Dr. Gomes da Silva – Primeiro Reitor do Liceu

O Bispo Diocesano de Macau, D. António Joaquim de Medeiros pediu ao governo da metrópole para ser criado nesta cidade o Liceu e no Parlamento, em Portugal, o deputado por Macau Horta e Costa advogou a sua fundação. Assim o Liceu Nacional de Macau, com projecto aprovado a 30 de Junho pelo Governo de Portugal, foi criado a 27 de Julho de 1893 para ministrar a instrução secundária geral e equiparado aos liceus nacionais do reino. O Governador de Macau Custódio Borja (1890-1894) calculou a quantia de sete contos e duzentos mil réis anuais para financiá-lo e a 4 de Maio de 1893, no Palácio do Governo reuniu com o Presidente do Senado, António Joaquim Basto e o Presidente da APIM, Pedro Nolasco da Silva. Foi então acordada a verba que cada uma das instituições poderia disponibilizar, pagando o Governo de Macau três contos e setecentos mil réis, o Senado três contos de réis e a APIM só quinhentos mil réis, pois já tinha encargos com a Escola Comercial. O Liceu em Macau iria ficar instalado no Quartel da Guarda Policial na Colina de Santo Agostinho, paredes-meias com a Igreja de Nossa Senhora da Graça, edifício construído em 1591 como convento pelos frades agostinhos. Devido à péssima construção, por várias vezes foi reparado e para albergar o Liceu, as obras efectuaram-se desde Março de 1893 e custaram $1400 mil réis. Já a mudança da Guarda Policial do Quartel de S. Agostinho para o Quartel de S. Francisco ocorreu a 4 de Outubro de 1893.

O Senado, para arranjar as cinco mil patacas do subsídio ao Liceu e como era preciso dinheiro para essa e outras despesas, recorreu então à arrematação do monopólio dos Jinrickshas e do Petróleo.

Os nomeados

O Independente de 6 de Janeiro de 1894 referia, “Pelo que vimos em alguns jornais do Reino, devem já ter sido nomeados definitivamente professores do novo Liceu de Macau os seguintes cavalheiros: O Sr. Wenceslau José de Sousa Moraes, Capitão-tenente da Armada [o Echo Macaense de 21 de Fevereiro refere ter sido o Imediato do Capitão do Porto promovido a Capitão de Fragata], para reger a cadeira de Matemática; o Sr. João Albino Ribeiro Cabral, Tesoureiro geral da Província, para a cadeira de Latim; o Sr. Augusto César d’ Abreu Nunes, Director das Obras Públicas [Major de engenharia que chegara a Macau em 14 de Dezembro de 1893], para a cadeira de Desenho; o Sr. José Gomes da Silva, Chefe do Serviço de Saúde, para a cadeira de Introdução [lecciona a 6.ª cadeira, Física, Química e História Natural]; e o Reverendo Cónego Baltazar Estrocio Falleiro para a de Inglês”. Estes professores foram escolhidos entre os habitantes de Macau.

José Gomes da Silva nascera em 1853 no Porto, onde se formou pela Escola Médico-cirúrgica e a 17 de Dezembro de 1877 assentava praça no corpo de Marinheiros da Armada. Nomeado por Decreto de 4-8-1881 facultativo de 2.ª classe do Quadro de Saúde de Macau e Timor, tomou posse do cargo em Macau a 5 de Janeiro de 1882, tendo chegado acompanhado pela sua esposa Casimira Esperança Douguel Branca, nascida em 1851 em Bordeaux, França, de quem terá onze filhos.

O Governador Horta e Costa, enquanto Director das Obras Públicas de Macau entre 1885 e 1888, muito ficara a dever aos conselhos do médico José Gomes da Silva, então Director dos Serviços de Saúde, investindo no saneamento dos bairros infectos da cidade. A estreita colaboração com o Engenheiro terá levado à nomeação do médico Dr. José Gomes da Silva, por Portaria de 14-4-1894, como Reitor interino do Liceu. Lugar que ocupa dois dias depois no Palácio do Governo, quando o Governador Horta e Costa dá também posse aos professores e funcionários do Liceu. O último professor do Liceu a chegar a Macau e um dos quatro a vir de Portugal, João Pereira Vasco, segundo o Echo Macaense apenas desembarcará no sábado, 12 de Maio de 1894, tendo com ele viajado de regresso da metrópole João Nolasco da Silva, filho de Pedro Nolasco da Silva e Carlos Cabral, filho de João Albino Ribeiro Cabral. Como professor da 7.ª cadeira, Geografia e História, toma posse logo na segunda-feira seguinte.

A Peste Negra em Macau

A peste bubónica não atingira Macau em 1894 graças às medidas tomadas especialmente pelo chefe do Serviço de Saúde, Dr. José Gomes da Silva. Com dois meses no lugar de Reitor do Liceu, ao ser contado o tempo de serviço é-lhe concedido um ano de licença pelos oito anos de residência na Província. Substituído no cargo de Reitor do Liceu por João Albino Ribeiro Cabral, (professor da 4.ª cadeira, Língua Latina), parte Gomes da Silva a 10 de Setembro via América para Lisboa com a sua esposa D. Branca e filha D. Heloisa e no mesmo dia viaja também, com licença da Junta de Saúde, o Sr. António Marques de Oliveira, Juiz de Direito.

Encontra-se de férias o Dr. Gomes da Silva, quando a 24 de Março de 1895 entra em Macau a temível peste, espalhando-se como epidemia na segunda semana de Abril e permanece até meados de Maio. A 15-5-1895, Gomes da Silva reassume as funções e a chefia do Serviço de Saúde, que ficara a cargo do Dr. Pinheiro de Almeida, e por sua sugestão antecipa-se o final do ano lectivo, que termina a 20 de Maio de 1895. Dias depois, João Pereira Vasco é exonerado como professor do Liceu.

Após a morte da sua esposa Casimira Esperança Douguel Branca, que ocorre na Vila Branca a 9 de Dezembro de 1895, Gomes da Silva, a 19-7-1896 ainda é nomeado presidente de uma comissão <para coligir todos os documentos anteriores ao ano de 1834, que existam nos arquivos das repartições do governo, bem como os que houverem pertencido a tribunais, repartições e estabelecimentos do Estado actualmente extintos, e não forem necessários ao serviço e expediente daqueles em cuja posse estejam, a fim de ser tudo recolhido no real arquivo da torre do tombo>. Tudo terá de estar pronto para ser remetido pelo transporte África, que de Macau parte para Lisboa a 28-11-1896. Já em 1898, é nomeada para uma comissão cujo objectivo é reunir os recursos de Macau e os elementos de produção artística e industrial para expor na Exposição Universal de Paris de 1900.

A 1 de Novembro de 1905, às 16:15, com 52 anos de idade também na Vila Branca morre o Coronel-médico Dr. José Gomes da Silva, tendo passado 22 anos em Macau, segundo o Padre Manuel Teixeira, que refere, “distinto médico português tanto em Macau como em Timor, publicou estudos únicos sobre as Floras dessa Província e em 1896 introduz no formulário do hospital o uso de plantas medicinais de ambos os locais”. Dá início ao Boletim Necrológico e cria o primeiro museu em Macau, dentro do Liceu o Museu de História Natural, <…uma utopia. Nem na prática se podia realizar: durante as aulas perturbariam os alunos; fora delas, o liceu ficava fechado>, murmura um jornal e assim ficou Macau sem Museu.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários