Os sobreviventes do Passaleão

No artigo da semana passada afloramos a governação de Macau pelo Capitão-de-mar-e-guerra João Ferreira do Amaral e o seu assassinato em 22 de Agosto de 1849, história interrompida na altura em que três dias depois, sem ordem superior o macaense 2.º Tenente Vicente Nicolau Mesquita convida os soldados que o quiserem acompanhar para ir tomar o forte do Passaleão (Pac-Sa-Leong) a meia milha das Portas do Cerco e vingar assim a memória do Governador.

A 25 de Agosto, às 4 da tarde (complementa Armando Cação), “Trinta e seis bravos voluntariamente responderam ao seu brado, e avançaram para o forte debaixo do mais aturado fogo de artilharia e fuzil deste e das iminências, através de difícil terreno, caminhando apenas os soldados um a um, sobre os estreitos valados que em frente do forte cortam o terreno, todo alagado com plantações de arroz; apesar de tudo, dentro de uma hora aquela força se assenhoreou do forte Passaleão, que estava guarnecido com vinte grossos canhões e 400 homens, coadjuvados por mais 2000 nas alturas vizinhas; todos fugiram abandonando a artilharia, armas, e muitas munições.

Este arrojo, que antes do êxito feliz que teve era por alguns reputado louca temeridade, desassombrou Macau, e transtornou completamente os projectos dos chineses, que no interior da cidade já se dispunham para o massacre dos europeus. [Esse temor leva a perceber quanto pesada estava a consciência dos portugueses pela quebra do trato com a China e ser essa ameaça uma desculpabilização à invasão.]

Alguma força britânica e americana tinha desembarcado para proteger os seus compatriotas; mas o conselho do Governo prudentemente não anuiu a que fossem guarnecer as fortalezas, como solicitavam. Cumpre declarar que os ministros e cônsules estrangeiros geralmente manifestaram o maior interesse pela conservação do estabelecimento nesta melindrosa crise; mas ainda desta vez permitiu a providência que se salvasse só pelo esforço e valentia de um punhado de portugueses”, segundo Carlos José Caldeira (1811-1882) em Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. Beatriz Basto da Silva refere ser este “o único confronto significativo entre a China do Sul e Macau, durante os mais de quatro séculos de vizinhança”.

 

Mesquita suicida-se

O Vice-Rei de Cantão a 16 de Setembro de 1849 mandou “um ofício ao Conselho do Governo de Macau participando ter preso, processado e executado, o verdadeiro assassino do Governador João Maria Ferreira do Amaral, Sen-Chi-Leong”, segundo Beatriz Basto da Silva. Quatro meses depois, a 16 de Janeiro as autoridades de Cantão enviam para Macau a cabeça e a mão de Ferreira do Amaral.

Após a tomada do Passaleão, o 2.º Tenente Mesquita a 12 de Janeiro de 1850 foi promovido a Tenente, atingindo mais tarde o posto de Coronel e encontrando-se já na reforma, Mesquita suicidou-se a 19 de Março de 1880, notícia referida no B.O., “Num acto de loucura e desespero, Vicente Nicolau Mesquita tira a vida à esposa, Carolina Maria Josefa da Silveira e à filha mais nova, Iluminda Maria, feriu dois dos filhos e, seguidamente, suicidou-se atirando-se ao poço da sua residência no n.º 1 da Rua do Lilau”.

O Coronel António Joaquim Garcia, Comandante geral da Guarda Policial, por ter incorrido na falta de confiança, em virtude de ter comparecido no funeral do Coronel Mesquita, deixou de exercer as suas funções e passou a ser Comandante da Fortaleza de S. Paulo e do Depósito do Monte. Segundo Beatriz Basto da Silva, “Protestou e foi reabilitado”.

O Coronel Vicente Nicolau Mesquita só muito mais tarde, a 25 de Junho de 1910 será reabilitado pelo Bispo de Macau, João Paulino e puderam assim os restos mortais seguir para o Cemitério de S. Miguel. Nesse mês, Camilo Pessanha contribui com cinco patacas para ser edificado um mausoléu e a 25 de Agosto colabora com o texto “As duas datas”, na edição do jornal A Verdade integralmente dedicado ao Coronel Mesquita, como chama a atenção Daniel Pires.

 

Os bravos do Passaleão

Do grupo de homens que acompanharam Mesquita até ao Forte do Passaleão, passados cinquenta anos, segundo consta, apenas resta Luiz Maria do Rosário. Personagem que O Independente de 13 de Março de 1898 noticia, “Existe com vida, apenas um dos bravos que acompanharam o valente Vicente Nicolau de Mesquita, na tomada de Passaleão”. É filho desta terra e ainda aqui residente. “Alistou-se em 1847 no extinto Batalhão de Artilharia de Macau, onde serviu até 1858, passando a fazer parte do Batalhão Nacional. Foi admitido na Câmara como polícia em 1857, passando em 1860 a exercer o cargo de Alcaide, sendo reformado em 1897 para se poder dar esse lugar ao serventuário actual. Para o convencerem a reformar-se, o que ele não desejava, prometeu a câmara dar-lhe mensalmente, além do seu ordenado, mais cinco patacas para renda de casa, o que apenas se cumpriu durante cinco meses, sendo-lhe depois retirado esse subsídio, apesar de naquela ocasião lhe ter sido certificado que o receberia enquanto vivesse!

Nesta ocasião, em que se procura prestar um preito de homenagem ao valente Mesquita, é de inteira justiça que este bravo, o único que existe dos 36 homens a quem Macau tanto deve, seja de qualquer forma lembrado, parecendo-nos mesmo de inteira justiça que o Leal Senado lhe alvitre, como recompensa do seu feito glorioso e dos seus longos serviços ao município, uma pensão que, por pequena que seja, concorrerá para melhorar, no pouco tempo de vida que lhe pode restar [no entanto, Luiz Maria do Rosário falecerá apenas em Fevereiro de 1913], as circunstâncias em que vive, representando tal benefício ao mesmo tempo um tributo de gratidão”, O Independente.

Por iniciativa do Sr. Genuino A. da Silva foi aberta, entre a pequena comunidade portuguesa de Cantão, uma subscrição que rendeu $50 a favor de Luiz Maria do Rosário, o bravo do Passaleão. Tal serve para colocar de novo achas no conflito entre O Independente e o Leal Senado, no qual o jornal se queixa da diferença de tratamento preferencial dado ao outro jornal, o Echo Macaense. Já neste último semanário, a 24 de Abril, uma carta do IMPARCIAL ao redactor refere conhecer “um outro desse punhado a residir em Hong Kong. É o Sr. José Francisco Campos da Rosa. Era então rapaz, e estava como voluntário no Batalhão Provisório, guardando um dos principais pontos da cidade. Viu passar Mesquita, que lhe disse que ia tomar de assalto o forte. Ofereceu-se para acompanhá-lo, e logo foi aceite.

Mesquita certificou ser este incidente verídico. Este documento estava em poder do contra-almirante Scarnichia, que representava Macau no Parlamento. Queria ele mostrá-lo ao ministro, para conceder uma distinção ao nosso bravo compatriota. Faleceu Scarnichia, e não se sabe para onde foi parar o documento. Existe uma cópia registada no Cartório Judicial”.

Em Hong Kong ninguém se terá lembrado do Sr. José Francisco Campos da Rosa, mas em Macau os alunos do Liceu foram a casa de Luiz do Rosário homenageá-lo durante os festejos.

22 Jun 2018

Ferreira do Amaral e o Passaleão

P ara a comemoração do IV Centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia fora proposto erigir estátuas a homenagear o ex-governador Ferreira do Amaral, assassinado em 1849, e o Coronel Mesquita, cuja memória precisava ainda de ser reabilitada, pois caíra em desgraça em 1880, após em estado de loucura ter assassinado a família, suicidando-se de seguida.

Camilo Pessanha ofereceu-se no início do ano de 1898 “para conduzir o processo de reabilitação do Coronel Mesquita”, segundo Daniel Pires, que refere, nos finais de Abril “realizou-se uma audiência no Paço Episcopal, para serem ouvidas as testemunhas do processo canónico de reabilitação do Coronel Mesquita. Camilo Pessanha era o advogado que representava a comissão organizadora daquela iniciativa”.

Para compreender o que se passara, convém referir estar Macau em território da China (cuja terra era inalienável) e para os portugueses aí se estabelecerem foi encontrada a solução criada já na dinastia Tang, quando os estrangeiros dentro das cidades tinham o seu quarteirão para viver e governarem-se com as suas leis, desde que não atentassem contra os princípios de soberania chinesa.

Ao contrário de Macau, que desde 1573 era um fanfang cristão português, Hong Kong foi ocupada a partir de 1841 pelos ingleses, após a sua vitória sobre os chineses na I Guerra do Ópio (1839-41). A China, destroçada, foi obrigada a abrir os seus portos ao comércio com os estrangeiros, levando a uma época de humilhação, em que se promoviam guerras para demonstrar a superior tecnologia ocidental e assim conseguir chorudas indemnizações, esvaindo os cofres chineses.

Mudança de sistema

O porto de Hong Kong levantou receio aos portugueses de perderem Macau para uma potência ocidental e assim tiveram que tomar soberania da península e desligar-se do governo chinês, quebrando o antigo Trato. “Julgou-se necessário alterar o sistema de administração daquele estabelecimento e ao mesmo tempo se aproveitou a ocasião de reivindicarmos, na parte em que havia sido lesada, a plenitude dos direitos de soberania no território de Macau. Coube ao distinto Capitão-de-mar-e-guerra João Maria Ferreira do Amaral, levar a efeito esta espinhosa tarefa, pondo em execução o Decreto de 20 de Novembro de 1845, que tornou franco o porto de Macau; estabelecendo um novo sistema de impostos, como tornava necessário a supressão da alfândega, única fonte até ali de receita pública; reformando em vários pontos outros ramos da administração, e reduzindo as despesas dela a dois terços do que antes consumia”, segundo Carlos José Caldeira, que continua: “Aumentou porém extraordinariamente esta indisposição das autoridades chinesas quando o mesmo governador, desempenhando a segunda parte da sua missão, deu começo à reivindicação da independência política de Macau. A posse do porto da Taipa, como ponto dependente do território de Macau; construção ali de um forte, onde foi arvorada a bandeira portuguesa; a recuperação do território ocupado pelos chineses, entre a Porta do Campo e a Porta do Cerco, que marca os limites da possessão portuguesa; a supressão dos direitos de tonelagem, chamados medição, que abusivamente se cobrava para o imperador, sobre os navios portugueses que entravam no porto português de Macau; a expulsão desta cidade dos hopus ou alfândegas chinesas, que parece também abusivamente ali tinham sido introduzidos, e que depois da declaração de porto franco se julgaram intoleráveis…”

Pelas actividades chinesas em Macau, percebe-se considerar a China como seu este território e tal é confirmado pelo foro anual pago pelos portugueses desde 1573. O Governador Ferreira do Amaral assumindo o controlo da terra, dava por findo o fanfang de Macau e deixava de pagar em 1849 o arrendamento, quebrando assim o antigo trato com os chineses. Manifestando uma posição de poder, tomou posse das terras para além das muralhas a envolver a cidade cristã portuguesa, o que logo se fez sentir com a vida do Governador. Ainda em 1847, o Senado queixou-se e reclamou para Lisboa contra a obra governativa de Ferreira do Amaral.

Assassinato do Governador

“Na tarde de 22 de Agosto de 1849, o Governador Amaral saíra a cavalo a passear no campo, como de costume, e neste dia só ia acompanhado pelo ajudante de ordens Leite; a menos de duzentos passos antes de chegar à Porta do Cerco, um chinês se aproximou apresentando um papel como de requerimento, e outros saíram de repente detrás de uns pequenos combros de areia que os escondiam, e ao todo sete o atacaram com taifós (espadas curtas e rectas que os chineses usam aos pares, manejando uma em cada mão), e foi-lhes fácil fazer sucumbir um homem, ainda que bastante valente e corajoso, que estava desarmado e só tinha o braço esquerdo. Derrubaram-no do cavalo, e bem assim ao ajudante Leite. Cortaram-lhe a cabeça e a mão, e sem medo ou precipitação as levaram, passando pela porta do Cerco, onde então havia um posto de guarda chinesa, que a duzentos passos observou pacificamente tudo isto, e deixou passar em sossego os assassinos! Existe ainda hoje uma tosca e delgada coluna de pedra no sítio do assassinato…”, escreve Carlos José Caldeira, que chegara a Macau um ano depois deste episódio e aqui esteve de Setembro de 1850 a Janeiro de 1852.

“Este inaudito acontecimento lançou o terror e a consternação na cidade; organizou-se logo o conselho de guerra do governo, e para corresponder à atitude hostil dos chineses (que de antemão haviam guarnecido o Passaleão e vários pontos vizinhos com numerosas forças, ameaçando uma invasão a Macau), [creio, um pressuposto dos portugueses], foi postar-se na Porta do Cerco na manhã de 25 (de Agosto de 1849) uma força portuguesa, [de 24 homens sob o comando do Capitão Fidelis da Costas] sobre a qual os chineses [do fortim] romperam primeiro o fogo, que foi sustentado com calor desde as 10 da manhã às 4 da tarde. O desejo e a indicação geral era ir atacar os chineses; porém os escrúpulos e observações dos diplomatas estrangeiros residentes em Macao, sobre as consequências do que eles chamavam uma violação do território chinês, e alguns ânimos timoratos conservaram o conselho do Governo em indecisão, a qual foi quebrada pela heróica resolução do tenente Mesquita, que sem ordem superior convidou os soldados que o quisessem seguir a irem acometer o Passaleão”, segundo C. Caldeira.

O Fortim do Passaleão, nome dado pelos portugueses a Pac-Sa-Leong, que após ser ocupado foi logo abandonado, mas desde então, e por 30 anos, o terreno entre o pequeno forte e as Portas do Cerco, numa meia milha de distância, passou a zona neutra.

Vicente Nicolau de Mesquita, nascido em Macau a 9 de Julho de 1818, era filho de Frederico Alves de Mesquita, advogado dos auditórios desta comarca. Assentara praça a 9 de Julho de 1835, frequentou com aprovação a aula de Matemática e prosseguiu pelos postos inferiores até 1.º sargento e por decreto de 15 de Julho de 1847 foi despachado 2.º tenente de artilharia.

15 Jun 2018

Avenida Vasco da Gama

I naugurada às 5 e meia da tarde de 20 de Maio de 1898, quatrocentos anos depois do dia da chegada a Calicute da primeira armada portuguesa à Índia, a Avenida Vasco da Gama fora planeada pelo então Director das Obras Públicas, Eng. Augusto Abreu Nunes. Encontra-se no sopé do Monte da Guia e tem 32.500 m², tornando-se o segundo jardim público de Macau e a primeira ampla avenida da cidade. Em alameda, com um comprimento na sua maior extensão de 500 metros e largura média de 65 metros, situa-se entre a Estrada da Flora e a da Vitória e desde a Calçada do Gaio até ao Quartel da Flora. Abreu Nunes quando a descreve no início do seu texto prolonga-a, “… a NE. da cidade, na encosta dos outeiros da Guia e da Flora, entre a estrada da Flora e a da Victoria, estendendo-se desde a Calçada do Gaio até à Rampa da Inveja, que passa junta ao jardim do Palácio de Verão do Governador da Província. (…) É dividida no sentido longitudinal por muitos renques de árvores vulgarmente denominadas de S. José (Ficus chlorocarpas) que, apesar de recentemente plantadas, produzem já um efeito muito agradável e que quando se tornarem frondosas formarão extensas abóbadas de folhagem transformando aquele local num retiro fresco e aprazível.

Do lado do Norte termina a Avenida por um pitoresco jardim com a forma circular cujo diâmetro é de 58 m sendo torneado pela rua central da Avenida. Ao centro do jardim eleva-se um elegante monumento de mármore, levantado pelo Leal Senado em 1864 para comemorar a vitória que em 1622 os portugueses alcançaram contra os holandeses que pretendiam tomar a cidade.” Como dá para perceber por estas palavras do Eng. Abreu Nunes, a avenida termina na Praça de Vitória, mas agora é a data do Monumento que não está em sintonia com a referida pela História.

 

Quartel da Flora

 

Partindo do Palácio da Flora, residência de Verão do Governador, após atravessada a Rampa da Inveja apresenta-se, no extremo Norte do Campo dos Arrependidos, o edifício do Quartel da Flora. Ainda não representado no mapa de 1838, aparece referenciado em 30 de Março de 1882 quando para aí se mudou a 3ª Companhia da Guarda Policial e em 1896, no Quartel da Flora estava instalado o Corpo da Polícia de Macau.

Entrando pela Praça da Vitória, inaugurada a 26 de Março de 1871, tal como o monumento ao centro colocado, “no mesmo jardim, entre o monumento e a rua que o torneia, com o centro na continuação do eixo da Avenida, acha-se implantado um vistoso lago de granito, tendo ao centro uma peça monumental de ferro formada de diferentes bacias de onde se desprende a água que nelas é lançada por meio de um tudo central. Quatro peixes, que ficam num plano inferior, lançam pela boca outros tantos jactos de água. Sobre a bacia superior, três garças simulam gozar aquela agradável frescura rematando assim este gracioso conjunto [o Padre Manuel Teixeira adita, <esta peça encontra-se agora no Jardim da Flora e as garças desapareceram>]. O lago é cercado por uma cadeia de ferro presa a doze pequenas colunatas colocadas nos ângulos de um polígono que o circunscreve sendo ela, a seu turno, cercada por canteiros de flores dispostos segundo uma coroa circular.

Simétricos com o lago e em disposição análoga possui o jardim ainda um fontenário e dois elegantes caramanchões; é muito arborizado e, quando as árvores se desenvolverem, deve tornar-se aquele recinto de uma frescura agradabilíssima”, descrição do Eng. Abreu Nunes.

<Este campo [dos Arrependidos, local onde os holandeses se encontravam e se mostraram indecisos e vacilantes (arrependidos) quando os dois tiros de canhão, calculados pelo Padre Rho e disparados da inacabada Fortaleza do Monte, fizeram estourar o seu barco da pólvora em frente da Praia de Cacilhas], ora transformado numa deliciosa Avenida e plantada de tenras árvores, já esteve regado de sangue…>, assim refere um jovem em 1898 n’ O Provir. Após descrever o lago, “no lado oposto está um fontanário também de ferro colocado simetricamente com o lago e em cada lado dele há um copo de metal preso por uma corrente”.

 

Descrição da Alameda

 

À Praça da Vitória chega a Avenida Vasco da Gama, cujos limites, a Leste tem a Estrada da Vitória e no outro lado, a Estrada da Flora, mais tarde chamada Rua Sidónio Pais. Colocados longitudinalmente na alameda uma fila de bancos de madeira e alguns renques de árvores de S. José.

A cruzar a então longa Avenida Vasco da Gama duas ruas perpendiculares a ligar as estradas laterais, sendo uma próxima da Praça da Vitória, que deve ser a então Rampa da Vitória e a outra, aproximadamente a meio, a fazer a ligação da Estrada do Cemitério com a Estrada da Guia. Nesse pequeno troço, para o lado Leste, entre a Avenida Vasco da Gama e a Estrada da Vitória, aparece já um largo, onde se pretende colocar o busto do navegador. “Contíguo a este largo e do lado da estrada da Victoria procede-se actualmente à construção de um coreto para música, ao centro de um pequeno jardim, sendo este jardim fechado por duas rampas circulares d’ acesso da avenida para a estrada da Victoria que devem produzir um lindo efeito. Do lado da estrada da Flora, é a avenida cercada por sólidos muros de alvenaria e possui diversas escadas e rampas de acesso”, segundo Abreu Nunes.

 

Inauguração da Avenida

 

A cerimónia da inauguração da Avenida, realizada a 20 de Maio de 1898, ocorre no largo, ao lado do coreto que ficará ainda pronto em 1898, onde se projecta erigir o monumento com o busto do navegador português. O Independente de 22 de Maio de 1898 relata, “A acta do lançamento da primeira pedra, depois de assinada, foi encerrada num cofre de bronze, juntamente com uma colecção de estampilhas e bilhetes-postais do centenário, umas provas do Jornal Único (jornal feito para a comemoração), um exemplar do Echo Macaense e outro de O Independente. O cofre foi depois metido num bloco de pedra, onde assentaria o monumento a construir”.

O busto de Vasco da Gama encontra-se ainda em forma de projecto, apresentado com um desenho no Jornal Único, diferente do que virá a ser realizado pelo escultor Tomás da Costa e só inaugurado a 31 de Janeiro de 1911. Abreu Nunes descreve-o em 1898: “Ao centro proximamente da avenida, no ponto onde esta cruza com uma rua transversal que parte da estrada da Flora, existe um largo com a forma poligonal onde se projecta elevar um elegante monumento a Vasco da Gama. Este monumento, representado na 1.ª vista [do Jornal Único], é construído por dois corpos de mármore sobrepostos encimados pelo busto fundido em bronze do grande Navegador; o todo eleva-se sobre uma escadaria de granito de forma hexagonal. Na superfície do corpo inferior de mármore serão colocadas passagens moldadas em bronze alusivas à saída de Lisboa da frota Vasco da Gama que em 1498 descobriu o caminho marítimo da Índia e à sua chegada a Calicut. No corpo superior serão aplicadas, em bronze também, de um lado as armas reais portuguesas e do outro, uma inscrição lembrando a época em que foi levantado o monumento.”

8 Jun 2018

Ainda o Jornal Único

Para sair a 20 de Maio de 1898, o Jornal Único, quando chega o dia de comemorar o Quarto Centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, apresenta apenas as duas primeiras páginas do jornal. A sua publicação vai sendo adiada e os primeiros exemplares saem da tipografia provavelmente a 23 de Maio, sendo distribuídos à medida que as fotografias ficam prontas e coladas. Os primeiros a receber são as entidades da cidade, depois os órgãos de comunicação, que a 5 de Junho já o têm e só mais tarde, a 15 de Junho é que terá sido posto à venda, custando ele cinco patacas.

De capa dura, a apresentação da publicação bilingue, em português e mandarim, é óptima e Dr. José Gomes da Silva tem um papel de vulto na elaboração desse jornal com 55 páginas. “A qualidade da impressão, feita na tipografia de N. T. Fernandes e Filhos e Noronha e Ca., graças à competência de Secundino de Noronha e Jorge Fernandes, era notória. A capa, um desenho aguarelado feito por António Rodrigues Belo, foi litografada e impressa, bem como a ante-capa da autoria dos senhores Fernandes e Noronha.

Além de uma interessante colaboração na parte escrita, apresenta onze fotografias de Macau realizadas por Carlos Cabral e coladas no papel do jornal. Consta haver alguns exemplares desse Jornal Único com fotografias diferentes às estabelecidas.

O Director das Obras Públicas, Eng. Augusto César d’ Abreu Nunes, a quem se devia a ideia e construção da Avenida Vasco da Gama, escreve no Jornal Único sobre essa avenida referindo, “veio preencher uma grande lacuna, que havia na cidade formada de ruas estreitas e de muitos becos sem saída, dando um desafogo aos habitantes de Macau.” Na publicação colaboraram também com artigos entre outros Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha, que apresenta o poema “San Gabriel”, o nome da nau que transportara Vasco da Gama à Índia.

Publicação em Lisboa

O Porvir de 25 de Junho de 1898 refere ter recebido a magnífica revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, Occidente cujo número 697 trata sobre as comemorações do centenário. Vem com 16 páginas e impresso a cores, tendo na parte ilustrada as seguintes gravuras: Paço real d’ Évora, onde El-Rei D. Manuel contratou com Vasco da Gama a sua primeira viagem à Índia; Sines, local onde segundo a tradição, existiu a casa em que nasceu Vasco da Gama; Fortaleza de Sines; Igreja de Nossa Senhora das Sallas, vista exterior e interior; Vidigueira, jazigo dos Gamas: Túmulo onde estão os restos mortais de Vasco da Gama, no Mosteiro dos Jerónimos; e um esplêndido retrato de Vasco da Gama, baseado sobre documentos de família e que representa o grande Almirante das Índias na idade em que ele empreendeu a sua primeira viagem à Índia, este retrato é uma verdadeira novidade.

A parte literária compõe-se dos seguintes artigos: Chronica Occidental, por D. João da Câmara. O retrato de Vasco da Gama, por Brito Rebello; Ilha dos Mortos, por J.C.; Vasco da Gama e a Vidigueira, por A.C. Teixeira de Aragão; Exposição da Imprensa por Silva Pereira; etc.

