Do Atlântico Fenício ao Cabo das Tormentas

A porta do Oceano Atlântico para o Índico foi reaberta em 1488 por Bartolomeu Dias, que lhe chamou Cabo das Tormentas. Passado doze anos, o destino deu-lhe razão! Aí morreu em 1500, aquando da sua viagem na frota de Pedro Álvares Cabral, já o nome tinha sido mudado por D. João II, para Cabo da Boa Esperança. Foi com muitas mortes que se aprendeu os tempos certos de entrada no Oceano Índico, após a aprendizagem feita no revoltoso Atlântico.
Segundo Joaquim Veríssimo Serrão em Portugal e o Mundo: “As frotas que iam regularmente a devassar o Atlântico, para a descoberta de novas ilhas e terras, tinham como capitães homens adestrados nos caminhos do oceano, portanto técnicos da ciência naval que cumpriam missões de carácter exploratório marítimo. Assim sucedeu com os maiores nomes da navegação quatrocentista de Portugal, desde Gil Eanes, descobridor do cabo Bojador, a Nuno Branco, que atingiu, pela primeira vez, o cabo Branco; desde João de Santarém e Pêro Escobar, que descobriram o arquipélago de São Tomé e Príncipe, a Rui de Sequeira a quem se deve a abordagem ao cabo Catarina; desde Diogo Cão, que chegou ao rio Zaire e atingiu o litoral de Angola, a Bartolomeu Dias, protagonista da temerária empresa de ultrapassar o cabo da Boa Esperança. Eram todos comandantes de navios e experientes na arte náutica, a quem a coroa atribuía o encargo de avançar o processo dos Descobrimentos, no que se atribui ao infante D. Henrique, o primeiro orientador da expansão atlântica”.
Partira Bartolomeu Dias de Lisboa em 1486 e no Sul do continente africano sofreu um violento temporal, andando à deriva com o mar encapelado e ondas alterosas. Procurou costa para Leste, mas só encontrou mar. Rumou para Norte e descobriu terra, navegando depois pela costa Oriental de África até ao chamado Rio do Infante. Devido ao temporal sofrido apelidou-se aquele promontório de Cabo das Tormentas. Bartolomeu Dias só chegou a Lisboa em Dezembro de 1488.

Os Fenícios pelo Atlântico

Os fenícios navegavam por todo o Mar Mediterrâneo no século X a.C., tendo-se aventurado depois pelo Oceano Atlântico. O rei fenício Hirão estabeleceu um acordo com Israel, para desenvolver o comércio. Assim, o auxílio a Israel com conhecimentos técnicos permitia aos fenícios o acesso ao Mar Vermelho. Com madeiras de cedro vindas da Fenícia (actual Líbano), construíram-se barcos de longo curso que, do porto de Asiongáber (talvez a actual cidade de Elath), no Golfo de Áqaba, partiram para expedições comerciais.
Os fenícios descobriram a utilidade da Estrela Polar para a navegação. Consta que no século VIII a.C., deram a volta a África, de Oriente para Ocidente, ao serviço do faraó Necao II. Descrita no século seguinte por Heródoto, a viagem que durou três anos, fez-se navegando para Sul ao longo da costa Oriental de África e regressou ao Egipto pelo Mediterrâneo. Com o tempo esta viagem perdeu-se da memória. O mesmo aconteceu ao navegador cartaginês, Hanon, que segundo Bartolomeu de Las Casas, transpôs o Cabo Hespéridas, mas outras fontes revelam que essa expedição de sessenta barcos, iniciada em 470 a.C. (ou 520 a.C.), teria saído de Gibraltar e desta vez pelo Ocidente navegou para criar colonatos pela costa Ocidental de África. Fundaram um entreposto na foz do Rio do Ouro, mas ao atingir as costas do actual país Camarões, aí encontraram um mar de fogo e por isso, não prosseguiram.
Os cartagineses visitavam com regularidade as costas da Península Ibérica e a céltica, indo à Cornualha para adquirir estanho. Já os gregos, para além do Mediterrâneo, tinham relações com os povos do Oceano Índico através do Mar Vermelho e da Península Arábica.
Alexandre da Macedónia usou os fenícios quando ocupou a Mesopotâmia e os conhecimentos marítimos deles para estabelecer colónias no Golfo Pérsico e em 323 a.n.E., quando morreu, o seu legado manteve-se Selêucida pela Ásia Central e no Egipto, com a dinastia dos Ptolomeus. A Ásia Central apresentava-se dividida, com os partos a separarem-se logo em meados do século III a.n.E. e no Oriente, com o reino da Báctria.
É com este panorama que no século II os chineses e romanos vão procurar encontrar-se pelo mar. Os romanos chegavam à China e os chineses andavam pela Pérsia a procurar conhecer os caminhos pelo mar para atingir o Mediterrâneo.
Assim, mais de dois mil anos antes da viagem de Bartolomeu Dias, já os fenícios tinham dobrado o Cabo que trouxe a Esperança aos portugueses. Daqui se percebe o legado dos fenícios para a navegação do Atlântico.

Preparação para navegar no Índico

Corria o ano de 1291, em Portugal reinava D. Dinis (1279-1325), O Lavrador, quando dois irmãos genoveses, Ugolino e Vadino Vivaldi, partiram no mês de Maio em uma ou duas galés de Génova no Mar Mediterrâneo. Tendo o promotor da viagem “Tedisio Doria, pertencente à burguesia endinheirada genovesa, que contraiu empréstimos avultados, já que se previa para a expedição um prazo de anos. Sabe-se que a viagem, depois de escalas em Maiorca e Ceuta, prosseguiu para sul, para lá do estreito de Gibraltar, até aproximadamente à latitude do cabo marroquino de Rhir (Guer), um pouco a norte de Agadir. Contudo, a partir daí, tudo se desvanece em conjecturas”, segundo A. H. de Oliveira Marques. Já outras fontes referem terem eles se aventurado a navegar pelo Atlântico, fizeram escala nas Canárias e seguindo para Sul, na tentativa de dobrar o continente africano e chegar à Índia, desapareceram. Estava na memória ainda fresca esta viagem, que o Rei D. Dinis seguramente tomara conhecimento e por isso, a organização do almirantado, cujas primeiras notícias remontam a 1288, com um tal Domingos Martins. Em 1317, o genovês Manuel Pessanha (Pezagno) foi contratado por D. Dinis como Almirante mor para reorganizar por completo a frota da marinha portuguesa.
Após a morte deste rei em 1325, sucedeu-lhe o seu filho D. Afonso IV, que governou Portugal entre 1325 a 1357. “Entre 1329 e 1336 os Portugueses, quer por iniciativa régia quer por resolução do almirantado, organizaram uma primeira expedição que alcançou o arquipélago das Canárias, visitando, pelo menos, Lanzarote e Fuerteventura com as ilhotas adjacentes”, segundo A. H. de Oliveira Marques que refere: “O arquipélago das Canárias era conhecido desde longa data, tendo sido povoado talvez em finais do IV milénio a.C. a partir de África, por povos etnicamente aparentados com os Berberes, a que se seguiram outras vagas de invasores nos III e II milénios a.C.. Depois, tanto Fenícios quanto Gregos e Romanos o devem ter conhecido e eventualmente escalado, atribuindo-lhe a designação de Ilhas Afortunadas (Fortunatae Insulae), com que passou à lenda”. O Rei D. Afonso IV diz ter enviado uma esquadra capitaneada por Nicolau de Recco a explorar as Ilhas Canárias em 1336, marcando essa data o início das descobertas portuguesas.
Os barcos usados pelos portugueses nas suas viagens marítimas foram evoluindo e se até 1436 se navegava em galés, nessa data apareceu a caravela, uma invenção portuguesa, produto de muito estudo e prática passada no mar, que permitiu navegar no alto-mar e em todos os oceanos. Era a embarcação mais adequada devido a ser ligeira com pequena calagem e facilidade de manobra, que não precisava de um grande número de homens.

Pêro da Covilhã e o Mar Arábico

Reinava já D. João II (1481-1495), quando este rei convocou Pêro da Covilhã dando-lhe uma secreta missão. Constava em ir até à Índia, saber de onde vinham as especiarias, de conhecer os métodos de navegação usados no Mar Arábico, as rotas comerciais muçulmanas e as ligações com a costa Oriental de África. Afonso Paiva, que acompanharia Pêro da Covilhã até ao Egipto, levava como missão entrar na Abissínia e encontrar-se com o Preste João.
Saíram de Santarém a 7 de Maio de 1487, ano em que Bartolomeu Dias partia por mar para dobrar o Cabo das Tormentas. Passando por Lisboa seguiram por terra até Barcelona, depois foram a Nápoles e daí continuaram até à ilha de Rhodes. Entraram disfarçados em território islâmico. Pêro da Covilhã falava árabe por ter vivido em Sevilha durante a sua juventude e o seu conhecimento da cultura muçulmana aliado ao aspecto físico, semelhante aos homens do Norte de África, permitiu-lhe confundir-se com os povos que a partir daí foi visitando. Disfarçados de mercadores de mel entraram em Alexandria, onde adoeceram e só de lá saíram quando se restabeleceram. Depois seguiram para o Cairo, onde Pêro da Covilhã encontrou comerciantes de Tremezém seus conhecidos, com quem continuaram viagem, já no ano de 1488 pelo Suez, até à cidade de Toro (ou Tur), na costa ocidental da península do Sinai. Daí atravessaram o Mar Vermelho e chegaram a Suaquém, na costa africana. No Verão de 1488, em Adém, Pêro da Covilhã separou-se de Afonso Paiva, com quem combinou uma data para se voltarem a encontrar no Cairo, quando cada um tivesse acabado de executar a sua missão.
Agora sozinho, Pêro da Covilhã foi o “primeiro” português a visitar a Índia. Desembarcou em Cananor, a terra do gengibre. Passou depois por Calicute, de onde eram exportadas a pimenta e outras especiarias para a Europa, nos barcos muçulmanos. Em 1489 vai a Goa, daí partindo pelo Mar Arábico até Ormuz, talvez integrado numa hajj, peregrinação a Meca. Nos finais de 1489 estava em Sofala, com mercadores muçulmanos e ficou a conhecer o local mais distanciado nas costas Orientais de África onde os barcos muçulmanos chegavam para comerciar. Era o primeiro europeu a visitar Sofala.
Com tudo registado e a missão cumprida, Pêro da Covilhã voltou a Adém em 1489 e no ano seguinte estava em Toro, chegando de novo ao Cairo em 1491, onde tinha combinado encontrar-se com Afonso Paiva. Aí ficou a saber, por dois emissários que D. João II tinha enviado à sua procura, da morte do companheiro. Entregando o que registara da sua viagem pelo Mar Arábico, desde Sofala, na costa Oriental de África, até ao Sul da Índia, partiu depois para a Etiópia, a fim de concluir a missão que o rei de Portugal dera a Afonso Paiva, mas daí, onde de novo se casou, nunca mais saiu.
Assim, para se atingir a Índia faltava a navegação entre o Rio do Infante e Sofala, apesar de constar que após 1488 e depois da viagem de Bartolomeu Dias ter passado o Cabo das Tormentas e chegado à costa Oriental da África, outras tinham sido secretamente realizadas, tendo conseguido viajar ainda mais para Norte. Sobre o Mar Arábico, D. João II tinha já desde 1492 as informações de Pêro da Covilhã sobre o comércio entre o porto de Sofala e a Índia.

1 Jul 2016

Especial 24 de Junho | A mãe de todas as batalhas

Decidiu-se nesse dia a sorte deste território. Para o bem e para o mal. Os holandeses perderam. E lá se foram as socas, o calvinismo e as tulipas. Ficou o vinho, o bacalhau, os jesuítas e o macaense. Foi um milagre

Para falar do dia 24 de Junho de 1622, ninguém melhor que C. Boxer com esta excelente síntese: “A ideia dum ataque holandês contra Macau datava já de muito antes de 1622. Pondo de parte as visitas hostis feitas por naus ou galeões holandeses em 1601, 1603 e 1607, que não eram, afinal, destinadas para ocupar a colónia à mão armada, a malograda tentativa de 1622 tinha a sua origem no estabelecimento dos holandeses no Japão, doze anos antes.”

A Companhia Holandesa das Índias Orientais, a VOC (Verenigde Oost-Indische Compagnie) foi criada em 1602, dois anos depois de formada a Companhia Inglesa das Índias Orientais e tinha sede em Amesterdão, onde em 1609 foi criado o Banco de Amesterdão para apoiar o comércio colonial. A Companhia cria o conceito actual de acções quando em 1610 divide o seu capital em quotas iguais e transferíveis em Bolsa. O objectivo era excluir os competidores europeus daquela rota comercial e o alvo eram então os portugueses, que se encontravam sob domínio espanhol e eram detentores dos melhores portos estrategicamente colocados na Rota Marítima da Seda. Entre 1609 e 1621, houve um período de tréguas entre holandeses e a Espanha, embora mal guardadas no Oriente, pois nunca os holandeses abandonaram a ideia de conquistar Macau. Quando os doze anos de tréguas expiraram em 1621, o então Governador-Geral holandês em Batávia, o celebrado Jan Pieterszoon Coen, resolveu fazer uma grande expedição, destinada a pôr termo à questão, pela tomada da Cidade de Santo Nome de Deus na China.

A Macau chegava a seda crua comprada na feira de Cantão e tão necessária aos holandeses para conseguir no Japão substituir os mercadores portugueses. Por isso era local apetecível e preferencial para dominar o Mar da China, pois Malaca, praça que controlava a passagem dos barcos do Índico para o Pacífico, estava bem fortificada com a Famosa. As praças portuguesas estavam todas em sobressalto com a possível chegada das armadas, ou inglesas ou holandesas.

Invasão Holandesa, petisco na mesa

Sabiam os holandeses que se conseguissem conquistar Macau, acabavam com a presença portuguesa no Extremo Oriente, ficando ainda numa posição privilegiada para interceptar os juncos chineses que navegavam para Manila, nas Filipinas. Através de uma carta conseguida durante a tomada de um barco português, sabia-se a cidade mal guarnecida tanto de homens, como deficitária em fortificações. A maioria dos homens de Macau encontrava-se na feira de Cantão e restavam na cidade apenas cinquenta mosqueteiros e uns cem moradores capazes de pegar em armas.

A esquadra holandesa foi organizada em Batávia para atacar Macau, sendo constituída por oito navios e mil tripulantes e capitaneada pelo Almirante Reijersen. Após partir desse porto a 10 de Abril de 1622, a ela se reuniram os barcos a viajar pelas águas do Mar da China e quando chegou à vista de Macau em 21 de Junho de 1622 a armada holandesa, composta por treze navios, encontrou as quatro naus vindas de Manila, onde participavam no bloqueio. Os dois barcos ingleses não chegaram a intervir na conquista de Macau, devido à carta de Coen a avisar que os ingleses apenas poderiam dar apoio no mar, mas nunca desembarcar em Macau e em tempo algum lhes fosse permitida a participação na construção da fortaleza que, após a conquista, os holandeses deveriam aí erguer. Como traziam já à partida a vitória assegurada, recusaram aos ingleses a participação no assalto à cidade, tendo estes se retirado antes do início dos combates.

O reconhecimento da península de Macau foi feito por três espiões e no dia seguinte, a 23 de Junho por Reijersen, que desde o barco analisou a cidade e vizinhança. Resolveu desembarcar no dia 24 na praia de Cacilhas, o ponto mais favorável. Ainda nessa tarde, três dos navios holandeses travaram um renhido duelo de artilharia com o baluarte de São Francisco. Dos barcos gritavam dizendo aos do baluarte que no outro dia seriam senhores de Macao. Retirando-se ao pôr-do-sol, houve nessa noite grandes festas nos barcos holandeses, o que levou o Capitão-mor Lopo Sarmento de Carvalho, a quem estava entregue o governo militar da cidade, mandar aos dos nossos baluartes responder com idênticos festejos de vitória.

A batalha decisiva

Ao romper do dia de São João Baptista, de 24 de Junho de 1622, duas horas depois do nascer do sol, saíram das naus da armada holandesa trinta e duas lanchas, transportando a força de desembarque até à praia de Cacilhas. Entretanto, duas naus holandesas começaram um intenso bombardeamento ao baluarte de São Francisco, ao que a guarnição do forte respondeu.

Espreitando por detrás de um pequeno banco de areia, preparado para a defesa da praiazinha de Cacilhas, estava António Rodriguez com 60 portugueses e 90 filhos da terra. Desembarcaram sem dificuldade os oitocentos homens das forças holandesas, sendo duzentos japoneses, índios e malaios holandeses e, formando os seus esquadrões em terra, marcharam para o entrincheiramento dos portugueses, havendo grandes cargas de mosqueteria de parte a parte.

O Almirante Reijersen, ainda mal tinha pisado terra, foi ferido por uma bala de mosquete na barriga, tendo de ser levado logo para o barco. Sem outras baixas de ambos os lados, foi conquistada a enseada, após os homens de António Rodriguez recuarem e logo em formação os holandeses continuaram o seu avanço, sob o comando do veterano capitão Hans Ruffijn. Na praia deixaram duas companhias para cobrir a retirada, e seguiram pela campina que torneava a Colina de Nossa Senhora da Guia.

Foi então que da fortaleza de S. Paulo, ainda por acabar, os padres jesuítas atiraram três bombardas, tendo uma bala acertado no barril de pólvora de um dos barcos, que se encontrava no meio do esquadrão. Tiro fatal, para o sucesso do dia, foi calculado pelo grande matemático padre italiano Jerónimo Rho S.J., chegado a Macau nesse mesmo ano. Com o inesperado estrondo nas bandas da sua esquadra, os holandeses pararam e perdida a confiança ao olhar para um bambual pensaram estar perante uma cilada. Então decidiram pelo lado do Oriente ocupar a Colina da Guia, que dominava sobre a cidade e praia de Cacilhas. Mas aí, na ermida encontrava-se Rodrigo Ferreira com oito portugueses e até vinte topazes e cativos, que lhes foram dando cargas e os fizeram parar. Apercebendo-se das intenções, João Soares Vivas com 50 mosqueteiros e Lopo Sarmento de Carvalho, que vinha carregando desde a parte da cidade, aí chegaram para ajudar.

Com o cume do monte ocupado pelos portugueses, o esquadrão inimigo de oitocentos mosqueteiros então capitaneados por Ruffijn, ficou em posição desprotegida e quando este capitão caiu em combate, os holandeses desordenados puseram-se em fuga, tratando só de salvar as vidas. Com o ânimo empolgado, o povo aproveitando a debandada perseguiu-os com tanto ímpeto que os fazerem embarcar a nado, mesmo às companhias que na praia ficaram. Deixaram mortos no campo, na praia e afogados no mar até 700 homens e por despojo oito bandeiras, um canhão, cinco tambores, muitas armas, e alguns prisioneiros, de que até ao seguinte dia só viverão sete.

Logo após a vitória, no próprio local da batalha, os vencedores deram a liberdade aos seus cafres, em prémio da sua lealdade e coragem. Os moradores acorreram à Sé, onde se celebraram solenes ofícios em acção de graças pela vitória que acabavam de obter. Aí, nessa altura, o Senado e o povo prometeram idêntica comemoração todos os anos na véspera de São João, voto que foi escrupulosamente cumprido até agora e assim, o dia de S. João Baptista é festejado em Macau na Calçada da Igreja de S. Lázaro.

24 Jun 2016

O respirar de Portugal como território

O Bispo Idácio de Aquae Flaviae no século V mencionou a povoação de CALE, como o castro chamado Portucale, aparecendo documentalmente pela primeira vez este nome e onde não se faz referência a nenhum burgo ou povoação na margem direita e fronteira a Portugal. No concílio em Lugo, no ano de 568, Portugal, o Castelo antigo dos romanos, ficava sujeita à “Sé de Coimbra, a qual, jamais, superintendeu em igrejas além da margem esquerda do Douro”, Resenha Histórica de CALE, Vila de Portugal e Castelo de Gaia, na separata de Comunidades Portuguesas de 1970, onde não aparece o autor.
No século III fora constituída a província romana de Gallaecia et Asturica na Península Ibérica, tendo em 409 os Suevos ocupado a Galiza, onde estiveram até 585, e a Lusitânia passava em 409 para os Alanos, que oito anos mais tarde, em 417, foram derrotados pelos Visigodos.
Os suevos destruíram Conímbriga em 468, ano da morte do Bispo Idácio, o que faz Aeminium, situada na Via Olisipo-Bracara Augusta e a ocupar a Colina da Universidade, onde se situava o forum, ficar capital da região, ascendendo no século VI a sede do bispado de Conímbriga, ficando assim com esse nome.
Os Visigodos, povos germânicos cuja civilização era dominada pela guerra e armas, aos poucos expulsaram do Norte da Península Ibérica os Suevos e as tropas Romanas, ficando os únicos senhores dos territórios da actual Espanha e Portugal. O rei visigodo Leovigildo (569-586) realizou a unificação peninsular, vencendo em 586 os suevos e os bizantinos ficaram reduzidos a uma estreita franja do litoral Mediterrâneo. Este rei visigodo dividiu o reino em seis províncias e centralizou os serviços reais em Toledo.
Mas em 711, toda a Península Ibérica caiu em poder muçulmano.
A reconquista do Portus aos mouros em 868 pelo conde Vimara Peres, referida no Códice de Lorvão, Liber Testamentorum, antecedeu a de Braga e seguiu-se à conquista e despovoamento de Coimbra, cujos habitantes vieram repovoar a parte sul do Rio Douro.
“Não muito tempo depois, foram enviados outros condes ou os seus delegados para reorganizarem novos territórios, como os de Braga, Orense, Chaves, Emínio (ou seja, Coimbra), Viseu e Lamego. Conhecemos o nome do conde Odoário, que tomou conta de Chaves, e o conde Hermenegildo Guterres, que ocupou Coimbra em 878”, e prosseguindo com José Matoso, “Reconstituíam-se assim as bases nucleares da rede administrativa na antiga província da Galécia e ocupavam-se algumas das cidades do Norte da Lusitânia, que outrora tinham pertencido ainda ao reino suevo”.
“Transferida a corte régia para a cidade de León no início do século X, o agora reino de Leão (910-1037) foi-se expandindo e organizando muito para além dos limites asturianos iniciais. Em termos políticos, administrativos e militares o seu território dividia-se em condados, à frente dos quais se encontrava um conde (comes), com poderes delegados pelo rei. Isso mesmo ocorreu em Portucale, aí se formando um condado à frente do qual estiveram membros de uma mesma família, descendentes de Hermenegildo Gonçalves e de Mumadona Dias (926-968?), até 1071”, citado de Bernardo Vasconcelos e Sousa.

Doações do Rei ao Bispo de Coimbra

O segundo Rei de Leão, D. Ordonho II (914-924), que no ano de 913 realizou uma incursão com um grande exército até Évora, provavelmente fazendo pilhagens em grande escala, veio em 922 a Portugal e daqui em barcos foi até Crestuma, a fim de visitar o Bispo de Coimbra, D. Gomado, que se encontrava no seu Mosteiro. Seguindo a Resenha Histórica de CALE, “Estando o bispo no seu convento, veio o Rei (Ordonho) a Portugal, e mandou dizer ao próprio bispo que viesse ter, com ele, Rei. O mesmo bispo não saiu do seu convento, como manda a regra. E o próprio rei, para lhe fazer mercê, e a rainha, armou navios em Portugal (Gaia) e, com os seus condes Lucido, Vimarano e Rodrigo Luci, foram em barcos à ermida do bispo, visitar o dito e fazer oração naquele lugar santo. Fizeram solenes festas em honra do bispo e de seus frades e sorores e permaneceu com sua comitiva no próprio mosteiro. Ainda naquele dia, o rei, com a sua comitiva reuniu em concílio, Mauro, os frades e a abadessa Elvira e se informou sobre a vida dos confessores e da congregação, onde eram servos pacientes no mesmo lugar. O rei e a sua comitiva decidiram oferecer-lhes a vila de Fermedo com os seus antigos limites. E deu-lhes o rei a navegação e portagem do rio Douro, no dia de sábado, do porto de qualquer rio e por todos os seus portos até à Foz do rio Douro, onde entra no mar, quanto o Senhor der naquele dia para remédio de suas almas e para as de sua geração. E no mesmo concílio, Lucido Vimarano deu vilas e igrejas ao mesmo mosteiro, na margem do rio Douro e outra, na margem do Mondego, creio, doada pelo Rei, que ali mesmo ofereceu-lhe muitas outras terras, tanto a Norte como a Sul do Rio Douro.
Verifica-se, pois, em face do documento da doação feita no ano de 922, pelo monarca de Leão, D. Ordonho II (914-924), que, naquela época, existia a povoação Portugal, a qual, entre as outras terras, foi doada àquele prelado, o Bispo de Coimbra, D. Gomado. Segundo a Resenha, “A Vila de Portugal estava dividida, pelos seus antigos termos, com a Vila de Mafamude e daí, pelo monte, desde o termo de Coimbrões, até Gaia. Aquela foi metade de seus parentes, Fulderon e Palma, e a outra metade a comprou por seu preço e suas cartas”.
Do Livro Preto da Sé de Coimbra, “Não, sofre dúvida e pelo contrário é bem manifesto e conhecido de muitos, que por ordem de Deus e para remédio da sua alma, o próprio Rei Ordonho deu ao grande Gomado o episcopado da Sé de Coimbra, com a sua diocese, como a obtiveram os outros bispos que antes dele tiveram o episcopado, por muitos anos, até Portugal. E, depois de algum tempo, foi o bispo à corte; e, ante o rei, despediu-se e deixou o grande episcopado para entrar no convento. E o próprio bispo procurou uma ermida, e a encontrou no lugar de Crestuma, junto àquela foz em que o rio cai do Douro. E entrou nela por mão de Arias Abederahemem e de Mauro, confrades, e de Elvira, abadessa, para ali passar a vida religiosa, e onde repousasse, à sua vontade, seu corpo, no lugar em que são venerados Santo Estevam, São Martinho, Santa Marinha, Santa Maria Virgem e São Salvador; e onde, na mesma ermida, estão sepultados companheiros mártires. E o mesmo bispo adquiriu o termo da mesma vila e do próprio mosteiro, de Crestuma, cujas demarcações do grande centro se estendia à margem direita e esquerda do rio Douro no ano de 922.
Fruela II (924-925) pouco tempo reinou e sucedeu-lhe D. Afonso VI (925-931), o Monge, que reconduziu no mesmo cargo (Bispo de Coimbra), D. Sisnando. Já toda a região entre os rios Mondego e Douro, era conhecida e designada como território portugalense e, também, como território de Portugal, consoante se comprova com bastantes documentos de escrituras de doações espécies, inseridos no Porto Mon. Hist. Dip. et Chart”.

Os normandos na Península

O Rei Ramiro II (931-951) de Leão protagoniza uma história, cerca de 932 com o mouro Al Boazar al Bucadan, emir de Gaia. Época já do Califado de Córdoba, da dinastia dos Banu Umayya (Omeya) (912-1031) cujo seu primeiro califa foi Abd al-Rahman III al-Nasir (912-961). Cristãos e muçulmanos mantinham uma boa convivência realizando festas e torneios em que participavam cavaleiros de ambas as fés. Certa vez, em 932, D. Ramiro II disfarçado de trovador numa dessas festas, raptou a irmã do emir, Zahara e converteu-a em cristã. Quando Al Boazar soube, resolveu fazer o mesmo e disfarçado também de trovador vai a Leão e rapta a esposa de Ramiro, D. Urraca. Esta enamorou-se verdadeiramente pelo emir muçulmano e com ele ficou a viver em Gaia. Só muito mais tarde o Rei Ramiro ficou a saber do paradeiro da sua esposa e chegado a Gaia, disfarçado entrou no castelo e após um enredo de filme, conseguiu-o conquistar num ataque surpresa. Aqui a lenda reconstituída pelo brazão da cidade, que tem um corneteiro no castelo. Entre duas colinas na margem esquerda do Rio Douro, reconhecidas como Castelo de Gaia (Gaia) e Serra do Pilar (Vila Nova), ficava a vila denominada Portugal.
Segundo José Matoso, “Os principais factores desta multiplicação da violência foram, em primeiro lugar, as incursões normandas, que se iniciaram já em meados do século IX, se intensificaram entre os anos de 961 e 971, e se prolongaram depois durante dezenas de anos, até meados do século XI. Os Normando trouxeram a insegurança a toda a antiga Galécia, penetrando ao longo dos rios, roubando, incendiando e matando sem dó nem piedade, e obrigando todos os chefes militares e eclesiásticos a organizar a defesa e a construir novas fortificações. Em segundo lugar, as revoltas de vários condes e magnatas contra os reis de Leão, ao longo da segunda metade do século X, e as guerras civis entre os pretendentes ao trono, que se intensificaram entre 953 e 960. Estas lutas atingiram o nosso território com as revoltas do conde Gonçalo Mendes de Portucale contra o rei de Leão, por volta de 962, e do conde Gonçalo Moniz de Coimbra, algum tempo depois” e cujos seus descendentes, depois vieram a colaborar activamente com Almançor, tendo com ele participado nas pilhagens a Santiago de Compostela, que foi incendiada.

Reino de Castela e Leão

“Não foram só os delegados régios asturianos e depois leoneses que impuseram uma certa organização às comunidades humanas do território português. O clero monástico e diocesano também contribuiu para isso”, segundo Matoso, mas refere que, “a vigilância episcopal sobre as igrejas paroquiais devia ter sido quase inexistente, antes da restauração definitiva destas dioceses (Porto Coimbra, Viseu e Lamego), nos séculos XI e XII”.
No reinado de Ramiro III (966-985), refere Matoso, “A partir de 978, prevaleceu de novo a guerra externa, com os violentos e destruidores ataques de Almançor, o hachib do califa Hisham II, às principais cidades dos reinos cristãos. Estes ataques atingiram o nosso território com a sua conquista de Coimbra, em 987, e com a sua grande expedição a Santiago de Compostela, em 997, com o apoio de vários magnates portugueses. Esta fase da guerra cessou praticamente com a morte de Almançor e pouco tempo depois, em 1008, com a morte do seu filho Abd al-Malik”. A assinalar, como caso curioso, o conflito sobre a tutela do condado de Portucale entre Afonso V e o conde Sancho Garcia de Castela ter sido arbitrado por Abd al-Malik. Ainda anteriormente, Bermudo II (985-999, o Gotoso) foi reconhecido no ano 982 Rei da Galícia e do Norte de Portugal.
“O reino de Leão estava profundamente desorganizado e foi necessário ao rei Afonso V (999-1028, o Nobre) reunir uma grande cúria na cidade de Leão” segundo refere Matoso, que segue, “o chamado Concílio de Leão de 1017, cujas decisões foram promulgadas em 1020 e que emitiram numerosas prescrições com o evidente intuito de reordenar uma sociedade perturbada por transformações profundas. Nesse ano de 1017, os Portucalenses davam provas da sua capacidade de reacção, pois o conde Mendo Luz (…) estabeleceu a sua autoridade efectiva sobre a região do Vouga e da Terra de Santa Maria”.
O Rei D. Fernando I (1035-1065), o primeiro do Reino de Castela e Leão (1035-1157), com as suas agressivas campanhas, fez a ocupação definitiva de Coimbra e “só a partir de então a fronteira se deslocou de maneira decisiva para além do vale do Douro e se iniciaram expedições de grande envergadura com o propósito de ocupar definitivamente as principais cidades do território andaluz e os seus respectivos alfozes. Se os primeiros reis asturiano-leoneses sempre se haviam ocupado intensamente da guerra, é duvidoso que se considerassem investidos na missão de recuperar para o Cristandade a maior extensão possível da Hispânia islâmica e tomassem tal missão como o mais importante dos seus deveres”. Coimbra, que caíra em poder muçulmano no ano de 711, fora em 878 reconquistada pelo Conde Hermenegildo Mendes, mas logo aí apareceu em 987 o Almançor a caminho da Galiza, que varreu com o seu grande exército os cristãos que se aventuraram a instalar a Sul do Rio Douro.
O Rei D. Fernando, o Magno, após reconquistar Coimbra em 1064, deu ao conde D. Sisnando a mesma jurisdição territorial, da Sé de Coimbra, que governava, eclesiasticamente, em todas as terras desde o Mondego a Portugal, e entregou-lhe o governo da cidade de Coimbra. Já os combates para Sul do Rio Douro iam fazendo variar o tamanho do condado de Portugal à medida dos avanços e recuos dos cristãos e partindo das margens desse rio variava o território nos seus limites até Coimbra.
Afonso VI (1072-1109) reinava Leão, Castela, Galiza e Portucale, quando em 1073 dividiu o seu reino pelos filhos. Em 1096, após o conde D. Henrique (sobrinho do Conde de Borgonha e do monge Hugo, o Abade dos Abades da comunidade do mosteiro de Cluny) casar no ano anterior com D. Teresa, filha ilegítima de Afonso VI, este Rei de Castela e Leão (1035-1157) incumbiu-o como seu vassalo da governação da Galiza, esta dividida em Condados, sendo um deles o Condado Portucale.
Pelo que acima ficou registado, a terra entre os rios Douro e Mondego era já conhecida como território portugalense e de Portugal, muitos anos antes da fundação da nacionalidade portuguesa. Tal é corroborado por Alexandre Herculano, que refere estar demonstrado, por autênticos documentos, que a região entre Coimbra e a margem esquerda do Douro, era conhecida e designada como território de Portugal e também que a margem direita do rio Douro limitava a Galiza, antes da fundação da nacionalidade portuguesa. «É vulgarmente sabido que desta povoação veio o nome do nosso país».

17 Jun 2016

Portugal existe desde o século V

O remoto nome poético das Curvas (Cale) do Rio ligadas ao porto, de onde provém o Condado Portucalense, criado sem independência em 1097, coloca-nos em questão o existir já no século V, na margem esquerda do Rio Douro, uma vila cujos romanos davam o nome de Cale, sendo esta conhecida desde então pelo nome de Portugal. No actual concelho de Gaia, confrontando com Mafamude e Coimbrões, tem a povoação de Portugal a sua História associada à representação da formação de um território, feito por conquistas, povoamento e conversões. De povoação, a território elasticamente expandido desde o Rio Douro até Coimbra, qual respiração tinha Portugal no Mosteiro de Crestuma o seu centro de poder de condado no início do século X, então integrado no reino de Leão (910-1037). A Galiza estava dividida em diversos condados, sendo um deles o Condado de Portucale, o único situado para Sul do Rio Douro. Pouco mais de um século faltava para como país aparecer Portugal.

Aprendemos na escola que a palavra Portugal vem da junção de Porto Cale, de onde foi formado o Condado Portucalense. Para a palavra , todos sabemos significar local de costa onde as embarcações se abrigam e dá passagem para terra; já para , o dicionário refere vir do latim canale, que significa rego de água. No entanto, no tempo de Jesus, Estrabão, que percorreu a Península Ibérica nos primeiros anos da era de Cristo, mencionava Cale, assim chamada pela sinuosidade de curva, porque as curvas dos rios costumavam assim chamar-se na linguagem dos lugares.

Também por essa altura, segundo Plínio, no século I os túrdulos encontravam-se na cale do Rio Douro e fala deles como estando ainda espalhados por todo o litoral Atlântico, do Douro ao Anas (Guadiana), sendo da sua autoria a estruturação viária pelo litoral, que atravessa o território de Norte a Sul e perdura há dois mil anos. Estrebão refere-se a eles como os túrdulos antigos (turduli veteres), com escrita própria e leis registadas em verso, eram descendentes dos tartéssios.

Império Romano na Península

“Em tempos remotíssimos, o rio Douro, pela sua margem esquerda, limitava a antiga Lusitânia; e nas eminências presentemente denominadas Serra do Pilar e Castelo, existiram castros em épocas passadas. Com efeito, no antigo monte da Meijoeira – a actual Serra do Pilar – foram achadas moedas gregas do século III a.n.E. e comprovam, que, em tão importante cerro, existiu um castro helénico. Mais a poente, no sítio denominado Castelo, também existiu um Castro, onde, mais tarde, os romanos levantaram uma fortaleza e, consequentemente, fundaram uma povoação a que deram o nome de CALE. Esta povoação foi-se tornando muito florescente, não só por estar próxima à foz dum rio importante, como também pela pequena enseada, que lhe servia de porto.

Calçada romana

Quando estes povos construíram a estrada de Lisboa para o norte, com terminus em Braga, o porto de CALE, ficou a constituir o ponto obrigatório da passagem dos viandantes que, do sul, pretendessem seguir para as terras Minho-Galaicas; e aos que, destas, desejavam ir para as terras situadas entre os rios Douro e Tejo.

