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Prepara-se a celebração do IV Centenário do Caminho Marítimo para a Índia e sob a presidência do Governador Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (1897-1900) no Palácio do Governo reúne-se a 1 ou 2 de Fevereiro de 1898 a comissão executiva dos festejos, à qual Lu Cau e Ho Lin-vong pertencem, sendo aprovado o programa e nomeadas as subcomissões. Integra uma delas diversas personalidades chinesas influentes na sociedade macaense que, <pela sua posição e boas qualidades, se têm tornado dignos da consideração e respeito dos seus compatriotas>. Presidida pelo chefe da Repartição de Expediente Sínico, Eduardo Marques, é a subcomissão constituída pelos chineses, Ho Lin Vong como Vice-presidente e vogais: Lu Cao, Chon Sin Ip, Ip Lui San, Chan Fong, Choe Sam, Sung San, Lam Ham Lin, Ho Kuong, Vong Tai, Chan Hao Hua, O Loc, Li Kiang Chün e Chie Iet. Tratará dos festejos chineses e fogos de vista e está encarregada de fazer um apelo aos habitantes chineses de Macau, solicitando a iluminação das suas casas. Muitos, deste grupo de chineses, já tinham ajudado o Governo de Macau na preparação de outros festejos, como a visita a esta cidade do Grão Duque Czarevitch Alexandrovitch, filho do ex-Czar Alexandre II da Rússia. O Boletim Oficial de 1891 não refere qual dos irmãos Alexandrovitch, tios e cunhados do então reinante Czar da Rússia Nicolau Nikolaevich (1831-13 de Abril de 1891), pretendeu visitar Macau. Quando por ofício de 21 de Fevereiro de 1891, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Império da Rússia, por via da sua legação em Pequim, comunicou ao Governo de Macau que nos primeiros dias de Abril pretendia o Grão Duque Alexandrovitch fazer uma visita oficial a essa colónia, o Governador de Sua Majestade, Custódio Miguel de Borja (1890-1894) mandou que sua Alteza Imperial fosse aqui recebida com todas as honras inerentes à sua alta hierarquia. Para essa recepção projectavam-se festejos públicos e para tal foi constituída uma comissão extra-oficial composta pelos cidadãos Visconde de Senna Fernandes como presidente, Ho-Lin-Vong vice-presidente, Lu-Cau tesoureiro, Pedro Nolasco da Silva secretário e dos vogais: Chan-Fong, Chou-Sin-Ip, Ho Lin Seng, Ho-In-Kae, Choi-Sam, Ho-Loc, Lam-Am-Lin e Vom-Tac. Pelo Boletim Oficial de 28 de Março de 1891 ficou a saber-se que por falta de tempo essa visita oficial não se iria realizar. O Governador, no B.O. seguinte, publicou um agradecimento à comissão pela sua franca adesão ao convite que fizera, assim como pelo modo especial e bizarro com que a mesma se houve na liquidação final das despesas preparatórias efectuadas, considerando-as por completo à sua inteira responsabilidade.

 

A comunidade chinesa

 

Antes de 1841, a comunidade chinesa a viver em Macau dedicava-se a pequenos negócios e já nos finais do século XVIII tinha criado a Sam Kai Vui Kun, associação dos moradores das três ruas, a dos Ervanários, a das Estalagens e a dos Mercadores, as principais de comércio, reunindo-se desde 1792 no Sam Kai Miu, o Pagode das Três Ruas, [hoje o Templo de Kuan Tai (Guan Yu) na Rua Sul do Mercado de S. Domingos].

Com a criação de Hong Kong, após a I Guerra do Ópio, Macau perdeu a sua importância como porto e daí muitos chineses se terem mudado para a nova colónia inglesa, onde se abriam grandes oportunidades de trabalho e negócios. Usando as suas regionais redes de contactos, os comerciantes chineses começaram a ganhar grande poder económico, enquanto Macau assistia, sem nada poder fazer, ao declínio comercial. Tal levou os governantes portugueses a ter de encontrar outras formas de impulsionar a economia do território e com a chegada do Governador Ferreira do Amaral foi implantado o regime de exclusivos para conseguir financiar as despesas da colónia. Aproveitaram os chineses abastados, que passaram então a controlar a actividade económica de Macau.

