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A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, propôs em 1896 que fosse celebrado o quarto centenário da partida de Vasco da Gama para a Índia e tal ideia encontrou eco tanto na população como no governo, que logo apoiou a iniciativa e por um decreto formulou o programa das festividades.

Pretendia-se estimular o brio dos portugueses, cujas esperanças se encontravam bastante abatidas após a perda da soberania nos territórios entre Angola e Moçambique, hoje Zimbabué e Zâmbia, inseridos no Mapa Cor-de-Rosa de 1886, e de onde, pelo Ultimato de 11 de Janeiro de 1890, os britânicos exigiram a Portugal retirar-se. Tudo consequência da Conferência de Berlim de 1884-85, quando os países europeus dividiram entre si o Continente Africano, tendo daí Portugal perdido para estes muito do seu território ultramarino.

Colocava-se a imperativa necessidade de trazer à memória as grandes viagens marítimas portuguesas e se nos princípios de Março de 1894 se comemorara no Porto o V Centenário do nascimento do Infante D. Henrique, festas que se estenderam a todo o país, nada melhor do que celebrar o dia 7 de Julho de 1497, quando Vasco da Gama embarcando em Lisboa no São Gabriel partira para a Índia, onde chegou à costa do Malabar a 20 de Maio de 1498. Estava encontrado o tema de gloriosa grandeza, o IV Centenário da partida de Vasco da Gama para a Índia. Querido pois, ensinado desde tenra idade à volta da lareira e aprofundado como História nas escolas, dera aquela viagem início ao território ultramarino espalhado pelo mundo desde há 400 anos e como tal, muito animaria também a alma aos portugueses do Ultramar.

 

PROGRAMA DAS FESTIVIDADES

Seria uma celebração nacional e extensiva a todo o território português, abrangendo todas as classes. A comissão central constituiria no reino, nas ilhas adjacentes e no ultramar, comissões especiais destinadas a promover tal festividade e marcavam-se para 8, 9 e 10 de Julho de 1897 os dias de gala em todo o território português. <Na alvorada de 8, os Paços do Concelho, as fortalezas e navios de guerra nacionais arvorarão a bandeira portuguesa, saudando-a com uma salva de cem tiros de peça, queimando-se grandes girândolas e foguetes e os sinos das igrejas deverão repicar. Os edifícios e estabelecimentos públicos, para além de hastear a bandeira nacional, deverão iluminar as suas fachadas durante esses três dias, tal como ficam convidados os cidadãos para adornar e iluminar as fachadas das suas residências. As autoridades, as corporações administrativas e comissões locais promoverão nas respectivas localidades toda a espécie de demonstrações festivas e muito especialmente as de um carácter geral e popular, como iluminações, arraiais, romarias, danças, cantos e jogos populares>. Além deste programa, aqui reduzidamente exposto, ainda se pretendia cunhar moedas comemorativas de 1000, 500 e 200 réis, medalhas em ouro, prata e outros metais, assim como selos postais. <Em Lisboa realizar-se-ão exposições nacionais, como a de agrícola e pecuária, de caça e pescaria, a de etnografia, a de belas artes e a Exposição colonial Vasco da Gama. Promover-se-á a elaboração de memórias, monografias e outros trabalhos literários e científicos, assim como históricos>. Pretendia-se convidar os governos das nações marítimas, bem como as grandes empresas de navegação a fazer-se representar, pois previam-se para Lisboa regatas, concursos de tiro e de velocípedes, congressos e conferências.

Estava assim lançado o repto. Mas no ano seguinte, quando chegou a data, nada parece ter ocorrido pois nos jornais de Macau não há dela referência. Com Amadeu Gomes de Araújo ficamos a saber as razões, “A morte de Pinheiro Chagas, em 1895, fez adiar os preparativos, só retomados em Maio de 1896. Em 1897, terminou o governo de Hintze e foi já o novo ministério, presidido por José Luciano de Castro, que decidiu concentrar os festejos em 17, 18 e 19 de Maio de 1898, dias de gala nacional”. Reinava D. Carlos, o Diplomata, que foi Rei entre 1889 até 1908.

 

PLANO do Eng. Abreu Nunes

Em Macau, a extensa várzea do Tap Seac, a estender-se até à Praia de Cacilhas, era um vale com aproximadamente cem hectares, sempre alagado, numa cota muito inferior às estradas que o circundavam e a situação piorava com a água das chuvas a escorrer de ambas as encostas dos montes da Guia e de S. Miguel, sendo por isso, um dos principais focos de infecção da cidade. Para sanear essa várzea, o Director das Obras Públicas Eng. Augusto Abreu Nunes planeou ir buscar terra ao campo da Vitória, separado da várzea do Tap Seac pela Estrada da Flora (actual Sidónio Pais), na encosta da Colina da Guia.

Em meados do ano 1896 decorria o trabalho de terraplanagem no sítio do Tap Seac com a terra retirada do campo da Vitória, ficando assim também este terreno aplanado, a um nível de dois metros inferior ao que tinha antes. Constava ir ser o triângulo da Guia nivelado, para o colocar ao mesmo nível da Praça da Vitória, o que daria ao local uma esplêndida esplanada. De uma superfície bastante irregular e com grandes desníveis criou-se um terreno plano, sendo os cortes de forma a regularizar o campo e os caminhos que o circundavam.

Quando apareceu a ideia das comemorações de 1898, lembrou-se o Director das Obras Públicas construir nesse planalto uma ampla avenida, como não havia em Macau e assim criar a Alameda Vasco da Gama, desde a Calçada do Gaio até à Praça da Vitória. O Eng. Abreu Nunes pretendia aí erguer uma estátua a Vasco da Gama e inserir a já existente Praça da Vitória com o seu monumento.

O Monumento da Vitória fora inicialmente projectado com a imagem de S. João Baptista, pois a vitória sobre os holandeses, calhara no seu dia, 24 de Junho. Para construir o monumento a S. João Baptista, que desde 1622 ficara como padroeiro de Macau, o Senado nos inícios dos anos 60 do século XIX avançou sugestões para obter a verba, ou por lotaria ou subscrições voluntárias. No entanto, o projecto foi substituído e a 1 de Fevereiro de 1869, o Presidente do Senado Félix Hilário de Azevedo comunicava ao Governador Sérgio de Sousa a existência no Senado de um fundo de 400 patacas destinado ao monumento a S. João Baptista, mas, devido a problemas políticos, vingara um outro projecto e assim propunha ser esse fundo aplicado ao novo Monumento da Vitória, segundo o Padre Manuel Teixeira. Tal monumento, proveniente de Lisboa das oficinas do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro, foi inaugurado em 1871 conjuntamente com a Praça da Vitória.

Governador de Macau desde 12 de Maio de 1897, Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo ao chegar de Lisboa para iniciar funções tinha já à sua espera o programa definitivo do grande jubileu, enviado a 3 de Maio de 1897 pelo presidente da comissão executiva nacional para organizar os festejos, o Almirante Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (filho do ex-governador de Macau João Maria Ferreira do Amaral), presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e que fora Ministro da Marinha em 1892.

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