Guilherme Pegado e Ernesto Gherzi – Os seus contributos para a meteorologia em Macau

Vem este texto a propósito de duas figuras históricas que percorreram caminhos ligados à Meteorologia em Macau. Trata-se de Professor Guilherme José António Dias Pegado (1803-1885), ilustre macaense pioneiro da Meteorologia de Estado em Portugal, professor de Física e Matemática na Universidade de Coimbra e na Escola Politécnica de Lisboa. Foi também o primeiro diretor do então designado “Observatório do Infante D. Luiz”, em Lisboa.

O padre italiano Ernesto Gherzi (1886-1973), conhecido como “Pai dos Tufões” e autor de trabalhos científicos nas áreas da Meteorologia e da Geofísica, adquiriu a sua formação científica dentro da Companhia de Jesus e em institutos europeus. Não chegaram a ser contemporâneos, mas as obras de ambos contribuíram para o desenvolvimento da Meteorologia em Macau. Guilherme Pegado nasceu em 23 de maio de 1803, na freguesia de São Lourenço, e faleceu também em Macau, em 22 de outubro de 1885. Ernesto Gherzi nasceu em 8 de agosto de 1886, em Sanremo, Itália, e faleceu em 6 de dezembro de 1973, em Saint-Jerôme, Montreal, no Canadá.

Tal como Ernesto Gherzi, que é conhecido como “Pai dos Tufões”, Guilherme Pegado pode ser considerado como o “Pai da Meteorologia” no nosso país, na medida em que foi fundador da Meteorologia de Estado em Portugal e territórios ultramarinos sob administração portuguesa, incluindo Macau, onde foi grande impulsionador das práticas meteorológicas segundo as normas internacionais.

É em grande parte graças a este eminente macaense que a estação meteorológica localizada junto à sede dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau (SMG), na Taipa Grande, foi designada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) “Estação Meteorológica Centenária”. Apesar de ser relativamente recente, pois começou a funcionar quando se deu a mudança da sede dos SMG da Fortaleza do Monte para a Taipa Grande, em 1996, a OMM considerou que se cumpriram os rigorosos critérios para essa classificação, entre os quais observação sem interrupção durante pelo menos cem anos, independentemente de ter mudado de um local para outro relativamente próximo.

Na realidade, as estações meteorológicas em Macau mudaram várias vezes de local. O primeiro observatório meteorológico, ainda sem instalações próprias, foi criado em 1861, no então chamado Hospital Militar. As observações eram feitas duas vezes por dia sob a responsabilidade do Dr. Lúcio Augusto da Silva (1825–1906), médico cirurgião luso-indiano, então chefe dos Serviços de Saúde do território. Os instrumentos eram devidamente aferidos na Escola Politécnica de Lisboa. No entanto, foi só a partir de 1881 que se passaram a fazer oficialmente observações com continuidade, por pessoal da Marinha, na Capitania dos Portos. Mais tarde o observatório mudou várias vezes de local: para uma dependência da Ermida da Nossa Senhora da Penha (1900); Colina de S. Jerónimo, em pavilhões das antigas dependências do Hospital do Conde de S. Januário (1904); Fortaleza do Monte (1966) e Taipa Grande (1996).

Foi sob proposta de Guilherme Pegado que se deu início à construção de uma infraestrutura de observação meteorológica em Portugal, que veio a designar-se por “Observatório Meteorológico anexo à Escola Politécnica”, como consequência da aplicação do estabelecido na portaria governamental publicada em 2 de agosto de 1853. O Observatório, instalado no atual Jardim Botânico, adjacente à antiga Escola Politécnica de Lisboa, veio posteriormente a ser referido sucessivamente como “Observatório Meteorológico de Lisboa” e “Observatório do Infante D. Luiz”, em homenagem ao infante que viria a ser rei de Portugal e que nutria grande interesse pela ciência e pela Marinha. Começou a funcionar regularmente, sob a direção do cientista macaense, em 1 de outubro de 1854, seguindo as regras estabelecidas internacionalmente.

Guilherme Pegado foi nomeado pelo Ministério da Marinha, em 1853, diretor científico das observações meteorológicas a bordo de navios. Divulgou em Portugal os critérios estabelecidos na “Conferência Marítima de Bruxelas” que se realizou em agosto, estendendo-se por setembro de 1853, para a uniformização das observações meteorológicas no mar. Os navios portugueses iniciaram essa prática na viagem de Lisboa para Macau da corveta D. João I, em 1853, passando-se a registar várias vezes por dia observações meteorológicas a bordo. Foi também seguindo as suas instruções que se iniciou a instalação das primeiras estruturas meteorológicas em Macau.

Guilherme Pegado, além de cientista e professor universitário, foi também deputado às Cortes pelo círculo de Macau durante várias legislaturas.

No que se refere ao Padre Ernesto Gherzi, este cientista desempenhou as funções de diretor do Observatório de Zikavei, de1930 a 1949. Foi impedido de voltar a Xangai depois de participar numa missão às Filipinas, onde participou num congresso científico em Manila. Após uma breve estada em Hong Kong, optou por aceitar o convite das autoridades portuguesas para trabalhar na área da Meteorologia, em Macau, onde permaneceu de 1950 a 1954.

Na sequência da lei que criou oficialmente os serviços meteorológicos nos antigos territórios ultramarinos portugueses, em 1950, foi criado o Serviço Meteorológico de Macau (SMM), que anteriormente era designado simplesmente por Observatório Meteorológico. Durante dois anos o Padre Ernesto Gherzi deu forte apoio ao meteorologista português Manuel Tomás Ferreira Cabrita, que permaneceu em Macau, de 1951 a 1955, como o primeiro diretor do SMM. Apesar da lei que criou este Serviço tivesse sido promulgada em 1950, o SMM só entrou oficialmente em funcionamento em março de 1952. Foi adquirido novo equipamento e estabelecida a ligação à rede meteorológica mundial, o que permitiu o intercâmbio de informação com Manila e Hong Kong.

Por iniciativa do Padre Gherzi tiveram início outras atividades nunca antes exercidas em Macau, como a observação da ionosfera. Segundo Gherzi, a observação de perturbações radioelétricas na ionosfera constituía uma boa ferramenta para a previsão da aproximação de tufões. A sua experiência como diretor do Observatório de Zikavei durante cerca de vinte anos, onde dirigiu um eficaz serviço de alerta de tufões, contribuiu grandemente para a melhoria da previsão do tempo associado a estas tempestades. Foi durante a sua estada em Macau que o Padre Gherzi escreveu o livro “Meteorology of China”, considerado um clássico, com a colaboração de Manuel Cabrita, publicado em 1951 pela Imprensa Nacional de Macau.

É de salientar o interessante trabalho da historiadora britânica Priscilla Mary Roberts, no que se refere à investigação sobre o padre italiano e o seu contributo para o serviço de Meteorologia em Macau.

Sobre este assunto a historiadora apresentou na sede da Fundação Rui Cunha, em 5 de novembro de 2025, a palestra intitulada “The Father of Typhoons – Ernesto Gherzi and the Macao Meteorological Service, 1950-1954”. Fica aqui a sugestão àquela Fundação, que tanto tem contribuído para a divulgação de assuntos relacionados com Macau, que coloque na sua agenda algo de semelhante no que se refere a Guilherme Pegado.

4 Jun 2026

O Ocidente desfeito (IV)

“The greatest enemy of knowledge is not ignorance, it is the illusion of knowledge.”
Stephen Hawking

À medida que os Estados Unidos se debatem nas suas contradições, o mundo observa se conseguirão inverter a trajectória ou se arrastarão os aliados para o mesmo abismo. A velha dialéctica das tempestades que regressam à calma ainda seduz alguns espíritos, mas o realismo impõe-se pois o optimismo tornou-se um luxo difícil de sustentar. O que se pode e deve fazer é assumir as nossas responsabilidades enquanto europeus ocidentais. A súbita moda de demonizar a América, sobretudo entre aqueles que até ontem a idolatravam, é apenas uma fuga às responsabilidades. E esse é um luxo que a Europa não pode pagar.

O inimigo de que precisamos de nos defender somos, antes de mais, nós próprios. Fomos nós que nos deixámos aprisionar numa ideologia europeísta transformada em metaverso sentimental que prometia paz, prosperidade e progresso, mas produz belicismo, desconforto social e uma erosão cultural que corrói o que resta das democracias nacionais. A máquina europeísta, construída para fabricar consenso, tornouse uma fábrica de irrealidade que nos afasta das bases democráticas das nossas liberdades e nos empurra para uma deriva autodestrutiva.

As estruturas comunitárias, cada vez mais distantes da legitimidade democrática, tentam impor a primazia de poderes delegados e tecnocráticos sobre os poderes eleitos. Esvaziam as democracias nacionais da sua substância e, ironicamente, alimentam os nacionalismos que pretendiam superar. Sem fronteiras claras, a União Europeia transformase numa salada institucional de países que, muitas vezes, têm mais afinidades com parceiros extra europeus do que entre si. Em tempos de paz, esta deriva ainda se tolera. Em tempos de guerra, é letal. Quando tudo é reduzido a preto e branco, a verdade desaparece.

A censura e a autocensura atingiram níveis paroxísticos. O resultado é um continente que se gaba de ser o mais pacífico do mundo, esquecendo que essa paz foi um subproduto da derrota nas guerras mundiais e da protecção de uma potência que não tinha interesse em punirnos. A Europa Ocidental caiu, cambaleante, dentro do guardachuva estratégico americano, que nos reergueu para evitar que Moscovo nos absorvesse. Desde então, expulsámos a guerra do nosso horizonte mental, como se isso dependesse apenas da nossa vontade. Muitas Constituições cristalizaram essa ilusão. Para tudo o resto, confiávamos no protector transatlântico.

Mas há dois problemas pois guerras não desaparecem por decreto; e a segurança nacional não pode ser terceirizada para um país que age exclusivamente segundo os seus interesses. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, ficámos estupefactos. Transformámos os ucranianos em heróis da nossa liberdade, enviámos armas às escondidas para não nos assustarmos a nós próprios nem irritarmos demasiado Moscovo, e rezámos para que a guerra ficasse longe das nossas fronteiras. Não movemos um dedo para promover negociações. Quando tentámos, no início de 2022, fomos rapidamente informados pelos nossos protectores de que não era o momento. Agora que são eles a tentar, criticamolos por não procurarem uma “paz justa”, como se pudesse existir justiça sem paz. Para agravar, embarcámos num rearmamento caótico, sem estratégia comum, em nome de um exército europeu sem Estado europeu. Cada país faz o que quer, como quer e quando quer. E, apesar disso, continuamos convencidos de que permaneceremos sob tutela americana que os americanos deixaram de garantir. É a síndrome do guardachuva fantasma pois continuamos a sentilo sobre a cabeça mesmo depois de ter desaparecido.

Os europeístas mais fervorosos insistem que a defesa europeia criará finalmente a Europa política. Tentámos construir a casa pelo telhado com o carvão e o aço, depois com o mercado único e finalmente com a moeda única. Quando se professa o princípio da irrealidade, nada é obstáculo. Mesmo que o resultado seja a guerra desde que a Constituição continue intacta. O europeísmo tornouse, na prática, antieuropeu. E perigosamente aventureiro em tempos de conflito. O problema é que os seus defensores são sinceros pois acreditam genuinamente no que dizem. Apenas não têm qualquer noção da realidade. E fazem dessa cegueira uma virtude. O barómetro está preso no anticiclone permanente, enquanto a tempestade se aproxima. A devolução voluntária das últimas parcelas de soberania que o império americano nos tinha deixado por falta de vocação imperial completou o trabalho. A destruição deliberada das culturas estratégicas europeias, especialmente na Alemanha, fez o resto.

Atordoados pelo ataque russo à Ucrânia, vagueamos como sonâmbulos num continente que perdeu a capacidade de interpretar o mundo e de se situar no tempo. A surpresa foi tal que nem percebemos que perdemos primeiro a guerra dos outros, amanhã talvez a nossa. Nada garante que russos e ucranianos interrompam tão cedo o massacre. E mesmo que o façam, o mais provável é que se trate de uma trégua instável, não de uma paz verdadeira. O que é certo é que os efeitos estratégicos desencadeados por esta ofensiva lenta e devastadora continuarão a propagarse durante anos, com intensidade crescente.

A guerra não é mundial pela participação directa, mas é pelas consequências. O conflito abriu fissuras profundas na correlação de forças globais e arrastou para o tabuleiro a chamada “maioria mundial”, que observa o confronto entre um Norte inquieto e um Sul onde escasseiam Estados sólidos precisamente o instrumento que a Europa inventou para transformar guerras em paz. O impacto mais dramático para nós é a dissolução do Ocidente. Não apenas como bloco geopolítico, isso foi, mas como conceito cultural.

O “Ocidente” que conhecíamos era herdeiro da Europa anterior a 1914, antes de o ramo americano da família se tornar dominante. Era a Europa civilizacional, matriz do homo occidentalis, livre para procurar a verdade, mas não para impôla. Uma Europa onde as elites falavam a mesma língua intelectual, onde a ciência, filosofia e arte circulavam sem fronteiras, onde um inglês continuava o trabalho de um francês, um alemão desenvolvia o de um inglês, um dinamarquês avançava mais um passo e um americano, ocasionalmente, inventava uma nova sequência. Talvez um dia consigamos recompor alguns fragmentos do Ocidente estratégico. Mas a civilização que lhe deu origem essa, temo, não voltará.

4 Jun 2026

A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (III)

A semana passada, analisámos o impacto da ascensão da IA generativa nos planos de reforma. Ao longo da última década, a tendência da Independência Financeira, Reforma Antecipada (FIRE na sigla em inglês) alastrou-se por todo o mundo, com muitos trabalhadores do sector de serviços ambicionando reformar-se cedo e viverem da aposentadoria. No entanto, desde o aparecimento do ChatGPT em finais de 2022, a velocidade da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não só na remodelação das estruturas industriais, mas também ao abalar directamente a lógica fundamental do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

Para lidar com a instabilidade no emprego criada pela IA, as pessoas com trabalhos como os designers gráficos, mencionados a semana passada, podem pensar em recorrer a várias ferramentas financeiras faseadas para os ajudar a tornar viáveis os seus planos de reforma:

1. Criar um fundo de emergência, pondo de lado o equivalente às despesas básicas efectuadas ao longo de 12 a 24 meses. Este valor deve ser distribuído por participações em contas correntes e investimentos de curto prazo, mantendo a liquidez suficiente para cobrir despesas domésticas em caso de desemprego ou de um período de transição profissional.

2. Criar um conjunto de activos tangíveis resistente à inflação comprando propriedades para arrendamento em localizações privilegiadas e REITs (Fundos de Investimento Imobiliário). Os retornos fixos proporcionam fluxo de caixa estável e, a longo prazo, combatem a inflação.

3. Criar um conjunto de activos que ofereçam dividendos comprando acções conservadores de baixa volatilidade e altos dividendos, acções de utilidade pública e ETFs de qualidade. Esta estratégia de dividendos passivos aumenta gradualmente o rendimento da reforma.

4. Criar uma protecção a longo prazo, como anuidades vitalícias, seguro de poupança participante e seguros de saúde. Desta forma as despesas de saúde e a subsistência durante velhice deixam de ser uma preocupação, prevenindo ao mesmo tempo o risco de investimento que desgastem o capital da reforma nos anos seguintes.

5. Assegurar produtos de investimento diversificados. Por exemplo, comprar ETFs de base alargada no estrangeiro e diversificar a alocação de activos para evitar riscos associados a recessões económicas numa única região ou alterações na política do sector, melhorando assim a estabilidade dos activos de reforma.