Um mês antes tinha O Porvir (jornal português de Hong Kong) recebido o Jornal Único e feito a sua apreciação dizendo, “Declara a redacção ter-se deleitado imensamente com a sua leitura e mais se deleitaria se “os srs. Pedro Nolasco e Horácio Poiares não destoassem do concerto colaboratório do jornal inserindo neste umas puerilidades impróprias dele, e as quais, apesar do brilhantismo das produções literárias dos outros colaboradores, e principalmente dos belos artigos do Sr. conselheiro Galhardo e do Revmo. Bispo D. José Xavier de Carvalho, muitos descoram o jornal, com o qual parece que os srs. Nolasco e Poiares quiseram brincar. Estimaríamos sumamente que o tivessem tomado mais a sério e que com algo mais sério tivessem contribuído para ele. (…) Podiam e deveriam ter empregado o seu tempo e a sua ilustração em assuntos de mais interesse e utilidade do que aqueles que preferiram, talvez irreflectidamente”. Ao Echo Macaense não agradou a apreciação feita pel’ O Porvir do artigo do Sr. Pedro Nolasco sobre patois macaense e do conto ‘pueril’ do Sr. Dr. Poiares.

Fotógrafo profissional

O Porvir acha as imagens publicadas no Jornal Único, pouco limpinhas vistas fotográficas. Tal se deve à comparação com as oferecidas ao jornal pelo talentoso e habilíssimo artista Joaquim António, distinto fotógrafo português estabelecido em Bangkok que, na sua passagem por Macau tirou uma série de esplêndidas fotografias instantâneas de alguns dos mais belos edifícios de Macau e dos pontos mais pitorescos da cidade. <Devemos, porém, declarar que se grande é o nosso prazer por tão apreciável mimo, grandessíssimo é o nosso dissabor por não vermos figurar esse trabalho do nosso distinto compatriota, no Jornal Único. Joaquim António, que, após muitos anos de ausência em Bangkok, veio passar alguns meses em Hong Kong e Macau, sua terra natal.

Durante a sua permanência em Macau executou vários trabalhos fotográficos, que foram muito apreciados pelo então Governador de Macau Eduardo Galhardo, que lhe passou um atestado onde certifica que o Sr. Joaquim António, proprietário do The Charoen Krung Photographic Studio em Bangkok, português, natural de Macau, de passagem por esta cidade me prestou e à minha família os seus serviços como fotógrafo, ficando nós muito satisfeitos com a perfeição e nitidez dos seus trabalhos assim como com a modicidade da remuneração por ele exigida; obtendo também dele bastantes provas fotográficas de diversos monumentos, lugares e costumes de Siam e de Macau, que revelam o seu gosto e mérito artístico, pelo que o recomendo a todos os estrangeiros que visitarem o seu estabelecimento em Bangkok, e, especialmente aos meus compatriotas residentes ou em trânsito pela capital de Siam. Macau, 1 de Junho de 1898, assinado Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo.

“Apraz-me ainda registar que este nosso compatrício que tão desprotegido era quando residia em Macau, está hoje vivendo muito bem em Bangkok, onde encontra meios de vida e é muito apreciado, porque o Sr. António não é só fotógrafo, mas um bom desenhador, e como tal esteve há muitos anos para cá empregado nas Obras Públicas de Macau, tendo também acompanhado o Sr. Adolpho Loureiro nos estudos a que S. Exa. procedia sobre o assoreamento do porto de Macau”, n’ O Porvir de 18 de Junho.

Dez dias antes de Joaquim António regressar para Bangkok, o que ocorreu no dia 22 de Junho, O Independente refere serem “raríssimos os casos de peste que se dão em Macau”. Na data da sua partida está já a cidade livre da epidemia, provavelmente pelas muitas preces dos chineses e dos católicos na Igreja de S. António a S. Sebastião, advogado contra a peste. “Podemos considerar, felizmente, de todo extinto este terrível flagelo, que trouxe por alguns meses sobressaltada esta cidade”.

Termina o anual ciclo da peste, a poder estender-se a Julho, Agosto e iniciado em Fevereiro com o despertar da Natureza, quando se recomeça a ouvir à noite os insectos.

1 Jun 2018

O comemorativo Jornal Único

A ideia de editar um número único de um jornal, para comemorar o IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, surgira referida na reunião da comissão do dia 2 de Fevereiro de 1898. Estabeleceram-se diferentes subcomissões, sendo uma encarregada da direcção e publicação de um jornal comemorativo composta pelos senhores, António Joaquim Bastos, Conselheiro Artur Tamagnini da Mota Barbosa, Dr. José Gomes da Silva, Dr. Horácio Poiares, Capitão Eduardo Cirilo Lourenço, Pedro Nolasco da Silva, João Pereira Vasco e contando ainda com dois vultos da literatura portuguesa: Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes. Este último já não é professor do Liceu, apesar de ainda manter o cargo de imediato da Capitania de Macau, do qual será exonerado dezoito dias depois, em Junho, aspirando por incertezas de ir exercer funções de Cônsul em Kobe, no Japão.

Pretende-se que esse Jornal Único seja publicado a 20 de Maio de 1898. A faltar vinte dias, o Echo Macaense de 1 de Maio refere que essa subcomissão “propôs que se eliminasse esse projectado jornal, por não terem aparecido até hoje artigos, a não ser um do Sr. Wenceslau Moraes e também porque as fotografias que o Sr. Carlos Cabral tirou de diversas localidades, para o mesmo jornal, custarão muito caro para serem zincografadas. Quinze dias depois, o mesmo jornal dá a notícia, “ao contrário do que resolvera anteriormente, a subcomissão encarregada desse jornal está trabalhando activamente para o dar à luz, ilustrado com fotografias, por serem estas menos custosas. Segundo nos consta, sairão apenas 50 exemplares no dia 20 do corrente e nos dias seguintes os restantes, à proporção que se for fazendo a tiragem das fotografias; consta-nos mais que cada exemplar virá a custar $2,5”. O Echo de 21 de Maio anuncia, “Espera-se que será posto à venda hoje, ou amanhã. Contará artigos, poesias, a viagem [de dez meses e onze dias] de Vasco da Gama [escrita por João Pereira Vasco para ser traduzida] em chinês, umas 10 fotografias das principais vistas de Macau, com as respectivas descrições, e, segundo se diz, um artigo em patois Macaense. Já O Independente do dia seguinte comenta, “O número único do jornal comemorativo, por deploráveis circunstâncias de força maior, não pôde sair nestes dias. Só estará pronto talvez amanhã”.

Razão para o atraso

Continuando n’ O Independente de 22 de Maio, “Colaboram neste jornal (Único) os srs. conselheiro Galhardo, Bispo de Macau, D. Ana Caldas, conselheiro Tamaguini Barbosa, A. C. Abreu Nunes, comendador António J. Basto, Dr. Camilo Pessanha [com o poema ‘San Gabriel’ escrito a 7 de Maio], António Talone da Costa e Silva, Dr. Horácio Poiares, Wenceslau de Moraes, Dr. José Gomes da Silva, Tenente do estado maior Eduardo Marques, Eduardo C. Lourenço, Mário B. de Lima, Pedro Nolasco da Silva, Abeillard Gomes da Silva, Domingos do Amaral, alferes J. L. Marques e João Pereira Vasco. As fotografias que ornamentam este jornal são: vistas da Praia Grande, do Leal Senado, do Farol da Guia, do Porto Interior, Pagode da Barra, Portas do Cerco, Sé, Gruta de Camões, Avenida Vasco da Gama e uma fotografia do projecto da sua estátua. Todas estas fotografias, que são as melhores que aqui temos visto, foram tiradas pelo distinto amador, Sr. Carlos Cabral.

A capa, que é um primor, foi desenhada pelo Sr. Rodrigues Belo, imediato da canhoneira Liberal e a impressão do jornal feita sobre aguarelas. A composição e impressão são feitas nas tipografias dos srs. Secundino de Noronha e Ca. e N. F. Fernandes e Filhos. Dissemos, no nosso suplemento de terça-feira, que os prelos de Macau nunca produziram uma obra tão perfeita como deverá ser este número único, e de facto assim é, o que muito honra os srs. Noronha e Fernandes. Este número único deve ter umas cinquenta e quatro páginas”.

A 4 de Junho de 1898, o jornal O Porvir, de Hong Kong, afirma que correm boatos de que o Jornal Único foi publicado depois da data prevista por vários artigos terem sido excluídos. Entre estes, um de Camilo Pessanha “em que este distintíssimo advogado estigmatiza o facto, ocorrido, não se sabe onde, de ter um advogado, depois de conseguir uma separação, recebido como honorário a honra da sua patrocinada”. Artigos de Horácio Poiares, Tamagnini Barbosa e João Vasco também teriam sido cortados, ainda segundo aquele periódico, como refere Daniel Pires.

O Independente de 5 de Junho diz ser o Jornal Único um volume de 54 páginas com 11 fotografias de Carlos Cabral impresso nas tipografias dos srs. Fernandes e Noronha. “A qualidade da impressão feita na tipografia de N. T. Fernandes e Filhos e Noronha e C.a, graças à competência de Secundino de Noronha e Jorge Fernandes, é notória”. As folhas apresentam aguarelas com o característico chinês. A capa, um desenho devidamente aguarelado feito pelo Sr. 1.º Tenente da armada António Rodrigues Belo, é litografada e impressa, bem como a ante-capa, digna de especial menção, pelos srs. Fernandes e Noronha.

O preço do jornal será de $5, que é o seu preço de custo, mas só a 15 de Junho é que poderá ser posto à venda.

Três dias antes dessa data, O Independente a 12 de Junho aponta a demora na distribuição unicamente devido à negligência do fotógrafo, pois não tem dado prontas as vistas fotográficas. [De referir que cada exemplar era ilustrado com 11 fotografias, por serem estas menos custosas que se fossem zincografadas, tendo saído jornais com diferentes fotografias]. Diz ainda que os pedidos devem ser dirigidos ao Sr. João Albino Ribeiro Cabral, tesoureiro geral e a distribuição pelos colaboradores e membros da grande comissão foi já feita ontem. Aparece o Jornal Único completo a 11 de Junho de 1898.

Da Guerra Hispano Americana ao fim da Peste

Tal como O Independente, também o hebdomadário O Provir refere a guerra presentemente travada entre a Espanha e a América, “duelo tremendo, provocado por esta última, e que maiores simpatias atrai para a Hespanha, intrigada, provocada e afrontada por uma nação que se diz liberal, e que, à sombra da árvore da liberdade, procura espoliar a outra do que é seu, sem cuidar que com isso pode perturbar a paz universal, tão necessária para as conquistas do progresso e da civilização”.

A Guerra Hispano-Americana ocorre de 25 de Abril a 12 de Agosto de 1898 e é devida à intervenção norte-americana nas guerras de independência, que sobretudo Cuba e as Filipinas travam com Espanha. Nas Filipinas, os espanhóis viriam a ser derrotados a 12 de Junho de 1898, tornando-se estas ilhas do Pacífico independentes, mas logo de seguida anexadas pelos americanos, que vieram para ajudar os nativos e assim estes continuaram na sua luta pela independência.

Perdida a guerra em todas as frentes, a 12 de Agosto de 1898 teve a Espanha que ceder aos EUA as Filipinas, Porto Rico e Guam, tornando-se Cuba independente, mas sobre supervisão americana. Esta guerra custou à Hespanha para acima de dois mil milhões de pesetas, 39 barcos de guerra e um grande prejuízo no comércio colonial.

27 Mai 2018

Quarto e último dia das comemorações

Para o relato do dia 20 de Maio de 1898 juntamos o publicado nos jornais de 22 de Maio, O Independente (que reaparecera a 12 de Setembro de 1897, é redigido pelos professores do Liceu de Macau, João Pereira Vasco, Horácio Poiares, João Albino Ribeiro Cabral e o poeta Camilo Pessanha, tendo a redacção e a administração sediadas no n.º 2 da Calçada do Gamboa) e no Echo Macaense (com o editor Francisco Hermenegildo Fernandes, que retomara essas funções em 11 de Abril de 1897), assinado por Luiz Gonzaga Nolasco da Silva. O Provir, jornal publicado em Hong Kong não traz registo deste dia 20, quando teve lugar a colocação da pedra fundamental para a estátua de Vasco da Gama.

Pela linda e grande alameda passeia muita gente juntando-se para a cerimónia de inauguração ao longo de um largo entre a Avenida Vasco da Gama e a Estrada da Vitória. Às 5 da tarde procede-se ao lançamento da pedra fundamental para o monumento dedicado a Vasco da Gama na Avenida do mesmo nome, outrora Campo da Vitória, escolhido quase a meio da nova Alameda e de frente ao monumento da Vitória alcançada pelos portugueses de Macau sobre 800 holandeses em 1622.

A pedra fundamental está suspensa no ar por uma corda, a um metro de altura do nível do chão, e por debaixo dessa pedra está aberto um fosso. Presentes encontram-se S. Exa. o Sr. conselheiro Governador Galhardo, S. Exa. Reverendíssimo o Sr. Bispo diocesano, D. José Manuel de Carvalho e reverendo clero, o juiz de Direito Ovídio d’ Alpoim, o Presidente do Leal Senado António Joaquim Basto, o inspector Barbosa, o Director das Obras Públicas Abreu Nunes, o Conde de Senna Fernandes, o 1.º intérprete sinólogo Carlos d’ Assumpção, e muitos outros funcionários públicos civis e militares, alguns estrangeiros e muita gente do povo.

Depois de se proceder à leitura da acta e de ser assinada por muitos dos presentes, é esta encerrada numa caixa de cobre (outro jornal diz, num cofre de bronze, de pouco mais ou menos três decímetros de comprido e quinze centímetros de largo), juntamente com uma colecção de estampilhas e bilhetes-postais do Centenário, uma capa e duas primeiras páginas do comemorativo Jornal Único, um número do Boletim Oficial, um exemplar do Echo Macaense e outro d’ O Independente. A caixa, depois de soldada a chumbo, é enterrada no fosso, e em cima dela colocam a pedra fundamental, onde assentará o monumento, sendo a primeira colher de cimento posto por S. Excelência o Governador. São tiradas fotografias no momento em que se procede à colocação da pedra fundamental para o monumento de Vasco da Gama. A estátua, só uma dezena de anos depois.

 

Discursos

 

Durante esta cerimónia, a que assiste o Bispo de Macau, os seminaristas entoam o hino do centenário, o que dá maior solenidade ao acto e imprime uma suave comoção em todos que o ouvem. Queimam-se muitos panchões e os seminaristas de S. José entoam uns cantos patrióticos.

Depois, o Governador, num breve mas sentido discurso, manifesta bem <os sentimentos que lhe vão na alma, de leal e antigo português de lei, que sente o mais íntimo orgulho de pertencer a essa nação de heróis, de que Vasco da Gama é uma das suas maiores glórias e ver, pela terceira vez em quatro dias, reunida a cidade de Macau para o glorificar>. Este discurso, que impressiona o auditório pela convicção com que são ditas as palavras, faz como que nascer em nós a esperança do rejuvenescimento da Pátria portuguesa que, naquele momento, se nos afigura representada, em todo o seu antigo esplendor, no Sr. Conselheiro Galhardo.

Em discurso primoroso na forma e no estilo, o Sr. Dr. Ovídio d’ Alpoim descreve alguns dos episódios mais dramáticos da viagem da Índia. Narra os trabalhos por que passaram um punhado de marinheiros portugueses que pisaram primeiro o solo indiano, e faz notar a energia e tenacidade com que Vasco da Gama venceu todas as dificuldades. A sua palavra nervosa e incisiva mostra-nos, como se fossem desenhadas na tela, essas cenas horrorosas de tormenta, em que <o mar e o vento eram tantos que os navios metiam as postigas debaixo d’ água, e as tripulações empalideciam de susto quando o mar lançava, com estrepito, sobre o tendal, os painéis que as naus levavam no alto dos castelos, à popa, pintados com a imagem dos santos do seu nome>. Lembra também <o terramoto que agitou o mar da Índia quando Vasco da Gama o trilhava pela segunda vez e este almirante, imagem da bravura épica do povo português, acreditou e disse que até as próprias ondas tremiam com medo nosso!> Fala da lealdade deste povo de Macau à coroa portuguesa, única colónia que nunca arreou o pendão das quinas durante os sessenta anos do nosso cativeiro sob o jugo castelhano e pode dizer-se que Macau é filha dilecta da sua mãe pátria, por ser o monumento imorredoiro do antigo predomínio de Portugal no extremo oriente. Faz lembrar aos circunstantes que, naquele momento, mil esquadras de todas as nações se balouçam no formoso Tejo, não para metralharem <a cidade de mármore e de granito>, mas para compartilharem connosco dos festejos da comemoração deste quarto centenário; porque todas essas nações, mais do que nós, têm colhido o fruto das nossas descobertas marítimas. Levanta por fim um Viva a Portugal, desejando que esse brado, que lhe saia da alma, pudesse ressoar no coração da Pátria, que tanto estremecia.

Não podemos dar uma pálida ideia deste esplêndido discurso, que foi um grito patriótico que calou no ´animo` de todos. O Sr. Dr. Alpoim foi muito aplaudido e cumprimentado pelo selecto auditório, que o ouviu encantado”, descrição d’ O Independente. Complementa o Echo Macaense, “Foi o discurso acolhido com entusiasmo; foi o orador cumprimentado pelo Sr. Governador Galhardo e por muitos cavalheiros e o Bispo deu-lhe um abraço.”

Como mais ninguém tomasse a palavra, o Governador dá o acto por findo.

À noite saem os alunos do liceu com uma orquestra, indo tocar e dar vivas em frente de diferentes casas, sendo uma delas a do Sr. Presidente do Leal Senado.

Assim terminam em Macau as festas do centenário da Índia, não tão esplêndidas e faustosas como os seus habitantes desejavam e as circunstâncias sanitárias do país não permitiram, mas cheias de entusiasmo e de ardor patriótico, como se devia esperar dos habitantes desta cidade, dos seus ilustres funcionários e do valente chefe da colónia, o herói de África, o Exmo. Sr. Coronel Galhardo. Nascido em Lisboa em 1845, estudara no Colégio Militar e Escola do Exército e em 1895, é coronel comandante das forças expedicionárias em Lourenço Marques quando termina com a revolta de Gungunhana, chefe dos Vátuas.

Vasco da Gama, como representante real da aventura marítima portuguesa do século XV, encerra o ciclo do desbravar o desconhecido Oceano Atlântico, e realiza a inaugural viagem para o novo mundo, possível pelos conhecimentos técnicos e marítimos dos chineses, que os levara no século I ao Golfo Pérsico.

Para encerrar esse IV centenário só falta o Jornal Único sair neste dia.

18 Mai 2018

Segundo e terceiro dia das comemorações

N o artigo anterior ficou relatado o primeiro dia das comemorações do IV Centenário do Caminho Marítimo para a Índia realizadas em Macau a 17 de Maio de 1898 e agora aqui descrevemos as celebrações dos dois dias seguintes.
O Porvir (hebdomadário ‘Estritamente dedicado a propugnação do bem-estar dos portugueses no Extremo-Oriente’ aparecera a 20-11-1897, com a redacção em Wyndham Street 1A em Hong Kong e editor responsável Luís M. Xavier) refere terem os chineses nas noites de 17, 18 e 19 realizado uma procissão, levando um pagode, cônscios de que com esse ídolo conseguiriam enxotar a peste da cidade, gritando pelo caminho, . Anota-se já em Macau que a peste vai declinando pois, dia a dia, diminui o número de atacados.
A cidade nos quatro dias das comemorações não se iluminara festivamente, mas os edifícios públicos estão-no. Numa das janelas do Leal Senado há um grande quadro, pintado a fresco pelo Sr. Jaime dos Santos (vulgo Meme), representando o desembarque de Vasco da Gama em Calicut. Um outro magnífico quadro transparente, com Vasco da Gama a bordo da nau S. Gabriel, também do mesmo autor, encontra-se na casa de um chinês abastado, o Sr. Francisco Tze Iat (conhecido por Francisco Volong), na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, bairro de S. Lázaro; casa que se apresenta bem iluminada. A “Empreza Económica” representa a sua iluminação por uma enorme estampilha de quatro avos, esplendidamente pintada pelo Sr. Ricardo de Souza Júnior, gerente daquela casa comercial. O Hotel Hing kee apresenta-se com balões chineses e a redacção de O Independente ilumina as suas janelas a balões japoneses.
Em todos os actos, durante os quatro dias dos festejos, a banda militar toca o hino de Vasco da Gama. Já a tuna académica, regida pelo estudante do liceu Fernando Cabral, acompanhada de estudantes da diferentes escolas, percorre as ruas da cidade nas noites de 17, 18, e 20, em marcha aux flambeaux, parando em frente das casas dos professores do liceu, do seminário, do palácio do governo, do paço episcopal, etc. dando entusiásticos vivas à Pátria, aos professores, e outros. Levam uma bandeira de Portugal e o pendão do liceu.

Segundo dia das celebrações

Ao meio-dia de 18 de Maio de 1898 a Fortaleza do Monte salva com 21 tiros e a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia oferece “um bodo aos pobres distribuindo 150 senhas de valor de $1 cada uma, dando aos pobres o direito de proverem-se, no fornecedor Tse-seng, de quaisquer géneros que mais lhes aprouvessem até ao valor das senhas e mandou para as órfãs da Casa de Beneficência das irmãs canossianas carne de vaca e de porco, presunto, galinha, etc., para preparar um bom jantar e iguais géneros mandou para os inválidos de ambos os sexos do Hospital S. Rafael”, segundo o Echo Macaense. Assim se percebe a notícia do Independente e de O Porvir ao referirem haver um bodo a 200 pobres, distribuído por meio de senhas na Santa Casa da Misericórdia.
Durante o dia não ocorre nenhuma outra manifestação e à noite há música no jardim público de S. Francisco com a banda militar. À noite saem outra vez, com a sua orquestra, os alunos do liceu, fazendo também neste dia uma marcha aux flambeaux. Partindo do liceu, seguem em direcção à casa do professor João Pereira Vasco, o qual os convida para subir e lhes serve um copo de vinho e brinda a Portugal, ao povo de Macau e à academia macaense. Dirigem-se em seguida ao Seminário de S. José para saudar os seus irmãos nos estudos. Aí são recebidos com palmas pelo Reverendo Padre Reitor, por todos os professores e alunos, trocando-se diferentes vivas de parte a parte. É-lhes também oferecido um finíssimo copo de vinho. Depois voltando do Seminário passam pela Praia Grande, pelo jardim público de S. Francisco e pelo quartel de S. Francisco, em frente do qual param para dar vivas ao exército.

Terceiro dia de comemorações

Quem escreve com mais pormenor sobre o dia 19 é o Echo Macaense de 22 de Maio, que refere, “Às 5 da tarde achava-se reunido na Gruta de Camões todo o funcionalismo, tendo à testa o Exmo. Governador, todo o Clero e muito povo”. O Provir de 21 de Maio complementa, “com grande concorrência, a cerimónia da colocação de uma coroa no busto de Camões, deposta por S. Exa. o conselheiro governador, que nessa ocasião fez um breve discurso”, dizendo ter o prazer de ver reunida toda a cidade de Macau naquele local tão celebrado na nossa literatura, que a coroa de louros ali colocada junto ao busto do nosso épico atestará aos vindouros o alto e patriótico apreço que esta cidade do Santo Nome de Deus faz do imortal poeta que cantou a viagem do Gama. [No momento em que se procede à colocação da coroa no busto de Camões são tiradas fotografias.] Usa depois da palavra o Sr. Dr. Horácio Poiares, que narra a vida de Luís Vaz de Camões, salientando ter sido Macau a primeira de todas as colónias portuguesas a prestar-lhe culto. Ao lado do governador estão os alunos do liceu, com a sua filarmónica e bandeira portuguesa. Concluída a cerimónia, percorrem os estudantes as ruas da cidade.
Nessa tarde devia ter tido lugar também o lançamento da pedra fundamental do monumento a Vasco da Gama e dizia-se que nessa ocasião faria um discurso o Sr. Dr. Juiz de Direito”, Ovídio d’ Alpoim. A crónica do jornal O Independente é semelhante à de O Provir, apenas dando ênfase ao esplêndido discurso do governador, “repassado do mais ardente patriotismo” e o do “nosso prezado amigo Sr. Dr. Horácio Poiares, que, num entusiástico improviso, frisa principalmente o entranhado amor pátrio do nosso primeiro épico, arrebatando o numerosíssimo auditório com a sua palavra correcta e fluente.” Refere ainda O Independente que, a tuna académica esteve na Gruta de Camões por ocasião da colocação da coroa de bronze, tocando o hino nacional. Saíram da Gruta tocando uma marcha e dirigiram-se a casa do Sr. Comendador Lourenço Marques, que foi quem à sua custa levantou a estátua a Camões, quando aquele pitoresco jardim lhe pertencia. [Este busto, que em 1866 substituíra um outro, é feito em bronze, sendo a autoria de Manuel Maria Bordalo Pinheiro. No pedestal estão gravadas à frente as estâncias I, II e III do Canto I dos Lusíadas e na parte de trás a sua tradução em chinês. Em 1885, a propriedade foi vendida ao governo de Macau e transformada em jardim público, tendo-se nessa altura demolido várias construções que havia sobre os rochedos de Camões.] Feitos os cumprimentos ao venerável ancião, é-lhes servido um delicioso copo de champanhe. Honra seja feita aos estudantes, que deram a nota verdadeiramente festiva do feito que se comemora, organizando o cortejo dirigido pelo estudante do liceu Carlos Cabral.
À noite há música em frente do palácio, terminando assim o terceiro dia das celebrações.