Naqueles tempos, na margem direita, e fronteira a Cale não havia nenhuma povoação, consoante se prova com o Itinerário de Antonino (livro elaborado no século II)”. Estava a Península Ibérica dividida em três províncias separadas: Lusitânia (a Oeste), Baética (a Sul), Tarracones (no Leste e Norte). O actual território de Portugal correspondia a uma boa parte da província romana de Lusitânia, nos territórios entre Douro e Minho e governada desde Eremita Augusta, agora Mérida em Espanha, e alguns dos territórios da Boetica habitados pelos celtibérios. Os Romanos dominaram a Península Ibérica até ao século V da era cristã, altura da sua decadência, coincidente com a chegada dos Bárbaros a invadir as terras Ocidentais.

No século V, o Bispo Idácio de Aquae Flaviae (Chaves) na sua Crónica falava do porto de Calem e dizia que Braga era a cidade mais ao Sul do reino da Galécia, que terminava no Douro. Reino criado no século III, era dividido pelo Rio Minho, tendo a Norte os lucenses e a Sul, os bracarenses. Os restantes dois reinos da Península Ibérica eram a Bética, a Leste do Guadiana (Anas) e a Lusitânia, do Douro ao Guadiana.

Da Resenha Histórica de CALE Vila de Portugal e Castelo de Gaia, na separata de Comunidades Portuguesas de 1970, onde não aparece o autor, diz-se, “O mesmo Idacio (c.395-468), quanto à povoação de CALE, mencionou-a, como o Castro chamado Portucale. Pela primeira vez, entre os mais antigos documentos, aparece o nome de Portucale, dado por este cronista, à povoação de Cale.

Idacio, que viu Cale, antepôs-lhe, ao designá-la, o substantivo porto, alatinando para portu, bem certamente pelo facto de, naquele tempo, o porto de Cale ser muitíssimo conhecido.

Na margem direita e fronteira a Portugal, continuava a ausência de qualquer burgo ou povoação, porquanto, se existisse, não deixaria de ser referida por este cronista, consoante o fez sobre Castrum Novum, que verificou existir no cerro de Penaventosa, do Porto.

Visigodos e o Reino das Astúrias

Os visigodos, vindos das margens do Danúbio e do Mar Negro, atravessaram a Europa e chegaram à Península Ibérica em 412. Como tropas federadas ao serviço de Roma vieram para expulsar os alanos, suevos e vândalos, que tinham acabado de ocupar a Península Ibérica. Após dominar toda a Espanha, este povo germânico pela força das armas em 476 tomou Roma, acabando com o Império Romano do Ocidente, tendo promulgado a “Lex Romana Visigo-thorum” em 506. “Em Lugo, no ano de 568, realizou-se um concílio, que determinou quais as igrejas que ficavam a pertencerem à Sé de Coimbra: «a Sé Conimbricense tenha a mesma Coimbra, Eminio, Selio, Roma, Antuana e Portugal – o Castelo antigo dos romanos>, segundo Pinho Leal. Por este documento, comprova-se que a povoação de CALE, ou Portugal, estava sujeita, eclesiasticamente, à Sé de Coimbra, a qual, jamais, superintendeu em igrejas além da margem esquerda do Douro”, Resenha Histórica de CALE.

Entre 568 e 586, o rei visigodo Leovigildo expulsou os funcionários imperiais e procurou unificar a Península. Foi o fim do Império Romano na Península Ibérica.

Mas no início do século VII, o reino Visigodo (410-711) entrou em crise, com rebeliões a Norte, nas Astúrias e com os bascos, encontrando-se o Sul sob domínio bizantino.

Batalha de Guadalete (31 de Julho de 711)

Em 711, acabou a guerra civil no reino visigodo, já que, com a chegada à Ibéria do exército muçulmano comandado por Tariq ibn Ziyad, numa só batalha deu-se a decapitação do reino visigodo. Pelágio, um príncipe godo, refugiou-se nas montanhas das Astúrias, e resistindo daí com um grupo de cristãos lutou entre 718 a 725 contra os maometanos. Refere Bernardo Vasconcelos e Sousa: “Tradicionalmente, a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos na Batalha de Covadonga, no ano de 722, foi considerada como o início da chamada Reconquista, isto é, do processo militar pelo qual os cristãos recuperaram os territórios ocupados pelos seguidores do Islão. Mas mais do que um decisivo confronto bélico já no contexto de uma reconquista, Covadonga foi um recontro entre tropas muçulmanas que haviam penetrado na região montanhosa da Cantábria e uma força constituída por naturais daquela zona que reagiram para defenderem a sua autonomia, sob o comando de Pelágio, um membro da nobreza goda. A apropriação ideológica desta vitória, feita bastante mais tarde pelos clérigos asturianos, acabaria por conferir à batalha a importância de um facto transcendente, associado ao que se considerava ser a missão da monarquia asturiana, de libertação e de salvação de uma Hispânia que tombara perante os inimigos da fé cristã”. E nos três séculos seguintes a progressão dos Cristãos concentrados nas Astúrias reduziu o território dos Mouros, com isto surgiu os reinos de Oviedo, Leão, Galiza e Castela que ocuparam os territórios da antiga Lusitânia.

Portugal no Reino das Astúrias

O porto de Calem no século V foi referido pelo Bispo Idácio de Aquae Flaviae (Chaves), que diz ser Braga a cidade mais a Sul do reino da Galécia, que terminava no Douro. Rio, obstáculo de difícil atravessar, era por isso de fronteira. A localização desse porto gera assim controvérsia, pois sem haver ainda na margem direita, o que viria a ser a cidade do Porto, pugna a margem esquerda do Rio Douro e próximo da foz, o lado de Gaia, o povoado mais antigo dessas cales, Portugal.

Em 711 o último rei visigodo, Rodrigo (Roderico 710-711), tentou repelir a invasão muçulmana mas foi derrotado. Avançaram estes para Córdoba e Toledo, a capital visigoda, cercaram Mérida, que caiu em Junho de 713 e na Primavera seguinte, um exército muçulmano comandado por Musa ibn Nusair marchou para Saragoça, León e Astorga e dois anos depois caía Évora, Santarém e Coimbra. Em 716, após cinco anos, os muçulmanos tinham conquistado e ocupado toda a Península Ibérica, ficando sob domínio cristão apenas as Astúrias no Nordeste, na região montanhosa da Cantábria.

O Reino de Astúrias (718-910) teve como primeiro chefe Pelágio (718-737), um nobre visigodo que em 725 e após a batalha de Covadonga, fundou esse pequeno reino. O terceiro rei das Astúrias, Afonso I (739-759), o Católico, reconquistou terras até ao Douro. Sucedeu-lhe Fruela I (757-768) que valorizou as terras galegas, mas a região para Sul do Rio Minho até ao Douro ficou esquecida e entregue a si própria. De salientar como refere Matoso, “que a expansão asturiana para a Galiza não foi, de modo algum, um movimento pacífico e que os chefes galegos que dominavam a região aceitaram com dificuldade a nova ordem política”.

“No século oitavo vieram os árabes dominar uma grande parte da península ibérica; e, da sua permanência nas terras da antiga CALE ou Portugal, há a citar-se os nomes de Mafamude (freguesia), Almeára e Aldariça, povoações das freguesias de Canidelo e Santa Marinha e perto do oceano Atlântico, estabeleceram uma almenára – hoje lugar de Almeára – onde, de noite, acendiam fogueiras para guia das embarcações”, segundo José Matoso.

Quanto à povoação Portugal, os maometanos também não substituíram a sua antiga designação, apesar de nela residirem as autoridades que superintendiam no governo das terras sob a sua jurisdição. A vila de Portugal estava separada a Poente da vila de Mafamude e daí pelo monte abaixo, desde o termo Norte de Coimbrões (de fundação anterior à romana) até Gaia. Quanto ao nome de Mafamude é de origem árabe e supõe-se advir dos finais do século VIII, quando Afonso II realizou “uma expedição que chegou até Lisboa em 798 e acolheu no seu reino o caudilho Mahamud, natural de Mérida, que se tinha revoltado contra o emir. Há quem pense que ele se fixou em Mafamude,” da História de Portugal coordenada por José Matoso.

É com o Rei Afonso II (793-842), o Casto, que começou verdadeiramente a luta com o Islão, ocorrendo o assalto a Lisboa com a ajuda dos francos. O reino das Astúrias, com o seu centro político mais importante em Oviedo, valoriza as terras entre Douro e Minho, iniciando os asturianos “a actividade repovoadora na bacia do Douro, então uma espécie de no que respeitava ao controlo por parte de cristãos ou de muçulmanos”, segundo Bernardo Vasconcelos e Sousa. Mas com o Rei Ramiro (842-850) de novo, as terras entre Douro e Minho são esquecidas, ficando entregues aos chefes locais.

Ordonho I (850-866) fez a Galiza prosperar, havendo pela primeira vez uma efectiva incursão ao que virá a ser território português, “durante o qual se repovoou a cidade de Tui, antiga sede episcopal, com jurisdição até ao rio Lima. Aqui, os representantes régios tinham não só de tentar impor a sua autoridade, mas também de reprimir novos ataques normandos, a que acresciam agora, no litoral, os roubos e destruição de piratas sarracenos, mencionados pela primeira vez por esta época”, José Matoso.

Segundo Vasconcelos e Sousa, “No reinado de Afonso III (866-910, o Magno), os cristãos chegaram à linha do Rio Douro, sendo um dos mais importantes marcos desse avanço a tomada e o povoamento de Portucale, em 868, por Vímara Peres. Com centro em Portucale, junto à foz do Rio Douro, viria a constituir-se, a partir de finais do século IX, uma entidade político-administrativa cuja área se estendeu de sul do Rio Minho até à chamada Terra de Santa Maria, já a Sul do Douro”.

10 Jun 2016

A armada inglesa no Mar da China

Em Londres, um dos mais antigos pioneiros do comércio livre britânico em Cantão, o escocês William Jardine, fundador da firma Jardine, Matheson & Co. e que desde 1820 continuamente residiu em Cantão até 31 de Janeiro de 1839, conseguiu do governo britânico o auxílio económico e militar aos grupos de comerciantes ligados ao lucrativo negócio do ópio. Segundo Fernando Correia de Oliveira, “O parlamento inglês, sem declarar a guerra à China, aprovou o envio de uma esquadra de 16 navios para a zona de Guangzhou”. Assim, em Abril de 1840 partiu para o mar da China o Almirante George Elliot comandando os navios de guerra e quatro mil tropas, tendo essa armada chegado a 21 de Junho às costas da província de Guangdong. De referir ser um dos protagonistas desta história, Charles Elliot primo de George Elliot, que de Julho a Novembro de 1840 esteve na China como representante da Coroa Britânica e superintendeu no lugar de Charles, voltando depois este ao cargo de plenipotenciário.
Lin Zexu preparara-se para a chegada da armada britânica, mas sem grande frota e moderna como era a inglesa, suportava-se em fortalezas que mandara fazer ou reconstruir pela costa de Guangdong.
Os chineses a 9 de Junho de 1840 tentam por meio de jangadas incendiadas, destruir a “esquadra inglesa, surta no rio de Cantão”, como refere Marques Pereira, e a 21 de Junho, “achando-se em número de quinze navios de guerra a esquadra inglesa nas águas da China, Sir Gordon Bremer, chegado na véspera no Wellesley, anuncia o bloqueio de Cantão”.
Navegando pelo Zhujiang (Rio da Pérola) estalou a guerra, combatendo os ingleses pelo direito de vender o ópio na China. Segundo Alfredo Gomes Dias, em Junho ocorreu a “Publicação das exigências que a Grã-Bretanha faz à China onde se destaca a abertura de portos e liberalização do comércio internacional, estabelecimento de relações directas com o governo de Pequim e a possibilidade de os ingleses se fixarem nos portos”. Refere ainda este historiador que também de Junho é o “Édito do delegado imperial Lin exortando o povo chinês a aniquilar os demónios estrangeiros”.

A esquadra inglesa ruma a Norte

Lin Zexu, que tinha tomado medidas de preparação contra a chegada da armada britânica, dispondo de um exército conjugado com a população de Guangzhou e de toda a província, repeliu os ingleses. Estes, a 30 de Junho de 1840 navegaram com a sua esquadra de Cantão para o Norte da China.
A 2 de Julho, “Tendo entrado em Amoy (hoje Xiamen, a Sul da província de Fujian) o navio de guerra inglês Blonde, portador de uma carta do comandante da esquadra britânica para o almirante chinês que então ali estacionava, os chineses impedem que chegue a terra o escaler do mesmo navio, e fazem-lhe fogo, não obstante levar bandeira branca. O comandante inglês destrói alguns juncos de guerra e o forte que dera os tiros, e sai do porto”, segundo M. Pereira.
Seguiu a esquadra inglesa ao longo da costa marítima que banha as províncias de Fujian e Zhejiang onde, em frente a Ningbo, ocupou Dinghai. Alfredo Dias refere ter sido a 15 de Julho que “as forças navais britânicas atacam certos pontos de Zhoushan ocupando-a em seguida”. Já segundo Marques Pereira, tal aconteceu a 5 de Julho de 1840, sendo Elliot quem pela primeira vez tomou a cidade de Tinghai (Dinghai), na ilha de Chu-san (Zhoushan). Dinghai, a Norte de Ningbo província de Zhejiang, já em 1793 fora pedida à corte do Imperador Qianlong pelo Lorde Macartney, durante a primeira embaixada inglesa à China. Quarenta e sete anos depois, os ingleses tomaram a cidade de Dinghai, onde poderão residir e fazer o seu porto, armazenar mercadorias e reparar os barcos.
Após cinco dias de terem tomado Dinghai, os ingleses a 10 de Julho bloqueiam o Rio Yangtzé, chamado de Changjiang, Rio Longo a dividir nas suas direcções a meio a China, e onde Nanjing (a antiga capital do Sul) se encontrava.
Para Norte, um mês depois, a 11 de Agosto, seguiam a bordo do vapor Madagascar “os dois plenipotenciários ingleses, Elliot, cujo intento de exigirem comunicação directa com o gabinete de Pequim foi artificiosamente logrado por Ki-chen, então governador da província de Peh-tchi-ly (Zhi Li), com a promessa de que lhes viria dar satisfações a Cantão”, como refere Marques Pereira.

Guerra na vizinhança de Macau

Pela necessidade do Procurador José Vicente Jorge reclamar providências junto às autoridades chinesas, logo a 29 de Fevereiro, por “cinco ou seis desordeiros chineses terem agredido pessoas que passavam na Rua do Tronco e apedrejado a cadeia”, apontamento de Alfredo Dias, de onde se poderá induzir os distúrbios velados que também dentro da cidade iam ocorrendo, devido à indignação popular chinesa ao ver cair (desmoronar) o Céu.
A 19 de Agosto de 1840, Marques Pereira refere que, “as corvetas inglesas Hyacinth e Lane atacam as forças chinesas estacionadas junto da Porta do Cerco, matando-lhes aproximadamente sessenta homens”, apesar de Alfredo Dias dizer que estas duas corvetas inglesas atacaram, nas proximidades de Macau, navios chineses. Gonzaga Gomes conta, “Ao meio dia, uma força britânica, composta dos navios de guerra Lane e Hyacinth, o cutter Louisa, e o vapor Enterprise, rompeu vivo fogo contra uma bateria chinesa, postada na praia, junta do lado norte da barreira ou muro do limite de Macau, e que dispunha de 17 canhões que foram reduzidos ao silêncio bem como outros que havia para aquele lado, num total de 27. Uma hora depois, desembarcaram 380 marinheiros e soldados, comandados pelo capitão Mee, com uma peça, os quais puseram em completa fuga os chineses, continuando o fogo dos navios, que dispararam não menos de 600 tiros. Diziam alguns que as forças chinesas, em diferentes posições, deveriam ser constituídas por cinco a seis mil homens. Os ingleses, tendo encravado a artilharia chinesa e queimado as barracas dos soldados juntas à barreira, voltaram pelas 19 horas, para as suas embarcações”.
A 30 de Agosto de 1840 realiza-se a Conferência, perto de Tien-tsin (Tianjin), entre o plenipotenciário inglês Elliot e Ki-chen (Qi Shan), governador da província de Peh-tchi-ly, como refere Marques Pereira, mas, só a 16 de Setembro foi o oficial manchu Qi Shan (1786-1854), até então Governador de Zhi Li (Shandong e Henan), ocupar o lugar de Comissário Imperial, substituindo Lin Zexu, que a 3 de Outubro de 1840 deixou de ser Vice-Rei de Liangguang.

Qi Shan substitui Lin Zexu

No entanto, ainda em 5 de Setembro de 1840, o Edital do superintendente geral das alfândegas de Cantão, por apelido Iú, ordenou a apreensão de quaisquer mercadorias destinadas aos europeus e prometeu prémio aos apreensores, visto achar-se suspenso o comércio, como refere Marques Pereira.
A 16 de Setembro é nomeado comissário imperial Qi Shan (Ki-chen) para tratar, em Cantão, com os europeus. Local onde a 27 de Setembro era recebido um decreto imperial, desautorando o Vice-Rei e Comissário Lin Zexu, nos termos seguintes:
Oito dias depois, a 4 de Outubro “Alguns navios da esquadra inglesa, que fora ao norte em Agosto, sobem ao golfo de Liau-tung, e fundeiam neste dia junto à extremidade oriental da Grande Muralha da China. Foi a primeira vez que, dessa parte, se viu o célebre monumento devassado por europeus”, segundo M. Pereira. Liaoning (Liau-tung), província situada no Nordeste da China de onde eram provenientes os manchus, então a reinar na China como dinastia Qing, é banhada pelos golfos da Coreia e de Liaodong. Apesar disso, os manchus não sentem ligações ao mar, sendo na altura deles que os ingleses descobriram as anteparas aos barcos chineses e ao passar a usá-las nos seus, chegavam agora com um enorme avanço no poderio tecnológico, aliado à psicologia do fogo.
Se os primeiros imperadores da dinastia Qing mostraram interesse pelas novas invenções europeias do século XVI e trazidas à Corte pelos Jesuítas, os seguintes governantes manchus, alheados do mundo científico que então na Europa se reorganizava, artisticamente descoraram estar a par desses conhecimentos, sem os brados dos eruditos da Corte se fazerem ouvir. Pelo lado britânico, e numa curiosidade investida em interesses mercantis, conseguiam-se os segredos dos produtos, esses que os tinha levado ao Extremo Oriente.
De salientar ser Lin Zexu conhecido como o primeiro chinês na História Moderna da China “a abrir os seus olhos para ver o mundo”, sendo um dos primeiros a opor-se à política de fechar a China em si mesmo. Procurando conhecer o pensamento e as tecnologias Ocidentais, mandou traduzir os tratados estrangeiros sobre a produção de armas e barcos e para melhor resistir às incursões britânicas, saber o que escreviam nos jornais tanto de Londres, como da Austrália, de Singapura, da Índia, assim como os de Macau.
É de 23 de Outubro de 1840 o “Memorial de Lin ao imperador justificando as suas acções e o pouco êxito alcançado na repressão ao tráfico do ópio e onde solicita a rejeição às exigências britânicas”, como refere Alfredo Dias.
Marques Pereira dá para 1 de Novembro de 1840 a “Proclamação do comissário imperial chinês, I, aos habitantes da cidade de Ting-hai, sobre a ocupação da ilha de Chu-san pelas tropas inglesas. Dinghai, na ilha de Zhoushan, ficava assim oficialmente reconhecida como na dependência inglesa.

Armistício de dois meses

A 5 de Novembro de 1840 os chineses pedem um armistício ao Almirante Elliot, que foi concedido no dia seguinte e prolongou-se até 6 de Janeiro de 1841. Alfredo Dias escreve para a data de 6 de Novembro de 1840, “Memorando do contra-almirante e comandante em chefe George Elliot noticiando, pela primeira vez desde o início da guerra, uma trégua entre os dois países, enquanto ele e o delegado imperial se mantêm em negociações” e com ele continuando, a 20 de Novembro “os britânicos regressam a Macau”. No dia seguinte, “Os fortes chineses de Tchuen-pi fazem fogo sobre o vapor inglês Queen e o almirante Elliot exigiu e obteve imediata satisfação por essa ofensa”, segundo Marques Pereira, que diz ter a 28 de Novembro, o comissário Qi Shan chegado a Cantão, mas no dia seguinte, “o Almirante Elliot resigna o comando da esquadra inglesa na China”.
A 6 de Dezembro, segundo Alfredo Dias, “Ofício do comissário imperial Ke Shen (Qi Shan) ao Tao-tai onde se adverte que a vinda dos ingleses para a província onde Macau se encontra situada não deve ser hostilizada pelas guarnições chinesas sem que para isso haja motivo”. Uma semana depois, datada de 13 de Dezembro de 1840 a “Carta do comissário Ki-chen ao imperador, declarando o procedimento que entendia dever ter com os ingleses. – Diz assim: “, como refere Marques Pereira. Mas percebe-se que tal não trouxe frutos pois as autoridades de Cantão pelo Édito de 6 de Janeiro de 1841, ordenam “que todos os ingleses fossem mortos e os seus navios destruídos em toda a parte onde se vissem. Esta medida, decretada em meio do armistício que o almirante Elliot concedera desde 6 de Novembro anterior, deu lugar à imediata continuação da guerra e à tomada, logo no dia seguinte, dos fortes de Tchuen-pi e Tai-cok-tau”.

27 Mai 2016

Acontecimentos de 4 de Fevereiro

Em Londres encontrava-se o escocês William Jardine, para conseguiu do governo britânico o auxílio militar aos grupos de comerciantes ligados ao negócio do ópio na China.
Já no Celestial Império, a 23 de Janeiro de 1840, os súbditos britânicos obrigaram os portugueses a ter de os aceitar em Macau para aí residirem e armazenarem as mercadorias e como convidados, aí deixaram as suas famílias, enquanto continuavam nos seus actos de pirataria na embocadura do Zhijiang. Nessa constante provocação ao poder chinês, segundo Alfredo Gomes Dias refere, “Os acontecimentos de 4 de Fevereiro, provocados pela entrada no porto de Macau da corveta Hyacinth, sob as ordens do capitão inglês Smith, constituem um exemplo da prática política britânica dominante naquela região e naquele tempo e permitem fazer uma primeira aproximação às posições da diplomacia do Estabelecimento ao longo do conflito sino-britânico”.
“À falta de expressas e adequadas instruções do Governo de Lisboa, o Governo de Macau viu-se obrigado a manter contactos com as autoridades locais de Cantão, num esforço de ganhar tempo junto dos ingleses. A Inglaterra, nada satisfeita com esta atitude do Governo de Macau, chegou a acusar os portugueses de hostilidade para com o seu aliado. A recusa de autorização de ancoragem do navio inglês Hyacinth, que já entrara no Rio em 4 de Fevereiro de 1840, levou Londres a protestar energicamente junto de Lisboa, o que colocou o Governo Português em maus lençóis.” E continuando com Wu Zhiliang, “As autoridades de Macau, pobres em recursos, não tinham a coragem de exceder muito na sua atitude para com os ingleses para evitar qualquer possível vingança britânica, o que os levou a não pensar na possibilidade de expulsar os ingleses que ainda se encontravam em Macau. Face a esta situação, o Comissário Imperial Lin Zexu mandou suspender o comércio com Macau deixando a população macaense numa enorme perturbação”. Comércio que só foi restabelecido a 9 de Março, após as autoridades portuguesas, em observância da ordem do Comissário Imperial, terem ordenado aos ingleses que saíssem de Macau e logo no mês seguinte chegaram duzentos efectivos chineses, que aqui ficaram aquartelados. Ideias e citações retiradas do livro Segredos da Sobrevivência – História Política de Macau escrito por Wu Zhiliang e onde se refere: “Durante este tempo, Charles Elliot amadurecia a sua ideia de ocupar Macau, e cada vez com mais pormenores. Acabou mesmo por apresentar, em 9 de Abril, o referido projecto de ocupação militar. Devido às drásticas mudanças da situação, as forças inglesas avançaram para Norte e sitiaram-se na Cidade de Cantão. Deste modo, o foco do conflito sino-britânico deslocou-se de Macau, mas nem por isso os portugueses podiam estar mais tranquilos. Em 23 de Junho, Charles Elliot escreveu uma carta ao Governador de Macau”, onde expõe as condições em que Macau fica posicionada, amparada pelos ingleses e sobre o seu domínio.
Sendo Macau uma Cidade de Guarnição, sem consentimento do Governador e do Leal Senado não era possível aos ingleses desembarcar aí tropas, pois tal procedimento era contrário a todos os tratados e estipulações entre Inglaterra e Portugal e violava os direitos de uma nação independente. Mas como remata Wu Zhiliang, os ingleses estavam em vias de perder o interesse por Macau.

Correspondência trocada no dia

A 4 de Fevereiro de 1840, os ingleses forçaram a entrada do porto de Macau, sem dar conhecimento ao Governador Acácio da Silveira Pinto (1837-1843), após Elliot receber uma resposta negativa à pretensão de ter uma guarda para proteger a sua pessoa e bens britânicos. E aqui seguiremos com o que refere Alfredo Gomes ao citar, as cartas trocadas no dia 4 de Fevereiro, assim como passagens do Ofício n. 123 de 3 de Abril de 1840, do Governador Adrião Acácio da Silveira Pinto para o Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. É deste documento, retalhando-o e entrosando com as cartas inglesas, que temos o relato dos acontecimentos desse dia 4 pela visão do Governador de Macau. ; (…) (…)
Segundo escreve Alfredo Dias, “No primeiro ofício que o comandante dos navios britânicos na China, capitão H. Smith, enviou a Silveira Pinto são adiantados os motivos que levaram as forças inglesas a tal acção. Centravam-se na defesa de pessoas e bens britânicos presentes na Cidade ameaçados todos os dias pelos editais chineses. Tudo isto em nome da neutralidade que Macau desejava salvaguardar: “.
Nesse dia o Governador de Macau encontrava-se adoentado,

Assegurar a neutralidade de Macau

Assim o Protesto, “feito e expedido em Sessão do Leal Senado do Santo Nome de Deus de Macau, sob selo do mesmo, aos 4 de Fevereiro de 1840” diz, ; (…) .
“Perante esta reacção violenta do governador de Macau, o comandante H. Smith muda de tom e, no seu segundo ofício, começou logo por chamar a atenção de Silveira Pinto para os incómodos que os ingleses têm sofrido: <... e peço licença para perguntar a V. Exa. se estais inclinado para dar protecção aos Súbditos de S. Majestade Britânica, agora residentes sob a Bandeira de Portugal, ou se vos permitireis que eles sejam incomodados de modo como o têm sido nestes últimos meses>“. E continuando com Alfredo Dias, que refere “a agressividade de uma pergunta que tinha por fim chamar a atenção da autoridade máxima da Cidade para com os seus deveres” e a resposta, num discurso mais firme e incisivo, enviada pelo governador A. A. da Silveira Pinto a este segundo ofício do capitão inglês. “Salientou os dissabores que a Cidade tem sofrido devido à presença inglesa, acabando por concluir que os súbditos britânicos eram livres de partir caso não se sentissem seguros sob a protecção portuguesa”.

Lin Zexu nomeado Vice-Rei

“Mas a correspondência trocada entre as autoridades administrativas de Macau e o comandante naval britânico naquele dia 4 de Fevereiro não ficou por aqui. Um terceiro ofício, agora mais calmo e conciliador foi enviado a Silveira Pinto, onde se questionava o vigor das autoridades de Macau perante o poder imperial chinês e, simultaneamente, anunciava a retirada da corveta do porto, colocando-se às ordens do governador caso este julgasse o seu auxílio necessário”, como refere Alfredo Dias.
Assim o Governador de Macau, trabalhando em colaboração com o Leal Senado, a 4 de Fevereiro de 1840 conseguiu manter a neutralidade da Cidade no conflito sino-britânico. “Finalmente, o governador responde ao capitão H. Smith anunciando a retirada das forças chinesas que se encontravam junto ao Pagode da Barra, prova de que o governo de Macau soube levar à prática a sua política de neutralidade” e no dia seguinte (passado vinte e quatro horas) “verificou-se a retirada da corveta Hyacinth tal como o comandante inglês tinha prometido”, Alfredo Dias. E com ele continuando, a 20 de Março abre o porto de Macau, por Edital chinês.
Ainda no Ofício de 3 de Abril de 1840, do Governador Silveira Pinto para o Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, encontram-se outras informações relevantes como,

20 Mai 2016

Declínio do porto de Macau

Como prova das boas relações existentes entre as autoridades portuguesas e chinesas, a visita a Macau do Comissário Imperial Lin Zexu acompanhado pelo Vice-Rei de Liangguang (Guangdong e Guangxi), Deng Tingzhen, a 3 de Setembro de 1839 e também do Hopu de Cantão, chefe das alfândegas chinesas naquela província, de 5 a 8 de Setembro. Wu Zhiliang refere que “Na véspera da visita de Lin Zexu a Macau, corriam, por todo o lado, rumores de que as forças militares da China atacariam Macau para expulsar os ingleses. Aproveitando-se desta circunstância, Charles Elliot propôs ao Governo de Macau o auxílio militar britânico”, e , que Silveira Pinto delicadamente recusou. Dias antes, em finais de Agosto, os súbditos britânicos tinham saído da cidade, mas, após uma breve estadia em Hong Kong, regressaram a Macau a 23 de Janeiro de 1840, apesar de ser um acto nada conveniente para os portugueses, que não tinham força suficiente para não o permitir.
Os ingleses, após serem expulsos de Cantão pelos chineses, nada tinham a perder e refugiados em Hong Kong, agora sem víveres, sentiam o cerco apertar-se e por isso, daí remeteram um novo pedido no dia 12 de Dezembro de 1839 ao Governador de Macau para poderem regressar a essa cidade e aí residirem. Não obtiveram tal permissão, pois Silveira Pinto não aceitou. Com Alfredo Gomes Dias seguimos, “as autoridades britânicas decidem então forçar a entrada no porto de Macau utilizando para o efeito a corveta Hyacinth, largada a partir da fragata Volage fundeada na rada de Macau. São os acontecimentos de 4 de Fevereiro” de 1840.
Lembrava Março de 1839 em Cantão; “Entrando de imediato em acção, Lin começou a confiscar milhares de quilos da droga e de cachimbos de ópio, prendendo mais de 1600 chineses. Quanto aos estrangeiros, começou por tentar demovê-los, através de didácticas chamadas de atenção no capítulo da ética. Mas essa técnica persuasiva não resultou e Lin, furioso, decretou, em Março de 1839, um bloqueio completo à comunidade estrangeira em Guangzhou. O cerco só foi levantado quando Lin, que passou a viver num barco, para melhor vigiar os estrangeiros, obteve mais de 20 mil cestos de ópio, a totalidade da mercadoria que então se encontrava nas feitorias de Guangzhou. Em Abril, numa acção espectacular, todo esse ópio foi lançado ao rio da Pérola”, segundo Fernando Correia de Oliveira, no livro 500 Anos de Contactos Luso-Chineses editado em 1998: “O principal negociante inglês, William Jardine, fundador da casa comercial que ainda hoje existe em Hong Kong, foi de imediato a Londres pedir auxílio económico e militar. O parlamento inglês, sem declarar a guerra à China, aprovou o envio de uma esquadra de 16 navios para a zona de Guangzhou”.

Forçar a entrada em Macau

Segundo Marques Pereira, no Decreto de 5 de Janeiro de 1840, o Imperador Daoguang (1821-1850) proibira o comércio com a Inglaterra e a 8 de Janeiro, o comandante do navio de guerra inglês Volage anunciava para o dia 15 o bloqueio do porto de Cantão. A 23 de Janeiro “os ingleses desembarcaram em Macau passando a residir nesta cidade”, segundo Alfredo Dias.
Ao fim de uma semana de estadia britânica em Macau, a 31 de Janeiro de 1840 o novo “Procurador José Vicente Jorge entrevista-se com o Tou-T’ói, pelas 15.30 horas, no Hopu de Macau. O Tou-T’ói veio com o fim de exigir a expulsão do capitão Elliot e dos ingleses residentes em Macau, apoiado com mil homens que, a pedido dos mandarins, ficaram retidos na Casa Branca, dizendo que tal tropa se destinava a proteger os portugueses. Ofereceu-se, porém, para prorrogar a publicação do edital dos Suntós dos dois Kuongs e de Cantão, que ordenava a ele, Tou-T’ói, que viesse, à testa da tropa, prender os ingleses, e ao ajudante-geral Kuam-Chon-Hiae que seguisse com mais mil homens para se juntarem aos mil de Tou-T’ói, a fim de promover o encerramento das alfândegas, a suspensão do comércio português e o isolamento de Macau, bem como a retirada de todos os chineses, dentro de cinco dias, pois a cidade seria invadida. O procurador não cedeu ante a intimidação do enviado chinês”, segundo Luís Gonzaga Gomes.
Já Alfredo Dias refere que, a 1 de Fevereiro há a “Proclamação imperial onde se pretende sossegar as comunidades chinesas e estrangeiras em Macau afirmando que pretendiam apenas cercar e prender os ingleses”. Marques Pereira diz que no dia seguinte, o comissário imperial chinês, Lin, dirige de Cantão, pelo navio Thomas Coutts, uma carta à rainha de Inglaterra (Victória), criminando a insistência dos seus súbditos em trazerem ópio à China, e em espalharem entre a população essa droga nociva, a despeito das justas leis do império contra semelhante contrabando. Esta carta foi, pelo mesmo comissário, mandada publicar em todos os distritos do sul da China.
A 4 de Fevereiro de 1840, segundo Montalto de Jesus, “Tendo começado as hostilidades, o barco Hyacinth forçou o caminho pelo Porto Interior de Macau. Isto provocou um veemente protesto do governador Silveira Pinto, que responsabilizou o governo inglês pelas consequências. Foi salientado que, mesmo sob a aparência de protecção, tal caminho não tinha sido seguido pelo contra-almirante Drury. O Capitão Smith acabou (no dia seguinte) por retirar o Hyacinth, na condição de serem tomadas medidas enérgicas para fazer retirar as tropas chinesas das proximidades da colónia”.

O comércio do chá em Macau

A 6 de Fevereiro de 1840, Lin Zexu foi nomeado Vice-Rei de Liangguang e no dia 11, “Edital publicado em Cantão mandando fechar o comércio em Macau e destruir a Cidade por as autoridades portuguesas permitirem aí a presença de Elliot”, e continuando com Alfredo Dias, a 19 de Fevereiro, “O procurador José Vicente Jorge responde às autoridades chinesas que exigiam a expulsão dos ingleses de Macau dizendo que a Cidade estava preparada para repelir qualquer ataque ou violência da parte dos Chineses”.
Esta mudança de discurso do Procurador de Macau contrariava o que José Baptista de Miranda e Lima em Setembro de 1839 anunciara a Lin Zexu (1785-1850), a neutralidade de Macau na disputa entre a Inglaterra e a China. As palavras do novo Procurador, sem força para contrariar os ingleses, quebravam tal promessa e assim, terminava o período de paz e de comércio que a 29 de Setembro de 1839 o Governador Silveira Pinto referia num ofício ao governo de Lisboa, comunicando a abertura do comércio em Macau, fechado desde Março. Esse bom relacionamento comercial pode-se constatar na resposta dada a 27-12-1839 pelo Superintendente Geral da Alfândega de Cantão ao pedido feito pelo Procurador, permitindo o aumento da exportação de chá para Macau e ordenando ao mandarim de Hèong-Sán que consultasse o Hopu de Macau sobre a conveniência ou inconveniência da entrada dos navios vindos de Portugal, em Vampu (Huangpo); que não fosse permitido aos navios de Macau ficarem fora do porto de Cantão e que, quanto à gravação dos números nos barcos de Macau, continuasse a ser observado o que se encontra prescrito no respectivo regulamento”.
Já como consequência das palavras de 19 de Fevereiro de 1840 do Procurador às autoridades chinesas, vemos na semana seguinte, a 26, “o Procurador do Senado, José Vicente Jorge, reclama(r) junto das autoridades chinesas contra a redução do fornecimento de chá, cuja exportação por navios portugueses era de 6000 picos líquidos, por ano”, segundo Gonzaga Gomes
Não esquecer que, “Por meados do século XVIII, os comerciantes independentes de Macau foram contratados para fornecerem chá da China à EIC, em Madrasta, tal como acontecia com a VOC, em Batávia, à qual também forneciam o chá”, como lembra Leonor Seabra. Estas companhias (inglesa e holandesa) importavam o chá da China e, depois de preparado, vendiam-no para a Europa, sendo em Macau o chá apenas manufacturado e não cultivado, e era essa a principal indústria da cidade. Ressoam as palavras de Sir George Staunton no ano de 1797 pela defesa da estrangulação do pobre marinheiro inocente com o seguinte argumento: “Mas abstraindo de qualquer ideia de lucro, é sabido que um dos principais géneros trazidos da China, e que em nenhum outro país se pode encontrar, é hoje um objecto de necessidade para quase todas as classes da sociedade na Inglaterra. Em quanto pois se não puder ir buscar a outra parte chá de tão boa qualidade e por tão baixo preço como o da China, será forçoso trazê-lo de Cantão e não desprezar precaução alguma para o poder obter”.

