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E stá Camilo Pessanha ainda em Óbidos, Portugal, quando em Novembro de 1893 a Rainha regente de Hespanha, Maria Cristina da Áustria, convida todas as potências a participar na Exposição Universal Internacional. Realizar-se-á de Abril a Outubro de 1894 em Madrid e comemora o IV Centenário do Descobrimento da América. Inaugura quando o poeta simbolista está a chegar pela primeira vez a Macau e na secção portuguesa dessa exposição encontra-se a imagem do Arcanjo S. Rafael, a figura de proa da nau daquele nome, “uma grosseira escultura em madeira de azinho com 68 centímetros de altura”, relata o Echo Macaense, “Na base tem aparafusada uma chapa onde se fixava um barão de ferro que passava por duas argolas também de ferro, pregadas nas costas da imagem para a segurarem à proa do navio”. Caravela capitaneada por Paulo da Gama foi no regresso da primeira viagem à Índia queimada junto aos baixios, que ficaram com o nome de S. Rafael. Vasco da Gama tinha por esta imagem uma especial devoção, tendo-a levado consigo na segunda e terceira viagem que fez à Índia. “Talvez seja esta a única peça existente dessa primeira esquadra de 1497”. Quatro anos mais tarde, em Maio de 1898 participa Camilo Pessanha em Macau na celebração do IV Centenário do Caminho Marítimo para a Índia de Vasco da Gama.
Centenários de datas memoráveis, para a História de Portugal e a marcar o início de Espanha, excepcionalmente importantes para a Humanidade Europeia pois, dominado o Cabo das Tormentas passaram os oceanos a estar todos ligados e daí o mundo mudar para uma época nova. Pelas portas da Boa Esperança, prosseguem os portugueses na exploração das rotas deixadas de usar cem anos antes pelos chineses e atravessando o Estreito de Malaca, conquistada a cidade, em 1513 vão à China. Viagem num junco chinês partilhada com Nina Chatu, o Bendara de Malaca, ficando o feitor Jorge Álvares como o primeiro português a chegar por mar a terra chinesa.
Malaca era um reino tributário da China quando os portugueses a conquistaram em 1511, mas continuaram-se a enviar embaixadas ao Celeste Império sob costumes e direito marítimo malaio até 1517, nas quais os portugueses se integravam. Modalidade usada nesse ano para enviar Tomé Pires como primeiro embaixador de Portugal à China e esperava-se já na Boca do Tigre permissão para seguir viagem até Cantão, quando o Capitão Fernão Peres de Andrade reparou nos compartimentos estanques dos juncos chineses.

Orientados pelo Céu

[EM 2018 FAZ 600 ANOS] Gonçalves Zarco em 1418 chegou a Porto Santo e Tristão Vaz no ano seguinte à Ilha da Madeira. Estavam os portugueses a iniciar a aventura pelo Oceano Atlântico quando, ao outro lado de África, no Índico, aportavam os chineses a realizar as suas últimas viagens por mar, tendo legado os seus conhecimentos marítimos aos muçulmanos, recolhidos no Mar Arábico por Pêro da Covilhã e enviados do Cairo em 1491 para Lisboa.
A China dera um grande contributo à navegação com inventos como o leme de popa, o sistema de içar e baixar o leme, a divisão do casco do barco em compartimentos estanques, assim como pelos mapas celestes e terrestres, onde cartografaram as suas rotas, baixios, ventos e correntes.
Com o reconhecimento do Céu, a China no final do século I navegava até ao Golfo Pérsico e retirava-se do mar em 1433, após pelos oceanos Pacífico e Índico, em mar aberto atingir longínquos países e regiões de África Oriental, as costas do Malabar e o Sri Lanca, onde a China Han, pelo Reino Nanyue, fizera trato no século II com o Império Romano.
As últimas sete viagens por mar, iniciadas em Dezembro de 1405, tiveram como propósito do Imperador Yong Le desenvolver a influência da dinastia Ming, combater a pirataria nos mares do Sudeste Asiático e estreitar relações diplomáticas, políticas e económicas pelo mundo. Pretendia demonstrar o poder erudito e prestígio da civilização chinesa e por trocas de preciosas prendas esperava tornar vassalos outros países e regiões, alguns a necessitar voltar a cativar. Fechada estava a lucrativa rota terrestre da seda desde a substituição da dinastia mongol dos Yuan pela han dos Ming. Os mongóis controlavam os territórios para Norte e Oeste da China e a Ásia Central, por isso só havia um caminho, o mar. Um século depois, em 1513 chegavam em junco chinês os portugueses ao Celeste Império da Dinastia Ming, mas para aí se estabelecerem levaram quarenta anos de espera.

Fanfang

A cidade cristã de Macau era o único território dentro da China a ser governado por uma administração estrangeira durante a Dinastia Ming (1368-1644) e tal continuou com a chegada da dinastia manchu dos Qing (1644-1911). Privilégio concedido aos portugueses sob a forma do sistema de fanfang, arrendamento a permitir dentro de algumas cidades chinesas existir bairros cujos residentes estrangeiros se governavam com as suas próprias leis, logo que estas não fossem contra os princípios de soberania da China. Solução encontrada durante a dinastia Tang (618-907), havendo fanfang ao longo do território chinês pelos caminhos terrestres da seda e quando estes ficaram interrompidos, os bairros estrangeiros de mercadores muçulmanos, árabes, persas, judeus e hindus, mudaram-se para os portos marítimos, sobretudo durante a dinastia Song (960-1279). A Pax Mongólica abriu de novo os caminhos terrestres, mas a chegada ao poder da dinastia Ming, fechou a China a todo o comércio, tanto terrestre como marítimo e expulsou os estrangeiros.
Para apresentar a nova dinastia brilhante chinesa aos antigos reinos e países tributários do tempo da dinastia Song, o Imperador Yong Le, o terceiro da dinastia Ming, mandou fazer uma grande armada e sob o comando do Almirante Zhang He realizaram-se entre 1405 e 1433 as últimas Sete Viagens marítimas intercontinentais, deixando desde então a China o mar. O conceito dessas viagens, muito pelo peso confucionista, fora sobretudo de amizade e afirmação de protecção aos países tributários, não pagando os produtos trocados os enormes custos das armadas, que engoliram fortunas ao país. Valeu a investigação de conhecimentos nos portos onde aportaram para adicionar à Grande Enciclopédia, mandada compilar pelo Imperador Yong Le, trazendo-lhe novos produtos, animais e plantas desconhecidas no Celeste Império.
Em cada expedição, a armada era uma cidade flutuante de duas mil embarcações, com barcos jardins e hortas, e dividindo-se em diferentes frotas, combinavam encontros na longínqua África. Uns, navegando de porto em porto pela costa do Oceano Índico, visitando as comunidades chinesas ultramarinas no Mar Arábico, outros atravessando-o sem terra à vista, com a ajuda da bússola marítima, invenção chinesa do século XI.
Se a navegação portuguesa pelo Atlântico fez desaparecer a última porta que não deixava unir os oceanos, na viagem iniciada a 19 de Fevereiro de 1894, Camilo Pessanha pode já aproveitar um atalho aberto há 25 anos, o Canal do Suez, passagem inaugurada a 1869 entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho.

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