11 Mai 2018

Primeiro dia das Comemorações

Não basta a peste e desde 25 de Abril de 1898 junta-se-lhe notícias da Guerra Hispano-Americana, devido à intervenção norte-americana nas guerras de independência que sobretudo Cuba e as Filipinas travam contra Espanha. Aqui próximo, nas Filipinas, os espanhóis viriam a ser derrotados a 12 de Junho, tornando-se estas ilhas do Pacífico independentes, mas anexadas logo de seguida pelos americanos, prosseguindo os nativos assim na luta pela sua independência. Perdida a guerra em todas as frentes, a 12 de Agosto de 1898 teve a Espanha que ceder aos EUA as Filipinas, Porto Rico e Guam, tornando-se Cuba independente, mas sobre supervisão americana.

Se a nível internacional ocorre a Guerra Hispano-Americana, com barcos de guerra americanos a sair do porto de Hong Kong para ir fazer o cerco a Manila, também neste final de Abril, o ambiente de Macau é bastante desfavorável a grandes festejos para comemorar o IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. Grassa já a peste bubónica e segundo O Porvir de 30 de Abril de 1898, “Diz-se que foi exportada de Hong Kong, pois daí tem fugido muita gente que não gosta do tratamento médico e das medidas sanitárias adoptadas nessa colónia. Bom seria que as autoridades de Macau tomassem medidas rigorosas para evitarem que continue o êxodo de chineses de Hong Kong para Macau”. Devido ao crescente número de casos de peste bubónica, o governo de Macau resolve transformar a abandonada Fortaleza de D. Maria II em lazareto. Por isso, refere O Porvir de 21 de Maio, são eliminados do programa dos festejos do IV Centenário tudo o que pudesse promover aglomeração dos habitantes de Macau, ou concurso dos nacionais ou estrangeiros das colónias, ou povoações próximas.

 

No primeiro dia

Os jornais, como O Porvir de 21 de Maio de 1898 publicado em Hong Kong e em Macau, o Echo Macaense e O Independente, ambos de 22 de Maio, dedicam colunas das suas páginas a descrever o dia-a-dia dessas celebrações. Assim, num apanhado dessas notícias, deixamos aqui registados os quatro dias de comemorações. Como introdução refere O Independente, “Foram modestos e simples os festejos (…), pelas más condições de salubridade em que se encontra esta terra; mas o sentimento patriótico sobressaiu em todos esses actos, sem grandes expansões de entusiasmo, mas intimamente, mas convictamente”.

A cidade acorda, ao raiar do dia 17 de Maio de 1898, com o toque de alvorada às seis da manhã em frente ao Palácio do Governo executado por elementos da guarnição de Macau, enquanto as fortalezas de S. Francisco e de S. Paulo do Monte salvam com 21 tiros. Em seguida, a banda musical da guarnição faz soar o hino do Centenário e segue em direcção ao Paços do Concelho (Leal Senado), onde em frente toca também esse hino e com ele depois prossegue o seu trajecto, percorrendo as ruas da cidade.

À tarde, pelas 5 horas, tem lugar um Te Deum na Sé Catedral. Está a igreja bem decorada, sobressaindo as bandeiras portuguesas que ornam a parte superior do altar-mor e as tribunas, e completamente cheia, tanta é a concorrência do povo que aquele vasto templo mal o pode comportar. Aí está presente o Governador, com o seu estado-maior, o Leal Senado, o Dr. Juiz de Direito com os seus escrivães e oficiais de diligências, o Secretário-geral, o Chefe do Serviço de Saúde, o Inspector da Fazenda, o Procurador Administrativo, o Chefe do Expediente Sínico, os corpos docente e discente do Liceu, oficiais de mar e terra e todo o clero.

O soleníssimo Te Deum tem como celebrante Sua Excelência Reverendíssima o Sr. D. José Manuel de Carvalho, que chegara à cidade a 1 de Março de 1898, após ser eleito Bispo de Macau por decreto de 4 de Fevereiro de 1897 e preconizado em consistório de 16 de Abril desse mesmo ano. José de Carvalho nascera a 16 de Setembro de 1844 em Torigo, freguesia do Barreiro, concelho de Tondela e estudara Teologia em Viseu, onde tomou ordem de Presbítero em 1867 e entrando na Universidade, concluiu em 1881 a formatura em Direito.

No início de um brilhante discurso, o Revendo cónego Conceição Borges declara ser a última vez que ora ao público de Macau. Tece com verdadeiros rasgos de eloquência, que por vezes comovem a audiência, o panegírico do Vasco da Gama e dos portugueses do seu tempo, relacionando o acontecimento que se comemora com a doutrina de Cristo. Depois disto, dois cavalheiros de Hong Kong (o Sr. Kraal e Vicente Senna), a D. Maria Guedes e a D. Emília Pacheco, com a sua belíssima voz de soprano e cheia de sentimento, cantam primorosamente uma Ave-Maria, sendo acompanhados pela orquestra. Ensaiada e regida pelo Dr. Gomes da Silva, é a orquestra constituída por alguns amadores (Condessa de Senna Fernandes e os srs. drs. Gonçalves Pereira, Fernando Cabral, António Vicente da Silva e Carlos Cabral) e seis músicos da banda da Companhia de Infantaria. Segue-se o Te Deum solene cantado pelos seminaristas, estando a parte instrumental a cargo da banda dos alunos do Seminário de S. José. Estes, antes de chegar à Sé, tinham passado pelo Leal Senado, onde interpretaram o hino da Carta. Terminadas aquelas cerimónias, a guarda de honra, postada no Largo da Sé dá três descargas, salvando nessa ocasião a fortaleza do Monte com 21 tiros.

A banda musical do Seminário saindo da Sé dirige-se para o Palácio do Governo onde toca os hinos da Carta e do Centenário, assim como esses alunos dão vivas a Portugal, à família real portuguesa, ao coronel Galhardo e ao Vasco da Gama, recolhendo em seguida todos ao seminário.

À noite, os alunos do Liceu, com archotes e o seu estandarte, percorrem diferentes ruas da cidade, seguindo à frente a sua filarmónica, regida pelo jovem Fernando Cabral. Vão às casas dos seus professores e à do ancião Luiz Maria do Rosário, o brioso militar único sobrevivente dos 32 bravos que tomaram a Fortaleza do Passaleão [nome dado pelos portugueses a Pac-Sa-Leong] e que vive desfavorecido de fortuna. Constatam ser a iluminação dos edifícios públicos igual à habitual, mas quando passam pelo edifício do Leal Senado, numa das suas janelas está colocado um quadro transparente, executado por Sr. Jaime dos Santos e representando a chegada de Vasco da Gama a Calicut. Também à porta da ‘Empresa Económica’, a ocupar toda a sua extensão, outro quadro com a imagem de um selo postal do centenário, o de 4 avos. Iluminado com balões chineses, o Hotel Hingkee tem pintadas bandeiras de todas as nações. Os alunos do liceu são por todos recebidos esplendidamente e erguem calorosos vivas a Portugal, à família real portuguesa, a Galhardo, à Academia macaense e ao povo de Macau.

Em casa do Sr. Conde de Senna Fernandes há uma soirée dançante, onde se acha reunida a elite da cidade.

Este, o programa do primeiro dia das comemorações realizadas em Macau a 17 de Maio de 1898.

4 Mai 2018

Irrompe a febre bubónica

Sabe-se desde 7 de Março de 1898 haver peste bubónica em Hong Kong, mas em meados de Abril em Macau ainda se projectam as diversões e estão-se activando os preparativos para a celebração do IV Centenário. Corridas de velocípedes (bicicletas) a terem lugar no grande terrapleno do Tap-siac, já preparado e onde se irá construir um elegante pavilhão, assim como <a batalha de flores que se efectuará na Avenida Vasco da Gama. Entre as senhoras há grande interesse para esta diversão, esperando-se que alguns carros apresentem decorações de fantasia e de muito gosto, refere O Porvir, jornal em português editado em Hong Kong.

Resolvida está já desde Fevereiro a realização de uma tourada à antiga portuguesa a ocorrer numa praça montada no porto interior, como acontecia para os teatros chineses quando vinham a Macau. O mesmo jornal, ainda a 30 de Abril anuncia um baile grandioso, corridas de bicicletas e batalhas de flores e o lançamento da pedra fundamental de um monumento a Ferreira do Amaral e a Mesquita, mas logo no dia seguinte, o Echo Macaense traz a notícia: Há já peste em Macau. Relata a história do acidente com o Sr. Silva Telles na Horta da Mitra, um dos três locais, a par com o Pátio do Figo e S. Lázaro, aliás bem próximos uns dos outros, onde a peste se tinha instalado. Está provado que onde houver luz, ventilação e pouca acumulação de gente e asseio, não há peste, como no caso do Bairro de Volong, apesar de estar contíguo a todos estes sítios, tem estado quase indemne, porque mui poucos casos ali se deram. A maior parte da gente que habitava o Bairro de Volong, quando era um chiqueiro, passou a encurralar-se em pequenos casebres mal ventilados na Horta da Mitra e Pátio do Figo e daí a peste. Já no resto da cidade, mesmo no Bazar, o estado sanitário é bom.

No Sábado, 23 de Abril, “andava o inspector da Polícia Municipal, o Sr. A. da Silva Telles, conjuntamente com os zeladores na faina de desinfectar numa casa na Horta da Mitra, onde se deu um caso de peste. Como a escada da casa fosse muito estreita, estavam os culis arreando de um terraço os tarecos do quarto onde esteve o empestado, quando de repente uma das tábuas que usualmente formam a cama dos chineses, escapou das mãos de um dos culis e veio bater de chapa na cabeça do dito inspector que imediatamente caiu perdendo os sentidos. Felizmente que a tábua não bateu de cutelo na cabeça; se tal acontecesse, teríamos uma desgraça a lamentar. Dois ou três dias depois, apresentou-se ao serviço o dito inspector, e lá continua na sua faina juntamente com seus zeladores. É inegável que alguns zeladores, especialmente o inspector, têm-se salientado pela coragem e dedicação que mostram no perigoso serviço de saneamento e desinfecção das casas onde se deram casos de peste. Nada há que admirar, todavia, pois já deram provas do que valem por ocasião da epidemia em 1895.”

O mesmo jornal constara ter sido de novo proposto o Sr. Dr. Luiz Lourenço Franco, hoje aposentado, para servir no quadro de saúde desta província, em consequência do estado anormal da salubridade pública. Outra notícia dá conta da lavagem de alguns canos por meio da bomba a vapor da inspecção de incêndios. Refere-se também estar já construído o Hospital barraca atrás da fortaleza de D. Maria II, para nele se recolherem os infelizes atacados de peste bubónica que sejam cristãos.

Reduzir comemorações

Aproxima-se “a época dos grandes festejos projectados, mas a terrível peste bubónica veio arrefecer por completo o entusiasmo que havia. O sobressalto que em todos predomina, mais ou menos nesta ocasião, amorteceu o prurido de expansão e de alegria; além disso, não é de certo agradável a perspectiva de vermos a cidade de Macau invadida por 30 ou 40 mil chineses procedentes dos portos e aldeias vizinhas onde grassa também a peste. A aglomeração de gente é sempre prejudicial e perigosa nas epidemias, e muito mais o será na presente época, se atendermos que toda essa imensa multidão não ficará bem alojada e acumular-se-á em casas pouco espaçosas”, no Echo Macaense de 1 de Maio, que refere, “O meio eficaz de evitá-la é, parece-nos, suprimir todos os festejos espalhafatosos que poderiam servir de chamariz e atractivo para os chineses, tais como as luminárias, os fogos-de-artifício, autos chinas, ornamentação das ruas, exposições de flores e de curiosidades e diversões populares. O dinheiro, tanto do governo como das subscrições chinesas, que se gastaria com estas festas ruidosas, poderia ser mais bem empregado em expropriar e reconstruir um bairro qualquer insalubre, por exemplo, o de S. Lázaro, ao qual se poderá dar o nome de bairro Vasco da Gama”.

Na semana seguinte O Independente diz: “De há muito que é nossa opinião que os festejos que se projectam fazer, para comemorar o quarto centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, não se deveria realizar, atendendo a um conjunto de circunstâncias que, infelizmente, imperam nesta colónia. (…) Não se pode ocultar já, porque é do domínio público, que estamos a braços com uma epidemia de peste bubónica, que traz sobressaltada a maior parte da população desta terra. Algumas vítimas têm sido prostradas por esse terrível flagelo, levando a muitas famílias o luto e a desolação. A população chinesa, que constitui a quase totalidade desta cidade, e sobre a qual a peste tem, principalmente, exercido a sua acção mortífera, está dominada pelo maior terror, está subjugada ao peso de uma dor intensa e cruciante. (…) Com que prazer poderão andar em festas e folias uns centos de portugueses, numa terra pequena como esta, quando a comunidade chinesa, que é a que dá vida a esta colónia e sem a qual a sua existência seria impossível, chora amarguradamente e aterrorizada, promove procissões aos seus deuses implorando misericórdia para tantos males? Que satisfação poderemos nós ter para cuidarmos de iluminações, cortejos e saraus, com bolas de naftalina no bolso e alcatrão e ácido fénico espalhado pelas nossas casas, quando nas igrejas se vão fazendo preces para que o Criador nos livre deste flagelo?”

Um dia depois, a 9 de Maio, o Presidente da Comissão Executiva vem tornar públicas as decisões tomadas e apoiadas no parecer do chefe do serviço de saúde, que vão ao encontro das expressas nos artigos dos jornais acima referidos. Decidido fica não serem enviados convites especiais aos portugueses e estrangeiros residentes fora desta cidade. Igualmente, declara que não serão prejudicados os trabalhos da subcomissão encarregada de estudar e propor o projecto de um monumento a João Maria Ferreira do Amaral e Vicente Nicolau Mesquita, cuja realização depende da conclusão do processo de reabilitação deste oficial, actualmente afecto ao tribunal eclesiástico, trabalhos que prosseguirão logo que seja conhecida a sentença.

A população católica de Macau reza a S. Sebastião, advogado contra a peste, esperando protecção e pela sua divina intervenção, debelar tão grande flagelo.

27 Abr 2018

A subcomissão chinesa dos festejos

Prepara-se a celebração do IV Centenário do Caminho Marítimo para a Índia e sob a presidência do Governador Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (1897-1900) no Palácio do Governo reúne-se a 1 ou 2 de Fevereiro de 1898 a comissão executiva dos festejos, à qual Lu Cau e Ho Lin-vong pertencem, sendo aprovado o programa e nomeadas as subcomissões. Integra uma delas diversas personalidades chinesas influentes na sociedade macaense que, <pela sua posição e boas qualidades, se têm tornado dignos da consideração e respeito dos seus compatriotas>. Presidida pelo chefe da Repartição de Expediente Sínico, Eduardo Marques, é a subcomissão constituída pelos chineses, Ho Lin Vong como Vice-presidente e vogais: Lu Cao, Chon Sin Ip, Ip Lui San, Chan Fong, Choe Sam, Sung San, Lam Ham Lin, Ho Kuong, Vong Tai, Chan Hao Hua, O Loc, Li Kiang Chün e Chie Iet. Tratará dos festejos chineses e fogos de vista e está encarregada de fazer um apelo aos habitantes chineses de Macau, solicitando a iluminação das suas casas. Muitos, deste grupo de chineses, já tinham ajudado o Governo de Macau na preparação de outros festejos, como a visita a esta cidade do Grão Duque Czarevitch Alexandrovitch, filho do ex-Czar Alexandre II da Rússia. O Boletim Oficial de 1891 não refere qual dos irmãos Alexandrovitch, tios e cunhados do então reinante Czar da Rússia Nicolau Nikolaevich (1831-13 de Abril de 1891), pretendeu visitar Macau. Quando por ofício de 21 de Fevereiro de 1891, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Império da Rússia, por via da sua legação em Pequim, comunicou ao Governo de Macau que nos primeiros dias de Abril pretendia o Grão Duque Alexandrovitch fazer uma visita oficial a essa colónia, o Governador de Sua Majestade, Custódio Miguel de Borja (1890-1894) mandou que sua Alteza Imperial fosse aqui recebida com todas as honras inerentes à sua alta hierarquia. Para essa recepção projectavam-se festejos públicos e para tal foi constituída uma comissão extra-oficial composta pelos cidadãos Visconde de Senna Fernandes como presidente, Ho-Lin-Vong vice-presidente, Lu-Cau tesoureiro, Pedro Nolasco da Silva secretário e dos vogais: Chan-Fong, Chou-Sin-Ip, Ho Lin Seng, Ho-In-Kae, Choi-Sam, Ho-Loc, Lam-Am-Lin e Vom-Tac. Pelo Boletim Oficial de 28 de Março de 1891 ficou a saber-se que por falta de tempo essa visita oficial não se iria realizar. O Governador, no B.O. seguinte, publicou um agradecimento à comissão pela sua franca adesão ao convite que fizera, assim como pelo modo especial e bizarro com que a mesma se houve na liquidação final das despesas preparatórias efectuadas, considerando-as por completo à sua inteira responsabilidade.

 

A comunidade chinesa

 

Antes de 1841, a comunidade chinesa a viver em Macau dedicava-se a pequenos negócios e já nos finais do século XVIII tinha criado a Sam Kai Vui Kun, associação dos moradores das três ruas, a dos Ervanários, a das Estalagens e a dos Mercadores, as principais de comércio, reunindo-se desde 1792 no Sam Kai Miu, o Pagode das Três Ruas, [hoje o Templo de Kuan Tai (Guan Yu) na Rua Sul do Mercado de S. Domingos].

Com a criação de Hong Kong, após a I Guerra do Ópio, Macau perdeu a sua importância como porto e daí muitos chineses se terem mudado para a nova colónia inglesa, onde se abriam grandes oportunidades de trabalho e negócios. Usando as suas regionais redes de contactos, os comerciantes chineses começaram a ganhar grande poder económico, enquanto Macau assistia, sem nada poder fazer, ao declínio comercial. Tal levou os governantes portugueses a ter de encontrar outras formas de impulsionar a economia do território e com a chegada do Governador Ferreira do Amaral foi implantado o regime de exclusivos para conseguir financiar as despesas da colónia. Aproveitaram os chineses abastados, que passaram então a controlar a actividade económica de Macau.

Uma das famílias chineses que em meados do século XIX apareceu em Macau foi a de Ho Lo Quai. Este introduziu aqui o jogo do Fantan e a lotaria Vae Seng, tendo ainda outros negócios como, o de terrenos, do ópio, do abate de gado e do exclusivo do sal, que o tornaram milionário. Faleceu em 1888 e dos dez filhos, Ho Lin Vong era o sétimo, que, além de participar com o pai em alguns exclusivos, era ainda proprietário de fábricas instaladas em Macau e tinha adquirido a nacionalidade portuguesa.

Em 1890, uma parte da comunidade macaense achava conveniente ter membros chineses na vereação municipal e propuseram Ho Lin-Vong, como o membro mais popular do clube chinês, onde se reuniam os grandes proprietários e capitalistas, <os indivíduos que estão mais em contacto com as nossas autoridades e com os portugueses em geral>, e Chou-sin-ip, pela parte burguesa da população chinesa, lojistas e comerciantes e cujo seu centro de reuniões era o hospital chinês.

Já nos finais de 1892, por Portaria foi nomeada uma comissão para promover a organização de produtos naturais de Macau e Timor e seleccionar expositores à exposição colonial a realizar em Julho de 1893 no Palácio de Cristal do Porto. Essa comissão, composta por todo o corpo governativo de Macau e Timor, tinha como presidente o Governador Custódio Miguel Borja, e nela se encontravam alguns dos capitalistas da cidade, Chan-Kit-San, Chou-Sin-Hip, Ho-Lin-Vong e Lu-Cau.

As amizades entre estes chineses e a comunidade portuguesa de Macau estão espelhadas na festa dada por Ho-Lin-Vong a 3 de Maio de 1894 para celebrar o feliz resultado obtido por um dos seus filhos no exame de bacharéis em Cantão. Nesse lauto jantar à chinesa, oferecido aos seus amigos, contavam-se os senhores Albano Alves Branco, Amaro d’ Azevedo Gomes, António J. Garcia, Augusto Irmino Serpa, A. d’ Araújo, Albino António Pacheco, Adolpho Corrêa Bettencourt, Conde de Senna Fernandes, Conselheiro Dr. António Marques de Oliveira, Cipriano Forjaz, Clelio do Rozario, Dr. Álvaro Maria Fornellos, Dr. José Gomes da Silva, Dr. Luiz Lourenço Franco, Eduardo Marques, Francisco Maria Salles, Francisco Pereira Marques, Francisco H. Fernandes, Guilherme Menezes, Ignácio da Costa Pessoa, José Ribeiro, Joaquim Madeira, João Albino Ribeiro Cabral, Luiz Eusébio da Silva, Secundino Noronha e Tristão da Cunha Azevedo Carvalhaes, segundo o Echo Macaense.

Um mês depois de ter sido nomeada a subcomissão para tratar da parte respeitante aos chineses da celebração do IV Centenário, por Portaria de 11-3-1898 era nomeada uma comissão para expor os recursos de Macau e os elementos de produção artística e industrial na Exposição Universal de Paris de 1900. Era composta entre outros pelo juiz Dr. Albano de Magalhães, António Joaquim Garcia Presidente do Leal Senado e seu representante Pedro Nolasco da Silva, o Conselheiro Artur Tamagnini Barbosa e os comendadores: António Basto, Lourenço Pereira Marques, Cou-Sin-Hap, Lu-Cao e Ho-Lin-Vong, assim como ainda Cuong-Fat-Chin e Chan-Hoc-Hin, que apresentará em 1899 o seu relatório.

Estas as sinergias para a manutenção de Macau no final do século XIX.

20 Abr 2018

Subcomissões para os festejos

Em Macau, a 2 de Fevereiro de 1898 no Palácio do Governo reúne-se a comissão executiva dos festejos do centenário da Índia para aprovar o programa preparado desde a reunião de 18 de Janeiro e nomear, como aí ficara estipulado, as subcomissões especiais. Relata O Independente, “Presidiu o Sr. Conselheiro Governador, tendo como secretário o Sr. Bandeira de Lima. Aberta a sessão, foi lida a acta da primeira reunião, sobre a qual falaram os srs. Dr. Alpoim, Dr. Alvellos, Pedro Nolasco, Conceição Borges e Conselheiro Galhardo. O esqueleto do relatório da subcomissão apresentado pelo Sr. Presidente é aprovado na generalidade”. O Echo Macaense data a reunião no dia 1.º do corrente e desenvolve-a com detalhes. “Houve uma prolongada e variada discussão e o monumento dedicado à memória dos beneméritos Ferreira do Amaral e Mesquita foi o que prendeu mais a atenção. Dois cavalheiros manifestaram-se contra a inserção da cerimónia do lançamento da pedra fundamental deste monumento no programa dos festejos, mas a maioria votou a favor. Ficou também assente que se trataria sem demora da reabilitação da memória de Mesquita, visto haver todos os elementos necessários para provar que ele foi vítima da alienação mental e por tanto era um irresponsável quando praticou os últimos actos trágicos da sua vida”.

“Pedro Nolasco da Silva e António Joaquim Basto apoiavam a ideia da homenagem e do monumento a Amaral e a Mesquita, mas o Dr. Ovídio d’Alpoim, juiz de direito, e o Dr. Francisco de Lemos e Alvellos, procurador da Coroa e Fazenda, rejeitavam-nos liminarmente”, complementa Amadeu Gomes de Araújo, que segue, “Ovídio d’Alpoim, aludindo ao trágico fim do coronel Mesquita, presume e assevera que nem oficial nem publicamente se lhe pode prestar qualquer homenagem. Também recusava a ideia de se construir uma biblioteca Vasco da Gama, por falta de tempo, sugerindo que se desse aquele nome à biblioteca do liceu. O governador manifestou estranheza perante a discussão, acabando todos por chegar a acordo que não haveria monumento sem prévia reabilitação de Mesquita. Foi aprovada uma carta a enviar às comunidades portuguesas vizinhas, para solicitar apoio: Está aberta a subscrição para custear as despesas desse monumento – lia-se no Apelo patriótico aos portugueses residentes nos países do Extremo Oriente. E o programa das celebrações foi aprovado na generalidade”, após algumas modificações e transposição de alguns números.