Subscrição para presentear o mandarim

Mandado fechar o comércio em Macau no dia 11 de Fevereiro de 1840, pelo Edital do Comissário Imperial Lin Zexu publicado em Cantão, “Por abrigar senhoras e crianças inglesas em Macau, os portugueses foram afastados do comércio de Cantão”, segundo Montalto de Jesus. O comércio em Macau foi restabelecido a 9 de Março pelo Comissário Imperial Lin Zexu, como diz Wu Zhiliang e no dia 20 para Alfredo Dias, “Edital chinês abre o porto de Macau”.
Ainda no Edital de 11 de Fevereiro de 1840, em nome do comissário imperial, um édito especial do mandarim de Chinsan ordenou, então, a prisão de Elliot, expressando considerável espanto pela sua tentativa arbitrária de excluir as embarcações americanas de Macau”, segundo Montalto de Jesus.
Marques Pereira regista dos Archivos da Procuratura o dia 1 de Março de 1840, quando se fez a “subscrição promovida entre os macaenses a fim de presentearem o mandarim Pang, que se retirava para Cantão, depois de exercer nesta colónia o cargo de So-tam”. Alfredo Gomes Dias complementa, “Os macaístas quotizam-se para oferecerem um presente, em sinal de muito respeito e amizade, ao mandarim, que se retirara para Cantão depois de ter exercido o cargo de Tso-tang em Macau”. Luís Gonzaga Gomes refere para 3 de Março o “Edital do Tou-T’ói, declarando ter intercedido pela reabertura do comércio em Macau, que fora fechado, em consequência da guerra com os ingleses”.
Muito mais tarde, já com o resultado definido da primeira Guerra do Ópio, faltava apenas saber por quanta prata, a 18-12-1841 “O Procurador do Senado, de apelido Carneiro, reclamou junto do Hopu Grande de Cantão contra o facto de os anistas (mercadores) de Cantão anteporem dificuldades à livre exportação do chá, tanto mais que os moradores de Macau, conformando com as ordens imperiais, deixaram de comerciar em ópio e pediu que fosse permitida a livre exportação do referido artigo, para esta cidade, sem embaraço algum. Encontrava-se o chá como um exclusivo chinês quando, após a I Guerra do Ópio (1839-1842), a pedido da Companhia da Índia Oriental o escocês Sr. Robert Fortune, do Chelsea Physic Garden, veio à China como botânico para estudar sobretudo os segredos da planta do chá. Aí regressou pela terceira vez em 1848 e clandestinamente entrou nas montanhas de Wuyi em Fujian e com a ajuda do seu criado chinês, fazendo-se passar por mandarim, visitou clandestinamente um dos locais de produção e manufactura do chá, que o esclareceu sobre a planta e as técnicas. Robert Fortune “enviou para a Índia umas vinte mil plantas de chá que arranjou na China Central, com toda a informação pormenorizada sobre tal indústria. Como por mágica da lâmpada de Aladino, uma grande fonte de riqueza foi assim transplantada da China para a Índia e o Ceilão, assim como para Java”, segundo Montalto de Jesus, que refere ter a sorte do chá da China ficado assim selada. E em 1866, já os ingleses importavam chá (4%) da Índia.
Remata Alfredo Dias, “A partir de meados de 1840, conforme a guerra se afastava mais para norte também a importância política de Macau foi diminuindo. Deste modo, ao longo do tempo que durou o conflito, as autoridades do território aperceberam-se gradualmente de que a realidade política da região em que Macau se inseria estava a mudar radicalmente, a uma velocidade que lhes era difícil de acompanhar. As forças imperiais davam provas da sua incapacidade de se oporem aos desígnios britânicos e, por outro lado, os ingleses demonstravam toda a sua capacidade de iniciativa económica e política, consentânea com o seu estatuto de grande potência mundial”.

13 Mai 2016

Lin Zexu visita Macau

No anterior artigo procuramos a data do início da Guerra do Ópio pelos episódios que ocorreram durante o ano de 1839. Se até 18 de Março, os chineses tentaram por palavras convencer os ingleses a deixarem de trazer ópio para a China, ilegalizado já há muito tempo, por Édito dessa data o Comissário Imperial Lin ordenou que lhe fosse todo entregue. Assim fez o capitão Elliot, ao ópio armazenado nos cascos dos navios ao largo de Lintin. No dia seguinte, o exército chinês cercou as feitorias e proibiu todos os residentes estrangeiros de daí saírem e só a 24 de Maio os negociantes ingleses, com promessa escrita de nunca mais voltarem à China, partiram de Cantão para Macau, acompanhados pelo superintendente do comércio britânico na China, Charles Elliot.
Outro momento referido para o início da Guerra do Ópio ocorreu entre 3 e 25 de Junho de 1839, quando Lin Zexu, como Qin Chai Da Chen, mandou queimar as caixas de ópio em Humen, província de Guangdong. Sendo ainda outra das datas, a relacionada com a recusa dos ingleses de entregar um dos seus marinheiros que, nos distúrbios entre marinheiros ingleses e americanos e alguns chineses, assassinara em Kowloon o nativo Lin-uei-hi. Como represália, no Edital de 15 de Agosto de 1839 o Vice-Rei de Cantão proibiu qualquer espécie de alimentos aos ingleses residentes na China. No dia seguinte, Lin Zexu e o Vice-Rei Deng Tingzhen, entraram no distrito de Xiangshan e imediatamente foi declarado o bloqueio a Macau para forçar os ingleses a deixarem esta cidade.
O Comissário Imperial Lin prevenia os portugueses dos perigos que corriam ao abrigar na cidade ladrões ingleses e proibiu o fornecimento de provisões, assim como de mão-de-obra chinesa, aos residentes ingleses em Macau. Já as autoridades chinesas contavam com a lista da população aí residente e o Comissário Lin ordenou ao Procurador de Macau para investigar onde se encontravam os traficantes, dizendo que viria para deles tratar quando terminasse de colectar o ópio em Humen. E por isso, a 26 de Agosto, após uma reunião dos súbditos ingleses residentes em Macau, por conselho do superintendente do comércio inglês na China Charles Elliot, decidiram retirar-se para Hong Kong. Segundo Montalto de Jesus, “Silveira Pinto declarou que, apesar da provação, nunca pressionaria os ingleses a deixar a colónia e, embora consciente das poucas forças à sua disposição para repelir um esmagador ataque chinês, prometeu defendê-los até ao fim no caso de eles ficarem. Mas eles preferiram partir para o ancoradouro de Hong-Kong, e enquanto embarcavam, a guarnição, com Silveira Pinto no seu uniforme militar, esteve presente para impedir um receado ataque chinês”.
Em Cantão, no último dia de Agosto as autoridades da cidade fizeram uma proclamação ao povo, chamando-o às armas contra os ingleses. Assim 31 de Agosto poderá também ser outra data para o início da I Guerra do Ópio.
“Mal tinha terminado a provação de Macau quando, num despacho datado de 1 de Setembro de 1839, Elliot informou Silveira Pinto de que o barco Volage tinha ordens para cooperar na defesa da colónia contra a agressão chinesa. Foi também oferecida a assistência de oficiais e civis ingleses em Hong-Kong e a protecção portuguesa foi mais uma vez solicitada. Ao propor o regresso dos ingleses a Macau, Elliot contradisse formalmente um rumor chinês, segundo o qual a sua retirada tinha sido devido à pressão dos mandarins. A razão, declarou, era porque tinha querido comprometer a colónia sem nenhuma força à mão. Já não era esse o caso: oitocentos mil homens podiam ser imediatamente colocados à disposição do governador.
Mas a situação era delicada; e embora desconhecedor da pretensão de anexação de Macau, Silveira Pinto reiterou que, na ausência de ordens expressas e definitivas do seu governo em sentido contrário, não podia deixar de manter uma estrita neutralidade”, Montalto.
Continuaremos aqui a usar sobre este assunto o que Marques Pereira escreveu nas Ephemérides e Luís Gonzaga Gomes na sua Cronologia, acompanhando com o que Montalto de Jesus apresentou no Macau Histórico.

No Templo de Lin-Fong

Em viagem de inspecção a Macau, o Comissário Imperial Lin Zexu acompanhado por Deng Tingzhen, Vice-Rei de Guangdong e Guangxi, vieram de Qianshan no vigésimo sexto dia da sétima Lua do 21º ano do reinado de Daoguang (1839) e, acompanhados por centenas de soldados, chegaram a Guanzha. Essa barreira conhecida pelos portugueses por Porta do Cerco, foi construída como uma delimitação de fronteira pelos chineses em 1573, ano do começo do pagar foro, que se estendeu até 1849. Montalto de Jesus ao referir-se às Portas do Cerco construídas pelos chineses diz: “No istmo, entre a península da Macau e o continente, os chineses construíram então um muro-barreira com um portão, onde um mandarim e uma esquadra de soldados impediam aos estrangeiros a passagem para o continente, exceptuando aqueles a quem o mandarim fornecera um passaporte. A barreira foi construída, em 1573, claramente como uma delimitação de fronteira, mas servia também para controlar o aprovisionamento da colónia, embora o objectivo declarado fosse apenas o de evitar a incursão dos negros fugitivos de Macau. O portão-barreira, conhecido pelos portugueses como Porta do Cerco, era aberto periodicamente para abastecer a colónia de provisões, numa feira, celebrada num espaço cercado para além da barreira, após a qual esse portão era fechado e selado com seis papéis carimbados. Sobre o portão havia uma inscrição chinesa: “.
Ainda antes do amanhecer do dia 3 de Setembro de 1839, nessa Porta, de Guanzha, do lado da península de Macau, à espera do Comissário Imperial Lin Zexu estavam o Procurador [e não o então Governador português, Adrião Acácio da Silveira Pinto (1837-1843)], o sub-Prefeito e o Magistrado da cidade, assim como um oficial chinês. Com estes representantes de Macau encontrava-se uma guarnição de cem soldados alinhados ao longo dos dois lados da rua e três bandas de música.
Às oito horas da manhã, a comitiva chinesa passou por Guanzha, a porta que fazia de fronteira, e após as boas vindas e uma salva de dezanove tiros de canhões proveniente das fortalezas de Macau, seguiram em cortejo ao som de música para o Templo de Lianfeng. Conhecido por Pagode Novo, o agora Lin-Fong Miu, era o lugar de hospedagem dos mandarins superiores que vinham a Macau.
Estava um dia límpido e o percurso foi feito rapidamente, pois era curta a distância da Guanzha ao Pagode da Porta do Cerco, como também era chamado este templo devido à proximidade com a fronteira.
Batendo nos gongos e transportando bandeiras, uma divisão das tropas chinesas antecedia o Comissário Imperial transportado na cadeirinha por oito chineses e um português como guarda de honra para o servir. A seguir, uma pequena divisão de tropas nativas, que antecedia o Vice-Rei de Liangguang (Guangdong e Guangxi) acompanhado por outros oficiais e mais tropa. Se ao longo do trajecto muitos eram os espectadores, habitantes nas aldeias da península de Macau existentes fora dos muros da cidade cristã, uma multidão aglomerava-se, sobretudo em redor do pátio do templo, tanto na parte exterior como no interior, onde estacionou o cortejo.
Recebidos por oficiais a aguardá-los à entrada do edifício do templo, foram logo as entidades chinesas conduzidas ao interior para se refrescarem. Aí se efectuou a reunião entre o Comissário Imperial e o Procurador.
O Procurador era a pessoa mais importante de Macau e representava a cidade perante as autoridades chinesas e sendo ele Superintendente dos Estrangeiros, tinha o grau de mandarim outorgado pelo Imperador Wan-Li (1573-1620).
Era então Procurador de Macau José Baptista de Miranda e Lima, poeta e professor régio, que estava sentado de frente para o Comissário Imperial Lin Zexu e entre eles, um intérprete português. No interior do templo, pequenos destacamentos com cerca de vinte soldados chineses armados e usando diferentes uniformes e bandeiras.
Lin Zexu declarou a Miranda e Lima a proibição do armazenamento e comércio de ópio dentro da cidade e se fosse encontrado algum estrangeiro com essa substância, deveriam reportar às autoridades chinesas e prenderem-no. Em nome de Macau, o Procurador concordou e prometeu cooperar com o Governo do Império Celeste, aceitando ficarem os portugueses neutrais no conflito sino-britânico e não permitir às forças invasoras inglesas usarem como base Macau durante o conflito. Por fim, Lin Zexu lembrou que os portugueses estavam em território chinês, pois tinham alugado Macau aos governos imperiais Ming e Qing.
Após esta reunião de meia hora, o Comissário Lin ofereceu, aos oficiais, seda, leques, chá e açúcar-cande e aos soldados, quatrocentos yuan de prata, vacas, ovelhas, farinha e vinho, após o que foi fazer sacrifícios no altar de Tian Hou (a deusa dos mareantes e conhecida localmente por A-Má) e Guan Di (Deus da Guerra e da Riqueza, representado por Guan Yu, um guerreiro do Período dos Três Reinos e conhecido em cantonense por Kwan Tai).

Às voltas em Macau

Eram nove horas da manhã quando saindo do Templo de Lin Fong, foi o Comissário dar uma volta pela cidade a inteirar-se da cultura portuguesa e a maneira de viver da cidade, assim como para inspeccionar alguns locais e ver se as suas ordens estavam a ser cumpridas.
Passando pela aldeia do Patane e junto à praia com esse nome, subiu até Baige Cao (hoje Jardim de Camões) e pela Porta de S. António entrou na cidade cristã, sendo saudado com uma salva de tiros pelos canhões da Fortaleza de Nossa Senhora do Monte de S. Paulo. Continuando pela longa rua até ao porto interior, passou pela Alfândega chinesa e depois junto das igrejas de S. José e S. Lourenço, chegando ao templo próximo da Fortaleza de S. Tiago da Barra. Daí retornou e seguindo pela Calçada do Bom Jesus (Gaolou) e Fonte do Lilau (o poço Yapo) de novo cruzou S. Lourenço e desceu por uma viela para a Praia Grande. Percorrendo-a, ao chegar à Rua do Campo foi até à Porta de S. Lázaro, de onde voltou pela Rua do Hospital, hoje Rua Pedro Nolasco da Silva (conhecida também por Rua das Mariazinhas). Contornando a Colina da Nossa Senhora do Monte, passou por Yingdi (S. Domingos), seguiu por Yingdi (Rua dos Mercadores) e Guanqian (Rua dos Ervanários) e saiu da cidade pela Porta de S. António, onde foi saudado com 21 tiros de canhão, segundo referencia o Chinese Repository, de onde retiramos algumas destas informações, refeitas pelo que se pode encontrar no Museu de Lin Zexu, situado ao lado do Templo de Lin Fong e de fontes chinesas. De lembrar que estas duas Portas da cidade davam para as várzeas, cultivadas pelos chineses das aldeias fora da muralha, mas ainda na península de Macau.
Neste passeio pela cidade cristã e seus limites, algumas casas foram vistoriadas. Os habitantes chineses ergueram em muitos locais do percurso uma série de arcos do triunfo, assim como, fora das suas residências e lojas colocaram mesas com vasos de flores, demonstrando gratidão pela visita do Comissário Imperial.
Lin Zexu e o Vice-Rei de Liangguang Deng Tingzhen apenas ficaram três ou quatro horas em Macau, pois, segundo o que lemos no Museu de Lin Zexu (que não refere a hora de entrada na península de Macau), ao meio-dia desse dia o Comissário retornou para Qianshan, sendo acompanhado pelos portugueses até Guanzha.

2 Mai 2016

O cerco das Feitorias e a queima do ópio

Tal como nos dois anteriores artigos, que tratavam sobre os antecedentes da Guerra do Ópio, onde como figuras principais aparecem Charles Elliot, o superintendente do comércio inglês na China e o Comissário Imperial Lin Zexu, o texto hoje aqui publicado está também baseado no que Marques Pereira e Luís Gonzaga Gomes escreveram sobre o assunto. Mas conta agora com mais uma fonte, Montalto de Jesus, que só começou a apresentar este período, no seu Macau Histórico, no momento em que na última semana deixamos a história, o dia 18 de Março de 1839. Num édito com essa data, o Comissário Imperial Lin Zexu, na qualidade de Qin Chai Da Chen, ordenou que lhe fosse entregue sem demora todo o ópio existente em navios. Esta é uma das datas para o início da Primeira Guerra do Ópio.
O mandarim Lin Zexu, que em 1836 advogara a proibição do ópio, foi apontado no dia 15 da décima primeira Lua do 18º ano do reinado de Daoguang (Dezembro de 1838, ou Janeiro de 1839) para o cargo de comissário imperial, quando o Imperador se decidira pela proibição do consumo e tráfico de ópio, “embora os funcionários de alfândega fossem todos contra esta drástica medida”, como refere Montalto. Sabendo-se a data, pelo calendário lunar, de quando em Pequim foi nomeado Lin Zexu como Comissário Imperial para em Cantão tratar com os europeus, esta, pelo calendário solar corresponderá a 3 de Janeiro de 1839, para Marques Pereira e Alfredo Gomes Dias, apesar de haver quem dê o dia 6 de Janeiro. Já quanto à chegada do comissário imperial a Cantão, não há dúvidas, foi a 10 de Março de 1839.
“Investido de plenos poderes para esmagar o mal, este estadista, o alto comissário imperial Lin, primeiro despertou nos mandarins o seu sentido do dever. Compete-vos governar o povo! Julgar os seus crimes e aplicar-lhes os castigos. Deixai-me perguntar-vos, supondo que fôsseis chamados a julgar os , por que lei ou estatuto os julgaríeis? Num apelo eloquente à rainha Vitória, que se presume nunca chegou ao seu destino, Lin queixosamente expôs que nos caminhos do Céu não existe parcialidade, e não é permitida sanção para lesar os outros em proveito próprio. Foi proposto erradicar o mal com medidas concertadas: a China proibiria o uso do ópio e a Inglaterra suspenderia o seu cultivo e a sua manufactura. Ao justificar a atitude da China, Lin anunciou as medidas drásticas a serem postas em vigor, não fosse alegado como desculpa não ter sido feito um aviso prévio. No édito aos estrangeiros de todas as nações, Lin perguntou: Porque trazeis para o nosso país o ópio que não usais no vosso próprio país, com isso defraudando os homens dos seus bens e causando dano às suas vidas? Acho que com esta coisa tendes seduzido e enganado o povo da China durante dezenas de anos, e inúmeros são os tesouros indevidos que adquiristes. Ao proclamar as extremas penalidades da lei agora em vigor, Lin exortou os mercadores estrangeiros a entregar quanto ópio possuíssem, em troca do que o imperador lhes concederia grandes favores”, Montalto de Jesus. No entanto, Marques Pereira data a carta à Rainha Vitória em 2 de Fevereiro de 1840.
Desde a chegada do Comissário Lin Zuxe, Charles Elliot optara por uma atitude resistente, mas a 18 de Março de 1839, por Édito, o Comissário Lin ordenou que lhe fosse entregue sem demora todo o ópio existente nos navios. O Capitão Elliot assim o fez, levando mais de vinte mil arcas, avaliadas em seis milhões de dólares e que se encontravam armazenadas nos cascos dos navios ao largo de Lintin.

Cerco às feitorias

No dia seguinte, 19 de Março, Lin Zexu (Lint-sih-siu) mandou o seu exército cercar as feitorias e proibiu todos os residentes estrangeiros de daí saírem, sendo por ordem do Vice-Rei de Cantão, dois dias depois, interceptada toda a correspondência com as feitorias.
Elliot, vendo o caso mal parado, enviou a Macau uma nota datada de 22 de Março pedindo ao Governador a protecção dos residentes ingleses da cidade. Recebeu de Silveira Pinto a promessa dessa protecção, com excepção dos que estivessem comprometidos no tráfico proibido.
Dois dias depois de estarem presos na feitoria, a 23, o Capitão Elliot resolveu ir juntar-se aos seus compatriotas encerrados no seu interior e assim, a 24 de Março atravessou o cerco e ficou também prisioneiro.
Interessante é ler o que o Capitão Elliot escreveu ao Lorde Palmerston: “Se os meus sentimentos pessoais tivessem a menor influência nos assuntos importantes de natureza pública, segura e justamente diria que nenhum homem tem maior abominação pela desgraça deste tráfico forçado na costa da China do que o humilde indivíduo que assina este despacho. Vejo pouca diferença entre isto e a pirataria. Contudo, o peso de três milhões de libras esterlinas para o tesouro público da Índia sobrepôs-se a todas as outras considerações, embora fosse óbvio que, se não fosse pelo escoamento financeiro que o ópio impunha à China, o comércio externo prosperaria consideravelmente e a China estaria mais receptiva aos estrangeiros em geral.”
A 25 de Março os negociantes estrangeiros detidos nas feitorias de Cantão prometeram, sob penhor de avultada quantia de dinheiro, nunca mais negociarem em ópio com súbdito algum do Imperador da China e Elliot, no cargo de chefe superintendente do comércio inglês na China desde 1836, pediu passaportes para se retirar com todos os residentes ingleses. As autoridades chinesas recusaram e exigiram a entrega de todo a ópio guardado nos navios de depósito, como Marques Pereira refere citando a Chronology of Affairs in China. No dia seguinte repetiu-se a intimação de Lin para a entrega de todo o ópio existente em Cantão e nos navios de depósito. O capitão Elliot publicou um edital ordenando a todos os ingleses, em nome de governo de sua majestade britânica, a imediata obediência à mesma intimação e declarando-se responsável pela menor falta no cumprimento dela.
A 27 de Março, o Comissário Imperial chinês fez queimar publicamente 20 289 caixas de ópio, confiscadas aos ingleses, tendo supervisionado pessoalmente a sua destruição. A seguir, aos comerciantes apanhados com ópio, o comissário Lin fê-los prometer solenemente nunca mais importarem a droga. Mas, como Montalto refere, “apenas uma firma manteve a palavra até ao fim, Wetmore & Co., uma firma americana; e também por algum tempo, Dent & Co.. Entre o grupo de importadores estavam os fundadores da Jardine Matheson & Co., que em vinte anos tirou três milhões de libras esterlinas do tráfico de ópio em Cantão”.
“No seu muito autoritário despacho de 13 de Abril de 1839, Elliot colocou todos os súbitos, barcos e bens ingleses em Macau sob a protecção portuguesa; e em troca, ofereceu todo o crédito pretendido para uma eficaz defesa da colónia e do porto da Taipa; para o equipamento de embarcações da guarda costeira e, caso necessário, para reforçar e prover a colónia através de apelo imediato a Manila, ficando as condições de qualquer assistência mutuamente prestada para serem ajustadas pelos respectivos governos, e sendo todos os súbditos ingleses em Macau postos sob as ordens do governador para este o desejasse, defenderem os direitos da coroa, das vidas e dos bens portugueses.” E continuando em Montalto, “O governador Silveira Pinto explicou, em resposta, como a sua muito especial posição lhe impunha o sagrado dever de observar uma estrita neutralidade”, reiterando a protecção às “vidas e bens dos súbitos ingleses, com a única excepção aos que estivessem relacionados com o proibido comércio do ópio.”
“Elliot advogou então a anexação de Macau; no seu despacho a Lorde Palmerston, então secretário de Estado para os Assuntos Exteriores, datado de 6 de Maio de 1839, pretendeu ser a segurança de Macau de importância secundária para o governo português e de necessidade indispensável para os ingleses, particularmente nessa crise; e, consequentemente, exigiu disposições imediatas, quer para a cedência dos direitos portugueses em Macau quer para a eficaz defesa do local e a sua apropriação para uso inglês mediante uma convenção subsidiária. Urgia a necessidade de radicais reformas civis, militares e fiscais, de forma a tornar o lugar, no mínimo, um entreposto seguro, ou para lhe dar uma verdadeira utilidade como protecção; mas havia pouca esperança neste propósito enquanto Macau estivesse nas mãos dos portugueses”, Montalto de Jesus.
Por Edital de 8 de Maio, o Vice-rei de Cantão decretou a pena de morte a quaisquer novas tentativas de introdução, uso, ou negócio de ópio e permitiu ao superintendente do comércio britânico e aos cônsules americano e holandês saírem das feitorias com todos os seus compatriotas, não devendo jamais tornar à China. A 24 de Maio saem de Cantão para Macau o superintendente do comércio britânico Elliot e todos os negociantes ingleses, com promessa escrita de nunca mais voltarem à China.

Ingleses em Macau

Lin Zexu a 3 de Junho de 1839 mandou queimar vinte e duas mil caixas de ópio em Humen, actualmente Dongguan, província de Guangdong, tendo tal durado até 25 desse mês. Mil caixas eram de origem turca e pertenciam aos mercadores americanos.
O mandarim da Casa Branca enviara ainda no dia 31 de Maio, um Ofício ao Procurador de Macau para lhe mandar as listas do recenseamento da população desta cidade, mas como estas demoravam a serem entregues, a 9 de Junho voltou a expedir um outro, dizendo estranhar a demora.
Montalto refere, “Num édito publicado em Chinsan, Lin, ao prevenir os portugueses dos perigos que corriam ao abrigar em Macau ladrões ingleses, alegorizou-os como pássaros que queriam possuir o ninho dos outros; e proibiu o fornecimento de provisões, assim como de mão-de-obra chinesa, aos residentes ingleses em Macau, em represália por não terem entregue um marinheiro inglês que assassinara um nativo em Kowloon”. Como nota deste episódio, o China Year Book de 1924 refere: “Esta questão secundária da recusa serve agora para explicar a causa imediata da guerra geralmente conhecida como Guerra do Ópio”. A esse acontecimento deu Marques Pereira mais detalhes dizendo que, em consequência do assassinato de Lin-uei-hi, por Edital de 15 de Agosto de 1839, o Vice-Rei de Cantão proibiu o fornecimento de qualquer espécie de alimentos aos ingleses residentes na China.
“Aos portugueses e outros estrangeiros, que o édito tinha poupado, foi pedido que entregassem ao tso-tang uma lista das suas necessidades diárias, para fornecimento, dando a entender claramente que a proibição seria estritamente observada. Foram os pobres, infelizmente, quem sofreu em consequência da proibição, pois as provisões, ao serem escassas, tornavam-se cada vez mais caras; e entre os chineses, em particular, grassava uma horrível miséria. Lin exigia, agora, a expulsão dos ingleses de Macau; e tendo a ordem sido ignorada, ameaçou a colónia. Por entre um infernal barulho de gongos e da gritaria de uma população enfurecida, tropas chinesas, em número considerável, juntaram-se à volta das instalações inglesas, perto da Gruta de Camões, de onde foram repelidas por um destacamento da guarnição, comandado pelo próprio Silveira Pinto”, Montalto.
Como o Governo de Macau anunciara a neutralidade na disputa entre a Inglaterra e a China, por conselho de Elliot, a 26 de Agosto todos os súbditos ingleses que residiam nesta cidade retiraram-se para Hong Kong.
Em Cantão, as autoridades chinesas fizeram uma proclamação ao povo no último dia de Agosto, chamando-o às armas contra os ingleses.

22 Abr 2016

O Capitão Elliot e Lin Zexu magistrado do Império Celeste

Fazendo um rápido resumo do artigo da semana passada, cuja história versou sobre a dificuldade de entrar em Cantão, para aí residir, do Capitão Charles Elliot, nomeado pelo governo inglês a 7 de Junho de 1836 para superintendente do comércio britânico na China. O governador de Cantão só a 18 de Março de 1837 lhe deferiu o pedido, pois apenas a 11, ou 14 de Dezembro do ano anterior, se recebeu essa nomeação em Macau. Assim, nesta cidade ficou Elliot até 11 de Abril, quando finalmente pode seguir para Cantão o Ministro da Inglaterra.
Segundo Ângela Guimarães, o Sistema Comercial de Cantão “só se pode considerar completo e oficializado em 1757, quando o comércio com os ocidentais é legalmente limitado ao porto de Cantão” e “vai durar até à I Guerra do Ópio”, assente “na tradicional concepção chinesa do mundo.” Possuindo produtos cujos estrangeiros muito apreciavam, tinham “este comércio organizado de maneira monopolística, na qual 13 Hongs, dos mais sólidos comerciantes do ramo, concentram o privilégio de comerciar com as feitorias estrangeiras, mediante o pagamento de somas significativas à corte imperial. O conjunto dos Hongs formam o Co-hong que, ainda dentro das regras da harmonia do sistema, é o responsável superior de todos os estrangeiros e o seu único intermediário nas relações oficiais com o poder imperial”. “Nessa base, o comércio, sendo considerado uma actividade privada, entre privados, não pressupõe relações diplomáticas” e “assim, os comerciantes estrangeiros admitidos a comerciar em Cantão apenas se relacionam com os comerciantes locais e dentro de um conjunto de regras muito estritas que visam a que a sua presença não perturbe excessivamente a ordem social vigente”, retirado do excelente livro Uma Relação Especial – Macau e as relações luso-chinesas (1780-1844) de Ângela Guimarães.
Ainda segundo esta historiadora, a balança do comércio sino-britânico era muito desfavorável aos ingleses que, para trocar pelo chá, porcelanas, seda e lacas, apenas tinham produtos de pouca relevância como, tecidos de lã e linho, ferro, cobre e quinquilharia provenientes de Inglaterra e da Índia traziam algodão bruto, marfim, sândalo, prata e ópio. A China exigia pagamento em prata, o que levou “à procura de um produto de compensação, que acabará por ser o ópio”.

ópio como moeda de troca

A importação de ópio foi alvo em 1729 de uma proibição oficial em Fujian e banida em todo o Império por Édito do Imperador Yongzheng (1722-1735) em 1731, segundo refere Jacques Gernet. Continuando com este sinólogo, “a cultura do ópio progride a partir do final do século XVIII depois da ocupação da Índia pelos Ingleses. A Companhia das Índias Orientais adquire os seus primeiros direitos territoriais no Bengala em 1757 e alargam-se ao Bihar em 1765. Em 1773, apodera-se do monopólio do contrabando de ópio para a China e desenvolve a cultura da papoila, primeiramente no Bengala e, depois, em Malwa, na Índia Central”.
A Companhia Inglesa das Índias Orientais em 1781 começou a enviar unicamente ópio para a China e quinze anos depois, em 1796, a China proibia de novo a importação de ópio. Foi então que a Companhia Inglesa das Índias Orientais decidiu fazer de Macau o centro para o comércio desta droga e levada em contrabando, resultou, num crescimento das quantidades que entravam clandestinamente na China, no aumento do preço e em grandes fortunas para os contrabandistas, tanto ingleses, como alguns portugueses de Macau.
Com a Revolução Francesa de 1789 ocorrera o desmoronamento das antigas instituições políticas e o monopólio das grandes companhias de privilégio estatal com o liberalismo, dominante a partir da década de 1830, deu acesso aos “comerciantes livres que, em regime de licença ou em contrabando, acabarão por dominar os sectores em que se envolvem”… e segundo Ângela Guimarães, são eles, “os comerciantes da country trade, que assumem uma importância cada vez maior na percentagem do comércio” e no uso dos mecanismos fora-de-lei. Devido à tarifa imposta em Macau aos estrangeiros por Arriaga, os importadores ingleses passaram desde 1821 a ancorar os seus barcos com ópio na ilha de Lintin. “Em 1834, o parlamento inglês aboliu o monopólio (da East India Company) e liberalizou o comércio em Cantão”, segundo refere H. Gelber. Já Marques Pereira diz que, a 22 de Abril de 1834 os privilégios da Companhia Inglesa das Índias Orientais na China (EIC, East India Company) foram extintos e suspensa a sua sucursal chinesa devido ao progresso do contrabando privado de ópio. A 7 de Novembro de 1834, o Imperador Tou-Kuóng (Daoguang, 1821-1850) decretou novamente a proibição do tráfico do ópio. Mesmo assim, algumas dezenas de caixas de ópio foram tomadas a embarcações de contrabandistas e em 23 de Fevereiro do ano seguinte foram publicamente queimadas, em Cantão. Como todo este artigo está baseado em Marques Pereira e Luís Gonzaga Gomes, não usamos aspas para os citar. Já quanto às datas referidas, encontramos algumas delas diferentes para os mesmos acontecimentos e fruto das que pudemos investigar, percebe-se ter Gonzaga Gomes corrigido muitas delas.

DEIXAR ANDAR

Em 29 de Setembro de 1837 o enviado Elliot foi intimado ao dever de expulsar todos os negociantes e navios ingleses que traficavam em ópio, mas, fazendo ouvidos de mercador, aconselhava-os a não levarem a sério tal proibição e essa ordem só deu aos seus concidadãos passado um ano, continuando assim o comércio a fazer-se.
A 10 de Janeiro de 1838 foram apreendidas em Cantão algumas caixas de ópio a um residente inglês. Já os chineses apanhados no contrabando de ópio eram enforcados; tal aconteceu em 25 de Fevereiro em Cantão e a 5 de Abril, no lado de fora das muralhas de Macau, por ordem dos mandarins, ao chinês Kuo-Si-Peng, por ter sido apanhado, em flagrante delito, a vender ópio.
O Governador de Cantão a 3 de Dezembro de 1838 ordenou a imediata suspensão do comércio estrangeiro, pois nesse mesmo dia fora apreendida uma porção de ópio, que se julgou haver sido importado pelo navio americano Thomas Perkins. O consignatário daquele navio e os europeus em cuja posse o ópio fôra descoberto foram expulsos. No dia 12, em frente das feitorias, por ordem das autoridades chinesas de Cantão, deu-se princípio à execução de um fumista de ópio. Opuseram-se ao acto os europeus e o padecente foi morrer noutro cadafalso.
Assim, só em 18 de Dezembro de 1838, passado cerca de um ano após ser intimado, o plenipotenciário Elliot se apressou “a fazer uma intimação aos navios ingleses, empregados em comércio de ópio, para saírem do rio de Cantão no prazo de três dias”. 2 IMG_0128 Charles Elliot
Já desde 12 de Julho de 1838 tinha chegado a Macau, num navio de guerra, o Almirante Maitland, com instruções para proteger o comércio inglês.
Jacques Gernet refere que “entre 1800 e 1820 tinham entrado na China 10 milhões de liang”, mas depois, só em três anos, entre 1831 e 1833, saíram 10 milhões. Os comerciantes ingleses em substituição da prata traziam como moeda de troca, o ópio cujo volume em 1834 era de vinte mil e quinhentas caixas e em apenas quatro anos subira para as quarenta mil caixas (variando cada caixa entre os 63 kg e os 71 kg).
Perante tão assustador aumento exponencial do tráfico de ópio e a arrogância agressiva dos ingleses, que faziam tudo o que bem lhes apetecia e em constantes transgressões desafiavam à descarada o poder chinês, os governantes Qing consciencializaram-se do perigo que corriam. Por isso, em Dezembro de 1838 foi nomeado Lin Zexu (1785-1850) para acabar com tal comércio, maioritariamente feito pelo porto de Guangzhou.
A 1 de Janeiro de 1839 foi restabelecimento temporariamente o comércio estrangeiro em Cantão, interrompido, por ordem das autoridades chinesas, em 3 de Dezembro do ano anterior.