O declínio físico é inevitável com o envelhecimento, e o planeamento da reforma deve ser feito em função do nosso ciclo fisiológico. Como parte das soluções a curto prazo temos a passagem do trabalho a tempo inteiro para o trabalho a tempo parcial, para criar um equilíbrio entre o esforço e o rendimento; nas soluções a médio prazo podemos apontar a mudança de executivo para orientador profissional, auditor qualificado ou consultor, usando a experiência para gerar valor sem necessidade de grande desgaste físico e mental; nas soluções a longo prazo inclui-se a transição para serviços profissionais menos exigentes para ainda assim se obter um rendimento sustentável.

As empresas podem implementar um “sistema de consultoria”, permitindo que os executivos seniores abdicem dos seus cargos de gestão após a reforma e se tornem consultores. Desta forma a empresa preserva pessoas com experiência prática valiosa, ao mesmo tempo que abre canais de promoção para colaboradores mais jovens, criando uma situação vantajosa quer para empregadores quer para os trabalhadores.

Em termos gerais, a reforma na era da IA já não se resume a poupar dinheiro suficiente, mas sim a construir um sistema abrangente que tenha por base a “competitividade profissional + o rendimento passivo de activos + planos de seguros. O essencial do período da reforma é poder ter a liberdade de escolher, passando de ‘trabalhar para viver’ para desfrutar de uma ‘carreira baseada nos interesses pessoais’. Perante a incerteza, só priorizando as poupanças, a evolução contínua com a IA e o auto-investimento é que podemos criar uma rede de segurança para a reforma e construir uma competitividade sustentável num meio em constante mudança.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência, e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, procure um consultor profissional licenciado para todas as decisões financeiras.


Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

2 Jun 2026

Socialistas presos

Declaração de interesse: não temos nada, absolutamente nada a ver com o Partido Socialista. Mas, em Portugal algo mudou na política e na investigação judicial. Existem actualmente em Portugal 24 partidos políticos legalmente inscritos no Tribunal Constitucional. Destes, oito têm assento parlamentar na Assembleia da República.

Não nos lembramos desde o 25 de Abril de 1974 que a Polícia Judiciária tenha realizado, com 400 funcionários e técnicos de informática, várias buscas domiciliárias e não domiciliárias a um só partido político, como o fez, na semana passada, ao Partido Socialista, dirigindo-se à sua sede principal de Lisboa e em juntas de freguesia e residências onde se encontravam socialistas em Lisboa, Oeiras, Mafra e Coimbra, A megaoperação versus espectáculo da PJ deteve vários membros do PS e mais de 40 funcionários do partido passaram à situação de arguidos.

Recorde-se, que a operação “Tutti Fruti”, dirigida a Rui Rio não abrangeu somente membros do PSD e deu zero. Que a ida de um avião com funcionários da PJ para a Madeira deu zero. Neste sentido, começamos por sublinhar que 400 funcionários da PJ fariam imensa falta nos seus gabinetes para accionarem as muitas queixas-crimes que deram entrada pela mão de muitos cidadãos portugueses e que passados muitos meses continuam a marcar passo, com a alegação da falta de pessoal, especialmente de procuradores.

Por outro lado, salientar que as buscas da PJ foram de tal forma chocantes na sociedade porque deu a ideia de que no Partido Socialista era tudo uma cambada de corruptos. Com a agravante de ser precisamente no dia seguinte a uma operação idêntica em Espanha ao Partido Socialista Operário Espanhol.

A PJ alega que a existem suspeitas de corrupção, factos relativos a adjudicações por autarquias, cujo valor global pode ascender a quase dois milhões de euros, suspeitas de alegadas práticas de crime de prevaricação e participação económica em negócios, peculato, abuso de poder, procedimentos de contratação de militantes socialistas e à adjudicação por ajuste directo de serviços a empresas associadas a elementos do Partido Socialista, por parte de câmaras municipais e juntas de freguesia. Obviamente que se se vier a provar tais factos, que os responsáveis terão de ser punidos.

Mas, vamos a factos. Vamos a coincidências. Vamos a jornalixo. Vamos a discriminação. Em primeiro lugar, não pomos as mãos no lume que nos outros partidos não aconteça precisamente a mesma coisa. Por exemplo, a PJ não realizou nenhuma megaoperação domiciliária quando elementos do Partido Chega, roubavam malas nos aeroportos ou eram acusados de pedofilia.

Que coincidência a realização da operação da PJ, já que foi realizada quando um homem que foi muitos anos director da instituição passou para ministro e aconselhou que um seu amigo ocupasse o seu lugar à frente da PJ. Coincidência, quando canais de televisão da propriedade de Cristiano Ronaldo, amigo de Donald Trump, canais que mais entrevistam André Ventura apoiante de Trump e o político português que de imediato veio a público apoiar a operação da PJ e pronunciar-se contra o líder socialista José Luís Carneiro.

Isto, quando muito recentemente as sondagens divulgadas deram um resultado com o Partido Socialista em primeiro lugar. Coincidência, chocante e repugnante, por parte dos referidos canais televisivos que em apenas duas horas divulgaram mais de 50 vezes que tinha sido detido Duarte Moral “assessor de António Costa”, quando o ex-primeiro ministro já não o é há cerca de três anos. Com a agravante de o jornalixo desses canais não referir que Duarte Moral foi assessor de António Costa, de Pedro Nuno Santos e de José Luís Carneiro, porque é o principal quadro do partido na área da comunicação e antigo jornalista. A propósito, à mesma hora em que esses canais televisivos não cessavam de divulgar o nome de António Costa, a RTP Notícias falava sobre a Ucrânia, a CNN Portugal da guerra no Irão e a SIC Notícias de José Mourinho e de Marco Silva.

Algo mudou mesmo em Portugal. Antes, dizia-se à política o que é da política e à justiça o que é da justiça. No entanto, o povinho não é atrasado mental e já verificou que algo se está a misturar entre a política e a justiça. Estranho é a PJ nunca ter realizado buscas às dezenas de juntas de freguesias lideradas por políticos de diferentes partidos que têm criminosamente vendido terrenos baldios que por lei são “invendáveis” e pertencem ao Estado.

Na passada noite de quinta-feira, sexta e sábado, naturalmente que todos os canais de televisão e toda a imprensa veio a público anunciar a detenção de cinco socialistas, aliás quatro, porque uma senhora detida foi logo libertada porque o “crime” cometido era ter em casa uma velha arma que era do seu pai. Além dos detidos, passaram à condição de arguidos cerca de 40 socialistas.

A ideia que ficou pelo país só deu força ao político neofascista que deseja a todo o momento descredibilizar a democracia. Lá vieram as conversas nos cafés de que “Ventura é que tem razão, são todos uma camarilha de ladrões nestes partidos do sistema”. Entretanto, vários socialistas, entre eles João Soares, já vieram a público sublinhar que a operação da PJ se tratou de “uma cabala contra o PS num momento em que o partido é apresentado em primeiro lugar nas sondagens”. Desta forma, não nos admira nada que as sondagens apresentem o Chega em segundo lugar. O governo de Montenegro e os seus interesses políticos em derrotar o Partido Socialista leva muita gente a actuar para lhe agradar… E mais uma vez, a montanha pariu um rato: o juiz mandou todos os detidos em liberdade.

1 Jun 2026

O Ocidente desfeito (III)

(Continuação do artigo publicado na edição de dia 27 de Maio)

O nuclear é o grande tabu da relação francoalemã. Na Alemanha, não apenas nos bastidores mas também na imprensa, discutese abertamente a necessidade de considerar a opção atómica. Alguns juristas lembram que o único obstáculo formal é o Tratado de Não Proliferação, que qualquer país pode denunciar. A Coreia do Norte fez; a Alemanha, se quisesse, poderia seguir o mesmo caminho. Tecnicamente, nada impede Berlim de construir rapidamente um pequeno arsenal pois tem conhecimento, tecnologia e infra-estruturas. O que falta é coragem política e disposição para enfrentar a reacção europeia.

A ideia de um arsenal nuclear europeu é ilusória. A arma atómica é, por definição, símbolo de soberania nacional. A França faz disso um dogma. A Alemanha, soberana apenas desde 1990 e ainda hoje com tropas americanas no seu território, sabe que a sua margem de manobra é limitada. Mas a emergência estratégica leva Berlim a considerar o impensável.

Daí a proliferação de “planos B” em toda a Europa. Quem confiou exclusivamente no guardachuva americano percebe agora que esse abrigo não é seu e pode fecharse a qualquer momento. O governo alemão criou grupos de trabalho para estudar formas de financiar um sistema nuclear europeu. E todos sabem que, uma vez aberto esse caminho, a transição para um programa nacional seria rápida.

Alguns estrategas imaginam até uma solução híbrida com uma espécie de “nuclear europeu certificado”, onde parte do arsenal francês seria estacionado na Alemanha e parte de um eventual arsenal alemão seria acolhido em território francês. Uma troca simbólica para tranquilizar vizinhos nervosos e para disfarçar o facto de que cada país quer, no fundo, a sua própria bomba.

Chamemoslhe “Plano C” por ser tão improvável quanto explosivo. Uma engenharia nuclear partilhada entre a França e Alemanha que, para além de suscitar arrepios em Varsóvia, provocaria urticária em Roma apesar da Itália ter ensaiado discretamente, nos anos cinquenta, um projecto atómico conjunto com esses mesmos parceiros. A história tem destas ironias.

A verdade é que a desconfiança é recíproca. Os franceses olham para os alemães com o mesmo cepticismo com que os alemães observam o entusiasmo militar de Paris. Em Berlim, há quem veja na aproximação estratégica francesa uma versão musculada do velho instinto gaullista de abraçar para controlar. Um abraço sem ternura, claro está, apenas o suficiente para manter o vizinho sob vigilância. E tudo isto partindo do pressuposto, nada garantido, de que dentro de uma década a França continuará a ser militarmente superior à Alemanha.

A retórica da emergência militar tem muito de teatral, mas funciona. Cada país cultiva as suas “almas belas”, aquelas que continuam a acreditar que o guardachuva americano é eterno e infalível. “Certo ou errado, é o meu protector”, murmuram alguns em Berlim e muitos mais em Roma. Em Itália, a fé no amparo transatlântico sobrevive a todas as evidências em contrário, sustentada por tabus constitucionais, ilusões jurídicas e um apego quase religioso ao direito internacional, que a história insiste em desmentir.

O silêncio ensurdecedor do governo italiano nas primeiras semanas do novo ciclo político em Washington, e o afastamento em relação ao grupo dos países mais intervencionistas, revelam uma dependência persistente da dissuasão americana. Uma esperança contra si, quase bíblica na sua ingenuidade. Mas se a Itália quiser preservar o que ainda pode ser salvo, terá de renegociar a relação com os Estados Unidos em bases bilaterais claras de protecção em troca de acesso militar. E, sobretudo, Forças Armadas capazes de lutar ao lado dos americanos quando os interesses coincidem, ou sós quando não coincidem. Mesmo sem o resto da Europa.

Apesar das aparências, algo começa a mexer debaixo da superfície. Os militares italianos falam abertamente de guerra em italiano, não em anglicismos anestesiantes. A indústria de defesa acelera, ainda que de forma descoordenada. E as Forças Armadas, embora dependentes dos Estados Unidos, estão mais preparadas do que as alemãs e apenas atrás das francesas em capacidade operacional. O objectivo é simples de depender menos, mesmo sabendo que a independência total é impossível.

Como todas as revoluções geopolíticas, esta terá duas fases; a da ruptura e reconstrução. Estamos apenas no início da primeira com caos, acusações e incerteza. A segunda virá mais tarde, e será um compromisso imperfeito entre o velho e o novo. O mais provável é que o futuro energético e estratégico euroasiáticoafricano acabe por se parecer bastante com o passado, apenas com novos protagonistas. Se tudo correr bem, o mundo reencontrará um equilíbrio de poder como uma arte que os italianos dominaram no Renascimento. Se correr mal, destroem-se mutuamente.

30 Mai 2026

O Ocidente desfeito (III)

“Europe’s tragedy is that it never misses an opportunity to miss its moment.” – Tony Judt, Postwar: A History of Europe Since 1945

Avançando para o século XXI, a França tenta reinventar-se. Houve momentos em que Paris quis parecer uma “startup” política, ágil e moderna, como se a tradição gaullista pudesse ser substituída por entusiasmo tecnológico importado da Califórnia. Mas a realidade geopolítica encarregou-se de recentrar o debate. À medida que a ordem transatlântica se fragmenta, a França regressa ao seu instinto natural que é reivindicar a liderança europeia e apresentar-se como a única potência continental capaz de agir sem pedir licença.

A retórica francesa recupera então o velho argumento da independência estratégica de que a Europa, não pode continuar a viver de joelhos perante potências externas, sejam americanas, britânicas ou russas. A França, única potência nuclear da União Europeia e que escapou ao estatuto de protectorado após 1945, vêse como guardiã dessa autonomia. E tenta convencer os restantes europeus de que, se não assumirem responsabilidade própria, acabarão reduzidos a figurantes num mundo dominado por gigantes.

Neste contexto, a liderança francesa procura posicionarse como alternativa à deriva global. Apresentase como defensora de uma Europa que não quer ser arrastada para acordos entre Washington e Moscovo feitos à sua custa. E tenta liderar um grupo de países que se recusam a aceitar que a guerra na Ucrânia termine com um entendimento entre grandes potências que ignore os interesses europeus.

Mas a tarefa é ingrata. A Europa está dividida, fragmentada e desconfiada. Alguns países olham para Paris com esperança; outros com irritação; muitos ainda com indiferença. A França, apesar de ser a potência militar mais estruturada do continente, não consegue transformar automaticamente essa força em liderança consensual. E, no entanto, insiste porque sabe que, se não o fizer, ninguém o fará.

A França continua a moverse com naturalidade em cenários de conflito, mesmo quando a própria sociedade se fragmenta sob o peso de crises internas que corroem a Quinta República. Paradoxalmente, é precisamente este ambiente de tensão que alimenta a ambição francesa de se afirmar como potência dominante num continente onde quase todos os outros parecem desnorteados.

O panorama europeu é um convite aberto à ascensão francesa pois as vanguardas mais ferozmente antirussas perderam o equilíbrio, a Anglosfera está rachada, a Alemanha vive uma crise de identidade permanente e a Itália vagueia num limbo estratégico. Para Paris, é o momento ideal para reivindicar o estatuto de Número Um na Europa.

Mas para que a França volte a liderar, precisa de um entendimento com a Alemanha e esse está no ponto mais baixo em décadas. Enquanto Washington impõe tarifas punitivas e acusa os europeus de parasitismo, a famosa “parceria francoalemã” vive uma fase melancólica. A França, com a sua tradição de grandeza, sabe adaptarse quando o vento muda. A Alemanha, pelo contrário, não tem um passado glorioso ao qual regressar para recuperar ânimo, nem a capacidade de mobilizar a população em torno das Forças Armadas. Perdeu simultaneamente a referência americana e a europeia, e respira um ar de ano zero.

O único ponto de convergência entre Paris e Berlim é a convicção de que os Estados Unidos não são o pilar ocidental que foram. A França, por orgulho; a Alemanha, por falta de alternativas, começam a imaginar um Ocidente sem América. Mas a Alemanha enfrenta um obstáculo adicional dada a divisão interna entre o antigo Oeste, órfão de um aliado americano cada vez mais hostil, e o antigo Leste, onde persistem simpatias históricas pela Rússia. A pressão simultânea de Washington e Moscovo deixa Berlim numa posição desconfortável.

Daí a conclusão das elites alemãs de que a Alemanha terá de aprender a defenderse só, de preferência com apoio francês e europeu. Para isso, preparase para gastar centenas de milhares de milhões de euros, abandonando tabus orçamentais e tentando ressuscitar um espírito militar que desapareceu há gerações. Não o fará através do serviço militar obrigatório pois os jovens alemães não demonstram entusiasmo por morrer pela pátria mas através de campanhas de “reconversão cultural”, vendidas como oportunidades de socialização patriótica. Uma versão moderna das antigas associações estudantis nacionalistas.

