e a sua apropriação para uso inglês mediante uma convenção subsidiária. Urgia a necessidade de radicais reformas civis, militares e fiscais, de forma a tornar o lugar, no mínimo, um entreposto seguro, ou para lhe dar uma verdadeira utilidade como protecção; mas havia pouca esperança neste propósito enquanto Macau estivesse nas mãos dos portugueses”, Montalto de Jesus.
Por Edital de 8 de Maio, o Vice-rei de Cantão decretou a pena de morte a quaisquer novas tentativas de introdução, uso, ou negócio de ópio e permitiu ao superintendente do comércio britânico e aos cônsules americano e holandês saírem das feitorias com todos os seus compatriotas, não devendo jamais tornar à China. A 24 de Maio saem de Cantão para Macau o superintendente do comércio britânico Elliot e todos os negociantes ingleses, com promessa escrita de nunca mais voltarem à China.

Ingleses em Macau

Lin Zexu a 3 de Junho de 1839 mandou queimar vinte e duas mil caixas de ópio em Humen, actualmente Dongguan, província de Guangdong, tendo tal durado até 25 desse mês. Mil caixas eram de origem turca e pertenciam aos mercadores americanos.
O mandarim da Casa Branca enviara ainda no dia 31 de Maio, um Ofício ao Procurador de Macau para lhe mandar as listas do recenseamento da população desta cidade, mas como estas demoravam a serem entregues, a 9 de Junho voltou a expedir um outro, dizendo estranhar a demora.
Montalto refere, “Num édito publicado em Chinsan, Lin, ao prevenir os portugueses dos perigos que corriam ao abrigar em Macau ladrões ingleses, alegorizou-os como pássaros que queriam possuir o ninho dos outros; e proibiu o fornecimento de provisões, assim como de mão-de-obra chinesa, aos residentes ingleses em Macau, em represália por não terem entregue um marinheiro inglês que assassinara um nativo em Kowloon”. Como nota deste episódio, o China Year Book de 1924 refere: “Esta questão secundária da recusa serve agora para explicar a causa imediata da guerra geralmente conhecida como Guerra do Ópio”. A esse acontecimento deu Marques Pereira mais detalhes dizendo que, em consequência do assassinato de Lin-uei-hi, por Edital de 15 de Agosto de 1839, o Vice-Rei de Cantão proibiu o fornecimento de qualquer espécie de alimentos aos ingleses residentes na China.
“Aos portugueses e outros estrangeiros, que o édito tinha poupado, foi pedido que entregassem ao tso-tang uma lista das suas necessidades diárias, para fornecimento, dando a entender claramente que a proibição seria estritamente observada. Foram os pobres, infelizmente, quem sofreu em consequência da proibição, pois as provisões, ao serem escassas, tornavam-se cada vez mais caras; e entre os chineses, em particular, grassava uma horrível miséria. Lin exigia, agora, a expulsão dos ingleses de Macau; e tendo a ordem sido ignorada, ameaçou a colónia. Por entre um infernal barulho de gongos e da gritaria de uma população enfurecida, tropas chinesas, em número considerável, juntaram-se à volta das instalações inglesas, perto da Gruta de Camões, de onde foram repelidas por um destacamento da guarnição, comandado pelo próprio Silveira Pinto”, Montalto.
Como o Governo de Macau anunciara a neutralidade na disputa entre a Inglaterra e a China, por conselho de Elliot, a 26 de Agosto todos os súbditos ingleses que residiam nesta cidade retiraram-se para Hong Kong.
Em Cantão, as autoridades chinesas fizeram uma proclamação ao povo no último dia de Agosto, chamando-o às armas contra os ingleses.