O COMISSÁRIO LIN

Em 1836, o Imperador Daoguang (1821-1850) pedira aos seus principais ministros pareceres sobre como se deveria atacar o problema do ópio. Assim escutou quem defendesse a legalização do seu comércio, pois controlado acabava com o contrabando e a corrupção que daí advinha, podendo este ser uma importante fonte de receita. Houve quem propusesse o incentivo ao seu cultivo, mas a maioria foi pela sua proibição, já que o ópio vinha minando a estrutura social chinesa. O Imperador Daoguang decidiu-se pela proibição e no dia 15 da décima primeira Lua do 18º ano do seu reinado (Dezembro de 1838, ou Janeiro de 1839) apontou o então Vice-Rei de Hugang (Hunan e Hubei), Lin Zexu para na qualidade de Qin Chai Da Chen, magistrado especial da Corte imperial e seu representante directo, tentar acabar com o consumo recreativo de ópio e o seu clandestino tráfico.
Lin Zexu, nascido a 30 de Agosto de 1785 em Houguan (actual Fuzhou, capital da província de Fujian) de uma família sem muitos recursos, pois o pai como professor não ganhava o suficiente para dar uma vida desafogada aos onze filhos, mostrou desde criança grande talento. Lin Zexu, com o nome de cortesia Yuanfu, aos dez anos escrevia poemas e em 1799, com a tese “Lealdade ao País, orientar o povo e obediência aos pais”, foi o primeiro nos exames preparatórios, que davam acesso aos Exames Imperiais. Aos dezanove anos tinha já o título de Juren e em 1807 foi seleccionado para assistente de Zhang Shicheng, o Governador de Fujian. Em 1811, após aprovado nos exames do Palácio, já com o título de Jinshi foi durante sete anos trabalhar na Academia Hanlin em Beijing, preparando-se em diferentes áreas para os futuros desafios. Apontado em 1820 como supervisor do Controlo de Cheias do Lago Hangjia, na província de Zhejiang, devido à sua intransigência contra os oficiais corruptos, o que lhe trouxe bastantes inimizades no seio dos oficiais civis, no ano seguinte deixou o cargo e regressou à terra natal. Alguns dos seus amigos oficiais reportaram a sua situação ao imperador Dauguang, que o apontou como Ancha da província de Jiangsu. Durante os trinta anos da sua brilhante carreira de Oficial Civil, passou pelo governo de catorze províncias e deu o seu melhor nos muitos altos cargos que exerceu, não se aproveitando deles para tirar partido e enriquecer. Vivendo com o espírito de abnegação, tentou disciplinar os seus subordinados contra a corrupção, que nessa altura grassava pela China da dinastia Qing. Foi um dos primeiros chineses a opor-se à política de fechar a China em si mesmo e procurou conhecer o pensamento e a tecnologia ocidental, para melhor resistir às incursões britânicas. Assim mandou traduzir os tratados estrangeiros sobre a produção de armas e barcos e, para saber o que eles pensavam e o que escreviam nos jornais tanto de Londres, como da Austrália, de Singapura, da Índia, assim como nos de Macau.
Cidadão exemplar, Lin Zexu ficou conhecido por ter mandado queimar em Humen, na província de Guangdong, uma grande quantidade de ópio expropriado aos comerciantes ingleses, o que deu início à Guerra do Ópio.
Mas ainda antes da chegada a Cantão de Lin Zexu, o Vice-Rei de Cantão, Deng Tingzhen, a 7 de Janeiro de 1839 ordenou que os seus meirinhos procedessem a uma busca em todas as habitações da cidade e apreendessem qualquer porção de ópio que nelas encontrassem, devendo ao mesmo tempo apoderar-se dos possuidores dessa droga proibida, para serem executados. É de notar neste facto que o povo de Cantão não consentiu que a busca se efectuasse sem que primeiro fossem vistas as habitações dos próprios meirinhos. A 26 de Fevereiro, defronte das feitorias europeias foi executado um chinês negociante de ópio e perante tal espectáculo os consulados arriaram, neste acto, as suas bandeiras.
A 10 de Março de 1839 chegou a Cantão o célebre comissário imperial chinês Lint-sih-siu (Lin Zexu) e oito dias depois, por Édito ordenava que lhe fosse entregue sem demora todo o ópio existente em navios e na cidade.

15 Abr 2016

Elliot pretende residir em Cantão

A 8 de Abril de 1837, segundo o sinólogo macaense Luís Gonzaga Gomes, “O capitão Elliot, plenipotenciário da Inglaterra na China, que residia em Macau por não lhe ser permitida a sua estadia em território chinês, escreveu ao Governador de Cantão, informando-o de que um navio inglês salvara dezassete náufragos chineses e fazendo votos pela continuação da boa amizade entre as duas nações.” É sobre o desenvolvimento cronológico dessa pequena história, onde os ingleses pretendem ganhar a confiança dos chineses e irá terminar na I Guerra do Ópio, assim como o papel nela desempenhado pelo Capitão Elliot, que aqui iremos tratar. Mas antes disso, faremos referência à data de 8 de Abril de 1973 para invocar a morte em Mougins, França, de Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remédios Cipriano de la Santíssima Trinidad Ruiz y Picasso, artista espanhol nascido em Málaga a 25 de Outubro de 1881, que se dedicou à pintura e escultura e com Georges Braque foi o fundador do Cubismo. De salientar ter o desenho de Pablo Picasso a leitura do Espaço, versus a da forma que representa, pois é o ver pelo interior. Também neste dia, mas a 2013 morreu Margaret Thatcher, a “dama de ferro”.
8 de Abril é o Dia Mundial da Astronomia, excelente para dar atenção ao Céu da humanidade, cuja consciência foge do animal e apenas em laboratório teorizado entra pelas leis científicas da máquina. Sendo ela o protótipo do Ser Humano, que a todo o custo os engenheiros tentam aperfeiçoar, é-nos a máquina agora servida como imagem modelo, e assim por elas normalizados. Observando-nos fora do todo, sem intuição alguma do ânimo, é nesse individual que colectivamente somos legislados. E dizem que andamos em Luta contra o Cancro, que hoje se celebra com um dia mundial e assim, complementamos os dias do calendário anual.

Ingleses na China

A história seguinte foi compilada pelas Efemérides de António Feliciano Marques Pereira e na Cronologia de Luís Gonzaga Gomes e o que delas citamos não leva aspas para não complicar a leitura, pois são muito frequentes neste texto e trazem muitas vezes as mesmas palavras.
Muita água se tinha passado desde que em 1793, o rei britânico Jorge III tentou estabelecer relações comerciais com a China e para isso enviou uma embaixada de setecentas pessoas com inúmeros presentes entre os quais telescópios, cronómetros planetário e modelos de navios de guerra. Mas só dois anos depois da chegada a Beijing, foi concedida ao emissário Lorde Macartney uma audiência com o Imperador Qianlong, já que este não se entendia quanto ao ritual de submissão do ajoelhar e bater com a testa no chão nove vezes antes de falar com o imperador. Ajoelhando-se apenas sobre um joelho pediu que fosse dada permissão para representantes comerciais residirem na China. Num édito chinês foi-lhes recusada residência e a Grã-Bretanha, um potentado mercantil e em vias de industrialização, tendo a Armada mais poderosa do mundo, bombardeou Nanjing.
Os manchus entram em decadência em 1796, quando na China foi pela primeira vez proibida a importação de ópio, o único produto que os britânicos desde 1781 traziam para comerciar nos portos chineses, substituindo-o à prata como pagamento do chá, seda, laca e porcelana. Então a Companhia Inglesa das Índias Orientais decide fazer de Macau o centro para o comércio desta droga. Local para o qual o seu pessoal tinha em 1772 recebido licença do Vice-Rei da Índia para residir, mas apenas no período de intervalo entre as feiras de Cantão.
“Já desde o início da década de 1780 que os ingleses mostravam um evidente descontentamento com a submissão à jurisdição chinesa em Cantão, por um lado, e à jurisdição portuguesa mista em Macau, pelo outro. Daí que não tivessem levado muito tempo a empreender o projecto de conseguir um acordo entre Calcutá e Goa, de forma a tornear o problema e passarem a gozar do mesmo estatuto privilegiado de que já gozavam em Portugal”, como refere Jorge de Abreu Arrimar. E com ele continuando, “Fechada a China aos seus planos, os ingleses passaram então a exercer pressão sobre Lisboa e Goa, de forma a poderem vir a estabelecer-se em Macau.” Ainda numa nota citando Ângela Guimarães: “O período das duas primeiras décadas de Oitocentos é para Macau de permanente e intensa resistência ao avanço do expansionismo britânico na região, o qual se processa no contexto mais alargado da rivalidade imperialista franco-britânica.”

A sorte de Macau

Por três vezes a Inglaterra tentou tomar Macau, com o pretexto de vir ajudar os portugueses a se defenderem dos franceses mas, tal como os portugueses não viam com bons olhos esse auxílio, também os chineses se opunham. A primeira tentativa ocorreu em 1802, a segunda em 1807, tendo a 9 de Julho o Governador de Xiangshan enviado uma chapa ao Senado de Macau questionando a razão de aí haverem chegado tantos barcos de guerra ingleses.
Por fim, no ano de 1808 vem a ocupação de Macau pelos Ingleses durante três meses. Aí desembarcaram a 21 de Setembro de 1808, com o intento de se apoderarem da cidade e estabelecerem uma grande feitoria da Companhia; e, tomando ao depois o porto de Vampú (Huangpo) para lugar de repouso e passagem, querem fazer subsequentemente outra feitoria da mesma Companhia na metrópole de Cantão, para tomarem a si todas as fazendas dos outros reinos e ficarem cobrando deles os direitos da alfândega. Pela chapa de 12 de Outubro de 1808 dirigida da Casa Branca ao Vice-Rei de Cantão, ao tempo em que o almirante Drury ocupara com tropas inglesas a cidade de Macau, fica-se a saber o que os chineses pensavam sobre o carácter dos ingleses e a diferenciação que faziam do dos portugueses. Texto publicado no ‘hojemacau’ em 4 de Dezembro de 2015.
Ao fim de um mês de ocupação de Macau pelas forças inglesas, principiaram os distúrbios entre os chineses e os soldados da força inglesa. A 18 de Dezembro de 1808 o mandarim de Heangshan informou o procurador de que se à meia-noite ainda lá estivessem as tropas inglesas, o exército chinês entraria em Macau, em conformidade com o decreto imperial. No dia seguinte, para alívio e alegria da cidade partiu o esquadrão. Mas os barcos da Companhia Inglesa das Índias Orientais continuavam a fazer comércio em Macau, até que, devido à tarifa imposta aos estrangeiros por Arriaga, os importadores ingleses passam a ancorar os seus barcos com ópio na ilha de Lintin.
Arriaga negoceia o tráfico português com os mandarins, mas sem grandes resultados e em 1823 foi tentado levantar as restrições sobre o ópio estrangeiro em Macau. Já os ingleses estavam consolidados em Lintin e por tal não se interessaram com a nova proposta de Arriaga. Tal foi a sorte de Macau, senão “a crise que levou à Guerra do Ópio teria acabado fatalmente com a histórica colónia como possessão portuguesa.” Montalto de Jesus

Ir viver em Cantão

É aqui que entra o Capitão Elliot, nomeado a 7 de Junho de 1836 pelo governo inglês para superintendente do comércio britânico na China, em substituição de Sir G. B. Robinson. De salientar que a 22 de Abril de 1834, os privilégios da Companhia Inglesa das Índias Orientais na China foram extintos e suspensa a sua sucursal chinesa “devido ao progresso do contrabando privado de ópio”, Jacques Gernet. No entanto, só em 14 de Dezembro é que tal nomeação chegou a Macau. Segundo Marques Pereira diz, “O capitão Elliot, nomeado pelo seu governo presidente da comissão de superintendência do comércio inglês na China, dirige de Macau ao governador da cidade de Cantão, um ofício, pedindo que se lhe permita mudar para aí a sua residência”. E com ele continuando, a 22 de Dezembro ainda desse ano, sem responder à carta que Elliot lhe dirigira, “o governador da cidade de Cantão envia a Macau dois delegados seus, com ordem de inquirirem tudo o que houvesse de verdade acerca da nomeação que Elliot dizia ter recebido do seu governo. Nas instruções dadas aos mesmos mandarins se ordenava também que Elliot fosse constantemente vigiado e que se lhe não permitisse sair de Macau.”
O governador de Cantão só a 18 de Março de 1837 deferiu o pedido para Elliot residir naquela cidade. No fim desse mês, num ofício ao governo inglês, Elliot queixava-se da humilhação que sofre no modo de corresponder-se com as autoridades chinesas. – “Dirigem as suas respostas, – diz ele, – aos negociantes chinas, de sorte que falam de mim às vezes, mas nunca me falam a mim”. Uma semana depois, com votos pela continuação da boa amizade entre as duas nações, o capitão Elliot escreve uma carta ao governador de Cantão, informando-o de que um navio inglês salvara dezassete náufragos chineses.
A 11 de Abril seguiu finalmente de Macau o capitão Elliot, Ministro da Inglaterra em Cantão para essa cidade. A 19 de Abril de 1837, “o governador da cidade de Cantão, mandou um edital aos negociantes chinas, denominados annistas, que instruíssem o enviado inglês Elliot sobre os termos de respeito que deveria empregar nas petições que houvesse de dirigir a ele governador, – convindo principalmente que nunca o mesmo Elliot se esquecesse de designar a China com as palavras Celeste Império, e bem assim que jamais se enfunasse, como tinha por costume, com a louca suposição de vínculos de paz e amizade entre o Grande Imperador e a pequena Inglaterra. Para evitar de futuro semelhantes ofensas da mais rudimentar cortesia, dispôs também este edital que as petições fossem previamente submetidas ao exame dos annistas, a quem pertenceria verificar se eram formuladas em termos devidos, rejeitando-as quando o não fossem”. Marques Pereira retirou estas informações do Chronology of affairs in China e adita: “Três dias depois Elliot enviou uma carta ao governador de Cantão, expondo a impossibilidade de sujeitar os seus escritos ao exame dos negociantes chinas”. Conseguirá em 25 de Abril, quando “o Governador de Cantão, depois de longas recusas, consente em receber ofícios do enviado Elliot, superintendente do comércio inglês na China, declarando porém que lhe não responderá directamente. Elliot concorda”. Mas seis meses depois, as autoridades de Cantão, isto é, do perfeito da cidade e do militar mais graduado do distrito, enviavam-lhe directamente uma primeira comunicação a 29 de Setembro de 1837. Já anteriormente, a 1 de Junho, tinha também obtido dos mandarins “licença para entrar e sair do porto de Cantão, numa embarcação própria, todas as vezes que assim lhe convenha, não podendo contudo fazê-lo sem lhes participar com antecedência os dias da sua partida e chegada provável”.
O conteúdo da comunicação de 29 de Setembro intimava o enviado Elliot ao dever de expulsar desde logo todos os negociantes e navios ingleses que traficavam em ópio. Ordem que só passado um ano deu aos seus concidadãos pois, por intervenção secreta, o chefe superintendente do comércio britânico na China aconselhava os mercadores a não levarem a sério tal proibição e assim o comércio continuou a fazer-se. A 12 de Julho de 1838, chegou a Macau, num navio de guerra, o almirante Maitland, com instruções para proteger o comércio inglês. Encontrava-se já a Rainha Vitória no trono do Reino Unido.

Os governantes Qing, apercebendo-se do perigo que corriam com os ingleses, nomearam Lin Zexu em Dezembro de 1838 para acabar com tal comércio, maioritariamente feito pelo porto de Guangzhou. Só a 18 de Dezembro de 1838 “o plenipotenciário Elliot faz uma intimação aos navios ingleses, empregados em comércio de ópio, para saírem do rio de Cantão no prazo de três dias”. A 31 de Dezembro de 1838, “vencido pela impossibilidade de, por outra forma, se dirigir por escrito às autoridades chinesas, Elliot sujeita-se a dar às suas representações a designação do caractere pân (requerimento) e a redacção que em tais documentos se emprega. (China, por Montgomery Martin, vol. II)”, como refere Marques Pereira.
Já segundo Alfredo Gomes Dias, “O ano de 1839 iniciou-se com a nomeação, em 3 de Janeiro, do célebre comissário Lin Zexu para delegado imperial em Cantão, tendo por tarefa prioritária terminar de uma vez por todas com o tráfico do ópio. Sem perder tempo, logo no dia 10, as autoridades imperiais de Cantão publicaram uma nota onde proíbem o tráfico do ópio naquela vasta região triangular Cantão, Macau e Hong-Kong, cujo centro era a ilha de Linding (Lintin), base de toda a distribuição da droga naquela vasta região da China.”
O confronto que se seguirá, conhecido pela I Guerra do Ópio, tem no início o comando de Lin Zexu, pela parte chinesa e da inglesa, o Capitão Elliot.

8 Abr 2016

Só Vento

Umberto Eco escreveu: “Apenas nós, os monges da época, conhecemos a verdade, mas dizê-la, às vezes significa acabar na fogueira”. Homenagem a quem há pouco tempo nos deixou e pelo tributo deste incansável erudito trabalhador a des-cobrir-nos as imagens mentais que trazemos do momento que é a Vida

Hoje, 1 de Abril, dia dos enganos há três comemorações que gostaria de referir. Duas delas são sobre o aparecimento em Macau de dois jornais na primeira metade dos anos setenta do século XIX e a terceira, o início da ligação aérea da TAP com Macau. Esta última nos enviará para outros voos, em reflexão e fazendo o transporte entre Civilizações, nesse dual estar só um terceiro vector lhe dará a verticalidade. É como acrescentar à nossa actual memória visual, do observar-se de cima, (conceito de superioridade), a espalmada área horizontal de quem por esses olhos aceita por inferior idade tal Visão única. Criada apenas na base da estatutária autoridade, onde o que conta no estar é o individual Ser, feito no que tem pelo material, sendo o Outro, o que não pretendemos conhecer em (/para) nós. São esses erros de quem usa a Verdade pela sua perspectiva e nela subconscientemente se projecta, a crer-se assim a pensar (pela própria cabeça) a imagem (que traz) da Natureza. Aqui esses enganos, celebrados hoje neste artigo de 1 de Abril.
Parece ser um engano a data de 1 de Abril de 1873 que Luís Gonzaga Gomes refere para o aparecimento do jornal O Imparcial. Registo actualmente sem prova física pois, segundo Daniel Pires, que há poucos dias lançou em Macau o Dicionário Cronológico, “nas bibliotecas e arquivos portugueses e macaenses não é conhecido qualquer exemplar deste semanário”. E por aí continuando: “O Jornal da Noite de 18 de Junho de 1873 desvenda o nome dos redactores de O Imparcial: António Alexandrino de Melo, barão do Cerdal (1837-1885), Vicente de Paulo Salatwichy Pitter (1813-1882), Francisco António da Silva e António Joaquim Bastos Júnior (1848-1912), que, de acordo com o Pe. Manuel Teixeira, assegurava igualmente a edição”. Para a data de início da publicação refere ser 5 de Abril de 1873, o que não corresponde à indicada por Luís Gonzaga Gomes e por isso, neste dia, onde ninguém leva a mal os enganos, estas linhas dedicadas a um semanário que cessou a sua publicação três meses mais tarde e que fora fundado por Francisco António da Silva e financiado por Nicolas Tanco Armero, informações do jornal Independente, dadas à actualidade por Daniel Pires.
Sem pertencer a esta data, mas para ligar historicamente com o Jornal de Macau, este sim iniciado a 1 de Abril e da mesma facção política de o Imparcial, surgiu a 28 de Maio de 1873 pela segunda vez, O Independente, cujo director era o advogado José da Silva, que segundo Daniel Pires “editara e participara na apurada experiência do Ta-ssi-yang-kuo. (…) Desde a génese de O Independente, José da Silva, seu editor, revelou frontalidade e coragem, trazendo à colação irregularidades cometidas por uma facção dominante, capitaneada por Bernardino de Sena Fernandes, que tinha o beneplácito do governador e do juiz principal, João Ferreira Pinto”. O Independente saíra pela primeira vez em 1867 (Daniel Pires refere a data de 15 de Setembro de 1868) e em 8 de Julho de 1869 interrompera em Macau a publicação, por ordem do juiz que processou José da Silva e ordenou a supressão do jornal, tendo este rumado a Hong Kong, onde o continuou a publicar. De salientar ser de um outro estar essa luta, que não traz paralelo com a que hoje se trava pois, crendo-nos pelo pensamento de um universalismo internacional, mas usando os direitos individuais, apenas enfeudados estamos num jogo de multinacionais.
Já para o início da publicação do Jornal de Macau, parece ser de comum acordo a data de 1 de Abril de 1875. O semanário “político, literário e noticioso” Jornal de Macau não durou um ano pois deixou de ser publicado a 8 de Março de 1876. Segundo Daniel Pires, apenas existe um número deste jornal, que “foi redigido inicialmente por Manuel Luís Rosa Pereira” e que o Independente, jornal opositor ao Jornal de Macau, refere serem os mesmos que colaboravam no Imparcial, “havendo desta vez alistados nesta cruzada especuladora mais alguns tartufos, além de dois militares, recentemente chegados a esta colónia, mas estes não militam na secção impolítica: botam apenas notícias, charadas e fados” (…) e “dizem por aí que é subsidiado pelo Sr. Bernardino de Sena Fernandes”.
Para fechar este ciclo, ligado aos jornais, o director de O Independente, José da Silva tinha “vinte e mais processos pendentes em juízo”. As vestes com outras personagens! E dizem que o Tempo existe! Engano, pois é apenas um método, para em ciclos tomar-se consciência. Que Tempo.

Os OLHOS e sua projecção

Sonhos de um voo, que o Estar abarca, chegaram num momento com espelhos à História da Imagem. Visão que se tinha perdido há milénios do seu Todo. Para esta história foram os olhos que dominaram a realidade e é deles que fala, vistos por si mesmos. Olhos nos olhos, na ousadia do olhar constroem o mundo de onde chega ou parte a imagem.
Observam-se ao olhar integrados no cérebro; estão na cabeça. Pelos limites se englobam e vêm-se olhando o corpo.
Fascinadamente distanciados pela visão, ascenderam sobre os outros sentidos. Envolvência das sombras com que os olhos se turvam e não relatando, porque só para si olham, um dia apercebem que o inanimado tem capacidades de voar. É o vento a fugir-lhes!
Quando o corpo pergunta à cabeça o que os olhos lhe dizem, estes, por serem quem faz os padrões da História, evitam contar para dentro o que fora não vêem. Mas há temor quando o corpo lhes pergunta o que tinha sido aquilo. Não existe imagem. Só vento.

A terceira comemoração

No dia 1 de Abril de 1996 foi inaugurada a ligação aérea entre Lisboa e Macau dos voos da TAP- Air Portugal, que terminaram no dia 31 de Outubro de 1998, com 536 voos efectuados, cerca de 120 mil passageiros transportados e 4650 toneladas de carga nos dois anos e meio de operações, no qual resultou um prejuízo de 200 milhões de patacas. Números frios, sem serem analisados à luz dos acontecimentos e da História, o que ficará para mais tarde. Se no início, os voos faziam escala em Bruxelas e Bancoque, já para os finais paravam também em Istambul.
Invocam estas três cidades, a par de muitas outras como Bagdad, Madrid, Paris, Estocolmo e países como a Líbia, Síria, Afeganistão e de tantos outros locais onde explodem bombas (sempre condenável), a emoção de uma profunda tristeza e pesar perante o estado de extremos a que chegou o mundo.
O explosivo estar em competição, no qual todos estamos investidos, leva a sermos vítimas da nossa própria violência com que enquadramos o Outro. Observando-o, ele só existe no que dele entendemos. Assim são também estas palavras escritas, que significam apenas o que delas compreendemos e não, a ideia de quem as redigiu. casa escul 8
Sente-se que se encerrou um ciclo, onde a Europa, fruto de um colonialismo de quatro séculos, se auto recria como a Civilização Universal, pois considera-se o Centro do mundo. Mas como o globo terrestre é redondo, esse centro afinal não passa de uma imagem mental cultivada pelo ignorar, o que para além de si existe. E em 2015 na Europa, o caos ganha consciência popular num mundo fechado e reduzido a um ponto de interseção (∩), criado pelo nosso subconsciente, resumindo-se ao individual Ser, pelo que Eu tenho de material. E só querendo saber o que não nos contradiz, reduzimos ao ponto esse Espaço de entendimento.
Assim fazemos a nossa vida, sem querer saber o que viemos ao Mundo fazer. Com as realidades padronizadas na propaganda e publicidade e fruto de uma educação cuja racionalidade lógica proveniente de mentais imagens trabalhadas há dois mil e quinhentos anos, nos dão a razão Absoluta. Com esse padrão, o Ser Humano é superior ao Animal e assim transpondo-nos para além do Reino Animal, somos pertença de um Reino Superior, o do Ser Humano, que apenas há sessenta mil anos tomava consciência da sua existência.
Consciência que traduz um momento tão curto quanto a felicidade que trazemos dessa realidade de Paraíso, ou longo, na guerra entre os eles, pois, como refere Teixeira de Pascoais, o “futuro é a aurora do passado”.
Deixando esse momento de Paraíso, pois a terra era pequena para tanta gente, partindo como nómada, sedentariza-se ao descobrir novos locais convenientes mas, quando as condições de sobrevivência começam a tornar-se aí também difíceis, de novo um grupo tem de partir. Assim de lugar em lugar, entrando em mundos cada vez mais hostis e locais inóspitos, encontramos a Terra toda habitada por seres vivos.
Na intestinal luta de sobrevivência, primeiro contra os selvagens animais que reclamam os locais onde desde sempre os seus ancestrais viveram e já com o uso de utensílios como armas, os matamos para a nossa alimentação aliar a carne com os colhidos frutos, raízes e cereais selvagens, que começam a rarear. De uma táctica, para a caça de animais de pequeno porte, até à estratégia usada para conseguir abater os gigantes mamíferos se foi prolongando a instrução do reconhecer a Natureza.
Devido a uma carestia de alimentos e um aumento das populações, em dedução realiza-se há dez mil anos a Revolução Agrícola, em terrenos cuja água o propicia. Esse novo método de produzir alimentos, que no início e devido a terem uma menor qualidade nutricional provocou a morte a muita gente, levou ao aparecimento da sedentarização permanente, com a domesticação de animais. Assim a origem de dois diferentes estares: o de sedentário e o de nómada, a viver pelas estepes no pastoreio dos rebanhos.
Dividia-se o Céu entre os que pelo Calendário Solar viviam, presos aos ritmos ligados à Agricultura e os que sem tecto fixo usavam a Abóbada Celeste, com os cinco planetas e a Lua, tal como o Sol, para regular o estar. Fica o Universo com outra Unidade, que não a feita só nos doze meses, nos vinte e quatro termos chineses, com que se compõe o 1 feito no 6, onde a trindade é dual e individualmente só feita pelo conceito de ilha. Conjugando pelo espelho no 5, englobamos pela reflexão e o que em cima (Céu) se encontra, é o que se passa na Terra e daí uma nova Unidade se des-cobre, sendo o conjunto maior que as partes. Pensamento Continental, que encobre o Uno de todos os números no 1.

O que fica de fora, apenas na interseção

Se a sociedade foi progredindo nas duas diferentes vias, os sedentários e os nómadas, cada um radicalizou-se na visão que tem de si e do outro. Uns fecharam-se em si mesmos (no Eu) e pelos direitos individuais promovem uma cultura aberta, mas apenas ao que não contradiz essas Verdades e tal como S. Tomé está o ver para crer, só pela matéria em pensamento concreto as aceitam; – já sem a Gramática necessária para atingir o pensamento infinito e abstracto, que combina a matéria com o Todo e como energia, está para além dela, forma.
É um Espaço e logo há, em retenção da fonte, quem condensando a energia em ligações iónicas, dela se apropria e reconhecendo-a só pela material idade, racionaliza na lógica científica de laboratório e retirando-a da unidade infinita, isolando, procura as causas para chegar ao efeito pretendido. É nessa ideia ainda hoje dada pela Instrução e Educação, ligando-nos pelos mundos físico (e com pouca química), dos desejos e de um pensamento concreto, para criar ilusórias imagens teatrais de cinema, com heróis e ídolos, que no fim são comuns mortais caídos em desgraça e no 4 quarto montam o filme sem conseguir enxergar o que a nível etéreo está, como reflexo dessa materialidade até aos 9 mundos que fazem o Universo.
Nessa qualidade, a nossa sedentarização domesticou o animal e o que dele temos ainda como herança. E se antes havia Ginasium, onde se debatia em filosóficas questões a Existência, agora apenas resta a militarista e científica educação espartana, cujo modelo é já o da máquina e não só para o Desporto. Nesse modelo de competição, ciclo do Trato iniciado há cinco mil anos, o Deus Superior cujo Absoluto não vem da Autoridade Natural, mas da Estatutária de um pensamento racional, lógico, dedutivo, dá como resultado o de um animal que se deixou cair na rede e sem intuição, chega pela entropia agora ao fim. Sem regras, senão as leis que agrilhoam o Ser Vivo, vive perdido no caos.

4 Abr 2016

Liaocheng e a cidade da Água

Seguindo o Grande Canal, numa viagem que desde Hangzhou nos levará para Norte até Beijing, tentamos acompanhar o curso desta longa estrada de água, hoje com uma parte dos seus mil e setecentos quilómetros desactivada. Encontramo-nos já no Oeste da província de Shandong (Montanhas Leste) e somos levados à cidade antiga de Liaocheng, que se revela uma agradável surpresa pois, sem nunca a ver registada nos Guias de Viagem, apresentou-se como um lugar turístico escolhido por muitos chineses. Trazemos a curiosidade em perceber como a dinastia Yuan conseguiu resolver o atravessar por água as montanhas, para ligar os celeiros do país, maioritariamente em Zhejiang, até à capital dos mongóis na China, Dadu, a actual Beijing. É a secção mais alta do Grande Canal e por isso, viemos saber como foi resolvido um dos maiores trabalhos chineses de engenharia hidráulica, o conseguir elevar os barcos a atravessar montanhas. A tarefa era difícil pois o terreno levantava uma série de questões, resolvidas com a ajuda de reservatórios e comportas. A construção dessa secção terminou em 1327, sendo realizada por elevadores de água a diferentes níveis, encontrando-se o mais elevado a quarenta e dois metros de altitude.
Outro problema mais tarde resolvido foi a turbulência criada nas águas do Grande Canal quando o Rio Amarelo (Huang He), com um nível mais alto, nele caía. Partindo de Jining, em direcção a Liaocheng, a trinta e quatro quilómetros de Dongping o autocarro sai da estrada principal e entra por um desvio de terra batida onde os agitados solavancos molestam os passageiros e a poeira envolve todo o cenário. Os montes estão a ser esgravatados por enormes máquinas, muitos ficando no cume com o espaço reduzido a uma casa, que ali insiste em permanecer. O autocarro parado, na fila de veículos para atravessar o Rio Amarelo, permite-nos vislumbrar aquela paisagem lunar de obras, fazendo os seus estaleiros lembrar o que terá sido a construção de muitas comportas e diques realizada na primeira metade do século XV, para que os sedimentos das águas do rio não atulhassem o Grande Canal, junto ao lago Dongping Hu.
A solução foi dada por um cidadão, Bai Ying, durante o reinado do Imperador Chengzu (Yongle) da dinastia Ming, que propôs a escolha de um lugar onde o leito do canal fosse mais elevado. Nesse ponto, onde desaguava o Wen He, a água entrava no Grande Canal e dividia-se para o Sul e para o Norte. Ao longo do canal foram construídos alguns reservatórios, onde a topografia permitia assegurar um suplemento de água, sendo o seu fluxo equilibrado por trinta comportas. Os construtores fizeram o Grande Canal alimentar com as suas águas o Rio Amarelo, resolvendo assim o problema da turbulência e dos sedimentos que o rio transporta. Desde sempre o Rio Amarelo foi uma fonte de problemas e em 1855, no distrito de Lankao, província de Henan, de novo mudou a sua trajectória para Norte, o que levou o Grande Canal a deixar de ser navegável daí até à capital.
Chegados ao Rio Amarelo, percebemos porque é que o autocarro percorre aquele desvio. Para o atravessar, uma ponte provisória feita de ferro, tipo ponte das barcas devido às quilhas dos flutuadores, contava com pilares de cimento para aguentar os inúmeros camiões que por ali transitavam. Meses depois aí voltamos a passar e já uma nova ponte está construída. A paisagem mudara completamente desde essa primeira passagem e a quantidade de montes que, apesar de muito surripiados de pedra ali se encontravam, agora desapareceram.
Entrando de novo numa impecável estrada de asfalto, vamos passando por campos onde muitos fornos ainda servem para cozer tijolos. Em Donlong voltamos ao contacto com o Grande Canal; a princípio encontramo-lo seco e como vazadouro de lixo, mas, à medida que nos aproximamos de Liaocheng, aos poucos ganha largura e vai-se consolidando.

A antiguidade da zona

Chegamos a Liaocheng já a noite começa a tomar conta da cidade e por isso, escolhemos o hotel junto ao terminal de autocarros. Apenas necessitando de atravessar a rua, somos abordados por algumas pessoas que nos oferecem quartos por um baixo preço, angariando assim muitos clientes. Ficamos no oitavo andar do hotel e pela janela do quarto, a visão nocturna mostra não haver muitas luzes indicativas da extensão e altura da cidade.
Há dois mil e quinhentos anos, no Período Primavera e Outono, para o local onde Liaocheng se encontra o Duque Huan do Estado de Qi marcou uma reunião com todos os duques dos estados afectos à dinastia Zhou do Leste. Aí, na Primavera de 679 a.n.E., o Duque Huan (685-643 a.n.E.) foi escolhido como chefe da Aliança Beixing, nome da localidade onde se realizou o encontro, hoje Juancheng, na municipalidade de Liaocheng e que deu a supremacia ao Estado Qi. Após a reunião, tropas Qi foram enviadas para aí erguerem uma guarnição militar, rodeando-a por árvores Jiao Liao, árvores cheias de espinhos. O local tornou-se estratégico e importante para os Qi, sendo esse bosque em Beixing mais tarde fortificado com muralhas e no seu interior um povoado começou a crescer. No século XIII passou a ser a cidade de Liao, aquando da construção de uma nova via para o Grande Canal.
Acordamos e o nevoeiro acinzenta o dia. Desconhecendo a real dimensão de Liaocheng, apanhamos um táxi para nos levar a percorrer a secção Huitong do Grande Canal, que a atravessa. Transportados por uma larga avenida para Oeste, passamos depois por quarteirões, quais degraus numa escada horizontal, onde o VW-Santana vai circulando e sobre uma ponte, o taxista aponta para o lado direito. Vemos o curso de água interrompido por um monte de terra; mas sorridente, coloca-nos a olhar para o outro lado, onde uma marginal bem arranjada leva os nossos olhos até à ponte feita de vários arcos. Daí reparamos na circunvalação em quadrado, que concentricamente envolve por água o pólo originário da cidade.
Encontramo-nos perante o Museu do Grande Canal e após visitado, seguimos pelo passeio junto à água, de ponte em ponte. Ornamentadas por estátuas de leões, umas grandes à entrada, outras mais pequenas no vão das pontes e a que nos parece a mais antiga, tem nos pilares junto à água representações do dragão Baxia.

O Pagode de Ferro

A secção Huitong do Grande Canal alimenta este lago, cujo centro é uma grande ilha, onde se encontra a parte antiga de Liaocheng e para lá chegarmos, atravessamos pontes que ligam pequenas ilhas. Na margem Oeste do Grande Canal, a Guilda Shanshan, conhecida também pelo Templo ao Sábio Guan, levou sessenta e cinco anos a ser construída. Começada em 1743, no tempo do Imperador Qian Long, só terminou em 1809, após muitas extensões para lhe dar os mais de três mil metros quadrados da área que ocupa. Ao longo do canal, pelo jardim onde habitualmente os mais idosos se juntam para jogar cartas, xadrez chinês e go, estão gaiolas com pássaros colocadas nos ramos das árvores para estes, quais filhos únicos, passarem a tarde em convívio.
Acompanhando a água, atravessamos uma rua, onde ao fundo vemos a Torre do Tambor, edifício que normalmente marca o centro das cidades. Continuamos para um outro extremo da ilha e aí, as antigas casas foram deitadas abaixo e reconstrói-se a continuação do parque, que se pretende a envolver a zona Norte. Os lagos de água parada estão cheios de pescadores pelas suas margens, enquanto vão sendo rasgados canais para dar continuidade ao que se vai fazendo no centro da cidade, embelezando e criando espaços verdes para lazer. Por fim, após passar por uma ponte de pedra a ser construída com o suporte de terra a servir de apoio ao arco, chegamos junto ao Pagode de Ferro, que com dez metros de altura, é um dos quatro ainda existentes na China. Situa o local do antigo Templo de Long Xin, já inexistente, e na área todos os edifícios estão por terra, sobrando entulho.
Nesta viagem temporal, mediada por cinco anos, voltamos ao núcleo da cidade antiga de Liaocheng. Na primeira estadia, a paisagem urbana da ilha central mostrava-se com um forte contraste em relação à cidade nova que a circunda. O quotidiano desenrolava-se sem grande trânsito e as pessoas viviam como em aldeia, sendo as casas térreas e antigas, muitas muralhadas e com pátio, onde o tempo parecia ter parado e muito se diferenciava da outra parte da cidade. Agora, dentro já de um urbanismo cuidado, os novos prédios avançam a cidade e entre eles, o canal Huitong, construído no século XIII, vai sendo dragado aos poucos. Por fim o lago, onde a cidade ganha espelho. Toda ela mostra aos nossos olhos o que estes não se tinham apercebido aquando da visita ao antiquíssimo local de Yang Cheng em Changzhou, província de Jiangsu. Aí faltava o balão para subir e ver de cima o que seria um povoado há três milénios. Essa visão foi-nos oferecida no Museu do Grande Canal, onde varandas em cada um dos três andares permitem ver por cima a planta de Liaocheng.