Uma das famílias chineses que em meados do século XIX apareceu em Macau foi a de Ho Lo Quai. Este introduziu aqui o jogo do Fantan e a lotaria Vae Seng, tendo ainda outros negócios como, o de terrenos, do ópio, do abate de gado e do exclusivo do sal, que o tornaram milionário. Faleceu em 1888 e dos dez filhos, Ho Lin Vong era o sétimo, que, além de participar com o pai em alguns exclusivos, era ainda proprietário de fábricas instaladas em Macau e tinha adquirido a nacionalidade portuguesa.

Em 1890, uma parte da comunidade macaense achava conveniente ter membros chineses na vereação municipal e propuseram Ho Lin-Vong, como o membro mais popular do clube chinês, onde se reuniam os grandes proprietários e capitalistas, <os indivíduos que estão mais em contacto com as nossas autoridades e com os portugueses em geral>, e Chou-sin-ip, pela parte burguesa da população chinesa, lojistas e comerciantes e cujo seu centro de reuniões era o hospital chinês.

Já nos finais de 1892, por Portaria foi nomeada uma comissão para promover a organização de produtos naturais de Macau e Timor e seleccionar expositores à exposição colonial a realizar em Julho de 1893 no Palácio de Cristal do Porto. Essa comissão, composta por todo o corpo governativo de Macau e Timor, tinha como presidente o Governador Custódio Miguel Borja, e nela se encontravam alguns dos capitalistas da cidade, Chan-Kit-San, Chou-Sin-Hip, Ho-Lin-Vong e Lu-Cau.

As amizades entre estes chineses e a comunidade portuguesa de Macau estão espelhadas na festa dada por Ho-Lin-Vong a 3 de Maio de 1894 para celebrar o feliz resultado obtido por um dos seus filhos no exame de bacharéis em Cantão. Nesse lauto jantar à chinesa, oferecido aos seus amigos, contavam-se os senhores Albano Alves Branco, Amaro d’ Azevedo Gomes, António J. Garcia, Augusto Irmino Serpa, A. d’ Araújo, Albino António Pacheco, Adolpho Corrêa Bettencourt, Conde de Senna Fernandes, Conselheiro Dr. António Marques de Oliveira, Cipriano Forjaz, Clelio do Rozario, Dr. Álvaro Maria Fornellos, Dr. José Gomes da Silva, Dr. Luiz Lourenço Franco, Eduardo Marques, Francisco Maria Salles, Francisco Pereira Marques, Francisco H. Fernandes, Guilherme Menezes, Ignácio da Costa Pessoa, José Ribeiro, Joaquim Madeira, João Albino Ribeiro Cabral, Luiz Eusébio da Silva, Secundino Noronha e Tristão da Cunha Azevedo Carvalhaes, segundo o Echo Macaense.

Um mês depois de ter sido nomeada a subcomissão para tratar da parte respeitante aos chineses da celebração do IV Centenário, por Portaria de 11-3-1898 era nomeada uma comissão para expor os recursos de Macau e os elementos de produção artística e industrial na Exposição Universal de Paris de 1900. Era composta entre outros pelo juiz Dr. Albano de Magalhães, António Joaquim Garcia Presidente do Leal Senado e seu representante Pedro Nolasco da Silva, o Conselheiro Artur Tamagnini Barbosa e os comendadores: António Basto, Lourenço Pereira Marques, Cou-Sin-Hap, Lu-Cao e Ho-Lin-Vong, assim como ainda Cuong-Fat-Chin e Chan-Hoc-Hin, que apresentará em 1899 o seu relatório.

Estas as sinergias para a manutenção de Macau no final do século XIX.

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