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Uma onda de assaltos à mão armada com revólver realizada por malfeitores, “que fugindo talvez dos antros de Tai Ping Xan de Hong Kong e que vem pagar o abrigo que lhe damos contra a peste negra, cometendo depredações e semeando terror nos ânimos da população chinesa, que está sobressaltada pela impunidade que os criminosos têm até aqui gozado desde o assalto feito à casa do jogo de fantan no Tarrafeiro”, como refere a 4 de Junho de 1894, o Echo Macaense. Tal parece não afectar a comunidade portuguesa, mais preocupada com a ameaça sobre Macau da peste bubónica e em Julho, os jornais, desviando atenções, referem ser importante conhecer as datas dos exames de admissão ao Liceu, para o grande número de jovens a preparar-se, mais se concentrar nos estudos.

Os exames finais de instrução primária, que dão acesso ao Liceu, efectuam-se nos dias 10 e 11 de Setembro de 1894 no edifício do antigo Convento de Santo Agostinho. “Funcionaram duas mesas, sendo uma composta do professor do Liceu, o Reverendo Cónego Falleiro, presidente, e dos professores de instrução primária, Rev. Pe. Alves e José Vicente Jorge e a outra, de Sr. João P. Vasco, professor do Liceu, presidente, e dos professores de instrução primária, Rev. P. Costa e Sr. Constâncio da Silva. Foram examinados e admitidos 29 rapazes e quatro raparigas”, segundo o Echo Macaense, que a 10 de Outubro de 1894 refere com o título Os Exames do Liceu, “Depois da instalação do Liceu, vários jovens que tinham feito os seus estudos no Seminário de S. José, requereram para fazer exames no novo estabelecimento escolar, pagando as propinas marcadas na lei. Verificaram-se os exames de algumas disciplinas, sendo uns examinandos aprovados, e outros adiados, sem dar isto lugar a queixa alguma. Aconteceu infelizmente no exame de português, 1.ª parte, que a maior parte dos examinandos foram reprovados, incluindo dois jovens que tinham sido aprovados com distinção e premiados no Seminário de S. José no 2.º ano desta mesma disciplina”. Tal resultado levou os jovens a ficarem “descontentes com este veredictum do júri, que eles classificaram de injusto. Este facto despertou em nós a curiosidade, e levou-nos a ir assistir aos exames da segunda turma. Podemos asseverar que as perguntas feitas pelo júri nem eram difíceis nem caprichosas, e dos três examinandos a cujos exames assistimos, pareceu-nos que dois responderam satisfatoriamente, titubeando às vezes, como era de esperar no estado nervoso em que estavam, mas revelando conhecimento suficiente da matéria; e, com certeza, sabiam muito mais de português do que os examinandos de inglês, a cujos exames também assistimos, sabiam desta língua. A impressão que nos ficou destes dois exames a que assistimos foi, que a aprovação no exame do Liceu, tanto em português como em inglês, não tem nenhuma importância prática como garantia de que os indivíduos ai aprovados saibam qualquer destas línguas. (…) A explicação do texto e a composição são pois os critérios por onde se pode aquilatar bem o conhecimento que um indivíduo tem de qualquer língua; mas nos exames de português a que assistimos não se recorreu a estas duas provas práticas, contentando-se o júri com perguntas acerca das definições e regras de gramática e com a análise gramatical e lógica de um trecho. (…) O exame, pois, é todo teórico. Quanto ao exame de inglês, ficámos ainda mais tristes com o que vimos. (…) Basta dizer que os examinandos nem sabiam ler as palavras mais fáceis, tanto assim que o professor cónego Falleiro não cessava de corrigir a pronúncia a cada momento; e contudo foram aprovados! Foi essa injustificável indulgência no exame de inglês, e no de filosofia, que concorreu muito para exacerbar os ânimos, quando se conheceu do resultado desastroso do exame de português, porque a equidade pedia que não houvesse dois pesos e duas medidas. (…) Se é este o sistema seguido modernamente em Portugal, fique então isto de prevenção para os jovens macaenses, a fim de que, no futuro, se quiserem ser aprovados, tratem de decorar e decorar muito, até que possam repetir como papagaios, que só assim conseguirão ser aprovados, embora não tenham digerido o que decoraram”.

Camilo Pessanha, ainda antes de chegar a Macau, já a 10 de Janeiro de 1890 criticava severamente o sistema de ensino português: <Cretinizados pelo medo à palmatória e pelo medo ao lente. Cretinizados por um livro abominável em que pretenderam ensinar-nos a ler, e depois pelo trabalho deprimente a decorar os compêndios à pressa, no fim do ano, para ficarmos distintos nos exames>.

Frequência feminina no Liceu

A 28 de Setembro de 1894 é o Liceu inaugurado pelo Governador, mas sem cerimónias solenes devido à família real se encontrar de luto, e começa com 33 alunos, “admitidos 29 rapazes e quatro raparigas”, segundo o Echo Macaense. Após quatro anos de instrução primária, ao aluno que ingressa no Liceu espera-lhe quatro anos para completar o curso geral, que lhe permitirá seguir a carreira comercial, mas se quiser prosseguir os estudos e entrar na Universidade, estudará mais dois anos no curso de letras, ou ciências. Desde 1894 a 1906 a frequência de alunos a estudar no Liceu variou entre 15 e 37 e segundo António Aresta, “com as cadeiras de língua e literatura portuguesa, língua francesa, língua inglesa, língua latina, matemática elementar, física, química e história natural, geografia e história, filosofia elementar e desenho. Para que as meninas tivessem acesso ao Liceu foi necessário efectuar uma sábia engenharia administrativa que consistiu nisto: fundir duas escolas do sexo feminino, nas freguesias da Sé e de São Lourenço, dando lugar a uma nova Escola Central do Sexo Feminino que ministrará a instrução primária elementar, a instrução primária complementar, as línguas inglesa e francesa, português, aritmética, história e geografia. Só assim tiveram acesso a esse novo patamar de escolaridade, o ensino liceal”.

No Quartel da Guarda Policial em S. Francisco, a 20 de Outubro de 1894 é inaugurada a Biblioteca da Polícia, criada por uma comissão de oficiais e aprovada pelo Governador Horta e Costa. Já a Biblioteca Nacional de Macau, anexada ao Liceu em 1895, funciona numa sala do decrépito edifício do antigo Convento de Santo Agostinho. O Reitor Dr. Gomes da Silva ao olhar aquelas instalações desadequadas para albergar salas de aulas, o gabinete de física, a biblioteca e o museu…, sem protestar, suporta porque lhe dizem ser provisórias. Mas aconselha a prudência que a mudança de edifício se faça o mais rápido possível.

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