E aqui surge o paradoxo mais alemão de todos; quanto mais a Alemanha se rearma, mais se afasta da França. Paris não esquece as três agressões vindas do outro lado do Reno, duas das quais desencadearam guerras mundiais. E não está disposta a aceitar que a Alemanha volte a ser a potência militar dominante da Europa muito menos se isso incluir armas nucleares.

(Continua)

28 Mai 2026

Uma história de desconexão – e sobre onde os rapazes encontram comunidade

Desde a série Adolescente que se tem falado sobre a socialização de jovens rapazes e os perigos da manosphere: o canto da internet que enaltece um discurso misógino e anti-feminista. Andrew Tate, dos maiores influencers do género, acusado de crimes de tráfico humano e violação na Roménia e no Reino Unido, percebe que traz um discurso que ressoa na cabeça dos rapazes. Explorando as fragilidades do sistema neoliberal capitalista, de um mundo em pós-pandemia e de uma possível terceira guerra mundial, estes influencers lucram com as incertezas da vida – e dos rapazes que procuram respostas.

Muitos destes jovens chegam à manosphere através de perguntas feitas ao seu motor de busca favorito sobre relacionamentos, exercício físico ou dinheiro. Eles encontram propostas que são altamente aliciantes por serem simples e fáceis de compreender, e que mobilizam a frustração comum. As pessoas estão cada vez mais isoladas e, na procura de símbolos identitários, encontram um grupo que está igualmente frustrado por se sentirem não-vistos ou não-ouvidos.

Andrew Tate diz algo como “eu consigo dizer que a água é molhada”, i.e., ele consegue dizer o óbvio. Os discursos populistas justificam-se frequentemente com recurso ao senso comum — “eu estou a dizer o que toda a gente pensa”. Mas talvez seja mais útil compreender que, mais do que ideias, é o significado emocional que está a ser ressoado. As palavras vêm, por isso, depois: uma justificação a posteriori para danos aos quais o campo emotivo procura dar sentido e nome.

Há grupos de investigação e jornais que tentam aprofundar o que é atraente em todo este discurso que vê as mulheres como interesseiras e que compreende a igualdade de género como um perigo à masculinidade. Uma análise do conteúdo dos vídeos do Andrew Tate feito pelo The Guardian mostrou como o tema das mulheres não é o mais recorrente: o tema mais recorrente é o dinheiro. Mostram-se estilos de vida glamorosos e 40 carros de luxo. Reforçam que o respeito e visibilidade são adquiridos com dinheiro, em especial a atenção das mulheres. Esta é a mensagem principal. E muitos destes influencers depois oferecem cursos de como enriquecer instantaneamente ou em passos simples. Acoplado a isto estão ideias tradicionais de masculinidade, de que o homem tem de providenciar e ter sucesso, e num mundo altamente competitivo, as mulheres passam facilmente a ser vistas como uma ameaça.

Isto muda um pouco o olhar do fenómeno. Em vez de julgarmos todos os rapazes à beira do risco de misoginia por obra e graça do Espírito Santo, obriga a um olhar mais sistémico: que necessidades estão cronicamente por cumprir? Olhemos para o estado socio-económico actual, pelo menos no mundo ocidental, em que um curso superior já não é uma promessa de um bom emprego e de um bom ordenado, em que os jovens se vêem obrigados a ficar em casa dos pais porque não conseguem pagar uma renda, em que as interacções sociais são mediadas por ecrãs e a comunidade está esquartejada. As frustrações impõem-se e facilmente encontram espaços onde podem ressoar nestes ecossistemas digitais.

Estudos realizados mostram que os jovens, especialmente os que se aliciam por estes espaços, não têm muitas interações sociais fora do ecrã, e que sentem que nunca foram vistos ou compreendidos por ninguém. E este crescente isolamento, aliado a poucas perspectivas de futuro, é deveras preocupante. Estes estudos – por exemplo, como os realizados pela Equimundo, um centro para as masculinidades e justiça social – também exploram as formas como os jovens saem destes espaços digitais. Os relatos mostram que os rapazes arranjam namoradas, e percebem que a realidade social é bem diferente daquela inicialmente projetada. Também o aumento de interações reais com pessoas, em contextos de trabalho, tem o poder de reequilibrar uma visão do mundo que só consegue surgir em isolamento profundo.

Claro que nada é resolvido de forma assim simples. Mas o que as reflexões e investigação sobre o tema parecem mostrar é que há necessidades identitárias, de pertença e de comunidade que são profundas, e há um conjunto de factores que contribuem para isso. Desde as políticas socio-económicas vigentes, um estado do mundo em multi-crises, contextos familiares negligentes ou factores individuais que tendem ao isolamento. Talvez, se reconhecermos que o mundo está carente de conexão, alguma coisa possa mudar a partir daí.

27 Mai 2026

A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (II)

A semana passada, analisámos o impacto da ascensão da IA generativa nos planos de reforma. Ao longo da última década, a tendência da “Independência Financeira, Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se por todo o mundo, com muitos trabalhadores do sector de serviços ambicionando reformar-se cedo e viverem da aposentadoria.

No entanto, desde o aparecimento do ChatGPT em finais de 2022, a velocidade da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não só na remodelação das estruturas industriais, mas também ao abalar directamente a lógica fundamental do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

Confrontados com a transformação provocada pela IA, os trabalhadores administrativos podem proteger-se através de estratégias a três tempos: a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo. A estratégia a curto prazo consiste em desenvolver competências de colaboração com a IA, usando-a como uma ferramenta que potencia a eficiência reforçando assim a sua posição no local de trabalho e a sua Imprescindibilidade. A estratégia a médio prazo consiste em optimizar a alocação de bens e usar ferramentas financeiras profissionais para reduzir a dependência exclusiva do salário. A estratégia a longo prazo passa por reformular competências interdisciplinares, abraçando áreas onde a IA tem menos probabilidades de ser usada, como ligações interpessoais, tomada de decisões complexas e serviços que dependem sobretudo do lado emocional.

As áreas profissionais que neste momento são menos afectadas pela IA, como a medicina, o aconselhamento psicológico, o artesanato de alto nível, a advocacia, as políticas públicas governamentais e a consultoria privada especializada, dependem em grande escala do julgamento humano, da confiança interpessoal, da experiência e da adaptabilidade às situações. Embora seja pouco provável que a curto prazo estes sectores sejam completamente assumidos pela IA, enfrentam na mesma três grandes riscos no que diz respeito à reforma: inflação, envelhecimento da população e aumento dos custos da saúde.

As estratégias de aposentação para grupos profissionais estáveis também podem ter abordagens a curto, médio e longo prazo. As estratégias a curto prazo passam pela maximização das ferramentas de protecção estatutária, como o Fundo de Previdência Social da China, o Fundo de Previdência Obrigatório de Hong Kong (MPF, sigla em inglês), seguro de saúde opcional no local de trabalho, e o Fundo de Aposentação Opcional de Macau, que proporcionam diferentes opções de reforma e de protecção de saúde. O MPF de Hong Kong permite aumentar as contribuições mensais de acordo com as necessidades individuais, oferecendo segurança no período da reforma. As estratégias a médio prazo incluem a alocação de activos de rendimento passivo estável, como a aquisição de acções que pagam dividendos trimestrais ou a subscrição de obrigações com retorno fixo. As estratégias a longo prazo consistem na criação de planos de previdência e fundos fiduciários para garantir a cobertura de despesas essenciais futuras, como a compra de um seguro de vida com cobertura de renda vitalícia. Além disso, os colaboradores podem tornar-se consultores do seu sector de actividade, para apoiarem as empresas após a reforma e manterem as suas fontes de rendimento.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, procure um consultor profissional licenciado para todas as decisões financeiras.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

26 Mai 2026

Obrigado pela sua participação

Recentemente, a frase “obrigado pela sua participação” aparece frequentemente nos telemóveis daqueles que participaram no “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias 2026”. Nos programas de rádio onde a audiência é chamada a expressar a sua opinião sobre assuntos da actualidade, também se ouve amiúde a frase “obrigado pela sua participação”.

De acordo com estatísticas oficiais, a probabilidade média global de ganhar cupões durante as primeiras quatro semanas do “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias 2026” foi de 69,0 por cento, dados de que eu não duvido. No entanto, baseado na minha experiência e em informação reunida a partir de várias fontes, parece que o valor monetário dos cupões passou das significativas quantias iniciais para as muito menos expressivas quantias actuais. 31 por cento dos “obrigado pela sua participação” caem no saco roto dos consumidores desapontados. O objectivo do “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias 2026” é estimular os gastos e não trazer desilusões aos consumidores. É fundamental encarar a realidade de frente para resolver os verdadeiros problemas.

A taxa de 69 por cento de premiados e a forma como os cupões de variados valores são distribuídos pelos consumidores é uma questão de manipulação de dados, desconhecida do público. Os cidadãos sentem que estão apenas a “tentar a sua sorte” no “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias 2026”. O Governo teria feito melhor se tivesse incentivado os cidadãos a comprar em Macau através da reintrodução do “cartão de consumo electrónico” (Plano de Benefícios do Consumo por Meio Electrónico de Macau), uma vez que todos poderiam usufruir em pé de igualdade dos benefícios concedidos.

Dado que o “círculo de vida de uma hora” foi formado na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, Macau está em desvantagem em relação à China continental em termos do preço dos seus produtos, e a tendência de os cidadãos da cidade se irem abastecer ao continente é irreversível.

Sob a dupla pressão do envelhecimento da população e do decréscimo da taxa de natalidade, a que se junta um afluxo significativo de trabalhadores qualificados, embora a taxa de desemprego de Macau pareça manter-se baixa, nos 2,1 por cento, existem desequilíbrios entre a procura e a oferta no mercado de trabalho. Uma grande percentagem de desempregados que procuram trabalho é composta por jovens altamente qualificados, o que demonstra um problema estrutural. Com um grupo de licenciados prestes a entrar no mercado de trabalho após as férias de Verão, as perspectivas não são risonhas. Dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) revelam alguns problemas e outros ainda mais preocupantes podem estar ocultos noutros dados que não foram incluídos nas estatísticas compiladas pela DSEC.

Tai Kin Ip, que foi Sub-Director da Direcção dos Serviços de Economia, Director dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico, Presidente do Conselho Administrativo do Fundo de Desenvolvimento Industrial e de Comercialização e Secretário para a Economia e Finanças, é reconhecido pelo seu profundo conhecimento da actual situação económica de Macau e especialmente da futura Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin. Espero que o Governo da RAEM possa designar o mais rapidamente possível o novo Secretário para a Economia e Finanças, para vir a assumir a pesada responsabilidade de “gerir a economia e beneficiar o povo”.

Como Hengqin ainda está na fase de investimento em recursos e construção, Macau, integrando-se no desenvolvimento nacional global, deve também focar-se no seu próprio desenvolvimento; caso contrário, só irá dificultar o progresso do país. Após o encerramento dos casinos-satélite, a forma de activar as áreas comerciais em seu redor é uma questão a resolver, enquanto os encerramentos consecutivos de pequenas e médias empresas nos bairros antigos e o grande número de lojas vazias para arrendamento ou venda nestes mesmos bairros é outra. Se estas questões não puderem ser resolvidas, a bela história da plena cooperação entre os ramos executivo e legislativo ficará inevitavelmente manchada.

Durante as viagens ao estrangeiro à procura de oportunidades de negócio, o Chefe do Executivo pode considerar vir a visitar informalmente os bairros antigos de Macau. Depois de confraternizar com os habitantes destes bairros, é natural que venha a ter uma abordagem mais realista para o “3.º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconómico da RAEM”.

Recentemente, a Sands China lançou os projectos de revitalização das zonas históricas para a Rua das Estalagens, composta pelo “Programa de Recrutamento de Empreendedores para a Rua das Estalagens 2.0” e pelo “Programa para Redesenhar Imagens de Marca para a Rua das Estalagens”, iniciativas pelas quais vale a pena esperar.

Espero que, após as sessões de esclarecimento e os cursos de formação relativos às iniciativas acima referidas, os resultados da avaliação sejam justos e equitativos, correspondendo às expectativas do público e alcançando os efeitos desejados, em vez de apenas dizer “obrigado pela sua participação” aos participantes com boas intenções.

22 Mai 2026

O Ocidente desfeito (II)

(Continuação do artigo de 14 de Maio)

A diplomacia asiática oferece pistas de mudança pois o Japão, China e Coreia do Sul ensaiam aproximações cautelosas, sugerindo que o eixo estratégico da região pode estar a deslocar-se. Em Londres, a aproximação entre o governo britânico e Paris, ainda que tímida, indica que a velha rivalidade pode dar lugar a uma cooperação pragmática, sobretudo quando ambos os países se vêem como potenciais líderes de um bloco europeu pós-americano. O Canadá, sob nova liderança, parece disposto a afirmar independência simbólica, preferindo Paris a Washington como primeira escala diplomática.

Até a monarquia britânica participa no teatro, com gestos cuidadosamente coreografados que sublinham afinidades com Ottawa. Falta apenas a Nova Zelândia para que toda a Anglosfera comece a afastar-se do centro gravitacional americano. O futuro da cooperação de inteligência entre estes países, outrora considerada inabalável, torna-se incerto.

As divisões entre as potências tradicionais da Europa Ocidental agravam-se. França e Alemanha desconfiam uma da outra, sobretudo devido ao rearmamento alemão e à possibilidade de Berlim ambicionar capacidades nucleares. Itália e França mal se falam. Espanha segue o seu caminho, alheada das disputas continentais.

Entretanto, uma corrente de pensamento ganha força que é a ideia de que a Europa só poderá reencontrar um rumo se recuperar a tradição estratégica francesa. A França, única potência europeia com dissuasão nuclear autónoma e com memória viva de independência estratégica, volta a apresentarse como candidata natural à liderança continental. A convicção de que a humilhação prolongada dos Estados europeus pode conduzir ao seu desaparecimento alimenta a retórica de Paris. A história francesa, marcada por ambição universalista e rivalidade com os Estados Unidos, ressurge como referência num momento em que a ordem transatlântica se desagrega.

A tensão entre a França e os Estados Unidos é antiga. Desde o século XVIII que Paris oscila entre aliança e ressentimento, enquanto Washington mantém uma tradição de unilateralismo que subordina qualquer parceria ao interesse nacional. A França, por sua vez, nunca aceitou plenamente a condição de potência secundária. A sua força nuclear, a ausência de bases americanas no território e a herança gaullista moldam uma identidade política que resiste a qualquer forma de tutela externa. O gaullismo, reinterpretado ao longo das décadas, continua a ser a matriz do pensamento estratégico francês, mesmo quando disfarçado sob roupagens modernas.

Após a II Guerra Mundial, os Estados Unidos tentaram reduzir a França ao estatuto de protectorado, tal como fizeram com a Alemanha, Itália e Japão. Consideravamna demasiado fraca para conter uma eventual ofensiva soviética e demasiado instável para desempenhar um papel autónomo. A França escapou a esse destino graças à obstinação dos seus líderes, que se recusaram a abdicar de soberania. Essa memória continua a influenciar a política externa francesa e explica a sua relutância em aceitar a dissolução silenciosa da Europa sob pressão externa.

A desvalorização da França tem raízes antigas no imaginário político americano. Muito antes das derrotas militares do século XX, circulava nos Estados Unidos a caricatura de uma França encantadora mas frágil, mais dada a gastronomia e cabaré do que a “hard power”. A comparação, sempre pouco subtil, colocava os americanos no papel viril e os franceses no papel decorativo. Nada que ajudasse a melhorar a auto-estima parisiense.

Neste ambiente, não surpreende que, no pósguerra, certos círculos em Washington tenham imaginado redesenhar o mapa francês como se fosse um tabuleiro de xadrez. A ideia de amputar regiões, redistribuir territórios e administrar o país como uma possessão temporária parecia, para alguns estrategas, uma forma sensata de evitar que nacionalistas ou comunistas ganhassem terreno. A França, vista como demasiado instável, deveria ser tratada como uma paciente em cirurgia forçada. A própria moeda de ocupação chegou a ser preparada, com notas que imitavam dólares disfarçados de francos um símbolo perfeito da tutela que se pretendia impor.

