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Não basta a peste e desde 25 de Abril de 1898 junta-se-lhe notícias da Guerra Hispano-Americana, devido à intervenção norte-americana nas guerras de independência que sobretudo Cuba e as Filipinas travam contra Espanha. Aqui próximo, nas Filipinas, os espanhóis viriam a ser derrotados a 12 de Junho, tornando-se estas ilhas do Pacífico independentes, mas anexadas logo de seguida pelos americanos, prosseguindo os nativos assim na luta pela sua independência. Perdida a guerra em todas as frentes, a 12 de Agosto de 1898 teve a Espanha que ceder aos EUA as Filipinas, Porto Rico e Guam, tornando-se Cuba independente, mas sobre supervisão americana.

Se a nível internacional ocorre a Guerra Hispano-Americana, com barcos de guerra americanos a sair do porto de Hong Kong para ir fazer o cerco a Manila, também neste final de Abril, o ambiente de Macau é bastante desfavorável a grandes festejos para comemorar o IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. Grassa já a peste bubónica e segundo O Porvir de 30 de Abril de 1898, “Diz-se que foi exportada de Hong Kong, pois daí tem fugido muita gente que não gosta do tratamento médico e das medidas sanitárias adoptadas nessa colónia. Bom seria que as autoridades de Macau tomassem medidas rigorosas para evitarem que continue o êxodo de chineses de Hong Kong para Macau”. Devido ao crescente número de casos de peste bubónica, o governo de Macau resolve transformar a abandonada Fortaleza de D. Maria II em lazareto. Por isso, refere O Porvir de 21 de Maio, são eliminados do programa dos festejos do IV Centenário tudo o que pudesse promover aglomeração dos habitantes de Macau, ou concurso dos nacionais ou estrangeiros das colónias, ou povoações próximas.

 

No primeiro dia

Os jornais, como O Porvir de 21 de Maio de 1898 publicado em Hong Kong e em Macau, o Echo Macaense e O Independente, ambos de 22 de Maio, dedicam colunas das suas páginas a descrever o dia-a-dia dessas celebrações. Assim, num apanhado dessas notícias, deixamos aqui registados os quatro dias de comemorações. Como introdução refere O Independente, “Foram modestos e simples os festejos (…), pelas más condições de salubridade em que se encontra esta terra; mas o sentimento patriótico sobressaiu em todos esses actos, sem grandes expansões de entusiasmo, mas intimamente, mas convictamente”.

A cidade acorda, ao raiar do dia 17 de Maio de 1898, com o toque de alvorada às seis da manhã em frente ao Palácio do Governo executado por elementos da guarnição de Macau, enquanto as fortalezas de S. Francisco e de S. Paulo do Monte salvam com 21 tiros. Em seguida, a banda musical da guarnição faz soar o hino do Centenário e segue em direcção ao Paços do Concelho (Leal Senado), onde em frente toca também esse hino e com ele depois prossegue o seu trajecto, percorrendo as ruas da cidade.

À tarde, pelas 5 horas, tem lugar um Te Deum na Sé Catedral. Está a igreja bem decorada, sobressaindo as bandeiras portuguesas que ornam a parte superior do altar-mor e as tribunas, e completamente cheia, tanta é a concorrência do povo que aquele vasto templo mal o pode comportar. Aí está presente o Governador, com o seu estado-maior, o Leal Senado, o Dr. Juiz de Direito com os seus escrivães e oficiais de diligências, o Secretário-geral, o Chefe do Serviço de Saúde, o Inspector da Fazenda, o Procurador Administrativo, o Chefe do Expediente Sínico, os corpos docente e discente do Liceu, oficiais de mar e terra e todo o clero.

O soleníssimo Te Deum tem como celebrante Sua Excelência Reverendíssima o Sr. D. José Manuel de Carvalho, que chegara à cidade a 1 de Março de 1898, após ser eleito Bispo de Macau por decreto de 4 de Fevereiro de 1897 e preconizado em consistório de 16 de Abril desse mesmo ano. José de Carvalho nascera a 16 de Setembro de 1844 em Torigo, freguesia do Barreiro, concelho de Tondela e estudara Teologia em Viseu, onde tomou ordem de Presbítero em 1867 e entrando na Universidade, concluiu em 1881 a formatura em Direito.

No início de um brilhante discurso, o Revendo cónego Conceição Borges declara ser a última vez que ora ao público de Macau. Tece com verdadeiros rasgos de eloquência, que por vezes comovem a audiência, o panegírico do Vasco da Gama e dos portugueses do seu tempo, relacionando o acontecimento que se comemora com a doutrina de Cristo. Depois disto, dois cavalheiros de Hong Kong (o Sr. Kraal e Vicente Senna), a D. Maria Guedes e a D. Emília Pacheco, com a sua belíssima voz de soprano e cheia de sentimento, cantam primorosamente uma Ave-Maria, sendo acompanhados pela orquestra. Ensaiada e regida pelo Dr. Gomes da Silva, é a orquestra constituída por alguns amadores (Condessa de Senna Fernandes e os srs. drs. Gonçalves Pereira, Fernando Cabral, António Vicente da Silva e Carlos Cabral) e seis músicos da banda da Companhia de Infantaria. Segue-se o Te Deum solene cantado pelos seminaristas, estando a parte instrumental a cargo da banda dos alunos do Seminário de S. José. Estes, antes de chegar à Sé, tinham passado pelo Leal Senado, onde interpretaram o hino da Carta. Terminadas aquelas cerimónias, a guarda de honra, postada no Largo da Sé dá três descargas, salvando nessa ocasião a fortaleza do Monte com 21 tiros.

A banda musical do Seminário saindo da Sé dirige-se para o Palácio do Governo onde toca os hinos da Carta e do Centenário, assim como esses alunos dão vivas a Portugal, à família real portuguesa, ao coronel Galhardo e ao Vasco da Gama, recolhendo em seguida todos ao seminário.

À noite, os alunos do Liceu, com archotes e o seu estandarte, percorrem diferentes ruas da cidade, seguindo à frente a sua filarmónica, regida pelo jovem Fernando Cabral. Vão às casas dos seus professores e à do ancião Luiz Maria do Rosário, o brioso militar único sobrevivente dos 32 bravos que tomaram a Fortaleza do Passaleão [nome dado pelos portugueses a Pac-Sa-Leong] e que vive desfavorecido de fortuna. Constatam ser a iluminação dos edifícios públicos igual à habitual, mas quando passam pelo edifício do Leal Senado, numa das suas janelas está colocado um quadro transparente, executado por Sr. Jaime dos Santos e representando a chegada de Vasco da Gama a Calicut. Também à porta da ‘Empresa Económica’, a ocupar toda a sua extensão, outro quadro com a imagem de um selo postal do centenário, o de 4 avos. Iluminado com balões chineses, o Hotel Hingkee tem pintadas bandeiras de todas as nações. Os alunos do liceu são por todos recebidos esplendidamente e erguem calorosos vivas a Portugal, à família real portuguesa, a Galhardo, à Academia macaense e ao povo de Macau.

Em casa do Sr. Conde de Senna Fernandes há uma soirée dançante, onde se acha reunida a elite da cidade.

Este, o programa do primeiro dia das comemorações realizadas em Macau a 17 de Maio de 1898.

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