22 Abr 2016

O Capitão Elliot e Lin Zexu magistrado do Império Celeste

Fazendo um rápido resumo do artigo da semana passada, cuja história versou sobre a dificuldade de entrar em Cantão, para aí residir, do Capitão Charles Elliot, nomeado pelo governo inglês a 7 de Junho de 1836 para superintendente do comércio britânico na China. O governador de Cantão só a 18 de Março de 1837 lhe deferiu o pedido, pois apenas a 11, ou 14 de Dezembro do ano anterior, se recebeu essa nomeação em Macau. Assim, nesta cidade ficou Elliot até 11 de Abril, quando finalmente pode seguir para Cantão o Ministro da Inglaterra.
Segundo Ângela Guimarães, o Sistema Comercial de Cantão “só se pode considerar completo e oficializado em 1757, quando o comércio com os ocidentais é legalmente limitado ao porto de Cantão” e “vai durar até à I Guerra do Ópio”, assente “na tradicional concepção chinesa do mundo.” Possuindo produtos cujos estrangeiros muito apreciavam, tinham “este comércio organizado de maneira monopolística, na qual 13 Hongs, dos mais sólidos comerciantes do ramo, concentram o privilégio de comerciar com as feitorias estrangeiras, mediante o pagamento de somas significativas à corte imperial. O conjunto dos Hongs formam o Co-hong que, ainda dentro das regras da harmonia do sistema, é o responsável superior de todos os estrangeiros e o seu único intermediário nas relações oficiais com o poder imperial”. “Nessa base, o comércio, sendo considerado uma actividade privada, entre privados, não pressupõe relações diplomáticas” e “assim, os comerciantes estrangeiros admitidos a comerciar em Cantão apenas se relacionam com os comerciantes locais e dentro de um conjunto de regras muito estritas que visam a que a sua presença não perturbe excessivamente a ordem social vigente”, retirado do excelente livro Uma Relação Especial – Macau e as relações luso-chinesas (1780-1844) de Ângela Guimarães.
Ainda segundo esta historiadora, a balança do comércio sino-britânico era muito desfavorável aos ingleses que, para trocar pelo chá, porcelanas, seda e lacas, apenas tinham produtos de pouca relevância como, tecidos de lã e linho, ferro, cobre e quinquilharia provenientes de Inglaterra e da Índia traziam algodão bruto, marfim, sândalo, prata e ópio. A China exigia pagamento em prata, o que levou “à procura de um produto de compensação, que acabará por ser o ópio”.

ópio como moeda de troca

A importação de ópio foi alvo em 1729 de uma proibição oficial em Fujian e banida em todo o Império por Édito do Imperador Yongzheng (1722-1735) em 1731, segundo refere Jacques Gernet. Continuando com este sinólogo, “a cultura do ópio progride a partir do final do século XVIII depois da ocupação da Índia pelos Ingleses. A Companhia das Índias Orientais adquire os seus primeiros direitos territoriais no Bengala em 1757 e alargam-se ao Bihar em 1765. Em 1773, apodera-se do monopólio do contrabando de ópio para a China e desenvolve a cultura da papoila, primeiramente no Bengala e, depois, em Malwa, na Índia Central”.
A Companhia Inglesa das Índias Orientais em 1781 começou a enviar unicamente ópio para a China e quinze anos depois, em 1796, a China proibia de novo a importação de ópio. Foi então que a Companhia Inglesa das Índias Orientais decidiu fazer de Macau o centro para o comércio desta droga e levada em contrabando, resultou, num crescimento das quantidades que entravam clandestinamente na China, no aumento do preço e em grandes fortunas para os contrabandistas, tanto ingleses, como alguns portugueses de Macau.
Com a Revolução Francesa de 1789 ocorrera o desmoronamento das antigas instituições políticas e o monopólio das grandes companhias de privilégio estatal com o liberalismo, dominante a partir da década de 1830, deu acesso aos “comerciantes livres que, em regime de licença ou em contrabando, acabarão por dominar os sectores em que se envolvem”… e segundo Ângela Guimarães, são eles, “os comerciantes da country trade, que assumem uma importância cada vez maior na percentagem do comércio” e no uso dos mecanismos fora-de-lei. Devido à tarifa imposta em Macau aos estrangeiros por Arriaga, os importadores ingleses passaram desde 1821 a ancorar os seus barcos com ópio na ilha de Lintin. “Em 1834, o parlamento inglês aboliu o monopólio (da East India Company) e liberalizou o comércio em Cantão”, segundo refere H. Gelber. Já Marques Pereira diz que, a 22 de Abril de 1834 os privilégios da Companhia Inglesa das Índias Orientais na China (EIC, East India Company) foram extintos e suspensa a sua sucursal chinesa devido ao progresso do contrabando privado de ópio. A 7 de Novembro de 1834, o Imperador Tou-Kuóng (Daoguang, 1821-1850) decretou novamente a proibição do tráfico do ópio. Mesmo assim, algumas dezenas de caixas de ópio foram tomadas a embarcações de contrabandistas e em 23 de Fevereiro do ano seguinte foram publicamente queimadas, em Cantão. Como todo este artigo está baseado em Marques Pereira e Luís Gonzaga Gomes, não usamos aspas para os citar. Já quanto às datas referidas, encontramos algumas delas diferentes para os mesmos acontecimentos e fruto das que pudemos investigar, percebe-se ter Gonzaga Gomes corrigido muitas delas.