Após três horas de sessão, finalmente se procede à nomeação de oito subcomissões especiais a saber: 1.º – Uma, para tratar de promover a subscrição para o monumento de Ferreira do Amaral e Mesquita. 2.º – Uma, para tratar da organização, instalação e inauguração da Biblioteca Vasco da Gama. 3.º – Uma, para tratar da organização do cortejo cívico e da coroa de bronze. 4.º – Uma, para tratar da inauguração da avenida Vasco da Gama, do lançamento da pedra fundamental do pedestal em que será colocado o busto do grande navegador, da iluminação da Praia Grande e avenida Vasco da Gama e das diversões populares. 5.º – Uma, para tratar dos festejos chineses e fogos de vista. 6.º – Uma, para ornamentar a igreja da Sé para o Te Deum solene. 7.º – Uma, para tratar da publicação de um número único de um jornal comemorativo, e para redigir um apelo às comunidades portuguesas de Hong Kong, portos da China, Japão, Sião e Indochina, solicitando as suas adesões à comemoração do centenário, e outro apelo aos habitantes de Macau, portugueses e chineses, solicitando a iluminação das suas casas. 8.º- Uma, para promover o sarau dramático-musical.”

Os trabalhos das Subcomissão

O Independente de 20 de Março refere que “a comissão e as diferentes subcomissões eleitas para levarem a efeito os festejos projectados para a comemoração em Macau do 4.º centenário estão desenvolvendo a maior actividade. (…) A coroa de bronze, que será colocada no pedestal onde assenta o busto de Luís de Camões, foi desenhada pelo professor do liceu, Sr. Matheus António de Lima, que dirigirá também os trabalhos da fundição da mesma coroa.

Está-se já tratando de mandar tirar várias fotografias de vistas de Macau para serem mandadas gravar e servirem para ornar o número único do jornal, que por essa ocasião será publicado.

A subcomissão encarregada de receber os donativos é composta dos seguintes cavalheiros: presidente, o General António Joaquim Garcia; tesoureiro, Carlos Rocha d’ Assumpção; vogais, Augusto César d’ Abreu Nunes, Pedro Nolasco da Silva, Deão Conceição Borges, Dr. Lourenço Pereira Marques, Fernando de Menezes e secretário, José Vicente Jorge. Esta subcomissão fez já distribuir profusamente um impresso pedindo o auxílio de qualquer donativo para custear as despesas a fazer com a erecção do monumento a Ferreira do Amaral e Vicente Nicolau de Mesquita.” O apelo patriótico aos portugueses residentes nos países do Extremo Oriente, transcrito nessa segunda página do jornal, é estimulado pelos já avultados contributos feitos, pois <crê-se que ninguém se esquivará a contribuir, por pouco que seja>”.

Semanalmente, os jornais trazem notícias sobre os activos trabalhos para os festejos e O Independente de 27 de Março refere a autorização do governo central para o aumento da verba destinada a custear os festejos e ter o redactor já visto algumas fotografias de diversos pontos da cidade feitas por Carlos Cabral, <que mais parecem obra de um artista consumado do que de um novel mas distinto amador>. Na reunião de 26 de Março, a subcomissão encarregada de tratar da reabilitação, perante a igreja, do oficial Vicente Nicolau Mesquita refere, <Parece que o Sr. Bispo D. José, que se acha animado dos melhores desejos de poder decretar essa reabilitação, só o fará depois de cumpridas certas formalidades canónicas, o que terá lugar brevemente>.

A 21 de Abril realiza-se uma audiência no Paço Episcopal para inquirição das testemunhas no processo canónico de reabilitação do coronel Mesquita. Preside o Bispo da Diocese, servindo de promotor o Dr. Horácio Poiares e de advogado da parte da comissão executiva dos festejos, o Dr. Camilo Pessanha. Depõem como testemunhas o tenente-coronel Porphyrio Zeferino de Souza, Câncio Jorge, Albino António Pacheco e o pároco de S. Lourenço, padre Almeida.

O Independente, a 24 de Março dá a primeira relação de subscritores e refere a quantia de $66, oferecida pelos portugueses residentes em Cantão e entregue ao seu cônsul Sr. Callado Crespo, assim como os $115 angariados pelo Sr. António Vicente Cortela Maher entre os portugueses de Amoy (actual Xiamen, em Fujian), que José Maria Braga refere serem trinta no ano de 1900.

O arroz é desde os inícios de 1897 o assunto a afligir a cidade. Problema que se vai avolumando devido ao aumento fabuloso do preço que dia a dia vai tendo esse género de primeira necessidade, levando em Março de 1898 o Governador, numa inadiável resolução, a novamente proibir a exportação do arroz pelo porto de Macau.

13 Abr 2018

Uma Comissão para o IV Centenário

O s festejos para comemorar os quatrocentos anos da partida de Vasco da Gama de Lisboa para a Índia, ocorrida a 7 de Julho de 1497, passavam agora a ser para celebrar a sua chegada à costa indiana a 20 de Maio de 1498.

Para o relato das reuniões, onde por proposta do Governador Eduardo Galhardo são constituídas, primeiro uma comissão e na seguinte, as subcomissões para preparar as comemorações desse IV Centenário, socorremo-nos dos jornais, Echo Macaense, cuja primeira reunião aparece descrita a 23 de Janeiro de 1898 e no dia seguinte n’ O Independente (jornal fundado em 1867 e que já ia na quinta série, pois fora por quatro vezes interrompido e o seu director José da Silva com inúmeros processos em tribunal).

A convite do Sr. conselheiro Galhardo reuniram-se a 18 de Janeiro de 1898 no Palácio do Governo pelas duas horas da tarde os principais funcionários e cidadãos portugueses desta colónia e da comunidade chinesa, acima de cinquenta cavalheiros. Instalou-se a sessão na sala de dossel sob a presidência do Governador Galhardo, tomando assento na mesa de presidência, ficando à sua direita o Sr. juiz Ovídio d’ Alpoim e à esquerda o Sr. secretário-geral Bandeira de Lima. Expôs o presidente a finalidade da reunião e fez referência a duas circulares que o governo provincial recebeu da comissão executiva central de Lisboa para as comemorações desse IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. Propunha-se ali resolver a nomeação de uma comissão promotora de festejos para as celebrações em Macau.

Pediu a palavra o Sr. comendador Basto, Presidente do Leal Senado e em conciso discurso patenteou a prontidão em que estava o município para coadjuvar a S. Exa. o Sr. Governador na realização dos festejos que se pretendiam fazer para comemorar um facto histórico que tanto lustre deu a Portugal. Disse também achar conveniente que nesta festa se prestasse uma justa homenagem ao grande poeta Camões, cantor da viagem de Vasco da Gama e que a memória desta festa fosse consagrada por algum monumento duradouro. O Sr. Dr. Lourenço Marques logo deu exemplos de algumas obras e uma delas poderia ser feita, como, a continuação da Estrada da Praia Grande até à Barra, um passeio no planalto da Flora, um chafariz.

 

Comissão executiva

 

Em seguida o Sr. Bandeira de Lima propôs que o Sr. Governador formulasse a lista dos membros da comissão executiva e a apresentasse à assembleia geral para ser aprovada por aclamação; e assim se fez.

Ficou esta comissão executiva formada pelos seguintes cavalheiros: seria Presidente o Sr. Governador Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo e vogais: Dr. Ovídio d’ Alpoim, juiz de direito; cónego Francisco Pedro Gonçalves, Governador do Bispado; Mário Pires Monteiro Bandeira de Lima, Secretário-geral; António Joaquim Basto, Presidente do Leal Senado; deão Manuel J. de Conceição Borges, Presidente do Cabido; conselheiro Arthur Tamagnini Barbosa, inspector da Fazenda; Dr. José Gomes da Silva, chefe do Serviço de Saúde; Tenente-coronel de engenharia Augusto d’ Abreu Nunes, Director das Obras Públicas; João Albino Ribeiro Cabral, professor e reitor do Liceu Nacional; Leôncio Alfredo Ferreira, procurador administrativo dos negócios sínicos; Câncio Jorge, administrador do concelho; Eduardo Marques, chefe da Repartição do Expediente Sínico; Dr. A. de Mello Alvellos [ou será Dr. Francisco de Melo Lemos e Alvellos], delegado do procurador da coroa; Capitão-tenente António Talone da Costa e Silva, Capitão do porto; Tenente-coronel Porphyrio Zeferino de Souza; João de Souza Canavarro, administrador do Concelho da Taipa; Pedro Nolasco da Silva, Dr. Lourenço Pereira Marques, Lu cau e Ho Lin-vong.

Em seguida, “o governador convidou os membros da comissão para se reunirem no dia seguinte a fim de tratar do programa dos festejos; e no entretanto apresentou à consideração da assembleia duas ideias acerca das quais queria ouvir a opinião dos cavalheiros aí reunidos, antes de propô-las à comissão executiva.

Disse ser <de justiça pagar uma dívida de gratidão ao benemérito Governador João Ferreira do Amaral, a cuja energia se deve a verdadeira autonomia de Macau, por isso propunha que entre os Festejos se incluísse a cerimónia de lançar a pedra fundamental para um monumento dedicado à sua memória e associá-lo ao nome do valente Vicente Nicolau de Mesquita, visto que aquele valente oficial salvou a cidade de uma invasão de chineses que poderia ter destruído a obra do dito governador, por isso lembrava que o mesmo monumento fosse também dedicado à memória do Mesquita>. A outra proposta era, como propusera o Presidente do Leal Senado, que <tendo sido Luís de Camões, o cantor das façanhas de Vasco da Gama, era de justiça que também nesta comemoração se prestasse homenagem ao grande poeta que imortalizou nos seus versos esta memorável viagem>, mais, <havendo em Macau a célebre gruta onde diz a tradição que o grande vate compôs parte dos seus poemas>. Aplaudida a dupla proposta, ficou resolvido tratar-se do programa no dia seguinte”, do Echo Macaense.

 

A reunião do dia seguinte

 

“A comissão, que se reuniu no dia 19, nomeou uma subcomissão de sete membros a fim de redigir o programa dos festejos e propor a forma de obter os meios necessários para a sua realização”, segundo O Independente e o Echo Macaense especifica, “Soubemos que foram nomeados para este fim os srs. António Joaquim Basto, Abreu Nunes, Tamagnini Barbosa, cónego Conceição Borges, Pedro Nolasco da Silva, António Talone da Costa e Silva e Lu cao”. E voltando ao jornal O Independente, “Esta subcomissão já assentou nos festejos a propor e na forma de se obterem os meios para se levarem a efeito, devendo em breves dias apresentar o seu relatório”. É ele apresentado e aprovado no dia 1 [para O Independente dia 2] de Fevereiro, no Palácio do Governo, aquando da reunião da comissão executiva dos festejos do centenário, onde também foram nomeadas subcomissões. Tal refere o Echo Macaense de 6 de Fevereiro de 1898, que ainda adita estar “a fábrica de cimento da Ilha Verde iluminada à luz eléctrica, podendo-se ver de Macau quatro focos bem luzentes todas as noites”.

O programa geral formulado pela comissão executiva local, na sua sessão de 2 de Fevereiro, só vem publicado n’ O Independente de 20 de Fevereiro. Assenta os dias em que se realizarão os festejos: 17, 18, 19 e 20 de Maio de 1898 e o programa de cada um desses dias, assim como refere a criação de uma pública biblioteca denominada Vasco da Gama, nome que se quer dar à avenida feita no espaço arborizado entre a Calçada do Gaio e o Monumento da Vitória. Sobre os monumentos, pretende-se colocar uma coroa de bronze no busto de Camões e erguer, em memória de Ferreira do Amaral e Mesquita, um obelisco, que será colocado sobranceiro ao passeio da Bela Vista e para custeá-lo promover-se-á uma subscrição em Macau e entre os portugueses estabelecidos em Hong Kong e nos portos da China, Japão e Indochina”.

6 Abr 2018

A Praça da Vitória na Alameda Vasco da Gama

O Eng. Abreu Nunes, Director das Obras Públicas, projectou a Alameda Vasco da Gama na esplanada criada em 1896 pela retirada da terra do campo da Vitória para terraplenar a várzea do Tap Seac. Aplanado o terreno na encosta da Colina da Guia, tal como o pequeno triângulo a Nordeste, ficava esta extensa plataforma nivelada com a Praça da Vitória.

Os macaenses derrotaram os holandeses em 24 de Junho de 1622, devido a um tiro de canhão disparado desde a inacabada Fortaleza do Monte que fez explodir o barco da pólvora, levando os invasores a retirar precipitadamente em direcção à praia pelo Campo dos Arrependidos onde muitos morreram, alguns às mãos de uma cafre. Conhecido por isso como Campo da Vitória, para comemorar tal feito ergueu-se uma cruz de pedra e por voto solene prometeu-se aí fazer anualmente uma missa. Na Casa da Câmara, no ano de 1622 o Leal Senado em Conselho instituiu a Festa de S. João, assim como depois passou a haver uma procissão que, ao chegar ao Largo do Senado, a Fortaleza do Monte salvava com 21 tiros. Realizada pelo Senado na tarde de 23 de Junho, celebrava-se a procissão de voto popular do milagroso S. João Baptista, ainda no tempo em que Camilo Pessanha aqui habitava.

A missa de Acção de Graças, assim chamada pelo Padre Manuel Teixeira, ocorria numa barraca que para tal fim se armava no plano por baixo da Guia, como refere Carlos Caldeira que segue, “Esta missa se chamava de Vitória, para ela dava o Senado cinco patacas de esmola e concorriam a ouvi-la muitos moradores de Macau e suas famílias, indo as crianças com flores e bandeira: passavam por ali o dia com música e folguedos, numa espécie de festa de arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim caiu em esquecimento parece que desde 1844”. Carlos José Caldeira, o redactor do Boletim Oficial de Macau em 1851, registou a existência ainda de pé da “pilastra de pedra, que é a haste da antiga cruz, cujo braço caiu por um tufão”. O Senado pensou aí construir uma capela a S. João Baptista, que o padre Manuel Teixeira dá como construída, mas desaparecida no século XIX.

A praça celebrava a importante vitória sobre os holandeses, que pretendiam retirar os portugueses do Oceano Pacífico, procurando também derrotá-los em Malaca, para dominar o estreito com esse nome e assim, fechar-lhes a passagem desde o Índico. Se esse oceano era o mar do comércio, no Pacífico encontravam-se os locais de produção e Portugal, então sobre domínio espanhol, continuava aí a dominar na primeira metade do século XVII.

Essa terceira tentativa dos holandeses invadirem Macau foi relatada nas páginas deste jornal a 27 de Junho de 2014, com o título ‘Derrota dos holandeses em Macau no dia de S. João’. Também sobre a invasão dos holandeses em 1622, o Sr. Carlos Augusto Montalto de Jesus escreveu na China Review n.º 3 Vol. 21 o seu provável primeiro artigo com o título ‘Os Feitos de Armas de Macau’, onde faz ainda a descrição da derrota em 1557 de Chang-Si-Lao, nome do pirata que ocupava Macau donde foi desalojado pelos portugueses, a expedição contra Cam-Pau-Chai em 1807 e a tomada do Passaleão em 1849. Assim refere a 9 de Maio de 1894 o Echo Macaense, que alvitra pela qualidade dos textos poder dali sair um livro, o que ocorrerá em 1902.

O MONUMENTO DA VITÓRIA

O monumento a S. João Baptista projectado por uma das Câmaras, terá sido substituído por um outro a 25 de Junho de 1862, na “sessão do Leal Senado em que, por iniciativa do Procurador Lourenço Marques, se deliberou aprovar o desenho do monumento do Jardim da Vitória”, segundo Beatriz Basto da Silva. Em 1864, Lourenço Marques (cujo cargo de Procurador exerceu de 1851 a 1856 e de 1859 a 1861, sendo eleito Vice-Presidente do Leal Senado em 1865) encomendou ao escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro o monumento que veio de Lisboa em 1870.

A Praça da Vitória, tal como esse monumento em mármore colocado no centro, foram inaugurados pelo Governador Sérgio de Sousa a 26 de Março de 1871, era então Lourenço Marques Presidente do Senado. Em estilo reformulado de padrão dos descobrimentos, erguidos nos locais onde os portugueses chegavam nas inaugurais viagens marítimas, tem em cima as armas portuguesas pousadas numa medalha onde torneando está escrito <Cidade do Nome de Deus>. “Na cartela que ostenta as armas de Portugal, lê-se: <Para perpetuar na memória dos vindouros a vitória que os portugueses de Macao por intercessão do bem-aventurado S. João Baptista a quem tomaram por padroeiro alcançaram sobre oitocentos holandeses armados que de treze naus de guerra capitaneadas pelo Almirante Roggers desembarcaram na praia de Cacilhas para tomarem esta Cidade do Santo Nome de Deus de Macao em 24 de Junho de 1622>”.

“Este monumento no decorrer dos anos ia perdendo o seu brilhantismo, as pedras iam-se desconjuntando, inscrições gravadas nas diversas faces iam-se tornando ilegíveis e as ervas cresciam a esmo, sem ninguém se lembrasse de as cortar”, assim refere um jovem ao descrever a Avenida Vasco da Gama num artigo publicado no jornal O Porvir. E com ele continuando, “Mas, felizmente, o Sr. Abreu Nunes, distinto engenheiro e actual Director das Obras Públicas, logo que teve o monumento sob os seus cuidados mandou-o renovar e embelezar, de modo que ostentasse hoje garrido perante a vista dos visitantes”.

Em 1896 realizara-se o recenseamento nos territórios de Macau, onde havia 78.627 habitantes, sendo na península a população terrestre chinesa de 47.255 e marítima de 14.511, número encontrado no primeiro dia da primeira Lua, altura em que ao porto os juncos de pesca aqui vinham para celebrar as festas do Ano Novo. Ainda na península de Macau viviam 3898 portugueses, 79 ingleses, 5 alemães, 26 mouros, 14 espanhóis, 1 holandês, 2 franceses, 7 italianos, 14 japoneses, 7 americanos, um do Sião, um sueco e 4 dinamarqueses, sendo de 65.733 a população. Já na Taipa e Coloane viviam só 92 portugueses e tanto em terra como nos barcos, os chineses eram 12.802, refere o Echo Macaense. António Aresta adita, “De toda esta gente, não sabem ler 70.4%, estando registados 1523 estudantes e 55 professores. As profissões mais representativas são os marítimos (21.724), os criados (8082) e as costureiras (4662). Fora de Macau e espalhados um pouco por todo o extremo oriente encontram-se ainda 2371 portugueses, com relevo para os radicados em Hong Kong (1309) e em Xangai (738)”.

Macau, desde que em 1864 foram destruídas as muralhas a separar o campo da cidade cristã, expandiu-se e integrou o Monumento da Vitória, projectado ainda para fora da muralha. Nessa altura, as residências dos portugueses disseminaram-se pelos bairros chineses e o contrário também ocorreu e como refere Ana Maria Amaro, pelo Boletim de recenseamento de 1896, “pode verificar-se em Macau, uma nítida interpenetração de etnias em todo o território”.

23 Mar 2018

Ideia para fazer uma ampla avenida

A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, propôs em 1896 que fosse celebrado o quarto centenário da partida de Vasco da Gama para a Índia e tal ideia encontrou eco tanto na população como no governo, que logo apoiou a iniciativa e por um decreto formulou o programa das festividades.

Pretendia-se estimular o brio dos portugueses, cujas esperanças se encontravam bastante abatidas após a perda da soberania nos territórios entre Angola e Moçambique, hoje Zimbabué e Zâmbia, inseridos no Mapa Cor-de-Rosa de 1886, e de onde, pelo Ultimato de 11 de Janeiro de 1890, os britânicos exigiram a Portugal retirar-se. Tudo consequência da Conferência de Berlim de 1884-85, quando os países europeus dividiram entre si o Continente Africano, tendo daí Portugal perdido para estes muito do seu território ultramarino.

Colocava-se a imperativa necessidade de trazer à memória as grandes viagens marítimas portuguesas e se nos princípios de Março de 1894 se comemorara no Porto o V Centenário do nascimento do Infante D. Henrique, festas que se estenderam a todo o país, nada melhor do que celebrar o dia 7 de Julho de 1497, quando Vasco da Gama embarcando em Lisboa no São Gabriel partira para a Índia, onde chegou à costa do Malabar a 20 de Maio de 1498. Estava encontrado o tema de gloriosa grandeza, o IV Centenário da partida de Vasco da Gama para a Índia. Querido pois, ensinado desde tenra idade à volta da lareira e aprofundado como História nas escolas, dera aquela viagem início ao território ultramarino espalhado pelo mundo desde há 400 anos e como tal, muito animaria também a alma aos portugueses do Ultramar.

 

PROGRAMA DAS FESTIVIDADES

Seria uma celebração nacional e extensiva a todo o território português, abrangendo todas as classes. A comissão central constituiria no reino, nas ilhas adjacentes e no ultramar, comissões especiais destinadas a promover tal festividade e marcavam-se para 8, 9 e 10 de Julho de 1897 os dias de gala em todo o território português. <Na alvorada de 8, os Paços do Concelho, as fortalezas e navios de guerra nacionais arvorarão a bandeira portuguesa, saudando-a com uma salva de cem tiros de peça, queimando-se grandes girândolas e foguetes e os sinos das igrejas deverão repicar. Os edifícios e estabelecimentos públicos, para além de hastear a bandeira nacional, deverão iluminar as suas fachadas durante esses três dias, tal como ficam convidados os cidadãos para adornar e iluminar as fachadas das suas residências. As autoridades, as corporações administrativas e comissões locais promoverão nas respectivas localidades toda a espécie de demonstrações festivas e muito especialmente as de um carácter geral e popular, como iluminações, arraiais, romarias, danças, cantos e jogos populares>. Além deste programa, aqui reduzidamente exposto, ainda se pretendia cunhar moedas comemorativas de 1000, 500 e 200 réis, medalhas em ouro, prata e outros metais, assim como selos postais. <Em Lisboa realizar-se-ão exposições nacionais, como a de agrícola e pecuária, de caça e pescaria, a de etnografia, a de belas artes e a Exposição colonial Vasco da Gama. Promover-se-á a elaboração de memórias, monografias e outros trabalhos literários e científicos, assim como históricos>. Pretendia-se convidar os governos das nações marítimas, bem como as grandes empresas de navegação a fazer-se representar, pois previam-se para Lisboa regatas, concursos de tiro e de velocípedes, congressos e conferências.

Estava assim lançado o repto. Mas no ano seguinte, quando chegou a data, nada parece ter ocorrido pois nos jornais de Macau não há dela referência. Com Amadeu Gomes de Araújo ficamos a saber as razões, “A morte de Pinheiro Chagas, em 1895, fez adiar os preparativos, só retomados em Maio de 1896. Em 1897, terminou o governo de Hintze e foi já o novo ministério, presidido por José Luciano de Castro, que decidiu concentrar os festejos em 17, 18 e 19 de Maio de 1898, dias de gala nacional”. Reinava D. Carlos, o Diplomata, que foi Rei entre 1889 até 1908.

 

PLANO do Eng. Abreu Nunes

Em Macau, a extensa várzea do Tap Seac, a estender-se até à Praia de Cacilhas, era um vale com aproximadamente cem hectares, sempre alagado, numa cota muito inferior às estradas que o circundavam e a situação piorava com a água das chuvas a escorrer de ambas as encostas dos montes da Guia e de S. Miguel, sendo por isso, um dos principais focos de infecção da cidade. Para sanear essa várzea, o Director das Obras Públicas Eng. Augusto Abreu Nunes planeou ir buscar terra ao campo da Vitória, separado da várzea do Tap Seac pela Estrada da Flora (actual Sidónio Pais), na encosta da Colina da Guia.

Em meados do ano 1896 decorria o trabalho de terraplanagem no sítio do Tap Seac com a terra retirada do campo da Vitória, ficando assim também este terreno aplanado, a um nível de dois metros inferior ao que tinha antes. Constava ir ser o triângulo da Guia nivelado, para o colocar ao mesmo nível da Praça da Vitória, o que daria ao local uma esplêndida esplanada. De uma superfície bastante irregular e com grandes desníveis criou-se um terreno plano, sendo os cortes de forma a regularizar o campo e os caminhos que o circundavam.

Quando apareceu a ideia das comemorações de 1898, lembrou-se o Director das Obras Públicas construir nesse planalto uma ampla avenida, como não havia em Macau e assim criar a Alameda Vasco da Gama, desde a Calçada do Gaio até à Praça da Vitória. O Eng. Abreu Nunes pretendia aí erguer uma estátua a Vasco da Gama e inserir a já existente Praça da Vitória com o seu monumento.

O Monumento da Vitória fora inicialmente projectado com a imagem de S. João Baptista, pois a vitória sobre os holandeses, calhara no seu dia, 24 de Junho. Para construir o monumento a S. João Baptista, que desde 1622 ficara como padroeiro de Macau, o Senado nos inícios dos anos 60 do século XIX avançou sugestões para obter a verba, ou por lotaria ou subscrições voluntárias. No entanto, o projecto foi substituído e a 1 de Fevereiro de 1869, o Presidente do Senado Félix Hilário de Azevedo comunicava ao Governador Sérgio de Sousa a existência no Senado de um fundo de 400 patacas destinado ao monumento a S. João Baptista, mas, devido a problemas políticos, vingara um outro projecto e assim propunha ser esse fundo aplicado ao novo Monumento da Vitória, segundo o Padre Manuel Teixeira. Tal monumento, proveniente de Lisboa das oficinas do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro, foi inaugurado em 1871 conjuntamente com a Praça da Vitória.

