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De Prisca Medicina (Sobre a antiga arte médica) é um dos textos mais importantes para se compreender a raiz e o desenvolvimento do pensamento humano. Nem vou fazer a distinção entre pensamento ocidental e oriental, nem vou aceitar que há pensamento oriental mas não há filosofia oriental, porque a explicação até pode basear-se em ideologia. O ponto não me interessa aqui. O decisivo é que o pensamento clássico de Platão e Aristóteles, mas também o dos chamados filósofos Pré-socráticos (Anaximandro, Parménides, Heraclito, etc., etc..) e, ainda o de Tucídides se baseia num texto médico ou sobre medicina, tenha sido produzido por Hipócrates ou por alguém da sua escola. E isto é espantoso à primeira vista mas é compreensível, se formos suficientemente secundários.

 

Uma nota sobre o título: medicina traduz a palavra grega “arkhê”. Embora também no singular no original grego, medicina quer dizer o conjunto plural de saberes, gerais e especiais, ao serviço da identificação das doenças, das curas, dos tratamentos, que estão na base da possibilidade de obtenção da saúde. Ou seja, não há uma única perícia ou saber específico, mas todo o saber reúne um conjunto de disciplinas que colabora para a compreensão do seu objecto específico. Formalmente, podemos compreender que é assim que os compêndios científicos estão organizados. Em primeiro lugar, expõem-se os princípios elementares de uma ciência. O alfabeto de cada ciência, por assim dizer. As letras no caso da gramática, os números, na aritmética, os elementos da geometria: o ponto, a linha, o plano, as figuras simples, os elementos da química, etc.. Assim, também a medicina tem os seus elementos na antiguidade: quente e frio, líquido e sólido. Tal como nas restantes ciências, também a medicina tem operações elementares. A adição e a subtracção, na aritmética e a formação de sílabas e de palavras estudada pela gramática tem fenómenos paralelos que são estudados pela medicina: aquecimento e arrefecimento, assimilação de sólidos e de líquidos, excreção de elementos não nutrientes e assimilação de nutrientes, o meio específico em que ocorrem: condições climáticas, hora do dia, época do ano, região do globo, etc., etc..

 

O ser humano não é estudado na sua anatomia nem no interior delimitado pelas fronteiras epidérmicas do corpo humano. O ser humano é estudado em relação intrínseca com o seu habitat, a familiaridade ou não com o nicho ecológico que é o horizonte estrutural onde vive a sua vida, a exposição e vulnerabilidade aos elementos não apenas meteorológicos, mas que se encontram no seu meio ambiente: a sua dieta, regime alimentar, circuito vital, actividade física e actividade profissional, não só hora a hora, dia a dia, mas em cada estação do ano e nas diversas idades da vida. Ou seja, a medicina identifica os elementos complexos da relação do ser humano com outros seres humanos num meio ambiente que é estruturante da sua própria vida. Uma vida humana não é dissociável do meio em que vive e esta relação tem de ser compreendida já ao pé da letra. Assim: o romper da aurora, a manhã, o princípio da tarde e a tarde, anoitecer e noite, mas também, as estações do ano, as idades da vida: infância, adolescência, idade adulta e velhice, fogo, ar, água e terra, os fluídos: bílis amarela e negra, fleuma e sangue, são elementos, “letras”, de um alfabeto complexo que requerem a formação de compostos agregados resultantes de operações elementares para produzirem um corpo humano bem formado que sobreviva e se conserve a si mesmo homeostaticamente.

 

Palavras simples como “ideia”, “forma”, por exemplo, que perpassam o pensamento antigo não querem dizer apenas “manifestação” (idea) e “aspecto” (eidos). São palavras usadas no diagnóstico de sintomas, no esboço da etologia, na reacção programática ao problema que a doença põe: o tratamento, as fases do tratamento, a obtenção da cura. A curva clínica pressupõe não apenas uma relação múltipla e complexa com a dieta alimentar, mas também com a temperatura do quarto, descanso ou actividade, sono e insónia. A curva clínica pressupõe uma relação simbiótica com o tempo. Não é unilinear nem homogénea, pode admitir recidivas, recuos, como obviamente pode ter sucesso. Uma ideia ou uma forma são sempre plurais. Podem querer dizer o aspecto do rosto de alguém, como quando dizemos de uma criança que “está murchinha”, pode ter que ver com o palpar da temperatura através dos lábios que tocam a testa de uma criança. Mas há também elementos “reflexivos” de apuramento do estado clínico em que de cada vez cada um de nós se encontra. Temos uma apercepção contínua do estado em que nos encontramos, depois de comer uma refeição pesado ou se não comermos nada, se bebemos água a mais ou de menos, se estamos “a chocar” uma gripe ou se apanhamos “uma carraspana”. A “autopsia” é um olhar-se a si a partir do interior mas que não requer uma abertura reflexiva. Acontece sempre de cada vez. O perigo existe sem dúvida quando não temos percepção de fenómenos que são subliminares aparentemente. Podemos estar a desenvolver doenças que nos passam despercebidas e é por isso que o diagnóstico deve ser feito através de exames regulares, porque há doenças assintomáticas.

 

Um dos outros pontos fundamentais da medicina antiga e que faz luz sobre o projecto de constituição de uma filosofia é que não é meramente teórica, o que quer que isso queira dizer, mas eminentemente prática. Fazer é saber. Quem não faz não sabe.

 

[Continua].

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