Mas Paris não se deixou domesticar. A liderança francesa, consciente de que a soberania se perde uma vez e dificilmente se recupera, montou à pressa um governo provisório e impediu que o país fosse administrado como uma colónia libertada. A resistência francesa ao protectorado “aliado” tornouse episódio fundador da memória estratégica do país. E não faltaram momentos de tensão pois houve ocasiões em que tropas francesas e americanas quase se enfrentaram directamente, com Washington a acusar Paris de irresponsabilidade e Paris a acusar Washington de arrogância imperial.

Este trauma histórico moldou a atitude francesa durante décadas. A França nunca esqueceu que escapou por pouco a ser tratada como um Estado tutelado. E essa memória explica a sua insistência em manter autonomia militar, diplomática e nuclear mesmo quando isso irrita aliados.

22 Mai 2026

A derrota do Labour e a onda de extrema-direita

Por Carlos Coutinho

A derrota de proporções históricas dos trabalhistas britânicos nas recentes eleições autárquicas e regionais – acha o historiador português Manuel Loff e eu, por acaso, também – “confirma a crise da social-democracia europeia”. Se é verdade que a doença, por vezes, se confunde “com a crise da esquerda, velha discussão feita habitualmente por quem não quer discutir o capitalismo, nem como metástases do neoliberalismo asfixiam qualquer perspetiva de democracia social e têm aberto o caminho a esta crescente fascização das relações sociais e da política internacional”.

“Na aparência”, diz ele, “a crise iniciou-se, se não na viragem de século, pelo menos na gestão que os governos social-democratas fizeram da devastação social trazida pela crise financeira de 2008. O PASOK grego, os social-democratas polacos e húngaros ficaram reduzidos a cinzas, os alemães, escandinavos, holandeses abandonaram os grupos que neles habitualmente confiavam para a manutenção de um mínimo de dignidade do Estado social.

“Quando os sistemas eleitorais permitiram governar sozinhos (França, 2012-17, Grã-Bretanha, desde 2024, fizeram tão mal quanto tem feito ao se coligar à direita por essa Europa fora, a começar pela Alemanha. Se o PSOE é uma exceção, e porque, como o PS português em 2015, se viu na obrigação, já em fase de perda de apoio, a fazer acordos â esquerda que o obrigaram a introduzir correções nas políticas neoliberais que tem adotado desde há 40 anos. Quem se esqueceu já da “geringonça” que o Costa começou a esvaziar logo que precisou disso para realizar outras ambições pessoais? – pergunto eu.

“Sempre que interrompem esse processo”, lembra o Loff , “(como Corbyn tentou no Labour, entre 2015 e 2020), conseguem alguma reconexão com quem trabalha, paga uma renda de casa e vive do crédito para sobreviver . Quando regressam às receitas neoliberais (privatizar,, precarizar, securitizar, discriminar), o fascismo cresce. “Depois de uma campanha infame dentro do partido para se livrar de Corbyn (acusando-o de antissemitismo), Starmer obteve uma maioria absoluta nas eleições de 2024 com apenas um terço dos votos. O mesmo sistema eleitoral que sobrerrepresenta artificialmente o partido mais votado pode vir a dar o poder de mão beijada à ultradireita racista do Reform UK, porque ninguém acredita que Starmer aguente até 2029.

“O Reform UK reúne nas sondagens 25%-30% das intenções, 5%-10% à frente dos trabalhistas, conservadores e verdes. É o suficiente para ganhar uma maioria num sistema fragmentado. É, por isso, elevada a probabilidade de podermos vir a ter num futuro próximo governos de ultradireita racista e neofascista entre os três maiores países europeus ocidentais: a Itália, onde a ultradireita já dirige o Governo, França e Grã-Bretanha.”

Quem fala assim não é gago…

*

Já passou quase um século após o aparecimento de um verdadeiro tratado sobre a canalhice, mas não me parece que já não seja de ter em conta a vantagem da sua vigência, dadas a sua abrangência e, sobretudo, a sua profundidade.

Aconteceu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial o aparecimento nas livrarias de um livro feroz do filósofo alemão Ernst Bloch que analisa a ascensão de Hitler ao poder e se interroga sobre como foi possível que a consciência coletiva de quase todo o país se tivesse degradado a ponto de aceitar a nazificação, como uma espécie apodrecimento que quase nunca parou de se agravar.

A propaganda oficial e o trauma da humilhação, em resultado da derrota e do esbulho sofrido às mãos dos vencedores em 1918, reivindicavam a continuidade do Terceiro Reich, restaurando o Primeiro – o do Sacro Império Romano-Germânico – criado por quem reclamava a atualização do instaurado por Carlos Magno que durou entre 962, e a suas aniquilação por Napoleão, em 1806, seguindo-se o Segundo Reich, isto é, o império que foi erguido com a unificação da Alemanha e a guerra franco-prussiana em 1871, cujos efeitos só foram travados com o colapso alemão na Primeira Guerra Mundial, mas tal consequência não explica para Ernst Bloch a mórbida e sanguinária aceitação da ditadura nazi.

Como se fizeram, então, os canalhas e se instituiu o seu regime? Como foi aceite a fábula segundo a qual este novo império iria durar 1000 anos? E o que se pode concluir desta histórica tragédia que custou perto de 70 milhões de mortos? Não estava escrito que o führer conquistasse o poder e que 10 anos depois de ter ocupado a presidência do partido nazi, bem como que, após uma curta prisão por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, o paranoico político aguarelista austríaco disputasse a segunda volta das eleições presidenciais alemãs em abril de 1932 e obtivesse 37% dos votos e que os comunistas e os social-democratas somados se ficassem pelos 36%.

Contudo o presidente eleito, o tão celebrado marechal Hindenburg entregou-lhe o lugar em Berlim, que não era a capital da Áustria, mas viria ser anexada com geral aplauso germânico, em 30 de janeiro de 1933.

Quando, poucos anos depois, Bloch se pergunta sobre como se chegou a este desfecho, a conclusão que encontra é que o centro e a direita, aceitam a receita da extrema direita, aceitam Hitler como se de uma solução de curto prazo se tratasse, ou apenas fosse um mal menor, para impor a ordem, enquanto amplos setores da burguesia e do que hoje se chama classe média, como comerciantes, militares e acadêmicos, celebravam no despotismo.

Havia nisso a evocação de um fundo cultural – considera Bloch – e não foi a magia propagandística de Goebbels que respondeu à desintegração do regime de Weimar. Foi antes a recuperação de mitos incrustados na crença da epopeia germanista mobilizando um romantismo reacionário que se apropriou de Nietzsche e de Wagner, ou seja, foi a ideologia social dominante que fez de Hitler o seu porta-voz e o estandarte dos interesses económicos dominantes.

Leio estas análises e percebo melhor os êxitos eleitorais do nosso Ventura e de quem lhe paga as campanhas, bem como os favores que recebe da comunicação social quase toda.

Vade retro, Satanás…

20 Mai 2026

A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (I)

Um artigo publicado no Hong Kong Economic Times (HKET) no passado dia 24 de Abril, analisa o impacto da ascensão da inteligência artificial no plano de aposentações. Ao longo da última década, a tendência para a “Independência Financeira e para a Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se pelo mundo, com muitos trabalhadores de “colarinho branco” desejando reformar-se cedo e viver dos rendimentos. No entanto, desde o lançamento do ChatGPT nos finais de 2022, a velocidade da interacção da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não apenas através da remodelação das estruturas industriais, mas também pelo abalo na lógica do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

O artigo cita uma análise de Nick Maggiulli, Director Executivo da Ritholtz Wealth Management. A IA está gradualmente a minar a estabilidade do emprego dos trabalhadores de “colarinho branco”. As funções que dependem de um resultado padronizado, de processos repetitivos e de um elevado grau de digitalização são as primeiras a sofrer a pressão da substituição e os planos de aposentação dos trabalhadores são mais facilmente postos em causa. O sector do design gráfico está particularmente afectado, porque a IA gera facilmente trabalhos de alta qualidade, o que implica redução de salários e de oportunidades para os profissionais da área. Olhando para a tendência anual do preço das acções da Fiverr, uma plataforma global freelance, o ano passado o seu valor reduziu praticamente para metade, reflectindo as preocupações do mercado sobre a probabilidade de a IA substituir os trabalhadores da área digital.

O impacto da IA não se faz só sentir em funções a tempo inteiro; também afecta gravemente os negócios paralelos dos quais os semi-reformados dependem para viver, como traduções, programação básica, redacção de conteúdos e análise introdutória de dados. Nick Maggiulli avança com três soluções pragmáticas: desistir do objectivo do “Coast Fire” e evitar abandonar empregos estáveis a tempo inteiro; aumentar o período de acumulação de poupanças antes das funções que se desempenha passarem a ser executadas pela IA e reavaliar o próprio valor comercial, considerando a lógica do lucro que age contra os indivíduos perante as capacidades mais fortes da IA.

De uma perspectiva macro-social, a crise financeira de 2008, a pandemia de COVID-19 e a reavaliação global das acções tecnológicas de 2022 demonstram que a incerteza do mercado é a norma e que a IA é apenas uma nova variável estrutural.

O maior risco que correm as pessoas que se reformam cedo não é muitas vezes a insuficiência de fundos, mas sim a incapacidade de se reintegrarem no mundo do trabalho depois de terem perdido o contacto com a realidade laboral. Por outro lado, uma grande acumulação de capital funciona como uma defesa natural; independentemente de terem ou não sido substituídos pela IA, as poupanças elevadas são um amortecedor contra riscos.

A realidade torna-se clara quando consideramos os dados recentes da China continental, de Hong Kong e de Macau: Dados do relatório de emprego de 2026 da Zhaopin.com mostram que a procura de posições asseguradas pela IA na China continental aumentará mais de 100% a cada ano, ao passo que trabalhadores de escritório e administrativos que desempenham funções básicas continuam a ser despedidos. Um relatório da Fintech da InvestHK indica que a automatização da IA está a ser adoptada em larga escala em Hong Kong para contabilidade e documentação financeira básicas e auditoria de conformidade. Em Macau, devido à sua estrutura industrial singular e à crescente alteração nos sectores do jogo e dos serviços, a pressão sobre os indivíduos de meia-idade está a aumentar dramaticamente.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, consulte um consultor profissional licenciado para tomar decisões financeiras.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

19 Mai 2026

Sopa salvadora

A coisa está preta, dizem os brasileiros, e a maioria dos portugueses sente que a vida está cada vez mais difícil. Vive-se momentos de tristeza, ansiedade e desespero. O meu vizinho pediu-me algum dinheiro emprestado. Disse-me que tinha uma reforma de 300 euros mais o Complemento Solidário para Idosos, que é uma miséria, não consegue sobreviver dignamente.

Convidou-me a entrar na sua casa e deixou-me estupefacto. O frigorífico não tinha rigorosamente nada. Nem um pacote de leite, de manteiga ou um qualquer produto. Muito menos, peixe ou carne no congelador. Disse-me que o pecúlio recebido, depois de pagar as contas, dá-lhe para uma “sopa salvadora”. Pedi-lhe para explicar. Respondeu-me com as lágrimas nos olhos que o seu almoço e jantar, há vários meses, é uma sopa salvadora.

Confirma-se que muitas famílias pouco mais comem do que uma sopa e uma fruta. A sobrevivência para quatro milhões de portugueses que vivem ao nível da pobreza está cada vez mais difícil. E o Governo insiste em levar ao Parlamento um pacote laboral que ao ser aprovado deixará milhares de trabalhadores em situação muito precária.

As centrais sindicais marcaram uma greve geral para o próximo dia 3 de Junho, precisamente com a palavra de ordem principal “Não ao Pacote Laboral”. Na verdade, Luís Montenegro e os seus súbditos ministros não têm a noção do país real. Como defensor de uma política capitalista que apenas agrada aos patrões, tenta a todo o custo que passe a existir um banco de horas, que os trabalhadores sejam despedidos por dá cá aquela palha e, com todo o desplante, sublinhando que o pacote laboral é para “reforçar os direitos e garantias dos trabalhadores no século XXI e permitir aumentar a produtividade, a competitividade das empresas e criar condições para pagar aos trabalhadores salários de nível europeu”. Só para rir, antes que caiam as lágrimas aos que serão despedidos sem justa causa.

Isto, porque se pretende alterar o prazo dos contratos de trabalho, o banco de horas por acordo, o reforço das licenças parentais e dos dias de férias. Não foi por acaso que nem a UGT entrou em sintonia com o Governo. Uma das alterações propostas mais contestadas pelos parceiros é o aumento da duração dos contratos a termo certo de dois para três anos. Actualmente, as empresas só podem manter os trabalhadores com contrato até termo certo por dois anos e, terminado esse período, têm de decidir se integram os trabalhadores no quadro ou se terminam o contrato. Se a proposta de lei do Governo for aprovada, o prazo aumenta para três anos, o que significa que o trabalhador terá de esperar mais um ano para saber se o vínculo laboral termina ou se é integrado nos quadros.

Outra grande divergência diz respeito à possibilidade de não reintegração de trabalhadores alargada. Actualmente, quando um tribunal declara o despedimento ilícito, o empregador é condenado a pagar uma indemnização ao trabalhador e, à partida, a reintegrá-lo na mesma empresa, com a mesma categoria e antiguidade. O que o Governo pretende é alargar essa possibilidade a qualquer empresa, independentemente da sua dimensão. Isto significa que, se aprovada a proposta de lei, qualquer empresa pode recorrer ao tribunal para pedir a exclusão da reintegração.

Na proposta de lei consta, ainda, a revogação total, atenção total, da limitação à subcontratação de serviços. Actualmente, as empresas que tenham realizado despedimentos colectivos e extinções de postos de trabalho não podem, por 12 meses, recorrer à subcontratação.

Enfim, toda esta panóplia de mudança nos direitos dos trabalhadores só tem um objectivo: agradar aos patrões, os quais são a minoria num povo trabalhador que começa a ver a vida a andar para trás. O povinho, por exemplo da zona centro, desespera. Em Leiria e Marinha Grande, onde as tempestades de Janeiro mais danificaram património, ainda há pessoas sem telhado, luz, água e telefone.

Várias fábricas vão encerrar e centenas de trabalhadores vão para o desemprego. Os apoios estatais demoram a chegar e não se encontra m-ao-de-obra porque com a mudança da lei da nacionalidade centenas de imigrantes já partira, para outras paragens e prevê-se que nos próximos seis meses milhares de imigrantes do Bangladesh, Nepal, Índia, Paquistão Roménia sigam para Espanha, França e Suíça.

Os preços dos produtos alimentares aumentam semanalmente, o preço das casas está insuportável e o preço dos combustíveis já obriga centenas de condutores a deixar o carro à porta de casa. O que resta a muitas famílias, afinal? Nada mais, que a “sopa salvadora”…

18 Mai 2026

Carta aberta a quem pensa que a língua tem dono

Por Vanessa Amaro – Professora e investigadora

Há debates que começam pequenos, quase como uma conversa de café, e de repente revelam algo muito maior: não apenas uma diferença de opinião, mas uma forma de olhar o mundo. A língua portuguesa em Macau é muitas vezes tratada como herança, instrumento, ponte, memória, profissão, currículo, vantagem competitiva. Mas, por vezes, ainda é tratada como propriedade. Como se alguém pudesse fechar a porta, guardar a chave e dizer: “esta língua é minha; os outros apenas a usam mal”.

No dia 5 de Maio, celebramos uma língua que nos une. Ou, pelo menos, deveríamos. Celebramos uma língua que hoje se fala em vários continentes, em diferentes sotaques, ritmos, histórias e modos de existir. Mas, no meio dessa celebração, ainda surgem vozes que insistem em dividir o português entre uma língua “verdadeira” e outras formas menores de a falar. Como se houvesse um centro autorizado e várias periferias toleradas. Como se a língua tivesse proprietário, fronteira e passaporte. E então a pergunta impõe-se: quem é, afinal, o dono da língua portuguesa?