Governador de Macau desde 12 de Maio de 1897, Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo ao chegar de Lisboa para iniciar funções tinha já à sua espera o programa definitivo do grande jubileu, enviado a 3 de Maio de 1897 pelo presidente da comissão executiva nacional para organizar os festejos, o Almirante Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (filho do ex-governador de Macau João Maria Ferreira do Amaral), presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e que fora Ministro da Marinha em 1892.

16 Mar 2018

Rua Camilo Pessanha

P ublicado no artigo anterior a parte inicial do discurso do então Presidente do Senado, Dr. Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, que com “breves e sentidas palavras” falava a 3 de Março de 1926 na secção do Leal Senado da Câmara de Macau. Nessa reunião camarária, propôs um voto de profundo pesar pelo passamento de Camilo Pessanha e dar o nome desse ilustre cidadão a uma rua. Em homenagem, “dando-se o caso de o ter conhecido e convivido com ele longos anos, primeiro como seu aluno e depois, colega durante o percurso deste como professor e advogado”. Discurso que aqui continuamos, após ter descrito a acção do advogado dos advogados, versa agora sobre as outras facetas do distinto poeta.

“Como juiz, foi Pessanha de uma austeridade e de uma probidade inconcussas. Lembro-me de que uma vez um nababo chinês tinha uma questão cível pendente da sentença de Pessanha: esse litigante foi visitá-lo algumas vezes, e da última, ao despedir-se, deixou-lhe um envelope sobre a mesa… Pessanha deu pela incorrecção do homem e, obrigando-o a recolher o vil metal, correu-o à bofetada até à porta da rua. Foi assim que Pessanha castigou aquela tentativa de corrupção. Era intransigente em pontos de honra profissional, mas temperava a sua austeridade de julgador com a bondade do seu coração. Todas as vezes que o seu dever lhe impunha uma condenação, procurava aplicar ao réu a menor pena que por lei, podia aplicar-se.

Na situação de juiz substituto em exercício, teve ensejo de revelar, por mais de uma vez, os seus eruditos conhecimentos.

Está ainda na memória dos seus colegas e da família judicial, uma extensa sentença por ele escrita num processo de crime por venda de menor, sustentando que, segundo a idiossincrasia chinesa, tal facto não era criminoso.

Outra vez em que manifestou a pujança do seu intelecto com uma retentiva nunca vista, foi no processo de extradição do mandarim Pui-Keng-Foc, em que esteve seguramente quinze dias a ouvir as declarações do extraditando e outros quinze ditando-as, sem se socorrer dum único apontamento escrito, e sem pôr um ‘digo’ ou fazer qualquer emenda. Quando terminou o seu ditado, com tanta clareza e fidelidade como elegância e vernaculidade, pediu ao intérprete que traduzisse uma a uma as palavras por ele ditadas, e o mandarim Pui, que era também um literato e um poeta, ao acabar de ouvir a tradução da última linha, pediu licença ao juiz, para o cumprimentar por aquele record de assimilação e de retentiva que o fez admirar das faculdades intelectuais do juiz português. E lá da sua prisão na Fortaleza do Monte, escreveu num leque uns versos que dedicou a Camilo Pessanha.

Acham-se dispersos nos arquivos dos tribunais de Macau e da Secretaria do Governo da Província, muitos trabalhos jurídicos de Camilo Pessanha, e é pena que não se faça deles uma edição in memoriam”.

 

De jornalista a coleccionador

 

“Pessanha foi também jornalista, e eu tive a honra de o ter tido por meu colaborador no jornal que fundei, intitulado O Macaense. Neste jornal publicou Pessanha a tradução em versos portugueses, de umas elegias chinesas, seguida de eruditas notas explicativas das passagens ou palavras mais interessantes, e por ventura menos compreensíveis da história e da literatura chinesa. Pena foi que tivesse ficado em meio, ou a menos de meio, aquela tradução, que Sua Excelência com tanto entusiasmo encetara, e que pensava remeter para Portugal para que Dona Ana de Castro Osório fizesse dela uma edição portuguesa. Porém, os bocados de ouro que ficaram arquivados em O Macaense servem para dar aos estudiosos uma ideia da erudição de Pessanha em assuntos da literatura chinesa – pois é bom que se saiba, e que fique escrito, que Pessanha, apesar de não ter tido um único exame de língua chinesa, estudara esta língua, e bem assim as fontes da sua literatura, que bem se podia considerar um bom sinólogo português.

Quantas vezes, em dias calmosos, em que a maior parte da população procura nas distracções fáceis e nas brisas das praias um alívio aos calores da época, quantas vezes, nesses dias, não vi eu Pessanha, com o mestre china ao lado, aprendendo os caracteres chineses e repetindo com o professor os tons e sons da língua sínica! E que Pessanha só se recreava com coisas de espírito, e a civilização chinesa era para ele uma fonte inexaurível de estudo e de recreação do espírito.

Pessanha foi, ainda, um coleccionador de coisas de arte chinesa, as suas salas eram uma exposição permanente de muitos objectos artísticos da China, e na aquisição deles, consumiu Pessanha, estou certo, a maior parte dos seus proventos da advocacia.

Várias vezes, fez Pessanha doação ao Governo Português, do que melhor tinha na sua colecção de arte chinesa, e até ultimamente, um mês antes de morrer, doou ao Estado mais objectos artísticos. Eu lembro-me muito bem de ter visto em Lisboa, no Museu das Janelas Verdes, várias pinturas chinesas, doadas por Camilo Pessanha ao Governo Português. Nestas sucessivas doações, manifestou Pessanha o seu patriotismo”.

 

Nome para uma Rua

 

“Enfim, a morte de Camilo Pessanha veio, como disse, abrir uma lacuna entre os advogados de Macau. O país inteiro o pranteará, porque perdeu um poeta, um jurisconsulto, um artista, e um patriota.

Proponho, pois, que, além do voto de sentimento na acta e da remessa de uma cópia deste parágrafo a seu filho, Sr. João Manuel de Almeida Pessanha, se dê o nome do grande cidadão a uma das vias públicas de Macau. Tenho dito”.

Após a sentida homenagem do Dr. Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, seguiu-se o Vice-Presidente do Leal Senado que se associa “com a maior dor e comoção à proposta de sentimento pela morte da grande individualidade que, em vida, se chamou Camilo de Almeida Pessanha. Já Sua Excelência, o Presidente, no admirável discurso que acabou de pronunciar, pôs em relevo as altas e inconfundíveis qualidades morais e intelectuais que caracterizaram o divino autor da Clepsydra, poema que foi com certeza idealizado num daqueles momentos de êxtase em que o espírito de Pessanha se evolava às mais belas regiões do sonho, envolvido pelo fumo do veneno destilado das rubras papoilas. Só lhe resta, pois, prestar o culto da sua homenagem a quem foi alguém na vida terrena”.

Após o vereador Damião Rodrigues dar o apoio às propostas do Presidente do Senado, associam-se também os outros vereadores, como Jacques Gracias e Pedro Lobo, que reside nesta colónia há bem pouco tempo. Assim aprovada por unanimidade, nesse dia 3 de Março de 1926 assenta-se mudar o nome da Rua do Mastro para Rua Camilo Pessanha, o que deverá acontecer para breve.

Com a construção entre 1910 a 1915 do primeiro lanço da Avenida Almeida Ribeiro, do Largo do Senado ao Porto Interior, a Rua do Mastro ficara dividida e assim o seu nome na parte Norte passava a chamar-se Rua Camilo Pessanha, o que terá ocorrido a 8 de Março de 1926, segundo Beatriz Basto da Silva e do lado “da Rua da Felicidade mantém a designação do Mastro, reduzida a Travessa”.

9 Mar 2018

Funeral de Camilo Pessanha

Às 8 horas da manhã do dia 1 de Março de 1926, o Dr. Camilo de Almeida Pessanha, solteiro com 58 anos, faleceu de tuberculose pulmonar em sua casa, na Rua da Praia Grande 75, freguesia da Sé. A morte do poeta do Simbolismo, autor da Clepsidra, ocorreu no terceiro e último dia em que os relógios eléctricos de Macau estavam parados para limpeza dos instrumentos.

No dia seguinte, 2 de Março, já com os relógios a funcionar, seguiu o funeral do que fora professor do quarto grupo do Liceu Central de Macau para o Cemitério de São Miguel, situado no meio da cidade, com entrada na Estrada do Repouso.

O enterro, “singelo e civil, por sua vontade, como singela decorrera a sua vida, foi enormemente concorrido por pessoas de todas as condições sociais que à última jazida o acompanharam, sempre descobertos, num significativo e compungido silêncio, vendo-se aí do Governador da Colónia, [Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães (1925-1926)] ao mais humilde e obscuro cidadão. A pedido de Pessanha foi transportado num armão militar, o qual, coberto pela bandeira nacional, foi conduzido por sargentos, cabos e soldados e ladeado pelos estudantes do Liceu onde era professor e por alunos de outras escolas”, segundo palavras do jornal O Combate. Refere ainda que, à beira da sepultura o Reitor do Liceu, Sr. Carlos Borges Delgado pronunciou algumas palavras, dizendo, “A tua vida foi o tablado erguido no meio de esperanças perdidas!… Morreste como vivestes… sonhando… idealizando! Nesse mundo do Além o teu sonho continuará. Serás, ali, o mesmo idealista! E tu, saudoso colega, o confessaste claramente quando, para os teus rapazes disseste: <Colocando-se fronteiros dois espelhos, duas imagens se formam; qual delas mais vazia? Dissolvendo-se água límpida em água límpida, ficam ambas duma mesma limpidez>. Adeus!”.

 

Homenagem dos alunos

 

Seguiram-se as palavras de Cassiano Fonseca, representante dos alunos do Liceu: <Diante do cadáver dos que baixam ao túmulo com a consagração do seu talento ou dum relevante serviço que prestaram à causa da humanidade, proclama-se sempre que a morte pouco pode, porque, precisamente esse dia é o dia da sua glorificação. É que os grandes homens não morrem nunca porque vivem cristalizadas nas suas obras. Porque morrer não é apagar-se; transpor os umbrais da eternidade não é extinguir-se para sempre porque há espíritos de eleição que refulgem, numa visão mais nítida nas sombras do mesmo túmulo que nem tudo consome… (…) Mas, mais do que isto e acima de tudo, foste nosso professor como poucos, como raros, um artista distinto na arte de modelar o barro humano… Um educador perfeito, um obreiro mais devoto porque, espírito clarividente, inteligência rutila, conheceis com aquele vosso sentido especial, que foi o vosso apanágio, o mal dos nossos tempos, o mal que nos espera surpreender além das brumas do futuro; (…) E nós, para quem ele não morreu, faremos com que o nosso professor não morra também para o nosso país que serviu e tanto amou, porque o seu nome representa-nos o facho da luz e a lição moral da sua vida pública é para nós o farol que há-se iluminar a vereda que nos há-de conduzir para a nossa finalidade>.

Ditas estas palavras, baixou o Dr. Camilo de Almeida Pessanha à terra no Cemitério de São Miguel, na sepultura de primeira classe número 918, segundo certifica José Francisco de Sales da Silva, Secretário-Geral do Governo interino e Encarregado do Registo Civil da Província de Macau, no registo de óbito. Era uma sepultura rasa com uma laje e o brasão da família, onde, muito mais tarde, em 1971 os netos colocaram a seguinte inscrição em chinês: <Aqui jaz o advogado Pessanha, o pai Yeong Pak San e a mãe Lei Ngoi Iong>. Isto é, Camilo Pessanha (cujo nome em chinês fora Pui-Sane-Ngá), o Pessanha filho (chamado em português João Manuel de Almeida Pessanha) e a sua esposa, nora de Camilo.

 

Elogio ao advogado dos advogados

 

Na secção de 3 de Março de 1926 do Leal Senado da Câmara de Macau o seu Presidente Dr. Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, que fora aluno de Camilo Pessanha, propôs um voto de profundo pesar pelo passamento de tão ilustre cidadão e que fosse dado o seu nome a uma das vias públicas de Macau. E como não podia deixar, <em breves e sentidas palavras>, fez uma sentida homenagem ao seu professor de Filosofia. Camilo Pessanha dedicava-se <ao culto da poesia, tão delicados e subtis eram os seus pensamentos, expressos em versos modelarmente burilados com aquele inspirado estro e paciência técnica que só raros conseguem pôr em prática. Lembro-me muito bem do sucesso que tiveram uns sonetos de Pessanha publicados no Jornal Único, de Macau, em 1898… (…) Nesse mesmo ano parti eu para Portugal a cursar Direito na Universidade de Coimbra (a mesma que Pessanha se formara), onde tive ocasião de conhecer e conviver com um seu irmão, Manuel Luís de Almeida Pessanha, tão inteligente e tão sentimental como Camilo. Ao regressar a Macau, findo o meu curso, vim encontrar Camilo Pessanha feito Conservador do Registo Predial desta Comarca. Ele que tinha sido meu professor no Liceu, foi depois meu mestre na advocacia, pois foi Pessanha quem me ensinou a fazer a primeira petição inicial>.

Na advocacia, <Pessanha foi um modelo de saber profissional, dedicação, honradez e lealdade para com os adversários. Eram vastos os seus conhecimentos gerais, mas na cultura jurídica era um especialista, mormente em direito penal e processo criminal. Apaixonava-se pelas causas que defendia, e na defesa não distinguia entre ricos e pobres, da mesma maneira e com o mesmo afã dedicando-se às causas de uns ou de outros. Era já certo: questão defendida por Pessanha era questão ganha; tal a força da sua argumentação e a perspicácia do seu engenho!

Foi grande a lacuna aberta por sua morte nas fileiras dos advogados da Comarca. Pessanha era, com justo orgulho, um grande mestre na advocacia, e muitas vezes foi “o advogado dos advogados”.

2 Mar 2018

Os derradeiros momentos de Pessanha

Em Macau os relógios eléctricos estão parados desde 27 de Fevereiro devido à necessidade de proceder à limpeza dos instrumentos, quando, às 8 horas da manhã de 1 de Março de 1926 o autor da Clepsidra, Dr. Camilo de Almeida Pessanha faleceu na sua casa situada no número 75 da Rua da Praia Grande.

A poucos metros de distância, nesse dia ia ser inaugurado o novo edifício do Banco Nacional Ultramarino, na Avenida Almeida Ribeiro, fazendo o edifício esquina com a Rua da Praia Grande.

Professor liceal, distinto advogado e admirável poeta, o Dr. Camilo de Almeida Pessanha residira em Macau durante aproximadamente 25 anos, tendo feito quatro viagens a Portugal, algumas por motivos de doença. Se o normal era em Macau se quedar entre oito a dez meses, já na penúltima, a temporada foi mais longa, acima dos cinco anos. Nascera em Coimbra a 7 de Setembro de 1867 e chegara a Macau na primeira vez em 10 de Abril de 1894, sendo a última a 21 de Maio de 1916, de onde não mais saiu.

Viera como professor de Filosofia para o Liceu que iria ser inaugurado e como bacharel, muitos outros cargos aqui desempenhou, como refere sintetizando-os Beatriz Basto da Silva: “Camilo Pessanha veio a ser Conservador da Comarca (posse a 23 de Junho de 1900), Juiz Substituto do Tribunal Judicial (1904), Conservador servindo de Juiz e Presidente do Tribunal do Comércio (1911), Conservador do Registo Predial (1913), 1.º Substituto do Juiz de Direito da Comarca (1919), Auditor do Tribunal Militar, Professor do 4.º Grupo, efectivo no Liceu Central, sendo ali nomeado com Manuel da Silva Mendes como Director de Classe (1919). Foi ainda Juiz do Tribunal Privativo dos Chinas, como substituto (1919); juntamente com Fernando de Lara Reis e por desistência de Humberto Severino de Avelar, foi eleito Vogal do Conselho Administrativo do Liceu Central e, em 1920, Director da área de Geografia no mesmo Liceu, para onde foi nomeado Reitor Interino em 1925. Foi substituto do Juiz de Direito da Comarca (1920).”

Nos últimos tempos de existência, Camilo Pessanha fora nomeado por despacho de 17 de Setembro de 1924 para exercer o cargo de Director das classes 3.ª, 6.ª e 7.ª (letras) do Liceu Central de Macau e como Reitor a 15 de Julho de 1925. No dia seguinte saiu a sua nomeação como director da quarta e sétima classes do Liceu para o próximo ano lectivo. Em 11 de Agosto de 1925 requereu como professor efectivo do quarto grupo do liceu que lhe fosse aumentado o vencimento de categoria por diuturnidade de serviço a contar de 16 de Julho de 1924, nos termos do disposto no artigo 217 do Regulamento da Instrução Secundária de 18 de Junho de 1921. Segundo Daniel Pires, a 4 de Setembro de 1925 Camilo Pessanha pede a exoneração do cargo de Reitor e a partir de 28 desse mês, está de licença por motivos de doença. A 10 de Fevereiro de 1926 solicitava como professor do 4.º grupo do Liceu Central uma licença de trinta dias, que ainda não tivera despacho quando faleceu.

Os últimos desejos

“Há longo tempo que a doença lhe vinha minando o corpo deixando-lhe, todavia, em plena vitalidade aquela sua prodigiosa inteligência que todos lhe reconheciam e que até aos seus últimos momentos de existência na vida o não abandonou. Espírito altamente filosófico e amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida desprendidamente, sem os preconceitos vãos e mentirosos que por aí pululam a contaminar tudo e todos. Alma sempre propensa ao Bem, praticava-o sem ostentação, gozando o prazer da sua consciência satisfeita – e por isso lhe bastava – ao saber que a sua benéfica acção, singelamente praticada, ia concorrer para a debelação de uma angústia ou de um infortúnio”, como escreve o jornal O Combate a 4 de Março de 1926, que finaliza dizendo, “Advogado de rara envergadura, perdeu o foro um dos seus mais inteligentes ornamentos; professor distintíssimo, perderam os seus alunos um bom, devotado e carinhoso mestre; e maçon por convicção, sofreu a Maçonaria e os ideais de liberdade que defende, e sofremos todos nós, a perda de um dedicado irmão e fervoroso defensor dos humildes e desprotegidos”.

“Os últimos momentos passou-os falando do enterro. Não queria ser transportado no carro funerário de Macau: embirrava com essa carripana. Desejava ser conduzido num armão de artilharia e por soldados, o que dizia, talvez não fosse difícil de conseguir visto ter sido frequentemente auditor no Tribunal Militar de Macau. Pobre Camilo Pessanha, bem fácil foi dar satisfação ao seu desejo! E sobre dois pequenos armões, de peças japonesas, assim se efectuou a última jornada de um dos mais curiosos espíritos, de um dos maiores e mais preciosos poetas portugueses”, segundo refere A. de Albuquerque. Já João Gaspar Simões complementa, “Certo de que teria um enterro oficial, professor do liceu que fora e seu reitor, juiz de Direito, advogado no foro local, prestigioso sinólogo e habituado a assistir ao saimento pomposo das outras personalidades locais, quis precaver-se pelo menos contra um dos números obrigatórios do programa. Eis porque, depois de consignar no testamento que pretendia que o seu enterro fosse o menos dispendioso e aparatoso possível, exige que não seja acompanhado de música.

Porquê tal recomendação? Porque fazia parte de todos os funerais solenes de Macau a banda dos alunos do colégio católico da província. Ora o poeta, fina sensibilidade musical, preferia o silêncio ao fungagá dos metais soprados pelos meninos chinas. Obrigado a ouvir ainda, nessa pátria ideal onde o melhor enfim é não ouvir nem ver, os discursos oficiais, pelo menos não ouviu a desafinação agressiva da charanga implacável”.

O Padre António Maria de Morais Sarmento assistiu ao último sopro de vida de Camilo Pessanha, que antes de finar pronunciou calmamente “está tudo a acabar… tudo podridão… tudo matéria…”, e referiu mais tarde, “tê-lo encontrado num estado de espírito que jamais verificara em qualquer moribundo.”

23 Fev 2018

Previsões para o ano do Cão

Ano instável, de grandes mudanças a variar entre extremos, o que coloca as pessoas nervosas. A felicidade encontra-se no lugar muito baixo e para este ano, os nativos de Coelho, Búfalo e Serpente estarão bafejados, ficando os de Dragão com as piores expectativas.

O Deus do Ano (Tai Sui) é Jiang Wu, um general que procura resolver os conflitos e evitar as guerras entre países.

 

Previsões por signos e por anos

O artigo que se segue foi construído a partir do que entendemos das previsões feitas por Lei Koi Meng (Edward Li) e, se muitas das ideias poderão assemelhar-se com as deste geomante, na tradução bastante ficou transfigurado e fora do que ele transmite.

 

Cão

Os nativos deste signo encontram-se em Zhi Tai Sui, o mais forte Fan Tai Sui a significar ter o Deus do Ano (Tai Sui) sentado no topo da cabeça. Se não houver Fu (Felicidade) terá o oposto Huo (desastre); não há meio-termo, apenas extremos, o que significa grandes mudanças. Não se esqueça de a 23 de Fevereiro (oitavo dia do primeiro mês lunar do ano) ir ao templo oferecer sacrifícios ao Deus do Ano, para ficar protegido pelas suas boas graças.

Carreira: Tem três estrelas da sorte que o apoiam: Hua Gai, a representar talento e habilidade, torna-o criativo com muito boas ideias, a trazer-lhe a atenção dos outros; Tai Ji Gui Ren, significa ter alguém a ajudá-lo e Tian Guan, melhoria na carreia. Assim, apenas precisa de trabalhar arduamente para conseguir colocar-se numa boa posição e daí alcançar o posto de comando.

Amor: Para o nativo feminino de Cão, cuidado com a influência da estrela Hua Gai que pode levar a criar conflitos com o seu marido, pois o seu talento e criatividade fazem-na poderosa e, por isso, tentada a impor-se ao companheiro, e, devido à má estrela Jian Feng (Fio da lâmina da Espada), originam-se discussões conflituosas. Terá de ser paciente e agir com calma na sua relação conjugal ou rapidamente ocorrerá o divórcio. Para os não casados, não é ano de encontrar a sua cara-metade.

Saúde: Conta com duas más estrelas, Jian Feng (Fio da lâmina da Espada), operação clínica e Fu Shi (Corpo Morto), representa morte que poderá correr por desastre. Os nativos nascidos no Verão serão os que podem ter mais problemas, pois estão mais propensos a ataques de coração e AVC (Acidente Vascular Cerebral), assim como problemas respiratórios. Por isso, evite fazer exercícios físicos fora de portas e conduza menos o seu veículo motorizado. Emocionalmente refresque-se com banhos de água e coma gelados.

Dinheiro: Conforme a sua relação com o Deus do Ano, também assim irá ser a quantidade de dinheiro a receber.

Entre os nativos de Cão, os que nasceram em 1970 terão as melhores oportunidades de progredir na carreira e por isso, maiores rendimentos do que todos os outros.

1958 – Deverá ter cuidado especialmente com a saúde. É bom fazer uma festa de aniversário. A carreira contará com ajuda.

1982 – Encontrará espaço na carreira para se revelar, mas mesmo trabalhando muito, pouco será o que recebe e por isso, deverá ser paciente.

1994 – Terá ajudas e dinheiro extra. Bom ano para prosseguir com as suas ideias.

Os nativos de Coelho são os melhores para o acompanhar, devendo evitar as pessoas do signo Dragão.

 

Porco

Parece-lhe que este ano vai tudo na boa direcção mas, de facto, o desenvolvimento não será muito, pois não terá fortes estrelas da sorte a suportá-lo na carreira. Procure dar o seu melhor e o resto aparecerá por que tem de ser. Tal é devido à auspiciosa estrela da sorte Tian Xi (Virtude Celeste), que transforma pequenos infortúnios em felizes e harmoniosos acontecimentos, sendo propícia para o casamento e boas relações com todas as pessoas. Através desta estrela vai conseguir um ano mais fácil do que o anterior e fazer mais amigos, do que inimigos. Precisa é de sair mais, participar em mais festas e construir novas amizades. Não terá melhorias na carreira, mas o dinheiro surpreendentemente aparecerá. Se não houver grandes expectativas é um ano em que poderá manter sempre um sorriso na face. Mas terá duas más estrelas, a Bing Fu, a sinalizar doença, coloca os nativos cansados e sem vontade de nada fazer, e a Gua Su, da arrogância, levando-o a viver sozinho, pois sem dar atenção ao que os outros fazem, desconsidera-os. Os seus bons trabalhos levam-no a tornar-se picuinhas perante tudo. Para mudar essa má energia terá de limpar o lixo no seu coração e da sua casa. Deve começar por pensar nas boas razões e não pelo seu negativo. Dê o seu melhor e goze a vida, investindo no convívio com os outros.

Carreira: Crie boas relações sociais para fazer uma base forte de relacionamentos, pois em 2019 será o seu ano de Fan Tai Sui, logo de grandes mudanças. Em convívio, não queira mostrar-se pelo que sabe, mas pelo seu simples estar.

