Semiótica

O sinal de proibido, um círculo vermelho com um hífen branco – lembra-me sempre por associação imediata a bandeira da Suíça – está bem pendurado na cancela amarela, mesmo no meio da rua onde habitualmente arrumo o carro. Antes mesmo de lá chegar, contrariado, claro, corto à esquerda, a única opção para virar de que disponho, se não quero ficar parado, especado no meio da estrada. Ao fundo da rua, está o sinal azul de sentido obrigatório com a seta branca virada para a direita. Tomo esse rumo. Guio por ruas intersectadas por outras com sinais de proibição de virar à direita e à esquerda, que, na vertical a estrada negra na horizontal, sobre o fundo branco, é proibida a vermelho. Automaticamente, respondo às interdições e às proibições, obedeço de olhos bem abertos ao obrigatório sem pestanejar. O caracter deontológico é plasmado na condução sob pena de, ao desobedecer, a integridade física do próprio e de terceiros ser posta em causa.

O problema que me é posto resulta do fecho de uma rua, presumivelmente para obras. O problema obriga a um programa de resolução: como estacionar o carro na proximidade, ir onde se tem de ir para tratar do que se tem de tratar. As soluções não são desenhadas no papel, nem na imaginação, nem na fantasia, nem no GPS. Nunca tinha passado pelas ruas pelas quais passei até estacionar o carro onde acabei por as ter estacionado. Desde o primeiro confronto com o problema que obriga a uma solução durante a condução, e, na verdade, uma solução que passa por manobras ao volante, sem parar o carro no meio da rua, virando o volante para a esquerda, reduzindo a velocidade, engatando a primeira, subindo a rampa, até ao segundo momento quando, depois de ter cortado a rua, me deparo com um novo sentido obrigatório de rumo à direita, e assim sucessivamente, até ter soluções para a esquerda e direita. Quando essas possibilidades se me apresentaram, houve um primeiro momento em que uma má escolha me fez regressar ao ponto de partida, tendo sido obrigado a conduzir no perímetro de um círculo. Da segunda vez, tendo chegado a essa bifurcação, segui, sem saber onde iria dar, pela segunda opção, no sentido contrário. Quando encontramos sentidos proibidos ou sentidos obrigatórios, escolher, por estar condicionado, tem a sua opção determinada.

Há um jogo contínuo entre antecipação vazia, não abstracta, mas concreta e tensa, que pergunta sem verbalizar: “e agora? onde vai dar esta estrada?” e o preenchimento que vai esclarecendo o sentido das opções tomadas ainda que demore tempo, o tempo de fazer uma rua ou mais ruas em toda a sua extensão, até chegar finalmente a um ponto conhecido de uma rua ou de um bairro da cidade, a partir do qual se trace uma linha de orientação com uma direcção definida até ao ponto terminal, onde queremos ir, estacionar o carro, sair, ir fazer o que temos de fazer, ao ir onde temos de ir. A antecipação projecta-se de antemão sem que haja qualquer espécie de reflexão do género “deixa lá ver onde isto vai dar”. Não há tempo. Tudo acontece rápido demais, dá-se ao mesmo tempo em que se age, guia o carro, faz escolhas, toma medidas, nos resolvemos mesmo sem saber onde vamos dar, mas continuamos, porque ficar parados no meio da estrada não é opção.

“Vemos” sempre mais do que achamos que vemos. A nossa percepção da realidade, quando conduzimos, está montada numa acção hermenêutica que é semiótica pragmática. Eu explico-me. O que é que uma rodela de metal vermelha com um hífen branco? O que é uma rodela de metal azul com uma seta branca a apontar para a direita e para a esquerda, dada a sua posição, mas também podia ser para cima e para baixo? O que é que um triangulo branco de base invertida com rebordos vermelhos? O que é uma rodela branca de rebordo vermelho com o que parece ser uma minhoca no seu interior e um traço vermelho a cortar o seu diâmetro?

Os sinais de trânsito assinalam realidades heterogêneas e é decisivo compreender o que exprimem e que interiorizemos as suas indicações. Mas os seus conteúdos perceptivos visuais “nada dizem” por si sozinhos sem a interpretação semiótica do seu sentido simbólico e as nossas acções na condução têm de expressar na perfeição a codificação: obrigatório, proibido, interdição, perda de prioridade.

Estamos sempre mais à frente do que o tempo presente em que nos encontramos. Não só porque estamos dentro do carro e percebemos tudo o que está mais próximo de nós mas simultaneamente temos uma percepção, através do vidro, do sinal na cancela, o sinal no poste no passeio junto à parede lá ao fundo da rua, ou porque vemos já a bifurcação ou cruzamento lá ao fundo, a curva acentuada, a descida ou subida íngremes. Temos uma percepção dinâmica que nos desmobiliza ou mobiliza para “fazer” ou “não fazer” toda a estrada. Quando encontro a estrada fechada, eu não “vejo” toda a estrada que podia ser feita “na minha imaginação”, mas há uma “frustração” de expectativas, a intenção de passar por lá, aí estacionar e deixar o carro, a intenção como possibilidade mental, desfaz-se. Refaz-se outra intenção de significação que se projecta sobre a estrada, por onde agora conduzo, sem saber onde vai dar, se corto à esquerda ou à direita, se sigo em frente. As possibilidades apresentam-se mas não são estáticas, não se esgotam nos “troços” de estrada que me estão dados a ver – muito diminuídos na visão deles por causa dos prédios – mas são antecipados em projecção espontânea como caminhos que vão dar a sítios, ainda que indeterminados.

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