A casa

O interior de uma casa não é dado por uma geometria pura do que está dentro por oposição ao que está fora. O que delimita o interior do exterior pode ser apenas a percepção da possibilidade do fora. Um quarto sem janelas deixa adivinhar corredores e outras divisões, a rua e as ruas contíguas. Mas são naturalmente janelas e portas que fazem a fronteira complexa entre dentro e fora, que permitem espreitar para dentro e olhar janela fora, entrar e sair, fechar e abrir, prender e soltar.

Há portas e portões que nos estão interditos ou podem estar abertos. Abrimos ou não a porta da nossa casa. Mas portas e janelas têm dimensões multifacetadas, como os portais virtuais do tempo passado e do tempo fantástico do sonho e da imaginação.

Neste sentido apenas se tem acesso ao “interior” da casa a partir de uma percepção da intimidade afectiva da própria casa. A casa não está apensa inserida na natureza que a acolhe: piso, andar, monte, colina, ravina, mas só existe humanamente quando ela começa a inserir-se, a enraizar-se na intimidade do humano.

Demora muito tempo a estar-se em casa, tanto quanto demora a sentirmo-nos em casa. A essência da casa é a intimidade do humano. A intimidade do humano não existe em nenhuma geometria esboçada até à data. O acesso à intimidade da casa é o acesso que o humano pode ter à sua intimidade. A intimidade da casa é de alguma maneira a intimidade do humano e não é perscrutável por quem nela não viva ou para quem se tenha já tornado outro e diferente de quem era.

Só o sonho pode como hipótese psicanalítica sintonizar e canalizar essa dimensão perdida para a memória de uma casa e das nossas vivências dela, distribuídas ao longo do tempo. “O sonho seria uma espécie de elevador que iria buscar, de forma alucinada, essa geografia perdida”. O que o sonho faz viver oniricamente como irreal não deixa de surtir efeito, accionar afectivamente o horizonte de sentido que se projecta sobre todo e qualquer conteúdo real, transformando-o, metamorfoseando-o.

O trabalho do acesso é hermenêutico. Se por defeito o quotidiano se encontra em “negação” relativamente ao estranho, inóspito, angustiante, ou melhor, se o quotidiano produz “recalcamento”, é necessário encontrar vestígios, muitas vezes avulsos e mascarados, que nos ponham na pista da dimensão profunda da existência, ou como os platónicos lhe chamam o outro mundo, ideal, mas mais verdadeiro do que mundo da realidade física.

As portas de abertura encontram-se esporadicamente e requerem não apenas atenção mas um trabalho de elaboração hermenêutica. Se o quotidiano provem de e acaba numa psicopatologia, os momentos de neutralização do pathos podem ser “vistos” no “equívoco, lapso, acto falhado”. São estas formas de descontinuidade no contínuo psicopatológico que constituem verdadeiras fissuras ou fendas, portais de entrada no que a psicanálise chama “inconsciente”, que o é tão pouco que nos acontece por sua visitação, talvez.

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