A actualidade do antigo

Sem perceber como, encontramo-nos na parte antiga da cidade, onde as ruas e passeios, que eram em terra, vão sendo revestidos com pedra e quanto mais nos aproximamos do centro, mais intenso o trabalho das obras. Entramos por estreitas ruas, cujos altos muros escondem os pátios das casas, sendo a nossa curiosidade satisfeita por portões abertos a mostrar de frente um mural de azulejos a receber quem entra.
Já no centro da ilha, a Torre Guangyue foi construída por Chen Yong em 1374 e usou os materiais que sobraram da reconstrução da cidade, feita dois anos antes. Esta, transformada de terra para pedra, passou nessa altura a chamar-se Feng Huang Cheng, cidade Fénix.
Da Torre Guangyue, partem quatro ruas e em torno dessa praça, alguns Bancos perceberam há muito, que aí virá a ser o lugar mais turístico da cidade e por isso colocaram agências nos edifícios para ela virados. Também uma casa com jardim bem arranjado parece ser um museu de alguém famoso, mas está fechado. Depois um outro edifício, este de madeira e de grandes dimensões, chama a atenção e ao tentar entrar, dizem-nos que o museu de pintura fica no outro lado do mesmo complexo.
Continuando a explorar a cidade antiga dentro da ilha percebemos que esta não terá mais de três quilómetros de diâmetro. Ao passear por um dos seus cantos, encontramos um idoso vestindo roupas que já desapareceram do quotidiano chinês, o que nos chama a atenção e pedindo para o fotografar, aceita. Já nas despedidas diz-nos algo e pelo gesto parece pedir para lhe enviarmos a fotografia. Retiramos o bloco do bolso e passando-o para as suas mãos, começa a escrever, o que pensamos ser o endereço, mas este não pára e ocupa a folha toda. Tentamos saber em todos aqueles caracteres onde a se encontra a morada e então, com poucas palavras, convida-nos a ir a sua casa. Den Jin Lu nascera em 1925 em Liaocheng e aos dez anos servira como ajudante voluntário no exército. Já em 1936 juntou-se a Zhou Enlai durante dois meses e desde Julho desse ano passou a seguir Fan Zhu Xian, entrando em 1940 para o Exército e tornou-se membro do partido Comunista passado três anos. Estudou na universidade e combateu os japoneses, tendo o senhor Den em 2004 escrito sobre essa época e o seu superior Fan Zhu Xian. Ainda nessas deambulações damos com um artista que, pelas dimensões da folha de papel de arroz onde desenvolve a reprodução de uma pintura a tinta de água, necessita da rua para atelier.
Olhando ao fundo os altos edifícios, saímos da cidade antiga pela longa e bonita ponte de mármore branco. Com vinte e um arcos, tem as pedras gravadas em relevo com imagens retiradas da novela do século XIV, Margem da Água (ShuihuZhuan), a representar histórias como a de Wu Song bateu num tigre até este morrer, ou Sun Er-Niang tornou-se dono de um restaurante, matando e comendo os seus comensais.
Na segunda visita, em 2012, estranhamos o que os nossos olhos vêem. A cidade antiga está a ser muralhada, contando já com uma grande frente e uma porta. Chegados à parte nova da cidade, seguimos para apanhar o autocarro em direcção a Linqing e continuar a perseguir o Grande Canal.
Liaocheng é uma cidade com vasto potencial para surpreender pela positiva os visitantes. Se para um estrangeiro, o que esta cidade tem para mostrar não parece significativo, comparado com os muitos locais de grande qualidade e antiguidade que existem pela China, já para o turismo interno mostra-se com grandes potencialidades, tanto culturais, como históricas e de lazer. Esconde ainda por baixo da terra muitos episódios do livro da História antiga da Civilização chinesa, que ficarão para outra história.

18 Mar 2016

O Infante D. Henrique, de Tânger a Sagres

No artigo escrito em 4 de Março para comemorar os 622 anos do nascimento do Infante D. Henrique, deixámos o relato da sua vida quando em 1418, “logo após o regresso da expedição de socorro a Ceuta dois escudeiros de D. Henrique – João Gonçalves Zarco, (sobrinho do vedor da fazenda, João Afonso) e Tristão Vaz Teixeira – pediram autorização para praticar o corso. Os ventos conduziram-nos à ilha de Porto Santo, onde decidiram fixar-se, porventura decepcionados com uma guerra que não trazia honra nem proveito”, segundo Luís Filipe Thomaz. Desde 1416 D. Henrique estava encarregue da defesa e provimento de Ceuta, conquistada no ano anterior, mas tal praça mostrava-se um sorvedouro de gente e dinheiro. As necessidades financeiras, que precisava, obteve-as sobretudo pelo controlo da actividade corsária portuguesa na área do Estreito, onde, tal como o seu irmão D. Pedro, tinha ao serviço barcos corsários.
Segundo Artur Teodoro de Matos, “o Infante D. Henrique vai construindo economicamente a sua casa com direitos, monopólios, , isenções, honras e privilégios. Depois de lhe ser concedida a alcaidaria-mor da cidade de Viseu, em 1416, recebe, em 1420, a administração da ordem de Cristo cedida pelo papa a rogo do rei, o que lhe permitirá investir os proventos desta na guerra contra os sarracenos e na , objectivos tão caros ao Infante e que se coadunavam com os seus interesses económicos. Depois, é autorizado a realizar feira franca anual em Tomar (1420). Recebe o monopólio da estacada no Ródão para reter o peixe (1421); do relego de Viseu (1421); o direito de conceder terras suas e da Ordem de Cristo em regime de sesmaria (1422); de doação de casas para saboaria em Santarém (1424); facilidades para a sua indústria de sabão em Lisboa (1428), etc.” Desta forma e pelo corso, D. Henrique tinha os fundos que precisava para enviar os seus barcos para o Atlântico Sul, onde cria poder encontrar apoio do tão afamado reino cristão do Preste João, assim como perceber a extensão do território muçulmano.
Em 1422 “começou a mandar navios da sua frota corsária para o Sul, dando-lhes ordens para que tentassem dobrar o cabo Bojador” segundo Luís Filipe Thomaz, no entanto, “os planos henriquinos de exploração da costa ocidental africana não parecem constituir, na origem, um projecto expansionista distinto da conquista de Marrocos; muito pelo contrário, integram-se, com toda a verosimilhança, na mesma estratégia, visando simplesmente envolver o reino de Fez pelo Sul.” E prosseguindo, “Durante doze anos todas as tentativas fracassaram, sendo apenas em 1434 que Gil Eanes, finalmente, penetrou nas águas desconhecidas do Atlântico Sul. Tal sucessão de malogros explica-se por dois factores; por um lado, o temor dos baixios fronteiros ao cabo, o medo do desconhecido, porventura também a influência das velhas lendas sobre o que se estenderia para lá do Bojador; por outro lado, o atractivo económico do corso, que levava as tripulações a preferirem as costas de Marrocos e de Granada, onde podiam capturar presas, ao litoral arenoso e despovoado do Sara.”

O desastre de Tânger

Enquanto o príncipe D. Duarte se preparava para ser Rei, os seus irmãos na segunda metade dos anos vinte do século XV viajavam pela Europa. O Infante D. Pedro, entre 1425 a 1428 e no ano seguinte, foi a vez do Infante D. Fernando, o irmão mais novo, acompanhar a irmã, Isabel, à Flandres, onde se casou com Filipe, o Bom, tendo este aliciado o Infante D. Henrique para aí ir viver. Tal ocorreu após a malograda expedição de 1424/25, “sob o comando de D. Fernando de Castro para se apoderar da Grã Canária”, organizada pelo Infante D. Henrique, sem querer saber de Castela que, “desde 1403, tinha sob a sua suserania as ilhas de Lançarote, Forteventura e Ferro” e em 1421 “o Rei de Castela D. João II concedeu o que faltava conquistar das Canárias ao andaluz Alfonso de las Casas, tendo o Papa confirmado tal concessão”, como refere Luís Filipe Thomaz. A salientar ter já o Rei D. Afonso IV, da primeira dinastia portuguesa, enviado uma esquadra que encontrou as Ilhas Canárias em 1336. E continuando, “A intervenção do Rei (D. João I) no processo tinha visado desviar das Canárias D. Henrique e seus apaniguados, para evitar as tensões com Castela” e consciente de ter os filhos a ajudá-lo, D. João I começou a ponderar encontrar maneira de cativá-los.
O estabelecimento português nos Açores, ilhas encontradas em 1427 por Diogo de Silves, foi segundo Filipe Thomaz, “provavelmente uma consequência do povoamento da Madeira e do desenvolvimento da navegação entre a ilha e o continente”.
Em 1429 ocorreu um novo ataque dos marroquinos a Ceuta e perante a sua frequência, a coroa portuguesa debate em 1433 sobre a “viabilidade de prosseguir a política expansionista em Marrocos”, Veríssimo Serrão. E seguindo, “A situação de Ceuta, isolada no território do Magrebe, impunha a conquista de novas praças para a realização daquele projecto”.
D. João I preparava uma empresa a Marrocos, que pensava comandar pessoalmente, quando em 1433 finou. D. Duarte sucedeu a seu pai, reinando de 1433 a 1438. “Na corte de D. Duarte fizeram-se, entretanto sentir as correntes favoráveis à conquista de Tânger”, segundo Veríssimo Serrão, “porto cobiçado pela sua posição estratégica face ao estreito de Gibraltar.”
Em 1437, “graves carências no comando da expedição e uma táctica militar votada ao insucesso levaram o cerco do exército português que, a 12 de Outubro daquele ano, teve de se render na totalidade à pressão dos defensores de Tânger”, segundo Veríssimo Serrão e continuando, a 13 começaram as negociações, “a 17 assinou-se a paz”. “Por este tratado, D. Henrique obrigava-se a devolver Ceuta a Salah ben Salah, que a perdera em 1415 e que em 1437 governava Tânger. Como refém, os Muçulmanos retinham o infante D. Fernando. Os Portugueses embarcariam, sem armas e vitualhas, ficando como refém desse embarque um filho de Salah ben Salah e como refém deste quatro cavaleiros fidalgos portugueses.” O Infante D. Fernando, como mártir, aí ficou prisioneiro e só seria libertado em troca de Ceuta. Assim em Fez o deixaram sacrificado como Infante Santo, apodrecendo até a morte o levar em 1443, pois as Cortes não quiseram permitir que essa praça fosse restituída.
Com a morte do Rei D. Duarte em 1439 e porque D. Afonso, o futuro Rei Afonso V, tinha apenas seis anos e o povo não aceitava D. Leonor para regente por esta estar nas mãos da nobreza, D. Pedro, irmão do falecido rei (D. Duarte), governou o país até 1449. Este, em 1443 concedeu ao Infante D. Henrique o monopólio da navegação, guerra e comércio nas terras além Bojador. “Com os dez anos de regência de D. Pedro II, regressava o entusiasmo pela navegação e atingiu-se o Cabo Branco e o Golfo de Arguim, região rica em ouro e escravos traficados pelos habitantes que iam ao interior fornecer-se de pessoas da sua raça e os capturavam, para depois trocar por panos, prata, tapetes e trigo com os portugueses, que aí tinham uma feitoria. Assim, ao explorar vastas zonas do Atlântico Central, um novo espaço geoeconómico se abre, levando a uma expansão da economia e em que o elemento monetário é cada vez mais importante”, Celina Veiga de Oliveira.
Vitorino Magalhães Godinho sobre o carácter do Infante diz: “A atestar que não possuía excepcionais qualidades de organização prática, aí estão o desastre de Tânger, cuja responsabilidade lhe cabe inteira, e as dívidas que legou (e que não podem ter resultado das despesas com os descobrimentos, mas sim dos gastos da sua casa senhorial). Todavia, pensava também no acrescentamento material da ordem de Cristo, e o seu panegirista indica que esta adquiriu novas casas e herdades e pôde construir capelas. Nunca descurou o engrandecimento da sua casa e património, teve uma empresa de corso e vigiou atentamente para não ser defraudado do seu quinto de escravos. Sacrificou o seu irmão mais novo ao seu imperialismo marroquino, sacrificou o irmão mais velho em Alfarrobeira porque divergiam politicamente.”
Já Luís de Albuquerque refere sobre a cultura do Infante: “D. Henrique personifica o tipo de homem de acção e não de reflexão erudita; no seu espólio há livros (mas pouquíssimos livros!) de cultura geral (assim escreveu Cortesão) e livros de devoção; estes sim, devia o infante estimá-los, como católico fiel que era, à maneira do seu tempo. Quanto ao resto, é quase certo que passou muito bem sem roteiros, cartas, planisférios e outras coisas que, a partir de determinado momento, terão interessado vivamente navegadores e pilotos.”

Sagres, a vila do Infante

D. Henrique fez de Lagos a sua cidade e mais tarde, Sagres o seu refúgio, talvez para expiar os remorsos sentidos por ter convencido o seu irmão D. Fernando a tomar o seu lugar como refém, após a malograda expedição de 1437 a Tânger, enquanto ele vinha a Portugal tratar da entrega de Ceuta ao rei de Marrocos. Mal foi libertado de Tânger, D. Henrique logo fez saber que tal entrega estava fora de questão e assim D. Fernando ficou cativo em Marrocos, onde veio a morrer em Fez após anos de tortuosa prisão.
Sagres situada no extremo Sudoeste da Europa era um promontório Sacro desde tempos muito antigos, sendo uma zona sagrada e interdita ao comum dos mortais e onde S. Vicente estivera sepultado desde 760, até D. Afonso Henriques mandar transladar os ossos, ficando então a chamar-se Cabo de S. Vicente. Era na enseada onde as embarcações que navegavam entre o Mediterrâneo e o Atlântico Norte tinham por vezes de aguardar a chegada de ventos propícios. O promontório Sacro era uma zona árida e despovoada quando em 1443 o regente D. Pedro doou a região de Sagres ao seu irmão D. Henrique. Este aí mandou erguer a sua vila, usando para isso o trabalho de prisioneiros degradados. A construção foi realizada muito lentamente e assim o núcleo populacional ali feito, apenas em 1457 serviu como regular residência a D. Henrique. Já a existência aí de uma Escola de Navegação, conhecida por Escola de Sagres, é um mito.
“Aos nove anos depois de Tânger, cinco passados sobre a queda de Bizâncio, D. Henrique levava o sobrinho (D. Afonso V) a Alcácer-Ceguer”, (segundo Oliveira Martins) e “no Outono de 1485, a 3 de Outubro, de manhãzinha, surgiu em frente a Sagres a armada em que o rei saíra de Lisboa três dias antes; e D. Henrique, hirto sobre sessenta e cinco anos de um pensamento fixo, embarcou, tomando a direcção da empresa, e conquistando Alcácer”.
“Em 1460, à data da morte de D. Henrique, a navegação portuguesa percorria já, de uma forma rotineira, os caminhos marítimos da Madeira e dos Açores, de Arguim e da Guiné, do Cabo Verde e da Serra Leoa, e executava sem problemas a grande volta do largo, que, aproveitando o regime de ventos dominantes, trazia as nossas embarcações de regresso dos mares tropicais ao litoral português, longe da vista de terra” como refere Rui Loureiro. Após a morte do Infante D. Henrique, D. Afonso V em 1469 arrendou a Fernão Gomes, por um período de cinco anos a exploração da costa africana.
Com 67 anos, o Infante D. Henrique faleceu a 13 de Novembro de 1460 na sua vila de Sagres. Nessa noite de quinta-feira levaram-no para a igreja de Santa Maria em Lagos, onde foi sepultado com todas as honras e em frente à qual os sacerdotes se ocupavam em contínuas vigílias. Por ordem do Rei D. Afonso V, foram no ano seguinte os ossos trasladar para o mosteiro de Santa Maria da Batalha.
Duas semanas antes de finar, o Infante D. Henrique estando já doente ditou a 28 de Outubro o seu testamento que começa: “Eu, o Infante Dom Henrique, governador da ordem da cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, duque de Viseu e senhor da Covilhã”. Nesse testamento percebe-se a sua forte devoção a Deus a que encomenda a alma e o corpo e lhe dê a salvação na ressurreição, pedindo para tal a ajuda misericordiosa de Maria e de São Luís, a quem desde a sua nascença fora encomendado, que ele e todos os santos e santas e anjos da corte celestial intercedam a Deus pela sua salvação. Pede para ser sepultado no Mosteiro da Batalha e aí se realizem missas e orações por ele, para as quais deixa alguma da sua imensa fortuna, assim como no Convento de Tomar. Das suas rendas do seu assentamento e das saboarias, das ilhas da Madeira e Porto Santo e da Deserta e Guiné com suas ilhas e toda sua renda e o quinto das enxávegas e das corvinas e Lagos e Alvor, por três anos após a sua morte deviam servir para as seguintes despesas: para a sua sepultura, pagar as suas dívidas…” e continua numa extensa lista.
Rui Loureiro refere: “O Navegador, talvez sem o querer, certamente sem o saber, lançara Portugal numa aventura marítima de consequências imprevisíveis, que, muito em breve, haveria de conduzir os nossos navios e os nossos homens à Índia, ao Brasil, à China, e a tantas outras terras e mares desconhecidos”. E terminamos com as palavras de Luís Filipe Thomaz: “Não houvessem os grandes descobrimentos marítimos tido lugar e Portugal teria, quiçá sido, como Aragão, absorvido por Castela.” Por isso a nossa homenagem ao Infante D. Henrique, o Navegador do Céu de Portugal.

11 Mar 2016

Aniversário do Infante D. Henrique, o navegador

Filho do Rei D. João I e da inglesa Dona Filipa de Lencastre, o Infante D. Henrique nasceu no Porto a 4 de Março de 1394, Quarta-Feira de Cinzas e logo no Domingo seguinte foi baptizado na catedral do Porto, tendo como padrinho D. João Homem, Bispo de Viseu. Segundo Artur Teodoro de Matos, “A sua ama-de-leite foi Mécia de Lemos, casada com um cavaleiro da Ordem de Cristo, Vasco Gonçalves. Aliás, um bom começo para uma profunda ligação à Ordem de que viria a ser governador e que tinha então por mestre D. Diogo de Sousa, companheiro de armas de D. João I.” Conjuntamente com os seus irmãos, filhos do casamento entre D. João I e Filipa de Lencastre, foram cantados por Camões como a Ínclita Geração. Marcante descendência, atenta ao que se passava pelo mundo e com novos horizontes, deu início ao Renascimento português e à expansão marítima.
Ao Infante D. Henrique (1394-1460) está atribuído o início dos Descobrimentos Portugueses e apesar de as suas façanhas marítimas se limitarem, como refere Rui Manuel Loureiro, “a algumas, poucas, viagens à costa marroquina, no decorrer de expedições militares lançadas pela jovem dinastia de Aviz contra o Norte de África”, o Infante D. Henrique ficou depois para a História conhecido pelo cognome O Navegador, pois deu um novo impulso às viagens pelo Atlântico, levando os seus homens a dobrar o Cabo Bojador, fazendo com isso terminar o antiquíssimo mito de ali ser onde o mundo terminava. E voltando a Rui Loureiro, “de facto, desempenhou um papel de primeiro plano na primeira fase da expansão portuguesa para além-mar.” Através dele abriu-se um novo rumo que levou a Europa ao Renascimento, apesar de, segundo o professor Veiga Simões, “enquanto o Infante D. Henrique representava o espírito medieval em consonância com os interesses da nobreza, o seu irmão D. Pedro era o representante do ‘regalismo nacional’ apostado na existência de um estado forte e centralizado.”
“D. Henrique, após ter tentado em vão fazer de medianeiro ou mesmo fiel de balança, como fizera bastas vezes no passado, acabou por se inclinar decididamente para o campo do sobrinho (D. Afonso V), deixando o irmão (D. Pedro) entregue à triste sorte que escolhera ou não soubera evitar. Não é inverosímil que, ao encomendar a seu cronista (Gomes Eanes de Zurara) a tarefa de ajuntar em crónica os feitos do seu tio (em 1452 encontrava-se ainda vivo D. Henrique), D. Afonso V tenha tido exactamente em mira recompensá-lo pelo exemplo de fidelidade, sem falar já no apoio militar que lhe dispensara na transe de Alfarrobeira. Assim se teria iniciado a utilização pelo poder político da figura histórica de D. Henrique como exemplar”, palavras de Luís Filipe Thomaz.
Segundo Maria Isabel João: “O Infante D. Henrique é um dos vultos do panteão da história nacional mais mitificado e celebrado ao longo dos tempos, mas não deixa de ser também dos mais controversos. A chamada lenda infantista e a utilização da sua figura pelo poder político começa logo quando D. Afonso V ordena a Gomes Eanes de Zurara (1410/20-1473/74) que escreva a crónica dos seus feitos e virtudes, certamente como prova de gratidão pela fidelidade e o apoio militar que lhe tinha prestado no transe de Alfarrobeira. A Crónica de Guiné, iniciada possivelmente poucos anos após a batalha que custaria a vida ao regente D. Pedro, onde se insere um grandiloquente panegírico do Infante D. Henrique, o príncipe pouco menos que divinal nas palavras do cronista…” contrasta com o que “o cronista oficial de D. João II, Rui Pina (1440?-1522), transmite(;) uma visão bem menos lisonjeira da actuação de D. Henrique, em particular na expedição de Tânger, que redundou num fracasso de penosas consequências para o país, e do desenlace fatal de Alfarrobeira. Zurara e Rui Pina são cronistas coevos do Infante D. Henrique…” Já Vitorino Magalhães Godinho desenlaça: “Afigura-se-nos que a autêntica grandeza do Infante dispensa bem que se insista em mantê-lo envolto nos ouropéis de uma mitologia. É apoucá-lo, afinal, recear vê-lo na realidade da sua vida entre seu pai e irmãos, entre ministros, os cavaleiros, os mercadores, os marujos, preso nas contradições de seu tempo mas velejando para novos tempos. E persistimos em crer que a mais grata e duradoura homenagem será a nossa contribuição de hoje rumo ao porvir, se soubermos ser de novo pioneiros da aventura humana como ele o foi nessa era também de ocaso e alvorada.”

A figura de D. Henrique

Quando o Infante D. Henrique nasceu, faz hoje 622 anos, “À crise geral que assolava o Ocidente (na Europa vivia-se a Guerra dos Cem Anos) juntavam-se as debilidades próprias do reino, parco em recursos naturais e agrícolas, devastado por sucessivas guerras com Castela desde o governo fernandino, com tudo o que isso implicava de empenho militar directo, mas também de esforço financeiro, de destruição de culturas, de perda de vidas. Quando a paz com o reino vizinho foi definitivamente estabelecida, em 1411, abriu-se a possibilidade de novos rumos para Portugal.” E continuando com Bernardo Vasconcelos e Sousa: “Confinado ao extremo ocidental da Península, como que acantonado nessa finisterra onde não havia mais território para conquistar, o reino vivia no seu impasse hispânico. A relação contraditória de atracção e de rivalidade face a Castela não iria por certo, sofrer modificações num futuro próximo. A haver alguma alteração no relativo equilíbrio então estabelecido, ela só poderia ser favorável ao lado castelhano.” Joaquim Veríssimo Serrão adita: “A afirmação política da dinastia de Avis, junta o ideal da Cruzada, foi determinante no objectivo da empresa. Mas outras causas, sociais, económicas e marítimas, têm sido apontadas na génese da Expansão: a posse de Ceuta como zona cerealífera, para ocorrer aos défices frumentários da Metrópole; a conquista de uma base naval para impedir os ataques da pirataria mourisca ao Algarve; a aproximação, por meio de Ceuta, Argel e Tunes, das fontes auríferas do Sudão; e a necessidade de obter um campo de luta em Marrocos, para ocupar a nobreza ociosa desde a paz com Castela.”
Segundo Artur Teodoro de Matos: “São escassas as informações sobre a juventude de D. Henrique. Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, traça um quadro da harmonia familiar na corte, onde os filhos foram educados dentro dos princípios do respeito aos pais, do temor a Deus, evitando , mas também o e onde eram exemplos de virtude o rei e a .”
Já sobre a educação refere Vitorino Nemésio, “A par com o estilo litúrgico inglês (observância na Corte do rito Salisbury), outras modas trazidas por D. Filipa influiriam no ambiente cortesão.” E continuando: “Como seus irmãos, o Infante D. Henrique se iria criando à moda castiça, então já muito influída pelos usos de fora parte, sobretudo em matéria de práticas cavaleirescas, num país cuja nobreza não conhecera o grande estilo feudal”.
“A concórdia entre os irmãos é não só referida por Fernão Lopes na Crónica de D. João I, mas dela dá testemunho o rei D. Duarte no seu Leal Conselheiro: , acrescentando ainda que “, segundo Artur Teodoro de Matos. E com ele seguindo: “o seu biógrafo, Gomes Eanes de Zurara na Crónica dos Feitos da Guiné dele fez um esboço de retrato físico: com e , tendo a ; da mãe herdara certamente a tez branca e corada, mas que o . Mais pormenorizado é o retrato psicológico onde o cronista é pródigo na exaltação das virtudes do seu : , que nunca acolheu , passando toda a sua vida em recebendo-o a terra .
Da sua casa, e segundo o biógrafo, fez lugar de acolhimento dos e sobretudo dos . É que às qualidades de inteligência e acresciam as de e de prudência, , além de enorme tolerância, pois que nunca lhe haviam . Zurara apresenta-o assim como protótipo da sabedoria e da virtude e, para que não restassem dúvidas sobre algum prazer do seu herói, mesmo que da mesa, adverte que apenas bebeu vinho, dele depois privado .
Este perfil de homem de excepção ou de autêntico herói e de primeiro e principal autor dos descobrimentos seria estimulado na era de quinhentos, sobretudo por D. Manuel (seu neto adoptivo) e materializado no Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira e, mais tarde, por João de Barros nas Décadas da Ásia”, este longo retrato é-nos dado por Artur Teodoro de Matos.

Conquista do divino

Nas palavras de Luís Filipe Thomaz: “Não admira, portanto, que um dos homens lígios de D. Manuel e teórico da sua ideia imperial, Duarte Pacheco Pereira, atribua no seu Esmeraldo de Situ Orbis a iniciativa dos descobrimentos henriquinos não já a considerandos de ordem ideológica, económica e política, como meio século atrás fazia Azurara, mas pura e simplesmente, a inspiração divina.”
O primeiro rei da segunda dinastia, D. João I, numa afirmação de prestígio dinástico da sua casa real, a de Avis, em 1410 pretendeu, numa grande festa, armar cavaleiros três dos seus filhos, D. Duarte com 19 anos, o Infante D. Pedro de 18 e D. Henrique com 16 anos, onde a realeza da Europa vinha participar nos torneios medievais. Mas estes recusaram pois, como Joaquim Veríssimo Serrão refere: “não queriam aceitar o grau da cavalaria numa cerimónia festiva, mas em luta contra os Mouros em África.” E assim se fez.
Com a conquista de Ceuta em 1415, o Infante D. Henrique, já armado cavaleiro, dava início à empresa de tomar o lugar dos muçulmanos no Norte de África, em território marroquino, ficando “desde 1416 encarregue da defesa e provimentos de Ceuta, o que implicava o controlo da actividade corsária portuguesa na área do Estreito. Sabe-se que tanto ele como D. Pedro tinham ao seu serviço navios corsários, visto D. Duarte ao subir ao trono (1433) os isentou do pagamento do quinto das presas devido à Coroa (numa adaptação do princípio do direito muçulmano que reserva ao califa o quinto de todo o saque).” E continuando com Luís Filipe Thomaz: “De 1415 a 1422 D. Henrique interessa-se já pelo mar” … “a armada tem por base Ceuta e actua (provavelmente com galés) na zona nevrálgica do Estreito, fazendo guerra do corso à navegação muçulmana e provavelmente periódicos ataques às costas de Granada e da Barbaria.”
“A situação de Ceuta, isolada no território do Magrebe, impunha a conquista de novas praças para a realização daquele projecto” Veríssimo Serrão. Em 1418 ocorre o grande cerco a Ceuta, “que obriga o infante a ir em seu socorro e lhe dá, provavelmente, a noção da dificuldade do ataque frontal a Marrocos” como refere Luís Filipe Thomaz.
Abria-se a necessidade de procurar o além e dar um novo impulso na arte de navegar. O Infante D. Henrique tomou essa tarefa a peito e procurou que os seus barcos navegassem por águas desconhecidas. Gonçalves Zarco em 1418 chegou a Porto Santo e Tristão Vaz, no ano seguinte à Ilha da Madeira. Os Açores foram hipoteticamente descobertos em 1427 por Diogo de Silves, pois segundo consta já por lá tinham passado outros navegadores. Com a colonização destas duas ilhas introduziram-se-lhes cereais, açúcar e plantas tintureiras. Segundo João Silva de Sousa: Em 1420, quando se dava início ao povoamento da Ilha da Madeira, “D. Henrique foi nomeado, por Martinho V, através da bula In apostolice dignitatis specula, Administrador-Geral da Milícia de Jesus Cristo nos Reinos de Portugal e Algarve, ou seu Grão-Mestre.”
D. Henrique também incentivou os marinheiros a seguir pela costa africana para Sul, mas essas empresas “falham devido a certos medos e lendas, mas também por razão económica: à aventura na costa ao sul do Bojador que sabem deserta, os homens preferem a actividade tradicional do corso e teimam em ir fazer presas na costa do reino de Granada”, Luís Filipe Thomaz.
Em 1429 ocorreu um novo ataque dos marroquinos a Ceuta e perante a sua frequência, a coroa portuguesa debate em 1433 sobre a “viabilidade de prosseguir a política expansionista em Marrocos” Veríssimo Serrão.
O Rei D. João I faleceu em 1433, ano em que na Índia o Almirante chinês Zheng He morreu no seu barco, o baochuan, em frente a Calecute. Em 1434, Gil Eanes dobrava o Cabo Bojador e dois anos depois dava-se o aparecimento da caravela, um barquinho comparado com o baochuan, de cento e vinte metros de comprimento e cinquenta de largura.

4 Mar 2016

Os primeiros católicos na China

No artigo da semana passada, “Os primeiros cristãos na China”, deixamos a História quando os cristãos nestorianos, referenciados na estela do século VIII enterrada pouco depois do Decreto de proibição das religiões de 845, se viram forçados a fugir para as estepes do Norte. Aí se juntaram a algumas tribos nómadas mongóis e por volta do ano mil converteram os Merquites e Keraítas ao cristianismo nestoriano.
Temujin pretendia no Kuriltai (Grande Conselho mongol) de 1196 ser designado Khan, mas só em 1206, após as lutas pela unificação das tribos das estepes do Norte, ficou como senhor da Mongólia, Genghis Khan, dando assim início ao Império Mongol. Em 1211 começou a invasão da China e conseguindo dois anos mais tarde atravessar a muralha, ocupou Beijing em 1215. Até ao final da sua vida conquistou o Norte da China e as cidades do Leste do Irão, Afeganistão, Uzbequistão e Sibéria, contando com um exército de apenas 129 mil homens. Antes de morrer, em 1227, pelos seus quatro filhos dividiu em Khanatos o imenso território já conquistado em todas as direcções a partir da Mongólia. Nos cinquenta anos seguintes, os mongóis conquistaram toda a China e o Norte do Vietname, o Afeganistão e parte do Paquistão, o Cáucaso, a Rússia, a Ucrânia, o Irão, o Iraque, a Síria e a Hungria.
Estava Batu Khan e as suas tropas em 1241 às portas de Viena, quando morreu o segundo Khan do Império Mongol, Ogodai (Gedei, com nome de Templo Tai Zong, 1229-1241), que promovera ataques contra a China do Norte, conquistando-a até Kaifeng, onde chegou em 1234 e para Leste, submeteu a Coreia. O seu sobrinho Batu Khan (filho de Juli ou Jochi, primogénito de Genghis Khan mas que falecera antes dele) conquistara os Búlgaros do Volga em 1236/7 e Kiev em 1240, seguindo-se a Polónia, a Hungria e Roménia, e quando estava às portas de Viena, Batu Khan sabendo da morte de Ogodai regressou à Mongólia, onde se ia fazer a escolha de um novo Khan. Para aí também se dirigiram emissários de todo o mundo, representantes do Império Romano do Oriente, da Igreja de Roma e dos Ortodoxos Russos, tendo encontrado na capital do Império Mongol, Karokurum, os nestorianos com uma tenda como igreja, ao lado da tenda imperial. Tal, muito se devia a Sorkaktani (Sorghaghtani Beki, 1198-1252), princesa da tribo nestoriana dos Keraítas (uma das tribos pertencentes à Confederação Mongol) e que era desde 1203 casada com Tului Khan (1192-1232), o mais novo dos quatro filhos de Genghis Khan e da sua principal esposa Borte. A nestoriana Sorkaktani foi mãe de Mongke, Kublai, Hugalu (Hulagu) e Arik Boke, que haveriam de ser, os três primeiros, grandes chefes mongóis. Segundo Miguel Urbano Rodrigues “De acordo com a lei mongol, não era ao primogénito que cabia o quinhão principal da herança paternal, mas ao mais jovem”… “Essa tradição, mantida pelos descendentes de Gengis Khan nas primeiras gerações, pesou muito no rumo do Império.”
O Papa Inocêncio IV em 5 de Março de 1245 designou como embaixador ao Khan dos mongóis o franciscano Frei Lourenço de Portugal, que tinha sido ministro provincial da Província de Santiago de Compostela. Mas este não pode ir pois estava como Penitenciário Apostólico em S. João de Latrão, onde passou dois anos como Legado Apostólico no Oriente, durante o conflito que se instalou entre Roma e Bizâncio e só regressou à Santa Sé em 1248. Por isso, o mesmo Papa pediu ajuda aos franciscanos e em 1245 enviou o italiano Giovanni del Carpine, acompanhado pelo boémio Estêvão e o polaco Bento à corte mongol. Aí chegaram a 22 de Julho de 1246, não havendo ainda Khan.

Nestorianos na corte mongol

Com a Pax Mongolorum entre os meados dos séculos XII e XIV, a unidade territorial que os mongóis conseguiram manter desde o Pacífico à fronteira Leste da Europa abriu de novo os caminhos terrestres da seda à proliferação de ideias e conhecimentos provenientes da China. Muitos viajantes, mercadores e religiosos (peregrinos, missionários ou refugiados) chegavam à China.
Como pastores nómadas guerreiros, os mongóis eram tolerantes para quem aceitava a sua soberania, mas impiedosos e bárbaros para quem se lhes opunha. Como nada sabiam sobre administração, comércio, agricultura e cultura, necessitaram de quem lhes tratasse dessas questões e assim, “os nestorianos gozaram da confiança dos soberanos e chefes mongóis, fossem ou não cristãos. O principal lugar-tenente de Hugalu, na Síria, por exemplo, o general Kitbuka, era um cristão nestoriano, o que terá reforçado a crença, tanto do Ocidente como do Oriente, que a campanha mongol era uma espécie de guerra santa contra o Islão, em simetria com as expedições francas”, como escreve António Carmo. Os mongóis eram sobretudo Animistas e por isso, a sua relação às religiões era tolerante, o que permitiu às igrejas nestoriana e católica expandirem-se pela Ásia até meados do século XIV.
A 24 de Agosto de 1246 foi eleito o Khan Guyuk, cinco anos após a morte do anterior khan, seu pai Ogodai, terceiro filho de Genghis Khan com Borte. “Simon de Saint Quentin relata assim o início do Kuriltai que elegeu Guyuk Khan como sucessor de Ogodai: ” Miguel Urbano Rodrigues. E com ele seguindo, “Pian del Carpine conta o que viu: .” O franciscano Giovanni Da Pian del Carpine (c.1182/85-1252), autor do mais antigo relato europeu sobre a Ásia e um dos primeiros discípulos de Francisco de Assis, trazia uma carta para o “Rei e povo tártaro”, pois pensava-se que a campanha mongol era contra o Islão e por isso, vinha negociar com o novo Khan. Mas o emissário não conseguiu nada. Para além de não enviar presentes, também não prestou homenagem, não se tendo prostrado perante o khan, já que só se prostrava perante Deus. Assim falhou a conversão do Khan e um ano depois, os franciscanos reentravam na Europa.
Sete anos mais tarde, em 1252, foi o Rei de França Luís IX quem enviou o frade franciscano flamengo Guilherme de Ruysbroeck (Rubrouk), com mais quatro companheiros à corte dos Khan, devido a rumores que aí havia cristãos. Chegaram no final do ano seguinte e junto à corte ficaram durante dois anos, tendo apenas baptizado cinco pessoas e convertido um padre nestoriano. Em Karokorum encontraram uma grande tolerância, havendo nestorianos, budistas e islamitas e durante a sua permanência realizou-se um debate sobre as diferentes religiões, presidido pelo próprio Khan Mongke. Os resultados dessa missão foram iguais aos da primeira.
Para fazer comércio entraram ao reino dos mongóis os irmãos Polo, Maffeo e Nicoolò, o pai de Marco Polo e encontraram-se com os nestorianos, assim como foram recebidos pelo Imperador Shi Zu (Kubilai), o fundador da dinastia Yuan, na sua nova capital, Dadu (até então Khanbaliq, cidade dos khan), actualmente Beijing. Kubilai Khan em 1269 nomeou-os embaixadores e partiram para em nome do Imperador da China pedirem ao Papa o envio de cem sábios. Este mandou apenas dois dominicanos, que nunca lá chegaram.