A pergunta parece simples, mas não é. Uma língua não se torna mundial permanecendo intacta. Torna-se mundial porque é apropriada, transformada, ensinada, aprendida, amada e recriada por diferentes comunidades. O português que chegou a tantos lugares não ficou igual ao ponto de partida. Nem poderia. Em cada território, encontrou outras línguas, outros corpos, outras memórias, outras necessidades e outras formas de estar no mundo. Talvez seja exatamente por isso que continua vivo.

Uma língua viva não é uma peça de museu. Não fica parada dentro de uma vitrine, protegida do toque das pessoas. Uma língua viva é usada, tropeçada, reinventada, discutida, cantada, ensinada, aprendida com sotaque, esquecida e recuperada. Uma língua viva tem marcas de quem a fala. E se há algo que Macau deveria saber melhor do que muitos lugares, é isto: as línguas nunca vivem sozinhas.

Macau é, historicamente, um território multicultural e multilingue. Aqui, as pessoas aprenderam, durante séculos, a circular entre mundos. Cantonês, mandarim, português, inglês, patuá, línguas de comunidades migrantes, línguas de comércio, de escola, de casa, de igreja, de tribunal, de rua. Macau nunca foi uma linha reta. Sempre foi cruzamento. Sempre foi tradução. Sempre foi negociação.

Por isso, causa estranheza quando se tenta transformar a língua portuguesa num território cercado, como se houvesse uma única forma legítima de a habitar. É evidente que existem normas, contextos formais, regras ortográficas, convenções institucionais. Ninguém sério nega isso. A administração pública precisa de critérios. A escola precisa de orientação. A escrita formal exige consistência. Mas uma coisa é reconhecer normas de uso; outra, muito diferente, é confundir norma com superioridade, ortografia com identidade, sotaque com ignorância, variedade com erro.

Quando se reduz o português do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe ou de Timor-Leste a desvios, corrupções ou “português menor”, quem perde não é apenas quem fala essas variedades. Perdem os estudantes, que deixam de compreender a dimensão real da língua que estudam. Perdem os professores, que ficam presos a uma visão estreita do seu próprio objeto de ensino. Perde Macau, que se apresenta — e bem — como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, mas que não pode cumprir plenamente esse papel se aceitar uma ideia empobrecida do que é o mundo lusófono.

Afinal, que plataforma é possível construir se, à partida, se deslegitima a pluralidade daqueles com quem se pretende dialogar?

A língua portuguesa não é apenas a língua de Portugal. É também, plenamente, a língua do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, de Timor-Leste, da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe, de comunidades espalhadas pelo mundo e, de forma muito própria, de Macau. Não se trata de negar a história portuguesa em Macau, nem de apagar o papel do português europeu na formação jurídica, administrativa e educativa do território. Trata-se de reconhecer que a história não autoriza ninguém a transformar uma língua partilhada numa hierarquia de legitimidades.

Há quem diga “amo-te”. Há quem diga “te amo”. Será isto motivo para guerra? Será que o amor muda de valor porque o pronome mudou de lugar? Será que uma mãe que diz “te amo” ao filho ama menos, ou ama errado? Será que uma canção brasileira, uma crónica angolana, um poema moçambicano ou um discurso timorense deixam de ser português porque não obedecem ao ouvido de Lisboa?

A língua, felizmente, é mais inteligente do que as nossas fronteiras mentais. Ela sabe fazer aquilo que nós, por vezes, esquecemos: adaptar-se sem desaparecer. Carregar memória sem deixar de criar futuro. Ser uma e ser muitas. Ter gramática e ter música. Ter regra e ter respiração.

O problema dos debates sobre variedades e sotaques é que, muitas vezes, eles fingem ser linguísticos, mas são sociais. Fingem discutir sons, mas discutem prestígio. Fingem defender a língua, mas defendem hierarquias. Fingem proteger estudantes, mas limitam o seu horizonte. Quando se ensina a um aluno que só uma variedade é legítima, não se está a ensinar rigor; está-se a ensinar exclusão. Quando se ridiculariza um sotaque, não se está a corrigir uma pronúncia; está-se a diminuir uma pessoa.

E Macau não precisa disso. Macau precisa de talentos capazes de compreender Portugal e o Brasil, Angola e Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Precisa de jovens que saibam ler diferentes normas, reconhecer diferentes usos, adaptar-se a diferentes contextos. Precisa de profissionais que saibam que a língua portuguesa é uma ferramenta diplomática, económica, cultural e humana precisamente porque é plural.

Quem ganha com a pluralidade? Ganham os alunos, que passam a conhecer melhor o mundo. Ganham as instituições, que formam profissionais mais preparados. Ganha a RAEM, que reforça o seu papel como espaço de encontro. Ganha a própria língua portuguesa, que se mostra maior do que qualquer tentativa de a encolher.

E quem perde? Perde quem precisa que a língua tenha dono para se sentir autorizado a falar em nome dela.

Mas a língua portuguesa não tem dono. Tem falantes. Tem histórias. Tem países. Tem sotaques. Tem gramáticas. Tem erros, sim, como todas as línguas vivas. Mas também tem beleza, movimento e futuro. Em Macau, talvez a melhor forma de honrar o português não seja guardá-lo como relíquia, mas ensiná-lo como ponte.

Porque uma ponte não pergunta de que lado vem quem a atravessa. Uma ponte existe para ligar.

15 Mai 2026

O Ocidente desfeito (II)

“Nations do not die in a day; they dissolve slowly, as the ideas that sustained them lose their force.”
– Alexis de Tocqueville

O que está a ruir é a ordem construída após 1945, em que a Europa funcionava como extensão estratégica dos Estados Unidos. Para Washington, essa estrutura deixou de ser um activo e passou a ser um fardo. Ainda assim, os Estados Unidos não pretendem retirar as suas forças do continente nem abandonar as bases e infra-estruturas que garantem presença e influência. Podem ocorrer ajustamentos, mas não uma retirada profunda, enquanto os interesses americanos assim o exigirem.

Tentar definir agora o novo mapa geopolítico europeu seria presunção. Mas acreditar que o Ocidente regressará ao modelo anterior é ilusão. A actual liderança americana declarou encerrada a fase de globalismo missionário, substituindoa por uma estratégia centrada na competição entre grandes potências e na redução de compromissos externos.

Entre os ideólogos que influenciam esta mudança destacamse correntes que combinam elementos de contracultura, autoritarismo e capitalismo tecnológico extremo. Personalidades associadas ao universo digital defendem uma visão do mundo que pouco tem de europeia e que nem sempre se identifica com a tradição americana. Em contraste, outros representantes do novo poder político reivindicam raízes profundas na cultura popular dos Estados Unidos. Apesar das diferenças, ambos os grupos convergem numa ideia de que existe uma separação estrutural entre o Novo e o Velho Mundo. Muitos europeus, por razões opostas, chegam à mesma conclusão.

A noção de que o “Ocidente” enquanto entidade política e cultural está a desaparecer tornouse comum dos dois lados do Atlântico. Falta determinar como e quando essa transformação se materializará. A transição americana de potência hegemónica para dominante mas limitada é um salto no escuro, motivado pela percepção de que o tempo se esgota. A Europa, por seu lado, reage com uma mistura de negação e improvisação.

Perante este cenário, tornase urgente reavaliar a posição europeia. As famílias políticas do espaço atlântico enfrentam tensões profundas. A aproximação entre Estados Unidos e Rússia, mesmo que parcial ou táctica, desorienta os países do Nordeste europeu, que sempre confiaram na protecção americana. Muitos descobrem agora que a garantia de segurança que julgavam eterna pode estar a evaporarse. A pergunta impõese: se soubessem que a Aliança Atlântica se encontraria neste estado, os ucranianos teriam lutado tanto para nela entrar?

As nações mais hostis a Moscovo, desde a Escandinávia até ao Mar Negro, vêem o seu alinhamento automático com Washington perder relevância. A frustração leva a medidas extremas, como restrições políticas a cidadãos de origem russa ou bielorrussa, ou tentativas de excluir candidatos considerados demasiado próximos de Moscovo. Em alguns países, surgem até propostas para repetir eleições caso o resultado não corresponda ao que certos sectores consideram aceitável. Esta tendência culmina em decisões judiciais que procuram impedir figuras políticas controversas de concorrer a cargos de topo, reflectindo um clima de desconfiança generalizada.

A exclusão política através de mecanismos judiciais tornouse prática recorrente em várias democracias ocidentais, alimentando suspeitas de que estruturas profundas do Estado continuam a operar longe do escrutínio público. Não admira que muitos vejam nessas decisões a mão invisível de aparelhos que nunca aceitaram perder controlo.

No mundo anglófono, a inquietação cresce. O Reino Unido, horrorizado com o rumo das antigas colónias, discute discretamente a possibilidade de se emancipar da tutela política e estratégica de Washington. Nos círculos mais exclusivos da City, multiplicamse críticas aos novos poderosos americanos, vistos como arrivistas que não compreendem a etiqueta imperial. O desconforto alastra ao Canadá, alvo de declarações intempestivas vindas de Washington, e à Austrália, cada vez menos disposta a desempenhar o papel de sentinela antichinesa num Pacífico onde a influência de Pequim não pode ser ignorada. A presença australiana numa reunião europeia de países “voluntários” foi interpretada como sinal de que Camberra procura alternativas.

(Continua)

14 Mai 2026

Os homens que evitam psicoterapia

Há um dado que aparece de forma consistente na investigação: os homens recorrem menos à psicoterapia do que as mulheres. Procuram menos ajuda, permanecem menos tempo em acompanhamento e, muitas vezes, chegam mais tarde — quando o sofrimento já está instalado de forma mais profunda. Isto não significa que sofram menos. Aliás, os homens têm das maiores taxas de suicídio registadas – apesar das mulheres terem mais ideação suicidada e tentarem mais vezes.

A explicação mais imediata para que os homens não peçam ajuda tende a estereótipos já conhecidos: os homens não falam, não sabem identificar emoções ou evitam a vulnerabilidade. Esta é uma compreensão insuficiente — e até redutora. Não se trata apenas de uma incapacidade individual. Trata-se de uma construção cultural profundamente enraizada na sociedade sobre o que é ser homem.

Desde cedo, muitos homens aprendem que é uma virtude não expressar emoções. Que pedir ajuda é sinal de fraqueza ou que a dor deve ser gerida em silêncio: boys don’t cry. A linguagem emocional, quando existe, é muitas vezes limitada ou pouco praticada. E quando não se tem linguagem, torna-se mais difícil reconhecer o que se sente — e ainda mais difícil partilhá-lo.

A psicoterapia, por sua vez, exige precisamente o contrário: pausa, introspecção, contacto com a experiência interna, capacidade de nomear estados emocionais ambíguos. Exige tempo e um certo grau de tolerância ao desconforto. Para alguém socializado na ideia de que “resolver” é agir rapidamente e seguir em frente, este processo pode ser pouco produtivo.

Há também uma questão de expectativa. Muitas pessoas chegam à terapia à procura de soluções concretas e rápidas: “o que é que faço para deixar de me sentir assim?” Quando se deparam com um espaço que devolve perguntas em vez de respostas, surge a frustração, e abandonam o processo.

Mas a dificuldade não está apenas nos homens, ou na forma como são socializados. Está também na forma como a própria psicoterapia se organizou. Durante décadas, muitos modelos terapêuticos valorizaram formas de expressão emocional mais alinhadas com padrões tradicionalmente associados ao feminino: verbalização, introspecção prolongada, exploração detalhada da experiência interna. Isto não é um problema em si, muito pelo contrário — mas pode tornar o setting terapêutico menos apetecível para quem não vê valor nestas estratégias.

Importa também reconhecer que “os homens” não constituem um grupo homogéneo. Pessoas trans, não-binárias ou homens queer podem viver relações muito diferentes com a psicoterapia. Para algumas pessoas LGBTQIA+, a terapia foi — e continua a ser — um espaço fundamental de sobrevivência emocional, sobretudo perante experiências de discriminação e violência. Mas também existe desconfiança, que é legítima: durante décadas, identidades queer e trans foram patologizadas por discursos clínicos e psicológicos. Isto significa que, para muitas pessoas dissidentes em termos de género e sexualidade, entrar num consultório pode activar tanto uma expectativa de cuidado como o receio de julgamento ou incompreensão. Falar da relação entre homens e psicoterapia exige alguma cautela para não transformar experiências muito diferentes numa única narrativa masculina.

Por isso, a questão não deve ser colocada apenas como “porque é que os homens não vão à terapia?”, mas também como “que condições estamos a criar para que possam ir?”. Isto implica olhar para expectativas de género, sim, mas também para práticas clínicas e o discurso público à volta dela. Alguns estudos sugerem que abordagens mais estruturadas, orientadas para objectivos, ou que integrem o corpo e a acção, podem facilitar a adesão deste grupo à terapia. Não porque “os homens são assim”, mas porque diferentes percursos de socialização produzem diferentes portas de entrada para o campo emocional.

Normalizar a vulnerabilidade masculina não é apenas dizer aos homens para falarem mais – porque achamos que falam de menos. É criar contextos onde falar e partilhar a vulnerabilidade não seja vivido como uma prática alienígena. É reconhecer que a resistência à terapia é bem mais complexa do que uma mera teimosia. Abandonemos leituras simplistas: os homens não são menos emocionais. Muitas vezes, são apenas menos autorizados a viver essas emoções de forma consciente.

A psicoterapia pode ser um dos espaços onde essa autorização começa. Mas, para isso, é preciso que o convite faça sentido.

13 Mai 2026

A era da responsabilidade limitada vs. A era da responsabilidade ilimitada (II)

A semana passada, mencionámos uma história publicada num jornal chinês sobre Chen Jinying, uma mulher que aos 80 anos se viu a braços com uma divida comercial de 2,77 milhões de renminbis. Depois de vender a fábrica, a casa e os bens pessoais não quis beneficiar da protecção dada aos accionistas pela responsabilidade limitada, nem declarou falência para se eximir à dívida. Nos dez anos que se seguiram, através do seu próprio esforço, honrou todos os seus compromissos, uma tarefa verdadeiramente árdua para uma pessoa da sua idade.

A decisão de Chen, à luz do actual contexto comercial, parece particularmente “pouco convencional,” no entanto, revela uma visão sobre ética empresarial, que tem adeptos e detractores.

A principal discordância encontra-se nos limites da responsabilidade. O sistema da responsabilidade limitada estabelecido pela moderna legislação comercial pretende definir um patamar de risco: os accionistas são responsáveis pelas dívidas da empresa apenas na medida do seu investimento, incentivando o empreendedorismo e a inovação, impedindo que a falência do negócio paralise os indivíduos e as suas famílias e injectando a vitalidade da tentativa e erro na economia de mercado. No entanto, a escolha de Chen, representa a visão tradicional de responsabilidade ilimitada. Ela renunciou voluntariamente ao refúgio seguro previsto por lei, assumiu na totalidade as dívidas da sua empresa e as suas obrigações morais, construindo voluntariamente uma reputação de integridade através do trabalho árduo dos seus últimos anos.

Ambos os modelos têm pontos fortes e pontos fracos e podem ser usados como exemplo um para o outro.

A vantagem da responsabilidade limitada para os accionistas é a redução do risco e o apoio à inovação e à economia; a desvantagem é gerar facilmente situações dúbias do ponto de vista moral, sendo que alguns empresários recorrem abusivamente da responsabilidade limitada para declarar falência, transferir bens, evadir-se a dividas e prejudicar os legítimos interesses e direitos dos credores.

