A vivência e a melodia

“Quando inventamos uma melodia, é a melodia que canta em nós muito mais do que somos nós a cantá-la; ela desce pela garganta do cantor como diz Proust. Do mesmo modo que o pintor é fulminado pelo quadro que não existe, o corpo fica em suspenso pelo que canta, a melodia encarna-se e encontra nele uma espécie de servo.”
Merleau Ponty, La Nature, Ed. Dominique Séglard (Paris 1995) 228

 

A relação intrínseca com a vida transforma a relação com todas as ruas, estradas, caminhos o que lá fazemos, como vamos por lá, vimos por lá. É sempre diferente uma rua quando lá vamos tratar de um assunto ou quando vamos passear. O assunto altera a rua. O sentido da rua e o modo como se percorre a rua é diferente e acentua-se quando não pode ser dissipado no algoritmo da normalidade do modo como usualmente estamos quando por lá passamos, vindos de… indo para… Quando regressamos a um local onde íamos. A rua perfila-se com a estranheza que a revela num tom diferente do tom habitual, que não é necessariamente monótono mas que tem um acento tónico predominante e paradoxalmente é atónico.

Conseguimos escutá-lo por contraste, retro-acusticamente, se assim se pode dizer, ainda que estejamos completamente envolvidos por ele. Estamos é tão habituados ao tema monótono que ele se converte numa atonia tal como quando nos habituamos aos ruídos do dia-a-dia ou mesmo ao barulho ensurdecedor de um concerto de um bar ou de uma discoteca. Só quando entramos num meio acústico diferente percebemos o zumbido nos ouvidos e como a música estava alta. O mesmo se passa na cadência, ritmo e melodia, volume sonoro com que as ruas emergem, são ouvidas e escutadas por nós na atmosfera particularmente acústica com que as vivemos na nossa redoma atmosférica. Quando a rua emerge à memória não é nunca uma imagem, muito menos apenas uma imagem óptica como um fresco ou um postal panorâmico. Nem mesmo um postal pode ser reduzido a um conteúdo estritamente visual. Quando passamos em revista as ruas das nossas vidas de que dei um exemplo – cada um terá os seus caminhos, passeios, avenidas, estradas, etc. – podemos activamente tentar lembrar-nos de uma única tal como o fiz aqui. Mas eu percebo que esta rua se destaca na minha vida. Posso perguntar se tem uma carga simbólica, posso perguntar porque razão a rua me surge em tantas memórias. Sei que um grande amigo do meu pai lá foi atropelado. Mas não há um nexo causal entre o facto do atropelamento e a importância simbólica dada à rua. A 24 de Julho não surgiu nunca sempre envolta numa atmosfera lúgubre nem a sua tonalidade vibrou melancolia ou tristeza. A primeira apresentação da 24 de Julho quando estou no carro, deitado ou tão pequeno que só olho para cima, são os carros no exterior, os autocarros gigantescos. Lembro-me de me ter assustado e de me terem acalmado. De repente estava ali no meio do trânsito como se estivesse no meio de dinossauros. Nem percebo como identifico e reconheço claramente a rua como a 24 de Julho. A rua surge pela primeira vez como as primeiras vezes e quando surge traz ainda consigo o que foi aberto nesse encontro, no encontrar-me nessa rua, no abrir-se-me a situação de estar na estrada, no meio do trânsito, a vida vibra o seu ritmo à hora de ponto, com trânsito já nos anos sessenta em Lisboa, estonteante, barulhento, angustiante, estressante, oprimente, imponente e ao mesmo tempo sou sossegado ou tranquilizado ou serenado. O encontro com a rua é revelado ex post facto na vibração tonal particular da atmosfera da rua, portanto, depois do momento ter ocorrido.

Mas a vivência desse momento biográfico tem em si implicado a sua verdade, uma verdade que pode ser descoberta ou que se deixa descobrir “musicalmente”.

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