Amor: A estrela da sorte Tian Xi (Virtude Celeste) coloca os nativos atractivos e por isso, se ainda não está casada/o pode ser mais activa/o para encontrar a/o sua/seu companheira/o e mesmo casar-se. O único problema reside em si, pois a má estrela Gua Shu coloca os nativos muito sensíveis e mesmo não havendo vento, ocorrem ondas. Tenha cuidado com a sua disposição e na relação conjugação não seja ranzinza, criando problemas onde eles não existem.

Saúde: A má estrela Bing Fu alerta os nativos a terem muito cuidado com a saúde, sobretudo com o coração e os canais de irrigação do sangue. Aos nativos nascidos no Verão, aconselha-se usar a água como balança ao fogo e por isso, tome duches e faça natação. Com tal ano de fogo, deve reter na mente, manter o coração em paz, sem discussões, nem zangas.

Dinheiro: Terá dinheiro da sorte, podendo ser tão grande, que o vai surpreender. Normalmente não pensa em dinheiro; chegou a boa altura para o usufruir, usando-o para gozar um pouco a vida e viajar.

Para os nativos nascidos em 1971, há a forte hipótese de se tornar rico e essa encontra-se espelhada na face pelo arredondado da zona à entrada das narinas. Ano de grande confiança na sua promissora carreira, a poder desenvolver em diferentes áreas o que pretende fazer. Poderá contar este ano com dinheiro proveniente da sorte.

1983 – Terá fartas oportunidades para se revelar. Receberá boas notícias e a sua posição subirá um degrau.

1959 – Terá amigos a ajudá-lo, assim como de alguém qualificado, encontrando espaço para continuar a desenvolver a carreira. Saia e converse para conseguir ficar informado, o que lhe permite evoluir. Faça uma festa de aniversário para elevar as suas energias.

1995 – Trabalhará bem e o ordenado razoável permite-lhe uma activa vida social, por isso, não gaste tempo em jogos na máquina.

Os melhores parceiros serão os dos signos de Coelho e Tigre.

 

Rato

Os nativos tiveram no ano anterior cinco estrelas da sorte a ajudá-los, o que lhes deu oportunidade para passá-lo sempre com um sorriso na face. Este ano continua a ter uma muito poderosa estrela da sorte, Ba Zuo, relacionada com a carreira, representando ser promovido e ficar na posição de comando. Outras duas estrelas da sorte, Tian Jie (solucionar os problemas) e Jie Shen (resolver a crise), ajudam-no e se tiver planos, ou sonhos, deverá realizá-los neste ano de sorte. Mas terá também sete más estrelas: Tian Gou, fácil criar conflitos, representa acidentes, gastos monetários imprevistos, alguém o engana ou, casa assaltada; Diao Ke relaciona-se com a morte de um familiar; Gua Su, leva-o a viver sozinho pois, arrogante, desconsidera os outros. Outras duas más estrelas são, Xue Ren (Fio da lâmina com sangue), a significar ter que passar por uma cirurgia e Fey Ren (lâmina voadora) com a possibilidade de sofrer um acidente.

Não importa como, com o seu inigualável valor pessoal deverá aproveitar completamente este ano para se expressar e atingir o que pretende. Um caminho cheio de desafios e quantos mais problemas se depara, mais sucesso conseguirá. Aja este ano como um tigre e não como um rato.

Carreira: Sobre o domínio da poderosa estrela da sorte Ba Zuo, os nativos de Rato, sobretudo os nascidos em 1960, têm facilitado o campo profissional e podem contar com uma promoção na carreira, ficando na posição de comando.

Amor: Em oposição à carreira, no amor este ano não será fácil para si. Não importa se é solteira/o ou casada/o, deverá ser paciente, sem discussões, talvez consiga manter o que tem, senão enfrentará grandes problemas. Apenas os nascidos em 1960 terão um harmonioso e grande amor, o que poderá levar ao nascimento de uma criança.

Saúde: A má estrela Xue Ren traz problemas com a saúde, devendo ter cuidado com os olhos, o coração e o pulmões e as mulheres com o útero. Deve controlar a sua maneira de comer, não abusar dos fritos e de alimentos pouco saudáveis. Já para Fevereiro e Junho, devido à estrela Fey Ren, deve tomar muito cuidado com os acidentes.

Dinheiro: Ano em que o uso do dinheiro irá aumentar, tanto no que recebe, como no que irá gastar. Se profissionalmente ganhará mais, também terá imprevistos que levam a despender mais.

1960 – É o melhor de todos os nativos de Rato e não lhe faltará dinheiro. Pode desenvolver os seus projectos, a colocá-la/o numa posição mais firme.

1972 – Terá uma aceitação muito facilitada na sua carreira, que progride bem e leva-a/o a torna-se famosa/o e popular na vida social.

1984 – Consegue, com ajuda, um bom trabalho e receberá dinheiro da sorte. Se trabalhar arduamente este ano, terá um promissor futuro.

1996 – Não precisa de se preocupar com a vida; mostre a sua criatividade e crie uma boa base. Ano para trabalhar, sem questionar quanto vai receber e poderá usufruir de novos paladares.

Combinam bem com os nativos de Búfalo, Dragão e Macaco.

 

Búfalo

Este ano está colocado em segundo lugar, a seguir ao Coelho. No ano do Cão, o búfalo está em Fan Tai Sui, denominado Xing Tai Sui, mas protegido com sete estrelas da sorte a ajudar. As estrelas da sorte, Tian De e Fu Xing, que limpam o caminho e Fu De, a trazer riqueza material e protecção, dar-lhe-ão grande confiança e criatividade. Por isso, tudo o que desejar fazer realizar-se-á sem dificuldades.

A estrela da sorte Ban An representa boas novas vindas do exterior, podendo abrir a sua marca, estender o seu mercado e desenvolver novas áreas. Pelas outras três estrelas, Tian Yi Gui Ren, ligada à criatividade, Tai Ji Gui Ren, a significar ter alguém a ajudá-lo e Guo Yin Gui Ren, ser elevado por uma pessoa poderosa, pois tem o carimbo do país, permitem-lhe contar com enormes ajudas, tanto profissionais como financeiras, e elevam-no à fama internacional.

Sendo um ano em que os nativos de Búfalo estão em Fan Tai Sui, no caso Xing Tai Sui, significando Xing responsabilidade criminal, quando assinar um contrato, ou der garantias por escrito com a sua assinatura, deverá prestar o máximo de atenção e ter muito cuidado. Também ao ver a grande e futura fortuna que está perante si, não deverá correr precipitadamente para ela, sem primeiro pensar bem. Quanto mais rápido chegar, pior.

Contará com três más estrelas, apesar de ser fraco o poder destas. Juan Tun e Jiao Sha trazem aos que a/o rodeiam a inveja, a poder-lhe causar pequenos problemas. Como pessoa que facilmente confia, poderá ter problemas com os parceiros e amigos e por tal, não se desligue totalmente da parte dos negócios ou tarefas que lhes legar, mantendo-se atento, sem facilitar no controlo dessa empresa. A má estrela Gua Su leva-o a viver sozinho, pois crê-se melhor e desconsidera os outros.

Carreira: Desenvolva ou crie uma nova carreira, já que se encontra favorecido, sobretudo para os nativos nascidos em 1985.

Amor: Devido má estrela Gua Su, cuide dos outros e não espere que estes tratem de si. Os nascidos em 1985 têm grandes oportunidades em fazer novos amigos, mas não os confunda com amantes. A harmonia é o mote e para o ser feminino, ao querer agarrar, mais facilmente perde o controlo.

Saúde: Cuidado e previna-se de ataques de coração e AVC, devendo fazer um exame médico. Sugere-se, no início do ano ir ao templo prestar homenagem ao Deus do Ano. A boa saúde torna a sua carreira mais brilhante.

Dinheiro: Ano bom para investir, mas conte que está sobre as más estrelas Juan Tun e Jiao Sha e lembre-se que deve ter cuidado ao assinar os contratos e papéis, pois está num ano de Xing Tai Sui.

1985 – É o melhor ano dos nativos de Búfalo, com grandes oportunidades na carreira e de fazer novos amigos.

1961 – Ano propício para trabalhar e cheio de habilidade e súper confiança atingirá um novo patamar.

1973 – Após uma série de anos a trabalhar arduamente, chegou a hora de receber e começa a conquistar fama. Boa oportunidade para lançar as redes e encontrar novas oportunidades.

1997 – Pense mais detalhadamente no seu projecto criativo. Ano para semear e por isso, não se foque no que poderá agora receber. A sua festa de aniversário fortalecerá amizades.

1949 – Com uma vida social activa, continue a estudar e aprenda novas matérias, como ajuda a enfrentar os novos tempos e esses estudos melhorarão o seu estar.

Conviva com os nativos de Rato e evite os da Cabra.

 

Tigre

A boa combinação com os nativos de Cão e de Cavalo leva os de Tigre a facilmente criar relações e conhecer novas pessoas. Este ano apenas conta com uma estrela da sorte, Hua Gai, ligada ao talento e habilidade, mas, sem ajudas, terá um trabalhar árduo, levando a ficar muito cansada/o. Gostando de planear a longo termo, sem colaboração exterior, coloca uma grande distância entre o que pensa e os factos. Deve evitar expandir os negócios até estes ficarem fora do seu controlo. Terá a má estrela Bai Hu (Tigre Branco), a significar haver pessoas nas costas a dizer mal de si e outras três, Huang Fan, Fei Lian e Da Sha a representar acidentes. Por isso, cuidado com o fogo, na condução, ou nas viagens. Não provoque discussões e lembre-se que pequenas discussões podem evoluir até se transformarem num tornado.

Carreira: Trabalhe calada/o e não se vanglorie, para não recaírem sobre si as atenções, o que pode atrair problemas.

Amor: A boa combinação com o Tai Sui do ano permite uma agradável vida social. Já o seu fogoso temperamento, num ímpeto furor inflamado, cria tempestades nas relações com a sua família e amigos. Também a influência da má estrela Bai Hu (Tigre Branco) pode colocá-la/o em relações duvidosas. O ser nativo feminino deve evitar a guerra fria com o seu parceiro.

Saúde: Os nativos de Tigre e de Cão combinam-se bem, mas entre eles também provocam fogo e assim, se nasceu no Verão, facilmente poderá ter um ataque de coração ou um AVC. Para prevenir, é melhor fazer um exame clínico. Coma mais fruta e vegetais e menos carne. Pratique mais natação. Evite vestir-se de vermelho, sobretudo no Verão e use menos o telemóvel, que também é fogo.

Dinheiro: Não será fácil conseguir dinheiro e se o mantiver, não estará mal.

Os nativos nascidos em 1950 são este ano os mais favorecidos deste signo, tanto na carreira, como no dinheiro. Encontrar-se-á cheia/o de energia e consegue ajuda em diferentes áreas. A sua posição está firme.

1962 – Pode conseguir uma promoção e ficar em lugar de chefia, conquistando o respeito de todos.

1974 – Os seus rendimentos provêm de diferentes fontes e terá oportunidade de conhecer alguém influente, a abrir-lhe a oportunidade para desenvolver a carreira. Necessário fazer a festa de aniversário.

1986 – Precisa de trabalhar muito, sem caminhos fáceis por onde atalhar. As mudanças, para o ser feminino serão maiores. Cuide da sua saúde mental e controle as emoções.

1998 – Estudará bem e atingirá altas notas. Parece que a cabeça se abre, tal é a qualidade com que entende o que lhe ensinam. Cuidado com o estar emocional e não o coloque sobre pressão.

Terá como bom amigo os nativos de Porco, mas evite os do Macaco.

 

Coelho

É o número um dos animais. Comparado com o ano anterior, que era Fan Tai Sui, este é o que melhor combina com o Deus do Ano (Tai Sui). Haverá grandes mudanças e das melhores. Duas poderosas e grandes estrelas da sorte, Zi Wei e Long De, representam conquistar poder e ser promovido, sendo excelentes para a carreira. Terá muita gente a ajudar e o controlo nas suas mãos. Conta com três más estrelas: a Bao Bai (falhar, perdedor) leva a ocorrer algumas mudanças, que não consegue controlar, e Tian E (catástrofes provenientes do Céu) poderá colocar os seus planos ou projectos com problemas fora dos expectáveis, a advertir que deve ser minucioso quando os preparar. A sensibilidade dos nativos de Coelho, traz-lhes a dificuldade de tomar uma decisão peremptória e com a má estrela Huang Fan a criar ondas, tal levará a ficar triste. Neste caso é melhor falar com os seus amigos e pedir-lhes ajuda.

Carreira: O signo do Coelho é o que melhor combina com o do Cão, o que representa ter boas relações com as pessoas e comparado com o ano anterior, em que estava em Fan Tai Sui, este combina-se bem com o Tai Sui. Tal faz com que haja uma total mudança e a/o torna numa nova pessoas, ganhando dos outros mais respeito, torna-se o foco principal. Se trabalhar arduamente e tiver cuidado, a sua carreira poderá atingir o grau mais alto que até agora conseguiu, sendo os nascidos em 1975 os mais bafejados.

Amor: Este ano será bem recebido por todos e carinhosamente tratado, tendo por isso muito por onde escolher. Os solteiros terão grandes hipóteses de se casar. Os casados deverão levar essas amizades para o campo da carreira, o que lhes trará ainda mais melhorias.

Saúde: A combinação dos nativos de Coelho com os de Cão cria fogo e isto é mau para a saúde, especialmente para os nascidos no Verão, trazendo problemas de fígado, de mãos e pés, assim como no respirar. Como sugestão, não coma tanta carne e troque-a por queijo, soja e vegetais regados com vinagre. Sobretudo para os nascidos no Verão, quando este chegar, viaje para um local onde esteja Inverno.

Dinheiro: Um bom ano de colheita, que tanto provêm da boa carreira, como no agarrar das oportunidades, assim como do dinheiro da sorte que lhe virá parar às mãos.

1975 – Com uma boa carreira e o dinheiro do ordenado e o da sorte, é o mais bafejado entre todos os nativos de Coelho. Fará facilmente novos amigos, mas não os misture com a sua vida amorosa, pois muitos momentâneos amantes só complicam a vida.

1963 – Conseguirá ser promovido e obter mais posições de chefia. Há a possibilidade de mudanças e poderá tornar-se dono da sua própria casa.

1951 – Mantenha-se em forma e a trabalhar, pois encontrará tempo para desenvolver os seus pessoais interesses e actividades, que há muito aguardavam por ser realizados.

1987 – Ano para poder expressar-se completamente e progredir na carreira, mas descanse mais, com menos noitadas.

1999 – Será ano cheio de felicidade. Terá uma vida social activa e os estudos correrão bem, devido à sua grande inteligência.

Os nativos de Cão, Cabra e Porco são os seus bons companheiros para cooperar, mas evite os de Galo.

 

Dragão

Lembre-se da palavra: Paciente. Não avance pelo caminho se não o percebe ainda, dê um passo atrás, onde o espaço do Céu e dos oceanos é maior. Não é um bom ano para os nativos deste signo, pois o Fan Tai Sui está em Chong Tai Sui, em oposição e a colidir com o Deus do Ano. Para os nativos nascidos no Outono e Inverno será menor esse efeito de mudança, do que para os nascidos na Primavera e Verão. As pessoas idosas deverão ter ainda mais cuidado com a saúde. Para os jovens, essas novas e enormes ondas servem de aprendizagem e pela riqueza com que as grandes mudanças alimentam a consciência da essência, mais substancial se torna a matéria.

O poder da estrela da sorte é tão fraca, que pode considerar não ter para este ano essa ajuda. Conta com quatro más estrelas: Da Hao, gastar uma fortuna; Lan Gan, haver grades/vedações; Bao Wei, cauda do leopardo; e Po Sui a referir uma separação. Significa que algo fora do espectável poderá acontecer e a/o levará a gastar muito dinheiro, complicando as suas finanças. Pelo caminho apresentam-se diferentes problemas a terem de ser resolvidos e poderá haver amigos contra si, levando a parar com os seus projectos.

Carreira: Bom ano para estudar, pois não receberá nenhuma ajuda e, por isso, nada melhor que aprender.

Amor: Ano de Fan Tai Sui, a significar grandes ondas, podendo levar os casais à separação, devido à má estrela Po Sui. Deverá manter a calma e tratar bem o que tem.

Saúde: Duas coisas são importantes. Se possível, a 23 de Fevereiro (dia 8 do primeiro mês lunar) deverá ir ao Templo oferecer sacrifícios e pedir protecção ao Tai Sui do ano. Faça um exame clínico ao corpo e previna-se de ataques de coração e AVC.

Fevereiro, Junho e Outubro são três meses em que deve tomar especial atenção e cuidado. Se ficar seriamente doente, pode ajudar colocar junto de si uma estátua de cobre a representar um macaco.

Dinheiro: Estude e trabalhe e não questione o quanto poderá receber. Um ano de paz é o que necessita.

1964 – Encontra-se na melhor posição entre os nativos de Dragão e traz a criatividade para a sua carreira; no entanto tal irá atrair os seus inimigos.

1952 – Continue com os negócios, mas cuidado no assinar papéis, a poder trazer responsabilidades criminais.

1976 – Muito criativo, bom será trabalhar só, mas primeiro estude e aprenda mais, tornando os seus conhecimentos fortes.

1928 – Respeitado pelos outros, mantém uma mente ainda clara e continua a gostar de dar passeios.

1988 – Bom ano para estudar e investir nas suas relações públicas. Poderá ter ajuda na sua carreira, mas deve ser modesto durante a aprendizagem.

O seu bom amigo é do signo do Galo e deve evitar os do Cão.

 

Serpente

Está nos três animais bafejados do ano. Consegue o que quer, pois é um ano de sorte para os nativos deste signo. Mantenha-se em harmonia com as pessoas e será sempre um/a vencedor/a.

Conta com poderosas estrelas da sorte, como a Hong Luan, sorte no Amor, a Lu Shen, bom rendimento e excelentes relações públicas, relacionada também com a Yue De e a Ban An, a representar boas novas vindas do exterior. Mas terá duas más estrelas: Shi Fu (sinal de morte) e Xiao Hao (esbanjar dinheiro). Com um sinal proveniente da saúde, lembre-se que deve evitar colocar a vida em risco, por brincadeiras em perigosos exercícios a poder causar acidentes e nos desportos radicais, não tente ultrapassar os limites. Controle os seus desejos e não gaste dinheiro no que não precisa.

Carreira: Com as estrelas da sorte Ban An e Yue De, verá os seus negócios crescerem e num novo patamar, pode-os expandir para o exterior. Abra um novo interesse. Impulsionado por Lu Shen, o incremento das relações públicas, trazem-lhe bons rendimentos. Diversifique e desenvolva uma nova área.

Amor: Pela estrela Hong Luan, é a oportunidade de investir no seu casamento, o que significa os solteiros encontrarem o parceiro para se casar e os casados terem filhos. Faça uma nova Lua-de-Mel e não procure fora o que tem em casa. Não se esqueça que no casal, a esposa é a riqueza e o marido, o poder. É um muito bom ano para o amor e o relacionamento com outras pessoas. Realize festas para tornar os que estão à sua volta mais felizes.

Saúde: Cuidado com a saúde, sobretudo o sistema respiratório e a gordura no sangue, pois está sobre a influência da má estrela Shi Fu, que traz problemas. Se é gordo, emagreça, evitando de uma vez só comer por dois dias. Não participe em exercícios arriscados, sobretudo quando viaja. Conduza com extrema segurança. Faça exercícios, mas no Verão evite realizá-los ao ar livre.

Dinheiro: Não haverá problemas e o pouco dinheiro que esbanja não vai contar nas suas finanças. É um ano de colectar o que plantou e o dinheiro entrará no seu bolso. Ano relaxante, bom para viajar e usufruir o dinheiro que tem.

O melhor ano para os nativos de Serpente é o de 1965, pois correr-lhe-á bem e terá grandes lucros. Com carreira e dinheiro no topo, procure desenvolver novas áreas.

1953 – Terá uma grande promoção e o bom relacionamento com os outros levará a alcançar o respeito das pessoas. Continue a desenvolver os seus interesses, ou negócios, pois terá suporte de muita gente.

1977 – Criativo, agarre esta oportunidade para formar uma boa base. Deverá realizar a festa de aniversário.

1989 – Ano para investir em relações públicas. Estude mais e crie mais oportunidades para os seus trabalhos.

Compartilhe o seu tempo com os nativos de Galo e Búfalo.

 

Cavalo

Combinando bem com os nativos de Tigre e de Cão, os nativos de Cavalo conseguirão fazer muitos amigos, a ajudar neste ano. Terá duas boas estrelas da sorte: a poderosa San Tai (Quem tem o Carimbo) e Hua Gai (talento e habilidade). No entanto, não lhe faltam estrelas de má influência como: Wu Gui (Cinco fantasmas), a lembrar que tem pelas costas quem lhe quer faz mal; Guan Fu, poder ser responsabilizado criminalmente nos tribunais e por isso, deve tomar muito cuidado e não colocar como garantia a sua palavra; Fei Fu (propenso a ter problemas de foro criminal); Yang Ren (ser operado); Huang Fan (bandeira amarela) a transmitir tristes novas, incómodas e desgostosas a causar dano; Pi Tou (deixar solto o cabelo), significa algo incómodo ocorrerá e lhe provocará mágoa.

Sendo de elemento fogo o signo de Cavalo, para balançar coloque um aquário na parte Norte da casa e alimente os peixes. Mantenha-se longe de gatos e cães.

Carreira: Com duas poderosas estrelas da sorte, San Tai, que lhe proporciona ser promovido e tomar o lugar de chefia num projecto importante, e Hua Gai, a salientar o seu talento e habilidade, perante tal prever-se-ia ser um bom ano. No entanto, as três estrelas de má influência, Wu Gui (Cinco fantasmas), a representar ser apanhado distraído e fazerem-lhe mal pelas costas; Guan Fu, a ter que tomar muito cuidado e não colocar como garantia a sua palavra, pois tal o pode levar a ser responsabilizado criminalmente nos tribunais; Fei Fu (propenso a ter problemas de foro criminal), todas elas avisam que terá problemas nos seus projectos pois, haverá sempre alguém a criá-los. Pode ser levado à barra criminal e ser responsabilizado, muito devido à tomada de decisões por impulso. Pesquise detalhadamente antes de planear.

Amor: Os solteiros encontrarão muitas pessoas para se tornarem amigas/os mas, ainda não achará a pessoa certa para casar. Entre os casais, a esposa deve ser paciente e manter a calma, senão facilmente se desenrolam discussões entre o casal e não pode pensar só em trabalho, devendo dar tempo para a família.

Saúde: Devido à estrela Yang Ren, a representar uma operação clínica, facilmente pode ter problemas de coração, de sangue e fígado, assim como no útero, para as nativas. De Abril a Junho são os meses mais perigosos. Deverá beber mais água e realizar mais desportos dentro d’ água, evitando ainda a cor vermelha.

Dinheiro: Ano de plantação. Proteja-se e isso será o mais importante, melhor que dinheiro.

1990 – Com inúmeras oportunidades na sua carreira, consegue o melhor retorno de todos os nativos de Cavalo. Não as deixe fugir, deixando para amanhã o que tem de fazer hoje.

1966 – Trabalhará mais, pois aparecerão mais oportunidades para mostrar a sua criatividade e talento.

1954 – Será suportado por pessoas qualificadas, que lhe trarão uma boa carreira. Investir dá-lhe mais dinheiro do que ganhará a trabalhar. Continue a gozar a vida, pois é um ano cheio de riqueza.

1978 – A sua mente está clara e o quer aprender mais leva a encontrar mais amigos. Celebre o seu aniversário com uma festa.

Os melhores parceiros para cooperar são as pessoas do signo da Cabra

 

Cabra

Ano fácil e alegre, já que conta com cinco estrelas da sorte: Jie Shen ajuda a resolver os problemas causados por desastres, sem haver crise; Tai Yin, a Lua, representa boas relações sociais e transforma o negativo em situações positivas, Tai Ji Gui Ren, (a significar ter alguém a ajudá-lo) e Tian Yi Gui Ren, ligada à criatividade, promovem-no na carreira e elevam-na a um novo nível, permitindo mudar o antigo por um novo sistema. Conta ainda com Jin Yu Lu (grande fortuna).

A má estrela Huang Fan (黄幡, bandeira amarela) representa alguma coisa que causa mágoa, tristeza, que é incómoda. Já outras duas, Guan Suo (armadilha) e Gou Jiao, representam mudanças que aparecem de repente, sem serem esperadas, assim como cair, sofrer uma queda, ter um acidente.

Carreira: Não encontrará ajuda pelos que estão ao seu lado, mas pode contar com pessoas em posições superiores, sendo ainda um ano para fazer dos inimigos, seus amigos.

Amor: Para as/os solteiras/os é uma boa altura de se enamorar, mas cuidado, não se magoe, pois, podem os outros estar a mentir.