A vantagem do modelo tradicional baseado na integridade é a solidificação do crédito pessoal, a manutenção dos laços de confiança no seio de comunidades unidas e de pequenos círculos sociais, podendo criar raízes no coração das pessoas. A sua desvantagem é impor exigências extremamente rigorosas, tornando-se difícil adaptar este modelo às modernas operações comerciais de larga escala, e às necessidades das pessoas comuns.

A cultura comercial verdadeiramente madura e moderna nunca se faz a partir de uma escolha binária, mas sim de regras que suportam o resultado final e onde a moralidade tem prioridade. Devemos respeitar o valor legal da responsabilidade limitada e usá-la para proteger aqueles que não foram felizes nos seus empreendimentos; no entanto, nunca devemos recorrer às lacunas do sistema como desculpa para nos evadirmos ao espírito celebrado nos contratos. O melhor princípio condutor seria manter os limites legais da responsabilidade limitada, mantendo ao mesmo tempo a linha moral de integridade ilimitada.

Muitos admiram a integridade e a perseverança de Chen que a levou a saldar as suas dividas ao longo de dez anos, mas muitas vezes ignoram dois detalhes comoventes e preciosos da sua história que revelam o calor da confiança humana.

Em primeiro lugar, o seu empenhamento de toda a vida na construção da dignidade profissional. Mesmo quando estava atolada em dívidas, Chen sempre manteve os seus produtos ao melhor nível, recusando-se a comprometer a qualidade ou a seguir por atalhos para iludir o mercado. Mesmo depois dos noventa anos, manteve a ética profissional e um profundo respeito pelo seu trabalho. Foi este profissionalismo rigoroso que lhe permitiu manter o seu sustento e que possibilitou que gradualmente fosse reparando as suas enormes dívidas.

Em segundo lugar, a boa vontade entre Chen e os seus credores. Ao longo desses dez anos, muitos credores compreendendo as dificuldades que esta mulher idosa enfrentava, nunca a pressionaram; muitos ofereceram-se para reduzir os juros ou para dilatar os prazos de pagamento. No entanto, Chen recusou educadamente todas as ofertas e insistiu em pagar as dívidas na integra e os juros. Um dos lados manteve a integridade sem fugir à responsabilidade, enquanto o outro foi tolerante e disposto a perdoar, formando um círculo de confiança virtuoso. Isto demonstra que a integridade não é uma busca solitária, mas um consenso social que se alimenta nos dois sentidos.

Chen pode não ser uma empresária de sucesso a nível mundial, mas é sem dúvida uma das mais respeitáveis guardiãs da integridade da nova era. Dez anos de dificuldades como vendedora de rua, uma vida inteira de compromisso inabalável com a integridade—através das suas acções ela disse ao mundo que embora a lei permita perdoar dívidas, a consciência nunca pode ser comprometida; os sistemas podem definir os limites da responsabilidade, mas a integridade não tem um tecto.

No mercado de capitais actual cada vez mais competitivo, muitas pessoas exploram as lacunas das regras e atropelam a integridade. A história da “Avó Honesta” é como um farol que ilumina as aspirações de todos os homens de negócios e de todas as pessoas comuns. Os livros de contabilidade têm limites, mas a integridade não os tem; as regras têm resultados, mas a consciência não pode ser violada.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

12 Mai 2026

“Deixem-nos trabalhar”

Não há ninguém, incluindo nas hostes do PSD, que não tenha pedido a demissão da ministra da Saúde. Dois anos de incompetência e de protestos por parte dos profissionais de saúde e dos doentes. Pois, a senhora teve o desplante de na semana passada vir a público afirmar que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não está “doente” e que em vez de a criticarem que “deixem-nos trabalhar”.

Qual trabalho? Cirurgias e consultas para as calendas? 24 horas de espera numa urgência? Grávidas a terem os filhos nas ambulâncias? Directores de Neurologia que ultrapassaram a idade da reforma e que receitam ao doente um medicamento trocado que provocou a morte do paciente? O INEM em greve com pessoas a morrer sem socorro? Gastos astronómicos a médicos sem escrúpulos que realizam cirurgias estéticas ao fim de semana?

Consultas de especialidade marcadas para dia de greve e depois nunca mais contactam o doente? O grande hospital de Lisboa que nunca mais teve início a sua construção? Os médicos com salários mais baixos que no Congo? Comissões inacreditáveis de gestores de hospitais na aquisição de material médico? Centros de Saúde encerrados ao fim de semana? O Algarve com o hospital de Faro a rebentar pelas costuras? Centenas de macas com doentes graves pelos corredores dos estabelecimentos hospitalares? É sobre isto que a ministra quer trabalhar quando não conseguiu em dois anos alterar uma palha? Não, senhora ministra. A senhora ou tem o primeiro-ministro na mão ou o primeiro-ministro é tão incompetente como a senhora.

Ana Paula Martins afirmou que a resposta do SNS está “muito diminuída” devido aos internamentos inapropriados. Só para rir… a ministra ainda fez rir mais o país, se não chorou, quando recusou que o SNS esteja a falhar na actividade assistencial que presta aos utentes, alegando que isso é um mito “sistematicamente repetido”. Para se afirmar algo tão absurdo, a ministra tinha de ter a noção que já se devia ter dedicado a coser meias, de tal forma que uma leitora do Facebook ao ler as declarações da ministra, escreveu: “Está alheada de tudo, onde é que isto vai parar, ela brinca com a saúde dos portugueses”.

Na verdade, nos primeiros dois meses do ano, houve menos consultas e cirurgias programadas nos hospitais públicos do que no mesmo período do ano passado e aumentou o tempo de espera para os doentes. No entanto, a ministra com toda a sem vergonha afirmou que “o SNS não está a falhar”.

O número de cirurgias realizadas no SNS, em Fevereiro, não era tão baixo há dois anos. Segundo os dados do Portal da Transparência, foram feitas cerca de 130 mil operações em todo o país, menos 10 mil do que em 2025 e menos 3.000 do que em 2024. Como é que a ministra da Saúde pode vir dizer que a descida está relacionada com o aumento de internamentos. Ora, se aumentou o número de internamentos teria de aumentar também o número de cirurgias.

A incongruência é tão vistosa depois de Ana Paula Martins ter defendido que todos os indicadores assistenciais melhoraram desde que está no Governo. Ou mente ou é incompetente. Pior, as declarações da ministra contrastam com a informação disponível, que dá conta de, pelo menos, 19 mil consultas hospitalares do que no mesmo período de 2025, sobretudo as primeiras, e do aumento do tempo de espera nas consultas e nas cirurgias.

Contrariamente ao que diz a ministra a saúde está cada vez mais doente. Todos os utentes dos hospitais se queixam da organização no atendimento. A culpa não é dos médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal da limpeza. A culpa é de quem está à frente da pasta da Saúde. A ministra nada faz para melhorar as condições de trabalho dos profissionais de saúde e dos utentes.

Os institutos de oncologia, peças basilares no salvamento de vida, têm-se queixado da falta de meios. Isso, é inadmissível. O cancro aumenta à mesma velocidade da demência e nunca se viu construir habitações especiais para recolher doentes cancerígenos ou com demência. Realmente, o povinho é que tem o direito de pedir a demissão da ministra e de dizer “deixem-nos trabalhar” com melhor saúde…

11 Mai 2026

A propósito do Dia Internacional do Trabalhador

Os feriados da semana dourada da China continental que celebram o Dia Internacional do Trabalhador chegaram ao fim num abrir e fechar de olhos. Como é habitual, as maiores atracções turísticas de Macau encheram-se de gente. Em algumas ruas, foi implementado o controlo de multidões e em certas zonas só os peões podiam circular. Os autocarros estavam todos apinhados e o concerto realizado no Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau reuniu cerca de 30.000 espectadores. A cidade estava movimentada, mas na verdade o que é que estava a acontecer?

Vídeos transmitidos nas redes de comunicação social não tradicional mostravam cenas de mulheres que assistiram ao concerto a lutarem umas contra as outras e a colocarem as cadeiras junto ao palco, o que demonstra falta de uma gestão eficiente do espaço. Estes incidentes poderão ser inevitáveis em eventos de larga escala, mas a questão principal é a falta de reconhecimento por parte dos órgãos de comunicação social oficiais e por parte do Governo de Macau das falhas na gestão destes acontecimentos. Ignorá-las significa que não existem? Será que a ausência de dados estatísticos sobre suicídios quer dizer que ninguém se suicida? A inexistência de manifestações e de protestos no dia 1.º de Maio prova que Macau é uma cidade pacífica e próspera?

Uma simples pesquisa online mostra informação sobre a manifestação do 1.º de Maio de 2007 em Macau. Slogans como “anti-corrupção, proteger os meios de subsistência das pessoas, reduzir o número de trabalhadores não residentes, eliminar trabalhadores ilegais, garantir uma vida estável, promover a reunificação familiar e construir uma comunidade harmoniosa” transmitiam as exigências dos seis grupos de protesto da época. Passaram-se quase vinte anos, estas exigências terão sido totalmente satisfeitas e os grupos que as colocaram já não existem ou deixaram de operar?

Desde a desqualificação dos potenciais candidatos às eleições para a Assembleia Legislativa em 2021 e em 2025, as vozes dissidentes e as diferentes opiniões que se faziam ouvir na Assembleia Legislativa foram largamente silenciadas, criando um “caminho livre de impedimentos” para o processo legislativo. A ausência de oposição e de opiniões diferentes significa que o questionamento sobre a governação foi amplamente eliminado, deixando uma série de contradições sociais profundas e problemas para o Governo da RAEM resolver.

O Governo da RAEM não é cego em relação à gravidade dos problemas existentes. Após o encerramento dos casinos-satélite, foram desenvolvidas actividades para apoiar os comerciantes da vizinhança desses casinos. Os “Autocarros de Turismo e Lazer” foram introduzidos para revigorar os bairros antigos; e está a decorrer uma nova ronda do “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias” para estimular o consumo. Infelizmente, a eficácia destas iniciativas é limitada.

Consequentemente, os responsáveis das instituições do Governo Popular Central estabelecidas em Macau aproveitaram a oportunidade durante as sessões de divulgação do espírito das “Duas Sessões” da Assembleia Popular Nacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês para os trabalhadores dos serviços públicos de diferentes níveis para propor “sete melhoramentos” para estes funcionários. Lamentavelmente, desde a demissão de Tai Kin Ip, Secretário para a Economia e Finanças, no passado dia 16 de Abril, falta à RAEM um líder no campo económico, o que implica que parte de tarefas importantes desta área passassem a ser da responsabilidade do Chefe do Executivo, o que se torna bastante exaustivo para ele.

O contrabando de 51 quilos de lancheiras para Macau, embora não represente uma soma elevada, ilustra bem a disparidade entre Hengqin e Macau. “A comida é a primeira necessidade do povo”. Quando os cidadãos enfrentam dificuldades para se sustentarem, a segurança alimentar, a segurança económica, a segurança social e mesmo a segurança política serão postas em causa. Se as exigências de “combate à corrupção, protecção dos meios de subsistência das pessoas, redução do número de trabalhadores não residentes, eliminação de trabalhadores ilegais, garantia de uma vida estável, promoção da reunificação familiar e construção de uma comunidade harmoniosa” foram satisfeitas, então a ausência de protestos ou manifestações no Dia Internacional dos Trabalhadores será definitivamente algo positivo.

8 Mai 2026

A incerteza das previsões meteorológicas

Por mais que se progrida na eficiência dos modelos físico-matemáticos e no aumento do poder de cálculo dos meios computacionais, nunca se poderá prever o tempo com grande grau de acerto para além de cerca de duas semanas, atendendo a que a atmosfera é um meio não estático, em que os movimentos que nela ocorrem, impulsionados pela radiação solar e pela rotação da Terra, fazem com que as equações que os descrevem não sejam lineares, o que implica que as previsões percam gradualmente fiabilidade. Os resultados dos modelos de previsão do tempo são muito sensíveis ao grau de exatidão dos dados que caracterizam o estado da atmosfera a partir do qual se procede à previsão.

Uma pequena alteração dos dados iniciais, como o arredondamento do valor da temperatura do ar, ou do valor da pressão atmosférica, pode implicar alterações das previsões de maneira tanto mais significativa quanto maior for o período abrangido pela previsão. Teoricamente, uma pequena alteração na atmosfera num ponto do globo pode desencadear um fenómeno meteorológico significativo num local distante, umas semanas depois. Foi com base nesta premissa que ficou célebre a questão que Edward Lorentz1 levantou, metaforicamente: “Será que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas?”)2.

Nas últimas décadas, os progressos na área da previsão do tempo foram essencialmente consequência do incremento do poder de cálculo dos computadores e do avanço da tecnologia associada aos satélites meteorológicos. Até à década de setenta e meados da década de oitenta do século passado as cartas meteorológicas de superfície e de altitude eram traçadas manualmente. Recorrendo à sequência dessas cartas, estudava-se a evolução dos fenómenos meteorológicos e procedia-se à sua extrapolação, com base na experiência e sensibilidade dos meteorologistas. Havia, portanto, uma certa subjetividade na previsão. As previsões abrangiam apenas um período de 24 horas e, quanto muito, de maneira menos detalhada, de 48 horas.

Entretanto, os modelos foram aperfeiçoados e o poder de cálculo foi aumentando. As cartas passaram a ser marcadas e traçadas automaticamente, o que permitiu a redução das equipas que trabalhavam por turnos durante 24 horas. Os meteorologistas operacionais deixaram praticamente de ser “fazedores” para passarem “interpretadores” dos produtos obtidos por meios computacionais.

Embora as primeiras previsões com recurso a computadores se tivessem iniciado em 1950, ainda não era possível recorrer, na década de 1960 e início da década de 1970, a computadores, pela simples razão de que o poder de cálculo não era suficiente para que os resultados fossem úteis em tempo real.

O primeiro satélite meteorológico, TIROS 1 (“Television Infrared Observation Satellite”)3 foi lançado em 1 de abril de 1960 e as imagens por ele obtidas serviam de base para a elaboração de “nephanalysis”, que consistiam em representações gráficas elaboradas manualmente nos Centros Meteorológicos Mundiais (Washington, Moscovo e Melbourne) da Organização Meteorológica Mundial (OMM), e distribuídas pelos centros meteorológicos nacionais. Estas cartas, que constituíram uma ferramenta muito útil entre 1960 e 1980, continham informação sobre nuvens e o tempo associado aos vários sistemas sinóticos (frentes, depressões, anticiclones, vales, cristas, etc.). À medida que a tecnologia foi avançando, as “nephanalysis” foram-se tornando obsoletas e, a partir do fim da década de oitenta, passaram progressivamente a ser substituídas por imagens de satélites de alta resolução, em tempo real.

Devido ao progresso tecnológico, o grau de acerto das previsões e o seu período de validade foram aumentando consideravelmente. No entanto, a fiabilidade das previsões depende também de outros fatores, entre os quais do período para o qual a previsão é feita, da região do globo, e da complexidade da situação meteorológica. No que se refere à escala temporal, segundo a OMM, as previsões podem ser a curto prazo, até 3 dias; a médio prazo, de 3 a 10 dias; e a longo prazo, abarcando semanas, meses ou estações do ano. Há ainda a considerar a previsão a muito curto prazo, até 12 horas, e a designada internacionalmente por “nowcasting”, até 6 horas.

A fiabilidade depende também das regiões do globo. Assim, por exemplo, as previsões são suscetíveis de terem maior grau de acerto nas latitudes médias e altas. Isto deve-se a que, nestas regiões, o tempo está geralmente associado a sistemas de grande escala, como frentes e depressões extratropicais, que se deslocam de maneira relativamente regular, o que permite prever o seu deslocamento com a antecedência de vários dias, por vezes uma semana ou mais. Nas regiões tropicais e equatoriais a densidade dos dados é menor, o que se pode refletir na qualidade das previsões.