DEIXAR ANDAR

Em 29 de Setembro de 1837 o enviado Elliot foi intimado ao dever de expulsar todos os negociantes e navios ingleses que traficavam em ópio, mas, fazendo ouvidos de mercador, aconselhava-os a não levarem a sério tal proibição e essa ordem só deu aos seus concidadãos passado um ano, continuando assim o comércio a fazer-se.
A 10 de Janeiro de 1838 foram apreendidas em Cantão algumas caixas de ópio a um residente inglês. Já os chineses apanhados no contrabando de ópio eram enforcados; tal aconteceu em 25 de Fevereiro em Cantão e a 5 de Abril, no lado de fora das muralhas de Macau, por ordem dos mandarins, ao chinês Kuo-Si-Peng, por ter sido apanhado, em flagrante delito, a vender ópio.
O Governador de Cantão a 3 de Dezembro de 1838 ordenou a imediata suspensão do comércio estrangeiro, pois nesse mesmo dia fora apreendida uma porção de ópio, que se julgou haver sido importado pelo navio americano Thomas Perkins. O consignatário daquele navio e os europeus em cuja posse o ópio fôra descoberto foram expulsos. No dia 12, em frente das feitorias, por ordem das autoridades chinesas de Cantão, deu-se princípio à execução de um fumista de ópio. Opuseram-se ao acto os europeus e o padecente foi morrer noutro cadafalso.
Assim, só em 18 de Dezembro de 1838, passado cerca de um ano após ser intimado, o plenipotenciário Elliot se apressou “a fazer uma intimação aos navios ingleses, empregados em comércio de ópio, para saírem do rio de Cantão no prazo de três dias”. 2 IMG_0128 Charles Elliot
Já desde 12 de Julho de 1838 tinha chegado a Macau, num navio de guerra, o Almirante Maitland, com instruções para proteger o comércio inglês.
Jacques Gernet refere que “entre 1800 e 1820 tinham entrado na China 10 milhões de liang”, mas depois, só em três anos, entre 1831 e 1833, saíram 10 milhões. Os comerciantes ingleses em substituição da prata traziam como moeda de troca, o ópio cujo volume em 1834 era de vinte mil e quinhentas caixas e em apenas quatro anos subira para as quarenta mil caixas (variando cada caixa entre os 63 kg e os 71 kg).
Perante tão assustador aumento exponencial do tráfico de ópio e a arrogância agressiva dos ingleses, que faziam tudo o que bem lhes apetecia e em constantes transgressões desafiavam à descarada o poder chinês, os governantes Qing consciencializaram-se do perigo que corriam. Por isso, em Dezembro de 1838 foi nomeado Lin Zexu (1785-1850) para acabar com tal comércio, maioritariamente feito pelo porto de Guangzhou.
A 1 de Janeiro de 1839 foi restabelecimento temporariamente o comércio estrangeiro em Cantão, interrompido, por ordem das autoridades chinesas, em 3 de Dezembro do ano anterior.