Saúde: Facilmente lhe ocorrerá acidentes, por isso cuidado para não tropeçar e cair. Atenção aos pulmões, fígado e vesícula biliar, já que facilmente lhe pode aparecer problemas. Controle a qualidade da comida que ingere.

Dinheiro: Sem dúvida, com tantas estrelas da sorte, o dinheiro não faltará e por isso, não pense como o vai ganhar, mas como o vai despender.

1955 – É o melhor ano para a carreira dos nativos de Cabra e não só consegue dinheiro pelo seu trabalho, mas também proveniente da sua sorte.

1967 – Cheio de criatividade deve aproveitar a oportunidade e usufruir o que com ela pode ter e entrar numa nova carreira, cortando com a antiga forma e criar um novo estar.

1979 – Siga os seus interesses para desenvolver a carreira.

Bons amigos serão os do signo do Cavalo.

1991 – Terá suporte de pessoas idosas e confiante poderá expressar bem a sua criatividade. Deverá realizar a sua festa de aniversário.

 

Macaco

Os nativos de Macaco deverão preparar-se, pois não irá ser um ano fácil. Sem poderosas estrelas da sorte, conta no entanto com cinco: An Lu (Dinheiro da Sorte, ou de Sombra) a significar conseguir muito dinheiro fora das suas expectativas; Fu Xing, estrela protectora a limpar o caminho; Ci Guan (perfeitas palavras); e Wen Chang, o Deus dos Letrados e da Literatura, a conferir dignidade, poder e posicionamento social. Já a estrela da sorte Tian Chu (Cozinha do Céu), permite saborear boa comida, mas só encontrará os ingredientes para alcançar esses paladares ao socializar, em reuniões ou festas.

No ano de Cão, os nativos de Macaco trazem um dom da palavra que leva a captar a atenção dos outros e apenas pelo falar, já as pessoas lhe ganham respeito. Os estudos correrão muito bem, pois facilmente capta o ponto e as suas reflexões são mais rápidas que a dos outros.

Quanto às más estrelas, deve contar com a Tian Ku (Chora o Céu), Bao Wei (cauda do leopardo), Di Sang (perder terra) e Sang Men (alguém que traz má sorte). Significa poder ocorrer algo mau, perdas, que a/o levará a chorar. Evite as discussões com amigos por questões de dinheiro. Este ano é de perda de algo, ou de alguém, e só entenderá o valor da vida na sua relação com a Felicidade, que nada tem a ver com o material do quanto tem, sendo pelo coração que se a alcança. Cuidado com cada degrau e evite importantes e grandes investimentos. Com tão fracas estrelas da sorte, menos é mais. Por isso, deve trabalhar arduamente e resolver por si mesmo os problemas.

Carreira: Sem ajudas, sozinho, terá um árduo ano e por isso, empreenda-o pelos estudos, preparando-se para o advir.

Amor: Para os solteiros, é um ano sem relações estáveis, crendo por vezes encontrar-se numa, logo perceberá que afinal ainda não é, trazendo-lhe a insegurança de não estar a controlar. Com menos expectativas, poderá encontrar boas surpresas. Para os casados, ambos sentem-se aborrecidos e por isso, procure encontrar algo de novo para fazer em conjunto. Vá dançar, invista na cozinha com a confecção de um novo prato, ou viaje.

Saúde: Envolvido pelas más estrelas, não apenas terá que tomar conta da sua saúde, como também a da sua família. Cuide das enormes vagas emocionais ocorridas pelas mudanças. Só com elas controladas, será boa a sua saúde. Procure estudar e esteja aberta/o às medicinais alternativas, como uma nova maneira de se prevenir e para isso, tente saber mais sobre as Tradicionais.

Dinheiro: Na sua normal maneira de o ganhar, não há surpresas. Ele pode também aparecer fora das suas expectativas, através do Dinheiro de Sombra ou da Sorte, e ninguém vai saber que o tem. Jogue nas lotarias, mas com moderação, sem colocar grandes somas, pois se for conduzido pela descontrolada emoção, tal o levará à ruína.

1980 – É o melhor ano, para os nativos de Macaco, sendo fácil desenvolver a carreira, deve manter-se paciente e focado nela, sem alaridos e resguardado do exterior.

1968 – Com uma boa vida social, terá ajuda para desenvolver a carreira e logo mais hipóteses para mostrar as suas ideias. Haverá uma grande mudança na sua vida e por isso, deve tomar cuidado para a ter segura. Comemore o seu aniversário, pois a festa dar-lhe-á boas energias.

1956 – Cheio de trabalha árduo, deverá dar tempo para relaxar e não se coloque sobre pressão.

1992 – Devido ao seu bom desempenho, terá hipóteses de ser promovido mas, deve ir com cuidado, passo a passo, pois a muita velocidade, pode atrasá-lo a chegar. Cuide o seu falar.

Tem o melhor amigo nos nativos de Serpente e deve evitar os de Tigre.

 

Galo

Os nativos de Galo esperam sempre tudo perfeito e por isso, falam mais do que agem. Bom ano para desenvolver a carreira. Com a confiança que traz, conseguirá colocar os seus sonhos a realizarem-se.

A super-estrela da sorte Tai Yang (太阳), o Sol, traz-lhe grandes e brilhantes energias, atingindo a sua Luz todas as direcções. No trabalho e na carreira estará colocado na varanda a olhar para baixo.

A estrela da sorte Ban An representa boas novas vindas do exterior e torna-o famoso fora da sua terra. Com grandes hipóteses para a internacionalização, crie um novo mercado, uma companhia…

Mas o Galo, no ano do Cão, está em Fan Tai Sui, conhecido por Hai Tai Sui, significa magoado pelo Deus do Ano. Simboliza alguém que lhe quer fazer mal e por isso, na sua vida social deverá ter cuidado na escolha dos amigos e sócios.

Tem três más estrelas: Tian Kong (Vazio Céu) e Hui Qi (Energia Suja) colocam-no a não conseguir tomar uma decisão, pois não alcança ainda onde está a verdade. Pi Tou (披头, deixar solto o cabelo). pode levar a que de repente surjam problemas de difícil resolução, a atirá-lo emocionalmente para baixo.

Carreira: Com a ajuda de Tai Yang, o Sol, deve lembrar-se em colocar os olhos nos mercados internacionais, mais do que no doméstico. Deve deixar as antigas formas e empreender pelas novas maneiras de fazer.

Amor: Vai ser um ano activo. Para os solteiros, com tantas escolhas será difícil tomar uma decisão. Os casados devem planear uma viagem longa e usar a criatividade para cativar o parceiro.

Saúde: Mais do que tudo, deverá ir ao templo pedir ajuda ao Deus do Ano. Cuidados com os seus ossos e não se magoe, sobretudo nas mãos e pés, assim como esteja atento para evitar AVC’s. Sentindo-se triste, adorne-se com ouro.

Dinheiro: O muito trabalho traz-lhe bom retorno. Se não conseguir encontrar a solução para um problema, viaje e verá que ela virá ter consigo.

1969 – Serão os mais bem colocados entre os nativos para desenvolver a carreira e avançar em novas ideias. Com uma vida social activa, contará com ajuda e sucesso.

1957 – Não pode imaginar quanto trabalho terá; deve aprender a pedir ajuda e não tentar fazer tudo sozinho. Cuidado com a saúde e não trabalhe em demasia.

1981 – Terá suporte de pessoas mais velhas, com mais experiência que o ajudarão e espaço para expressar completamente o seu talento.

1993 – Com um salto, aparecerá de repente e toda a gente lhe presta atenção.

Os melhores parceiros serão os nativos de Búfalo e Serpente e evite os de Cão.

21 Fev 2018

Direcções das Estrelas Voadores para 2018

Os geomantes do Feng Shui prevêem para 2018 um ano de Extremos.

O Caule Celeste Wu, associado ao elemento terra yang, conjugado com a Terra do Ramo Terrestre Xu, dá para este ano, terra dentro de Terra, encerrando no seu interior o fogo. Este, ao criar ainda mais terra, fará transbordar a água, cortada pela terra. Como se tal não bastasse, encontra-se a direcção Centro, Terra, o yin yang do ser humano, enclausurado dentro de si, sem poder harmonizar as quatro estações do ano.

Encontradas as direcções do posicionamento das nove Estrelas Voadoras para 2018, aqui se deixam as previsões, por nós entendidas das feitas por Lei Koi Meng (Edward Li), sobre o que ocorrerá no mundo.

Referindo as características e localizações das Estrelas Voadoras, primeiro trataremos das quatro de malévolas energias, seguindo depois nas boas vibrações das outras cinco. No entanto, para este ano, a bafejante estrela voadora 9 Roxo (Jiu Zi, fogo) estará localizada ao centro (terra) do Tai Ji (quadrado mágico de nove Palácios, fazendo o do meio de espelho, linha reflectora entre a materialidade da Terra e o espírito do Céu, a essência que dá à substância o significado das realidades) e por isso se refere estar aprisionada. Estrela a representar harmonia e paz, cooperação e o visionar do que está para vir, enclausurada, não permite encontrarem-se esses atributos. Deixa as gerações jovens sem esperança, pois não conseguem vislumbrar o que virá. Tal leva-as a encerrar-se em casa e isoladas, ficam os exteriores contactos feitos apenas pelo telemóvel e internet no computador.

Ligando com o corpo humano, a 9 Roxo representa os olhos que, aprisionados ao ecrã, lhes provoca inúmeros problemas devido à luz vir contra eles, aprisionando-os à projecção, mas sem criar reflexão. Energias interiores condensadas, sem vivos interlocutores para serem trocadas, descarregam-nas pelas ainda mortas máquinas. Essa falta de comunicação com o espaço exterior leva, perante as realidades, a transformarem-se em agitados maníacos. Tal continuará a ocorrer até ao fim de 2019.

Para analisar um país, uma coisa se sabe, é necessário conhecer quem o dirige. Em 2018 serão raros os países que contam com governantes conscientes da consciência, e a conseguir pelos 5 Elementos entender as acções a tomar. O fogo e a terra poderosíssimos, sem a água para lhes fazer balança! Representando a água, sabedoria e mente limpa, pode-se assim imaginar um dirigente sem tal, o que ele poderá fazer!?

Para este ano, desastres provocados pela Natureza, como tsunamis, erupções vulcânicas e tremores de terra, tufões, inundações devido a fortes chuvadas e grandes nevões, tal como as catástrofes criadas pelos humanos, como ataques terroristas e grandes flutuações nos mercados bolsistas, causarão um grande desgaste aos dirigentes. Assim, ficam em intenções todos os internacionais projectos de cooperação, pois não haverá energia para os levar por diante. Cada país apenas terá tempo para se proteger e pensar em si.

A estrela voadora 5 Amarelo (Wu Huang, terra), instável, causadora de obstáculos e problemas, tem em 2018 a sua maligna influência perturbada colocada a Norte (água), localizada na Rússia, onde se prevê ocorrer perdas, também de saúde, doenças e tragédias. Já para a Europa, a 2 Preto (Er Hei, metal), localizada a Oeste (metal), trará doenças longas e incuráveis se os seus habitantes este ano não tratarem com cuidado esta direcção. A beligerante estrela voadora 3 Jade (San Bi, madeira), que traz conflitos, disputas e caos, encontra-se a Nordeste (terra), localizada na Península da Coreia. Se não colocarem mais fogo, poderá continuar em Paz. A 7 Vermelho (Qi Chi, metal), estrela voadora violenta que traz injúrias, roubo, fogo e acção nos tribunais, leva a perdas financeiras e muitas disputas tanto em casa como no emprego, localiza-se a Leste (madeira), na América e Japão. Terra é o elemento do nascimento dos EUA e o do seu actual presidente, que, ampliando-se com mais a tripla terra deste ano, dá para imaginar o que pode ocorrer! Edward Li faz fervorosos votos para que reine a Paz e não haja guerra. Refere que, para resolver os problemas causados só grandes chuvadas e nevões, o que parece já ter começado a acontecer, qual ajuda celeste a refrear os ânimos.

Tratando agora a localização nas direcções das auspiciosas estrelas voadoras: a 1 Branco (Yi Bai, água) estrela da prosperidade para o que virá, traz sucesso na carreira, boas relações de amizade e reputação, assim como a fama e promoção na carreira. Localiza-se este ano a Noroeste, (metal) e encontra-se nos países da Europa do Leste. Já a 6 Branco (Liu Bai, metal), agora enfraquecido o seu celeste abençoar, traz potencial de inesperadas vantagens e riquezas, estando colocada a Sudoeste (terra), localiza-se sobre a Índia e ajuda a emigrar e a trabalhar fora do país.

A estrela voadora 8 Branco (Ba Bai, terra), da Prosperidade e Saúde, a melhor entre todas as nove estrelas, traz riqueza, fortuna, nobreza e boa saúde, favorece promoções, incrementa o salário e leva ao sucesso na carreira. Localizada a Sudeste (madeira), apresenta-se nos países do Sudeste Asiático. Por fim a 4 Verde (Si Lü, madeira) que, apesar de ser benéfica, no actual período 8 dos ciclos do Feng Shui contém aspectos positivos e negativos. Por estar a Sul (fogo), regerá Macau, Hong Kong, Austrália, assim como os países de África.

Previsões para alguns meses

Neste início da Primavera, entre 4 de Fevereiro a 5 de Março, o yang menor do elemento madeira, direcção Leste, tem a complementar o yin maior do Inverno, a água do Norte, e assim, a dupla terra deste ano encarcera o fogo alimentado pela madeira e cria mais terra, levando a erupções vulcânicas, tremores de terra, acções terroristas e ainda um apagão eléctrico. As pessoas deverão ter muito cuidado e prevenir-se de ataques de coração e AVC’s. No mês seguinte, a juntar a tudo isso, epidemias e algo a sair da nossa capacidade de controlo.

Em geral, pode-se dizer que as pessoas nascidas entre 7 de Novembro e 3 de Fevereiro, isto é, no Inverno, terão um ano mais vantajoso, pois necessitam de fogo e ele não faltará. Por oposição, quem nasceu no Verão, entre 5 de Junho e 7 de Agosto, deverá tomar maiores precauções, pois ao seu fogo juntar-se-á ainda mais fogo e ficará ON FIRE. Cuidado com o fogo dentro de casa.

Já no nono mês, sob o signo de Cão, tal como o ano, de 8 de Outubro a 6 de Novembro, o elemento é terra yang e aliada com o ano de terra yang dentro de Terra, cria a tripla terra, significando túmulo, que apaga o fogo e origina problemas como a interrupção de energia eléctrica. Assim confrontados, iremos ser obrigados a repensar o uso de aparelhos como telemóveis e computadores no nosso quotidiano. Será que não ocuparão um espaço demasiado grande nas nossas vidas? Faltando a electricidade…

Uma calamitosa desordem, a poder definir-se como caos do primaveril estado. E tudo se inicia pelo Vazio.

9 Fev 2018

Ano Cão embrenhado numa montanha de problemas

No próximo Domingo, 4 de Fevereiro, celebra-se a Festa da Primavera (Li Chun, 立春, Princípio da Primavera), que para os geomantes do Feng Shui é o dia da mudança na regência do signo do ano, quando termina o do Galo Solitário e se dá início ao do Cão na Montanha.

Em 2018, pelo calendário lunar, na China o primeiro dia da primeira Lua do ano será a 16 de Fevereiro e assim começará o ano do Cão na Montanha ainda sem ter ocorrido a celebração do Ano Novo Chinês. No último dia da décima segunda Lua, a 15 de Fevereiro, dar-se-á um eclipse solar.

No ciclo de 60 anos (60 Jia Zi, 六十甲子), encontro do Céu com a Terra, este ano Cão na Montanha terá o número 35 e o nome Wu Xi (戊戌), pois corresponde ao Caule Celeste Wu (戊, associado ao elemento yang da terra) conjugado com o Ramo Terrestre Xu (戌 representado no carácter do animal Cão).

Sendo Xu (戌) sempre terra e o Caule Celeste corresponde este ano a Wu, elemento Terra yang, teremos para 2018 terra sobre Terra, o que levará a ampliar os dois elementos a si associados: o fogo que cria a terra e a água que é cortada pela terra (pelos elementos água e fogo se criou a Terra).

O fogo do Verão, alimentado pela madeira na Primavera, sem água para o cortar, amplia a terra e coloca-nos num dos extremos previstos para ocorrer este ano. Nesse período haverá tremores de terra e os vulcões expelirão magma, terra fortalecida que corta a água e, com esta seca, facilmente se dá a ignição, originando grandes incêndios. Com o fogo a criar mais terra, irá esta ocupar o lugar da água, mas com o metal no Outono a sulcar a terra, a água no Inverno provocará grandes inundações.

Calamitosas condições a originar também doenças, epidemias e distúrbios na mente humana, que a poderão levar a enlouquecer. Organizada no caos, já sem compreender as imagens mentais que controlam a intervenção humana, está a mente predisposta a insanos extremismos, com apologia à descriminação e à guerra. Quando pelo semelhante, o desequilíbrio é levado a atitudes trazidas por fundamentalistas razões criadas pelas individuais verdades. Devido à liberdade de escolher que temos dentro da forma do pensar, cremos serem essas verdades produto do nosso pensamento. Alia-se a isso uma ciência positivista que, enquanto Religião, escolheu como modelo a máquina e assim realiza-se no Deus do Imperfeito.

A conjugação de todos estes elementos torna-se um vulcão pronto a expelir a terra que tem dentro de si e serão os efeitos dessas catástrofes a dar folga à mente para vislumbrar de novo o Espírito da Terra. Desde esse Espaço, que dá os significados à matéria, consegue-se reflectir o subconsciente com que materialmente formatamos as realidades, podendo conseguir assim limpar as poeiras projectadas no espelho. Individual ou do Universo.

Terra sobre terra

Ano que vai ser de extremos: ocorrerão grandes mudanças com variações entre boas e más situações, consoante a Visão de cada um. É pelas bordas da História que consciencializamos e reconhecemos o lugar por nós ocupado. Por isso, quem olha as realidades, sem necessidade de nelas se impor, e pelo envolvente espaço se coloca como meio, vê-se a ganhar consciência das imagens mentais com que criamos o Universo e o ano servirá de grande aprendizagem e agudeza sobre o que viemos ao mundo fazer.

Para quem parte já com verdades, pois ao entrar na realidade logo pela memória se projecta nas materiais formas que alimentam o seu observar subconsciente, não dá espaço ao que fora de si está e o envolve num todo e, por isso, apenas se irá encontrar pelo individual pensar, mantendo-se assim num ano embrulhado em caos e ruído.

Prevê-se com um grande segurança, e todos inconscientemente sentimos, que não será um ano fácil, pois não haverá meio-termo. Tudo acontecerá de repente e, descontrolando a mente, valerão essas calamidades para acalmar a loucura propícia ao brotar do vulcão que é a mente humana. Esta, educada no cartesiano sistema de projecção, com o Erro de Perspectiva a empurrá-la para o caos, sem a consciência na Geometria Sagrada da Natureza, só vinga formalmente pela autoridade estatutária. Estruturada num caminho rectilíneo e uniforme, tudo começa e acaba no Eu individual, que é o fim, sem espelho no ondulatório criar ciclos, para alimentar as imagens mentais. Caótico labirinto, sem enredo para levar à saída do subconsciente e, nesse estado Superior de adulto, por que julgamos ser, somos juízes das verdades adquiridas no ouvir dizer e nas narrativas relatadas até à exaustão como notícias, acompanhadas por imagens de televisão que, qual S. Tomé, se tornam verdades. Do vazio, as fontes de informação e educação estruturam o espaço das nossas imagens mentais, transfigurando-as em formais Verdades, pelas quais cegamente lutamos.

Veja-se o valor para as nossas vidas que as máquinas têm e lhes damos. A luz da máquina de encontro aos nossos olhos, poderosamente coloca na mente as verdades do ter visto. Com o suporte a receber a luz do meio ambiente, permite reflectir o que os nossos olhos vêem: espaço entre os objectos e a mente.

É perante esta balança que o ano vai oscilar, sendo por isso diferente consoante o espaço dado. Em reflexão pelo nosso interior ou no continuar a esquecer o Erro da Perspectiva, crendo conseguir viver sem estar e a projectar, observa-se de fora revertido ao ponto de fuga. Por que se julga, com o estatutário poder do ser, fazemos o julgamento.

Sabe-se pela História, a existência de personagens que, pela autoridade natural e do saber, conseguiram resolver difíceis problemas surgidos e evitaram guerras. São milénios a usarmos a Natureza, sem lhe dar o respeito ao que dela retiramos pois, se somos nós a finalidade, é pelas nossas verdades que a tomamos. Vale ser o cão um animal fiel e emocionalmente sentir o tratamento ético que lhe é dado por quem com ele coabita, entregando-lhe com amor a sua fidelidade. Terá sido o primeiro animal que se deixou domesticar pelos humanos, o que ocorreu há 17 mil anos.

Só a partir do vazio se volta a criar ordem, para conseguir sair desse fosso onde já há dois milénios estamos atulhados, sem a ancestralidade proveniente do inconsciente Céu.

O fogo controla a terra e esta, aumentando, será inundada pela água; catástrofes poderosas, provocadas pela Natureza que, descontrolando a mente, poderão levar alguns dirigentes a entrar na loucura, valendo a grande neve ou os enormes incêndios para os acalmar. Assim, o poder é entregue naturalmente à solidariedade das pessoas para juntas enfrentem as adversidades.

O que temos a esperar para este ano, positivo ou negativo, está na vontade ou desejos colocados por cada um. No Próprio do Todo Um onde nos encontramos inseridos ou, individualmente, no cada um por si.

2 Fev 2018

Uma instrução positivista

Seguimos pela carta do Senhor Z, publicada a 11 de Abril de 1894 no Echo Macaense, dia seguinte à chegada de Camilo Pessanha a Macau.

“Dirá V. Exa. que eu sou defensor do atraso da instrução; não sou, não Sr.; le monde marche e caminhemos com ele e como ele; mal vai a quem assim o não fizer. E este meu modo de pensar e obrar, não sei se é ajuizado; quer-me parecer até que o não é; mas tenho muita e muito boa companhia, e isso me consola do meu desatino e do desgosto que por vezes sinto em não ver melhor encaminhado em Macau o estudo da língua portuguesa, cujo conhecimento é, como acima disse, da mais absoluta necessidade para os seus filhos.

Esta necessidade, porém, embora seja de grande monta para nós, tem de se amoldar às circunstâncias que predominam em geral nesse ensino, e essas circunstâncias não podem ser senão as que se dão no reino; e se elas são ali desfavoráveis, o ensino em Macau tanto do português como do mais há-de ressentir-se disso fatalmente.

Que elas são desfavoráveis ao reino, sabe-o toda a gente; mas para melhor se ver isso, vou transcrever alguns trechos da obra O DOUTOR MINERVA crítica do ensino em Portugal, por Manuel Bento de Sousa, publicada no princípio deste ano [de 1894]. Diz o citado autor: “Entretanto, se por um lado é evidente que degeneramos, e por outro é uma verdade impressa nas consciências das sociedades civilizadas – o ser a instrução meio certo e bem formar homens para as dificuldades da vida – qual é a influência que nos abastarda, a nós que tanta instrução temos?

“Evidentemente também a resposta é esta: – é a mesma instrução, por ser falsa, fingida, desvirtuada, numa palavra, porque não presta. E, porque não presta, tudo vamos perdendo do que tínhamos, até a nossa bela língua, a qual, não falando já do português familiar (essa mesclada algaravia tão semelhante àquela gíria dos circos, em que o arlequim mete palavras de quantos países atravessou) vai notavelmente decaindo no que em público se diz e se escreve, como não pode deixar de ser, visto o modo porque a ensinam. [Lembre-se! Está a ler um texto do último decénio do século XIX.]

“Já de muitas escolas foi banida a gramática portuguesa para a substituírem umas coisas do Sr. Fulano ou do Sr. Cicrano, verdadeiras antigramáticas, amparadas por aprovações superiores e divulgadas por mestres, que, uns por necessidade e outros por timidez, as admitem nas suas lições.

“Bastará correr as primeiras páginas do que mais voga tem no centro do país para admirar com espanto que tão errada e confusamente se exponham matérias, que era fácil tornar mais claras e é difícil tornar tão obscuras, o que tem levado muita boa gente à convicção de que tal atrapalhação seja intencional num ensino que, como todos o sabem, se torna assim mais rendoso.

“Com tal ensino ninguém deve admirar-se de que a língua se corrompa, devemos todos esperar que dentro em pouco esteja reduzida ao que entre nós sempre se chamou – língua de preto.

“O que vai pela gramática vai por tudo o mais. O estudo do latim foi desviado da sua direcção, deixando de ser uma base para ser um acessório.