Além disso, o tempo está geralmente associado a fenómenos mais localizados, gerados por convecção, ou seja, à subida do ar que, aquecido devido ao contacto com a superfície, sobe e transporta calor. Vai arrefecendo durante este processo, o que provoca a condensação do vapor de água, originando sistemas nebulosos, frequentemente formados por nuvens de desenvolvimento vertical (cúmulos e cumulonimbos) que, por sua vez, dão origem a precipitação forte, acompanhada frequentemente por trovoadas.

O grau de acerto depende também da situação meteorológica. Assim, a fiabilidade é maior se a situação for altamente estável, como, por exemplo, caracterizada por um vasto anticiclone que sirva de bloqueio ao avanço de superfícies frontais e depressões.

Os avanços no poder de cálculo dos meios computacionais, na tecnologia associada aos satélites meteorológicos e às telecomunicações permitiram dar grande impulso ao grau de acerto das previsões e ao alargamento dos seus períodos de validade. Atualmente o grau de acerto para um período de 1 a 3 dias varia de cerca de 80% a 90% e, de 4 a 7 dias de 70% a 80%. O progresso tem sido de tal maneira que é senso comum, nos meios meteorológicos, que a fiabilidade atual das previsões para 5 dias é sensivelmente a mesma das que eram feitas, há 20 anos, para apenas 2 dias.

Enquanto as previsões a curto e médio prazo são deterministas, ou seja, que a partir do conhecimento do estado da atmosfera num determinado momento é possível, durante alguns dias, prever o tempo num determinado local, dia ou hora, as previsões a longo prazo são probabilísticas e limitam-se a dar a probabilidade de ocorrerem determinadas situações face aos valores médios como, por exemplo, se a temperatura no próximo verão estará abaixo, dentro ou acima da média, ou se o próximo inverno será mais ou menos chuvoso do que o normal.

Em resumo, pode-se afirmar que as previsões meteorológicas têm melhorado ao longo do tempo, não só em termos de fiabilidade, mas também no que se refere ao período de validade. Não tenhamos, no entanto, ilusões. Por mais que o poder de cálculo dos computadores aumente e se progrida no aperfeiçoamento dos modelos físico-matemáticos de previsão, nunca será possível prever com rigor o tempo que fará num determinado local, num determinado dia, a uma determinada hora, com uma antecedência superior a cerca de duas semanas. E isto porque a atmosfera é um sistema caótico.

Referências

Edward Lorenz (1917 – 2008): Meteorologista e matemático. Foi um dos fundadores da moderna teoria do caos, que consiste num ramo da matemática que estuda o comportamento de sistemas dinâmicos altamente sensíveis às condições iniciais.

“Predictability: does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas?” – Título da palestra apresentada por Edward Lorenz, em Washington D.C., em 1972.

Em português: Satélite de Observação por Televisão e Infravermelho.

8 Mai 2026

O Ocidente desfeito (I)

“When empires grow uncertain of themselves, their allies become the first to feel the tremor.” – Julian Hartwell

A política internacional entrou numa fase em que muitos governos europeus começam a admitir, ainda que apenas em privado, que a principal ameaça à sua segurança pode não vir apenas da Rússia, mas também dos Estados Unidos ou até da relação ambígua entre ambos. A percepção de que o “guarda-chuva” americano não protege como antes, espalha inquietação pelas capitais europeias, que receiam ser apanhadas no choque entre Washington e Moscovo. O que antes pareceria argumento para uma série televisiva tornou-se, em 2026, uma metáfora plausível da realidade.

O equilíbrio global está a deslocar-se rapidamente. A guerra na Ucrânia expôs fragilidades profundas no Ocidente e acelerou a redistribuição de poder. A nível estratégico, os Estados Unidos perderam capacidade de dissuasão; a Rússia, apesar dos custos enormes, conseguiu resistir; e a China emergiu como a grande beneficiária, expandindo influência na Ásia Central, no Árctico e no IndoPacífico. A Europa, por seu lado, afunda-se numa crise de identidade e liderança.

Os Estados Unidos enfrentam contestação interna e externa com aliados que não confiam plenamente, adversários que testam limites e uma opinião pública que não compreende nem apoia compromissos longínquos. A Rússia, embora desgastada, transformou a guerra num confronto directo com o Ocidente, apresentando-se internamente como resistente a uma agressão externa. Mas, ao fazê-lo, tornou-se ainda mais dependente da China, que aproveita o enfraquecimento russo para consolidar ambições regionais e globais. O Japão, Coreia do Sul, Índia e outros parceiros asiáticos dos Estados Unidos percebem que terão de reforçar a sua autonomia estratégica.

Na Europa, a situação é ainda mais delicada. Washington transfere para os europeus a responsabilidade política e financeira de uma guerra que não controla totalmente. Os europeus, divididos e sem capacidade militar, oscilam entre declarações grandiosas e impotência prática. A antiga lógica da NATO com americanos dentro, russos fora e alemães contidos está a inverter-se. Os Estados Unidos retraem-se, a Rússia consolida posições no Donbass e na Crimeia, e a Europa paga a factura sem conseguir influenciar o rumo dos acontecimentos.

Israel, tradicional pilar ocidental no Médio Oriente, vive uma crise interna profunda, marcada por polarização política, erosão institucional e perda de margem diplomática. A ligação estratégica aos Estados Unidos mantémse, mas não é incondicional.

A Ucrânia, por sua vez, é a grande derrotada. Perdeu território, população, capacidade industrial e autonomia política. A dependência do apoio ocidental fragmentado, tardio e muitas vezes contraditório deixou Kiev vulnerável a pressões externas, incluindo de Washington, que procura garantir acesso a recursos estratégicos ucranianos. A diferença entre promessas e acções tornou-se evidente para os ucranianos, que enfrentam o risco de perder não apenas a guerra, mas o próprio projecto nacional.

O caminho que conduziu a este cenário começou antes de 2022, mas a invasão russa foi o ponto de ruptura. Moscovo acreditou que tinha garantias implícitas de que uma operação limitada seria tolerada. Washington, após o fracasso inicial russo, decidiu transformar o conflito numa oportunidade para enfraquecer o Kremlin. O resultado foi uma guerra prolongada, que expôs fissuras profundas no Ocidente e aproximou, paradoxalmente, russos e americanos na necessidade de evitar um confronto directo entre potências nucleares deixando a Ucrânia como campo de batalha indirecto.

A Europa confronta-se com a erosão da NATO, a incerteza estratégica americana e a ascensão chinesa. O continente, incapaz de definir uma política externa coerente, reage mais do que age. A fragmentação interna aprofunda-se, e a ideia de uma Europa unida revela-se cada vez mais ilusória.

A relação transatlântica sempre funcionou com graus diferentes de compromisso, apesar da retórica de unidade. Para Washington, a ligação com cada país europeu nunca teve o mesmo peso pois não era possível tratar capitais pequenas dos Balcãs ou do Báltico como se fossem Londres, Paris ou Berlim. Ainda assim, muitos europeus continuaram a invocar o artigo 5.º da NATO como se fosse uma garantia automática e universal, chegando mesmo a sugerir a sua aplicação simbólica à Ucrânia, apesar de esta nunca ter sido membro da Aliança.

Os Estados Unidos podem ser criticados ou admirados, mas não são ingénuos. Os europeus também não o são embora, por vezes, pareçam empenhados em representar esse papel. O risco é que a encenação se transforme em crença, o que é mais perigoso do que qualquer propaganda externa.

A actual estratégia americana procura afastar-se de compromissos excessivos, evitando admitir perante o mundo e o seu eleitorado que não conseguiu alcançar os objectivos pretendidos em conflitos prolongados desde 1945. Ao mesmo tempo, Washington deixa claro que a Rússia não é a União Soviética, nem a versão hipertrofiada que durante décadas serviu para manter coesa a frente ocidental. Paradoxalmente, alguns analistas nos Estados Unidos começam a perguntar-se se o seu país não se encontra numa fase semelhante à dos últimos anos soviéticos.

Apesar dos alertas de várias capitais europeias sobre uma suposta ameaça russa iminente, a Federação Russa não corresponde ao perfil de superpotência capaz de dominar a Eurásia e projectar poder global de forma decisiva. Essa imagem, repetida durante décadas, nunca encontrou confirmação prática.

A ideia de que a actual política externa americana resulta apenas de impulsos individuais é ilusória. A abordagem presidencial segue uma lógica mais consistente do que parece pois tratar Moscovo não como um inimigo irracional, mas como um actor com o qual é possível negociar, mesmo que de forma dura. Se é necessário apresentar uma vitória política num conflito que não foi vencido, então a solução passa por transformar o adversário num parceiro circunstancial.

Cansados do papel de potência indispensável, os Estados Unidos descarregam frustração sobre os aliados, acusando europeus e canadianos de dependência excessiva. Esta visão ganhou força em Washington, onde figuras influentes descrevem a Europa como um fardo estratégico. A NATO, embora formalmente intacta, perdeu substância política pois mantém estruturas, tropas e armamento, mas carece de direcção e propósito comum. Como acontece em relações que se mantêm apenas por hábito, o vínculo pode durar, mas sem alma.

Na Europa, esta transformação provoca reacções contraditórias. Alguns países tentam manter todas as opções abertas, acreditando que podem beneficiar de uma ambiguidade calculada. Outros celebram o declínio do atlantismo, convencidos de que isso lhes concede margem para relações simultâneas com Washington, Moscovo e até Pequim, caso o clima internacional evolua nesse sentido.

Apesar das tensões, nenhuma das grandes potências como os Estados Unidos, Rússia ou China deseja um confronto directo. Todas enfrentam limitações internas e reconhecem que uma guerra global seria autodestrutiva. O momento exige contenção, redução da retórica e abertura de canais de comunicação. A rivalidade continuará, mas com necessidade de pausa estratégica.

Há, contudo, um mérito a reconhecer na atitude americana pois obriga os europeus a confrontarem a realidade. A distância entre discurso e factos tornou-se insustentável. A mudança política nos Estados Unidos tem impacto global e força todos os actores a rever posições. A administração americana, movida por interesses próprios, admite agora que não possui capacidade industrial, militar e social para sustentar conflitos simultâneos contra grandes potências. A indústria de defesa enfrenta falhas graves, desde produção insuficiente de munições até dificuldades no recrutamento militar. O próprio Pentágono reconhece que o país não está preparado para uma guerra de larga escala.

Deste diagnóstico emergem quatro conclusões essenciais. Primeiro a de que os Estados Unidos perceberam que a hegemonia global ultrapassa os seus recursos. Segundo de que a liderança americana considera que abdicar dessa hegemonia é condição para recuperar força interna. Terceiro de que a competição com a China deve ser intensa, mas controlada, evitando que Pequim consolide a Rússia como aliado estratégico permanente. Quarto de que começa a desenhar-se uma reconfiguração global inspirada em equilíbrios históricos, uma espécie de entendimento triangular entre Estados Unidos, China e Rússia, onde Washington e Pequim disputam a primazia e Moscovo ocupa uma posição secundária, mas ainda relevante.

A ambição de algumas potências em recriar grandes acordos globais lembra, por analogia, as conferências que no passado redesenharam o mundo. No entanto, no cenário actual, a Europa não passaria de participante secundária, arrastada pelas decisões das três forças dominantes. Muitos líderes europeus continuam a desejar que os Estados Unidos assumam o papel de árbitro supremo, enquanto o chamado “Sul Global” observa com ironia e distanciamento, consciente de que o seu peso colectivo cresce à medida que o Ocidente se fragmenta.

Na lógica política que prevalece em Washington, os europeus não são vistos como aliados naturais, mas como elementos periféricos que podem influenciar o equilíbrio entre Estados Unidos, China e Rússia. Para a liderança americana, a Europa é útil se aceitar um papel subordinado no novo arranjo internacional; torna-se problemática se procurar autonomia estratégica ou se aproximar demasiado de Pequim ou Moscovo.

O século XXI não parece destinado a produzir uma Europa capaz de rivalizar com as grandes potências. A perda de influência acumulada ao longo de décadas transformou o continente num actor com marca desvalorizada. Daí a crítica, cada vez mais audível nos Estados Unidos, de que a insegurança europeia resulta mais das suas contradições do que de ameaças externas. Para Moscovo, os europeus são instrumentos de Washington; para Washington, o essencial é impedir que a Europa se torne um activo estratégico para a China. Neste contexto, o discurso europeu sobre “rearmamento” soa muitas vezes a ilusão pois não reforça a defesa do continente, mas contribui para aliviar pressões sobre o orçamento americano e, paradoxalmente, pode até alimentar divisões internas.

Durante oitenta anos, a protecção americana evitou que a Europa regressasse aos conflitos que marcaram cinco séculos de rivalidades internas. Nada garante que, deixados a si próprios, os europeus resistam à tentação de repetir erros antigos. O receio de que Washington e Moscovo possam chegar a um entendimento sobre a Ucrânia como um acordo que seria apresentado como paz, mas que deixaria a Europa a pagar o preço explica o súbito fervor militarista de Berlim, Varsóvia e Paris. Roma hesita, e muitos outros países estão simplesmente fora do jogo. Apoiar a resistência ucraniana tornou-se, para alguns governos, uma forma de impedir um acordo russoamericano que os deixaria marginalizados.

7 Mai 2026

Responsabilidade limitada vs Responsabilidade ilimitada (I)

No Reino Unido, a responsabilidade limitada foi estabelecida pela Lei das Sociedades Empresariais de 1860. Os accionistas de uma sociedade de responsabilidade limitada beneficiam desta protecção desde que a empresa opere legalmente. O montante da dívida da empresa não é responsabilidade dos accionistas. Esta disposição legal foi formalmente reconfirmada na Câmara dos Lordes devido ao caso Solomon, em 1897.

E quanto às empresas em nome individual? Nas leis comerciais de alguns países ou regiões, a empresa em nome individual pode beneficiar de protecção de responsabilidade limitada, desde que opere legalmente. No entanto, se algumas leis comerciais dispuserem em contrário, uma empresa em nome individual incorre em responsabilidade ilimitada. Ou seja, nas operações empresariais, caso haja uma dívida de um milhão de dólares, a empresa é responsável por essa dívida. Legalmente, a dívida permanece em aberto até ser totalmente paga.

Se a legislação desses países ou regiões também incluir a lei de falências, a situação é diferente. Os empresários individuais podem passar por processos formais de falência, ser declarados insolventes pelo tribunal, libertando-se assim da dívida. Isto pode ser considerado uma forma legal de evitar dívidas, pelo que os credores não serão ressarcidos.

Porque é que existem as leis de falência? A razão mais importante é proporcionar uma oportunidade para que indivíduos em dificuldades possam recuperar do ponto de vista financeiro no futuro. Se esta lei for usada levianamente como forma de evasão às dívidas, estamos perante um procedimento malicioso e desonesto.

Recentemente, os meios de comunicação da China continental noticiaram a história de Chen Jinying, de 96 anos, conhecida como “a Avó Honesta da China”, um modelo de honestidade e fiabilidade digno de servir de exemplo.

A sua história começou em 1984 quando, aos 53 anos, Chen se reformou de um emprego estável na função pública e não hesitou em usar a sua pensão de reforma de 3.000 remimbis para alugar uma casa em Lishui e fundar a Fábrica Xinghua Down. Graças à excelente qualidade dos produtos, os seus casacos de plumas ganharam uma enorme reputação e passaram a ser vendidos no estrangeiro. No seu auge, o valor anual de produção da empresa atingia dezenas de milhões de dólares, tornando-se um modelo do empreendedorismo local.

No entanto, o mundo dos negócios é sempre imprevisível. Em 2011, com 80 anos, Chen aproveitou a oportunidade de expandir a indústria e investiu mais de 16 milhões de dólares na construção de novas fábricas e na modernização de equipamentos de produção. Infelizmente, as previsões de mercado falharam, os canais de comércio electrónico dispararam e as flutuações económicas globais agravaram a crise, fazendo com que o fluxo de caixa da empresa colapsasse instantaneamente, deixando-a sobrecarregada com uma enorme dívida de 20,77 milhões de dólares da noite para o dia.