O COMISSÁRIO LIN

Em 1836, o Imperador Daoguang (1821-1850) pedira aos seus principais ministros pareceres sobre como se deveria atacar o problema do ópio. Assim escutou quem defendesse a legalização do seu comércio, pois controlado acabava com o contrabando e a corrupção que daí advinha, podendo este ser uma importante fonte de receita. Houve quem propusesse o incentivo ao seu cultivo, mas a maioria foi pela sua proibição, já que o ópio vinha minando a estrutura social chinesa. O Imperador Daoguang decidiu-se pela proibição e no dia 15 da décima primeira Lua do 18º ano do seu reinado (Dezembro de 1838, ou Janeiro de 1839) apontou o então Vice-Rei de Hugang (Hunan e Hubei), Lin Zexu para na qualidade de Qin Chai Da Chen, magistrado especial da Corte imperial e seu representante directo, tentar acabar com o consumo recreativo de ópio e o seu clandestino tráfico.
Lin Zexu, nascido a 30 de Agosto de 1785 em Houguan (actual Fuzhou, capital da província de Fujian) de uma família sem muitos recursos, pois o pai como professor não ganhava o suficiente para dar uma vida desafogada aos onze filhos, mostrou desde criança grande talento. Lin Zexu, com o nome de cortesia Yuanfu, aos dez anos escrevia poemas e em 1799, com a tese “Lealdade ao País, orientar o povo e obediência aos pais”, foi o primeiro nos exames preparatórios, que davam acesso aos Exames Imperiais. Aos dezanove anos tinha já o título de Juren e em 1807 foi seleccionado para assistente de Zhang Shicheng, o Governador de Fujian. Em 1811, após aprovado nos exames do Palácio, já com o título de Jinshi foi durante sete anos trabalhar na Academia Hanlin em Beijing, preparando-se em diferentes áreas para os futuros desafios. Apontado em 1820 como supervisor do Controlo de Cheias do Lago Hangjia, na província de Zhejiang, devido à sua intransigência contra os oficiais corruptos, o que lhe trouxe bastantes inimizades no seio dos oficiais civis, no ano seguinte deixou o cargo e regressou à terra natal. Alguns dos seus amigos oficiais reportaram a sua situação ao imperador Dauguang, que o apontou como Ancha da província de Jiangsu. Durante os trinta anos da sua brilhante carreira de Oficial Civil, passou pelo governo de catorze províncias e deu o seu melhor nos muitos altos cargos que exerceu, não se aproveitando deles para tirar partido e enriquecer. Vivendo com o espírito de abnegação, tentou disciplinar os seus subordinados contra a corrupção, que nessa altura grassava pela China da dinastia Qing. Foi um dos primeiros chineses a opor-se à política de fechar a China em si mesmo e procurou conhecer o pensamento e a tecnologia ocidental, para melhor resistir às incursões britânicas. Assim mandou traduzir os tratados estrangeiros sobre a produção de armas e barcos e, para saber o que eles pensavam e o que escreviam nos jornais tanto de Londres, como da Austrália, de Singapura, da Índia, assim como nos de Macau.
Cidadão exemplar, Lin Zexu ficou conhecido por ter mandado queimar em Humen, na província de Guangdong, uma grande quantidade de ópio expropriado aos comerciantes ingleses, o que deu início à Guerra do Ópio.
Mas ainda antes da chegada a Cantão de Lin Zexu, o Vice-Rei de Cantão, Deng Tingzhen, a 7 de Janeiro de 1839 ordenou que os seus meirinhos procedessem a uma busca em todas as habitações da cidade e apreendessem qualquer porção de ópio que nelas encontrassem, devendo ao mesmo tempo apoderar-se dos possuidores dessa droga proibida, para serem executados. É de notar neste facto que o povo de Cantão não consentiu que a busca se efectuasse sem que primeiro fossem vistas as habitações dos próprios meirinhos. A 26 de Fevereiro, defronte das feitorias europeias foi executado um chinês negociante de ópio e perante tal espectáculo os consulados arriaram, neste acto, as suas bandeiras.
A 10 de Março de 1839 chegou a Cantão o célebre comissário imperial chinês Lint-sih-siu (Lin Zexu) e oito dias depois, por Édito ordenava que lhe fosse entregue sem demora todo o ópio existente em navios e na cidade.

15 Abr 2016