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Na antiguidade, um dos fenómenos considerados mais estranhos era a auto-decepção. Há várias expressões para formularmos este acontecimento. “Enganamo-nos a respeito de nós próprios”. “Estávamos enganados”. “Foi uma grande desilusão”. “Nunca pensáramos que tal viesse a suceder”. “Estamos na ignorância” tanto que “nem queríamos acreditar”. Em todas as formulações há ambiguidade quanto ao objecto, isto é, quanto ao conteúdo específico da decepção, do engano, da ignorância. Pode ser uma circunstância ou uma situação, circunstância ou situação que podem ser episódicas ou crónicas, avulsas ou continuadas. Há vários exemplos a considerar, dos mais anódinos aos mais complexos e dolorosos. Pensávamos que ia estar bom tempo para a praia e não estava. Pensávamos que a neve para fazer ski ia estar em boas condições. Pensávamos que os resultados eleitorais iam ser uns e foram outros. Mas há também crónicas, como o tempo que passa, que envelhecemos, ou como diz o povo, não estamos a ir para mais novos. Também nos enganamos sobre pessoas. Achamos que são de uma maneira e são de outra. Temos sobre os outros expectativas baixas e eles superam-nos. Assim como temos grandes expectativas para nos enganarmos. Nós próprios podemos ser essas circunstâncias episódicas e anódinas. Achávamos que conseguíamos ir, mas não fomos. Gostávamos de ser de uma determinada maneira e não somos. Decepcionamos, ferimos, enganamos. Umas vezes sem querer outras vezes por querer, com gosto e com vontade.

Mas a auto-decepção dos antigos era mais esquiva. É mais difícil de identificar. É uma decepção que tem origem no si mesmo e que fere ou atinge esse mesmo si mesmo, esse protagonista estranho da vida. Diferente de todos os eus, de todos os eus que cada um de nós é na relação distinta que temos com cada um dos outros. Somos diferentes com todos os nossos amigos ainda que sejamos os mesmos. Somos diferentes com irmãos, irmãs, pais, mães, tios, tias, avós, porque temos uma relação construtivamente diferente com cada um deles. E somos diferentes porque com cada um deles é-nos pedido, exigido, reclamado ou dado sempre o diferente.

A auto decepção é a do si, a do “heautos”, uma qualidade estranha do que é próprio. Qualidade estranha porque é o que cada um de nós propriamente é, não os eus que cada um protagoniza, mas o próprio dos próprios. Simultaneamente é o que está mais afastado de nós, porque não nos tornamos ainda em nós próprios. O si é extenso e prolongado do primeiro ao último instante da nossa vida. Mas o si não é apenas o da realidade, aquele si do indicativo, que foi, é e terá sido. É sempre o agente complexo do condicional. O protagonista do que poderia ter sido e não foi e do que não deveria de todo ter sido e foi mesmo o que aconteceu. O agente do condicional irreal confronta-se com a realidade, sem dúvida. Sabe que o que é é mesmo o que é e o que não é é mesmo o que não é. Mas tem uma ânsia que tudo fosse de uma maneira diferente.

Em certa medida o si próprio projecta-se do futuro em direcção ao presente e ao passado. Projecta-se de um modo normal a partir das suas expectativas reais, que haja continuidade, que todos estejam bem e de saúde e o próprio também. Depois projecta-se como num sonho. Tem aspirações e vontades que saem para fora do que é normal. Atira-nos para fora da vigília, eleva-nos ao horizonte onírico onde podemos dormir acordados. Faz-nos vibrar em dimensões contrárias, diferentes da própria realidade.

O si próprio é também o horizonte do inferno e do pesadelo. Leva-nos aos sítios esconsos, aos lugares mais recônditos onde fomos, estivemos e habitamos. Relativamente a esses sítios intoleráveis, o irreal é a realidade. A própria realidade da vida que tínhamos parece ser um sonho que não conseguíamos ver enquanto estávamos a viver a nossa vida despreocupados com o que havia. Do ponto de vista do si, na sua viagem ao pesadelo do inferno, a nossa vida de todos os dias, neutra, passageira, anódina, leve parece ser um horizonte onírico onde viver é quase bom.

A auto-decepção resulta nisto: não percebemos bem o que temos nem conseguimos fazer uma avaliação concreta, muito menos não influenciada por nós próprios. Parece que tudo pode ser sempre melhor e que o que há é mau ou aborrecido. Mas quando os factos da vida nos mostram efectivamente sem apelo nem agravo como podem ser as coisas na dimensão onírica do inferno, a vida de todos os dias é o nosso paraíso perdido.

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