“No ensino antigo, logo que o estudante estava senhor da gramática portuguesa, passava para o latim e era conduzido de tal maneira, que ao terminar a sua latinidade achava-se, e sem dar por isso, sabendo bem o português, o português ao mesmo tempo singelo, puro e másculo, que o padre Malhão falou e António Rodrigues Sampaio escreveu, sem lhes ter feito falta nenhuma o não os terem maçado em pequenos com a ciência do português. Desta riqueza, pelo menos, ficava possuidor o estudante aplicado, acontecendo muitas vezes ficar senhor de mais outra, que era saber a fundo uma língua morta, que o habilitava a seguir os modelos de uma literatura, os quais, digam o que disserem, não são para desprezar-se, (…). Hoje o latim acabou por ser uma língua desnecessária, um preparatório de formalidade, com o duplo encargo de fazer gastar dinheiro aos pais e tempo aos filhos e a dupla vantagem de se não ficar sabendo nem o latim nem o português.”

Liberal Educação

“Com tal ensino e tais livros, com tal tolerância dos governos que à sua sombra se vão decretando programas, que chegam a perguntar aos alunos das escolas primárias pelos serviços literários de D. Diniz e D. Duarte, e a pedir indicações do atraso intelectual dos primeiros tempos da monarquia – e dos progressos da agricultura, letras e ciências no século XVIII; com planos tão acertadamente traçados e sua execução tão magistralmente desempenhada, qual deve ser o fruto certo para todos os que não tenham meios de por outras vias e pessoas adquirirem os conhecimentos, de que precisem?

“Se o estudante for acanhado de inteligência, e sujeito a perturbar-se por esse mesmo acanhamento, mais se escurecerá o seu espírito, ficará ignorante e incapaz de ganhar a vida, dando no futuro um vadio perigoso, se os braços paternais do Estado o não ampararem para fazer dele um empregado obtuso. Se for vivo e talentoso, tudo vencerá com esforços de memória, repetirá coisas que não entende, com a mesma proficiência com que repetiria as máximas de Confúcio em língua chinesa, sem lhe saber os significados, e, amestrado na cábula e outros meios de vencer exames sem conhecimentos sólidos, ficará com o saber bastante para ser pedante e a arte precisa para ser velhaco, vindo a dar no futuro um sustentáculo deste desgraçado país …> Assim se expressa o Sr. Manuel Bento de Souza.

“Aí tem V. Exa., Sr. Redactor, bem debuxado o quadro do ensino em geral, e do estudo de português e latim em especial, no reino, e sendo ali essas as circunstâncias do ensino, que admira que em Macau o estudo do português e outros não estejam mais desenvolvidos e não produzam melhores resultados? O que realmente admira é que não estejamos mais atrasados tanto no português, como nas outras matérias.

“Não tem, pois, V. Exa. razão na referência que fez ao pouco resultado do ensino de português em Macau, o qual necessariamente há-de ressentir-se da viciosa norma superior que lhe é apresentada como modelo e como guia.

“Em conclusão, Sr. Redactor, permita-me V. Exa. que eu lhe declare com a máxima franqueza que o fim desta correspondência é mostrar que o seu artigo editorial, louvável no seu intuito, primoroso na sua forma, e sensato nos seus princípios gerais, peca todavia pela ingenuidade e pela inconveniência (para a vida positiva da época, já se sabe,) do seu alvitre para desenvolver a cultura da língua portuguesa, e pela inexactidão e uma tal ou qual injustiça na indicação da causa por que não é profícua em resultados práticos o estudo de português em Macau, que, sendo filha de Portugal, tem de lhe seguir os passos e há-de reflectir o seu modo de viver, seja ele qual for. É lei da natureza e da sociedade, a que não há fugir, por mais relutância que se sinta: ou bem que somos ou bem que não somos.

“Agradecendo a V. Exa. a publicação destas linhas, me confesso obrigado.

De V. Exa. etc., Z”.

26 Jan 2018

Ensino da Língua Portuguesa em Macau

Camilo Pessanha chega a Macau a 10 de Abril de 1894 e, no dia seguinte, o Echo Macaense traz um artigo com o título O Estudo da Língua Nacional, que refere:

“O ALVITRE que apresentamos para tornar obrigatório, ou ao menos facultativo, nos três primeiros anos dos cursos do liceu, o estudo de latim simultaneamente com as outras duas disciplinas consignadas no mapa da distribuição das disciplinas ora em vigor para os liceus em geral, tem despertado a atenção pública sobre o assunto, e mereceu da parte do nosso amigo Z o bem elaborado artigo que abaixo se lê.

“O nosso amigo manifesta a sua descrença sobre a probabilidade de ser adoptado esse alvitre, embora reconheça a sua utilidade porque, como ele bem o diz, nos tempos que correm dá-se mais importância às aparências do que à realidade e o que querem são os diplomas legais dos exames e não os conhecimentos sólidos da verdadeira ciência.

“Se é verdade que existe essa tendência nociva, cumpre-nos o dever de reagirmos contra ela, para não irmos de mal a pior.

“Para os alunos do futuro liceu de Macau, os documentos de exames serão quase inúteis, se não forem acompanhados de uma instrução sólida e real.

“Para os que quiserem seguir os cursos superiores no reino, não poderá haver maior calamidade do que irem daqui mal preparados na instrução secundária, pois ficarão desapontados e muito prejudicados no seu futuro, porque, ou não poderão prosseguir nos seus estudos superiores, ou terão de estudar de novo a instrução secundária. Para os que quiserem seguir a carreira do comércio nestas paragens, ainda serão mais inúteis esses diplomas legais de exames, porque no decurso da sua vida ninguém perguntará por eles, e só terá valor o que eles na realidade souberem.

“É por isso que nos parece necessário adoptar medidas que obriguem os alunos do liceu a estudarem a valer, e virem a saber bem as disciplinas que cursarem.

“Em primeiro lugar é preciso que eles saibam bem o português; portanto se, para o desenvolvimento deste estudo, se tornar preciso que eles estudem o latim, não deve haver dúvida alguma em lhes impor a obrigação de estudarem mais esta disciplina, o que, como já temos demonstrado anteriormente, se pode fazer sem se afastar da legalidade. No mais, parece não haver discrepância entre o nosso alvitre e as considerações muito sensatas do nosso amigo Z.”

Instrução pública em Portugal

O programa de estudos a ser seguido em todos os liceus de Portugal traz o problema de não dar horas suficientes à língua portuguesa para os alunos do liceu de Macau, na sua maioria deficitários pois em casa não têm o costume de a falar.

Continuamos pela carta do amigo Z publicada no Echo Macaense de 11 de Abril de 1894.

“Sr. Redactor, seu artigo prendeu-me a atenção pela importância da matéria e também pela sensatez do alvitre que apresenta para remediar o mal de que V. Exa. se queixa, e que muito receia se agrave com a criação do liceu. A importância da cultura da língua nacional é uma coisa incontroversa, já pela sua extraordinária influência no desenvolvimento intelectual, já por ser um dos principais característicos de qualquer nacionalidade, chegando muitas vezes a ser, por assim dizer, a única força de coesão dos diversos elementos étnicos que entram por vezes na formação duma nação. Ninguém, pois, duvida da importância do estudo da língua nacional, que deve sobrelevar ao de qualquer outra disciplina. (…) Sendo assim, é realmente para causar a todos sérias apreensões o receio que V. Exa. manifesta de que, com a organização do liceu, este estudo se torne ainda mais deficiente de que o é já, apesar dos esforços da Escola Central e do Seminário, pela redução que se terá de fazer no tempo e por conseguinte na matéria do ensino. Para este mal, propõe V. Exa. como remédio o estudo simultâneo, por três anos, do latim com as outras disciplinas que constituem o curso de liceu, pensando, e bem, que por essa forma se iria inculcando insensivelmente e solidamente o conhecimento da língua portuguesa, que, como todos sabem, é derivada da latina, afora outras vantagens intelectuais que o estudo desta língua inquestionavelmente proporciona.

“Se admiro por um lado o interesse que V. Exa. toma pelo progresso intelectual, legítimo e sólido dos filhos desta terra, por outro lado admiro a ingenuidade, desculpe-me a franqueza, com que V. Exa. lança em circulação uma lembrança, sensata é verdade, mas que vai de encontro às tendências desta nossa sociedade fin de siècle, em que só se pensa nas aparências, que valem tudo, seja qual for a realidade, que é coisa de que ninguém se importa. Isso é assim em tudo, e a essa influência não escapa a instrução pública.

“É conhecido, confessado, reprovado, e quem sabe se amaldiçoado, por todos, publica e particularmente, o estado mesquinho e caótico da instrução pública em Portugal, pela sua organização, pelo seu método, pelos seus compêndios, pelos seus programas, contra os quais bramam todos, na imprensa, em obras especiais, em conferências públicas, e até no parlamente; e, contudo, todos dão aos seus filhos essa mesma instrução condenada pela voz pública.

“E porquê? Porque é que não procuram desviar-se desse rumo que conhecem como errado e que um importante jornal de Lisboa chegou a chamar o caminho da idiotice?

“A razão é muito simples: é porque é da época o não se importar com a realidade e a bondade das coisas, e apreciar só a aparência e a conveniência: fiz exame disto, tenho curso daquilo, possuo habilitações legais, e por isso estou no caso de ocupar tal lugar, e… acabou-se! Quanto a saber, pensar-se-á nisso, quando houver vagar e ocasião. Contentamo-nos todos com isto, e como isto basta, é de razão que nos contentemos. É o positivismo, e o positivismo é hoje a lei da vida. Nestas circunstâncias, não parece a V. Exa. que tenho razão em achar adorável a ingenuidade da sua lembrança em querer maçar os estudantes de Macau com um estudo mais sólido do português por meio do latim, quando o programa não exige isso e no próprio Portugal o estudo tanto de português como de latim está em maré baixa?

“O curso de português é só dum ano, e eu não quero crer que haja em toda a extensão da monarquia portuguesa um homem tão obtuso, que acredite que, em tão pouco tempo, com um programa tão acanhado, e com livros tão mal engendrados, se possa saber razoavelmente a nossa língua, tão bela, mas tão difícil, quando em França e Inglaterra o estudo da língua nacional leva anos consecutivos no curso secundário com livros preparados na máxima perfeição. Ninguém acredita em tal; mas… a lei diz que isso basta, e basta; e se basta para lá, deixe, Sr. redactor, que baste também para cá.”

Estamos em 1894, ainda antes do início do primeiro ano electivo do Liceu. Assunto cuja problemática se arrasta desde meados do século XVIII, quando o primeiro professor régio, José dos Santos Baptista e Lima para ensinar a língua portuguesa muitas vezes necessitava de intérprete para perceber o que diziam os seus alunos.

19 Jan 2018

Tomada de posse e despedida dos Governadores

Debruçámo-nos já sobre o Bastão de Comando entregue ao Governador e os bastões dos vereadores e ouvidor. Agora prosseguimos, descrevendo a pompa das cerimónias de uma tomada de posse e despedida de Governador.

Em 24 de Janeiro de 1851, “o Governador Conselheiro Capitão-de-Mar-e-Guerra, Francisco António Gonçalves Cardoso, nomeado, por decreto de 17 de Outubro de 1850, para suceder ao Conselheiro Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha, que falecera em Macau [a 6/7/1850, após 37 dias como Governador], veio de Hong Kong, onde se hospedara em casa de Eduardo Pereira, a bordo da corveta D. João I. O desembarque efectuou-se no dia 26, ao meio-dia, no cais chamado do Governador [situado na Praia Grande]. Após a recepção no Palácio do Governo, o novo Governador ouviu missa na capela do Palácio. À noite, às 7.00 horas, realizou-se um jantar com a assistência dos membros do Conselho do Governo e da Câmara Municipal, cônsules, comandantes das corvetas e fortalezas, autoridades e vários empregados públicos. Foi investido na posse do governo desta Colónia, em [3 de] Fevereiro de 1851, pelas cinco horas da tarde, na porta principal da Fortaleza de S. Paulo do Monte, entregando-lhe o [Bispo D. Jerónimo da Mata, Presidente do] Conselho do Governo a chave da dita fortaleza e o bastão e com eles a posse do Governo desta cidade com todas as artilharias e armas, apetrechos e munições de todas as fortalezas da guarnição. Depois da posse, o Governador dirigiu-se à Igreja da Sé, onde depositou o bastão aos pés da Nossa Senhora da Conceição e onde se cantou um solene Te-Deum, seguido de recepção no Palácio do Governo”, segundo Luís Gonzaga Gomes.

E com este ilustre macaense, pelas suas Efemérides, continuamos: em 19 de Novembro de 1851, “o Capitão-tenente da Armada Isidoro Francisco Guimarães desembarcou às 15.00 horas, sendo recebido pelo Governador cessante Francisco António Gonçalves Cardoso e demais autoridades. Após a recepção, no Palácio do Governo, o Governador cessante dirigiu-se à Sé, para buscar o bastão que havia depositado aos pés de Nossa Senhora da Conceição, dirigindo-se, em seguida, ao Monte, seguido das autoridades. Após a entrega do bastão e das chaves da Fortaleza e troca de discursos, dirigiram-se os dois governadores para o Leal Senado, a fim de o novo Governador assinar o auto da posse, findo o qual voltou à Sé, para depositar novamente o bastão aos pés da Nossa Senhora da Conceição. Isidoro Francisco Guimarães, durante os anos da sua inteligente e próspera governação, conseguiu restaurar por completo o estado financeiro da província que, encontrando-se em 1852 deficitário, em 48.309 patacas, apresentou, em 1862, um saldo de 104.633 patacas”.

Descrição oficial do acto de posse

Sobre este mesmo assunto, no Boletim do Governo na “parte não oficial, Macao, Sábado, 22 de Novembro de 1851. No dia 19 do corrente, teve lugar a entrega do Governo de Macau, determinada nos actos oficiais que deixamos transcritos. Às oito horas da manhã desse dia embandeiraram as Fortalezas da Cidade, e próximo às três da tarde desembarcou nestas praias o novo Governador nomeado, o Exmo. Sr. Isidoro Francisco Guimarães Júnior, sendo recebido no cais pelo Governador antigo, o Exmo. Sr. Francisco António Gonsalves Cardoso, Juiz de Direito da comarca, Secretário do Governo, Ajudante de Ordens, Autoridades civis e Militares, Oficialidade do Batalhão Provisório, & c. e pelo Batalhão de Artilharia, formado em parada, que fez a devida continência. A Fortaleza de S. Francisco lhe havia salvado na passagem, bem como a corveta ao sair dela S. Exa. recebeu com a maior afabilidade as felicitações que lhe dirigiam.

Depois partiu o Governador Cardoso para a Sé a buscar o Bastão que havia depositado aos pés de Nossa Senhora da Conceição e de lá dirigiu-se para o Monte, seguido das Autoridades, e da mesma forma foi postar-se em proximidade daquela Fortaleza o Batalhão de Artilharia. Depois das quatro horas chegou o novo Governador, acompanhado da Oficialidade do navio que acabava de comandar, a qual lhe queria testemunhar a sua respeitosa afeição seguindo-o de perto, por cujo motivo o mesmo Exmo. Sr. caminhou a pé até ao Monte.

À porta da dita Fortaleza teve lugar a entrega do Bastão, pronunciando o Exmo. Dr. Cardoso, estas palavras: <Há nove meses que por ordem de Sua Majestade tomei conta do Governo desta Província, encargo este muito superior às minhas forças. Neste mesmo lugar recebi das mãos do Conselho do Governo este Bastão de Comando e tenho feito até hoje quanto é humanamente possível para desempenho da difícil empresa que me foi confiada e para prosperidade e bem-estar dos honrados habitantes de Macau: que tudo é pouco quanto se faça por este nobre povo. Entrego com muita honra nas mãos de V. Exa. o Bastão e a Chave desta Fortaleza, que me estavam confiados e espero das virtudes e vastos conhecimentos de V. Exa. ajudado de assíduo trabalho, e de coadjuvação dos habitantes desta Cidade, que seja feliz o Governo de V. Exa. e torne próspera a sorte de Macau>.

O Exmo. Sr. Guimarães respondeu assim, <Exmo. Sr. Conselheiro Cardoso! Tenho muita honra em receber das mãos de V. Exa. as Chaves desta Fortaleza e este Bastão, insígnia da autoridade superior da Província de Macau, que o Governo de Sua Majestade e Rainha Nossa Augusta Soberana, me confia.

Sinto que uma importante Comissão de serviço público, em que o Governo da Rainha tem de empregar a V. Exa. prive os dignos habitantes de Macau da fortuna de continuarem sob o Governo de V. Exa. – Governo a que V. Exa. se tinha dedicado com tanto acerto e tão incansável zelo e actividade. Permita-me V. Exa. que eu o felicite, ou antes a mim próprio e aos habitantes de Macau pelos brilhantes resultados que tem coroado tão nobres esforços como aqueles que V. Exa. tem empregado no melhoramento deste Estabelecimento. Posto que V. Exa. me lega uma empresa muito superior às minhas forças, é de justiça confessar que ela é hoje muito mais leve do que quando V. Exa. a tomou sobre si, neste mesmo lugar, ainda não há dez meses. Agradeço os votos pela felicidade do meu Governo, que V. Exa. acaba de fazer e creio tão sinceros, quanto é verdadeiro o interesse que V. Exa. sente por tudo que tem o nome de Português>.

Depois, tornou a entregar as Chaves ao Comandante da Fortaleza dizendo-lhe: <Sr. Major. Entrego a V. Senhoria as Chaves e o Governo desta Fortaleza e estou certo que V. Sa. se haverá na guarda e defesa da Cidade de Macau, como cumpre a um militar bravo e honrado e como convém à honra da Bandeira Portuguesa>.

Em seguida foram os dois Governadores e o Leal Senado assinar o auto da Posse; e o Exmo. Sr. Guimarães voltou a depositar na Sé, aos pés da Padroeira do Reino, o Bastão da Governança.”

Cinco dias depois, a 24 de Novembro de 1851 o ex-Governador Francisco António Gonçalves Cardoso embarcou na corveta D. João I para Hong Kong, daí seguindo para a metrópole no vapor da mala.

12 Jan 2018

Bastão nas mãos do Santo

A existência em Portugal do Bastão do Comando dado a um Governador fica-se a saber pelas palavras de D. Pedro de Meneses, na altura em que foi empossado como primeiro Governador da Praça de Ceuta, ainda em Agosto de 1415. Dizia ele perante D. João I: ” ‘Majestade, com este bastão é-me suficiente para defender Ceuta de todos os seus inimigos’; desde aquele instante, um bastão para jogar (Aleo) transformou-se no Bastão de Mando da Cidade, estando actualmente em mãos da Nossa Senhora de África, como Governadora Perpétua da urbe”, informa Gabriel Fernandez Ahumada.

“No acto da posse dos governadores da Índia havia a cerimónia da troca do bastão pelo que se guarda no túmulo de S. Francisco Xavier. Esta cerimónia teve origem no facto de ter o Vice-Rei Conde de Alvor depositado ali o seu bastão, entregando ao santo a defesa do Estado quando esteve iminente a invasão pelo Savagy”, segundo se lê na Enciclopédia Luso Brasileira. Tal episódio ocorreu em 1683, após Sambaji (filho e sucessor de Shivaji, fundador do Império Maharathi) a 24 de Novembro desse ano, com um exército de vinte mil soldados, cavalos e elefantes, tomar às portas da cidade o forte da Ilha de Jua (St. Estêvão) e matado toda a guarnição.

O Vice-Rei Francisco de Távora (1681-1686), já com o título de Conde de Alvor, atacou-o com quatrocentos homens, mas foi desbaratado. Desesperado, o Vice-Rei, vendo estar Goa perdida devido à supremacia dos maratas (denominação portuguesa para os maharatas), foi à Igreja do Bom Jesus e abrindo o túmulo de S. Francisco Xavier colocou-lhe nas mãos o bastão (símbolo do poder), assim como as patentes (símbolo de tomada de posse) e um papel nomeando-o defensor e protector de Goa e dos portugueses. Com isso esperava a sua ajuda milagrosa, entregando-lhe a responsabilidade da defesa de Goa.

E não é que Sambaji inesperadamente retirou, apesar da sua supremacia. Para a crença popular foi um milagre realizado por S. Francisco Xavier, mas o que ocorreu para o súbito abandono da mais que provável conquista de Goa por parte de Sambaji foi este ter de ir defender as suas terras do ataque dos mongóis. A partir de então, muitos dos Governadores e Vice-reis da Índia tomaram posse junto ao túmulo do Santo.

 

Bastões das diferentes autoridades

 

Por alvará de 26 de Abril de 1626, Dom Francisco da Gama, que pela segunda vez ocupava o cargo de Vice-Rei da Índia (1622-28), concedeu à Câmara de Macau o privilégio de prover a vara de Alcaide desta cidade, em homem branco. Alvará mais tarde confirmado pelo Vice-Rei D. Francisco de Távora (1681-1686) e a 30 de Abril de 1689 pelo então Governador da Índia, D. Rodrigo da Costa, sendo a 30 de Dezembro de 1709 pelo próprio Rei D. João V.

Uma história em que este bastão é referenciado ocorreu em Macau em 1710. Na altura, 13 de Fevereiro, os vereadores do Senado revoltaram-se contra o Capitão-Geral Pinho Teixeira e essa desobediência levou o Governador a mandar eleger um novo Senado. Os homens bons demitidos pelo Capitão refugiaram-se no Colégio de S. Paulo e o Governador enviou soldados para aí os prender. Os jesuítas reuniram-se com o Ouvidor e os notários na escadaria de São Paulo e aí atestaram os seus privilégios, ficando provado que a entrada forçada de soldados nas suas instalações era inadmissível do ponto de vista legal.

O Capitão Geral mandou vir um canhão para despedaçar a porta maciça do seminário, mas como o tiro não conseguiu tal efeito, deu ordens para os canhões do Monte o arrasar, sendo tal evitado pela intercessão do bispo. O conflito continuou e três cidadãos foram consecutivamente eleitos para o lugar vago de juiz mas, assim que eram eleitos, reuniam-se aos seus predecessores, no Colégio, onde também procuravam abrigo muitos cidadãos. Os apelos do clérigo e da classe média resultaram na retirada das sentinelas. No aniversário da invasão holandesa, os senadores, bastão na mão, saíram do seu refúgio e, escoltados por muitos partidários armados de mosquetes, foram a um conselho-geral no Senado, celebrado com o fim de restaurar a tranquilidade pública. No entanto, o conflito só ficou sanado a 28 de Julho desse ano com a posse de um novo Governador, Francisco de Melo e Castro.

 

Ascendência do Senado

 

“Os decretos reais de 1709 determinaram que o Capitão-geral não interferiria na administração política e financeira que, por direito, pertencia ao Senado, e que, em vez de convocar os senadores em qualquer emergência, ele deveria deslocar-se à casa do Senado, onde lhe seria concedido o lugar principal na mesa do conselho que, habitualmente era atribuída ao vereador mais antigo”, segundo Montalto de Jesus, que refere, a “escritura constitucional datada de 1712, definiu a jurisdição política do Senado como abrangendo todos os casos que se relacionassem com o bem-estar e a tranquilidade de Macau, enquanto financeiramente confiava ao Senado o controlo exclusivo dos rendimentos e despesas da colónia [até que pelo Decreto de 20.9.1844 foi instituída uma Junta de Fazenda, tirando da Câmara a administração financeira]. O Capitão-geral, geralmente o orgulhoso filho de alguma família patrícia e histórica, tolerava mal esta ascendência do Senado. Mais a mais, a própria pompa da sua tomada de posse contradizia a sua posição de subalterno. Quando, às portas da cidadela, apresentava a sua carta-patente ao vereador mais antigo eram-lhe em troca entregues um bastão de comando e a chave da cidadela por entre uma salva de vinte e um tiros. Para seu desgosto, contudo, em breve veria a sua autoridade estritamente limitada ao comando de uma pequena guarnição”.

Refere Armando A. A. Cação, em “1721, o Governador era investido na posse, na porta principal da Fortaleza do Monte, entregando-lhe o conselho do Governo e chave da dita fortaleza e o bastão e com eles a posse do Governo desta cidade com todas as artilharias e armas, apetrechos e munições de todas as fortalezas da guarnição”.

No Senado “às nomeações anuais era anexada uma lista de sucessão. Na circunstância do falecimento de um senador a vaga era preenchida numa tocante cerimónia, na catedral. Os senadores reuniam-se à volta do caixão, o vereador na presidência pronunciava três vezes o nome do falecido, um médico atestava formalmente o óbito, a lista de sucessão era aberta e um substituto nomeado pelo vereador, que lhe entregava solenemente uma vara tirada da mão do falecido, pois cada senador possuía uma fina vara de madeira, insígnia de autoridade”, segundo Montalto de Jesus.

Já a carta de 22 de Setembro de 1714, dirigida por Albuquerque Coelho ao Ouvidor Vicente Rosa, que o tinha colocado na prisão, refere a vara de Ouvidor desta Cidade. Como se percebe, para além do Bastão de Comando do Governador, havia também os bastões dos vereadores, do juiz…

O que será feito desses bastões de Justiça e Comando? Se ainda existem, por onde andam? Relíquias importantes para serem expostas no Museu de Macau, ou pelo menos réplicas deles.

5 Jan 2018