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Quadro de Sílvia Patrício

Às 8 horas da manhã do dia 1 de Março de 1926, o Dr. Camilo de Almeida Pessanha, solteiro com 58 anos, faleceu de tuberculose pulmonar em sua casa, na Rua da Praia Grande 75, freguesia da Sé. A morte do poeta do Simbolismo, autor da Clepsidra, ocorreu no terceiro e último dia em que os relógios eléctricos de Macau estavam parados para limpeza dos instrumentos.

No dia seguinte, 2 de Março, já com os relógios a funcionar, seguiu o funeral do que fora professor do quarto grupo do Liceu Central de Macau para o Cemitério de São Miguel, situado no meio da cidade, com entrada na Estrada do Repouso.

O enterro, “singelo e civil, por sua vontade, como singela decorrera a sua vida, foi enormemente concorrido por pessoas de todas as condições sociais que à última jazida o acompanharam, sempre descobertos, num significativo e compungido silêncio, vendo-se aí do Governador da Colónia, [Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães (1925-1926)] ao mais humilde e obscuro cidadão. A pedido de Pessanha foi transportado num armão militar, o qual, coberto pela bandeira nacional, foi conduzido por sargentos, cabos e soldados e ladeado pelos estudantes do Liceu onde era professor e por alunos de outras escolas”, segundo palavras do jornal O Combate. Refere ainda que, à beira da sepultura o Reitor do Liceu, Sr. Carlos Borges Delgado pronunciou algumas palavras, dizendo, “A tua vida foi o tablado erguido no meio de esperanças perdidas!… Morreste como vivestes… sonhando… idealizando! Nesse mundo do Além o teu sonho continuará. Serás, ali, o mesmo idealista! E tu, saudoso colega, o confessaste claramente quando, para os teus rapazes disseste: <Colocando-se fronteiros dois espelhos, duas imagens se formam; qual delas mais vazia? Dissolvendo-se água límpida em água límpida, ficam ambas duma mesma limpidez>. Adeus!”.

 

Homenagem dos alunos

 

Seguiram-se as palavras de Cassiano Fonseca, representante dos alunos do Liceu: <Diante do cadáver dos que baixam ao túmulo com a consagração do seu talento ou dum relevante serviço que prestaram à causa da humanidade, proclama-se sempre que a morte pouco pode, porque, precisamente esse dia é o dia da sua glorificação. É que os grandes homens não morrem nunca porque vivem cristalizadas nas suas obras. Porque morrer não é apagar-se; transpor os umbrais da eternidade não é extinguir-se para sempre porque há espíritos de eleição que refulgem, numa visão mais nítida nas sombras do mesmo túmulo que nem tudo consome… (…) Mas, mais do que isto e acima de tudo, foste nosso professor como poucos, como raros, um artista distinto na arte de modelar o barro humano… Um educador perfeito, um obreiro mais devoto porque, espírito clarividente, inteligência rutila, conheceis com aquele vosso sentido especial, que foi o vosso apanágio, o mal dos nossos tempos, o mal que nos espera surpreender além das brumas do futuro; (…) E nós, para quem ele não morreu, faremos com que o nosso professor não morra também para o nosso país que serviu e tanto amou, porque o seu nome representa-nos o facho da luz e a lição moral da sua vida pública é para nós o farol que há-se iluminar a vereda que nos há-de conduzir para a nossa finalidade>.

Ditas estas palavras, baixou o Dr. Camilo de Almeida Pessanha à terra no Cemitério de São Miguel, na sepultura de primeira classe número 918, segundo certifica José Francisco de Sales da Silva, Secretário-Geral do Governo interino e Encarregado do Registo Civil da Província de Macau, no registo de óbito. Era uma sepultura rasa com uma laje e o brasão da família, onde, muito mais tarde, em 1971 os netos colocaram a seguinte inscrição em chinês: <Aqui jaz o advogado Pessanha, o pai Yeong Pak San e a mãe Lei Ngoi Iong>. Isto é, Camilo Pessanha (cujo nome em chinês fora Pui-Sane-Ngá), o Pessanha filho (chamado em português João Manuel de Almeida Pessanha) e a sua esposa, nora de Camilo.

 

Elogio ao advogado dos advogados

 

Na secção de 3 de Março de 1926 do Leal Senado da Câmara de Macau o seu Presidente Dr. Luiz Gonzaga Nolasco da Silva, que fora aluno de Camilo Pessanha, propôs um voto de profundo pesar pelo passamento de tão ilustre cidadão e que fosse dado o seu nome a uma das vias públicas de Macau. E como não podia deixar, <em breves e sentidas palavras>, fez uma sentida homenagem ao seu professor de Filosofia. Camilo Pessanha dedicava-se <ao culto da poesia, tão delicados e subtis eram os seus pensamentos, expressos em versos modelarmente burilados com aquele inspirado estro e paciência técnica que só raros conseguem pôr em prática. Lembro-me muito bem do sucesso que tiveram uns sonetos de Pessanha publicados no Jornal Único, de Macau, em 1898… (…) Nesse mesmo ano parti eu para Portugal a cursar Direito na Universidade de Coimbra (a mesma que Pessanha se formara), onde tive ocasião de conhecer e conviver com um seu irmão, Manuel Luís de Almeida Pessanha, tão inteligente e tão sentimental como Camilo. Ao regressar a Macau, findo o meu curso, vim encontrar Camilo Pessanha feito Conservador do Registo Predial desta Comarca. Ele que tinha sido meu professor no Liceu, foi depois meu mestre na advocacia, pois foi Pessanha quem me ensinou a fazer a primeira petição inicial>.

Na advocacia, <Pessanha foi um modelo de saber profissional, dedicação, honradez e lealdade para com os adversários. Eram vastos os seus conhecimentos gerais, mas na cultura jurídica era um especialista, mormente em direito penal e processo criminal. Apaixonava-se pelas causas que defendia, e na defesa não distinguia entre ricos e pobres, da mesma maneira e com o mesmo afã dedicando-se às causas de uns ou de outros. Era já certo: questão defendida por Pessanha era questão ganha; tal a força da sua argumentação e a perspicácia do seu engenho!

Foi grande a lacuna aberta por sua morte nas fileiras dos advogados da Comarca. Pessanha era, com justo orgulho, um grande mestre na advocacia, e muitas vezes foi “o advogado dos advogados”.

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