Arcebispo de Pequim

Em 1286, o Khan da Pérsia, Argun enviou a Roma o nestoriano Bispo Rabban Sauma (Bar Sauma, 1225-1294, que mais tarde recebeu o título de Vigário-Geral da China, conferido pelo Patriarca nestoriano de Bagdad, segundo António Carmo) a dizer que o Imperador mongol Kublai Khan, estava disposto a receber os católicos. O primeiro Papa franciscano, Nicolau IV, como Giovanni Moncorvino se encontrava em Roma escolheu-o, “enviando-o como Legado e Núncio da Santa Sé e cheio de presentes e revestido de toda a autoridade para tratar com o grande Khan. Partiu para a sua viagem em 1291, munido de cartas para o Khan Argun, para o grande Imperador Kublai Khan, para Kaidu, príncipe dos Tártaros, para o Rei da Arménia e para o Patriarca dos Jacobitas. Os seus companheiros eram o dominicano Nicolau de Pistoia e o comerciante Pedro de Lucalongo”, segundo refere o P. Manuel Teixeira.
Giovanni da Montecorvino (1246/7-1328/30), o primeiro missionário católico na China, nasceu em Itália e tornou-se franciscano em 1272. Encarregue pela Santa Sé para missionar no Oriente, começou na Pérsia e daí, “por mar para a Índia onde pregou por treze meses e baptizou umas cem pessoas. Aqui lhe morreu também o seu companheiro Nicolau. Viajando de Meliapor por mar, alcançou a China em 1294, vindo a saber então que Kublai Khan tinha morrido e Timurleng (1294-1307) sucedera no trono. Este, (o Imperador Cheng Zong) não abraçou o Cristianismo, contudo não pôs obstáculos ao zelo missionário que ali se estabeleceu e pôde pregar livremente o Evangelho.
A despeito da oposição dos nestorianos, Montecorvino depressa ganhou a confiança do Imperador e em 1299, oito anos depois de ter partido da Europa e seis após ter entrado na China, pôde construir uma igreja em Dadu (Grande Capital, hoje Beijing), tendo já a esta data baptizado seis mil cristãos. Em 1305 levantou uma segunda igreja mesmo em frente do palácio do Imperador, juntamente com oficinas e habitações para duzentas pessoas. Aqui reuniu cerca de cento e cinquenta rapazes, de sete a onze anos de idade, ensinou-lhes latim e o grego e estabeleceu as horas canónicas cantadas, como nos seus conventos da Europa, com grande gosto do Imperador, que se deleitava a ouvir as vozes melodiosas das crianças. Eram também estas crianças que faziam o ofício de acólitos, ajudando à missa”, como refere o Padre Manuel Teixeira.
Giovanni da Montecorvino “familiarizou-se com a língua nativa, podendo assim pregar e traduzir para chinês o Novo Testamento e os Salmos. As maiores dificuldades e os maiores obstáculos que encontrou na árdua empresa da evangelização da China vieram-lhe da parte dos nestorianos que então abundavam na China. Devido às calúnias que lhe levantaram os sectários do Nestorianismo, ele teve de passar por muitas humilhações e ignomínias e de comparecer como criminoso ante os tribunais. Mas, por último, pela confissão dum mesmo nestoriano, o Imperador reconheceu a falsidade das acusações e desterrou os acusadores. Deu-lhe até assento e poisada na Corte Imperial como Legado do Sumo Pontífice, com maiores honras que os restantes prelados das demais religiões”, P. Manuel Teixeira. Nos onze primeiros anos em que trabalhou sozinho, converteu seis mil pessoas e só em 1304 apareceu, para o ajudar, o alemão Arnoldo de Colónia.
O Papa Clemento V, altamente satisfeito com os sucessos do missionário, em 1307 enviou-lhe sete bispos franciscanos, mas apenas três chegaram, tendo estes consagrado em 1308 Giovani Montecorvino como Arcebispo de Pequim e Patriarca de todo o Oriente, pela bula Summus Archiepiscopus.
Em 1312, o Primaz de Pequim e de todo o Extremo Oriente recebia mais três novos prelados franciscanos e instituía novas dioceses, para além das já existentes, como a de Quanzhou. Depois de trinta e oito anos de vida apostólica na China, Giovanni Montecorvino, com 81 anos, morreu na sua sede Arquiepiscopal de Pequim em 1328.
Dez anos após a sua morte, o último dos soberanos da dinastia mongol Yuan, Shun Di, enviou ao Papa uma embaixada, pedindo a sua bênção e solicitando o envio de mais missionários e um outro legado pontifício. Apelo correspondido. O Papa Bento XII nomeou João de Marignoli legado pontifício e com ele seguiram mais vinte e dois padres, que chegaram em 1342 a Dadu, após uma viagem de quatro anos. Marignolli apercebendo-se que os tempos eram de borrasca, já que os mongóis nunca conseguiram conquistar a estima das populações que ocupavam, regressou à Europa em 1345. Então, o Papa Inocêncio VI ordenou ao superior dos franciscanos o envio de missionários para a China, sendo três bispos para a Sé de Dadu nomeados, mas nenhum aí chegou.
O Khan da Pérsia, Timur (1336-1405) em 1362 começou a perseguir os cristãos, o que levou à dispersão destas comunidades para a Índia do Sul. Quando o católico quarto bispo de Quanzhou, Giacomo da Firenze foi martirizado em 1363, encerrou-se mais um ciclo da evangelização cristã na China. Com a queda da dinastia Yuan em 1368 e a chegada dos sedentários chineses Han, que formaram a dinastia Ming, os cristãos saíram do país e voltaram para as terras do Norte.
Durante oitenta e oito anos, os franciscanos converteram mais de trinta mil chineses, maioritariamente de etnia mongol e como os católicos foram seus protegidos, a dinastia Ming expulsou-os e destruiu todos os vestígios do Cristianismo nestas paragens. Só duzentos anos depois, em 1583, o jesuíta Matteu Ricci conseguiu reestruturar a missão Católica na China, esquecido que estava aquele período de terror e em que a população chinesa Han se encontrava no nível mais baixo do escalão social mongol.

26 Fev 2016

Os primeiros cristãos na China

Como lenda, o Apóstolo S. Tomé teria visitado a China no século I, onde dessa data há pedras gravadas com desenhos em baixos-relevos de histórias bíblicas. Já certo é os cristãos nestorianos, após fugirem da Pérsia, terem chegado à China no ano 635, sendo a sua estadia aprovada pelo Imperador Tai Zong da dinastia Tang, onde ficaram conhecidos com o nome de Jing Qiao, Religião Luminosa.
É importante dizer que China é um país de Filosofia e não de religiões. Viviam os chineses no Dao, quando há cinco mil anos Fu Xi, o primeiro dos chefes ancestrais da China, explicou matematicamente essa Filosofia do Dao Jia, mas foi com Lao Zi e Kong Fu Zi que, ao sistematizarem as suas cosmovisões sobre a Natureza de Dao, dão a teoria filosófica ao quotidiano viver chinês no século VI a.n.E.. Lao Zi, sobre o espírito da vida e Kong Zi, na governação do país, fizeram-se escolas de pensar no Período dos Reinos Combatentes, durante a dinastia Zhou do Leste. Por altura da existência de Lao Zi e Kong Zi (Confúcio) encontrava-se Sidarta Gautama (conhecido na China por Shakyamuni) a filosofar o Ser Humano e percebendo pela meditação que o sofrimento advém do mundo dos desejos, pelas quatro nobres verdades tentou reorientar o Ser Humano para o estar integrado num todo e só pelo Outro se conseguiria ver, realizando-se assim pela não-forma. O Confucionismo filosofando pela ética e moral do Ser Humano, quando pensado em De (Virtude), tentou criar a ordem na sociedade, tal como mais tarde as religiões tiveram necessidade de o fazer.
Com o aparecimento neste país do Budismo no século I, a população chinesa aderiu massivamente a esta religião, já que, pela falta da imagem do Espírito na Filosofia de Dao, o povo nada tinha de concreto para acreditar. Por isso os filósofos chineses, ao perceberem que estavam a perder o suporte dos seus conterrâneos, tiveram que transfigurar a filosofia e reorientá-la em religião. Assim nasceu a única religião proveniente da China, o Dauismo (Dao Jiao), onde se conjugaram imagens budistas para criar um panteão de deuses, expressão das virtudes e seu contrário, de forças mágicas com que os Cinco Elementos lavram o Ser e sem distinção com o mundo, está nesse todo acausal.
Se o Budismo rapidamente se expandira no Oriente, para Ocidente não foi capaz pois, como movimento de solidariedade entre a população pobre, teve a enfrentá-lo o Judaísmo, uma Religião reformada (nessa altura) para a competição e guerra. Por isso, a Filosofia a que Jesus estava ligado, foi com Paulo transformada e no Concílio de Niceia, em 325, a mensagem do Cristianismo criada por S. Paulo ganhou ao Jesus histórico dos Alexandrinos.

Toppen p nestorianska stelen
Toppen p nestorianska stelen

O inquisidor judeu Paulo de Tarso reorientou a figura histórica de Jesus, sem nunca com ele ter privado. Paulo ao encontrar um imenso movimento ecuménico, que começava a pôr em causa as instituições tanto políticas, representadas no Império Romano, como religiosas, onde os sacerdotes com uma hierarquia hereditária se tinham afastado da procura do Verbo para apenas se representarem a si mesmos e vendo o seu poder a desaparecer, tiveram a ideia de, já que nada podiam contra esse movimento ecuménico, reorientá-lo para a religião do Livro e assim conseguir mais crentes, mas sem misturas. Paulo, que nunca conheceu Jesus, ficou encarregue dessa transfiguração. Assim, subvertendo os valores, criou o Cristianismo como meio de pela reencarnação poder criar uma segunda Religião, onde eram colocados os convertidos, já que os não nascidos judeus não poderiam entrar no Judaísmo. Como era preciso unir os infinitos deuses pagãos num Superior, nada melhor do que escrever a Bíblia, partindo da essência do Livro, aditando novos Testamentos para que houvesse referências próximas, na memória – História. (Esta versão do movimento da História das Religiões monoteístas, por não estar de acordo com o que é normalmente transmitido, poderá causar estranheza e mesmo uma certa reacção negativa a quem, como Cristão, nela não se revê, mas creia que a escrevo sem a mínima ponta de provocação, mas sim, como uma possível visão feita pelas leituras e conversas com outras doutrinas cristãs.)

Igreja de S. Tomé

Os Caminhos da Seda, que pela Ásia tinham levado a um contacto, a maior parte indirecto, entre as três Civilizações (Egípcia, Indiana e Chinesa), eram percorridos pelos povos que viviam entre a China e as fronteiras com o Império Romano. Nesses caminhos terrestres e pelas rotas marítimas, muitos viajantes se foram aventurando e enriquecendo através do comércio, assim como, muitos monges budistas aproveitaram e partindo da Índia foram espalhar para Oriente a Filosofia de Buda. Já o Cristianismo saiu do Médio Oriente e avançou sobre o Ocidente, sendo S. Tomé dos poucos missionários que partiu para o Oriente em missão ecuménica para evangelizar.
Nos anos 50 do primeiro século, coube ao Apóstolo S. Tomé pregar o Evangelho no Oriente e saindo de Jerusalém, navegou depois pelo Mar Vermelho em direcção à Índia. No Oceano Índico, veio ter à Ilha de Socotorá, onde uma tormenta o fez encalhar. Sem barco para prosseguir viagem, aqui ficou a converter e baptizar os moradores da ilha, situada à entrada do Mar Vermelho. Após ordenar ministros do culto para que estes cultivassem e sustentassem esta cristandade, embarcou para o estreito da Pérsia onde cristianizou os Partos, Persas e Medos. Descendo depois pelo Mar Arábico rumou para Kerala, naquele tempo Malabar, no Sudoeste da Índia. Luce Boulnois refere: “Segundo uma lenda registada em Edessa, contada por um embaixador indiano que por aí passou a caminho de Roma, S. Tomé, um irmão gémeo de Cristo, também ele carpinteiro, tinha sido comprado por Abbanes, um mercador indiano, por três libras em lingotes de prata. Levado para a Índia ficou ao serviço do rei indiano Gondopharès, a quem S. Tomé de forma miraculosa construiu um palácio, convertendo assim o rei. Pregava o celibato cristão e um príncipe ao sentir que S. Tomé desviava os seus súbditos dos deveres de procriação, mandou-o matar.” “Outra lenda, indiana de Kerala, de Travencore e de Cochin, onde uma comunidade cristã remonta à chegada deste apóstolo fala do desembarque que S. Tomé fez em Malankara, próximo de Cranganore. Aí pregou e baptizou os habitantes locais, onde se construiu sete igrejas e ordenou dois sacerdotes antes de ter partido para Meliapor (Mailapore, actualmente arredores de Madras, hoje chamada Chennai). Em Meliapor, na costa de Coromandel, converteu o rei e o povo e partiu para a China. Depois voltou a Meliapor onde a inveja de brâmanes o teriam apedrejado e trespassado com uma lança.” Morreu no ano de 72, segundo a lenda, em Meliapor, onde foi sepultado.
Se o apóstolo Tomé parece ter sido o primeiro a pregar na Índia, outra das hipóteses é a de o Cristianismo se ter espalhado só posteriormente pela Ásia no Oriente a partir da Pérsia e que o nome de cristãos de S. Tomé provenha do Mâr Tomé, que viveu no século VIII e não do Apóstolo.
O que parecia ter poucas hipóteses de ser uma realidade, a lenda sobre a chegada à China de S. Tomé ganhou uma nova actualidade quando Wang Weifan, mestre estudioso da História do Primitivo Cristianismo assim como de Arte e Cultura Chinesa, ao analisar as pedras em baixo-relevo de dois túmulos da dinastia Han do Leste (25-220) encontradas em Xuzhou, na província de Jiangsu, nelas descobriu representados episódios Bíblicos. Se os estudos provarem que Wang Weifan tem razão, então a chegada do Cristianismo à China recua para o final do século I, quinhentos anos antes do que até hoje se pensava.

Os nestorianos na China

Existiam comunidades cristãs espalhadas pelo Sul da Índia e evangelizadas por S. Tomé quando os nestorianos se espalharam pelas costas do Decão, Índia e pela Ásia Central até à Mongólia. Havia outros reinos cristãos (os monofisistas) situados na Geórgia e Arménia, que se tinham separado da Igreja de Roma no Concílio de Calcedónia em 451.
A primeira referência a nestorianos na China é do ano 552 quando, durante o reinado bizantino do Imperador Justiniano (527-565), dois monges nestorianos persas, que viveram longo tempo na China, daí conseguiram sair com os segredos da produção de seda.
Certo foi os nestorianos terem ficado a viver na China desde a aprovação do Imperador Tai Zong (626-649) no ano de 635, como consta numa estela encontrada perto de Chang’an (Xian) e que actualmente está no Museu da Floresta de Estelas. Foram os padres jesuítas portugueses Álvaro Semedo (1586-1657) e Manuel Dias Júnior (1574-1659) quem traduziram a estela, que se revelou nestoriana e que os precedia mil anos.
Na Memória da Diocese de Macau vem o seguinte: “O célebre monumento syro-sinico de Si-ngan- fú (西安府, Xian fu) descoberto em 1625, e interpretado em linguagem chinesa vulgar pelo missionário jesuíta português P. Manuel Dias, dá claro testemunho da existência do Cristianismo na China, apresentando uma narração sumária da propagação do Evangelho neste país desde o ano de 635 até 781 da nossa era. Efectivamente, em 1625, provavelmente em princípios de Março, foi desenterrada uma grande lápide de pedra, no arrabalde ocidental de Xian, no Shaanxi” que havia sido erigida pelo nestoriano Zazdbozed, do clero secular, natural da cidade de Balk no Turquestão, na reunião anual do Inverno de 780-781, como se vê do final da inscrição nela gravada: “Erigida no segundo ano do período Kien-Chung (781) da grande dinastia Tang, estando o ano em Tso-yo, no sétimo dia do primeiro mês, que foi Domingo”. No topo da lápide está uma cruz, sob a qual foram gravados nove caracteres em três colunas que dizem: “Monumento comemorativo da nobre lei de Ta-Tsin no Império do Meio”. Segundo o texto, Alopen chegou a Si-ngan-fu (Xian) em 635, vindo do país de Ta-Chin (大秦, Daqin era o nome que os chineses davam ao Império Romano) provavelmente a Pérsia; o Imperador Tai-Tsong (太宗, Tai Zong) enviou o seu ministro Fang Huang ling a recebê-lo e conduzi-lo ao palácio e, depois de se convencer da verdade da sua religião, favoreceu a sua propagação e por ordem do mesmo Imperador, foi construído, em 638, um mosteiro nestoriano; outros se construíram no reinado do seu sucessor Kao Tsong (高宗, Gao Zong) (650-683) e Alopen foi promovido a Grande Senhor Espiritual, Protector do Império. A placa de Si-ngan-fu tem gravada uma inscrição com 1780 caracteres”, segundo o Padre Manuel Teixeira.
A História dos Nestorianos teve a sua origem em Antioquia, cidade na actual Turquia. Na Escola de Antioquia formou-se Nestorius, que foi Patriarca de Constantinopla de 428 a 431. Esta Escola advogava a separação das duas Naturezas de Cristo, a humana e a divina, e por consequência consideravam que Maria, a Nossa Senhora, não era Mãe de Deus, mas do Homem, Jesus. Tal ia contra o que os Alexandrinos defendiam. A Igreja de Alexandria era de tradição neo-platónica e fazia a interpretação simbólica da Bíblia, contemplando mais o Verbo Divino do que a humanidade de Cristo. O pensamento grego fundiu-se com a herança da revelação cristã e Cirilo venceu os nestorianos, em 431 no terceiro Concílio em Éfeso, com a tese (monofisista) de que em Cristo há uma só pessoa numa dupla Natureza (humana e divina). Era a Natureza de Cristo que se debatia no Concílio de Éfeso, ao qual Nestório não compareceu, tendo prevalecido a doutrina da Natureza divina de Cristo, defendida pelo Patriarca de Alexandria, S. Cirilo.
Condenado pelo Concílio de Éfeso, o Patriarca de Constantinopla, Nestório foi excomungado em 431 e deposto pelo Imperador exilou-se no Egipto. A sua doutrina expandiu-se para Oriente, de Edessa, os nestorianos daí expulsos fugiram para a Pérsia. Ctesifonte (uma das quatro capitais persas) tornou-se o seu principal centro, que aceitou estes cristãos fugidos do Império Romano. Após Roma ter abraçado a Religião Cristã, na Pérsia os cristãos passaram a ser considerados inimigos e começaram a ser perseguidos. Muitos foram mortos, o que os levou a empreender nova viagem para mais longe, passando a Igreja do Oriente para a Índia e pelos países da Ásia Central, chegaram ao Extremo Oriente.
Vivia o Nestorianismo (Jing Qiao) na China há mais de dois séculos quando, a 30 de Setembro de 845, por decreto do Imperador Wu Zong da dinastia Tang foram proscritas no país as religiões estrangeiras. Tal se deveu sobretudo aos templos budistas serem detentores de imensas fortunas, quando os cofres do Estado estavam na penúria. Já os cristãos nestorianos, referenciados na estela do século VIII enterrada pouco depois do Decreto de proibição das religiões, viram-se forçados a fugir para as estepes do Norte, juntando-se a algumas tribos mongóis que, por volta do ano mil foram por eles convertidas. As tribos mongóis foram unificadas por Gengis Khan e mais tarde tomaram o poder na China, como dinastia Yuan. Os irmãos Polo encontraram-se com nestorianos quando chegaram em comércio ao reino dos mongóis. Uma pedra com o nome de quatro monges nestorianos, encontrada no templo budista Yunju, no distrito de Fangshan, subúrbios de Beijing comprova a sua estadia aí, assim como um documento árabe que fala de dois monges vindos de Beijing que chegaram à Pérsia em 1275.
As comunidades de nestorianos desapareciam rapidamente das costas indianas, substituídas pelas dos muçulmanos. Nos finais do século XIII, quando a paz foi restabelecida com Roma, já os nestorianos estavam a sucumbir, atacados pelo Islamismo, assim como as igrejas nestorianas na Síria e Pérsia. No entanto continuaram a existir comunidades na Índia e China até ao século XVI.

19 Fev 2016

Previsões para os signos do ano do macaco

O simbolismo e as características psicológicas específicas de cada um destes animais representam o carácter e o comportamento correspondente às pessoas nascidas neste ano do Macaco. Este trabalho foi baseado nas previsões de Li Ju Ming (Lei Koi Man em cantonense) e do que delas entendi

Macaco

O Tai Sui (Deus de cada um dos 60 anos do ciclo) que rege o ano lunar de 2016 é o Capitão Guan Zhong, que traz muitas e grandes ondas, significando mudança e por isso, é ano para mudar de emprego, terminar com o antigo trabalho e começar um novo, emigrar ou trocar de casa. Todas estas mudanças são boas para serem realizadas neste ano do seu signo.
Carreira: Este ano não tem direcção e sem estrela da sorte para o ajudar, só poderá contar consigo mesmo, pois não terá apoio de ninguém. Com a sua normal grande inteligência e confiança, que ao seu modo tudo faz, vai-se sentir rodeado de inimigos, mas se mantiver a calma conseguirá resultados bem melhores do que poderia esperar.
Amor: Nada espere e não fique desapontado. Se não é casado/a, mas tem namorado/a, pode ocorrer uma grande discussão e haver a separação. Se é casado/a evite discussões, mesmo pequenas que sejam, pois irão culminar em divórcio.
Saúde: Este ano, o seu maior inimigo é você mesmo. Deve manter-se relaxado. Muito cuidado com os acidentes, mesmo quando caminha tenha atenção para não cair.
Dinheiro: É um ano para não pensar em realizar dinheiro, mas sim em viagens. Estude para adquirir novos conhecimentos. Num degrau inferior poderá conquistar o mundo, mas se colocar a fasquia elevada pode perder tudo.

Galo

Como no ano passado o único conselho para os nativos de Galo era trabalhar muito, este ano vem já cansado e não terá nenhuma estrela da sorte a ajudar.
Carreira: Os nativos de Galo vão estar este ano em confronto com mudanças, e este é o seu ponto fraco. Perderá o lugar de controlo. Encontra-se numa encruzilhada e não sabe se deve seguir em frente, ou recuar. Por isso, o nativo deste signo deverá criar uma nova ideia, ou produto, que lhe dê a solução para se desembaraçar dessa encruzilhada.
Amor:
Cuidado com as relações, pois é um ano de flor de pessegueiro não importa onde esteja, terá sempre à perna os/as amantes e por isso, para as pessoas casadas, quantas mais relações, mais trabalhos. A franqueza é o modo para manter o seu casamento e para as pessoas solteiras, mesmo tendo um grande número de amantes, nenhum é a pessoa correcta para si. Logo não é ano para se casar.
Saúde: Problemas depressivos espreitam, sobretudo para os nativos nascidos no Outono e no Inverno. Poderão aparecer problemas relacionados com sangue e ataque de coração. Em Maio e Agosto, cuidado para não fracturar nenhum osso.
Dinheiro: Ano para pesquisar e para manter o que tem. Procure uma nova ideia, pois só dela poderá fazer dinheiro. Divirta-se com a paixão, mas não se atire de cabeça.

Cão

Este ano os nativos deste signo perdem o grande suporte e terão que fazer tudo por si próprios. Terá que se defender no seu território e não poderá sair para fora desse seu espaço para atacar. Contará a estrela da sorte YiMa que representa mudança, emigrar, ou ir estudar para fora, trocar de casa ou viajar.
Carreira:
Como não terá suporte de ninguém, terá que se desenvencilhar sozinho, sentir-se-á cansado tanto fisicamente como na mente. Será inteligência ir estudar línguas e arte, improvisando o seu talento. Deverá aceitar tudo o que vem, sem reagir, interiorizando e acalmando os seus primeiros instintos. Absorvendo, conseguirá perceber as razões de eles existirem. Por causa da estrela TianGou, é fácil criar conflitos e não terá boas relações com as pessoas e no mais grave, poderá mesmo chegar a tribunal, ou ser roubado todo o recheio da sua casa. Ambos, Saúde e Riqueza, serão influenciados por esta estrela.
Amor:
Como estará sobre a influência da estrela Yi Ma, mudança, ao viajar, emigrar e estando no estrangeiro, encontrará aí um/a namorado/a, mas sem a estrela da flor do pessegueiro, este amor é de curta duração. Deverá controlar-se pois quanto mais forte for a paixão, mais profundo será o ódio quando terminar a relação e perder-se-á. Para os casados, é um ano propenso a se divorciar e de sofrimento. Não importa que tipo de amizade tem, familiar, entre amigos, ou amantes, a relação emotiva sofrerá.
Saúde:
Não apenas terá que tomar cuidado com a sua saúde física, mas também com o seu ânimo, já que se sentirá deprimido. Especialmente os nativos de Cão nascidos no Verão terão que ter muito cuidado com AVC’s. Abril será um mês perigoso para todos os nativos de Cão em questão de saúde.
Dinheiro:
Não é ano para ganhar dinheiro na sua forma normal, mas pode poupar pelo caminho do silêncio e revolucionar-se a si mesmo.

Porco

No ano passado ganhou a Força e este ano continuará a conquistá-la. No entanto, pequenas pontos negros ainda lhe vão ser apontadas pelo exterior, já que este ano, os nativos de porco são prejudicados pelo Hoi Tai Sui. Tal se deve ao porco não ser um animal que combine com o macaco e por isso, vai ter muita gente contra si. Amigos que o vão tentar prejudicar, fazendo-lhe mal e terá outro poder exterior como inimigo a combatê-lo. Mas estando sobre protecção de três estrelas da sorte, vai ter um ano muito bom, sendo o signo do Porco um dos quatro mais bafejados do ano.
Carreira:
Com três estrelas da sorte, duas delas, Tian De (天德) e Fu Xin福星, estrelas protectoras que lhe limparão o caminho e a estrela criativa Tian Yi Gui Ren, (天乙贵人), coloca-o com muita e boa energia, o que levará a ter confiança para encarar todos os seus interesses, desejos e vontades emocionais e de carreira. Tudo terá bom desenvolvimento, logo auspicioso ano para usar da sua imaginação e criatividade. Siga caminhando pois tal trará frutos. Mas lembre-se estar sobre influência também de três más estrelas, por isso deve ter muito cuidado com as relações de amizade e não se coloque por si mesmo em maus lençóis.
Amor:
Com a estrela da sorte Tian De, o nativo poderá casar e ter filhos, apesar do ano não ter Festa da Primavera e por tal levaria a não ter descendência. Para os casados, tenha cuidado com a outra parte de si, quando mais próximos menos vemos. Ponha mais coração na sua relação e assim conseguirá um ano harmonioso. Ano para cuidar da família.
Saúde:
Será um ano perigoso, pois haverá propensão a acidentes e cirurgias. Os nativos de Porco nascidos nos anos de 1935, 1971, 1995, têm propensão a que facas o cortem. Por isso, evite todas as operações perigosas e actividades radicais. Maio e Setembro são os meses perigosos, cuidado com as mãos, pés e acidentes de trânsito.
Dinheiro:
Um bom ano monetário devido a ser fácil consegui-lo e pode ser promovido devido à ajuda das estrelas da sorte. Ano para planear os próximos na questão monetária. Lembre-se que facilmente arranja discussões e por isso, deverá acalmar-se e conseguir manter a sua estabilidade emocional controlada. Discutir, rouba-lhe a sua energia da sorte. Evite euforias, que levarão ao seu extremo. Ser moderado é o mais inteligente, siga o caminho do meio e não leve a sua acção até ao extremo.

Rato

Os nativos do signo Rato combinam bem com os de Macaco, por isso a sua relação com as pessoas será melhor do que no ano transacto. Só terá uma estrela da sorte para o ajudar e tê-la, pouco poderá ajudar. Mesmo que tenha muitos planos, não terá ajuda dos outros e é como, um rato tentar mover uma tartaruga.
Carreira:
Como é um ano sem fortuna, a sua carreira não melhorará e sendo assim, trate de promover as suas relações sociais. Pelas boas relações com os nativos de Búfalo, Dragão e Macaco, deverá com eles conviver mais e deles encontrar boas ideias para investir no futuro. Mas este ano, terá uma das mais fortes más estrelas, a Tigre Branco, por isso facilmente sofre acidentes e problemas emocionais. Para os homens nativos de Rato, cuidado pois as mulheres poderão colocá-lo em graves situações, logo problemas.
Amor:
Ano de paixões para os nativos de Rato, mas só lhe trará problemas e mesmo para os solteiros, os/as amantes criam-lhe muitas ondas, discussões e problemas. Pode gostar, mas não colha, especialmente para os homens, não esqueça que este ano está sobre a influência do Tigre Branco.
Saúde:
Propiciado pela estrela da pouca sorte, facilmente se encontra envolvido numa grande discussão e mesmo numa luta física de confrontação. Se está grávida, cuidado com o bebé que transporta. Agosto é um mês perigoso. Nascidos no Outono e Inverno evitem todas as actividades aquáticas. Novembro, melhor fazer análises e um body check.
Dinheiro:
Este ano não há maneira de conseguir mais, por isso tente conseguir conservar o que tem. Melhor aproveitar as suas relações sociais para preparar o próximo ano. Paz é o ouro para os nativos.

Búfalo

No ano anterior tudo foi mau, mas para este ano a palavra é Ganhar. Com três súper estrelas da sorte a proteger, para este ano o melhor signo é Búfalo. A estrela da sorte Zi Wei Long De, que representa conquistar poder e ser promovido, é muito bom para a carreira. Outra súper estrela da sorte Tian Xi é propícia para o casamento e na boa relação com todas as pessoas.
Carreira:
Como ano de sorte, os nativos deverão mudar de comportamento e abrir o coração, colocando toda a energia para aceitar a boa mudança e com trabalho árduo consegue atingir um posto importante. A riqueza segue-o, por isso só necessita é colocar gasolina e siga em frente. Mas como tem também duas estrelas de pouca sorte, alguns desastres poderão ocorrer, sem haver forma de os evitar. Lembre-se quanto mais elevada for a sua posição, mais tensão encontrará; mas com a sua normal paciência consegue atingir a única palavra para este ano, Ganhar.
Amor:
Um grande ano de flores de pessegueiro, que serão de boa energia. Ano para se casar. Se estiver casado/a, faça uma segunda lua-de-mel. Para os não casados, este é o momento para encontrar a sua cara-metade pois, se não o fizer, só daqui a doze anos terá uma tão boa oportunidade, sendo os melhores meses para o fazer, Fevereiro, Junho, Agosto.
Saúde:
Cuidado com os acidentes de trânsito. Nascidos em 1985, 1973 e 1961 cuidado com problemas de sangue (cortar ou operações). Não pratique actividades perigosas. Como vai ter que trabalhar muito, intercambie com momentos de relaxamento.
Dinheiro:
Ano de mudança total. Se o fizer, o dinheiro segue-o. Terá várias maneiras de as realizar e em todas elas, com bons resultados. Por isso, este ano não é para ficar sentado à espera da boa sorte, mas coloque-se em movimento e entregue-se cem por cento em tudo o que faz.

Tigre

Macaco e Tigre são o oposto, logo não conciliáveis, por isso, o inevitável confronto, sendo para os nativos de Tigre este ano o de colidir Chong Tai Sui. Toda a sua vida se vai transformar, devendo os nativos a cada passo ter muito cuidado, mas como este ano tem várias estrelas da sorte a ajudar, significa que, após as vagas, tudo ficará melhor, mais tranquilo.
Carreira:
Com três estrelas da sorte a ajudar a carreira, poderá resolver um por um os problemas sem receio, pois continuará a controlar todas as coisas pelo seu poder. Ajudado pelas boas estrelas, consegue convencer os outros pelo falar e solucionar os problemas. Um bom ano para a sua carreira.
Amor:
Com toda a atenção virada para a carreira, não tem tempo para se dedicar às paixões que rapidamente aparecerem, mas também com a mesma velocidade desaparecem. Não vai encontrar este ano a pessoa indicada para casar.
Saúde:
Como é o ano Chong Tai Sui é fácil ter um acidente de trânsito e ser levado a Tribunal, sendo entre as três e cinco da tarde de cada dia o período mais perigoso. Assim no início do ano deve ir ao templo pedir protecção aos deuses, acção conhecida por Fa Tai Sui (Fa = solucionar o problema)
Dinheiro:
Estando a carreira em boa onda, o dinheiro vem, mas este ano terá a má estrela Tai Hou, que significa perder dinheiro, por isso se pensa fazer algum investimento esteja muito atento. É um ano que precisará de trabalhar muito para ganhar algum dinheiro mas, mesmo sem ganhar dinheiro, ganhará conhecimento e experiência.

Coelho

É nativo de um dos quatro melhores signos do ano. Tudo vai ser fácil e continuará com a sorte do ano anterior. Tem três boas estrelas a ajudar e proteger.
Carreira:
Não precisa de se preocupar com nada, é seguir o caminhar e viver a vida, que tudo está nos carris.
Amor:
Espera-se uma boa relação. Para os não casados poderá encontrar a pessoa indicada, qual peixe entrando dentro da água, sendo o mês de Dezembro o melhor período. As suas amizades poderão ajudá-lo a desenvolver outros projectos de carreira.
Saúde:
Tenha cuidado pois os antigos problemas de saúde querem regressar. Os nascidos no Outono e Inverno devem cuidar dos pés e mãos, rins e intestinos. Os nascidos em 1951 e 1975, haverá probabilidade de ter problemas de faca, cortes, de um dedo ou operações cirúrgicas. Maio é o pior mês para os nativos de Coelho.
Dinheiro:
Terá uma boa receita este ano, mas vai ter muitos encargos, por isso difícil em amealhar dinheiro. Assim, tal como rapidamente recebe, também o gasta e a saúde é um dos problemas que poderão surgir e levar a essas despesas. É melhor no início do ano fazer análises e um Body Check.

Dragão

É ano do Dragão Voador, por este signo combinar bem com o do Macaco. A palavra do ano é Cooperar. Terá a estrela da sorte San Tai e por isso o suporte para atingir elevadas notas nos exames, ou tornar-se famoso e com poder, atingindo um outro novo nível mais elevado e criar o seu próprio espaço.
Carreira:
Vai ter muitas hipóteses, mas sentir-se-á sem grande confiança. Por isso, só poderá aventurar-se a voar mais longe e mais alto, após planear muito bem para manter sobre controlo todas as coisas. Com esse trabalho de casa feito, nesse espaço finito pode criar o infinito. As mudanças como vagas, uma a seguir à outra, trazem inveja e sentirá setas espetadas nas costas. Para confrontar-se com tudo isto, os nativos de Dragão terão de usar talento.
Amor:
Não encontrará a sua cara-metade este ano, por isso não coloque grandes anseios nesse desígnio. Para os casados, há muitas hipóteses de aparecerem amantes, mas o melhor é evitar ter.
Saúde:
Como trabalhará muito e estará sobre grande pressão, deve balançar o tempo entre trabalho e recreio. Nascidos no Outono e Inverno deverão ter cuidado com os acidentes de trânsito.
Dinheiro:
Como este ano é para atingir uma nova plataforma na sua vida, e o que preparar agora, não importa o que está a ganhar, prosseguirá com frutos.

Serpente

Poderá encontrar um bom companheiro para negócios e no amor, mas a seguir vai entrar em conflito. Se ganha algo, perde também algo, por isso é um ano mediano. Importante para os nativos são as três estrelas da sorte: Tian Chu (a cozinha do Céu), que permite saborear boa comida e as outras duas são Lu Shen e Tian Guan.
Carreira:
Sem estrela de suporte, mas sendo os nativos de serpente inteligentes, não importa a situação, pois conseguem olhar de frente e resolver os problemas. Apenas ter cuidado para não discutir com os outros, pois pode perder os seus projectos e também trazer problemas, que serão apenas resolvidos no Tribunal. Entre as ondas vislumbrará novas esperanças.
Amor:
É um ano cujos nativos de Serpente ficarão mais encantadores aos olhos dos que neles reparam. É altura dos solteiros encontrarem a pessoa certa e para os casados, fazer uma segunda lua-de-mel, ou ter um filho.
Saúde:
Encontra-se sobre a influência de três estrelas de má sorte, por isso muito cuidado para não ter acidentes. Nativos nascidos no Outono e Inverno tenham atenção aos problemas de sangue, útero e bexiga. Para os nascidos em 1941, 1965, 1989 deverão ir ao templo pedir protecção aos deuses pois é um ano perigoso.
Dinheiro:
O ordenado é normal e está estável. Faça o que quiser.

Cavalo

O desenvolvimento que os nativos tiveram no ano transacto abranda este ano e falar muito traz problemas. Ano também de mudança pois, pela influência da Estrela YiMa, há hipótese de ter que sair, talvez emigrar, ou ir estudar para fora, ou mudar de casa. Assim pela mudança de vida, ou no trabalho, os nativos podem sentir-se cansados e não recompensados pelo trabalho que fazem.
Carreira:
Não coloque desejos como vontades; mantenha o que tem, que já não é mau. O melhor é entender o que lhe interessa e o que gostaria de aprender e meter-se ao estudo para se recompensar da falta de perspectivas no trabalho. Ou escolha fazer mais viagens e evite fortemente discussões. Se tiver uma decisão errada este ano, irá arrepender-se para o resto da sua vida.
Amor:
Tem a estrela GuChen que representa estar sozinho/a. Os solteiros vão sentir-se contentes quando sozinhos, mas para os casados esse ficar só pode criar no seu companheiro a designada guerra fria e de costas voltadas, as situações extremarem-se e haver a separação. Por isso, deverá ter muita paciência e agudeza de espírito para acalmar a situação.
Saúde:
Este ano, quando sair ou guiar carro, muito cuidado com os acidentes, ande sempre prevenido e coloque atenção ao que faz e aos outros. Os nativos de 1930, 1966 e 2002, são este ano os que mais propensos estão aos perigos. Os nascidos em 1966, pois irão atingir os 50 anos, não devem cair em depressão e para isso, deitem fora as más energias e realize uma grande festa de aniversário.
Dinheiro:
Faça o que tiver que fazer, não questione quanto vai receber. O dinheiro não lhe vai trazer alegria e saúde, sendo as boas relações familiares os seus melhores tesouros.

Cabra

Os nativos deste signo, como no ano passado trabalharam muito nos seus projectos, tal esforço este ano singra e desenvolve-se em boa direcção, tanto na Carreira, como no Amor e Riquezas. Um dos quatro bafejados signos deste ano. Uma boa estrela protege-o.
Carreira: O Sol (Tai Yang), como a grande estrela, ajudá-lo-á em todas as formas e relações com as pessoas, como se alguém maior estivesse a puxar para cima. Ano que poderá realizar os seus sonhos e criar uma carreira; é um verdadeiro vencedor.
Amor:
Bom ano para se casar. Os nativos singulares, em Fevereiro, Agosto e Dezembro, têm meses propícios para realizar os seus desejos em encontrar o parceiro, por isso, não perca essa grande oportunidade. Se já tem namorada/o, é um bom ano para casar. Se é casado não tente ir buscar paixões fora do casamento, o que lhe reduziria a boa sorte.
Saúde:
Não se coloque sob pressão no trabalho. Os nascidos em 1931, 1955, 1991, devem ter cuidado com os acidentes, por isso evite actividades perigosas.
Dinheiro:
Este ano ficará na sua memória para toda a vida como o mais importante na página do dinheiro. Já mencionado no início, é um dos quatro signos favorecidos do ano. É um Vencedor.

Um bom ano de 2016. Boa saúde.

Neste texto, as palavras quando são empregues para ambos os géneros vão pelo masculino, já que este representa esse todo que, para além de ignição é a inicial Luz Solar. É o Espaço versus formas, qual Homem a representar todos os Seres Humanos e não serem apenas homem e por isso a mulher também terá de ser mencionada. É como o dia, ele há o de 24 horas e o dia versus noite, que também está integrada no dia.

12 Fev 2016

Macaco subindo a montanha

Ontem, 4 de Fevereiro celebrou-se o Princípio da Primavera (Lichun) e pelo Calendário Chinês começou o ano de 4653, numa contagem do tempo cujo início é 2637 a.n.E., mas apenas criada em 2317 a.n.E., durante o reinado do Imperador Yao, quando o ano tinha 365,25 dias. Em 1100 a.n.E., mediante observações do Sol estabeleceu-se com exactidão a posição do Solstício de Inverno. Desta maneira, a invenção de um sistema de termos solares foi sendo elaborado através dos tempos, a partir de observações dos astrónomos. Os termos estão directamente ligados à eclíptica do Sol e são indicadores das estações do ano e entre estes 24 termos estão os dois solstícios, os primeiros a ser estabelecidos e depois, os dois equinócios. Estes termos solares foram gradualmente reconhecidos por volta do século III a.n.E., quando Lu Shi Chun Qiu os compilou. Mas foi no livro Huai Nan Zi, de 120 a.n.E., que todos os vinte e quatro termos ficaram mencionados e assim estabelecido o Calendário Solar do Agricultor. Nele as datas são fixas, sendo o início da Primavera a primeira grande festa que marca o ciclo de um novo ano agrícola e calha no dia 4 de Fevereiro, por vezes no dia 5, se houver ajustamentos no calendário.
A China oficialmente faz uso do calendário gregoriano desde 1911, apesar de ter o seu Calendário Solar Agrícola definido desde o século II. Mas é pela combinação do Calendário Solar com o Lunar que ao fim de 60 anos o ciclo se fecha. Segundo o que refere o Anuário da Administração de Macau do ano de 1927, no Calendário Lunar “o dia principia à meia-noite, a semana tem sete dias e os meses são de 29 ou 30 dias. Fazem os meses de 29 dias as luas pequenas e os de 30, as luas grandes. O ano consta ordinariamente de doze luas, seis pequenas e seis grandes, perfazendo todas 354 dias. A primeira Lua do ano é aquela durante a qual o Sol atinge o signo Pisces ou dos peixes; o Equinócio de Primavera cai durante a segunda Lua; o Solstício de Verão durante a quinta; o Equinócio de Outono durante a oitava e o Solstício de Inverno durante a undécima.”
É pela interacção entre os dois calendários, o lunar e o solar, que o calendário chinês foi criado e este move-se em ciclos, com duração de sessenta anos, tendo-se iniciado o actual ciclo em 1984 e finaliza em 2043. O nome do ano é proveniente da combinação dos dez Troncos Celestes (em mandarim Tian Gan, ou Tin Kon em cantonense) com os doze Ramos Terrestres (Di Zhi em mandarim, Tei Chi em cantonense). Assim a combinação entre os ciclos, um de dez anos (Tian Gan) e outro de doze anos (Di Zhi), leva sessenta anos para se completar, ao fim do qual se volta a repetir pela mesma ordem. Os dez Troncos Celestes (Cinco Elementos – Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água, duplicados) combinam-se com os doze Ramos Terrestres (tantos quantos os animais que responderam ao chamamento de Buda: Rato, Búfalo, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco) e é assim que os anos luni-solares chineses se formam.
Cada um dos doze animais do zodíaco é regido por um dos cinco elementos e por uma qualidade, yin ou yang e é dessa combinação que se transforma num tipo especial de animal, havendo para cada um, cinco diferentes subtipos, conforme o elemento a que está associado.
Este ano tem o Tronco Celeste, Bing (Ping), Fogo, combinado com o Ramo Terrestre Shen, que representa Macaco subindo a Montanha. Logo é o ano do Macaco e do Elemento Fogo e no ciclo de 60 anos corresponde ao 33.º ano do 78.º ciclo chinês indicado pela expressão Bing Shen (丙申, em cantonense Ping Shan), que combinados criam Água Dourada.

As ondas do Macaco

A 8 de Fevereiro de 2016 realizam-se as Festividades ao Novo Ano (Chunjié em mandarim, Tchôn Tchit em cantonense), quando se dá as boas vindas ao Ano do Macaco.
Como o Princípio da Primavera (Lichun) aconteceu quatro dias antes do início do novo Ano Lunar e o ano do Macaco terminará a 27 de Janeiro de 2017, logo sem contar o dia 4 de Fevereiro, o dia do Princípio da Primavera, diz-se ser um ano cego. É bom para viver em conjunto, mas não para casar, já que para a maior parte das pessoas, não trará descendência. Por isso deixe essa acção para ser realizada em 2017, que terá dois Lichun e ainda mais um mês intercalar.
As características do Macaco, inteligente e astuto, regulam o ano. Compreender-se no Espaço que ocupa, lendo o que à sua volta se passa pelos pormenores e não pela forma geral que imediatamente alcança, leva essa perspicácia a avaliar o momento com grande agudeza. Assim está para este ano regulado o Céu pelo Todo, nós, que é o estar englobados e não ser individualmente globalizados.
O Tai Sui, (em cantonense Tai Soi, o Deus que superintende o ano, de um ciclo de sessenta anos) que rege este ano lunar de 2016 é o Capitão Guan Zhong, que traz muitas e grandes ondas e significa mudança.
Os signos dos quatro animais que este ano estão bafejados pela sorte, são Búfalo, Porco, Cabra e Coelho. Para as pessoas dos signos chineses do Macaco, Rato e Galo, o Tai Sui deste ano não as vai ajudar e por não terem a estrela da sorte a protegê-los, devem preparar-se para dificuldades, mas o ano não será muito mau. Para os nativos de Tigre, Cavalo e Cão é um ano de grandes mudanças e para os de Serpente e Dragão, não vai haver alterosas vagas, será um normal ano.
O ano é de Shen = Macaco e Hóu = Fogo e assim teremos um ano de Fogo amansado pela Água criada em Bing Shen.
Tendo passado os três anos de Fogo, este ano de 2016, com Bing Shen criando água, começam os dez dourados anos, início de uma nova Geração.
Água e Fogo são o necessário para a criação, sendo por isso um ano para iniciar algo para os próximos dez anos.
É necessário voltar a encontrar uma direcção e para isso, é importante mudar o sentido do coração. Já não será o desejo de dinheiro, pois os ricos irão perder a força para realizar mais e os pobres, que não o têm e não importa o quão trabalham nunca o terão. Sente-se agora o que é deveras importante, a necessidade de ter um espírito de solidariedade fora da visão materialista. Este é o problema para o qual todos os governantes dos países irão tentar encontrar a solução. Mas até hoje não apareceu ainda alguém que se apresentasse para liderar as energias do mundo nessa direcção e esse, é o verdadeiro desastre do mundo actual.

Ano de Mudança

O ano de 2016 é de mudança, por isso de viagens, mudar de emprego e de casa, ou talvez emigrar. Há dois temas importantes para ter em conta. Uma acção terrorista, que pode acontecer em qualquer lado e a segunda, tomar cuidado com os meios de transporte e os locais para onde viaja e perceber se são seguros, ou se é uma zona sensível.
Baseado no Livro Di Mu Jing, o que ocorrerá no ano Bing Shen:
– de certeza haverá problemas com a água, porque Bing e Shen criam água.
– A agricultura vai sofrer com desastres naturais, o que vai trazer problemas para a alimentação.
– Epidemias trarão a morte a humanos.
No entanto, baseando nos Caminhos para Oeste, teremos o Macaco a proteger o Mestre do Dharma e não esquecendo que este é o primeiro dos próximos dez anos dourados, não teremos que ficar preocupados.
A estrela Wu Huang (Cinco Amarelos), que traz obstáculos, problemas e conflitos, está este ano localizada na direcção Nordeste, o que poderá significar problemas na Coreia do Norte e EUA. Já os Er Hei (Dois Pretos) Bing Fu (que representa doença) encontra-se na direcção meio, estando por isso o perigo baseado no Médio Oriente.
Há probabilidade de alguns desastres aéreos. Três grupos em Fogo, Americanos, Japão e EI e as armas de fogo estarão na ordem do ano. Este e o próximo ano são de guerra.
Os aparelhos eléctricos aumentarão a intensidade do Fogo e desequilibrarão o fogo que envolve o mundo. Ano para se ter muito cuidado com os olhos, por isso, não passe muito tempo defronte das máquinas cuja luz atinja os seus olhos e vaguei-os com a Luz que deles irradiam pelo vivo da Natureza.
Em 2016, o feminino ganha grande poder e mais países passam a ser governados por mulheres. Na Europa, vai ser um ano de assaltos e violações e os anjos tornam-se demónios.
Quando ao entrar no ano do Macaco, significa que já passaram os três anos de forte Fogo e este ano de água, significa que as coisas irão melhorar, mas será necessário muito cuidado com as epidemias (doenças, vírus…), continuando os desastres naturais, mas sem a força do último ano. Prevê-se grandes cheias, em rios e oceanos.
Os anos de Macaco são de terríveis tremores de Terra, como os ocorridos em Gansu a 16 de Dezembro de 1920 com 208 mil mortos e em 26 de Dezembro de 2004, acompanhado por tsunami no Oceano Índico, com 200 mil mortos. Para este ano de 2016, Outubro é preocupante no campo dos atentados terroristas e em Dezembro, com algo parecido com o que ocorreu em 2004, talvez para pior no campo dos tremores de terra, que segundo Li Ju Ming (Lei Koi Man em cantonense), a quem nos socorremos para preparar estas previsões, se espera que não aconteça.

Para tomar resoluções

Pelo calendário solar, as pessoas que nasceram no período compreendido entre:
– 19 de Fevereiro e 4 de Maio, precisam do Elemento metal. Meio ano vai ser bom e o outro meio menos bom. A melhor direcção é Oeste. Na Primavera e Outono, precisam de ter cuidado com os pulmões e coração. Entre os períodos de 4 de Fevereiro a 4 de Abril e 6 de Junho até 6 de Agosto, metal está muito baixo, logo estas pessoas devem ter muito cuidado com os investimentos, finanças e importantes decisões. Por isso, não tome decisões e guarde-as para o período auspicioso entre 8 de Agosto a 8 de Setembro. Deve evite tomar decisões entre as onze horas e as três da tarde, sendo o melhor período das 15 às 19 horas. Para quem está carenciado do Elemento Metal, as melhores cores são o branco e o dourado, a pior é verde, por isso use roupas com essas cores. Quanto à comida, bife e galinha são os melhores pratos.
– 5 de Maio e 7 de Agosto, tem carência do Elemento Água, mas comparado com os dois últimos anos, este ano vai ser melhor. Na Primavera e Verão a água rareia e por isso, deve nesse período manter-se paciente quanto aos investimentos, finanças e importantes decisões, sendo para tal entre 8 de Novembro até 3 Fevereiro de 2017 o período mais auspicioso. Durante a manhã não é bom tomar decisões, sendo o melhor entre as 15 e 19 horas e depois da 21 horas, quando a cabeça está mais clara. Não se esqueça de beba muita água todos os dias e vá nadar. Se possível viaje para Oeste de barco, o que lhe poderá trazer uma grande ajuda. As melhores cores para usar são o azul, branco e preto, devendo evitar o vermelho. Todo o tipo de peixe é bom para a sua alimentação e evite grelhados e pimenta.
– 8 de Agosto e 7 de Novembro, precisam do Elemento Madeira. A Primavera será o melhor período, assim como entre 8 Novembro a 6 de Dezembro. Já entre 8 de Agosto a 6 de Novembro não arrisque a investir e cuidado com a saúde. A direcção auspiciosa é Leste e Sudeste, devendo evitar o Nordeste. As melhores horas são as da manhã até às três da tarde e daí até às 19 horas é um mau período para tomar decisões. O verde é a melhor cor. Deve comer porco e vegetais.
– 8 de Novembro e 18 de Fevereiro de 2017, precisam do Elemento Fogo. De 8 de Novembro até 3 de Fevereiro de 2017 é um período de grandes ondas e por isso deve ter cuidado com os investimentos, finanças, decisões importantes e viagens. O melhor momento para realizar tudo isso é entre 6 de Junho a 6 de Agosto e de 9 de Outubro a 6 de Novembro. As melhores horas são entre as 9 e as 15 da tarde. Cuidado com os olhos, coração, sangue entre 6 de Maio e 4 de Junho. A direcção auspiciosa é Sudoeste e Sudeste. Viajar de comboio é uma grande ajuda. A melhor cor para usar é o vermelho e evite o preto. Coma carneiro, café, chocolate e beba vinho tinto, mas evite bebidas e comidas frias.
Lembre-se que só deverá expressar cumprimentos de Bom Ano, quando já estiver no Ano do Macaco.

10 Fev 2016

Até à criação da diocese de Macau

A 23 de Janeiro de 1576 foi criada a Diocese de Macau e quatrocentos e quarenta anos depois, em 2016 é sagrado o novo Bispo, Stephen Lee Bun-sang, que veio substituir D. José Lai Hung-seng. Macau, desligando-se da Diocese de Malaca ao qual pertenceu durante dezoito anos, ficava com jurisdição eclesiástica sobre o Extremo Oriente tornando-se a base da evangelização e o centro de divulgação da cultura ocidental na zona do Pacífico.
Para entender a História que antecedeu a criação da Diocese de Macau deveremos recuar até 1415, ano do início do Padroado. A 21 de Agosto de 1415, os portugueses sem grande dificuldade submeteram a praça marroquina de Ceuta, abrindo assim no Norte de África, um novo destino para Portugal. Tinham decorrido sete séculos desde que o Islão por aí passara para a Península Ibérica e com a conquista de Ceuta, fechava-se a porta às ajudas muçulmanas a Granada, controlando-se ainda a entrada no Mediterrâneo. Segundo Veríssimo Serrão, “O feito ganhou auréola na história europeia, ficando aquela cidade como o símbolo do poderio cristão implantado em Marrocos. Como ficaria também conhecido o empreendimento de D. João I, que representava o início de um Portugal marroquino de há muito desejado pela coroa de Avis e que para muitos historiadores representa a abertura dos tempos modernos.”
Assim uma nova ideia de Cruzada surgira e fora antecipada pelo Papa Bonifácio VIII, quando em 1299 criou “simbolicamente, um bispado em Marrocos, atribuindo o direito da apresentação alternativamente aos reis de Castela e Portugal”, de Filipe Thomaz como informação de A. Dias Dinis. Esse desviar do objectivo, que se virou para o combate aos muçulmanos de Espanha, deveu-se à queda em 18 de Maio de 1291 de São João d’Arce, o último reduto cristão no Oriente, terminando assim o primeiro período das Cruzadas (1096-1291).29116P14T1
Depois da conquista de Ceuta, o Rei D. João I, após esperar pelo fim do conclave no Concílio de Constança, solicitou ao Papa Martinho V a criação em Ceuta de um bispado, abrindo assim as portas ao Padroado. Pela Bula Sane Charissimus de 4 de Abril de 1418 foi solicitada aos arcebispos de Braga e Lisboa a execução do pedido e aceite, com a sentença executória de 6 de Setembro de 1420 desta bula, ergueu-se a Sé de Ceuta. Como Frei Aimaro de Aurillac, franciscano inglês trazida para Portugal pela Rainha Dona Filipa de Lencastre, já desde 1413 era Bispo de Marrocos, ficou a ser o primeiro Bispo de Ceuta, mas nunca lá passou.

Ordem de Cristo

Iniciava-se assim um novo período de Cruzadas, mas estas já sem o pendor bárbaro que os Cavaleiros do Norte levaram à Palestina, quando todos os infiéis eram para matar. Abria-se um novo tipo de Cruzada, que investia na conversão, pela razão ou à força, e que rapidamente se transfigurou, virando-se para a conquista dos mares em descobrimentos de novas terras e novas gentes para o Cristianismo. Quem tomou em mãos tal obra foi o Infante Dom Henrique, o Navegador, que se propunha conquistar o território marroquino, chegar à Índia por barco e encontrar e povoar as ilhas do Atlântico.
O Infante Dom Henrique tornava-se em 25 de Maio de 1420 Governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, fundada em 1315 pelo Rei D. Dinis, com os bens dos Templários portugueses. Institucionalizada a 14 de Março de 1319, pela Bula Ad ea quibus do Papa João XXII, a Ordem de Cristo tinha o Papa como Soberano e os seus Grão-Mestres, cavaleiros com votos de pobreza, eleitos pelos próprios freires, apesar de o primeiro, D. Fr. Gil Martins ter sido nomeado pelo Papa. A sede da Ordem passou em 1356 para Tomar.
Quando, no ano de 1415, Portugal se expandiu para o continente africano, com a finalidade de tomar o lugar dos muçulmanos e propagar a fé cristã, deu-se início ao Padroado, que foi confiado à Ordem de Cristo e não a Portugal, sendo o Vigário de Tomar, Prior-mor da Ordem de Cristo, o primeiro a dirigir o Padroado. Para o Infante D. Henrique, filho do Rei de Portugal que não podia fazer voto de pobreza, foi criado um novo cargo na Ordem, o de Governador. Sempre com o acordo da Santa Sé, ficava assim na posse de membros da família real, mas a título pessoal, o controlo da Ordem de Cristo. Segundo Manuel Maria Variz, “A Santa Sé erigiu o Padroado, que ficou com os reis portugueses como padroeiros, com o encargo de prover todos os fundos necessários aos bispos e aos missionários das terras do Padroado, o direito de apresentar novos candidatos para as sedes que ficassem vagas, dentro do mesmo território”.

Demanda do Preste João

A política do Rei Afonso V, o Africano, estava virada sobretudo para as conquistas no Norte de África e mais tarde empenhou-se nas lutas contra Castela. Deixava ao seu tio, o Infante D. Henrique, o cargo de investir na navegação, tendo já Gil Eanes em 1434 dobrado o Cabo Bojador, mas traziam ambos um comum objectivo, procurar obter informações da terra de Preste João através da África Ocidental. Tal demanda vinha já de longe, mas em 1442, por se considerar ser o Rio de Ouro uma das vias que dava acesso à Abissínia foi para aí enviado Antão Gonçalves.
A 18 de Junho de 1452, o Papa Nicolau V publicou a Bula Dum diversas dirigida ao Rei Afonso V concedendo-lhe plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo. As viagens marítimas portuguesas continuavam na descoberta para Sul das costas atlânticas de África, encontrando-se os navegadores sobre as ordens do Infante D. Henrique pelas ilhas de Cabo Verde e na costa do Senegal e Gâmbia.
A 8 de Janeiro de 1454, o Papa Nicolau V pela Bula Romanus Pontifex confirmou ao Rei de Portugal “o direito de possessão e conquista nas terras descobertas e por descobrir, dando perpetuamente a Portugal as terras das descobertas, e as potências cristãs respeitaram o sistema de títulos definido pelo Papado e baseado na prioridade de descoberta, posse simbólica e reconhecimento pontifício” Manuel Maria Variz. Seguindo com ele, – em 13 de Março de 1456, pela Bula Inter caetera, o Papa Calisto III confirmava as concessões feitas por bula do seu antecessor, “ao mesmo tempo que concedia ao prior da Ordem de Cristo o padroado nas terras de além-mar, que ficavam sendo nullius diocesis. Concedia outrossim ao superior da dita ordem os poderes jurisdicionais que costumam exercer os ordinários dos lugares.” Tinha o Monarca o direito, assim como o dever, de enviar missionários e criar igrejas nas terras descobertas, que ficavam sobre a jurisdição da Ordem de Cristo e com a sede diocesana na Igreja de Santa Maria do Olival em Tomar. Estava assim lançado o Padroado Português do Oriente.[quote_box_right]O grande desenvolvimento missionário no Oriente levou, após dezoito anos, à criação da Diocese de Macau, em 23 de Janeiro de 1575, que ficou anexada ao Arcebispado de Goa[/quote_box_right]
“Em 1460, à data da morte de D. Henrique, a navegação portuguesa percorria já, de uma forma rotineira, os caminhos marítimos da Madeira e dos Açores, de Arguim e da Guiné, do Cabo Verde e da Serra Leoa, e executava sem problemas a grande volta do largo, que, aproveitando o regime de ventos dominantes, trazia as nossas embarcações de regresso dos mares tropicais ao litoral português, longe da vista de terra” como refere Rui Loureiro.
A 13 de Novembro de 1460 morreu o Infante D. Henrique e o Rei D. Afonso V arrendou ao comerciante de Lisboa Fernão Gomes, por um período de cinco anos, a exploração comercial da rota da Guiné. Como nos diz Vitorino Magalhães Godinho em “A Economia dos Descobrimentos Henriquinos”, “a realeza deixa aos mercadores a tarefa de devassar os mares; e durante seis anos continuam os navegadores, a cargo desse burguês, a exploração metódica da costa africana.” Mas em 1474/5 expirou o contrato e o Príncipe D. João encarregou-se dos negócios ultramarinos.
D. João II, quando subiu ao trono em 1481, tentou localizar o Prestes João e retomou o plano dos Descobrimentos. Mandou Diogo Cão explorar a costa africana ao Sul do Cabo de Santa Catarina, Frei António de Lisboa e Pedro Monterroio de localizarem o Prestes João e em 1487, Afonso Paiva ir à Etiópia e Pero da Covilhã, descobrir por terra as rotas das especiarias. Em 1486, de Lisboa partiu Bartolomeu Dias com a finalidade de entrar no Oceano Índico, tendo regressado em Dezembro de 1488, com a tarefa cumprida e refutando a concepção ptolemaica de mares fechados. Em 1492, no reinado dos Reis Católicos, Granada foi conquistada aos mouros e Cristóvão Colombo partia para descobrir a rota para a Índia, mas pelo Oeste. Apareceu no ano seguinte em Espanha o Patronato regio, confirmado em 1508 pelo Papa Júlio II.

O Padroado

Ainda em 1493, o Papa Alexandre VI por Bula Inter caetera dava o aval ao realinhamento do meridiano estabelecido directamente entre D. João II e os Reis Católicos, que o desviava mais para Oeste, passando a 370 léguas de Cabo Verde, o suficiente para abranger no espaço português o Nordeste do Brasil. Sem ficar estabelecida a fronteira do outro lado, pois as dúvidas do diâmetro da Terra deixavam para mais tarde essa demarcação, dividia-se assim o Novo Mundo pelos dois povos peninsulares em zonas de influência. Cabia a Portugal as descobertas a Leste desse meridiano e a Castela as de Oeste. Em 1494, com esta linha divisória foi assinado o Tratado de Tordesilhas.
D. Manuel era Governador da Ordem de Cristo quando em 1495 se tornou Rei e assim, pela Bula Constante File a Ordem nunca mais saiu das mãos da Coroa, ficando D. Manuel I como o primeiro Rei Grão-Mestre da Ordem de Cristo.
Em 1540 foi reconhecida a Companhia de Jesus pelo Papa Paulo III e logo o Padre jesuíta Francisco Xavier partiu para Lisboa, onde chegou em Junho desse ano e daí embarcava a 7 de Abril de 1541 para ir missionar no Oriente.
O Papa Júlio III emitiu a Bula Praeclara charissimi in Christo em 30 de Dezembro de 1551, que retirou à Ordem de Cristo a jurisdição do Padroado, entregando-a ao Rei de Portugal, tornando-se hereditária a administração da Ordem, marcando-se assim a separação entre a Ordem e a Santa Sé”

As dioceses

Segundo Nuno da Silva Gonçalves, “O Padroado conferia à Coroa Portuguesa o privilégio de criara dioceses e o direito de apresentação dos candidatos ao episcopado e aos principais cargos eclesiásticos, devendo a Coroa assumir as responsabilidades” organizativas e financeiras.
Para organizar a expansão portuguesa, na parte religiosa usou-se a hierarquia que existia no Continente e assim, esses novos territórios passaram a ter dioceses, paróquias e escolas para formar os locais como missionários.
A pedido do Rei D. Manuel I, o Papa Leão X criou a 12 de Junho de 1514 pela Bula Pro excellenti a Diocese do Funchal, concedendo o Padroado da Sé aos Reis de Portugal. Entregando a Sé do Funchal ao Bispo D. Diogo Pinheiro, até então Vigário de Tomar, ficava sobre a sua jurisdição todas as conquistas, o chamado Ultramar. Os Reis de Portugal em 1516 ficaram com o direito de apresentar as pessoas para todas as igrejas nas terras descobertas ou conquistadas e construir edifícios religiosos.
Já o Rei D. João III pediu ao Papa Clemente VII novas dioceses e este, em 31 de Janeiro de 1533 decidiu que fossem criadas a dos Açores, Cabo Verde, S. Tomé e Goa, mas sem haver bulas, só a 3 de Novembro de 1534, o Papa Paulo III as criou, ficando “sufragâneas da Sé do Funchal, à qual concedia a dignidade metropolítica”, como refere o Padre Miguel de Oliveira que adita, ter ela passado com todas as outras dioceses em 1551 para a metrópole de Lisboa, sem nunca chegar a ir à Madeira o seu único Arcebispo, D. Martinho de Portugal.
Ao novo Bispado de Goa ficaram subordinadas todas as terras desde o Cabo da Boa Esperança à China.
Em Macau, os portugueses estabeleceram-se pelo menos desde 1557 e com eles, os missionários, sendo o seu porto uma base necessária para os comerciantes portugueses irem negociar a seda na feira de Cantão e levá-la para o Japão. Por essa porta comercial, os padres católicos entravam para missionar, se não na China, país poderoso feito num todo e centralizado em que não se podia usar o jogo de aproveitar as desavenças para fazer alianças, no Japão, onde guerras tribais entre shoguns serviam para criar uma propícia evangelização cristã.
Com uma tão rápida evangelização no Oriente, foi necessário criar aí novos bispados e assim, a 4 de Fevereiro de 1558, o Papa Paulo IV pela Bula Etsi sancta elevou o Bispado de Goa à categoria de Arcebispado metropolitano e pela Bula Pro excellenti criou dois bispados sufragâneos, o de Cochim e o de Malaca, ao qual Macau passou a pertencer.
Em 1567, o Papa Pio V designou o jesuíta D. Melchior Carneiro Leitão, Bispo de Niceia, para governar as Missões da China e do Japão.
Imparável, o grande desenvolvimento missionário no Oriente levou, após dezoito anos, à criação da Diocese de Macau em 23 de Janeiro de 1575, que ficou anexada ao Arcebispado de Goa. Por bula Super Specula Militantis Ecclesiae o Papa Gregório XIII declarou ainda que ninguém, nem mesmo a Sé Apostólica, poderia anular o direito do Padroado, tal qual era concedido aos Reis de Portugal, sem o consentimento formal do soberano reinante. O Papa Clemento XI, em Copiosus de 1719 reedita essa cláusula.

29 Jan 2016

Professor e chistoso poeta José Baptista de Miranda e Lima

O dia de hoje está ligado ao macaense poeta e professor régio José Baptista de Miranda e Lima que aos 65 anos morreu a 22 de Janeiro de 1848, sem nunca ter saído de Macau. Foi também neste dia e mês, mas do ano de 1822, que o Senado enviou uma extensa e interessante representação a El-Rei D. João VI em que, juntamente com a proposta de um novo sistema de administração para Macau, seguiam copiosas notícias da História deste estabelecimento, sendo, como consta, esta representação da autoria do professor José Miranda e Lima. Tinha sido ele a redigir, em nome dos constitucionais, uma representação ao Rei e às Cortes, pedindo a restauração do Senado ao regime anterior a 1783, quando pelas Provisões dessa data, a Rainha D. Maria I centrou os poderes nos governadores, retirando a supremacia ao Senado.

José Baptista de Miranda e Lima era filho do nosso último biografado, José dos Santos Baptista e Lima, o primeiro professor régio em Macau, que desde 23 de Abril de 1775 aqui ensinou Gramática Latina e como era recorrente, em 1804 José de Miranda e Lima sucedeu-lhe como professor régio.

De lembrar ter o Marquês de Pombal expulso os Jesuítas de Portugal em 1759, o que em Macau ocorreu a 5 de Julho de 1762, e sendo sobretudo estes padres a dedicarem-se ao ensino, tal criou na cidade um vazio na educação escolar. Para colmatar a expulsão dos Jesuítas do ensino, logo foi criado um sistema estatal de instrução e em 1772, o Marquês do Pombal tomou providências decretando que se nomeasse um director de Estudos, a quem competia a inspecção dos Estudos Menores e se instituíssem cadeiras de Gramática Latina.

Já quando Miranda e Lima escreveu em 1822 a representação a El-Rei D. João VI, vivia-se um período conturbado e na cidade digladiavam-se duas diferentes concepções de governação, os liberais, que estavam a favor do Rei D. Pedro IV e os absolutistas, que apoiavam D. Miguel para ocupar o trono de Portugal. Nessa altura, segundo Leôncio Ferreira, a educação em Macau estava já de novo bem servida, com a escola de instrução primária a cargo da Diocese, a Academia Militar e da Marinha fundada em 1814 e o Real Colégio de S. José, herdeiro do Seminário, restabelecido em 1784 e confiado aos lazaristas. Havia ainda, segundo Leôncio Ferreira, “a existência de aulas gratuitas, regidas pelos párocos das freguesias e pelos frades dos conventos”, assim como, uma aula de Gramática portuguesa e latina e de Retórica e Filosofia dadas pelo professor régio.

O biografado

Esse professor régio era José Baptista de Miranda e Lima, que nasceu a 10 de Novembro de 1782 numa casa situada onde hoje é a Rua Central, na freguesia da Sé. Era filho de pai português, José dos Santos Baptista e Lima, que chegara a Macau em 1775 e aqui se casara a 23 de Janeiro de 1782 com a macaense D. Ana Pereira de Miranda. Foi o primeiro dos cinco (seis) filhos do casal e uma semana depois do seu nascimento era baptizado na Sé Catedral pelo Governador do Bispado, o Padre António Jorge Nogueira.

Esmerada foi a educação de José Baptista de Miranda e Lima, não fosse o seu pai professor e querer dar aos filhos tudo o que de melhor poderia para eles conseguir. Com ele estudou Português, Latim, História, Literatura Clássica e Moderna, tendo-lhe Frei Dionísio, religioso da Ordem dos Pregadores, ensinado Filosofia e o Bispo de Macau, D. Marcelino José da Silva, Retórica e Teologia. Ainda aprendeu francês e italiano, assim como Física, Matemática, Esgrima, Música, sendo um bom jogador de xadrez.

Nessa altura, o seu pai, José dos Santos Baptista e Lima, sentindo-se apertado com o magro ordenado auferido como professor régio, que não dava para condignamente sustentar tão grande filharada, complementou a sua actividade com a do comércio, que pelos anos oitenta do século XVIII encontrava-se florescente, com muitos habitantes de Macau a enriquecer rapidamente. Entregou o ministrar das aulas a um clérigo chamado António José de Sales, substituto da Escola de Ler, Escrever e Contar e com o seu barco Nossa Senhora do Rosário e Almas pelo menos desde 1785 administrava o tráfego do seu Navio, mas vê o seu sonho de riqueza naufragar em 1790. Assim passou o mestre-escola a servir os grandes mercadores da época como secretário e para isso, foi eleito a 1 de Novembro de 1795 irmão da Santa Casa da Misericórdia, sendo ainda seu escrivão e provedor.

Por provisão régia de 7 de Janeiro de 1804, José Baptista de Miranda e Lima sucedeu ao seu pai como professor régio de Português e Latim do Real Colégio de S. José.

No artigo do “Impulso às Letras” encontra-se descrito a compleição física de José Miranda e aí diz ter “uma nobre e respeitável presença. Era alto de corpo, grosso e direito: tinha os ombros caídos, pescoço regular, cabeça grande, cabelo nimiamente crespo, testa larga, sobrancelhas copadas, olhos à flor do rosto, negros, rasgados e vivos; nariz extraordinariamente grande e aquilino, boca mediana, barba um tanto ponteaguda, a tez do rosto alva e corada, e um ar que tendia à severidade, desmentindo o seu carácter que era naturalmente brando, pois raras vezes o vimos perder a sua serenidade habitual, mas em tais ocasiões esses ligeiros assomos de cólera imprimiam no seu semblante um aspecto verdadeiramente terrível, que ainda sem prorromper em gritos, fazia gelar de susto os discípulos”.