Neste momento crítico, Chen poderia legalmente ter pedido falência, usando o sistema de responsabilidade limitada para proteger os seus bens pessoais. Mas não o fez. Ela assumiu resolutamente toda a responsabilidade e pagou a dívida. Primeiro vendeu a fábrica recém-construída por 9 milhões (abaixo do valor do mercado), e ainda duas das suas residências na cidade. Mesmo depois de vender esses valiosos activos, ainda tinha 2,77 milhões em dívida, a maioria dos quais consistia em empréstimos de familiares, amigos e vizinhos — que se sentia obrigada a pagar.

De 2012 a 2021, Chen embarcou numa segunda aventura e numa missão para pagar as suas dívidas. Reuniu alguns antigos funcionários, alugou uma casa simples como pequena oficina e usou mais de 20.000 casacos de plumas armazenados em armazém como capital para começar do zero, com apenas um objectivo: pagar a dívida de 2,77 milhões. É de salientar que esta tarefa era extremamente árdua para uma octogenária.

Chen geria a pequena loja de rua e também empurrava um triciclo pelas ruas e mercados, enfrentando o frio e o calor, fizesse chuva ou fizesse sol, vendendo casacos de plumas um a um, poupando cada cêntimo para pagar as dívidas. Não se evadiu às responsabilidades, não traiu e não arranjou desculpas. Embora tivesse empobrecido, mantinha a simples crença de que “pagar dívidas é algo natural.” A 5 de Fevereiro de 2021, com 91 anos, pagou a última dívida de 70.000 renminbis, libertando-se finalmente do fardo que lhe pesara no coração durante dez anos. Agora, aos 96 anos, vive uma vida simples e pacífica, com o seu livro de contas cheio de honestidade e integridade.

Dez anos de dificuldades e esforço para pagar as suas dívidas permitiram a Chen transcender os limites da isenção legal, erguendo um monumento moral simples, mas profundamente comovente. A sua história não é apenas a história emocionante de um modelo positivo, mas também um espelho discreto que reflecte o profundo choque, tensão e simbiose entre a ética tradicional e as regras empresariais modernas. Na próxima semana, continuamos a nossa análise da história de Chen.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

5 Mai 2026

Montenegro, o maior das promessas

Recordam-se que a série de tempestades aconteceu há mais de três meses. As zonas de Leiria e Marinha Grande foram as mais afectadas. O governo de Montenegro prometeu de imediato que as indemnizações às vítimas que ficaram sem nada seriam uma prioridade. Ainda hoje temos gente sem telhado, pior, sem casa e que receberam uns míseros cinco mil euros.

Nos últimos tempos, Montenegro tem prometido este mundo e o outro. Afirma que Portugal está melhor. Mas, centenas de portugueses já pararam o carro devido ao aumento do preço dos combustíveis e o povinho vai ao supermercado comprar o mínimo indispensável para viver. O custo de vida aumenta todas as semanas. A inflação sobe. Há reformados que já não compram os medicamentos, mas o chefe do Executivo tem sempre na ponta da língua que aumenta as reformas. Isto, quando existem portugueses com reformas de 150, 250 e 350 euros.

As promessas são quinzenais e algumas vão até 2030. Quando o Governo vai a debate na Assembleia da República lá ouvimos uma catadupa de promessas. Na semana passada foi demais. Montenegro, na qualidade de primeiro-ministro, tem focado as suas promessas na estabilização económica, apoio ao custo de vida e reformas estruturais. Cantigas leva-as o vento e, se não, vejamos. Montenegro tem defendido uma reforma laboral, procurando um acordo, apesar das tensões com parceiros sociais como a UGT. No entanto, a central sindical CGTP já marcou uma greve geral para Junho contra o pacote laboral e a UGT adiantou que poderá aderir à greve geral.

Anunciou uma linha de apoio de 600 milhões de euros para empresas com elevados custos de energia, mas ainda na quarta-feira passada os dirigentes das pequenas e médias empresas vieram a público afirmar que não aguentam a actual situação, especialmente o aumento do custo da energia. Há muito tempo que Montenegro anunciou a aprovação de novas medidas para combater o aumento do custo de vida e o preço dos combustíveis. É só irmos ao supermercado e verificar o aumento do custo de produtos como leite, pão e fruta e o preço dos combustíveis aumenta quase todos os dias, mesmo quando o preço de petróleo baixou em face do cessar fogo no Irão. No último debate quinzenal no Parlamento, lá veio o Ventura tentar ganhar mais uns votos, porque aproveitando-se das falsas promessas de Montenegro, acusou o Governo de “ineficácia absoluta”. É assim que o populismo ganha votos. A ineficácia resulta de prometer e de nada acontecer em benefício do povo.

Nas hostes social-democratas aplaude-se de pé Montenegro. Ele é o maior, o mais inteligente, o mais empreendedor, o mais resoluto, mas não é capaz de prometer que irá reformular o acordo da Base das Lajes com os americanos, antes que o Irão se lembre de enviar um drone contra Lisboa… As promessas são mais que muitas. O povo está cansado de ouvir Montenegro prometer e nada viabilizar para uma melhor qualidade de vida. Os reformados de miséria já nem querem ouvir falar em Montenegro e dizem que nunca mais irão votar num governo deste calibre.

O chefe do Governo inventou um nome pomposo para as promessas. Imaginem que apareceu com o Programa de Recuperação e Resiliência Português (PTRR). Houve deputados na casa da democracia que se riram de tanta promessa para as calendas, tais como o apoio à reconstrução dos malefícios das tempestades, às infraestruturas rodoviárias, ferroviárias, ao abastecimento de energia eléctrica, de água e melhoria nos serviços públicos.

Obviamente que a incongruência tinha de enfrentar a oposição parlamentar. O Governo tem falado na verba de 2,5 mil milhões de euros para dar resposta às necessidades das famílias, das empresas e das autarquias mais afectadas nas tempestades. Mas, ao mesmo tempo, anuncia que ainda não tem disponível o dossiê de levantamento das necessidades para solicitar o fundo de Solidariedade europeu. Esta incongruência foi naturalmente explorada e não escapou aos partidos da oposição durante o debate parlamentar. Como tudo isto parece um circo, os palhaços podem continuar em cena…

4 Mai 2026

Não é só crude

“When a single chokepoint falters, the entire architecture of global interdependence reveals its fragility.” A. R. Caldwell

A Terceira guerra do Golfo, desencadeada pelo ataque israeloamericano de 28 de Fevereiro de 2026, reconfigurou de forma abrupta a geografia económica e estratégica do Médio Oriente. A resposta da República Islâmica do Irão, centrada na interrupção selectiva do tráfego no Estreito de Hormuz, devolveu ao mundo a consciência de que a globalização energética nunca eliminou os pontos de estrangulamento. Apenas os tornou mais críticos.

A estreita passagem de 33 quilómetros, cuja navegabilidade efectiva se reduz a duas faixas de cerca de 3,5 quilómetros cada, voltou a ser o epicentro de uma vulnerabilidade estrutural que transcende o petróleo. O bloqueio parcial, reforçado por ataques a navios, drones marítimos e minas de contacto, expôs a dependência global não apenas de hidrocarbonetos, mas de um vasto conjunto de bens industriais cuja origem permanece concentrada no Golfo.

A narrativa dominante tende a reduzir Hormuz a uma artéria petrolífera. Contudo, a realidade de 2026 demonstra que o impacto do seu encerramento é muito mais vasto. A região exporta fertilizantes essenciais para a agricultura mundial, polietilenos e polipropilenos que alimentam cadeias industriais inteiras, alumínio produzido com energia barata, amónia, metanol, aditivos químicos, materiais de construção e componentes para a indústria electrónica. A interrupção simultânea das rotas aéreas como consequência da militarização do espaço aéreo iraniano e do risco de intercepção agravou a ruptura logística. A Europa e Ásia ressentem-se de forma imediata, mas os Estados Unidos, apesar da sua relativa autonomia energética, não escapam aos efeitos sistémicos. A interdependência global revela-se, mais uma vez, uma força que amplifica choques regionais.

A economia mundial habituou-se a considerar o petróleo como o principal elo de dependência em relação ao Golfo. Essa percepção, embora parcialmente correcta, é incompleta. Desde a década de 2010, os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo investiram massivamente na diversificação das suas exportações industriais. O Qatar tornou-se um dos maiores produtores de fertilizantes nitrogenados; a Arábia Saudita consolidou-se como gigante petroquímico; os Emirados Árabes Unidos emergiram como exportadores de alumínio primário; Omã especializou-se em derivados químicos e materiais de construção. Esta transformação criou uma teia de fluxos comerciais que, embora menos visíveis do que o petróleo, são igualmente vitais.

O encerramento de Hormuz interrompeu cerca de 40% do comércio global de fertilizantes nitrogenados e fosfatados provenientes do Golfo. Países dependentes de importações como a Índia, Bangladesh, Egipto e várias nações africanas enfrentam agora aumentos abruptos nos custos de produção agrícola. A escassez de ureia e amónia repercute-se directamente nos preços dos alimentos, ampliando o risco de instabilidade social em regiões vulneráveis. A fome deixa de ser uma ameaça abstracta e transforma-se numa possibilidade concreta para milhões de pessoas.

No sector petroquímico, a paralisação das exportações de polietileno e polipropileno afecta indústrias tão diversas como embalagens, automóveis, têxteis técnicos, dispositivos médicos e electrónica de consumo. A Europa, que importa mais de metade dos seus polímeros do Golfo, enfrenta uma crise industrial que se manifesta na suspensão de linhas de produção e na escassez de componentes. A Ásia, embora disponha de capacidade produtiva, depende de matérias-primas do Golfo para manter os seus complexos industriais a funcionar. A interrupção prolongada ameaça provocar um efeito dominó que se estende desde fábricas de automóveis até empresas de tecnologia.

O alumínio, cuja produção no Golfo beneficia de energia barata e abundante, é outro sector crítico. A sua ausência afecta a indústria aeronáutica, construção civil, produção de cabos eléctricos e fabricação de baterias. A Europa, pressionada pela crise energética de 2022-2023, vê-se novamente confrontada com a necessidade de importar alumínio de mercados mais distantes e mais caros, como a Austrália e Canadá.

A militarização do espaço aéreo iraniano e a presença constante de sistemas antiaéreos, drones e aeronaves de combate transformaram o Golfo numa zona de exclusão aérea de facto. As principais companhias internacionais suspenderam voos sobre o Irão, Iraque e partes do Golfo Pérsico. As rotas entre a Europa e a Ásia, tradicionalmente optimizadas para reduzir custos e tempo de viagem, foram desviadas para corredores mais longos sobre o Cáucaso, Mediterrâneo Oriental ou Mar Vermelho.

Este desvio tem consequências económicas significativas. O aumento do tempo de voo implica maior consumo de combustível, custos operacionais mais elevados e redução da capacidade de carga. As cadeias logísticas que dependem de transporte aéreo como componentes electrónicos, produtos farmacêuticos, bens perecíveis e peças de alta precisão enfrentam atrasos e rupturas. A Ásia Oriental, cuja economia se apoia em fluxos rápidos e previsíveis, é particularmente afectada. A Europa, por sua vez, vê agravada a sua dependência de rotas alternativas congestionadas.

A aviação comercial, ainda em recuperação após a pandemia e as crises energéticas subsequentes, enfrenta agora um choque estrutural que ameaça reconfigurar permanentemente as redes globais de transporte. A conectividade entre continentes torna-se mais cara, lenta e vulnerável a interrupções.

A crise não afecta todos os actores da mesma forma. Alguns países e sectores encontram oportunidades inesperadas, enquanto outros enfrentam riscos existenciais. A Rússia surge como um dos principais beneficiários. Com o bloqueio de Hormuz, o petróleo russo torna-se uma alternativa indispensável para a Europa e partes da Ásia. A sua capacidade de exportar através do Árctico e do Báltico, relativamente isolada das tensões no Médio Oriente, confere-lhe uma vantagem estratégica. A Índia, que havia reforçado a sua parceria energética com Moscovo, intensifica as importações de crude russo, beneficiando de preços preferenciais.

Os Estados Unidos, embora menos dependentes do petróleo do Golfo, não escapam aos efeitos da crise. A sua indústria petroquímica, integrada em cadeias globais, sofre com a escassez de matérias-primas provenientes do Médio Oriente. O aumento dos preços globais de fertilizantes afecta a agricultura americana, elevando os custos de produção e pressionando os preços internos dos alimentos. A economia americana, apesar da sua resiliência, sente o impacto da volatilidade global.

No actual ambiente internacional, marcado por elevada incerteza e transformações profundas na ordem económica global, a China enfrenta um conjunto de decisões estratégicas que exigem equilíbrio, visão de longo prazo e capacidade de adaptação. A manutenção de um fornecimento energético estável proveniente da região do Golfo continua a ser um elemento estruturante para o desenvolvimento económico nacional, razão pela qual Pequim tem reforçado a sua participação construtiva no Oceano Índico e aprofundado mecanismos de cooperação com parceiros essenciais, como a Arábia Saudita e o Qatar. Estas iniciativas inseremse numa abordagem orientada para a diversificação das fontes de abastecimento e para a promoção de um ambiente regional pacífico e previsível. Contudo, a persistência da instabilidade no Médio Oriente introduz factores de risco que podem influenciar o planeamento estratégico da China, exigindo ajustamentos graduais e uma avaliação contínua das dinâmicas regionais, de forma a salvaguardar a segurança energética e a continuidade do desenvolvimento nacional.

Os países mais vulneráveis são, inevitavelmente, os que dependem de importações de alimentos e fertilizantes. Nações africanas com fraca capacidade de armazenamento e limitada autonomia agrícola enfrentam um risco real de insegurança alimentar. A interrupção das exportações do Golfo agrava desigualdades estruturais e expõe a fragilidade de sistemas agrícolas dependentes de matérias‑primas externas.

O encerramento de Hormuz não é apenas um episódio militar. É um teste à capacidade do sistema internacional de lidar com a escassez. A globalização, construída sobre a premissa de fluxos contínuos e previsíveis, revela-se vulnerável a choques localizados. A concentração de produção em regiões politicamente instáveis torna-se um risco sistémico.

A crise de 2026 demonstra que a segurança energética não pode ser dissociada da segurança alimentar, industrial e logística. O petróleo é apenas a face mais visível de uma dependência muito mais profunda. A interrupção de fertilizantes afecta colheitas; a escassez de polímeros paralisa fábricas; a falta de alumínio compromete sectores estratégicos e o colapso das rotas aéreas fragmenta a conectividade global.

A resposta internacional permanece fragmentada. A União Europeia debate-se entre a necessidade de diversificar fornecedores e a dificuldade de substituir rapidamente os produtos do Golfo. A Ásia procura soluções regionais, mas enfrenta limitações estruturais. Os Estados Unidos tentam equilibrar a sua intervenção militar com a necessidade de evitar uma escalada que comprometa ainda mais o comércio global.

Em suma, a crise desencadeada em 2026 revela que o Golfo não é apenas um reservatório de petróleo. É um nó vital de cadeias industriais, agrícolas e logísticas que sustentam a economia mundial. O encerramento de Hormuz expõe a ilusão de que a globalização eliminou a geografia. Pelo contrário, concentrou a vulnerabilidade em poucos pontos críticos.

O que falta ao mundo quando o Golfo fecha não é apenas energia. Falta fertilidade aos campos, matéria-prima às fábricas, conectividade aos mercados, estabilidade aos preços e previsibilidade às economias. Falta, sobretudo, a consciência de que a interdependência global exige redundância, diversificação e resiliência que são elementos que foram negligenciados durante décadas de confiança excessiva na eficiência das cadeias de abastecimento.

A guerra de 2026 não é apenas um conflito regional. É um aviso estrutural. O mundo descobre, tarde demais, que a segurança global depende de muito mais do que petróleo. Depende da capacidade de antecipar, distribuir e proteger os fluxos que tornam possível a vida moderna.

30 Abr 2026