Historiador

Em 1821, após treze anos da Corte portuguesa no Rio de Janeiro no Brasil, regressou o Rei D. João VI a Lisboa. Ano em que José Baptista de Miranda e Lima se casou, a 21 de Outubro, com Ana Margarida de Oliveira Matos e de quem teve três filhos: José Maria nascido a 2 de Fevereiro de 1823, Maria de Jesus em 19 de Março de 1824 e Ana Maria Clara a 12 de Agosto de 1825.

Nos finais de 1821 chegou a Macau a notícia das profundas alterações políticas em Portugal e logo a 5 de Janeiro de 1822 foi publicada por Edital a adesão de Macau à causa nacional – a Monarquia Constitucional. Segundo J. F. Marques Pereira, é de “22 de Janeiro de 1822 a extensa e interessante representação do Leal Senado de Macau a El-Rei D. João VI, em que juntamente com a proposta de um novo sistema de administração, se contêm copiosas notícias da história do estabelecimento. Esta representação (de que, segundo me consta, foi verdadeiro autor José Baptista de Miranda e Lima) nunca se arquivou no Senado, porque os indivíduos que então o compunham, tendo sido depostos pelos acontecimentos desse ano, recusaram-se a dar conhecimento dela a quem os substituiu.”

3 EducaçãoAo longo da sua vida foi Miranda Lima escrevendo sobre a História de Macau, tendo coligido “muitos cadernos de apontamentos e cópias de documentos de entre os Arquivos do Senado, da Biblioteca Episcopal, do Colégio de S. José, dos manuscritos jesuíticos recolhidos por ocasião do confisco, da Crónica de Heanxane e de diferentes obras impressas. Mas não chegou a fazer outro uso delas, senão dando-os a quem quer que lhos pedia, como a José Ignácio de Andrade, ao sueco André Ljungstedt, aos Padres da Congregação das Missões de S. José, &c.” como é referido por J. M. da Silva e Souza no artigo “Impulso às Letras”.

Na “Memória dos Feitos Macaenses” de Ignácio de Andrade há um poema de 1810 com sabor camoniano escrito e cantado por Miranda Lima em homenagem a Arriaga, como libertador providencial de Macau na vitória contra a frota do pirata Cam Pao Sai.

A 16 de Fevereiro de 1822, no Senado foi jurada a adesão de Macau à causa da Monarquia Constitucional. Mas a cidade já vivia um período agitado pois, ainda a 11 de Fevereiro de 1822, apareceu uma Representação assinada por 36 pessoas, que advogava uma Câmara eleita pelo povo, fazendo-se assim notar dois estares diferentes. Altura em que surgiram dois partidos em Macau.

Foi a 19 de Agosto de 1822 que o Senado de Macau voltou a ficar fora da dependência do Governador, independência que tinha perdido pelas Provisões de 1783, quando a Rainha D. Maria I centrou os poderes nos governadores, retirando a supremacia ao Senado. Nesse dia, em assembleia geral sob a presidência do Governador José Osório e Albuquerque, decidiu-se que a eleição dos novos membros da Câmara seria feita por sufrágio popular e logo ali foi realizada, tendo-se elegido os novos membros do governo municipal e restaurado a independência do Senado. Assim a 19 de Agosto de 1822, com 26 votos foi José Baptista de Miranda e Lima eleito um dos dois juízes, com exercício de Ouvidor, e pertencente ao grupo de sete membros do Senado, que formaram o Governo Constitucional. No dia 24 de Agosto, o novo regime democrático foi consagrado.

Em 1826, era José Baptista de Miranda e Lima o Procurador de Macau, tendo-se mostrado à altura das suas funções quando fez frente ao Prefeito de Heangshan, recusando-se a entregar o Major Favacho, que a população chinesa acusava de ter morto um rapaz chinês.

Tal como o pai, também Miranda e Lima foi proprietário de uma embarcação, o brigue Feliz Viana, que se dedicava ao comércio pela costa chinesa.

Chistoso poeta e adepto do Rei D. Miguel

Para além de professor, juiz e procurador, António Aresta refere ainda ter sido José Baptista de Miranda e Lima Almotacé da Câmara e Presidente do Montepio de Macau, mas mais que tudo, foi poeta e historiador, quando a cidade apenas vivia pelos interesses comerciais, completamente indiferente à cultura.

Para além do muito que compilou sobre a História de Macau, que não chegou a publicar, foi autor de um manuscrito em 1832 com o título “Máximas morais e civis oferecidas aos Jovens Macaenses”.

Escreveu “Diálogo entre 2 Pacatos na Rua Direita na Noite de 13 de Maio de 1824”, “Ajuste de casamento de Nhi Pancha cô Nhum Vicente” de teor satírico e empregando o dialecto macaense, “Solitário” e “Alectorea”, poema em quatro cantos de 1838, inspirado em Vergílio, cujos termos gregos alector, galo e alectoris, galinha dão-lhe o título. Ainda, “Philomena Invicta” em 1841, “Eustáquio Magnânimo” e “O Desengano”, canção cujos versos ele compôs e recitou na Sociedade Filarmónica Macaense a 18 de Setembro de 1845.

Do seu envolvimento político nas lutas entre os constitucionais e os miguelistas, Miranda Lima mostrava a sua simpatia pelo Rei D. Miguel, compondo poesias em sua honra e do Realismo, o que muito agradou ao rei, aclamado em Macau a 3 de Novembro de 1829. Por isso foi condecorado, tendo recebido do Senado o aviso régio de 28 de Outubro de 1831, que podia usar a medalha de ouro da real efígie de Sua Majestade. Mas quando o Rei D. Miguel foi destronado, por ser desafecto à Rainha D. Maria II, foi demitido como professor régio em 17 de Abril de 1837. Tal ocorreu devido a ter-se oposto à execução do Decreto de 1834 que determinava a extinção das Ordens Religiosas, apesar de ter já aderido por dever nacional ao regime Constitucional. A Portaria de 7 de Junho de 1836 referia: “Não convindo ao Meu Real Serviço, e ao da Nação, que José Baptista de Miranda e Lima, continue no exercício de Professor de Gramática Latina, da Cidade de Macau, pelos seus reconhecidos sentimentos de desafeição ao Meu legítimo Governo e à Carta Constitucional, hei por bem demiti-lo do referido lugar”.

Em Portugal, desde a Restauração de 1833 voltara a liberdade de imprensa, o que de novo fez aparecer uma enorme quantidade de jornais, tal como aconteceu em Macau. Miranda e Lima trabalhava como censor quando a 11 de Agosto de 1842 o Conselho Geral do Leal Senado resolveu acabar com os revisores, ou censores das folhas, declarando a imprensa livre de censura. Por Ofício foi feito um agradecimento pelo trabalho de revisor a José de Miranda e Lima, Francisco José de Paiva e ao Cónego Lourenço Taveira de Lemos.

Já em 1843, alguns amigos conseguiram em Lisboa que ele fosse reintegrado como professor, voltando assim ao cargo. Após a morte da sua filha Maria de Jesus com vinte anos, Miranda e Lima dedicou-lhe uma sentida canção publicada em 1845 no semanário O Solitário na China.

A 22 de Janeiro de 1848 faleceu nesta cidade com 65 anos de idade o professor régio e chistoso poeta macaense José Baptista de Miranda e Lima, tendo no dia seguinte sido sepultado no Cemitério público de S. Paulo. Nascera em 10 de Novembro de 1782 e nunca saiu de Macau, sendo o seu nome justamente havido por uma das glórias dela. No ano do seu falecimento, segundo Leôncio Ferreira, só havia nesta cidade uma aula de primeiras letras e a aula que o Padre Leite dava no Colégio de S. José.

22 Jan 2016

DESLUMBRAr ACONTECIMENTO

Fascinante reflexão do Estar.
Há cerca de uma semana ocorreu o lançamento da revista Órfão, homenagem à Cidade de um Artista, Poeta e Escritor, para além de Jornalista, que resultou num Momento Cultural em Macau de plena Arte.
O local? Livraria Portuguesa, mas para escapar ao enterrar sobre o peso dos livros que às nossas cabeças se sobrepõem, somos fugidiamente levados para dentro da cave. O anúncio está à descida, por escadas, ao Outro Mundo e provado no veneno, entra-se de golada.
A negridão da sala, avivada branco luz negra, recebe com um obrigado por ter vindo e como boas-vindas à entrada, para entrar, oferece um copo de acolhimento. Há a escolha entre o álcool, dois de destilação cerealífera e um de fermentação de fruta. Bebido num golo, então está-se entrado.
Aos olhos, o Momento esperou para, depois de o todo, comprimido na multidão do compartimento, expandir e abrir-se à representação. As figuras difusas ali se aglomeravam a preencher o Espaço.
Esperava-se algo!
Viajante volatizo para os fins de um canto encontrado, tal o número de pessoas que tiveram o privilégio de ao vivo assistir a este Acontecimento.
Acontecimento já a acontecer na sala cheia, não de sombras, mas pela difusa luz negra que soleirava na sombra os espectadores, muitos sentados e os que de pé ficaram, sobre um ambiente que retirava a comunicação às pessoas e por isso, não se falava e entre si cochichavam.
Na sala já não se repara e do negro Aparece. Sentado, capa e máscara negras, atrás da mesa. Medita para chamar o que está para trás e com alma (ling) vai qual mar Pessoalizando-as em etapas com focos no seu bordado do Céu.
Assinalando o despir das personagens, des-cobrindo-as ao retirar as roupagens de cada figurino representante de si mesmo, chega à camisa branca englobado no Surrealismo sem Política e por isso, Sobre-Real.
Chama dos fundos os viajantes e, um pelo órfão do Orfeu, escutando os murmúrios do reconhecer o acolher de quem recebe, distribui novos copos de ligação.
Ressuscitar 1
As palmas emocionadas bateram-se e abertas as brancas luzes com mais entusiasmo ecoaram, hora chegada das perguntas.
Apareceu o Brilho das respostas num estádio elástico de espaço de conhecimento, primorosamente abarcado pela criança que, sem o intelectual, traz o instinto do ser Arte, no acto artístico de Estar.
Arte essa que pela definição da Natureza espartilha-a em significados cuja imagem mental reflecte pela sabedoria do Todo, pois já não se distancia para se olhar/observar/ver a observar-se.
Sim, Está. órphão
E foi o Escritor, o Actor, o Editor e Produtor, Homem dos sete ofícios e artes, que se desenovelou como só quem é criança tem em si.
Fora do si próprio (do subconsciente), envolve um ambiente de uma viagem a um todo que é o estar em criação e representando-se atinge o seu melhor nas respostas às perguntas.
E das suas? Envolveu-se no ser Órfão, onde perdidas as referências qual morte no Ovo, está sem pais, não os biológicos, mas como artista na dispersão de o ficar sem nada, não há narrativa e repesca-se no Autor.
Argonauta Órfão Macao, o cenário para recriar ainda no quotidiano, o Paraíso de um reavivar Universo que já acabou e apenas pelos que reconhecem… um palco de Excelência no acto da Criação. Uma Obra. Arte!
Ficou de fora quem não esteve e esse momento de comunhão nas catacumbas de uma livraria serrou estares, sem erros da perspectiva com que se projectou e esmiuçando se perspectivou num fundo de personagens. Colocou-se fora do ponto feito apenas pelos nossos olhos, escutado e lido atrás das palavras, pois pelo resto dos sentidos, ele deu-nos o Vivo.
Confundiu a imagem mental no que os nossos olhos não vêem e foi construindo-a para isso.
Foi num Sábado a ocorrência do Acontecimento, tão (im)pressionante momento realizado por CARLOS MORAIS JOSÉ onde vincada esteve a Arte mágica do Estar.
Verdadeiro, tão que se despediu representado já no relógio daquela peça num Domingo, extensão que levamos para casa como Órfão.
Por esse momento que se expandiu até hoje, deixo aqui o proibido Olhar para trás, sabendo reviver apenas em memória as que se seguirão para de novo trazer um momento à Cidade, como Este, que acontece há uma semana.
Momento que nos revê e faz, sentido de quem tem a direcção em dois sentidos.
Um Bem Haja!
Obrigado Carlos.

NOTA: Por razões éticas profissionais prolonguei esta reflexão do acontecimento que presenciei e esperançado de o ver registado em Outros jornais, já que pela aceitação da descriminação positiva para contrapor à negativa, hoje se vê pelo que É. Demonstrada em competição num mundo de reinóis, ou de multinacionais redes que não alinham no Universo sem o viva Al e El do dinheiro. Macaus, onde a dialéctica do positivo para contrariar o negativo, não deixa de ser de uma comercial herança, mas crendo porque a Arte não traz competição, faltaram mais projecções e os jornais ficaram em silêncio.
Falta de Ética era não deixar registado o Acontecimento que presenciei na Livraria Portuguesa no sábado, 9 de Janeiro de 2016.

21 Jan 2016

O primeiro professor régio José dos Santos Baptista e Lima

Estudávamos a vida do professor e poeta macaense José Baptista de Miranda e Lima quando dêmos com a figura de seu pai, José dos Santos Baptista e Lima, que veio de Portugal para Macau em 1775 como primeiro professor secular de nomeação régia.
José dos Santos Baptista e Lima, natural da freguesia de Nossa Senhora da Esperança na vila de Alpedriz, concelho de Alcobaça no distrito de Leiria, nasceu por volta de 1750 e era filho de Manuel dos Santos e Teresa Maria de Jesus. Devido à reforma pombalina na Educação, por carta de 7 de Janeiro de 1774 foi nomeado pelo Rei D. José (1750-77) como o primeiro professor secular, para leccionar Gramática Latina em Macau. Pagou do seu bolso a viagem na fragata Nossa Senhora da Penha de França desde Portugal e acompanhado pelo seu primo chegou a Macau a 23 de Abril de 1775; era então Diogo Fernandes Salema e Saldanha pela 2.ª vez Governador da cidade. 3 Educação
Ainda no primeiro ano de professor fazia já uma representação ao Rei a pedir aumento de ordenado e que no fim dos seus três anos de comissão, esta fosse revogada. Dava como razões que, para ensinar Gramática Latina aos seus discípulos portugueses, precisou primeiro de lhes ensinar “a língua portuguesa, ignorada totalmente pelos nacionais de Macau, que só falavam um idioma misto de português e chinês corrupto, impuro, e tal, que o referido Professor necessitava muitas vezes de intérprete para perceber o que diziam os seus discípulos, e para dar-lhes os precisos documentos, o que fazia certo com autênticas atestações: e como este trabalho era superior ao que estava obrigado pelas Reais Ordens de V. M. e o ordenado de 400$000 réis não chegava para se tratar com decência, tendo-se transportado para aquele país à sua custa, pedia humildemente a V. M. lhe acrescentasse o mencionado ordenado, suplicando ao mesmo tempo lhe desse providências, para que acabados os três anos que a sua carta lhe facultava, não ficassem os discípulos, pela dificuldade de recurso, privados das suas lições”.
Esta representação ao Rei a pedir aumento de vencimento é de 4 de Setembro do ano de 1775 e foi feita por intermédio da Real Mesa Censória, que Rafael Ávila de Azevedo define como “tribunal encarregado de inspeccionar e seleccionar o professorado oficial e particular para o ensino oficial”.
Consulta que só foi aprovada em 5 de Abril de 1777, pela Rainha D. Maria I (1777-1816) que acabava de chegar ao trono.
Estando a terminar a sua comissão de três anos, a 28 de Abril de 1778, o Governo de Goa ordenou a continuação do professor régio da Cadeira de Português de Gramática Latina e que continuasse a reger o Real Colégio de S. José. O Senado a 23 de Dezembro de 1778 solicitou ao Governador da Índia a criação de cinco escolas de ler e escrever, de gramática latina, filosofia, moral e teologia. Muitas destas informações são do lavor do Padre Manuel Teixeira e com elas vamos continuar, misturando-as com informações retiradas dos Arquivos de Macau.

Família do professor régio

A Rainha D. Maria I, a 19 de Janeiro de 1779 mandou que dessem “mais cem mil reis a título de ajuda de custo ao professor de Gramática Latina da cidade de Macau, José dos Santos Baptista e Lima, pelos rendimentos do subsídio literário daquela cidade, em respeito ao bem, que a serviu o mesmo Professor, e ao grande trabalho, que este tinha com o ensino dos seus discípulos”, documento dos Arquivos da Fazenda de Macau. O “subsídio literário” era um imposto especial sobre as bebidas alcoólicas que o Marquês lançou para garantir a manutenção dos estabelecimentos de ensino. Ao intérprete pagava do seu bolso o professor José dos Santos Baptista e Lima.
Mas o Senado, não reconhecendo a José dos Santos Baptista e Lima o bem, que a Rainha dizia servir ele como “professor e ao grande trabalho que este tinha com o ensino dos seus discípulos, recusou-se a pagar-lhe, remetendo uma representação para o Governo de Goa endereçada à Rainha. Esta, a 17 de Janeiro de 1781, voltou a enviar nova carta, urgindo esse pagamento e verberando a negligência do Senado em dar-lho. Nessa carta a Rainha faz ainda um elogio a outro professor da Escola de Ler, Escrever e Contar de Macau, António José de Sales e refere que “se o Senado não pagar dois professores, Me darei por muito mal servida”.
Em Macau, José dos Santos Baptista e Lima casou-se a 23 de Janeiro de 1782 com Ana Pereira de Miranda, de quem teve seis filhos: José Baptista Miranda e Lima nasceu a 10 de Novembro de 1782, Maria Isabel nascera a 13 de Novembro de 1783, Isabel Maria nascida a 9 de Julho de 1785; Bento José a 10-11-1786; Josefa Serafina nasceu a 24-3-1791 e Vicência Maria a 29-3-1793 e que faleceu com 22 anos.
O professor régio José dos Santos Baptista e Lima teve dois filhos que lhe seguiram as pisadas, o mais velho, José Baptista Miranda e Lima que substituiu o pai no lugar de professor e Maria Isabel, professora das “primeiras letras” que correspondia ao ensino primário. Quando estes nasceram, encontrava-se a educação em Macau no patamar mais baixo em qualidade. Altura em que chegou ao Senado uma carta de Goa datada de 19 de Fevereiro de 1783, a participar ter Sua Majestade encarregado o Bispo de Pequim a restabelecer o Seminário para educação da mocidade e por não haver “sujeitos hábeis para ajudarem nas Missões da China”.

Administrar o tráfego do seu Navio

A 23 de Dezembro de 1785, o Senado oficiou o Governador da Índia, D. Frederico Guilherme de Sousa (1779-86): “Sendo uma das Providências que V. Exa. mandou para esta que os Reverendos Padres do Real Seminário de S. José desta Cidade dessem estudo público aos sujeitos que quisessem instruir-se nas Letras humanas não tem tido o devido efeito, e não sabe este Senado por que razão o não teve. Entende este Senado que fazendo uma tão grande despesa com o dito Seminário também lembra este Senado a V. Exa. que sendo enviado para esta José dos Santos com o cargo de Professor Régio de Gramática Latina, está feito um dos homens de negócios. Senhorio de um Gurabo (embarcação de vela da Índia) Senhora do Rosário em cujo tráfego ocupa todo o tempo tendo totalmente abandonado o exercício de ensinar e ao mesmo tempo não deixa de cobrar por quarteis de 500 tt.s por ano os quais podiam ser úteis, aplicando-se em outras despesas mais necessárias”. P14
Ainda como Governador da Índia, Frederico Guilherme de Sousa ordenou em Maio de 1786 que se pagasse “ao Professor de Gramática Latina, os ordenados que vencer enquanto constar que tem Aula aberta”, mas “não assistindo em todos os dias lectivos na Aula” não devia o Professor Régio receber ordenado.
José dos Santos e Lima respondeu a 2 de Setembro desse mesmo ano dizendo que em doze anos de magistério cumprira sempre as suas obrigações. “Que em prémio deste meu trabalho e de ter gasto a flor de meus anos na instrução da mocidade desta terra (sempre ingrata a quem bem a serve) tem resultado as várias contas que esse Senado alucinado por alguns seus membros menos bem intencionados, tem dado de mim já a corte de Goa já ao Régio Tribunal da Mesa Censória em me pagasse sem perda de tempo tudo o que me estivesse devendo e ao meu primo nomeado para Mestre de Ler, Escrever e Contar, não aceito por esse Nosso Senado e que de contrato proceder se daria por muito mal servida”.

Homem de negócios

Mas o Senado voltou à carga: “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor = Recebeu este Senado a Carta de Vossa Excelência datada de 8 de Maio do ano presente (1786), em que nos participa que (…) ao Professor da Gramática Latina, José dos Santos Baptista em execução da Ordem de V. Ex.a, se lhe mandou intimar que os dias lectivos se pusesse pronto nas horas competentes, para ensinar aos que se quisessem instruir, e como constou a este Senado, junto com o Governador desta Cidade que o dito Professor não assistia como deve, por se ocupar no seu negócio administrando o tráfego do seu Navio Nossa Senhora do Rosário e Almas, lha mandou um estudante a quem paga dez patacas cada mês pretendendo por este motivo receber o seu ordenado de quinhentos taéis, os quais se lhe mandou suspender desde o mês de Setembro. V. Ex.a determinará o que for justo, atendendo sempre, a que uma das causas mais proveitosas nas cidades é a instrução da mocidade, sem o que se não podem criar sujeitos capazes de se empregarem no Governo da República”. Macao, em Mesa de Vereação, 16 de Dezembro de 1786.
Bocage, que terá estado em Macau apenas cinco meses, de Outubro de 1789 a Março de 1790, referindo-se à Educação diz ser muito má.
Naquele tempo em Macau o comércio marítimo rendia somas avultadas e até o Governador entrara nos negócios do contrabando de ópio. Por isso, não é de estranhar que o professor régio José dos Santos Baptista e Lima, com uma prole cada vez maior e um ordenado de professor baixo, que mal dava para sustentar a família, também adquirisse um barco. A posse desta embarcação aparece-nos já em 1785, mas naufragou cinco anos depois, em 1790, nas praias de Gaspar Dias, em Goa.
A 1 de Novembro de 1795 foi José dos Santos Baptista e Lima eleito irmão da Santa Casa da Misericórdia, sendo ainda seu escrivão e provedor. Ficou também ligado à iniciativa de se armarem em Macau navios para em 1809 combater o pirata Cam Pau Sai.
Fica-se a saber pelas contas dos Cofres da Fazenda Real, que o Senado remeteu a 28 de Dezembro de 1787 ao Vice-Rei de Goa e este mandou lembrar que havia empréstimos que não tinham sido cobrados e que José dos Santos Baptista de Lima ainda devia ao Senado duas mil patacas de um empréstimo por seis meses que fizera em 16 de Dezembro de 1784.

Ambiente na cidade

O Senado deu ordem em 1787 ao procurador Filipe Lourenço de Matos para mandar demolir algumas casas chinesas novamente construídas em Mong-há e Patane. Mas mal começou esta obra de destruição, revoltaram-se os mercadores do Bazar. Também os mandarins furiosos exigiram que se demitisse o procurador. Sobre esse assunto, a 25 de Maio de 1787, quando participava na reunião do Senado com o Governador e todos os homens bons, José dos Santos Baptista de Lima disse: .
O Senado, grande responsável pela turbulência na cidade pois não pedira primeiro a autorização do tso-tang para essa demolição, dera as ordens, mas castigou quem as cumpriu. Demitiu o Procurador Filipe Lourenço de Matos e para aplacar a população agitada, nomeou um novo procurador, António José de Gamboa, com quem os mandarins foram convidados a tratar deste assunto. 3 IMG_ 895
Sobre a Educação em Macau, o Desembargador Lázaro da Silva Ferreira escreveu para o Governo da Índia em Dezembro de 1784 queixando-se da realidade que a cidade atravessava: , Dr. José Caetano Soares.
O professor régio era José dos Santos Baptista e Lima; havia um clérigo, chamado António José de Sales, substituto da Escola de Ler, Escrever e Contar.
Nem os franciscanos, nem as clarissas, tinham escolas em Macau, pois apenas pelo exemplo da sua acção e pela caridade das esmolas viviam, no Dao e aí eram professores na abnegação. Após a expulsão dos jesuítas, Leôncio Ferreira referia “a existência de aulas gratuitas, regidas pelos párocos das freguesias” e religiosas só havia escolas dos agostinhos e dominicano, apenas elementares e com reduzido número de alunos.
Aparecia já uma boa escola no Convento de S. Domingos quando, a 16 de Janeiro de 1816 José dos Santos Baptista e Lima faleceu em Macau na freguesia da Sé, após ter aqui residido durante quarenta anos.

15 Jan 2016

Escola Comercial | Portugueses, macaenses, malteses às vezes

A 8 de Janeiro de 1878 foi inaugurada a Escola Comercial, criada por iniciativa da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM). Título apenas para assinalar o dia do seu aniversário, mas sem pretensão de fazer aqui a História desta Escola. Eis, resumidamente, o trajecto que a Educação teve em Macau, ligando a Escola Comercial às outras escolas de matriz portuguesa, até à incorporação na Escola Portuguesa de Macau

O ensino estivera a cargo quase exclusivamente dos jesuítas desde o século XVI, até que estes foram presos e expulsos de Macau em 1762, por ordem do Marquês do Pombal. O Seminário de S. José, por eles fundado apenas em 1728, via assim sair os professores jesuítas expulsos de Macau, o que deixava a cidade sem verdadeiras escolas, tal como sem Universidade, a primeira a existir no Extremo Oriente.

É o fim do primeiro período do ensino em Macau, que Aureliano Barata propõe como tendo acontecido entre 1572 e 1772, havendo a “exclusividade do Ensino por parte da Igreja Católica”.

O desembargador-ouvidor Lázaro da Silva Ferreira escreveu para o Governo da Índia em Dezembro de 1784 a dizer que, como conta J. C. Soares, “depois da extinção dos Jesuítas cessaram aqui as escolas. Não houve mais uma cadeira de latinidade, nenhuma de moral ou teologia. Quem quis aprender foi a Manila, alguns para Goa e outros a quem os meios faltavam ficaram aqui, ouvindo lições de algum clérigo antigo…” Mas Lázaro da Silva Ferreira sabia que isso não era inteiramente verdade pois, nessa altura e já desde 1775, havia em Macau um professor de Gramática Latina, José dos Santos Baptista e Lima, que veio de Portugal, sendo o primeiro professor secular de nomeação régia. Acrescentava Lázaro da Silva Ferreira: “O professor régio com ordenado de 500 taéis ainda não formou um só estudante bom. As religiosas não dão aulas, nem estes conventos têm mestres”. Nota-se aqui um mote dado ao seu amigo, o poeta Bocage.
Para este segundo período, Aureliano Barata refere ter ocorrido entre 1772 e 1835, acontecendo o “predomínio do ensino público pombalino e início da expansão da rede particular de ensino privado, em língua chinesa”.

Até 1784, a educação em Macau vai sempre caindo em qualidade, apesar do Senado a 23 de Dezembro de 1778 solicitar ao Governador da Índia a criação de cinco escolas de ler e escrever, de gramática latina, filosofia, moral e teologia.
Os dominicanos abriram uma escola no Convento de S. Domingos e devido à expulsão dos Jesuítas, o Seminário de S. José em 1784 foi restabelecido e confiado aos lazaristas. Como Colégio de S. José nesse primeiro ano teve apenas oito alunos. Nos anos seguintes chegaram de Goa para aí leccionar os padres Manuel Corrêa Valente, João Agostinho Villa, a que se agregaram outros dois vindos de Portugal. Segundo Ljungstedt em 1815 estavam no Colégio oito jovens chineses, dois malaios e dezasseis rapazes nascidos em Macau e em 1831, sete jovens chineses, dois de Manila, cujos pais eram portugueses e treze nascidos em Macau. Leôncio Ferreira referiu “a existência de aulas gratuitas, regidas pelos párocos das freguesias e pelos frades dos conventos, especialmente o de S. Domingos, que tinham uma boa escola.”

Vila-Francada em Macau

Era Macau ainda um importantíssimo porto de comércio, com uma razoável frota e pela necessidade de haver bons pilotos nas embarcações, foi em 1814 fundada a Academia Militar e da Marinha. Fechou em 1823, pois os lentes do primeiro e segundo ano, respectivamente o tenente-coronel Paulino da Silva Barbosa e o Major António Cavalcante de Albuquerque, foram presos e enviados para Goa, enquanto o lente do terceiro ano, José de Sousa Corrêa, vendo-se só, pediu e obteve o seu regresso a Portugal.

Tal deveu-se à queda do Governo Constitucional a 23 de Setembro de 1823, quando se deu a revolta contra os liberal e colocou-se Macau, entre 1823 até 1825, a ser governado pelo conservador Conselho de Governo, presidido pelo Bispo de Macau Frei Francisco de N. Sra. da Luz Chacim. Juntamente com outros liberais, fugiu também o principal mestre do Convento de S. Domingos, Fr. Gonçalo de Amarante, (o redactor principal do primeiro jornal de Macau, Abelha da China, que de cariz liberal era um semanário criado por Paulino da Silva Barbosa, o chefe do partido constitucional, mas com a tomada do poder pelos conservadores, por ordem judicial do Governo Provisório miguelista mandou-se queimar publicamente às portas da Ouvidoria o jornal de 28-8-1823), que após se refugiar em Cantão, sem esperança de regressar a Macau, algum tempo depois embarcou para Calcutá, onde morreu.

A Revolução Liberal começara em 1820 e advogava para Portugal a implantação da Monarquia Constitucional. Em Macau, como espelho do que se passava em Portugal, em 1822 surgiram dois partidos: o dos conservadores, chefiado pelo Ouvidor Miguel de Arriaga e o dos liberais, pelo tenente-coronel (ou major) Paulino da Silva Barbosa, tendo ao seu lado os dominicanos. Em 5 de Janeiro de 1822 foi publicada por Edital a adesão de Macau à causa da Monarquia Constitucional, que em meados de Fevereiro foi jurada pelos macaenses no Leal Senado da Câmara.

Os lazaristas tinham aderido ao constitucionalismo, mas este movimento sufocado em 23 de Setembro de 1823 foi substituído pelo conservador Conselho de Governo, presidido pelo Bispo de Macau, Frei Chacim. Os lazaristas protestaram e em 4 de Outubro de 1823 foram presos três professores do Colégio. Joaquim Afonso Gonçalves e Luís Álvares Gonzaga fugiram para Manila, regressando poucos anos depois, talvez em 1825, onde continuaram a leccionar no Real Colégio de S. José (o antigo Seminário), que agora tinha na direcção o Padre Nicolau Rodrigues Borja. Por aí passou Jerónimo José da Mata, primeiro, em 1826 como aluno, onde terminou os seus estudos e nos anos trinta do século XIX como professor.

Em Portugal a 1823, com a Vila-Francada, inicia-se a guerra civil entre miguelistas e liberais. A luta pelo poder era entre os Constitucionais, partidários de D. João VI e D. Pedro, que defendiam as ideias liberais e os Conservadores Miguelistas, que pretendiam continuar no sistema do governo tradicional proclamado por D. Miguel, filho mais novo de D. João VI.

A primeira Constituição Portuguesa foi criada em 1822 e esteve em vigência por dois períodos: o primeiro, promulgado a 23 de Setembro de 1822 vigorou até 2 de Junho de 1823, quando as Cortes, após o golpe de D. Miguel a 29 de Maio de 1823, desistiram e deixaram cair a Constituição; o segundo começou com a Revolução de Setembro de 1836 (reconhecida por Revolução Setembrista), que transitoriamente repôs por decreto a Constituição de 1822 e aboliu a Carta Constitucional. Após D. João VI morrer, a 10 de Março de 1826, o seu sucessor, seu filho D. Pedro IV outorgou a 29 de Abril de 1826 uma nova Carta Constitucional, que seguia o modelo francês, o da Carta Constitucional outorgada por Luís XVIII.

Também por decreto de 28 de Maio de 1834 foram suprimidas em Portugal todas as ordens religiosas e congregações, mas só após dois anos a Congregação da Missão (lazaristas) foi dissolvida em Macau, devido à oposição para a execução do decreto do Padre Joaquim José Leite, procurador das Missões e Superior. Os padres que aqui leccionavam tornaram-se seculares e continuaram a ensinar no Colégio.

Assim existiram as escolas régias, até que em 1836, com a vitória do Liberalismo, surgiu um novo modelo de ensino público oficial baseado no sistema francês e novas escolas de iniciativa privada apareceram.

Iniciativas privadas

Abre-se o terceiro período, que para Aureliano Barata aconteceu entre 1835 e 1894, sendo de “grandes reformas do Liberalismo, com a introdução de órgãos mais especializados de supervisão do ensino. Início do ensino secundário, público e privado, em Macau”.

A 16 de Junho de 1847 foi inaugurada a Escola Principal de Instrução Primária, fundada pelo Senado por meio duma subscrição e com o donativo de cinco mil patacas que o negociante inglês James Matheson ofereceu, por ocasião da sua retirada para a Europa. Mais tarde a essa verba juntou-se quatro mil patacas produto da venda anual da lotaria para ajudar a pagar aos professores.

Situada em metade das casas do Recolhimento de S. Rosa de Lima, a Escola Principal de Instrução Primária foi confiada à direcção do macaense padre secular Jorge António Lopes da Silva, que aceitou “ser um dos mestres de primeiras letras com o ordenado de 350 patacas anuais, pondo as seguintes condições: 1) levar consigo os meninos que estudavam em sua casa; 2) os requerimentos para admissão deveriam ser dirigidos não a ele, mas ao Senado; 3) que se alterasse o horário de inverno, pois o tempo do meio-dia às 2 horas lhe parecia curto para descanso de professores e alunos”, como salienta Manuel Teixeira. E com ele continuando: “A escola compreendia três cadeiras; uma de ensino primário, a cargo de Joaquim Gil Pereira, outra de português a cargo do próprio Padre Jorge Lopes da Silva e outra de inglês e francês a cargo de José Vicente Pereira” e chegou a ter trezentos alunos. A Escola esteve no Convento de S. Francisco entre 1 de Maio a 20 de Junho de 1849 mas, como foi necessário aí aquartelar a força auxiliar vinda de Goa, teve de regressar de novo às casas do Recolhimento, começando então a pagar uma renda anual de 75 patacas. Era “onde grande número de órfãos pobres e desvalidos recebiam gratuitamente uma regular educação que se tornava de maior transcendência à vista da decadência de outros estabelecimentos da instrução pública que outrora prestaram grandes serviços” palavras do Senado ao Governador de Macau Isidoro Francisco Guimarães (1851-1863).

Os fundos angariados pela comunidade macaense para a manutenção da Escola Pública eram provenientes do produto da venda de uma lotaria que desde 20 de Setembro de 1852, o Leal Senado foi autorizado anualmente a organizar. Também em benefício desta Escola em 14 de Novembro de 1854 foi feito um Bazar nas casas da Câmara, que rendeu $1073.83. Nos finais de 1853, o Padre Jorge Lopes da Silva, nascido em Macau a 8 de Maio de 1817 e ordenado em Manila com 24 anos de idade, pediu a demissão após sete anos à frente da Escola. Para o seu lugar veio para a direcção da Escola o Padre Vitorino José de Sousa Almeida.

Por portarias do Ministério do Ultramar, o Governador Isidoro Guimarães propôs que a Escola Principal de Instrução Primária fosse a 3 de Novembro de 1858 reunida à do Seminário, onde existia também a instrução primária. Algo recusado antes de 1847 quando, para a fundação da Escola Principal de Instrução Primária, o Senado, por não ter um local para estabelecer um Estudo público, propusera ao Colégio de S. José, que lhe facultasse “algumas salas para ensinar a ler, escrever e contar, doutrina cristã, gramática portuguesa, aritmética, elementos de álgebra e geometria, história geral e particular de Portugal” Padre Manuel Teixeira.

Já a Nova Escola Macaense, idealizada pelo Barão de Cercal, António Alexandrino de Melo, foi inaugurada a 5 de Janeiro de 1862 e contou com três professores contratados na Metrópole, mas fechou em 21 de Outubro de 1867, quando terminaram os contratos de seis anos feitos com os professores.

Ao encontrar o Colégio de S. José apenas com um aluno interno e outros oito ou nove externos, o Bispo de Macau D. Jerónimo José da Mata em 1862 pediu para voltar este estabelecimento de ensino a receber professores jesuítas. Assim chegaram os padres Francisco Xavier Rôndina e José Joaquim da Fonseca Matos e em dez anos, com um “escolhido corpo docente” transformaram o Seminário numa das melhores e exemplares escolas de toda a Ásia. Atraídos por bons professores de diversas nacionalidades, a afluência de alunos era grande, apesar de a maioria não fazer intenção de seguir a vida sacerdotal e assim, quando terminaram o curso, muitos ocuparam lugares de destaque na Administração de Macau.

8 Jan 2016